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Universidade Estadual de Maringá

PROPAZ – Programa de Justiça Restaurativa e Cultura da Paz


Central de Prática Restaurativa

CÍRCULO DE JUSTIÇA RESTAURATIVA E DE CONSTRUÇÃO DE PAZ


KAY PRANIS1

ELEMENTOS ESSENCIAIS/ESTRUTURAIS

1. Acolhimento
2. Boas-vindas, agradecimentos
3. Atenção plena - mindfulness
4. Cerimônia de abertura
5. Explicação da peça central e do objeto da palavra
6. Objetivo do círculo
7. Apresentações e check-in
8. Valores/diretrizes/compromisso
9. Atividade principal
10. Check-out
11. Agradecimentos
12. Cerimônia de encerramento

1PRANIS, Kay. Círculos de justiça restaurativa e de construção de paz: guia do facilitador. Trad. Fátima De
Bastiani. Porto Alegre: TJRS. Departamento de Artes Gráficas. 2011.

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Segundo Kay Pranis (2011, p. 9), “o círculo é um processo de diálogo que trabalha
intencionalmente na criação de um espaço seguro para discutir problemas difíceis ou
dolorosos, a fim de melhorar os relacionamentos e resolver diferenças.

Ressalta, a autora, que:

Geometria é importante! É de suma importância que todos se sentem em


círculo. Este arranjo permite que todos se enxerguem [...] cria um senso
de foco em uma preocupação que é comum a todos, sem criar a
sensação de “lados” ou de tomar partido [...] enfatiza a ideia de igualdade
e conectividade [...] aumenta a responsabilização porque toda a
linguagem corporal fica óbvia para todos (PRANIS, p. 14).

Esse processo é organizado por um facilitador, terceiro imparcial, que poderá atuar em
dupla. “O facilitador auxilia o grupo a criar e manter um espaço coletivo no qual cada
participante possa se sentir seguro para falar honesta e abertamente, sem desrespeitar
ninguém” (PRANIS, p. 17). “Se o ambiente se tornar desrespeitoso, é responsabilidade do
facilitador chamar a atenção do grupo para esse problema e ajudar o grupo a restabelecer
um espaço de respeito” (PRANIS, p. 9).

Lembretes importantes para o facilitador:

1) O facilitador inicia as rodadas, pois deve servir de referência, de exemplo para os


demais, à exceção do check out, em que o facilitador deve falar por último.

2) O facilitador deve falar com prudência e bom senso, pois ele é o terceiro imparcial que
apenas facilita o diálogo, não é solucionador de problemas e nem conselheiro. Deve falar
o mínimo possível, salvo explicações necessárias sobre a JR e o círculo ou tirar dúvidas,
devendo priorizar o tempo de fala para os demais participantes. A responsabilidade é
compartilhada, mas lembre-se que o círculo não é para o facilitador, se ele tiver alguma
questão mais profunda para desabafar poderá pedir um círculo para ele. Todos os
participantes são responsáveis pelo círculo, mas o facilitador, além de participante, é a
pessoa formada (preparada) para organizar e conduzir o círculo, por isso, deve ser
responsável por controlar o tempo.

3) Não se preocupe se errar ou inverter/esquecer alguma etapa, sempre é possível


consertar as coisas. E não tenha receio de ser humilde e dizer às pessoas que se confundiu
ou esqueceu algo importante, bem como, pedir às pessoas sugestões de como seguir em
frente, em caso de dúvida sobre fatos ou acontecimentos no círculo. Questões de
conhecimento técnico devem ser encaminhadas pelo facilitador.

4) Confira atentamente as “dicas para os facilitadores” de Kay Pranis no Guia do


Facilitador, p. 17-22.

O processo circular é eficaz para prevenir conflitos, ofensas e violência e, também, para
transformar conflitos e reparar danos. No entanto, “fazer uso de um processo circular não
é simplesmente colocar as cadeiras em círculo. Uma preparação cuidadosa é essencial

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para que se tenha uma boa prática” (PRANIS, p. 9). Assim, é fundamental compreender os
elementos estruturais/essenciais de um Círculo de Justiça Restaurativa e de Construção
de Paz, lembrando que a leitura do Guia do Facilitador é indispensável.

1. Acolhimento

O acolhimento é essencial para que tenhamos um bom círculo, pois as pessoas precisam
se sentir acolhidas e à vontade para perceber que estão em um ambiente diferente da
correria e, muitas vezes, da indiferença do dia a dia. Por isso, chegue com antecedência
para preparar o espaço do círculo e estar disponível quando as pessoas chegarem. Receba
cada pessoa que chegar, cumprimente-a, seja atencioso, peça para escolher um lugar para
se sentar, guardar bolsas e demais pertences para ficar mais confortável. Se possível, a
entrega de uma lembrancinha, cartãozinho etc., contribui para tornar a acolhida agradável.

2. Boas-vindas, agradecimentos – Guia p. 27

Quando todos estiverem acomodados em seus lugares dê as boas-vindas, agradeça pela


presença, agradeça o local e/ou as pessoas que organizaram o círculo, que
disponibilizaram o espaço, que contribuíram para que o círculo acontecesse etc.

Obs.: quando a autora afirma: “se disposto a trabalharem juntos para resolver a questão
difícil”, ela está se referindo aos círculos conflitivos.

3. Atenção plena – mindfulness2 – Guia p. 38

Respiração profunda e relaxamento é um exercício fundamental para iniciar bem qualquer


atividade. Nos círculos ajuda a acalmar (desacelerar), se desligar das preocupações
externas, se concentrar e manter o foco nos objetivos do círculo, contribuindo para criar
e/ou aumentar a conexão entre as pessoas.

4. Cerimônia de abertura – Guia p. 14, 27, 37

Escolha uma cerimônia de abertura apropriada de acordo com o público e com o tema do
círculo. Pode ser mensagem, poema, música, vídeo, dinâmica etc.

5. Explicação da peça central e do objeto da palavra – Guia p. 14-15, 27-28

Peça central: os objetos são colocados no chão (sobre um tapete ou toalha – de preferência
de formato circular – para manter a simbologia, a circularidade do processo) porque não
usamos mobiliário/mesa (para que não haja nenhum obstáculo entre as pessoas). A
comunicação deve ser completa e direta entre as pessoas (comunicação verbal e corporal).
Explique o significado de cada objeto que compõe o centro (o objeto, em si, não importa, o
que importa é o significado). A finalidade dos objetos é enriquecer o círculo, contribuir para
o bem-estar e para estabelecer conexão entre as pessoas, por isso, não podem ter
conotação de violência, exclusão, preconceito. É importante convidar os participantes para
contribuir com o centro, compartilhando objetos, desta forma, eles se sentem pertencentes

2 WILLIAMS, Mark. Atenção plena. Trad. Ivo Korytowski. Rio de Janeiro: Sextante, 2015.

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ao círculo, aumentando a conexão entre o grupo. O pertencimento é uma necessidade


fundamental do ser humano. Se alguém sentir desconforto ou incômodo com algum dos
objetos, ele deverá ser retirado do círculo (é importante perguntar aos presentes se
concordam com os objetos ou se algum causa desconforto).

Objeto da palavra: convide os participantes para que escolham, dentre os objetos do centro,
o objeto da palavra, o qual poderá ser trocado a cada rodada, caso queiram. O objeto
poderá circular no perímetro do círculo para a direita ou para a esquerda, mas precisa
passar de mão em mão, não pode pular pessoas ou ser jogado de um lado para outro. O
objeto da palavra atribui o poder e o direito de falar e de ser escutado, respeitosamente,
sem interrupções. Apenas quem estiver com o objeto poderá falar. Quem não quiser falar
poderá passar o objeto em silêncio. O facilitador poderá falar sem o objeto,
excepcionalmente, se precisar fazer algum esclarecimento ou intervenção.

6. Objetivo do círculo – Guia p. 28

7. Apresentações e check-in – Guia p. 28, 41

Apresentações: se as pessoas não se conhecerem.

Check in: para que cada pessoa possa expressar como ela está se sentindo no início do
círculo.

8. Valores/diretrizes/compromisso – Guia p. 15, 28-29, 33

Valores: circule, dentre os presentes, papeis e canetinhas para cada pessoa escrever o seu
valor e compartilhar no círculo. O facilitador deverá lembrar que todos os valores são
importantes e fundamentais, mas temos quatro valores considerados chave: respeito,
honestidade, responsabilidade, sigilo. Se esses valores não forem colocados por
nenhum participante, o facilitador deverá acrescentá-los ou convidar alguém para
acrescentar.

Diretrizes: são os combinados de como as pessoas se comportarão no círculo para que


seja positivo e construtivo, isto é, um espaço seguro, no qual todos poderão falar as suas
verdades, de forma respeitosa, e serem escutados respeitosamente.

Temos quatro diretrizes fundamentais, as quais podem ser levadas escritas pelo facilitador:

1. Respeitar o uso do objeto da palavra


2. Falar e escutar respeitosamente
3. As histórias são confidenciais
4. Os aprendizados podem ser compartilhados

O facilitador deverá explicá-las aos participantes e perguntar se gostariam de acrescentar


outras diretrizes (horário, intervalo, entrada de celular no círculo etc). Se houver sugestão
de outras diretrizes, pelos participantes, o facilitador deverá escrevê-las em uma folha.
Todas as diretrizes devem fazer parte do círculo.

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Compromisso: é fundamental, antes de avançar para o tema principal, fazer uma rodada
para que as pessoas digam se concordam e se assumem compromisso com os valores e
com as diretrizes.

Por exemplo: eu concordo e me comprometo com os valores e com as diretrizes.

Se houver discordância, significa que o círculo precisa dialogar sobre esse ponto e chegar
a um consenso, antes de avançar para o tema principal.

9. Atividade principal – Guia p. 15, 23, 29-30, 33-35

A atividade principal - objetivo do círculo - tanto nos círculos não conflitivos quanto nos
círculos conflitivos, poderá se desenvolver por meio de uma rodada de contação de
histórias e perguntas norteadoras/questões reflexivas sobre o tema objeto do círculo.

Obs.: a autora expõe mais cinco aspectos fundamentais, os quais devem ser abordados
nos círculos conflitivos (p. 29-30, 34-35):

9.1 explorando os problemas - ou preocupações


9.2 gerando planos para um futuro melhor – esclarecendo expectativas a respeito do futuro
9.3 assumindo a responsabilidade
9.4 acordo
9.5 esclareça as expectativas – acompanhamento

10. Check-out – Guia p. 30

Para que cada pessoa possa expressar como ela está se sentindo no encerramento do
círculo.

11. Agradecimentos – Guia p. 30

Obs.: quando a autora afirma: “esforços para resolver o conflito de maneira respeitosa”, ela
está se referindo aos círculos conflitivos.

12. Cerimônia de encerramento – Guia p. 30, 37

Escolha uma cerimônia de encerramento apropriada de acordo com o público e com o tema
do círculo. Pode ser mensagem, poema, música, vídeo, dinâmica etc.