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HISTÓRIA DE CABINDA

Africa Sobsahariana em 1880


Principais estodos e Impéreios Africanos em 1880
Colonias em 1914
Espa Bélg Inglater Portu
nha ica ra gal
Italia Fra Aleman EF
nça ha

1883 (29 de Setembro de) :


Tratado de Chinfuma.

1884 (26 de Novembro de) :


Tratado de Chicamba.

1885 (1° de Fevereiro de) :


Tratado de Simulambuco entre Portugal e as autoridades autóctones Cabindesas.
Cabinda colocado sob a protecção de Portugal.

1885 :
A Conferência de Berlim reconhece a partilha dos três Congo, a saber: Congo
francês, Congo belga e Congo português com seu Governador geral.
Nascimento de Cabinda. Na época onde as potências coloniais dividiam a
África, desputando as fronteiras, o Tratado de Berlim retirou a Portugal a
margem Norte do Congo, um dos seus bastiões, concedendo-lhe um território de
recuo, Cabinda.

1956 :
Com o objectivo de administrar com menos despesas as suas colónias de
Ultramar, Portugal decide de colocar Cabinda e Angola sob a autoridade de um
mesmo governador geral, consoante o modelo de África Equatorial Francesa
(A.E.F); agrupando 4 territórios distinctos ou do modelo que chamamos Congo-
Ruanda-Urundi.

1960 (6 Octobre) :
A O.N.U.,Sr. Tchitchele, Vice-Presidente e Ministro dos Negócios Estrangeiros
da República do Congo-Brazzaville, exige a independência total de Cabinda.

1963 (4 de Agosto de) :


Fusão dos movimentos Nacionalistas Cabindeses em Frente de Libertação do
Estado de Cabinda (F.L.E.C), em Ponta Negra (Rep. Congo) na presença do
Presidente Padre Fulbert YOULOU.

1964 :
A Organisação da Unidade Áfricana (U.A.) coloca Cabinda em 39° entre os
países a descolonizar, distinctamente de Angola classifacado em número 35.

1975 :
Declaração na tribuna da U.A. pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros do
Congo, Sr. David Charles GANAO e o Chefe da delegação do Zaïre na Etiopia, o
sr BAGBENI NZENGEYA Adeito (Ambaixador do Zaïre na Etiopia).

1975 (08 de Novembro de) :


Início da luta armada pelas Forças de Libertação do Estado de Cabinda.

FONDAMENTOS HITÓRICO -
JURIDÍCOS:
Os 500 anos de hitória colonial de Angola (1482-1975) tão afastados dos 90 anos
de ocupação do Protectorado Português de Cabinda (1885-1975), pelo mesmo
país opressor comum, Portugal, define e confirma o facto: a existência inegável
de uma verdadeira história claramente marcada pela dupla trajectória dos dois
povos soberanos colocados entre dois paises não frontalieiros.
Donde a demarcação natural da mesma ligna e lógica que se deve seguir: a
demarcação entre os dois territórios como nações distintas uma da outra, como
confirma o texto e o contexto da Constituição política portuguesa no momento da
descolonisação quase inacabada em cabinda.

O veredicto da história não foi respeitado em Cabinda em oposição do que se


passou na assembleia dos estados modernos, conhecido e visto pela
Communidade Internacional que até hoje, não diz nada, apesar da pertinência da
plêiade dos dados históricos e jurídicos, que no quadro colonial, fazem de
Cabinda, um protectorado de direito e não uma colónia Stricto sensu.

Por algures, uma simples torre de horizonte sobre o passado viciado imposto ao
povo Cabindês basta para fazer constatar a todo observador imparcial que
Cabinda nunca fez parte integrante de Angola e este facto foi publicamente
declarado e reconhecido, algumas semanas pelo presidente da União Nacional
pela Independência Total de Angola (UNITA), Sr. Jonas SAVIMBI nestes
termos:
Cabinda nunca fez parte integrante de Angola, nem antes nem aquando nem
depois da retirada do colonizador do nosso país.
Em oposição a esta declaração pertinente e honesta, o acordo de Alvor
(Portugal), caducado depois de ser assinado, é o único suporte das pretenções
expansionistas de Angola sobre Cabinda.

Assim, é coveniente que este acordo violado e revocado pelos signatários, sem
compentência em matérias, possa constituir o fundamento da posição oficial
angolana, através aqual, continua ainda sem vergonha justificar a actual ocupação
pelo estado angolano. Todavia, longe de querer fazer uma lição de história,
vejamos três provas em apoio que confortam a posição Cabindesa:

Primeiro: 30 anos antes da sinatura dos três Tratados Luso-Cabindês de (1883-


1884-1885) entre os emissores da coroa portuguesa, dum lado e os príncipes e
notáveis de Cabinda, doutro lado, o governador geral de Angola (Província de
Portugal), na época, recebe os emissores do reino de Cabinda à três vezes, cuja
última vez com 21 tiros de canhão. Embaixadores so se moveram por solicitar ao
rei de Portugal, a definição sem mais tardar, da sua nationalidade como português
afim de evitar as contestações doutros concorrentes (Cf. Boletim oficial de
Angola n° 388, de 05 de Março de 1854 - P. n° 483, de 30 de Dezembro de 1854
- P.P.1-2 n° 571, de 06 de Setembro de 1854 - P.P. 4-5 ver os três textos nos
Trâmites para a libertação do Estado de Cabinda, pela F.L.E.C - 1992).

Ora, se Cabinda fazia realmente parte integrante de Angola, porque esses


emissores Cabindeses se moveram para solicitar a nationalidade portuguesa já
adquirida pelo conjunto da população angolana?!...

Segundo: No início da ocupação, havia prova segundo aqual Portugal em 1885,


fazia uso dos Tratados assinados com o reino de Cabinda para fazer valer seus
direitos territoriais sobre eles, apresentando-lhes como seus protectorados. São
esses protectorados de Kakongo, Luango e Ngoio (Cuja fusão forma o actual
Cabinda), que foram designados nos textos oficiais, sob a denominação de
territórios ao norte do rio Congo e não como terra angolana nem como fazia parte
desta, em termos de dependência, o que algures seria contrário ao acto da
Conferência Internacional de Berlim, de 14 de Fevereiro de 1885 (Cf Cópias
originais desta conferência nos arquivos da Torre do Tombo, Lisboa, Portugal;
ver igualmente os textos contidos no " os Trâmites para a libertação do Estado de
Cabinda", pela F.L.E.C - 1992)

Terceiro: Nas vésperas da proclamação da independência de Angola em 1975,


o Primeiro Ministro do gouverno português (Comunista) e o Presidente da
república portuguesa (Comunista) reconhecem publicamente a sua incapacidade
de poder controlar a situação. É por isso, pela lei 458-1/74, eles revocam o
pretendido acordo de Alvor mantendo a data da independência. E tudo isto, afim
que a oferta de Angola, com Cabinda anexado (Segundo o artigo 3) sendo feito
ao comunista internacional pelo interposto do Movimento Popular de Libertação
de Angola (MPLA) pedindo independência já proclamada pelo Portugal sob uma
cena traduzida pela expressão oficial "ao povo angolano em geral" (Cf. Diário
Governo, /série, n°194, de 22 de Agosto de 1975 p.p. 1292; ver igualmente
"Tramites para libertação do Estado de Cabinda" pela F.L.E.C - 1992)

Do resto, alem dessas três provas tanto concluentes entre outras também
fundadas e verificadas, a resistência nacionalista Cabindesa representada à mesa
de discuções em curso pela F.L.E.C não cederá nenhum lugar a debates estériles
levando sobre a constitucionalidade do facto Cabindês, em razão do defeito da
competência e da legitimidade requisa pela parte dos interlocutores angolanos
que não podem em nenhuma forma recuperar a paternidade jurídica de Portugal
sobre Cabinda, porque so haveria mesmos debates já tidos no passado em
linguagem de surdos, em redor das indeterminaveis querelas escolásticas sem
efeito e marcadas de apetites não confessados e tanto contrário a verdade da
história e ao bom senso.

Carta de descolonisação dos países


Áfricanos

Datas de acquisição da independência

N° Pays Date N° Pays Date N° Pays Date


1 Maroc 1956 19 Guinée 02-10-1958 37 Gabon 17-08-1960
2 Algéria 01-07-1962 20 Haute Volta 01-07-1962 38 Guinée Eq. 12-10-1958
3 Tunisia 1956 21 Nigeria 03-08-1960 39 Cabinda 01-08-1975
4 Libia 24-12-1951 22 Cameroun 01-01-1960 40 Benin 01-08-1960
5 Egypte 1936 23 Centrafrica 13-08-1960 41 Togo 27-04-1960
6 Sahara Maroc 24 Ex-Zaire 30-06-1960 42 Ghana 06-03-1957
7 Mauritania 28-11-1960 25 Ouganda 09-10-1962 43 Côte d'ivoire 07-08-1960
8 Mali 20-06-1960 26 Kenya 12-12-1963 44 Liberia 26-06-1847
9 Niger 03-08-1960 27 Ruanda 01-07-1962 45 Sierra Leone 27-04-1961
10 Tchad 11-08-1960 28 Burundi 01-07-1962 46 Namibie 21-03-1960
11 Soudan 01-01-1956 29 Tanzanie 09-12-1961 47 Swaziland 06-09-1968
12 Etiopia 1930 30 Zambia 24-10-1964 48 Lesotho 04-10-1966
13 Djibouti 27-06-1977 31 Malawi 06-07-1964 49 Afrique / Sud 11-12-1931
14 Somalia 26-06-1960 32 Moçambique 25-06-1975 50 Madagascar 26-06-1960
15 Canaries Espagne 33 Zimbabwe 18-04-1980
16 Sénégal 28-08-1960 34 Botswana 30-09-1966
17 Gambia 18-01-1965 35 Angola 11-11-1975
18 Guinée Bis. 10-09-1974 36 R.Congo 15-08-1960

O DRAMA DE CABINDA

• Estado situado na África central. No Norte, a República do CONGO, no


Sul e no Leste a R.D-CONGO, no Oeste o oceano atlântico.
• Protectorado Português (Tratado luso-cabindês 1883-1884-1885)
• Entidade territorial reconhecido pela Constituição Portuguesa de 1933
distinctamente de Angola, colónia Portuguesa desde o século 15.
• Novembre 1975 : CABINDA é ocupado militaremente pelo MPLA de
Angola com ajuda das forças armadas sovietico-cubanas e com a
complicidade do governo português.
• A partir desta data, CABINDA ficou militaremente ocupado pela, Angola
que continua a aplicar sem escrúpulo uma política de pauperização, de
exterminação e de purificação étnica do povo Cabindês, com a indiferença
quase geral da opinião internacional.
• Apesar das suas enormes riquezas mineiras, particularmente o petróleo
(que fornece mais de 4 biliões de dolares por ano, saqueados pelos
ocupantes angolanos e as multinacionais americanas Chevron/Texaco), o
povo Cabindês continua a viver a mais atroz das misérias.
• O governo de Cabinda lança um apelo a todos os cabindeses de
reivindicarem os seus direitos nos paises onde eles se encontram excepto
Angola.
CABINDA NÃO É ANGOLA

A Gente de Cabinda
Os Cabindas (29) constituem um povo considerado, por norma,
pelos investigadores e pessoas que com eles contactaram, tanto no
passado como no presente, com Tradições próprias bem marcadas e
uma Cultura Superior à da maioria das populações vizinhas (30), um
"povo" de quem João Falcato diz que "quase não desejaria chamar
negros tanto se distinguem dos demais na cor bronzeada, na perfeição
dos traços e no nível dos costumes " (31). Dotados de um "vivo
espírito filosófico e proverbialista" (32), o exuberantemente traduzido no
singular simbolismo artístico - para o Padre Dom Joaquim Martins, "
uma verdadeira escrita ideográfica" sem paralelo em parte alguma de
África (33) - foram considerados por Almada de Negreiros como "os
melhores marinheiros da África portuguesa" e "indivíduos de índole
pacífica, muito morigerados nos costumes, respeitadores, e dedicados
aos patrões".

Estas qualidades dos Cabindas - no passado muito procurados


pelas suas aptidões físicas para as tarefas marítimas (35) e pelas
capacidades desenvolvidas nas suas relações seculares com os Europeus
- conferiram-lhes mesmo um estatuto sócio-laboral bem distinto dos
outros povos da África portuguesa. Auguste Nascimento, investigador do
Centro de Estudos Africanos do I.I.C.T., num artigo "Cabindas em São
Tomé" (36) (um estudo que abarca o período de meados do séc. XIX ao
final da primeira década do séc. XX), releva este Status Superior que se
traduzia, entre outras manifestações, na " rejeição da sua assimilação
aos indivíduos não livres", na recusa de "uma inserção duradoura" nas
sociedades de acolhimento (37), na relutância em aceitar trabalhos na
roça onde a relação social se fundava na servidão (38), na imposição de
contratos de trabalho com especificações sobre "a duração, o
repatriamento e o salário", numa maior capacidade reivindicativa
(recorrendo frequentemente ao conflito aberto) o que lhes permitiu
"assegurar formas de tratamento específico e diferenciado dos
restantes", facto validado pelos próprios Boletins Oficiais onde os
Cabindas, "nunca foram identificados com os serviçais". Porquê?

Não foi seguramente devido a uma inaptidão natural dos Cabindas


para essas tarefas, mas porque os trabalhos relacionados com o mar
constituíam para os Cabindas um elemento simultaneamente de
diferenciação e de defesa da sua condição relativamente aos "serviçais"
e um factor de segmentação e hierarquização social. Assim, nos finais
do séc. XIX, na fraseologia popular colonial, a expressão "Cabinda de
água salgada" traduzia um Nível Superior de valor e consideração social
relativamente ao Cabinda do interior designado, pejorativamente, por
"preto do mato".
De resto, os testemunhos escritos deixados por comerciantes e
missionários, que conviveram de perto com os Cabindas, são
coincidentes na constatação de que estes, mesmo quando na condição
de escravos e isolados do seu grupo social de referência, procuram
manter e fazer reconhecer os seus "Tesouros" Clanicos e o seu Estatuto
Social anterior, nomeadamente se lhes corresponde o Poder e o
Prestígio de uma Origem Genealógica que os distinguem relativamente
ao homem comum.
Os exemplos da resistência da memória colectiva deste povo na
diáspora, não escasseiam. Pierre Verger narrando uma revolta de
escravos na Baía (Brasil), em 1821, dá conta de um espólio de "dois
tambores, um grande e um pequeno, três sinetas de latão encontrados
na casa de um escravo Cabinda, de nome Francisco José Cabinda, que
justificou a posse destes instrumentos musicais para "se divertir com os
seus compatriotas Cabindas, nos dias de festas, como as do Senhor de
Bonfim onde iam dançar" (39)

Em 1916, um viajante francês, de nome L. F. de Tollenare,


percorrendo Ipojuca, em Pernambuco, narra um outro episódio curioso
relativo a uma negra Cabinda chamada "Teresa Rainha" que fora
condenada à escravidão numa senzala brasileira. Escreve este
observador atento que esta mulher "quando chegou trazia nos braços e
nas pernas anelões de cobre dourado" (insígnias Cabindas de nobreza) e
que "as suas companheiras testemunhavam-lhe muito respeito. Era
imperiosa e recusava-se a trabalhar. (..) Empregaram-na, porém,
utilmente, para vigiar as companheiras, e saber fazer-se temer e
obedecer" (40).

Sob o ponto de vista étnico, os Cabindas pertencem à etnia (41) dos


Bakongo (42), oriundos dos territórios do interior d'além do rio Cuango,
(43) e ao grupo Etnolinguístico Kikongo (44) .

Este grupo faz parte da grande e antropologicamente heterogénea


família linguística e algo étnica dos Bantos ( Zindj ou Zendj, como eram
designados pelos Árabes), um Povo que, há cerca de cinco mil anos se
terá estabelecido no leste de África, entre o curso superior do Nilo e o
Oceano, para um milénio depois ser expulso por novas vagas Banto
(45).

No final do primeiro milénio da nossa era, os Bantos ter-se-ão


disseminado por toda a bacia conguesa afugentando, destruindo ou
assimilando as populações autóctones, constituindo o grande fundo
populacional não só de Cabinda como de toda a África a sul do Equador.
José Redinha distingue, em África, nove grupos etno-linguísticos dessa
família: o Kikongo, Kímbundo, Umbundo (ou Ovimbundo), Lunda-Kioko,
Ganguela, Nhaneca-Humbe, Ambó, Herero e Xindonga.
Sublinhe-se que esta enumeração reporta-se exclusivamente aos
grupos etno-linguísticos. A diferenciação etnográfica é ainda bastante
mais complexa.
No grupo Kikongo, por exemplo, aquele autor assinala nada
menos de 15 sub-grupos, além de mais algumas dezenas de elementos
de menor vulto (46).
Os outros grupos étnicos não-bantos são constituídos pelo grupo
Koisan ou Hotentote-Bosquímano e pelo grupo Vátua ou pré-Banto.
Pese embora a dificuldade e complexidade, repetidamente
relevada, pelos etnólogos, em identificar e contornar territorialmente as
manchas étnicas em África (fenómeno que é extensivo ao restante
Continente Africano), pensamos que os Cabindas (distribuídos pelas
tribos Vili, Iombe, KaKongo e Oio, pertencentes à etnia dos Bakongo e
ao grupo etnolinguístico Kikongo) constituem, hoje não obstante a
extrema dificuldade em definir fronteiras entre o património genético e o
património cultural, entre os processos inatos e os processos adquiridos
- uma fracção étnica com uma identidade histórico-cultural
significativamente mais vincada e definida que outras.

CABINDA NÃO É ANGOLA


Carlos Mário Alexandrino da Silva

PARTE I – "TRATADO DE SIMULAMBUCO"...O


PROTETORADO DE CABINDA..."NÓS, OS CABINDAS"...

• 1º. DE FEVEREIRO DE 1885...ASSINATURA DO


TRATADO DE SIMULAMBUCO

A corveta da Marinha Real Portuguesa RAÍNHA DE PORTUGAL fundeou ao largo de


Cabinda, em posição de espera, preparada para qualquer eventualidade porque se sabia que
os franceses estavam planejando a ocupação da pequenina Amazônia africana. Esta era
muito cobiçada devido não só às suas riquezas naturais, mas também em virtude de sua
posição estratégica na embocadura do grande rio Zaire, desempenhando, destarte, um papel
geopolítico muito importante naquela região.

O comandante da corveta, capitão-tenente da Armada Guilherme Augusto Brito Capello,


desembarcou acompanhado de uma escolta e de alguns dos seus oficiais para participar
numa importante reunião com os notáveis de Cabinda que, receosos de uma invasão
gaulesa, haviam solicitado proteção.

Desde tempos recuados Portugal vinha exercendo exclusiva influência naquele pequeno
enclave coberto, em sua maior parte, por frondosa mata atlântica e interiorizado por densa
floresta de tipo tropical, constituída de inúmeras e valiosas espécies arbóreas.. No pequeno
país peninsular viviam-se tempos difíceis, pois sua economia era calamitosa, as finanças
estavam fortemente deficitárias, sendo também muito pesada a sua dívida externa.

• O MAIS EVOLUÍDO DOS POVOS BANTOS: O


CABINDA.

Os aborígenes de Cabinda sempre se tinham mostrado mais evoluídos, mesmo ao tempo do


seu achamento pelas primeiras expedições marítimas lusitanas, procurando desde então
contatar com o exterior. Muitos de seus filhos voluntariamente embarcavam nas naus como
tripulantes, adquirindo novos conhecimentos e novos hábitos que reforçaram a sua já
costumeira superioridade cultural em relação aos demais povos da região central e
meridional do continente africano.

• UM ADOLESCENTE LEU EM 1939..."NÓS, OS


CABINDAS"

Éramos ainda adolescente, em 1939, quando certa feita, percorrendo as estantes de um


alfarrabista numa artéria lisboeta mais conhecida por "rua do Coliseu" (casa de espetáculos
situada ao lado e no imóvel contíguo ao da vetusta Sociedade de Geografia de Lisboa, tão
famosa por sua importante ligação com o fenômeno colonial português), encontramos ali
um pequeno livro da autoria de um tal D. José Franque; um barão cabindense, da estirpe
dos "boma-zanei-n´vimba" (príncipes), intitulado "NÓS, OS CABINDAS", edição do
próprio autor, certamente um Negro radicado na capital portuguesa por algum tempo. Na
abertura do livro era referida uma tiragem muito limitada, salvo erro 500 exemplares. Nessa
mesmo dia, à noite, lemos e relemos esse pequeno livro, talvez de cento e poucas páginas,
no qual seu autor tecia com elegância de estilo e lucidamente, o histórico do seu povo;
descrevia a sua organização política e administrativa, seus usos e costumes, destacando
suas diferenças culturais em relação aos outros povos bantos vizinhos, frisando sua
«individualidade» e reiterando já o direito à autonomia do Enclave, aliás transparente, se
feita uma interpretação intensiva e lógica, no próprio instrumento jurídico configurado no
acordo bilateral luso-cabindense conhecido sob a denominação de Tratado de
Simulambuco,,, celebrado em 1885 com o Reino de Portugal.

• D. José Franque evidenciava, sem medo, que a situação resultante desse tratado,
bem diferente de um termo de capitulação, não constituia uma anexação mas
sim, um protetorado solicitado pelos governantes autóctones sob ameaça de
ocupação francesa a partir do vizinho Congo-Brazzaville; mas, essa situação,
sublinhava o nobre cabindense, não fora devidamente respeitada pelos sucessivos
governos de Portugal, sobretudo depois da implantação da República neste País, em
5 de Outubro de 1910.
• O ATO COLONIAL E O IMPÉRIO COLONIAL PORTUGUÊS

A partir de determinada altura e em particular – sublinhamos nós – depois do Ato Colonial,


já no regime do Estado Novo salazarista que oficializou a denominação de Império
Colonial Português, passaram os poderes públicos lusitanos a considerar o território do
enclave de Cabinda como ...uma subdivisão administrativa, um distrito da colônia de
Angola...O já citado Ato (perdoem-nos grafar de acordo com as regras ortográficas e
gramaticais do português vigente no Brasil mas preferimo-lo ao de Portugal porque o
achamos mais agilizado e portanto mais evoluído e suscetível de projeções mais ousadas no
domínio do enriquecimento vocabular e dos contatos entre povos lusófonos –
ou...galegófonos?...-) Colonial, publicado em 8 de Julho de 1930, estabelece a comunidade
e a solidariedade que vinculam todos os povos que constituem a nação portuguesa.

• O art. º 2º, diz: "É da essência orgânica da Nação Portuguesa


desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios
ultramarinos e de civilizar as populações indígenas que neles se
compreendam, exercendo também a influência moral que lhe é adstrita pelo
Padroado do Oriente".

• O artº. 3º, afirma: "Os domínios ultramarinos de Portugal denominam-se


colônias e constituem o Império Colonial Português".

Paradoxalmente, um "Império" republicano,um"Império"sem..."Imperador"!

• UMA DINASTIA DESASTRADA E UM REINO FALIDO...

Haviam sido repletos de ocorrências coloniais os reinados de D.Pedro V (1853-1861),


D.Luís (1861-1889), D.Carlos (1889-1908) e de D.Manuel II (1908-1910), este após o
regicídio que vitimou seu pai e o príncipe-herdeiro D.Luís Filipe. A monarquia estava
falida e João Franco seria o seu coveiro...como Silva Cunha o foi em relação ao "Ultramar
Português"...

Na primeira das citadas ocorrências, assinala-se a questão com a França, provocada pelo
apresamento da barca Charles & Georges; na segunda registram-se as explorações de Serpa
Pinto, Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, e também a de Henrique de Carvalho; na
terceira, dá-se o Ultimatum em 1890, ao qual se seguiu a grande gesta da presença
portuguesa em África...Porém, a situação econômica agravou-se, os empréstimos sucediam-
se uns aos outros, o governo procedia a novas conversões da dívida externa, aumentando
sempre os seus compromissos. De 1856 a 1892 fez 14 empréstimos no valor de mais de 58
milhões de libras esterlinas. Em 1890 a Casa Baring de Londres, que sustentava as finanças
portuguesas, viu-se forçada a terminar as suas transações. Deste modo, o ano de 1891 foi
um ano de aguda crise econômica, ampliada pela pressão conseqüente do Ultimatum inglês.
Em 1892 o governo teve de editar uma lei de Salvação Pública porque o País havia entrado
em situação de bancarrota...
• PARTE II – O CONGRESSO DE VIENA, A QUESTÃO DO ZAIRE, AIA,
A CAMPANHA ANTI-ESCRAVAGISTA E UM GOVERNADORÀ FRENTE
DA SUA ÉPOCA

Desde fins do século anterior que estava se desenvolvendo uma campanha internacional, de
inspiração inglesa, visando à extinção do tráfico de escravos... Em Angola ela encontrava
amplo respaldo no próprio governador da colônia, Sousa Coutinho. Enquanto o Brasil era
colônia havia razões de sobra para não apoiar essa medida, as quais cessaram de existir em
1822...A abolição conquistou assim, a adesão de todos os filantropos europeus; contudo, foi
a época de transição a que se revelou mais cruel para os escravos, o que ressalta das
afirmações de Oliveira Martins que nos diz terem saído de África 5 milhões de escravos
Negros entre 1807 e 1847! Já em 1815, por ocasião do Congresso de Viena – a Santa
Aliança...- Portugal e a Inglaterra haviam assinado um protocolo visando a abolição gradual
desse nefando tráfico. Mas, somente em 10 de Dezembro de 1836 o Marquês de Sá da
Bandeira publicou o primeiro decreto a esse respeito, o qual foi muito mal recebido em
Moçambique, onde, no ano seguinte, o governador geral suspendeu a sua execução.
Agastada com isso, a Inglaterra assumiu então atitudes hostis a Portugal , germinando a
partir daí, a medida extrema do Ultimatum que viria mais tarde...

• De 1845 a 1848 governou Angola um antepassado nosso, o comandante Pedro


Alexandrino da Cunha, mais tarde assassinado por chineses quando era
governador de Macau. A respeito desse governante, escreve o saudoso mestre do
ISCS/UTL Pe. Doutor Antônio da Silva Rego em sua Histôria do Império
Português:

• "...homem verdadeiramente providencial para a ocasião. A sua energia e


iniciativa não tiveram dificuldade em convencer os portugueses de Angola que era
necessário procurar na agricultura, comércio e indústria legítimo substituto para
os duvidosos proventos da escravatura."

A páginas 253 da obra citada, Silva Rego observa:

• "Pedro Alexandrino modificou Angola de alto a baixo, desde o ensino até à


cultura do algodão. Aparece-nos ele, em meados do século XIX, como um
governador dos nossos dias todo votado ao desenvolvimento da colónia sua
governada

• OCUPAÇÃO DE AMBRIZ, FIM DA ESCRAVIDÃO

Em 1855, Portugal ocupou o porto de Ambriz, a norte de Luanda, por onde os negreiros
escoavam o seu comércio de "marfim negro"; para complemento dessa ação foi publicada,
em 5 de Julho de 1856, uma lei abolindo a escravidão em Ambriz, Cabinda e Molembo. E
logo no dia 18 do mês seguinte, nova lei foi editada concedendo alforria a todos os
escravos que desembarcassem em Portugal, Açores, Madeira, Índia e Macau. Dois anos
mais tarde, em 25 de Abril de 1858, data do casamento de D.Pedro V, novo decreto foi
promulgado determinando que a escravatura e a escravidão (vidé nosso artigos sobre Os
Escravos em Portugal) acabariam em todo o território português vinte anos depois,
portanto em 1878, mas esse prazo acabaria sendo encurtado na medida em que o tráfico de
escravos foi definitivamente encerrado em 1869.

• A QUESTÃO DO ZAIRE...E A "A.I.A

É conveniente, para se entender qual a importância que Cabinda sempre exerceu na região,
relembrarmos vários fatos históricos sobre a chamada QUESTÃO DO ZAIRE:

No meio de todo o frenesi que emoldurou as arrojadas explorações africanas, que a seu
tempo abordaremos noutro trabalho, o rei Leopoldo II, da Bélgica, que governou de 1865 a
1908, lançou a idéia de uma Associação Internacional Africana, a qual brotou de uma
conferência internacional que ele convocou em 1876.

Aparentemente a intenção seria: « abrir à civilização a única parte do nosso globo onde ela
ainda não penetrou»...

Nessa conferência participaram os seguintes países: Alemanha, Áustria-Hungria, Bélgica,


França, Inglaterra, Itália e Rússia.

O resultado prático foi a supracitada Associação, que se propunha:

a) Explorar cientificamente a África;

b) Estabelecer vias de comunicação no continente;

c) Abolir a escravatura.

Em todas as nações empenhadas na dita agremiação deviam formar-se comissões ,


subordinadas a uma comissão central, composta pelos presidentes das principais
Sociedades de Geografia.

Portugal formou sua própria comissão, presidida pelo visconde de S. Januário, mas absteve-
se de enviar representante à conferência de 1877 realizada em Bruxelas.

Manhosamente, a Inglaterra não alinhou e criou o seu "African Exploration Fund"...

• A BANDEIRA AZUL COM ESTRELA DOURADA...

Tal como a Europa..."Unida" de hoje, essa associação, inspirada pelo ambicioso monarca
belga, até tinha bandeira própria – azul e uma estrela de ouro - que seria hasteada no Lago
Tanganica. Na verdade, somente o rei dos belgas continuou interessado nas atividades da
associação...

Assim, sob a supervisão daquele monarca, em 1877 a AIA estabeleceu no Congo e em


Zanzibar (ilha no litoral da África Oriental) dois pontos de apoio de quaisquer explorações
que tivessem por escopo desvendar o interior africano...Começava assim, a grande
tragédia da ocupação colonialista rapace...

Entra aqui na história um personagem que estivera ligado ao resgate do desaparecido


explorador britânico Livingstone, anos antes: John Rowlands, nascido no país de Gales
mas proclamando-se americano, um dos grandes jornalistas do New York Herald e que
adotou o pseudônimo de Henry-Morelan Stanley. Em 1868 estivera na Abissínia cobrindo
a campanha de Napier e em 1871 chegara a Zanzibar para montar uma expedição destinada
a localizar o desaparecido Dr. Livingstone, no que foi bem sucedido. Após haver percorrido
a África de 1874 a 1877 e observado os lagos Victoria Nianza e Tanganica e de ter descido
o curso do rio Congo ou Zaire até ao seu deságüe no oceano Atlântico, regressou à
Inglaterra alimentando o sonho de fundar ali uma empresa que se dedicasse a explorar as
riquezas potenciais situadas na bacia do Congo. Porém, os fleumáticos banqueiros
britânicos não mostraram interesse nas propostas daquele aventureiro e por isso ele se
voltou para a Bélgica onde acabara de ser criada a já referida associação internacional. A
sua chegada à capital belga foi objeto de grandes manifestações públicas de apreço e
consideração. Em princípio, suas idéias de explorar as riquezas da bacia do Congo
obtiveram acolhimento satisfatório do rei da Bélgica que, todavia, achou mais avisado criar
um Comitê de Estudos do Alto Congo, a que presidiria, aparentemente ainda ligado à
associação internacional...cujos fins eram científicos e filantrópicos enquanto que os do
novo organismo de pesquisa eram...econômicos e...políticos.

• 5 de Fevereiro de 1879: UMA"EXPEDIÇÃO"....

Stanley é autorizado pela AIA a realizar uma expedição a África. Em 10 de Maio ele já está
em Zanzibar onde anunciou sua próxima partida para o continente que iria interiorizar. A
24 de Julho, no entanto, aparece de repente em Serra Leoa usando o apelido de Swinborne,
ali recrutando pessoal. Desconfiando-se que fosse um negreiro sem escrúpulos, teve de
revelar sua verdadeira identidade. A 3 de Setembro já está na foz do rio Congo, para onde o
navio belga BARGA, de Anvers, havia transportado todo o equipamento e suprimentos
necessários à sua expedição, que logo iniciou conseguindo vencer todas as dificuldades e
perigos que o cercavam no inóspito interior africano desse tempo.

• 7 de Novembro de 1880: STANLEY VERSUS BRAZZA

Stanley encontra-se com o célebre explorador francês Savorgnan de Brazza ( donde o


topônimo BRAZZAVILLE, cidade de Brazza), acompanhado de alguns indígenas. Este
grande explorador gaulês depois de ter subido o Ogoué e de haver fundado a estação de
Franceville, nas margens do Passa, penetrara na bacia do Congo e atingira a região dos
Macocos ou Bacocos, com cujo soba grande (rei) concluíra habilidosamente um tratado de
amizade e cooperação, conseguindo, por outro lado, que lhe fosse concedido território,
próximo de Stanley-Pool, onde já iniciara a construção de outro posto: Brazzaville.

É óbvio que Savorgnan estava agindo como preboste do governo francês que, já
estabelecido no Gabão, se antecipara aos eventos.
Como explicar a presença deste oficial francês, que denotava a maior eutímia, no interior
africano? Acontece que o explorador francês soubera em Bruxelas, através de um
diplomata estrangeiro, dos planos concluídos entre o rei Leopoldo II e Stanley, pelo que
regressou prontamente a Paris informando e aconselhando o seu governo sobre o assunto. E
este, claro, tomou as suas providências para não serem "lesados" os interesses francos na
região da bacia do Congo (ou Zaire).

Monsieur De Brazza regressou ao Gabão onde permaneceu até 1882, regressando então a
França.

Stanley, invocando o nome do Comitê, prosseguiu viagem aproveitando o ensejo para


impor o seu domínio por onde quer que passasse. À sua chegada a Brazzaville tentou
mesmo intimidar os poucos soldados senegaleses que, de arma aperrada, escoltavam a
bandeira francesa. Não lhe restou outra solução, perante essa viril reação da tropa negra do
Senegal, senão a de abandonar a cidade e passar para a margem esquerda do Congo, onde
fundou a cidade de Leopoldville, atualmente Kinshasa. Em 1882 retornou à Europa,
tratando logo de procurar denegrir Brazza aos olhos da opinião pública. Voltou depois à
África, desta feita acompanhado de um numeroso contingente militar, bem armado,
animado do propósito de estabelecer o domínio do rei da Bélgica onde bem entendesse.

Em teoria, porém, continuavam unidos os fins do Comitê e da Associação Internacional


cuja bandeira de fundo azul com estrela de ouro já fora reconhecida pelos Estados Unidos
da América (sempre os ianques...). Daqui à criação de um Estado Livre do Congo
mediava apenas um passo...

• SOCIEDADE DE GEOGRAFIA DE LISBOA

A Conferência de Berlim conquanto se preocupasse precipuamente com a presença


portuguesa em Angola, na verdade aplicava-se a todo o continente africano. Mas outra
conferência importa abordar, a de Bruxelas que culminou no ATO GERAL de 2 de Julho
de 1890; mais uma manobra do capcioso rei dos belgas, Leopoldo II, que já era, ao mesmo
tempo, o soberano do novo Estado Independente do Congo. Nessa outra conferência,
além dos paises já citados, participaram também a Pérsia (Iran ou Irão dos nossos dias) e
Zanzibar. Representou Portugal, Henrique de Macedo Pereira Coutinho, conde de Macedo.
Os pontos focais dessa reunião, eram:

a). o combate à escravatura, pondo-se termo aos seus crimes;

b). a proteção eficaz às populações aborígenes;

c). assegurar ao continente africano os benefícios da paz e da civilização.

Esse protocolo final contém 100 artigos e divide-se em 7 capítulos. As potências


signatárias, entre as quais Portugal, assumiram o compromisso de prosseguirem em suas
colônias com a repressão da escravatura. Além da regulamentação ou proibição do uso de
bebidas alcoólicas, proibia-se igualmente a importação e a venda de armas de fogo
aperfeiçoadas aos indígenas africanos.

Em complemento desse mesmo instrumento de direito internacional público, foi depois


editada uma declaração pela qual se permitia aos estados signatários da Conferência de
Berlim, que tivessem possessões ou exercessem protetorados na bacia do Zaire,
lançarem "sobre as mercadorias ali importadas direitos cuja pauta não poderá ir além de
uma percentagem equivalente a 10% ad-valorem no porto de importação; exceptuando-se
as bebidas espirituosas que são reguladas pelo capítulo VI do acto geral de hoje". Esta
disposição aplicava-se especialmente ao Estado Independente do Congo, dessa forma
favorecido, que carecia de recursos...Lobriga-se facilmente que essas "preocupações"
visavam, sobretudo, impor obrigações às pequenas potências coloniais como era o caso de
Portugal, que, se incumpridas se transformariam em argumentos contra o seu desempenho
colonial.

• E O QUE ACONTECEU DEPOIS DAS DUAS CONFERÊNCIAS...

OS SOBAS FAZIAM O QUE LHES APETECIA

A TROPA PORTUGUESA PAGAVA PEDÁGIO

As obrigações impostas eram ruinosas para Portugal, falido como se encontrava. Tratava-se
de reformar todos os serviços, desde o militar ao aduaneiro. E havia ambições ínvias e
externas a pairar sobre as terras de influência lusitana. O quintal portucalense, diga-se em
abono da verdade, era apenas um ocupante litorâneo preocupado sobretudo, por
incorrigível vocação (predominância genética hebraica?...) em comerciar e sem qualquer
poder efetivo no interior dos territórios...que até desconhecia ou muito pouco conhecia. Os
sobas faziam o que bem lhes apetecia e ali mesmo às portas de Luanda, no Cacuaco, as
colunas militares portuguesas, uns quantos soldados negros e um ou dois graduados
brancos para passarem em terra de sobado tinham de pagar "pedágio" ao soba, o que
evidenciava a fragilidade, ou inexistência até, da soberania portuguesa. Iniciava-se assim ,
uma vida nova naquelas paragens, nova e difícil porque tinha de ser vivida depressa pois o
tempo corria célere e a vigilância externa era cada vez mais apertada...

Aconselhamos a leitura do folheto "OCUPAÇÃO DE ANGOLA"( coleção PELO


IMPÉRIO, Nº 102) da autoria de Gastão de Sousa Dias, um dos mais abalizados
pesquisadores da história da chamada "ANGOLA", a quem desejar aprofundar esta fase do
lançamento dos esforços de ocupação portuguesa, em decorrência da qual realmente
nasceu a tal "ANGOLA" de que tanto se fala hoje e que não passa de uma manta
heterogénea de retalhos, com tonalidades e matizes diferentes, que globalmente recebeu
dos portugueses – e só deles, dos " brancos" - , essa denominação toponímica, que
paradoxalmente se mantém num continente que só de há uns tempos a esta parte começou,
em algumas regiões, a readquirir consciência da sua personalidade, por isso rebatizando
com topônimos realmente nativos, vários dos nomes herdados dos seus antigos "senhores",
donde agora Burkina Fasso e outros.... A bem do apuramento da verdade histórica dos
fatos, esse topônimo, em suas conseqüências no campo do direito internacional público,
deve ser averiguado, historicamente fundamentado e explicado à opinião pública, tanto
de..."ANGOLA" como da comunidade internacional, ainda hoje enganada por haver sido
convencida de que os Negros são todos do mesmo subgrupo etnolinguístico, derivam todos
da mesma origem grupal histórica e cultural, e sempre estiveram ali, na África Austral
(ignorando-se os direitos dos que lhes antecederam, os bushmen, vítimas de genocídios e
chacinados pelos bantos adventistas: empurrados, recalcados para o deserto meridional,
escravizados até, com o ápodo de "cachorros dos banto"), porque nunca houve a probidade
científica de se criar um ramo de estudo específico, geopolítico, geográfico, antropológico,
sociológico e histórico, que bem poderia receber o nome de africanologia ( ao tempo da
Guerra Fria, americanos e europeus estudavam já a "sovietologia" e ainda hoje se estuda,
sobretudo a CIA do Uncle Sam, a chamada "sinologia", tamanha é a preocupação com a
República Popular da China, com esse mega-fenômeno que já apoquentava Napoleão
Bonaparte ao aconselhar que deixassem adormecido o tigre de Pequim porque no dia em
que este despertasse, o mundo tremeria...) . Por que não AFRICANOLOGIA?!

• ACTO GERAL DA CONFERÊNCIA DE BERIM

DE 26 de Fevereiro de 1885
Os trabalhos dos antropólogos, etnólogos e historiadores são
concordantes no relevo concedido à especificidade e à excepcional
perenidade da cultura espiritual e material dos Bakongo
comparativamente com a dos outros povos do centro-oeste e sul de
África (48).
Em segundo lugar, porque a herança étnico-cultural dos Cabindas
fundada numa origem identitária comum (etnia Bakongo) e numa
grande densidade das relações colectivas e das solidariedades étnicas foi
sendo historicamente reforçada e fidelizada pelo uso e percepção do
espaço como produto cultural específico. Com efeito, as vastas
potencialídades geo-económicas da sua costa marítima - pesca,
salicultura, comércio, hidrocarbonetos - e os generosos recursos
florestais e mineiros do seu interior conjugaram-se numa feliz relação
de complementaridade e autonomia, enraizamento e mobilidade social
(49). Em 1895, um oficio do governador do Congo abordava a
dificuldade em levar os Cabindas a ausentarem-se da sua terra natal: "
(..) Este meu pedido resulta da relutância que todos os naturais deste
enclave têm em morrer fora dele, sendo, como é, o principal motivo de
repugnância que existe entre estes, em abandonarem a terra da sua
natalidade (..)" (50). São estes factores que conferem às sociedades
que os possuem em mais alto grau a consciência de comunidade política
e a orientação objectiva que as levam a demarcar-se e mesmo a tentar
impor o seu domínio sobre outros grupos sociais.
Finalmente porque, e ao invés do que sucedeu no vizinho Reino
do Congo que integrava o território do actual Estado de Cabinda e onde
os portugueses puderam estabelecer, desde o início relações pacíficas
fundadas no principio de igualdade de tratamento.
Em Cabinda estarão reunidas a diversidade e
complementaridade das características geográfico-naturais do seu
território e a coesão e especificidade etnocultural da sua população
temperadas por uma longa história de intensas comunicações entre os
seus membros e com o exterior, constituem, no nosso entendimento, o
"equipamento" de identificação, necessário e suficiente para integrarmos
os Cabindas no conceito de Povo tal como é definido por Karl Deutsch
(51). É esse Cabindas no conceito "equipamento" que, em última
análise, determina o êxito ou o fracasso das aspirações políticas de uma
comunidade.
Os Cabindas parecem tê-lo compreendido. Na ausência de
autonomia política, i.é., de instituições que assegurem e representem a
unidade política de uma comunidade, só a defesa dos seus valores
socioculturais (Mitos, Dogmas, Ritos, Poderes Místicos, etc.) poderá
preservar a solidariedade entre os diferentes segmentos sociais e os
interesses seccionais em conflito. Mais do que qualquer outra coisa,
pensamos que foi a adesão histórica dos Cabindas a esses valores
exteriorizados (e actualizados) pelas ritualizações simbólicas que lhes
permitiu pensar e agir como uma comunidade, lhes conferiu coesão e
continuidade.
Residirá aqui, em grande parte, a explicação para fenómenos
que justificariam bastante mais atenção por parte dos estudiosos: a
sobrevivência destes Bakongo à desarticulação do antigo "Reino" do
Congo nos finais do séc. XVII e princípios do séc. XVIII; a peculiaridade
das suas relações históricas com portugal; a singularidade e o sentido
afirmativo das escolhas adoptadas pelos Cabindas tanto no processo
oitocentista de "partilha da África" como nos p fenómenos mais recentes
da "Descolonização".

Notas :
29 - Por "Cabindas", termo de utilização comum na documentação
oficial, entende-se os naturais da Republica de Cabinda Territorial e
dominialmente definido aquando da partilha de África no séc. XIX.

30 - Cfr. J. da Silva Cunha, O Problema de Cabinda - Subsídios para a


sua Interpretação, in Revista, Africana, Centro de Estudos Africanos,
Univ. Portucalense, Porto, N. 12, Mar., 1993, p. 5.

31 - Cfr. João Falcato, 3a ed., Editorial Notícias, lisboa, 1961, p. 26

32 - Cfr. José Redinha, Distribuição Étnica, 1971, p. 9.


Sobre as particularidades do seu carácter veja-se: João de Matos e
Silva, Contribuição para o Estudo da Região de Cabinda, lisboa, 1904;
Augusto Nascimento, op. cit., pp. 171-197; José Martins Vaz, Filosofia
Tradicional dos Cabindas., pass., Agência Geral do Ultramar, lisboa,
1969.

33 - C&. Joaquim Martins, Sabedoria Cabinda (Símbolos e Provérbios),


Junta de Investigações do Ultramar, Lisboa, 1968.

34 - Cfr. Almada de Negreiros, História etnográfica da ilha de S. Tomé,


1895, p. 260, ap. Augusto Nascimento, op. cit., p. 172.

35 - João de Matos e Silva transcreve um registo de 1884 relativo a uma


viagem entre Benguela e Lobito a bordo de uma pesada baleeira onde
se alude explicitamente à grande robustez Física dos remadores
Cabindas (Cfr. op. cit., pp. 159-160).

36 - In Revista Internacional de Estudos Africanos, cit., pp. 171-197.


V. também, PhyIlis Martin, op. cit., pp. 45-57

37 - Nas cidades, os Cabindas imigrados habitavam bairros separados e,


nos dias de festa, reuniam-se para dançar e cantar a sua musica e
praticar os seus Ritos (Cfr. J- Matos e Silva, op.cit., p. 13).

38 - Cfr. Id., ibid., p. 20).

39 - Cfr. Pierre Verger, Flux et reflux de Ia traite des nègres entre le


Golfe de Bénín et Bahia de Todos os Santos du XVII au XIX siècle, Ed
Mouton, Paris, 1968, p. 346, ap. Carlos Moreira Henriques Serrano,
Poder, símbolos e imaginário social, os símbolos do poder na sociedade
tradicional, Centro de Estudos Africanos, Instituto de Antropólogo da
Universidade de Coimbra, Coimbra, 1983, p. 52.
40 - Cfr. L. Câmara Cascudo, Made in Africa, Ed. Civilização Brasileira,
Rio de Janeiro, 1965, p. 127, ap. Carlos Moreira Henriques Serrano, op.
cit., p. 53.

41 - A etnia (de ethnos: povo) é constituída por um agrupamento de


indivíduos, pertencentes à mesma cultura e que se reconhecem como
tal. Mais do que uma possível homogeneidade psicossomática, o seu
elemento essencial é a consciência colectiva que lhe assegura a coesão.
Do ponto de vista social a etnia constitui uma unidade mais vasta que a
família, o clã e a tribo.

42 - Alguns autores preferem a forma fonética simplificada Kongo


desprovida do prefixo Ba. Optámos por Bakongo que é o termo mais
comummente utilizado pelas fontes documentais de que nos socorremos
e mantendo-o invariável.

43 - Cfr. J. Van Wing, Etudes Bakongo, Sociologie - Religion et Magie,


Desclée de Brouwer, Léopoldville, 1959, p. 28.

44 - Cfr. José Redinha, op. cit., P. 8.

45 - Trata-se de uma palavra criada por W. Bleek, em 1826, formada a


partir da junção do prefixo "Ba" para formar o plural de "ntu" (pessoa).
Assim, com a designação "Bantu" (Ias pessoas) pretende-se identificar
um povo que falava a mesma língua (Cfr. B. Duarte, Literatura
Tradicional , Editora Didáctica 1975, p. 75).
As primeiras referências a este povo conhecidas datam de 943 A. C.
e são atribuídas a Mas'0udi, nas suas descrições do Golden Meadows
(Cfr. Maria Paula da Costa et. al, África Negra, Contribuição para o
Conhecimento Histórico Geográfico, Editores, lisboa - 1987 pp. 84-85 ) .

46 - 47 - Esclareça-se que se verificam algumas discrepâncias relativas


aos critérios classificativos utilizados por alguns autores.

48 - Tal constatação não se devera, certamente apenas a um melhor


conhecimento decorrente da existência de uma maior quantidade e
qualidade dos trabalhos de investigação sobre os Bakongo.
49 - A mobilidade não é, neste contexto, antagónica da ideia de
enraizamento, pois traduzem ambas o dualismo fundamental que
caracteriza, tanto histórica como hodiernamente, o espaço social as
relações litoral/interior (mar/terra) e interior/exterior; a mobilidade
exterior tem como objectivo essencial a criação de condições para o
enraizamento interior.50 - Cfr. A.H.S.T.P., c. 210, p. 4, M. único, ap.
Augusto Nascimento, op. cit., p, 188.51 - Karl Deutsch considera que "
uma comunidade compreende as pessoas que hao aprendido a
comunicar-se entre si, mais para alem do simples intercambio de bens e
de sevicos" e nao tem duvidas de que " a comunidade que, com uma
historia comum, permite ser experimentada como tal e uma comunidade
de habitos complementares e de facilidades de cominicacoes", " exige
um equipamento para a realizacao de uma tarefa" e "o equipamento
consiste nas recurdacoes gravadas, os simbolos, os habitos, as
preferencias efectivas e as facilidades complementares" concluindoque "
podemos chamar povo a um vasto grupo de pessoas ligadas por estes
habitos complementares e por estas facilidades de comunicacoes",
Nationalism and Social Communication, MIT Press, Cambridge, 1966, p.
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