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A PROFISSIONALIZAÇÃO DE MENORES NO BRASIL

1 Introdução

Nosso objetivo no presente artigo é o estudo da inclusão do menor no


mercado de trabalho brasileiro dentro do direito e seus aspectos jurídicos.
Trataremos inclusão do menor no mercado de trabalho, nas suas relações de
emprego e de como o mercado está adaptado para a profissionalização desses
menores, bem como discorrer acerca da legalidade da proteção trabalhista a estes
cidadãos, como garantia do Estado Democrático de Direito.

Na sociedade pós-moderna, e no cenário internacional, a temática do trabalho


de menores tem trazido grandes preocupações. A Declaração de Genebra de 1924
já apresentava precedentes de normatização internacional para o trabalho do menor,
mas temas específicos de regulação vieram em 1950 com a Declaração
Internacional dos Direitos da Criança, que elaborou regras para as medidas não
privativas de liberdade e formas de prevenção da delinquência juvenil por meio da
Declaração de Riad (Meireles 2011). Em 1959 é aprovada a Declaração Universal
dos Direitos das Crianças, aprimorada com as chamadas:

a) regras de Beijing, de 1985;


b) regras Mínimas das Nações Unidas para a Elaboração de Medidas não
Privativas de Liberdade (Regras de Tóquio) Adotadas pela Assembleia Geral das
Nações Unidas na sua resolução 45/110, de 14 de Dezembro de 1990., e;
c) as Diretrizes de Riad, para prevenção da delinquência juvenil 1990.

No continente americano, o tratado celebrado em 1969 o Pacto de San José


da Costa Rica - estabelece, em seu artigo 19, que “toda criança tem direito às
medidas de proteção que sua condição de menor requer por parte da família, da
sociedade e do Estado”. Entretanto apenas em 1989, através da Convenção
Internacional dos Direitos da Criança, foram editados princípios fundamentais
norteadores, a saber: o direito à vida, à liberdade, as obrigações dos pais, da
sociedade e do Estado em relação à criança e adolescente. Os estados signatários
ainda comprometem-se a assegurar a proteção dos menores contra as agressões,
ressaltando em seu artigo 19 o combate à sevícia, exploração e violência sexual.

Eixos da participação na sociedade, da sobrevivência e do desenvolvimento,


bem como do interesse do menor e a não descriminalização também foram tratados.
No campo da participação, os menores são pessoas sujeitos de direito, cabendo a
eles, sempre que possível expressar-se, devendo o poder publico escutá-los na
formação econômica e ou educacional do país, como formadores de decisões parte
da sociedade civil na qual estão incluídos.

Os Estados membros devem garantir o desenvolvimento dos seus membros,


bem como preservar a qualidade de vida dos menores, nos aspectos físico,
psicológico, moral e social, levando sempre em contas as aptidões de cada um. Nos
casos que houver alguma decisão por parte de instituições, seja no âmbito publico
ou privado que envolver o menor, deve ser considerada aquela que lhe ofereça o
menor prejuízo e maior bem estar. E para finalizar, nenhuma criança deve ser
prejudicada de forma alguma por motivos de raça, credo, cor, gênero, idioma, casta,
situação ao nascer ou por padecer de alguma deficiência física (Corrarino 2016).

A OIT da Convenção 138, estabelece a vedação ao trabalho perigoso e


insalubre aos menores, fixando a idade mínima em 16 anos, salvo na condição de
aprendiz, a partir dos 14, da qual o Brasil é signatário.

2 Relações de Emprego, Mercado e Profissionalização

Nas palavras do professor Brito Filho: “a diginidade da pessoa humana é a


base da vida em sociedade e dos direitos humanos (Filho 2004), lembrando a
Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) , é estabelecido que: “Todos os
homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e
consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”.
Nesse sentido, Kant determina que “cada um deles jamais trate a si mesmo ou aos
outros simplesmente como meios, mas sempre simultaneamente como fins em si”.
Continua o autor:

No reino dos fins tudo tem ou um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa
tem preço, pode-se pôr em vez dela qualquer outra coisa como equivalente;
mas quando uma coisa está acima de todo o preço, e, portanto, não permite
equivalente então ela tem dignidade. [...] O que se relaciona com as
inclinações e necessidades gerais do homem tem um preço venal; aquilo que,
mesmo sem pressupor uma necessidade, é conforme a um certo gosto, isto é
a uma satisfação no jogo livre e sem finalidade das nossas faculdades,
anímicas, tem um preço de afeição ou de sentimento; aquilo, porém que
constitui a condição só graças à qual qualquer coisa pode ser um fim em si
mesma, não tem somente um valor relativo, isto é um preço, mas um valor
íntimo, isto é, dignidade (Kant 1995)

É tratada também na Constituição brasileira de 1988, desde o preâmbulo o


valor essencial, consagrado nos seguintes termos:

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional


Constituinte para instituir um Estado democrático, destinado a assegurar o
exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o
bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores
supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos,
fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e
internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a
proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil
(grifos nossos).

Quem determina o conjunto de normas e regras, as atribuições bem como os


limites e direitos dos cidadãos, das instituições privadas e públicas e do Estado, é a
Constituição de um país. No Brasil ela é a lei fundamental, e se encontra no topo de
todo o ordenamento jurídico, não cabendo a nenhum outro dispositivo contraria-la.

No caso do menor, somado à Constituição está o Estatuto da Criança e do


Adolescente – ECA, lei de número 8.069 de 1990. O Eca é um marco na história de
proteção a infância e adolescente, pois nele estão determinadas questões dos
direitos fundamentais, sanções, tipificações de crimes contra a criança, órgãos que
devem prestar assistência, entre outros. Trazendo para nosso tema, a aprendizagem
está presente no ECA, conforme artigo 69 que determina:

Art. 69. O adolescente tem direito à profissionalização e à proteção no


trabalho, observados os seguintes aspectos, entre outros:
I - respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento;
II - capacitação profissional adequada ao mercado de trabalho.

O menor, como parte do povo e cidadão, tem direito à profissionalização e a


proteção no trabalho pautado no seu desenvolvimento e numa capacitação
adequada à sua idade e ao mercado. Não sendo um assunto novo, a aprendizagem
já estava prevista desde 1943 na Consolidação das Leis do Trabalho – CLT., logo
após a criação do SENAI em 1942. (Feliz 2008)

A Lei de Aprendizagem, também conhecida como a Lei do Aprendiz, é uma


alternativa para que jovens, entre 14 e 24 anos incompletos e é regulamentada pela
lei nº 10.097 de 2000. A contratação através dessa modalidade tem carga horária
reduzida, inscrição em curso de ensino técnico e atividades específicas que não
sejam prejudiciais ao desenvolvimento do adolescente e não interfiram nos estudos
regulares. Ela assegura o ingresso do menor no mercado de trabalho ao mesmo
tempo que lhe oferece garantias de direitos já estabelecidos e condições especiais,
tais como: máximo de dois anos de duração e não pode ultrapassar o limite de 24
anos de idade incompletos; a carga horária diária de trabalho não pode exceder seis
horas ( para aqueles que não completaram o Ensino Fundamental ); não pode
haver prorrogação e compensação de horários, de conformidade com o artigo 432
da CLT, se o Ensino Fundamental já tiver sido concluído; o limite diário será de no
máximo oito horas; são assegurados o contrato de aprendizagem com anotação na
Carteira de Trabalho e Previdência Social – CNTPS. Será fiscalizada a frequência
de curso de formação técnico-profissional para os casos em que já houver concluído
o Ensino fundamental e, caso o aprendiz não tenha concluído o Ensino
Fundamental, matrícula e frequência à escola.
3 Proteção contra Abusos do Trabalho do Menor

Além do Ministério do Trabalho, o Conselho Nacional de Erradicação do


Trabalho Infantil é responsável pela defesa do menor contra abusos relacionados ao
trabalho e ao mercado de trabalho. Também a Consolidação das Leis Trabalhistas –
CLT., no artigo 405, I, limita atividades de prestação de serviços em locais e
condições de perigo e insalubridade. Conjuntamente, o Ministério Público edita
portarias divulgando uma listagem descritiva de quais atividades são insalubres e
perigosas.

A Emenda Constitucional 20/98 subiu o limite etário, que antes era de 14 anos
para 16 anos, mas possibilitou para menores a partir de 14 anos o trabalho nos
contratos de aprendizagem. Essa mudança acabou atingindo a prática dos atos da
vida civil do menor, que antes era absolutamente incapaz, mas que, a jurisprudência
tem entendido que nestes contratos de aprendizagem, em que envolve os
aprendizes a partir de 14 anos, tornam-se relativamente incapazes, dando uma certa
autonomia no que tange os atos da vida civil. Vale ressaltar que, o menor nesta
situação continua impedido de dar quitação ao seu empregador quanto as verbas
rescisórias, exceto quando assistido pelo responsável legal. Neste sentido afirma o
artigo 439 da CLT.: É lícito ao menor firmar recibo pelo pagamento dos salários.
Tratando-se, porém, de rescisão do contrato de trabalho, é vedado ao menor de 18
(dezoito) anos dar, sem assistência dos seus responsáveis legais, quitação ao
empregador pelo recebimento da indenização que lhe for devida. (Trabalhista 1943)

É na CLT. Que encontramos maior aporte de medidas protetivas para


assegurar a dignidade do menor trabalhador. Alguns exemplos são:

a) vedação de trabalho noturno (22 as 5hs) para trabalhadores urbanos;

b) vedação de trabalho noturno (20 as 4hs) para trabalhadores rurais da


pecuária;
c) vedação de trabalho noturno (21 as 5hs) para trabalhadores rurais da
agricultura;

d) vedação de atividades em locais que possam prejudicar o


desenvolvimento moral;

e) autoriza o trabalho em praças, ruas e logradouros quando for


indispensável para sua subsistência e ou de sua família;

f) proíbe o trabalho de menor em subsolo ou que demande força muscular


superior a 20 quilos para trabalho contínuo e de 25 para trabalhos
ocasionais.

g) Limita a jornada de trabalho admitindo-se apenas a compensação de


jornada e a sua prorrogação e ainda sim, quanto a esta última, apenas
quando for decorrente de força maior;

h) fazer coincidir o período de suas férias escolares com as férias do


trabalho.

4 Conclusão

Foi com o olhar voltado para a proteção da dignidade da pessoa do menor,


que a produção de melhorias na condição social dos menores começou a surtir
efeito sobre sua realidade.

É fato que ainda assim, encontramos diversos casos, principalmente em


zonas urbanas mais desenvolvidas de menores escravizados, entretanto os direitos
individuais trabalhistas são indisponíveis e não podem ser renunciados ou
abdicados. A lei assegura um piso salarial mínimo, juntamente as associações e
sindicatos de classe a fim de consolidar a dignidade do trabalhador.

A dignidade do menor passa também por seu bom desenvolvimento físico e


moral. A Constituição Federal de 1988, junto com a Consolidação das Leis
trabalhista e o Eca têm papel fundamental para regular as normas que viabilizam e
determinam os direitos concernentes ao menor trabalhador. A fiscalização também
torna-se primordial, para fazer valer a aplicação daquelas. Vale lembrar o caso de
uma apresentadora de 6 anos, numa emissora de grande porte, em que o Ministério
Público interviu instaurando inquérito civil público para verificar se havia violação e
desrespeito a dignidade do menor em desenvolvimento. Para demonstração
trazemos a jurisprudência transcrita in verbis:

RESP 278356 - ECA - PARTICIPAÇÃO DE MENOR EM ESPETÁCULO PÚBLICO - PROGRAMA DE TV -


ALVARÁ JUDICIAL. RECURSO ESPECIAL Nº 278.356 - RJ (20000095440-3)

EMENTA
ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE (ECA); PARTICIPAÇÃO DE MENOR EM ESPETÁCULO
PÚBLICO; PROGRAMA TELEVISIVO; ALVARÁ JUDICIAL; IMPRESCINDIBILIDADE; ART. 149, II DO ECA;
MULTA; ART. 258 DO ECA; PRECEDENTES.

Os programas de televisão têm natureza de espetáculo público, enquadrando-se a


situação na hipótese prevista no inciso II, do art. 149 do ECA.

A participação da criança e/ou adolescente em espetáculo televisivo, acompanhado


ou não dos pais ou responsáveis, não dispensa o alvará judicial, a teor do disposto
no art. 149, II do ECA.

A falta do alvará judicial autoriza a aplicação da multa prevista no art. 258 do ECA.
Recurso especial não conhecido.

Falamos da técnica constitucional, da interpretação, das normas nacionais e


internacionais e de como elas tem se preocupado com a dignidade da pessoa do
menor, buscando elementos para estabelecer critérios que limitem, protejam e ao
mesmo tempo assegurem os direitos do trabalhador menor e que não lhe prejudique
o desenvolvimento físico e moral. Dessa forma concluímos que apesar das melhoras
nos quadros sociais no âmbito do trabalho do menor, a proteção da dignidade da
pessoa do menor no mercado de trabalho é de natureza contínua e algumas
distorções legais ainda demandam reparos.
Referência Bibliográfica

Corrarino, B. Shaw Drake and Megan. U.S. Stands Alone: Not Signing U.N. Child
Rights Treaty Leaves Migrant Children Vulnerable. S.L., 13 de Out de 2016.

Feliz, Claudia. “Os avanços e os entraves da Lei do Aprendiz.” Projeto Viver Vida. 10
de Jun de 2008.
http://projetovivervida.blogspot.com.br/search?q=os+avan%C3%A7os+e+os+entrave
s+ (acesso em 09 de Out de 2017).

Filho, Jose Claudio Monteiro de Brito. Trabalho com redução do homem a condição
análoga de escravo e dignidade da pessoa humana. Belem, 14 de Abr de 2004.

Kant, Immanue. Fundamentação da metafísica dos costumes. Tradução: Paulo


Quintela. Lisboa: Edições 70, 1995.

Meireles, José Humberto Abrão. Trabalho infantil: brechas autorizam trabalho de


menor de 14 anos. 02 de Fev de 2011.

Trabalhista, Consolidação das Leis. “Planalto Federal.” 01 de Mai de 1943.


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del5452compilado.htm (acesso em
09 de Out de 2017).

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