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Universidade Federal de Juiz de Fora

A modernidade líquida em Black Mirror

Grupo:
Anna Luiza Oliveira
Dina Bitencourt C. de Oliveira
Gabriela Rodrigues Luiz
Jacqueline Silva
Paulo José Inácio Filho
Thaís Corrêa da Costa
Victor Hugo dos Reis Lucas

Sociologia: História, Temas e Atualidade


Prof. Gustavo Paccelli

Juiz de Fora, 10 de julho de 2017


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Resumo

O presente artigo busca estabelecer um paralelo entre o conceito de modernidade líquida de


Zygmunt Bauman e a imagem da sociedade construída no seriado Black Mirror. Para
exemplificar o paralelo, analisaremos o segundo episódio da segunda temporada – White Bear – e
o primeiro episódio da terceira temporada – Nosedive.

Palavras-Chave: Modernidade Líquida. Black Mirror. Tecnologia

1. A modernidade líquida

Modernidade liquida é o termo usado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, para
explicar e criticar a contemporaneidade. Segundo ele, as palavras “líquido” e “fluidez” são
fundamentais para representar a era moderna; algo fluido é uma substância que não possui forma
própria e se deforma facilmente, e líquido é um estado intermediário entre os estados sólido e
gasoso. Dessa forma, faz-se o paralelo de que substâncias fluidas ou líquidas têm um aspecto de
mudança parecido com as questões do cotidiano da vida moderna.
Para Bauman, a modernidade liquida é leve, veloz, fluida e mais dinâmica que a
modernidade sólida. Marx e Engels (2007) já disseram no manifesto comunista que “tudo que era
estável e sólido se desmancha no ar.” A sociedade pré-moderna era sólida, estável e mantinha as
relações padronizadas entre o sujeito e as instituições sociais, padrão este que indicava as
condutas a serem seguidas e que permitia a manutenção das rotinas. A estabilidade do estado,
família, emprego, igreja, da sociedade tradicional de modo geral, impunha uma certa noção de
coletividade, na qual existia um sistema de castas e não havia possibilidade de ascensão.
Logo após o renascimento e as grandes revoluções, as pessoas começam a desenvolver
um caráter individual, a personalidade, a subjetividade, e assim os homens passam a valorizar sua
feição própria. Em virtude disso, acontece o início da liberdade individual, principal marco da
modernidade. As relações sociais estão mais frágeis e não mantêm sua forma com facilidade, de
modo que os primeiros sólidos começam a derreter. Para o sociólogo, derreter os sólidos
significava eliminar as obrigações irrelevantes que impediam a racionalidade. Com isso, ocorreu
a libertação da economia e de seus tradicionais embaraços políticos, éticos e culturais.
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Ainda convém lembrar que, segundo alguns estudiosos, toda estrutura social montada em
torno da relativa rigidez da sociedade dilui-se. Na contemporaneidade o indivíduo consegue agir
conforme as suas vontades e também responde pelos seus atos, no entanto, com as estruturas
sociais mais inconstantes e líquidas o mundo fica cheio de incertezas e acaba faltando referências
estabelecidas.
"São esses padrões, códigos e regras a que podíamos nos conformar, que
podíamos selecionar como pontos estáveis de orientação e pelos quais podíamos
nos deixar depois guiar, que estão cada vez mais em falta. Isso não quer dizer
que nossos contemporâneos sejam livres para construir seu modo de vida a partir
do zero e segundo sua vontade, ou que não sejam mais dependentes da sociedade
para obter as plantas e os materiais de construção. Mas quer dizer que estamos
passando de uma era de 'grupos de referência' predeterminados a uma outra de
'comparação universal', em que o destino dos trabalhos de autoconstrução
individual (…) não está dado de antemão, e tende a sofrer numerosas e
profundas mudanças antes que esses trabalhos alcancem seu único fim genuíno:
o fim da vida do indivíduo." (BAUMAN, 2001)

O ponto mais alto do mais alto individualismo é o fim de projetos e ações coletivas. Como
tudo acaba sendo incerto, vivemos com o desejo de buscar apenas a satisfação individual, pois,
devido à instabilidade, não nos preocupamos com o futuro. Dessa maneira, o sujeito líquido
voltado para si não se preocupa com os problemas coletivos. Além disso, com o avanço da
tecnologia, passamos a ser mais instantâneos, o tempo passa a sobrepor o espaço. A aproximação
das distâncias trouxe uma nova forma de comunicação, entretanto, as relações pessoais estão cada
vez mais frágeis porque o sujeito liquido tem medo de se relacionar. Daí temos relacionamentos
que se iniciam, mas também se acabam, com extrema facilidade e rapidez, causando uma
disposição ao isolamento social. O homem líquido não mantém relacionamentos duradouros. Para
Bauman, nada é feito para durar.
Os indivíduos vivem pelo presente e qualquer ideia de eternidade é rejeitada, dando
prioridade à intensidade de cada momento vivido. Essa falta de preocupação com o amanhã, com
“o mundo como herança”, perpetua o sentimento de individualidade e contribui com a busca
incessante por identidades. Nessa busca, o consumo é seu grande aliado - é pela aquisição e
posterior descarte de bens que as pessoas constroem o seu verdadeiro eu e tentam satisfazer seus
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desejos que, como Bauman bem coloca, nunca serão satisfeitos - essa é a regra primordial da
sociedade líquida.
Nesse contexto efêmero de bens e do próprio ser humano é que a tecnologia encontrou
terreno para se consolidar como algo indispensável ao cotidiano. Ao contar com a breve vida útil
ou com a expressa modernização de seus meios é que a tecnologia se tornou uma ferramenta
crucial da vida líquida - ela exige que seus usuários fluam, modernizem-se, adaptem-se e
descartem o que não lhes serve mais. Assim, aqueles que não conseguem acompanhar o seu
progresso, correm o risco de serem descartados, conforme considera Bauman: “As preocupações
mais intensas e obstinadas que assombram esse tipo de vida são os temores de ser pego tirando
uma soneca, não conseguir acompanhar a rapidez dos eventos, ficar para trás” (2009, p.8). É
nesse ambiente obscuro que a sociedade perpetua, além do medo de ser descartado por sua
própria obsolescência, sua insegurança pública e o medo do outro. Esse medo também virou um
precioso incentivador do consumo, fazendo com que as pessoas passem a investir cada vez mais
em sua segurança, e cada vez mais abram mão de sua liberdade por isso.
Essa sociedade insegura dedica muito de sua energia para tentar punir os infratores, na
busca por uma compensação ao sofrimento. Sofrer algo diferente da penalidade adequada por um
crime ou contravenção é percebido como evitável e injustificado. E nesse contexto, temos
também a cultura da vitimização. Punir os culpados é uma forma de compensação pelo dano
sofrido, e isso, de certa forma, restaura a segurança que foi perdida com o dano. Mas ao mesmo
tempo que a sociedade busca a punição/compensação da violência sofrida, reafirma sua situação
de insegurança e de descrença nos indivíduos, abrindo mão, muitas vezes, de sua própria
liberdade para manter-se longe dos perigos do outro, do desconhecido, do estranho. E com essa
privação da liberdade e resistência aos espaços públicos - os quais nos expõem ao risco por nos
forçarem o convívio humano - é que a tecnologia ganha cada vez mais espaço. E então Bauman
questiona: “É possível superar o medo e ao mesmo tempo fugir do tédio?” (2009, p.100).

2. Um futuro muito presente: Black Mirror

Black Mirror é uma produção britânica de ficção seriada que foi ao ar pela primeira vez
no Channel 4 em dezembro de 2011. A série tem sido aclamada pela crítica desde seu
lançamento. A série foi criada por Charlie Brooker, um renomado escritor, roteirista e humorista
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inglês. Atualmente, está em sua terceira temporada, distinguindo-se, estruturalmente, da maior


parte das produções de narrativa seriada, pois, segundo Brooker, em sua entrevista para o jornal
britânico The Guardian, (em tradução livre), “(...) cada episódio tem um elenco diferente, um set
diferente e até uma realidade diferente, mas todos eles são sobre a forma como vivemos agora”.
A série gira em torno de uma crítica social e aborda a questão da tecnologia e sua relação
com o ser humano, e até onde a sociedade é capaz de ir, ou como é capaz de agir diante da
influência dos meios tecnológicos. O ponto crucial da série consiste em levantar críticas sobre o
individualismo e a fragilidade nas relações atualmente, a fim de que o telespectador possa refletir
e ponderar sobre a maneira que faz uso das tecnologias.
Para atingir seu objetivo de choque e reflexão do público, a série traz uma dose de ficção
científica, com vários episódios apresentando algumas tecnologias inexistentes e com conceitos
que nos parecem até um tanto absurdos ou inalcançáveis, mas que ainda assim são facilmente
relacionáveis com situações do nosso cotidiano. O mundo e a sociedade retratados na série são o
nosso mundo e sociedade contemporâneos, ainda que em alguns momentos se apresentem como
uma espécie de realidade paralela, onde abre-se espaço para essa dose de ficção científica. A
exploração deste desenvolvimento tecnológico serve para explorar os limites do comportamento
humano, no que resulta em uma análise da nossa sociedade contemporânea.
Black Mirror fascina tanto o público pois é um dedo na maior ferida de nossa geração: o
uso excessivo da tecnologia, como ela nos afeta e como somos dependentes dela. Nós podemos
nos enxergar nas situações apresentadas e refletir sobre nosso relacionamento com o mundo à
nossa volta, desde as pessoas, as instituições e mesmo os objetos. A série usa de um humor
cínico, suspenses e situações desagradáveis, nos chocando por, infelizmente, ser tão real. Mas é
importante percebermos que a tecnologia é apenas um veículo para nos abrir os olhos para o real
problema.
A série explora os vícios da sociedade usando de excessos tecnológicos. É uma espécie de
Cavalo de Tróia: achamos que o problema são os celulares, as conexões, quando na realidade o
culpado está ali o tempo todo. A imperfeição humana. O homem líquido. A tecnologia é apenas
reflexo do individualismo, da inconstância e da fragilidade do homem contemporâneo, que está
sempre a buscar formas de satisfazer seus desejos, seu ego e ter sempre novidade, novos
estímulos, mudanças que não lhe permitam entrar em estado de solidez.
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A exposição total em redes sociais, a cobertura excessiva da mídia sobre a vida alheia, o
voyeurismo criado por reality shows, todos são temas abordados na série e que criam em nós a
sensação de que estamos à beira de um precipício moral. Estamos 24hrs por dia conectados e essa
barreira entre o real e virtual já nem existe mais. Black Mirror explora muito bem essas novas
regras que surgiram há pouco tempo, mas já causam uma das maiores mudanças que a sociedade
sofreu em sua história. Nosso desejo descontrolado em entretenimento, a necessidade de contar a
tudo e todos o que estamos sentindo, a ansiedade sobre a vida dos outros. A tecnologia não criou
novos comportamentos, mas nos ajudou a extrapolar.
Não ficamos mais sozinhos com nós mesmos, não ouvimos mais além dos fones, sair de
casa é sinônimo de gastar, e quanto mais se gasta mais a sensação de que deveríamos gostar
daquilo fica forte. Passamos o dia olhando para uma tela imaginando o fim de semana, e quando
ele chega não parece que aproveitamos de fato. A bateria do celular não pode acabar, temos que
ter sempre o modelo mais novo, precisamos postar nosso prato de comida e dizer o quanto nossos
animais de estimação são engraçados. As fotos estão nas nuvens, não na sua estante.
Black Mirror é um retrato da nossa sociedade e usa o tema da tecnologia para falar
principalmente sobre nós mesmos, sobre como nossos comportamentos estão voltados para a
nossa individualidade e não para o bem comum de toda a sociedade. Temos tanto medo de nos
relacionar, mas ainda mais medo de não sermos notados, de estarmos sozinhos, e como solução
criamos uma segunda vida, virtual, que preserve nossa liberdade, mas alimente nossa ilusão de
que estamos conectados aos outros.

2.1. White Bear

Neste episódio uma mulher é levada a júri popular, sendo 'torturada' por ter cometido um
crime. Ela é forçada a passar pela mesma situação por diversas vezes, e isto se torna um
espetáculo em que as pessoas pagam para assistir e participar, usando seus celulares para filmar e
tirar fotografias, fazendo com que ela pague pelo crime cometido "na mesma moeda".
É possível relacionarmos a situação com a modernidade líquida em questão da
insegurança da sociedade e seu consequente desejo de punir os infratores, como abordado
anteriormente. As pessoas têm medo da liberdade e da segurança que o estado não é capaz de
garantir. Segundo Bauman, o ser humano precisa de segurança e de liberdade: “Liberdade sem
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segurança é um completo caos”. Os produtores desse episódio dissertam sobre a sociedade estar
cada vez mais decidida de praticar "justiça com as próprias mãos". Diante de todo o
acontecimento do crime, foi criado essa espécie de esfera, o instituto Parque da Justiça, o qual
tenta por meio de pessoas comuns, as quais estão indignadas com o crime, ultrapassar a justiça
convencional, julgando o Estado incapaz de conduzir o julgamento do caso, e assim passam a se
considerar na função de juízes.
Pode-se analisar também pelo ponto de vista da falta de visão de coletividade e o
individualismo, a partir do qual o homem tem a necessidade constante de estar sempre julgando e
se comparando ao outro. E diante da tecnologia, estes julgamentos ganham voz. As redes sociais
são estabelecidas como pilar que nos impulsiona a expor todas as nossas opiniões, quaisquer que
elas sejam, nos incitando e encorajando, uma vez que podemos nos “esconder” atrás da tela.

2.2. Nosedive

Neste episódio a crítica também se remete à dimensão que o uso da tecnologia toma na
sociedade contemporânea. A personagem principal, bem como todos os outros personagens, tem
sua vida baseada em um aplicativo que avalia suas atividades no âmbito social. As pessoas
avaliam umas às outras a cada interação, podendo perder ou ganhar estrelas de acordo com as
suas ações. É tudo uma questão de status “ser”. Para conseguir uma casa nova ela precisa se
tornar popular, ser “aprovada” pelas pessoas mais populares.
As relações são frias e instáveis, nada dura para sempre. As pessoas devem basicamente
seguir uma fórmula e um padrão o tempo inteiro para agir dentro dos padrões e ser assim bem
avaliado. Cria-se uma personalidade falsa, que obriga as pessoas a serem o que não são de fato
para que sejam aceitas. Tudo gira em torno de interesses, assim como na sociedade em que
vivemos, em que as pessoas só fazem algo a partir do momento que se certificam que serão
recompensadas. Nos expomos tanto em busca de reconhecimento e gratificação, agimos de forma
engessada com medo de reprovação. Sempre queremos a atenção de pessoas vistas como
populares e deixamos de lado aquelas que são excluídas.
A crítica maior do episódio está focada em mostrar que vivemos em um mundo de
aparências, troca de curtidas e ter atenção a qualquer custo. Ao longo da jornada da protagonista
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podemos perceber que isso tudo é em vão e um pequeno deslize acaba com tudo como se fosse
um castelo de cartas.
É interessante relacionar que apesar do episódio criar uma realidade paralela, parecendo
ser algo que não existe de fato na vida real, em níveis mais amenos nossa sociedade funciona sim
cada vez mais baseada em avaliações. Este aplicativo de “ranking de pessoas” já existe para
restaurantes, táxi, shopping, lojas e etc. Na China há um estudo para a implantação desse sistema
como visto no episódio, em que o governo usaria dessas informações para avaliar as pessoas e os
bancos também usariam para saber se podem fazer financiamentos ou não para aqueles que
solicitam.

Conclusão

Vemos cada vez mais a sociedade atual se voltar para os "espelhos negros": as telas de
nossas TVs, celulares, tablets e computadores. Os indivíduos, em toda sua liquidez, como
descrita por Bauman, e em uma sociedade que muda constantemente e se dilui diante de nossos
olhos, baseiam agora suas vidas mais nas relações virtuais do que nas reais. A tecnologia abriu
espaço para que o homem pudesse extrapolar seu individualismo e seu ego, que já eram foco
desde o início da modernidade, fazendo com que novas formas fossem encontradas de lidar com
o paradoxo entre sua liberdade e sua insegurança.
A realidade é que no mundo atual, quanto mais nos 'conectamos', mais nos isolamos.
Quanto mais complexas são as nossas redes, mais frágeis se tornam as nossas relações. O espaço
e o tempo parecem desconectados, e a velocidade com que tudo muda nos alarma e nos
transforma em seres cada vez mais mutáveis e ansiosos. Não sabemos o que vem pela frente,
onde os constantes avanços tecnológicos irão nos levar. Mas diante do entendimento do indivíduo
contemporâneo, séries como Black Mirror parecem bastante reais, e não tanto assim uma ficção,
e com certeza deveríamos estar assustados com os caminhos que a sociedade pode tomar.
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Bibliografia

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

ZYGMUNT BAUMAN | "Modernidade Líquida" | Entrevista. Disponível em:


<https://www.youtube.com/watch?v=GTu_bycoEEw >. Acesso em: 08 jul. 2017.

Bauman modernidade líquida. Disponível


em: <https://www.youtube.com/watch?v=S6CL_YW6a6Y>. Acesso em: 08 jul. 2017.

Black Mirror - A modernidade líquida e a prisão tecnológica de White Bear. Disponível em


< http://eventos.ufpr.br/enpecom/enpecom2016>. Acesso em: 05 jul. 2017

CORAL, Guilherme. Crítica | Black Mirror – 2ª Temporada. Disponível em:


<http://www.planocritico.com/critica-black-mirror-2a-temporada/ >. Acesso em: 09 jul. 2017.

GAMA, Zacarias. A quem serve a modernidade líquida de Bauman?. Disponível em <


http://justificando.cartacapital.com.br/2017/01/11/quem-serve-modernidade-liquida-de-
bauman3/>. Acesso em 09 jul. 2017.

OLIVEIRA RODRIGUES, Lucas de. Modernidade Líquida. Disponível em:


<http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/sociologia/modernidade-liquida.htm >. Acesso em 09 jul.
2017.