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Língua e nacionalismo

Olavo de Carvalho
O Globo, 3 de março de 2001

Políticos, escritores, professores advertem-nos diariamente contra a invasão dos


"deletes", dos "mouses", dos "enters" e "starts" que povoam nosso espaço lingüístico.
Até universitários incapazes de conjugar um verbo ou colocar pronomes arvoram-se em
guardiões da pureza vernácula, distribuindo nas ruas panfletos contra o imperialismo
cultural nas horas de estudo em que deveriam estar aprendendo português. E dizem até
que servem ao idioma com mais devoção do que a Academia Brasileira.

Todos esses melindres patrióticos são demasiado posados para que cheguem a me
comover. Não vejo neles senão o oportunismo de demagogos que, em vez de cultivar o
idioma, querem usá-lo como pretexto para gerar um estado de alarmismo xenófobo útil
a seus propósitos políticos.

A desculpa a que se apegam, de que a importação vocabular predispõe à subserviência


ante o imperialismo, é a mais falsa e estúpida que se pode imaginar. Se existe idioma
que importa mais do que exporta, é precisamente o inglês, o qual, de acordo com esse
raciocínio, deveria ser língua dos dominados e não dos dominadores. Segundo a
"Cambridge History of English and American Literature" (Vol. XIV, Part II, Cap. 15 §
7), o empréstimo, sobretudo do francês e do italiano, é prática tão extensiva no inglês
moderno, que só um quinto das suas palavras dicionarizadas é de origem nativa.
Estariam os ianques sob o domínio do imperialismo franco-italiano?

Uma língua não é uma simples coleção de palavras. É um sistema. A natureza, o


espírito, o valor do idioma estão na sua estrutura dinâmica, no conjunto de regras que
dão a sua forma total, a qual está para as palavras isoladas como as proporções e o
desenho de um edifício estão para os tijolos que o compõem. Por isso, palavras
importadas não têm, por si, a força de corrompê-lo.

A corrupção começa no momento em que os falantes dão de usar termos nativos


enxertados em construções frasais copiadas do exterior, que sejam incompatíveis com o
espírito do idioma. Aí já não se trata de inserir tijolos, mas de alterar a planta do
edifício. Mais dano traz à língua nacional quem escreve palavras portuguesas com
sintaxe estrangeira do que quem usa palavras estrangeiras numa construção
castiçamente vernácula. Este enriquece o idioma: aquele o contamina e infecciona. Um
traz alimento; o outro, um vírus. Por isso, adverte a mesma Cambridge History:
"Quaisquer que sejam os elementos que compõem o nosso vocabulário, o modo com
que se empregam é puramente inglês."'E aí é que está o mal: não podemos dizer o
mesmo dos termos que absorvemos. Com freqüência alarmante, esquemas e
maneirismos frasais ingleses, inúteis e estritamente pedantes, têm entrado no nosso uso
corrente. Nos jornais já não se diz, por exemplo, "na semana passada" e sim "semana
passada", sem preposição, para corresponder ao inglês "last week". Nem se escreve
mais: "Não tenho dinheiro, disse ele", sugestiva inversão da ordem de verbo e pronome
com que o narrador marcava sua distância psicológica do personagem. Escreve-se "Não
tenho dinheiro, ele disse, perdendo a nuance, só para rimar com "I have no money, he
said".

Porém, se você protesta contra esses abusos, quem se levanta para defendê-los,
chamando você de "purista", de "reacionário", de "lusófilo"? Aqueles mesmos que cinco
minutos antes queriam fechar a alfândega às importações de palavras. Sim, porque em
geral essas criaturas não são verdadeiros nacionalistas e sim marxistas, que só defendem
o interesse nacional na medida em que, ecoando uma teoria absurda inventada por
Stálin, enxergam as relações internacionais como luta de classes. Por extensão, são
também adeptos do progressismo lingüístico, segundo o qual toda construção nova é
melhor que a velha, bem como da ideologia da transgressão obrigatória, segundo a qual
toda regra lingüística é imposição tirânica das classes dominantes, odioso mecanismo de
exclusão social contra o qual é preciso lutar com todas as armas, mesmo as da mentira e
do achincalhe.

Assim, as forças de dissolução lingüistica entram no mercado sob a proteção daqueles


mesmos que posam como defensores do idioma.

Mas isso não vem de hoje.

Se algum fator dissolvente vem corrompendo e debilitando a língua portuguesa do


Brasil, é precisamente o transgressivismo obrigatório que, desde o modernismo, se
afirma cada vez mais como ideologia dogmática desses corruptores de menores que hoje
dominam a educação nacional. Tal é o maior inimigo da língua pátria, tal é o agente
destrutivo que há um século vem solapando e embrutecendo o nosso idioma,
despojando-o de toda precisão e sutileza, de toda destreza e flexibilidade, reduzindo-o a
um sistema de cacoetes que limita severamente o círculo do dizível, portanto do
pensável.

No começo do século XX, ele forçou a brasilianização estereotipada que, rompendo


nossos laços culturais com Portugal, foi tornando cada vez mais inacessível às novas
gerações a leitura dos clássicos lusos, favorecendo a fragmentação do português num
esfarelado de dialetos provincianos mutuamente incompreensíveis. Graças a ele,
qualquer brasileiro culto tem hoje mais dificuldade para ler Camilo Castelo Branco ou
Aquilino Ribeiro do que um menino americano para ler Dickens ou Thackeray.

Também por conta dessa ideologia adquirimos um conjunto de preconceitos e inibições


antigramaticais, estendendo a pecha de "pedantismo" ao que quer que vá além do
tatibitate cotidiano de jovens mongolóides e privando-nos masoquisticamente de
instrumentos poderosos e originais como a mesóclise pronominal. Na sua ânsia de vetar,
de inibir, de paralisar a mente das camadas letradas para reduzi-la à inermidade
psicológica e lingüística das classes pobres, o nacional-populismo conseguiu fazer da
língua portuguesa falada no Brasil o único idioma ocidental que, no século XX, perdeu
dois pronomes e duas pessoas verbais, estando agora obrigado a usar de circunlóquios
ou a apelar para a ajuda dos possessivos ingleses "his" e "yours" para que o ouvinte
saiba de quem se está falando. Isto já é mais que simples enfraquecimento do idioma: é
a completa destruição de seus fundamentos, por obra de dinamitadores que entram no
edifício disfarçados em funcionários da limpeza.
O nacional-populismo-transgressivismo não é um nacionalismo verdadeiro. É uma
doença, um complexo. Rebaixando os valores nacionais à condição de instrumentos de
uma estratégia política interesseira, ele destrói o que finge defender. Se queremos
preservar o idioma nacional, a cultura nacional, a honra nacional, a primeira coisa que
temos de fazer é tirá-las da guarda e tutela de usurpadores, farsantes e aproveitadores.