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ANTROPOlógicas

2015, nº 13, xx-yy

A Performance da Etnografia como Método da Antropologia

Ricardo Seiça Salgado


CRIA - Centro em Rede de Investigação em Antropologia
Portugal

RESUMO
Pensamos a etnografia enquanto modo de ação e, na sua relação aberta e íntima com a teoria, também enquanto
modo de expressão. A própria comparação deixa de estar na cultura para passar a estar na etnografia, no destino
que o antropólogo dá aos dados etnográficos. A etnografia constitui-se como o modo epistemológico da antro-
pologia. É justamente pela sua natureza que se percebe a relação entre a prática etnográfica e a teoria antropoló-
gica. Serve este artigo para dar conta do procedimento construtivista do conhecimento, de como ele emerge e se
sedimenta por via da metodologia que afinal caracteriza a antropologia.

PALAVRAS-CHAVE: etnografia; comparação; metodologia; performance.

ABSTRACT
We understand ethnography as a mode of action as well as a mode of expression, in its open and intimate
relationship with theory. Comparison itself is no longer in the culture but is to be found in ethnography, at the
destination anthropologist gives to his ethnographic data. Ethnography becomes the epistemological mode of an-
thropology. It is precisely because of the ethnography nature we perceive the relationship between ethnographic
practice and anthropological theory. This article serves to account for the constructive procedure of knowledge,
how it emerges and settles through the methodology that ultimately characterizes anthropology.

KEYWORDS: ethnography; comparison; methodology; performance.

A etnografia é um termo de significados flutuantes, que se produz conhecimento antropológico. Serve este
negociados ao longo da história da antropologia, ela artigo para dar conta do procedimento construtivista
carece sempre de um enquadramento com o desenho do conhecimento, de como ele emerge e se sedimenta
da investigação. Não nos deteremos nessa história do por via da metodologia que afinal caracteriza a antro-
conceito, mas interessa delinear o denominador co- pologia.
mum que norteia o que entendemos por etnografia,
de forma a clarificar a metodologia que poderá en-
quadrar uma viagem etnográfica. Sobretudo, a partir 1. Etnografia
como ação: os papéis
do momento em que se pensa a etnografia enquanto e qualidade da participação
modo de ação, como uma experiência que é vivida,
que é registada, e sempre numa relação aberta e ín- Numa primeira aceção, a etnografia deve ser enca-
tima com a teoria, isto é, enquanto modo de expres- rada como o produto de um cocktail de metodologias
são. É aqui que se podem potenciar relações, conexões que partilham da suposição que o envolvimento com
possíveis com questões e dimensões mais amplas: seja o sujeito é chave para a compreensão de uma cultura
do jogo de apreensão e perceção das práticas culturais ou moldura social particular. Essa moldura sociocul-
e as perspetivas teóricas que as podem enquadrar e tural possibilita configurarmos um contexto, de onde
explicar, seja do simples jogo de variação das escalas emergem as questões, os enigmas da investigação,
de análise, das micro às macropercepções, no proces- permitindo pensar o modo como o trabalho poderá ser
so de interpretação de uma determinada experiência. realizado. A componente comum deste cocktail de me-
Trata-se de dar conta de como as mudanças sociais e todologias é a observação participante, o método fa-
culturais podem emergir das práticas que os dados vorito da antropologia. Combina entrevistas formais,
etnográficos evidenciam e evocam, da experiência re- informais, com uma miríade de histórias, eventos
gistada, e de como a partir de uma microhistória (da consequentes do encontro localizado no quotidiano,
experiência vivida com o interlocutor) se podem con- resultante da prolongada estadia no terreno.
ceptualizar mudanças mais amplas, ou seja, de como A etnografia abrange, portanto, métodos que envol-
do micro se pode iluminar o pensamento e a com- vem contacto social direto e continuado com os agen-
preensão do macro (da experiência de estar e ser no tes da investigação. Implica, por isso, um sentido de
mundo). É dentro da dialética entre etnografia e teoria estar presente. A tarefa etnográfica refere a experiência
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que se adquire com as práticas incorporadas do encon- do tradicional, ao recusar reduzir a experiência vivida
tro dialógico com o outro, que considera o dialógico a modelos mecânicos que representam o essencial da
como um evento1, decorrente das interações sociais experiência vivida no terreno, “dos” e “com os” inter-
entre investigador e seus interlocutores. A etnografia locutores. Na antropologia, esta proposta é sistema-
pretende explicar e analisar a partir da tradução da ex- tizada sobretudo a partir de Jackson (1989), e advém
periência resultante com o outro, e reconhece, identifi- do regresso do corpo como categoria central na teoria
ca e regista como essa experiência embarca no fluxo da antropológica, por volta da década de oitenta do sé-
história. É por isso que requer participação, é aqui que culo XX, onde o método se dilui com a filosofia (num
se eliciam, extrai e suscitam os dados, o lugar onde período da crítica pós-modernista).
emerge e sai informação. É através da participação que Para Jackson, o foco de interesse privilegiado desta
se produz informação, induzindo um mais profundo estratégia metodológica, o empiricismo radical, refere-
entendimento da realidade estudada. Ao induzir-se, se à importância do encontro etnográfico, da prática
leva-se alguém a praticar um ato, mas também, por no terreno. É no encontro, nas interações com aqueles
via desse ato induzido, se deduz e infere outra multi- com quem o antropólogo vive ou estuda que se pode
plicidade de dados (e é aqui que pode surgir a potên- produzir uma espécie de energia empática da parti-
cia da combinação das várias escalas de análise). Esta cipação corpórea do antropólogo, da sua experiência
consciência da participação, enquanto modo de com- pessoal participada com os outros, os interlocutores.
preensão das outras culturas, foi sempre o âmago da Há uma clara primazia na interação observador/
antropologia, já desde Malinowski. A observação par- observado, enquanto ponto crucial da etnografia. O
ticipante implica, portanto, a performance, um estar contexto que enquadra o encontro entre investigador
e ser com o outro, de forma a melhor o compreender, e interlocutor (em confronto com o desenho da inves-
enquadrando o seu habitat de significado, o enqua- tigação) contém e é afetado por se realizar numa deter-
dramento da sua vida ao contexto de análise. A perce- minada circunstância, demarcado por se realizar num
ção de uma situação é radicalmente influenciada pela determinado local e num tempo próprio (com todas as
personalidade do observador, pelas suas ansiedades, contingências ou imprevistos que podem acontecer e
manobras de abordagem (algumas, até, defensivas), que o investigador tem que estar preparado em lidar);
as suas estratégias de investigação, as metodologias, é no encontro que se situa e acontece a história parti-
as suas decisões e posições que atribuem significado lhada, uma intersubjetividade partilhada ao nível do
às observações, a própria razão em ter optado estudar corpo, quando entendido na sua função percetiva, e
este aspeto e não aqueloutro (Devereux, 1967). que obriga a inclusão dos cinco sentidos na perceção
A etnografia é igualmente multivocal, procura-se etnográfica. A antropologia envolve uma atividade de
sempre registar as várias interpretações e formas de reciprocidade e de inter-experiência (Devereux, 1967).
agir dos vários agentes, um imperativo para a obser- Este posicionamento vai-se mostrar fulcral para as
vação participante. Privilegiam-se várias vozes, ativa- opções metodológicas realizadas em certos contextos.
se o debate e trocam-se pontos de vista com os inter- Como nos diz Jackson (1989), interessa justamente a
locutores num “verdadeiro diálogo”, onde se trocam e experiência resultante da viagem etnográfica, em que
negoceiam pontos de vista em conjunto, com um obje- a experiência do investigador se define no campo ex-
tivo claro comum. E neste sentido, não chega “lançar perimental de interações e intersubjetividade, tornan-
as redes” no local certo e esperar que algo caia nelas do-se ela própria um modo de experimentação em que
(como comentou Mauss (in Fortes, 1973, p. 284), é ne- se testa e explora a forma como as nossas experiências
cessário ser um caçador ativo, conhecedor das marés, se conectam com a dos outros.
e lançar bem ao fundo, conduzir para as redes a sua A relação estabelecida no fazer, coloca a centralida-
presa e segui-la até aos esconderijos mais inacessíveis de da pesquisa na experiência física, sensorial, e afeti-
(Malinowski, 2002, p. 7). É a qualidade deste trabalho va do investigador, incluindo-o como agente da inves-
que legitima a autoridade etnográfica. tigação, em relação ativa com os interlocutores. Tem,
A questão da participação torna-se de fulcral im- igualmente, a vantagem de se poder integrar vários
portância para a legitimidade que o etnógrafo adquire modos de participação. É, portanto, necessário refletir
ao jogar na íntima conexão entre a experiência da vida o tipo de participação que se imprime à observação, o
quotidiana partilhada no terreno, a prática, e a con- seu conjunto de características, uma vez que dele de-
ceptualização da vida que produz pela análise conse- corre o tipo de dados etnográficos relevantes para a
quente, a teoria. Aqui, a posição epistemológica e me- investigação. O mais importante torna-se a viagem, o
todológica de uma certa perspetiva construtivista das processo etnográfico propriamente dito.
leituras fenomenológicas, existencialistas e pragmáti- Na viagem etnográfica destaca-se o papel de inves-
cas, permitiram a afirmação de um empirismo radical tigador-antropólogo. O investigador anda por ali to-
herdado de William James (Jackson, 1989). Este, difere dos os dias, atento, participante, e acaba por criar uma
relação afetiva, de amizade com os seus interlocutores.
Este papel de investigador-antropólogo decorre do
tipo de relação formal do trabalho de campo mas cru-
1  Uma extensa bibliografia aborda a questão da etnografia como
um encontro dialógico. Ver, por exemplo Castañeda, 2006; Conquer-
za-se com todos os outros papéis adjacentes possíveis
good, 1991; Conrad, 2008; Denzin, 2001; Fabian, 1990; Madison, (contingentes ou não) que integram a observação par-
2005; 2006 a); 2006 b). ticipada de uma investigação. Para dar exemplos mais
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experimentais, quando se trata da realização de um Há, portanto, uma diferença fundamental entre
filme etnográfico, o papel de investigador-realizador dois tipos de participação: a participação que coloca o
cruza-se com o de investigador-antropólogo; ou quan- antropólogo em posição de público, de se referenciar
do se performatiza a etnografia teatralmente e se faz o interlocutor como ator social observado ou, dito de
etnoteatro2 com os interlocutores, se cruza igualmen- outra forma, o antropólogo como espectador da reali-
te o papel de investigador-diretor de uma peça teatral; dade social; e a participação que coloca o antropólogo
ou quando o investigador é convidado a performar como coparticipante, referenciando, agora, a própria
eventos, manifestações performativas organizados pe- relação com o interlocutor, privilegiando a interação
los interlocutores (seja um ritual de passagem, seja um como o foco de perceção do horizonte de uma deter-
baile, seja uma manifestação política) onde se acabam minada situação, ação essa que é sempre consequente,
por revelar experiencialmente (também no corpo do induzindo diferentes modos de se envolver na comu-
investigador) os processos de incorporação que cole- nidade e, portanto, diferentes meios de se produzir
tivamente se constroem, contribuindo para uma even- informação. Também o empiricismo radical coloca o
tual melhor compreensão da domesticação dos cor- foco no fazer em conjunto, na experiência que faz do
pos; ou ainda quando se recorre à foto-eliciação, o uso antropólogo mais um ator do fluxo da experiência vi-
de imagens para a realização de uma entrevista, e se vida do grupo, ou contexto estudado. É na relação en-
conversa com os interlocutores com um sentimento de tre estes diferentes papéis do investigador que o tipo
partilha, de ambos terem experimentado a vivência e de participação se configura e é ditado, revelando os
o estado de espírito daquela situação, mesmo que um diferentes processos de criação, as diferentes formas
seja o retratado e o outro esteja por detrás da câmara. de produção de conhecimento e, finalmente, os dife-
A este respeito, e enquanto metodologia que ex- rentes modos de expressão etnográfica.
pressa inerentemente essa consciência metodológica Pela combinação destes diferentes papéis, o antro-
da necessidade de perscrutar o outro por via de uma pólogo torna-se uma espécie de “espect-actor”3, como
sensibilidade performativa, a foto-eliciação revela-se Boal (2005) definiu para a metodologia do Teatro do
de uma eficácia surpreendente em eliciar a memória Oprimido. A equiparação que procuro fazer de “es-
e evocar diferentes tipos de informação, como se cap- pect-actores” aproxima-se mais do seu papel na me-
turasse elementos mais profundos da consciência, co- todologia do Teatro Invisível (e que se relaciona igual-
nectando com o âmago das definições do self. Permite mente com o happening4). Aqui, o público não tem
aos entrevistados verem-se de uma outra perspetiva, noção da sua condição de espectador e, como refere
a capturada pela objetiva, representação das subjeti- Boal “todos os presentes podem intervir a qualquer
vidades incorporadas no enquadramento. Parece que momento na busca de soluções para os problemas tra-
praticamente não é necessário perguntar nada para tados” (Boal, p. 20), qualquer que seja a circunstância
se iniciar o discurso. Basta manter uma conversa so- da performance (artística mas como aqui quero expli-
bre cada imagem para surgirem comentários sobre os citar, também etnográfica).
mais variados temas envolventes, disparando para vá- Vale a pena notar que a combinação de vários pa-
rios planos de fuga passíveis de serem percecionados péis que o investigador pode criar, em ordem a poten-
como potencial de análise. ciar o tipo de participação, o coloca mais facilmente
Como se vê, os papéis que o investigador pode as- na posição clandestina (de “undercover”), que burila a
sumir devem assentar no fazer “entre” e “com” o gru- condição específica de investigação e o recoloca estra-
po estudado e que, por isso, se enevoa ou obscurece o tegicamente no território interno da comunidade estu-
papel de investigador propriamente dito, ou a separa- dada, mesmo que provisoriamente. Em certo sentido,
ção clássica investigador/investigado, em que o pri- a dimensão de investigador é ofuscada, fica encoberta
meiro é simplesmente aquele que inquire e que detém por outros papéis que o investigador promove. Bau-
a autoridade do discurso. Jogando com os diferentes man (2003) talvez chamasse ao desempenho de um
papéis que ele pode ter na perceção do encontro etno- determinado papel pelo investigador, a identidade
gráfico, há um deslocamento da perceção que se tem decorrente de uma “comunidade-cabide” (cloakroom
do investigador, há uma supressão dessa relação insti- community)5. Naturalmente que isso só é viável salva-
tucional, ela dilui-se, reconfigurando a relação clássica
de poder entre ambos, passando a ser quase omissa
a sua relação institucional para o decurso da prática 3  O espect-actor é a transformação do espectador que assiste
a um determinado espetáculo num sujeito que também age e in-
etnográfica. E este facto contribuiu sobremaneira para tervém nele, podendo inclusive controlar a direção do espetáculo
a concretização de uma participação dialógica. (Boal, 2005).
4 O happening foi cunhado por Kaprow no início dos anos ses-
senta sendo uma arte direta e participativa, que não precisa de ser
revelada a sua ocorrência, uma assemblage de eventos performa-
2  De modo sucinto, o etnoteatro relaciona métodos etnográficos dos e apreendidos em mais que um espaço e estendidos no tempo
(é um modo alternativo de observação participante) e metodologias (Kaprow, 1966). Congregando várias linguagens (elementos visuais,
teatrais, enquanto subgénero do teatro documental. Coloca investi- sonoros, teatrais), emprega vários modos de comunicação e é sem-
gadores e interlocutores no mesmo plano de ação, no processo de pre uma atividade intencional e com um propósito, contextuali-
construção de um espetáculo teatral que decorre dos dados obtidos zando a realidade selecionada num “mundo possível”, forçando a
na etnografia, podendo igualmente constituir-se como método da atenção dos observadores-participantes para a ambiguidade dessa
performance da etnografia, uma vez que os interlocutores se pen- realidade, dando vida à vida.
sam nesse processo. 5  Comunidades-cabide precisam de um espetáculo que apele a
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guardando antecipadamente todas as questões éticas zida sem as suas expressões (do discurso e das ações),
que se prendem com a proteção dos interlocutores aquelas que o antropólogo localiza para responder às
(caso seja imperativo), a informação clara dos objeti- suas questões, no limbo das suas próprias posições,
vos da investigação, as autorizações institucionais, etc. também elas performativamente constituídas. Uma
Os “espect-actores” constroem um drama da vida real simples entrevista pode dar conta de uma miríade de
que performam, a partir de temas da comunidade e, assuntos e de equiparações possíveis, quando se inter-
onde “atores [como os interlocutores] e espectadores preta a partir dos atos performativos a ela inerentes.
[como o antropólogo] encontram-se no mesmo nível Dar conta dessa performatividade é, justamente, parte
de diálogo e de poder, não existe antagonismo entre do que se entende por fazer etnografia, da prática para
sala e a cena, existe superposição” (Boal, 2005, p. 20). a teoria.
Foi Castañeda (2006) que primeiramente propôs esta
analogia com o Teatro Invisível, sendo mais que uma
metáfora para o trabalho etnográfico. Para ele, a et- 2. Etnografia enquanto modo de expressão
nografia constitui-se como uma forma específica, um
modo ou manifestação de Teatro Invisível, estrutura- Numa segunda aceção, a etnografia refere igual-
do e concebido a partir da lógica disciplinar e teórica mente um género de texto da ciência social (Clifford,
da antropologia. Marcus, 1986). Aqui, a proposta de Geertz, da etnogra-
Os “espect-actores” (antropólogo e interlocutores) fia poder ser compreendida como um modo particular
são os protagonistas da ação, no sentido de resultar de inscrever cultura, como um tipo de “descrição den-
de um ato, de uma situação que precipita um aconte- sa” (Geertz 1993), produz a viragem interpretativa na
cimento, uma ação que causa uma invocação automá- antropologia e que haveria, então, de ser remexida por
tica de um procedimento, de onde se retém dados e Michael Jackson. Sem separar de todo, o simbólico do
se interpreta a integridade referencial, as propriedades corpo, a ideia do corpo refletir os valores sociais, Jack-
que os dados detêm. Nesse sentido, o antropólogo é son precisa que a ideia de não haver nada fora do tex-
um ativador (ibidem): faz perguntas constantemente, to parece absurdo no mundo real onde o antropólogo
anda por ali, conversa, observa, ouve, lembra-se de faz a etnografia, no fluxo das relações humanas, “the
questões e fá-las emergir, envolve-se com as pessoas, ways meanings are created intersubjectively as well
solicita e sugere coisas, elicia, ativa, aciona, partilha as ‘intertextually’, embodied in gestures as well as in
histórias e experiências, entrevista, etc., uma série de words, and connected to political, moral, and aesthetic
procedimentos que desencadeiam, estimulam, eli- interests. Quite simply, people cannot be reduced to
ciam, ou colocam em funcionamento respostas, ten- texts any more than they can be reduced to objects”
do em conta os objetivos e desenho da investigação. (Jackson, 1989, p. 184).
E assim se recolhe dados, se faz trabalho de campo. Chama-se, por isto, à atenção para a dimensão per-
O antropólogo tem uma ideia pré-imaginada que pro- formática6 da vida. O etnógrafo tem que ler o “texto
duz uma agenda, implicando estratégias de entrada da cultura”, tem de o interpretar, vivendo-o em inte-
no campo, táticas, métodos, de forma a intervir ativa- ração participativa. O paradigma da teoria da perfor-
mente no mundo a estudar. Esse envolvimento resulta mance fala-nos nas limitações da visão “textualista”
das questões que põe mas também da sua atitude, da com o despertar para a centralidade da performance
forma como se apresenta a si próprio, da forma como na dramaturgia da vida quotidiana. Victor Turner foi,
promove a interação que vai caracterizar a observação talvez, o primeiro a alertar para as consequências me-
participante. todológicas deste novo paradigma:
A sensibilidade performativa, como uma prática da
interpretação, conduz-nos para a ideia de que vivemos The movement from ethnography to performance is a pro-
e habitamos numa cultura dramática, baseada na per- cess of pragmatic reflexivity. (…) If anthropologists are ever
formance. A vida é sempre fazer algo. Não há ser sem to take ethnodramatics seriously, our discipline will have to
o fazer e, por isso, todas as dimensões sociais se defi- became something more than a cognitive game played in our
nem enquanto se age, atualizando-se constantemente, heads and inscribed in – let’s face it – somewhat tedious jour-
como a dimensão performativa em Butler (1993) dos nals. We will have to become performers ourselves, and bring
próprios atos linguísticos, onde o próprio discurso é to human, existential fulfillment what have hitherto been only
performativo, espaço onde a identidade se constrói. mentalistic protocols (Turner, 1992, p. 100-101).
Dito de outra forma, as palavras têm efeitos materiais
nas pessoas (falante e ouvinte), constituindo-as através À intertextualidade, acrescentaram-se os fenóme-
e ao longo dos seus atos performativos, o espaço onde
as posições da vida se tomam e as pessoas se definem.
Então, não há identidade performativamente produ- 6  O adjetivo performático, adotando a sugestão de Taylor (2007),
serve para denotar a forma adjetiva do reino não-discursivo da
performance. “Why is this important? Because it is vital to signal
the performatic, digital, and visual fields as separate form, though
interesses semelhantes em indivíduos diferentes e que os reúna du- always embroiled with, the discursive one so privileged by Western
rante certo tempo em que outros interesses – que os separam em vez logocentricism. The fact that we don’t have a word to signal that
de uni-los – sejam temporariamente postos de lado, deixados em performatic space is a product of that same logocentricism rather
lume brando ou inteiramente silenciados (Bauman, 2003). than a confirmation that there’s no there there” (Taylor, 2007, p. 6).
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nos da incorporação e a intersubjetividade do corpo7. torna absurda a ideia de um todo a priori da realidade
Reclamava-se, portanto, pelo reconhecimento da na- (Strathern, 1991). Ao nível das partes sociais, o ato de
tureza corporal do trabalho de campo e a importância corte pode revelar o que a autora chama de “exten-
da experiência, da perceção de algo que se constitui sões” e evocar a perceção de relações resultantes do
enquanto é expresso, e que por essa via adquire um encontro etnográfico, a que chama de “conexões par-
significado. Turner e Turner (1982) viu realmente o ciais”.
etnógrafo como um etnodramaturgo e chegou mes-
mo a realizar workshops em que se performativizava [E]xtensions – relationships and connections – are inte-
a cultura teatralmente8. Agora, aqui, trabalham-se as grally part of the person. They are the person circuit. The ef-
extensões possíveis entre investigador e investigado, fect of the ‘same material’ produces a perception of the common
distinguindo o conhecimento textual do performati- background to all movement and activity. Hence the further
vo. Tratava-se de alertar para a importância do modo importance of the creative act of severance, the burst of infor-
como o antropólogo lê o “texto performativo da cultu- mation that makes one person visible as an extended part of an-
ra”, por oposição ao modo como lê o “texto dramático other; that makes mother’s brothers feel they are only partially
da cultura”9. connected to their sister’s sons, and that differentiates between
Uma outra questão que importa clarificar sobre a the locations of the person’s identity. The cutting/extension is
dimensão textual da etnografia é a forma como se esta- equally effective, the figures equal to one another in substance
belece a conexão entre a prática etnográfica e a teoria, (….)” (Strathern, 1991, p. 118).
e de expressar esse conhecimento na monografia (ou
no filme etnográfico, ou no etnoteatro). Daí a impor- É essa erupção súbita, essa manifestação repentina
tância em se separar a etnografia como modo de ação e de informação (burst of information), essa emergência
a etnografia como modo de expressão. Clifford (2002), súbita de informação, que torna a pessoa visível en-
discute a ideia de se escreverem etnografias como o quanto parte estendida de uma outra, e que resulta do
modelo de collage, de uma reunião de diferentes for- efeito que determinado material etnográfico contribui
mas que criam um novo todo. Strathern (1991) trabalha para o que está a ser trabalhado, da força que se se-
a proposta de Clifford de forma a evitar a totalização dimenta na perceção de um plano de sentido comum
da cultura, enquanto todo orgânico, a ideia de que as (conectando diferentes escalas de análise). Segundo
partes de que o etnógrafo faz uso são cortadas de um Strathern (2006), a própria prática social funciona já
todo pré-imaginado e concebido. De qualquer forma, pelo processo de corte/extensão. Corte e extensão é já
é sempre pressuposto que os dados de campo arquiva- o procedimento de como se dá sentido à vida. Aliás,
riam esse todo em forma de notas de campo (escritas, uma mera entrevista é já esclarecedora deste facto. Um
fotografadas, filmadas, representadas teatralmente), interlocutor pode estar a falar de um evento e produ-
bem como ao nível da experiência incorporada do in- zir uma extensão repentina com a vida social ao nível
vestigador. Mas seguindo a autora, o problema é que dos costumes para, de seguida, notar algum pormenor
as “partes textuais” são confundidas com as “partes sobre a vida política do país e, logo de seguida, da re-
sociais” da realidade. lação que tem com a sua família, ou com um belo dia
No que diz respeito às partes sociais, a autora su- de sol. Os entrevistados constroem igualmente uma
gere que é por via da comparação, que é por via da narrativa, uma montagem de eventos e ideias por via
analogia, que é por via daquilo a que ela chama de um da colagem, fraturando o tempo, de modo que ele não
rompimento, uma separação, um “ato de corte” (act of é propriamente linear e que os momentos temporais
severance), como diz, um ato que tem sempre uma for- podem surgir em colapso, não sendo introduzidos por
te dimensão criativa e que, justamente por ser criativa sequências causais. Como argumenta Denzin:

Time, space and character are flattened out. The intervals


7  Acerca da dialogia na própria intertextualidade ver Bakhtin between temporal moments can be collapsed in an instant.
(1997). More than one voice can speak at once, in more than one tense.
8  Estas experiências desenvolvem-se no seio da University of Vir-
ginia com estudantes de Antropologia, e no Department of Perfor- The text can be a collage, a montage, with photographs, blank
mance Studies da Tisch School of New York – New York University, spaces, poems, monologues, dialogues, voice-overs, and interior
com estudantes de Drama, onde Victor Turner se encontrou com Ri- streams of consciousness (Denzin, 2001, p. 29).
chard Schechner, e que veio a resultar no desenvolvimento de uma
nova área do saber, os Estudos da Performance.
9  Há aqui uma exportação operativa dos conceitos definidos por
Como refere Strathern, tanto o corte como a exten-
Richard Schechner para as artes performativas. “Performance texts: são são igualmente efetivos, igualam-se um ao outro
everything that takes place on stage that a spectator experiences, em substância. O ato de corte é um ato criativo que
from the movements and speech of the dancers and/or actors to the exibe as capacidades internas das pessoas e o poder
lighting, sets, and other technical or multimedia effects. The perfor-
mance text is distinguished from the dramatic text. The dramatic
externo das relações (Strathern, 1991), e que é desta
text is the play, script, music score, or dance notation that exits prior forma que a sociedade parece prosseguir, como uma
to being staged” (Schechner, 2006, p. 227). Pretende-se apenas, com configuração de sentido sobre um background de pes-
esta equiparação, dar conta das consequências metodológicas que a soas e relações que constituem um contexto sociocul-
teoria da performance traz para a observação participante. O texto
dramático da cultura poderia não dar conta de dimensões perfor-
tural. Sendo assim, a antropologia define-se justamen-
mativas que a experiência “da” e “naquela” cultura ainda permi- te por via do seu método: a etnografia e a comparação
tem, e que decorrem da natureza da participação etnográfica. que é feita na própria realidade, constituída por via de
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conexões parciais. Estas conexões parciais, ao contrá- mando o facto de que todos somos co-performers nas
rio do discurso hegemónico da modernidade na an- nossas vidas, devolvendo aos leitores, ao público, ou
tropologia, operam entre realidades comensuráveis e aos interlocutores, precisamente essa experiência.
incomensuráveis, como veremos, e expressam e tradu- A escrita performativa (Phelan, 1998; Pollock, 1998)
zem questões mais amplas, sobretudo tendo em conta é uma escrita que se expressa simultaneamente a si
que o encontro etnográfico é um encontro informado própria e a partir do que a motivou (é o que faz a escri-
e densificado. ta falar como escrita, algo que implica a desconstrução
No que diz respeito às partes textuais, são a colagem das formações discursivas). Em vez de ser a descri-
na escrita e na composição monográfica propriamen- ção de um evento performativo como “representação
te dita, que procuram justamente dar uma coerência direta”, esta escrita apodera-se novamente da força
retórica ao processo experienciado pelo antropólogo, afetiva do evento performativo. Ela dirige-se a si pró-
e procuram traduzir as extensões produzidas nesse es- pria e às cenas que a motivaram, recriando aquilo que
tar e ser no mundo com a “vida do outro”. No fundo, descreve, tal como pode acontecer, por exemplo, no
é o que a vida vivida faz emergir a partir da qualida- filme etnográfico. Pollock (1998) sugere que a escrita
de do encontro e a partir das múltiplas comparações performativa toma forma no território em que está
possíveis decorrentes das extensões entre si e o outro localizado e que simultaneamente marca, determina,
(antropólogo e interlocutor). Trata-se de traduzir as transforma. Segundo a autora, a escrita performativa
partes, as frações, os encontros, e apresentar as per- evoca mundos que de outro modo eram intangíveis,
formances e os momentos particulares, estabelecendo inlocalizáveis, mundos da memória, do prazer, da sen-
as analogias, as conexões e equiparações necessárias sação, da imaginação, do afeto; tende a favorecer as
para compreender a imaginação cultural, dentro do capacidades generativas e lúdicas da capacidade da
contexto em causa. Na prática social, resultante do linguagem e dos encontros da linguagem (entre o au-
encontro etnográfico e do tipo de relação estabelecida tor e o leitor; o autor e os temas abordados), numa pro-
com o outro, existe já um texto dramático e performa- dução conjunta de significado. Não descreve como no
tivo onde, seletiva ou mesmo assistematicamente, se sentido tradicional um evento ou processo verificado
reconstroem ideias e posições sobre o mundo. Existe já objetivamente. Usa a linguagem como a pintura para
material de sobra para se perceber a integração com o criar o que é mais ou menos evidente, uma versão do
coletivo e as conexões passíveis de reconhecer a socie- que foi, ou do que é. Conduz o leitor-espectador para
dade ou a cultura. Na vida, as ideias do mundo estão uma imediação projetada (mimeticamente) que nunca
sempre a ser colocadas em jogo. O encontro etnográ- esquece a sua genealogia na performance. Ela move-se
fico acaba por ser uma construção, uma fabricação, e opera também através da escrita científica. O escritor
ficção persuasiva que permite a interpretação, arranjo e o mundo dos corpos interligam-se na escrita evoca-
e ordenamento das várias dimensões do mundo estu- tiva, numa co-performance íntima da linguagem e da
dado. Qualquer forma em que se traduzam os dados experiência. Segundo a autora, esta escrita é reflexiva,
etnográficos (monografia, filme etnográfico, ou etno- questiona a estabilidade dos significados porque reco-
teatro) é já o reflexo dessa disposição. nhece que eles são ideologicamente constituídos. E é
A partir da crítica à escrita monográfica, por via metonímica, e na exposição metonímica, na sua pró-
do paradigma da performance, Conquergood (2002) pria materialidade, a escrita sublinha a diferença de
alertou justamente para os problemas do centrismo um fenómeno baseado no impresso, no corpóreo, no
da escrita (scriptocentrism), das monografias se pode- afetivo. Ironicamente, a escrita metonímica evoca uma
rem centrar mais no texto dramático da cultura que presença do que não está, elaborando aquilo que está.
no texto performativo da cultura; alertou ainda para E fá-lo de uma forma parcial, multivocal sendo, igual-
o facto de mais facilmente a escrita olvidar, colocar mente, consequente, no sentido de ser uma atitude es-
na margem, nas fronteiras, todo esse conhecimento tética, ética e política.
humano tácito e performático, sem esquecer que esta Também o filme etnográfico pode bem expressar a
omissão põe em causa a ética da representação. Isto dialogia do encontro e está igualmente engajado com
não quer dizer que a tradução possível numa mono- o tema que o motiva, expandindo-se em mundos sen-
grafia não consiga dar conta das conexões parciais que síveis, permitindo o acesso a realidades do foro da
esse conhecimento possa permitir fazer. Apenas abriu experiência, permitindo uma leitura reflexiva e críti-
espaço à experimentação de diferentes formas de tra- ca por parte do público, ao convocá-lo e transportá-lo
dução cultural e, acima de tudo, de uma sensibilidade justamente para a partilha dessa experiência. E assim,
pertinente para as técnicas de estar e ser na observa- o filme também comunica conhecimento etnográfico
ção participante, nos diferentes tipos de participação ao público por via da sua “escrita” particular. O es-
possíveis, e no que dos papéis de investigador resul- pectador é convocado a interpretar os sentidos subja-
tantes podem contribuir para a qualidade da etnogra- centes ao encontro, nas várias dimensões da realidade
fia. Abriu espaço à sensibilidade performativa e trou- representada. É como se a memória, pelo discurso pro-
xe novas óticas para a perceção e análise do material duzido, se tornasse tangível. Há uma objetivação da
cultural. Enquanto forma de tradução e de expressão história pelo modo reflexivo de construção discursiva
etnográfica, tanto o filme etnográfico como o etnotea- dos interlocutores e que, com a edição, pode resultar
tro surgem como possibilidades para explorar e trans- numa troca de vozes, relativizando os factos sociais,
formar informação em experiência partilhada, confir- destrinçando a sua operacionalidade na vida, expres-
33

sando e acentuando a performatividade da etnografia. dispersa por todo o mundo, construindo o mosaico
O que importa ainda clarificar em relação à etno- da diferença cultural. Fruto do trabalho etnográfi-
grafia é que ela não é politicamente inocente. A retó- co em diferentes locações culturalmente definidas, e
rica reflexiva da etnografia tem ajudado a politizar a com a retórica do discurso antropológico baseada na
própria etnografia no que diz respeito à posição do construção de ideias comensuráveis, formaram-se as
antropólogo no processo de construção e tradução estratégias localizantes (Fardon, 1990), uma estratégia
do conhecimento cultural. Sem descartar os textos, o narrativa de descrever o mundo que ancora concei-
paradigma da performance questiona a representação tos a topografias concretas10. Elas tornam-se no modo
do outro ao trazer para o debate a performance dialó- como a antropologia produz a cultura através da com-
gica como um imperativo ético. Ela assume-se como paração produzindo, assim, diferentes contextos (no
um modo alternativo de saber, responsabilizando o et- seu sentido topográfico). Aqui, a comparação torna-se
nógrafo quanto à qualidade do seu testemunho sobre simultaneamente um fenómeno de fixação e circula-
o outro, e impondo a necessidade de uma vigilância ção de ideias entre diferentes lugares (podendo serem
epistemológica decorrente da responsabilidade ine- exportadas ou importadas). Acontece que no processo
rente à representação que produz a razão da etnogra- de comparação, frequentemente, essa circulação toma
fia. O que daí resulta é que a etnografia constitui-se a forma de uma negação ou inversão da relação que
como o modo epistemológico da antropologia. É isso existe entre os termos aplicados (da mesma família de
que determina o conhecimento produzido, e que legi- significado) e consequentemente, se produz uma ima-
tima a produção de teoria, pela comparação intrínse- gem reprovativa ou pejorativa do conceito (Strathern,
ca à interpretação e análise das partes sociais que se 1990). Por outras palavras, um conceito que produz
convertem em partes textuais, não só aquelas que a asserções eficazes para explicar uma identidade per-
monografia trabalha, mas também as partes resultan- mitiria dizer, no processo de comparação, que uma ou-
tes do encontro etnográfico filmado, das equiparações tra identidade em que isso não se verifica é uma “não-
possíveis que esse material completa e permite com- -identidade” relativamente ao aspeto que o conceito
por. No filme, por exemplo, pode-se justapor imagens produziu. Definindo a identidade pela negação enfra-
representativas (do arquivo), adensando a descrição; quece-se, escusadamente, a sua capacidade analítica11.
ou ainda as partes sociais que se utilizam para se fazer Até que ponto é que os conceitos limitam ou não
etnoteatro, quando se entra no processo de construção o conhecimento cultural? Serão estes conceitos a tra-
de um espetáculo teatral, no domínio do “como se”, dução de características hegemónicas de determinada
e se trabalha a representação de modos de estar e ser cultura, do processo de invenção da cultura, ou serão
no mundo historicamente determinados criando, por formações discursivas que se sedimentam a partir de
isso, um texto dramático e performativo particular que uma ontologia prévia do mundo real? Perguntas como
pode ser feito com os interlocutores que se pensam (e estas produziram uma crise no seio da antropologia,
aqui, o etnoteatro torna-se igualmente metodologia). permitindo a crítica a todos os literalismos adjacentes.
Estas três formas de expressão etnográfica (monogra- A “morte do sujeito”, a morte das categorias univer-
fia, filme etnográfico, e etnoteatro) envolvem lógicas sais, desmantelaram o argumento comparativista vi-
de pensamento, diferentes níveis de interpretação, de gente. Contudo, o problema da comparação persiste,
perceção, racional e afetiva, determinado por uma ex- ainda hoje, pouco claro. Permanece o perigo em se co-
periência etnográfica própria. Elas complementam-se meter o erro fundador, a ideia de que a antropologia
e aperfeiçoam-se umas às outras, quer por via dos seus mapeia culturas, agora num cenário fragmentado, e
processos de construção distintos (do seu modo par- que agora o trabalho da antropologia seria refazer o
ticular de fazer etnografia e traduzir conhecimento), mapa na mesma lógica de sentido, apenas num mun-
quer pela possibilidade de se produzirem diferentes do transformado.
campos de perceção para o leitor-espectador. Investe-
se na relação com ele, implicando-o a diferentes níveis
com diferentes tipos de conhecimento etnográfico. A 10  Appadurai (1986) denomina-as de “conceitos encarcerados”
(gatekeeping concepts), já Strathern (1988) prefere chamar-lhes “to-
partir do interior destes diferentes modos de expres- pografias concretas”. Strathern (1987) explora a comparação an-
são etnográfica crê-se expressar de uma forma insur- tropológica através do conceito de contexto, numa visão tripartida
gente a tradução cultural. (evolucionismo, estrutural-funcionalismo, pós-modernismo), dis-
cutindo as ficções persuasivas da narrativa antropológica. Dir-se-
-ia que a noção de contexto que conduz à formação das topografias
concretas foi uma das consequências da ficção persuasiva do estru-
3. Comparação enquanto método tural funcionalismo, ancorada no positivismo.
etnográfico: modelos analíticos 11  Em outro texto, Strathern sintetiza disjunções como: “1) divi-
entre a prática e a teoria ding data into domains, such as kinship or economy, which are then
collapsed or seen as versions of one another; 2) defining concepts by
negation – the X have (say) no concept of ‘culture’ – in order to intro-
Não se pretende, também aqui, a análise da evolu- duce discontinuities into what are habitual dichotomies in western
ção do conceito de comparação na antropologia des- thought (e.g., the contrast between culture and nature); 3) cross-cul-
de a construção imagética da “sociedade primitiva”, tural comparison which rests on an elucidation of similarities and
differences but always implies the distinctiveness of units so com-
através da separação intrínseca do “Ocidente e o Res- pared; and 4) internal comparison within the analysis between us
to”. Ainda assim, interessa lembrar que a função da and them, now and then (the other being presented as a version of
antropologia era, enquanto prática, mapear a cultura oneself or in antithesis to the familiar self)” (Strathern, 1987, p. 261).
34

Para Bauman (1992), o conceito de “habitat” ocupa dependente da presença e da qualidade da participa-
o lugar na teoria social onde a agência opera, produ- ção.
zindo-se no curso dessa operação, sugerindo que a no- Os modelos de análise cultural proporcionam uma
ção de agência deve ser combinada com a ideia flexível fonte de compreensão que dá sentido à experiência no
de habitat, o habitat em que a agência opera, onde se terreno, no cruzamento entre habitats de significado
encontra as suas fontes e os seus objetivos. Então, o ha- e a socialidade criada. E por modelo cultural enten-
bitat oferece à agência os recursos de toda a ação pos- de-se um sistema de referência que modela os com-
sível. Como argumenta, é o território dentro do qual a portamentos de determinado coletivo, privilegiando
liberdade e a dependência da agência são constituídas, valores, compondo-os e hierarquizando-os, para dar
o palco onde a ação e o significado se tornam possí- sentido às ações da vida. Qualquer que seja a força
veis. Também para Hannerz, esta ideia estende-se a motivadora dos modelos culturais, ela é condicionada
“habitat de significado” (o nome que optamos usar), pela prática, e não por um qualquer código abstrato
e que inter-relaciona o sentido físico (o sentido de (Hastrup, Hervik, 1994). Deste modo, os modelos de
presença, da experiência de estar, da energia do fazer análise cultural valem enquanto interpretações in-
que Bauman fala), com as capacidades, as competên- formadas da experiência, ou seja, enquanto concep-
cias e possibilidades interpretativas (Hannerz, 1996), tualizações que as diferentes culturas constroem, de-
uma ecologia do self. A produção do habitat de signi- corrente da forma como validam o conhecimento na
ficado só é possível com extensões, relações, conexões experiência das suas vidas. E como isso só é acessível
parciais que se estabelecem entre si e o outro, entre as através das partes sociais que acontecem no encontro
múltiplas agências (corpos, espaços, objetos). E aqui, é etnográfico, são elas que informam o antropólogo no
o corpo físico (e o lugar em que se encontra) que acaba jogo que conecta igualmente a sua própria experiên-
por produzir a ilusão do conceito ser topográfico. O cia e que ele terá de fazer traduzir, enquanto jogo da
corpo assegura a perceção e a expressão, revela a per- etnografia. É, por isso, imperativo participar. A com-
formatividade da vida. É no cruzamento e sobreposi- paração deixa de estar na própria cultura para passar
ção de vários habitats de significado que se podem for- a estar na etnografia, no destino que o antropólogo dá
mar coletivos, grupos, comunidades. Assim, o habitat aos seus dados etnográficos, às equiparações entre as
de significado é constituído num processo que conecta partes sociais que a sua experiência com o outro per-
o nosso capital emocional, a nossa história, memória mitiu construir ou induzir. Para compreender essas
afetiva e pensamento, e que se consuma através de equiparações no processo de comparação, estas partes
um corpo num determinado lugar. Mas também é sociais podem ser comensuráveis ou incomensuráveis
constituído pela forma como uma pessoa se constrói, entre si e, ainda assim, produzirem uma lógica de sen-
os métodos e estratégias que incorpora e de que faz tido.
uso para experimentar relações. É, portanto, conteúdo Lambek (1993; 1998), argumentou que o conceito de
(posições ideológicas e éticas, sentimentais e afetivas), incomensurabilidade é distinto de contradição, opo-
mas também modo de operar com ele (competências, sição, incompatibilidade ou incomparabilidade. Ele
motivações, capacidades). A ideia de habitat lembra- opõe-se a comensurabilidade e, portanto, à impossi-
nos que apropriamos o espaço construindo um mapa bilidade de se poder mediar duas coisas com um ins-
topográfico de significado. Contudo, é antes um mapa trumento de medida comum. A incomensurabilidade,
impregnado de afetividade, de história que se espar- diz Lambek, pode ser um potencial de mais-valia da
tilha ao longo das nossas emoções ressonantes, é um comparação, ao tornar visíveis processos complexos,
mapa simbólico da vida, o habitat de significado. aparentemente incompatíveis no seio de uma, ou mes-
Para resolver o problema da comparação na antro- mo entre várias culturas. Porque na própria prática so-
pologia, tem de se procurar na forma como se con- cial, nos mecanismos culturais de socialização, as par-
ceptualiza o conhecimento, como os membros de um tes comensuráveis e incomensuráveis estão sempre a
determinado grupo objetivam e materializam esse ser comparadas, podendo conjugar vários planos de
conhecimento. Perceber esta questão é revelar a na- sentido e várias lógicas de pensamento em conjunto,
tureza construída do conhecimento etnográfico e sa- mesmo que as pessoas não tenham consciência que o
ber relacionar a prática com a teoria. Na verdade, a fazem, é o que configura o habitat de significado. A
própria realidade sociocultural, na complexa ilha de incomensurabilidade dos discursos e das ações terá de
significado em que o etnógrafo se move, se constitui já ser sempre articulada pela hermenêutica local, em que
em muito material para o antropólogo comparar, e que um constrói a interpretação do outro (Lambek, 1993;
se poderá manifestar nas equiparações que a tradução 1998).
cultural deve fazer. Aqui, continuando com Jackson Para exemplificar a conexão parcial entre modelos
(1989, p. 4), o método comparativo torna-se mais uma que emergem da etnografia, Wikan (1991; 1992), numa
questão de encontrar similitudes e diferenças da nossa etnografia sobre o modo de vida em Bali, revela um
própria experiência em conjunção com a experiência possível caminho para a comparação em termos me-
dos outros, do que encontrar as similitudes e diferen- todológicos. Ao perceber que o “sentir-pensar” (fee-
ças “objetivas” entre culturas. Se há um mapa, será um ling-thinking) é o modo de compreensão e inscrição
mapa de experiências, e dos habitats de significado fundamental para validar o conhecimento das pessoas
configurarem uma espécie de ilha de significado para de Bali, produz-se um modelo cultural que não sepa-
perceber a escala do coletivo. Tal enquadramento será
35

ra a razão dos sentimentos12. O modelo em Bali anco- lugar, há a possibilidade de importação (e exportação)
ra o conhecimento com a experiência de uma forma de modelos analíticos culturais, refinando os conceitos
que questiona a ideia na perspetiva ocidental. O sen- em termos da sua heurística, agora para um novo con-
tir-pensar implica envolvimento, e a consciência que texto cultural. Aqui, o trabalho do antropólogo seria,
se tem dele parece ser incorporada. O conhecimento então, a análise dos modelos culturais, podendo im-
ocidental teve sempre a tendência de menosprezar o portar modos de análise se eles entrarem em diálogo
sentimento, porque subjetivo, e sempre suspeito de direto com a interpretação da realidade estudada. A
nebulosidade racional. Ao se perceber o modo como interpretação do grupo estudado pode sugerir já simi-
as pessoas de Bali conceptualizam a forma como se litudes com um modelo cultural já conhecido. E esse
adquire conhecimento, Wikan sugere que talvez o sen- modelo conhecido, para o antropólogo, constituiu a
tir-pensar seja um processo crucial para se adquirir priori um novo conhecimento de si próprio, de enten-
conhecimento sobre si, sobre o outro e sobre o mundo der a sua própria cultura. Pode então reter, dessa aná-
(em Bali, mas também no Ocidente). lise dos modelos culturais, conhecimento suplementar
No Ocidente, por exemplo, a partir de uma inves- para percebermos uma qualquer outra realidade es-
tigação que conduzi a um grupo de teatro univer- tudada. Se a viagem etnográfica necessita da partida,
sitário, e para o que aqui importa, o modo como os que seja o jogo teórico analítico e comparativo, o mo-
membros do grupo percecionam a prática teatral, bem vimento do regresso.
como aquele período da sua vida social, assenta num Miller (2007) propõe a extensão do olhar antropo-
sentir-pensar diferente do hegemónico ocidental. As lógico na sua radicalidade metodológica para com-
emoções trabalhadas, e os sentimentos ensaiados no preender, dentro de uma atualização assumida, o
jogo dramático, bem como toda a sua operacionalida- “macrocosmo” e a sua interligação com o “microcos-
de (sistematizável em modelos, ou em metodologias mo”. O holismo presente em cada indivíduo leva à
teatrais), enquanto mecanismo de produzir extensões, proposta desta ideia de comparação que temos vindo
são igualmente um modo de trabalhar posições no a debater (a comparação intrínseca às partes sociais, e
mundo, mas também de se sedimentarem essas posi- a comparação que a análise destas partes sociais per-
ções e os mecanismos envolvidos para a ação. A partir mite). Agora, um indivíduo pode ser uma sociedade.
das competências do corpo, interfere-se no processo O diálogo entre os dois extremos da análise sociocul-
de incorporação ao longo da vida, e que é trabalhado tural, o muito pequeno e o muito grande, impele à
de forma muito intensa no teatro, onde se tem de estar observação microscópica (o individuo como elemento
sempre disponível para, a partir da sua experiência, de uma sociedade; o “interlocutor privilegiado” den-
se engajar com mundos outros, outras possibilidades tro de uma comunidade que servia para a antropolo-
de vida, outros modos de relação. O jogo dramático gia fazer analogias e perceber “o todo”, como se do
trabalha e atualiza uma géstica, tendo influência no “todo” a comunidade se tratasse). Segundo o autor,
modo de sentir-pensar a realidade, como uma força, essa observação micro também participou nas “gene-
e que se ancora na experiência individual e coletiva, ralizações do mundo”. Contudo (e curiosamente), esse
configurando aquilo que denominamos por ilha de mesmo mundo se tem manifestado numa simultânea
significado. Sendo assim, torna-se possível a equipa- maior particularização da identidade. O indivíduo
ração do modelo cultural que caracteriza as pessoas torna-se a possível escala da comunidade que se pode
de Bali ao da produção da identidade deste grupo, e cruzar com o mundo. Miller propõe “assumir a pers-
em habitats de significado completamente díspares petiva mais holista e englobante que encarcera o indi-
(algo que, aparentemente, pareceria à primeira vista víduo como uma sociedade, recorrendo ao trabalho de
inverosímil porque incomensurável). Este passo com- campo” (Miller, p. 122). Segundo o autor, os mesmos
parativo é heurístico e apenas serve para compreender conceitos operatórios e categorias sociais podem ser
a realidade estudada, não tendo qualquer tipo de am- metodologicamente usados para estudar uma pessoa
bição comparativa essencialista ou universalista. ou o contexto mais amplo em que se insere, a socieda-
Em primeiro lugar, há a comparação que opera na de. Há uma lógica, uma cosmologia, uma “sociedade
realidade social, quer entre comensuráveis, quer entre autónoma” em cada indivíduo, expressão de um ha-
incomensuráveis, com a qual o antropólogo se con- bitus que lhe é peculiar mas que traduz um determi-
fronta no encontro etnográfico porque são imanentes nado contexto social e histórico. Os dados biográficos
da realidade sociocultural. É ao nível da análise produ- de uma escala micro podem caracterizar uma escala
zida pelas etnografias enquanto prática, dos conceitos macro, mais ampla.
operatórios emergentes da lógica de ser e estar local, Entre a perspetiva de baixo para cima e a de cima
que as comparações podem ser encetadas, enquanto para baixo, para estudar o indivíduo (que é estudar
estratégia de produção do conhecimento. Em segundo a sociedade), as “tecnologias de objetivação”13 cons-

12  O trabalho de Damásio (1994) coloca em causa este mito oci- 13  Para Michael Lambek (1993, p. 307), a objetivação é interdepen-
dental, da razão estar separada das emoções, precisamente através dente da incorporação, há uma dialética particular entre ambas. A
do discurso das ciências biológicas que o produziram. Curiosamen- objetivação é encarada como um processo que segue o curso dos
te, é na altura em que Unni Wikan escreve que já prolifera no Oci- corpos e das pessoas “na” e “dentro” da esfera pública. Refere-se às
dente literatura em vários domínios científicos a pôr em causa esta características que são externalizadas e com um certo grau de inde-
incomensurabilidade. pendência dos corpos, signos, regras, efeitos, ou constrangimentos
36

tituem o elo teórico que fazem da prática etnográfica a variação de escalas de contexto é importante para se
a génese da produção de modelos de análise. Assim, perceber todas as dimensões do fenómeno sociocultu-
Miller propõe-nos duas dimensões de análise que, me- ral em análise. A escala de análise é, sem dúvida, um
todologicamente, o etnógrafo terá que identificar. Por tópico inviolável da pré-imaginação etnográfica, bem
um lado, uma dimensão vertical que corresponde ao como dos contínuos ajustamentos ao longo da investi-
que os interlocutores, agora “agentes totais”, enquan- gação. A este propósito, Cordeiro diz-nos que
to pessoa, informam e fundamentam numa ordem an-
cestral existente (a história da pessoa e seu habitat de a macro-escala da ‘sociedade global’ faz parte das micro-reali-
significado, o background sociocultural, a geração a que dades, territoriais ou outras, constr[uindo] ela também a mi-
pertenceu, o seu papel e a sua visão do grupo, etc.), e cro-escala. Só conceptualmente se pode introduzir esta sepa-
que cabe à análise detetar a sua referencialidade. São ração artificial, e só como estratégia metodológica se acentua
estas objetivações dos sujeitos sociais/culturais em mais a grande-escala, tentando agarrar a perspectiva emic do
análise, que nos conduzem, por analogia, ao estado real vivido, ou uma escala mais pequena, mudando a lente de
do mundo na sua visão macro. Por outro lado, deve- observação para uma perspectiva mais etic e distanciada de uma
se ter em conta, para todos os casos etnográficos, uma determinada realidade social. (Cordeiro, 1997, p. 444).
dimensão horizontal, um campo da vida, “estético”,
produtor do habitus [como em Bourdieu (2002; 2005)], É necessário olhar o local e o global como duas di-
ou o contexto homólogo interveniente que justifica de- mensões da realidade, da reprodução sociocultural. O
terminada ocorrência sociocultural coerente, influente local é relacional e contextual, uma dimensão da vida
na identidade, como viável e produtora de sentido. A social, uma propriedade fenomenológica estruturada
dimensão de análise vertical apresenta-se como com- em práticas e em modos e formas particulares de as
plementar à horizontal. É justamente neste cruzamen- reinventar, produzindo efeitos materiais específicos
to que, segundo Miller, se determina, hoje, a produção nas relações coletivas (Appadurai, 1997). Constituem
da identidade. ilhas de significado que organizam e dão sentido à
O foco de estudo deixa de incidir sobre as estru- vida partilhada. Já a dimensão global refere-se a tudo
turas, padrões, os produtos sociais, para passar a o que é produzido para além das relações face-a-face
trabalhar as lutas, as histórias, tensões, os desejos, as na vida quotidiana e opera através das novas tecno-
nostalgias, símbolos e performances que produzem e logias da comunicação e das estratégias espetaculares
são produzidas pelas estruturas, padrões, e produtos que daí decorrem, no sentido das novas “encenações”
sociais, tal como na antropologia que Conquergood e estratégias que a consciência coletiva usa para a pro-
(1991) (Madison, 2005; Madison, 2006a) defende. O dução de dramaturgias (Chaney, 1993). Com as duas
terreno intersubjetivo dos modos de ser e estar num dimensões produz-se o contexto. Por isso importam as
determinado coletivo produz então, as partes sociais ferramentas analíticas e mecanismos de que a ciência
que o antropólogo trabalha, dialogicamente, numa ob- social se faz munir para capturar, perceber e intersec-
servação que decorre da participação ativa. O próprio tar estas dinâmicas aceleradas da identidade no seu
encontro etnográfico expressa isso mesmo, uma jus- contexto. Que limite micro e macro apropriado para a
taposição ou colagem em que se compara por níveis explicação/interpretação dos territórios de influência
de equiparação e, assim, dando sentido à realidade em que o observador se move, o da diferença cultu-
vivida. Deste modo, é pela natureza da comparação ral? Como os assumir e articular? Passará, com certe-
que se percebe a relação entre a prática etnográfica e za, pela elaboração metodológica, e na determinação
a teoria antropológica, no que diz respeito às partes de fontes que tenham em conta as duas dimensões da
sociais de que o antropólogo se serve no processo do vida sociocultural. É através da combinação das es-
trabalho de campo. Como vimos, na própria realida- calas que, por outro lado, se constroem os níveis do
de, a comparação na vida vivida opera já por via da espaço de fronteira que constitui o objeto de estudo e
incomensurabilidade, de informação que aparece co- melhor se gerem as esferas de controlo metodológico
nectada e relacionada nos encontros sociais, inseridos implicadas.
num determinado contexto, e decorrentes das exten-
sões produzidas pela pessoa e das conexões parciais
que o antropólogo visibiliza. Bibliografia
Para definir o contexto de análise (o constituir e di-
mensionar) é necessário uma tomada de decisão me- Appadurai, A. (1997). Modernity at Large: Cultural
todológica acerca do alcance e detalhe que se pretende Dimensions of Globalization. Delhi: Oxford University
investigar. Uma mudança de escala implica uma mu- Press.
dança de fenómeno e cada escala revela fenómenos e Appadurai, A. (1986). Theory in Antropology: Center and
omite ou distorce outros (Santos, 1987). É por isso que Periphery. Comparative Studies of Society and Geography, 28
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aos imponderáveis quotidianos da aldeia global”. In
da construção da pessoa (personhood). É a objetivação que permite
Dinâmicas Culturais: Novas Faces, Outros Olhares. Actas
que o conhecimento incorporado seja percetível pelos outros. É por
isso que, para Lambek, o conhecimento só pode ser entendido no das sessões temáticas do III Congresso Luso-Afro-Brasileiro
contexto da prática. de Ciências Sociais. Lisboa, 4-7 de Julho de 1994. Lisboa,
37

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