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DO

NOVO
TE STAMENTO

ASTE
JSÄO P A U L O
ALAN RICHARDSON
PROFESSOR DE TEOLOGIA CRISTÃ
NA UNIVERSIDADE DE NOTTINGHAM

ASSOCIAÇÃO DE SEMINÁRIOS TEOLÓGICOS EVANGÉLICOS

CONSELHO DELIBERATIVO

Júlio A n d r a d e Ferreira
Presidente

John D. Burnett, Joaquim Beato, Thurmon Bryant, R u b e n s Cintra Damião,


Thomas Foley, V. James Mannoia, David Mein, Harding Meyer, A. Ben
Oliver, Otto Gustavo Otto, Arnaldo Schmidt, Henrique Todt Jr.

Aharon
Secretário
Sapsezian
Geral
INTRODUÇÃO
A
TEOLOGIA
DO
NOVO
TESTAMENTO

ASTE
S Ã O PAULO
Titulo do original em inglês:
AN INTRODUCTION T O THE THEOLOGY OF THE NEW TESTAMENT
SCM Press Ltd .
Londres
1961

Seminário Concórdia ÍNDICE


Biblioteca
Sisí. n u < ¿ 9 9 £ 5 4
Rea. oQ2.z,f>î PREFÁCIO 13
Proc Ö..J
Data ¿olOGlü^l
I FÉ E OUVIR 21
0 Ensino de Jesus a Respeito da Fé 22
A Fé Professada Pela Igreja Apostólica 25
A Pregação do Evangelho 27
Ouvir e Obedecer 31
Fé e Arrependimento 33
Regeneração 36

II CONHECIMENTO E REVELAÇÃO 41

O Ensino do Antigo Testamento 41


O Mundo Helénico: Gnosticismo 43
O Conhecimento de Deus no Novo Testamento 45
Revelação Geral a Toda a Humanidade 51
Revelação e Parousia 55
Revelação e Mistério 60

III O PODER DE DEUS PARA A SALVAÇÃO 65

Cristo, o Poder de Deus 65


A Glória do Senhor 67
A Luz do Mundo 70
Edição em língua portuguesa, com colaboração do A Vida da Era Vindoura 74
Fundo de Educação Teológica,
pela
A Ira de Deus 78
ASSOCIAÇÃO DE SEMINÁRIOS TEOLÓGICOS EVANGÉLICOS Justiça e Salvação 82
São Paulo
1966
IV O REINO DE DEUS 87 O Batismo de Jesus 178
A Transfiguração de Cristo 181
O Reino de Deus no Ensino de Jesus 83 A História da Paixão 185
O Reino dos Santos 90
"O Mistério do Reino de Deus" 94
Os Milagres do Reino de Deus 97 IX RESSURREIÇÃO, ASCENSÃO E VITÓRIA DE
Os Milagres da Natureza 102 CRISTO 191

V O ESPÍRITO SANTO 10&


"Segundo as Escrituras" 191
O Caráter Escatológico do Espírito 107 A Evidência Documentária da Ressurreição 193
O Espírito Santo nos Evangelhos 109 O Túmulo Vazio 196
O Espírito Santo na Igreja Apostólica 111 A Ascensão de Cristo 198
O Testemunho do Espírito 114 Cluistus Victor 204
A Dádiva do Espírito: Pentecostes 117 A Descida de Cristo ao Inferno 210
A "Personalidade" do Espírito Santo 121 A Vitória de Cristo Sobre os Poderes do Mundo . . . . 211

VI MESSIANISMO REINTERPRETADO 125


X A RECONCILIAÇÃO TRAZIDA POR CRISTO . . , . . 215
"Cristo" 125
O Filho do Homem: Ezequiel e Daniel 128 Reconciliação 215
O Filho do Homem: Enoque e 2(4)Esdras 130 Redenção ." 218
O Filho do Homem nos Evangelhos 132 Propiciação 222
O Filho do Homem Coletivo 136 O Cordeiro de Deus 225
O Mito Gnóstico do Homem Celestial 141 O Mediador da Nova Aliança 228
O Sinal do Filho do Homem 143 Justificação 2ál
Fé e Obras em São Tiago 239

Vil A CR1STOLOGIA DA IGREJA APOSTÓLICA . . . . . 147


XI TOTUS CHRISTUS • • • • 2 4 1

"Filho de Deus" 147


"Senhor" 153
O Novo Homem 241
A Sabedoria de Deus 154
O Último Adão 244
A Palavra de Deus 158
"Em Cristo" 248
A Nova Torá 165
A Plenitude de Cristo 251
O Corpo de Cristo 253
VIII A VIDA DE CRISTO 169 A Noiva de Cristo 255
A Videira Verdadeira 257
O Nascimento de Cristo 171 Casa Espiritual ••• 259
A Bem-aventurada Virgem Maria 176 A Família de Deus 281
XII ISRAEL DE DEUS 265 A Imposição das Mãos 350
Batismo Infantil no Novo Testamento 352
A Herança 265
O Povo de Deus 267
O Eleito de Deus 270 XVI A TEOLOGIA EUCARÍSTICA DO NOVO TESTA-
Eleição e Graça 277 MENTO 359
A Graça de Deus 280
A Igreja de Deus 282 O Testamento Eucarístico a Respeito da História 360
Una, Santa, Católica 284 A Presença Real de Cristo na Eucaristia 362
O Caráter Escatológico da Eucaristia 366
A Comunhão Eucarística 371
XIII MINISTÉRIO APOSTÓLICO E SACERDOTAL .... 289 O Sacrifício Eucarístico 375

ÍNDICE DOS ASSUNTOS 381


A Igreja Apostólica 289
O Sacerdócio Real 292 ÍNDICE DOS AUTORES 387
Os Sacrifícios Cristãos 294
O Sacerdócio dos Leigos 299 ABREVIATURAS 389
O Caráter Ministerial da Igreja 301
Jesus e a Igreja 304

XIV OS MINISTÉRIOS DA IGREJA 309

"Os Doze" 310


O Poder das Chaves 314
Os Apóstolos 316
Apostolado 318
Presbíteros e Bispos 321
A Imposição das Mãos 325
Outros Ministérios 329

XV A TEOLOGIA DO BATISMO 333

O Significado Cristão de "Batizar" 334


Batismo e Julgamento 337
"Revestir-se" de Cristo 339
Batismo, Fé e Perão 343
O Selo do Espírito 345
PREFÁCIO

Achamos necessário explicar as idéias implícitas no título deste


livro porque hoje, em alguns lugares, põe-se em dúvida a conveniên-
cia de se escreverem "teologías" do Antigo e do Novo Testamentos.
Há mesmo quem negue a possibilidade de sua- existência, embora
uni dos mais notáveis estudiosos britânicos das Escrituras empre-
gue como subtítulo de importante obra a expressão: "A subestru-
tura da teologia do Novo Testamento"A ) Poderíamos corretamente 1

admitir que a Igreja apostólica possuiu tema teologia comum e que


esta pode ser reconstruída a partir da literatura neotestamentária?
A única maneira de dar resposta afirmativa a esta questão é atra-
vés da formulação de uma hipótese sobre a teologia básica dos
documentos que formam o Novo Testamento, submetendo-a à prova,
por referência ao texto desses documentos, à luz de todo o conhe-
cimento histórico e crítico disponíveis. Se fôr tarefa de exegese
sistemática de todos os livros do Novo Testamento, ao mesmo tempo,
transcenderá também o que em geral se entende por exegese, devido
ao caráter todo inclusivo da indução ou hipótese; se admitirmos
que cai dentro do escopo da ciência descritiva (história do reli-
gião), então ilustrará muito bem a verdade de que não pode haver
história (da religião ou de qualquer outra coisa) que não dependa
de um princípio de interpretação que o historiador deve, necessa-
riamente, trazer a seu estuãoJ ) 2

É, então, o que está implícito no título deste livro: a elaboração


de uma hipótese sobre o conteúdo e o caráter da fé professada, pela
Igreja apostólica e a prova desta hipótese à luz de todas as técnicas
possíveis de estudo do Novo Testamento, tanto históricas, críticas e
literárias como filosóficas, arqueológicas e outras. Compreendida

(1) C. H . D o d d , According to the Scriptures, 1953.


(2) V e r A l a n R i c h a r d s o n , Apologética Cristã ( C a s a P u b l i c a d o r a Batista, 1958),
c a p í t u l o I V ; t a m b é m o sugestivo a r t i g o d e J a m e s B a r r , " T h e P r o b l e m of O l d T e s -
t a m e n t T h e o l o g y a n d the H i s t o r y of R e l i g i o n " , e m The Canadian Journal of Theo-
logy, V o l . I l l , 1957, N . ° 3. O s t e r m o s d e s u a discussão s ã o r e l e v a n t e s , q u a n t o aos
p r o b l e m a s e n v o l v i d o s na c o n s i d e r a ç ã o da t e o l o g i a d o N o v o T e s t a m e n t o .
esta definição de teologia do Novo Testamento, não podem ser sus- que, quando já os tem em número suficiente, descobre que obedecem
tentadas, então, as objeções mais comuns que contra ela se levantam. a uma lei ou que estão arranjados segundo formas ordenadas. De
Uma delas, por exemplo, diz que a teologia bíblica procura ler nos fato, o inverso é a verdade: o cientista, com um lampejo de discer-
textos escrituristicos determinadas afirmações dogmáticas e deixa nimento (palavras como esta são inevitáveis aqui), ilumina sua
de lado os fatos históricos e literarios que não lhe convêm; objetase nova hipótese e então descobre fatos que a comprovam. Encontra-os
também que ela substitui o espírito de pesquisa científica imparcial porque agora procura por eles: sem a hipótese — a "suposição", o
pela índole do teólogo dogmático, impossibilitando, assim, o estudo, lampejo, a intuição — nunca os teria visto porque não sabia que
porque as conclusões já estariam prescritas. Objeções como estas os buscava. A mente do historiador trabalha do mesmo modo que
baseiam-se na falta de compreensão da natureza do método cientí- a do naturalista; afinal, é o mesmo instrumento humano, dirigin-
fico. A teologia do Novo Testamento é "científica" exatamente como do-se, porém., a campos diferentes da experiência. Pensa, primeira-
qualquer outra ciência: o cientista nunca começa com a mente vazia; mente, (ou aceita de outros) o seu princípio de interpretação, o qual
toma uma "suposição", elabora a hipótese e então realiza experiên- lhe sugere a "hipótese" (se assim pudermos continuar falando);
cias para ver se os elementos observáveis podem ser mais bem então demora-se em pesquisas para elucidar os fatos que vão ser
"apreciados" nesta nova maneira. Um Newton ou um Einstein têm assim iluminados e por fim sustentados. Não quer dizer que um
"suposições" sobre a mais ampla uniformidade do comportamento princípio de interpretação histórica seja tão bom como qualquer
das maçãs que caem ao solo e dos planetas que circulam pelo espaço; outro, nem que uma hipótese científica não seja "mais verdadeira"
mas o nó do problema, isto é, a tarefa importantíssima da verifi- do que outra. Significa que os fatos vistos dependerão do princípio
cação, está nos meios encontrados para provar a hipótese. Assim, de interpretação do qual partimos. É por isso que a teologia do Novo
a obra do cientista natural é muito mais fácil do que a do historia- Testamento, quando escrita por cristãos, começará, necessariamente,
dor que não pode "repetir a experiência". Mas o processo científico com a fé apostólica, mas, quando escrita por humanistas liberais,
é essencialmente o mesmo. Da mesma forma a teologia do Novo principiará (e não somente concluirá) com a convicção de que as
Testamento começa com uma hipótese, a qual, se sustentada, "está conquistas de Jesus e sua Igreja devem ser explicadas em termos do
de acordo" (i.e., neste contexto, "história") com todos os dados que podem realizar homens notáveis e de grande bondade. Não há
históricos do Novo Testamento e do seu tempo; procura realizar fundamento histórico "objetivo" para julgar "cientificamente" as
experiências baseadas nos métodos rigorosos da moderna ciência teo- duas posições; não há território neutro de onde o filósofo ou o his-
lógica — filológica, crítica, histórica, etc. — pelos quais a hipótese toriador possa pronunciar-se sobre a "verdade". Como assevera o
pode ser julgada e também confrontada com outras hipóteses. Em Professor Barr, a investigação histórica é capaz de nos dizer que
nossos dias os estudos bíblicos tornaram-se tão especializados que o Jeremias afirmou ter Deus entregue Jerusalém nas mãos de Nabu-
teólogo do Novo Testamento precisa confiar no labor sério de pes- codonosor; mas não nos pode dizer se Deus, de fato, agiu ou não
quisadores em muitos campos, homens que não estão imediatamente na história. Da mesma forma a teologia histórica pode dizer-nos
interessados em hipóteses e significados últimos, mas que (na frase talvez que os apóstolos acreditavam ter Deus ressuscitado a Cristo
de Lorde Acton) "tomam seus alimentos na cozinha"; examina as dentre os mortos; mas não pode afirmar se Deus, de fato, agiu
conclusões das múltiplas e pormenorizadas investigações em todos os assim. Nenhuma ciência humana pode investigar Deus ou sua ação
campos de estudo e julga "hipóteses" — suas e de outros — à luz na história. A ciência (incluindo a histórica) não pode julgar os
disso tudo. Ê claro que um homem só não tem competência para toda princípios de interpretação segundo os quais ela mesma procede.
esta obra: contudo ela deve ser tentada. Todos nós temos alguma A declaração — "Os apóstolos erradamente creram que Jesus res-
idéia no fundo de nossas mentes sobre o sentido do Novo Testamento suscitou" — não é mais nem menos científica do que esta outra:
como um todo, e claro que algumas pessoas devem tentar expressar "Cristo ressuscitou". Estas afirmações não estão sujeitas a verifi-
o que pensam. Dificilmente podemos adotar uma determinada teo- cação científica. Contudo, seria absurdo argumentar que diante
logia do Novo Testamento; o que fazemos é escolher entre uma teo- disto ambas as sentenças não tenham sentido. De outra forma como
logia cuidadosamente ponderada e criticada e outra adquirida sub- saberíamos que elas se contradizem? Mas se a teologia do Novo
conscientemente, mais ou menos sem espírito crítico, e guardada no Testamento não pode demonstrar cientificamente as proposições teo-
compartimento ideológico de nossas mentes, o qual nunca visitamos. lógicas mais importantes, para que serve então?
Mesmo os mais severos críticos da "teologia do Novo Testamento"
possuem tal compartimento, embora tenham perdido suas chaves.
A teologia do Novo Testamento, no sentido em que este livro
emprega o termo, não pode "provar" hipóteses históricas (ou teoló-
Os que não refletem sobre a natureza do método científico têm gicas), mas pode experimentá-las. Pode demonstrar que algumas
geralmente a ilusão de que o cientista reúne uma porção de fatos e hipóteses são melhores do que outras porque permitem "ver" maior
número de fatos de modo coerente. Esta teologia, de fato, realiza desde os seus primórdios: de quando era um simples pietismo ético
constantemente "testes", mesmo quando não elabora novas hipóteses. judaico, passando depois pelo obscurecimento causado pelos propa-
Não sabemos até que ponto é hoje provável o aparecimento de gadores do fanatismo apocalíptico e do misticismo helenista, para
hipóteses realmente novas; neste assunto, bem podemos perguntar, chegar afinal ao "Catolicismo gnóstico" plenamente desenvolvido da
nas palavras do Pregador: "Há alguma coisa de que se possa dizer: Igreja do segundo sécião. Em outras palavras, o princípio de inter-
Vê, isto é novo?" Há, isto sim, hipóteses modificadas à luz de novos pretação aqui empregado ê o da fé cristã histórica, e defendemos a
conhecimentos e de perspectivas agora alteradas; as soluções últimas tese de que este princípio nos leva a apresentar uma "história" mais
nunca chegam a ser plenamente formuladas e as hipóteses precisam coerente e racionalmente mais satisfatória do que os princípios de
ser outra vez declamdas em cada época da história. A tarefa de interpretação liberal-humanista ou existencialista que, ultimamente,
fazer a "teologia do Novo Testamento" deve ser repetida incessante- têm sido empregados para a construção de outras "teologias" do
mente, não só por causa do acúmulo de novos conhecimentos, mas Novo Testamento.
também devido às mudanças de mentalidade ou caráter em cada Os que não têm meditado muito sobre o que podemos chamar
período da história. Nenhuma geração olha para a história com a de metodologia da ciência teológica, sejam eles profundos eruditos
mesma perspectiva dos seus antepassados, e é por esta razão que preocupados com os estudos das disciplinas teológicas regulares ou
nunca se escreverá uma história final, cabendo a cada geração a (como eles mesmos se chamariam) "simples" pregadores e mestres
reelaboração da histói~ia. Não pode haver uma teologia final do do Evangelho, poderão estar procurando entender o que queremos
Novo Testamento porque o cristianismo é fé histórica. Até mesmo dizer com toda esta terminologia de "hipóteses" e "significados úl-
as atitudes da crítica puramente literária variam de uma, geração timos". Fiquem tranqüilos. Estamos apenas reafirmando, nos ter-
para outra. Erramos, ao supor que se deve só ao acúmulo de dados mos da discussão contemporânea da metodologia científica, uma ver-
científicos a constante necessidade de reformidar a apreensão que dade que sempre foi tida como certa tanto para a ciência como para
o homem tem da verdade última. a teologia. Há tempo se reconhece que a intuição do físico ou do
historiador é que o leva a perceber não apenas o significado de
Do ponto de vista do cristão praticante, a teologia do Novo
certos fatos, mas os próprios fatos, e que sem esta intuição o signi-
Testamento inchei o esforço inexorável de reafirmar a fé professada
ficado do que se vê desapareceria completamente. O reconhe-
pela. Igreja de Jesus Cristo, à luz de atitudes novas que surgem, e
cimento deste fato que informa toda a investigação científica é im-
de novos conhecimentos. É a necessidade perene daquilo que São
portantíssimo para a teologia. Foi claramente enunciado por Santo
Paião chama de hê apologia kai bebáiosis tou euangelíou. Não
Agostinho, na famosa fórmula: Nisi credideritis, non intelligetis < 3>

se pode provar que uma hipótese seja verdadeira; mas é sempre


A compreensão adequada das origens cristãs ou da história do Novo
possível demonstrar a excelência de uma sobre outra. Neste livro,
Testamento só é possível a partir da visão da fé cristã, Se a des-
por exemplo, defendemos a hipótese de que o próprio Jesus é o autor
crença, pode oferecer uma explicação razoável, coerente e intelectual-
da admirável reinterpretação do esquema da salvação exposto no
mente satisfatória dos dados do Novo Testamento, então a fé cristã
Antigo Testamento ("teologia do Antigo Testamento") que se en-
é inútil; ?nas, até que sejamos confrontados com uma "teologia do
contra no Novo Testamento, e que os eventos da vida, "sinais", pai-
NOvo Testamento" baseada em discernimentos humanistas ou exis-
xão e ressurreição de Jesus, segundo o testemunho apostólico, expli-
tencialistas, mais digna de fé do que qualquer outra até agora sur-
cam os dados do Novo Testamento melhor do que qualquer outra
gida, continuaremos a crer que a aceitação do testemunho apostó-
hipótese moderna. Faz mais sentido e é melhor do que, por exemplo,
lico do Senhorio de Cristo e da sua ressurreição está 7nais de acordo
a hipótese de que São Paulo (ou algum outro) transformou o sim-
com a evidência histórica do que qualquer outra hipótese. A rela-
ples monoteísmo ético de um jovem carpinteiro e rabi judeu, mima
ção, então, da teologia do Novo Testamento com a fé é a seguinte:
religião de mistério, nos moldes de um deus que morre e ressurge,
ela nos dá os meios com os quais sempre estaremos preparados com
tendo como herói de seu culto o rabi crucificado. Tentamos articular,
uma apologia, quando formos inquiridos a respeito do lógos de nossa
claramente, neste livro, o princípio de interpretação que féz surgir
esperança cristã. Numa era de confusão e incertezas, a teologia é
a hipótese aqui defendida; é por esta razão que discutimos, no pri-
o instrumento com o qual podemos conhecer a aspháleia das coisas
meiro capítulo, o conceito básico de fé. Não temos a pretensão de
permanecer dentro dos limites da ciência puramente descritiva, como
aquelas teologias do Novo Testamento que encobrem seu princípio
(3> E.g. In Joan. Evang. X X I V , 6; Serm. de Script. NT. CXXVI, 1.1. V e r R i -
real de interpretação, e professam como pretexto de história "obje- c h a r d s o n , A p o l o g é t i c o Cristã, C a p . X e t a m b é m a nota 1, d o p r i m e i r o capitulo d e s -
tiva" traçar a evolução ("história da religião") do cristianismo, ta " I n t r o d u ç ã o ò T e o l o g i o d o Novo Testamento".
nas quais somos instruídos. A teologia do Novo Testamento, por- imaginário do "fato" histórico objetivo. É por isso que precisamos
tanto, não é algo que pode ser deixado pelos pregadores e professores discutir a metodologia da ciência teológica. Não ficamos surpresos,
das igrejas aos especialistas de universidades e seminários: inte- ao ver que os leigos ou os clérigos paroquiais sobrecarregados (que,
ressa ao sermão dominical, à classe bíblica, ao catecismo, e, de fato, naturalmente, "não têm tempo para estar em dia com suas leitu-
a toda a vida da paróquia local. Se este livro não servir de auxilio ras", havendo tanta coisa mais importante do que o ministério da
à pregação da fé em Jesus Cristo, na segunda metade do século Palavra) ficam perplexos, quando, por exemplo, ouvem que São
vinte, terá falhado em seu propósito; não o escrevemos como exer- Lucas, o "historiador", transformou-se num teólogo rabínico alta-
cício acadêmico. mente simbólico e alegórico que, para transmitir suas profundas
intuições a respeito do sentido e da verdade do Evangelho, estiliza
Talvez devamos acrescentar ainda uma palavra para auxiliar
a história. Talvez São Lucas compreendesse (melhor do que nós)
os que podem estar perplexos diante da direção tomada pelos estudos
que se Teófilo de falo quisesse entender a aspháleia do catecismo
do Novo Testamento, nas duas últimas décadas, quando parece que
aprendido era preciso que a verdade histórica fosse reapresentada
os "seguros resultados" de mais de meio século de pesquisas no
a cada nova geração da história da Igreja. É também provável que
Novo Testamento chegaram desmantelados. Se o que dissemos a
São Lucas soubesse (melhor do que nós) que Teófilo precisava ser
respeito da teologia do Novo Testamento foi assimilado, e se vimos
instruído na teologia do Novo Testamento. A todos os que se acham
que ela participa do caráter de fides quarens intellectum, então esta-
perplexos diante da revolução verificada no método teológico das
remos em melhor posição para entender, ou pelo menos apreciar,
duas últimas décadas esperamos que este livro possa explicar, de
um paradoxo deveras curioso, no campo da recente interpretação do
algum modo, como foi que tudo o que tínhamos aprendido, ao perder
Novo Testamento. A confiança na capacidade do historiador, de
um tipo de aspháleia, veio a ganhar outro.
traçar ''objetivamente" ou à maneira de pressuposições, o desen-
volvimento da teologia da Igreja, no período do Novo Testamento, Resta-yios agora reconhecer nosso débito a muitos mestres. É
vem geralmente acompanhada de cepticismo sobre o testemunho claro que uma obra desta natureza tem de se valer do trabalho de
apostólico: o testemunho dos apóstolos (que é, afinal, a única evi- muitos estudiosos em diferentes ramos da pesquisa bíblica. É mais
dência de primeira mão que possuímos) é desprezado como "mito- prático, pela natureza do caso, apenas mencionar o nome daqueles
logia do primeiro século" ou "simples Gemeindetheologie", ou algo que muito especificamente nos auxiliaram, ou em cujas obras o estu-
dessa natureza, para que uma explicação "científica" moderna tome dante encontra ajuda especial em tópicos particulares. Somos gratos
o seu lugar. A crença na "história científica" tem a tendência de a muitos outros, além dos mencionados no índice dos Autores. Re-
levar o testemunho apostólico ao repúdio. Por outro lado o cepti- conhecemos com alegria o auxílio generoso recebido da Sra. C. J.
cismo sobre a capacidade do historiador em reconstruir "o que acon- Fordyce e de meu colega Dr. R. P. C. Hanson, na árdua tarefa da
teceu", ou sobre sua capacidade de perceber quaisquer fatos", a leitura das provas. Por último, queremos expressar nossa profunda
não ser através dos óculos de suas pressuposições, geralmente vem apreciação à assistência que nos foi dada pelos oficiais do Student
acompanhado de aceitação fervorosa do testemunho apostólico. As- Christian Movement Press, em cada etapa da produção deste livro e,
sim se coloca o paradoxo dos esüidos contemporâneos do Novo Tes- em particular, pelo estímulo prático da Srta. Kathleen Downham,
tamento: aqueles que escandalizam profundamente os mais antigos editora assistente, sem o que teríamos levado muito mais tempo para
estudiosos "liberais", pela facilidade com que descobrem símbolos obter resultados, certamente, inferiores.
e imagens no que até recentemente parecia ser narrativa puramente
"fática", e assim parecem reduzir o fator histórico do Novo Testa- ALAN RICHARDSON
mento a humilhantes proporções, contudo, não têm dificuldade de
crer no kerygma da filiação divina de Jesus, da sua ressurreição e Notthingham,
Dia de Todos os Santos,
do seu retorno para o Juízo. As "conclusões" dos críticos liberais ou 1957
"historizadores" foram além de suas previsões: o que para os libe-
rais parecia ser mitologia tornou-se história e sua história tornou-se
mitologia. Não é de admirar que os conservadores estejam hoje
atônitos — e os conservadores são, naturalmente, os liberais. O bem
antigo tornou-se estranho com o passar do tempo. É claro que não
podemos construir uma teologia do Novo Testamento — ortodoxa
como a de Gore ou herética como a de Bultmann — sobre o alicerce
I

FÉ E OUVIR

Nada é mais próprio para iniciar estas considerações sobre a


teologia do Novo Testamento do que um estudo do conceito funda-
mental de fé, posto que sem fé o significado interno do N T seria
incompreensível. "Se não crerdes, não entendereis". > Nada existe (I

no AT que corresponda ao conceito neotestamentário de fé (pístis);


pístis e pistéuein são palavras raras nos LXX. No AT Deus é o
único fiel, imutável e sempre leal à sua aliança e promessa. O NT
reafirma, naturalmente, esta verdade: "Quem fêz a promessa é fiei
(pistas)" (Hb 10.23; cf. Em 3.3; I Ts 5.24; II Ts 3.3). O AT
insiste que o homem, de sua parte, seja fiel a Deus, isto é, confiante,
obediente, constante, repousando na fidelidade como sobre uma rocha
em meio ao turbulento mar (e.g. Is 23.3 ss.), ou como a esposa
fiel ao seu marido (e.g. Os 2.20). "O justo viverá pela sua f é "
(Hc 2.4) — texto que São Paulo traduzirá livremente (não como
nos L X X ) para seus próprios propósitos (Rm 1.17; Gl 8.11; cf.
Hb 10.38). > Este espírito de confiança absoluta nas promessas de
f2

Deus encontrado no AT também se verifica freqüentemente no NT,


especialmente em Hebreus, ondte a fé é definida como "a certeza de
coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem" (Hb
11.1) : só podemos ter provas a respeito da realidade do invisível,
quando confiamos na fidelidade de Deus. Então, entenderemos a
verdade (11.3). Os heróis do AT conseguiram realizar feitos pode-
rosos e eficazes porque possuíam este tipo de fé (Hb 11 passim).

(1) N i s i credideritis, non intelUgetis, é a sentença q u e S a n t o A g o s t i n h o g o s -


t a v a m u i t o d e citar d a s v e r s õ e s latinas a n t i g a s d e I s 7.9, Estas v e r s õ e s b a s e i a m - s e
nos L X X , m a s a V u l g a t a e o u t r a s v e r s õ e s s e g u e m o t e x t o h e b r a i c o : " S e o não
crerdes, certamente não p e r m a n e c e r e i s " . Santo Agostinho enuncia u m profundo
p r i n c í p i o de t e o l o g i a b í b l i c a , m a s o t e x t o h e b r a i c o ilustra o p a p e l d a " f é " n o u s o
d o A T (cf. I s 26.3 s.; H c 2 . 4 ) .
<2) Ver infra, 233
Jesus escolheu este título; tomou-o do livro de Ezequiel, onde o pro-
O próprio Jesus Cristo é exemplo claro desta fidelidade ("o Autor
feta assim se denomina cerca de noventa vezes. Surge raramente nas
e Consumador da fé", 12.2), pois suportou a cruz e toda a sorte
outras partes do AT e não parece ter sido usado nos dias de nosso
de males e tentações que conhecemos (4.15; cf. 2.17 ss.). São
Senhor como título do Messias/ ) Ezequiel considerava-se um sinal
4

Paulo prefere denominar de esperança (elpís) o que Hebreus chama


concedido à sua geração (como de fato outros profetas também se
de fé: "mas se esperarmos o que não vemos" (Rm 8.25); contudo,
consideravam; cf. Is 8.18; e especialmente Ez 12.6; 24.24). Eze-
São Paulo também emprega pístis e pistós no sentido do AT (Rm
quiel, o filho do homem, havia sido enviado para pronunciar a pala-
3.3; I Co 1.9; 10.13; Gl 3.9), sendo impossível encontrar-se um
vra de Deus à casa de Israel, ouvissem-na ou não (3.4, 11, etc.) ;
sentido só para os vários modos como êle emprega a palavra pístis.
"Quem ouvir ouça" (3.27). Jesus, o Filho do Homem, é também
Mas, em geral, o NT e Paulo, em particular, ultrapassam o conceito
enviado para proclamar a palavra de Deus à casa de Israel (Mt
de fé exarado no AT. Os profetas do AT lamentam constantemente
10.6), e clama: "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça" (Mc 4.9, etc;
que, embora Deus tenha permanecido fiel à Aliança, Israel se mostre
especialmente Mt 11.15 — João Batista como um sinal).
cada vez mais infiel; e não têm esperanças de que Israel pela sua
própria capacidade possa recuperar-se. A única esperança está na O conceito de sinal que Jesus tinha de si mesmo deve ser enten-
intervenção de Deus, que pode criar um novo coração e um novo dido no contexto geral do ensino bíblico a este respeito. Os sinais
espírito, selando também uma nova aliança, através de uma nova no A T confirmam e verificam a fé. Os homens são tentados a rejei-
criação (Jr 31.31-4; Ez 37. 14, 26 e t c ) . Deus deve dar ou criar a tar o sinal dado por Deus e a buscar sinais de sua própria criação,
fé que exige. Segundo o NT foi exatamente isto o que aconteceu ao provocando ou "tentando" Deus com a descrença (Ex 17.7; Nm
ser estabelecida a nova aliança do Senhor Jesus Cristo. Conseqüen- 14.11; Dt 9.22; SI 78 passim; 95.8-10; 106 passim). O próprio
temente, no NT, fé significa, antes de tudo, fé em Jesus Cristo, que Jesus experimenta no deserto a tentação de pedir sinais que com-
é ao mesmo tempo o objeto e o doador da fé aos discípulos. Jesus provem sua escolha, mas, bem diferente do que aconteceu com o
mesmo ensinou aos discípulos a necessidade fundamental da fé. antigo Israel, êle vence a tentação (Mt 4.1-11; Lc 4.1-13). Jesus
censura a geração contemporânea dos fariseus e saduceus que, de-
O ENSINO DE JESUS A RESPEITO DA FÉ vendo ter discernido os sinais dos tempos (kirói), nada haviam
O sumário da pregação de Jesus na Galileia é apresentado por compreendido; até os ninivitas pagãos tinham-se arrependido diante
São Marcos como a proclamação da necessidade de arrependimento do sinal do profeta Jonas, e a Rainha do Sul reconhecera o sinal de
e fé diante da aproximação iminente do reino de Deus (Mc 1.15). Salomão (Mt 16.1-4; Lc 11.29-32). Outro sinal não seria dado a
Os ensinos de Jesus, segundo o registro sinótico, indicam que êle essa geração além do próprio Jesus (Mc 8.11 ss.). Seus atos pode-
apelava constantemente à fé — fé nas boas novas de que o reino de rosos não eram os sinais que a nação desobediente de Israel estava
Deus estava perto, ou fé em si mesmo, como sendo, de certo modo, esperando, mas mesmo assim Tiro e Sidon teriam compreendido e se
o sinal de que o reino de Deus estava para chegar. Era, natural- arrependeriam, se tivessem visto os portentosos feitos realizados em
mente, fé em Deus, mas não apenas no sentido em que os judeus a Corazim o Betsaida (Mt 11.20-24; Lc 10.13). Jesus não realizou
confessavam, quando recitavam o Shema'. Criam que Deus estava milagres com a finalidade de compelir os homens a crer contra a
mesmo agora realizando os seus propósitos, o kairós cumprido, e que vontade, contudo, estes atos maravilhosos eram sinais aos que tinham
estava, apesar de todas as oposições e aparências em contrário, tra- olhos para ver: não seriam sinais semeia para os homens destituídos
zendo o seu reino (Mc 11.22). Jesus não se proclamou o Messias, de fé, mas, simples maravilhas térata, e, êle mesmo, o verdadeiro
em público, e (se aceitarmos São Marcos como fonte histórica neste Sinal, haveria de ser uma pedra de tropeço (skándalon) (Mt 11.2-6;
assunto) os seus próprios discípulos não o consideraram como tal, a Lc 7.19-23). Parece evidente que Jesus se considerava, com João
não ser quando os dias de seu ministério público chegaram ao fim Batista, um "dos sinais dos tempos" (Mt 11.7-19; Lc 7.24-35).
(Mc 8.27-30) ; e quando isto aconteceu foi-lhes pedido silêncio. Con- Assim como Deus concedera ao antigo Israel sinais de sua atividade
tudo, desde o começo de sua pregação Jesus queria que tivessem fé redentora, ao longo da jornada principiada no Egito e continuada
em sua pessoa. Em que sentido esperava que o povo cresse nele? através do Mar Vermelho e do deserto, assim também manifestava
A designação de "Filho do Homem", que tanto empregava, dá-nos a agora os sinais de sua redenção ainda mais poderos_a, ao se aproxi-
indicação. O "Filho do Homem" era o sinal outorgado àquela geração
mar o seu reino. Grande parte das narrativas dos aios de Jesus nos
de que a Nova Era estava por alvorecer.< > Foi por esta razão que 3

(3) V e r o a r t i g o sugestivo e i n s t r u t i v o d e E . J. Tinsley em S J T , V o l . 8, n . ° (4) Ver infra, 130-2.


3, d e setembro de 1955, 297-306.
Evangelhos Sinóticos aparecem como o cumprimento da história da teologia da redenção do AT no NT é o próprio Jesus. Haveria solu-
redenção já mencionada anteriormente na Lei (i.e. o Pentateuco), ção mais provável? O Senhor teria sido o primeiro a sugerir, tanto
que, segundo a declaração dos profetas, haveria de realizar-se. "Pois pelos feitos (sinais) como pelas palavras, as linhas fundamentais
o Filho do Homem vai, como está escrito a seu respeito" (Mc 14.21) ; da teologia do NT. Ao ler os Evangelhos tem-se a impressão de que
cumpriam-se as Escrituras (Mc 14.49). Cada um dos sinóticos res- os discípulos eram tardios para entender o que Jesus procurava
salta esta verdade segundo seu modo de expressão. Jesus é batizado ensinar-lhes durante o seu ministério terreno (e.g. Mc 4.40 ss.;
no Jordão como Israel o havia sido no Mar Vermelho (cf. I Co 10.2); 6.51 ss; 8.16-21; 9.32 etc.; cf. Lc 24.25; Jo 14.9 etc.), e foi somente
experimenta a tentação no deserto pelo espaço de quarenta dias como depois da crucifixão e ressurreição que as palavras deixadas com
Israel fora tentado (ou tentara Deus) durante quarenta anos; sobre eles começaram a ter em suas mentes uma configuração coerente.
um monte reúne o Novo Israel, escolhe os Doze (Mc 3.13-19) e lhes Depois da ressurreição de Jesus, tinham consciência de que estavam
dá a Nova Lei (Mt 5.1; Lc 6.12-49) ; sobre outro monte transfi- sendo guiados pelo Espírito do Senhor vivo a toda a verdade a
gura-se entre Moisés e Elias, sendo que estes já em tempos idos respeito dele (Jo 16.12-15) ; as palavras proferidas pelo Jesus his-
haviam encontrado Deus em Horeb; dá também o sinal do pão des- tórico eram agora vividamente trazidas à lembrança pelo poder do
cido do céu, assim como Moisés e Elias já o haviam dado no passado. Espírito Santo que estava no meio deles, e entendiam então o seu
Finalmente ascende para tomar posse de seu reino, passando por significado interior (Jo 14.26). Esta é a hipótese sobre a qual se
Jericó como o fizera outrora o velho Josué (Jesus, em grego); e baseia o argumento deste livro, e sustentamos que ela, mais do que
antes de partir ratifica a nova aliança em seu sangue e institui a qualquer outra, está de acordo com a evidência do N T ; sua validez
nova páscoa que os discípulos haverão de celebrar até seu retorno será posta em prova pelo êxito ou fracasso que tiver como funda-
glorioso. mento de uma perfeita e coerente consideração histórica da teologia
da Igreja apostólica.
É assim, num rápido resumo, que os Evangelhos (e o NT como
um todo) apresentam o curso da vida histórica de Jesus. Muitos A FÉ PROFESSADA PELA IGREJA APOSTÓLICA
outros pormenores, como notaremos em páginas posteriores, desen-
volvem este conceito básico de Jesus como sendo êle mesmo o Novo Jesus ofereceu-se durante o seu ministério como um sinal da
Israel que realiza e conclui triunfantemente o papel que o Antigo aproximação do reino de Deus. Ao recusar este sinal, Israel foi
Israel iniciara, sem contudo completar. Onde o Antigo Israel falhou julgado e achado em falta, assim como aqueles que no passado
o Novo venceu. Cumpriam-se as Escrituras; concluía-se a história haviam tentado Deus no deserto. Mas os discípulos remanescentes,
da redenção. Desde que surgiram os modernos estudos bíblicos, embora o tivessem abandonado, quando sua "hora" (Mc 14.41) —
esta pergunta foi feita: Quem pela primeira vez colocou nesta pers- a hora da glorificação do Filho do Homem (Jo 12.23) — afinal
pectiva o significado da vida histórica de Jesus? Todas as respostas chegou, tiveram sua fé reconstituída pelos impressionantes eventos
possíveis já foram desde então dadas. Não teriam sido os evange- da ressurreição. Daí para a frente o conteúdo da fé passou a ser
listas porque São Paulo já o sabia antes mesmo de ter sido escrito mais nitidamente definido do que o poderia ter sido, nos dias do
o Evangelho de São Marcos. Dificilmente teria sido São Paulo, se ministério de Jesus. Jesus desafiara os homens a ver na sua pre-
pudermos confiar na evidência que êle mesmo nos dá, incluindo, gação e nas suas dynámeis a evidência da vinda do reino de Deus:
naturalmente, seus próprios protestos de lealdade ao Evangelho que exigira fé em si mesmo, como aquele que era o Sinal divinamente
recebera. Seria, então, a comunidade, a Igreja na qual São Paulo concedido. Esta fé, dissera, capacitava o homem a perceber que
se batizara? Alguns estudiosos acreditam que a comunidade cristã estava vivendo entre as convulsões do fim dos tempos: os pés do
primitiva elaborou coletivamente a teologia de Cristo como o cum- Messias estavam agora mesmo sobre o Monte das Oliveiras (Zc
primento das Escrituras. Esta conclusão, contudo, não convence, 14.4), e pela fé o monte estava sendo jogado no mar (Mc 11.22 s.;
porque as comunidades não concebem reconstruções tão brilhantes Ap 8.8; I Co 13.2; cf. SI 46.2). As esperadas aflições messiânicas
como esta reinterpretação absolutamente original do plano de sal- cairiam em primeiro lugar sobre o próprio Messias, então sobre os
vação do AT. Deve ter havido algum pensador profundamente ori- discípulos e, depois de uma época de atribulações sem precedentes
ginal para iniciar este tipo de teologia. Deveríamos então aceitar para todo o mundo, viria o fim (Mc 13). A crucifixão de Jesus
a hipótese de que um pensador, criador anônimo, cuja memória se era o cumprimento da primeira parte desta profecia; veio então sua
perdeu, tenha sido o gênio por detrás da teologia do NT? Esta con- gloriosa ressurreição, que os discípulos pregaram com alegria, entre
clusão seria um argumentum ex silentio. Só nos resta uma única perseguições e sofrimentos, sabendo que o Espírito Santo havia sido
possibilidade: a inteligência criadora que gera a reinterpretação da derramado sobre eles, fato este já predito pelos profetas como o
sinal do alvorecer do Dia do Senhor (Mc 13.9-11; At 2.16-21; Jl da Igreja. Os primeiros pregadores cristãos foram para o mundo
2.28-32, e t c ) . A ressurreição de Jesus tornara-se o sinal supremo com um kérygma, não com um apelo ético ("o Sermão do Monte",
dado por Deus de que o seu propósito através dos tempos se havia e t c ) . A palavra kérygma é empregada seis vezes nas epístolas pau-
realizado em Cristo: era aquele sinal justificador que Jesus recusara linas e pastorais, não aparecendo em nenhum outro local do N T
pedir no deserto, no Getsêmane (Mt 26.53 s.) ou no Gólgota (Mc (com exceção de Mt 12.41 = Lc 11.32, onde, contudo, lemos do
15.32). Portanto, os apóstolos proclamavam "Jesus e a Ressurrei- kérygma de Jonas). "Aprouve a Deus salvar aos que crêem, pela
ção" (At 17.18) e em todos os lugares a palavra dos pregadores era loucura da pregação", escreve São Paulo ( I Co 1.21). A distinção
coníirmada por meio de "sinais, que se seguiam" (Mc 16.17, 20). entre kérygma e didaché tem valor enquanto não pensarmos que a
Depois dos eventos da Páscoa e de Pentecostes, era inevitável pregação da Igreja se dirige somente aos que estão fora dela; a
a centralização da fé inteiramente em Jesus, a quem Deus fizera, de mais urgente pregação da fé que a Igreja efetua foi e sempre deverá
modo claro e decisivo, Senhor e Cristo, como demonstrava a sua ser dirigida a si mesma ( I Co 9.27). O NT torna bem claro que a
ressurreição (At 2.38). Daqui para a frente a fé é "a fé que vem proclamação cristã primitiva era a pregação da cruz e da ressur-
por meio de Jesus" (At 3.16); é "a fé no poder de Deus que o reição de Jesus. C. H. Dodd, no livro mencionado, mostrou que é
ressuscitou dentre os mortos" (Cl 2.12), ou, mais simplesmente, possível descobrir o kérygma apostólico que data desde os dias mais
ainda, "fé em Jesus Cristo" (Gl 3.22; cf. At 16.31, e t c ) , ou "fé primitivos da Igreja e que está presente através de todo o NT. Sua
em Jesus" (Ap 14.12). Arrepender-se e crer nas boas novas ainda forma pode ser facilmente reconstituída a partir dos sermões que
é, na Igreja apostólica como nos dias do ministério de Jesus na Gali- São Lucas coloca nos lábios de São Pedro, nos primeiros capítulos de
leia, a condição da salvação: era necessário que os seguidores de Atos — sermões que, se não foram ipsissima verba empregados por
Jesus tomassem uma atitude de confiança e obediência diante dos São Pedro nas ocasiões especificadas, parecem ser esquemas comuns
sinais dados por Deus de que êle estava cumprindo agora aqueles usados pelos pregadores da Igreja primitiva que falava aramaico.
últimos dias preditos pelos antigos profetas. São Paulo é o escritor O conteúdo do kérygma original, segundo os discursos de São Pedro,
do NT que mais explicitamente ensina a verdade de que a salvação foi assim resumido pelo Professor Dodd: (1) Chegou o tempo do
é obtida somente por meio de resposta obediente da fé à proclama- cumprimento, os "últimos dias" preditos pelos profetas (At 2.16;
ção dos atos de Deus em Jesus Cristo; a fé é, no seu mais profundo 3.18,24) ; (2) Estes eventos aconteceram através do ministério,
significado, o "sim" da personalidade inteira ao fato de Cristo. A morte e ressurreição de Jesus Cristo; as Escrituras são citadas para
fé em Cristo adquire uma relação correta com Deus, relação na qual demonstrar que os profetas predisseram estes acontecimentos; (3)
se desfaz toda hostilidade; esta relação expressa-se em termos de Em virtude da ressurreição, Jesus foi exaltado à mão direita de
dikáiosis (justificação), uma vez que para São Paulo salvação sig- Deus, como o chefe messiânico do Novo Israel ( A t 2.33-6; 3.13;
nifica primeiramente a obtenção de dikaiosyne (retidão), que os 4.11; 5.31); (4) O Espírito Santo na Igreja é o sinal do poder e
cristãos possuem através da fé em Jesus Cristo (Rm 3.22). A reti- da glória de Cristo no tempo presente ( A t 2.17-21,33; 5.32) ; (5)
dão divina e a salvação procedem de Deus e espalham-se entre os A era messiânica logo atingirá a consumação, no retorno de Cristo
homens (cf. Is 45.21-25; 46.13; 51.5 s.; 54.17), e são apreendidas (At 3.20; 10.42) ; (6) o kérygma termina com o apelo ao arrepen-
agora mediante a fé em Cristo: aqui está, para Paulo, o coração dimento, o oferecimento de perdão e do Espírito Santo e a promessa
do Evangelho (Rm 1.16 s.).«) de salvação, isto é, a vida do mundo vindouro (At 2.38 s.; 3.19,25
O objeto da fé é assim o próprio Cristo, mas antes que os s.; 4.12; 5.31; 10.43).< > Esta fé fundamental aos pregadores pri-
6

homens possam crer nele é necessário que alguém lhes fale a res- mitivos reaparece em diferentes formas e palavras através do NT.
peito dele, e algumas vezes a palavra pístis é empregada no sentido
do conteúdo da pregação sobre Cristo, a crença em Cristo (e.g. At
A PREGAÇÃO DO EVANGELHO
6.7; 13.8; 14.22; 24.24; Gl 1.23; Ef 4.5, 13; I Tm 4 . 1 ; 5.8; Jd
3.20; Ap 2.13). A fé, no sentido da mensagem proclamada pelos A pregação da Igreja é considerada no NT um dos sinais da
apóstolos e evangelistas, era a afirmação do que Deus fizera em chegada da era do cumprimento. Ouvimos muito pouco sobre pre-
Cristo. Desde a publicação do livro de C. H. Dodd, The Apostolic gação no A T ; Jonas pregara aos ninivitas (Jn 3.2) e eles se arre-
Preaching ( A pregação apostólica), em 1936, tornou-se costume penderam (Mt 12.41). Jonas tornou-se um sinal semêion aos habi-
referir-se à pregação cristã original como o Kérygma distinguindo-a tantes de Nínive, como o Filho do Homem também se tornou um si-
do ensino (didaché) e da exortação (paráklesis) ética e doutrinária
(6) V e r D o d d , The Apostolic Preaching, e d . de 1944, 21-4.
(5) Ver infra, 231
nal aos de sua própria geração (Lc 11.30). A pregação da Igreja de missionária da Igreja é em si mesma um dos sinais do fim. ( 7 )
é, além disso, o oferecimento ao mundo do verdadeiro sinal que vem Os sinais do fim reaparecem no Apocalipse, na visão dos Quatro
do céu. O significado interior da pregação é escatológico. Quase Cavaleiros (Ap 6.1-8). O cavaleiro do Cavalo Vermelho represen-
não há dúvida de que o próprio Jesus adotou deliberadamente o ta a guerra: êle tem uma espada na mão. O cavaleiro do Cavalo
conceito da "pregação do Evangelho" no sentido de proclamação da Preto representa a fome: segura uma balança na mão e clama —
vinda do dia da salvação, de acordo com (o segundo) Isaías; pelo "Uma medida de trigo por um denário". O cavaleiro do Cavalo
menos o emprego neotestamentário da forma euanguelídzesthai, "pre- Amarelo, cujo nome é Morte, representa a perseguição. Estes são
gar as boas novas", baseia-se na forma usada em Isaías, quando se três dos sinais falados pelo Senhor, e estão profundamente impres-
refere à proclamação do dia da salvação, ou do cativeiro da Babi- sos na consciência da Igreja. Mas há também o cavaleiro do Cavalo
lônia ou num sentido messiânico mais profundo (Is 40.9; 41.27; Branco; em contraste com os outros, não é uma figura sinistra: tem
52.7, citado em Rm 10.15; cf. Na. 1.15; Lc 2.10) . Segundo São uma coroa, símbolo de vitória, e sai "vencendo e para vencer". Rea-
Marcos e os evangelistas em geral, o euanguélion de Jesus consistia parece em Ap 19.11-16, onde é chamado "Fiel e Verdadeiro", e o
no anúncio da chegada da salvação prometida (o Reino de Deus), no seu nome é "o Verbo de Deus" (ho lógos tôu Theôu). Representa, na-
cumprimento do kairós (Mc 1.15). No seu sermão em Nazaré, se- turalmente, o quarto sinal escatológico, a pregação missionária da
gundo a narrativa de São Lucas, Jesus apropriadamente refere a Igreja: "Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as
si mesmo as palavras de Is 61.1, no sentido em que Deus o tinha nações" (Ap 19.15; cf. Hb 4.12; Ef 6.17). A Igreja apostólica
ungido échrisen, "Cristizado" para pregar o Evangelho aos pobres tinha em alta consideração o poder da palavra de Deus, enquanto
(euanguclísasthai ptochóis L X X ) (Lc 4.18) Em outro local, vê pregada; não apenas como palavra de salvação, pois aos que lhe re-
na sua pregação do Evangelho aos pobres o cumprimento messiâ- sistiam era a palavra de julgamento: "e julga e peleja com justi-
nico das Escrituras (Mt 11.5; Lc 7.22) ; a pregação de Jesus ou ça" (Ap 19.11) . O próprio Jesus declarara que não viera para tra-
dos discípulos, juntamente com os milagres, era o sinal de que o zer paz à terra, mas espada (Mt 10.34) ; a "espada da sua boca",
Reino de Deus estava perto (Mt 10.7; Lc 10.9) . Jesus compreen- a palavra pregada, é o instrumento da decisão messiânica (cf. Is
dia a sua própria missão em termos da proclamação (Io dia da sal- 11.4; 49.2; Os 6.5; Ap 1.16). Durante o período das "aflições",
vação ; e a evidência do NT indica que êle ensinou e comissionou um antes da vinda do fim, a Igreja deve ser a Igreja que testemunha,
grupo de discípulos para empreender a tarefa mundial de pregar trazendo, apesar de todas as perseguições, a oportunidade de arre-
segundo o conceito escatológico de Isaías, isto é, da missão do Servo pendimento e fé a todas as nações. A figura do Servo apresentada
(Mc 8.35; 10.29; 13.8-10). A palavra euanguélion tornou-se um ter- em Isaías está de novo no fundamento de todo este conceito, o arau-
minus technicus no vocabulário do NT e a Igreja tornou-se uma Igre- to sofredor da salvação que ilumina os gentios. O NT acentua o fa-
ja pregadora porque Jesus adotou a interpretação de Isaías, do ofí- to de que a Igreja recebeu de seu Senhor ressurreto o renovado
cio messiânico, em termos de Servo do Senhor. mandamento de ser sua testemunha "até os confins da terra" (At
1.8) e de fazer "discípulos de todas as nações" (Mt 28.19; cf. Mc
Em Mc 13.4, depois de ter Jesus falado sobre a destruição vin- 16.15). A pregação missionária da Igreja deverá continuar até a
doura do templo, os discípulos perguntaram: "Dize-nos quando su- consumação dos Tempos (héos tês synteléias tôu aiônos, Mt 28.20).
cederão estas coisas, e que sinal (tò semêion) haverá quando todas Jesus não diz que todas as nações devem aceitar (ou que aceitarão)
elas estiverem para cumprir-se?" Jesus lhes respondeu dizendo que o Evangelho antes do fim; na verdade, êle não nos induz a um
certas coisas deveriam acontecer em primeiro lugar, "mas ainda não otimismo simplista a respeito desta possibilidade: "Estreita é a
é o fim (tó télos): haverá guerras — nações se levantarão contra na- porta e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos
ções — terremotos, fomes e perseguições contra os discípulos. Estes os que acertam com ela" (Mt 7.14; Lc 13.24). A tarefa dos
serão trazidos diante de governadores e reis, por amor do seu no- missionários é pregar a todos os povos do mundo (oikouméne,
me (13.7-9). A estes sinais acrescenta mais um: "é necessário que Mt 24.14; pâsa ktísis, Mc 16.15), quer ouçam ou não. Há boas
primeiro o Evangelho seja pregado a todas as nações" (13.10). A
versão de São Mateus é até mais explícita: " E será pregado este
(7) P o r u m a espécie cie tour de force e x e g é t i c o , G . D . K i l p j a t n c k c h e g a a
Evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as estranha conclusão de q u e " n ã o h á universalismo e m Marcos. N ã o há pregação
nações. Então virá o fim (télos) " (Mt 24.14). Eis aí o ponto de par- d o E v a n g e l h o aos gentios neste m u n d o e n ã o há interesse n o seu destino n o m u n -
tida da Igreja apostólica e não temos razão alguma para supor que d o v i n d o u r o " ; v e r s e u ensaio, e m S t u d i e s in the Gospels, ed. D . E . N i n e h a m , 19o5:
ela não tenha entendido o Mestre neste importante tema: a ativida- " T h e Gentile Mission in Mark and Mark 1 3 . 9 - 1 1 " , 145-58. V e r t a m b é m J. J e r e -
mias, Jesus, Promise to the Nations, E T , 1958.
razões para se pensar que estamos vivendo agora na primeira mitia a parádosis geral da Igreja, e que pregava entre os gentios
época em que se cumpre este mandamento do Senhor, e que os ou- sua própria apreensão do euanguélion, de que tanto gentios como ju-
tros "sinais do fim", a respeito dos quais êle falou, parecem cum- deus são justificados pela fé e não pelas obras da lei. Compreende
prir-se gradualmente, de modo espetacular, neste século de guer- totalmente o ensino do Senhor de que o plano divino da salvação
ras mundiais, de explosões atómicas e de falta de alimentos; mas não pode ser consumado até que todas as nações tenham ouvido as
seremos bastante sábios se atentarmos para a advertência das Es- novas. Segundo esta convicção, lança-se êle mesmo na incrível ta-
crituras de não procurar saber a data do fim (Mc 13.32; At 1.7) refa de pregar o Evangelho a todas as nações; viaja incansavel-
e de nos conservarmos vigilantes e preparados, como servos que mente através da Ásia Menor, Grécia e Roma, espera mesmo ir até
aguardam o retorno do Senhor (Mc 13.33-37). Em todos os pe- a Espanha (Rm 15.28). Provavelmente entendeu, desapontado
ríodos da história, entre a primeira vinda de Cristo "em grande hu- diante de suas primeiras esperanças, que não viveria para ver a
mildade" e seu reaparecimento final, "em sua gloriosa majestade", consumação de sua grande obra e que a evangelização de todo o
os sinais têm estado sempre presentes — guerras, convulsões, fo- oikonméne seria um processo longo e gradual. Mas cumpriu as pa-
lavras do Senhor; deu seu testemunho diante de reis e governado-
mes, perseguições e o testemunho da Igreja — e num verdadeiro
res, cortes e concílios; sofreu em sua própria carne as aflições do
sentido podemos dizer que nenhuma época está mais próxima da Messias, tema a que tantas vezes alude ( I I Co 1.5-7; 4.10; Fp
syntéleia (consumação) do que outra. Os sinais do fim estão 3.10; Cl 1.24, e t c ) . Compreende cabalmente que sendo a Igreja
presentes em todas as épocas. O estudo do NT deve, portanto, uma "cooperação no Evangelho" (Fp 1.5) é conseqüentemente uma
proibir-nos de pensar que a história da Igreja seja uma narrativa participação nos sofrimentos de Cristo (Fp 3.10; cf. 1.29), visto
de êxitos, e também impedir-nos a desilusão e a descrença, quando que o Evangelho é em si mesmo "a palavra da cruz" ( I Co 1.18).
a pregação do Evangelho resulta em fracasso e suscita oposição. Co-
mo já disse alguém, com muita sabedoria, a única coisa surpreen-
dente a respeito da perseguição é encontrar cristãos que ficam sur- OUVIR E OBEDECER
presos, quando são perseguidos, não obstante as advertências fei-
tas claramente pelo Senhor (Mt 5.11 s . ; 10.16-39; Jo 15.18-21). Fé no sentido neotestamentário não é mero assentimento in-
telectual a uma hipótese ou dogma. A única exceção talvez seja a
São Paulo entendeu que o mandamento do Senhor, de pregar Epístola de Tiago onde, por isso mesmo, é considerada inadequada
o Evangelho a todas as nações, dirigia-se especificamente a êle. como meio de justificação: mesmo os demônios acreditam em pro-
Acredita que está predestinado por Deus, desde o seu nascimento, posições como esta que Deus é uno ( T g 2.19). > Deve-se rejeitar
(8

para realizar esta obra, como Jeremias, no passado: "Paulo, servo a salvação somente pela fé, se esta fôr definida como assentimento
de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o Evan- intelectual (Tg 2.14-26). No NT em geral a fé aparece intima-
gelho de D e u s . . . " (Rm 1.1). Recebera seu mandato e seu Evan- mente associada com a audição, e na linguagem bíblica ouvir é quase
gelho de Deus e não dos homens (Gl 1.1, 11 s . ) . Cristo não lhe sinônimo de obedecer. Toda teologia bíblica é teologia da palavra:
enviara a batizar — outros o fariam — mas a pregar o Evangelho Deus profere sua palavra, o homem deve ouvir e obedecer. Daí ter
( I Co 1.17). Sobre êle pesa esta obrigação: "ai de mim se não sido a fé cristã disseminada pela atividade característica da prega-
pregar o Evangelho!" ( I Co 9.16; cf. Rm 15.15 s . ) . Quando ção. Deus ofereceu salvação a todos os que invocam seu nome.
Paulo fala no "meu Evangelho" (Rm 2.16; 16.25) não quer dizer "Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão
que possui um outro além do Evangelho da Igreja toda. Não pode naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não há quem
haver "outro Evangelho" (Gl 1.6-9), e Paulo acentua que a sua pre- pregue? como pregarão se não forem enviados?" (Rm 10.14 s.). " A
gação é fiel à parádosis (tradição, catecismo) da Igreja que êle fé (pístis) vem pelo ouvir (akoé)" — e ouvir é o resultado da prega-
tem transmitido aos seus convertidos ( I Co 11.2, 23-25; 15.1-3). ção da palavra de Cristo (Rm 10.17). Pístis ecs akoês — é o que sig-
Por "meu Evangelho" quer significar "minha apreensão pessoal da nifica " f é " nos escritos de São Paulo e no NT em geral; é resposta à
verdade de Cristo", pois sabe muito bem que o Evangelho é um mis- palavra pregada de Cristo; é obediência ao chamado de Deus para
tério que só pode ser apreendido através de fé pessoal (Rm 16.25; a salvação. A palavra shama', "ouvir", do AT, tem o sentido de
Ef 6.19), posto que permanece sempre oculto para os que não crêem "obedecer" e é assim traduzida nas versões inglesas das Escrituras.
( I I Co 4.3) . Apresentou " o Evangelho que prego entre os gentios" ( N o antigo Israel as orelhas dos escravos eram furadas para acen-
diante das "colunas" da Igreja em Jerusalém, que parecem tê-lo
aprovado, visto que reconheciam o seu "apostolado aos gentios"
(Gl 2.1-10) . Parecia assim que Paulo lealmente aceitava e trans- (8) V e r in/ro, 238 s.
tuar o seu dever de obediência). Nos LXX a palavra é muitas vezes como um ser responsável, uma pessoa que pode aceitar ou rejeitar
traduzida por hypakóuo ("escutar"), verbo freqüentemente empre- o chamado à salvação. Considerando que o homem não é um fan-
gado no NT com o significado de "obedecer". A fé é resposta obe- toche nas mãos de Deus, e que Deus lhe fala chamando-o pelo nome,
diente e pessoal à comunicação pessoal de Deus transmitida através a resposta da fé só pode ser uma decisão real, mas tendo consciência
das palavras dos pregadores. Assim o próprio Jesus deu instruções de que toda a iniciativa é de Deus e de que Êle mesmo cria até a
sobre a maneira como suas palavras deveriam ser ouvidas (obede- possibilidade da fé, o cristão é levado a se expressar através da
cidas). "Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as linguagem da predestinação e pensa na fé como um dom absoluto
pratica, será comparado a um homem prudente, que edificou a sua de Deus. É, todavia, um dom que pode ser recusado, desde que Deus
casa sobre a rocha..." (Mt 7.24; Lc 6.47) ; "Minha mãe e meus não se impõe à força sobre nós (cf. Mc 10.17-22). A obediência
irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus c a praticam" (Lc cristã só é possível mediante o auxílio divino, e é de tal natureza
8.21); "Bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a que o homem pode a qualquer momento recusá-la. Então podemos
guardam!" (Lc 11.28; cf. Jo 12.47). A parábola do Semeador é entender que a fé não se conquista ou se atinge de uma vez para
especialmente a respeito de ouvir: "Os que foram semeados em boa sempre, a partir de um determinado momento; é uma relação que
terra são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a recebem..." deve ser mantida por meio de esforço constante, visto que o homem
(Mc 4.20; Mt 13.28; Lc 8.15) ; na verdade, todas as parábolas têm não está livre da tentação da descrença e da desobediência ( I Co
um sentido oculto que somente o ouvido interior e responsivo pode 9.26 s.). A vida cristã é uma constante luta pela fé (Fp 1.27).
perceber: "E com muitas parábolas semelhantes lhes expunha a Sendo a fé uma virtude, a descrença é pecado; é desobediência. "O
palavra, conforme o permitia a capacidade dos ouvintes" (Mc 4.33 deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos" (II Co
etc.) ; "Atentai no que ouvis" (Mc 4.24) ; "Ouvi-me todos e enten- 4 . 4 ) ; "o príncipe da potestade do ar" é o espírito que agora atua
dei" (Mc 7.14). As parábolas encenadas da cura do surdo trans- nos "filhos da desobediência" (Ef 2.2). Antes de sua conversão à
mitem o mesmo sentido de abertura dos ouvidos interiores dos que fé, aqueles que agora são cristãos estavam mortos nos seus "delitos
estão surdos às palavras de Deus (cf. esp. Mc 7.32-37, Ephphathá). e pecados" (Ef 2.1). A afirmação de que descrença é pecado,
"Ouvir" no pleno sentido bíblico inclui compreender e obedecer. Sem parece para muitos, no mundo moderno, coisa dura de ser dita, mas
tal compreensão e obediência não existe fé. Fé, portanto, envolve é este o ponto de vista coerente da Bíblia. Os homens que estão preo-
decisão pessoal, confiança, entrega e obediência; é a aceitação sin- cupados apenas com este mundo, seus valores e prazeres, resistem
cera das exigências de Deus sobre o homem, na situação em que este ao Evangelho cristão por causa das exigências que lhes faz; o ateís-
se encontra, com resposta apropriada na vida e na ação. É assim mo é, muitas vezes, a racionalização da recusa de enfrentar o desafio
que no N T o vocábulo obediência transforma-se virtualmente em da obediência. "É difícil crer", disse Kierkegaard, "porque é difícil
expressão técnica para designar a aceitação da fé cristã (e.g. At obedecer".
6.7; Rm 1.5; 6.17; 16.19; Gl 5.7; II Ts 1.8; I Pe 1.2; 3.1; 4.17).
Em I Pe 1.14 tékna hypakoês significa simplesmente "cristãos". FÉ E ARREPENDIMENTO
O exemplo da própria obediência de Cristo não está muito distante A relação entre fé e arrependimento nos Evangelhos chama a
do pensamento que fundamenta este uso. São Paulo constata a deso- atenção para o aspecto moral do ato da entrega a Deus em fé;
bediência de Adão com a obediência de Cristo (Rm 5.19), e o su- contudo, a noção de arrependimento é fortemente escatológica. O
premo ato de obediência de Cristo foi sua morte na cruz (Fp 2.8; conceito bíblico de arrependimento encerra a idéia fundamental de
cf. Mc 14.36; Hb 5.8 s.). O discípulo cristão deve levar "cativo volta ou retorno a quem se deve obediência, como o rebelde que vem
todo pensamento à obediência de Cristo"; todo seu pensamento deve de novo servir o seu rei legítimo ou a esposa infiel que volta a seu
ser exercido à luz da fé cristã ( I I Co 10.5). marido. Representa a reorientação básica da personalidade toda.
O tema principal da pregação dos profetas do A T era que Israel
Mas, em que pese a fé envolver necessariamente decisão e res- deveria "retornar" ao Senhor; Deus aceitaria a pessoa do penitente.
posta, o NT assim mesmo a considera um dom de Deus. É Deus Êle não se compraz em cultos ou sacrifícios (Am 5.21-25; Os 5.6;
quem chama e converte, quem abre os olhos cegos e desobstrui os 6.6; Mq 6.6-8; Is 1.11-17; Jr 6.20; 7.21-23; 14.12; SI 40.6;
ouvidos surdos, quem dá o que exige. "Pela graça sois salvos, me- 51.16); na verdade, o sistema sacrificial destinava-se apenas aos
diante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus" (Ef 2 . 8 ) ; é pecados de ignorância (Nm 15.27-31). Deus não perdoa o penitente
a ação de Deus em Cristo que torna a fé possível, de modo que ela em virtude de reparos que este possa fazei , mas porque perdoar é
-

só pode ser entendida como um dom da graça. A importância da da natureza de Deus (Is 43.25; SI 103.3,8-18). Alguns profetas
decisão humana não fica, porém, obliterada. Deus trata o homem
necessidade de um salvador; quando a pregação de Jesus a estes
falaram em "retornar" e andar humildemente com Deus, como se dirige, acaba caindo em terreno pedregoso. São os "justos" (i.e.,
simples possibilidade; o homem pode voltar a Deus, se o tentar, autojustos) que não precisam de arrependimento (Lc 15.7; cf. Mc
com suficiente empenho. Mas em nível mais profundo o AT reco- 2.13-17). Estão tipificados na figura do irmão mais velho em Lc
nhece que é exatamente isto o que o homem não pode fazer: êle não 15.25-32 ou nos fariseus que levantavam objeções à amizade de
pode oferecer a Deus sua retidão, mas penitência, um "coração Jesus com os "pecadores". O arrependimento é então um sine qua
compungido e contrito" (SI 51.17; Is 64.6) ; só Deus pode criar um non da vida cristã, não só no seu início mas em todos os estágios;
"coração puro" ou um "novo espírito" (SI 51.10; Jr 31.31-34; envolve o constante reconhecimento do fato de que toda fé e virtude
Ez 36.25-29). "Converte-me e serei convertido" (Jr 31.18). Os são dons de Deus e não conquista nossa. Mas está, inevitavelmente,
profetas do retorno do exílio (Dêutero-Isaías, Ageu, Zacarias) espe- associada, em especial, com o começo da vida cristã. É provável que,
ravam que este acontecimento significaria o retorno ao Senhor, em desde os tempos primitivos, o reconhecimento do arrependimento —
sentido espiritual; mas, com o desapontamento desta esperança, tor- abandono do mundo, da carne e do diabo e entrega à verdade, à
nou-se mais acentuado o caráter escatológico d'o arrependimento de retidão e ao Cristo — fosse requerido dos catecúmenos na ocasião
Israel. Deus derramaria sobre Israel o novo espírito no fim dos do batismo, da mesma forma como a confissão de fé. Este ato de
tempos, quando instaurasse o seu reino. Na expectativa da vinda arrependimento batismal não será jamais repetido, mesmo quando
do reino de Deus, quando Deus derramaria o seu Espírito, João alguém se tendo tornado apóstata retorne a Cristo, pois o batismo
Batista, o último dos profetas, chamou os homens ao arrependimento não é recebido mais de uma vez; talvez seja este o sentido das difí-
e o simbolizou no seu "sinal" profético do batismo (baptismo- me- ceis palavras de Hb 6.6.<9> Contudo, não quer dizer que toda a vida
tanóias, Mc 1.4), antecipando o batismo do Espírito Santo que cristã não seja um longo pi-ocesso de "conversão", assim como a fé
haveria de vir (Mc 1.8). O próprio Jesus pregou o arrependimento constantemente precisa de reapropriação. "Arrepender-se" e "crer"
juntamente com a necessidade de fé no ato de Deus de instaurar o são verbos que podem ser empregados especialmente em relação com
seu reino (Mc 1.15). 0 ato inicial dos catecúmenos, de "conversão" e de " f é " ; assim, em
Depois da ressurreição de Cristo a Igreja proclamou que Deus Rm 13.11 lemos: " A nossa salvação está agora mais perto do que
havia de fato oferecido o arrependimento como dádiva, tanto a quando no princípio cremos" — ê hóte epistéusamen (cf. também
judeus como a gregos. "Deus... o exaltou Príncipe e Salvador, a 1 Co 15.11). A ênfase que às vezes se dá à "conversão" no sentido
fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados" de uma data definida e absolutamente importante na vida cristã,
(At 5.31); "também aos gentios foi por Deus concedido o arre- característica de certos tipos de seitas, não tem muito apoio no ensino
pendimento para vida" — i.e., a vida do mundo vindouro (At global do N T ; este não considera a conversão um processo que possa
11.18). É a bondade de Deus que leva os homens ao arrependi- ser completado integralmente, uma vez para sempre, numa data
mento (Rm 2 . 4 ) ; através do ministério pastoral da Igreja, Deus específica; além disso tal ênfase tende a depreciar a fé cultivada
dá aos homens "o arrependimento para conhecerem plenamente a por crianças que crescem desde a infância em lares cristãos, pelas
verdade" ( I I Tm 2.25). Não é de se surpreender que o dom do quais o NT demonstra tanto interesse. As versões inglesas das
arrependimento, estando associado com a descida do Espírito (cf. Escrituras raramente empregam a palavra "convertido"; a palavra
esp. At 11.18), esteja tão intimamente ligado ao batismo. Além "conversão" dificilmente poderia ser considerada bíblica, aparecendo
disso, convém lembrar que já havia esta associação mesmo desde a nas versões inglesas somente em A t 15.3. Deveríamos ainda acres-
pregação do "batismo da conversão" de João. São Lucas, indubita- centar que o AT usa freqüentemente o vocábulo "arrepender-se" no
velmente, tinha em mente o futuro batismo no Espírito Santo de sentido moralmente neutro de "mudar a mente" (e.g. "O Senhor
Pedro, em Pentecostes, quando escreveu as seguintes palavras de se arrependeu de haver constituído Saul rei sobre Israel", I Sm
Jesus a Pedro: "Tu, pois, quando te converteres (epistrépsas), for- 15.35; cf. também 15.29; Nm 23.19; SI 106.45; 110.4); neste
talece os teus irmãos" (Lc 22.32). Pela "conversão" os homens sentido Judas "arrependeu-se", i.e., mudou sua mente (Mt 27.3).
podem preparar o caminho da vinda do Espírito, mas é Deus quem As palavras metanoêin e metamélesthai do NT, embora não signi-
dá arrependimento e fé. Como vimos, nesta questão de fé há coisas fiquem mais do que "mudar a mente", de fato levam consigo as
que os homens podem e devem fazer: devem reconhecer a necessi- nuanças bíblicas de epistréphein, voltar, voltar-se para. No seu con-
dade do salvador sem o qual não receberão o dom da salvação. Um texto neotestamentário (com exceção de Mc 27.3) deveriam ser
véu cobre seus corações e não conhecem a verdade; "quando, porém,
algum deles se converte (epistrépse) ao Senhor, o véu lhe é reti-
rado" ( I I Co 3.16). Os que se afastam do Senhor não conhecem a (9) V e r infra, 343 s.
lidas no sentido bíblico da dádiva escatológica do arrependimento seu nascimento na carne era a inauguração da nova criação, e sua
através da descida do Espírito nos últimos dias. morte fora potencialmente a morte de toda a raça humana, da mesma
forma como sua ressurreição fora potencialmente a recriação de toda
REGENERAÇÃO a humanidade. O Espírito escatológico é o sopro que Deus insufla na
sua nova criação, dando-lhe nova vida (cf. Jo 21.22; Ez 37.5-10,14;
O Quarto Evangelho não menciona arrependimento, mas a noção Sabedoria 15.11). O verbo enephysese, em Jo 20.22 lembra Gn
semelhante do novo nascimento (Jo 3.3-8; cf. 1.12 s.). A idéia de 2.7; cf. Gn 1.2; e a idéia da nova criação está assim claramente
regeneração (palingueneuía) estava "no ar", tanto entre os judeus implícita;< > cf. também o "vento impetuoso" no Pentecostes, o
13

como entre os gregos. A metáfora do "renascimento" é muito co- batismo dos apóstolos no Espírito Santo, segundo São Lucas (At
mum, ocorrendo a homens inteligentes de qualquer época ou local, 2 . 2 ) . O verbo anaguennáo ocorre no NT somente em I Pe 1.3 ("nos
não sendo necessária a elaboração de teorias que demonstrem sua regenerou para uma viva esperança") e 1.23 ("fostes regenerados,
passagem do uma cultura para outra. Como sugere E.G. Sehvyn, não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante o lógos de
surge da experiência expressa em frases como: "Tornei-me uma Deus"). O sentido da recriação em Cristo está presente em todos os
pessoa completamente diferente", enquanto o conceito análogo de escritos do NT. O cristão é nova criação ( I I Co 5.17; Gl 6.15) ;
"nova criação" seria já a colocação em metáfora teológica da ver- anda em novidade de vida (Rm 6.4) e serve em novidade de espí-
dade contida neste outro tipo de frases: "O mundo transformou-se rito (Rm 7.6) ; seu "homem interior" é renovado dia a dia ( I I Co
num lugar bastante diferente". "Nós somos justificados", conclui, 4.16) ; sua mente também (Rm 12.2) : em resumo, é refeito à ima-
"diante da variedade de contexto no qual anaguénnesis e palingue- gem original do Criador (Cl 3.10). Judeu e gentio tornam-se um
nesía aparecem, dizendo que estas palavras eram empregadas nos só novo homem em Cristo (Ef 2.15; Gl 3.28). Chegou o dia da
círculos heleno-judeus para designar qualquer estágio decisivamente criação do novo céu e da nova terra, e os cristãos são as primícias
novo na natureza, na história ou na vida pessoal " . ( W ) A idéia de da Nova Era: "segundo o seu querer, êle nos gerou pela palavra da
regeneração encontra-se também nas religiões de mistérios, sendo verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas"
usada (como metamorphosis) para descrever a mudança pela qual (Tg 1.18; cf. Rm 8.23; Ap 14.4). Os cristãos primitivos sabiam
o iniciado passa. O judaísmo rabínico, contudo, apesar do dito que já estavam vivendo no dia esperado da regeneração porque
comum de que "o prosélito é como a criança recém-nascida", não tinham recebido os dons do Espírito. O próprio Jesus prometera aos
possuía doutrina alguma de regeneração individual ; mas no ju- ( 1 2 )
discípulos, os quais por amor tudo haviam abandonado para o seguir,
daísmo posterior surgiu forte expectativa de segundo ou novo nas- que na comunidade messiânica da dispensação missionária, quando
cimento para Israel como nação (Ez 37; Is 65.17; 66.22), que esta- o Evangelho tivesse sido pregado em todo o mundo, receberiam "já
ria unido à criação de um novo céu e de uma nova terra, numa vasta no presente, o cêntuplo (nyn en tô leairô tóuto) de casas, irmãos,
cena de regeneração cósmica (cf. também Enoque 25.6; 50.1; Ba- irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e no mundo por vir
ruque 5.1-9; II Pe 3.13; Ap 20.11; 21.1). Podemos acrescentar (en tô aiôni tô erchoméno) a vida eterna (dzoèn aiónion)" (Mc
que nem palinguenesía ou anaguennáo acham-se nos L X X (ou, nesse 10.30). Muitos cristãos proscritos por suas próprias famílias, em
sentido, na literatura grega clássica). virtude da profissão de fé em Cristo, nos dias de São Marcos, teriam
O NT afirma que este poderoso ato de nova criação ou de rege- experimentado o benefício de uma nova família na comunidade da
neração cósmica foi consumado por Deus em Jesus Cristo, embora Igreja. No mesmo contexto em que São Marcos apresenta este dito,
seja, em nossos dias, percebido apenas pelos olhos da fé; em breve São Mateus introduziu muito significantemente este outro: "Jesus
viria o tempo em que ela seria revelada a todos os homens, na lhes respondeu: em verdade vos digo que vós, os que me seguistes,
paroitsía ou apocalipse de Cristo. A vinda de Cristo por ocasião de quando na regeneração (palinguenesía), o Filho do Homem se assen-
tar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos
para julgar as doze tribos de Israel" (Mt 19.28). Do ponto de vista
(10) The First Epistle of St. Peter, 1946, 122. V e r t a m b é m C . E . B . C r a n f i e l d ,
e m T W B B , 31 ( a ) . C . H . D o d d e m T h e Interpretation of the Fourlh Gospel,
de São Mateus, Cristo terá toda a autoridade no céu e na terra depois
49 s., cita trechos d o C o r p u s Hcrmeticum ( e s p . o h i n o p e r i palinguenesías, C. H . da sua ressurreição dentre os mortos (28.18), verdade esta simboli-
X I I I ) p s r a m o s t r a r q u e , c o m o n o p e n s a m e n t o j o a n i n o , o c o n h e c i m e n t o do D e u s , zada no NT geralmente pela figura de Cristo sentado à mão direita
q u e d á v i d a eterna, é possuído por aqueles q u e passaram pelo renascimento, p r o -
c e d e n d o d o r e i n o de soma ou sares p a r a o r e i n o de pnêuma ou nous; m a s este
m a t e r i a l h e r m é t i c o é, n a t u r a l m e n t e , p o s t e r i o r a o N T .
(13) Também E. C. H o s k y n s , The Fourth Gospel, segunda edição revisada,
(11) V e r r e f e r ê n c i a s d a d a s p o r B ü c h s e l , e m K i t t e l , T W N T , I . 671-4.
1947, 547
(12) A s s i m t a m b é m D o d d , I F G , 304, r e f e r i n d o - s e a S t r a c k B i l l . , I I 420-3.
com o início da vida cristã e, conseqüentemente, com o batismo. A
de Deus (Mc 16.19; A t 2.23; Rm 8.34; Ef 1.20; Cl 3.1; Hb 1.3,13; ordem dos eventos era, em primeiro lugar, a aceitação pelo ouvinte
I Pe 3.22), ou, no Apocalipse, por Cristo sentado com o Pai no seu da palavra pregada, o lógos Christôu, o euanguélion ou kérygma,
trono (Ap 3.21). Este texto teria sido entendido por São Mateus vindo então a instrução, na pístis ou na parádosis, dada pelos mes-
tres da Igreja; vinha depois o seu batismo no qual fazia a confissão
no sentido de que os apóstolos haviam sido separados por Cristo
pessoal de fé (homología), e finalmente era admitido à Eucaristia e
para governar a Igreja — i.e., as doze tribos cto novo Israel —
à plena comunhão da Igreja.
considerada como a esfera da "regeneração" já antecipadamente
consumada. Desde os primeiros dias da vida da Igreja havia uma tradição
É provável que o significado da regeneração esteja exposto com (parádosis) de ensino (didaché) à qual os pregadores da Igreja
mais clareza no ensino de Jesus sobre a necessidade de o homem eram leais. Continha a exposição do kérygma segundo a descrição
ser como as criancinhas. "Em verdade vos digo: Quem não receber dos fatos históricos da vida, ministério, morte e ressurreição de
o reino de Deus como uma criança, de maneira nenhuma entrará Jesus, juntamente com palavras do próprio Senhor, importantes para
nele" (Mc 10.15); "Em verdade vos digo que, se não vos conver- interpretar estes fatos e que tiveram significação decisiva para a
terdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis vida e testemunho das comunidades primitivas de discípulos (ekkle-
no reino dos céus" (Mt 18.3). Tornar-se novamente criança signi- síai). Esta tradição adquiriu, por fim, forma literária em nossos
ficava ser feito de novo, nascer pela segunda vez; o Quarto Evan- Evangelhos Sinóticos; o Quarto Evangelho é uma profunda medita-
gelho interpreta este tema da seguinte maneira: "Se alguém não ção sobre ela. São Paulo, como já vimos, sempre se preocupou em
nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus" (Jo 3.3). Ingressar transmitir esta parádosis, fielmente, e exortava seus convertidos
na nova era significa tornar-se uma nova pessoa, penetrando na a ela. Aprendemos com São Paulo que não existe conflito entre a
parádosis katà Christón (Cl 2.8) e pístis no seu mais profundo
esfera da regeneração messiânica. Talvez encontremos aqui a chave
para a compreensão da difícil passagem de Mt 11.11: "Em verdade sentido, e que esta precisa da primeira e nela se fundamenta, uma
vos digo: Entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do vez que a fé não é simples estado subjetivo, nem crença num "prin-
que João Batista; mas o menor no reino dos céus é maior do que êle". cípio espiritual" ou aceitação de um "nome" mágico, mas é fé numa
Quer dizer que os nascidos uma só vez (nascidos somente de mu- pessoa histórica real que de fato viveu, ensinou, morreu e ressus-
lher) não são regenerados no sentido escatológico (não moral); os citou. Em I Co 11.23-25 encontramos São Paulo lembrando aos
que nasceram pela segunda vez no Reino de Deus são até mesmo coríntios a maneira como lhes havia ensinado a tradição da Ceia
"maiores" do que os maiores deles. < > A realidade básica do cristão
14
do Senhor, e em 1 Co 15.3-7, a tradição da ressurreição do Senhor:
não é a verdade moral mas escatológica. Diz respeito às relações da os coríntios deveriam conservar fielmente as próprias palavras da
pessoa humana com a esfera da regeneração. Os cristãos oram tradição do Evangelho que êle lhes ensinara (15.1 s.). Exorta os
assim: "Concede que nós, regenerados, e feitos teus filhos por ado- tessalonicenses: "permanecei firmes e guardai as tradições (para-
ção e graça, sejamos de dia em dia renovados por teu Santo dóseis) que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola
Espírito ".(15) nossa" ( I I Ts 2.15), e lhes ordena em nome do Senhor Jesus Cristo
A relação entre o conceito escatológico de regeneração e o batis- a que se afastem de todos os que não andam segundo a parádosis
mo cristão é bastante óbvia, considerando que o batismo é o sacra- recebida por meio dele e dos seus companheiros de trabalho ( I I Ts
mento do "nascimento do alto", do ingresso no Reino de Deus e na 3.6). Adverte os colossenses contra a tradição dos homens (pará-
esfera da operação do Espírito Santo. É interessante notar que a dosis tôn anthrópon) (Cl 2 . 8 ) , pois êle mesmo já havia experi-
única vez em que ocorre a palavra palinguenesía (além de Mt 19.28) mentado a futilidade de seguir estas mesmas tradições humanas
no NT é num contexto relacionado com o batismo: "Segundo sua denunciadas pelo Senhor Jesus (Gl 1.14; Mc 7.8). Dá graças a
misericórdia, êle nos salvou mediante o lavar regenerador (dià Deus porque os romanos tornaram-se obedientes "de coração à for-
loutrôu palingtienesías) e renovador (anakainóseos) do Espírito
ma de doutrina (typos didachés) a que fostes entregues (paredó-
Santo, que êle derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus thete)" (Rm 6.17) ; São Paulo admite que a Igreja, que êle não
Cristo, nosso Salvador. A fim de que, justificados por graça, nos fundara, tinha sido instruída num só catecismo ou typos didachés
tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna" (Tt universal.
3.5-7). Fé, arrependimento e regeneração são temas relacionados Passada a época de São Paulo, e desaparecidas as grandes au-
toridades sobre a tradição oral, ensinos estranhos começaram a
surgir entre inovadores heréticos, que forçaram a Igreja a se apegar
(14) Devo esta sugestão ao D r . R . P. C. Ha.ison
(15) Livre de Oração C o m u m , Coleta d o d i a de Natal.
cada vez mais na conservação do "depósito" (parathéke) apostólico
original. Esta palavra ocorre três vezes nas Epístolas Pastorais
(1 Tm 6.20; I I Tm 1.12,14), não sendo encontrada em outras
porções do NT. Os sucessores dos apóstolos tinham o dever im-
prescindível, na direção da Igreja, de guardar "o bom depósito"
(kalén parathéken) através do poder do Espírito que habita em nós
( I I Tm 1.14). Não nos surpreende encontrar na literatura sobrevi-
vente da era subapostólica a preocupação com a necessidade de lutar
"pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos*' (tê hápacs
paradothéise tôis hagiois pístei) (Jd 3 ) . Em dias tão difíceis para ¡I
os cristãos, a lembrança de que haviam feito a profissão de fé batis-
mal animava-os, assim como Timóteo, lembrado de que havia con-
fessado a boa confissão (homológuesas tèn kalèn homologían) pe-
rante muitas testemunhas: Cristo também testemunhara (marty- CONHECIMENTO E REVELAÇÃO
résantos) a boa confissão diante de Pôncio Pilatos no seu batismo
de morte ( I Tm 6.12 s.).< > É provável que nos primeiros dias da
16

vida da Igreja o "credo" professado pelos candidatos ao batismo Os hebreus não tinham o mesmo otimismo dos gregos sobre as
"perante muitas testemunhas" (i.e., toda a igreja local) não pas- possibilidades humanas de conhecer a realidade última. Os filósofos
sasse de uma fórmula pequena e simples como "Jesus é Senhor" ou gregos não duvidavam da capacidade dos que se entregavam ao bios
"o Messias Jesus é Filho de Deus" (cf. At 8.37; 16.31; Rm 10.9 theoretikós com a finalidade de compreender a verdade (alétheia)
s.; I Co 12.3; Hb 4.14, que parece citar uma homologh batismal, ou o ser último (tó óntos ón) na sua essência pura e imutável. Co-
"Jesus o Filho de Deus"; I Jo 4.15). É possível que I Tm 3.16 seja nhecer o que é constitui a mais alta conquista humana; por meio
a reminiscência de um hino-credal de batismo. Diante da multipli- deste conhecimento o homem participa da natureza do que contem-
cação desconcertante de mestres e seitas que negavam ou contradi- pla e, conseqüentemente, da qualidade do eterno. Este conhecimento,
ziam elementos do catecismo universal ou tradição da Igreja, as fór- que é uma forma d'e ver (theoría), constitui o bem supremo do
mulas credais elementares foram aumentadas com o único objetivo homem. O pensamento hebraico desconhece completamente esta
de excluir o ensino falso, e foi assim que surgiram os credos batis- visão otimista da possibilidade do conhecimento humano da realidade.
mais mais elaborados. Assim, durante o segundo século e até mesmo
Para os hebreus o conhecimento de Deus não é adquirido pela con-
depois, estabilizaram-se formas tais como o Antigo Credo Romano
ou a confissão que nós conhecemos hoje como o Credo Apostólico.< 17)
templação do seu ser e dos seus atributos, mas peia obediência aos
seus mandamentos, e no AT nada encontramos que nos leve à visão
"teórica" ou mesmo "mística" de Deus. A contemplação da forma
eterna e imutável do Bem ou do Ser em si mesmo não faz parte da
compreensão bíblica do conhecimento de Deus; este vem apenas
por meio da obediência real à vontade concreta e particular de Deus
no momento vivo da decisão que se chama "agora". Os profetas de
Israel possuíam, de fato, conhecimento de Deus, mas não como
resultado de visão mística ou de especulação filosófica; ganharam-no
pela obediência à vontade divina nas crises da história de sua nação.
Veio-lhes pelo "ouvir" e não pelo "ver".

O ENSINO DO ANTIGO TESTAMENTO


Por causa desta base moral do conhecimento de Deus os escri-
tores do AT são bastante reticentes, quando consideram as preten-
(16) V e r t a m b é m infra, 333 n. sões humanas de possuí-lo. > Deus é elevado e santo, além do alcance
(1

(17) A p ó s ter escrito ?èste .-apítulo a p a r e c e u , d e H . Riesenfeld,_ The G o s p e i


Tradition and its Beginings, 1957, q u e trata a d m i r a v e l m e n t e d a i m p o r t â n c i a d a t r a -
d i ç ã o no período do N T . S o b r e a s f o r m a s c r e d a i s p r i m i t i v a s v e r The Earliest (1) C. H . Dodd ( Í F G , 163) a f i r m a n ã o ter e n c o n t r a d o n o A T passagem
Christian Confessions, E T , 1949, de O . C u l l m a n n . que algum profeta declare expressamente conhecer a Deus.
dos homens pecadores e indignos. "Porventura desvendarás os arca- tendal" e não "científico". Não posso conhecer a pessoa com quem
nos de Deus?" pergunta Jó, esperando resposta negativa (Jó 11.7; não quero entrar em relação pessoal. A desobediência de Deus é a
cf. 38-41). Os pagãos poderão pretender encontrar uma revelação nossa recusa de manter relações pessoais com êle, que tão graciosa-
de Deus nas maravilhas da natureza, mas o ponto de partida da mente vem a nós, e como resultado da recusa permanecemos igno-
Bíblia é o mesmo de Jó 26.14: "Eis que isto são apenas as orlas dos rantes a respeito dele. A palavra hebraica "conhecer" é empregada
seus caminhos! Que leve sussurro temos ouvido dele!" Deus deve para descrever a relação sexual (e.g. Gn 4.1, 17, 25; Nm 31.18,35;
ser conhecido, especialmente por Israel, que possui o conhecimento Jz 21.12; cf. Mt 1.25; Lc 1.34), fato este profundamente signifi-
de sua lei; mas os escritos dos profetas lamentam que Israel não cativo, uma vez que a relação entre marido e mulher é a mais íntima
conheça Deus por causa da desobediência à sua vontade: "O boi da vida humana, o conhecimento mais ativo e satisfatório que existe.
conhece o seu possuidor, c o jumento o dono da sua manjedoura; Freud deformou esta verdade bíblica, ao representar todo o conheci-
mas Israel não tem conhecimento, meu povo não entende" (Is 1.3) : mento como sexual. Quando o AT afirma que Deus conhece Israel,
não há "conhecimento de Deus na terra" (Os 4 . 1 ; cf. Jr 4.22). As e o faz com freqüência e ênfase (e.g. Am 3.2; Os 5.3), quer dizer
pessoas que ignoram Deus são culpadas; mesmo os gentios devem que Deus entra na mais perfeita e íntima relação pessoal com Israel,
conhecer Deus (Jr 10.25) e sua lei moral (Am 2.1). A desobe- como a que se dá entre marido e mulher; não o fizera assim com
diência de Israel é a recusa deliberada de conhecer Javé (Jr 9.6). outra nação. Deus se havia preocupado de maneira pessoal e íntima
A negação de Deus é "insensatez", no pleno sentido moral que esta com Israel — chamou-o, amou-o, tratou-o com carinho, castigou-o,
palavra tem na Bíblia (SI 14;53). Por outro lado, fazer a vontade perdoou-o. O conhecimento que Israel tinha de Deus poderia ser
de Deus é conhecê-lo; o conhecimento de Deus vem pela obediência fraco e efêmero, mas o que Deus possuía de Israel era seguro e
aos seus mandamentos. As palavras de Jeremias ao filho do bom forte. Os homens maus gostam de imaginar um Deus sublime e
rei Josias expressam muito bem esta verdade bíblica fundamental: muito distante que não se interessa com o que eles fazem e pensam,
"Acaso teu pai não comeu e bebeu, e não exercitou o juízo e a jus- mas nada existe na vida humana que possa escapar à percepção de
tiça? Por isso tudo lhe sucedeu bem. Julgou a causa do aflito e do Deus (SI 10) ; os maus perderam todo o conhecimento de Deus e
necessitado; por isso tudo lhe ia bem. Porventura não é isso conhe- até mesmo chegaram a negar sua existência. Mas Deus conhece
cer-me? diz o Senhor" (Jr 22.15 s.). No AT a expressão "conhe- cada coração humano, até os seus pensamentos mais secretos (SI
cimento de Deus" é virtualmente sinônima de "obediência à vontade 139). Embora o conhecimento que o homem tem de Deus seja fugi-
de Deus" (e.g. Os 6.6), e significa também o exercício de miseri- dio e pobre, nada mais do que simples possibilidade escatológica, o
córdia, juízo e retidão, como faz o próprio Javé (Jr 9.24). O conhe- que Deus tem dos homens é, segundo o pensamento dos escritores
cimento de Deus congrega em si estes quatro elementos: obediência bíblicos, a única certeza.
à vontade de Deus, adoração do seu nome, justiça social e prospe-
ridade nacional; a ignorância de Deus per contra significa desobe- O MUNDO HELÉNICO: GNOSTICISMO
diência, idolatria, injustiça social e desastre nacional. Os profetas
perceberam que estas últimas características melancólicas, e não as Nos L X X o vocábulo yadha' é traduzido para o grego por guinós-
primeiras, dominavam a vida de Israel como nação; daí considera- kein ou eidénai. Surge então o problema da integridade da palavra
rem o conhecimento de Deus não como conquista do presente mas traduzida: teria ela perdido algo de seu significado hebraico e adqui-
dom futuro. Pensam nele como possibilidade escatológica, a ser rea- rido novas nuanças? Segundo abalizados estudiosos modernos gnós-
lizada no dia em que Deus fizer nova aliança com a casa de Israel: kein e gnôsis eram, no primeiro século A.D., importantes termos
"Não ensinará jamais cada um ao seu próximo... dizendo: Conhece técnicos do vocabulário da principal religião pagã. Esta religião
ao Senhor, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior pagã superior é, no continente europeu, denominada com freqüência
deles, diz o Senhor" (Jr 31.34). No dia do Senhor, não antes, "a pelos eruditos de "gnosticismo", porque pregava basicamente a sal-
terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem vação por meio do conhecimento; até bem pouco tempo os estudiosos
o mar" (Is 11.9; cf. 33.6; 52.6; 54.13, e t c ) . ingleses preferiam reservar este termo para determinadas heresias
cristãs do segundo século, como as de Basílide e Valentino. A
Conhecimento, no sentido bíblico, não é, então, contemplação objeção levantada contra o emprego da palavra gnosticismo, no pri-
teórica, mas participação em relações subjetivas, como acontece entre meiro século A.D., tem por fim afastar o perigo de substancializa-
pessoas — relações de confiança, obediência, respeito, adoração, rem-se certas tendências mal definidas de pensamento e se proceder
amor, etc. É conhecimento no mesmo sentido como se conhecem as como se houvesse realmente uma religião ou filosofia religiosa com
pessoas, e não segundo o modo da percepção dos objetos; é "exis- esse nome, que pudesse ser contrastada com o judaísmo ou cristia-
nismo. Naturalmente, não havia; nenhuma pessoa inteligente pode- seu depósito literário é o Corpus Hermeticwn,®) produzido princi-
ria converter-se ao gnosticismo da mesma maneira como ao judaísmo palmente nos séculos segundo e terceiro A.D., no Egito/ ' Os estu- 4

ou ao cristianismo: poderia, isto sim, iniciar-se num dos muitos diosos que tão facilmente encontram influências gnósticas operando
cultos de mistérios. Notemos, porém, que quando estudiosos como no NT argumentam que o começo deste tipo de pensamento já deve-
Bultmann descrevem a doutrina gnóstica, as "evidências" do pri- ria estar razoavelmente bem definido no primeiro século; então pro-
meiro século a que recorrem são do próprio NT. Considerando que curam evidências no NT, e desta maneira incorrem no perigo de
o N T está aberto a diversas interpretações, este procedimento tor- interpretar escritos primitivos através de escritos posteriores.
na-se bastante contestável; se não houver evidência real da existência
de "gnosticismo" desenvolvido já no primeiro século, fora do NT,
então, dificilmente poderemos usar o NT para este propósito. Poder- O CONHECIMENTO DE DEUS NO NOVO TESTAMENTO
se-ia dizer, apenas, que certas noções estavam "no ar", durante a Não encontramos nos Evangelhos Sinóticos muito material qus
última parte do primeiro século, e que, subseqüentemente, foram nos leve diretamente ao tema do conhecimento de Deus pelo homem;
cristalizadas nas doutrinas das seitas gnósticas, conhecidas hoje por mas há um dito atribuído a Jesus que é da máxima importância.
meio de escritores como Irineu, no segundo século. Todas as outras porções do NT que tratam deste assunto podem ser
Na época do NT o mundo antigo sofrera grande malogro. consideradas comentários deste texto. É o versículo 27 do capítulo
Desaparecera o otimismo dos filósofos clássicos a respeito do poder 11 de São Mateus ( = Lc 10.22), que pode muito bem ser definido
da mente humana, de contemplar a verdade eterna e manter comu- como um raio joanino nos céus sinóticos: "Tudo me foi entregue
nhão com o Reino ideal; o cepticismo e o relativismo da filosofia por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém
posterior, combinados com a insidiosa expansão de certos tipos de conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser reve-
crenças orientais, notavelmente de cultos mágicos e misteriosos, lar". Bultmann acha que "este versículo se nos apresenta com lin-
haviam destronado o intelecto filosófico e exaltado a crendice. A guagem gnóstica" e que, portanto, Jesus não teria proferido palavras
religião "estabelecida" dos antigos deuses do Monte Olimpo não era dessa natureza.' ' Este versículo, porém, pode claramente ser enten-
5

mais uma realidade viva no coração do povo, mas mero cerimonia- dido na perspectiva hebraica de "conhecimento", em perfeita con-
lismo exterior para as celebrações do Estado; o "não conformismo" sonância com o ensino do NT. Vemos neste caso um exemplo fla-
florescente dos cultos de mistérios oferecia aos iniciados o aprendi- grante de como, não obstante a existência de interpretação bíblica
zado secreto necessário à salvação e lhes conferia poderes sobrena- perfeitamente exeqüível, é possível encontrar motivos gnósticos
turais. Embora a verdade última fosse considerada inacessível
(2>
quando os quisermos achar. Dificilmente saberemos se este dito (no
à razão do homem, sem qualquer auxílio, os cultos de mistérios afir- original aramaico) foi de fato pronunciado por Jesus, na forma em
mavam revelá-la aos seus participantes; deus concede a gnose na que o conhecemos; sua importância está em resumir a compreensão
visão extática ou mística, e o iniciado é renascido através da opera- que a Igreja apostólica tinha dos ensinos de Jesus sobre sua relação
ção mágica da palavra regeneradora (lógos palinguenesías). Esta com Deus e as conseqüências desse fato para as relações da huma-
gnose divinamente comunicada parece ter sido, de fato, mistura de nidade em geral com Éle.< ' Se, como esperamos demonstrar,")
6

especulação cosmológica e mitologia (cf. pseudónymos gnósis de Jesus se considera o Filho Messiânico de Deus, nas linhas do pensa-
I Tm 6.20). Possuir gnose é ter poder, pois é o dynamis divino que mento hebraico tradicional ( e . g . SI 2.7; I I Sm 7.14; Ex 4.22 s.,
torna o homem pneumatikós, participante da natureza divina e, etc.), é nessa qualidade que todas as coisas lhe são entregues. O
assim, imortal. A versão mais intelectualizada deste tipo de mis- próprio Jesus toma o lugar do antigo Israel na qualidade de Filho
tério em forma de crença religiosa-filosófica tornou-se a expressão de Deus. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, da mesma forma
padronizada do paganismo superior do segundo e terceiro séculos; como ninguém "conheceu" Israel senão Javé (Am 3.2, etc.) ; assim

(3) Em IFG, de C, H. Dodd, 10-53, e n c o n t r a m o s boa descrição deste do-


(2) Cf. o e n s a i o d e N . P . W i l l i a m s e m Essays Catholic and Critical, ed. E. c u m e n t o ; a s notas d e r o d a p é à p á g . 11 i n d i c a m l i t e r a t u r a s o b r e o assunto.
G . S e l w y n , 1926. 3. ed. 1929. 385-423; v e r t a m b é m o a r t i g o " G l i o s i s " d e R . B u l t -
a

(4) D o d d , IFG, 11.


m a n n e m Kittel, T W N T . t r a d u ç ã o inglesa, p o r J . R , Coates ( B i b l e Key Words),
(5) G n o s i s , t r a d u ç ã o i n g l e s a ; cf. R . B u l t m a n n , Die Geschichte der Synoptischen
1953; d o m e s m o a u t o r . Theology of the New Testament, I, t r a d u ç ã o i n g l e s a , 1952,
Tradition, 2." ed., 1931, 171 s.; n ã o e n c o n t r a m o s r e f e r e n c i a a este v e r s í c u l o nos
164-83 e 294-303; de R . Reitzenstein, D i e H e l l e n i s t i s c h e n Mysterien - religionen,
3." ed., L e i p z i g e B e r l i m . 1927: de C. H. D o d d , The Bible and the Greeks, 1935. índices d e seu l i v r o T h e o l o g y of the New Testament, I e I I , 1952 e 1955.
99-248; I F G , 151-69; de W . D . D a v i e s , PRJ 191-200; d e F. C B u r k i t t C h u r c h a n d (6) C h a m a m o s a a t e n ç ã o p a r a a e x c e l e n t e e x p o s i ç ã o deste v e r s í c u l o f e i t a
G n o s i s , 1932. p o r R . H . F u l l e r , e m T h e Mission and Achievement of Jesus, 1954, 89-95.
(7) V e r infra, 147-53
como entre Deus e Israel no passado, a relação entre Deus e Jesus ramente por acaso que o Quarto Evangelista evitou as palavras
é única. Israel recusara obedecer como filho, de modo que agora o mágicas da pseudónymos gnôsis ( I Tm 6.20) ou philosophía (i.e.
Filho Messiânico deve render a perfeita obediência pela qual o ver- especulação gnóstica, Cl 2.8) helénica — tais como as próprias pala-
dadeiro conhecimento de Deus será consumado no último dia. Assim vras gnôsis, pístis e sophiu?
o Pai conhece agora o Filho (Messiânico) no sentido próprio das No ensino de São João o conhecimento de Deus começa com o
Escrituras (não-gnóstico) de "conhecer": autoriza-o, envia-o, opera ato de fé em Cristo. Significa obediência confiante às palavras de
através dele e mantém com êle a relação pessoal mais íntima possí- Cristo. Os que não "ouvem" o lagos de Cristo não podem conhecer
vel. Só o Filho conhece o Pai e não outro, visto que só êle ofereceu (no sentido interior) suas palavras (laliá) (8.43). Assim como há
ao Pai a obediência perfeita de Filho. O Filho é, então, o meio visão interior há também audição interior que advém da recepção
divinamente escolhido para trazer o conhecimento de Deus ao mundo obediente e confiante de sua palavra. Este recebimento em fé não
("e aquele a quem o Filho o quiser revelar"), o qual se tornou a luz depende de ouvir e ver o Jesus histórico. Crer, no sentido pleno, só
dos gentios, como jamais Israel desobediente houvera sido. Na frase é possível, de fato, após a "elevação" (i.e., a crucifixão e ressurrei-
que estamos considerando está implícito que fora da revelação de ção) do Filho do Homem (8.28) ; muitos que o viram na carne não
Deus em Cristo não há verdadeiro conhecimento de Deus no mundo. creram e a bênção completa é reservada aos que não viram e creram
Este é o ensino do NT inteiro, difícil de ser compreendido por uma (20.29). A visão, então, não é necessariamente igual à crença, pois
geração "liberal". Poderemos, porém, ver mais facilmente esta ver- muitos viram e não creram (6.64, 66, etc.) ; mas, por sua parte, a
dade, se atentarmos para o sentido bíblico de "conhecimento". Não crença envolve nova visão, como está implícito na história do cego
quer dizer a posse de certos conceitos filosóficos sobre a natureza e de nascença e sua conclusão sobre a abertura dos olhos interiores
atributos de Deus, mas o conhecimento que se dá por meio de rela- da fé no homem que fora curado, em contraste com a cegueira dos
ções pessoais com Êle. Somente por meio de Jesus Cristo, o Filho fariseus descrentes (9.1-41). Crer assim não é conquista humana;
Messiânico, a humanidade poderá conhecer Deus neste sentido é dom de Deus (6.65). Significa, em primeiro lugar, confiança
bíblico. pessoal e entrega a Cristo, mas pode ser expressa na forma da
O Quarto Evangelista investiga com maior profundidade as cláusula hóti, como, por exemplo, crer que Deus enviou Cristo (17.8).
conseqüências da doutrina da ação reveladora do Filho Messiânico O emprego caracteristicamente joanino de pisiéuein seguido de eis
de Deus. Bultmann afirma que o pensamento joanino parte do con- (não encontrado nos L X X e talvez somente oito vezes nas outras
ceito helénico gnóstico de conhecimento, e não do AT,< 8)
porque partes do N T ) põe em relevo o caráter fortemente pessoal da fé —
muitas vezes esta palavra equaciona-se, à maneira grega, com relação pessoal de confiança (e.g. pistéuete eis tòn Theón, kái eis
"visão" (e.g. Jo 14.7-9; I Jo 3.6; 4.14). Não considera que o emé pistéuete, 14.1). A expressão pistéuein eis tó ónoma (1.12;
vocábulo "visão" faz parte da linguagem humana religiosa univer- 2.23; 3.18), tão particularmente joanina, refere-se, provavelmente,
sal e que tem sido metáfora fundamental em todas as épocas e à confissão batismal de fé em o nome de Cristo.<10)
lugares; pode ser achada em qualquer região, desde o antigo Egito A maneira como São João emprega a palavra pistéuein aju-
ou Babilônia até o moderno Japão ou Peru. Desde o nascimento da da-nos a compreender o sentido que êle atribui a guinóskein, "conhe-
linguagem, os homens empregaram a palavra "visão" diante da ver- cer" — palavra esta encontrada em João e I João mais vezes do
dade das coisas. O AT está cheio desta imagem. Afirmar que São que em todos os outros livros do NT. A freqüência com que o vocá-
João "parte do conceito gnóstico de conhecimento" porque ocasio- bulo "crer" aparece associado com "conhecer" é bastante ilumina-
nalmente (e em que modesta proporção!) emprega o termo "visão" dora : crer é o ato pelo qual chegamos ao conhecimento de que Cristo
é admitir a necessidade de engendrar evidências a partir do nada. procede do Pai, de modo que estas duas palavras, se não sinônimas,
É mesmo grande exagero dizer que São João "fala a linguagem do são, pelo menos, complementares. Crer (ouvir e obedecer) leva ao
misticismo helénico"/ ) quando sabemos que estão excluídas de seu
9
conhecimento (pessoalmente experimentado) e não é possível conhe-
vocabulário todas as expressões técnicas religiosas e filosóficas, com cer sem crer. É assim, por exemplo, a versão joanina da confissão
exceção das hebraicas (como Messis, Filho de Deus, Filho do Ho- de São Pedro: "Nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de
mem, Verbo, Glória), limitando-se às palavras da linguagem humana Deus" ( 6 . 9 ) , embora só tenha sido possível porque Cristo escolhera
comum (como luz, vida, conhecer, verdade, ver). Teria sido intei- os discípulos em primeiro lugar (6.70). "Conhecer" no sentido
joanino, como em geral na Bíblia, significa entrar em relação e ter

(8) Gnosis (ET), 48.


(10) Cf. C . H . D o d d , Í F G , 184.
(9) C. H . D o d d , IFG, 201.
experiência pessoal com alguém, coisa bem diferente do simples e "conhecer" são mais ou menos equivalentes em certos contextos
conhecimento por descrição; é de primeira mão ou de relação "Eu- do Quarto Evangelho. Em diversas ocasiões, conhecimento é a
Tu" e não científico-objetiva. O exemplo perfeito deste tipo de mesma coisa que "visão", embora não no sentido gnóstico ou mís-
conhecimento é a relação de Cristo com o Pai, envolvendo obediência tico: conhecer é "ver com os olhos da f é " ; esta posição é absoluta-
do lado humano; o Filho conhece o Pai por causa de sua perfeita mente bíblica, o ensino comum do NT.
obediência e identidade de vontade com Êle (4.34; 5.30; 6.38; São Paulo, diferindo de São João, não procura evitar palavras
14.31, e t c ) . Obedecer ao mandamento de Deus é conhecê-lo. Este como gnôsis, epígnosis (cujo sentido é idêntico ao de gnôsis),
é o critério válido para todos: "Sabemos que o temos conhecido sophía, pístis, mystérion, etc. Talvez porque, ao ser um missionário,
por isto: se guardarmos os seus mandamentos (I Jo 2.3; cf. 2.5; ache melhor empregar deliberadamente palavras que já faziam
5.18-20). Os mandamentos de Cristo, resumidos no "novo man- parte do vocabulário religioso dos convertidos. Estes conheceriam
damento" do amor (Jo 13.34; cf. 15.12,17; I Jo 2.7 s.; 3.11; II plenamente os diversos cultos de mistérios com suas doutrinas a
Jo 5 ) , são os mesmos de Deus porque o Filho só faz e fala o que respeito da gnosc, salvadora. Nada mais natural do que lhes falar
recebe do Pai. Os discípulos são trazidos à mesma relação com sobre "a sublimidade do conhecimento (gnôsis) de Cristo Jesus
Cristo, assim como este se relaciona com o Pai (Jo 10.14 s.), ao meu Senhor" (Fp 3.8) ou sobre "o mystérion de Deus, Cristo, em
obedecerem aos seus mandamentos ou, melhor, o mandamento do que todos os tesouros da sophía e da gnôsis estão ocultos"
amor; esta relação de conhecimento baseia-se, porém, na ação ante- (Cl 2.2 s.). O simples fato cie São Paulo ter procurado expressar a
rior da escolha dos discípulos por Cristo (Jo 15.16; cf. 13.18; 5.21; verdade de Cristo em termos familiares aos que sempre entenderam
I Jo 40.10,19). Conhecer Cristo é conhecer Deus por causa da união "religião" como mistérios, se é que o fêz, não quer dizer que tivesse
hipostática de Cristo com o Pai; é entrar na mais íntima relação aceito qualquer doutrina filosófica ou religiosa supostamente gnós-
possível, descrita pelo verbo "permanecer em" (Jo 15.4-10), ou sim- tica; nem tampouco a linguagem e o ponto de vista pretensamente
plesmente por estar "em" Cristo ou Deus (17.21-23). Embora "gnósticos" de Colossenses e Efésios nos levam a considerá-las
ginóskein represente principalmente experiência pessoal, subjetiva, (com Bultmann) cartas não-paulinas. É tão parco o nosso conhe-
de relação entre pessoas, pode ser empregado com a partícula hóti, cimento a respeito das religiões de mistérios (e, de fato, nada sa-
desde que este conhecimento, mesmo interior, possa ser, até certo bemos da existência de quaisquer "gnosticismos" no primeiro século,
ponto, objetivado, i.e., expresso em palavras. As palavras mais a não ser por meio do que possa ser deduzido do N T ) , que todas
comuns empregadas por São João para descrever o conteúdo do estas teorias se tornam demasiadamente precárias. É mais seguro
conhecimento de Deus estão na afirmação de que Cristo procede do reconhecermos que há nas epístolas paulinas dois tipos de conhe-
Pai ou que o Pai enviou o Filho (16.27,3'0; 17.3,8,21, 23,25; cf. 3.2), cimento. Temos o conhecimento "enfatuado", a sabedoria mundana,
que também forma o conteúdo de pistéuein hóti. "Os judeus" acha- veementemente repudiada (e.g. I Co 1.20; 2.5, 13; 8.2; 13.2, 8 ) ,
vam que conheciam tudo a respeito de Cristo porque sabiam que êle que representa, sem dúvida, a pretensa gnósis e sophía dos cultos
viera da Galileia (7.41), mas não tinham alcançado o conhecimento de mistérios e dos pregadores de filosofia (Cl 2.8). E há também
mais profundo de que Êle viera de Deus (7.27-29). Só os que co- o conhecimento de Deus por meio de Cristo, a verdadeira sabedoria
nhecem Cristo pessoalmente, numa relação subjetiva de amorosa que Paulo proclama superior a todos os substitutos pagãos. O
confiança e obediência, é que podem saber que Êle procede de Deus. amor (agápe) é a prova que distingue o falso conhecimento e a
Este conhecimento já é agora uma participação por fé na vida da falsa sabedoria de sua expressão verdadeira — prova tremenda-
Era Vindoura (dzoè aiónios) ( 1 7 . 3 ) ; dá-se numa relação com o mente semelhante à proposta em I Jo (e.g. esp. 4.8). A falsa gnose.
Pai por meio da aceitação das palavras de Cristo, sendo, portanto, explode em orgulho em lugar de promover agápe. Portanto, diz
amor permanente, como aquele que caracterizará a Era Vindoura Paulo, ainda que eu conhecesse os segredos de todas as religiões de
(14.19-21). É, portanto, a antecipação da visão da glória (dócsa) mistérios e toda sua alardeada gnose, nada seria se não tivesse
que se revelará no fim e que os discípulos já tinham visto no Filho agápe ( I Co 13.2). A gnose, intelecto grego ou revelação helénica, de
encarnado (1.14; 2.11), mas que não fora ainda manifesta ao nada vale sem amor. Os coríntios poderão pensar que sabem tudo a
"mundo" (cf. 14.22). Os discípulos viam pelos olhos da fé a ver- respeito dos ídolos — a revelação cristã, naturalmente, "desmasca-
dade e a glória que estavam em Cristo; eles "viram", não com a rou-os"; mas não fica resolvido o problema prático da eidolóthyta
visão (theoría) da especulação gnóstica ou da contemplação mís- e da consciência do irmão mais fraco: " N o que se refere à eidoló-
tica; na vida terrena toda "visão" é visão em fé bem como todo thyta, reconhecemos que todos somos senhores da gnose. A gnose
conhecimento. Por esta razão as palavras "ver", "ouvir", '"crer" ensoberbece, mas o agápe edifica. Se alguém julga saber alguma

49

ÇP!Vf!IR1 A D i n r»r5TV!f»r»r»r»i n
também sou conhecido" (I Co 13.12). Tanto o A T como o NT
coisa, com efeito não aprendeu ainda como convém saber. Mas se
descrevem o dia do Senhor como de perfeito conhecimento.
alguém ama a Deus, esse é conhecido por êle" ( I Co 8.1-3). Sig-
nifica que o poder salvador não é gnose, mas amor. O amor nos
fala do sentido real do conhecimento; não temos direito de nos van- REVELAÇÃO GERAL A TODA A HUMANIDADE
gloriar de nosso conhecimento, pois o verdadeiro não é o que temos Podemos deduzir de passagens como Gl 4.8 s. que São Paulo
de Deus, mas o que Deus tem de nós. Quando falamos em conhe- considerava os gentios ignorantes do verdadeiro Deus até o rece-
cimento verdadeiro ou salvador tudo é de Deus e nada é nosso; fora bimento do Evangelho de Cristo. E, como os profetas do AT,
deste tipo de sabedoria que Paulo preferia chamar cie o.gápe, por culpa-os. O conhecimento que deveriam ter de Deus fora obscure-
ser uma relação pessoal com Deus, toda a gnose das academias e cido por sua pecaminosidade e especialmente pela idolatria (Rm
seitas reduziam-se a nada. Mesmo os judeus não tinham ocasião 1.18-32). Parece que São Paulo aceitava o ponto de vista contem-
de se gloriar da posse da "forma da gnose e da verdade na lei" porâneo do judaísmo rabínico, o de que certas exigências éticas
(Rm 2.20), porque tal conhecimento, muito longe de salvá-los, era eram obrigatórias para todos os homens, inclusive os gentios. Este
de fato sua condenação (Rm 2.17-29). tipo de pensamento assimilara certas idéias gregas que andavam
O problema da gnose é tratado por São Paulo em sua verda- "pelo ar", tais como a noção estóica de uma lei moral universal ou
deira perspectiva bíblica, quando considera de primeira importân- lei da natureza. Esta já se encontrava, por exemplo, em Sabedoria
cia o conhecimento que Deus tem de nós e não o que poderíamos 13.1-9, que vai ser base do pensamento de Paulo em Rm 1.18-32.
ter a respeito dele como base de nossa salvação. Nós amamos a É interessante notar que não existe palavra hebraica para "natu-
Deus somente porque êle "nos conhece" ( I Co 8.3), significando reza", e que esta idéia é totalmente estranha ao A T ; contudo, no
na linguagem bíblica que êle nos chama, entra em relação pessoal primeiro século A. D. um discípulo da escola de Gamaliel é capaz
conosco, encarrega-nos de realizar a sua obra, etc. Não somos de escrever esta sentença: "Não vos ensina a própria natureza
levados ao conhecimento de Deus por causa de nossa habilidade ou (physis auté) ser desonroso para o homem usar cabelo comprido?"
mérito; assim, Paulo escreve aos Gálatas: "Outrora, porém, não ( I Co 11.14).(12) Os rabinos haviam realmente formulado uma dou-
conhecendo a Deus, servíeis a deuses que por natureza não o são trina do conhecimento universal de Deus, com suas características
(i.e., os demônios ou divindades pagãs) ; mas agora que conheceis próprias. (13) Desde os dias de Adão tem havido revelação, ou no
a Deus (nyn dé gnóntes Theón), ou antes sendo conhecidos por Deus dizer de São Paulo, em Rm 1.20, "desde o princípio do mundo",
(mâllon dé gnosthéntes hypó Thcôu), como estais voltando outra renovada nos dias de Noé, quando a história recomeçou depois do
v e z . . . ? " (Gl 4.8 s.)- Os convertidos procedentes do paganismo Dilúvio (Gn 9.1-7). Os "mandamentos relacionados com Noé"
conheciam o verdadeiro Deus por meio da pregação da palavra de eram considerados válidos para toda a humanidade, incluindo injun-
Cristo, possível somente porque Deus em seu amor transbordante ções tais como não adorar ídolos, não blasfemar, estabelecer a jus-
os "conhecera" em primeiro lugar. Existe, então, para todos os tiça, não matar, não cometer adultério, não roubar e assim por
que respondem à palavra de Deus, em Cristo, um verdadeiro conhe- diante — mas não havia forma fixa. É bem provável que os "decre-
cimento de Deus que lhes é suficiente, embora não seja ainda per- tos apostólicos", publicados pelo Concílio de Jerusalém (At 15.20,
feito e final. Nesta vida só temos conhecimento parcial ( I Co 13.9), 29), pretendiam ser a versão cristã deste código noeense: embora
pela fé, não pela vista. O que temos da mente de Cristo, através da os cristãos gentios estivessem dispensados da observância meti-
fé, é suficiente para a nossa orientação diária ( I Co 2.16). Mesmo culosa da lei de Moisés, deveriam guardar a lei moral universal;
agora já temos bastante luz, "espírito de sabedoria e de revelação esta sugestão, pelo menos, explica uma passagem muito controver-
no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do vosso coração, tida, embora ofereça suas dificuldades. Os rabinos judeus sabiam
para saberdes.. . " (Ef 1.17 s . ) . Aqui novamente temos uma muito bem que os gentios reconheciam certos padrões éticos, con-
metáfora neotestamentária — o conhecimento é a visão dos olhos quanto nem sempre vivessem segundo eles; e instintivamente per-
do coração, ou seja, da fé; é o único tipo de conhecimento que cebiam que tal consciência moral só poderia ter vindo, em última
podemos ter no presente século. É parcial, per specidum, e desapa- análise, do Deus da retidão, cuja revelação especial havia sido dada
recerá no dia final da revelação quando "então conhecerei como na Tora de Moisés. Assim, São Paulo reconhece, em Rm 2.14 s.,

(12) Notar também o emprego d e physis e physiliós em Rm 1.26 s. e Rm


2.14.
(11) Cf. a o r a ç ã o d e I C l e m . R o m . 59: " A b r o os olhos d e nossos c o r a ç õ e s p a r a (13) V e r W . D . D a v i e s , P R J , 115-17.
q u e p o s s a m o s te c o n h e c e r " .
que os gentios, não tendo a Torá dos judeus, cumpriam pela natureza geral" do que "conhecimento natural" de Deus. Mas Paulo, o rabi,
(physci) os ditames da lei moral; "servem eles de lei para si mes- continua demonstrando como esta revelação geral de Deus foi me-
mos", isto é, são seus próprios legisladores; mostram que o conteúdo nosprezada e maltratada pelos homens. Tendo conhecido a Deus
da lei moral está escrito em seus corações, "testemunhando-lhes a (gnóntes tòn Theón, Rm 1.21; cf. Gl 4.9), todavia, recusaram-se a
consciência (synéidesis), e os seus pensamentos, mutuamente, adorá-lo como Deus, desejando antes sua própria glorificação, resul-
acusando-se ou defendendo-se" à luz dessa lei. tando daí o obscurecimento da razão e o culto irracional de divin-
A idéia de consciência que Paulo, o rabino, introduz no cris- dades humanas e até mesmo de pássaros, vacas e serpentes. Da
tianismo, com enormes conseqüências, pode ser encontrada em Atos, superstição veio a imoralidade, pois, quando o homem adora outros
nas epístolas pastorais, em Hebreus e em I Pedro, além das epísto- seres em lugar de Deus, deixa de respeitar a lei moral divina. Como
las paulinas. Parece que era uma idéia geral no mundo grego, entre os judeus sempre souberam, a idolatria é mãe da fornicação e de
os que se preocupavam com a ética — noção que qualquer religião todos os tipos de abominação. Em forma tipicamente rabínica,
missionária adaptaria a seus propósitos. > Já fora aceita pelos (14 Paulo, em Rm 1.21-32, afirma que as superstições e vícios do mundo
judeus de língua grega, encontrando-se nos LXX em Ec 10.20, pagão encontram suas raízes na idolatria, que é a adoração da cria-
Eclesiástico 42.18 e Sabedoria 17.11, embora só na última destas tura em lugar do Criador. Assim, a revelação geral de Deus, de seu
citações (onde se equaciona com "testemunho interior") apareça poder e divindade, através das obras da Criação, está obscurecida
com significação ética técnica. A palavra synéidesis (literalmente: pelo pecado e a verdade é suprimida pela iniqüidade (Rm 1.18) ;
"co-conhecimento", con-scientia) subentende uma segunda cons- apesar disso a consciência permanece entre os gentios para dar tes-
ciência, i.e., o juízo reflexivo que o homem tem juntamente com a temunho da revelação original de Deus a toda a humanidade.
consciência do que está fazendo; esta segunda consciência é perso-
nificada e projetada, ao enfrentar e julgar a primeira, acusando ou Segundo At 17.22-32, São Paulo, em ocasiões apropriadas,
defendendo. Paulo considera a percepção universal do certo e do baseou sua pregação do Evangelho neste conceito rabínico da reve-
errado, com o sentido da obrigação de fazer o certo, que chamamos lação geral. Procurou levar os atenienses, no Areópago, das dou-
de consciência, como evidência não só de um conhecimento humano trinas da filosofia estóica à revelação em Jesus Cristo. Toma a
universal da lei moral como também, embora em proporção muito existência de um altar com a inscrição Agnósto Theô como evidência
pequena, do autor dessa lei. Segue então o ensino rabínico contem- da consciência que eles tinham do Deus que féz o mundo e não
porâneo recebido de Gamaliel, sem se preocupar que "consciência" habita em templos feitos por mãos humanas. Refere-se a "alguns
e "natureza" sejam expressões mais gregas do que hebraicas. Pros- dos vossos poetas" e cita Arauto, o estóico cilício, quando diz que
seguindo em seu argumento, é óbvio que São Paulo não considera os homens são geração de Deus. É claro que Paulo não concordaria
salvador este simples conhecimento da lei de Deus, entre os gentios, totalmente com esta idéia, sem qualificações, pois não considerava
como também jamais o fora para os judeus o conhecimento da Torá. os homens todos physei, filhos de Deus, mas apenas capazes de se
Em ambos os casos a lei condena: consciência sempre é consciência tomarem filhos de Deus por adoção e graça; mas toma as palavras
culpada. Não obstante, a própria existência de consciência entre os do poeta como ponto de partida, significando que os homens foram
gentios era evidência de que possuíam algum conhecimento de Deus. feitos por Deus, e demonstra como a compreensão desta verdade é
Deus se revelara, desde a criação do mundo, por meio das obras de
incompatível com as crenças religiosas idólatras professadas pelo
suas mãos, e seus atributos invisíveis de poder eterno e divindade
podiam ser vistos claramente por olhos que não estivessem toldados povo. Fala, então, do julgamento vindouro do mundo pelo Varão
pelo pecado (Rm 1.20). Destinado, cuja ressurreição dentre os mortos é a prova de seu
futuro papel de juiz. Não há razão alguma para supor que São
Lucas tenha inventado o conteúdo da pregação de Paulo aos ate-
Não é que São Paulo aceitasse estritamente a doutrina do nienses; os apologistas judeus, educados na antropologia rabínico-
"conhecimento natural" de Deus, pois no versículo anterior afirma estóica da consciência humana universal, muitas vezes deveriam ter
que Deus revelou (ephanérose) à humanidade o que dele se pode empregado este tipo de argumento em suas discussões com os gen-
conhecer (1.19). Temos aqui o mesmo fundamento rabínico do mito tios "tementes a Deus". Não fora o conhecido método rabínico-
da aliança com Noé e da renovação da aliança original que Deus estóico que escandalizara os ouvintes de São Paulo, mas a pregação
pretendeu fazer com toda a raça humana, por meio do primeiro do julgamento e da ressurreição. Alguns comentadores atribuem a
homem, Adão. É, portanto, mais adequado falar-se de "revelação esta falha apologética e filosófica de São Paulo, no Areópago, a
resolução de, daí por diante, nunca mais tomar como ponto de par-
(14> V e r C . A . P i e r c e , C o n s c i e n c e in the New Testament, 1955, q u e apre- tida "a sabedoria deste mundo" ( I Co 1.18-31). Mas esta sugestão
senta u m a discussão c o m p l e t a deste t e m a .
REVELAÇÃO E PAROUSt A
é bastante inverossímil. É muito mais provável que Paulo quisesse
dizer o que realmente escreveu aos coríntios, isto é, que sua pregação A Bíblia ensina que Deus se revelou a toda a humanidade, atra-
do Cristo não era uma nova religião de mistérios, uma sophía ( I Co vés das obras da Criação, especialmente por meio do homem, feito
2.1,5 s., 13) feita pelos homens, mas o kérygma que, não importando que foi à imagem do próprio Deus (Gn 1.26 s.). Mas a imago Dei,
quão insensato parecesse, era assegurado pelo Espírito Santo de marca do homem, foi tristemente desfigurada, embora não destruída
Deus. Não pretende, por certo, que antes pregara em Atenas ou pela queda no pecado. Permaneceram na razão e na consciência do
em qualquer outro local, uma sophía feita pelos homens; apenas rea- homem traços da sua "retidão original", embora enfraquecidos e
firma que esta é a única coisa que jamais faria. Além disso, não deformados pelo pecado. Deus, contudo, deu à humanidade, em sua
fora a apologética rabínica que escandalizara os atenienses; haviam misericórdia, uma "revelação especial" de si mesmo, pela qual o
escarnecido da idéia de julgamento e da ressurreição dos mortos homem no meio de sua pecaminosidade pudesse chegar, através da
(At 17.32) ; a pregação de Cristo crucificado é que parecia loucura fé na promessa de Deus, ao conhecimento salvador de Deus como
aos gregos ( I Co 1.23). Paulo sabia muito bem que, se o cristia- seu criador e redentor. O homem não poderia ter redescoberto ou
nismo fosse uma nova sophía, não haveria escândalo algum. O que conhecido Deus por si mesmo, como Deus é, se Éle não se tivesse
ofendia os "disputadores deste mundo" era o elemento kerygmático revelado através dos véus da ignorância e da superstição, conse-
da fé e não o filosófico. Não há razão para se duvidar que no qüências estas da tentativa do homem de se colocar no lugar de Deus.
sumário da pregação de Paulo no Areópago São Lucas não nos tenha Mas a revelação plena de Deus só será feita no "dia final do Se-
dado um relato fiel do tipo de pregação que São Paulo costumava nhor", quando a fé submergirá na visão; enquanto isso, Deus con-
fazer perante audiências de gregos educados, sempre que tinha opor- cedeu uma revelação aos olhos da fé que, mesmo agora, nos dá certeza
tunidade de lhes dirigir a palavra. da salvação última. Deste modo, embora "revelação" seja antes de
Não há dúvida, apesar de Karl Barth,d5) ¿ São Paulo tudo um conceito escatológico, há, como veremos, um sentido pró-
prio em que se pode falar de revelação na história.
e q u e

aderira ao ensino rabínico de que Deus havia dado a revelação geral


ao mundo, mesmo antes de a Tora ter sido entregue por intermédio
Para designar a idéia de "revelar", o NT emprega dois verbos
de Moisés. Deus já estabelecera sua aliança com a humanidade antes
principais. O primeiro, apokalyptein (com seu substantivo cognato,
mesmo da aliança com Abraão, assinalada pela circuncisão (Gn
apokálypsis), significa desvelar, tirar a cobertura de algo e dei-
17.1-14). Se assim não fora a humanidade em geral não teria
xá-lo à vista. Os escritores gregos clássicos e os LXX empregam-no
sabido que certos modos de comportamento são melhores do que
no sentido secular comum. Mas no NT, pelo contrário, aparece na
outros e não teria reconhecido a excelência de certos tipos de con-
qualidade de termo teológico técnico; d?) assim, em I Co 11.5 s.,
duta ; nem haveria razão na exortação tantas vezes dirigida às comu-
onde Paulo fala sobre a remoção do véu que cobre a cabeça das
nidades cristãs, de que procurassem convencer os gentios pelo seu
mulheres, ou em II Co 3.13 s., onde fala sobre o desvelamento da
bom exemplo (Rm 12.17; I Tm 6.1; Tt 2.5; cf. Rm 2.24). De-
face de Moisés, emprega diferentes formas compostas do verbo:
pende da graça de Deus, na revelação geral, a possibilidade que
respectivamente akatakályptos, descoberta, e anakalyptein, desve-
tem a vida moral dos bons pagãos de envergonhar os judeus negli-
lar. No NT apokalyptein é sempre usado para o ato revelador de
gentes, sendo até a incircuncisão daqueles considerada como circun-
Deus e jamais no sentido humano, secular. (O A T emprega, natu-
cisão (Rm 2.26 s.). Por esta razão, também, os oficiais do Estado
ralmente, estas palavras com o sentido de revelação divina, e.g.
realizam um ofício considerado divino (leitourgói Theôu), e os cris-
LXX, I Sm 2.27; SI 97 (98) .2; Dn 2.19). No N T Mc, Jo (com
tãos devem estar-lhes sujeitos, "não somente por causa do temor da
exceção de uma citação do A T em 12.38), At e Hb nunca empregam
punição, mas, também, por dever de consciência" (Rm 13.4-6; I Pe
a forma apokalyptein. Mas é encontrada em Mt 10.26 (Lc 12.2),
2.13 s.; Tt 3.1). Por causa desta verdade expressa mitológica-
Mt 11.25, 27 (Lc 10.21 s . ) , Mt 16.17 e Lc 17.30, sempre em ex-
mente na história da aliança de Deus com Noé, o próprio Estado —
pressões atribuídas a Jesus. Considerando ainda a citação do AT,
mesmo o governo de Nero — tem seu lugar próprio na organiza-
em Lc 2.32, estas são as únicas vezes em que o vocábulo ocorre nos
ção providencial do mundo. d6)
Evangelhos. O segundo verbo, phanerôun (com seu substantivo de-
rivado, phanérosis) significa tornar manifesto o que antes estava
(15) The Epistle to the Romans, t r a d u ç ã o i n g l e s a , H o s k y n s , 1930, 46 s . oculto ou era desconhecido. Aparece no sentido comum, cotidiano
(16) P a r a a c o n s i d e r a ç ã o m a i s a m p l a d a idéia de " r e v e l a ç ã o g e r a l " , v e r a
o b r a d e A l a n R i c h a r d s o n , Apologética Cristã, t r a d u ç ã o b r a s i l e i r a , c a p . V . Sobre
a a l i a n ç a c o m N o é v e r , d o m e s m o autor, G ê n e s i s I - I X , ( T o r c h C o m m e n t a r i e s ) 1953, (17) Assim também em G. S. Hendry, TWBB, 195 s.
105-12.
(e.g\ Mc 3.12; 6.14) e também no sentido mais profundo da re- tempo (en kairó escháto) " (1.5), tempo que também é descrito como
velação divina pela qual a verdade oculta c misteriosa é manifesta. en apokalypsei lesou Christóu (1.7 e 1.13), ou en tê apokalypsei
O substantivo aparece no NT apenas em I Co 12.7 e II Co 4.2. tês dócses autóu (4.13; cf. 5.1).
O NT não menciona a "segunda vinda" de Cristo; a expressão
Quando empregamos hoje a palavra "revelação", na discussão que mais se aproxima desta está em Hb 9.27, onde se lê que Cristo
teológica, quase sempre queremos dizer "revelação histórica", atra- "aparecerá segunda vez, (eh deutérou), sem pecado, aos que o aguar-
vés de Israel ou de Cristo. Mas, quando o NT fala em revelação, dam para a salvação". O termo técnico he déutera parousía
quase sempre se refere ao desvelamento do fim dos tempos, i.e., a remonta, pelo menos, aos dias de Justino Mártir (Apol. 1.52, etc.)
parousía. A palavra apokálypsis, usada simplesmente sem qualquer em contraste com he prôte parousía (Dial. c. Tr. cc. 40, 110, 121;
qualificação, significa a parousía, a revelação de Jesus Cristo, cf. Inácio, Phil. 9 ) , i.e., a encarnação, nascimento e ministério de
quando êle vier no final dos tempos. O "dia do Senhor" do AT Cristo. A palavra éleusis (cf. eléusomai), vinda, advento, só apa-
adquire agora o sentido de "dia (da vinda) do Senhor Jesus"; rece em At 7.52, com referência à primeira vinda de Cristo; poste-
assim, São Paulo descreve os coríntios: "aguardando vós a revelação riormente no plural, hai eléuseis, para indicar tanto a primeira
(apokálypsis) de nosso Senhor Jesus Cristo; o qual também vos como a segunda vinda de Cristo (Irineu, Adv. Haer. I 10). Alguns
confirmará até ao fim, para serdes irrepreensíveis no dia de nosso teólogos rejeitam a expressão tradicional "segunda vinda de Cristo",
Senhor Jesus Cristo" ( I Co 1.7 s.). O Messias voltará para livrar alegando que nela está implícita a idéia de que Jesus Cristo está
a Criação de seus males, e não virá sozinho, pois os filhos de Deus ausente de nós até que volte outra vez. Esta expressão, contudo,
retornarão com êle na glória — "a revelação (apokálypsis) dos nunca pretendeu sugerir qualquer doutrina da "ausência real" de
filhos de Deus" (Rm 8.18 s.; cf. II ( 4 ) Èd 13.26, 29, 39). Os que Cristo; apareceu para comunicar o ensino insistente do N T : Cristo
sofrem aflições no presente mundo descansarão, "quando do céu se não está presente agora, do mesmo modo em que o estava nos dias
manifestar (apokálypsis) o Senhor Jesus com os anjos do seu poder" de sua carne, nem também como o estará no dia de seu "apareci-
( I I Ts 1.7: poderíamos indagar se os anjos aqui mencionados são mento". Cristo está verdadeiramente presente na sua Igreja, não,
idênticos aos "filhos de Deus" de Rm 8.19; cf. Jó 1.6; 2.1; 38.7; porém, com o seu corpo terreno e nem ainda em sua "glória" visível;
está presente na realidade do Espírito Santo.
SI 29.1). Os fiéis suportarão tribulação até a revelação do Homem
da Iniqüidade, o filho da perdição, descrito na linguagem de Daniel Há diferença, também, entre a revelação que será feita na
como aquele que "se opõe e se levanta contra tudo que se chama parousía do Cristo e a que foi dada na história. Na parousía será
Deus", assentando-se no santuário (naós) de Deus; então aquele que uma revelação "visível", em contraste com a revelação da " f é " ,
o detém será revelado em ocasião própria (kairós) : "então será que nos foi dada na história. Só os olhos da fé podiam perceber a
de fato revelado o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o revelação de Deus na pessoa histórica de Jesus — esta foi a expe-
sopro de sua boca e o destruirá pela manifestação (epipháneia) de riência dos primeiros discípulos nos dias de sua carne e é também
sua vinda (parousía)" ( I I Ts 2.3-8). A palavra epipháneia, apa- a experiência de todos os que aceitaram o testemunho deles nos
recimento, manifestação, que tem o sentido geral de aparição sobre- séculos posteriores. Mas, no "apocalipse" de Cristo, no "último
natural, aparece no NT, somente neste trecho ( I I Ts 2.8) e nas tempo", mesmo sem fé, será impossível deixar de contemplá-lo como
epístolas pastorais (cinco vezes), quase sempre (a não ser em II realmente é, em sua gloriosa majestade. Durante sua vida encar-
Tm 1.10) com o sentido do aparecimento final de Cristo, na glória nada, um véu impenetrável aos olhos descrentes escondia, sob a
do fim dos tempos. A palavra parousía (de páreimi, estar pró- forma de servo, a dignidade nobre do Rei dos Reis, de tal modo que
ximo, ter chegado, estar presente) pode ser empregada, em sentido Anás e Caifás, Herodes e Pilatos, e todos os que o crucificaram, não
secular e comum para designar a chegada ou presença de alguém perceberam que Jesus era de fato um Rei. Mas, na sua vinda, no
(e.g., I Co 16.16; II Co 10.10); o NT emprega-a como termo final dos tempos, será manifesto em toda a sua majestade não ape-
técnico para designar a vinda visível de Cristo, no final dos tempos, nas aos olhos da fé mas a todos: "Eis que vem com as nuvens, e
todo olho o verá, até quantos o traspassaram" (Ap 1.7). Naquele
0 "dia do Senhor" para os cristãos, o dia da revelação, quando dia não mais o veremos "em enigma" — en ainígmati — mas "face
Cristo ressuscitará os mortos, fará o Juízo Final e estabelecerá o a face" ( I Co 13.12) : no dia em que a fé ceder lugar à visão desa-
reino de Deus, em poder e glória (Mt 24.3, 27, 37, 39; I Co 15.23; parecerão línguas, profecias e gnôsis. "Havemos de vê-lo como
1 Ts 2.19; 3.13; 4.15; 5.23; II Ts 2.1, 8 s.; T g 5 . 7 s.; I I Pe 1.16; êle é " ( I Jo 3.2).
3.4, 12; I Jo 2.28). Este evento da parousía de Cristo é descrito
simplesmente como he apokálypsis, a revelação. Assim I Pe fala da Como, então, o NT considera o que chamamos de "revelação
"salvação preparada para revelar-se (apokalyphtênai) no último histórica"? Como a antecipação da plenitude da graça e da verdade
(cf. Jo 1.14) que será desde agora até o fim dos tempos — anteci- a verdade do Evangelho de Cristo, que é o cumprimento das antigas
pação misericordiosamente concedida, aqui e agora, aos que respon- profecias. Então, como argumentaram mais tarde os apologistas
dem em fé às palavras da salvação em Cristo, a prelibação doò cristãos, já era do plano da divina providência que os judeus, em sua
"poderes do mundo vindouro" (Hb 6.5). Deste modo, São Pedro dispersão, levassem suas Escrituras a todas as terras gentílicas, de
considera-se (ou alguém o considera) "co-participante da glória que modo que quando os pregadores do Evangelho aí chegassem já esti-
há de ser revelada" ( I Pe 5.1). O alvo final do processo do mundo, vessem esperando por eles essas evidências confirmadoras de sua
Cristo (I Co 15.27 s.; Ef 1.10; Cl 1.20), já apareceu na história, mensagem. > (18

mas em tamanha humildade que somente os possuidores do dom


da fé puderam vê-lo, êle que era o Homem destinado para "julgar Se perguntássemos, agora, aonde o cristianismo apostólico foi
o mundo com justiça" (At 17.31). A glória do Filho encarnado buscar este conceito de revelação, a resposta seria: em Jesus Cristo.
estava de tal forma velada que somente foi vista pelos que creram Éle havia chamado os homens à fé no evento escatológico que sua
em sua palavra (Jo 1.14; 2.11; 14.22). Deus falara no passado por pregação e atos portentosos inauguravam; levara-os a discernir,
meio dos profetas a ouvidos fiéis e obedientes, mas a mensagem sob a forma humilde do Filho do Homem que não tinha onde reclinar
plena — sua "última palavra" — apresentava-se agora por inter- a cabeça (Lc 9.58), a pessoa real do Filho do Homem que haveria
médio de seu Filho Jesus Cristo, agente da Criação por quem os de sentar-se "no trono da sua glória" para julgar as nações (Mt
mundos também foram sustentados (Hb 1.1-3; cf. Jo 1.1-5). Quem 25.31 s.). Se, como parece provável, Jesus concebia sua vocação
não despreza este tremendo ato de salvação anunciado pelo próprio messiânica nos moldes do Servo Sofredor da profecia de Isaías,
Senhor e confirmado pelos seus ouvintes aguarda agora a segunda temos então em Is 53 o protótipo do Filho do Homem desprezado e
vinda "para a salvação" (Hb 2.3; 9.28). A própria fé já é parti- rejeitado, incapaz de ser recebido por seus contemporâneos como o
cipação escatológica nas coisas que se esperam e que ainda não se Ungido do Senhor, e que, não obstante, é vindicado e apresentado
vêem (Hb 11.1). Podemos apreciar a maneira como o NT entende como quem traz justiça e salvação. Se, além disso, Jesus tivesse
a economia da salvação em passagens como I Pe 1.10-12: o Espí- identificado o Servo, de Isaías, com a expressão de Daniel, "um
rito de Cristo nos profetas do A T deu "de antemão testemunho sobre como o Filho do Homem" que viria com as nuvens do céu (Dn 7.13;
os sofrimentos referentes a Cristo, e sobre as glórias (dócsai) que Mt 16.27; 34.30; 26.64; Mc 14.62), então não seria difícil demons-
os seguiram", e a revelação que lhes foi feita não ocorreu por causa trar que o conceito da revelação no NT, da desocultação do Filho do
de sua própria geração, mas para que os que ouvissem a pregação Homem iniciado agora pela fé e completado depois na paroxista,
do Evangelho, na época do Espírito Santo, compreendessem apro- procede diretamente da autoridade do próprio Jesus. Esta sugestão
priadamente as coisas que estavam ocultas por tanto tempo, "coisas será, posteriormente, desenvolvida e defendida; antes, porém, deve-
essas que anjos anelam perscrutar". Esta passagem sugere que os
mos procurar expor o conceito que Jesus tinha a respeito de sua
profetas não entenderam, nos seus dias, o que escreveram; seriam
pessoa e obra. Notemos, entretanto, que algumas palavras de Jesus
compreendidos somente pelos que possuem em Jesus Cristo a chave
das Escrituras (também assim Jo 5.39; I I Co 3.14-16; Gl 3.8; registradas nos Evangelhos falam de uma revelação futura que (é
Lc 24.25-27, 44-48, e t c ) . Mas as palavras dos profetas quando razoável supor-se) não é outra coisa senão o evento da vinda do
entendidas à luz de Cristo podem ser consideradas como revelação; Filho do Homem em seu poder e glória: "nada há encoberto, que
e em I Pe 1.12 encontramos um belo exemplo de apokalyptein em- não venha a ser revelado..." (Mt 10.26 = Lc 12.2). Em outra
pregado no sentido de revelação "histórica", muito embora esta passagem Jesus fala de maneira mais clara acerca da parousía do
mesma passagem deixe bem claro que a revelação em sentido abso- Filho do Homem como um relâmpago repentino e visível a todos;
luto será um evento futuro a vir "no último tempo" (1.5; cf. 1.7, não haverá necessidade de olhar "aqui" e "ali", pois a faísca será
13). Ensino semelhante encontra-se em Rm 16.25 s., quando Paulo vista desde o Oriente até o Ocidente (Mt 24.27 = Lc 17.24; cf.
iguala o seu próprio evangelho, o kérygma de Jesus Cristo, à reve- Lc 17.30). Os Evangelhos apresentam Jesus ensinando que " o dia
lação de um mistério guardado em silêncio através dos tempos e do Filho do Homem" será a descoberta repentina da verdade que
agora manifesto. Aqui, novamente, a revelação é considerada "his- está agora oculta e somente visível aos olhos da fé, mas que se
tórica". A função das "escrituras dos profetas" seria tornar conhe- tornará manifesta em todo o seu deslumbrante esplendor aos olhos
cida entre as nações esta revelação, para a "obediência da f é " . humanos.
Desta forma, a revelação histórica seria essencialmente "revelação
de fé". A Igreja usa as Escrituras judaicas para provar aos gentios
(18) E.g., Santo Agostinho, E p . CXXXVII, iv. 16.
REVELAÇÃO E MISTÉRIO Os escritores do NT — e por certo o judeu helenista que foi
São Paulo — dificilmente desconheceriam o significado do "misté-
No NT revelação e mistério são conceitos intimamente relacio- rio" na religião pagã de seus dias; contudo, não proclamam "o mis-
nados/ ' A existência de Deus não é problema que possa ser resol-
19 tério do Evangelho" (Ef 6.19) à maneira de um novo culto de
vido mediante esforço intelectual; é um mistério percebido pela fé. mistérios. À semelhança do autor do livro da Sabedoria, repudia-
Em nossos dias, qualquer ato revelador deve ser também de oculta- vam com desprezo esses "mistérios" (Sabedoria 14.15,23). O Evan-
ção; só no dia final da Revelação teremos a desocultação total. Reve- gelho de Jesus Cristo era pregado em piiblico a todos os que o dese-
lação, no tempo presente, é sempre manifestação do Deus oculto; jassem ouvir: não era a mistura de palavras mágicas murmuradas
a Bíblia insiste na ocultação de Deus e de seus caminhos, quando aos iniciados entre cerimónias supersticiosas a portas cerradas. O
expressa o seu mistério (cf. Is 45.15; também Dt 29.29; Jó 11.7; "mistério" do Evangelho diferia grandemente dos "mistérios"
15.8; 36.22 s.; Rm 11.33 s.). Há muitos sinônimos na língua pagãos. São Paulo não escreve a respeito de uma gnose que teria
hebraica para "ocultar" e "oculto" e nada indica com mais clareza o poder de conferir a uns poucos escolhidos, magicamente, a imor-
a qualidade intensamente religiosa do pensamento bíblico do que o talidade: escreve a respeito do plano oculto da salvação destinada
sentido profundo implícito no mistério do Deus oculto/ *» O ser 2 ao mundo inteiro, tanto a judeus como a gregos. Estivera velada
de Deus é inacessível ao entendimento humano e, mesmo quando se até o momento em que Jesus Cristo a revelara, sendo agora procla-
revela em seus atos salvadores, continua oculto; sua natureza não mada pelos que a pregavam — i.e., os ministros de Cristo e dispen-
fica aberta à inspeção dos filósofos, pois estes atos são também seiros dos mistérios de Deus (I Co 4.1) — tornando-se um segredo
misteriosos. Jesus chega mesmo a render graças a Deus porque a aberto para todos os que crêem nas boas novas (Rm 11.25; 16.25
verdade divina está oculta aos entendidos e sábios deste mundo, s.; I Co 2.7; Ef 1.9; 3.3-6; Cl 2.2; 4.3). Paulo, porém, emprega
enquanto é revelada aos "pequeninos" (Mt 11.25 = Lc 10.21). Fala éste vocábulo com outros sentidos — e.g., frases ininteligíveis mur-
sobre o Reino de Deus como mistério, i.e., uma realidade encoberta muradas em "línguas" ( I Co 14.2), o mistério de como seremos
no tempo presente (Mc 4.11 e pars.). É dessa forma que São Paulo mudados ao som da última trombeta ( I Co 15.51), o mistério da
também menciona o conhecimento cristão de Deus, agora: "mas iniqüidade ( I I Ts 2.7), ou o "sentido místico" ou significação oculta
falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta" ( I Co de certas passagens do AT (Ef 5.32). Esta palavra aparece em
2.7). A verdade misteriosa do Evangelho não se torna conhecida outros livros do NT além das epístolas paulinas: em I Tm 3.9,16,
através das agências comuns de publicidade, mas somente por meio sem qualquer significação especial, e no Apocalipse, onde geral-
do "ouvir da f é " — verdade muitas vezes esquecida por clérigos mente tem o sentido da imagem mística que se contempla numa
desinteressados em teologia, sempre ocupados em muitas atividades, visão (Ap 1.20; 17.5,7) ; mas em Ap 10.7 o mystérion tóu Theôu
que imaginam transmitir a mensagem do Evangelho através de é, claramente, todo o plano divino da criação que, afinal, alcança a
técnicas modernas de propaganda e métodos comerciais. Acabam consumação segundo as boas novas proclamadas pelos profetas anti-
transformando o mistério da evangelização num simples "problema gos (cf. Rm 16.25 s.). Além dás epístolas paulinas, de I Tm e Ap,
de comunicação". Neste mesmo nível de incompreensão, eruditos a palavra mystérion aparece uma só vez em Mc 4.11 (e pars. Mt
sem conhecimentos teológicos supõem que o mistério de Deus, o 13.11, Lc 8.10); esta passagem será estudada posteriormente/ ' 21

caráter velado de seu ser e de seus caminhos testemunhados no NT, O NT transmite, de maneiras diversas, o sentido do profundo
seja igual aos "mistérios" das religiões greco-orientais. Mas é, pelo mistério da revelação, mesmo sem mencionar a palavra mystérion. O
contrário, a continuação e realização no NT da antiga consciência caráter oculto da verdade e sua inacessibilidade, sem o concurso
hebraica do mistério profundo do ser de Deus e da sua inacessibili- da fé, estão implícitos através de suas páginas. Temos, assim, o
dade às parcas capacidades de todas as inteligências criadas. mistério da pessoa de Cristo, o mistério do Reino de Deus, o mis-
tério do plano divino da salvação. Na Bíblia mistério não é a mesma
coisa que segredo. Não deixa de ser mistério quando se revela; o
(19) Cf. J . B . L i g h t í o o t s o b r e C l 1.27 ( S t . Paul's Epistles to the Colossians segredo, sim, desaparece. Como já vimos, não poderíamos empregar
and Philemon, 3." ed., 1879, 168.': "mystérion é encontrada quase sempre em cone-
x ã o c o m p a l a v r a s q u e d e n o t a m r e v e l a ç ã o o u p u b l i c a ç ã o ; e . g . , apoJcalj/pteín, opofcá-
apropriadamente o verbo "revelar" no sentido de transmitir infor-
lypsis, R m 16.25; E f 3.3,5; I I T s 2.7; gnorídzein, R m . 16.26; E f 1.9; 3.3,10; 6.19; mações cotidianas, comuns (cf. as costumeiras manchetes de jor-
phanerôun, C l 4 . 3 ; R m 16.26; I T m 3.16; lalêin, C l 4 . 3 ; I C o 2.7; 14.2; léguein, 1 nais: "O representante da agência estrangeira revelou q u e . . . " ) .
C o 15.51".
(20) V e r W . Stãhlin, The Mystery of God, t r a d u ç ã o i n g l e s a , 1937, 14; G . S.
H e n d r y , TWBB, 108. (21) Ver infra, 94-7.
Quando o mistério da pessoa de Cristo é revelado aos discípulos à visão").(23) As próprias palavras das Escrituras também são
(cf. Mt 16.17) não se torna menos misterioso do que era. Qualquer véus; na metáfora de Lutero, elas são lençóis humanos nos quais
segredo, embora oculto no presente, pode "tornar-se público", de Cristo está deitado. Todas as formas da revelação são necessaria-
um momento para outro, perdendo, assim, seu caráter próprio. Mas mente ocultações da verdade e sinais da infinita condescendência
o mistério, não; jamais fica aberto à inspeção pública, mesmo de Deus, que'acomoda sua majestade divina à capacidade de nossa
quando pregado dos telhados. Para ilustrar: é provável que Judas fraqueza humana.
tivesse revelado (no sentido jornalístico do termo) ao Sumo-Saeer-
dote o segredo do messianismo de Jesus; mas o seu mistério não o
revelou nem o poderia, ignorando-o completamente o Sumo-Sacer-
dote. A inscrição de Pilatos anunciava a todos que Jesus era o rei
dos judeus; mas o mistério interior do reinado de Jesus jamais será
desvendado por meio de um cartaz de anúncios públicos. O mistério
da pessoa de Cristo não é, de modo algum, idêntico ao assim cha-
mado "segredo messiânico". Os escritores do NT, como já vimos,
conscientemente ou não, reservam a palavra apokalyptein para a
manifestação do mistério e não no sentido jornalístico de publicar
notícias e informações.

O paradoxo da revelação, segundo as Escrituras, está em Deus


revelar-se aos homens pecadores somente quando esconde o brilho
da sua verdadeira glória. É ato gracioso de condescendência divina:
a verdadeira luz, vinda aos homens, foi velada para que estes a
pudessem ver. De outra forma teriam ficado cegos diante do excesso
de seu fulgor. A encarnação foi então, necessariamente, ao mesmo
tempo, a ocultação e a revelação da luz; se não houvesse uma não
poderia ter havido a outra. A verdade espiritual, para empregar a
linguagem de São Tomás de Aquino, tem de ser mediada por ima-
gens corpóreas; in statu viatoris não temos a visão direta de Deus
porque nossos olhos ficariam crestados; a luz pode nos alcançar, na
frase de Dionísio tão citada por São Tomás, somente quando "envolta
em miríades de véus sagrados". Daí a necessidade da Encarnação:
a verdade divina precisa esconder seu esplendor nas vestes da natu-
reza humana, revelando-se Deus no ato paradoxal de se ocultar em
nossa humanidade".< > A glória divina é, ao mesmo tempo, velada
22

e revelada na carne que Cristo tomou da Virgem Maria, sua mãe.


O Filho divino enverga a vestidura humana tão perfeitamente que
os homens de todas as gerações, incluindo a sua (cf. Mc 6'.25),
olham-no como se fosse apenas um deles, sem penetrar no incógnito
que assumira. Assim, também, a vida da Igreja, continuação de
seu corpo na terra, envolve necessariamente a ocultação do mistério
interior de sua existência: "a vossa vida está oculta juntamente com
Cristo, em Deus" (Cl 3.3) ; mas será plenamente revelada na sua
gloriosa realidade quando Cristo se manifestar (Cl 3.4). Da mesma
forma os sacramentos da Igreja são véus que somente a fé pode
levantar ("Sob estes sinais estão ocultas coisas gloriosas proibidas

(22) Ver A. L. Lilley, Religion a n d Revelation, 1S32, 49. (23) São Tomás de A q u i n o , L a u d a , Sion, Salvalorem.
III

O PODER DE DEUS PARA A SALVAÇÃO

0 Evangelho do reino, pregado por Cristo, é " o poder de Deus


para a salvação de todo aquele que crê" (Rm 1.16). É a procla-
mação de que o propósito divino da salvação, já prenunciado na
história de Israel pela atividade divina e indicado pelos profetas da
antiga dispensação, cumpre-se agora na exaltação do Messias cru-
cificado que em breve retornará para consumar lôdas as coisas.
Deus revelara nestes atos divinos seu caráter de justiça e seu pro-
pósito salvador. Segundo as Escrituras, Deus não pode ser conhe-
cido em sua essência, mas em suas obras reveladoras. Está além
de nossa investigação. Nós só o conhecemos na medida em que se
revela na história humana. O NT vale-se de inúmeras palavras para
expressar os atos espontâneos que partem do ser divino, através dos
quais Êle se faz conhecido: dynamis, ecsousía, enérgueia, krátos,
Basiléia, dócsa, fôs, dzoé, lógos, sophia, pnêuma, cháris, agápe,
orgué, thymós, dikaiosyne, sotería — e outras. Desde o princípio
estes "atributos" foram empregados no culto da Igreja para o louvor
de Deus e de Cristo (e.g., Ap 4.11; 5.12 s.; 7.12; Mt 6.13). Nes-
tas doxologías Deus é glorificado por causa de sua atividade cria-
dora e redentora, por meio das quais chegamos ao conhecimento
dele e de seus propósitos salvadores. Muitas destas manifestações
ativas de Deus são expressas por meio de sinônimos, pois é a mesma
dynamis divina que opera sob formas diferentes. Diz-se, por exem-
plo, que Cristo ressuscitou dentre os mortos pela dynamis de Deus
( I Co 6.14), pela dócsa (Rm 6.4), ou pela sua enérgueia (Cl 2.12) ;
afirma-se, porém, com mais freqüência, em Atos, nos escritos de
Paulo e nos livros sub-paulinos, que Deus o ressuscitou dos mortos.

CRISTO, O PODER DE DEUS


Os rabinos, desejando evitar qualquer tipo de antropomorfismo,
preferiam dizer que as obras de Deus eram realizadas por atributos,
como poder, sabedoria ou espírito (de Deus), embora soubessem que ramado sobre toda a carne (Jl 2.28 etc.).< > Sua própria morte 2

0 próprio Deus as realizava. Quando se fala da dynamis de Deus


(1>

seria instrumento para a vinda da nova era do Espírito. Jesus


fala-se de seus atos. O Deus da Bíblia é pura dynasthai, a fonte de
declarava que o reino (basiléia) de Deus, cujo advento proclamava,
toda a dynamis e ecsousia; somente a respeito dele podemos dizer
pánta dynatá (Mc 10.27; cf. Gn 18.14; Jó 42.2; Jr 32.17,27; Zc seria logo manifesto na ação (dynamis) do Espírito Santo já con-
8.6; Lc 1.37). O NT não afirma tont court que Cristo é Deus (Rm cebido. A basiléia, durante o ministério terreno de Cristo, era seme-
9.5 pode ter diversas pontuações: ver RV mg), mas que é a dynamis lhante à dynamis irresistível que agia silenciosamente no mundo (Mc
de Deus ( I Co 1.24), i.e., o ato de Deus par excellence. Cristo é 4.26-32) ; contudo, algumas pessoas logo descobriram esta Basiléia
a obra mais característica e reveladora de Deus. Na vida terrena tôu Theôu "demonstrada" no Espírito e na dynamis (cf. I Co 2.4).
de Jesus revelava-se a dynamis Theôu; expressava-se, porém, naque- Assim como Paulo, que tanto se regozijava na distribuição dos dons
las dynámeis que manifestavam aos olhos da fé a iminente destrui- do Espírito, declarava, o reino de Deus não era apenas questão de
ção do reino de satanás. Cristo recebeu toda a ecsousia no céu e pregação ou apenas de palavras, mas estava presente na Igreja em
na terra depois da ressurreição (Mt 28.18; I Co 15.27 s.; Ef 1.20- toda a sua realidade dinâmica — ou gàr en logo he Basiléia tôu
22; Fp 2.9 s.; Hb 2.8; I Pe 3.22; Ap 11.15-17; 17.14) ; antes, o Theôu alVen dynámei ( I Co 4.20) ; a frase en dynámei bem carac-
NT fala apenas do reino de Deus, depois, Cristo reina, e a frase terizava a qualidade da vida da Igreja no Espírito. Em resumo,
Basiléia tôu Christôu é admissível (Ef 5.5; Cl 1.13; II Pe 1.11; podemos dizer: durante seu ministério terreno Jesus pregou o reino
Ap 11.15). O Christus regnans derrama seus dons do lugar de sua de Deus en logo, possuindo sua palavra poder realizador em si mes-
exaltação à destra de Deus — o dom e os dons do Espírito (Ef 4.8; ma (e.g., Mt 8.16), mas, depois de sua morte e exaltação, o reino
de Deus atualizou-se de maneira nova, en dynámei, i.e., no poder do
1 Co 12.4-11, e t c ) , que agindo aqui e agora evidenciam empirica-
mente a glorificação do Senhor ( A t 2.33). A Basiléia tôu Theôu Espírito Santo. São João, como sempre o fêz, esclarece o pensamento
torna-se visível aos olhos da fé mediante a operação do Espírito da Igreja apostólica a este respeito (Jo 7.39; 14.16 s., 26; 15.26;
Santo (Rm 5.5; Ef 4.8, etc.) ; o reino (Basiléia) de Deus ou de Cris- 16.7-14; 20.22).(3) Mas nem São João nem qualquer outro escritor
to está presente e ativo de maneira nova, en dynámei, "com poder", do NT considera a vinda de Cristo na dynamis do Espírito Santo
i.e., com o poder do Espírito Santo (Rm 15.13; Mc 9.1). A Igreja como sua parousía final. A época do Espírito de Poder permane-
missionária experimentava de fato o poder do Espírito (Rm 15.13, cerá até o que São João chama, de "último dia" (Jo 6.39 s., 54). As
19; I Co 2.4; Ef 3.16, 20; Cl 1.11, 29; II Tm 1.7, e t c ) ; dynamis e dynámeis do Jesus histórico, com os triunfos da Igreja terrena,
pnéunia são em muitos contextos sinônimos (e.g., Lc 1.17,35; 4.14; fortalecidos pelo Espírito, são, por assim dizer, antecipação escato-
5.17; 6.19; cf. Mc 5.30). O próprio Cristo foi concebido pelo poder lógica ou arrabón daquele dia em que Cristo abolirá todo (estranho)
do Espírito Santo (Mt 1.18,20; Lc 1.35) e foi por êle ungido em arché, ecsousia e dynamis, entregando a basiléia a Deus, a saber,
seu batismo (Mc 1.10 e pars.) ; mas este poder só é concedido aos o Pai, que será então "tudo em todos" ( I Co 15.24, 28). São Paulo
discípulos depois da sua ressurreição (Jo 7.39) : "Permanecei, pois, refere-se a esta consumação final de todas as coisas muito simples-
na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder (dynamis)" mente como " o fim" (êita tò télos, I Co 15.24). A dynamis toda
(Lc 24.49); "Recebereis poder (dynamis), ao descer sobre vós o haverá então retornado a Deus de onde viera.
Espírito Santo" (At 1.8).
A relação e até mesmo a identificação de dynamis com o Espí- A GLÓRIA DO SENHOR
rito Santo no NT resolve o problema da tão discutida expressão de
Jesus em Mc 9 . 1 : "Em verdade vos afirmo que, dos que aqui se "Glória" (dócsa) no NT é um conceito escatológico intima-
encontram, alguns há que, de maneira nenhuma passarão pela morte mente relacionado com basiléia e dynamis (e.g., Mt 6.13; Mc 13.26,
até que vejam ter chegado com poder (en dynámei) o reino de Deus". e t c ) , e pnêuma (e.g., I Pe 4.14). A palavra dócsa procede dos
Jesus concebe sua missão messiânica em termos da realização da LXX, aí empregada para traduzir o vocábulo hebraico Icabhod, que
nova era predita pelos profetas, quando o Espírito Santo seria der-
(2) V e r a i n d a infra, 109-11
(3) A s p a l a v r a s dynamis, dynámeis, não aparecem no Evangelho ou nas
(1) " O P o d e r " e r a p e r í f r a s e r a b i n i c a p a r a o n o m e de D e u s ( G . D a l m a n ,
E p í s t o l a s d e J o ã o , p o s s i v e l m e n t e p o r q u e são v o c á b u l o s associados c o m a r e l i g i ã o
Words of Jesus, E T , 1902, 200 s . ) a p a r e c e n d o c o m essa conotação e m M c 14.62;
p a g ã e c o m e s p e c u l a ç õ e s gnósticas; cf. A t 8.10, o n d e S i m ã o M a g o r e c e b e a a c l a -
M t 26.64; cf. L c 22.69. E x i s t e m n o A T bons p r e c e d e n t e s p a r a d e s i g n a r - s e D e u s
mação popular: " E s t e h o m e m é o p o d e r ( d y n a m i s ) de D e u s , c h a m a d o o " G r a n d e
c o m o v o c á b u l o dynamis, e . g . S I 45.2 ( L X X e E V V , 4 6 . 1 ) , 58.17 ( L X X e E W ,
P o d e r " . C o n t u d o , dynamis é f r e q ü e n t e m e n t e e m p r e g a d o no A p , e s p . n a s d o x o l o g i a s
( 4 . 1 1 ; 5.12; 7.12; e t c . ) .
significava originalmente "peso", e mais tarde "substância", "ri- Ex 40.34 s.; Lv 26.11 s.; Ez 37.26-28; Ap 21.3).<6) O NT, como
queza", "honra" e "reputação" (e.g., SI 49.16 s.; Is 66.11 s.) ; um todo, considera o Senhor encarnado o primeiro momento, por
tem, porém, o sentido mais profundo de brilho visível da presença assim dizer, da revelação da dócsa, nos últimos dias (Is 60.3, 19;
divina, especialmente nas tradições de P a respeito da dádiva da 66.10 s., 18 s.; A g 2.7,9). A dócsa só estava de fato presente em sua
lei e do tabernáculo (e.g., Ex 16.10; 24.16; 40.34 s.; cf. I I Co vida terrena, escatològicamente; permanecia oculta aos homens sem
3.7).(4) Esta "glória" visível também aparece nas visões proféticas fé ( I I Co 3.7-4.6). O Senhor encarnado entraria em sua dócsa,
(e.g., Is 6.3; Ez 8.4, e t c ) . Após a época do AT os rabinos refe- através do sofrimento e da morte (Lc 24.26), segundo o ensino do
riam-se à glória ou "esplendor visível da presença" de Deus como próprio Jesus, a tanto custo transmitido aos discípulos (Mc 8.31;
shekhinah (hebraico: "o que habita", "morada"); este vocábulo, 9.12; 10.34-45, esp. v. 37; Lc 12.50, e t c ) . Os quatro Evangelhos
que não se encontra no AT, é mencionado freqüentemente nos Tar- não apresentam a história da paixão como um martírio que nos leve
guns, como perífrase de "Deus", da mesma forma como merma a lamentar o destino triste da vítima desamparada, mas como a
("palavra") ou yekara (termo que também designa "glória"). O história do desenvolvimento triunfante de um vencedor: "não cho-
tipo de jogo de palavras que tanto os semitas apreciavam encontra reis por mim; chorai antes por vós" (Lc 23.28) ; aquele Gloria in
semelhança no grego bíblico, nas duras assonâncias entre as pala- Excelsis que fora cantado pelos anjos, por ocasião do nascimento de
vras shekhinah, episkiáãzein (cobrir) e skené (tabernáculo, tenda) Cristo (Lc 2.14), é agora retomado pelo coro à entrada triunfal
ou skenêin (habitar numa tenda, acampar). Assim, na história da em Jerusalém (Lc 19.38). O quarto evangelista destaca especial-
Transfiguração, a nuvem (Mc 9.7; Lc 9.34; em Mt 17.5, de modo mente a crucifixão como a "hora" da glorificação de Cristo (Jo
muito significativo "uma nuvem luminosa") representa a nuvem 7.30; 12.16, 23, 27 s.; 13.31 s.; 17.1,5): Cristo caminha para a
que cobre "a tenda da congregação" quando a glória de Javé enche cruz como um rei para a coroação. "Digno é o Cordeiro, que foi
o tabernáculo (Ex 40.34 s.), sendo empregado o mesmo verbo epis- morto, de receber..." (Ap 5.12). Mas somente pelo dom da fé
kiádzein. A sugestão de Pedro de fazer três skenái está dentro deste podemos discernir a presença de Deus e sua glória na figura do
mesmo ciclo de idéias (Mc 9.5 e pars.). Devemos notar que em Crucificado; os descrentes, cegos pelo deus deste mundo, não con-
I I Pe 1.17 o que os sinóticos chamam d'e "voz vinda da nuvem" seguem ver a glória de Deus brilhando na face de Jesus Cristo ( I I
transforma-se em "voz da Glória Excelsa", ao mesmo tempo em que Co 4.4,6); quanto aos poderes demoníacos deste século, jamais
se afirma ter Jesus recebido timé e dócsa do Pai. > (5 teriam crucificado o Senhor da glória, se tivessem conhecido quem
era Jesus ( I Co 2.8). Cristo é o esplendor (apáugasma) da gloriosa
Este conceito judaico mais recente de Shekhinah, no sentido da sabedoria de Deus, já presente na primeira criação de todas as
gloriosa presença visível de Deus que habita em Israel, vai influen- coisas (Hb 1.3; Sabedoria 7.26), glória que será novamente reve-
ciar, sem dúvida, a linguagem e o pensamento do NT, no que con- lada nos últimos dias. Enquanto não chega o fim, Cristo concede
cerne à dócsa, em muitas de suas partes, e.g., Lc 2.9; At 7.2, 55; aos seus seguidores, já, agora, antecipadamente, a participação na
9.3; Rm 9.4; Hb 9.5. O quarto evangelista usa admiravelmente glória vindoura (Jo 17.10, 23; Rm 8.30) ; há crescimento em dócsa,
esta palavra. Não nos dá relato algum da Transfiguração, diver- muito semelhante ao crescimento em santidade (santificação) ( I I
gindo dos três sinóticos; considera toda a vida terrena de Cristo a Co 3.18). Deve-se este à participação dos cristãos no Espírito esca-
encarnação da dócsa de Deus, embora esta glória se revele apenas tológico, o Espírito da glória (I Pe 4.14; II Co 3.8,18), através
aos discípulos e não ao "mundo" (Jo 2.11, etc.) : a encarnação do de quem já conhecem a dócsa que será revelada (Rm 8.18). Os que
Logos envolve necessariamente a Transfiguração do Jesus humano. sofrem e morrem com Cristo, tendo recebido o seu batismo de morte
O Cristo do Quarto Evangelho é o locus, por assim dizer, da presença e do Espírito Santo, são também com êle glorificados (Rm 8.17,30).
tabernaculante ou da dócsa de Deus; cf. Jo 1.14; "O verbo... habi- Uma das conseqüências desta glorificação é que se restaura no
tou (eskénosen) entre nós... e vimos a sua glória (dócsa)" (cf. homem criado de novo a dócsa que, segundo o ensino dos rabinos,
Adão perdera na queda, pois o homem foi criado por Deus um pouco
(4) N o g r e g o clássico dócsa significava " o p i n i ã o " (cf. " o r t o d o x i a " ) , tendo
abaixo dos anjos para ser coroado com dócsa e time (SI 8.5 [LXX
esse sentido na l i t e r a t u r a b í b l i c a s o m e n t e e m I V M a c a b e u s , 5.18; t a m b é m " a p a - 8.6] cf. Hb 2.7) — a verdadeira dócsa e time que os discípulos
r ê n c i a " ( a s s i m n a L X X , Is 11.3, citado e m Jo 7.24: " N ã o j u l g u e i s s e g u n d o a viram Jesus receber do Pai no monte da Transfiguração (II Pe
a p a r ê n c i a " ) ; d a í d e c o r r e m os v o c á b u l o s " r e p u t a ç ã o " , " h o n r a " , " s u b s t â n c i a " ( e a s - 1.17). A dócsa que estava originalmente entre os dons naturais de
s i m t e m o s Jo 12.43: " A m a r a m m a i s a dócsa dos h o m e n s , d o q u e a d ó c s a de D e u s " ;
t a m b é m R m 2.7,10).
(5) A história d a Transfiguração será desenvolvida infra 181-5. (6) Ver ainda infra, 162-5.
Adão pertence agora ao Último Adão que também a concede aos Deus, especialmente na linguagem devocional (e.g., SI 4.6; 27.1;
discípulos; São Paulo certamente se está referindo à restauração da 36.9; 37.6; 43.3; 97.11; 112.4; 118.27; 119.105, cf. Pv 6.23). No
dócsa que o homem perdera, obra do Espírito doador da vida. Os AT o conceito de Deus como criador da luz (Gn 1.3; SI 74.16; Is
reflexos da glória divina que iluminaram uma vez a face de Adão 42.16; 45.7) ou revestido de luz (SI 104.2) simboliza profunda ver-
(homem), eikón de Deus (Gn 1.26 s.), reaparecem agora em Cristo dade. As trevas, pelo contrário (e numa extensão natural da metá-
( I I Co 4.4; Cl 1.15), "e todos nós com o rosto desvendado, contem- fora), representam o mal, a calamidade, o juízo, a ignorância, a
plando, como por espelho, a glória (dócsa) do Senhor, somos trans- opressão e a separação de Deus; o Sheol é descrito como um lugar
formados de glória (dócsa) em glória (dócsa), na sua própria ima- de escuridão (e.g., S. 49.19; 88 12). (Lembremos aqui a expressão
gem (eikón), como pelo Senhor, o Espírito (apà kyríou pnéumatos)" "treva densa", que aparece como símbolo do caráter misterioso e
(II Co 3.18). Os cristãos, predestinados a estar conforme o eikón inacessível do Deus oculto; e.g., Ex 20.21; Dt 4.11; II Sm 22.10;
celestial (Rm 8.29), devem carregá-lo, pois na nova criação dos I Rs 8.12; SI 18.9; 97.2. Vemos a total transcendência de Deus,
últimos dias a imagem de Deus será renovada. Este é o mistério quando Êle se mostra Senhor tanto das trevas como da luz: SI
que se torna conhecido mesmo entre os gentios: "Cristo em vós, a 139.12; Is 45.7).
esperança da dócsa" (Cl 1.27; cf. Ef 1.18; 3.16). Quando per-
É dessa forma natural que o NT emprega a metáfora de luz,
guntamos se esta transformação (metamorphôsis, cf. II Co 3.18)
não nos parecendo necessário buscar influências persas para expli-
em dócsa será física ou simplesmente processo ético, a resposta será,
cá-la. É provável que um escritor como São João pudesse recorrer
necessariamente inclusiva: a bondade moral (ou santidade) mani-
ao significado que o "antigo paganismo" do mundo helénico atribuía
festa-se numinosamente em dócsa. Esta, porém, está velada, a não
ao conceito de luz, procurando por este meio dirigir-se aos pagãos
ser em certos momentos raros, como, por exemplo, quando a face
que se mostravam interessados em Cristo; mas, quando examinamos
de Moisés se tornou refulgente (Ex 34.29-35; I I Co 3.7), ou na
mais a fundo a expressão tó fôs tó alethinón, de São João, desco-
Transfiguração de Jesus (Mc 9.2 s. e pars.) ou ainda em ocasiões
brimos que ela nada tem a ver com o conhecido conceito de Filo,
esparsas como quando a face de Estêvão parecia o rosto de um anjo
fotos archétyponSV Veremos mais adiante que o pensamento de
(At 6.15). O aparecimento final e completo da dócsa dar-se-á na
São João é bíblico e escatológico, achando-se distanciado toto caelo
parousía. Jesus anunciou sua vinda "na dócsa de seu P a i " (Mc
das generalizações da religionsgeschichtliche; o modo como a pala-
8.38), ou "nas nuvens, com grande dynamis e dócsa" (Mc 13.26) :
vra fôs está inserida nos escritos joaninos tem precedentes no AT.
emprega a linguagem apocalíptica tradicional judaica para expres-
Os mestres do NT, como bons missionários que eram, sem dúvida
sar toda a verdade de sua pessoa e missão, com respeito ao propó-
usariam as tentativas parciais da religião pagã na qualidade de
sito de Deus para o mundo (Cf. Dn 7.13 s.; Zc 14.5 s.; Mt 24.30;
veículos para a comunicação da verdade total, do mesmo modo como
25.31; 26.64; Jo 1.51; At 1.11; I Ts 4.16; Ap 1.7 e t c ) . A pa-
mais tarde a Igreja Católica tomou a celebração romana do Sol
rousía será a revelação da dócsa de Cristo (I Pe 1.7; 4.13).
Invictus (25 de dezembro) para a comemoração anual da vinda da
verdadeira luz. Mas o NT não é uma espécie de nova edição das
A LUZ DO MUNDO verdades da religião natural; não representa um ou dois passos a
mais na conquista da verdade filosófica, além de Platão, dos estói-
"Luz" é uma dessas "imagens arquetípicas" que a consciência cos e dos gnósticos, mesmo em seus melhores aspectos. Cristo não
universal da humanidade sempre usou para se expressar através é expressão da verdade: é a verdade. É precisamente o que quer
dos tempos; as evidências fluem abundantemente, desde o antigo dizer o NT (e especialmente São João) quando aplica o conceito de
Stonehenge <*> até o Japão moderno. Não é de surpreender, por- luz a Cristo (Jo 1.9; 8.12; 9.5; 12.35,46; I Jo 2.8; cf. Lc 1.78 s.;
tanto, a presença do simbolismo da luz na Bíblia, livro que emprega I I Co. 4.6; Ef 5.14; Hb 1.3), pois a verdade, como a luz, é seu pró-
a linguagem da humanidade: fala de eventos divinos por meio da prio critério e não pode ser julgada por qualquer outra coisa além
linguagem universal das aspirações religiosas dos homens de todo de si mesma (Mt 6.22 s.; Lc 8.16; Jo 8.12-18). Quando os escri-
o mundo. O verbo divino vem-nos revestido de palavras humanas, tores do NT afirmam que Deus é luz ( I Jo 1.5; cf. Tg 1.17; I Tm
pois de outra forma não nos seria compi-eensível. Assim, luz no 6.16; Ap 21.23), não expressam o conceito estóico-materialista de
A T é quase sempre metáfora de verdade, santidade e bondade de que a luz é divina. " A luz é Deus" é metafísica: "Deus é luz" é

(*) T r a t a - s e d e u m m o n u m e n t o megalítico, p r ó x i m o d e S a l i s b u r y ( W i l t s h i r e ) , (7) F i l o , de Somn. 1.75. A f i r m a q u e D e u s n ã o é a p e n a s luz c o m o é t a m b é m


I n g l a t e r r a , c u j a construção é a t r i b u í d a à ú l t i m a í a s e d o p e r í o d o neolítico. o a r q u é t p o de toda a
:
luz. V e r C. H. D o d d , I F G , 203; C. K . B a r r e t t , G S J , 278.
metáfora; uma coisa é dizer que a expressão "Deus é luz" é "básica tó alethinón, Jo 1.9) já entrou no mundo com o advento de Cristo:
para a maioria dos sistemas gnósticos e das religiões orientais, êle é a verdadeira luz, i.e., a luz arquetípica da primeira criação que
estando nos seus fundamentos",' ' e outra bem diferente é que as
8
ilumina a todo homem mortal (pánta ánthropon erchómenon eis
noções gnósticas e orientais não fazem parte do pensamento dos tón kósmon, Jo 1.9; dO) ainda por um pouco (mikrón chrónon,
escritores do NT, ocupados com conceitos bíblicos escatológicos com- Jo 12.35) a luz estava no mundo (cf. Jo 9.5: "Enquanto estou no
pletamente estranhos aos sistemas religiosos não-históricos. A Igreja mundo, sou a luz do mundo"), brilhando nas trevas, que não a podem
apostólica não adorava a luz como emanação ou mesmo manifes- extinguir nem compreender (Jo 1.5).d ' A encarnação do Verbo foi
1

tação de Deus; há enorme abismo entre dizer que Cristo é reflexo o estágio inicial da realização do plano divino que logo haveria de
de Deus ou luz de Deus e afirmar que a luz é um aspecto de
(9)
culminar na aurora do dia da luz. São Paulo ensina a mesma dou-
Deus; aqui está, em resumo, a diferença entre o cristianismo apos- trina: "Deus que disse: de trevas resplandecerá luz — êle mesmo
tólico e o "antigo paganismo". Os escritores no NT pregam o Evan- resplandeceu em nossos corações, para iluminação (photismós) do
gelho de Cristo e não uma religião metafísica da luz. O conceito de conhecimento da dócsa de Deus na face de Cristo" ( I I Co 4.6). A
luz no NT é basicamente escatológico e, talvez, possa ser resumido Igreja cristã — comunidade escatológica dos últimos dias — con-
nas palavras de São João: "as trevas se vão dissipando e a verda- siste de todos os que têm sido chamados das trevas para a maravi-
deira luz já brilha" ( I Jo 2.8; cf. Rm 13.12). Os últimos profetas lhosa luz de Deus ( I Pe 2 . 9 ) , libertados do poder das trevas (Cl
do AT ensinaram que o fim seria igual ao princípio; a luz feita no 1.13), que já caminham na luz do tempo final (Ef 5.8 s.; cf.
primeiro dia da criação (Gn 1.3) haveria de brilhar em seu com- Jo 11.9; 12.35 s.; I Ts 5.4 s.; I Jo 1.7). Por meio do batismo
pleto esplendor original, quando se cumprissem as últimas coisas. abandonaram as obras das trevas, vestiram as armaduras da luz
Zc 14.6 s. parece esposar este conceito apocalíptico: "naquele dia" (Rm 13.12) e foram-lhes iluminados os olhos do coração (Ef 1.18).
não haverá mais dia e noite como os conhecemos; será um dia sin- Tornaram-se participantes dos santos na luz (Cl 1.12) e, pela fé,
gular conhecido do Senhor como interminável: "haverá luz à tarde". estando "na luz" ( I Jo 2.10), aguardam o dia da revelação quando
Idéias semelhantes podem ser encontradas em Is 24.23; 30.26; o Senhor vier para trazer "à plena luz as coisas ocultas das trevas"
58.8,10; 60.1-3. As Escrituras canónicas hebraicas referem-se ( I Co 4.5). Cabe-lhes a tarefa de dar testemunho escatológico,
mais claramente à luz arquetípica da nova criação dos últimos dias, enquanto não chega a consumação final, trazendo as nações à luz
em Is 60.19: como no princípio, antes da criação do sol e da lua, (At 13.47; 26.17 s.). A tarefa principal da Igreja missionária é,
a luz da presença divina irradia todo o brilho necessário: "Nunca então, a realidade escatológica de Cristo como "luz de revelação aos
mais te servirá o sol para luz do dia, nem com o seu resplendor a gentios" (Lc 2.32; cf. Is 42.6; 49.6; 52.10; 60.3) e como tó phôs
lua te alumiará; mas o Senhor será a tua luz perpétua, e o teu Deus tôu kósmou (Jo 8.12; cf. 9.5; 11.9; 12.46); cabe ao novo Israel
a tua glória". II (4) Esdras 7.39-42 mostra-nos como esta idéia a missão recusada pelo antigo. "O dia" está próximo e temos diante
foi retomada pelo judaísmo posterior: "Este dia não tem sol, nem de nós a evidência do cumprimento da profecia das Escrituras: " e
lua ou estrelas... nem trevas, nem tarde, nem manhã... nem meio- fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar
dia, nem noite, nem amanhecer, nem brilho, nem esplendor, nem tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vossos
luz, a não ser o esplendor da glória do Altíssimo" (nisi solummodo corações" ( I I Pe 1.19; cf. Mq 4.2; Lc 1.78; Ap 2.28; 22.16).
splendorem claritatis Altissimi — talvez, como já foi sugerido, apáu-
A metáfora da luz empregada no N T é, então, judaica e estato-
gasma dócses hypístou).
lógica — especialmente nos escritos joaninos. O AT ensinara que a
É neste contexto geral que os versículos sobre luz no N T devem palavra de Deus é luz ou que dá luz (SI 119.105; cf. Gn 1.3), e os
ser lidos. A abertura do último ato divino da história começa com rabinos identificaram Torá com a luz (baseados em Pv 6.23: " O
a vinda de Jesus Cristo e sua Igreja: "as trevas se vão dissipando mandamento é lâmpada e a instrução luz"; cf. Test. Levi 14.4).
e a verdadeira luz já brilha" ( I Jo 2.8). A verdadeira luz (tó fôs São João diz que não é a Torá a luz do mundo, como ensinavam os
rabinos, mas Cristo, o lógos-sophía de Deus (cf. Hb 1.3; Sabedoria
7.26). Já brilha a verdadeira luz, que é da criação e do fim: a ful-
(8) B a r r e t t , G S J , 277.
(9) Cf. H b 1.3; hòs òn apáugasma tês dócses . . . a u t õ u . A p a l a v r a apáugasma,
u m hápax legómenon n o N T , n ã o o c o r r e n a s t r a d u ç õ e s dos L X X d a s E s c r i t u r a s
c a n ó n i c a s h e b r a i c a s , m a s a p a r e c e e m S a b e d o r i a 7.26, citado p e l o autor d a E p i s t o l a (10) V e r Dodd, I F G , 204 n.
aos H e b r e u s ; sophía é c o n s i d e r a d a apáugasma fotos aidíou. Esta citação m o s t r a (11) O verbo katalambánein ( e m Jo 1.5: he skotía auto ou katelaon), que
q u e o Auct. Heb. aceita a identificação de C r i s t o c o m a p r e e x i s t e n t e S a b e d o r i a d e significa "apreender", inclui também o sentido de " v e n c e r " e "entender ; 1
estão
D e u s , e m b o r a ( c o m o o q u a r t o e v a n g e l i s t a ) n ã o u s e sophía. ambos subentendidos aqui. V e r Barrett, G S J , 132.
gurante estrela matutina, anunciadora da aurora do dia do Senhor, Gl 3.21; I Pe 3.18).< > Cumprem-se em Cristo as escrituras pro-
12

já foi vista por ocasião do nascimento de Jesus (cf. Ap 22.16). Os féticas a respeito dos rios purificadores plenos de águas vivas: "Le-
escritos dos profetas a respeito dos últimos dias começam a se cum- vantou-se Jesus e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e
prir: o sol da justiça nasceu trazendo salvação em suas asas (Ml beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior
4.2). O vidente vislumbra em sua visão que as últimas coisas são fluirão rios de água viva. Isto êle disse com respeito ao Espírito
como as primeiras e a nova criação está banhada da luz arquetípica que haviam de receber os que nele cressem" (Jo 7.37-39). Estas
da presença de Deus: " A cidade não precisa nem do sol, nem da lua, palavras misteriosas significam que as águas vivas dos rios purifi-
para lhe darem claridade, pois a glória de Deus a iluminou, e o cadores procedem da Igreja, a nova Jerusalém, o corpo, cheio do
Cordeiro é a sua lâmpada" (Ap 21.23) ; e: "Então já não haverá Espírito, dos crentes em Cristo. Assim também acontece na visão
noite, nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol, por- do profeta em Ap 22.1 s., quando todas as coisas se cumprem na
que o Senhor Deus brilhará sobre eles" (Ap 22.5). O plano univer- nova Jerusalém: o rio da água da vida, brilhante como cristal, sai
sal de Deus realiza-se e as nações passam a andar na luz do paraíso do trono de Deus e do Cordeiro, no meio da praça da cidade celes-
(Ap 21.24). tial. A árvore da vida está novamente à margem do rio do paraíso,
da mesma forma como já esteve à margem do rio que saía do Éden
(Gn 2.9 s.), produzindo seus doze frutos e as folhas "para a cura
A VIDA DA ERA VINDOURA dos povos", como Ezequiel há muito tempo já previra em sua visão
(Ez 47.12; cf. também Ap 2.7; 22.14, 19). O homem, excluído que
Na Bíblia só Deus é a fonte da vida; é "o Deus vivo", em con- fora da fonte divina da vida, em virtude do seu pecado (Gn 3.24,
traste com os deuses mortos e inertes do paganismo (e.g., Dt 5.26; a espada refulgente para guardar o caminho da árvore da vida),
I Sm 17.26,36; SI 42.2; 84.2, etc; cf. Mt 16.16; 26.63, etc. — esta é agora, pelo Espírito vivificante de Cristo, restaurado ao estado
expressão ocorre cerca de quatorze vezes no N T ) . A metáfora do original de comunhão com o Deus vivo para quem fora criado pela
"poço vivo" ou das "águas vivas" (Jr 2.13; 17.13; Jo 4.10) é primeira vez e agora recriado.
natural numa terra de clima quente e seco (Ct 4.15; SI 42.1 s.)
onde Deus também é considerado a fonte da vida (SI 36.9). Poste- O conceito de vida que o NT toma do judaísmo posterior é
riormente, o conceito de "vida" adquiriu no judaísmo caráter nitida- então, puramente escatológico. O Espírito de Deus insuflará vida
mente escatológico representando uma qualidade da era vindoura; na nova criação dos últimos dias como já o fizera na primeira (Gn
nos últimos escritos do AT podemos encontrar a imagem do rio puri- 2.7; cf. SI 104.29 s.; Jó 33.4) ; cf. Ez 37.9 s. e esp. v. 14: "Porei
ficador, ou das águas vivas, que correrá de Jesusalém na era mes- em vós o meu Espírito, e vivereis". O judaísmo fariseu entendia
siânica (Ez 47.1.12; Zc 14.8; Jl 3.18; cf. Is. 12.3; 33.21), trazendo que a dádiva do Espírito de vida nos últimos dias estava ligada à
vida ao mundo. São João, em cujos escritos a escatologia judaica ressurreição dos mortos, como em Jo 5.29: "Os que tiverem feito
é adaptada aos fins cristãos com grande habilidade, toma esta idéia o bem, para a ressurreição da vida (eis anástasin dzoés), e os que
e representa Cristo como o cumprimento da promessa das "águas tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo". Em Dn
vivas" (Jo 4.10) nos últimos dias: "a água que eu lhe der será 12.12 aparece a idéia da ressurreição geral pela primeira vez, com
nele uma fonte a jorrar para a vida eterna" (Jo 4.14). Os rabinos clareza, na literatura judaica: "Muitos dos que dormem no pó da
acreditavam que a Tora, ou as Escrituras que a continham, era terra ressuscitarão (anastésontai), uns para a dzoé aiónios, e outros
veículo de vida: "Examinais as Escrituras porque julgais ter nelas para vergonha e horror eternos (aischyne aiónios)". Ocorre aqui
a vida eterna (dzoé aiónios)" (Jo 5.39) ; " A Torá é grande porque pela primeira vez a expressão dzoé aiónios nas traduções gregas do
concede, a todos os que a praticam, vida nesta e na era vindoura"
(Pirque Oboth 6.7). Mas a vida está no Verbo (Jo 1.4) feito
carne em Cristo e não nas Escrituras ou na Torá — que é a vida (12) V e r e m o s no Capitulo Quinto que o N T não distingue bem o Cristo res-
s u r r e t o d o E s p i r i t o S a n t o (infra. 122). A r e l i g i ã o b í b l i c a f i r m e m e n t e d e c l a r a q u e
superabundante de Deus, da era vindoura (dzoé aiónios), trazida a s o m e n t e D e u s p o d e c o n f e r i r vida aos m o r t o s , n ã o i m p o r t a n d o m u i t o se C r i s t o o u
nós por Cristo, que é dzoé (Jo 3.16; 10.10; 20.31), e cuja vida é a o E s p í r i t o S a n t o g a n h e o título d e ho dzoopóion, visto q u e c m q u a l q u e r caso a
vida de Deus: "Porque assim como o Pai tem vida em si mesmo, o b r a seria d o p r ó p r i o D e u s . E m J o 5.21, R m 4.17, H b 11.19 e t c . D e u s d á v i d a
também concedeu ao Filho ter vida em si mesmo" (Jo 5.26). Êle aos m o r t o s ; c m J o 5.21 (cf. 6.33,51 e t c . ) , 1 C o 15.22, 45. C r i s t o é o d o a d o r d a
v i d a ; e e m J o 6.63 ( í ò pnéumá estin íô d í o o p o i o o i m ) , R m 8.2, 10 s., II C o 3 . 6
é o pão da vida (6.51). É o doador da vida que ao concedê-la ressus- ( l ò pnêuma dzoopoiêi) é o Espírito que dá a vida. O cristianismo do N T nega,
cita os mortos (5.21; 6.33; 11.25 s.), identificado com o Espírito isso s i m , a p r e t e n s ã o d o j u d a í s m o r a b í n i c o ( e . g . , J o 5 . 3 9 ) d e q u e a Torá s e j a a
vivificador (Jo 6.63; cf. I Co 15.22,45; II Co 3.6; Rm 8.2,11; d o a d o r a d a v i d a : nomos ho dynámenos dzoopoiêsai ( G l 3.21).
AT, dando-nos segura indicação do que queriam dizer os judeus de (4) Esdras 7.12 s.; 8.52-54). Em todo o NT dzoé aiónios significa
língua grega. É frase inteiramente judaica: aparece só uma vez "vida do mundo vindouro". É sinônimo de he basiléia tôu Theôu.
Assim, na discussão sobre as condições para entrar no reino de Deus
em Filo (de Fuga 78) e não se encontra nos escritores pagãos reli-
o jovem rico pergunta em Mc 10.17: "Bom Mestre, que farei para
giosos ou filósofos, a não ser muito tempo depois do NT.< ' É 13

herdar a vida eterna (dzoé aiónios)!" Examinando o paralelismo


interessante notar que o autor da Epístola aos Hebreus, muitas vezes de Mc 9.43-47, vemos que é a mesma coisa entrar na dzoé e ingres-
considerado o escritor do NT que maior influência recebeu de Ale- sar na basiléia tôu Theôu. O quarto evangelista prefere dzoé ou
xandria e do platonismo, nunca emprega dzoé aiónios (a expressão dzoé aiónios (não há diferença de sentido entre estas duas formas)
mais semelhante a que chega é em 7.16, dynamis dzoés akatalytou). à expressão he basiléia tôu Theôu, encontrada apenas no diálogo
Esta expressão não pode, de modo algum, ser confundida com noções com Nicodemos (Jo 3.3 e 5 ) . Comparemos 3.3: "Se alguém não
platônicas sobre a eternidade: aiónios não significa, neste contexto, nascer de novo, não pode ver a basiléia tôu Theôu", cujo sentido
"eterno", no sentido platônico de estar fora do tempo, como seriam explica-se em 3.5: "não pode entrar na basiléia tôu Theôu", com
estritamente destituídas de tempo as verdades da geometria. É bas- 3.36: "Quem crê no Filho tem a dzoé aiónios; o que, todavia, se
tante duvidoso que os escritores bíblicos tenham pensado em Deus mantém rebelde contra o Filho não verá a dzoé", i.e., não entrará
assim fora do tempo. < Entre os autores do NT o quarto evange-
14>
na vida da era vindoura. São Marcos e São João mostram igual-
lista é o que mais comumente se interpreta em forma platônica; mas mente o contraste "desta época" com a vida da era vindoura: em
não se pode dizer que ao empregar, com freqüência, o termo dzoé Mc 10.3 Jesus diz que aqueles que tudo abandonam e o seguem rece-
ou dzoé aiónios, tivesse a intenção de ser assim entendido pelos berão o cêntuplo "nyn en tô kairó tóuto de casas, irmãos.. . e en
intelectuais gregos (a quem se supõe que tenha escrito). Em pri- tô aiôni tô erchoméno dzoén aiónion"; em Jo 12.25 temos uma inter-
meiro lugar, não existe diferença entre o modo como usa estas pala- pretação caracteristicamente ioanina de um versículo sinótico (cf.
vras e outros escritos do NT, como, por exemplo, São Marcos; além Mt 10.39; 16.25; Mc 8.35; Lc 9.24; 17.33): "Aquele que odeia
disso nada há que possa ser explicado com mais simplicidade à sua vida (psyché) en tô kósmo tóuto, preservá-ía-á eis dzoén aiónion".
maneira hebraica ao invés da grega. Em segundo lugar, a continui- Os evangelistas parecem divergir muito pouco na compreensão
dade essencial de significado que se vê entre o quarto evangelista deste tema. São Mateus prefere em geral dzoé (sem o adjetivo) como,
e o Apocalipse de São João, apesar de diferenças de expressão, nos por exemplo, em 7.14: "apertado o caminho que conduz para a dzoé"
(mas cf. Mt 19.29: Mc 10.30). Em Mt 25.46 encontramos dzoé
leva, por certo, a ter mais cuidado neste assunto. E, por último,
aiónios em contraste com kólasis aiónios; quando, porém, entende-
êle mesmo nos diz explicitamente que ter dzoé aiónios significa ser mos que aiónios provavelmente não significasse neste contexto "para
ressuscitado por Cristo no último dia (Jo 6.40,54), idéia que, de sempre", então, libertamo-nos das ansiedades morais causadas pela
fato, leva muito a sério (Jo 6.39 s., 44,54; 11.24; 12.48), e que tradução comum: "castigo eterno". Esta expressão refere-se, natu-
teria pouco interesse para os filósofos gregos, se levarmos em con- ralmente, ao caráter do castigo que será da ordem da era vindoura
sideração o testemunho de At 17.31 s. cm oposição a qualquer penalidade terrena.
O fato é que dzoé, ou mais completamente, dzoé aiónios é con-
eeito escatológico; é uma das marcas características da era vindoura, A tensão entre o "agora" e o "ainda não", que caracteriza a
como glória, luz, etc. No conceito rabínico contemporâneo, a era escatologia do NT, manifesta-se especialmente no termo dzoé. É
vindoura (cf. Mc 10.30, ho erchómenos aión; Hb 6.5, ho méllon o que afirma o autor de I Tm: "a piedade para tudo é proveitosa,
aión), em contraste com a atual (ho nyn aión ou ho aión hóutos), porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser"
seria caracterizada por dzoé, isto é, dzoé aiónios, a vida do aión ( 4 . 8 ) . Os cristãos já vivem agora na era vindoura, ao possuir o
(vindouro). Deste modo a expressão "vida eterna" que aparece nas penhor do Espírito, i.e., têm dzoé aqui e agora; mas está oculta
versões vernáculas da Bíblia quer dizer realmente "vida da era vin- como todas as realidades escatológicas. "Porque morrestes (no
doura". A frase dzoé aiónios não significa necessariamente vida que batismo em que recebestes o Espírito da vida) e a vossa vida (dom
dure para sempre (e.g. Enoque 10.10), mas tem o sentido comum da nova dzoé) está oculta juntamente com Cristo, em Deus" (Cl
de vida depois da morte, prolongada indefinidamente no mundo vin- 3.3). Assim está implícito na vida cristã levar no corpo o morrer
douro (Dn 12.2; Test, de Aser 5.2; Salmos de Salomão 3.16; I I de Jesus, para que he dzoé tôu Iessóu se manifeste em nossa carne
mortal ( I I Co 4.10 s.). Os cristãos apoderam-se de he aiónios dzoé,
ou de he óntos dzoé (I Tm 6.12, 19) por meio dos sacramentos e no
(13) A s s i m C . H . D o d d , I F G , 146. seu viver diário sacrificial. Sabem, porém, que não a recebem ou
(14) V e r O. C u l l m a n n , C h r i s t a n d Time, E T , 1951; t a m b é m John Marsh, merecem por seu esforço; é dom gratuito de Deus (Rm 6.23) — o
The Fulness of Time (1952) e a r t . " T i m e " e m TWBB.
dom d'e Cristo em contraste com o legado de morte de Adão (Em mente afirmar que o conceito de orgué é plenamente escatológico
5.17,21; I Co 15.22). Na nova criação dos últimos dias os cristãos no NT. (16)
que a ela já pertencem, pela fé, serão despojados do velho homem São Paulo clá-nos, em Romanos, o mais cuidadoso e ponderado
— o Adão em nós que nos aliena da dzoé de Deus — e renovados ensino a respeito da ira de Deus que podemos encontrar no NT.
(pelo batismo) no "novo homem" (Ef 4.18-23; cf. At 11.18), em- Como bom judeu que era, entende muito bem a doutrina coerente
bora já tenham desde agora a vida do Espírito com seus frutos, do AT de que a ira de Deus é conseqüência inevitável de sua justiça.
sabendo que "o que semeia para o Espírito, do Espírito colherá A vinda de Cristo não representa a abdicação do Deus da ira; pelo
dzoé aiónios" (Gl 6.8; cf. Tg 3.17 s.). Os cristãos sabem, pela contrário, revela claramente a ira de Deus contra toda injustiça e
qualidade escatológica do amor que está na Igreja, que já passaram perversão dos homens (Rm 1.18). Por causa da universalidade
da morte para a dzoé ( I Jo 3.14). Esperam por ocasião da parou- do pecado, a raça humana inteira torna-se objeto desta ira (Rm
sía a manifestação de sua dzoé agora oculta: "quando Cristo, que 3.9-18) ; sem remissão os homens são, por natureza (physei)
é a nossa dzoé se manifestar, então vós também sereis manifestados "filhos da ira" (Ef 2.3; cf. 5.6). Os gentios são inescusáveis por-
com êle, em glória" (Cl 3.4). Os cristãos são "herdeiros da mesma que deveriam ter conhecimento de Deus e de sua lei moral, tendo-se
graça de dzoé" ( I Pe 3.7; cf. Tt 3.7) ; receberão a coroa da dzoé tornado extremamente corruptos (Rm 1.18-32) ; também os judeus,
(Tg 1.12; Ap 2.10) ; e seus nomes serão escritos no livro da dzoé
sendo condenados pela própria lei da qual se vangloriam (Rm 2 ) .
(Ap 3.5; 17.8; 20.12, 15; 21.27; cf. Ex 32.32 s.).
A lei não pode impedir a ira; ela, pelo contrário, a suscita (Rm
4.15). Os homens, pela dureza do coração, acumulam "ira para o
A IRA DE DEUS dia da ira e da revelação do justo juízo (dikaiokrisía) de Deus"
e não há distinção entre judeu e grego (Rm 2.8 s.). Tanto em
O conceito de orgué ou ira de Deus no NT é escatológico assim Paulo como em todo o NT a expressão he orgué, empregada no
como (e.g.) basiléia, dócsa e d.zoé; são idéias que se referem pro- sentido de " a ira de Deus", não significa um tipo impessoal de
priamente ao tempo do fim mas, considerando que as cenas iniciais "processo inevitável de causa e efeito num universo moral"; d > 7

do último ato do drama da história do mundo já estão sendo repre- podemos, assim, manipular esta idéia, se o desejarmos, mas seria
sentadas, suas manifestações preliminares já se tornam visíveis aos grave erro imaginar que os escritores do NT também tenham agido
olhos da fé. O A T há muito tempo já havia demitizado a noção de desta maneira, d ) Nem é possível encontrar neste assunto diferen-
8

um deus ou deuses que demonstram sua ira por meio de tempestades, ças entre Paulo (ou os demais escritores do N T ) e Jesus.d ' É 9

trovões e outros fenômenos naturais, concebendo a ira de Javé em verdade que a palavra orgué só aparece nos lábios de Jesus em Lc
relação íntima com a idéia da aliança. A ira de Deus desce sobre 21.23 (mas não nas passagens pars., Mc 13.19; Mt 24.21, que
os israelitas que violam a aliança (e.g., Lv 10.6; Nm 16.46; 25.3; registram thlipsis), mas êle se refere muitas vezes ao juízo vin-
I Cr 27.24; SI 78.31, 49,59, etc.) e sobre os gentios que afligem o douro empregando a conhecida figura apocalíptica, he heméra krí-
povo da aliança (e.g., SI 79.6 s.; Jr 50.11-18; Ez 38.18 s.). Com seos (Mt 10.15; 11.22,24; 12.36, 41 s.) e a expressão rabínica,
o correr do tempo e com a impressão de que o julgamento de Deus he krísis tês gueénnes (Mt 23.33).
sobre os opressores de Israel era indefinidamente adiado, a espe-
rada aplicação da ira divina concentrou-se aos poucos no Dia do Jesus, sem dúvida, ensinou a terrível realidade do juízo final
Senhor, o Dia do Juízo (Is 2.10-22; Jr 30.7 s.; Jl 3.12-17; Ob 8.11; (e.g. Mt 5.21 s.; Mc 9.43-48, e t c ) , mas podemos explicar o signi-
Sf 3.8). Nos dias de nosso Senhor os rabinos usavam a expressão ficado de sua linguagem parabólica e pictórica. Considera-se êle
"a ira" como sinônimo de juízo final dos gentios e dos judeus após- relacionado com orgué e krísis do mesmo modo como com basiléia,
tatas (cf. I I (4) Esdras 7.36 s., "a fornalha da Gehenna").d5) E
João Batista revivendo o antigo ensino profético de que Israel e não
(16) Sanday e Headlam, Romans (ICC), 1895, R m 1.18, ad loc; G. Stãhlin,
tanto os gentios deveriam temer o dia do Senhor (cf. Am 3.2; 5.18; TWNT, V . 430 s.
Jl 2.1 s.), pergunta desdenhosamente: "Quem vos induziu a fugir (17) C. H. Dodd, Romans (The Moffatt New Testament Commentary),
da ira vindoura?" (Mt 3.7 = Lc 3.7). No NT orgué e essencial- 1932, 23.
mente orgué méllousa ou orgué erchoméne ( I Ts 1.10), embora já (18) C o n t u d o , d e p o i s q u e foi escrito este capitulo, s u r g i u s o b r e o assunto o
ótimo e s t u d o d e A . T . H a n s o n , The Wrath of the L a m b (1957), a d v o g a n d o c o m f i r -
esteja presente no mundo sua ação oculta. Podemos então correta-
m e z a o p o n t o d e vista " i m p e s s o a l " . P o r outro lado, C . K . B a r r e t t n o seu r e -
cente c o m e n t á r i o s o b r e R o m a n o s (1957) a f i r m a q u e " é d u v i d o s o se este p o n t o
de vista v a i p e r m a n e c e r " ( 3 3 ) .
(15) S t r a c k - B i l l . , I, 115 s. (19) Dodd, ibid.
dzoé ou dócsa. É portador da ira divina quando, por exemplo, pro- alcançar este propósito (Rm 13. 4 s.), e o poder de César é um dos
fetiza a ruína de Jerusalém e o julgamento divino sobre o judaísmo, seus principais instrumentos; a fúria destruidora de Roma e das na-
que é figueira sem fruto (Mc 11.14,20; Lc 13.34 s.; 19.41-44; ções é um dos efeitos assinaladores da operação da orgué divina na
cf. Mc 12. 9 s.). Traz consigo os " a i s " do Messias, pois estas coisas aproximação do fim (Ap 11.18; 14.10; cf. Mc 13.7 s.). A destrui-
devem acontecer antes que sobrevenham o fim (Mc 13. 5-27). O ção de Jerusalém no ano 70 A.D. é considerada muito especialmen-
Messias exercerá inevitavelmente o julgamento de Deus (Mt 25. te como manifestação do julgamento de Deus sobre os judeus in-
31 s.; Jo 5. 22, 30; 8. 16; 9. 39; Rm 14.10; II Co 5.i 10; II Tm 4.1,8; fiéis (Lc 21.23 s.), identificada no pensamento do vidente com "a
I Pe 4.5; Ap 6.10; 19.11), tornando-se impossível a separação da grande cidade" — ora Babilônia, Sodoma, Jerusalém ou Roma —
ira de Deus do caráter e obra de Jesus-Messias. Deus e Cristo são tipificando luxúria, domínio, prazer sensual e orgulho próprio, ob-
um só mesmo no juízo, como o NT e a teologia católica coerentemen- jetos especiais da ira de Deus ( A p 11.8; 14.8, 10; 16.19; 17.1-18.
te afirmam; apenas um determinado tipo de teologia protestante 24). O julgamento de Deus não se mostra apenas nos eventos espe-
tentou contrastar a ira de Deus com a misericórdia de Cristo. Mas taculares da história universal. É um processo sempre presente,
é somente em Ap 6.16 que o N T explicitamente atribui orgué a onde quer que a palavra de Deus seja proclamada; os homens jul-
Cristo no mais puro sentido escatológico; na sua vívida visão dos gam-se, por assim dizer, segundo a aceitação ou rejeição do Evange-
"ais" do fim o profeta adota a terrível expressão "a ira do Cordei- lho (Hb 4.12 s.). Os que praticam o mal já estão julgados ao odiar
r o " / ' Lembremo-nos, contudo, que o NT ensina ser o próprio Cris-
20
a luz (Jo 3.18-20) ; a rejeição da pregação do nome de Cristo tam-
to, no milagre da misericórdia divina, também arauto da orgué divina bém é a rejeição da dzoé, e significa o mesmo que incorrer na ira de
em outro sentido: sobre êle caem as maldições messiânicas' ' e toma 21
Deus (Jo 3.36). Quando aceitamos o Cristo neste dia de oportuni-
sobre si em benefício da humanidade o peso inteiro do juízo de Deus dade antecipamos já o verdadeiro veredicto do "último dia" (Jo 3.18;
de tal modo que a justiça divina não desaparece diante da absolvi- 12.48). Devemos ainda aguardar este veredicto com temor e tremor
ção dos pecadores (Rm 3.24-26). A cruz de Cristo é a manifestação (Rm 2.6), sem abusar da bondade longânima de Deus, desconfiando
A isível da orgué tóu Theóu: é a revelação suprema da ira de Deus
r
de nossos próprios méritos, pondo toda a nossa esperança em Jesus
contra toda maldade e injustiça dos homens (Rm 1.18; cf. II Co que nos livra da ira vindoura ( I Ts 1.10). O julgamento está acon-
5.21; Mc 15.34). O escritor joanino salienta esta verdade a seu tecendo aqui e agora, segundo a afirmação de São João (Jo 3.18 s.) ;
modo. Em suas visões do fim, contempla todos os que haviam ser- São Paulo chama nossa atenção para um exemplo da orgué, descendo
vido ao anti-reino da besta e adorado sua imagem recebendo para sobre certos judeus que se tinham oposto à pregação do Evangelho
beber " o cálice do vinho do furor" da ira de Deus (Ap 16.19; cf. aos gentios em Tessalônica ( I Ts 2.16). O juízo divino também
14.10) ; mas na visão do Fiel e Verdadeiro, o Verbo de Deus, o Rei opera misteriosamente nos sacramentos da Igreja; > a Igreja é (22

dos reis o Senhor dos senhores, que usa muitos diademas e governa aqui na terra o lugar onde se inicia o julgamento divino ( I Pe 4.17).
as nações com vara de ferro, o vidente nota que suas vestes estão O fato de que a orgué escatológica de Deus está assim agindo é
manchadas de sangue — seu próprio sangue: "e pessoalmente pisa i esultado da aproximação das últimas coisas com a vida do Messias
-

o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-poderoso" (Ap 19. Jesus; como nos diz São João sucintamente: "nyn krísis esti tóu
11-16). A metáfora do lagar pisado ("as vinhas da ira") (cf. 14.20) kósmou tóuto; agora o príncipe deste mundo será expulso" (Jo 12.31;
vem de Is 63.3, quando descreve um conquistador pisando o sangue cf. 16.11). O julgamento, assim como orgué da qual é expressão, é
de seus inimigos; o significado de Ap 19.15 é que Cristo conquis- é uma realidade futura que manifesta seu poder no presente. Os
tou por meio de seu próprio sangue, e a última referência que o NT cristãos devem, portanto, aceitar humildemente as evidências da
faz à orgué divina dá-nos a imagem cristã de Deus como aquele que krísis divina, agindo tanto no mundo como entre si, ( I Pe 5.6),
provê os meios para a propiciação de sua ira (cf. I Jo 4.10). confiando que Deus não os designou para a orgué ( I Ts 5.9) e que
no derradeiro ajuste de contas não haverá condenação (katákrima)
Embora a ira de Deus venha a ser revelada somente nos "últi- para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1). Ou, como diz São
mos dias" (Rm 2.5), está, não obstante, em ação aqui e agora reali- João: "Nisto é em nós aperfeiçoado o amor, para que no dia do juí-
zando o propósito de Deus. A orgué obra por meio do Estado para zo mantenhamos confiança" ( I Jo 4.17).

(20) S ã o M a r c o s n ã o hesita a o a t r i b u i r a e m o ç ã o h u m a n a de o r g u é a Jesus


( 3 . 5 ) , e e m b o r a M t e L c o m i t a m a e x p r e s s ã o , todos os q u a t r o E v a n g e l h o s r e - (22) Ver C. F. D. Moule, " T h e J u d g e m e n t T h e m e in the S a c r a m e n t s " em
p r e s e n t a m - n o m o v i d o de j u s t a i n d i g n a ç ã o d i a n t e da d u r e z a d o s corações h u m a n o s . The Background of the New Nestament and its Eschatology (ed. W . D. Davies
(21) Ver supra, 25. e D. Daube), 1956.
JUSTIÇA E SALVAÇÃO exilados da Babilônia) era considerada o grande ato divino da nova
criação (Is 43.15-19; Sabedoria 19.6-8).< « o conceito de criação-
2

Do ponto de vista bíblico a salvação, assim como o julgamento, salvação, encontrado especialmente no Dêutero-Isaías, tem caráter
é conseqüência inevitável da justiça divina. Justiça (em hebraico escatológico e, devido a essa configuração de libertação do êxodo (e
zedheq, nos LXX comumente dikaiosyne) é para os hebreus o cará- da Babilônia) é considerado típico da salvação que Deus realizará
ter fundamental de Deus, enquanto que para os gregos é essencial- nos últimos dias, quando efetivar sua nova criação, o novo céu e a
mente uma virtude natural humana (cf. a "justiça" da República de nova terra (cf. Is 65.17; 66.22). O "dia" desta nova criação será,
Platão, procedente da dikaiosyne inata do homem). ' Para os ,£3
por excelência, o dia da salvação. Toda a carne adorará perante o
hebreus justiça não era viver de acordo com a natureza mais eleva- Senhor (Is 66.23). O esquema da salvação do NT procede do AT,
da, mas fazer a vontade de Deus que se tornara conhecida através tendo sido tipificado na criação original do mundo (considerada co-
da Tora. Tudo o que Deus faz é justo porque, por definição, somente mo ato de salvação das garras do Dragão) e da libertação no Mar
quer a justiça (cf. Gn 18.25), exigindo-a também de seu povo. O Vermelho. O NT afirma que o grande ato da salvação e a nova cria-
justo, díkaios, vive (i.e., prospera) pela fé (no mandamento de ção já aconteceram na morte e ressurreição de Jesus Cristo, embo-
Deus) (Hc 2.4). Mas porque Deus é díkaios até mesmo Israel em ra sua consumação final venha a ser revelada apenas na parousía de
sua rebeldia e pecado será restaurado e salvo. Deus permanece Cristo. Enquanto isso, entre a primeira e a segunda vinda de Cristo,
fiel à aliança e à promessa, embora Israel nem sempre o tenha sido; a Igreja é a comunidade escatológica da salvação (hoi sodzómenoi, os
assim, não abandona seu povo, buscando como apagar suas iniqui- que estão no estado de se salvar, At 2.47; I Co 1.18; II Co 2.15; cf.
dades e justificá-lo, para que todos venham à sua presença como I Co 15.2) ; já é mesmo agora a nova criação, surgindo escatològica-
justos. " . . .mas me deste trabalho com os teus pecados, e me can- mente no presente século, embora seu caráter verdadeiro seja conhe-
saste com as tuas iniquidades. Eu, eu mesmo, sou o que apago as cido somente pela fé ( I I Co 5.17; Gl 6.15). Por esta razão, tanto
tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me nas últimas partes do AT como no NT, "salvação " torna-se sinô-
lembro. Desperta-me a memória (da Aliança) ; entremos juntos em nimo de "redenção". O ato divino da libertação do Egito é consi-
juízo; apresenta as tuas razões, para que possas justificar-te" (Is derado a redenção de Israel, como um escravo que se torna livre;
43.24-36). É por amor dele (isto é, porque não pode negar sua seria o dever do go'el (redentor, parente próximo) para os prisio-
própria natureza, quebrando a aliança) que Deus justificaria Israel neiros. Não temos aqui sugestão alguma de que Deus tenha pago
e seu servo escolhido, Jacó, derramando seu Espírito sobre a semen- a alguém pela redenção de Israel; estamos apenas diante de vívida
te deste (Is 44.2 s.; cf. Dt 9.5; Ez 38.22, 32). A salvação pode metáfora que ressalta o poderoso ato salvador de Deus na história.
ser esperada em Israel não por causa de sua própria retidão mas A salvação do novo povo de Deus pelo Messias é o tema central do
porque Deus é justo: Javé é "Deus justo e salvador" (Is 45.21). NT, retornando inúmeras vezes a metáfora da redenção, embora
A relação de justiça e salvação caracteriza especialmente Is novamente sem qualquer sugestão de que alguém tivesse recebido
40-55. Nos primeiros documentos do AT salvação significava sim- pagamento pelo resgate/ ) 25

plesmente livramento de perigos físicos e da catástrofe nacional (e. Podemos dizer, então, que a profecia do AT, nos seus melhores
g., Jz 15.18; I Sm 11.9, 13, e t c ) . Com o passar do tempo, o termo momentos, enunciou a doutrina da salvação efetuada por meio da
começou a ser aplicado especialmente para designar a grande liber- justiça de Deus apesar da pecaminosidade e tremenda indignidade
tação do Egito no Mar Vermelho (Ex 14.13; 15.2) e, por analogia, de Israel. Temos então uma doutrina de justificação, por meio da
também para a libertação de Babilônia e a volta do exílio (Is 45.17; fidelidade de Deus, apenas, e não através das obras. Significa que,
46. 13; 52.10). Assim como na antiga mitologia hebraica a criação embora Israel tivesse sido infiel à promessa da aliança, Deus não o
era considerada o grande ato divino da salvação (cf. SI 74. 12-14), era, e, movido por sua retidão, encontrou o meio de justificar o povo
também a salvação verificada no êxodo do Egito (ou na volta dos pecador de Israel. Mas este alto conceito da salvação divina não foi
compreendido no judaísmo posterior, sendo substituído pelo sistema
legalista que transformou a religião num tipo de contabilidade que
(23) Cf. G. S c h r e n k . TWNT. E T , Righteousness ( B i b l e K e y W o r d s ) , 1951, p. anotava nossos débitos e créditos para com o Deus justo. Segundo
14, q u e faz r e f e r ê n c i a à R e p . iv, 433 ss. E m b o r a na m i t o l o g i a g r e g a Dike fosse u m a
deusa ( v i n g a d o r a da J u s t i ç a ) , dikaiosyne foi c o n s i d e r a d a p a r t e d a o r d e m n a t u r a l ,
o judaísmo rabínico era díkaios (considerado justo) o homem cujos
como q u a l q u e r outra virtude humana. A Bíblia grega raramente emprega o ter-
m o dike; o c o r r e três v e z e s no N T ( A t 28.4; I I T s 1.9; Jd 7 ) , estando p r e s e n t e
e m todos esses casos o sentido d e justiça v i n g a d o r a . (24) Ainda sobre o assunto ver infra, 203-7.
(25) Sobre redenção v e r a i n d a infra, 217-22.
24.25; I Tm 6.11; Tg 1.20; 3.18; I Pe 3.14; I Jo 3.7,10; Ap
méritos pesassem mais que as transgressões; se fosse muito esfor- 22.11). Dificilmente um escritor como o quarto evangelista empre-
çado poderia aumentar seus pobres e inadequados méritos, recor- garia o termo (somente aparece em Jo 16.8,10) ; mas em I Jo 2.29
rendo à superabundância de merecimentos armazenados por Abraão, está implícito que dikaiosyne é uma qualidade de vida conferida no
Isaque e Jacó, por heróis de Israel e, especialmente, pelos mártires batismo. Somente Cristo é ho díkaios ( I Jo 2.1,29; At 3.14; 7.52;
Macabeus. São João Batista protestou contra o conceito "dos mé- 22.14 — talvez seja título messiânico). Fora das epístolas paulinas,
ritos dos pais": "Não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos I Pe 2.24 é uma passagem singular, ao associar a vida de justiça
por pai a Abraão" (Mt 3.9; Lc 3.8). A doutrina rabínica ensinava com a morte de Cristo, mas (como Paulo jamais o faz) aplica Is 53
que a salvação vem pelas obras; os atos de caridade, as esmolas e a à paixão de Cristo.
piedade tinham valores de crédito, e se a soma total das boas ações
fosse maior do que a soma das más então seríamos considerados São Paulo concebe a dikaiosyne Theôa, seguindo o pensamento
inocentes no Juízo Final. Quando Jesus reviveu todo o conceito de de Dêutero-Isaías, como o dynamis poderoso e emanante de Deus,
salvação de Isaías, ensinando que esta não dependia da retidão do comparável (digamos) à sophía ou agápe divinos. É conceito abso-
homem, mas da justiça emanante e salvadora de Deus, opôs-se às lutamente escatológico. A justiça divina que surgirá no fim dos
doutrinas clássicas do judaísmo farisaico, entrando em choque com tempos já se manifestou na história. O julgamento e a salvação que
os seus representantes: a exaltação farisaica dos "preceitos dos seriam trazidos nos últimos dias por essa justiça já foram conse-
homens" já havia sido profetizada pelo próprio Isaías (Mc 7.6 s., guidos na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Por esse meio
citando Is 29.13). Em lugar da doutrina da salvação por meio dos todos os que crêem e são batizados em Cristo tornam-se "justifi-
méritos e das obras humanas, Jesus ensinou a justificação dos peca- cados" ou são assim considerados por Deus. Cumprem-se, então, as
dores pela justiça procedente de Deus. É o tema das parábolas do profecias da antiga dispensação. "O Senhor fêz notória a sua sal-
Filho Pródigo (Lc 15.11-32; notar a doutrina farisaica do mérito vação; manifestou a sua justiça perante os olhos das nações" (SI
sustentada pelo irmão mais velho, vers. 25-30), do Fariseu e do 98*2; cf SI 24.5; 71.15 s.). "Mas no Senhor será justificada toda
Publicano (Lc 18.9-14; notar esp. dedikaioménos, v. 1 4 ) ; dos Tra- a descendência de Israel, e nele se gloriará" (Is 45.25). "Assim
balhadores na Vinha (Mt 20.1-16) e da Grande Ceia (Lc 14.16-24). diz o Senhor: Mantende o juízo, e fazei justiça, porque a minha
Está implícito no conceito que tinha de si mesmo como instrumento salvação está prestes a vir, e a minha justiça prestes a manifes-
da salvação divina para os pecadores penitentes: "Não vim chamar tar-se" (Is 56.1; cf. também 46.12 s.; 51.5 s.). Para São Paulo
justos, e sim, pecadores" (Mc 2.17). Transparece em seus atos de estas profecias estão cumpridas no Evangelho de Jesus Cristo, no
cura (o leproso, Mc 1.40-45; o paralítico, Mc 2.1-12, etc.) e em suas qual, diz êle, revela-se a dikaiosyne Theôu, embora no presente
relações com homens e mulheres pecadores (Zaqueu, Lc 19.1-10; século seja conhecida e comunicada somente pela fé (ek písteos eis
a mulher pecadora, Lc 7.36-49). Tanto nas palavras como nas obras pístin) (Rm 1.17; cf. Fp 3.9), esse Evangelho é dynamis Theôu
Jesus proclama-se o Servo-Messias já profetizado por Isaías: "O eis soterían (Rm 1.16). A justiça e a salvação procederam de Deus
meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento (i.e., obediência), na vida de Jesus Cristo.
justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si"
(Is 53.11).<26) Para São Paulo, a morte de Cristo revela especialmente a jus-
tiça de Deus (e, conseqüentemente, sua salvação). Afirma em Rm
Entre os escritores do NT, somente São Paulo revive e desen- 3.25 s. que o propósito de Deus, ao entregar Cristo como expiação
volve o conceito de Isaías da justiça divina que opera a salvação, dos pecados dos que nele crêem, por meio de sua morte sacrificial
expressando assim vigorosamente o ensino de Jesus a respeito da ("sangue"), era demonstrar sua justiça. Tal demonstração torna-
justiça justificadora de Deus. Paulo emprega dikaiosyne mais va-se necessária no presente kairós para evitar conclusões erradas
vezes do que todos os demais escritores do NT juntos. Estes outros a respeito da paciência de Deus para com os pecados das gerações
autores do NT empregam-na segundo o significado que lhe foi atri- passadas. Assim, êle poderá ser visto como díkaios, o Deus Justo,
buído pelos LXX e pelo uso comum judaico, a saber, dikaiosyne é
que (segundo a profecia das Escrituras) justifica o remanescente
a conduta que agrada a Deus em harmonia com sua vontade, embora,
fiel de Israel, isto é, os que têm fé em Jesus. Movido por sua pró-
naturalmente, a vontade divina seja interpretada à luz do ensino
e da obra da Jesus (e.g., Mt 5.6, 10,20; 6.1,33; Lc 1.75; At 10.35; pria retidão não pode ir contra sua aliança e promessa: livremente
justifica os que haviam quebrado essa aliança e não tinham forças
para conquistar a própria justiça e salvação. Assim, Deus derrama
(26) S o b r e justificação v e r a i n d a infra, 231-38.
sua justiça salvadora, através da morte sacrificial de Cristo e a
única exigência que faz aos que querem ser salvos é que creiam e
sejam batizados na fé em Jesus Messias. < > 27

IV

O REINO DE DEUS
A expressão "Reino de Deus" que aparece nas versões comuns
da Bíblia não é boa tradução de he basiléia tóu Theôu, visto que
basiléia (como seu equivalente aramaico malkuth) significa "domí-
nio", "soberania" — "reinado" mais do que "reino". Não é tanto
o lugar onde Deus governa mas a própria soberania de Deus. Desde
o tempo em que os primeiros mestres da religião profética demiti-
zaram a antiga noção ritual do rei como deus/ ) os hebreus conhe- 1

ciam bem esse conceito. A idéia do "Reino de Deus" do NT procede


de uma longa história que remonta à mais primitiva forma de mito-
logia. A crença judaica messiânica e as imagens apocalípticas
(2)

são, contudo, seus antecedentes imediatos. A religião judaica afir-


mava comumente que Deus era rei de toda terra; o problema a ser
resolvido era: por que, sendo Rei de jure, não vinha em socorro
do povo, assumindo seu lugar de Rei de facto? Muitos acreditavam
que as iniquidades do povo impediam a tomada imediata do poder
(27) O s L X X t r a d u z e m d i f e r e n t e s p a l a v r a s h e b r a i c a s q u e t ê m o sentido d e real por Deus sobre toda a terra; mas viria o dia em que, direta-
" s a l v a r " p o r sódzein, v e r b o e n c o n t r a d o mais de 100 v e z e s n o N T . Nos Evangelhos mente ou por meio de um Príncipe Messiânico, Deus interviria sobre
a p a r e c e c e r c a d e 14 v e z e s c o m o s e n t i d o d e " t o r n a r s ã o " , n a s c u r a s d o s d o e n t e s e
e n d e m o n i n h a d o s , e cerca d e 20 vezes, c o m sentido teológico técnico ( e . g . , M t
a terra e estabeleceria seu reino de facto. Os escritores apocalípti-
1.21; 10.22; 1 9 . 2 5 ) . O s e n t i d o d u p l o d e " s a l v a r " e " c u r a r " t o r n a - s e essencial cos, perdendo as esperanças de que a salvação viesse de dentro da
nos m i l a g r e s d e c u r a ; c o m p a r a r M c 5.34 ou L c 17.19 c o m L c 7.50. Chegou a história, começaram a aguardar o fim do mundo presente (aión),
s a l v a ç ã o p r o m e t i d a ( e . g . , L c 1 9 . 9 ; A t 1 3 . 2 3 ) ; c u m p r e m - s e as p r o f e c i a s de Isaias;
o E v a n g e l h o é o p o d e r s a l v a d o r d e D e u s ( R m 1 . 1 6 ) . A p a l a v r a soteria (salvação)
quando, entre intervenções espetaculares, Deus havia de estabelecer
o c o r r e 46 v e z e s n o N T , e a f o r m a tò sotérion q u a t r o v e z e s ( L c 2.30; 3 . 6 ; A t 28.28; o seu reinado, salvando os eleitos e julgando os opressores. Nos dias
E f 6 . 1 7 ) ; o a d j e t i v o soíérios s o m e n t e u m a ( T t 2 . 1 1 ) . S o t é r ( S a l v a d o r ) e n c o n t r a - de nosso Senhor, muitos judeus piedosos ansiosamente esperavam
se nos E v a n g e l h o s a p e n a s e m L c 1.47, 2.11 e e m J o 4.42; e m A t s o m e n t e e m 5.31
e 13.23; n a s e p í s t o l a s p a u l i n a s só e m E f 5.23 e e m F p 3.20; m a s n ã o m e n o s d e
" a consolação (paráklesis) de Israel" (Lc 2.25). O sentimento de
d e z v e z e s nas e p í s t o l a s pastorais. N o N T , d e n t r e 24 vezes e m q u e o c o r r e oito expectativa era comum, embora somente os zelotes esperassem a
se r e f e r e m a " D e u s nosso S a l v a d o r " ( s e m p r e n a s pastorais c o m e x c e ç ã o d e vinda do reino de Deus por meio de ação política. Os fariseus acre-
d u a s ) ; as o u t r a s v e z e s se r e f e r e m a Cristo. A i n f l u ê n c i a de I s a í a s é d e c i s i v a n o
u s o d a p a l a v r a " s a l v a r " n o N T . N o s L X X " s a l v a d o r " é sotér (e.g.. I s 45.15, 2 1 ) ;
" r e d e n t o r " é lytrotés ( v e r infra, 218), ho lytróumenos (e.g., Is 41.14; 43.14; 4 4 . 2 4 ) ,
(1) Ver Alan Richardson, Genesis I — XI, 32-4.
ho rysámenos ( e . g., Is 44.6; 4 8 . 1 7 ) ; cf. h o ryómenos (Is 59.20 iitado e m R m
11.26). (2) Ver, e.g., A. Bentzen, King and Messiah, ET, 1955; S. Mowinckel, He
that Cometh, ET, 1956, P a r t e Primeira.
ditavam que o dia do Senhor haveria de vir quando o povo escolhido e não (com C. H. Dodd) "o reino de Deus chegou".<3) A maneira
obedecesse perfeitamente à Lei. João Batista sacudiu repentina- hebraica de mencionar eventos futuros em tempo passado não nos
mente o país ao tomar sobre si, dramaticamente, o papel de Elias, deve levar a interpretar mal certos textos, em discrepância com todo
o esperado precursor do "grande e terrível dia do Senhor" (Ml 3.1; o sentido escatológico do N T : éphthasen eph' hymâs he basiléia
4.5 s.; Mt 11.14; Mc 9.11-13; Lc 1.17), proclamando que o julga- tóu Theóu (Mt 12.28 = Lc 11.20; cf. Lc 10.18 e I Ts 2.16) deve
mento messiânico logo haveria de começar (Mt 3.10-12). O dia do significar nesse contexto que os exorcismos realizados por Jesus são
Senhor, ou "o grande dia" (Jl 2.11, 31; Sf 1.14; Jd 6; Ap 6.17), sinais da vitória vindoura do Reino de Deus contra o anti-reino
ou "o dia de ira" (Sf 1.15, 18; 2.3; Rm 2.5; Ap 6.17) aproxima- de Satanás.
va-se. Outra maneira de dizer a mesma coisa era declarar que o Dois textos do A T têm tremenda importância para o conceito
reino de Deus estava perto, e é dessa maneira que São Mateus resume do reino de Deus, segundo o ensino de Jesus e do NT em geral, a
a proclamação de João: énguiken he basiléia tôn ouranôn (Mt 3.2). saber Ex 19.6 e Dn 7.22. O primeiro ocorre na narrativa da aliança
(Observemos que a expressão de Mateus "reino dos céus" é sinô- feita no Sinai, quando Israel tornou-se uma nação santa, um "reino
nima de "reino de Deus"; destina-se a evitar reverentemente o uso de sacerdotes" (LXX, basíleion hieráteuma, Aq. basiléia hieréon,
da palavra "Deus"). "O dia de Javé" significava, no pensamento Symm., Th. basiléia hierêis, Vulg. regnum sacerdotale). Jesus
judaico, a data em que Deus estabeleceria de facto o seu reinado, entendia que estava estabelecendo, por meio da oblação de si mesmo,
dia de juízo para os adversários e de salvação para seu povo. João nova aliança entre Deus e o novo Israel (Mc 14.24; I Co 11.25),
Batista reviveu a antiga compreensão profética de que o dia do i.e., inaugurando um novo reino sacerdotal para realizar a tarefa
Senhor seria não apenas de julgamento para os gentios mas tam- que o antigo Israel deixara de fazer. Considerava-se novo Moisés
bém para os judeus e seus líderes religiosos: portanto, arrepen- (cf. Dt 18.15,18), a conduzir o novo povo de Deus à redenção, bem
dei-vos e produzi frutos dignos do arrependimento (Mt 3.2,8,11). maior do que a do êxodo do Egito, para a Terra Prometida do
Tempo Vindouro. Os Evangelhos mostram-no não apenas procla-
mando mas já estabelecendo a comunidade do reino de Deus, a
O REINO DE DEUS NO ENSINO DE JESUS irmandade do governo messiânico. Todos os que eram chamados
para este reino não seriam simples súditos passivos, governados por
Os Evangelhos apresentam Jesus proclamando a iminência do
força estranha; seriam participantes do governo do reino messiânico
reino de Deus tão logo Herodes (Mc 1.14) silenciara o Batista.
que Deus outorgara a Jesus: "Assim como meu Pai me confiou um
Continuam no ponto em que João havia parado. "O kairós está
reino (basiléia), eu vo-lo confio... e vos assentareis em tronos para
cumprido e o reino de Deus está próximo" (Mc 1.15). Considera
julgar as doze tribos de Israel" (Lc 22.29 s.; cf. Mt 19.28). O
a própria pessoa de João um "sinal" profético, um ponto determi-
reinado dos eleitos terá caráter completamente diferente dos reinos
nado no calendário, marcando o fim do kairós, que se cumpre e con-
e dos assim chamados "protetorados" dos gentios, desde que nos
tém em si o advento do reino de Deus, o alvorecer do prometido
domínios de Deus realeza se mede em termos de serviço (Mc 10.42-
"dia do Senhor" (Mt 11.13; Lc 16.16). Os Evangelhos retratam
45; Lc 22.24-28) ; a Igreja apostólica aprendera do Senhor que
Jesus ensinando que os dias de seu ministério eram da pregação do
através de muitas tribulações é que se entrava no reino de Deus
reinado de Deus (Lc 16-16), que logo viria "com poder" (en dyná-
(At 14.22). A expressão eiselthêin eis tèn basiléian tóu Theóu
mei) durante a vida das pessoas que escutavam a sua pregação.
significa bem mais do que se tornar súdito do Reino de Deus; tem o
Nesses dias, os homens poderiam ainda aceitar ou recusar o reino
sentido de receber a graça de participar no reino de Deus, de ser
de Deus; poderiam, por assim dizer, antecipar em suas existências
um dos chamados para reinar. Jesus refere-se aos "pobres de espí-
pessoais o dia do Senhor; e passariam, assim, em sentido escato-
rito", i.e., os hasidhim cristãos, como pessoas a quem pertence o
lógico, através do julgamento à obtenção da salvação. Mas o fato
reino celestial; são os humildes que, segundo a profecia de SI 37.11,
de que a grande decisão podia ser tomada pelos que ouviam Jesus
proclamar a aproximação do reino não nos deve levar a supor, erra-
damente, que o reino de Deus já tivesse chegado em outro sentido
além do que propunha a pregação como sua antecipação escatoló- (3) C. H . D o d d , The Parables of the Kingdon, 1935, 43 s . . C r í t i c a c o n -
v i n c e n t e d a teoria d a " e s c a t o l o g i a r e a l i z a d a " n o s E v a n g e l h o s , p o d e s e r e n c o n -
gica. Ã luz de recentes discussões de textos, como Mc 1.15 (cf. t r a d a e m The Mlision and Achievement of Jesus, 20-35, de R . H . F u l l e r . P r e -
Mt 10.7; Lc 10.9), talvez devêssemos concluir que a tradução de f e r i m o s f a l a r de " u m a escatologia q u e está n o p r o c e s s o d e r e a l i z a ç ã o " (J.
énguiken he basiléia tóu Theóu seja "o reino de Deus está próximo" J e r e m i a s , The Parables of Jesus, E T , 1954, 159; cf. D o d d , I F G , 447 n., onde
considera a expressão "escatologia realizada" u m a frase n ã o muito feliz).
herdarão a terra. Assim como Israel herdara a Terra Prometida o corpo total de Cristo ( I Co 4.8). Ao dissuadi-los de apelar às cortes
novo Israel haverá de possuir a terra. É provável que ditos desta seculares para o julgamento de disputas entre cristãos, Paulo
natureza tenham levado escritores apocalípticos posteriores a pensar escreve: "Não sabeis que os santos hão de julgar o mundo?...
em termos literais sobre um reino de santos aqui na terra, se esta Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos?" (1 Co 6.2
fôr uma interpretação correta de Ap 20.4-6. Tenha ou não Jesus s.). Cumpre-se a visão de Daniel; o juízo pertence aos santos do
pensado em termos literais sobre um reino terreno, falou a respeito Altíssimo. Da mesma forma o escritor de I Pedro entende a Igreja
da irmandade dos discípulos como o pequeno rebanho a quem a boa de Jesus Cristo como o cumprimento da promessa feita no Sinai de
vontade do Pai dera o reino (Lc 12.32). que o povo de Deus seria a basíleion hieráteuma ( I Pe 2.9 s.),
Passemos agora a considerar a segunda citação do AT que um reino de sacerdotes para Deus. O autor do Apocalipse reafirma
muito afetou o pensamento de Jesus e seus seguidores neste assunto. que os cristãos foram feitos uma basüéia, sacerdotes para Deus
Daniel viu em sua visão a figura de um como o Filho do Homem (Ap 1.6; 5.10; 20.6); os santos reinarão na terra (5.10). Como
que vinha com as nuvens do céu, a quem fora dado "domínio e gló- o antigo Israel, redimido do Egito, tornou-se nação sujeita apenas
ria e o reino" (Dn 7.13 s.) ; esta visão é explicada depois por outra, ao seu rei divino, rejeitando qualquer poder terreno, assim também a
na qual, depois de os "chifres da besta" terem prevalecido contra Igreja de Cristo, o novo Israel, livre do cativeiro dos poderes hostis
os santos em guerra, "veio o Ancião de dias e fêz justiça aos santos deste mundo, tornou-se nação debaixo do poder de Deus, o Rei (laós
do Altíssimo; e veio o tempo em que os santos possuíram o reino Theôu, I Pe 2.10), sem outra lealdade humana: César ou qualquer
(malkut, basüéia)" (7.21 s.) ; o triunfo final é assim descrito: outro dos governadores do mundo presente. A idéia da vocação
"O reino e o domínio e a majestade dos reinos debaixo de todo o sacerdotal e do status real do cristão estava inerente na cerimônia
céu, serão dados ao povo dos santos do Altíssimo..." (7.27). O do batismo que o iniciava na Igreja; e se I Pedro é (como muitos
"pequeno rebanho" dos discípulos de Jesus constituía o núcleo do supõem) uma espécie de instrução batismal, esse pensamento esta-
"povo dos santos do Altíssimo", a figura coletiva do Filho do Ho- ria então explícito na mente do autor. Pois o batismo era essencial-
mem de Daniel, a quem se dava a basüéia tôu Theôu. Esta passa- mente a unção do Espírito Santo, e os reis e sacerdotes ao serem
gem, como veremos depois, exerceu profunda influência (humana- consagrados no antigo Israel eram ungidos segundo a tradição;
mente falando) na compreensão que Jesus teve de sua missão e assim o batismo é, por assim dizer, tanto a "coroação" dos santos
destino. Concebeu sua tarefa como o estabelecimento do "povo dos em sua entrada no reino de Deus, como sua "ordenação" ao minis-
santos do Altíssimo" para que a basüéia e o domínio, cujo advento tério sacerdotal a ser estabelecido na era messiânica (cf. Is 61.6;
êle proclamava, pudessem ser recebidos. Seu povo terá a grandeza 66.21).
dos reinos que existem debaixo dos céus: os humildes herdarão a
Tentaremos agora resumir o ponto de vista bíblico da história
terra. Cristo anuncia o cumprimento imediato da expectativa do
da basüéia tôu Theôu. Quando aparece pela primeira vez na Bíblia
triunfo dos justos tão vivamente expresso na visão de Daniel (Mt
a idéia do reino divino, Deus estabelece Israel como seu governo
5.5; cf. também Sabedoria 3.8; Eclesiástico 4.15).
sacerdotal em relação com as outras nações, não para exercício de
domínio, segundo o conceito gentio, mas para que a nação sobre a
O REINO DOS SANTOS qual Deus era Rei servisse diante das outras como sacerdote e rei
Os escritores do NT, ensinados por nosso Senhor, desenvolvem para trazê-las à obediência de Javé (Ex 19.4-6). Israel não con-
o conceito da Igreja como "povo dos santos" aos quais Deus concede segue realizar a tarefa recebida de Deus, a qual tantas e tantas
sua basüéia, manifesta desde já na dádiva do Espírito de poder. vezes é relembrada pelos profetas. Por fim, tão sem forças está
Segundo São Paulo, os que receberam graça e justiça (i.e., "os entre as demais nações que lhe surge a crença de que Deus deverá
santos") reinarão na dzoé (i.e., na vida do mundo vindouro) por ainda uma vez dar a basüéia ao remanescente fiel do povo e isso,
meio de Jesus Cristo (Rm 5.17). Este reino de Deus no qual os nos últimos dias (Dn 7 ) . João Batista vem anunciando que a basi-
cristãos participam não é apenas realidade futura. Como todas as léia de Deus, prenunciada e prometida, está perto, e Jesus mostra
realidades escatológicas do NT carrega em si a tensão entre "já os sinais pelos quais os homens de fé poderão discernir o tempo de
agora" e "ainda não": pelo menos é o que se pode inferir da repro- sua chegada. Crê (Mc 9.1) que depois de sua morte o Espírito Santo
vação dada por São Paulo ao orgulho auto-suficiente dos coríntios será derramado vindo então a basüéia tôu Theôu "com poder"; será
que não haviam entendido que o reino no qual os cristãos partici- uma realidade escatológica concedida aos santos. Tal é o conceito
pam é uma atividade genuinamente incorporada e não privilégio de fundamental da Igreja no NT. Ela é a comunidade messiânica,
seitas que se proclamam "mais santas do que os outros" dentro do o "pequeno rebanho", aqueles a quem a basüéia divina é doada;
0 "poder" no Espírito evidencia seu verdadeiro status de eleitos e verem então vivos na terra, posto que os mortos ainda não teriam
santos de Deus, embora oculto para a presente época. A verdadeira ressuscitado para o julgamento; devemos notar, porém, que Ap
condição dos eleitos não será publicamente manifesta até a parousía 20.4-6 (a única passagem do NT sobre o milênio com a possível
de Cristo no fim da presente era; mas os "filhos de Deus" serão exceção de I I Pe 3.8) não diz que o reinado dos mil anos será na
revelados (Rm 8.19; I Pe 4.13). Naquele dia Cristo será glorifi-
terra (mas cf. 5.10 e 20.9). Quando estes anos se completarem,
cado em seus santos ( I I Ts 1.10), pois retornará na companhia
deles (I Ts 3.13; cf Dt 33.2 s.; 2 (4) Ed 6.3; Dn 7.10; Mc 8.38; Satanás será libertado para a batalha final, na qual o demônio será
II Ts 1.7; Jd 14). Na parousía Cristo tomará visivelmente o seu lançado no lago de fogo e enxofre; iniciar-se-á então a ressurreição
reino sobre as nações (cf. Rm 15.12; Is 11.10) que serão julgadas dos mortos e seu subseqüente julgamento (20.7-15).
por êle (Mt 25.31 s.; cf. Jl 3.12), pois todo o julgamento pertence O quadro do reino dos santos apresentado no Apocalipse está
ao Filho do Homem (Jo 5.22,27; Dn 7.13 s., 22,26), i.e., o Senhor de acordo com as especulações judaicas mais comuns da época.
messiânico, cercado pela corte dos seus anjos e dos seus santos. Tomara, contudo, diferentes formas. Em Daniel a soberania dos
Na parousía, i.e., na vinda de Cristo para julgar e estabelecer a santos teria duração eterna (Dn 2.44; 4.3, 34; 6.26; 7.14,27; cf.
basiléia, os mortos ressuscitarão (Dn 12.2; Jo 5.25-29; I Co 15.23; Mq 4.7 e Jo 12.34). Nos escritos pseudo-epigráficos e entre os
1 Ts 4.13-17; Ap 20.12 s.), e começará o reino dos santos então rabinos foram sugeridos diversos períodos de tempo para a duração
manifesto. São Paulo não nos diz qual será a duração deste reino do governo dos santos, que ocasionavam entre 40 anos (R. Aqiba)
dos santos aqui na terra, depois do retorno de Cristo; menciona a até 7.000. Em 2 (4) Ed 7.28 s., a alegria messiânica na revelação
ressurreição dos "que são de Cristo" em sua parousía, e logo afir- de "meu filho (Jesus)" durará 400 anos, declarando-se depois que
ma: " E então virá o fim (êita tò télos), quando êle entregar o reino "meu filho Cristo" morrerá e com êle todos os vivos. De onde (4)

(basiléia) ao Deus e P a i " ( I Co 15.23 s.) ; Cristo estará sujeito teria São João buscado seus "mil anos"? É bem provável que esta
ao Pai, e Deus será tudo em todos (15.28). Parece que Paulo enten- figura tenha bases no SI 90.4: a parousía será no "dia de Jesus
dia que Cristo entregaria a basiléia ao Pai, quase imediatamente Cristo" (Fp 1.6; cf. I Co 1.8; Fp 2.16), ou no "dia do Senhor"
depois da parousía, mas não o diz explicitamente. (I Ts 5.2; II Ts 2.2), ou ainda mais simplesmente, "naquele dia"
ou "no dia" ( I Co 3.13; I I Ts 1.10; I I Tm 1.12; 4.8; Hb 19.25;
O autor do Apocalipse é mais definido. Conta-nos (Ap 20.4-6) II Pe 1.19). Será como um dos dias da criação (Gn 1.1-2.4), que
que haverá uma "primeira ressurreição" de mártires decapitados, os rabinos imaginavam representar mil anos cada um segundo o
ao recusarem adorar o imperador romano; viverão e reinarão com SI 90.4; o dia do Senhor será, de fato, aquele em que a nova criação
Cristo durante mil anos. Depois, então, virá a ressurreição dos vier a ser, quando o que está sentado no trono disser: "Eis que
outros mortos. Os mártires que ressuscitarão em primeiro lugar são faço novas todas as coisas" ( A p 21.5; cf. I I Co 5.17). > (5

os santos julgados segundo a visão de Daniel; sentam-se em tronos


O último livro da Bíblia, com razão, preocupa-se com o pro-
e executam o juízo. Cumpre-se neles a profecia inerente na vocação
blema da verdadeira basiléia. Os santos, eleitos de Deus para tomar
de Israel para ser nação de sacerdotes e reis: "Serão sacerdotes de
parte em seu reino, estavam sendo perseguidos até a morte, em
Deus e de Cristo, e reinarão com êle os mil anos" (20.6). Quem
Roma, a nova Babilônia (Ap 16.19; 17.5; 18.10,21; cf. I Pe 5.13),
participa (meros, cf. Jo 13.8; Ap 22.19; contrastar com 21.8) da
monstruosa caricatura do reino de Deus, com seu falso Deus et
primeira ressurreição não é apenas abençoado (cf. Ap 1.3; 14.13;
Dominus noster, Imperator, Divi Filius, adorado pela coorte dos
16.15; 19.9; 22.7) mas também háguios — verdadeiramente digno
poetas como Princeps principium, Rei dos reis e Senhor dos senho-
do título de "santo"; sobre estes "a segunda morte" não tem poder
res, guardião do imperium aeternumS ) Contra esta demonstração
6

(ecsousía) — essa "segunda morte" está, naturalmente, implícita


de enorme "poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória,
na idéia da ressurreição geral (como em Dn 12.2; cf. Jo 5.29, eis
e louvor" (Ap 5.12), o vidente contempla a figura do único digno
anástasin kríseos) : todos os que não têm seus nomes inscritos no
de sentar-se no trono e receber tributos do céu e da terra; e vê a
livro da vida são jogados no "lago de fogo", que é "a segunda
morte" (20.14 s.). ( A déuteros thánatos, portanto, não tem nada
a ver com he anástasis he prôte e não procede dela; é corolário da (4) Esta passagem (cí. Zc 12.10) não tem conexão com a doutrina do
Messias sofredor segundo Is 53. Ver S. Mowinckel, He that Cometh, 290 s.,
idéia da ressurreição geral e não de uma limitada ressurreição
410-15.
dos "santos"). Parece estar implícito nesta visão que depois da (5) P o d e m o s i n f e r i r d a E p . de Barnabé, 15, q u e este tipo de cálculo n ã o
parousía (embora esta palavra ocorra na literatura joanina apenas e r a e s t r a n h o à I g r e j a a n t i g a ; cf. t a m b é m 2 P e 3 . 8 , o n d e é b e m p o s s í v e l q u e
em I Jo 2.28) os santos mártires reinarão sobre todos os que esti- " o d i a do S e n h o r " d u r e m i l anos. à l u z d o v. 10.
(6) Cf. E, S t a u f f e r , C h r i s t n n d the Caesars ( E T , 1955), e s p . o c a p . X I .

93

RIO fnitirnnnia
aproximação do cumprimento da profecia de Daniel de que a basi- de sua aproximação fossem proclamadas através da terra, seria
léia tôu Theóu seria o reino de nosso Kyrios e não de Kyrios Káisar, ainda mistério incompreensível fora da experiência pessoal da fé
enquanto ouve as vozes dos governadores celestiais do antigo e do no propósito divino da salvação. Jesus assinala que, embora as
novo Israel cantando: "Graças te damos, Senhor Deus, Todo-pode- multidões se aglomerem ao seu redor, é bem pequeno o número dos
roso, . . . porque assumiste o teu grande poder e passaste a reinar" que crêem e entendem. Poucos, diz êle, passam pela porta estreita
(Ap 11.15-17). A grande estátua de bronze do Equus Maximus, e pelo apertado caminho que conduz à vida (dzoé), sinónimo de he
de Domiciano, foi consagrada, em Roma, em 91 A. D.; São João basiléia tôu Theôu (Mt 7.14; cf. Lc 13.23 s.). Na Parábola do
tem a visão de outro cavaleiro, sobre o cavalo branco, Lóaos Theôu, Semeador (Mc 4.3-9 e pars.) grande parte da boa semente da pala-
vencendo e para vencer (Ap 6.2; 19.11-16, 19-21). Durante muitos vra pregada cai onde os pássaros a devoram, onde a aridez a resseca
séculos foram inúmeros os mal-entendidos surgidos no cristianismo e os espinhos a sufocam; somente uma porção dá frutos.' ' Assim 7

também acontece com a pregação do reino de Deus; mas, assim


diante das imagens poéticas das visões de São João, tratadas como
como o fazendeiro, não obstante suas inevitáveis falhas, faz boa
se fossem predições literais que formavam um almanaque de eventos colheita, também a ceifa da pregação do Evangelho na consumação
futuros, ignorando-se o seu verdadeiro caráter. Não tem sentido dos tempos terá produzido seus trinta, sessenta e cem por cento.
perguntar se o reino milenar dos santos dar-se-á na terra ou em Não podemos desanimar porque somente a minoria responde. O Pai
algum outro mundo futuro; São João não se considerava portador se agrada de conceder a basiléia ao "pequeno rebanho" (Lc 12.32).
desse tipo de informações. Proclamava a vitória vindoura de Cristo Está implícito na história do Evangelho "o mistério da eleição";
e seus santos, em que pese à aparência da vitória universal do anti- alguns vêem, outros não; alguns recebem o dom da fé, outros não
reino de Satanás e da adoração generalizada de sua imagem (eikón), o têm. E, assim como acontece na pregação do Filho do Homem,
o imperador, "a imagem da Besta", i.e., do próprio Satanás (Ap será na sua parousía: "Então dois estarão no campo, um será
13.1-18, esp. v. 15; 14.9,11; 15.2; 16.2; 19.20; 20.4; cf. 13.1 tomado e deixado o outro; duas estarão trabalhando num moinho,
com Dn 7.3 e 2(4) Ed 11.1). Numa série de grandes imagens uma será tomada e deixada a outra" (Mt 24.40 s.; cf. 17.34 s.).
apocalípticas São João revela a verdade do cumprimento do pro- Não podemos explicar este mistério em linhas racionais; será sem-
pósito de Deus. Assim como Deus criara o homem, desde o princí- pre um mistério saber por que razão " u m " vê a verdade que está
pio, para ser senhor da criação e sumo-sacerdote da natureza (Gn em Cristo, enquanto "outro" — não menos inteligente, moral e
1.26; 2.19 e.; SI 8.4-8). como também pelo ato de recriação, no "decente" — não é movido pela pregação do Evangelho.
Êxodo, chamou e constituiu uma nação de reis e sacerdotes para
servir ao seu grande propósito (Ex 19.4-6), assim, através da obra Ao considerar o mistério da eleição, Jesus distingue entre os
de Cristo, o cordeiro morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8; que estão "dentro" e os que estão "fora", entre os que recebem o
cf. Jo 17.24), realiza sua vontade mesmo entre os terríveis aconte- conhecimento do mistério do reino de Deus, já agora, e aqueles a
cimentos que se deram nos reinados de Nero e Domiciano; a vitória quem todas as coisas são dadas em parábolas (Mc 4.11 s.; cf. Mt
final não é posta em dúvida. Desce do céu a nova Jerusalém, reino 13.11-15; Lc 8.-0). Desde os dias de Jülicher (8) é comum pensar
de sacerdotes cujas vestes alvas foram lavadas no sangue do Cor- que Marcos não entendeu a intenção de Jesus de ensinar por meio
deiro; o reino de Deus é estabelecido para sempre por meio de de parábolas. Usou-as, foi dito, não para dificultar a visão dos
Cristo e seus santos. A nova criação completa e realiza a antiga. homens ("para que vendo vejam e não percebam"), mas para fazê-
Mas a basiléia tôu Kyríou hemõn funda-se somente através de los ver; empregou histórias porque era o melhor meio de transmitir
sofrimento; o Cordeiro é morto, seguindo-o os mártires santos que ao povo simples a verdade religiosa. Naturalmente, Jesus usou pará-
são primícias para Deus (Ap 14.4). O vidente aprendera a lição bolas por esta razão, e Marcos não o nega. Este evangelista está
ensinada por Jesus por meio de sua palavra e de sua vida, de que a interessado em problema bem mais profundo — o mistério da elei-
verdadeira basiléia é serviço custoso e auto-sacrificial; os servos ção, o mistério dos olhos cegos e dos ouvidos surdos; é o caso do
endurecimento de Israel, que São Paulo discute em Romanos 9-11.
de Deus são sacerdotes, mas não precisam de templos (Ap 21.22;
Não temos base alguma para negar que Marcos nos dê, de fato,
cf. Jo 4.23) ; são reis, significando que são servos daquele a res-
peito de quem só é possível dizer: cui serviré regnare est.
(7) C o n t i n u a r e m o s a d i z e r q u e nesta p a r á b o l a " a s e m e n t e é a p a l a v r a d e
" O MISTÉRIO DO REINO DE DEUS" D e u s " ( L c 8 . 1 1 ) a p e s a r d e D o d d , Parables of the Kingdom, 13 ss. e J e r e m i a s ,
The Parables of Jesus, 61 ss.
Jesus considerava o iminente reino de Deus um mistério no (8) A . J ü l i c h e r , D i e G'.eichnisrend Jesu, F r e i b u r g . 1899. V e r A. Nygren,
sentido bíblico do termo. Queria dizer que, embora as boas novas A g a p e and Eros, E T p o r P. S. W a t s o n , 1953, 81-91.
um sumário do ensino de Jesus a este respeito. Jesus considerava no sentido profundo e duplo da palavra: os que receberam o mis-
a figura do Servo, apresentada por Isaías, uma profecia de seu tério são levados por ela a entender a verdade da salvação de Deus,
próprio ministério, sofrimento e vindicação, como veremos muitas mas para os que estão "fora" ela não passa de enigma e obscuridade.
vezes. (Devemos sempre lembrar que no pensamento de Jesus e de Tudo isto está presente no conceito que Jesus tinha de si mesmo
seus contemporâneos a figura histórica de Isaías e do Servo de nosso como "sinal" para a sua geração. É bem provável que Jesus tivesse
"Dêutero-Isaías" são a mesma pessoa prefigurando o Messias vin- empregado a palavra "parábola" (em sua forma aramaica) de ma-
douro). Como nos dias de Isaías é também agora. Isaías vira a neira deliberadamente equívoca, como Marcos o relata. É também
glória de Deus no templo de Jerusalém conhecendo que toda a terra bastante provável que tivesse meditado profundamente em Is 6.9
está cheia dela (Is 6.1-4), mas Israel permanecia cego diante dela. s., que Marcos no-lo apresenta, citando em seu Evangelho: " A vós
Em Is 6.9 s. o mistério dos olhos cegos aparece em forma poética, outros (discípulos) vos é dado o mistério do reino de Deus, mas aos
caracteristicamente hebraica — forma na qual o resultado é ex- de fora (tôis écso) tudo se ensina en parabolâis: para que (hína)
presso, como neste caso, através de uma ordem: "Vai, e dize a este vendo, vejam, e não percebam, e ouvindo, ouçam, e não entendam;
povo: Ouvi, ouvi, e não entendeis; vede, vede, mas não percebeis. para que não venham a converter-se e haja perdão para eles" (Mc
Torna insensível o coração deste povo, endurece-lhe os ouvidos, e 4.11 s.). Marcos cita aqui Is 6.9 s., de um Targum da Palestina;
fecha-lhes os olhos, para que não venha êle a ver com os olhos, a como já vimos, de acordo com o costume semítico, uma ordem ex-
ouvir com os ouvidos, e a entender com o coração, e se converta e pressa um resultado, e a construção final (hína) aparece onde deve-
seja salvo". O coração de Israel é duro, seus ouvidos são pesados e ria estar uma consecutiva: "resultando que". Marcos expressa o seu
tem os olhos fechados, com a conseqüência de que não se pode arre- pensamento em forma semítica e de modo algum pretende sugerir
pender e ser salvo; mas a maneira hebraica de dizer estas coisas é que Jesus ensinou em parábolas para que seus ouvintes não o pudes-
por meio da forma final ("para que"), demonstrando a profunda sem entender. Marcos claramente percebe que o verdadeiro caráter
consciência religiosa de que, em certo sentido, a dureza do coração de Jesus Messias é percebido apenas pelos olhos da fé, e que suas
de Israel e sua incapacidade de entender vêm da vontade soberana palavras e obras são enigmas aos que estão fora da comunidade
de Deus: a cegueira talvez seja punição por não entender a vontade •da fé. O evangelista não pensou, naturalmente, que ao empregar o
justa de Deus. > "Uma sentença de cegueira judicial" foi lavrada
<9
vocábulo hína, segundo o costume semítico, criava graves dificulda-
contra Israel. UO) des para a maneira de pensar de outros povos; mas, Mateus, que
apreciava tais sutilezas lingüísticas, altera hína para hóti, removendo
Bem podemos supor que Jesus encontrara na falha de Israel de assim essa acidental pedra de tropeço, embora perca no processo um
responder à pregação do Servo Profeta (Isaías de Jerusalém) prece- pouco daquele profundo sentido hebraico de que, em forma miste-
dente para a falha de responder agora à pregação do Servo Messias. riosa, a cegueira dos olhos e a dureza do coração dependem também
Como nos dias de Isaías, quando somente "retornara" um remanes- da vontade de Deus. Mateus cita Is 6.9 s., quase palavra por pala-
cente, em seus dias a maioria via mas não percebia, ouvia mas não vra, dos LXX, e transforma o problema todo num exato cumpri-
entendia. Todas as coisas eram feitas, de fato, na medida em que mento da profecia do A T : "Neles se cumpre a profecia de Isaías..."
lhes interessava, "em parábolas" (Mc 4.11). O profundo sentido (Mt 13.14).d»
desta palavra (parabolé), como seu original hebreu (mashal; ara-
maico mathala), não tem correspondente em nenhuma palavra nossa,
pois não significa apenas "parábola" — "história com sentido mais OS MILAGRES DO REINO DE DEUS
profundo" — mas também "enigma", "dito secreto", "obscuridade". A tradição da teologia cristã através dos séculos considerou os
Toda a vida de Cristo, com sua morte e ressurreição, é uma parábola •milagres de Cristo como provas de sua natureza divina. Procurá-los

(9) N o SI 51.4 p o d e m o s e n c o n t r a r u m a ilustração d o u s o d e construção (11) L u c a s r e t é m hí7ia m a s omite a cláusula mépote; abrevia e comprime
f i n a l q u a n d o n ã o se p r e t e n d e n a d a m a i s d o q u e u m r e s u l t a d o : o salmista n ã o a p a s s a g e m n u m único v e r s í c u l o s e n d o , e m conseqüência, seu t r a t a m e n t o d e l a d e
q u e r dizer q u e cometeu pecado p a r a dar a D e u s a oportunidade de pronunciar p o u c o interesse p a r a o p r e s e n t e propósito. M a t e u s e L u c a s a l t e r a m a e x p r e s s ã o
o j u l g a m e n t o justo, m a s q u e suas t r a n s g r e s s õ e s r e s u l t a r a m no e x e r c í c i o da justiça -de M a r c o s ?ni/stérion tês basiléias, q u e está no s i n g u l a r , p a r a o p l u r a l íá mys-
d e D e u s . Cf. V . T a y l o r , T h e G o s p e í According St. M a r k , 1952, 256: " A frase téria tês basiléias. ( M t 13.11 e L c 8.10 é n o t á v e l e x e m p l o d a c o n c o r d â n c i a d e s -
( M c 4.12) se b a s e i a e m I s 6.9 s., q u e n a f o r m a d e u m a o r d e m d e s c r e v e i r o n i c a - tes dois e v a n g e l i s t a s c o n t r a M a r c o s ) . É p r o v á v e l q u e q u a n d o M a t e u s e L u c a s p r o -
m e n t e o q u e seria, de fato, o r e s u l t a d o d o m i n i s t é r i o d e Isaías: " V a i , e dize a d u z i r a m seus escritos " o s m i s t é r i o s " s i g n i f i c a v a m " o s s a c r a m e n t o s " , i d é i a c o m u m
este p o v o . . . " O emprego d e u m a ordem para expressar u m resultado é tipica- n o s e g u n d o s é c u l o , e d e s e j a s s e m c o m u n i c a r esse sentido aqui. A V u l g a t a traduz
raente s e m i t a " . mystérion p o r sacramentum e m D n 2 . 1 8 ; 4 . 6 ; T o b i a s 12.7; S a b e d o r i a 2.22; E f 1.9;
(10) A citação é d e B . W . B a c o n , H a s t i n g s , D C G , I I , 213 b . 3.3,9; 5.32; I T m 3.16; A p 1.20; m a s a q u i a p a l a v r a e m p r e g a d a é mysterium.
com esse propósito nas narrativas do NT seria, contudo, anacro- o "tipo" de São Pedro nos versículos seguintes; ou o cego de nas-
nismo. Milagres eram eventos comuns numa época em que se des- cença em Jo 9 ) ; também os exorcismos são passíveis de elaboração
conhecia a fixidez da lei natural, tendo cada cidade seus próprios teológica (e.g., legião, Mc 5.1-20). Os dois primeiros tipos são,
fazedores de maravilhas. Não provava divindade alguma o fato de naturalmente, o mais antigo material da tradição dos Evangelhos
alguém expelir demônios ou realizar milagres: tais pessoas pode- sobre os atos miraculosos de Jesus; e junto com esse antigo mate-
riam ter um pacto com Belzebu ou com qualquer outro espírito (Mc rial foram também preservadas as palavras do Senhor.
3.22). Esperava-se que qualquer homem bom, especialmente se
fosse mestre da Lei, tivesse o poder de curar e de expelir maus Primeiramente, à pergunta de João Batista: "És tu aquele quo
espíritos (cf. Mt 12.27). Os sinóticos mostram que os atos pode- estava para vir?" Jesus responde com a intenção de que os mensa-
rosos de Jesus deslumbravam o povo, espalhando sua fama por toda geiros de João pudessem ver por si mesmos que se cumpriam as
a nação (Mc 3.7-12, etc.) ; mas, como o próprio São Marcos admite, palavras proféticas a respeito do tempo do Messias: "Os cegos vêem
tais milagres eram interpretados de muitas maneiras (Mc 6.14-16). (iyphlói anablépousi), os coxos andam, os leprosos são purificados,
O problema levantado no primeiro século não se confinava em pro- os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo
var que Jesus de fato realizava milagres, mas em saber de onde pregado o Evangelho" (Mt 11.4 s. = Lc 7.22). Estas palavras
procedia a autoridade para os fazer (Mc 11.28). Perceber a eesou- combinam duas passagens de Isaías: "Então se abrirão os olhos
dos cegos, e se desobstruirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão
sía atrás dos milagres de Cristo era penetrar no mistério de sua
como cervos, e a língua dos mudos cantará" (Is 35.5 s.) ; e: "O
pessoa; não percebê-la era o mesmo que ouvir parábolas somente Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu,
como enigmas, sem lhes compreender o sentido. Jesus queria que as para pregar boas novas aos pobres (LXX, ptochôis) ; enviou-me a
pessoas respondessem aos seus atos portentosos não com deslum- curar os quebrantados de coração, e proclamar libertação (LXX,
bramento, mas com arrependimento e f é : " A i de ti, Corazim! ai áphesin) aos cativos, e a pôr em liberdade os algemados (LXX,
de ti, Betsaida! porque se em Tiro e em Sidom se tivessem operado typhlôis anáblepshi); a apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia
os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam da vingança do nosso D e u s . . . " (Is 61.1 s.). As palavras de nosso
arrependido com pano de saco e cinza" (Mt 11.21; Lc 10.13). Senhor não nos deixam dúvida de que considerasse seus milagres
Jesus recusou-se a realizar milagres com o objetivo de fascinar o como evidências ou semeia da aproximação do dia do Senhor predito
povo, compelindo-o, assim, a aceitar, contra a vontade, sua palavra por Isaías. Sua relação com o dia ou reino de Deus, que se aproxima,
(Mt 4.1-11; Lc 4.1-13). Também não quis dar um sinal (i.e., torna-se clara quando lê na sinagoga de Nazaré Is 61.1 s. (Lc
fazer um milagre) aos fariseus quando procuraram pô-lo à prova 4.16-30), declarando a seguir: "Hoje se cumpriu a Escritura que
(tentá-lo) (Mc 8.11 s.; Mt 16.1-4; Lc 11.16); os homens devem acabais de ouvir" (4.21). Jesus fora ungido pelo Espírito Santo
discernir pela fé os sinais que se lhes dão; não devem solicitar sinais pnêuma Kyríou ep'emé, hôii héineken échrisén me — ("fêz-mo.
de sua própria imaginação, "para que vejamos e creiamos" (Mc Cristo") para proclamar as boas novas do reino de Deus aos "po-
15.32). Cristo era o verdadeiro Sinal descido do Céu, e seus mila- bres" (i.e., na linguagem bíblica os humildes e devotos) e demons-
gres eram sinais (semeia) para os que o reconheciam; para os outros trar a chegada do reino de Deus em suas dynámeis — especialmente
que estavam "fora" da comunidade da fé êle não passava de pedra a parábola representada ou seméion da abertura dos olhos do cego.
dt tropeço e seus milagres eram apenas térata, "maravilhas" que Notemos que São Lucas (4.18) cita os LXX quando escreve typhlôis
suscitavam deslumbramento e até mesmo admiração, mas essencial- anáblepsin ("restauração da vista aos cegos"). As profecias de
mente não passavam de enigmas inexplicáveis: tois éeso en parabo- Isaías dão ênfase nesta abertura dos olhos cegos, e há uma passagem
lâis tà pánta.
especial muito importante que atribui esta função diretamente ao
Servo do Senhor, com quem Jesus se identificava na sua qualidade
Não devemos surpreender-nos, portanto, diante do paradoxo de Filho do Homem :<12) lemos em Is 42.1-7 (o primeiro "Cântico
de Jesus recusar-se a dar sinais aos que lhos pediam, enquanto rea- do Servo", 42.1-4, com os versos posteriores) que o Servo do Senhor,
lizava milagres como sinais que eram compreensíveis aos que res- seu escolhido em quem se compraz, será dado como mediador da
pondiam à proclamação da vinda do reino de Deus. Podemos dividir Aliança com o povo, e luz para os gentios, para abrir os olhos aos
os milagres do Evangelho, aproximadamente, em três grupos: os cegos, para tirar da prisão o cativo, e do cárcere os que jazem em
sinais de Isaías, os exorcismos e as parábolas-milagres, mais elabo- trevas. As palavras que Jesus ouviu em seu batismo (Mc 1.11) 3 > (1

radamente teológicas. Estes inter-relacionam-se bastante, pois um


milagre do primeiro tipo pode estar elaborado como parábola-mila-
gre, profundamente teológica (cg., o cego de Betsaida, Mc 8.22-26, (12 V e r infra, 135
(13) V e r infra, 179
baseiam-se em Is 42.1 e SI 2.7 (não havendo quase divergência êle vem ao seu encalço e desmantela-lhe os bens; os exorcismos
entre os estudiosos a esse respeito), podemos bem imaginar quão mostram que o reino de Deus começa a vencer o domínio de Satanás
profundamente significativo era isso para Jesus, ao meditar em (Mc 3.27; Mt 12.29; Lc 11.21 s.). Jesus concebe sua missão como
sua missão. Não é de surpreender que a restauração da vista aos o início da investida contra os poderes do mal, a terminar com a
cegos tenha lugar tão proeminente entre os relatos evangélicos dos completa derrota de Satanás. Assim, o êxito da missão dos setenta
milagres de Cristo. Outras dynámeis, contudo, têm papel semelhan- que haviam subjugado os demônios em nome de Cristo, é o momento
te. Por exemplo, em Is 32.3 s. lemos: "Os olhos dos que vêem não em que se vê "Satanás caindo do céu como um relâmpago" (Lc 10.17
se ofuscarão, e os ouvidos dos que ouvem estarão atentos. O cora- s.). Diferindo do primeiro tipo de milagres, os exorcismos não são
ção dos temerários saberá compreender, e a língua dos gagos (LXX, importantes como cumprimento de profecias do AT a respeito dos
hai glôssai hai psellíd.zousai) falará pronta e distintamente". São últimos dias. Somente depois do encerramento do período do AT é
Marcos, não desejando perder o significado de sua história do sur- que se desenvolveu o conceito apocalíptico de um mundo sujeito ao
do-mudo ("Efatá"), descreve o surdo como moguilálos (alguém que poder de Satanás e suas hostes demoníacas. Era o conceito que
tinha "o empecilho da língua") (Mc 7.32-37) ; o significado do prevalecia nos dias de nosso Senhor. Satanás e seus agentes tinham
uso desta palavra está em sua raridade: Is 35.6 e Mc 7.32 são o poder de escravizar os seres humanos, atribuindo-se-lhes não ape-
as únicas vezes em que ela ocorre nos L X X e no NT. A exclama- nas os casos comuns de pessoas que eram possuídas pelo demônio,
ção dos circunstantes, kalôs pánta pepóieke (7.37), é reminiscên- mas também todas as outras formas de enfermidades. Por exem-
cia de Gn 1.31, pánta hósa epóiesc, kalá lían: a obra de Cristo plo, a mulher enferma que foi curada na sinagoga, no sábado, (Lc
é a nova criação, e é muito boa. Todos os milagres de cura reali- 13.10-17), descrita como tendo uma jméuma asthenéias.W é re-
zados por Cristo podem ser considerados como cumprimento dos ferida por Jesus como "filha de Abraão a quem Satanás trazia pre-
sinais de Isaías, mas especialmente as curas dos cegos e dos surdos; sa". A libertação do jugo de Satanás era sinal da aproximação do
o próprio Jesus diz aos discípulos: "Bem-aventurados, porém, os
reino de Deus.
vossos olhos, porque vêem; e os vossos ouvidos, porque ouvem. Pois
em verdade vos digo que muitos profetas e justos (Lc, "reis") de- O grupo dos milagres de ressurreição da morte difere bastan-
sejaram ver o que vedes, e não viram; e ouvir o que ouvis, e não te dos outros dois. As profecias do AT não mencionam a ressurrei-
ouviram" (Mt 13.16 s.; Lc 10.23 s.). A importância dos milagres ção dentre os mortos na era messiânica, a não ser em seus documen-
de Cristo não está em provar que êle é um ser divino ou que tenha tos mais recentes, e.g., Is 25.8; Dn 12.2; e, assim como os exor-
acesso a poderes sobrenaturais; menos ainda em demonstrar o po- cismos, as ressurreições não estão dentro do escopo do cumprimen-
der da mente sobre a matéria ou ilustrar as maravilhosas possibi- to de profecias do A T . Antecipam a ressurreição de Cristo e dos
lidades da força curadora da fé. São significantes porque são a fiéis. Como nos mostra São João, no caso de Lázaro, são demons-
gesta Christi, tá erga tôu Christôu (Mt 11.2), atos do Messias, obras trações da verdade de que Cristo é, êle mesmo, "a ressurreição e
que nenhum outro fêz (Jo 15.24). Testemunham o fato de Cristo a vida" (Jo 11.25). Jesus afirma ter ressuscitado mortos, pois, na
ter sido enviado pelo Pai porque cumprem a profecia do A T e não resposta a João Batista inclui as palavras: "Os mortos são ressus-
porque sejam estupendos e deslumbrantes (Jo 5.36; cf. 9.4, 10.37 citados" (Mt 11.5; Lc 7.22), embora Isaías não contenha tais pre-
s.). Porque são obras de Cristo, todos os que as testemunharam dições. Ao enviar os Doze instrui-os a que ressuscitem os mortos
já provaram as dynámeis da era vindoura (Hb 6.5). (Mt 10.8) : temos aqui, claramente, um dos sinais da aproximação
do reino de Deus. A iminência do reino manifesta-se no advento
da dynamis divina que, após certos sinais antecipadores, mostra-se
Temos nos sinóticos palavras de Jesus que indicam sua atitu- decisivamente na ressurreição de Jesus; manifestar-se-á novamen-
de para com o segundo grupo de suas dynámeis, isto é, os exorcis- te na vinda da basiléia en dynámei (Mc 9.1) e finalmente será
mos. São também considerados evidências da aproximação do reino revelada no apocalipse ou p<irousia do Filho do Homem, em grande
de Deus. Diz aos fariseus: "Se, porém, eu expulso os demônios, poder e glória.
pelo Espírito (Lc "dedo") de Deus, certamente é chegado o reino
de Deus sobre vós (éphthasen eph'hymâs he basiléia tôu Theôu)" As três narrativas evangélicas da ressurreição de indivíduos por
(Mt 12.28; Lc 11.20). Estava respondendo à acusação de que ex- Jesus têm profundo significado teológico. A ressurreição da filha
pelia os demônios por força de Belzebu; é noção absurda porque de Jairo (Mc 5.22-43) é a mais "fática" de todas, mas mesmo aqui
pressuporia guerra civil nos domínios de Satanás. A verdade é que
o anti-reino de Satanás está sendo invadido: o "homem valente" (14) I . e . , e s p i r i t o q u e causa I r a q u e z a <J. M . C r e e d , The Gospel According to
não consegue^iH^lf.^g^utia^r seu palácio; outro mais forte do que St. Luke, 1930, ad b e ) .
parece que existem motivos teológicos em ação, especialmente quan- e ondas (e.g., SI 6 5 . 7 ; " 6 ) 89.9; 93; 107.23-30). O significado sim-
do se leva em conta o plano estrutura] do Evangelho de São Marcos. bólico dos milagres de Cristo no mar funda-se nas imagens da anti-
A ressurreição do filho da viúva de Naim (Lc 7.11-17), peculiar ga mitologia onde o Deus Altíssimo domina sobre "os abismos"
a São Lucas, reflete o interesse do evangelista no tema de Elias: (Tiumat; Tehom, Gn 1.2; Rahab, Is 51.9 s.; SI 89.9 s.; Leviatã,
Cristo, o novo Elias, representa na localidade de Suném os grandes SI 104.26; Jó 41.1) ; a antiga religião foi, naturalmente, "demiti-
feitos de Elias e Eliseu, onde cada um restaurou um filho morto zada", mas o poder sugestivo do mito ainda permanece; e apre-
à mãe viúva ( I Rs 17.17-24; I I Rs 4.21-37).< > 0 quarto evange- 15
sentar Cristo como senhor dos ventos e das ondas é o modo impres-
lista não teve, provavelmente, intenção de que a história da res- sionante de ressaltar sua unidade com o "Eu Sou" da revelação do
surreição de Lázaro (Jo 11) fosse tomada literalmente: quer trans- A T (cf. Mc 6.50 e Jo 6.20 com Ex 3.14: "Eu Sou me enviou a vós-
mitir, a seu modo, a verdade de que a morte de Jesus resultou de outros").
se ter considerado "a ressurreição e a vida" e de demonstrar o que Os dois milagres referentes à alimentação (Mc 6.32-44 e 8.1-10
dizia por meio de obras maravilhosas, incluindo ressurreições: con- e pars.), indubitavelmente, abrigam inúmeros temas teológicos, al-
quanto não seja literalmente verdadeira contém, contudo, a verdade guns dos quais se vão desenvolver mais explicitamente em Jo 6:
da história. "Que estamos fazendo, uma vez que este homem opera Cristo, o novo Moisés, dando o Pão do Céu (cf. o maná, Êx 16; SI
muitos semeia? Se o deixarmos assim todos crerão n e l e . . . " (Jo 78.23-29, esp. v. 29, LXX 77.29), o novo Elias-Eliseu (cf. I I Rs
11.47 s.). Os chefes realistas do Sinédrio sabiam muito bem que sim- 4.24-44, esp. v. 44, notar os pães de cevada de Jo 6.9), o Verda-
ples pregação não causaria danos ou efeitos, tendo dificilmente se deiro Pão, o Doador do Pão da Vida aos judeus (os 5.000 e os doze
preocupado com Jesus se confinasse suas atividades às palavras. A kóphivoi) e o Doador do Pão da Vida também aos gentios (os 4.000
verdade da história diz que Jesus foi levado à morte porque seus e os sete sphyrides: Mc 8.19 s.), o anfitrião no banquete messiâni-
milagres demonstravam ser êle o Messias; as autoridades judaicas co do Reino dos Céus, o anfitrião em sua antecipação escatológica
puderam discernir muito bem o que estava implícito nas obras de na eucaristia da Igreja (cf. esp. Mc 6. 41 e 8 . 6 ) . Motivos teo- ( 1 7 )

Jesus, e não desejavam um Messias desse tipo. Talvez São João lógicos dessa natureza dominaram as narrativas de nossos evan-
tenha construído sua parábola do Lázaro baseado na história de gelistas, sendo muito difícil destacar nelas os fatos estritamente
Lucas, a do "Rico e de Lázaro" (Lc 16.19-31); esta parábola trata históricos "que realmente aconteceram". Nossa compreensão "dos
da recusa específica de mostrar o sinal da ressurreição ao "rico" acontecimentos" dependerá grandemente do que pensamos a respeito
descrente e satisfeito consigo mesmo. Materialistas dessa espécie de Cristo — quem era e que realizou. Falando em linhas gerais, po-
não se convertem por meio de "sinais": eles têm as Escrituras, mas demos distinguir três pontos de vista sobre os milagres referentes
não se "arrependem": "Tampouco se deixarão persuadir, ainda que à alimentação. Na antiga concepção racionalista o "milagre" con-
ressuscite alguém dentre os mortos". São João dramatiza a verdade sistia em ter Jesus persuadido a multidão a dividir suas provisões,
da parábola de Jesus: os milagres do Senhor não convertem os prin- uns com os outros, seguindo o exemplo altruísta dos discípulos que
cipais dos judeus nem mesmo a ressurreição do próprio Cristo. distribuíam seus pães e peixes. Poder-se-ia dizer, com Schweitzer,
que de fato tudo não passou de uma refeição sacramental em que
OS MILAGRES DA NATUREZA Cristo distribuiu a todos um fragmento de pão em sinal de que, par-
ticipando de sua mesa na obscuridade, dela haveriam também de
Os assim chamados "milagres da natureza" nos Evangelhos participar na sua glória."8) Por fim teríamos que Jesus, sendo o
têm caráter altamente teológico. Devemos notar que muitas vezes Cristo, o Filho de Deus, realizou de fato o semeia do Pão da Vida,
o que nos parece um "milagre da natureza" poderia ser simples exor- como testemunham os documentos apostólicos; podemos dizer que
cismo, segundo as crenças do primeiro século: Jesus expele o demó- as histórias dos milagres da alimentação, cuja natureza maravilho-
nio da tempestade em Mc 4.35-41 da mesma forma como ordena a sa talvez tenha sido percebida somente pelos discípulos, revelam
saída de espíritos imundos de endemoninhados (cf. epetímese e pe- Jesus em sua glória na qualidade de Filho do Homem, escatológico,
phímoso em 4.39 com Mc 1.25). Os dois milagres do mar, a ex-
pulsão do demônio da tempestade (Mc 4.35-41) e a caminhada so-
(16) Cf. H o s k y n s e D a v e y , The Riddle of the New Testament, 1931,169 e 172.
bre o mar (Mc 6.45-52), ilustram a unidade de Cristo com aquele (17) C o n t r a a i n t e r p r e t a ç ã o eucarística d o s m i l a g r e s d e a l i m e n t a ç ã o v e r G .
Senhor cujo poder é dramaticamente descrito no AT, quando fala H . B o o b y e r , J T S , N S , V o l . I l l , P a r t e 2 ( o u t u b r o d e 1952); e m f a v o r dessa i n t e r -
no controle que êle exerce sobre os abismos, as tempestades, ventos p r e t a ç ã o v e r A l a n R i c h a r d s o n , " T h e F e e d i n g of t h e F i v e T h o u s a n d " e m I n t e r p r e -
t a t i o n ( R i c h m o n d , V a . ) , a b r i l d e 1952, 144-9; t a m b é m Miracle Stories, 94-8.
(18) A. Schweitzer, The Quest of the Historical Jesus (ET, 1911), 374.

IO?" '
5 C £ A I a
" R Í O h a r d S O n
- A I i r a c ! e
Stories of the Gospels, 1941, 113.
trazendo, pelo milagre da nova criação, a aurora do dia do Se-
nhor.< ' Muitas vezes Jesus empregou a imagem do banquete mes-
19

siânico em seu ensino (Lc 14.15-24; Mt 8.11). Os rabis acredi-


tavam que o maná celestial seria restaurado aos fiéis nos dias do
Messias, é a idéia que está no fundamento da referência ao "maná
escondido" em Ap 2.17.< > Concluímos, então, que a Igreja pri-
20

mitiva encontrou nas histórias da alimentação no deserto profundo


significado escatológico; eram sinais dados aos que tinham olhos
para ver, que demonstravam a verdade de Jesus. São Marcos assim
os entendeu (Mc 6.52; 8.14-21). Muita coisa precisa ser ainda
explicada no simbolismo dessas histórias. Em especial gostaríamos V
de saber mais a respeito do simbolismo do peixe na Igreja primiti-
va: pão e peixe são freqüentes nos afrescos das catacumbas como
símbolos eucarísticos (e cf. Lc 24.41-43; Jo 21.9-13). As letras
que formam a palavra grega ichthys (peixe) representavam desde O ESPÍRITO SANTO
muito cedo Iesôus Christós, Theôu huiós, sotér, tornando-se a ima-
gem do peixe sinal secreto da família cristã, dos locais de reunião A palavra "espírito" (ruach, priêuma, também "vento", "so-
e de sepultamento. Alguns argumentam que se essas histórias de- pro") emprega-se diferentemente na Bíblia — o Espírito de Deus,
vessem ter, de fato, significado eucarístico, os elementos apropria- o espírito do homem, e todo o domínio dos "espíritos" bons e maus.
dos não seriam pão e peixe, mas pão e vinho; a resposta é que Jesus, Nossa principal preocupação será com o Espírito como um dos meios-
usando nos desertos pão e peixe, fêz deste último um símbolo tão mais caracteristicamente bíblicos de expressar a atividade proce-
permanente na tradição da Igreja primitiva que as épocas poste- dente de Deus. O conceito "Espírito de Deus" no AT é um dos
riores não puderam obscurecer. A presença do peixe torna-se ainda modos pelos quais a ação de Deus se menciona sem as declarações
garantia da historicidade das narrativas de alimentação; mostra antropomórficas de que Deus fêz isto e aquilo. Assim, "Espírito de
que procedem da Galileia, de dentro da tradição de discípulos pesca- Deus", com Palavra e Sabedoria de Deus, são descrições perifrásti-
dores que (numa despretensiosa metáfora) se tornaram pescadores cas de sua iniciativa e ação na criação, ordenação providencial, re-
de homens (Mc 1.16-20; cf. Lc 5.10). A continuação persistente denção e libertação escatológica do mundo como um todo e de Is-
do simbolismo do peixe e da pescaria na parádosis sela a historici- rael em particular. É também o modo reverente de aludir à sua pi e-
-

dade do Evangelho galileu. Talvez, como sugere o Dr. Austin Far- sença (SI 51.11; 139.7; notar em cada caso o paralelismo; nos L X X
rer,< ) a Igreja primitiva, que viu na multiplicação dos pães analo-
21

"presença" é prósopoa) ou de sua dynamis em ação (cf. Lc 1.35;


gia com o maná caído do céu, tenha também visto no peixe analogia
e cf Mt 12.28 com Lc 11.20 e este com Êx 8.19) . Como tal o Es-
;

com as codornizes que subiram do mar. "De onde teria eu carne


para dar a todo este povo?" — pergunta Moisés — " . . .se ajunta- pírito de Deus não pode ser rigidamente distinguido de seu Verbo
rão para eles todos os peixes do mar, que lhes bastem?" (Nm 11.13, criador; cf. Gn 1.2; Judite 16.14 e especialmente SI 33.6: "Os
22). Pelo menos é claro que nessas histórias, mesmo na versão de céus por sua palavra se fizeram, e pelo sopro (ruach; L X X pnêuma)
São Marcos, não temos simples narrativas históricas "do que acon- de sua boca o exército deles". Da mesma forma as funções do
teceu", mas elaboradas interpretações teológicas que transforma- Espírito e da Sabedoria são inter-relacionadas (Sabedoria 7.22);
ram os fatos históricos em profundas parábolas do significado da o Espírito é par excellence "o Espírito de profecia", mas pode tam-
pessoa de Cristo e da eucaristia em sua Igreja. < > 22 bém ser dito que os homens são feitos profetas pela Sabedoria de
Deus (Sabedoria 7.27; cf. 9.17). Espírito, Verbo e Sabedoria são
três modos reverentes de mencionar a atividade do Deus transcen-
dente.
(19) C f . E. L o h m e y e r , Das Evangelium des Markus, Gõttingen, 1937, 128-30.
(20) V e r R. H . C h a r l e s , R e v e l a t i o n , ( I C C ) , 1920, ad loc. Nossas dificuldades modernas a respeito da relação do Espí-
(21) A Study in St. Mark, 1951, 291. rito com Deus surgem por causa do conceito de personalidade que
(22) P a r a a consideração mais pormenorizada dos milagres dos Evangelhos temos e que é desconhecido dos escritores bíblicos. Pensamos em
t a l v e z seja p e r m i s s í v e l r e f e r i r a o b r a d o p r e s e n t e a u t o r , Miracle Stories of the
Gospels, 1941, 5." edição e m 1956. C o n s i d e r a ç ã o m a i s a m p l a da r e s s u r r e i ç ã o d e
personalidades distintas e separadas, duras e impermeáveis, cada
L á z a r o ( J o 11.1-44) a c h a - s e e m seu c o m e n t á r i o s o b r e o E v a n g e l h o de S ã o J o ã o uma diferente da outra: daí nosso "problema" da doutrina da Trin-
( T o r c h S e r i e s ) , a d l o c , p u b l i c a d o e m 1959. dade. Na Bíblia as pessoas não são assim tão separadas e distintas;
fluem umas nas outras. Cada homem vive em seus filhos, que po- s.; .143.10; 9.20; Is 30.1). O AT não emprega a expressão "O Es-
dem ser chamados coletivamente pelo seu nome (e.g., Israel). Um pírito Santo", mas fala duas vezes do Espírito Santo de Deus (SI
homem pode receber um pouco do espírito de outro homem e assim 51.11; Is 63.10); o Espírito de Deus não existe sem Deus assim
tornar-se, de certa forma, o outro. Pode reaparecer na história como o espírito de Elias não existiria fora de Elias. O Espírito de
como outra pessoa que, embora não lhe sendo idêntico, é, de cer- Deus é Deus em ação.
to modo, identificado com ela. Bom exemplo temos em Elias que,
segundo a tradição bíblica, torna-se quase a mesma pessoa d'e Eli- O CARÁTER ESCATOLÓGICO DO ESPÍRITO
seu; e a Bíblia expressa o fato dizendo que porção dobrada do es-
pírito de Elias está sobre Eliseu (II Rs 2.9; cf. Dt 21.17) ou que Se o Espírito é, como a Sabedoria e o Verbo, um modo de indi-
"o espírito de Elias repousa sobre Eliseu" ( I I Rs 2.15; cf. Ecle- car a atividade divina, por que — perguntaríamos com muita ra-
siástico 48.12). Elias age por meio de Eliseu. > Da mesma forma. (1
zão — no NT, Cristo não se identifica com êle da mesma forma
Deus opera por meio daqueles que recebem seu Espírito. O pnêuma que o faz com a Sabedoria e o Verbo de Deus? As respostas po-
de um homem é sua dynamis, sua pessoa em ato; o mesmo é verdade dem ser várias. Em primeiro lugar diríamos que a afirmação ini-
a respeito do pnêuma de Deus. É sua dynamis, i.e., Deus em cial é apenas parcialmente verdadeira, pois o Cristo Ressurreto,
ação. Assim, quando se diz que o pnêuma de Deus veio sobre certo como veremos, não se distingue assim tão absolutamente do Espíri-
homem este se comporta de maneira consistente com o ponto de to de Deus. Em segundo lugar, a identificação é bastante suavizada
vista particular que o narrador tem a respeito de Deus. Quando o para não descambar num conceito falso da pessoa de Cristo, no mun-
Espírito de Javé desce sobre Saul, êle profetiza como se fosse um do helenista; era preciso evitar por todos os meios a idéia de que
profeta extático e — muito sugestivamente — é "mudado em outro Jesus não passava de um simples "homem espiritual", exercendo
homem" (I Sm 10.6, 10; cf. 19.23 s.) ; mas a profecia no sentido "dons espirituais". Se a cristologia da Igreja tivesse sido reduzida
bíblico mais desenvolvido é também resultado da operação do Es-
a "pneumatologia" o Evangelho estaria entre os confusos sistemas
pírito de Deus (e.g., Eclesiástico 48.24). Miquéias é contrastado
com os falsos profetas porque está genuinamente "cheio do poder do criados por outros mestres "cheios do espírito" e fazedores de mi-
Espírito do Senhor" (Mq 3.8). A profecia é a esfera característica lagres que pululavam no mundo helénico; encontramo-los em Atos —
da operação do espírito ( I I Sm 23.2; Ne 9.30; 2(4)Ed 14.22; Sa- Simão, o mágico (8.9-24), Elimas (13.6-12), os sete filhos de
bedoria 9.17; Mart. Is 1.7) ; a posição bíblica é expressa assim por Ceva (19.14). Há, porém, outra razão mais profunda, que é o ca-
um escritor do N T : "Nunca jamais qualquer profecia foi dada por ráter escatológico do Espírito Santo no NT. Jesus encarnado não
vontade humana, entretanto homens falaram da parte de Deus mo- poderia identificar-se com o Espírito antes de sua morte e ressur-
vidos pelo Espírito Santo" ( I I Pe 1.21; cf. I Pe 1.12; I I Tm 3.16, reição porque esses eventos é que trariam a descida do Espírito
pâsa graphè Theópneustos: cf. também Lc 1.70; At 1.16, e t c ) . Santo nos últimos dias. São João com grande penetração resume a
Relata-se que também Jesus atribuiu as palavras proféticas de Davi posição do Novo Testamento sobre o tema. As profecias das Escri-
(i.e., SI 110.1) à atividade do Espírito Santo (Mc 12.36). Deus turas sobre os "rios de água viva" (Is 12.3; Ez 47.1) seriam cum-
dá sua palavra aos profetas por intermédio do seu Espírito. Mas pridas em breve, quando o Espírito Santo fosse derramado: quando
a operação do Espírito entre os homens não se confina à esfera da Jesus mencionou a metáfora da água viva referia-se de fato ao Es-
profecia: o AT atribui ao Espírito habilidades como a de José para pírito Santo "que haviam de receber os que nele cressem; pois o
governar (Gn 41.38); o gênio militar de Josué (Nm 27.18); a Espírito até esse momento não fora dado, porque Jesus não havia
arte de Bezalel e Aoliabe (Êx 31.2-6) ; a excelência moral (SI 51.10 sido ainda glorificado", i.e., segundo a linguagem joanina, cruci-
ficado, ressurreto e elevado (Jo 7.38 s.). Para se entender melhor
o.fundamento dessa doutrina no NT é preciso considerar seus an-
tecedentes no judaísmo posterior.
(1) N o N T E l i a s v i v e n o v a m e n t e e m J o ã o Batista, d o m e s m o m o d o c o m o n o
conceito d o A T r e v i v e r a e m E l i s e u ; c u m p r e - s e então a profecia de M a l a q u i a s
Ao final do período do AT e depois deu-se mais importância
s o b r e o P r e c u r s o r ( M l 3 . 1 - 3 ; 4 . 4 - 6 ; cf. M t 11.7-14, e t c ) . Herodes e Herodias à Torá do que à profecia. "Ao findar o terceiro século a.C. a lei
t o m a m os p a p é i s de A c a b e c J e z e b e l na r e r p r e s e n t a ç ã o d o d r a m a ( M c 6 . 1 4 - 2 9 ) . fora concebida como a revelação final de Deus. Quando a idéia
Cf. L c ! . 17: " ( J o ã o ) irá a d i a n t e deles n o p n ê u m a e d y n a m i s d e Elias, p a r a c o n - da lei inspirada — adequada, infalível e válida para todos os tem-
v e r t e r os corações dos pais aos f i l h o s . . . " , etc. ( c i t a n d o M l 4 . 6 ) ; m a s n a s n a r r a -
pos — tornara-se dogma aceito pelo judaísmo, como aconteceu no
tivas d e L u c a s s o b r e o m i n i s t é r i o d e C r i s t o d e s a p a r e c e m todas as r e f e r ê n c i a s a
João c o m o E l i a s , p o r q u e o e v a n g e l i s t a q u e r a p r e s e n t a r C r i s t o c o m o a q u e l e q u e
período pós-exílico, não havia mais lugar para representantes in-
f o r a p r e f i g u r a d o p o r Elias. T a l v e z m o t i v o s e m e l h a n t e esteja p o r trás d a n e g a ç ã o dependentes de Deus que aparecessem diante dos homens, tais como
d e q u e o Batista seja o E l i a s redivivus, e m J o 1.21. os profetas antes do exílio. Deus, segundo os mestres oficiais da Igre-
ja, proferira sua palavra final por meio da lei".<2) Daí estar a pro-
fecia inativa (1 Macabeus 4.46; 14.41); era desnecessária. "A. O ESPÍRITO SANTO NOS EVANGELHOS
Lei não somente assumira as funções desempenhadas pelos antigos
profetas antes do exílio, mas, também, na medida de seu poder, A Igreja apostólica acreditava estar vivendo os últimos dias,
impossibilitou o reavivamento dessa profecia."(3) Confessar-se pro- a época em que se cumpriam as profecias sobre a vinda do Espírito
feta era ofensa terrível; segundo Zc 13.1-5, se alguém se chamasse de Deus sobre toda a carne ( A t 2.16-18; 10.45; Rm 5.5; Gl*4.6;
profeta, seu pai e sua mãe o matariam! Quando algum escritor ti- Tt 3.6, etc.). A dádiva do Espírito Santo, segundo a profecia, veio
vesse alguma coisa para dizer, deveria fazê-lo usando um pseudô- através da morte, ressurreição e ascensão de Jesus Cristo (Jo 16.7;
nimo; é por essa razão que, depois do ano 200 a.C, todas as obras 20.22; At 2.33; Ef 4.8).' Antes da morte de Cristo o Espírito
apocalípticas, sucessoras das profecias, são pseudônimas: assim, Santo era incógnito, desconhecido aos discípulos, embora presente
nomes dignos como o de Daniel ou, melhor ainda, de patriarcas como e atuante no Cristo, de acordo com a profecia (Is 11.2; 61.1 e t c ) .
Enoque ou os Doze, teriam possibilidade de ser ouvidos, quando a Esteve particularmente operante nas circunstâncias do nascimento
profecia estava destituída e o cânone virtualmente encerrado. Al- virginal de Cristo (Mt 1.18,20; Lc 1.15, 35, 41, 67; 2.25, 27),
guns escritores apocalípticos conseguiram ser incluídos no corpo da e desceu sobre o Senhor no seu batismo <> (Mc 1.10; Mt 3.16; Lc
6

literatura profética primitiva (e.g., Is 24.27; Zc 9.14); segundo 3.22; cf. Jo 1.32 s.). Desde então Jesus viveu sob a inspiração e
Charles, Joel é o último escritor apocalíptico do AT que não usou no poder do Espírito (e.g., Mc 1.12; Mt 4 . 1 ; Lc 4.1,14,18*; Mt
pseudônimo. É claro que, nesse período, o Espírito, que era antes 12.1.8.28), sem que se manifestasse mesmo aos discípulos escolhidos.
Coma escreveu São João: "O Espírito até esse momento não fora
de tudo o espírito da profecia, não seria considerado realidade pre-
dado ' (7.39). Não devemos surpreender-nos, então, ao encontrar
-

sente; e somos deveras amplamente ensinados que a revelação dada tão poucas referências nos Evangelhos ao Espírito Santo, a não ser
na Torá comunicava-se não pelo Espírito mas mediante anjos (Ju- em conexão com o nascimento e o batismo de Jesus. Em Mt 12.28
bileus 1.27; Test. Dn 6; Dt 33.2; At 7.38,53; Gl 3.19; Hb 2 . 2 ) . Jesus diz que expulsa "os demônios pelo Espírito de Deus", signifi-
Mas a doutrina do Espírito não foi completamente suprimida ou es- cando que o faz "pelo poder divino"; São Lucas, levado pelo inte-
quecida: o Espírito projetava-se no futuro. Os profetas canónicos resse de sua tipologia, altera a expressão para "pelo dedo de Deus",
haviam ensinado que o Espírito de Deus agiria na nova criação dos querendo dizer a mesma coisa (Lc 11.20; cf. Êx 8.19; 31.18; Dt
últimos dias, habitando em cada membro da renovada Israel e sen- 9.10; SI 8.3). Segundo o relato de São João, Jesus deu aos discí-
do o meio através do qual todos teriam acesso direto a Deus (Ez pulos instruções formais sobre a futura vinda do Espírito Santo
11.19; 36.26 s.; 37.14; Is 32.15; Zc 12.10; Jr 31.34 e especial- (Jo 14.16-18,26; 15.26; 16.7-14), não havendo nada improvável a
mente Jl 2.28 s.). Assim se desenvolve o conceito totalmente esca- este respeito pois considerava sua morte como a inauguração da era
tológico do Espírito Santo que se encontra no NT.< > 4
da nova aliança com o novo Israel dos últimos dias. Os próprios
sinóticos indicam que Jesus falou, de fato, sobre a vinda do Espírito.
São Marcos nos conta, como já vimos, que Jesus predisse a iminente
vinda do reino de Deus com poder (Mc 9.1) ; e São Marcos deveria
(2) R . H . C h a r l e s , Apochrypha and Pseudcpigrapha, II, p. viu. saber que a basiléia en dynámei significava a Igreja de Cristo ple-
(3) C h a r l e s , ibid. na de Espírito.")
(4) O c a r á t e r escatológico do E s p i r i t o n ã o t e m l u g a r p r o e m i n e n t e n a l i t e r a -
t u r a Q u m r a n , n ã o e s t a n d o o " e s p i r i t o da v e r d a d e " l i g a d o i n t e g r a l m e n t e c o m o ( s )
M e s s i a s o u c o m a e r a m e s s i â n i c a . A t r a v é s d a história os dois espíritos ( d a v e r -
d a d e e d o e r r o ) estão e n t r e g u e s a u m a luta incessante d e n t r o d o h o m e m , s e n d o
Jesus também menciona a blasfêmia contra o Espírito Santo.
q u e o espírito d a v e r d a d e v e n c e r á s o m e n t e n a e r a f i n a l , q u a n d o D e u s fizer n o v a s Na versão de Marcos, da controvérsia sobre Belzebu, Jesus termina
todas a s coisas ( 1 Q S i v . 2 1 : G a s t e r , S D S S , 55 s . ) . S e g u n d o W . D . D a v i e s ( e m sua parábola do Homem Valente afirmando que todos os pecados e
S t e n d a h l , S N T , 171-82) h á s o m e n t e u m a p a s s a g e m n o s rolos o n d e se a t r i b u i s e m blasfêmias humanas poderão ser perdoados, "mas aquele que blas-
q u a l q u e r a m b i g ü i d a d e c a r á t e r escatológico no e s p í r i t o d a v e r d a d e ( a s a b e r , 1 Q S
iv. 20 s., o n d e s e d i z q u e o e s p í r i t o da v e r d a d e s e r á " a s p e r g i d o " s o b r e os h o m e n s
femar contra o Espírito Santo não tem perdão para sempre, visto
n o f i m dos t e m p o s ) . É s u r p r e e n d e n t e , e m vista d e a c o m u n i d a d e de Q u m r a n que é réu de pecado eterno (ouk échei áphesin eis tòn aiôna, all'éno-
t e r t i d o u m a v í v i d a e x p e r i ê n c i a d o f i m . M a s o conceito d o E s p í r i t o nos rolos foi, chós estin aioníou hamartématos). Isto porque diziam: Está pos-
na precisa frase d e W . D . D a v i e s , " d o m e s t i c a d o d e n t r o de u m a c o m u n i d a d e l e g a - sesso de um espírito imundo" (Mc 3.29 s.; cf. Mt 12.31). O con-
l i s t a " , n ã o h a v e n d o contacto com o d i n â m i c o E s p í r i t o S a n t o d a I g r e j a apostólica.
O s essênios, t o d a v i a , e s p e r a m a i n d a pela v i n d a d a e r a f i n a l , e n q u a n t o q u e a
I g r e j a cristã, q u e j á r e c e b e u o Espírito, constitui-se e m sinal de q u e o t e m p o
(5) V e r infra, 174.
final j á começou.
(6) V e r infra, 178-81.
<7) Supra, 66s.
texto mostra muito bem que Jesus entendia ser a rejeição do novo I Ts 4.8; Ef 4.30; cf. Is 63.10). Ananias e Safira mentiram ao
Eon (o reino de Deus) e o abandono dos sinais de sua chegada Espírito Santo e tentaram "o Espírito do Senhor" (At 5.1-11), so-
como os exorcismos que demonstravam a derrubada do anti-reino frendo a penalidade máxima. Tem-se observado muitas vezes que
de Satanás — como se fossem obras de Belzebu, a própria rejeição nos Evangelhos São Pedro é quem mais blasfema contra o Filho do
da salvação trazida por Deus, incorrendo-se, assim, na culpa do pe- Homem (a negação, Mc 14.66-72 e pars.) ; é perdoado (cf. Mc 16.7)
cado imperdoável contra a nova era: tò aiónion hamártema signi- e desde então serve e obedece ao Espírito Santo.
fica "pecado contra o Eon da salvação", excluindo inevitavelmente
os que nele incorrem do perdão oferecido aos que se arrependem e Por fim, deveríamos lembrar que o Evangelho de São Marcos
crêem. A principal decorrência da palavra aiónios não é "eterno" relata Jesus dizendo aos discípulos que seriam fortalecidos pelo Es-
ou "para sempre", mas "pertencente à era vindoura"; da mesma pírito Santo, em sua obra de pregar o Evangelho a todas as nações:
forma é dúbia a tradução de ouk échei áphesin eis tòn aiôna por "Quando, pois, vos levarem e vos entregarem, não vos preocupeis
'"não tem perdão para sempre", sendo melhor dizer "não tem perdão com o que haveis de dizer, mas o que vos fôr concedido naquela hora,
na era vindoura", i.e., não entrará na basüéia tôu Theôu. Em isso falai; porque não sois vós os que falais, mas o Espírito Santo"
Mt 12.32 e Lc 12.10 a versão é levemente diferente: Jesus declara (Mc 13.11). A versão de São Lucas deste versículo é muito inte-
que a blasfêmia contra o Filho do Homem será perdoada, "Mas se ressante: "Assentai, pois, em vossos corações de não vos preo-
alguém falar contra o Espirito Santo, não lhe será isso perdoado, cupardes com o que haveis de responder; porque eu vos darei boca
nem neste mundo nem no porvir" (versão de São Mateus). Talvez e sabedoria a que não poderão resistir nem contradizer todos quan-
queira dizer que é perdoável não reconhecer na humilhação do Servo tos se vos opuserem" (Lc 21.14 s.). São Lucas, que em Atos tão
Messias a pessoa real do Filho de Deus (cf. Is 53.4 s.; Lc 23.34) dramaticamente descreve o cumprimento dessa profecia pela vin-
e que, portanto, a blasfêmia contra o Filho do Homem poderá ser da do Espírito, não distingue entre a atividade do Espírito e a
perdoada; mas rejeitar a demonstração do reino de Deus no poder operação do Cristo Ressurreto ("Eu vos darei boca" — cf. Êx
do Espírito, como se experimenta na vida da Igreja, é colocar-se 4.12 — "e sabedoria" — cf. At 6.10: " E não podiam sobrepor-se
fora da esfera do perdão. A blasfêmia contra o Espírito Santo sig- à sabedoria e ao Espírito com que êle (Estêvão) falava"). É o
nificaria, assim, apostasia, o pecado dos que "uma vez foram ilu- ensino que também São João atribui a Jesus: o Espírito, o Para-
minados e provaram o dom celestial e se tornaram participantes do cleto, que Jesus enviará da parte do Pai, dará testemunho por meio
Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do do testemunho dos discípulos (Jo 15.26 s.), sendo a ação do Espí-
mundo vindouro, e caíram" (Hb 6.4-6). Não é possível perdoá-los rito a mesma do Cristo Ressurreto, que vem aos seus discípulos na
(ibid. e cf. também Hb 10.26-31; 12.14-17). Apostatar da fé é vinda do Paracleto (cf. Jo 14.18, "voltarei para vós outros"). Como
"ultrajar o Espírito da graça" (Hb 10.29). Falar contra o Filho já sugerimos, não há razão de dúvidas sobre a esperança que Jesus
do Homem não é pecado imperdoável para os que ainda não foram tinha do cumprimento imediato da profecia do derramamento do
"iluminados" ( i . e . , creram e foram batizados) ; a possibilidade de Espírito nos últimos dias; nada é mais provável do que isso. Os
arrependimento e fé estará sempre aberta a estes. Mas quando Evangelhos dão-nos evidências suficientes para afirmar que, de
os cristãos batizados abandonam a Igreja cometem o pecado supre- fato, Jesus ensinou aos apóstolos a expectativa do dom do Espírito.
mo e imperdoável, a blasfêmia contra o Espírito Santo. Não im-
portando as palavras empregadas por nosso Senhor — a dificulda-
de principal é saber que sentido poderia ser atribuído à expressão O ESPÍRITO SANTO NA IGREJA APOSTÓLICA
"blasfêmia contra o Espírito Santo" antes da descida do Espírito
— parece que a Igreja apostólica entendeu-a com o sentido de que a A religião cristã deve sua existência à intensa convicção da
apostasia era pecado mortal. Em I Jo 5.16 s. há distinção entre Igreja Apostólica de que ocorrera a descida do Espírito Santo; a
o pecado "mortal" e "venial"; pecados "não para a morte" poderão experiência que a comunidade cristã tivera do Espírito provava a
ser perdoados por Deus; mas há também hamartía prós thánaton, chegada da era messiânica e o cumprimento das profecias das Es-
e não tem sentido orar pelos que cometeram esse tipo de pecado. O crituras em Jesus Cristo. Participar na Igreja era participar no
tom geral das epístolas joaninas sugerem que "pecado para morte" Espírito Santo, koinonía tôu Hagíou Pnéumatos ( I I Co 13.14; Fp
seja apostasia (cf. I Jo 2.19; cf. Jo 13.20; 17.2). Provavelmente 2 . 1 ) ; o Espírito de unidade (cf. Ez 11.19) agiu tão poderosamente
erraríamos se considerássemos todo o pecado contra o Espirito San- que "da multidão dos que creram eram um o coração e a alma"
to como apostasia. "Resistir a" ou "entristecer" o Espírito Santo são (At 4.32) ; sob o poder unificador do Espírito os primeiros cristãos
pecados reconhecidos vivamente pelos escritores do N T ( A t 7.51; "tinham tudo em comum" (At 2.44-47). Os fiéis constituem um
só corpo porque há só um Espírito (Ef 4.3 s.) ; os cristãos indivi-
duais bebem do mesmo Espírito ( I Co 12.13; Ef 2.18). O batis-
mo era o momento da iniciação pessoal de cada cristão na esfera da assim orienta. É, de fato, o Espírito de liberdade, tirando os h«-
operação do Espirito Santo, que o selava "para o dia da redenção" mens dos grilhões da lei (Gl 5.13-18; Rm 8.2; I I Co 3.6, 17; cf. Jo
i(Ef 4.30). Recebia nessa ocasião a dádiva do Espírito que ao lhe 8.31-36). É nesse poder que os cristãos escolhem alegremente fa-
•designar sua tarefa ou ministério especial dentro do ministério zer a vontade de Deus. O Espírito os auxilia em todos os momen-
total da Igreja também lhe conferia o dom ou graça (Chárisma) tos, até mesmo em sua profunda vida de oração, no próprio centro
para realizá-lo ( I Co 12.12-31). Havia diversidade de dons, cada de suas personalidades; e ora com eles até mesmo nas orações inar-
membro do corpo de Cristo executando sua própria função ( I Co ticuladas, intercedendo pelos santos (Rm 8.26 s.). É o Espírito de
12.4-11; cf. Hb 2.4). Mas todos os cristãos possuíam o Espírito vida (Jo 6.63; I Co 15.45), que insufla vida na nova criação, a
•que não era considerado privilégio especial de determinada "ordem" Igreja, como originalmente o fizera na primeira criação (Gn 1.2;
ou "ordens" dentro da Igreja. Era sinal de imaturidade espiritual 2.7, etc.) ; e alternadamente é a própria vida (o ruach, o pnêuma)
•de muitas pessoas nas igrejas gentílicas a tendência de admirar os exalada na nova criação (Jo 20.22; Ap 11.11). Por isso depois do
tipos mais espetaculares de Charísmata — as manifestações extra- batismo do Espírito Santo os cristãos andam em novidade de vida,
ordinárias, extáticas e excitantes da ação do Espírito, tais como a a vida da nova criação, da era vindoura (Rm 6.4; 7.6, e t c ) . É
;glossolalia ou o "falar em línguas". Paulo esforçou-se por mode- o Espírito de adoção, posto que é recebido no batismo onde os cris-
rar o zelo dos coríntios neste emocionalismo "avivalista"; quando tãos são adotados na família de Deus e feitos herdeiros com Cristo;
êle fala nesse assunto em I Co 14 ficamos alarmados a respeito do o Espírito dá testemunho interior, assegurando aos batizados que
•culto cristão primitivo. O apóstolo não quer negar que a glossolalia de fato são filhos de Deus, dando-lhes a capacidade de clamar "Aba",
seja genuinamente um sinal da atividade do Espírito, mas esta não Pai (Rm 8.12-17; Gl 4.6). Esse testemunho interior é concedido a
deveria distrair a atenção das coisas mais importantes: "Dou graças todos os cristãos, enquanto que o dom da profecia é um Chárisma
a Deus, porque falo em outras línguas mais do que todos vós. Con- especial entregue somente ao ministério particular dos "profetas"
tudo, prefiro falar na igreja (en ekklesía) cinco palavras com o
dentro da Igreja (Rm 12.6; I Co 12.10, 29; Ef 4.11) ; toda a pro-
meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras
fecia, tanto na antiga como na nova dispensação, deve-se à operação
em outra língua" ( I Co 14.18 s.). Esse capitulo torna claro que
"falar em línguas", desde o tempo de Paulo, é fenômeno que fre- do Espírito de profecia ( I I Pe 1.21; cf. I Pe 1.10 s.; Ap 1.10;
qüentemente reaparece na Igreja, especialmente em reuniões aviva- 19.10; e, e.g., At 21.11). Em I Co 12.8-10 São Paulo menciona
listas. Sob o impulso da excitação religiosa dissipam-se as faculda- nove dons ou atividades do Espírito entre os membros da Igreja;
des críticas da inteligência, proferindo os devotos sílabas sem sen- vão desde "sabedoria" até a interpretação de línguas. Sob a influên-
tido, que, não obstante incompreensíveis, possuem estranho poder cia de Is 11.2, na versão dos LXX desenvolveu-se na Igreja o con-
de comunicação da emoção religiosa aos outros. São Paulo tenta ceito sétuplo do Espírito e de suas atividades, e tornou-se tradição,
orientar a atenção dos coríntios para o que chama de "melhores especialmente no Spiritus septiformis da teologia devoeional latina. <8)

dons" e "caminho sobremodo excelente" ( I Co 12.31). Esses dons No Apocalipse joanino encontra-se esta representação sétupla do
são a fé, a esperança e o amor, especialmente o amor (13.13). Mes- Espírito: os "sete espíritos" em Ap 1.4 denotam, obviamente, o
mo se falássemos línguas angelicais e não tivéssemos amor seríamos Espírito Santo, ocorrendo num contexto trinitário (cf. também
simplesmente como o bronze que soa (13.1). O verdadeiro fruto do A p 3 . 1 ; 4 . 5 ; 5 . 6 ) . Mas é mais provável que tenha sido influenciado
Espírito é "amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bonda- por Zc 3.9 e 4.10 (junto ao fato de que o vidente está pensando
de, fidelidade, mansidão, domínio próprio" (Gl 5.22). Não são nas sete igrejas) do que em Is 11.2, desde que o texto dos LXX
possibilidades naturais que alcançamos quando nos esforçamos de- não é em geral de grande importância no Apocalipse. Esses sete
vidamente; são dons escolhidos do Espírito; não são virtudes natu- espíritos devem ser entendidos aqui como expressão imaginosa do
rais, são sobrenaturais. A vida cristã é constante apreensão do po- caráter sétuplo da operação de um só Espírito Santo. São João não
der sobrenatural do Espírito; pode ser descrita como caminhar, ser os caracteriza individualmente; tal literalismo não faz parte de
levado ou viver pelo Espírito (Gl 5.16,18,25; Rm 8.4,14; e t c ) . seus propósitos poéticos. Em Ap 5.6 eles são os olhos do Cordeiro
Éle é o Espírito de poder ( I I Tm 1.7; cf. At 1.8; 10.38; Rm
15.13; I Co 2.4; Ef 3.16), que dá aos cristãos a capacidade de (8) O s L X X a c r e s c e n t a m o espírito de d e v o ç ã o ( e u s é b e i a ) aos seis a t r i -
realizar atos além de suas próprias forças. É um poder compulsi- b u t o s d a v e r s ã o h e b r a i c a d e I s 11.2: " O Espírito de sabedoria e de entendi-
vo, não coercivo; guia, leva, dirige (e.g., At 8.29; 10.19;11.12; m e n t o , o Espírito de conselho e de fortaleza, o E s p í r i t o de conhecimento e d e
temor do S e n h o r " .
13.2;20.23,28;21.11, etc.) sem anular a personalidade dos que
enviados por toda a terra. Declara, então, o caráter universal ("a
todas as nações") da missão do Espírito, que é o Espírito de Cristo, o Espírito de Cristo descubra o véu que está nos corações dos
em forma poética (cf. Lc 24.47; Jo 14.26; 15.26; 16.7; Gl 4 . 6 ) . homens. A letra da Torá — as Escrituras escritas — mata; mas o
espírito vivifica as palavras ( I I Co 3.6). O mesmo conceito do
O TESTEMUNHO DO ESPÍRITO Espírito infundindo vida às palavras — à "letra morta" — das
O testemunho do Espírito Santo não se dá ao mundo direta- Escrituras aparece em II Tm 3.16. A história, contada por São
mente, mas por meio dos membros da Igreja, que o receberam. Lucas, do caminho de Emaús, tem o mesmo sentido em forma de
Aparentemente, havia na Igreja apostólica uma ordem de evange- parábola, pois o Cristo Ressurreto e o Espírito Santo não se dife-
listas especialmente dotados pelo Espírito para a pregação do Evan- renciam no NT, no que concerne às suas operações/ ) O (Espírito 9

gelho de Cristo (Ef 4.11; I I Tm 4.5; At 21.8), conquanto as do) Cristo Ressurreto interpreta nas Escrituras todas as coisas a
evidências mostrassem que todos os cristãos, não importando seu seu respeito (Lc 24.27). É a experiência da Igreja primitiva e dos
"ministério" individual, devessem testemunhar, sempre que possível. cristãos em todas as épocas: "Porventura não nos ardia o cora-
Os discípulos testemunham juntamente com o Espírito Santo (Jo ção... quando nos expunha as Escrituras?" (24.32). O Cristo
15.26 s.). É a presença do Espírito neles que os leva a testificar Ressurreto era na Igreja apostólica o verdadeiro intérprete das Es-
tão livremente e com tanta ousadia a verdade de Cristo — as pala- crituras: fora de sua presença e inspiração não passavam de enigmas
vras parresía e parresiádzomai ocorrem freqüentemente no N T misteriosos, como são consideradas ainda hoje pelos judeus des-
nesse contexto (e.g., At 4.29,31; Ef 6.19; cf. Mc 13.11). crentes ( I I Co 3.13 s.). São Lucas quer ressaltar a presença atuante
de Cristo na exposição das Escrituras na Igreja: "Então lhes abriu
Acima de tudo, êle é no NT o Espírito de testemunho; sua o entendimento para compreenderem as Escrituras" (Lc 24.45).
principal função é testemunhar o Cristo (Jo 15.26; 16.13-15) ou, São Lucas e São Paulo estavam pensando, naturalmente, nas Escri-
alternadamente, a verdade (alétheia), pois Cristo é a verdade (Jo turas do AT ( I I Co 3.14, epi tê anagnôsei tês palaiás diathékes),
14.6). Dessa forma pode também ser chamado de Espírito da ver- que constituíam a Bíblia da Igreja apostólica; mas o que estava
dade (Jo 16.13), sendo sua função levar os discípulos do Cristo implícito no testimonium Sancti Spiritus internum (ou, como pode-
Ressurreto a toda a verdade (ibid.); pode-se mesmo dizer que o ríamos dizer, testimonium internum Christi resurreeti) foi achado
Espírito é a verdade ( I Jo 5.7) como também se diz de Cristo. É verdadeiro nelos cristãos de todos os tempos em relação às Escri-
o Espírito de Cristo, devendo ser, portanto, da verdade, porque turas do NT.«o)
Cristo é a verdade, i.e., a realidade última manifesta em ação:
verdade é algo a ser feito, e não somente "pensado" ou "crido" (cf. O Esnírito de testemunho traz aos nossos corações o significado
Jo 7.17). Quando São João fala no Espírito que guia os discípulos do fato de Cristo (Jo 14.26) ; mas permanece ainda sendo o Espí-
a toda a verdade (16.13) não emprega essa palavra no sentido mo- rito de profecia, a guiar a Igreja a toda a verdade (Jo 16.13),
derno que nós conhecemos — e.g., todas as verdades da ciência mostrando as coisas que haverão de acontecer (Ap 1.19; 4.2; cf.
moderna, da medicina, da tecnologia, etc. Refere-se à experiência 1.1; 22.6), i.e.. "revelações" da parousía como se mostram no
que os discípulos, de fato, tiveram. Percebemos nos Evangelhos que Apocalipse. O Livro do Apocalipse deve ser tomado como o único
até a crucifixão do Senhor os discípulos não tinham alcançado com- comentário adequado às palavras: "Quando vier, porém, o Espírito
preensão segura e adequada dos profundos ensinos do Mestre, mas da verdade, êle vos guiará a toda a verdade... e vos anunciará as
depois da ressurreição entenderam tudo o que Jesus tentara trans- coisas que hão de v i r " (Jo 16.13). O caráter escatológico do Espí-
mitir-lhes em seu ministério terreno, sob a orientação do Espírito: rito Santo, no pensamento joanino, vê-se também na insistência de
"êle vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que que a obra reveladora do Espírito é uma revelação "oculta" da
vos tenho dito" (14.26). Foi o que aconteceu aos apóstolos: somente verdade, em sentido bíblico. O Espírito, desde agora, julga o mundo,
depois da ressurreição entenderam a verdade que Jesus lhes ensi-
convencendo-o do pecado da descrença, dando testemunho da justiça
nara e vivera diante deles. Em todas as épocas o Espírito Santo
toma o que é de Cristo e o manifesta à compreensão dos corações de Deus que se manifestou na exaltação de Cristo junto ao Pai (cf.
crentes; não dá testemunho de si mesmo, mas de Cristo. É o intér- Rm 1.17), e da realidade do julgamento, ao testemunhar que o
prete das Escrituras; sem o seu testemunho interior na leitura e príncipe deste mundo já foi julgado (Jo 16.8-11). Mas o mundo
na pregação das Escrituras a mensagem permaneceria aprisionada não o pode receber, nem saber coisa alguma a seu respeito; o teste-
nas palavras escritas ou faladas. Ou, na metáfora de São Paulo em
I I Co 3.14-18, o sentido das Escrituras permanece "velado" até que (9) V e r ainda, infra, 122s.
(10) V e r s o b r e o assunto A l a n R i c h a r d s o n , Apologética Crislã, 287-298 (ver-
são b r a s i l e i r a ) .
miinho do Espírito veio somente aos discípulos de Cristo (Jo 14.17) ;
Resta-nos mencionar ainda uma outra indicação do caráter
há um ocultamento do Espírito, como também d'e Cristo, pois o
Senhor se manifesta aos discípulos e não ao mundo (Jo 14.22). escatológico do Espírito no NT, i.e., o conceito de "penhor" (arra-
bón) da salvação final que será, um dia, posse dos cristãos. Um
Além disso devemos considerar no título peculiarmente joa- arrubón é algo dado em conta, "depósito" ou primeira prestação,
nino atribuído ao Espírito, i.e., o "Paracleto", profunda marca garantia de que o pagamento total será feito. O Espírito Santo,
escatológica. Na linguagem secular ho parákletos significa "advo- no qual os cristãos foram "selados" por ocasião do batismo, é
gado", quem defende num tribunal, ou, mais geralmente, "ajudador". "penhor" ou garantia de sua herança (arrabón tês kleronomías
Mas as palavras paráklesis e parakalêin nos LXX e no NT possuem hemõn) na esfera da redenção final (Ef 1.14). Deus "pagou"
significação caracteristicamente bíblica. Fiéis judeus esperavam nos (redimiu) sua própria posse, deixando um "depósito" como prova.
dias do nascimento de Jesus a paráklesis de Israel (Lc 2.25), i.e., O Espírito é a certeza outorgada aos que são ungidos e selados (i.e.,
o cumprimento dos ditos proféticos de Isaías sobre o "conforto" e batizados) ; deu-lhes Deus "o penhor do Espírito em nossos corações"
a "consolação" do remanescente que confiara na promessa divina da ( I I Co 1.22; 5.5). Na vida presente, i.e., na era do Espírito, não
redenção (cf. Is 40.1; 51.12; 66.13). O livro de Isaías termina gozamos ainda a plenitude de nossa herança de filhos de Deus e
com o quadro escatológico da consolação de Israel fiel, "como alguém
co-herdeiros de Cristo; possuímos, no entanto, a garantia do Espí-
a quem sua mãe consola" (66.13), quando Javé vem em fogo e
turbilhão para redimir e julgar (66.15, cf. a descida do Espírito rito, que testemunha em nossos corações a verdade de nossa filiação
em Pentecostes com línguas de fogo e o sopro de forte vento, At. e herança (Rm 8.16 s.). Ou, como São João o expressa, sabemos
2.2 s.), para ajuntar todas as nações que verão sua áócsa (66.18), que Deus "permanece" em nós pelo espírito que nos deu ( I Jo 3.24),
tomando delas alguns para sacerdotes e levitas (66.21; cf. Ap 1.6; e nós, da mesma forma, também permanecemos nele (I Jo 4.13).
5.10; 20.6), ao fazer a nova criação, "os novos céus e a nova terra" O Espírito Santo é o dom da presença e do poder de Deus dentro
(66.22; cf. Is 65 17; Ap 21.1; I I Pe 3.13). A vinda do Espírito, de nós nesta vida, e a garantia da plenitude da vida divina que será
"o Consolador", representa o cumprimento dessas profecias, conhe- nossa na era vindoura.
cidas somente dos discípulos que haviam recebido o Espírito, e não
do "mundo". A consolação de Israel cumpre-se na Igreja, sendo A DÁDIVA DO ESPÍRITO: PENTECOSTES
então apropriado chamar o Espírito de " o Consolador". Todos os
afligidos com as angústias do destino de Israel nas vicissitudes de Os escritores do NT concordam que o Espírito Santo só foi
sua história mundana eram consolados pelo conhecimento do esplen- concedido depois da ressurreição e exaltação de Cristo, eventos com
dor escatológico, revelado pelo Espírito Santo, que desde agora já os quais estava intimamente relacionado. Mas não há unanimidade
aparecia: havia consolação em Cristo (Fp 2.1), pois Deus ungira-o sobre a maneira e o tempo em que veio. Somente dois autores des-
com o Espírito "para consolar todos os que choram, e a pôr sobre crevem a dádiva original do Espírito, São Lucas e São João; suas
os que em Sião estão de luto. .. óleo de alegria em vez de pranto" narrativas diferem nos pormenores todos, com exceção do que ocor-
(Is 61.1-3). O próprio Jesus anunciou o cumprimento dessas pro- reu em Jerusalém. Segundo São João, a ascensão do Senhor ter-se-ia
fecias: "Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados" dado entre seu aparecimento a Maria Madalena, cedo, de manhã
(Mt 5.4; cf. Lc 4.17-21; Jo 16.20-22; II Co 1.7; Ap 7.17; 21.4). (20.17), e aos discípulos, no mesmo dia, ao cair da tarde, quando
as portas estavam trancadas (20.19) ; nessa ocasião o Senhor Res-
Notemos que paráklesis com o sentido de exortação ou encora- surreto teria distribuído o Espírito Santo aos discípulos por "insu-
jamento ao exercício da paciência até a parousía é um dom especí- flação" (enephysese kài leguei autóis, Lábete Pnêuma Háguion)
fico do Espírito (Rm 12.8; cf. I Co 14.3) ; tal consolação ou espe- (20.22). Assim, segundo São João, a ressurreição, ascensão e dádiva
rança paciente procede especialmente do estudo das Escrituras (Rm do Espírito teriam ocorrido no mesmo dia; é o que teríamos, por
15.4 s.). São Lucas entende que o sentido do nome Barnabé seria certo, inferido do quarto Evangelho se não estivéssemos familiari-
"filho da paráklesis" ( A t 4.36) ; embora tenha alcançado essa tradu- zados com a versão de São Lucas. São Paulo parece concordar com
ção, é provável que para São Lucas o apóstolo Barnabé recebera o o ponto de vista joanino: não faz distinção muito clara entre a
Chárisma especial da exortação. Confortar os que choram à luz da ressurreição e a ascensão de Cristo, considerando o aparecimento do
esperança escatológica cristã é um dos ministérios para o qual a Senhor no Caminho de Damasco da mesma natureza do seu apare-
Igreja recebeu "dons especiais do Espírito Santo".* ' 11 cimento a Pedro, aos outros apóstolos e aos irmãos ( I Co 15.5-7),
como se todos tivessem (como no seu caso particular) acontecido
(11) LOC, Coleta da Festa de São Barnabé. depois da ascensão.
São Lucas, no entanto, dá-nos uma narrativa completamente
de relatórios de testemunhas oculares de fatos triviais. Podemos
diferente e muito mais pormenorizada dos eventos da ascensão e da
apenas estudar seus efeitos na história, mas não os próprios eventos.
vinda do Espírito; os outros escritores do N T não corroboram seu
A profunda intuição da mente religiosa, encontrada na Bíblia e
ponto de vista. AÍém disso, parece que São Lucas encaixa sua his-
fora dela, afirma que os olhos humanos não podem perceber os
tória num esquema teológico bastante elaborado. Acentua um
meios pelos quais a divindade realiza seus atos miraculosos. Não
período de "espera" entre a ressurreição e a dádiva do Espírito
quer dizer que haja incerteza na fé cristã a respeito da historicidade
(Lc 24.49,53). Em A t 1.3 diz que Jesus apareceu aos apóstolos
da ressurreição, da exaltação de Cristo ou da vinda do Espírito
"durante quarenta dias", havendo depois disso ainda alguma espera
Santo; mas também quer dizer que não devemos esperar que a Bí-
(1.4) ; assim, a ascensão ter-se-ia dado no fim desses quarenta dias
blia nos dê narrativas desses eventos para serem lidas como se
(1.9-11), quando os apóstolos voltam para Jerusalém (1.12; cf.
fossem descrições inteiramente literais "do que aconteceu". Deus
Lc 24.52). Então, no dia de Pentecostes, sete semanas depois da
nos oculta o modo como opera suas maravilhas, mesmo nas narrati-
ressurreição de Cristo, o Espírito desceu sobre os apóstolos; a casa
vas que nos transmitem seu significado e verdade. Ao insistir numa
onde estavam reunidos encheu-se de "um vento impetuoso" < e 12>

interpretação literalista das apresentações brilhantes da verdade da


"línguas como de fogo" pousaram sobre cada um deles ( A t 2.1-3).
história feitas por Lucas ou João, deixamos de entender a natureza
"Todos ficaram cheios do Espírito Santo, e passaram a falar em
do testemunho histórico.
outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem"
(2.4). O esquema teológico que governa a especificação de São Lucas
da tríplice unidade original de ressurreição, ascensão e vinda do
Assim, entre os escritores do NT, somente São Lucas especifica Espírito baseia-se em modelos rabínicos da época. O judaísmo
e data a ressurreição e ascensão de Cristo, e a vinda do Espírito, rabínico considerava a festa de Pentecostes como o aniversário da
como eventos históricos separados. O calendário da Igreja foi cons- dádiva da lei no Sinai, dada, segundo criam, no qüinquagésimo dia
truído, baseando-se nesse modelo, tendo sido de imenso valor para depois do êxodo. No dia de Pentecostes foi selada a antiga aliança
a devida observação litúrgica das verdades de nossa salvação. O e constituída a "congregação no deserto" ( A t 7.38). Era o pre-
esquema de Lucas, porém, pareceria estar fundamentado sobre núncio da Nova Aliança de Jesus Cristo e da fundação de sua Igreja.
reflexão teológica mais do que reminiscência histórica, e é bem pro- No dia de Pentecostes, o qüinquagésimo depois do "êxodo" realizado
vável que a narrativa joanina tenha preservado o ensino apostólico por Cristo em Jerusalém (Lc 9.31), derrama-se o Espírito do alto,
mais primitivo. Os estudos recentes, porém, procuram mostrar que os apóstolos são selados por êle e se constitui a Igreja de Cristo. A
o Evangelho de São Lucas se preocupa com interpretação teológica lei pentecostal cumpre-se no Espírito de Pentecostes; as chamas do
da mesma forma como o de São Marcos e o de São João; Lucas e Sinai são substituídas pelo fogo da presença do Espírito. Como tão
Atos transmitiriam a verdade do Evangelho por meio de uma apre- corretamente John Keble interpretou a tipologia de Lucas:
sentação brilhantemente estilizada da história, oferecendo profunda
verdade teológica em forma de episódios. Diríamos em outras pala- As labaredas que se precipitaram do Sinai
vras que Lucas maneja o elemento histórico do mesmo modo que o
Em torrentes terríveis, repentinas,
autor do quarto Evangelho — procura transmitir a verdade histó-
rica por meio da reconstrução imaginosa dos acontecimentos. Algu- Iluminam agora docemente, quais gloriosas coroas,
mas pessoas, sem dúvida, ficarão perturbadas, à primeira vista, Cada fronte santificada.d3)
diante desta conclusão, mas após meditação vão ver que não poderia Moisés é o tipo de Cristo; sua obra prenuncia a de Cristo, e a
ser de outra forma. A ressurreição de Cristo e a vinda do Espírito aliança com Israel prefigura a nova aliança feita agora com o novo
Santo não são eventos históricos da mesma ordem como, digamos, o Israel. O tipo dos eventos, desde a morte de Jesus até a vinda do
embarque de Júlio César na Gália e sua chegada à Bretanha no ano Espírito, é resumido por Santo Estêvão em At 7.34-38. Moisés,
55 a.C; isto é, não são eventos que possam ser descritos por meio tendo ouvido a aflição de seu povo no Egito, viera para livrá-lo.
Mas Israel rejeitou Moisés que fora enviado da parte de Deus para
lhe ser governador e libertador ou juiz (dikastés). Contudo, tendo
dize«vento* í l T ml S d a q U Í P a l
' a V e n t
°" é p n o ê
- e m b
° ™ ««eira
realizado sinais e maravilhas, levou o povo através do Mar Vermelho
ramente « S -
"respiração" ^ * ^ *J ^ ™ S ¡ g n i f ¡ c a p r i m e i
" (cf. Lc 9.31) e durante a peregrinação de quarenta anos no deserto.
LXX: ho Theas 'evZZL'J . L u C
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ência a G n 2.7, Este Moisés predisse que Deus suscitaria um profeta semelhante a
20.22). ¿eut rnsufía ? f J t Ò
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(13) "Quando o antigo Deus desceu d o c é u " , English Hymnal, 158.
êle (Dt 18.15,18), que seria Jesus Cristo. Cristo trouxera seu mara- (Gn 11.1-9) conta-nos como os homens, por causa do orgulho, per-
vilhoso êxodo em sua ressurreição dos mortos e mostrara os sinais deram a capacidade de se entender; não tinham uma linguagem
de sua presença viva aos apóstolos durante os quarenta dias. Quando comum porque não estavam unidos na mesma obediência à vontade
se cumpriram os quarenta anos, no deserto, Moisés foi elevado de Deus. São Lucas procura mostrar o desejo de Deus de recriar
("admitido") aos céus, segundo a teologia rabínica; depois que se
a humanidade numa grande família, unida numa aliança de amor
cumpriram as aparições durante os quarenta dias, Jesus ascendeu
aos céus (cf. Lc 9.51, sua análempsis, assumptio). O novo Moisés por meio de Jesus Cristo, falando a língua universal do Espírito
completava a obra prefigurada pelo antigo. Hb 12.18-29 compara Santo de Deus. Os que ouviram São Pedro no dia de Pentecostes
e contrasta a aliança feita entre convulsões e labaredas terríveis do eram, naturalmente, todos judeus (com alguns prosélitos), contudo,
Sinai com a nova aliança e a constituição da "universal assembléia da dispersão, que falavam os idiomas dos países onde residiam. Mais
e igreja dos primogênitos arrolados nos céus"; mas a dádiva da lei tarde Lucas mostrará em Atos que o Espírito vem tanto para os
não é contrastada com a do Espírito nesta passagem. Na verdade, gentios como para os judeus; o episódio de Cornélio (At 10) repre-
Auct. Heb, difere de São Lucas talvez mais acentuadamente por senta o Pentecostes gentílico. O Espírito Santo desce sobre todos os
empregar raras vezes o conceito do Espírito Santo. (14> que ouvem a pregação de São Pedro, que o recebem e falam em
línguas antes do batismo: significa que o Espírito Santo, tomando
A história de Pentecostes, de Lucas, emerge de dentro de um a iniciativa, indica claramente a intenção divina de que os gentios
contexto teológico; transmite profunda verdade cristã em forma de sejam membros da nova comunidade cristã nos mesmos termos dos
narrativa histórica direta. Mas a verdadeira história por trás desse judeus (10.44-48; 11.17 s.). O batismo do Espírito Santo rece-
escrito é que depois da exaltação de Cristo o Espírito desceu do alto, bido pelo Messias era universal (At 11.16 nesse contexto), e assim
embora não tenhamos em Lucas e em At 2 descrições literalmente cumpre-se a profecia de Jl 2.28: Deus derrama seu Espírito sobre
factíveis; não podemos hoje restabelecer ao pé da letra "o que acon- toda a carne.
teceu" porque os escritores bíblicos, incluindo São Lucas, não tive-
ram essa intenção. A forma tomada por esses eventos de tal modo A "PERSONALIDADE" DO ESPÍRITO SANTO
transcendeu os acontecimentos normais da vida comum, suscetíveis
de descrição em linguagem humana, que não podiam ser adequada- Indagar se no N T o Espírito era uma pessoa, no sentido mo-
mente narrados assim, sendo, contudo, comunicados por meio da derno, seria o mesmo que perquirir se era uma pessoa o espírito
linguagem sem palavras da experiência cristã do Espírito Santo. de Elias. O Espírito de Deus, naturalmente, é pessoal; é o seu
É o que São Lucas parece querer dizer quando descreve o falar em dynamis em ação. Mas não é uma pessoa que exista separadamente;
línguas no dia de Pentecostes (At 2.5-11). Os sons proferidos pelos é um modo de se falar sobre a personalidade de Deus atuante na
apóstolos, a quem viera o Espírito Santo, não eram de palavras vida e no testemunho da Igreja. Em parte alguma do NT (e, na
nem sílabas racionais, mas o resultado foi como se os homens de verdade, do pensamento patrístico em geral) U 5 ) representa-se o
todas as línguas ouvissem em seu próprio idioma a declaração dos espírito, ou o dynamis ou a sophía de Deus, com personalidade inde-
atos poderosos de Deus. A verdade da dádiva do Espírito é de tal pendente. Não quer dizer que o Espírito seja apenas um modo tem-
forma transcendente que não pode ser descrita em palavras huma- porário da atividade ou da revelação de Deus; pelo contrário, é um
nas; a vinda do Espírito é a própria realidade que as torna desne- dos modos permanentes do seu ser. Pnêuma é a forma da atividade
cessárias. Não há palavra humana capaz de frustrar o poder reve- do Deus transcendente dentro da história desde a criação até a
lador do Espírito nem "problema de comunicação" que êle não consumação. Não foi simples jogo arbitrário de palavras que levou
vença. Lucas considera o "falar em outras línguas" (glossolalia) São Lucas a relacionar pnêuma e dynamis (e.g., Lc 1.17,35; 24.49;
sinal certo do dom do Espírito (At 2.4; 10.46; 19.6) e símbolo da na última referência pnêuma é praticamente definido como "poder
inversão daquela confusão de línguas resultante do pecado humano. do alto"). Mesmo os modos mais "personificados" empregados por
Pentecostes é o reverso de Babel: a parábola da Torre de Babel São Lucas para se referir ao Espírito devem ser entendidos como
expedientes bíblicos para evitar dizer que Deus fêz isto ou disse
aquilo. Por exemplo, quando escreve: "Disse o Espírito Santo:
das EscrituÍaT «Tl ^iT^T* d
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separai-me agora a Barnabé e a Saulo" (At 13.2), queria simples-

dade c M l n l l T r a
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oastante profunda seja adequadamente feita com vocabulário diferente.


(15) A I g r e j a a n t i g a , i n c l u i n d o os p a d r e s de N i c é i a , " n ã o a t r i b u i u ao E s p i r i t o
( c o m o f i z e r a m os a r i a n o s ) u m a p e r s o n a l i d a d e s e p a r a d a d a v i d a p e s s o a l de D e u s '
( H . B . S w e t e , The Holy Spirit in the Ancient Church, 1912, 376).
mente dizer que Deus revela sua vontade a um ou vários profetas há plenitude de liberdade de interpretação; não estamos mais agri-
(cf. 13.1). Lembremo-nos que São Lucas também podia escrever: lhoados "à letra" (cf. 3.6), i.e., ao literalismo que mata. Os cristãos
"Por isso também disse a sophía de Deus: Enviar-lhes-ei profetas são agora transformados na imagem do Senhor (Jesus) de um nível
e apóstolos. . . " (Lc 11.49).
de glória a outro pela operação do Kyrios Pnêuma (3.18) — frase
Que relação há entre Cristo e o Espírito Santo? Vimos que singular que só pode querer dizer " o Espírito do Christus regnans".
Cristo não se identifica com pnêuma Theôu do modo como o faz com
sophía Theôu, lóf/os Theôu e dynamis Theôu, embora no A T pnêuma Afirma-se que êle é tanto o Espírito de Deus como também de
seja uma personificação da atividade divina da mesma ordem de seu Filho (Gl 4.6), ou de Jesus ( A t 16.7), ou de Jesus Cristo (Fp
sophía, lógos e pnêuma. Com a duvidosa exceção de II Co 3.17, o 1.19). Em I Pe 1.11 diz-se que o Espírito de Cristo deu de an-
NT jamais afirma que Cristo seja o Espírito de Deus. Além das temão testemunho sobre os sofrimentos do Cristo (histórico).
razões já sugeridas acresce o fato de os Evangelhos representarem Em Rm 8.9-11 São Paulo fala alternadamente do Espírito de Deus
o Espírito operando sobre Jesus e este agindo pelo Espírito. Era. e de Cristo, querendo, obviamente, dizer a mesma coisa. Não são
portanto, necessário distinguir entre ambos, especialmente nos dias dois espíritos; é um só. Pois se pressupõe, no conceito da encarna-
do ministério terreno do Mestre. Mas depois da ressurreição essa ção de Deus em Cristo, a unidade deste com o Pai (Jo 10.30; 17.11,
diferença desaparece e não se verifica mais o esforço dos escritores 22, etc.) que não é, naturalmente, uma abstração de identidade mate-
do NT para separar a operação do Cristo ressurreto da do Espírito mática, mas pessoal, de pensamento, atitude e intenção. Não é sim-
Santo. Cristo mesmo vem na dádiva do Espírito. São João escreve: plesmente que o Espírito de Deus estivesse no Jesus humano, pois
"Êle (o Parácleto) . . . estará em vós" e "voltarei para vós outros" está em todos a respeito dos quais testifica que são filhos adotivos
como se as duas frases quisessem dizer a mesma coisa (cf. Jo 16.7, do Pai (Rm 8.14-17); é de Cristo e não apenas em Cristo. Cristo
etc. com 14.18,28). O Espírito que interpreta as Escrituras é o envia o Espírito (Jo 15.26; 16.7), ou está associado com o Pai
mesmo Senhor Ressurreto (Lc 24.13-35; Jo 14.26; 16.13 s.; I I Co que o envia (Jo 14.16, 26) : procede ( ekporéuetai) do Pai (Jo
3.17 s.) ; a paráãosis (tradição) da Igreja é realmente moldada e 15.26), e embora não se encontre a cláusula filioqzie, é claro que
guiada pelo Espírito do Cristo ressurreto — aquela paráãosis apos- a "dupla processão" (do Pai e do Filho) subentende-se no quarto
tólica que se escreve até hoje no que se tornou conhecido na Igreja Evangelho. Não tem existência independente do Pai e do Filho, ao
como Escrituras do Novo Testamento. Cristo falou pelo Espírito passo que este é o Filho do Pai. Assim podemos dizer que o Pai
as "muitas coisas" que os discípulos não podiam suportar (entender, (na linguagem da era patrística) é o princípio ou fonte da divin-
receber) nos dias de sua carne (Jo 16.12-15; 14.26). O Espírito dade: Pater est fons totius Trinitatis.
de Cristo, Senhor da paráãosis da Igreja, é também o Spiritus Não há no NT fórmula da doutrina da Trindade, mas a doxo-
Interpres Scripturae da antiga aliança. Os judeus, embora lessem logia tríplice e os fragmentos litúrgicos (e.g., Mt 28.19; I I Co 1.21
diligentemente suas Escrituras em todas as sinagogas, não enten- s.; 13.14; I Pe 1.2; Jd 20 s.; Ap 1.4-6) demonstram suficiente-
diam o que liam ( I I Co 3.12-18; cf. Mc 12.24; Jo 5.37-47; A t 8.30 mente que a Igreja apostólica adorava Deus na Trindade e a Trin-
s.); era como se um véu tivesse descido sobre a verdade escriturís- dade na unidade. O Deus uno e verdadeiro da antiga fé judaica, o
tica, como o véu usado nas sinagogas durante essa leitura. Tinha Deus de Abraão, Isaque e Jacó, agira agora de maneira nova: não
a mesma função do véu usado por Moisés sobre a face quando saiu que Deus (por assim dizer) se tornasse maior, mas era mais amplo
da presença de Deus para falar com Israel (Êx 34). Esse véu per- agora o conhecimento revelado de Deus — não que as outras duas
manece até hoje nas sinagogas judaicas; mas na Igreja cristã foi "pessoas" entrassem agora na sociedade divina, mas revelavam-se
retirado por Cristo. Assim como Moisés retirava o véu quando retor- modos diferentes do ser de Deus, compreendidos agora (mas somente
nava à presença de Javé (Êx 34.34), o véu das Escrituras é remo- dentro do mistério da fé) pela primeira vez. Não há indicação algu-
vido, quando o homem se volta para Cristo ( I I Co 3.16). Cristo ma no N T de um déuteros Theós, ou demiourgós distinto do Deus
é o Espírito interpretador — ho ãè Kyrios tò pnêuma estin hôu dè da revelação do AT, nem existe problema algum de "reconciliar" a
tó pnêuma Kyríou, eleuthería (3.17). Nessa passagem Paulo não divindade de Cristo e do Espírito com o monoteísmo judaico. Cristo
está preocupado com minúcias de definição trinitária, mas com o e o Espírito são modos próprios de agir na criação, redenção e san-
problema da interpretação das Escrituras; não podemos, então, ma- tificação do mundo. São co-igualmente Deus, mas ao mesmo tempo
nipular esse versículo como se fosse um pronunciamento sobre as o Pai (como aprendemos com Cristo a chamar o princípio e fonte
relações de Cristo com o Espírito. Paulo simplesmente afirma que da divindade) é o primeiro modo de Deus ser Deus ao qual os outros
o Espírito (de Cristo) é Senhor das Escrituras, e onde êle reina estão subordinados (Jo 14.28; I Co 15.24-28): Cristo recebe da
divindade,i.e., do Pai, autoridade e igual divindade (Mt
l%"%;Jo 3.35; 13.3; 17.2; At 2.36; I Co 15.27; Ef 1.10, 20-22;
Fp 2.9 s.; Hb 1.2; 2.8; I Pe 3.22; Ap 5.12 s., e t c ) . Derivação,
subordinação e dependência estão implícitas na própria palavra
"Filho"; ao mesmo tempo assevera identidade de substância e divin-
dade co-igual. Embora seja metáfora tirada da existência humana,
mostra muito adequadamente a relação de Cristo com o Pai, não só
em sua vida encarnada mas em seu ser essencial. O Deus da reve-
lação que se expressa no NT é Pai, Filho e Espírito Santo, um só
Deus, conhecido através de autodesvelamento pessoal e histórico nos
seus três modos permanentes e essenciais de ser. Em todas as ativi- VI
dades de cada uma das "pessoas" divinas é sempre o mesmo e único
Deus que age; este princípio do N T foi formulado na teologia cató-
lica na frase: opera Trinitatis ad extra sunt indivisa. Isto é, as
personae não devem ser rigidamente separadas e identificadas com MESSIANISMO REINTERPRETADO
funções divinas particulares (e.g., criar, redimir, santificar), pois
todas elas agem em cada obra de Deus. A doutrina católica posterior Depois de nos libertar das pressuposições liberais, que tanto
da co-inerência (perichoresis) concorda plenamente com as declara- dominaram as pesquisas do Novo Testamento desde Harnack até
ções do NT sobre as atividades das "pessoas" da divindade. Assim, Bultmann, podemos reconhecer que está mais de acordo com a evi-
por exemplo, São Paulo não faz diferença entre o Cristo exaltado dência histórica a admissão de que Jesus considerou (humanamente
como intercessor e o Espírito com essa mesma atribuição: comparar falando) o problema de sua própria existência e ensinou aos discí-
Rm 8.26 com Rm 8.34. Se houver alguma diferença será apenas pulos a resposta, do que a posição tomada pela crítica liberal. Como
de ênfase: o Espírito intercede dentro de nós, mesmo em nossos veremos, a esplêndida reinterpretação que nosso Senhor fêz das anti-
gemidos mais inexprimíveis, enquanto Cristo intercederia "à direita gas imagens judaicas acerca do Messias, deixam claro que êle enten-
de Deus". Da mesma forma no quarto Evangelho o Filho volta à deu ser sua missão reunir o novo Israel na Igreja do Messias.
morada do Pai, enquanto o Espírito continua sua obra aqui na
Igreja. Cristo intercede por seus discípulos (14.16; 17.9,15,20),
"CRISTO"
embora não seja necessário, visto que o Pai já os ama (16.26 s.) :
em I Jo 2.1 declara-se que "temos Advogado (parákletos) junto ao A palavra Christós é o adjetivo verbal empregado nos L X X
Pai, Jesus Cristo, o justo". Mas no quarto Evangelho o Espírito para traduzir do hebraico meshiah ("ungido"). Usa-se no A T para
Santo é especialmente chamado de Paracleto, supondo-se então que qualquer pessoa que tenha sido indicada por Deus para função teo-
a atividade da intercessão deva ser considerada função do Espírito, crática — reis e sacerdotes. Até mesmo um príncipe gentio como
embora ela não seja mencionada especificamente nesse Evangelho. Ciro seria assim descrito (Is 45.1). O sumo-sacerdote é "o sacer-
Desse modo o NT considera claramente a obra do Cristo exaltado e dote ungido" ( L v 4.3, 5,16; 6.22). Entretanto é o rei de Israel
do Espírito Santo atividade indivisível do único Deus, cujo plano par excellence " o Ungido do Senhor", sendo Davi considerado espe-
secular de redenção e restauração do homem torna-se agora conhe- cialmente o tipo ideal. Quando se acabou o reinado histórico, o uso
cido, como num mistério, diante dos olhos iluminados dos que crêem litúrgico dos Salmos conservou a idéia e até mesmo sugeriu a vinda
em Cristo. futura de um rei messiânico capaz de realizar concretamente essa
aspiração; mas o termo nunca é empregado no AT com este sentido
técnico.*D Encontramos descrições do Governador Ideal que há de
vir (e.g., Is 9.6 s.; 11.1-10; Jr 23.5 s.; Ez 34.23 s.), mas não é
chamado de "Messias". Segundo Charles,< > a palavra aparece pela 2

primeira vez nas Similitudes de Enoque (48.10; 52.4), cuja data


êle fixa c. 94-97 a- C. Reaparece nos Salmos de Salomão ( c 40 a. C.)
em 17.36 e 18.6,8; também em 2(4) Ed 7.29 e 12.32 e no Ap de

(1) Cf. R. H . C h a r l e s , Th: Book o/ E n o c h , 1893, 136.


<2) Ibid.
Baruque 29.3; 30.1; 39.7; 40.1; 70.9; 72.2. O N T dá plenas evi- quistador, mas viera montado num jumentinho, justo e revestido
dências de seu uso geral nos dias de nosso Senhor com esse sentido de humildade (Zc 9.9; Mc 11.7). Vemos então que praticamente
(Mc 8.29; 12.35; 13.21; Lc 2.26; Jo 1.20, 25, e t c ) . o único pormenor dessas profecias escriturísticas que interessou aos
escritores do Novo Testamento foi a questão da descendência de
A expectativa de um Messias procedente da casa de Judá fun-
Jesus da linha real de Davi. Não sabemos exatamente o que Jesus
damenta-se firmemente no A T ; escuda-se em promessas feitas por
queria dizer em Mc 12.35-37, mas não há dúvida de que a Igreja
Deus a Davi ( I I Sm 7, esp. v. 16: "Teu trono será estabelecido para
apostólica considerava a descendência de Davi artigo de fé (talvez
sempre"; cf. no SI 89 a referência à aliança de Deus com Davi, vs.
Rm 1.3 fizesse parte de algum hino confessional primitivo); cf.
28,34 e 39). A fidelidade de Deus para com a promessa feita a
especialmente Mt 1.1,20; Lc 2.4,11; Jo 7.42; Rm 1.3; II Tm 2.8;
Davi é tema comum entre os profetas (Am 9.11; Os 3.5; Mq 5.2;
Ap 5.5; 22.16. O título "filho de Davi" é empregado diversas vezes
Is 9.7; 11.10; 16.5; 37.35; Jr 23.5 s.; 33.15 ss.; Ez 34.23 s.;
em Mateus (9.27; 12.23; 15.22; 20.30 s.; 21.9 e 15) mas em
Zc 12.7 ss.). Continua além do período do A T a expectativa do
Marcos e Lucas só aparece uma vez em Mc 10.47 s. = Lc 18.38 s.,
advento de uma figura davídica para cumprir essas profecias tão
não sendo mencionado em João. Para a apologética judaica de Ma-
evidentes; cf. Eclesiástico 47.11; I Macabeus 2.57, e especialmente
teus era particularmente importante que Jesus tivesse nascido em
SI de Salomão 17 — notável profecia de um Rei Messiânico que será
Belém (Mt 2.1) da linhagem de Davi (Mt 1.20).
filho de Davi. O NT demonstra claramente que fazia parte do ensino
rabínico do primeiro século A.D. a vinda de um Messias davídico: Pelo menos em alguns lugares a esperança do Messias da casa
"Como dizem os escribas que o Cristo é filho de Davi?" (Mc 12.35). de David foi substituída, durante curto período de tempo, pela expec-
Percebe-se na narrativa de São Marcos a intenção de registrar uma tativa, do Messias da casa de Levi. Enuneia-o claramente o Testa-
saudação messiânica quando descreve o cego Bartimeu atribuindo a mento dos Doze Patriarcas, que R. H. Charles considera ter sido
Jesus o título de "Filho de Davi" (Mc 10.47 s.).
escrito logo após a elevação de João Hircano e antes de sua ruptura
É deveras surpreendente o escasso emprego dessa profecia no com os fariseus (i.e., entre 137 e 107 a.C.). > Segundo o autor <3

NT, diante da importância que tinha no AT. Jesus é representado fariseu, o Messias é uma figura impressionante que será sacerdote,
pelos evangelistas como o novo Moisés, o novo Josué, o novo Elias, rei e profeta; cf. Test. de Rubem 6.7-12; Test. de Levi 8.14; Test.
etc; talvez haja apenas uma pcrícope na tradição, que descreva de Judá 24.1-3; Test. de Dã 5.10 s.; Test. de José 19.8-12. Depois
Jesus como o novo Davi, a saber, na história da travessia do Senhor da desavença com os fariseus essa expectativa desapereceu, e no
através dos milharais, no sábado (Mc 2.23-28). Jesus defende o primeiro século a.C. surgiram adições que expressavam a esperança
comportamento dos discípulos, mencionando o precedente de Davi de um Messias de Judá. > Ao tempo do NT não se esperava mais
(4

em I Sm 21.1-6; é provável que essa história pretenda ser um tipo um Messias procedente de Levi, não havendo traços dessa idéia em
de cumprimento do "que fêz Davi". A referência joanina à travessia seus escritos, embora persistissem outras influências do Testamento
de Jesus pelo ribeiro Cedrom (Jo 18.1) é demasiadamente obscura dos Doze Patriarcas. Na literatura canónica a única passagem que
para ser entendida como cumprimento de II Sm 15.23. Os escritores aguarda um Messias não-davídico talvez seja o SI 110, embora não
do N T não destacam o reinado davídico como tipo do reinado de tenhamos certeza de sua data e forma original. Se fôr Macabeu,
Cristo. Seguem assim o ensino do próprio Senhor, que deveria sen-
tir certo embaraço diante dos sentimentos nacionalistas suscitados (3) R. H . C h a r l e s , Apocrypha and Psexulepigrapha, I I , 289.
pela noção do Messias davídico. Ao ensinar no templo parece repu- (4) C h a r l e s , op. cif., 294. N o t e m o s , c o n t u d o , q u e a o p i n i ã o d o s estudiosos c o n -
s i d e r a q u e C h a r l e s i n t e r p r e t o u m a l a e v i d ê n c i a d o Testamento dos Doze Patriar-
diar essa idéia, citando SI 110.1 para provar que o filho de Davi cas, q u e , de fato, a p r e s e n t a m u m a d o u t r i n a d e dois M e s s i a s , u m d a t r i b o s a c e r -
poderia não ser o Senhor de Davi (i.e., o Messias) (Mc 12.35-37). d o t a l d e L e v i e o u t r o d a l i n h a r e a l d e J u d á . A d o u t r i n a essênia ( q u e p a r e c e
O Messias é incomparavelmente maior do que qualquer rei terreno, ser e s s a ) dos dois M e s s i a s d e s e n v o l v e a t e n d ê n c i a tão a n t i g a q u a n t o o r e c o n h e c i -
e o reinado messiânico não deveria ser reduzido às dimensões de um m e n t o d o s " d o i s u n g i d o s " de Zc 4.14, q u e s ã o Josué, o p r í n c i p e , e Z o r o b a b e l , o
s u m o - s a c e r d o t e (cf. A g 1.14; 2.4 s . ) . A seita d e Q u m r a n p r o f e s s a v a a d o u t r i n a
mero império davídico (cf. Jo 6.15; 18.36). Jesus não recusou o dos dois M e s s i a s ( " o s u n g i d o s de A a r ã o e I s r a e l " , I Q S ix. 10 s.; G a s t e r , S D S S , 15,
título de Rei dos Judeus (Mc 15.2), mas rejeitou as noções de um 67, 108); e o D o c u m e n t o de D a m a s c o atesta a m e s m a e s p e r a n ç a , se K . G . K u h n
reinado mundano, não querendo nenhuma coroa terrena; quando o está certo ao a f i r m a r q u e os dois M e s s i a s estão i m p l í c i t o s na f r a s e : " a v i n d a d o
M e s s i a s d e A a r ã o e I s r a e l " ( C D x i i . 23; x i v . 10; x i x . 10; cf. x x . 1) e m sua
filho de Davi entrou na cidade davídica (Mc 11.10) para reivin-
f o r m a o r i g i n a l . Essa d o u t r i n a n ã o d e i x o u v e s t í g i o s no N T , q u e reflete a e x p e c t a t i v a
dicar seu legítimo governo, o prometido "trono de Davi" (Lc 1.32) n o r m a l dos j u d e u s d o s dias de nosso S e n h o r . S o b r e o p r o b l e m a , v e r K . G. K u h n ,
transformou-se numa cruz fora dos muros da cidade. O novo Davi " T h e T w o M e s s i a h s of A a r o n and I s r a e l " ( s e p a r a t a d e N T Studies 1, 1954-5, e m
não viera restaurar o reino a Israel ( A t 1.6) como poderoso con- S t e n d a h l , S N T , 54-64).
poderá referir um governador existente, como Simão, ou um prín-
cipe ideal da dinastia hasmoneana ainda por nascer. Esse, descrito Primeiramente seria inacreditável que o Marcos bilíngüe (e outros
como "meu senhor", senta-se à destra de Deus e governa em Sião tradutores) perpetrassem a gafe de traduzi-la por ho hyiòs tôu an-
no meio de inimigos; será "sacerdote para sempre, segundo a ordem thrópou, que é tanto um barbarismo em grego como "filho do homem"
ole Melquisedeque" (cf. Gn 14.18) — i.e., não mais um Messias em nossa língua. São Marcos e os outros entenderam-no como ter-
levítico ou davídico; destronará muitos reis e julgará entre as na- minas technieus, traduzind'o-o literalmente, na falta de expressão
ções. Seja qual fôr o sentido original do Salmo, é um dos testimonia grega equivalente. Em segundo lugar, enfrentamos graves dificulda-
das Escrituras freqüentemente citado no NT <> para prefigurar o 5 des teológicas, ao supor Jesus querendo dizer, por exemplo, que o
reinado e o sacerdócio de Jesus Cristo que transcende completamente homem como tal tem poder na terra para perdoar pecados (Mc 2.10)
tudo o que se contém na expectativa judaica popular de um Messias ou que seja Senhor da instituição divina do sábado (Mc 2.28) ; se
davídico. É nesse sentido que Jesus, naturalmente, argumenta em Marcos acreditasse que essa era a intenção de Jesus o teria dito
Mc. 12.35-37. O escritor aos Hebreus molda a partir daí seu pen- facilmente. A expressão poderia, então, reforçar o sentido de Homem
samento sobre a derivação do sumo-sacerdócio de Cristo (Hb 5-7). como tal, homem par excellence, como se vê em Jo 19.5: Ide, ho
ánthropos —• bar nasha poderia significar "o Homem", e como tal
seria a designação do Messias. Mas não estamos em terreno muito
O FILHO DO HOMEM: EZEQUIEL E DANIEL seguro.
"Filho do Homem" é a designação preferida de Jesus; ocorre
oitenta e uma vezes nos Evangelhos e encontra-se em todas as "fon- Fora de Ezequiel, a outra passagem do AT de grande impor-
tes" principais (Marcos, Q, M. L e João). Em todos os casos é tância para o que estamos considerando é Dn 7.13 s.: "Eu estava
empregada por Jesus a respeito de si mesmo (Jo 12.34 dificilmente olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens
seria uma exceção real). Além dos Evangelhos, só aparece uma vez do céu um como o Filho do homem, e dirigiu-se ao Ancião de dias,
no NT, em At 7.56 (sem mencionar as citações do A T em Hb 2.6; e o fizeram chegar até êle. Foi-lhe dado domínio e glória, e o reino,
Ap 1.13; e 14.14). Não temos evidências seguras de que o título para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem;
era sinônimo de Messias quando Jesus começou a usá-lo.' ' A inter- 6
o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais
pretação de "Filho do Homem" é, portanto, de primeira importân- será destruído". A figura humana ("como o Filho do homem")
cia na compreensão do ensino de nosso Senhor a respeito de sua contrasta fortemente com os "quatro animais" que a precedem, um
pessoa e missão. leão, um urso, um leopardo e um animal terrível e forte, sem nome,
No Antigo Testamento "filho do homem" (hebraico, ben adam com dez chifres. Cada animal representava os impérios que haviam
ou, seu sinônimo, ben 'enosh) é um semitismo para "homem"; e.g., oprimido os judeus, sendo o quarto o império grego Selêucida. An-
SI 8.4: "Que é o homem, que dele te lembres? e o filho do homem, tíoco Epifânio é o perseguidor que vem depois dos dez reis (os dez
que o visites?" Não é expressão freqüente, a não ser em Ezequiel, chifres) : "Proferirá palavras contra o Altíssimo, magoará os santos
onde o profeta a emprega (ben 'enosh) mais de noventa vezes para do Altíssimo, e cuidará em mudar os tempos e a lei" (7.25). Depois
designar-so a si mesmo. Não lhe explica o significado, mas parece de seu julgamento e deposição (7.26) "o reino e o domínio, e a
indicar a dignidade da pessoa totalmente insignificante a quem majestade dos reinos debaixo de todo o céu, serão dados ao povo
Deus condescende dirigir sua palavra: "Filho do homem, põe-te em dos santos do Altíssimo; o seu reino será reino eterno, e todos os
pé, e falarei contigo" (Ez 2.1). A forma aramaica bar 'enash ocorre domínios o servirão e lhe obedecerão" (7.27). A figura humana
em Dn 7.13; no aramaico posterior (segundo século A.D.) a forma representa Israel, que, depois da opressão dos impérios pagãos que
bar nash significava simplesmente "homem" ou "a gente" (como culminou com a tentativa de Antíoco de abolir a Tora, recebe agora
"on dit", "man sagt", "one feels"). Se pudéssemos presumir que de Deus ("o Ancião de dias") o governo sobre todas as outras nações
esse costume foi preservado até o primeiro século, diríamos que do mundo, perpetuamente. Não sugere a existência real de um Filho
Jesus empregou a expressão para mencionar, com modéstia, sua do Homem messiânico, pois a figura daquele que era "como o Filho
pessoa; e.g., Lc 9.58: "O Filho do homem não tem onde reclinar do Homem" era somente um símbolo de Israel nas imagens do
a cabeça". Mas há duas boas razões para abandonarmos essa idéia. sonho do vidente, assim como os animais representavam os impérios
pagãos. Não havia Messias — a não ser que reconheçamos Israel
como a comunidade messiânica. Temos aqui — importantíssimo
(5) C. H . D o d d , Aec. Scrip., 34 s„ 120 s. para o desenvolvimento da teologia do NT — notável quadro do
(6) A expressão " F i l h o do H o m e m " ainda não foi encontrada na literatura simbolismo visual a predizer a queda do último e mais terrível dos
de Qumran.
opressores e a concessão de domínio mundial à nação sofredora de
que ecoem frases dessa compilação, e nem podemos pensar que Jesus
Israel ("o povo dos santos do Altíssimo"). Como vimos, no quarto tenha mesmo lido essa obra, embora seja possível que Paulo e o
capítulo, essa idéia fundamenta o conceito que Jesus tinha da dádiva escritor joanino a conhecessem. Por outro lado, é bem provável
do reino ao "pequeno rebanho" chamado por Deus para ser o novo que Jesus se tivesse influenciado pela visão de Daniel, da dádiva
povo dos santos do Altíssimo. do reino ao povo dos santos do Altíssimo, que por sua vez está lon-
ge do conceito de Enoque do Filho do Homem celestial. Charles
O FILHO DO HOMEM: ENOQUE E 2 (4) ESDRAS diz que este se desenvolve a partir de uma passagem de Daniel, en-
quanto que Mowinckel acha que Dn 7.13 s., e as Similitudes têm
Nas Similitudes de Enoque <?) "o Ungido" identifica-se com o base comum.dl) Mas há considerável diferença entre "um como
Filho do Homem. A opinião dos estudiosos divide-se diante dessa Filho do homem" simbolizando poeticamente o povo de Israel e o
obra: não consideram unanimemente que ela dê evidências de que Messias celestial preexistente de Enoque; é bem provável, contudo,
nos dias de nosso Senhor o título "Filho do Homem" fosse designação que os dois conceitos possam remontar ao antigo mito do Primeiro
aceita para o Messias, indicando seu tipo particular (celestial ou Homem. <12)
sobrenatural). R. H. Charles afirma que "a influência de Enoque
É possível que o mesmo mito antigo e não-bíblico do Primeiro
foi muito maior do que a de todos os outros livros da literatura apó-
Homem esteja presente em 2(4) Ed 13 (na Apócrifa), onde "Es-
crifa e da pseudo-epigráfica reunidos" sobre os escritores do Novo
dras" sonha ver "como se fosse a semelhança de um homem" emer-
Testamento/ ) e acredita-se ainda na Europa, em geral, que os con-
8

gindo do mar (13.3) ; todas as nações da terra reúnem-se para lhe


ceitos exarados em Enoque formavam o ambiente religioso dos ju-
fazer guerra (13.5), mas êle fixa uma grande montanha e a galga
deus da Palestina nos dias de nosso Senhor. Por outro lado, J. Y.
( 1 3 . 6 ) ; "um dilúvio de fogo e sopro de labaredas" sai de sua boca
Campbell argumentou que "a evidência do Livro de Enoque é bas-
e aniquila os exércitos reunidos (13.10 s.). Desce então da monta-
tante inadequada para provar qualquer coisa a respeito da expecta-
nha e reúne outra multidão, desta vez, pacífica (13.13). A inter-
tiva messiânica judaica, ou dos títulos messiânicos, no tempo de
pretação dessa visão é dada em 13.20 ss.: o homem que sai do mar
Jesus".«)
e "aquele a quem o Altíssimo reservara uma grande oportunidade"
O livro das Similitudes proclama a vinda do novo céu e da para libertar sua criação (13.26) : "Virão dias em que o Altíssimo
nova terra e o estabelecimento do Reino de Deus por meio do Un- começará a libertar os que habitam sobre a terra... E pensarão
gido, que é o Filho do Homem, celestial, sobrenatural, sem qualquer em guerras, uns contra os outros, cidades contra cidades, lugares
descendência humana, davídica ou de outra linhagem. Senta-se no contra lugares, povos contra povos, reinos contra reinos. E assim
trono de Deus ( I Enoque 51.3; 62.3, 5; 69.27,29) e possui do- será, quando essas coisas vierem a acontecer, aparecendo os sinais
mínio universal (62.6); todo julgamento é-lhe comissionado (61.9; que antes eu te mostrei, e então o meu filho será revelado, a quem
69.27; cf. Jo 5.22,27). Charles acha que Jesus tomou dessa fonte viste subir como um homem" (13.29-32). As nações se ajuntarão
a expressão e o conceito "Filho do Homem" transformando-o, po- contra êle, mas êle permanecerá no Monte Sião "montanha forma-
rém, ao reconciliar as aparentes antíteses, o Servo de Javé, de Isaías, da sem o auxílio de mãos" (13.36). " E este meu filho repreenderá
com algumas influências de Dn 7, as quais, na opinião de Charles, as nações... e as destruirá sem trabalho ( i . e . , sem esforço) por
são a verdadeira fonte da designação "Filho do Homem".* ) Rei- 10
meio da lei, semelhante a fogo" (13.37 s.). A "multidão pacífica"
nar, julgar, revelar e socorrer os justos são elementos da figura vem a ser as dez tribos de Israel que foram deportadas por ordem
evangélica do Filho do Homem; contudo, já está bastante distante de Shalmaneser em 722 a.C, que o Altíssimo preservara milagrosa-
das fantasias de Enoque. Não há ditos de Jesus nos Evangelhos mente "em outra terra" (13.39-50).
Novamente, não se discernem mais do que paralelos gerais en-
(7) A s S i m i l i t u d e s c o n s t i t u e m os c a p í t u l o s 37 a 71 d e I E n o q u e ( a s e r d i s t i n - tre esse conceito fantástico e a idéia do Filho do Homem nos Evan-
g u i d o d e I I E n o q u e , o u L i v r o dos S e g r e d o s de E n o q u e ) , o u o E n o q u e E t í o p e , c o m o gelhos; não nos ajuda a determinar o pensamento de Jesus sobre
a l g u m a s vezes é chamado, p o r q u e sobrevive (a não ser alguns fragmentos em grego
esse título, sendo mesmo muito pequena sua influência sobre o de-
e l a t i m ) s o m e n t e n u m a t r a d u ç ã o etíope da v e r s ã o g r e g a de u m o r i g i n a l a r a m a i c o
ou h e b r a i c o .
(8) The Book of Enoch, 41. (11) V e r G o s t a L i n d e s k o g e m The Root of the Vine, ed. A . Fridrichsen (1953),
(9) JTS, V o l . X L V I I I , 1947, 146-8; v e r t a m b é m o a r t i g o de C a m p b e l l , " S o n
15 n.; S. M o w i n c k e l , H e that Cometh, cap. X . XXVI, 1925,
of M a n " e m TWBB, 230 ss., e E. S j ö b e r g , Der Menschensohn im Äthiopischen He-
nochbuch, L u n d , 1946, esp. K a p . I I , 40 ss. C. H . D o d d c o r r o b o r a o j u l g a m e n t o d e (12) Ver J. M . Creed, artigo "The Heavenly Man , JTb, vol. ^
C a m p b e l l , Acc. Scrip., 116 s. 113-36.
(10) The Book of Enoch, A p ê n d i c e B, 312-17.
olvimento do pensamento do NT (sua data não pode anteceder
o ano 70 depois de Cristo). Há concordância geral de que o assim rante seu ministério, como o Filho do Homem: é possível que os
chamado "Apocalipse de Esdras (ou 4 Esdras), i.e., 2 Ed 3-14 na ouvintes que não penetraram no mistério de sua pessoa tomassem
Apócrifa, foi escrito originalmente em hebraico, relatando aspec- bar nasha no sentido de uma referência modesta a sua pessoa, e
tos do pensamento da Palestina, mas seria conjeturar além do ra- nada mais; outros, mais compreensivos, perceberiam que algo mais
zoável afirmar que suas idéias características sejam idênticas e até profundo estava implícito. Bultmann reduz o problema dizendo
mesmo familiares a Jesus e seus discípulos. Não dá evidência al- que toda essa classe de ditos surgiu como resultado da tradução
guma de que "Filho do Homem" tenha sido designação comum para errada de bar nasha; a dificuldade com este ponto de vista é que
o Messias, entre os judeus, embora " o Ungido" que viria como juiz o autor do Evangelho de São Marcos falava o aramaico, que era sua
(12.32) seja sem dúvida a mesma figura do Homem emergindo língua materna.
do mar, chamado de "meu filho" (13.37, 52; cf. 7.28; 14.9). A
presente transcrição dessa obra, como a temos hoje, deve ter sofri- Em segundo lugar agrupam-se os ditos referentes aos sofrimen-
do algum processo de "cristianização" (e.g., 7.28 s . ) ; mas a visão tos e ressurreição do Filho do Homem. Consistem nas predições
do Homem que sai do mar nada deve às fontes cristãs. O mar é de Marcos a respeito da paixão (Mc 8.31; 9.12,31; 10.33, 45; 14.21)
símbolo de mistério (13.52), familiar nas lendas antigas (Tiamat, juntamente com Lc 17.25 (que identifica o glorioso Filho do Homem
Tehom), e a figura que sobe de seu interior chama-se simplesmente da parousía com o Filho do Homem sofredor da paixão; ver os
"o Homem": é quem efetua a libertação das tribos perdidas de Is- versículos precedentes), Lc 22.22 e 24.7. Bultmann também re-
rael. Mas não tem o nome de "Filho do Homem". A reunião que pudia essa classe de ditos, desta vez, sob a alegação de que são pro-
faz de Israel disperso talvez seja o paralelo mais aproximado da fecias feitas depois do evento. Admitimos que a forma na qual São
obra do Filho do Homem nos Evangelhos (cf. Lc 19.10; 15.4; Mt Marcos as escreveu foi afetada pelo seu conhecimento do modo como
10.6; 15.24; Jo 11.52). Pareceria então que nem as Similitudes se cumpriram (especialmente os pormenores de 10.33 s.) ; tam-
de Enoque nem o Apocalipse de Esdras nos ajudam a descobrir as bém admitimos que Jesus não tinha previsão minuciosa e sóbre-
"fontes" do conceito do Filho do Homem nos Evangelhos, e que, -humana dos eventos futuros. Contudo, podemos crer que seu es-
por isso, deveríamos nos apegar ao ensino dos profetas canóni- tudo dos profetas do A T o levou (humanamente falando) à per-
cos (incluindo Daniel) ; como veremos, não é necessário ir além cepção de que o Servo do Senhor teria de sofrer antes de triunfar,
desses na procura da matéria-prima com a qual se construiu a figu- e que desde o instante em que aceitava o papel de Servo Messias,
ra do Filho do Homem nos Evangelhos — desde que, naturalmente, no batismo, sabia que deveria morrer. O conhecimento do A T com-
haja um pensamento altamente original capaz de selecionar e rein- binado com a experiência da pregação do Reino de Deus deram-lhe
terpretar o que temos aí. a compreensão de que o Filho do Homem antes de ser glorificado
deveria sofrer muitas coisas e ser rejeitado pela sua geração (Lc
17.24 s.). Não há base para se abandonar (como o faz Bultmann)
O FILHO DO HOMEM NOS EVANGELHOS as predições da paixão porque teriam sido invenções da Igreja He-
Há três espécies de ditos a respeito do Filho do Homem atri- lenística. Há inúmeras passagens fortemente "semíticas" que mos-
buídos a Jesus nos Evangelhos.* ) Primeiramente há aqueles nos13
tram Jesus na expectativa de ser rejeitado, de sofrer e morrer, antes
da conclusão triunfante de sua obra, e.g., Lc 9.31; 12.50; 13.32
quais se considera o Filho do Homem, quando os profere; e.g., Mc
s.; uma comunidade helenística teria inventado tais passagens só
2.10, 28 (ditos a respeito do poder do Filho do Homem de perdoar se pretendesse fabricar deliberadamente "antiguidades" aramaicas.
pecados e de ser senhor do sábado); Mc 14.41; Mt 8.20 = Lc 9.58 Como haveremos de ver, a idéia de sofrimento é ingrediente essen-
("não tem onde reclinar a cabeça"); Mt 11.19 = Lc 7.34 ("Veio cial no conceito que Jesus tinha do Filho do Homem, e é, portanto,
o Filho do Homem, comendo e bebendo"); Mt 12.32 = Lc 12.10 provável que tenha dito aos discípulos que o Filho do Homem deve-
("proferir uma palavra contra o Filho do Homem"); Mt 13.37 ria sofrer, e mais ainda, que êle haveria de sofrer porque era o Fi-
("o que semeia a boa semente é o Filho do Homem": cf. 13.41); lho do Homem. O relato da consternação em que se viram os discí-
Lc 19.10 ("O Filho do Homem veio buscar e salvar"). (Notemos pulos diante dessa doutrina revolucionária dá-nos boa evidência de
que todas as quatro fontes de Streeter foram envolvidas). Há as- sua historicidade: que teria levado a comunidade helenística a criar
sim abundantes evidências de que Jesus referiu-se a si mesmo, du- a história da negação de Pedro (Mc 8.32 s.), se Jesus não a tives-
se provocado? O episódio é Gemeindetheologie pobre, mas tem o
selo histórico autêntico.
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Q aqU1 S e ã m d a ; 6 C t R Bultma
Theology of the Nexo
O terceiro grupo desses ditos tem caráter escatológico onde se
afirma a glória do Filho do Homem exaltado e triunfante. Aqui
direta do sumo-sacerdote se êle era o Messias (Mc 14.61 s.) seria:
"Sim, eu sou o Messias, e tu o compreenderás quando vires o Filho
também estão envolvidas as quatro "fontes" dos Evangelhos sinó-
do Homem assentado à direita do Todo-poderoso e vindo com as
ticos: Mc 8.38; 9.9; 13.26; 14.62; Mt 12.40 = Lc 11.30; Mt
nuvens do céu"; ou, talvez: "Chama-me "Messias" se o termo te
24.27 = Lc 17.24; Mt 24.37 = Lc 17.26; Mt 21.44 = Lc 12.40;
agrada — Eu não o considero muito adequado; entenderás quem
Mt 10.23; 13.41; 19.28; 24.39; 25.31; Lc 17.22,30; 18.8 (R. H.
sou eu quando v i r e s . . . " Pelo menos é o que São Marcos entendeu
Fuller considera compilações Mt 16.28; 24.30; Lc 12.8).<14) Bult-
ser o tom da confissão de Jesus no tribunal, e Bultmann e outros
mann admite que este terceiro grupo proceda diretamente de Jesus,
críticos não aduziram razões mais adequadas que nos levem a con-
mas argumenta que êle não se identificou com o Filho do Homem,
siderá-los mais bem informados no assunto.
referido sempre na terceira pessoa; a identificação fora feita pela
Igreja mais tarde. Mesmo o tão seguro Fuller tropeça aqui e diz O conceito "Filho do Homem" dos Evangelhos envolve radical
que Jesus não se considerou Filho do Homem durante a vida terre- reinterpretação das noções comuns entre os judeus sobre o Messias,
na, mas apenas "designado para o ser" — aquele que deveria so- exigida pela profunda intuição espiritual da frase "o Filho do Ho-
frer e então, só aí seria o Filho do Homem vindo na glória. d 5 ) Esse mem deve sofrer". Sem dúvida, tal discernimento baseava-se em
ponto de vista não é aceitável porque, como veremos, Jesus desig- Is 53 e no reconhecimento de que o Servo Sofredor do Senhor, aí
nou-se "Filho do Homem" para significar "o Messias que sofre se- configurado, era uma profecia do Messias. Adquirida esta compre-
gundo as Escrituras"; a feição distintamente cristã da doutrina do ensão, outras passagens podem ser aduzidas, especialmente SI 22 e
Messias, em oposição à judaica, era que o Cristo deveria sofrer, ten- 69. A passagem inteira Is 52.13-53.12, incluindo quase todas as
do Jesus empregado o termo para conotar precisamente esse con- suas frases, ecoa através do Novo Testamento — Sinóticos, João,
ceito de messianismo . " O Filho do Homem deve sofrer", disse Jesus Atos, Paulo, Hebreus e I Pedro. < > Os escritores do NT conside-19

ao ensinar os discípulos: "Cristo havia de padecer", diziam os pre- ram o termo "Filho do Homem" idêntico a "Servo" (cf. o uso de
gadores cristãos ao proclamar a doutrina escríturística do Messias, docsádzein em Jo 12.23 com Is 52.13 ( L X X ) ; cf. At 3.13, etc).
cumprida agora na morte e ressurreição de Jesus (At 3.18). Além (20) "O Filho do Homem vai (ao sofrimento) como está escrito a
disso, como Fuller já nos indicou anteriormente, ( > não havia um 16 seu respeito" (Mc 14.21), porque êle é o Servo do Senhor.<2i) Efe-
conceito já consagrado e corrente de Filho do Homem nos dias de tuava-se esplêndida síntese dos temas do AT, não apenas como novo
nosso Senhor, como ainda pensam alguns estudiosos europeus sem ensino teológico, mas também como programa de ação para o mi-
qualquer atitude crítica;< > então "Filho do Homem" deveria sig-
17 nistério de Jesus. Segundo Bultmann, contudo, Jesus não tinha
nificar aquilo que Jesus dissera aos discípulos a respeito. Eles ti- consciência alguma disso, creditando-se toda esta originalíssima e
nham idéias feitas sobre o Messias, que careciam de correção radi- profunda reinterpretação da teologia do A T a algum mestre teólo-
cal; por isso Jesus preferiu a expressão "Filho do Homem", capaz go anônimo da Igreja Helenística, antes da conversão de São Paulo.
de receber, mais do que a outra, conteúdo escriturístico (Mc 8.29- Jesus conhecia apenas as noções convencionais "enoquianas", so-
31). O ponto de vista de Bultmann de que Jesus nunca se identi- bre o Filho do Homem, comuns nos seus dias; o verdadeiro criador
cou com o Filho do Homem escatológico flui naturalmente de seu da doutrina cristã de Cristo seria algum gênio anônimo que expli-
desejo de mostrar que Jesus não tivera consciência messiânica, li- cara a nova teologia da Igreja depois que esta se espalhara pelo
berando a fé em Cristo de todas as questões históricas, tais como mundo helénico. Bultmann, de fato, não se preocupa em procurar
esta, se êle se considerava ou não o Messias. > Baseia-se na filo- (18 saber a identidade desse inovador teológico genial; contentava-se
sofia existencialista moderna e não na consideração profunda da em dizer vagamente que "a reinterpretação do conceito (judeu, do
evidência histórica, e não a precisamos seguir aqui. A dificuldade Messias Filho do Homem) não foi feita por Jesus, mas pela Igreja
levantada sobre a referência de Jesus à vinda do Filho do Homem ex eventu".^ Mas a esplêndida interpretação teológica que se
na terceira pessoa é artificial, não estando obscuro o sentido de
suas palavras. Assim o significado da resposta de Jesus à pergunta
(19) C . H . D o d d , Acc. Scrip., 94; v e r a lista de p a s s a g e n s d o N T à s págs. 92-4;
t a m b é m d o S I 22, p á g s . 97 s.; SI 31 e 34, págs. 98 s.; SI 69, p á g s . 57-9, 96 s.; S I 119,

(14) O p . cit., 97. p á g s . 99 s.


(15) Op. cit., 103-8. (20) C í . D o d d , o p . cit., 92 n.
(16) Op. cit., 98. (21) R . H . F u l l e r e m T h e Mission and Achievement of Jesus, págs. 56-8, a r g u -
(17) E . g . , E. Stauffer, New Testament Theology, E T , 1955, c a p . 24 e nota '317 m e n t a m u i t o b e m e m f a v o r das e x p r e s s õ e s r e f e r e n t e s ao F i l h o d o H o m e m s o f r e d o r
n a p á g . 280; t a m b é m B u l t m a n n , o p cit., I , 53, e H . R i o s e n f e l d e m The Background e r e s s u r r e t o de M a r c o s , d a n d o - a s c o m o i n f l u e n c i a d a s p o r Is 53.
of lhe New Testament and Us Eschatology, ed. W . D . D a v i e s e D . D a u b e , 84.
(22) O p . cit., 31.
(18) O p . cit., 26.
encontra no N T não é obra de uma "comunidade". O novo ensino
vigoroso sobre o Filho do Homem, i.e., um Messias que deveria deroso e procure separar o Filho do Homem humilde do triunfante.
sofrer, foi obra original do próprio Jesus, não havendo outra su- Mas a riqueza do paradoxo não se exaure aí. O Filho do Homem
gestão plausível. na glória, juiz de todas as nações, não é acometido pelas tristezas e
sofrimentos do mundo terreno em virtude de seu reino triunfante;
O FILHO DO HOMEM COLETIVO é ainda o mesmo de quem as Escrituras dizem que "em toda a an-
Em seu notável livro The Teaching of Jesus, T. W. Manson gústia deles foi êle angustiado" (Is 63.9). E não sofre apenas com
sugere que no pensamento de nosso Senhor o Filho do Homem era o sofrimento dos eleitos; identifica-se com todos os pesares da hu-
antes de tudo uma personalidade mais coletiva do que individual. manidade — com os famintos, sedentos, rejeitados, nus, doentes e pri-
Jesus tomou para si a missão de criar o povo dos santos do Altíssi- sioneiros, onde quer que se encontrem, pois não é apenas o salvador
mo, a quem se daria o reino (cf. Lc 12.32). Assim, como na figura da Igreja, mas do mundo. E não se identifica com a "humanidade"
similar de Daniel de "um como filho do homem", estaria implícito abstratamente, segundo o pensamento estóico, mas com cada ho-
um grupo ou remanescentes dos justos. Jesus esperava que seus dis- mem particular em sua individualidade concreta.* ) É neste ho- 24

cípulos suportassem os sofrimentos do Filho do Homem, mas acabou mem ou nesta criança que eu encontro o meu juiz, o Filho do Ho-
sendo crucificado não entre Tiago e João, que lhe haviam pedido mem, a quem posso agora socorrer ou rejeitar; encontramos Cristo
posições de privilégio à sua direita e à sua esquerda na glória (Mc nos miseráveis que suplicam nossa misericórdia e piedade em meio
de sua repulsa (Mt 25.35-46). Costumamos pensar no Bom Sama-
10.37), mas entre dois ladrões; dessa forma Jesus acabou carregan-
ritano da parábola (Lc 10.25-37) como um tipo de Cristo; e está
do sozinho o quinhão do Filho do Homem. < 3) É uma sugestão bem 2

certo, pois Jesus "andou por toda parte, fazendo o bem" (At 10.
plausível, pois Jesus poderia ter entendido a figura do Servo, de 38). Mas em sentido mais profundo o homem que cai entre ladrões
Isaías, mais como um remanescente justo do que um simples indi- é representante de Cristo — o "próximo" que precisa de mim. Cristo
víduo. Mas é difícil provar que Jesus assim pensava, porque a tra- é aquele despojado, batido e deixado quase morto, socorrido e cui-
dição do Evangelho se formou por pessoas que viram, só em Jesus, dado pelo samaritano. Está aqui o coração do agápe cristão: "a
as verdadeiras indicações do Filho do Homem. Há, contudo, como mim o fizestes". Não há mérito em nosso serviço, pois o melhor
veremos, profunda verdade neotestamentária no conceito do Filho que fizermos é indigno dele que tanto fêz por nós. O pobre sofredor
do Homem coletivo, que procede do ensino e da vida do próprio que eu auxilio faz-me um favor, e não eu a êle, pois êle me mostra
Jesus. Cristo, torna Cristo real para mim, capacita-me a tocar, tratar e
servir a Cristo.
A grandeza e a originalidade do ensino de Jesus sobre o Filho
do Homem está na maneira em que a presente pessoa humilde, sem
ter mesmo um lugar onde reclinar a cabeça, prestes a ser rejeitada Representando Cristo toda a humanidade e estando presente em
e sofrer morte vergonhosa, é a mesma pessoa do Filho do Homem cada pessoa viva, faz dos seres humanos seus representantes, sai-
que estará à destra de Deus — o "meu senhor" do SI 110.1 — que bam eles ou não, de modo que recebê-los significa receber o próprio
virá com as nuvens do céu (Mc 14.62) na glória de seu Pai com Cristo. Aplica-se nesse caso a idéia judaica da representação pessoal
os anjos, retribuindo a cada um segundo suas obras (Mt 16.27). que mais tarde produziu a instituição denominada shaliach, pela
O Filho do Homem, que vem buscar e salvar os perdidos, o Pastor qual alguém pode representar legalmente outra pessoa ou socieda-
Redentor de Israel de Deus (Lc 19.10; 15.3-7; Ez 34.16) é o de, agindo por ela. Jesus, porém, não emprega o conceito em
(25)

mesmo Juiz na última grande controvérsia entre Javé e a humani- forma legal, quando nomeia certas classes de pessoas, que espe-
dade rebelde, sentado no trono de sua glória para o julgamento das
cialmente necessitam de sua proteção, como representantes seus, a
nações, o Pastor Governador que separa as ovelhas dos cabritos (Mt
25.31 s.; Ez 34.17) e dá o reino aos santos, os benditos do Pai, para saber, as criancinhas e os apóstolos, as primeiras por causa de sua
os quais estava preparado desde a fundação do mundo (Mt 25.34; fraqueza e inocência, e os outros pelos sofrimentos e perigos que
cf. Dn 7.13 s.; Lc 12.32; 22.28-30). Não admira que a falta de envolviam a fiel pregação do Evangelho (Mc 9.37 e Mt 18.5; Mt
fé não possa captar a profundidade do paradoxo do amor todo-po- 10.40-42; Lc 10.16; Jo 13.20; cf. Gl 4.14; Fm 17). Cada sofredor
desamparado é um shaliach de Cristo; os apóstolos são sheluchim
(plural de shaliach) não por causa de indicação legal a uma "suces-
são apostólica" mas porque lá estão desamparados "como ovelhas
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1
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(24) Cf. T h é o P r e i s s , Life in Christ, ET, 1954, 55.
(25) Ver a i n d a infra, 320s.
no meio de lobos... odiados de todos por causa do meu nome" (Mt
10.16-22). Foi assim que Saulo na estrada de Damasco ouviu a dos mortos, é o Cristo no qual, em contraste com o velho ánthropos
voz do Senhor dizendo: "Saulo, Saulo, por que me persegues?" (At (Adão), todos serão vivificados ( I Co 15.21 s . ) ; como o Filho do
9.4) : já foi razoavelmente afirmado que nessas palavras está a Homem triunfante, o kyrios do SI 110.1: "convém que êle reine até
essência do conceito paulino da Igreja como Corpo de Cristo, o nú- que haja posto todos os inimigos debaixo dos seus pés" (15.25).
mero dos batizados nele, a personalidade coletiva do Filho do Ho- Pois Cristo não é apenas o "representante inclusivo" < > da nova 29

mem/ ) 26 humanidade; é o Senhor que está à destra de Deus. Mas Paulo está
São Paulo leva a sério a idéia de que os discípulos de Cristo de- citando aqui outro testimonium, que é o SI 8.6, onde se diz do Filho
vem participar dos sofrimentos do Filho do Homem, com quem se do Homem: "Sob seus pés tudo lhe puseste", onde a criação animal
uniram pelo batismo na sua morte (Rm 6.4 s.), e se regozija ao é a subjugada: lembramos que na visão de Dn 7 o império dos
"preencher o que resta das aflições de Cristo... a favor do seu cor- animais cede lugar ao reino dos santos do Altíssimo representado
po, que é a Igreja" (Cl 1.24); a Igreja participa nos sofrimentos de pela figura daquele que era "como o filho do homem". Importa
Cristo (Fp 3.10) e estes fluem na vida da Igreja ( I I Co 1.5-7; cf. lembrar que todos os três testimonia do AT sobre o Filho do Homem
Fp 1.29; Rm 8.17; Gl 6.17). Cristo e a Igreja são um só corpo, usados pela Igreja apostólica « 0 ) (SI 8.4-8; 80.17; Dn 7.13 s.)
no qual, quando um membro sofre todos sofrem com êle ( I Co 12. referem-se a uma figura coletiva; ajustam-se naturalmente ao con-
26 s.). Tudo isto está implícito no conceito de Jesus a respeito do ceito do NT do Filho do Homem que reúne a nova humanidade em
Filho do Homem sofredor que ajuntou para si o remanescente fiel si mesmo e torna-se o clímax e a culminação do longo processo da
de Israel. Como freqüentemente se diz,' ?) Paulo abandona a ima- 2
criação e da recriação, o último Adão, não mais formado do pó da
gem semita do "Filho do Homem", mas retém a idéia; sua doutrina terra, mas o Filho do Homem celestial ( I Co 15.45-47). > <31

de que "nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo" (Rm


12.5; cf. I Co 12.12) apenas desenvolve o que está implícito no Em Hebreus, encontramos semelhante conceito do Filho do Ho-
ensino do Evangelho a respeito do Filho do Homem, e da mesma mem coletivo. Em Hb 2.6, achamos citado o SI 8.4 sendo a expres-
maneira sua doutrina do "último Adão" ou do "homem celestial" são "Filho do Homem" referida a Cristo. Vê-se pelo contexto que
( I Co 15.45-47) é simplesmente outra forma de apresentar o con- o escritor está preocupado com a verdade de que os santos (hoi
ceito cristão do Filho do Homem. Cristo é o "novo homem", em cuja haguiaãzómenoi) tornam-se um com Cristo, o santificador, por meio
personalidade representativa todos "os santos do Altíssimo" são de seu sofrimento, morte e exaltação (esp. 2.11). O Filho do Homem,
agora incorporados; a cristologia e a doutrina da Igreja de Paulo feito por algum tempo menor do que os anjos, é exaltado e todas as
encontram-se no conceito de Cristo como Ben Adam. A nova huma- coisas lhe são sujeitas através dos mesmos sofrimentos com os quais
nidade do éschatos Adam é como as vestes que os convertidos "to- leva "muitos filhos" à glória (2.10) : o autor de nossa salvação
mam" sobre si quando são batizados na Igreja (Cl 3.10 s.), assim torna-se perfeito através do sofrimento (... tón archegón tês sote-
como Cristo é o "varão perfeito" ("humanidade completa") no qual rias autôn diá pathemáton teleiôsai, 2.10). "Aperfeiçoar" não
a Igreja cresce coletivamente (Ef 4.13). Assim o conceito do cristão significa tornar perfeito moralmente quem carecia dessa qualidade
como estando en Christô, nos escritos de Paulo, funda-se no conceito (embora o verbo possa também ter esse sentido, e.g., Fp 3.12),
básico do Filho do Homem ensinado por Jesus e apreendido pelo pois isso repugnaria ao Anct. Heb. com seu forte senso de perfeição
cristianismo primitivo. É bastante significante que em I Co 15.21 moral de Cristo (e.g., 4.15; 7.26 s.). No contexto de Hb 2.5-18
Paulo empregue o simples ánthropos de Cristo em conexão com testi- o conceito de pléiosis deve significar primeiramente "plenitude" e
monia que em outros lugares se associa com a expressão "Filho do "unidade", como em Jo 17.23: hína ôsi teteleioménoi eis hén —
Homem";<28) gsse ánthropos, por meio do qual veio a ressurreição
"a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade", i.e., plenamente
unidos. As palavras seguintes o provam: "Pois, tanto o que san-
tifica, como os que são santificados, todos vêm de um só (ecs henós
(26) Cf. J. A . T . R o b i n s o n , The Body, 1952, 58. V e r t a m b é m infra, 249s. pántes)" (2.11). Os santos são irmãos de Cristo (2.12), relacio-
(27) E . g . , C. H . D o d d , IFG, 243; K . L a k e e F o a k e s J a c k s o n , Beginnings of nados numa união de carne e sangue — aquela mesma participação
Christianity, I, 1920, 380: " E n c o n t r a - s e e m P a u l o t u d o o q u e é essencial à d o u - comum de carne e sangue que Cristo tem com eles (2.14). O mesmo
t r i n a escatológica, m a s n ã o a f r a s e . N ã o seria p o r q u e achasse i m p o s s í v e l t r a d u z i r
Bar-nasha p e l a f r a s e ho hyiòs tôu anthrópou e, b o m g r e g o q u e e r a , p r o c u r a s s e
conceito de teléiosis do Filho (do Homem) reaparece em Hb 5.9 e
v e r t ê - l a i d i o m à t i c a m e n t e e m ho ánthropos? Quando, p o r exemplo, menciona e m
I C o 14.47 o s e g u n d o " h o m e m " c o m o S e n h o r Celestial, n ã o estará p e n s a n d o no
bar-nasha d e E n o q u e ? " P r e f e r i m o s n ã o e m i t i r j u í z o s o b r e este ú l t i m o p o n t o . (29) F r a s e d e C. H . D o d d , A c c . Scrip., 119.
(28) A s s i m C. H . D o d d , IFG, 243; cf. A c c . S c r i p . , 121. (30) C. H . D o d d , A c c . S c r i p . , 117.
(31) Sobre o conceito paulino da Igreja, ver infra, 241-57.
concebido como concretizando coletivamente em si a humanidade
7.28: a perfeição do Filho consiste em reunir nele os que estão redimida".* ' Diríamos em outras palavras que a apresentação
34

sendo santificados. Assim encontramos num tipo não-paulino de joanina do conceito do "Filho do Homem" é substancialmente a
cristianismo primitivo o conceito do Filho do Homem coletivo, cuja mesma das outras partes do NT e, segundo os fundamentos que
perfeição consiste em levar "muitos filhos" à glória na unidade do temos para afirmar, aquela que foi originalmente ensinada por Jesus
santificador e do santificado. aos apóstolos. Nesse caso como em outros, a sugestão, muitas vezes
A doutrina do Filho do Homem encontrada nos sinóticos, em feita, de que São João desenvolve elaboradamente a doutrina cristã
São Paulo e na Epístola aos Hebreus, é desenvolvida e exposta pelo primitiva, e a leva a um grau jamais imaginado por Jesus e os
autor do quarto Evangelho segundo seu modo próprio de expressão. primeiros discípulos, é tremendo exagero. São João esclarece e
Entende plenamente o ensino sinótico sobre a representação de reafirma a doutrina a seu modo, mas não lhe acrescenta nem subtrai
Cristo nos discípulos e por meio deles, dando sua própria versão de coisa alguma; não é inovador nem fazedor de doutrinas, mas expo-
certos ditos que aí se relatam: "Quem recebe aquele que eu enviar, sitor fiel e inteligente da tradição recebida.
a mim me recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou"
(Jo 13.20; cf. Mt 10.40; Lc 10.16); "Não é o servo maior do que O MITO GNÓSTICO DO HOMEM CELESTIAL
seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós
Não tínhamos mencionado ainda o mito gnóstico do Homem
outros" (Jo 15.20; cf. Mt 10.24 s.: também Jo 13.16). São João
Celestial porque estávamos tratando da doutrina do Filho do Homem
não evita, como o faz São Paulo, a expressão "Filho do Homem",
no Novo Testamento, escudados em fontes puramente bíblicas. Há,
empregando-a cerca de treze vezes. C. H. Dodd diz que "o termo
porém, alguns autores, especialmente Bultmann,* ^) que vêm no 3

"Filho do Homem" retém nesse Evangelho o sentido daquele que


ensino do Novo Testamento influência das especulações gnósticas a
incorpora em si mesmo o povo de Deus".* ' A influência de Dn
32

respeito do "Homem Celestial". Segundo esse conhecido mito orien-


7.13 s. é evidente em Jo 5.25-28: " (O Pai) lhe deu autoridade para
tal, um ser celestial de luz foi expulso dos domínios do alto, porque
julgar, porque é o Filho do homem"; notemos ainda que os dois
fora vencido em combate ou simplesmente por causa de sua estul-
versículos seguintes (5.28 s.) mostram influência de Dn 12.2. Há
tícia. Caindo na terra, teve a unidade original de sua personalidade
também reminiscência do Servo do Senhor, de Isaías.* ' A missão
33

fragmentada em miríades de partículas (i.e., seres humanos) que


do Servo era reunir Israel para o Senhor (Is 49.5; cf. Jo 11.52),
foram aprisionadas nas regiões inferiores (i.e., o mundo), dentro
a fim de ser luz aos gentios (Is 49.6; cf. Jo 8.12; 12.46). Os gran-
da matéria má (i.e., corpos humanos). Sujeitados aos poderes
des temas joaninos da exaltação e da glorificação já estavam reu-
demoníacos do mundo presente, dos quais só se libertariam mediante
nidos em Is 52.13: L X X : Idóu, synései ho pais mou, kài hypso-
a destruição do reino satânico, os homens (o Homem fragmentado)
thésetai kài docsasthésetai sphódra. O termo hypsóo no NT
esqueceram a origem celestial e o seu lar. O redentor gnóstico,
designa tecnicamente a exaltação de Cristo (e.g., At 5.31; Fp 2.9) ;
todavia, que é outro ser de luz enviado da parte do Deus Altíssimo,
surpreendentemente transforma-se em sinônimo da crucifixão de
desce do céu para tornar os homens livres mediante a dádiva da
Cristo no quarto Evangelho: " E eu, quando fôr levantado (hypso-
gnose. É descrito como "o filho" ou "a imagem" do Deus Altíssimo
thô) da terra, atrairei todos a mim mesmo. Isto dizia, significando
que está nos céus. Concede sacramentos para purificar os homens
de que gênero de morte estava para morrer" (Jo 12.32 s.; cf. 3.14;
e reviver neles o conhecimento do mundo da luz; comunica senhas
8.28; 18.31 s.). Para São João a crucifixão de Cristo é sua exal-
secretas por meio das quais a alma depois da morte em sua jornada
tação e glorificação (12.23; 13.31 s.). A elevação do Filho do
para os reinos da luz pode seguramente burlar os hostis guardiães
Homem é o meio de atrair todos os homens a êle (pi'ós emautón
12.32), pelo qual os filhos de Deus espalhados são reunidos em um
só corpo (11.52), e os discípulos aperfeiçoados na unidade (17.23). (34) IFG, 247, Jo 1.51 ressalta o aspecto coletivo d o F i l h o d o H o m e m ( " V e r e i s
Na morte, ressurreição e ascensão de Cristo o Servo do Senhor é o céu a b e r t o e os a n j o s d e D e u s s u b i n d o e d e s c e n d o s o b r e o F i l h o d o H o m e m " ) ;
deveras exaltado e glorificado, e Dodd tem razão ao dizer que "o se D o d d t e m r a z ã o , q u a n d o p r o c u r a v e r n e s s e t e x t o u m a r e f e r ê n c i a a o s anjos
q u e s o b e m e d e s c e m s o b r e J a c ó (isto é, I s r a e l ) e m G n 28.12. C i t a C. F. B u r n e y
evangelista teria encontrado no Servo do Senhor a incorporação do ( T h e A r a m a i c O r i g i n of the Fourth Gospel, 1922, 115): "Jacó, como ancestral d a
povo de Deus, aplicando, o que se diz deste, ao Filho do Homem, n a ç ã o d e I s r a e l , r e s u m e e m sua pessoa o I s r a e l ideal, in posse, assim c o m o nosso
S e n h o r , n a o u t r a e x t r e m i d a d e d a linha, r e s u m e e m sua pessoa, in esse, na q u a l i -
d a d e d e F i l h o do H o m e m " ( I F G , 246).

(35) V e r e s p e c i a l m e n t e Theology of the New Testament, I, 166 s.; t a m b é m S.


(32) IFG, 248. M o w i n c k e l , He that Cometh, 462-32.
(33) Cf. C . H . D o d d , IFG, 246 s.
planetários das esferas celestiais, que são agentes dos poderes demo- formais de seu ensino têm, sem dúvida, essa intenção. As opiniões
níacos. Durante sua permanência temporária na terra, o Homem hão de variar na questão de grau. Mas há diferença toto caelo entre
Celestial disfarça-se em forma humana, para escapar ao reconheci- empregar a linguagem helénica e sincréticamente alargar ou adul-
mento dos governadores demoníacos e hostis deste mundo, mas, natu- terar o kérygma com ela. E temos assim a diferença radical entre
ralmente, não passa privações ou sofrimentos. Muitas vezes esse
o redentor gnóstico de Poimandres e o Filho do Homem histórico
mito é sincréticamente absorvido em cultos locais de mistérios, sendo,
dos Evangelhos, que não tinha onde reclinar a cabeça; e se nos
por exemplo, o redentor gnóstico identificado com Átis, a divindade
frigia. Bultmann acha que o cristianismo helénico foi, da mesma parecesse que Daniel, Enoque, Filo e Poimandres tivessem a mesma
forma, invadido por motivos gnósticos, notando o fato em Paulo, base comum do mito primitivo do Urmensch ou Homem Primitivo'
e especialmente no autor de Colossenses e Filipenses e no autor do da religião persa, a diferença não seria diminuída em nada. Não
quarto Evangelho. "O segundo homem é do céu", de Paulo (ho déute- é, certamente, causa para surpresa — quando levamos a sério a
ros ánthropos ecs ouranõu, I Co 15.47), ou ho epouránios (15.48); verdade da encarnação — descobrir que o Filho encarnado tomou a
o néos ánthropos de Cl 3.10 ou o anèr téleios de Ef 4.13; e a figura vestidura humana com naturalidade, como se já estivesse pronta
joanina do Filho do Homem que desce do céu e ascende ao céu (Jo para êle — como, de fato, no secular propósito de Deus já o estava,
3.13; 6.62, etc.) seriam versões do mito gnóstico do Homem Celes- desde muito tempo. Mas as antigas lendas passaram por longo pro-
tial no NT. C. H. Dodd concorda no que diz respeito ao Filho do cesso de "demitização" na história de Israel, justificando assim a
Homem da literatura joanina, pelo menos na medida em que o quarto distância que há entre a figura bíblica do Filho do Homem e o mito
evangelista estaria tentando comunicar a verdade cristã numa forma gnóstico do Ánthropos — na medida em que escatologia e justifi-
que fosse compreensível e adequada ao paganismo superior da cação separam-se da cosmologia das esferas planetárias e da abra-
época. < > 36
cadabra das senhas secretas. Não é possível sincretismo entre esses
Mas todos esses pontos de vista podem ser contrariados. Em opostos, como a Igreja Católica logo descobriu na insana luta contra
primeiro lugar, a literatura em que Bultmann e Dodd fundamen- a heresia gnóstica depois do encerramento do período do NT. " A
tam sua reconstrução do mito gnóstico do Ánthropos Celestial ou do diferença pode ser brevemente resumida: no mito gnóstico o Homem
"paganismo superior" (i.e., o Corpus Hermeticum) foi escrita um é o princípio divino substancial e eternamente idêntico com a soma
século ou mais depois do quarto Evangelho e é bem provável que se das almas dos homens espalhadas mas predestinadas à salvação.
tenha inspirado em fontes cristãs; a única literatura do primeiro No pensamento de Jesus, o Filho do Homem identifica-se livremente
século a que Bultmann recorre é o próprio NT, e nesse caso bastaria com todos os desventurados, mediante um ato de substituição e iden-
uma explanação muito mais simples. Não há evidências reais da tificação, para reuni-los todos no último dia... É essencial que o
existência do "mito gnóstico" no primeiro século A.D. Em segundo
Filho do Homem, isto é, o Homem, não se identifique com a huma-
lugar, os conceitos paulinos (incluindo de Colossenses e Efésios) o
nidade como um todo — o conceito estóico não era familiar a Jesus
joaninos do Filho do Homem como Corpo de Cristo, ou a unidade
perfeita dos discípulos de Cristo são, como já vimos, exposições legí- — mas com cada homem. Não é então o caso da identidade de subs-
timas do que estava contido no ensino original de Jesus, tendo Jesus tância entre o Homem Primitivo e a totalidade de seus membros
chegado a êle (humanamente falando) após meditação profunda dos agora espalhados, mas de um ato soberano de auto-identificação." '37)
temas do AT. A doutrina do N T pode ser explicada sem o recurso
da hipótese do mito gnóstico, em abono da qual não existiria evi- O SINAL DO FILHO DO HOMEM
dência independente; aplica-se aqui a navalha de Occam: entia non
sunt multiplicando,. Em terceiro lugar, não temos razão alguma Resta-nos agora dar uma resposta coerente ao problema implí-
para questionar a tentativa de Paulo e João, como outros pensado- cito nas fontes que teriam originado o conceito do Filho do Homem
res e mestres cristãos dentro de situações missionárias, de resolver no pensamento de Jesus. Devemos ser cautelosos, pois importa não
o "problema da comunicação" usando linguagem e formas de pensa- deixar a impressão de classificá-lo como "um gênio religioso", "um
mento inteligíveis para os leitores ou ouvintes; algumas expressões profeta" ou coisa semelhante. Desaprovamos qualquer procedimento
"psicológico". Estamos somente pesquisando as fontes usadas por
(36) Cf IFG 244- " A phôs alethinón é o q u e F i l o c h a m a de archêtypon fotos. nosso Senhor na formulação de sua doutrina do Filho do Homem,
4 , e m o u t r a s p a l a v r a s , a i d é i a platônica d a l u z . N ã o fica l o n g e disso a f i r m a r que,
p a r a J o ã o , o F i l h o d o H o m e m é o alethinós ánthropos, o H o m e m real ou arquétipo,
ou a I d é i a P l a t ô n i c a d e H o m e m " . (Ver supra, 71).
(37) Théo Preiss, Life in Christ, 53. Ver também infra, 246.
segundo as evidências dos Evangelhos, que é, em última análise, 7.13 s . ) . Nosso Senhor derivou seu conceito do Filho do Homem,
(38)

o conceito de seu próprio ministério e missão. Ao rejeitar o ponto a partir da figura do Servo do Senhor, delineada pelos profetas do
de vista de que êle adotara noções comuns das especulações apoca- A T ; nela entendeu seu próprio caráter, vocação e destino. Está
lípticas ou que fora influenciado pela mitologia oriental gnóstica, presente no pensamento de Jesus a oscilação entre o servo do Senhor
devemos dar as razões de nossa preferência por uma explicação como indivíduo e como comunidade, como se verifica nos escritos do
diferente, a saber, que foi baseado em material bíblico que Jesus A T ; era mais fácil para os hebreus do que para nós, entender como
elaborou a interpretação de sua própria pessoa e missão. Esse pen- Israel poderia ser um patriarca individual e também uma nação tão
samento não é incompatível com a crença na divindade do Filho de numerosa como a areia do mar; a doutrina hebraica da personali-
Deus, pois nosso Senhor, sendo verdadeiramente encarnado, seu dade leva-nos a entender que todos os homens estão "em Adão" ou
cérebro operou humanamente, pensando e agindo em relação com "em Cristo", enquanto permanecem independentes entre si; e noção
outras mentes, embora não presumamos descrever o processo psico- difícil de ser entendida no mundo moderno, que separa tão rigida-
lógico. Não o consideramos uma espécie de crítico bíblico do pri- mente os seres uns dos outros.
meiro século, que se pusesse a analisar o AT, procurando nele ele-
mentos que pudessem ser "aceitáveis", para depois sintetizá-los numa É fácil de entender a escolha do termo "Filho do Homem".
teologia reconstruída. Melhor analogia, embora ainda inadequada, Jesus considerava-se, como Ezequiel (Ez 12.6; 24.24), um sinal
seria a do pintor que segura sua palheta repleta de cores dos mais para sua geração. O sinal do Filho do Homem era dado aos que
variados matizes; a mente do artista cria com elas combinações "ouviriam" que o propósito de Deus de salvação estava por se rea-
novas e belas: as cores estavam todas presentes na palheta e, de lizar. O Livro de Ezequiel foi aceito entre a literatura canónica
certa forma, na pintura, mas ainda não eram a pintura; a obra de judaica desde cerca do ano 200 a.C. (cf. Eclesiástico 49.8) ; e Eze-
arte não existiria até o momento em que a imaginação criadora do quiel foi considerado, com Moisés, Elias e Eliseu, um shaliach de
pintor tomasse as cores — não todas e nem a mesma proporção — Deus, como nenhum outro profeta. Esses quatro teriam realizado
e as misturasse numa nova forma de significado. Foi assim que inúmeros prodígios, incluindo até mesmo ressurreições dentre os
Jesus moldou a teologia do NT, criando-a a partir dos mistérios e
mortos que, no curso natural dos acontecimentos, seriam obras do
das intuições policrômicas do AT.
próprio Deus (Ez 37.1-14 creditaria a Ezequiel a realização de um
ato dessa natureza).<39) Mas, como o livro desse profeta se desvia
Mostram-nos as evidências que Jesus preferiu o título "Filho da Lei de Moisés, foi proibido aos judeus menores de trinta anos de
do Homem" a "Messias" não porque tivesse dúvidas a respeito de idade/ ' por pouco não sendo classificado entre os apócrifos. Con-
40

si mesmo como aquele que cumpria as profecias das Escrituras sobre tudo, exerceu grande influência no mundo hebraico, especialmente
o Ungido do Senhor, mas porque o nome de "Messias" estava aberto sobre os judeus da escola apocalíptica; o autor do Apocalipse de
a muitas falsas interpretações. Por outro lado, o título "Filho do São João seria um destes. O próprio Jesus foi profundamente afe-
Homem" poderia receber o significado que Jesus lhe quisesse dar. tado por êle; suas parábolas pastorais claramente resultaram de
Fora o título escolhido por Ezequiel, como servo do Senhor, com meditação sobre Ez 34. O "Filho do Homem" que fora posto "por
quem Deus, condescendentemente, falara e revelara sua verdade, e sinal... à casa de Israel" (Ez 12.6) emerge, à maneira hebraica,
como, deveras, falara a todos os "seus servos, os profetas" (Am no Servo do Senhor, de Isaías, e em outros tipos proféticos do Mes-
3.7). Nosso Senhor considerava os profetas do AT representantes sias vindouro; reúne e representa coletivamente o Israel de Deus;
e antecipadores do servo messiânico do Senhor, cuja vinda anuncia- é, deveras, o Israel de Deus, a humanidade recriada do novo Adão,
vam: Isaías mesmo era tipo do 'ebed lave cuja glória e humildade o Homem no qual a imagem de Deus restaura-se perfeitamente.
predissera (Is 9.6 s.; 11.1-9; 53 etc.; nada se sabia de um "segundo"
ou "terceiro" Isaías) ; Jeremias, com seu testemunho fiel, inabalável
paciência nas perseguições, tipificava o Rei Justo a respeito do qual (38) Cf. C . H . D o d d , Acc. Scrip., 117 n.: " D i z e r , c o m o é costume, q u e o A T
escrevia (Jr 23.5) ; Ezequiel era o sinal dado por Deus à sua gera- n a d a s a b e a respeito de u m F i l h o d o H o m e m s o f r e d o r , é i n e x a t o " . R e f e r e - s e a
D n 7.13 s.. N ã o d e v e m o s e s q u e c e r q u e o p r ó p r i o D a n i e l ( D n 2 e 6, etc.) é u m t i p o
ção, tendo mencionado o Pastor Servo que haveria de salvar o reba- d e C r i s t o : s o f r e e é v i n d i c a d o , p o d e n d o Is 53 a p l i c a r - s e p e r f e i t a m e n t e a êle. D e v e -
nho de Deus (Ez 34.23) ; Daniel, que sofrera por amor da justiça, m o s d e i x a r d e l a d o todas a s noções críticas q u a n d o tentamos e n t e n d e r c o m o
predissera a dádiva do Reino a "um como o Filho do homem", que Jesus teria lido o A T .

havia sofrido muita tribulação mas haveria de ser exaltado (Dn (39) Cf. S t r a c k - B i l l . , I I I , 5 s.
(40) J e r ô n i m o , Praefatio ad Ezech.

145

S E M I N Á R I O CONCORRIA
Inicia-se já a obra do Bom Pastor de reunir o rebanho espalhado
(Ez 34.12-16), a congregação do Senhor, o povo dos santos do Altís-
simo, que é o significado real da existência e da missão da Igreja
de Jesus, o Messias; mas não fruirá a plenitude, a não ser quando
o Filho do Homem, em glória, sentar-se para julgar as nações e o
Pastor Governador separar as ovelhas dos cabritos (Mt 25.31 s.;
Ez 34.17).

VII

A CRISTOLOGTA DA IGREJA APOSTÓLICA


"Messias" e "Filho do Homem" são títulos sem sentido fora
dos círculos judaicos: Paulo, o missionário, escrevendo aos gentios
convertidos, emprega "Cristo" quase como um nome próprio, jamais
usando "Filho do Homem". Havia, entretanto, outras maneiras de
designar Jesus, perfeitamente inteligíveis aos ouvidos gentílicos, tais
como "Filho de Deus" e "Senhor". Bousset asseverava que o título
"Filho de Deus" fora dado a Jesus primeiramente pela comunidade
helénica, e Bultmann acha que, embora tenha sido usado pela Igreja
cristã judaica original, era "simplesmente um título real", signifi-
cando nada mais do que "Messias", no sentido primitivo do Filho
esperado de Davi.' ' Mas as evidências não estão de acordo com
1

essas conclusões tão simples.

"FILHO DE DEUS"
No mundo helénico, onde não se levava muito a sério a distinção
entre o divino e o humano, "filho de Deus" poderia significar pouco
mais do que um homem muito bom (cf. Mc 15.19 com Lc 23.47:
"filho de Deus" tinha o sentido de "justo"). O mundo estava cheio
de "homens divinos" (thêioi ándres) que diziam ser filhos de Deus
e eram até mesmo adorados como manifestações da divindade (cf.
At 8.10; 12.22; 14.11 s.; 28.6). E o imperador, naturalmente, era
divi filius. Essa linguagem baseia-se na antiga crença grega de
que os homens descendem fisicamente dos deuses; reis, filósofos,
sacerdotes e justos tinham seu ser em virtude da ascendência divina
(cf. At 17.28). É enorme a distância que vai entre esse pensamento
e a crença na criação do homem por Deus. Dificilmente poderíamos

(1) V e r W . B o u s s e t . K-yrios C h r i s t o s , 1913, E T , 1921, 52 ss.; R. B u l t m a n n , Theo-


logy of the New Testament, I, 50; R. H . F u l l e r faz u m a refutação crítica desses
pontos d e vista e m The M i s s i o n a n d Achievement of Jesus, 80-95; V . T a y l o r , Tíie
Names of Jesus, 1953, 59-65.
entender que os cristãos, mesmo os helénicos, chamassem Jesus de para que me sirva" (Êx 4.23). Os profetas lamentam a desobediên-
"filho de Deus" porque o tivessem confundido com algum dos "filhos cia de Israel e a falha conseqüente no cumprimento do chamado à
de Deus" gregos, do tipo de Simão, o mágico, ou Elimas, ainda filiação divina. A parábola de Jesus dos Dois Filhos em Mt 21.28-31
menos do tipo de Calígula ou de Herodes Agripa, ou dos inconstan-
ilustra o conceito bíblico de filiação. A definição básica de filho de
tes filósofos estóicos. O kérygma dos documentos do NT evidencia
que não era assim. Mas o título "Filho de Deus" poderia muito Deus, não importando qual tenha ela sido antes da obra profética
bem ter sido empregado nas igrejas gentílicas porque lhes era in- de demitização das antigas lendas do culto, diz que êle é "aquele
teligível; teria sido acompanhado de instrução a respeito do seu que faz a vontade justa de Deus", decorrendo do ponto de vista
significado cristão. É preeminente no quarto Evangelho, em Paulo, hebraico que considera a filiação como obediência — conceito forte-
Hebreus e nas Epístolas de João. Não ocorre nas pastorais, em Tiago, mente acentuado nos livros da Sabedoria. É a doutrina hebraica que
em I e II Pedro (a não ser na citação de II Pe 1.17), em I I João e reaparece no ensino do NT a respeito da filiação de Cristo, não
em Judas; nc Ap somente em 2.18 e em At apenas em 9.20 (Paulo podendo ter sido inventada pela "comunidade helénica".
prega que Jesus é o Filho de Deus) e na citação do SI 2.7 em 13.33. A idéia da paternidade de Deus não é muito importante no AT,
V. Taylor afirma que em João, Paulo e Hebreus ocorre em pas-
embora não lhe seja desconhecida (e.g., Dt 32.6; SI 103.13; Is
sagens de forte caráter doutrinário, parecendo estar associado mais
com o ensino do que com o culto: "os primeiros cristãos criam fer- 63.16; 64.8; Ml 3.17) ; o israelita individual não tinha o costume
vorosamente no "Filho", mas invocavam "o Senhor".(2) de chamar Deus seu Pai, considerando-o, entretanto, Pai de Israel,
como nação. Há, portanto, algo original e característico no ensino
O significado de "Filho de Deus" no NT baseia-se, como have- de Jesus a respeito de Deus como pai de cada discípulo. Jesus, natu-
remos de ver, no uso característico do AT. É de quatro tipos, embora ralmente, não transmitiu a noção liberal protestante de que Deus
a expressão nem sempre se verifique. No antigo conceito mitológico, é Pai de todos os homens qua homens e que todos eles, conseqüente-
os anjos são "filhos de Deus" (Gn 6.2; Jó 1.6; 38.7) : sua obediên- mente, são irmãos ("a essência do cristianismo", de Harnack) ;
cia é questão de primeira importância. Em segundo lugar, o rei é Deus somente é Pai dos que entram no seu reino e aceitam a obe-
chamado muitas vezes de filho de Deus, e.g., II Sm 7.14: "Eu lhe diência de filhos por meio da fé e do arrependimento. Os homens
serei por pai, e êle me será por filho". O mais importante exemplo podem vir a ser filhos de Deus em virtude da filiação singular de
desse tipo, a julgar pela freqüência com que aparece no NT, é SI
Cristo, mas nunca por causa de dotes morais ou esforços próprios*.
2.7: "Tu és meu filho, eu hoje te gerei". É, sem dúvida, adaptação
hebraica de um hino babilónico para a entronização do rei; este O ensino de Jesus sobre Deus como Pai dos crentes individuais pro-
representa o papel do Homem Primitivo que fora o primeiro gover- cede de sua própria consciência de filiação. Estava acostumado a
nador do mundo (cf. Gn 1.26-28; SI 8) ; mas na versão hebraica o chamar Deus de 'abba ( " P a i " ) , como um filho que fala com seu pai
rei o é por adoção e não por procriação. Nesse Salmo, o Ungido
<3) terreno. Não era prática judaica nos dias de Cristo; os judeus diri-
do Senhor, o rei posto sobre o santo Monte Sião, é declarado filho giam-se a Deus, litúrgicamente, como 'abbi (meu p a i " ) , sem empre-
de Deus (cf. também SI 89.26 s.). Não seria preciso acrescentar que gar a forma familiar 'abbaS^ Mas o emprego desse 'abba tão
a obediência do rei à lei divina era o critério pelo qual a realidade íntimo, por Jesus, (Mc 14.36; cf. Lc 11.2) deixou impressão tão
de sua soberania seria medida: caso desobedecesse não seria rei. indelével na mente dos discípulos que não o traduziram para o grego
Em terceiro lugar, na literatura posterior, os justos são chamados (Rm 8.15; Gl 4.6). Embora os Evangelhos sejam tão reticentes
filhos de Deus (e.g., Eclesiástico 4.10; Sabedoria 2.18; Salmos de sobre a vida interior de Jesus, não nos deixam dúvida sobre a cons-
Salomão 13.8; 17.30; 18.4; cf. Lc 6.35; Mt 27.43), porque obe- ciência que tinha de sua relação especial com o Pai. O emprego de
decem como filhos. Em último lugar, mas não menos importante, 'abba torna difícil negar que Jesus se considerasse, de modo singular,
Israel é considerado filho de Deus: "Israel é meu filho, meu primo- Filho de Deus, ou supor que a Igreja tenha derivado a idéia de sua
gênito" (Êx 4.22) ; "Quando Israel era menino, eu o amei; e do filiação de outra fonte que não êle mesmo. Sabia que recebera mis-
Egito chamei o meu filho" (Os 11.1). Em todo o AT a virtude são e tarefa especial de Deus; concebe sua resposta em termos bíbli-
característica do filho é a obediência à vontade do pai, de tal modo cos, a saber, filiação e obediência. Israel fora desobediente à vocação
que na vocação (ou adoção) de Israel, faz-se a promessa da obe- de ser filho de Deus: Cristo torna-se o único Israel de Deus em
diência (Êx 24.7) ; assim foi dito a Faraó: "Deixa ir meu filho,

(2) Op. cií., 57. (4) V e r H . F. D . S p a r k s , " T h e D o c t r i n e of t h e D i v i n e F a t h e r h o o d in the


G o s p e l s " , e m Studies in the Gospels, e d . D . E . N i n e h a m , 241-62.
(3) V e r A . B e n t z e n , King and Messiah, 16-20.
(5) V e r G. K i t t e l e m TV/NT, I, 4 ss.
obediência e somente o Filho a presta perfeitamente ao Pai. A outra
virtude de sua obediência singular — "contudo, não seja o que eu é São Marcos 13.32: "Mas a respeito daquele dia ou da hora nin-
quero, e, sim, o que tu queres" (Mc 14.36). É, então, de maneira guém sabe; nem os anjos no céu, nem o Filho, senão somente o
única, o Filho de Deus. P a i " — uma das passagens "fundamentais" para Schmiedel, visto
Jesus é o Filho de Deus no sentido em que é êle o Novo Israel que ninguém teria posto tal confissão de ignorância na boca de
e não segundo o conceito helénico de thêioi ándres. Foi êle mesmo Jesus.< > O emprego absoluto de "Filho" numa passagem que certa-
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que assim se considerou pela primeira vez; foi êle que relatou a mente não foi produzida literariamente pela "comunidade helénica"
experiência de seu batismo e da tentação no deserto ensinando aos atesta que Jesus, de fato, usou o termo. Torna-se ainda mais pro-
discípulos o que demonstravam. Ambas expõem o que significa vável porque, considerando-se o Ungido do Senhor, o título "Filho
dizer que Jesus é Filho de Deus. O Filho amado em que Deus se de Deus", segundo as evidências que existem, teria conotações mes-
compraz (Mc 1.11; cf. Mt 3.17; Lc 3.22) não é apresentado apenas siânicas na época; cf. Mc 14.61: "És tu o Cristo, o Filho do Deus
em termos do SI 2.7 mas também de Is 42.1: "Eis aqui o meu Bendito?" e Mt 16.16: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo".
servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma Fora do NT a evidência mais antiga seria 2(4) Ed 7.28 s. (onde
se compraz".* ) Jesus concebeu sua filiação como a obediência per-
6 "meu filho, o Messias" talvez não seja original), 13.32,52; 14.9;
feita do Servo do Senhor. A repetida expressão: "Se és Filho de mas essa obra já pertence à última parte do primeiro século A.D.w
Deus", na história da tentação (Mt 4.3,6; Lc 4.3,9), chama a aten- São Paulo emprega a expressão "Filho", ou "Filho de Deus",
ção para o fato de ser a filiação de Cristo idêntica à obediência do em passagens doutrinárias; alguém já disse que seria possível
Servo. Vê-se, pela própria forma da narrativa dos Evangelhos, que reconstruir a partir daí uma declaração confessional completa. O
é a obediência do Novo Israel. Como o antigo Israel, o "filho" que Evangelho está interessado no Filho de Deus (Rm 1.3 s., 9 ) , sendo
Deus chamara do Egito, e fora batizado no Mar Vermelho e tentado o tema da pregação de Paulo ( I I Co 1.19); Deus enviou o seu Filho,
no deserto, o Messias, Filho de Deus, é também batizado e tentado; nascido de mulher judia, para que fôssemos seus filhos adotivos
não importando nosso ponto de vista sobre a historicidade da fuga (Gl 4.4 s.); embora êle fosse o objeto do amor de Deus (Cl 1.13),
para o Egito (Mt 2.13-15), podemos descobrir na citação que Ma- Deus não o poupou (Rm 8.32), para que fôssemos reconciliados por
teus faz de Os 11.1 (Mt 2.15) profunda verdade teológica. O Novo meio dele (Rm 5.19) e conformados à sua imagem (Rm 8.29), até
Israel é chamado do "Egito" para estabelecer-se nova e melhor atingirmos a unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho (Ef
aliança, destinada a superar a incapacidade humana no cumprimento 4.13). Na comunhão do Filho de Deus ( I Co 1.9) aguardamos a
da condição essencial da obediência. Através do ministério de Jesus parousía ( I Ts 1.10) e o dia em que todas as coisas lhe estiverem
somente os demônios, com sua intuição sobrenatural (Mc 3.11; sujeitas, sujeitando-se também êle, "para que Deus seja tudo em
5.7), reconhecem a filiação do Senhor (segundo a narrativa de todos" ( I Co 15.28). Tal é o kérygma do cristianismo apostólico
Marcos), embora tenha sido afirmada na presença de três teste- apresentado com o auxílio de um termo que, sendo familiar aos
munhas escolhidas pela voz que viera da nuvem na transfiguração: gentios no contexto das crenças religiosas populares helénicas, se
"Este é o meu filho amado" (Mc 9.7) — as mesmas palavras que tornou instrumento de instrução missionária.
Jesus empregaria na parábola dos Lavradores Maus: ho hyiós mou
ho agapetós, (Mc 12.6). O antigo Israel é rejeitado, não mais sendo Em Hb a expressão "Filho", ou "Filho de Deus", ocorre cerca
o "filho" amado de Deus; o ato final da desobediência é a morte do de doze vezes — quatro vezes mais do que os títulos de kyrios, em
filho, a quem certamente se aplicariam as palavras: "Respeitarão a contradição com o uso paulino. É bastante pronunciada a ênfase
meu filho" (Mc 12.6). Duas passagens sinóticas preocupadas com bíblica sobre filiação no sentido de obediência. A cristologia de
o ensino de Jesus mostram-no designando-se Filho de Deus. É o Hebreus erige-se sobre o SI 2.7 (cf. Hb 1.5; 5.5), sendo, toda, uma
dito " Q " de Mt 11.27 = Lc 10.22 ("Ninguém conhece o Filho exortação a que "conservemos firmes a nossa confissão", Jesus, o
senão o P a i " ) , o qual como já vimos, > é a afirmação caracteristi-
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Filho de Deus (4.14). Como Filho de Deus, o lugar de Jesus é
camente hebraica de que o verdadeiro conhecimento de Deus per- superior ao de Moisés ou dos anjos, embora sua Filiação não seja
tence apenas ao Filho de Deus, porque o conhecimento vem pela uma posse independente de Deus, mas a expressão cabal da obediên-

(8) Cf. o a r t i g o d e P . W . S c h m i e d e l , " G o s p e l s " , Ene. Bib. I I , 1881: "Passagens


(6) A r e f e r ê n c i a de M c 1.11 de I s 42.1 b a s e i a - s e n u m a t r a d u ç ã o q u e n ã o é
a dos L X X e m q u e e m l u g a r d e pais t e m o s hyiós e de efclektós, o g o p e í ó s ; v e r absolutamente fidedignas" ... " o s f u n d a m e n t o s de urna v i d a d e J e s u s verdadera-
C. H. D o d d , A c c . S c r i p . , 89; O . C u l l m a n n , Baptism in the New Testament, E T , 1950, mente científicos".
16-18. (9) Cf. S t r a c k - B i l l . , I I I , 15-22.
(7) Supra, 45s.
cia perfeita à vontade divina: "Embora sendo Filho aprendeu a do Senhor (Is 42.1, citado explicitamente em Mt 12.18); são óbvias
obediência pelas coisas que sofreu e. tendo sido aperfeiçoado, tor- as conseqüências para o conceito neotestamentário de Cristo como
nou-se o Autor da salvação eterna (da era vindoura) para todos os o Novo Israel.
que lhe obedecem" (5.8 s.; cf. 2.9 s.; Fp 2.8: "obediente até à
morte"). "SENHOR"
O caráter bíblico da filiação como obediência aparece vivamente No grego secular kyrios poderia simplesmente indicar respeito
no quarto Evangelho. O evangelista dá muita ênfase à categoria de ("Sr.") ou ainda "mestre", "proprietário" de trabalhadores, escra-
"Filho de Deus"; o Evangelho todo, diz-nos, foi escrito para que vos, etc. Há diversos exemplos nos Evangelhos, e.g., Mt 21.30;
crêssemos que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus (Jo 20.31; cf. 27.63; Mc 7.28 (que dizer de 11.3?); Lc 16.3-8; Jo 20.15 (cf.
11.27). A parte mais profunda de seu ensino teológico expressa-se com v. 13). Kyrios seria o equivalente natural de rabbi ou didás-
em termos da relação Pai e Filho. O Filho está em completa união kalos. Mas no mundo helénico era também empregado em sentido
com o Pai na tarefa de trazer vida e julgamento, sendo o significado religioso para denotar divindades dos cultos de mistérios (cf. I Co
8.5 s.: Theòi pollòi kài kyrioi pollói) e, naturalmente, tornou-se um
de sua pessoa e obra posto em termos de filiação divina. O conceito
título do imperador divino, e até mesmo de um tirano degenerado
de filiação conota a unidade perfeita de Cristo com o Pai, estabele- como Herodes. Antes do término do primeiro século o imperador já
cida na base da obediência perfeita do Filho, cuja comida e bebida recebera o título oficial de Dominus et Detis noster. V. Taylor, no
é fazer a vontade do Pai (Jo 4.34) : "Eu faço sempre o que lhe decurso de excelente estudo sobre o tema/ ' cita A. Deissmann: 12

agrada" (8.29; cf. 10.36-38) : "Não procuro a minha própria von- "Pode-se afirmar com certeza que, quando o cristianismo surgiu,
tade, e, sim, a daquele que me enviou" (5.30; cf. 6.38; 17.4). O "Senhor" era um predicado divino conhecido de todo o mundo orien-
conceito joanino de filiação é bíblico, nada tendo a ver com os mitos t a l " / ' Era uma palavra disponível aos pregadores da missão aos
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pagãos a respeito de "filhos de Deus". gentios, cuja tarefa principal consistiria em mostrar aos converti-
dos porque havia para os cristãos apenas um Senhor, Jesus Cristo
A expressão particularmente joanina ho monoguenés huiós em- ( I Co 8.6). Atos, Paulo e, em geral, o NT,d*) demonstram abundan-
prega-se em relação a Cristo no NT somente em Jo 1.14,18; 3.16,18; temente o amplo uso de Kyrios na Igreja do primeiro século: apare-
I Jo 4.9 (em Lc 7.12; 8.42; 9.38; também a respeito de Isaque em ce só ou em combinação com "Jesus" e "Cristo" — "nosso Senhor",
Hb 11.17, não tem sentido teológico). É sinônima de agapetós que "o Senhor Jesus", "nosso Senhor Jesus Cristo", "Cristo Jesus nosso
Senhor", "o Senhor Cristo", etc. Podemos concluir que era empre-
aparece nos sinóticos (Mc 1.11; Mt 3.17; Lc 3.22, e Mc 9.7; cf.
gada universalmente na liturgia e na catequese. Para os cristãos
12.6), visto que tanto monoguenés como agapetós traduzem nos L X X de língua grega o fato de Kyrios representar Javé e Adonai nos L X X
a mesma palavra hebraica que designa "único". O fato de agapetós acrescentar-lhe-ia uma dimensão misteriosa de significado.
ter sido usada para o único filho de Abraão explica, sem dúvida, sua
aplicação a Cristo, o Cordeiro de Deus (LXX, Gn 22.2,12; Jo 1.29, Apesar disso não devemos supor (com W. Bousset) que o título
36) e também sua importância nas descrições sinóticas do batismo Kyrios tenha sido dado a Jesus pela Igreja gentílica, por exemplo,
deJesus,* ' onde tem o sentido de "meu único filho".O-D Da mesma
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em Antioquia. Temos em I Co 16.22 evidência contrária, quando
forma monoguenés quer dizer "amado" para São João, pois êle pro- Paulo insere a fórmula litúrgica aramaica, Mar an atha, "o Senhor
cura ressaltar a verdade de que "o Pai ama o Filho" (Jo 3.35; 5.20; vem" — fórmula possivelmente traduzida em Ap 22.20 por Amén,
10.17; 15.9; 17.23-26). Mas deixa claro que a filiação de Cristo érchou, Kyrie. Esse versículo é suficiente para provar que o título
é única em virtude da relação que tem com o Pai, enquanto nós somos "Senhor" não foi inventado pela comunidade helénica. É provável
filhos pela ecsousía de Cristo (Jo 1.12). Nas versões gregas do que a frase Óntos eguérthe ho Kyrios (Lc 24.34) também fosse uma
AT ho agapetós designa Israel (cf. ho eklektós) e também o Servo fórmula litúrgica aramaica. O termo aramaico Mar (senhor) sem-
pre leva consigo um sufixo pronominal como, por exemplo, Mari
(meu senhor), Maran (nosso Senhor); segundo o Talmude, é possí-
(10) V e r infra, 180.
(11) Cf. C. H . T u r n e r , JTS, Vol. X X V I I , 1926, 113 ss. S o b r e agapetós como
(12) The Names of Jesus, 40.
título distinto, "o Amado", e . g . , E f 1.6; Ep. Barn. 3.6; 4.3,8; cf. C l 1.13, v e r J.
(13) Light from the Ancient East (ET, 2. a
e d . r e v i s t a , 1927), 350.
A r m i t a g e R o b i n s o n , St. P a w l ' s Epistle to the Ephesians, 1903, N o t a A d i c i o n a l , 229:
(14) O s únicos l i v r o s onde a palavra kyrios n ã o se e n c o n t r a s ã o Tito e as
"O A m a d o " como Título Messiânico".
epístolas j o a n i n a s ; v e r p o r m e n o r e s e estatísticas e m V - T a y l o r , o p . cit., 41-5.
vel que os rabinos fossem respeitosamente cumprimentados com a de Deus e Senhor, foi preciso reconhecer imediatamente sua pre-
expressão Mari. us> Assim, se concluíssemos que Jesus fosse sau-
existência. Se êle fosse igual a Deus, divino, não poderia ter origem
dado pelos discípulos com essa palavra, o título não estaria sendo
empregado no sentido cristológico desenvolvido. Somente Lucas temporal; teria passado pelo fenômeno do nascimento e experimen-
entre os sinóticos sugere que Kyrios empregava-se comumente nos tado a vida humana, mas não poderia ter começado a existir somente
dias do ministério de Jesus (cf. seu freqüente: " E o Senhor naquele momento particular do reinado de Herodes, o Grande. Tudo
d i s s e . . . " ) . Por outro lado, os discípulos entendiam que Jesus citara nele levava à crença na preexistência, sua pessoa, mensagem e obra.
o SI 110.1 em relação a si mesmo e falara do Messias como "Senhor" Não teria sido o que a experiência cristã da salvação declarava que
(Mc 12.35-37) ; esse testimonium exerceu considerável influência êle era, se não tivesse escolhido fazer-se homem, sendo Deus; e o
no desenvolvimento da cristologia da Igreja primitiva.d > Além 6 Evangelho cristão perderia sua originalidade, fascínio e sentido, se
disso os Evangelhos mostram Jesus ensinando aos discípulos a exis- 0 divino Filho não tivesse escolhido voluntariamente a forma de
tência de uma relação kyrios-áôulos, entre eles (Mt 10.24 s.; Lc escravo e se fizesse obediente até à morte de cruz (Fp 2.5-8; II Co
17.5-10; Jo 13.13 s.; 15.15,20), de tal modo que nos dias de seu 8.9). "Não como nós, escolheu a pobreza do nascimento e a humi-
ministério veio a ser considerado por eles como o Senhor de suas lhação da vida. Consentiu não somente em morrer mas também
vidas. Contudo, o verdadeiro significado do Senhorio de Cristo só em nascer... Seu sacrifício começou quando veio ao mundo, e sua
foi alcançado depois da ressurreição, pois nesse evento tiveram a cruz pertencia ao cordeiro morto antes da fundação do mundo" (Ap
certeza de que Deus o fizera Kyrios e Christós, êle que fora crucifi- 13.8; cf. I Pe 1.19 s.).<i»
cado ( A t 2.36). Mas mesmo assim sua fé no senhorio de Cristo A idéia de preexistência não era totalmente alheia ao judaísmo
estava presa às experiências vividas nos dias de sua carne, quando rabínico; era a maneira poética de sublinhar a importância religiosa
responderam ao seu chamado, seguiram-no e mostraram-se obedien- de alguma coisa; a Torá, o Templo e o Messias já tinham sido pen-
tes à sua vontade. Não tinham eles testemunhado seu senhorio sobre sados assim.* ) Havia, contudo, uma realidade preexistente que se
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os maus espíritos e observado sua autoridade para com homens e levava muito a sério: a sabedoria de Deus; identificar qualquer coisa
multidões? Não se pode negar que o testemunho apostólico sobre o com a sabedoria preexistente era atribuir-lhe a mais alta realidade
senhorio de Cristo baseia-se na realidade histórica, na experiência divina possível depois de Deus. Na época do NT era lugar-comum
real dos apóstolos que lhe tinham submetido as vidas em obediência,
entre os adeptos do judaísmo rabínico dizer que a Torá era idêntica
aceitando-o como seu verdadeiro Senhor. Fora de tal realidade
histórica seria difícil explicar como o senhorio de Cristo tornou-se à sabedoria de Deus, aplicando-se à lei tudo o que fora dito sobre
na Igreja primitiva o artigo central — e, talvez, único por algum a sabedoria. Entende-se então que quando escritores do NT, como
tempo — da confissão de fé. É provável que o mais antigo credo Paulo e João, identificam Cristo com a sabedoria de Deus, reivindi-
batismal tivesse sido a simples fórmula: "Jesus é Senhor" (cf. cam para êle a mais alta categoria possível, pois nada a excedia no
Rm 10.9; I Co 12.3; Fp 2.11).<i?) Mesmo se Maran e Kyrios judaísmo rabínico. Queria dizer que Cristo superara a Torá como
fossem expressões usadas unicamente depois da ressurreição, ainda fonte de justiça, santificação e redenção, como Paulo o declara em
assim estariam baseadas no senhorio do Jesus da história, experi- 1 Co 1.30; ou, no dizer de São João, Cristo e não a Torá é o pléroma
mentado na vida dos discípulos. de toda a graça: " A lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça
e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo" (Jo 1.16 s.; cf. 1.14).
O pléroma Cháritos kài elethéias não é a lei de Moisés, como pensa-
vam os judeus rabínicos, mas Jesus Cristo.
A SABEDORIA DE DEUS Era natural que a Igreja apostólica considerasse sophía-lógos
Os títulos até agora considerados (Messias, Filho do Homem, a mais alta categoria para a interpretação da pessoa de Cristo. A
Filho de Deus e Senhor) não contêm, necessariamente, a idéia da Igreja primitiva não herdou suas categorias a partir das especula-
preexistência de Cristo, se rejeitarmos o ponto de vista de que o ções religiosas gregas, mas das Escrituras do AT, segundo a com-
conceito de Jesus do Filho do Homem tenha caráter "enoquiano". preensão do judaísmo rabínico; este fora influenciado considera-
Mas, quando a Igreja começou a adorar Jesus Cristo como Filho velmente pelo pensamento helénico, sendo o ensino paulino e joanino
a respeito de sophía e lógos exemplo característico da teologia rabi-
(15) V e r A . E. J. R a w l i n s o n , The New Testament Doctrine of Christ, Bampton
L e c t u r e s de 1926, N o t a d e A p ê n d i c e n. 1, 231-7; t a m b é m pâgs. 37 e 76-9 d o texto. as) A citação é d e P . T . F o r s y t h , P e r s o n and Place of Jesus Christ, 1909;
s e x t a edição, 1948, 271.
(16) Cf. C. H . D o d d , A c c . S c r i p . , 34 s.
(19) V e m W . D . D a v i e s , PRJ, 162; W . L . K n o x , St- Paul and the Church of
(17) Cf. O . C u l l m a n n , The Earliest Christian Confessions, E T , 1949, 41 e 55-62.
the Gentiles, 1939, 112 s.
nica cristianizada do período helénico, i.e., do pensamento judaico Assim, enquanto o conceito judaico rabínico da sabedoria nada tinha
da Palestina cativo à obediencia de Cristo ( I I Co 10.5). O desen- em comum com as mitologias gnósticas sobre emanações (mesmo
volvimento de uma cristologia baseada no conceito de sabedoria do se uma delas se chamasse Sophía), poderia facilmente ser entendido
AT, que preparou categorias de pensamento aptas a expressar no por algum filósofo "temente a Deus", como descrição poética do
NT a doutrina apostólica da pessoa de Jesus Cristo, é bastante conhe- papel representado pela razão (lógos) imanente dos estóicos: "Efe-
cido, podendo ser resumido em poucas palavras. tivamente há nela um espírito de inteligência, santo, único, multí-
A mais antiga personificação da sabedoria (hokmah, sophía) plice, sutil, discreto, ágil, imaculado, claro, suave, amigo do bem,
encontrada na literatura chamada por esse mesmo nome acha-se em penetrante, a quem nada pode impedir, benéfico, amante dos homens,
Jó 28.12-27, sendo pouco mais do que uma ênfase poética sobre a benigno, estável, constante, seguro, que tudo pode, tudo vê, e que
qualidade divina da sabedoria que opera no universo e na conduta encerra em si todos os espíritos, inteligente, puro. Porque a sabe-
da vida humana. Mas em Pv 8.22-31 ela é personificada e substan- doria é mais ativa do que todas as coisas ágeis, e atinge tudo por
cializada como instrumento de Deus e arquiteto ("mestre-de-obra", causa da sua pureza" (Sabedoria 7.22-24, versão brasileira do Pe.
L X X : harmódzousa, harmódzo, "juntar", especialmente a obra do Matos Soares). Havia muito em comum entre a sophía judaica e o
marceneiro) na criação e também regozijando-se no mundo (oikou- lógos dos estóicos; ambos encontram-se no judaísmo da dispersão.
méne) habitável, dando vida e salvação à humanidade. Eclesiástico Não temos o propósito de investigar até que ponto o autor do Livro
24.1-34 dá-nos um conceito mais elaborado: aquele que criou a sabe- da Sabedoria (c. 50 a.C.) se deixou influenciar pelo pensamento
doria antes do início do mundo, fêz para ela um tabernáculo em Israel grego, mas não há dúvida de que qualquer judeu educado de Alexan-
e estabeleceu-a em Sião (vs. 8-10). O v. 33 evidencia que pelo começo dria dificilmente ficaria imune às idéias filosóficas helénicas. Não
do segundo século a.C. a sabedoria já tinha sido identificada com a devemos imaginar que houvesse distinção radical entre o judaísmo
Torá, "a lei que Moisés nos ordenou por herança". Desde então era
da Palestina e o grego; pelo contrário, encontravam-se constante-
comum no judaísmo rabínico considerar a sabedoria e a Torá iguais,
sendo esta, portanto, o instrumento pré-existente da criação, sem o mente, tendo os rabinos da Palestina inúmeras oportunidades de
qual nada teria sido feito; e na verdade, tudo foi criado por causa aprender a respeito do Logos estóico ou de Filo. Havia muito inter-
da ToráS 2Q)
A essas passagens acrescentaríamos ainda Sabedoria câmbio; estudantes gregos, digamos, de Tarso, estudariam em Jeru-
7.15-8.1, onde ela recebe a designação de "artífice de todas as salém sob a orientação de um mestre como Gamaliel, não sendo o
coisas" (pánton techenitis) (7.22), "clarão da luz eterna" (apáu- tráfico das idéias numa só direção.* > 21

gasmá estin photós aidíou) (7.26). Além disso tem também sua parte Foi assim que os mestres da Igreja tinham à mão um conceito
na esfera da salvação: "Através das gerações, transfunde-se nas escriturístico e rabínico quando lhes foi necessário articular a dou-
almas santas e forma os amigos de Deus e profetas" (7.27). trina da divindade preexistente de Cristo. É interessante notar que
não foram as personalidades do NT que os estudiosos geralmente
Por volta do primeiro século A.D. o judaísmo já havia desen- associam com Alexandria que identificaram Cristo com a sophía
volvido a doutrina da sabedoria com nuanças comuns ao conceito Theôu, a saber Estêvão (At. 7.1-53) e o escritor aos Hebreus. A
estóico do lógos, ou razão imanente das coisas. A doutrina judaica palavra sophía não ocorre na Epístola aos Hebreus, embora seu
surgira logo depois do exílio, quando Javé era considerado o criador autor tenha sido, segundo opinião geral dos eruditos, um judeu
do universo, absolutamente transcendente, todo-poderoso e santo, helenista. Paulo e o quarto evangelista, ambos educados no rabi-
com o propósito necessário de suprir o judaísmo com o conceito da nismo da Palestina, é que usam a categoria da sophía Theôu. Numa
imanência divina, embora expresso de modo mais poético do que de suas passagens, São Paulo declara explicitamente que Cristo é
metafísico. Foi de valor incalculável: expressava a convicção judaica o poder de Deus e a sabedoria de Deus ( I Co 1-24), i.e., Deus em
do significado cósmico da moral numa época em que o conceito da ação, a sophía Theôu da literatura da sabedoria, denominado aí como
transcendência podia degenerar na crença num Deus além do bem "exalação (vapor, atmís) do âynamis Theôu" (Sabedoria 7.25).
e do mal (cf. SI 73.11; Jó 22.12 s.) e anulava as extravagâncias Paulo procura explicar que não se refere à sophía gnóstica mito-
de eóns e emanações, intermediários e "seres de luz", produzidos lógica; não se preocupa com a sabedoria mundana ou com a espe-
em profusão pelos mestres religiosos helénicos, em seus esforços
para encurtar a distância entre o mundo humano e o reino divino. (21) Cf. D . D a u b e , The New Testament and Rabbinic Juâaism (1956), i x : "A
distinção m u i t o a c e n t u a d a e n t r e o j u d a í s m o r a b í n i c o e o h e l é n i c o n o p e r í o d o d o
N T está s e n d o a b a n d o n a d a posto q u e m u i t a s i d é i a s h e l é n i c a s t i n h a m sido a d o t a d a s
^ ^ ^ ^ S ^ ^ ^ ^ ^ r a b í n Í C
° S Ô b r e a
Sabedoria e a h á m u i t o p e l o r a b i n i s m o , e q u e o p r o c e s s o d e assimilação, e m b o r a tivesse d i m i n u í d o
n ã o se e s t a n c a r a c o m p l e t a m e n t e " . Cf. t a m b é m p. 86.

.156
culação helénica: tal sabedoria humana é loucura diante de Deus.
Bem o demonstrou a "palavra da cruz", tendo Cristo sido revelado
como a sophía Theóu ( I Co 1.18-31). Jesus Cristo fêz-se para nós desejoso de apresentar o Evangelho cristão em forma aceitável aos
a sabedoria que procede de Deus, sendo, por isso mesmo, justiça, "pagãos educados"; e outro, autor do último livro do NT, judeu
santificação e redenção (1.30). O interesse de Paulo aqui não é fanaticamente devotado aos temas apocalípticos, quase incapaz de
especulativo ou metafísico; preocupa-se em convencer os coríntios escrever o grego, entregue às fantasias milenaristas de tipo judaico,
da inutilidade de procurar resolver os intrincados problemas da mito- revestidas de certo verniz cristão. Mas não estamos preocupados
logia e da especulação, que são "sabedoria deste mundo", agora que com o problema literário: poderia ter havido toda uma escola de
já lhes viera a verdadeira sophía Theóu. Na carta aos Colossenses, diferentes "Joãos" por detrás da literatura joanina do NT. Nossa
foi-lhe necessário acusar com mais veemência as especulações gnós- preocupação é mostrar a existência de certa unidade de visão teo-
ticas, recorrendo mesmo à literatura da sabedoria para esse propó- lógica nessa literatura, especialmente no que tange à doutrina da
sito. Talvez quisesse, inconscientemente, dar à teologia da sabedo- Palavra de Deus.* ' A palavra "João" significará, então, a mente
22

ria a tarefa de expulsar das igrejas gentias toda a sorte de espe- comum que anima a literatura joanina, sem afirmar com ela a auto-
culações e fantasias, como já lhes expulsara do judaísmo em que ria de um indivíduo (o filho de Zebedeu, João de Éfeso, etc.) ou
havia sido criado. Cristo é "a imagem do Deus invisível, o primo- de uma escola de mestres.
gênito de toda a criação; pois nele foram criadas todas as coisas...
Tudo foi criado por meio dele e para êle" (Cl 1.15-17). É a mesma No Novo Testamento lógos (quando usado tecnicamente) signi-
linguagem dos livros da sabedoria já citados, sendo muito significa- fica quase sempre a mensagem ou boa nova — proclamada por Jesus
tivo que Paulo em uma das duas grandes afirmações da preexistência (e.g., Mc 2.2; 4.14; Mt 13.19; Lc 5.1; 8.11) ou pelos apóstolos a
de Cristo (a outra é Fp 2.5-11) a empregue com tanta naturalidade respeito de Cristo (e.g., At 6.2; 13.5; I Co 1.18; II Tm 2.9; Ap
e presteza, sem citar diretamente, mas indicando de modo compreen- 1.9). Desde que o próprio Cristo é a palavra ou mensagem pregada
sível que essa linguagem se tornara o veículo do seu pensamento. pela Igreja, não está longe disso a literatura joanina quando o iden-
Habitava em Cristo o pléroma da divindade, assim como tinha estado tifica com a palavra de Deus — conceito que a teologia do A T passa
na sabedoria, segundo a literatura desse nome; habitava em Cristo à do NT, A palavra (hebraico, áabhar) na teologia do A T era
somatikôs, "corporalmente" (Cl 2.9). Conquanto a antiga sabedoria (como sabedoria ou espírito) um dos meios de se falar na atividade
tivesse residido em Israel e tabernaculasse no meio do povo (Ecle- criadora de Deus; Deus criara o mundo pela sua palavra. Não
siástico 24.8), a nova sophía incorporava-se em Cristo que era, cole- envolvia, originalmente, a substancialização da "palavra", e não era
tivamente, o verdadeiro Israel de Deus (Gl 6.16). Em Cristo estão necessário o emprego de letra maiúscula: Deus cria o mundo ao
ocultos todos os tesouros da sophía (Cl 2 . 3 ) . falar: "Disse Deus: Haja... e houve" (Gn 1.3,6 s., 9, 14, 20, 24
— as "seis palavras" da Criação). Não se pode imaginar maneira
mais notável ou menos antropomórfica de descrever o poder sobe-
A P A L A V R A DE DEUS rano de Deus de criar; transcende-se completamente o conceito de
São João é o único escritor do NT que descreve Cristo como um Deus que faz as coisas com as mãos; apenas pronuncia sua
Palavra de Deus (lógos Theóu), nomeada, assim mesmo, explicita- vontade e ela se faz: "Mandou êle, e foram criados" (SI 148.5;
mente, apenas no prefácio do Evangelho, ou "Prólogo", como geral- cf. SI 147.15-19; também SI 107.20; Is 55.11). "Os céus por sua
mente se denomina Jo 1.1-18. A tendência de alguns críticos atuais palavra se fizeram, e pelo sopro de sua boca o exército deles. Pois
do quarto Evangelho de considerar o prólogo uma helenização do êle falou, e tudo se fêz; êle ordenou, e tudo passou a existir" (SI
kérygma, ou pelo menos de ter sido uma tentativa de apresentar o 33.6,9). Mas a palavra do Senhor não age apenas na criação e na
Evangelho aos pagãos filosofantes do mundo helénico, traz dois ordenação providencial do mundo; é também o meio empregado por
resultados infelizes: Em primeiro lugar, obscurece a unidade e o Deus para comunicar a Israel a sua vontade salvadora: "Veio a
caráter bíblico do ensino joanino a respeito da sophía-lógos; e, em palavra de Deus a . . . " < 3) Assim, lógos Theóu, como sophía Theóu,
2

segundo lugar, leva à admissão geral de que há (pelo menos) dois


Joãos possuidores de mentalidades bastante diferentes. São resul-
tados que se relacionam mutuamente. A unidade misteriosa do pen- (22)
Rebirth
Cf. E. S t a u f f e r , New
of Images, cap. 1.
Testament Theology, 39-43, 58; A u s t i n Farrer, A

samento "joanino" enfraquece diante da suposição de que são dois (23) N o s l i v r o s proféticos os L X X e m p r e g a m s e m p r e l ó g o s p a r a traduzir
os autores com o nome de João — um, judeu helenizante, dono de a f r a s e ^familiar: " V e i o a p a l a v r a do S e n h o r " ; m a s nos l i v r o s históricos lógos e
mente filosófica, desprezando as noções milenaristas e apocalípticas, rema são u s a d o s i n d i s c r i m i n a d a m e n t e . T a l v e z s e j a interessante n o t a r que em
L c 3 . 2 : j ' v e i o a p a l a v r a d e D e u s a J o ã o " , e m p r e g a - s e rema; é p r o v á v e l que São
L u c a s n ã o t e n h a e m p r e g a d o lógos p o r q u e j á se t o r n a r a u m terminus technicus
cristão.
expressavam no judaísmo a atividade de Deus na criação, provi- sidade de se ir além das fontes do AT e dos materiais rabínicos para
dência, revelação e redenção. O judaísmo rabínico não precisava interpretar quaisquer escritos joaninos, que são plenamente hebrai-
desses dois conceitos, conservando-os, porém, porque se achavam cos e palestinos. < ' 24

nas Escrituras. A identificação óbvia de lógos com sophía já fora


feita muito tempo antes do NT, achando-se bons exemplos entre os São João segue a linha rabínica de pensamento: lógos-sophla-
escritores da sabedoria: "Eu saí da boca do Altíssimo" (Eclesiás- Torá. No princípio era o Verbo, o instrumento da atividade de Deus
tico 24.3) ; "Ela é uma exaltação do poder de Deus" (Sabedoria na criação do mundo (Jo 1.1; Gn 1.1 ss.; SI 33.6, e t c ) . A opera-
7.25) ; "Porque o Senhor dá a sabedoria, da sua boca vem a inteli- ção do Verbo é descrita no prólogo em termos que lembram a lingua-
gência e o entendimento" (Pv 2.6). Dizer que Javé criou os céus gem usada pelos escritores da sabedoria para expressar a parte da
e a terra "pelo sopro de sua boca" (i.e., palavra) (SI 33.6) é equa- sophía na criação e ordenação providencial do mundo. * > O con- 25

cionar a sabedoria criadora com a Palavra de Deus. ceito reaparece em Ap 3.14, onde Cristo é chamado he archè tês
ktíseos tôu Theôu, título oriundo de Pv 8.22 (cf. Cl 1.15, 18, protó-
Não sabemos exatamente por que São João escolhe lógos e evita tocos páses ktíseos... hós estin archè), onde arché deveria ser
sophía, embora afirmemos que o lógos de seu prólogo seja tanto o entendido como o princípio da criação e não, naturalmente, como a
lógos Theôu como a sophía Theôu das Escrituras do AT. Abstém-se primeira coisa criada. A designação de arché aparece novamente em
de sophía, provavelmente, porque era termo mal empregado no Ap 21.6 e 22.13, ressaltando o conceito joanino de Cristo como o
mundo helénico: não quer que se pense em Cristo e no Evangelho primeiro princípio e alvo da criação, o princípio e o fim (íò télos).
O prólogo do Evangelho chama a atenção para a atividade da saphía-
como se fossem mais um tipo de sophía humana contra o que São
lógos na criação do mundo, enquanto que o Apocalipse joanino apre-
Paulo tanto teve que advertir os seus convertidos. O vocábulo sophía senta Cristo não apenas como arché, mas também télos do processo
(ou nesse caso sophós) não se vê nos escritos joaninos a não ser nas do mundo. É importante não isolar o prólogo dos outros escritos
doxologias de Ap 5.12 e 7.12 (que bem podem ser citações de um hino joaninos, pois se o fizermos, perderemos a unidade global desse
cristão ou até mesmo de um hino ao imperador "divino") e nos pensamento.
versículos problemáticos de Ap 13.18 e 17.9. Da mesma maneira
o escritor da Epístola aos Hebreus também a evita, embora não tenha Naturalmente, a notável originalidade da doutrina joanina do
aversão alguma ao emprego de conceitos filosóficos gregos para lógos, que difere da sophía ensinada pelos escritores da literatura
interpretar a pessoa e a obra de Cristo, e, sem dúvida, pense no da sabedoria (para não mencionar o lógos impessoal de Filo e dos
Senhor em termos de sabedoria de Deus: a linguagem de Hb 1.1-3 estóicos) está contida na asserção assombrosa e simples de que ho
é decisiva, com reminiscências distintas de Sabedoria 7.26. Mesmo lógos sàrcs eguéneto (Jo 1.14). O lógos puro de Filo e dos filósofos
São Paulo emprega parcimoniosamente sophía Theôu, não obstante gregos, sendo divino, não poderia relacionar-se com a matéria má
ser um conceito fundamental na sua cristologia. Também podería- e com a carne corrupta; e nada demonstra mais claramente o caráter
mos procurar descobrir as razões que levaram São Paulo a não hebraico e bíblico do pensamento joanino do que a insistência na
usar o conceito de lógos Theôu, especialmente diante de sua doutrina encarnação do lógos, que não somente estava com Deus mas era,
da nova criação em Cristo. Mas só podemos fazer conjeturas. Tal- de fato, Deus (ou divino) (Jo 1.1). O lógos tomou corpo. Filo e
vez Apolo o tivesse advertido da tentativa de Filo para reconciliar os estóicos não poderiam jamais concebê-lo, e se o fizessem abstra-
Moisés e Platão por meio de sua doutrina do lógos, como princípio
divino da razão, a respeito do qual falaram as Escrituras, quando
interpretadas por alegorias corretas! Talvez evitasse o termo pelas (24) C. H . D o d d í ê z t r e m e n d o esforço p a r a e n c o n t r a r a f i n i d a d e s entre a l i n -

mesmas razões que levaram João a não usar sophía: suas conotações g u a g e m do quarto Evangelho e a de F ü o e do Corpus Hermeticum e também s e m e -
l h a n ç a s d e p e n s a m e n t o ( Í F G , e s p e c i a l m e n t e 276 s.; t a m b é m 10-73). É p r o v á v e l q u e
gnósticas. Mas o fato de João empregar lógos não significa que se incline a e x a g e r a r a s s e m e l h a n ç a s e a o m e s m o t e m p o p e r c a d e vista os m a i s
tivesse conhecimento de Filo; todas as tentativas feitas para des- notáveis paralelos c o m o pensamento apocalíptico judaico e judaico-cristão. É
cobrir paralelos verbais ao uso joanino servem apenas para encon- c u r i o s o e n c o n t r a r nesse g r a n d e l i v r o s o m e n t e q u i n z e r e f e r ê n c i a s a o A p o c a l i p s e d e
S ã o J o ã o n o índice, d e z d a s q u a i s são c o n s i d e r a d a s e m a p e n a s m e i a p á g i n a ( 2 3 1 ) .
trá-los no AT. É possível que João tenha escolhido a palavra lógos N o t a r , p e r contra, as a f i n i d a d e s entre o q u a r t o E v a n g e l h o e o Testamento dos Doze
por motivos apologéticos; seria compreensível aos intelectuais do Patriarcas e n u m e r a d a s p o r E. S t a u f f e r , New Testament Theology, Apêndice II,
mundo grego; o próprio judaísmo rabínico recebera influência dos 334-7. A s descobertas d e Q u m r a n i l u s t r a m o c a r á t e r j u d a i c o d o q u a r t o E v a n g e l h o
estóicos, influenciando-os também por diversas maneiras. Mas São ( v e r W . F . A l b r i g h t e m T í i e Background o} the New Testament and its Eschatology,
ed. W . D . D a v i e s e D . D a u b e , 153-71; t a m b é m R . E. B r o w n e m S t e n d a h l , SNT,
João não fala num lógos Theôu, ou em qualquer outro tópico cristo- 183-207).
lógico, que careça de elucidação em categorias gregas; não há neces- (25) V e r a lista d e p a r a l e l o s citada p o r C. H . D o d d , I F G , 274 s.
tamente, não o poderiam ter conhecido. Nem qualquer outra pessoa, a Luz do Mundo. A Tora, como diz sucintamente no prólogo, foi
diz São João, se certos homens não tivessem visto realmente com dada por Moisés; a realidade da graça nos vem através de Jesus
seus olhos o lógos vivo, ouvido suas palavras e tocado nele com suas Cristo (1.17). Grande parte das expressões do prólogo são réplicas
mãos, e ainda se outros não tivessem crido no testemunho destes à teologia rabíníca da Torá, concebida como agente de Deus na cria-
( I Jo 1.1-3). (É tremendamente errôneo afirmar, como freqüen- ção e governo do mundo.' ?) Mas esse papel que se atribuía à Torá
2

temente se faz, que o termo lógos somente aparece em seu pleno não passava de um conceito meramente poético, que não se levava mui-
sentido cristológico no prólogo do Evangelho; cl. também Ap 19.13). to a sério, enquanto que as palavras de São João a respeito do lógos
A verdade sobre a encarnação do lógos não é algo que pode ser encarnado em Jesus Cristo para a salvação do mundo não eram mi-
conhecido pela razão pura, mas somente por encontro histórico tológicas (como o mito de Platão do Demiurgo, no Timeu) : ho lógos
(eguéneto), A fé cristã não é, portanto, uma filosofia, mas um sàrcs eguéneto. A sabedoria, i. e., o próprio Deus em ação, torna-se
kérygma. , | carne e sangue, entra na história humana — é o que significa sares
neste contexto joanino.
O contexto onde está inserida a declaração de que o lógos se
fêz carne lembra-nos de vários temas dos livros da sabedoria:
sophía assentou seu tabernáculo em Jacó e encontrou sua herança O antigo escritor cantara a sabedoria que habitara em Israel:
em Israel (Eclesiástico 24.8). Israel, podemos dizer, possuía a kài ho ktísas me katépausen tèn skenén mou
Torá (i.e., sophía). Mas a rejeitou: o lógos veio para os seus (tá kài eipen En Iakob kataskénoson,
ídia), mas seu próprio povo (hoi ídioi) não o recebeu (Jo 1.11). kài en Israel katakleronométheti,
Lembramo-nos também de um outro poeta da sabedoria, cuja can- en skené haguía enópion autôu eleitóurguesa
ção está incorporada agora em Enoque 42. 1 s., que cantou a ma- kài hóutos en Sion esteríchthen.
neira como ela procurou um tabernáculo na terra: " A sabedo-
ria não encontrou lugar onde habitar; foi-lhe então designada mo- (Eclesiástico 24.8,10).
rada nos céus. A sabedoria veio viver no meio dos filhos dos ho- Como lemos em Baruque 3.29-37, ninguém precisa subir ao céu
mens, e não achou lugar de repouso; a sabedoria retornou aos céus para trazer os mandamentos (Torá) (cf Dt 30.12 s.), porque a sa-
e assentou-se entre os anjos". Assim São João considera Cristo, o bedoria veio à terra e conversou com os homens: Deus a "conce-
Verbo, que, rejeitado na terra, retorna à casa do Pai no céu, prepa- deu a Jacó seu servo, e a Israel seu amado". A metáfora da sabe-
rando lugar para os que o tinham recebido (Jo 14.2 s.). Pois al- doria "tabernaculando" em Israel baseia-se, naturalmente, nas his-
guns o receberam, "nascidos de Deus" (i.e., batizados; cf Jo 3.3, tórias do Pentateuco a respeito do tabernáculo no deserto onde a
5), com o direito de se tornarem filhos de Deus ( i . e . , os que pelo glória de Deus habitava entre os homens: " A nuvem cobriu a tenda
batismo se tornavam membros da Igreja, a família de Deus) (Jo da congregação, e a glória do Senhor encheu o tabernáculo" (Êx
1.12). No fundo desses pensamentos persiste o tema joanino do 40.34-38). Deus o prometera a Israel: "Porei o meu tabernáculo
verdadeiro e do falso Israel. Temos "os judeus que diziam possuir no meio de vós... Andarei entre vós, e serei o vosso Deus, e vós
a Torá, a sabedoria celestial que habitara em Israel; mas não eram sereis o meu povo" (Ly 26.11 s.). Vemos assim as fontes do con-
filhos de Abraão (Jo 8.39-44); cf. Ap 2.9: " A blasfêmia dos que ceito joanino de Deus "tabernaculando" entre os homens; skenóun,
a si mesmos se declaram judeus, e não são, sendo antes sinagoga de lit. "habitar como numa tenda", "acampar" ou (num neologismo)
Satanás" (também Ap 3.9). É somente em Cristo, o verdadeiro "tabernacular", que nos LXX representa a palavra hebraica
Israel, que habita a sophía Theôu. As reivindicações feitas pelos shakham, habitar (e.g., Jz 5.17), encontra-se no NT apenas no
rabinos em benefício da Torá aplicavam-se verdadeiramente a quarto Evangelho e no Apocalipse (Jo 1.14; Ap 7.15; 12.12; 13.6;
Cristo, a sophía encarnada de Deus. Os rabinos diziam que a Torá 21.3). Baseia-se na promessa de Deus de que "habitaria" ou "an-
era viva agora e no mundo vindouro; era, como a água, vida para daria" em Israel (Lv 26.11 s.; Ez 37.27; Zc 2.10; 8.3,8), cum-
o mundo. Era também pão, como o maná do céu, dado por Deus prida, segundo os autores da sabedoria, na sophía de Deus descida
para o sustento do mundo; e vinho. Suas palavras eram vida para entre o povo, concebida pelos rabinos como a Torá, a glória de Is-
o mundo.' ) São João contrasta a verdade de Cristo com as pre-
26 rael. Assim entendemos Jo 1.14: a promessa de Deus cumpria-se
tensões da Torá ao declarar que Cristo é a Vida, a Água Viva, o na pessoa de Jesus Cristo; as palavras de Eclesiástico 24.8 profe-
Verdadeiro Pão, Vide (cf. também o milagre de Caná, 2.1-11), e tizam a seu respeito: "o lógos-sophía se fêz carne, e habitou entre

(26) Ver referências em C. H . D o d d , IFG, 82-4. (27) V e r C. H . D o o d , I F G , 85 s.


nós (eskénosen en hemín), e vimos sua glória". São João insiste
que a dócsa de Deus se manifestou em Cristo diante dos discípulos s.,) ; e enquanto não chega o fim a espada do Evangelho divide as
(e.g., Jo 1.14; 2. 11; 17.5), assim como a glória de Javé enchera nações, segundo a resposta que dão à Palavra pregada (Ap 19.11-
o antigo tabernáculo (Êx 40.34). Não estamos longe do conceito de 16). A figura apocalíptica do Filho do Homem que vem para jul-
shekhinah * 2 8 )
: a assonância das palavras skenôun, shakham e gar e destruir os maus com "o sopro de sua boca" (sinônimo de
shekhinah faz com que uma sugira a outra. Quando São João es- "palavra", cf. SI 33.6, etc.) aplica-se geralmente à parousía ou ao
creve em Ap 7.15 que "aquele que se assenta no trono estenderá juízo final (cf. 2 (4) Ed 13.10 s.; I I Ts 2 . 8 ) ; baseia-se, em última
sobre eles o seu tabernáculo (skenósei ep' autóus)" está, prova- análise, na metáfora de Is 11.4: "Mas julgará com justiça os pobres,
velmente, fazendo alusão a Is 4.5 s. onde a coluna do Êxodo sugere e decidirá com eqüidade a favor dos mansos da terra; ferirá a terra
a cobertura de Israel pela shekhinah. com a vara de sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará o per-
verso". É muito usada por São João (cf. Ap 1.16; 2.12, 16; 19.15,
A "ida" e a "glorificação" de Cristo não significam que a pre- 21) embora a Igreja primitiva também a empregasse (cf Ef 6.17;
sença e a glória divina se tenham retirado do mundo; Cristo se faz Hb 4.12; Sabedoria 18.16). Surpreende-nos essa metáfora do jul-
presente no Parácleto (cf. Jo 14.18), e nos corações dos discípulos gamento do mundo pela palavra de Deus; mas simplesmente ilustra
fiéis (14.23). Faz-se presente também na palavra vitoriosa pro- com vigor a realidade e o caráter decisivo do julgamento por meio
clamada pela Igreja missionária; e a verdade simbolizada no Apo- do Verbo, tema tão fortemente acentuado por São João (Jo 3.16-21;
calipse pelo que monta o cavalo branco, que "saiu vencendo e para 5.22-28; I Jo 4.17; Ap 20.12 s., e t c ) . "Os mortos ouvirão a voz
vencer", e cujo nome era ho lógos tôu Theôu (Ap 6.2; 19.13).* 29) (phoné) do Filho de Deus" (Jo 5.25; cf 11.43). " A voz do Filho
A doutrina joanina do lógos é consumada nas visões finais do de Deus" é outro modo de se mencionar o julgamento por meio
Apocalipse; o lógos que fora a arché da primeira criação (Ap do Verbo. Não compreenderemos o caráter profundamente bíblico
3.14; Pv 8.22) é agora o seu télos (Ap 21.6; 22.13): não e escatológico da doutrina de Cristo como o Verbo de Deus no quar-
é somente o Alfa, mas também o Ômega. É o agente da nova cria- to Evangelho, se ignorarmos o ensino que lhe corresponde na tota-
ção como já o fora da antiga, no princípio; e agora, quando o pri- lidade da própria literatura joanina.* ) 30

meiro céu e a primeira terra já passaram, substituídos pelo novo


céu e pela nova terra, é êle o renovador de todas as coisas, assim
como na antiga criação nada se fizera sem êle (Ap 21.1-7). A me- A NOVA TORÁ
táfora da presença que habita no meio do povo reveste-se de pala- Ao identificar Cristo com o verbo-sabedoria do judaísmo rabí-
vras citadas livremente de Lv 26.11 s.; a voz vinda do trono diz: nico, os escritores do NT estão virtualmente afirmando que êle é
"Eis o tabernáculo de Deus (he skenè tôu Theôu) com os homens. a nova Torá, embora não o digam explicitamente.* ' A luz arque- 31

Deus habitará (skenósei) com eles. Eles serão povos (laói — um típica que começou a existir no primeiro dia da criação não se acha-
plural muito significativo) de Deus e Deus mesmo estará com eles va na Torá de Moisés, mas brilhou na face de Jesus Cristo (I Co 4.6;
(será seu Deus)" (Ap 21.3). O sophía-Christós dará ainda livre- cf Gn 1.3; Pv 6.23; SI 119.105, e t c ) . Cristo ocupou o lugar da
mente da água da vida a quem tiver sede (Ap 21.6; cf. Jo 4.10; 7.37; Torá, no judaísmo, excedendo-o. Tê-lo conquistado nos corações
Ap 22.17). No quarto Evangelho e também'no Apocalipse a sabe- dos judeus devotos requer explicação adequada, pois a transforma-
doria-verbo de Deus é o conceito teológico dominante; encarna em ção do próprio centro de uma religião viva e vigorosa deve ter sido
Cristo e habita entre os homens, cumprindo as antigas promessas movida por uma causa igual à grandeza do efeito. Certamente se-
das Escrituras; e o fim ou télos de todo o processo cósmico será a ria a pessoa histórica de Jesus. Os Evangelhos apresentam-no, de
criação do novo céu e da nova terra onde o Verbo habitará não fato, completando e cumprindo a obra de Moisés. Evidencia-o cla-
apenas com alguns discípulos escolhidos, mas com "as nações" (laói). ramente a maneira como lidava com a Torá. Falava com autoridade
Cristo será então contemplado tanto como o télos como a arché, o e não como os escribas que interpretavam a velha lei; e seus ouvin-
Ômega e o Alfa (Ap 1.8, 17, e t c ) , o Amém (Ap 3.14) de toda
a longa liturgia da história do mundo. Nesse ínterim, porém, o jul-
(30) T a l v e z devamos acrescentar u m a nota p a r a dizer q u e n ã o é p r o v á v e l q u e
gamento do mundo se processa em preparo para a consumação. De- a d o u t r i n a d o lógos d e S ã o João seja u m a s u b s t a n c i a l i z a ç ã o d e m e n i r » ( a r a m a i c o :
corre inevitavelmente do fato de ter vindo a luz ao mundo (Jo 3.18 " p a l a v r a " ) , f r e q ü e n t e n o s T a r g u n s d o A T , c o m o artifício r a b í n i c o p a r a e v i t a r o
n o m e d e D e u s . A p a l a v r a r a b í n i c a memra era empregada apenas devocionalmente,
n ã o s e n d o u m p r i n c í p i o d e e x p l a n a ç ã o filosófica. Cf. C. K . B a r r e t , GSJ, 128:
(28 > V e r s u p r a , 68. "Memra é u m b e c o s e m s a í d a no estudo d o s f u n d a m e n t o s b í b l i c o s d a d o u t r i n a
(29) V e r s u p r o , 29. do Lógos de São João".
(31) V e r W . D . D a v i e s , PRJ, c a p . 7, e s p . 148-50.
tes maravilhavam-se diante do que reconheciam ser uma espécie de de um novo Deuteronômio/ * ) O certo é que toda a tradição do
3 5

kainè didaché, nova Torá (Mc 1.22,27). "Ouvistes que foi dito aos Evangelho, como já notamos, enquadra-se na forma do Pentateuco,
antigos. .. Eu, porém, vos d i g o . . . " (Mt 5.21 s., 27 s., 33 s., 38 s., porque a libertação de Israel do Egito era o único exemplo de re-
43 s.). As raízes da doutrina cristã de Cristo, considerado a Sa- denção que os escritores do NT conheciam/ ) Jesus era o novo 37

bedoria de Deus, estão firmemente ligadas às obras e à pessoa his- legislador, o profeta libertador semelhante a Moisés, e o mediador
tórica de Jesus. Não pretendeu anular a Torá mosaica; não foi de uma nova aliança. Era tudo isso, não porque algum rabino edu-
contra ela que se dirigiu, mas contra as evasões dos escribas ("a cado o tivesse imaginado, depois de longa e persistente meditação
tradição dos anciões") (Mc 7.13). Chama a Torá de "palavra de na teologia do AT, mas porque êle era o que era, aquele que compelia
Deus" (ho lógos tóu Theôu) (Mc 7.13). Seu "novo ensino" ti- os seguidores a pensar no sentido das coisas qu? fazia e nas pala-
nha a intenção cTe corrigir as adaptações introduzidas na Torá por vras que proferia, em termos já aplicados uma vez a Moisés e à Torá,
causa da dureza dos corações humanos (Mc 10.5) ; queria restau- e que desde então só poderiam ser apropriados a êle.
rá-la à sua pureza original e cumpri-la (Mt 5.17). "Até que o
céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei" A "forma do Pentateuco" de todos os quatro Evangelhos é res-
posta suficiente às teorias sobre a helenização da fé professada pela
(Mt 5.19). Não nos surpreende então que os discípulos vissem nele Igreja apostólica. Se pudermos resumir rapidamente o caminho
o esperado "profeta semelhante a Moisés" (Dt 18.15,18). Assim, que tomou a cristologia do NT, como notamos neste capítulo e no
quando nos Evangelhos Jesus recebe o título de "um profeta" ou precedente, observaríamos três estágios. Em primeiro lugar, temos
"profeta", devemos entender que é Moisés ou o novo Moisés que o aparecimento de Jesus, "o Profeta" que surpreendeu o povo ju-
está implícito: não quer dizer que Jesus seja um a mais na série daico e seus rabinos, ao reivindicar autoridade para aperfeiçoar e
dos profetas do AT, mas, especificamente, o Moisés que deveria vir cumprir a Torá, e ao demonstrar por palavras e sinais que o pro-
(cf. Mt 21.11, 46; Lc 7.16; 13.33; 24. 19; Jo 4.19; 6.14; 7.40; feta anunciado por Moisés havia chegado. Em segundo lugar, te-
9.17). Além disso, Jesus dera "sinais" que demonstravam essa ver- mos a cristologia do Messias-Servo, ensinada por Jesus aos discí-
dade aos que tivessem olhos para ver (os milagres da alimentação). pulos, nos últimos estágios de seu ministério terreno, que se ba-
É o Evangelho de São Mateus que mais procura apresentar o seava na compreensão escriturística de que o Profeta, quando vies-
ensino do senhor como a nova Torá dada pelo "profeta Jesus, de se, seria rejeitado pelos que o deveriam ouvir. Em terceiro lugar,
Nazaré da Galileia" (Mt 21.11). Embora escrito em grego, seu ju- temos na Igreja apostólica, a cristologia mais elaborada do verbo-
daísmo é do Talmude e não de Alexandria; assemelha-se ao rabinis- -sabedoria, que depois da ressurreição, sob a luz do Espírito Santo,
mo de Jâmnia, que veio dominar o judaísmo.* ) B. W. Bacon in- 32
chegou a conclusões que estavam inevitavelmente envolvidas na vida,
dicou há tempo que Mateus colecionou o ensino do Senhor em cinco ensino, obra, morte e ressurreição de Jesus. Essa cristologia apos-
"livros" ou discursos, inspirado nos cinco livros da lei/ ) a saber, 33
tólica, ao identificar o verbo-sabedoria de Deus, criador, transcen-
Mt 5-7; 9.36-11.1; 13.1-53; 18.1-19.1; 24-25; cada uma dessas deu grandemente os limites da cristologia do primeiro tipo, embora
cinco secções termina com a fórmula: " E aconteceu que, concluin- suas categorias não deixassem de ser judaicas. Como bem entendeu
do Jesus estas palavras", não sendo acidental esse arranjo.* ) Po- 34
o autor da Epístola aos Hebreus, uma cristologia do "Novo Moisés"
de-se argumentar dizendo que São Mateus assim teria organizado não expressaria adequadamente toda a verdade sobre o Apóstolo e
o material de seu Evangelho para sugerir que a promulgação da Sumo-Sacerdote da confissão cristã: Moisés, devemos entender, foi
nova lei acompanhava-se dos mesmos sinais e maravilhas manifes- somente um servo na família de Israel, embora fosse o maior deles;
tados por Javé na libertação do povo do Egito.* ) São Lucas teria 35
mantinha o cuidado da casa somente até a vinda de Cristo, o Filho
adotado outra maneira de dividir seu material, embora apresente e herdeiro. Ou, numa metáfora diferente, diríamos que Cristo não
Jesus, a seu modo, como o dispensador de um novo "Protonômio" e era, como Moisés, apenas urna parte da casa: era o edificador da
casa inteira (Hb 3.1-6).
(32) V e r G . D . K i l p a t r i c k , The Origins of the Gospel According to St. Mat-
thew, 1946, 106.
(33) Studies in Matthew, 1930.
(34) Este a r r a n j o e m cinco " l i v r o s " n ã o d e i x a d e ser significativo, m e s m o se
p e n s á s s e m o s no E v a n g e l h o c o m o u m t o d o na f o r m a de u m n o v o h e x a t e u c o ( v e r
A u s t i n F a r r e r e m Studies in the Gospels, ed. D . E. N i n e h a m , 7 5 - 7 ) . O f a t o de u m
escritor d o N T c o n s i d e r a r C r i s t o u m n o v o M o i s é s n ã o o i m p e d e d e p e n s a r n e l e ,
t a m b é m , c o m o u m n o v o Josué. (36) V e r C. F. E v a n s e m Studies in the Gospels, 37-53.

(35) F. W. Green, St. Mattiieio, Clarendou Bible, 1936, 5. (37) V e r supra, 23 s.


VIII

A VIDA DE CRISTO
Sabe-se hoje muito bem que os quatro Evangelhos não nos dão
suficiente material para se escrever uma biografia de Cristo no
sentido moderno. Logo após a aceitação geral de que o Evangelho
de São João era de caráter "teológico", a crítica da forma chegava
também a conclusão semelhante em relação ao Evangelho de São
Marcos. A geração anterior de estudiosos, representada, por exem-
plo, pelo livro de F. C. Burkitt, Gospel History and its Transmission
(1906), batera-se veementemente em favor da veracidade histórica
do resumo da vida de Jesus que se vê em Marcos; mas os críticos da
forma, representados, por exemplo, pela obra de Karl Ludwig
Schmidt, Der Rahmen der Gesckickte 3em (1919), procuraram mos-
trar que a moldura da narrativa onde Marcos teria incluído as diver-
sas pericopae, que flutuavam livremente na tradição, não passava
de conveniente invenção literária do evangelista, não podendo ser
considerada de natureza histórica. Posição intermediária foi toma-
da por C. H. Dodd num artigo muito importante: "The Framework
of the Gospel Narrative", publicado em 1932,d' no qual assevera
que fora preservado na tradição cristã primitiva um esboço esque-
mático do ministério histórico de Jesus que veio a ser usado por
São Marcos, quando escreveu seu Evangelho. Vincent Taylor em
The Life and Ministry of Jesus (1954) e muitos outros estudiosos
britânicos e americanos adotam posição semelhante.

Parece que se verifica em nossos dias uma mudança de ati-


tude entre os estudiosos a respeito do problema da moldura histó-
rica da narrativa evangélica. Enquanto antigamente se conside-

(1) E m The Expository Times, j u n h o , 1932; r e i m p r e s s o e m seu l i v r o d e ensaios,


New Testament Studies, 1953.
(2) D . E. N i n e h a m s u b m e t e u o a r g u m e n t o d e D o d d a r i g o r o s a crítica e m
Studies in the Gospels ( e d . N i n e h a m , 223-39) e t a m b é m os a r g u m e n t o s de T a y l o r
e m Theology, L I X , n. 429, m a r ç o , 1956, 97-103.
rava essencial a reconstrução esquemática da vida de Jesus, hoje co "objetivo". Assim, a vida de Cristo, na qual os evangelistas es-
pomos em dúvida sua importância para os cristãos. A nova atitude tavam interessados, não era a mesma "vida" buscada por aqueles
decorre da influência exercida pelo já falecido R. H. Lightfoot, que que tão diligentemente se dedicaram à "pesquisa do Jesus históri-
levantou a pergunta fundamental sobre o significado real de um co". Mas a crítica radical de nossos dias está preparada para levar
Evangelho (e.g., o de São Marcos).<3) Os críticos antigos, incluin- a sério o testemunho apostólico a respeito da ação na história do
do os críticos da forma, nunca levantaram esse problema porque Deus do milagre, do Deus vivo, que não se revela apenas dentro
consideravam óbvia a resposta. Para os que aceitam sem crítica dos rígidos limites prescritos pela teoria física do quanta ou do
alguma o conceito liberal da história em que ela é sempre objetiva método histórico do século dezenove. A "vida" de Jesus, a única
e verificada pela investigação imparcial, a validez de um Evange- vida histórica, é a que foi testemunhada pelos apóstolos, não po-
lho haveria de depender antes de tudo de sua demonstrabilidade dendo haver outra.
histórica; daí a consternação dos conservadores ( i . e . , "liberais")
diante das conclusões alcançadas por diversos companheiros e discí-
pulos de Lightfoot sobre o caráter tipológico de documentos que, O NASCIMENTO DE CRISTO
pouco antes, eram altamente considerados na apologética cristã por
causa de seu caráter seguramente histórico.<*) A possibilidade de Os escritores do NT preocupam-se em acentuar o fato de que
se construir, mesmo em princípio, um resumo histórico da vida de Jesus era uma pessoa real, e não uma participação docética ou teo-
Cristo não é, para os que não participam da atitude liberal, matéria fania pagã (cf.: "veio em carne", I Jo 4.2, II Jo 7 ) . Nasceu de
de vida ou morte. Não se alarmam quando descobrem que São Lu- uma mulher judia (Gl 4.4), de certa família e descendência (Rm
cas, "o historiador", acaba sendo, mais do que São Marcos e do que 1.3), e pertenceu a um distrito particular (Mc 6.1 — Marcos não
São João, um tipologista rabínico de grande estatura. Têm assim achou necessário mencionar o nome; mas cf. Lc 4.16; Jo 7.41 s.) ;
um conceito bem diferente a respeito da natureza do testemunho sua mãe chamava-se Maria e seus irmãos, Tiago, José, Judas e
histórico ou apostólico, daquele que dominava o pensamento de tan- Simão; os nomes de suas irmãs não foram mencionados (Mc 6.3;
tos estudiosos do NT desde os pioneiros do século dezenove até B. H. cf. 3.31 s.). Mas, na medida em que os escritores dos Evangelhos
Streeter, por um lado, e os críticos da forma, por outro. mostram que Jesus era um homem como qualquer outro, não se in-
teressam em pormenores biográficos; nada nos dizem sobre sua vida
Desenvolve-se agora uma crítica radical dos Evangelhos; dian- familiar, sua educação, aparência, etc; não vêem importância al-
te dela, a ortodoxia liberal de passado ainda recente (incluindo os guma em ter sido um téleton ("artesão", talvez "carpinteiro", Mc
críticos da forma) torna-se decididamente conservadora. Contudo, 6.3).<ã) Dois escritores do NT, e somente eles, relatam as circuns-
bastante paradoxalmente, essa atitude contemporânea está prepa- tâncias do nascimento de Jesus (Mt 1-2; Lc 1-2), embora não o fa-
rada a levar a sério o testemunho apostólico, exatamente naqueles çam movidos por interesse biográfico. Têm o propósito de assinalar
casos que a crítica liberal sentiu-se obrigada a abandonar em res- a realidade do nascimento humano de Jesus em oposição a todo o
peito ao seu conceito "científico" de história — como o nascimen- docetismo; e, também, afirmar sua origem divina e sua missão es-
to virginal, os milagres, a consciência de Jesus, a transfiguração e catológica.
até mesmo (em casos extremos) a própria ressurreição. Segundo
os cânones da crítica liberal esses episódios não passavam de ador- As narrativas de São Mateus e de São Lucas nada têm em co-
nos devocionais, que poderiam ser aceitos particularmente pelos cris- mum a não ser os nomes de José e Maria e o fato de ter sido Belém
tãos fiéis, se o desejassem, mas não tinham conteúdo histórico; a o lugar do nascimento. Mesmo nesse ponto, Mateus diz que José
teologia liberal pretendia, essencialmente, dispensar tais acréscimos e Maria viviam em Belém enquanto Lucas afirma que Jesus nasceu
lendários para construir solidamente sobre a rocha do fato históri- ali por causa do recenseamento. A tradição cristã combinou muito
acertadamente as duas narrativas, como, por exemplo, na figura dos
(3) A o b r a d e L i g h t í o o t , The Gospel Message of St. Mare, 1950, v e r s a , i m p l i -
magos a oferecer presentes numa estrebaria. Há, contudo, uma de-
citamente, s o b r e t o d o esse p r o b l e m a . claração em comum nessas descrições, apesar de suas muitas dife-
(4) P a r a u m a c o n s i d e r a ç ã o m a i s a m p l a deste p r o b l e m a tão i m p o r t a n t e r e c o r r e r renças: José não tivera relações sexuais com Maria (Mt 1.18; Lc
a o s dois a r t i g o s de D . E. N i n e h a m , j á citados a n t e r i o r m e n t e . N ã o há r a z õ e s p a r a
s u p o r q u e o p r o b l e m a (se d e fato é possível ou n ã o r e c o n s t r u i r c o m as fontes d o
1.34), tendo Jesus nascido sem paternidade humana, por virtude
E v a n g e l h o u m esquema fidedigno da vida d e Jesus) será resolvido nas décadas
v i n d o u r a s ; s i m p l e s m e n t e q u e r e m o s d i z e r q u e a v a l i d e z d a f é cristã n ã o d e p e n d e
d a s o p i n i õ e s m u t á v e i s d o s e r u d i t o s s o b r e o assunto. (5) Ver A l a n R i c h a r d s o n , The Biblical Doctrine of Work, 1952, 30-2.
mitologia grega, à história do nascimento virginal de Cristo. Todas
do Espírito Santo (Mt 1.18; Lc 1.35).(6) É da máxima importân- as pretensas semelhanças, quando examinadas, caem por terra. Não
cia reconhecer que tanto Mateus como Lucas declaram o nascimento há nem um exemplo de nascimento virginal entre os gregos, pois
virginal de Cristo de modo direto e sem discussão; não indicam as suas histórias alinham-se entre as lendas que apresentam uma mu-
razões desse acontecimento e nem lhe tiram as conclusões. As assim lher grávida mediante relações com algum ser divino — noção abso-
chamadas objeções "teológicas" à sua historicidade baseiam-se em lutamente repugnante ao pensamento bíblico (cf Gn 6.1-4). A fon-
atribuir às narrativas motivos que elas não têm. Assim, E. Brunner te dessas histórias nos Evangelhos não é a mitologia grega.
diz que o nascimento virginal pretende explicar o milagre mais im-
portante da encarnação por meio de um milagre "biológico" secun- Compreende-se, da mesma forma, que as histórias do nascimen-
dário; portanto a crença nesse tipo de nascimento seria realmente to virginal não foram inventadas para cumprir as profecias ou ti-
uma forma de pequena fé.< > Mas as descrições dos Evangelhos não
7
pos do AT. Há histórias de nascimentos miraculosos (Isaque: Gn
desejam "explicar" coisa alguma: simplesmente relatam o aconte- 17.15-22; 18.9-15; 21.1-7; Sansão: Jz 13.2-25; Samuel: I Sm 1 ) ,
cimento histórico não procurando dar razões: "Ora, o nascimento mas não são virginais, havendo sempre um pai humano. Dificilmen-
de Jesus Cristo foi assim" (Mt 1.18). Brunner também objeta, di- te diríamos que Mateus descobrira uma "profecia" acerca do nasci-
zendo que o nascimento virginal procuraria defender a impecabili- mento miraculoso de Cristo, encontrando-a talvez na tradução gre-
dade de Jesus diante da doutrina do pecado original (o que teria ga de Is 7.14 que registra parthénos onde o original seria simples-
afetado as relações sexuais). Mas já seria atribuir aos Evangelhos mente "mulher jovem" (Mt 1.22 s.). Há, naturalmente, profunda
noções maniqueístas posteriores: teria sido preciso defender a ima- verdade espiritual na analogia do nascimento de Cristo com o sinal
culada conceição da própria Virgem Maria e também a doutrina de dado por Isaías ao Rei Acaz, quando seu reino estava sendo invadido
sua perpétua virgindade. Mas os Evangelhos não sugerem essas no- pelos reis de Israel e Síria — uma jovem conceberia e daria ao
ções, que se distanciam bastante da saudável atitude bíblica para filho o nome de Emanuel, "Deus conosco": Cristo é o sinal da
com o sexo. parte de Deus de que os poderes invasores do mal estão para ser
derrotados. Assim, Mateus, também aduz outros cumprimentos da
A verdade é que seria muito difícil sugerir motivos que levas- profecia das Escrituras — por exemplo, a predição de Miquéias
sem à invenção da história do nascimento virginal, se ela não tivesse acerca da vinda do Pastor de Israel de Belém de Judá (Mat 2.5 s;
acontecido. Afirma-se muitas vezes, por exemplo, que a Igreja, Mq 5.2). Na matança dos meninos ordenada por Herodes vê a rea-
num ambiente helénico, desejaria, naturalmente, afirmar o nasci- lização da profecia de Jeremias a respeito de Raquel chorando seus
mento divino de Cristo, porque o atribuíam convencionalmente a to- filhos em Ramá (Mt 2.17 s.; Jr 31.15) : Cristo seria o cumprimento
dos os grandes homens — Hércules, Pitágoras, Platão e, natural- das profecias da volta ao lar das tribos perdidas de Israel (cf Jo
mente, o imperador; a história do nascimento de Cristo estaria de 11.52). Na fuga para o Egito vê a consumação de Os 11.1 (Mt
acordo com as convenções aceitas da religião helénica popular. 2.15).( > A residência em Nazaré é considerada o cumprimento de
s

Deixando de lado o fato de que as histórias natalinas de Mateus e uma profecia de que Cristo seria chamado Nazareno, mas jamais
Lucas são tão judaicas como qualquer outra parte do NT, é neces- se explicou a que texto das Escrituras se referia (Mt 2.23). A ma-
sário indicar um fato óbvio para demolir esse tipo de argumenta- tança dos inocentes e a fuga para o Egito poderiam ser tidas como
ção superficial. Não existe paralelo algum, em qualquer religião ou lendas inventadas para cumprir profecias do AT, mas no caso da
primeira a "profecia" é-lhe tão distante que somos forçados a aban-
donar a teoria; mas o nascimento em Belém e sua residência em
(6) N ã o e x i s t e p r o b a b i l i d a d e a l g u m a d e q u e L c 1.34 seja u m a c o r r u p ç ã o
textual, posto q u e u m só m a n u s c r i t o das antigas v e r s õ e s latinas das E s c r i t u r a s
Nazaré são fatos corroborados por São Lucas, que não podem ser
( c. A . D . 150-200) dificilmente f a r i a frente às o u t r a s a u t o r i d a d e s t o d a s ( v e r J. M . explicados como criações de São Mateus para cumprir profecias do
C r e e d , Gospel according to St. Luke, 13 s . ) . S ã o L u c a s e q u a c i o n a o E s p í r i t o S a n t o AT. A história dos sábios (Mt 2.1-12) não pretende realizar pre-
com a dynamis d o A l t í s s i m o . E m interessante estudo d e episkiádzo, "cobrir", D. dição alguma; parece, antes, uma profecia que aguarda cumprimen-
D a u b e a f i r m a q u e a n a r r a t i v a d a a n u n c i a ç ã o , d e L u c a s , indica u m p a r a l e l o e n t r e
M a r i a e R u t e ; cf. L c 1.38: " A q u i está a s e r v a d o S e n h o r " , c o m R.t 3.9: "Sou
to (a reunião dos gentíos). Mas devemos cuidar para que nosso jul-
R u t e , t u a s e r v a ; estende a tua c a p a s o b r e a tua s e r v a . . . " " N a literatura rabínica, gamento não seja afetado pelas interpretações cristãs tradic'onais:
R u t e é c o n s i d e r a d a ao m e s m o t e m p o a r e p r e s e n t a n t e d o v e r d a d e i r o p r o s é l i t o e por exemplo, a tradição sempre considerou o episódio como "a ma-
t a m b é m a n c e s t r a l d e D a v i o d o Messias. S u a v i d a é, m u i t a s vezes, i n t e r p r e t a d a
c o m o p r e f i g u r a ç ã o d e eventos messiânicos. B o a z , nesse caso, r e p r e s e n t a o p r ó p r i o
D e u s " ( D . D a u b e , The New Testament and Rabbinic Judaism, 33). Explicar-se-ia
(8) V e r C. K . B a r r e t t , The Holy Spirit and the Gospel Tradition, 1947, 6-10.
assim o " e n v o l v i m e n t o " d e M a r i a p e l o Espírito S a n t o .
(9) Ver s u p r a , 150.
(7) The Meáialor, E T , 1934, 322-7.
nif estação de Cristo aos gentíos", mas nada existe na história á Espírito Santo" (1.20). Chama-se Jesus, Josué, o Libertador, que
sugerir que os magos representavam, para Mateus, os judeus da conduzirá o Novo Israel à Terra da Promessa/ ) 11

dispersão. (Nem nos d'iz que eles eram três!). Seremos prudentes,
se tivermos diante desses contos, ricamente devocionais, uma ati- São Lucas dá muita importância ao papel tomado pelo Espírito
tude de reverente agnosticismo no que concerne aos fundamentos Santo em todas as circunstâncias do nascimento de Jesus. O nasci-
históricos. mento de João Batista é também miraculoso como o de Isaque; não
é outro senão o novo Elias predito por Malaquias (4.5 s.; cf. Ecle-
Nada prova o fato de o nascimento virginal de Cristo ° ) não (1
siástico 48.10), e está "cheio do Espírito Santo, já do ventre mater-
ser mencionado nos outros livros do NT, além de Mateus e Lucas, no" (Lc 1.15) ; sua mãe Isabel e o pai, Zacarias, também estão
a não ser a verdade muito óbvia de que não fazia parte do kérygma cheios do Espírito Santo (Lc 1.41, 67). Durante a apresentação no
original. Não se pode determinar a época em que a cláusula sobre templo o Espírito Santo desce sobre Simeão (2.25-27) e, presume-se
a natividade teria sido incluída nas confissões batismais de fé. Mas (embora não se diga explicitamente), sobre Ana, a profetisa (2.
não haveria de esperar muito, posto que se ajustava perfeitamente 36-38). Como na história completamente diferente de Mateus, onde
nesse contexto: Cristo nascera, como nascem os cristãos, não "do os anjos são portadores de revelação divina (Mt 1.20; 2.13 —
sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem (anér), embora o anjo tenha aparecido a José em sonhos; Lc 1.11-20; 1.26-
mas de Deus" (Jo 1.13) : quando os cristãos, no batismo, confes- 37, a anunciação; 2.9-15, os pastores), é o Espírito Santo, e não os
sam a fé nesse nome, recebem o poder de serem feitos filhos de anjos, o agente de Deus no evento do nascimento de Cristo. Três
Deus (Jo 1.12). Nascem "do Espírito", e o nascimento de Cristo hinos proclamam o despontar da nova era: o Magnificai de Maria
resulta da operação do Espírito. É o que significa principalmente (Lc 1.46-55), o Benedictus de Zacarias (1.68-79), e o Nunc Dimittis
( 2 . 29-32): he anatolé ecs hypsous (Lc 1.78; cf. Ml 4.2) — a
o nascimento virginal para Mateus e Lucas: o sinal da inauguração
nova aurora — já chegou; Deus "visitou e redimiu o seu povo"
das últimas coisas, o primeiro resultado da dádiva do Espírito San-
(1.68); "amparou a Israel seu servo" (1.54) ; e os olhos humanos
to nos dias finais, quando a nova criação instaurava-se no dia da contemplaram, deveras, a salvação (2.30). São hinos tão judaicos
redenção de Israel (Is 32.15; Ez 36.26 s.; 37.14; SI 51.10 s.; Jl como qualquer Salmo do A T e, contudo, cristãos como qualquer
2.28 s.; 12.10, etc.). O nascimento de Cristo era para a humanida- outra porção do NT em sua convicção de que já foi inaugurada a
de o que o batismo do cristão é para o indivíduo, o início das últi- era da promessa no momento em que Cristo foi concebido pelo Es-
mas coisas, ambos resultando da operação do Espírito Santo. O pírito Santo.
Espírito Criador (Gn 1.2; SI 33.6; 104.30; Sabedoria 7.21 s.,
25; Judite 16.14) traz a nova criação; o Espírito doador da vida A doutrina do nascimento virginal de Cristo é parte integrante
começa a soprar sobre a nova humanidade (cf. Gn 2.7; Jo 20.22). da teologia do NT. Expressa a verdade de que Deus pôs em movi-
mento a seqüência de eventos que há de culminar no julgamento
O Espírito, o poder do Altíssimo (Lc 1.35), é o agente dispensa-
final do mundo e na salvação dos eleitos; é doutrina bíblica e judai-
dor da vida por ocasião do nascimento do novo homem, Jesus Cristo
ca como qualquer outra encontrada no NT. O nascimento de Cristo
(cf. I Co 15.45). As duas narrativas acentuam a instauração da é um evento escatológico que faz parte da nova era, manifestando
nova era. ~R de muita importância e significado o uso repetido, a esperada atividade vivificadora do Espírito nos últimos dias. É
em Mateus, da palavra guénesis ( 1 . 1 ; 1.18); êle está escrevendo singular, não tendo paralelos no AT ou no mundo pagão; São Ma-
um novo Livro de Gênesis, que descreve a guénesis de Jesus Cristo, teus e São Lucas no-lo apresentam em seu ambiente escatológico
o novo Adão, a nova criação. Os cinco cumprimentos daquilo "que próprio, demonstrando claramente que não consideram Cristo um
fora dito pelo Senhor, por intermédio dos profetas", discutidos no dos Thêioi ándres da religiosidade greco-oriental. É único porque
penúltimo parágrafo acentuam a verdade de que aconteciam agora ocupa aquele lugar reservado à vinda do Salvador na economia di-
as coisas esperadas pelos profetas do passado: "Maria... achou-se vina da redenção, a qual o A T proclama por antecipação e o NT
grávida pelo Espírito Santo" (1.18). "O que nela foi gerado é do evidencia como já realizado. É singular porque Jesus Cristo tam-
bém o é, não se ajustando a modelos de "gênios religiosos" ou "ho-
(10) L e r e m J o 1.13, qui... natus est, c o m o hòi... eguennéthesan não pode
ser c o n s i d e r a d o o r i g i n a l , e m b o r a a p a r e ç a e m d i v e r s a s a u t o r i d a d e s ocidentais; m a s (11) J e s u s é a f o r m a l a t i n a d e Iesòus, q u e , p o r sua vez, é a t r a n s l i t e r a ç ã o
poderia ser dito q u e S ã o J o ã o cita o n a s c i m e n t o dos cristãos ( " d a á g u a e d o grega de Josué ( n o a n t i g o h e b . e a r a m a i c o , Jeshua); cf. A t 7.45 e H b 4 . 8 . , N ã o
E s p í r i t o " , J o 3 . 5 ) q u e , assim c o m o o n a s c i m e n t o h u m a n o d e Jesus, p r o c e d e d a era raro e n t r e os j u d e u s ( L c 3.29; C l 4 . 1 1 ) . A p a l a v r a h e b r a i c a s i g n i f i c a " J a v é
v o n t a d e d i v i n a e n ã o da h u m a n a ; v e r C. K . Barre.tt, GSJ, 137 s. salvará" (cf. M t 1.21).
mens divinos"; é elemento não radicado no quadro total do teste- 38). Contrasta-se o orgulho de Eva, gerador da ambição fatal de
munho apostólico de Cristo, que tem sido dado à Igreja sob a orien- ser "como Deus" (Gn 3 . 5 ) , com "a humildade da sua serva" (Lc
tação do Espírito Santo. A relutância de alguns cristãos modernos 1.48). Assim como Eva foi despedida "vazia" do Paraíso (Gn
em crer no nascimento virginal de Cristo procede da incompreensão 3.23 s.), Maria foi, como os famintos, "repleta de bens" (Lc 1.53).
da Bíblia e da natureza de seu testemunho; a ignorância do signi- Cumpre-se o Protevangelium (Gn 3.15) : a descendência da mulher
ficado das Escrituras sempre resulta na falha de se perceber a fere a cabeça da serpente; o Filho de Maria liberta do poder do
ação maravilhosa de Deus (cf. Mt 22.29). pecado os decaídos filhos de Eva. Os sofrimentos da gravidez de
Eva (Gn 3.16) contrastam com o júbilo de Maria: "O meu espí-
A BEM-AVENTURADA VIRGEM MARIA rito se alegrou em Deus, meu salvador" (Lc 1.47). A missão de
dar à luz filhes, diz o escritor de I Tm 2.15 misteriosamente, par-
Quando São Lucas diz que Jesus é o primogênito de Maria ticipa na responsabilidade da redenção; fala sobre as mulheres em
(tòn huiòn autês tòn protótokon, 2 . 7 ) , considera-o, sem dúvida, o geral e não Maria, em particular. Contudo, é um pensamento que
mais velho dos irmãos (cf. Lc 8.19 s.). Provavelmente (embora se aplica com relevância a quem foi altamente favorecida, ou agra-
não possamos ter certeza, por ser Lucas um teólogo extremamente ciada (Lc 1.28), cujo filho veio a ser chamado de santo, o Filho de
sutil) não percebeu que os irmãos de Cristo, dos quais êle é o Deus (Lc 1.35). O Magníficat de Maria expressa a gratidão pelo
protótokos, i. e., todos os cristãos batizados, são, no verdadeiro sen- privilégio singular de ser portadora do ônus da redenção, e tam-
tido, filhos de Maria, que é a "mãe" de todos os cristãos, assim, como bém a alegria de ter nascido ao mundo O HOMEM (cf. Jo 16.21).
Eva era "a mãe de todos os seres humanos" (Gn 3.20). O NT, en- A Igreja inteira regozija-se com ela cantando o Magníficat; os cris-
tretanto, não desenvolve o paralelo entre Maria e Eva como o faz tãos de todas as gerações a têm chamado de "bem-aventurada" (Lc
entre Adão e Cristo; Jo 16.21 e I Tm 2.15 seriam referências de- 1.48). Não podemos dizer exatamente até que ponto São Lucas,
masiadamente vagas para apoiar essa analogia. Talvez esteja im- que registra o cântico de Maria, percebeu todas as suas conseqüên-
plícito em Ap 12.1-6 e 13.17, onde, numa passagem altamente fi- cias bíblicas, especialmente o paralelismo com Eva; mas, como os
gurada, São João descreve a visão da "mulher vestida do sol" que estudiosos modernos têm boas razões para considerá-lo um teólogo
dá à luz "um filho varão". Não há dúvida de que este é Cristo, que compreende a Bíblia com profundidade e sutileza, somos levados
pois terá "autoridade sobre as nações, e com cetro de ferro as re- a crer que não lhe escaparam considerações como essas.* ' 12

gerá" (cf. SI 2.9; Ap 2.26 s.; 19.15). No simbolismo dessa figu-


ra, a "mulher" poderia ser a Igreja judaica de onde nasceu Cristo, Mas se é verdade que o N T confere a Maria posição de honra,
tornando-se a comunidade cristã judaica; a fuga para o deserto (vs. não sugere que seja adorada ou posta ao lado de Cristo como "co-
6, 14) representaria os cristãos de Jerusalém quando se esconde- mediadora". Cristo não é um "homem divino" helénico, nem Maria
ram no deserto de Pela, ao rebentar a guerra com Roma em 66
A.D. Mas, bem poderia ser uma referência a Maria, mãe do "filho (12) J. M . C r e c d (Gospel accorãing to St. Lvke, 22 s.) s u g e r e q u e e m L c 1.46
varão" (árren ou ársen), em contraste com Eva, pois a citação em d e v e r í a m o s ter, e m l u g a r de " M a r i a " , o n o m e de " I s a b e l " , c o m o e m a l g u n s antigos
12.17 da guerra do dragão, ou serpente contra a descendência da t e x t o s latinos, visto q u e s e r i a difícil e n t e n d e r a s r a z õ e s d e s s a alteração. Além
disso, a situação de I s a b e l p a r e c i a - s e m u i t o m a i s c o m a d e A n a , e m cujo cântico
mulher é, sem dúvida alguma, alusão a Gn 3.15. O simbolismo ( 1 S m 2 . 1 - 1 0 ) o Magnificai o b v i a m e n t e se inspira. A tapéinosis (humilhação, e
duplo é freqüente no Apocalipse, podendo a mulher representar tan- n ã o h u m i l d a d e ) é de n ã o ter filhos; cf. 1 S m l . l l : e d t i e p i b l é p t o n e p i b l é p s e s epi
to a Igreja como Eva e Maria, cujos descendentes "guardam os man- tén tapêinosin tês dóules s o u . . . F o r t e s a r g u m e n t o s p o d e r ã o ser l e v a n t a d o s c o n t r a
damentos de Deus e sustentam o testemunho de Jesus". Mas, dificil- esse p o n t o d e vista. E m p r i m e i r o l u g a r todos os m a n u s c r i t o s g r e g o s t r a z e m
fedi ê i p e Mariám. E m s e g u n d o l u g a r , as c o n s i d e r a ç õ e s t e o l ó g i c a s notadas a c i m a
mente poderíamos afirmar categoricamente o paralelo entre Eva e n o t e x t o p a r e c e m d e m o n s t r a r q u e o l u g a r o c u p a d o p e l o Magnificai na história d e
Maria; o texto sugere mais do que declara. L u c a s d e v e - s e p r e c i s a m e n t e à significação q u e .tem c o m o cântico de M a r i a . A p o s i ç ã o
d o s q u e d i z e m q u e o cântico é de I s a b e l , p r e n d e - s e ao r e v e r s o d o p r e c o n c e i t o
Contudo, a analogia é bastante real. Como Cristo é " o oposto da g e r a ç ã o a n t e r i o r de críticos, q u e t i n h a m a tendência d e c o n s i d e r a r os e v a n g e -
listas e d i t o r e s s e m q u a l q u e r i m a g i n a ç ã o , d e tesoura e g o m a à m ã o , prontos a
de Adão'' (Fp 2.6; I Co 15.22,45), Maria é "o reverso de Eva". A i n c l u i r h i n o s d a seita batista e m seus E v a n g e l h o s , sem a c l a r a n o ç ã o d o q u e
desobediência de Eva é o ponto de partida da rebeldia pecaminosa e s t a v a m fazendo. T a l v e z H a r n a c k tenha r a z ã o a o s u g e r i r q u e a f o r m a o r i g i n a l
da raça humana contra a santa vontade de Deus; a humilde aceitação d e L c 1.46 f o r a s i m p l e s m e n t e kai êipen. F i c a r i a assim e x p l i c a d a a v a r i a n t e e n c o n -
t r a d a e m antigos m a n u s c r i t o s latinos, c o m o o b r a d e a l g u m e s c r i b a q u e n o t a r a o
de Maria da vontade divina é o ponto de partida da história da re- p a r a l e l o c o m o cântico d e A n a e se i m p r e s s i o n a r a c o m a história de I s a b e l , c o n s i -
denção humana do pecado: "Então disse Maria: Aqui está a serva d e r a n d o - a u m cumprimento d e profecia.
do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra" (Lc 1.
uma cleusa-mãe pagã. Sua participação no drama da salvação li- com o mesmo Espírito/ ) Até mesmo õ quarto evangelista, que
14

mita-se ao papel histórico de ter dado Cristo à luz. Os Evangelhos omite todas as referências ao batismo de Jesus, apresenta João Ba-
raramente a mencionam fora das narrativas natalinas de Mateus tista dando testemunho da descida do Espírito, como pomba, sobre
e Lucas: os sinóticos descrevem como "sua mãe e seus irmãos" pro- êle (Jo 1.32 s.) e declara-o abundantemente dotado pelo Espírito
curavam Jesus, quando êle exercia o ministério público (Mc 3.31- (Jo 3.34).
35; Mt 12.46-50; Lc 8.19-21) ; João diz que ela estava presente por O relato sinótico do batismo de Jesus emprega o artifício ra-
ocasião do milagre de Caná (Jo 2.1-5) e também que ela estava bínico do Bath-qol para expressar o significado divino do evento.
entre as mulheres ao pé da cruz no Calvário, tendo sido entregue As palavras proferidas pela "voz dos céus" (Mc 1.11) identificam
por êle aos cuidados do discípulo amado (19.25-27). Não há Jesus como o Servo do Senhor, já descrito nos cânticos de Isaías a
outras referências a ela nos Evangelhos além de Mc 6.3 ( = Mt esse respeito: "Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo (Mc
13.55) e o hipotético v. 27 de Lc 11. At 1.14 é a única referência 1.11; cf. Mt 3.17; Lc 3.22). Refere-se a Is 42.1: "Eis aqui o meu
fora dos Evangelhos, onde lemos que Maria estava com as mulheres servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem minha, alma se
que "perseveravam unânimes em oração" juntamente com os dis- compraz; pus sobre êle o meu Espírito". Na versão de Isaías lida
cípulos, logo após a ascensão. Os evangelhos apócrifos procuram por Marcos, que não era a dos LXX, (cf. Mt 12.18-21) huiós apa-
compensar a quase ausência de interesse dos evangelistas canónicos rece em lugar de pais e agapetós de eklektósS ^ Lembram tam- 15

mas nada conseguem acrescentar ao conhecimento histórico, que te- bém o SI 2.7: "Tu és meu filho, eu hoje te gerei". A segunda par-
mos, de Maria. Não se encontra na Igreja neotestamentária qual- te da citação não é do Salmo, não havendo, naturalmente, idéia de
quer atitude de hiperdulia * > sendo a única referência sobre o assun-
13
uma cristologia adocionista. O dia do batismo, como bem sabiam
to no NT a palavra do Senhor deprecando toda a veneração exces- os cristãos, era do "novo nascimento", e Cristo no seu batismo foi,
siva de um relacionamento físico e considerando mais abençoada a por assim dizer, "gerado" de seu Pai como o seu único filho, ou
relação moral: "Uma mulher, que estava entre a multidão, excla- seu filho amado.
mou e disse-lhe: Bem-aventurada aquela que te concebeu e os seios
que te amamentaram! Êle, porém, respondeu: Antes bem-aventura- A narrativa de Marcos dá-nos a impressão de que somente
dos são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!" (Lc 11.27 Jesus teria visto os céus rasgarem-se e o espírito descendo como
s.). pomba, como numa visão, só êle ouvindo a voz (cf. Mc 1.10, êide) ;
Mateus muito pouco altera essa impressão ao dizer que Jesus viu
a pomba descendo (Mt 3.16) ; mas Lucas sugere que todos teriam
O BATISMO DE JESUS visto esses eventos (cf. somatikô éidei, 3.22). Não podemos hoje
Ainda há pouco era comum dizer-se que a importância do ba- reconstruir "o que aconteceu" no batismo, porque os escritores dos
Evangelhos não estavam preocupados com esse tipo de informação,
tismo de Jesus por João no Rio Jordão devia-se à profunda expe-
o que de modo algum afeta nossa compreensão do sentido do even-
riência religiosa que êle tivera nessa ocasião, convencendo-se de sua to. Poderemos estar certos de que o próprio Jesus teria ensinado
missão e poderes divinos. Psicologizar dessa maneira repugna ao aos discípulos qual era esse significado; e, também, razoavelmente
ponto de vista dos Evangelhos sinóticos que jamais pretenderam inferir que êle já aceitara sua vocação de Servo-Messias, quando,
falar das "experiências" de Jesus. O batismo era-lhes importante com as multidões, ia ser batizado por João. Aceitara o papel de Ser-
porque representava a unção de Jesus com o Espírito Santo para o vo Sofredor que fora ferido pelas transgressões do seu povo, em-
ofício e tarefa do Servo Messiânico do Senhor. Assim como os reis bora nunca tivesse feito injustiça nem se achasse dolo algum em
de Israel, ungidos, tornavam-se meshiah Javé, o Ungido do Se- sua boca (Is 53.8 s.). Era o Servo (cf. ho diakonôn, Lc 22.27) que
nhor (e.g., I Sm 16.13; SI 89.20; I I Rs 9 . 3 ) ; como ainda, mais justificaria a muitos, levando sobre si as iniquidades deles (Is 53.
tarde, os sacerdotes recebiam a unção para o exercício de seu ofício 11), sendo esta a razão pela qual se batizara. Aquele que não tinha
sagrado (Êx 29.7; 40.13-15; Lv 8.12; SI 133.2, e t c ) ; e, acima pecado recebe o batismo de João "de arrependimento para remissão
de tudo, como a figura, descrita por Isaías, do Profeta, fora ungi- de pecados" (Mc 1.4) pela mesma razão que morrera: "O Senhor
da com o Espírito do Senhor (Is 11.2; 42.1; 44.3; 61.1), tam-
bém Jesus, o Profeta Messiânico, Sacerdote e Rei, é agora ungido
(14) O s profetas não são ungidos no A T ; E l i s e u seria a ú n i c a e x c e ç ã o ( 1 R s
(13) Hiperdulia ( " v e n e r a ç ã o " — p a l a v r a n ã o e n c o n t r a d a no N T ) , s e g u n d o 1 9 . 1 6 ) . A f i g u r a d o p r o f e t a , s e g u n d o Isaías, é, n a t u r a l m e n t e , u m caso todo especial
os teólogos católicos r o m a n o s , d i s t i n g u e - s e de latria (cf. latréia, Jo 16.2; R m 9.4; o u ideal, q u e toma t a m b é m o c a r á t e r d e rei ( I s 9.6 s., etc.) e d e s a c e r d o t e ( I s 5 3 - 1 2 ) .
12.1; H b 9 . 1 , 6 ) , q u e é a s u p r e m a a d o r a ç ã o o f e r e c i d a , p r o p r i a m e n t e , só a D e u s . (15) S o b r e a g a p e í ó s , v e r s u p r o , 150 e 152 s.
fêz cair sobre êle a iniqüidade de nós todos" (Is 53.6). Na quali-
dade de Homem Representativo, leva ao batismo de arrependimen- Cordeiro sacrificial dado por Deus para tirar o pecado do mundo. * > 16

to os pecados do mundo, como os carregaria mais tarde ao batismo Toda a teologia do sacrifício do N T estaria assim implícita no ato
da cruz. Há profundo significado em Jesus ter concebido sua morte de Jesus ser batizado "para remissão de pecados". Não há razão
como um batismo, a ser participado pelos discípulos (Mc 10.38 s.; para se supor que Jesus não sabia exatamente o que estava fazendo;
Lc 12.50) : a retirada do povo de Deus da escravidão do Egito, por é, certamente, mais provável que o próprio Jesus tivesse feito, êle
meio do batismo no mar da morte ( I Co 10.1 s.), através de um mesmo, esta profunda reinterpretação do plano da salvação do'AT,
êxodo maravilhoso (cf. Lc 9.31), até à Terra da Promessa. do que a Igreja, uma ou duas décadas depois.
Não se compreende imediatamente o simbolismo da pomba na
O batismo de Jesus é, então, prenúncio de sua morte. Se dis-
descrição do batismo (Mc 1.10; Mt 3.16; Lc 3.22) por não haver
sermos que aquele que não cometeu pecado não deveria ter recebido
analogias que se lhe assemelhem nos escritos rabínicos.* ) Talvez 17

0 batismo de arrependimento, também haveríamos de dizer, neces-


pudéssemos explicá-la, de alguma forma, relacionando-a com Gn 1.2,
sariamente, que o Messias não tinha de sofrer (cf. Mc 8.31-33, etc;
onde o Espírito "pairava" sobre a antiga criação: assim aqui, na
1 Co 1.23). Em certos lugares da Igreja primitiva buscavam-se
razões para explicar o batismo de Cristo que não cometera pecado; Nova Criação, logo no "primeiro dia", por assim dizer, o Espírito
Mateus insere dois versículos na narrativa de Marcos: "Êle (João novamente "paira" sobre as águas (do Jordão). Jesus torna-se "o
Batista), porém, o dissuadia, dizendo: Eu é que preciso ser batizado Ungido do Senhor", o primogênito dos "muitos irmãos" que pelo
por ti, e tu vens a mim? Mas Jesus lhe respondeu: Deixa por en- batismo do Espírito Santo tornar-se-ão Christói, ungidos, incorpo-
quanto, porque assim nos convém cumprir toda a justiça (plerôsai rando-so ao novo Adão, a nova criação. Mas, como tantas vezes
pâsan dikaiosyne). Então êle o admitiu" (Mt 3.14 s.). Mateus, acontece na Bíblia, um símbolo pode ter sentido duplo, devendo ser
basicamente, dá-nos a resposta certa do problema: Jesus é batizado, assim considerado: poderá ser uma referência a Gn 8.8-12 (a pomba
morre, por causa da dikaiosyne, pela justificação do povo de Deus de Noé), posto que a Igreja primitiva interpretava a salvação na
(cf. Is 53.11: "O meu Servo, o Justo,... justificará a muitos"). arca como um batismo da raça humana ( I Pe 3.20 s.). Outras refe-
rências bíblicas a pombas nada auxiliam no assunto. As figuras de
O quarto evangelista acentua a mesma verdade (embora não pombas, que tantas vezes aparecem nos batisferios ou pias batismais
mencione o batismo de Jesus) descrevendo o testemunho de João das igrejas cristãs, lembram-nos que a eficácia desse sacramento
Batista a respeito do Senhor, como "o Cordeiro de Deus que tira o relaciona-se com o batismo de Cristo e que a realidade interior do
pecado do mundo!" (Jo 1.29; cf. 1.36). Talvez se refira a Gn ato, tanto no dele como no nosso, é a descida do Espírito Santo.
22.8: "Deus proverá para s i . . . o cordeiro para o holocausto". A
história do sacrifício de Isaque é um dos temas do AT, por trás da
A TRANSFIGURAÇÃO DE CRISTO
narrativa sinótica do batismo, pois a frase de Mc 1.11: Sy êi ho huiós
mou ho o,gapetós, relembra claramente Gn 22.12 ( L X X : tôu huiôu Pode-se discernir nas narrativas sinóticas da transfiguração
sou tôu agapetôu). É provável que as descrições sinóticas tenham rica complexidade de motivos teológicos (Mc 9.2-8; Mt 17.1-8;
recebido influência do Testamento dos Doze Patriarcas, Levi 18. Lc 9.28-36). Estamos, até mesmo em Marcos, longe de descrição
2-12 (datado por R. H. Charles, c. 109-106 a . C ) . no sentido de que visual "do que teria acontecido". Tudo o que podemos dizer do
Deus suscitaria um novo sacerdote que, no exercício de suas fun- acontecimento histórico é que as três testemunhas escolhidas pas-
ções, terminaria com o pecado (cf. Jo 1.29, ho aíron tèn hamartían saram por uma experiência impossível de ser contada em linguagem
tôu kósmou). No v. 6 lemos: "Abrir-se-ão os céus (cf. Mc 1.10), humana, mas compreendida por elas como ratificação divina da
e do templo de glória descerá sobre êle a santificação com a voz do convicção de que Jesus era o Messias de Deus. Enunciaram essa
Pai (cf. o Bath-qol), desde Abraão até Isaque" — e o que Abraão
convicção, em forma natural, aos judeus do primeiro século: reve-
diz a Isaque é: "Deus proverá para si, meu filho, o cordeiro para
o holocausto", e nada mais (Gn 2.8). A referência do Test. de Levi lara-se-lhes que Jesus era o Profeta semelhante a Moisés (Dt 18.5,
18.7 à descida do Espírito sobre esse "novo sacerdote" evidencia 18) que haveria de realizar redenção maior do que o êxodo histórico
ainda a influência exercida por essa passagem na forma da história e a libertação do Egito. O Monte da Transfiguração é, naturalmente,
do batismo nos sinóticos e também no emprego do título "Cordeiro o novo Sinai; seria inútil procurar sua localização geográfica porque
de Deus" pelo quarto evangelista. Todo o problema do significado os evangelistas não possuíam tal preocupação. O novo Moisés, como
desse título é muito complicado, mas, talvez estejamos no caminho
certo, se considerarmos Jesus oferecendo-se, já no batismo, como o
(16) Ver ainda infra, 224-7.
(17) V e r C. K . B a r r e t t , The Holy Spirit anã the Gospel Traâitio-n, 35-9.
o antigo, ouve a voz de Deus, estando no "monte santo" ( I I Pe 1.18). munho da voz celeste eles desaparecem e os discípulos contemplam
Lemos em Êx 24.16: " E a glória do Senhor pousou sobre o Monte apenas Jesus (Mc 9 . 8 ) .
Sinai, e a nuvem o cobriu por seis dias; ao sétimo dia do meio da Não nos causa espécie saber que os críticos liberais, incapazes
nuvem chamou a Moisés". "Seis dias depois, tomou Jesus consigo de entender que a profunda verdade bíblica se transmite por meio
a Pedro, Tiago e João" (Mc 9 . 2 ) ; São Marcos não conta o que teria de figuras e símbolos, não conseguissem descobrir o significado da
acontecido nos seis dias anteriores, simplesmente porque não estava história da transfiguração. Durante muito tempo era costume con-
descrevendo fatos cronológicos, mas fazendo teologia: ao sétimo dia siderá-la "uma história da ressurreição fora de lugar" (J. Wellhau-
Deus chamou do meio da nuvem o novo Moisés (Mc 9.7). Quando sen, A. Loisy, R. Bultmann, etc.) ; em data mais recente é comum
Moisés desceu do Sinai, a pele de seu rosto resplandecia porque tivera salientar-lhe o caráter escatológico.* ' Quase não há dúvida de que
18

falado com Deus, amedrontando-se os filhos de Israel (Êx 34.29 s.) ; Moisés e Elias figurem na história por causa da expectação do
da mesma forma, quando Jesus desceu do Monte da Transfiguração, "profeta semelhante a Moisés" e de Elias, que haveria de surgir nos
a multidão "tomada de surpresa, correu para êle, e o saudava" (Mc últimos tempos (Ml 4.4 s.; Mc 9.11, etc.) ; Lohmeyer aproxima-se
9.15) : o evangelista deixava aos mestres da Igreja, que deveriam da verdade, quando supõe que os três discípulos são o Keim und
usar suas compactas notas, a tarefa de explicar aos catecúmenos o Kern, os membros fundadores, da comunidade escatológica, receptora
sentido dessa "surpresa". São Lucas, tendo notado que fora a face do mistério revelado do Filho do Homem na glória de sua parousía.
de Moisés que brilhara (Êx 34.29, L X X : dedócsastai he ópsis tôu Segundo São Marcos, Pedro, Tiago e João percebem, num lampejo,
chrómatos tôu prosópou autôu), acrescenta, à brancura das vestes a futura glória do Messias, que eles confessam, desvelando-se por um
de Jesus, que "a aparência do seu rosto se transfigurou" (tò eidos momento o incógnito de sua pessoa. Mas apenas São Lucas men-
tôu prosópou autôu héteron, Lc 9.29). A voz de dentro da nuvem ciona a dócsa, acrescentando que fora vista pelos discípulos (9.31
(Bath-qol) repete (com pequenas variações), nos três sinóticos, as s.); embora a idéia da dócsa escatológica não esteja ausente da narra-
mesmas palavras celestiais proferidas no batismo de Jesus: "Este tiva de Marcos. A sugestão de São Pedro, de se construírem três
é o meu filho amado"; nota-se, porém, uma adição: " A êle ouvi" tabernáculos não é, naturalmente, fora de propósito, como geral-
(akóuete autôu), citada virtualmente de Dt 18.15: autôu akóu- mente se pensa: faz parte do simbolismo escatológico da história.
sesthe, " A êle ouvirás". A voz de dentro da nuvem testemunha que Os judeus buscavam a presença do Messias habitando entre os eleitos
este é o profeta prometido, semelhante a Moisés, a quem o povo de (aqui representados por Moisés e Elias) (cf. Ez 37.27; 43.7,9;
Deus deve ouvir. Zc 2.10 s.; 8.3,8; Tobias 13.10; Jo 1.14; Ap 21.3, e t c ) , e Pedro
vagamente entende que se aproximam os dias em que o tabernáculo
A introdução de Elias no quadro, ao lado de Moisés, não altera de Deus estaria com os homens. Mas ainda não se haviam cumprido
o caráter da narrativa sinótica da transfiguração: é notável exem- os tempos; a obra de Cristo não se completara — Pedro não com-
plo do ensino cristológico judaico cristão primitivo do tipo que con- preendia plenamente todas as coisas; não percebera que Cristo deve-
siderava Jesus Cristo o Profeta semelhante a Moisés. Pois no pensa- ria sofrer: "Pois não sabia o que dizer" (Mc 9.6). São Lucas
mento rabínico o próprio Elias já era um segundo Moisés, que dá-nos o aspecto crucial da situação: Moisés e Elias falam com
contendera pela Tora e recebera a graça de conversar com Deus no Jesus exatamente sobre o que eles não poderiam ainda entender,
"monte de Deus" (Horebe-Sinai: I Rs 19.8); é "outra vez" Moisés, "sua partida, que êle estava para realizar, em Jerusalém" (Lc 9.31).
assim como Eliseu era uma espécie de "segunda edição" de Elias, O novo Moisés deve cumprir seu êxodo libertador antes de sua
segundo a doutrina bíblica das personalidades que fluem umas nas assumptio, de sua elevação (Lc 9.51) à glória do reino celeste. Mas
outras. Tanto Moisés como Elias (no conceito rabínico) não haviam a glória já lhe pertence, embora oculta; e no Monte da Transfigu-
morrido, mas tinham sido transladados ao céu — ponto de vista ração testemunhas escolhidas contemplam-na num lampejo de ante-
também adotado por São Lucas. Assim, não está estritamente cor- cipação. Para os apóstolos a experiência da transfiguração foi um
reto afirmar que, na história da transfiguração, Moisés representa meio de certeza sobre o cumprimento das coisas que os cristãos
a lei e Elias os profetas, que igualmente dão testemunho de Jesus, esperam; foi uma revelação momentânea da glória no meio das
porque Moisés é, essencialmente, "o Profeta", e Elias, apenas Moisés trevas, como a lâmpada que ilumina um lugar escabroso, consi-
outra vez. As duas figuras tinham sido assimiladas no pensamento
judaico, pelo menos desde a época em que teria sido escrito Ml 4.4
s. Moisés e Elias representam, nessa história, a antiga ordem, con- (18) V e r E. L o h m e y e r , D a s Evangelium des Markus, G . H . B o o b y e r , St. Mark
and the Transfiguration Story, 1942, e e s p . A . M . R a m s e y , The Glory of God and
trastada com a nova, na qual aquela se cumpria. Logo após o teste- the Transfiguration of Christ, 1949, 101-11.
derada suficiente até que o dia clareie e desponte a estréia matutina tes.<2D A anâlempsis Moyséos prefigurava assim a ascensão de
da gloriosa parousía já desvelada ( I I Pe 1.16-19). Pela fé a dócsa Cristo, e lemos em Lc 9.51 s.: " E aconteceu que, ao se completarem
de Deus já é vista, desde agora, brilhando na face (prósopon) de os dias em que devia êle ser assunto ao céu (eguéneto dè em tó sym-
Jesus Cristo, como resplandecera uma vez na face de Moisés ( I I Co plerôusthai tàs heméras tês analémpseos autóu), manifestou no sem-
4.6; Êx 34.29-35). O esplendor visível da dócsa na face de Jesus blante a intrépida resolução de ir a Jerusalém, e enviou mensageiros
Cristo diante de três testemunhas era graciosa concessão de Deus que o antecedessem..." O substantivo anâlempsis aqui é um hápax
aos apóstolos escolhidos, como aquela dócsa de luz que resplandecera no NT, mas, naturalmente, o verbo analambánein descreve a ascen-
sobre Paulo no caminho de Damasco (At 22.11). A transfiguração são de Cristo ( A t 1.2, 11, 22; I Tm 3.16; Mc 16.19). Nos L X X
era um sinal para todos os que cressem no testemunho apostólico e em outros escritos judaicos emprega-se anâlempsis para transla-
de que a fé e a esperança do Evangelho de Cristo não eram ilusórias. dações milagrosas. C. F. Evans, sem dúvida, acerta quando chama
a atenção para a maneira cuidadosa como São Lucas trata o tema de
São Lucas, em particular, considera Jesus o novo Moisés que Jesus como o novo Moisés e também — idéia caracteristicamente
reapresenta o drama da salvação onde a Tora fora o kérygma origi- de Lucas — como o novo Elias. > (22

nal e clássico; como o antigo Moisés, Jesus realiza o seu êxodo e


vai até sua "ascensão".< > É claro que os eventos históricos da vida
19

A HISTÓRIA DA PAIXÃO
de Jesus não se enquadram perfeitamente dentro do esquema do
Pentateuco, indicando o respeito que tinham os evangelistas canó- Todos os escritores do NT acreditam que o AT prediz a história
nicos pela. história, não tentando ajustá-la a planos predeterminados. do Evangelho, pelo menos em figura. As Escrituras judaicas eram,
Por exemplo, Moisés no monte santo estabelecera com Deus a aliança nos dias apostólicos, os únicos escritos sobre a revelação de Deus;
sagrada, ratificando-a com o sangue de vítimas animais (Êx 24) ; conseqüentemente, essa revelação deveria conter, pelo menos por
mas não se sugere nenhuma aliança no Monte da Transfiguração, meio de tipos e símbolos ocultos, uma certa previsão dos eventos que
porque os evangelistas não estavam procurando um cumprimento haveriam de dar-se nos dias da salvação messiânica. A posição do
tipológico, embora notável, que viesse contrapor-se à cena histórica NT está resumida em I Pe 1.10-12: "Foi a respeito desta salvação
da realização da aliança na noite em que Jesus fora traído (Mc que os profetas indagaram e inquiriram, os quais profetizaram
14.24; cf. Êx 24.8). Mas, sendo judeus, buscam paralelos tipoló- acerca da graça a vós outros destinada, investigando atentamente
gicos sempre que possíveis, especialmente porque o esquema do Pen- qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas, indicadas pelo
tateuco, da salvação, era o único modelo kerygmático conhecido: o Espírito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemão testemunho
ato divino da salvação proclamado no AT seria, inevitavelmente, sobre os sofrimentos referentes a Cristo, e sobre as glórias que os
tomado como o tipo daquele que se cumpria no kérygma apostólico. seguiriam. A eles foi revelado que, não para si mesmos, mas para
A história de Moisés prenuncia a de Jesus. A permanência no vós outros, ministravam as coisas que agora vos foram anunciadas
deserto, a subida ao monte santo, a alimentação com pão descido por aqueles que, pelo Espírito Santo enviado do céu, vos pregaram
do céu e o "êxodo" em Jerusalém são realizações óbvias do modelo o evangelho". Os mistérios da salvação, ocultos no AT, mesmo para
mosaico; mas dificilmente encontraríamos paralelo da ressurreição os profetas, manifestam-se agora por meio do Espírito, quando são
no Pentateuco; os escritores do NT, é verdade, não procuram forçar proclamadas pelos pregadores da Igreja as boas novas do ato de
essas analogias. < °) São Lucas, porém, ao descrever a Ascensão,
2
Deus em Cristo.
depois de quarenta dias, parece alinhar-se à crença rabínica comum Vê-se claramente esse ponto de vista na história da paixão. Se
na assunção de Moisés. No AT somente Enoque (Gn 5.24; Ecle- os pregadores cristãos tivessem mesmo alguma coisa escandalosa
siásticos 44.16; 49.14; Hb 11.5) e Elias ( I I Rs 2.11) são trans- para anunciar (cf. I Co 1.23; Gl 5.11; I Pe 2.9; Dt 21.23), deve-
ladados ou "elevados" ao céu sem morrer; daí sua preeminência na
literatura apocalíptica como reveladores de segredos. Mas por volta
(21) A o b r a c o n h e c i d a c o m o A Assunção de Moisés, d a q u a l e x i s t e u m só
do primeiro século A.D. também Moisés recebe honras semelhan- m a n u s c r i t o latino, f o i e s c r i t a o r i g i n a l m e n t e e m h e b r a i c o e a r a m a i c o p o r u m
f a r i s e u quietista, l o g o a p ó s a m o r t e d e H e r o d e s , o G r a n d e . É n u m a p ê n d i c e
e x t r a v i a d o d e s s a o b r a , c i t a d o p e l o s escritores d a patrística g r e g a , q u e a p a r e c e m
referências à disputa entre M i g u e l e Satanás, a respeito d o corpo d e Moisés, seguida
(19) V e r o d e s e n v o l v i m e n t o deste tema e m Studies in the Gospels, ed. D . E. d a t r i u n f a n t e " a s s u n ç ã o " d e M o i s é s a o c é u ( J d 9 faz a l u s ã o a essa l e n d a , o u
N i n e h a m , no a r t i g o de C. F . E v a n s , " T h e C e n t r a l S e c t i o n of S t L u k e ' s G o s p e l " cita essa o b r a ) . V e r a e d i ç ã o d e R. H . C h a r l e s (1897); t a m b é m F . C. B u r k i t t ,
37-53. art. " M o s e s , A s s u m p t i o n o f " e m H D B I I I , 448-50; e C. F. E v a n s , o p . cit.
(20) V e r infra, 191-3. (22) O p . cit., v e r t a m b é m s u p r a , 119.
riam antes de tudo demonstrar que Cristo morrera segundo as Escri- diz terem-lhe dado vinho misturado com fel (Mt 27.34), também
turas ( I Co 15.3). Existem boas razões para se pensar que a his- recusado, após ter sido provado. Pode ser ainda que o registro da
tória da paixão foi a primeira parte da tradição do Evangelho a tradição em alguns manuscritos de Mateus 27.49, de que correra
receber forma definitiva, < 3) não sendo difícil percebê-lo. Desde o
2 água do lado lancinado de Jesus (como explicitamente o declara
princípio fora preciso responder às objeções de que Jesus não era Jo 19.34) baseie-se no SI 22.14: "Derramei-me como água".
o Messias, não apenas por causa das dificuldades escriturísticas Esses exemplos são suficientes para mostrar que os evangelis-
(Dt 21.23), mas também porque a justiça romana, depois de julgá-lo, tas, quando escreveram as histórias da paixão, procuraram ilustrar
condenara-o à morte como malfeitor. A essa objeção bastava deixar a convicção da Igreja primitiva de que as Escrituras tinham um
que os fatos falassem por si mesmos, contando-se com simplicidade télos a respeito de Cristo (Lc 22.37). A história da paixão fera
e sem ornamentos a história de sua morte. Desde o começo tornou-se predita pelos profetas: "O Filho do homem vai, como está escrito
parte essencial da pregação do Evangelho; e achou-se nela maravi- a seu respeito" (Mc 14.21; cf. Lc 24.25-27,44; At 3.18,24). Tudo
lhosa força para convencer os corações humanos. o que ocorrera, mesmo os pequenos pormenores do drama da paixão,
haviam sido pelo "determinado desígnio e presciência de Deus" (At
Surgida a crença de que a figura de Isaías do Servo do Senhor
2.23). Em Mt 26.53 Jesus declara: "Acaso pensas que não posso
era uma profecia a respeito de Cristo (Mt 12.18-21; At 3.13,26; rogar a meu Pai, e êle me mandaria neste momento mais de doze
4.27,30; 8.32-35; I Pe 2.21-25), seguia-se naturalmente que todos legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo
os pormenores do oráculo de Is 52.13-53.12 deveriam ter sido cum- as quais assim deve suceder?" Diz também aos que o vêm receber
pridos, segundo o entender dos evangelistas; o mesmo se aplicava com espadas e cacetes: "Tudo isto, porém, aconteceu para que se
ao SI 22 e algumas outras passagens. Assim, Mc 15.29 s. (" . . . blas- cumprissem as Escrituras dos profetas" (Mt 26.56). Os vívidos
femavam dele, meneando a cabeça e dizendo: A h ! tu que destróis o pormenores das narrativas da paixão, tais como as sortes lançadas
santuário e em três dias o reedificas! Salva-te a ti mesmo, descendo pelos soldados ou a esponja de vinagre, não foram escritos porque
da cruz") é clara reminiscência do SI 22.7 s. ("Todos os que me os evangelistas fossem bons contadores de histórias, desejosos de
vêem zombam de mim; afrouxam os lábios e meneiam a cabeça: impressionar os leitores, mas porque tais incidentes demonstravam
Confiou no Senhor! livre-o êle, salve-o, pois nele tem prazer"). Ma- o princípio: tôuto tò guegramménon dêi telesthênai (Lc 22.37). O
teus, para não perder o paralelo com o SI 22, coloca nos lábios dos escândalo da cruz (Gl 5.11) fora predeterminado pela vontade de
principiantes sacerdotes a citação bem definida do Salmo: "Confiou Deus em todas as suas minúcias. Na vida e morte de Jesus Cristo,
em Deus; pois venha livrá-lo agora, se de fato lhe quer bem" (Mt 0 problema do livre arbítrio e da predestinação expressam-se de
27.43). É provável que a cena onde os soldados repartem as vestes maneira crucial, e é exatamente aqui também que deverão encontrar
de Jesus lançando sortes sobre elas (Mc 15.24) seja inferência do solução. Aquele que fora predeterminado escolhe livremente o des-
SI 22.18: "Repartem entre si as minhas vestes, e sobre a minha tino que lhe cabia: "Não seja o que eu quero, e, sim, o que tu
túnica deitam sortes". Alguns manuscritos de Marcos acrescentam queres" (Mc 14.36). Em Cristo, o eleito de Deus, encontram-se
outro versículo (Mc 15.28) para acentuar o sentido da crucifixão liberdade perfeita e absoluta determinação; a liberdade humana
entre dois ladrões: " E cumpriu-se a Escritura que diz: com mal- une-se com a onipotência divina. O problema do livre arbítrio e da
feitores foi contado" (Is 53.12) ; em Lucas, a citação é feita por determinação resolve-se na nova humanidade de Jesus Cristo/ ' 24

Jesus, quando se dirige aos discípulos depois da última ceia (Lc A história da paixão não pode ser considerada sem a pregação
22.37). O oferecimento do vinagre numa esponja (Mc 15.36) cum- da ressurreição, da qual é prelúdio. Tomadas juntas, essas narra-
pre o SI 69.21: "Por alimento me deram fel, e na minha sede me tivas, cumprem a idéia de vindicação, tão freqüente no AT. " A pedra
deram a beber vinagre". Mateus, por certo, tinha esse versículo que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra
em mente, quando transformou a declaração de Mc 15.23 de que, angular" (Mc 12.10, citando o SI 118.22; cf. também At 4.11;
tendo chegado ao Gólgota, deram a Jesus vinho com mirra (a popu- 1 Pe 2.7; comparar Is 28.16 com Ef 2.20). É natural que Israel,
lar posca ou bebida dos soldados), que êle recusou, na outra em que tendo sofrido tanto no decurso de sua história, buscasse em Deus

(23) Cf. V . T a y l o r , The Formation of the Gospel Tradition, 1933, 44 ss.; R . H . (24) Importante consideração desse p r o b l e m a encontra-se em D. M. Baillie,
L i g h t f o o t , History and Interpretation in the Gospels, 1934, 126 ss.; M . D i b e l i u s , G o d Was in Christ, 1948, esp. 106-32 [ O b r a t r a d u z i d a p a r a o p o r t u g u ê s s o b o título
From Tradition to Gospel, E T , 1934, 23; R. B u l t m a n n , Form-Criticism, E T , 1934, 65.
Deus Estava em Cristo, publicada pela ASTE].
t,
" . . . porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também
a recompensa (ekdíkesis); é um tema bastante comum, especial- Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo..." O mais
mente nas passagens apocalípticas (e.g., Zc 3; Dn 7, e cf. Ap pecaminoso dos atos humanos jamais cometido, a crucifixão do
passim). O desejo de vindicação quase se confunde com o de vin- Messias de Deus, tornou-se pelo poder divino o veículo da salvação
gança contra os opressores, sendo que a palavra ekdíkesis pode dos pecadores: a vingança de Deus é, na apresentação final do NT,
significar qualquer um desses sentimentos. As orações dirigidas a um amontoar de brasas vivas de seu amor sobre a cabeça dos ini-
Deus pedindo-lhe o extermínio da injustiça muito facilmente podem migos (cf. Rm 12.20).< 6' 2

cair no desejo de vingança. O A T ensina que esta pertence unica-


mente a Deus (Dt 32.35, citado em Rm 12.19 e Hb 19.30; SI 94.1;
Is 1.24; 59.18; Na 1.2; Eclesiástico 28.1), princípio vigorosamente
ratificado por nosso Senhor em Lc 18.7 s., etc. Proíbe terminante-
mente toda a vingança e revide entre seus seguidores (Mt 5.38-48;
6.14 s.; Lc 9.51-55"; 17.3 s.; cf. 23.34), ensino que São Paulo
entende perfeitamente (Rm 12.17-21; I Ts 4.6). Por outro lado,
o apóstolo pinta um quadro tenebroso e aterrador da ekdíkesis que,
na parousía, virá sobre os que agora afligem a Igreja e desobede-
cem ao Evangelho de nosso Senhor Jesus ( I I Ts 1.6-9), com para-
lelos igualmente trágicos em outras porções do NT (e.g., Mc 9.43-
48; Jd 7; Ap 21.8). Talvez devêssemos tomar esses exemplos como
maneiras pitorescas de ressaltar o caráter divino da justiça vinga-
dora, que não excluem, contudo, o tremendo desejo de conversão e
redenção do pecador. Não se pode dizer, honestamente, que no A T
Is 52.13-53.12 seja a única passagem em que o sofredor, tendo sido
vindicado, salva os seus perseguidores e intercede pelos transgres-
sores: a saga de José (Gn 37-50) é esplêndida declaração da dou-
trina do sofrimento vicário, pois, José, quando triunfante, salva os
irmãos que lhe haviam feito sofrer tantos males. Mas o N T jamais
cita explicitamente o exemplo de José nem o considera um tipo de
Cristo;* ' nada nos impede de reconhecer nas histórias "primiti-
25

vas" de José profunda compreensão bíblica da natureza do sofri-


mento vicário que se realiza plenamente na história de Cristo, nos
Evangelhos: "Perguntou Israel a José: Não apascentam teus irmãos
o rebanho em Siquém? Vem, enviar-te-ei a eles. Respondeu-lhe
José: Eis-me aqui" (Gn 37.13). A história toda do Evangelho, que
nos conta o modo como Deus anula os maus intentos humanos e os
leva à salvação, apesar de suas obras iníquas, está implícita na
história infantil de José e seus irmãos. Mas foi em Is 53 que a
Igreja apostólica procurou orientação a respeito da ekdíkesis, tanto
no sentido de recompensa como de vingança, achando-se em I Pe
2.18-25, talvez com mais clareza, o sentido de sua aplicação prática:

(25) O D r . A u s t i n F a r r e r , entretanto, d e f e n d e v i g o r o s a m e n t e a tese de q u e a


t i p o l o g i a de José a c h a - s e p r e s e n t e na história d a p a i x ã o , d e M a r c o s : assim c o m o
José ( o p a t r i a r c a ) p e d i u licença p a r a s e p u l t a r o v e l h o I s r a e l ( G n 5 0 . 4 - 6 ) , José
( d e A r i m a t é i a ) a solicitou p a r a e n t e r r a r o n o v o I s r a e l ( M c 15.42-46), etc. V e r
The Glass of Vision, 1948, 144 s.; A Study in St Mark, 141, 174, 333 s. Também
(26) S o b r e ekdikéo e ekdíkesis v e r t a m b é m a no.ta 3 d a p á g . 199 infra.
H e l e n G a r d n e r , The Limits of Literary Crilicism, 1956, 25-39.
IX

RESSURREIÇÃO, ASCENSÃO E VITÓRIA DE CRISTO


O principal argumento em favor da ressurreição de Cristo não
vem de habilidosa reunião de evidências documentárias dos Evan-
gelhos, nem do NT como um todo, mas do que a Igreja faz cada
domingo e da qualidade de sua vida dia após dia. Quando a Igreja
se reúne para o partir do pão, segundo o mandamento do Senhor,
não somente proclama sua morte ( I Co 11.26), mas dá testemunho
de sua ressurreição. A celebração semanal da morte de um Senhor
morto não seria ocasião de alegria e ações de graças; o fato de os
discípulos, desde os primeiros dias, reunirem-se para comemorar
jubilosamente o memorial de sua morte, revivendo a cena solene do
cenáculo na noite anterior à traição, é a mais poderosa evidência
que se possa ter da certeza de que conheciam a ressurreição. "Fora
por eles reconhecido no partir do pão" (Lc 24.35). A reunião dos
discípulos que "deixando-o, todos fugiram" (Mc 14.50) é suficiente
prova de que algo milagroso ocorrera; e a própria existência da
Igreja, se levarmos em conta as circunstâncias em que a missão de
Jesus parecia terminar em falha e fracasso total, já seria bastante
para nos convencer de que a explicação dos apóstolos é, de fato, a
única que merece aceitação racional. Só ela dá sentido ao corajoso
testemunho prestado por eles diante do mesmo tribunal que conde-
nara o Mestre (At 4.5-22). Desde então tornaram-se testemunhas
da ressurreição (At 1.22; 2.32; 4.33).

"SEGUNDO AS ESCRITURAS"
A Igreja apostólica acreditava que Cristo ressuscitara "ao ter-
ceiro dia, segundo as Escrituras" ( I Co 15.4). "Assim está escrito
que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no
terceiro dia" (Lc 24.46; cf. 24.25 s.). Entretanto é bastante difícil
encontrar passagens específicas do A T que pudessem ser considera-
das profecias definidas da ressurreição de Cristo no terceiro dia.
Is 53.10-12 prediz a recompensa triunfante do Servo justo, mas
não é citado no NT como um texto de prova; o Sl 22 também, de Israel na terra do exílio e subseqüente ressurreição (Ez 37.1-14)
tomado como um todo, fala do triunfo após o sofrimento, não sendo e que, segundo o NT, o Messias deveria recapitular a história de
conhecido dos escritores do NT o ponto de vista crítico de que os Israel.
vs. 22-31 pertencem a outra composição. Há profecias de ressur- A terceira, mais problemática, seria Êx 19.10 s.: "Disse tam-
reições nos Salmos, e.g., Sl 2.1 s. (citado em At 4.25 s.), Sl 16.8-11 bém o Senhor a Moisés: "Vai ao povo, e purifica-os hoje e amanhã...
(At 2.25-28), Sl 110.1 ( A t 2.34 s.), Sl 118.22 ( A t 4.11, etc.). e estejam prontos para o terceiro dia: porque no terceiro dia o
Mas nenhuma dessas passagens prenuncia a ressurreição no terceiro Senhor, à vista de todo o povo descerá sobre o Monte Sinai". Talvez
dia; contudo, é o que São Lucas e São Paulo entendem estar nas pudéssemos dizer que a inexplicável introdução de Mt 28.16: "para
Escrituras. Talvez estivessem pensando em três outras passagens o monte que Jesus lhes designara", fosse alusão à descida do Senhor
do AT.
sobre o monte, ao terceiro dia, na história do estabelecimento da
A primeira seria Os 6.2: "Depois de dois dias nos revigorará; Antiga Aliança. Mas tudo não passa de meras probabilidades que
ao terceiro dia nos levantará, e viveremos diante dele". Não signi- nos indicam a dificuldade que existe para se encontrarem nas Es-
ficaria muita coisa para o pensamento moderno, mas pareceria crituras profecias da ressurreição no terceiro dia. Diríamos, antes,
adequada aos escritores do NT. Oséias está anunciando a restaura- com segurança, que essa história não foi composta a partir de pre-
ção de Israel depois do castigo, após sua infidelidade: o NT consi- cedentes do A T (como a história da paixão, se fosse o caso, o seria
dera Cristo o novo Israel, castigado por nossos pecados e ressuscitado a partir do Sl 22 e de Is 53) e que escritores do NT não acharam
para nossa justificação (Rm 4.25). O novo Israel recapitula e fácil reunir porção considerável de testimonia da ressurreição. Di-
cumpre a história do antigo. O AT fora escrito, como diz São Paulo, ficilmente teríamos nos Evangelhos o episódio da ressurreição se
typikôs — "como figura"; a forma do Cristo é discernível no todo a história de Cristo tivesse sido escrita por eruditos rabinos basea-
e nas partes. As coisas que aconteceram a Israel "lhes sobrevieram dos nas profecias do AT sobre o Messias, mesmo se pudesse compor
como exemplos (typikôs), e foram escritas para advertência nossa, dessa maneira uma narrativa da paixão. Tal história haveria de
de nós outros sobre quem os fins do século têm chegado" ( I Co concluir com algo semelhante à "assunção de Moisés". Os eventos
10.11). Então Cristo é o cordeiro do sacrifício cristão e a Ressur- da vida, morte e ressurreição de Jesus não se ajustam exatamente
reição é a Páscha cristã (cf. I Co 5.7 s.) : a Igreja lê Êx 12.1-14 à forma do Pentateuco; os evangelistas canónicos sentem-se à von-
como lição do AT na manhã do domingo da Páscoa. E também canta tade com o material histórico disponível, não se preocupando mes-
o Áisomen pántes laói de São João Damasceno (c. A.D. 750) : mo quando nem tudo possa perfeitamente enquadrar-se no esquema
do Pentateuco ficando assim muitos elementos fora das previsões
messiânicas de salvação do A T .
"Ó fiéis, ao céu erguei
Salmos de louvores.
Regozija-se Israel:
A EVIDÊNCIA DOCUMENTÁRIA DA RESSURREIÇÃO
Não mais sofre as dores
Da cruel escravidão. Há suficiente evidência no NT de que a parádosis apostólica
Por livrar seu povo, continha desde os primeiros tempos relatos das aparições do Senhor
Fê-lo Deus passar o mar após a ressurreição. Esses eventos eram contados aos catecúmenos
Para um mundo novo." juntamente com as outras descrições da vida e ditos de Jesus. Os
pregadores proclamavam a ressurreição, naturalmente, como parte
(Trad. de E. M. Krischke) integrante do kérygma da Igreja, e nós podemos considerar os dis-
A segunda passagem seria Jn 1.17: "Esteve Jonas três dias cursos atribuídos por São Lucas a São Pedro ( A t 2.14-36; 3.12-26;
e três noites no ventre do peixe". Mt 12.40 evidencia que pelo 4.8-12; 5.29-32; 10.34-43) como exemplos autênticos da pregação
menos a Igreja dos tempos do NT entendia esse texto como profecia cristã primitiva.W As pessoas que se achegavam à comunidade da
da morte e ressurreição de Cristo: "Assim como esteve Jonas três Igreja, atraídas pela mensagem de seus pregadores, eram remetidas
dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do homem aos que tinham a missão de instruí-las a respeito da parádosis so-
estará três dias e três noites no coração da terra". (São Lucas não bre o Senhor Jesus, que era a base do ensino da Igreja em todas as
interpreta o semêion de Jonas dessa maneira; Lc 11.20-32). Mas
se essas referências nos parecem pouco prováveis, devemos lembrar-
nos de que a aventura de Jonas era uma parábola do "sepultamento" (1) V e r supra, 26 s.
questões de fé e moral. Foram preservados no NT, resumidamente, Como exemplos Mt 28.8-10, Mt 28.16-20 e Jo 20.19-21. São períco-
dois exemplos da parádosis da ressurreição de Cristo. pes com todas as características de tradição popular "nas quais uma
O primeiro acha-se em I Co 15.19, em que Paulo recorda aos história muitas vezes repetida é polida e repisada, como a pedra
convertidos de Corinto as palavras com as quais lhes pregara o gasta pela água, até que nada mais nela permaneça a não ser o essen-
Evangelho. Considera-as parádosis comum da Igreja e não seu cial, na forma mais notável e impressionante". (3) Têm todas o mes-
ensino particular; é "o que também recebi" (v. ¿5). Leva-nos ao mo modelo: A. A Situação: os seguidores de Cristo são destituídos
tempo em que não havia nenhum Evangelho escrito. Conta como de seu Senhor; B. O Aparecimento do Senhor; C. A Saudação; D.
Cristo ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apa- O Reconhecimento, e E. A Palavra de Ordem. Estão presentes de-
recera a Cefas (i.e., Pedro), aos Doze (aos OnzeV), a mais de qui- veras todos os elementos que, em outros contextos, levariam os crí-
nhentos irmãos de uma só vez, depois a Tiago, mais tarde a todos ticos da forma a crer que as perícopes eram primitivas. São per-
os apóstolos, e por fim a êle mesmo (Paulo). Alguns pontos per- feitamente concretas e não simbólicas ou analógicas; não são, por
manecem obscuros nesse resumo. O aparecimento a Pedro nao é certo, invenções mitológicas destinadas a explicar o histórico. Con-
descrito nos Evangelhos, embora Lc 24.34 o mencione e, talvez, Mc trastadas, por exemplo, com as descrições do batismo e da transfi-
16.7 remotamente o entenda. Os Evangelhos canónicos também guração, não contêm temas teológicos elaborados nem simbolismo
nada dizem sobre o aparecimento a Tiago; e não temos outra refe- apocalíptico ou escatológico. Dão testemunho (segundo os mais se-
rência ao caso dos quinhentos irmãos, entretanto essa era a tradi- veros princípios da crítica da forma) da realidade da ressurreição
ção que Paulo recebera e entregara as Igrejas; e havia, no seu tem- como evento histórico, tanto quanto qualquer outro que tenhamos
po muitas pessoas que poüeriam pôr em duvida o seu ensino, se êie conhecido por meio dos paradigmas dos Evangelhos sinóticos.
se tivesse afastado da tradição geralmente aceita.
Em adição a esse elemento paradigmal, há também, nas narra-
O segundo exemplo da parádosis da Igreja, também resumido, tivas da ressurreição, o elemento visivelmente didático, que procura
acha-se em Mc 16.9-15. Muitos estudiosos do NT, recentemente, transmitir a verdade teológica por meio de histórias. Mas não devem
tendem a considerar Mc 16.9-20 ("o Longo Final") composição de ser encarados como simples exemplos de arte de narrar; são obras
outro escritor que teria trabalhado com as partes finais de São Ma- literárias de padrão elevado, não há dúvida, mas com fins didáti-
teus e São Lucas, que lhe teriam precedido. Mas é um ponto de vis- cos; não se esgotam em ser "histórias de boa qualidade", como pen-
ta gratuito; ainda seria viável que o autor estivesse preservando savam os críticos da forma, ao considerar a mais ou menos imagi-
uma parte da parádosis que as porções finais de São Mateus e São nária classe de Novellen (e.g., O Endemoninhado Geraseno ou o
Lucas apresentassem com maior elaboração literária. A passagem Jovem Epiléptico). Bons exemplos de trechos literários e didáticos
relata o aparecimento do Senhor Ressurreto a Maria Madalena, coisa seriam Lc 24.13-35, no Caminho de Emaús ou Jo 21.1-14, o Apareci-
que os discípulos não acreditaram; também "a dois deles que esta- mento a Pedro e aos outros seis discípulos no Mar da Galileia. Ba-
vam de caminho para o campo", e que não lhe deram crédito (con- seiam-se, sem dúvida, em fato concreto, mas por causa de seu pro-
fundo ensino teológico, e de se terem tornado parábolas de tão alta
trastar com Lc 24.34), e finalmente "aos Onze, quando estavam à
qualidade, escapa-nos a percepção de sua forma original. É pro-
mesa" e comiam, tendo Jesus lhes censurado a incredulidade e or- vável que São Lucas tivesse contribuído à parádosis comum com
denado que fossem por todo o kósmos e pregassem as boas novas a antiga história da jornada dos dois discípulos "que estavam de
a toda a criação. Não nos parece haver razões para duvidar da exis- caminho para o campo" (Mc 16.12 s.), transformando-se ela na
tência de uma parádosis original desse tipo, transmitida pelos mes- maravilhosa parábola do Cristo Ressurreto que abre as Escrituras
tres da Igreja desde os tempos apostólicos até a época em que os
Evangelhos vieram a ser lidos e, mais tarde, aceitos canonicamente, (testimomum Spiritus sancti internum) e que é a história da euca-
suplantando a transmissão oral da tradição. ristia: o partir do pão acompanhado pela exposição das Escrituras
Dentro dessa parádosis, ou esquema geral, é possível discernir ( A T ) na Igreja apostólica. Talvez São João também tivesse desen-
perícopes especiais que foram transmitidas pelos mestres da Igreja, volvido outro elemento primitivo da tradição que resultou, mais tar-
desde os dias mais primitivos. C. H. Dodd, recentemente, indicou de, em Lc 5.1-11 ( A Pesca Maravilhosa), e que serviu como a bela
a existência, nas narrativas da ressurreição, de perícopes de tipo parábola do triunfo missionário da Igreja, em obediência à ordem do
paradigmal (apotegmas, narração de pronunciamentos) . Cita ( 2 )
Mestre ressurreto. Não o sabemos; mas é certo que ambas as histó-
rias, embora sendo parábolas realmente teológicas, contêm, no mais
(2) E m s e u " E s s a y i n the F o r m - C r i t i c i s m of the G o s p e l s " , e m Studies in the
Gospels, ed. D . E . N i n e h a m , 9-35. (3) O p . cit., 10.
profundo sentido, a verdade da história: ã experiência da Igreja berta do túmulo vazio pelas mulheres que haviam ido "muito cedo
apostólica da realidade e do poder da ressurreição de Cristo. no primeiro dia da semana", para ungir o corpo do Mestre crucifi-
cado (Mc 16.1-8; cf. Mt 28.1-7; Lc 24.1-12; Jo 20.1-10). A idéia
Devemos, por fim, observar na tradição literária da ressurrei-
de que a ressurreição de Cristo foi um evento puramente "espiri-
ção ainda o motif apologético. Exemplifica-se claramente na his-
tual", enquanto o cadáver teria ficado no túmulo, é muito moderna;
tória de Mateus, da Guarda do Sepulcro e da Escolta (Mt 27.62-66),
baseia-se em teorias da impossibilidade do milagre, derivadas da fí-
destinada a replicar a mentira dos "Judeus" de que os discípulos
sica do século dezenove. Os que defendem esse ponto de vista dizem
teriam roubado o corpo de Jesus (Mt 28.11-15). Da mesma forma,
que não há referência alguma ao túmulo vazio na parádosis rece-
podemos encontrar trechos contrários à interpretação docética que
bida por São Paulo (I Co 15.3-8) e que, portanto, não fazia parte
considerava a ressurreição de Cristo apenas "espiritual". Assim em
da tradição primitiva. Podemos contra-argumentar dizendo que
Lc 24.41-43 o Senhor ressurreto come "um pedaço de peixe assado",
São Paulo e outros omitiram a história da visita das mulheres ao
e em Lc 24.39 êle diz: "Apalpai-me e verificai, porque um pnêuma
sepulcro porque não desejavam que o caso da ressurreição de Cristo
não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho". Igualmente
dependesse da evidência de mulheres histéricas. É, porém, mais im-
em Jo 20.26-29 Tomé é convidado a pôr sua mão no lado de Cris-
portante a consideração de que São Paulo, ou qualquer outro judeu
to.' ' São Lucas conta-nos como São Pedro corrobora a verdade da
4

da época, não compreenderiam uma ressurreição meramente "espi-


descrição das mulheres a respeito do túmulo vazio, tendo corrido ao
ritual". Diferindo dos gregos, os judeus não pensavam que o homem
sepulcro e visto "senão os lençóis de linho" (24.12) ; São João de-
era composto de corpo e alma; todo o homem era um corpo vivo. Se
senvolve a apologética, dando outros pormenores circunstanciais, e
Cristo ressuscitara da morte teria que ser no corpo. Dessa maneira,
acrescentando o testemunho do "outro discípulo a quem Jesus ama-
Paulo não pode conceber um estado de existência sem corpos para
va" (20.1-10).
aqueles que ressuscitam em Cristo: eles são dotados de "corpo espi-
Somente dois escritores do NT dizem ter visto o Senhor ressur- ritual" (I Co 15.44). As realidades espirituais, celestiais ou terres-
reto. São Paulo o declara em I Co 9.1 e 15.8 (mas é São Lucas tres, divinas ou humanas, têm, cada uma, sua maneira própria de
quem descreve o caso em At 9.3-8; 22.6-11; 26.12-18; cf. 18.9); incorporação ( I Co 15.35-41). Quando a casa terrestre de nosso
São João, no Apocalipse, descreve sua visão de "um semelhante a tabernáculo fôr dissolvida, seremos "revestidos da nossa habitação
filho de homem" (1.10-18). É importante notar, contudo, que em celestial", de modo a não sermos encontrados nus ( I I Co 5.1-3),
comparação com essa figura apocalíptica, o Cristo ressurreto dos i.e., com a nudez dos espíritos sem corpo. Repugna à mente he-
Evangelhos é uma pessoa essencialmente humana e histórica. As braica a idéia de uma pessoa desencarnada; um pnêuma não é coisa
narrativas dos Evangelhos estão livres de imagens e símbolos apo- natural, mas monstruoso e mau, rejeitando-se com horror a possi-
calípticos, podendo ser, nesse sentido, fortemente contrastadas com bilidade do Cristo ressurreto ser assim um pnêuma (Lc 24.37). São
os relatos de transfiguração; estes são per contra vazios de elemen- Paulo jamais poderia ter imaginado uma ressurreição de Cristo que
tos kerygmáticos e paradigmais que, como já vimos, se encontram não fosse física no sentido das narrativas do túmulo vazio.
na tradição da ressurreição de Cristo.
Mas o corpo do Senhor ressurreto, segundo os Evangelhos, é
O TÚMULO VAZIO glorificado (cf. Fp 3.21); não está mais sujeito às limitações de
O túmulo vazio da manhã da Páscoa deve ter sido parte da nossos corpos mortais. Na linguagem paulina revestiu-se da "in-
parádosis original da ressurreição, e não simples adição posterior, corruptibilidade" e da "imortalidade" ( I Co 15.53 s.). Passa pelas
por causa de necessidades apologéticas (como possivelmente seria portas fechadas (Jo 20.19), embora seja tão real ao ponto de ser
o caso da história da escolta em Mateus; Mt 27.62-66; 28.11-25). tocado e visto (Lc 24.39; Jo 20.27). Os escritores do NT não pro-
Os mais antigos manuscritos de São Marcos terminam com a desco- curam explicar esses fatos. Se pudessem ser explicados então o mis-
tério e o milagre da ressurreição seriam bem diferentes, e a fé cristã
não teria sido o que foi através da história. O cristianismo é uma
(4) A e x p r e s s ã o " N ã o m e t o q u e s " , d i r i g i d a a M a r i a e m Jo 20.17, seria e n t ã o religião de milagre, e o milagre da ressurreição de Cristo é o centro
consistente, p o r q u e s e g u n d o o p o n t o d e v i s t a j o a n i n o M a r i a t e r i a c o n t e m p l a d o
C r i s t o s a i n d o d a t u m b a , antes d a A s c e n s ã o ao P a i ; o a p a r e c i m e n t o de C r i s t o aos
vivo e o objeto da f é : "Bem-aventurados os que não viram, e cre-
d i s c í p u l o s q u a n d o e s t a v a m " t r a n c a d a s a s p o r t a s " , teria sido após a ascensão, q u a n d o ram" (Jo 20.29; cf. II Co 5.7; I Pe 1.8). A ressurreição de Cristo
r e t o r n a v a c o m s e u c o r p o g l o r i o s o p a r a d i s t r i b u i r o E s p í r i t o e n t r e eles. Ver é ato de Deus; e é postulado do pensamento bíblico que os atos de
s u p r a , 117. (N. do T.: A l g u m a s v e r s õ e s d a B í b l i a e m p o r t u g u ê s t r a z e m , e m v e z Deus estão além do escrutínio dos olhos mortais.
de "não me toques", a expressão "não me detenhas").
A ressurreição corporal de Cristo tem importância teológica ra à ressurreição de Cristo; mas é simplesmente a palavra que está
porque declara o significado cósmico do ato de Deus que levanta faltando, visto que o tema principal do livro é a exaltação do Senhor
Cristo dentre os mortos. "Toda a criação" (Rm 8.22; cf. Mc 16.15) que ascendeu ao céu. > A ressurreição, ascensão e presente status
(6

espera a redenção, a qual inclui o corpo (cf. Rm 8.23) ; a ressurrei- de Cristo "à destra" do Pai, são resultados de um só ato de Deus
ção dos cristãos com seus "corpos espirituais" — é o argumento de que assim faz justiça <> a Cristo, depois de sua humilhação na cruz
7

I Co 15, como um todo. Assim a ressurreição de Cristo não é caso (Rm 8.34; Fp 2.9, e t c ) . São inúmeras as passagens em que a res-
de sobrevivência espiritualista, capaz de ser pesquisada objetiva- surreição não é tratada como evento separado da ascensão (e.g.,
mente; não é a sobrevivência de um homem, que poderia ser afir- At 2.32 s.; Ef 1.20; 4.9 s.; I Tm 3.16; I Pe 3.21 s.).
mada numa sessão espírita; é a ressurreição da humanidade, o novo
Adão. É o princípio da nova criação dos últimos dias: êle é "as Contudo, a verdade da ressurreição não é a mesma da ascensão.
primícias dos que dormem" ( I Co 15.20-23). Não é um evento "na- Como escreveu A. M. Ramsey: "Distinguem-se claramente no sig-
tural"; não pode ser descrito cientificamente porque não é processo nificado teológico. Uma coisa é afirmar a ressurreição de Jesus:
ou evento dentro da ordem natural, embora tenha conseqüências bem outra (embora intimamente relacionada com a primeira) é
importantíssimas para essa mesma ordem. Não se podem dar ex- asseverar que Cristo agora participa da soberania de Deus sobre
plicações científicas para eventos da ordem escatológica. É o even- os céus e a terra".(8) O símbolo ( i . c , doutrina, dogma) da as-
to do Êxodo na história da salvação do Novo Israel, o ato misterio- censão, poderíamos dizer, é a maneira pictórica de expressar a im-
so e sobrenatural escolhido por Deus para tirar seu povo da terra da portância do evento histórico da ressurreição de Cristo. Menciona-
escravidão para o reino da promessa, sujeito para sempre à sobe-
mos atrás que a ressurreição era um evento escatológico, sem suge-
rania de seu Filho amado (cf. Cl 1.13). O poder da ressurreição de
Cristo era a verdadeira fonte vital da Igreja apostólica (Fp 3.10; rir que não fosse histórico; o sentido da proclamação do NT é que
Ef 1.19 s.; Cl 2.12; Rm 6.5; I Pe 1.3; 3.21, etc). A ressurreição as coisas finais entram na história, sendo a ressurreição o supremo
de Cristo é o sinal concedido a todos os que crêem que Cristo é "po- evento dramático e escatológico dentro da história. A ressurreição
derosamente demonstrado Filho de Deus" (Rm 1.4; cf. At 2.36; não é (como pensaria Bultmann) um artifício mitológico capaz de
13.33, e t c ) . Pertence à esfera da escatologia e da fé e não ao âm- expressar o significado do evento histórico da crucificação; é his-
bito da ordem natural e da verificação científica. À saudação cristã tórico em si mesmo, embora não possa ser explicado "cientifica-
primitiva: "O Senhor Ressuscitou", havia somente uma resposta: mente", i.e., como um acontecimento da ordem natural. É singu-
"Aleluia". lar, não se ajustando às classificações científicas; a diferença, en-
tão, entre eventos históricos enquadrados na complexidade de seu
caráter singular, e os eventos da ordem da natureza, é que os pri-
A ASCENSÃO DE CRISTO meiros não se repetem. Toda a proclamação do NT depende do
fato histórico da ressurreição. A pregação apostólica original não
Poderíamos pensar que o ensino apostólico primitivo não sepa- era a promulgação de teologia ou de ética, e muito menos de filosofia
rava completamente a ascensão da ressurreição de Cristo como o existencialista; era a declaração de um fato acontecido. > A ressur- <9

fêz mais tarde a tradição da Igreja, moldada nas versões retocadas


dos escritos de Lucas. Como já observamos acima,<5> o quarto Evan-
(6) A p a l a v r a anástasis no N T r e f e r e - s e , e m g e r a l , à r e s s u r r e i ç ã o dos m o r t o s ,
gelho, que data a dádiva do Espírito (Jo 20.22) ao cair da tarde s e n d o esse o sentido d e H b 6.2 e 11.35. R a r a m e n t e denota a r e s s u r r e i ç ã o de C r i s t o ,
do domingo da Ressurreição (Jo 20.19), depois da ascensão de Jesus a n ã o ser e m A t ( F p 3.10; I P o 1.3; 3.21; ef. J o 1 1 . 2 5 ) . A a f i r m a ç ã o m a i s c o m u m
ao Pai (Jo 20.17), quando já retornara com seu corpo glorificado, é q u e Jesus ( C r i s t o ) f o i r e s s u s c i t a d o d e e n t r e o s m o r t o s o u q u e D e u s o ressuscitou.
N o t e m o s q u e u m a p a s s a g e m confessional c o m o F p 2.5-11 n ã o m e n c i o n a e s p e c i f i c a -
preserva, provavelmente, a mais primitiva compreensão do assunto. m e n t e a r e s s u r r e i ç ã o , e m b o r a a inclua sob o titulo " e x a l t a ç ã o " ( h y p e n / p s ó o e m
São Mateus não menciona a ascensão nem o final menor de São 2.9 é u m h d p a x legómenon do N T ) . A única referência clara à ressurreição de
Marcos; o final mais longo diz simplesmente: "O Senhor Jesus, de- C r i s t o na E p í s t o l a aos H e b r e u s o c o r r e e m 13.20.
pois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à destra de (7) O tema d a v i n d i c a ç ã o é c o m u m n o A T ( J o s é ; J ó ; o S e r v o c m Is 53; a
Deus" (Mc 16.19). A tradição primitiva considerava a ressurrei- n a ç ã o ou r e m a n e s c e n t e d e I s r a e l c m Zc 3 ou D n 7; SI 2,22,110, e t c . ) , m a s n o N T
as p a l a v r a s ekdifcéo e efcdífcesis n ã o s ã o e m p r e g a d a s c o m r e l a ç ã o a Cristo. (Diz-se
ção e a ascensão dois episódios do mesmo processo. Por essa razão q u e C r i s t o toma v i n g a n ç a e m I I T s 1.8; cf. A p 6 . 1 0 ) . O s i g n i f i c a d o d e ekdikéo
pareceria estranho que a Epístola aos Hebreus dificilmente se refi- c o m o " v i n d i c a r " ( " v i n g a r " , " f a z e r j u s t i ç a " ) p o d e ser e s t u d a d o e m s e p a r a d o n a
p a r á b o l a da V i ú v a I m p o r t u n a ( L c 1 8 . 1 - 8 ) , o n d e o v o c á b u l o o c o r r e q u a t r o v e z e s .
V e r t a m b é m s u p r a , . . . s.
(8) TWBB, 22 s.
(5) Supra, 117 e nota da p á g . 196 s u p r a .
(9) V e r supra, 27.
reição de Cristo é um evento histórico particular e não uma verda- "ressuscitados juntamente com Cristo" (Cl 3 . 1 ; cf. 2.12). Pode-
de geral da razão; para se crer nela é preciso que se aceite, primeiro, mos dizer que já reinam com êle, escatològicamente ( I Co 4.8),
a palavra das testemunhas e não os argumentos da dialética. Os tornam-se, desde agora, um reino ( I Pe 2.9; Ap 1.6; 5.10; 20.6).
apóstolos eram "testemunhas da ressurreição" (Lc 24.48; At 1.8, O batismo dos cristãos individuais é o sacramento escatológico não
22; 2.32; 3.15; 4.33; 5.32; 10.39,41; 13.31; cf. Jo 15.27; I Co apenas da ressurreição mas também de sua ascensão.
15.15; I Pe 5.1), mesmo escolhidos anteriormente por Deus para Em segundo lugar, Cristo é sacerdote. Intercede por nós, à
esse fim (At 10.41). Aceitar a fé cristã é aceitar o testemunho dos destra de Deus (Rm 8.34; Hb 7.25; 9.24; I Jo 2 . 1 ; cf. Jo 14.16;
apóstolos de que Cristo ressurgiu dentre os mortos. O próprio N T talvez At 7.56). É a Epístola aos Hebreus que mais amplamente
é o testemunho apostólico escrito, o testemunho dos apóstolos para expõe a idéia do sacerdócio de Cristo, embora, naturalmente, as
nós hoje, em nossos dias. A Igreja existe na história para dar tes- outras partes do NT não a desconheçam. Em Jo 17 ("a oração sa-
temunho da ressurreição de Cristo, cada Eucaristia celebrada pela cerdotal") Jesus se consagra solenemente, como sacerdote, por amor
Igreja é ainda testemunho dos escolhidos que comem e bebem com dos discípulos. Somente por meio dele temos acesso a Deus, justifi-
êle "depois que ressurgiu dentre os mortos* ( A t 10.41). cándole assim o seu título de he hodós (Jo 14.6, com a importante
A doutrina da ascensão procura ressaltar a importância desse explicação: "Ninguém vem ao Pai senão por mim") ; assim em Hb
evento. A ascensão não precisa ser considerada fato histórico, a 10.20 lemos que podemos agora entrar no Santo dos Santos "pelo
não ser que seja tomada como o último aparecimento depois da res- novo e vivo caminho" (hodós) consagrado pelo véu de sua carne; e
surreição aos discípulos. A descrição viva da subida literal aos
(10)
os cristãos primitivos chamavam-se "do Caminho" (At 9.2; 19.9;
céus em At 1.9-11 não passa de modo alegórico de expressar a cren- 22.4). "Acesso" ser-lhe-ia um conceito análogo (prosagogué "in-
ça da Igreja primitiva na exaltação da pessoa histórica de Jesus: trodução" à presença de alguém). A palavra prosagogué ocorre
"Uma nuvem o encobriu dos seus olhos" — símbolo tradicional da três vezes no NT (sempre nas epístolas paulinas) envolvendo o ofí-
shekhinah, presença (dócsa) de Deus, na qual o Senhor fora rece- cio sacerdotal: Rm 5.2: "Por intermédio de quem obtivemos igual-
bido para participar do poder, da glória e do reino de Deus para mente acesso (introdução), pela fé, a esta graça na qual estamos
sempre. A doutrina da ascensão de Cristo no NT ensina-nos três firmes"; Ef 2.18: "Por êle, ambos ( i . e . , judeus e gentios) temos
coisas sobre o Senhor ressurreto: êle é nosso Profeta, Sacerdote e acesso ao Pai em um Espírito"; Ef 3.12: "Pela qual temos ousa-
Rei. Consideremos essas três verdades em sua ordem inversa. dia e acesso..." Poderíamos notar também I Pe 3.18: "Cristo
morreu... para conduzir-vos (prosagogué) a Deus. "Por último,
Em primeiro lugar, Cristo é Rei. Significa que êle participa poderíamos observar que em Ap 1.13 a figura de "um semelhante
do trono de Deus, recebendo toda a autoridade nos céus e sobre a a filho de homem" (Cristo) traja-se com vestes sacerdotais; e, na-
terra (Mt 28.18; Mc 16.19; At 2.33; Rm 8.34; I Co 15.25; Ef turalmente, o ofício sacerdotal de Cristo desponta em outras porções
1.20; Hb 1.3,13; I Pe 3.22; Ap 3.21 — e muitas outras passagens). do Apocalipse (e.g., Ap 1.5 s.).
Reina, desde agora, na glória, embora só o saibam os que crêem nele;
mas na parousía tudo será manifestado. A linguagem alegórica O autor da Epístola aos Hebreus considera Cristo nosso sumo-
empregada para expressar essa verdade procede do arranjo de an- sacerdote que penetrou os céus (4.14) para nos levar à santa pre-
tiga corte real oriental, onde o grão-vizir se senta em lugar de hon- sença de Deus (10.19 s.), "tendo oferecido para sempre" o único
ra, à destra do monarca; é provável que se baseie no SI 110. 1, muito sacrifício pelos pecados, e assentando-se agora à destra de Deus
citado como testimonium na Igreja apostólica.* ' Cristo se assen- 11 (10.12). Considera o SI 110.4 ("Tu és sacerdote para sempre, se-
ta na única posição de dignidade e honra, à destra de Deus, para gundo a ordem de Melquisedeque"), que cita quatro vezes (5.6;
exercer a autoridade real recebida do Pai. Mas não toma esse lu- 6.21; 7.17 e 21), profecia a respeito de Cristo (como em geral se
gar sozinho. É o Homem Representativo, a nova humanidade dos entendia o SI 110 na Igreja primitiva) > , sendo, portanto, o sa-
(12

remidos, participando já os cristãos do seu trono, posto que foram cerdócio de Cristo superior ao de Aarão, posto que seu antecessor,
Abraão, recebera a bênção de Melquisedeque e lhe dera o dízimo (Gn
14). Além desse capítulo de Gênesis, o nome de Melquisedeque só
(10) Cf. A . M . R a m s e y , o p . ciís. retorna ao AT no SI 110; o argumento da superioridade de Melqui-
(11) V e r s u p r a , 154. E m A t 7.56, e x c e p c i o n a l m e n t e , E s t ê v ã o ao m o r r e r v ê sedeque sobre o sacerdócio de Aarão havia sido levantado, provàvel-
C r i s t o d e p é , à d e s t r a de D e u s . D e n o t a r i a atitude d e intercessão; se a l e v a r m o s
a d i a n t e p o d e r i a r e p r e s e n t a r C r i s t o c o m o suplicante e n ã o c o - g o v e r n a d o r . São
C r i s ó s t o m o s u g e r e q u e C r i s t o se l e v a n t a r a p a r a s a u d a r o seu p r i m e i r o m á r t i r ;
a i m a g e m é bonita mas não é provável. (12) Cf. C. H . D o d d , A c c . S c r i p . , 34 s.
mente, em favor da dinastia asmoneana, achando-o o Auct. Heb. trada de nosso sumo-sacerdote no santuário da presença de Deus
adequado aos seus propósitos. O sacerdócio de Cristo seria superior ( i . e . , o céu). O verdadeiro tabernáculo (he skenè alethinós), erigido
ao de Aarão por causa de sua realeza (7.2) e eternidade. O autor por Deus e não pelos homens, está no céu ( 8 . 2 ) . O terreno, cons-
de Hebreus conclui que Melquisedeque prenuncia perfeitamente o truído por Moisés, é apenas "cópia" e "sombra" (hypóãeignia, skiá)
sacerdócio perpétuo de Cristo (7.3) "segundo o poder de vida in- daquele (8.5). Não é tanto um conceito platônico, como às vezes
dissolúvel" (7.16), porque Gn 14 não menciona seus antepassados se pensa, mas principalmente judaico e escatológico, de acordo com
nem seu destino futuro. Cristo anula assim todo o sacerdócio hu- o ponto de vista da epístola toda, que é também escatológico.<13)
mano. No passado, sucediam-se as ordenações sacerdotais porque Cristo, como é dever de todo sacerdote, leva uma oferta ao entrar
eram todos mortais e precisavam ser substituídos, mas o sacerdócio no santuário ( 8 . 3 ) ; é o seu próprio sangue e não o de bodes e be-
de Cristo não passa a sucessor algum, porque êle vive para sempre zerros (cf. 9.13; 10.4). Era a única oferta verdadeira e possível.
para interceder por nós (7.23-25). Ao completar sua obra sacerdotal, na ascensão, assenta-se à destra
Dessa maneira o sacerdócio de Cristo é inviolável e eterno de Deus e intercede constantemente por nós. Segundo o autor de
(7.24) sem significar que êle tenha de repetir eternamente a ofer- Hebreus a ascensão é o culmínio da obra expiadora de Cristo, a apre-
ta de si mesmo perante um altar celestial; nem quer dizer que o sa- sentação de seu sangue perante o tabernáculo celeste; o Auct. Heb.
crifício do Calvário tenha sido simples manifestação temporal de omite a ressurreição como evento distinto para desenvolver, a seu
verdade eterna. Mesmo que o Auct. Heb. tenha empregado idéias modo, a realização tipológica do ritual do dia da expiação; não há
ou linguagens de fontes platônicas, não perdeu a consciência bíblica lugar para a ressurreição nesse esquema. Cristo ofereceu-se no Cal-
da importância do que se faz na história. Cristo ofereceu o sacri- vário como vítima sacrificial na qualidade de sumo-sacerdote de nos-
fício de seu corpo ( i . e . , êle mesmo) (10.10) no Calvário; fê-lo uma sa confissão; ao subir ao céu levou a oferta, seu próprio sangue,
vez só e para sempre (ephápacs, 7.27; 9.12,28; 10.10) ; a oferta foi para o "verdadeiro tabernáculo". O dia da ascensão é o dia da ex-
também só uma e não muitas (9.26; 10.14). Diferia completamente piação cristã.
dos sacrifícios diários, muitas vezes repetidos, dos sacerdotes de Em terceiro lugar, Cristo é Profeta. Caracterizava os profetas
Aarão, incapazes de tirar o pecado do mundo (10.11). A afirmação do AT o fato de serem enviados da parte de Deus ( I I Cr 36.15 s.; Jr
de que o Auct. Heb. ensina que Cristo está no céu continuamente ofe- 25.4; 26.5; 29.19, etc.; Mt 23.34; Lc 11.49; Mc 12.2-5) ; na lin-
recendo-se (ou seu sangue) a Deus baseia-se numa interpretação guagem comum do NT eles são "apostolados" (i.e., "enviados")
falsamente platonizante que ignora o kephálaion — "essencial das com missão ou mensagem especial de Deus. Dessa forma, o NT con-
coisas" (8.1) — defendido pelo autor: devido ao único, perfeito e sidera Cristo o Profeta par excellence — "O profeta que devia vir
irrepetível sacrifício do Calvário, "possuímos tal sumo-sacerdote, que ao mundo" (Jo 6.14; cf. Jo 1.21; 7.40; Mt 21.11), i.e., o cum-
se assentou à destra do trono da Majestade nos céus" ( 8 . 1 ) . Cris- primento da profecia de Dt 18.15,18, do profeta semelhante a Moi-
to toma o lugar do vizir e não a postura e lugar do suplicante. sés. Moisés, porém, deixou mandamentos que não podiam ser
Intercede por nós revestido do poder efetivo de co-governador assen- cumpridos pelos seus descendentes, após sua "assunção", sendo
tado à destra do Deus soberano. Depois do que fêz na história não necessária uma aliança superior (Hb 7.22; 8.6 s., e t c ) . Cristo
mais são precisas ofertas pelo pecado (10.18). O supremo milagre realizara a aliança que, após sua ascensão, poderia ser cumprida
da graça é que êle, cheio de poder e capaz de todo o julgamento, pelos seus seguidores. Moisés simplesmente promulgara a lei, mas
seja nosso sumo-sacerdote, que nos tirou os pecados e vive para in- Cristo podia conceder aquilo que exigia. Derramava do céu os dons
terceder por nós. Podemos, portanto, deixar-nos levar (6.1), apro- de sua graça, ou, alternadamente, os dons do Espírito Santo, sobre
ximar-nos (10.22) e ter "intrepidez para entrar no Santo dos San- a Igreja terrena (Ef. 4.8, citando imprecisamente o SI 68.18:
tos" (10.19). Através dele oferecemos nossos sacrifícios de louvor "Quando êle subiu às alturas, levou cativo o cativeiro, e concedeu
(13.15) e boas obras (13.16), "pois com tais sacrifícios Deus se dons aos homens"; ds) At 2.33; Jo 16.7). Eis aí a necessidade da
compraz" (13.16). Cristo é nosso altar onde podemos oferecer ascensão; enquanto estava limitado, no espaço e no tempo, o poder e
nossos dons e participar do alimento celestial (13.10).
O autor de Hebreus apresenta Jesus cumprindo a forma pre-
vista no ritual do dia da expiação (Lv 16). A vítima animal é mor- (13) V e r C. K . B a r r e t t , " T h e E s c h a t o l o g y of the E p i s t l e to the H e b r e w s " e m
The Background of the New Testament and its Eschatology, ed. W . D . D a v i e s e D .
ta "fora do acampamento" (cf. 13.11 s.) e só depois o sacerdote D a u b e , esp. 383-93.
entra no santo lugar para oferecer o sangue como oferta pelo peca- (14) V e r supra, 166.
do (13.11). A ascensão de Cristo é considerada o momento da en- (15) V e r s u p r a , 66.
a influência de Cristo eram bastante restritos (Le 12.50); "con- fosse tomada aô pé da letra; êle sabia melhor do que nós qué a
vinha" que êle fosse (Jo 16.7), a fim de retornar como Espirito verdade religiosa, verdade última, que transcende as fronteiras do
Universal, presente com os discípulos através de todos os tempos e entendimento intelectual, só poderia ser alcançada por meio da ima-
em todos os lugares (Jo 14.16,26; 15.26; 16.7,13,16), mesmo "até ginação inspirada na fé, ouvindo os homens, cada um em sua lin-
à consumação do século" (Mt 28.20). Tendo sido enviado da parte guagem própria, a proclamação dos atos poderosos de Deus.
do Pai, manda agora os discípulos para a sua missão no mundo
(Jo 20.21). Mas é somente em Hb 3.1 que Cristo recebe o título Gustaf Aulén, em seu importante livro Christus Victor, d?)
de "Apóstolo" — "O Apóstolo e Sumo-Sacerdote da nossa confis- procura mostrar a existência de uma teoria da expiação, de autoria
são, Jesus". do próprio Cristo, anterior às outras duas que têm dominado a teo-
logia ocidental por muito tempo — a de tipo "objetivo", relacio-
nada com a "teoria da satisfação" de Santo Anselmo, e a de tipo
CHRISTUS VICTOR "subjetivo", ligada ao nome de Abelardo e à teologia liberal mais
O NT apresenta a ressurreição e ascensão de Cristo em figuras recente, desde Schleiermacher até Rashdall. O conceito dominante
simbólicas e até mesmo mitológicas como a vitória divina sobre os no NT e entre os padres da Igreja antiga, que Aulén chama de
poderes hostis do mal. Emprega para esse fim alegorias primitivas "ponto de vista clássico", tem a forma de representação dramática
semelhantes às que aparecem nos antigos mitos do Vencedor Divino ou mitológica da expiação como a vitória ganha por Cristo contra
que destrói o dragão do caos. Os editores do AT, tendo esse con- os "poderes" do mal que escravizam o homem, especialmente o
ceito sido completamente "demitizado" pelos profetas de Israel, con- Diabo, o Pecado e a Morte. Esse conceito do Christus Victor desen-
tentaram-se com preservar a antiga linguagem mitológica em certas volveu-se especialmente na Escandinávia, por estudiosos como o já
porções das Escrituras (e.g., SI 74.12-14; 89.8-10; Jó 9.13; 26.12 falecido Anton Fridrichsen, de Uppsalla.dS) Prestaram valioso ser-
s . ) ; a libertação histórica de Israel do jugo egípcio (e.g., Êx 14.21; viço despertando a atenção para este elemento dramático ou mito-
15.1-21) e também a do cativeiro da Babilônia (Is 51.9-11; Ez lógico na apresentação da verdade de nossa salvação no NT, embora
29.3 s.) seriam, então, expressas na linguagem do antigo mito. Não dificilmente poderíamos dizer que conceitua um ponto de vista (e
nos surpreende que os escritores do NT lancem mão dessas imagens muito menos uma teoria) da expiação. O significado fundamental
que são, afinal, elementos comuns do pensamento das pessoas simples. da expiação no NT é, como veremos, incorporação à humanidade
Elas não empregam conceitos filosóficos; pensam através de ima- redimida de Jesus Cristo, através do batismo no "corpo espiritual
gens. A Bíblia é sempre contemporânea porque emprega imagens e de Cristo", a Igreja ou Israel de Deus. A verdade da assim chamada
não conceitos filosóficos para se expressar. Se tivesse procurado "teoria clássica" é que a expiação só se torna possível "em Cristo"
transmitir a verdade de Deus e do homem por meio de categorias pelo que êle fêz, representado mitológicamente pela figura de sua
filosóficas, já seria, por certo, um livro antiquado. Fala a todas as vitória contra os poderes do mal. O "ponto de vista clássico" apre-
gerações na linguagem pictórica, comum à humanidade toda, facil- senta o fato da salvação mais do que a expiação, como também se
mente compreensível, a não ser quando os homens em seu refina- pode verificar no seu correspondente da antiga mitologia semítica:
mento perdem contacto com as fontes vivas da realidade pensada, "Ora, Deus, meu rei, é desde a antiguidade; êle é quem opera feitos
que estão nas raízes mais profundas da própria personalidade. salvadores no meio da terra. Tu, com o teu poder, dividiste o mar;
Erra-se ao supor (como Bultmann) d6) que o homem moderno enten- esmagaste sobre as águas, a cabeça dos monstros marinhos. Tu espe-
deria melhor o significado do Evangelho quando se abandonasse o daçaste as cabeças do crocodilo, e o deste por alimento às alimárias
seu simbolismo mitológico. Não se pode dizer, como Bultmann parece do deserto" (SI 74.12-14). A nova criação em Cristo é ato salvador
fazê-lo, que os escritores do NT não tiveram consciência da lingua- como a primeira criação, quando o dragão do caos que habitava nas
gem mitológica empregada, por exemplo, na ascensão de Jesus ao profundezas (Tiamai) foi morto pelo Rei divino. Visto ter sido
céu ou em sua descida ao inferno. Somente formas simbólicas pode- considerada ato de nova criação, a salvação trazida por Deus no
riam transmitir o sentido de tudo isso; os homens de todas as gera- êxodo (e.g., Is 43.15-19; Sabedoria 19.6-8),<w envolvendo outra
ções (com exceção dos mais artificiais) poderiam entender clara- vez a libertação do poder do abismo, não nos surpreende encontrar
mente o que se queria dizer. É incrível que, digamos, São Lucas, no NT a salvação em Cristo representada como ato de nova criação
ao contar a história da ascensão de Cristo esperasse que a parábola

(17) E T p o r A . G . H e b e r t , 1931.
(16) Cf. seu famoso ensaio em Kerygma anã Myth, ed. H. W. Barotsch, (18) V e r esp. R a g n a r L e i v e s t a d , Christ the Conqueror, 1954.
E T , 1953. (19) E v e r a i n d a S t r a c k - B i l l . , I, 69 s., 594-6.
e vitória contra 08 poderes do mal. Os milagres marítimos dos Evan- militar: os santos são duas vezes vencidos na luta contra a besta do
gelhos, em particular, deveriam ser lidos em relação com essa idéia abismo (Ap 11.7; 13.7). Em duas outras passagens os santos ven-
(Mc 4.35-41; 6.45-52).< "> Não obstante estarem esses conceitos
2
cem pelo poder de Cristo: quando o Dragão (Satanás, Diabo) é lan-
intimamente relacionados com a doutrina da expiação, não são a çado fora do céu por Miguel, a vitória dá-se "por causa do sangue
mesma coisa; seria melhor dizer que a idéia do Christus Victor tem do Cordeiro" (12.11) ; e o vidente ao contemplar o "mar de vidro"
a ver com o conceito da criação-salvação mais do que com a expiação vê "os vencedores da besta" (15.2). O autor do Apocalipse não
pelo pecado; ou, ainda, que se relaciona mais com a derrota e des- teme o antigo conceito mitológico da luta divina contra o Dragão
truição dos "poderes" estranhos (não humanos) do que com a recon- para representar o significado cósmico dos eventos da crucifixão e
ciliação de homens rebeldes e pecadores com o Deus santo. A morte da ressurreição de Cristo; as cenas são poéticas e dramáticas,
vitoriosa de Cristo é, naturalmente, o traço de união entre os dois devendo assim ser consideradas. Era lugar-comum na literatura
conceitos: Cristo triunfa sobre "os principados e as potestades", apocalíptica judaica dizer que as últimas coisas serão como as pri-
vencendo-os na batalha (Cl 2.15), cancelando a dívida contra nós meiras: a nova criação representará e restaurará a "gênesis" ori-
(Cl 2.14) e perdoando todos os nossos delitos (Cl 2.13) ; como indi- ginal do céu e da terra. Assim, o lógos que no princípio venceu o
víduos, apropriamo-nos desses benefícios, quando somos sepultados
caos (tohu wa-bhohu, Gn 1.2; cf. Is 45.18) e o abismo (tehom, cf.
com Cristo no batismo e ressuscitamos com êle para a vida (Cl 2.12).
Bab. Tiamat), o lógos-hiz que precedeu à luz do sol, contra o qual
O NT ensina que Cristo venceu (os poderes maus que domi- as trevas não prevaleceram (Jo 1.5), no final dos tempos há de
nam) o mundo (Icósmos) (Jo 16.33) e que pela fé nele os cristãos conquistar a besta do abismo e o Dragão do caos com seus exér-
também podem vencer (os poderes maus que dominam) o mundo citos do Hades: o lógos Theôu surge na visão do Apocalipse como o
( I Jo 5.4 s.). O verbo nikáo aplicado a Cristo é, no NT, quase cavaleiro do cavalo branco, ao qual foi dado um stéphanos, indo
exclusivamente joanino.< > Em I Jo afirma-se que os cristãos ven-
21 "vencendo e para vencer" (Ap 6.2; 19.11-16). Os exércitos da
cem ho pouerós (2.13 s.). ou espíritos descrentes e o espírito do besta pelejarão "contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, pois
anticristo ( 4 . 4 ) , ou o mundo (5.4 s.), crendo que Jesus e o Filho é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis" (Ap 17.14). "O Leão da
de Deus. Da mesma forma o Apocalipse considera os cristãos como tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu" ( 5 . 5 ) . O poder das trevas
aqueles que participam da vitória de Cristo, e fala nas recompensas que dominara sobre o presente século, foi destruído pelo Vencedor
recebidas pelo vencedor (ho nilcón) (2.7,11,17,26; 3.5,12,21; 21.7), na nova criação, havendo desde então o dia eterno que não precisa
inclusive o direito de sentar-se no trono do Pai (3.21). À primeira de sol (Ap 21.23; 22.5; cf. Is 60.19 s.; Enoque 45.4 s.).( > 23

vista, para um judeu como o autor do Apocalipse, a metáfora da A compreensão do kósmos no NT difere da gnóstica e helénica,
vitória é bastante estranha: é a do victor ludorum. Mas se explica. por não considerar mau o mundo material/ ' O kósmos foi criado 24

Os jogos gregos eram, naturalmente, ritos pagãos em honra dos deu- por Deus (Mt 24.21; Mc 13.19; Jo 1.10; At 17.24; Rm 1.20, e t c ) ,
ses ("olímpicos") e do imperador divino ("a besta") ; fazem parte sendo fundamentalmente bom (cf. Gn 1.31). * > Caiu, porém, sob o 25

do reino adversário de Satanás, caricatura blasfema do reino de


Deus; per contra a vida cristã é a disputa em que ho nikôn receberá (23) N . A . D a h l ( e m The Background of the New Testament and its Escha-

a grinalda de louros ou coroa {stéphanos, Ap 2.10; 3.11, etc; cf. tology, e d . W . D . D a v i e s e D . D a u b e , 428) a s s i n a l a q u e o p o n t o de vista d e q u e
a n o v a c r i a ç ã o eliminará os poderes das trevas é claramente apresentado no M a -
I Co 9.25).< > Mas nikáo é também empregado como metáfora
22
n u a l d e D i s c i p l i n a d o M a r M o r t o , p r e d o m i n a n d o , t a m b é m , n a s fontes r a b í n i c a s .
( V e r G a s t e r , SDSS, 55 s . ) .
(24) A p a l a v r a icósmos t e m n o N T a m a i s v a r i a d a escala de sentidos q u e
(20) Cf. s u p r a , 102.
v a i d e s d e o " f r i s a d o de c a b e l o s " ( I P e 3 . 3 ) até " o u n i v e r s o c r i a d o " . No grego
(21) T e m o s , entretanto, a p a s s a g e m m u i t o significativa d e L c 11.22: epdn de
clássico q u e r dizer, b a s i c a m e n t e , " a r r a n j o h a r m o n i o s o " o u " o r d e m " , d a i " o r n a -
ischyróteros autôu epellhòn nikése a u í ó n : J e s u s é m a i s forte q u e S a t a n á s , a m a r -
m e n t o " , " d e c o r a ç ã o " ( t a m b é m nos L X X : G n 2 . 1 ; D t 4.19, e t c . ) . Depois passou
r a n d o - o e d i v i d i n d o seus d e s p o j o s , c o m o p r o v a m os e x o r c i s m o s ( v e r supra, 100).
a significar " o u n i v e r s o " ( m a s os L X X n ã o a e m p r e g a m a s s i m ; Sabedoria e W
A l é m d e R m 3.4 ( q u e cita o S I 50.6 d a L X X , q u e seria 51.4 na v e r s ã o d e A l m e i d a ,
M a e a b e t i s são os l i v r o s m a i s antigos q u e a m e n c i o n a m c o m este s e n t i d o ) , e. g., Jo
ed. r e v i s t a e a t u a l i z a d a no B r a s i l ) e 12.21, todas a s outras ocorrências s ã o e m Jo
21.25; A t 17.24; R m 4.13; I C o 3.22; 8.4; F p 2.15. P o r fim empregou-se p a r a
( u m a ) , I Jo (seis) e A p (dezesseis v e z e s ) . O s u b s t a n t i v o nike a c h a - s e a p e n a s
" o s h a b i t a n t e s d o m u n d o " , " a r a ç a h u m a n a " , t e n d e n d o a substituir g u è ou oikoumene
e m I J o 5.4: he nike he nikésasa tòn kósmon. A f o r m a posterior (da metade
d o s L X X ; p o d e r i a a p e n a s s i g n i f i c a r " o m u n d o e s u a e s p o s a " , e. g.: ''Eis aí v a i
d o p r i m e i r o s é c u l o ) tò nikos a p a r e c e nas citações d o A T e m M t 12.20 ( I s 4 2 . 3 ) ,
o m u n d o a p ó s ê l e " ( J o 12.19) e m b o r a S ã o J o ã o p r o v a v e l m e n t e lhe dê d u p l o
I C o 15.54 s. ( O s 13.14) e e m I C o 15.5T: " G r a ç a s a D e u s q u e nos d á tò mfcos
sentido, c o m o e r a o costume.
p o r i n t e r m é d i o d e nosso S e n h o r J e s u s C r i s t o " .
(22) C h r i s t and the Caesars, de E. S t a u f í e r , r e l a t a c o m i m a g i n a ç ã o e a r t e (25) A e x p r e s s ã o ( a p ô ) katabolès kósmou, m u i t o e m p r e g a d a n o cristianismo
a influência dos jogos imperiais sobre o pensamento d o autor do Apocalipse. p r i m i t i v o ( M t 25.34; L c 11,50; Jo 17.24; E f 1.4; I P e 1.20; H b 4 . 3 ; 9 . 3 6 ; A p 13-8;
P á g s . 179-91. 17.8) r e f e r e - s e , n a t u r a l m e n t e , à c r i a ç ã o d o m u n d o p o r D e u s .
poder do maligno (cf. I Jo 5.19: ho kósmos hólos en tô ponerô kêitai), finalmente, "lançados vivos dentro do lago do fogo que arde com
surgindo daí no NT o sentido de kósmos como mundo contra Deus, enxofre", depois de sua luta com o Cavaleiro do Cavalo Branco
rebelde. Neste sentido o kósmos ignora Deus (Jo 1.10; 14.17) (Ap 19.20 s.). Outra versão dessa profecia acha-se em Ap 20.1-3,
preocupando-se apenas com a sua própria sabedoria louca ( I Co 7-10, com o mesmo sentido.
1.20 s.; 3.19). Odeia Cristo porque êle dá testemunho de que suas Satanás, por assim dizer, ter-se-ia deteriorado desde sua pri-
obras são más (Jo 7 . 7 ) ; opõe-se a Cristo porque sua pessoa e sobe- meira aparição no A T na qualidade de membro respeitável do con-
rania não são deste mundo (Jo 8.23; 18.36) ; por essa mesma ra- selho celeste (Jó 1 e 2; cf Zc 3.1 s.), ocupando a posição de acusa-
zão os discípulos também são odiados (Jo 15.19; 17.14), tendo en- dor público.' Somente depois da época do A T é que foi identifi-
28)

tão que sair do mundo ( I Co 5.10; 11.32). Os cristãos não devem cado com a Serpente de Gn 3 (a mais antiga referência acha-se em
amar o mundo (Jo 2.15-17; Tg 1.27; 4.4; II Pe 2.20, e t c ) . O Sabedoria 2.24: "Pela inveja do demônio a morte entrou no mun-
mesmo sentido depreciativo encontra-se em relação à palavra aión do"), ponto de vista adotado pelos rabinos, depois aceito por São
quando se diz ho aión hõutos em contraste com ho aión ho erchómenos Paulo (Rm 16.20: "O Deus da paz em breve esmagará debaixo dos
(e.g., Mt 12.32; Mc 10.30); cf. Gl 1.4: Cristo entregou-se "a si vossos pés a Satanás"; cf. Gn 3.15; II Co 11.2 s.), e pronunciado
mesmo pelos nossos pecados para nos desarraigar deste aión perver- pelo Vidente (Ap 12.9; 20.2). Satanás e seus lacaios, os demônios,
so". Nas versões comuns da Bíblia aión é traduzido por "mundo"; agitam-se freneticamente, apreensivos, quando se encontram com o
no sentido de "este século" não se distingue do uso do NT de kós- Vencedor, Cristo (Mc 1.24, e t c ) . Lê-se em Enoque 90.20-27 que
mos, significando o mundo em oposição aos propósitos de Deus o Messias julgará os demônios; crenças dessa natureza parecem ter
(e.g., Mt 13.22; Mc 4.19; Lc 16.8; 20.34; Rm 12.2; I Co 1.20; inspirado Mt 8.29: "Vieste aqui atormentar-nos antes de tempo! —
2.6; 3.18). Em I Co 1.20 e Ef 2.2 s. kósmos e aión são sinônimos. i.e., antes do juízo final. São João, que não relata nenhum caso
O mundo tem estado sob o poder de Satanás e de seus servos de exorcismo em seu Evangelho, considera esse tema a seu modo:
demoníacos. A parábola do Valente Armado, que é um comentário "O príncipe deste mundo já está julgado" (Jo 16.11; cf. 16.33).«9)
de Jesus a propósito da acusação de expulsar demônios pelo poder São Paulo acredita que "os santos" participarão no julgamento mes-
de Belzebu, expõe claramente o ponto de vista de que o poder de siânico não apenas do mundo, mas também dos anjos ( I Co 6.2 s.).
Cristo sobre os maus espíritos prova a derrota de Satanás e a apro- Os anjos seriam tipos demoníacos (as epístolas de São Paulo não
ximação e extermínio de seu reino (Mt 12.24-29; Lc 11.15-22; Mc mencionam a existência de anjos bons; cf. I Co 11.10; II Co 12.7),
3.22-27) .< Jesus proclama antecipadamente a sua vitória: "Eu
26) como em Enoque 1-36 onde os demônios são espíritos desencarna-
vi a Satanás caindo do céu como um relâmpago", quando os setenta dos (cf. Mt 12.43-45; Lc 11.24-26) identificados com os anjos
retornavam contando que até os demônios se submetiam ao nome de caídos de Gn 6.1-4 (cf. também Jd 6; I I Pe 2.4: "Anjos quando
Cristo (Lc 10.18). Idéia semelhante encontra-se em Ap 12.7-17,
onde se diz que a fúria demoníaca dos inimigos da Igreja prende-se
ao fato de Satanás ter sido expulso do céu, espalhando sua cólera (28) A p a l a v r a h e b r a i c a satã significa " a d v e r s á r i o " , " a c u s a d o r " , n a l i n g u a g e m
c o m u m d e c a d a d i a ( c . g., I I S m 19.22; I R s 5 . 4 ; 11.25; cf. N m 2 2 . 2 2 ) . Foi aos
pela terra e pelo mar, "sabendo que pouco tempo lhe resta".' ) Os 27
p o u c o s q u e S a t ã se tornou o t e n t a d o r a n g é l i c o ( e m I C r 21.1 l e v a D a v i d a o p e c a d o
autores de obras apocalípticas costumavam dizer que "as coisas fi- de n u m e r a r I s r a e l , e n q u a n t o q u e c m I I S m 24.1 é o p r ó p r i o J a v é q u e o f a z ) . N o
carão piores antes de melhorarem"; o próprio Senhor advertia os N T o n o m e p r ó p r i o d e S a t ã ou S a t a n á s é u s a d o muitas vezes ( M c 3.26; 4.15;
L c 10.18, e t c ) , tendo sido t r a d u z i d o p a r a o g r e g o t a m b é m p o r ho Diábolos, calu-
discípulos "de tamanha tribulação como nunca houve desde o prin-
n i a d o r , a c u s a d o r , m a l d i z e n t e ( e x a t a m e n t e o oposto d e ho parâkletos); o adjetivo
cípio do mundo" (Mc 13.19). Agora que está sendo derrotado e d i á b o i o s , c a l u n i a d o r , a p a r e c e e m I T m 3.11; I I T m 3 . 3 ; T t 2.3. E m M t 12.24-27 (cf.
tem os dias contados, Satanás, como besta selvagem encurralada, 1 0 . 2 5 ) : M c 3.22; L c 11.14-23 identifica-se c o m B e l z e b u , p a l a v r a d e o r i g e m d e s c o -
destruirá furiosamente o que puder até que seja êle mesmo aniqui- n h e c i d a e g r a f i a incerta, q u e p o d e r i a s e r u m a identificação z o m b e t e i r a c o m o
d e u s ( d e m ô n i o ) d e E c r o m (cf. I I R s 1 . 2 ) , i n t i t u l a d o " s e n h o r d a s m o s c a s " . É
lado completamente. No Apocalipse êle e o seu falso profeta são, m u i t a s v e z e s c n s i d e r a d o u m s e r dos a r e s (cf. E f 2 . 2 ; L c 1C.18, etc.) m a s , s e g u n d o
o p e n s a m e n t o j u d a i c o d a época, h a b i t a r i a c o m seus d e m ô n i o s no i n f e r n o (cf. I I P e
2.4; J d 6 ) . A a m b i g ü i d a d e a respeito d e s u a m o r a d a é a p e n a s u m a e n t r e m u i t a s
indicações d e q u e os j u d e u s inteligentes s a b i a m q u e se t r a t a v a de s í m b o l o p i c t ó r i c o
£ ) N ^ r p a r l b o í a a l e g ó r i c a " a m u l h e r - representa, s e m dúvida, o remanes
r
S

que n ã o devia ser tomado Uteralmente.


eent fiel d o \ X o S
Israel, a c r i a d a é Cristo e a — c , ^ - e r é a
(29) S ã o João, n a t u r a l m e n t e , l e v a t ã o a s é r i o os casos d e possessão d e m o n í a c a
c o m o os sinóticos. R e l a t a a a c u s a ç ã o d e q u e Jesus tinha d e m ô n i o ( J o 7.20; 8.48 s.,
St M o 1 « ^ ^ ^ 52; cf. M c 3 . 2 2 ) , c o n s i d e r a J u d a s p o s s u í d o p e l o d i a b o (6.70 s.; 13.2,27) e t a l v e z
J S a (A. D 6 6 ) . A I g r e j a é milagrosamente preservada, apesar das v.olentas t a m b é m os " j u d e u s " descrentes ( 8 . 4 4 ) .
p e r s e g u i ç õ e s satânicas. V e r s u p r a , 176.
pecaram"). É com essas criaturas, segundo São Paulo, que os ado- "espíritos em prisão" seriam os anjos caídos de Gn 6, os quais
radores das religiões de mistérios têm koinonía, e a elas se oferece a ocupam grande parte da especulação apocalíptica, ao lado da gera-
eidolóthyta dos gentios ( I Co 10.20 s.); pois (como no Apocalipse) ção perversa (a mais perversa que jamais viveu, Gn 6.5, 11,13)
o Reino de Deus tem sua caricatura blasfema no reino de Satanás daqueles dias em que apenas Noé e sua família foram salvos na arca
(Mt 12.26) ; esse também tem "cálice" e "mesa" ( I Co 10.21) — (Gn 7.1; I Pe 3.20; I I Pe 2.5). Leivestad sugere que são, de fato,
que correspondem, sem dúvida, às refeições "sacramentais" desses essa geração iníqua dos dias de Noé, pois se esses poderiam ser sal-
cultos misteriosos. É provável que a difícil passagem de Mt 11.12 vos então a salvação trazida por Cristo era mesma universal. É o
(cf. Lc 16.16) possa ser explicada no contexto da crença de então mesmo ponto de vista de I Pe 4.6: "Pois, para este fim foi o evan-
na luta entre o reino de Deus e o de Satanás,< > cuja batalha deci- 30
gelho pregado também a mortos..." Teríamos razões para dizer
siva seria o ataque de Jesus à fortaleza do "Homem Valente": "Des- que este versículo explica 3.18; keryssein é explicado por euangue-
de os dias de João Batista até agora o reino dos céus é tomado por lídzein e tà pnéumata por hoi nekrói. Os cristãos primitivos pro-
esforço (biádzetai), e os que se esforçam (biastái) se apoderam dele". curariam entender como nós hoje em dia, o que teria acontecido aos
Essa tradução da palavra biastái quase não tem sentido; se, em vez que morreram sem ouvir a pregação de Cristo, sem oportunidade
de "os que se esforçam" (que quer dizer "homens violentos ou de de arrependimento e fé. A resposta, dada em forma mitológica na
violência"), tivéssemos "demónios", o significado seria mais claro. lenda da pregação de Cristo no Hades, proclamada sempre que a
Na história do mundo João Batista é o sinal temporal da eclosão Igreja repete o Credo Apostólico ("Desceu ao Hades"), é que a sal-
da última batalha entre os dois reinos, quando o divino, embora vi- vação destina-se a todos; abrange todas as épocas, acessível até
torioso, recebe duros reveses da fúria violenta do Dragão encurra- mesmo aos perversos, incluindo a própria geração pecadora dos dias
lado. Como diria São João: "Para isto se manifestou o Filho
(31)
de Noé. É o ensino implícito na grande ilustração da justificação
de Deus, para destruir as obras do diabo" (I Jo 3.8; cf. Hb 2.1*4). pela fé, quando Cristo diz ao ladrão penitente: "Em verdade te digo
Agora, nas vésperas da parousía final do Anticristo, existem mui- que hoje estarás comigo no paraíso" (Lc 23.43). Podemos assim
tos anticristos espalhados pelo mundo, que nos dão a percepção de crer, se o desejarmos, que mesmo Judas, depois de ter jogado as
estarmos vivendo na "última hora" ( I Jo 2.18,22; 4.1,3; cf. 3.8,10; trinta moedas de prata no santuário e desaparecido, estava no-
Jo 8.44). meado entre os que teriam ouvido a voz do Filho de Deus e vivido.
Também São João, alegóricamente, proclama a doutrina da pregação
A DESCIDA DE CRISTO AO INFERNO aos mo