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SÃO FRANCISCO DE ASSIS

Memória

– A pobreza de São Francisco. A pobreza no cristão corrente.

– A necessidade desta virtude nos nossos dias. Manifestações e modos de vivê-la.

– Frutos desta virtude.

São Francisco nasceu em 1182 na cidade de Assis (Itália), no seio de uma família
abastada. Viveu e pregou infatigavelmente a pobreza e o amor de Deus a todos os homens.
Fundou a Ordem dos Franciscanos; com Santa Clara, as Damas Pobres (Clarissas); e a
Ordem Terceira, para os leigos. Morreu em 1226.

I. NUMA ÉPOCA em que eram grandes o brilho externo e o poder político e


social de muitos eclesiásticos, o Senhor chamou São Francisco para que a sua
vida pobre fosse um fermento novo naquela sociedade que, pelo seu apego
aos bens materiais, se afastava cada vez mais de Deus. Com ele – afirma
Dante – “nasce um sol para o mundo”1, um instrumento de Deus para ensinar a
todos que a esperança deve estar posta apenas no Senhor.

Certo dia, rezando na igreja de São Damião, ouviu estas palavras: Vai e
reconstrói a minha casa em ruínas. Tomando essa locução divina ao pé da
letra, empregou todas as suas forças em recuperar aquela capela derruída e
depois dedicou-se a reparar outros templos. Mas em breve compreendeu que a
pobreza como expressão de toda a sua vida haveria de ser um grande bem
para a Igreja. Chamava-a Senhora2, tal como os cavaleiros medievais
chamavam as suas damas e como os cristãos se dirigem à Mãe de Deus.

A restauração da cristandade deveria vir pelo desprendimento dos bens


materiais, pois a pobreza bem vivida permite colocar a esperança em Deus e
apenas n’Ele. Num dia de Fevereiro de 1209, em que ouviu as palavras do
Evangelho: Não leveis ouro, nem prata, nem alforge..., Francisco teve um gesto
insólito: para mostrar que nada tem valor quando se antepõe a Deus, despojou-
se das suas roupas e do seu cinturão de couro, vestiu um basto saial, cingiu-se
com uma corda e pôs-se a percorrer os caminhos, confiado na Providência.

A pobreza é uma virtude cristã que o Senhor pede a todos – religiosos,


sacerdotes, mães de família, profissionais, estudantes... –, mas é evidente que
os cristãos que estão no meio do mundo devem vivê-la de um modo bem
diferente de como a viveu São Francisco e de como a vivem os religiosos que,
pela sua vocação, devem dar um testemunho de certo modo público e oficial da
sua consagração a Deus. O mesmo acontece com as demais virtudes cristãs –
a temperança, a obediência, a humildade, a laboriosidade... –, que, sendo
virtudes que devem ser vividas por todos os que querem seguir a Cristo, cada
um deve aprender a viver de acordo com a sua vocação.
A pobreza do cristão corrente tem por base “o desapego, a confiança em
Deus, a sobriedade, a disposição de compartilhar”3. O simples leigo deve
aprender – como se aprende um caminho, uma rota que se deseja seguir – a
compatibilizar “dois aspectos que, à primeira vista, podem parecer
contraditórios: pobreza real, que se note e que se toque – feita de coisas
concretas –, que seja uma profissão de fé em Deus, uma manifestação de que
o coração não se satisfaz com coisas criadas, mas aspira ao Criador,
desejando saturar-se de amor a Deus e depois dar a todos desse mesmo
amor”4; e, ao mesmo tempo, a sua condição secular, que lhe exige que seja
“mais um entre os seus irmãos os homens, de cuja vida participa, com quem se
alegra, com quem colabora, amando o mundo e todas as coisas criadas, a fim
de resolver os problemas da vida humana e estabelecer o ambiente espiritual e
material que facilite o desenvolvimento das pessoas e das comunidades”5.

A virtude da pobreza e do desprendimento traduz-se na minha vida em


pormenores concretos? Amo-a e pratico-a dentro das minhas condições
pessoais? Estou plenamente convencido de que, sem ela, não posso seguir a
Cristo? Posso dizer “sou verdadeiramente pobre em espírito”, por estar
realmente desprendido daquilo que uso..., ainda que tenha bens, dos quais
devo ser um simples administrador que prestará contas a Deus?

“Desapega-te dos bens do mundo. – Ama e pratica a pobreza de espírito.


Contenta-te com o que basta para passar a vida sóbria e temperadamente.

“– Senão, nunca serás apóstolo”6.

II. AS PALAVRAS DO SENHOR ressoam em todos os tempos: Não podeis


servir a Deus e às riquezas7. É impossível agradar a Deus, levá-lo por todos os
caminhos da terra, se ao mesmo tempo não estamos dispostos a algumas
renúncias – às vezes custosas – na posse e no gozo dos bens materiais. Esse
aviso do Senhor pode parecer estranho numa época em que um desmedido
afã de comodidades alimenta diariamente a cobiça das pessoas e das famílias.
São muitos os que aspiram obsessivamente a ter mais, a gastar mais, a
conseguir o maior número de prazeres possíveis, como se esse fosse o fim do
homem na terra.

Na prática, essa pobreza real tem muitas manifestações. Em primeiro lugar,


estar desprendidos dos bens materiais, desfrutando deles como bondade
criada de Deus que são, mas sem considerar necessárias para a saúde e para
o descanso coisas de que podemos prescindir com um pouco de boa vontade.
“Temos que ser exigentes connosco na vida quotidiana, para não inventar
falsos problemas, necessidades artificiais que, em último termo, procedem da
arrogância, do capricho, de um espírito comodista e preguiçoso. Devemos
caminhar para Deus a passo rápido, sem bagagem e sem pesos mortos que
dificultam a marcha”8. Essas necessidades artificiais podem referir-se a
instrumentos de trabalho, artigos desportivos, peças de vestuário, viagens de
lazer bizarras, carros sempre do último modelo, objectos electrónicos
sofisticados, etc., etc.

Santo Agostinho aconselhava aos cristãos do seu tempo: “Procurai o


suficiente, procurai o que basta. O resto é aflição, não alívio; esmaga, não
levanta”9. Como o bispo de Hipona conhecia bem o coração humano! Porque a
verdadeira pobreza cristã é incompatível com o supérfluo, com o excessivo. Se
se desse esse apetite desordenado..., indicaria que a vida espiritual está
deslizando a passo rápido para a tibieza, para a falta de amor.

A pobreza manifesta-se em cumprir acabadamente os afazeres


profissionais; em cuidar dos instrumentos de trabalho – nossos ou dos outros –,
da roupa, do lar modestamente instalado...; em evitar gastos
desproporcionados, ainda que quem os pague seja a empresa onde
trabalhamos; em “não considerar – de verdade – coisa alguma como própria” 10;
em escolher para nós o pior, se a escolha passa inadvertida11 (quantas
oportunidades na vida familiar!); em evitar gastos pessoais motivados pelo
capricho, pela vaidade, pela ânsia de luxo, pela comodidade; em sermos
austeros connosco – na comida e na bebida – e sempre generosos com os
outros.

Certo dia, São Francisco mandou erguer na capela do convento uma grande
cruz e, ao colocá-la, disse aos seus frades: “Este deve ser o vosso livro de
meditação”. O Poverello de Assis tinha compreendido bem onde estavam as
verdadeiras riquezas da vida e o carácter relativo dos bens terrenos. Oxalá
cheguemos a amar a virtude da pobreza com verdadeira paixão.

III. DA POBREZA DERIVAM muitos frutos. Em primeiro lugar, a alma


prepara-se para os bens sobrenaturais e o coração dilata-se para ocupar-se
sinceramente dos outros.

Peçamos hoje ao Senhor, por intercessão de São Francisco, a graça de


compreendermos com maior profundidade que a pobreza cristã, vivida até às
suas últimas consequências, é um dom que já tem o seu prémio nesta vida. O
Senhor dá à alma desprendida uma especial alegria, mesmo que lhe chegue a
faltar o que lhe parece mais necessário. “Muitos se sentem infelizes,
precisamente por terem demasiado de tudo. – Os cristãos, se verdadeiramente
se comportam como filhos de Deus, poderão passar incomodidades, calor,
fadiga, frio... Mas jamais lhes faltará a alegria, porque isso – tudo! –, quem o
dispõe ou permite é Ele, e Ele é a fonte da verdadeira felicidade”12.

A verdadeira pobreza permite que nos desprendamos de nós mesmos para


nos entregarmos a Cristo; é uma forma suprema de liberdade, que nos abre
sem reservas nem restrições à amorosa Vontade de Deus, como nos ensina o
próprio Cristo. Para amá-la – querermos ser pobres, quando tudo parece
induzir-nos a querer ser ricos13 –, é necessário compreendermos bem que a
pobreza enquanto virtude – como acontece com todas as virtudes – é algo bom
e positivo: situa o homem em condições de viver segundo o querer de Deus,
servindo-se dos bens materiais para conquistar o Céu e ajudar o mundo a ser
mais justo, mais humano. “Divitiae, si affluant, nolite cor apponere – Se vierem
às tuas mãos as riquezas, não queiras pôr nelas o teu coração. – Anima-te a
empregá-las generosamente. E, se for preciso, heroicamente.

“– Sê pobre em espírito!”14

A virtude da pobreza é consequência da vida de fé. Na Sagrada Escritura, a


pobreza expressa a condição de quem se colocou absolutamente nas mãos de
Deus, deixando nelas as rédeas da sua vida, sem querer outra segurança. É a
rectidão de espírito de quem não quer depender dos bens da terra, ainda que
os possua. É o firme propósito de não ter senão um só Senhor, porque
ninguém pode servir a dois senhores15. Quando servimos as riquezas, o
dinheiro, os bens terrenos – sejam de que tipo forem –, todos eles se
convertem em ídolos. É essa idolatria da qual São Paulo dizia aos cristãos que
nem sequer deveria ser mencionada entre eles.

Muitos cristãos vêem-se hoje tentados por essa idolatria moderna do


consumo, que os leva a esquecer a imensa riqueza do amor de Deus. Nessa
sociedade manietada e verdadeiramente carente, a nossa vida sóbria e
desprendida servirá de fermento para levá-la a Deus, como São Francisco fez
no seu tempo.

Ao terminarmos a nossa oração, pedimos ao Santo de Assis, com palavras


de João Paulo II, que saibamos ser esse fermento no meio do mundo. Assim
pedia o Papa diante do túmulo onde repousam as relíquias do Santo: “Tu, que
tanto aproximaste de Cristo a tua época, ajuda-nos a aproximar de Cristo a
nossa, os nossos tempos difíceis e críticos. Ajuda-nos! Aproximamo-nos do
ano 2000 depois de Cristo. Não serão tempos que nos preparem para um
renascimento de Cristo, para um novo Advento?” 16 A Virgem Nossa Senhora
há de ensinar-nos a ser protagonistas deste novo renascer, mediante uma vida
sóbria e austera.

(1) Dante Alighieri, A divina comédia, Paraíso, XI, 5, 54; (2) cfr. São Francisco de
Assis, Testamento de Sena, 4; (3) S. C. para a Doutrina da Fé, Instr. Sobre a liberdade cristã e
a libertação, 22-III-1986, 66; (4) São Josemaría Escrivá, Questões actuais do cristianismo, n.
110; (5) ib.; (6) São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 631; (7) Lc 16, 13; (8) São Josemaría
Escrivá, Amigos de Deus, n. 125; (9) Santo Agostinho, Sermão 85, 6; (10) cfr. São Josemaría
Escrivá, Forja, n. 524; (11) cfr. São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 635; (12) São Josemaría
Escrivá, Sulco, n. 82; (13) Conferência Episcopal Espanhola, Instr. Past. La Verdad os hará
libres, 20-XI-1990, n. 18; (14) São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 636; (15) cfr. Mt 6, 24; (16)
João Paulo II, Homilia em Assis, 5-XI-1978.

Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI