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MATERIAL DE APOIO OAB

DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

Conteúdo programático (conforme temas recorrentes no exame da ordem): 1.


Breve contextualização e finalidade do direito do consumidor. 2. Sujeitos e
objetos da relação de consumo. 3. Princípios da Política Nacional das Relações
de Consumo. 4. Direitos básicos do consumidor: revisão contratual e inversão
do ônus da prova. 5. Responsabilidade civil nas relações de consumo: por vício
e por fato. 6. Da prescrição e da decadência; 7.Das práticas comerciais. 8. Da
proteção contratual. 9. Infrações penais. 10. Da defesa do consumidor em juízo.
11. Da convenção coletiva de consumo.

1. Breve contextualização e finalidade do direito do consumidor

Até o surgimento do Direito do Consumidor como ramo autônomo, o


consumidor era classificado e denominado apenas como contratante, cliente ou
comprador, pois era simplesmente parte de algum negócio jurídico, sem integrar,
contudo, uma categoria reconhecida e protegida em lei.
Foi a Constituição Federal de 1988 que reconheceu este novo sujeito de
direitos, o consumidor, nas suas relações individuais e enquanto categoria. O
direito do consumidor é um direito fundamental, por força do artigo 5º, XXXII e é
também um princípio da ordem econômica nacional, conforme art. 170, V.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer


natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
XXXII - o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor;
Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho
humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência
digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes
princípios:
V - defesa do consumidor;

O dispositivo constitucional afirma que o Estado promoverá a defesa do


consumidor. Promover significa assegurar afirmativamente que o Estado (em
seus três poderes) realize de forma efetiva a defesa dos interesses dos
consumidores. Surge assim o Código de Defesa do Consumidor por expressa
determinação constitucional, especialmente para proteger o mais vulnerável em
suas relações econômicas.
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Art. 1° O presente código estabelece normas de proteção e defesa do


consumidor, de ordem pública e interesse social, nos termos dos arts.
5°, inciso XXXII, 170, inciso V, da Constituição Federal e art. 48 de
suas Disposições Transitórias.

Do disposto no art. 1º percebe-se claramente que o Código de Defesa do


Consumidor é uma norma que visa proteger um sujeito de direitos: o consumidor.
“As normas de ordem pública estabelecem valores básicos e fundamentais de
nossa ordem jurídica, são normas de direito privado, mas de forte interesse
público, daí serem indisponíveis e inafastáveis através de contratos”.
(BENJAMIN, MARQUES e BESSA, 2014, p. 70).

2. Sujeitos e objetos da relação de consumo.

Segundo Claudia Lima Marques, o direito privado brasileiro divide-se em


um direito geral, o direito civil, e dois direitos especiais, o direito comercial ou
empresarial, voltado para as relações entre empresas; e o direito do consumidor,
voltado para a proteção da parte mais frágil. Compreender as diferenças e saber
identificar quando uma relação é de consumo é primordial para o estudo do
Direito do Consumidor e para o êxito no Exame de Ordem.

Assim, o grande desafio do intérprete e aplicador do CDC, como


Código que regula uma relação jurídica entre privados, é saber
diferenciar e saber “ver” quem é comerciante, quem é civil, quem é
consumidor, quem é fornecedor, quem faz parte da cadeia de produção
e distribuição e quem retira o bem do mercado como destinatário final,
quem é equiparado a este, seja porque é uma coletividade que
intervém na relação, porque é vítima de um acidente de consumo ou
porque foi quem criou o risco no mercado. No caso do CDC é este
exercício, de definir quem é o sujeito ou quem são os sujeitos da
relação contratual e extracontratual, que vai definir o campo de
aplicação desta lei, isto é, a que relação ela se aplica. Como vimos, o
diferente no CDC é seu campo de aplicação subjetivo (consumidor e
fornecedor), seu campo de aplicação ratione personae, uma vez que
materialmente ele se aplica em princípio a todas as relações
contratuais e extracontratuais (campo de aplicação ratione materiare)
entre consumidores e fornecedores. (BENJAMIN, MARQUES e
BESSA, 2014, p. 95).

Dessa forma, a identificação dos sujeitos de uma relação de consumo é


extremamente importante para distinguir o tipo de relação e identificar o direito
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que deverá ser aplicado. A relação será de consumo quando integrada por um
consumidor e um fornecedor.

2.1 Conceito de consumidor

O conceito básico de consumidor é definido no art. 2º, caput, e


complementado pelo seu parágrafo único e pelos artigos 17 e 29.

Art. 2° Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou


utiliza produto ou serviço como destinatário final.
Parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas,
ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de
consumo.
Art. 17. Para os efeitos desta Seção, equiparam-se aos consumidores
todas as vítimas do evento.
Art. 29. Para os fins deste Capítulo e do seguinte, equiparam-se aos
consumidores todas as pessoas determináveis ou não, expostas às
práticas nele previstas.

Dessa forma, pode-se, sobre o conceito de consumidor, concluir que:


 Não é definido apenas sob a ótica individual, mas também
enquanto categoria (direito transindividual);
 Não é apenas o contratante, mas a vítima de acidentes (onde não
há contrato entre as partes) e de práticas abusivas (realizadas antes da
contratação);
 Não é apenas o que adquire, mas o que utiliza os produtos ou
serviços;
 Pode ser pessoa física ou jurídica;
A principal característica para conceituação padrão de consumidor (art.
2º, caput) é ser “destinatário final”. Aquela pessoa que adquire produtos ou
contrata serviços para uso individual e/ou familiar é, sem dúvida,
destinatária final. No entanto, em relação ao uso profissional de bens e
serviços, o legislador deixou ao intérprete a tarefa de esclarecer o sentido da
expressão.
Para tanto, surgiram algumas teorias. Para a corrente finalista, o conceito
de consumidor está ligado à destinação econômica dada ao produto ou serviço,
sendo consumidor somente o destinatário final fático e econômico, ou seja,
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aquela pessoa não profissional que adquire um produto ou serviço para si ou sua
família. Para esta corrente, se alguém adquire ou utiliza produto ou serviço para
continuar a produzir, para fazer uso profissional, não se enquadraria no conceito
de consumidor.
Já para os adeptos da teoria maximalista, não importa se a pessoa física
(profissional ou não) ou jurídica adquiriu o produto ou serviço para consumo
próprio ou com a finalidade de obter lucro. Como lembra Miragem (2013), “a
interpretação maximalista considera consumidor o destinatário fático do produto
ou serviço, ainda que não o seja necessariamente seu destinatário econômico”.
Em meio às duas correntes, uma terceira via se desenvolveu nos
tribunais: a interpretação finalista aprofundada ou mitigada, dando relevância
ao fator vulnerabilidade. Nesse sentido o consumidor pode ser pessoa física ou
jurídica, desde que seja destinatário final fático e econômico ou, caso faça uso
profissional (seja destinatário final fático e não econômico), que enfrente essa
relação em situação de vulnerabilidade.

É uma interpretação finalista mais aprofundada e madura, que deve


ser saudada. Em casos difíceis, envolvendo pequenas empresas que
utilizam insumos para a sua produção, mas não em sua área de
expertise ou com uma utilização mista, principalmente na área dos
serviços, provada a vulnerabilidade, conclui-se pela destinação final de
consumo prevalente. Esta nova linha, em especial do STJ, tem
utilizado, sob o critério finalista e subjetivo, expressamente a
equiparação do art. 29 do CDC, em se tratando de pessoa jurídica que
comprove ser vulnerável e atue fora do âmbito de sua especialidade,
como o hotel que compra gás. Isso porque o CDC conhece outras
definições de consumidor. O conceito-chave aqui é o da
vulnerabilidade. (BENJAMIN, MARQUES e BESSA, 2014, p. 103).

Hoje, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça se encontra


consolidada no sentido de que a conceituação de consumidor deve ser
feita mediante a utilização da teoria finalista mitigada, conforme segue:

PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM


RECURSO ESPECIAL. SERVIÇO DE RASTREAMENTO E
COMUNICAÇÃO DE DADOS. FALHA. ROUBO DE VEÍCULO.
RESCISÃO CONTRATUAL. 1. OFENSA AOS ARTS. 165 E 535 DO
CPC. NÃO OCORRÊNCIA. TEMAS APRECIADOS PELAS
INSTÂNCIAS DE ORIGEM. 2. APLICAÇÃO DO CDC. RELAÇÃO DE
CONSUMO. TEORIA FINALISTA MITIGAÇÃO. 3.
RESPONSABILIDADE. NEXO CAUSAL. IMPOSSIBILIDADE DE
ANÁLISE. SÚMULAS N. 5 E 7 DO STJ. 4. DISSÍDIO
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JURISPRUDENCIAL. IMPOSSIBILIDADE. NOVA ANÁLISE DA


SITUAÇÃO FÁTICA. 5. AGRAVO IMPROVIDO.
1. Não viola os arts. 165 e 535 do CPC o acórdão que, integrado pelo
julgamento proferido nos embargos de declaração, se pronuncia de
forma suficiente para a solução da controvérsia deduzida nas razões
recursais.
2. A jurisprudência desta Corte Superior tem mitigado a teoria
finalista para aplicar a incidência do Código de Defesa do
Consumidor nas hipóteses em que a parte, pessoa física ou
jurídica, apesar de não ser tecnicamente a destinatária final do
produto ou serviço, se apresenta em situação de vulnerabilidade.
[...]
5. Agravo regimental a que se nega provimento. (AGRAVO
REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL
2014/0264397-3)

PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO CONFLITO DE


COMPETÊNCIA. RECURSO INTERPOSTO NA ÉGIDE NO NCPC.
AÇÃO DE RESCISÃO CONTRATUAL C.C. INDENIZAÇÃO POR
DANOS MORAIS. AÇÃO PROPOSTA POR CONSUMIDOR CONTRA
EMPRESA. TEORIA FINALISTA. MITIGAÇÃO. APLICABILIDADE
DO CDC. POSSIBILIDADE. VULNERABILIDADE VERIFICADA.
CONFLITO CONHECIDO PARA DECLARAR A COMPETÊNCIA DO
JUÍZO SUSCITADO.
1. Aplicabilidade do NCPC a este recurso ante os termos no Enunciado
Administrativo nº 3 aprovado pelo Plenário do STJ na sessão de
9/3/2016: Aos recursos interpostos com fundamento no CPC/2015
(relativos a decisões publicadas a partir de 18 de março de 2016)
serão exigidos os requisitos de admissibilidade recursal na forma do
novo CPC.
2. Esta Corte firmou posicionamento no sentido de que a teoria
finalista deve ser mitigada nos casos em que a pessoa física ou
jurídica, embora não tecnicamente destinatária final do produto ou
serviço, apresenta-se em estado de vulnerabilidade ou de submissão
da prática abusiva, autorizando a aplicação das normas prevista no
CDC.
3. No caso dos autos, porque reconhecida a vulnerabilidade da autora
na relação jurídica estabelecida entre as partes, é competente o
Juízo Suscitado para processar e julgar a ação.
4. Agravo interno não provido. (AgInt no CC 146868 / ES, julgado em
22 de março de 2017.)

Essa vulnerabilidade, esclarece Bruno Miragem, não se restringe apenas


a hipótese econômica, mas especialmente na fragilidade técnica quando, “por
exemplo, pessoa jurídica que pretenda a equiparação demonstre que não era
especialista e não conhecia as informações técnicas relativas ao produto ou
serviço contratado, assim como que tais conhecimentos não lhe eram exigíveis”
(MIRAGEM, 2012, p. 135).

2.2 Conceito de fornecedor


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Conforme já mencionado, os conceitos de consumidor e de fornecedor


são interdependentes, pois só haverá relação de consumo com a presença dos
dois sujeitos.

Art. 3° Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada,


nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que
desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção,
transformação, importação, exportação, distribuição ou
comercialização de produtos ou prestação de serviços.
§ 1° Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.
§ 2° Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo,
mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira,
de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter
trabalhista.

Percebe-se que o conceito é amplo e que o legislador não criou requisitos


relacionados à natureza jurídica ou situação fiscal e administrativa do
fornecedor. O caput do artigo 3º esclarece que fornecedor é gênero, do qual são
espécies aqueles que desenvolvem as atividades listadas no artigo (produção,
montagem, importação, comercialização...). O elemento definidor do conceito é
“desenvolver atividade”.
Desenvolver uma atividade, conforme definições doutrinárias, está
relacionado a habitualidade e ao profissionalismo, mas de maneira ampla e não
limitada a uma formação profissional específica. Assim, uma concessionária de
veículos que decide vender um computador da loja para substituí-lo por um mais
moderno, não se transforma em fornecedora de computadores, pois essa não
é a sua atividade.
Já o conceito de fornecedor de serviços, conforme o parágrafo 2º do art.
3º, tem outro elemento além do desenvolvimento de atividade: a remuneração.
Saliente-se que o legislador optou pela expressão “remunerados” ao invés
de “onerosos”, que são aqueles que se contrapõem aos “gratuitos”, assim,
mesmo o serviço sendo gratuito ao consumidor, mas remunerado ao
fornecedor (remuneração indireta) não afasta a incidência do Código de
Defesa do Consumidor. Alguns serviços que são prestados sem remuneração
direta do consumidor, mas lucrativos, ou seja, remunerados de outra forma,
sofrem a incidência do Código de Defesa do Consumidor. Neste sentido a
seguinte decisão:
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CIVIL E CONSUMIDOR. INTERNET. RELAÇÃO DE CONSUMO.


INCIDÊNCIA DO CDC. GRATUIDADE DO SERVIÇO. INDIFERENÇA.
PROVEDOR DE CONTEÚDO. FISCALIZAÇÃO PRÉVIA DO TEOR
DAS INFORMAÇÕES POSTADAS NO SITE PELOS USUÁRIOS.
DESNECESSIDADE. MENSAGEM DE CONTEÚDO OFENSIVO.
DANO MORAL. RISCO INERENTE AO NEGÓCIO. INEXISTÊNCIA.
CIÊNCIA DA EXISTÊNCIA DE CONTEÚDO ILÍCITO. RETIRADA
IMEDIATA DO AR. DEVER. DISPONIBILIZAÇÃO DE MEIOS PARA
IDENTIFICAÇÃO DE CADA USUÁRIO. DEVER. REGISTRO DO
NÚMERO DE IP. SUFICIÊNCIA.
1. A exploração comercial da internet sujeita as relações de consumo
daí advindas à Lei nº 8.078/90.
2. O fato de o serviço prestado pelo provedor de serviço de
internet ser gratuito não desvirtua a relação de consumo, pois o
termo mediante remuneração, contido no art. 3º, § 2º, do CDC,
deve ser interpretado de forma ampla, de modo a incluir o ganho
indireto do fornecedor.
3. A fiscalização prévia, pelo provedor de conteúdo, do teor das
informações postadas na web por cada usuário não é atividade
intrínseca ao serviço prestado, de modo que não se pode reputar
defeituoso, nos termos do art. 14 do CDC, o site que não examina e
filtra os dados e imagens nele inseridos.
4. O dano moral decorrente de mensagens com conteúdo ofensivo
inseridas no site pelo usuário não constitui risco inerente à atividade
dos provedores de conteúdo, de modo que não se lhes aplica a
responsabilidade objetiva prevista no art. 927, parágrafo único, do
CC/02.
5. Ao ser comunicado de que determinado texto ou imagem possui
conteúdo ilícito, deve o provedor agir de forma enérgica, retirando o
material do ar imediatamente, sob pena de responder solidariamente
com o autor direto do dano, em virtude da omissão praticada.
6. Ao oferecer um serviço por meio do qual se possibilita que os
usuários externem livremente sua opinião, deve o provedor de
conteúdo ter o cuidado de propiciar meios para que se possa identificar
cada um desses usuários, coibindo o anonimato e atribuindo a cada
manifestação uma autoria certa e determinada. Sob a ótica da
diligência média que se espera do provedor, deve este adotar as
providências que, conforme as circunstâncias específicas de cada
caso, estiverem ao seu alcance para a individualização dos usuários
do site, sob pena de responsabilização subjetiva por culpa in
omittendo.
7. A iniciativa do provedor de conteúdo de manter em site que
hospeda rede social virtual um canal para denúncias é louvável e
condiz com a postura esperada na prestação desse tipo de serviço -
de manter meios que possibilitem a identificação de cada usuário (e de
eventuais abusos por ele praticado) - mas a mera disponibilização da
ferramenta não é suficiente. É crucial que haja a efetiva adoção de
providências tendentes a apurar e resolver as reclamações
formuladas, mantendo o denunciante informado das medidas tomadas,
sob pena de se criar apenas uma falsa sensação de segurança e
controle. 8. Recurso especial não provido.
(REsp 1308830 / RS)

A aplicabilidade do CDC também não é afastada somente pelo fato de o


contrato ser disciplinado por lei específica.
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RECURSO ESPECIAL. CIVIL. PLANO DE SAÚDE.


RESPONSABILIDADE CIVIL.DESCREDENCIAMENTO DE CLÍNICA
MÉDICA. COMUNICAÇÃO PRÉVIA AO CONSUMIDOR. AUSÊNCIA.
VIOLAÇÃO DO DEVER DE INFORMAÇÃO. PREJUÍZO AO
USUÁRIO. SUSPENSÃO REPENTINA DE TRATAMENTO
QUIMIOTERÁPICO. SITUAÇÃO TRAUMÁTICA E AFLITIVA. DANO
MORAL. CONFIGURAÇÃO.
1. Ação ordinária que busca a condenação da operadora de plano de
saúde por danos morais, visto que deixou de comunicar previamente a
consumidora acerca do descredenciamento da clínica médica de
oncologia onde recebia tratamento, o que ocasionou a suspensão
repentina da quimioterapia.
2. Apesar de os planos e seguros privados de assistência à saúde
serem regidos pela Lei nº 9.656/1998, as operadoras da área que
prestam serviços remunerados à população enquadram-se no
conceito de fornecedor, existindo, pois, relação de consumo,
devendo ser aplicadas também, nesses tipos contratuais, as regras do
Código de Defesa do Consumidor (CDC). Ambos instrumentos
normativos incidem conjuntamente, sobretudo porque esses contratos,
de longa duração, lidam com bens sensíveis, como a manutenção da
vida. São essenciais, portanto, tanto na formação quanto na execução
da avença, a boa-fé entre as partes e o cumprimento dos deveres de
informação, de cooperação e de lealdade (arts. 6º, III, e 46 do CDC).
3. O legislador, atento às inter-relações que existem entre as fontes do
direito, incluiu, dentre os dispositivos da Lei de Planos de Saúde,
norma específica sobre o dever da operadora de informar o consumidor
quanto ao descredenciamento de entidades hospitalares (art. 17, § 1º,
da Lei nº 9.656/1998).
4. É facultada à operadora de plano de saúde substituir qualquer
entidade hospitalar cujos serviços e produtos foram contratados,
referenciados ou credenciados desde que o faça por outro equivalente
e comunique, com trinta dias de antecedência, os consumidores e a
Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
5. O termo "entidade hospitalar" inscrito no art. 17, § 1º, da Lei nº
9.656/1998, à luz dos princípios consumeristas, deve ser entendido
como gênero, a englobar também clínicas médicas, laboratórios,
médicos e demais serviços conveniados. De fato, o usuário de plano
de saúde tem o direito de ser informado acerca da modificação da rede
conveniada (rol de credenciados), pois somente com a transparência
poderá buscar o atendimento e o tratamento que melhor lhe satisfaz,
segundo as possibilidades oferecidas.
6. O descumprimento do dever de informação (descredenciamento da
clínica médica de oncologia sem prévia comunicação) somado à
situação traumática e aflitiva suportada pelo consumidor (interrupção
repentina do tratamento quimioterápico com reflexos no estado de
saúde), capaz de comprometer a sua integridade psíquica, ultrapassa
o mero dissabor, sendo evidente o dano moral, que deverá ser
compensado pela operadora de plano de saúde.
7. Recurso especial não provido.
(REsp 1349385 / PR)

Neste sentido, súmula do STJ: Súmula 469 - Aplica-se o Código de


Defesa do Consumidor aos contratos de plano de saúde. (Súmula 469,
SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 24/11/2010, DJe 06/12/2010).
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1ª FASE

Por fim, o legislador esclareceu que serviço é a atividade fornecida no


mercado de consumo. A expressão “mercado de consumo” traz uma ideia de
relação mercantilizada e acaba por afastar a incidência do CDC a algumas
relações que decorrem de políticas públicas, como financiamento estudantil
(AgRg no REsp 1230711 / RS, 2015) ou imobiliário (submetidos às regras do
SFH, AgRg no REsp 920075 / RS, 2012). O mesmo argumento também afasta,
segundo o STJ, a aplicabilidade do CDC à prestação de serviços advocatícios,
por força do art. 133 do CF, que atribuiu ao advogado um munus público, ou
seja, que ao postular em nome do cidadão o advogado não exerce apenas uma
profissão, mas uma atividade essencial, indispensável à administração da
justiça.
Apesar da irresignação dos agentes financeiros, os tribunais pacificaram
a sua condição de fornecedores, conforme súmula do STJ:

Súmula 297 - O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às


instituições financeiras.

2.3 Objeto da relação jurídica de consumo

Segundo o parágrafo 1º, produto é qualquer bem móvel ou imóvel,


material ou imaterial. O conceito de serviço, como dito, inclui o elemento
remuneração. Assim, serviço é atividade fornecida no mercado de consumo
mediante remuneração. Conforme visto, essa remuneração pode ser direta
(contraprestação pelo próprio consumidor) ou indireta (vantagens
econômicas auferidas pelo fornecedor).
Ainda sobre o objeto das relações de consumo, resta avaliar a aplicação
do CDC à prestação de serviços públicos, questão ainda controvertida. O
legislador fez referência aos serviços públicos em diversos dispositivos: art. 3º,
caput; 4º, VII; 6º, X e 22. Todavia, não são todos os serviços públicos que se
subordinam às normas de proteção do consumidor.

A distinção dos serviços a que se aplica o regime do CDC e aqueles


que se subordinam exclusivamente ao regime de direito administrativo
é realizada, em nosso direito, por Adalberto Pasqualotto, em estudo de
referência sobre o tema. Observa então, Pasqualotto, que a aplicação
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1ª FASE

do CDC não prescinde da distinção entre os serviços públicos uti


singuli e uti universi. Serviços públicos uti singuli são aqueles prestados
e fruídos individualmente e, por isso, de uso mensurável, os quais são
remunerados diretamente por quem deles se aproveita, em geral por
intermédio de tarifa (e. g. serviços de energia elétrica, água). Já os
serviços uti universi, prestados de modo difuso para toda a
coletividade, não são passíveis de mensuração, sendo custeados por
intermédio de impostos pagos pelos contribuintes (relação de direito
tributário). (MIRAGEM, 2012, p. 150)

Dessa forma, será aplicado o CDC à prestação de serviços uti singuli


(energia elétrica, água, telefonia, transporte...) e não será aplicado o CDC à
prestação de serviços públicos custeados pela coletividade, através de
tributação (uti universi), como segurança pública, por exemplo.

3. Princípios da Política Nacional das Relações de Consumo

O princípio da vulnerabilidade é o princípio fundamental da proteção do


consumidor.

Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo


o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses
econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a
transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os
seguintes princípios:
I - reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado
de consumo;

Destaque-se que, uma vez identificada a presença de um consumidor,


nos termos dos artigos 2º, 17 e 29, do CDC, a vulnerabilidade passa a ser
presumida, nos termos do inciso I, do art. 4º.

A noção de vulnerabilidade no direito associa-se à identificação de


fraqueza ou debilidade de um dos sujeitos da relação jurídica em razão
de determinadas condições ou qualidades que lhe são inerentes ou,
ainda, de uma posição de força que pode ser identificada no outro
sujeito da relação jurídica. Neste sentido, há possibilidade de sua
identificação ou determinação a priori, in abstracto, ou ao contrário, sua
verificação a posteriori, in concreto, dependendo, neste último caso, da
demonstração da situação de vulnerabilidade. A opção do legislador
brasileiro, como já referimos, foi pelo estabelecimento de uma
presunção de vulnerabilidade do consumidor, de modo que todos
os consumidores sejam considerados vulneráveis, uma vez que a
princípio não possuem o poder de direção da relação de consumo,
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1ª FASE

estando expostos às práticas comerciais dos fornecedores no


mercado. (MIRAGEM, 2012, p. 100).

Embora a vulnerabilidade do consumidor seja dividida em diversas


espécies por alguns doutrinadores (técnica, jurídica, fática e informacional),
importa compreender a origem desta presunção de vulnerabilidade, que remonta
ao episódio de despersonalização e massificação dos contratos. A partir do
momento que os produtos passaram a ser concebidos exclusivamente pelo
fabricante e produzidos em grande escala, aumentaram os riscos ao
consumidor, fragilizando-o nesta relação. Estes riscos decorrem da produção
massificada com redução do controle da qualidade final, da complexidade
técnica do produto, cada vez mais distante da compreensão do consumidor leigo;
da contratação em forma de mera adesão; do estímulo constante ao consumo
conduzido por um agressivo marketing; da rápida obsolescência dos produtos,
entre outras tantas modernas situações.
Conforme enunciado de questão do XII Exame da ordem Unificado, “a
doutrina consumerista dominante considera a vulnerabilidade um conceito
jurídico indeterminado, plurissignificativo”.
Entre tantos princípios importantes referidos no art. 4º, importa mencionar
também o princípio da boa-fé objetiva. “O princípio da boa-fé objetiva implica a
exigência nas relações jurídicas do respeito e da lealdade com o outro sujeito da
relação, impondo um dever de correção e fidelidade, assim como o respeito às
expectativas legítimas geradas no outro” (MIRAGEM, 2012, p. 110).
Veja questão do Exame de Ordem sobre o princípio da boa-fé objetiva
(em negrito a alternativa correta):

No âmbito do Código de Defesa do Consumidor, em relação ao


princípio da boa-fé objetiva, é correto afirmar que
a) sua aplicação se restringe aos contratos de consumo.
b) para a caracterização de sua violação imprescindível se faz a
análise do caráter volitivo das partes.
c) não se aplica à fase pré-contratual.
d) importa em reconhecimento de um direito a cumprir em
favor do titular passivo da obrigação.

4. Direitos Básicos do Consumidor: revisão contratual e inversão do


ônus da prova.
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1ª FASE

O artigo 6º dispõe sobre os direitos básicos do consumidor. Na sua


maioria, esses direitos são regulados posteriormente em artigos específicos,
como os direitos à proteção da vida, saúde e segurança e proteção contra a
publicidade enganosa e abusiva; outros, contudo, são disciplinados no próprio
artigo 6º, como o direito à modificação e revisão dos contratos e o direito à
inversão do ônus da prova.

CAPÍTULO III
Dos Direitos Básicos do Consumidor

Art. 6º São direitos básicos do consumidor:


I - a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados
por práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados
perigosos ou nocivos;
II - a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos
e serviços, asseguradas a liberdade de escolha e a igualdade nas
contratações;
III - a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e
serviços, com especificação correta de quantidade, características,
composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como sobre
os riscos que apresentem; (Redação dada pela Lei nº 12.741, de
2012) Vigência
IV - a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos
comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e
cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e
serviços;
V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam
prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos
supervenientes que as tornem excessivamente onerosas;
VI - a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais,
individuais, coletivos e difusos;
VII - o acesso aos órgãos judiciários e administrativos com vistas à
prevenção ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais,
coletivos ou difusos, assegurada a proteção Jurídica, administrativa e
técnica aos necessitados;
VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a
inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando,
a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele
hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências;
IX - (Vetado);
X - a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral.

4.1 Modificação e revisão das cláusulas contratuais

O direito à revisão e/ou modificação das cláusulas contratuais decorre do


direito ao equilíbrio contratual. Conforme Bruno Miragem (2012, p. 171), “o direito
subjetivo do consumidor ao equilíbrio contratual constitui efeito da principiologia
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1ª FASE

do direito do consumidor, muito especialmente dos princípios da boa-fé, da


vulnerabilidade e, especialmente, do próprio princípio do equilíbrio”.
O Inciso V menciona a possibilidade de modificação das cláusulas
contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão em
razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas. Assim,
pode o consumidor, diante de alguma abusividade (art. 51), buscar a nulidade
de determinada cláusula e também pode buscar a revisão e modificação de
cláusulas que, desde a contratação, violem o equilíbrio do contrato. Enquanto
que pelo direito civil a revisão do desequilíbrio existente desde a celebração do
contrato só pode se dar mediante a demonstração de algum vício de
consentimento, para o direito do consumidor basta demonstrar a desproporção
(injustiça), sem necessidade de invalidação de todo o negócio jurídico.
Já quanto à revisão por fato superveniente que torne a obrigação
excessivamente onerosa, também há diferenças em relação a disciplina do
Código Civil. Segundo o art. 317 do diploma civil, o fato superveniente deve ser
imprevisível, já o CDC não faz referência à imprevisibilidade.

A norma do art. 6º do CDC avança em relação ao Código Civil (arts.


478-480 – Da resolução por onerosidade excessiva), ao não exigir que
o fato superveniente seja imprevisível ou irresistível. Apenas exige a
quebra da base objetiva do negócio, a quebra do seu equilíbrio
intrínseco, a destruição da relação de equivalência entre prestações, o
desaparecimento do fim essencial do contrato. Em outras palavras, o
elemento autorizador da ação modificadora do Judiciário é o resultado
objetivo da engenharia contratual, que agora apresenta a mencionada
onerosidade excessiva para o consumidor, resultado de simples fato
superveniente, fato que não necessita ser extraordinário, irresistível,
fato que podia ser previsto e não foi. O CDC, também não exige, para
promover revisão, que haja “extrema vantagem para a outra” parte
contratual, como faz o Código Civil (art. 478). (BENJAMIN, MARQUES
e BESSA, 2014, p. 81).

No XVII Exame da Ordem Unificado foi questionado sobre a possibilidade


de um consumidor buscar a revisão de um contrato de financiamento de veículo
com alienação fiduciária, em razão de, alguns meses após a realização do
negócio, entender que a obrigação assumida lhe era excessivamente onerosa.
As alternativas versavam, além da possibilidade de revisão de contrato, sobre a
aplicabilidade do CDC aos contratos de financiamento com alienação fiduciária
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

e sobre a necessidade de propositura de ação independente para exibição de


documentos.
Conforme entendimento jurisprudencial, não há necessidade de pedido
prévio de exibição de documentos, pois este pode ser efetuado incidentalmente
na própria ação que busca a revisão contratual.
Também conforme entendimento do STJ, a ação cautelar de exibição de
documentos bancários (segundo o novo CPC: tutela provisória de urgência
cautelar antecedente) é cabível como medida preparatória a fim de instruir a
ação principal, bastando a demonstração da existência de relação jurídica entre
as partes, a comprovação de prévio pedido à instituição financeira não atendido
em prazo razoável, e o pagamento do custo do serviço conforme previsão
contratual e normatização da autoridade monetária.
A jurisprudência consolidou o entendimento de que é possível o pedido
incidental de exibição de documentos, nos termos do art. 355 e seguintes do
CPC anterior e do art. 396 do novo CPC, inclusive com aplicação da presunção
de veracidade em caso de negativa (art. 400 do novo CPC):

A jurisprudência deste Tribunal Superior, inclusive firmada em recurso


especial representativo de controvérsia, é no sentido de ser descabida
a multa cominatória na exibição, incidental ou autônoma, de
documento relativo a direito disponível (Súmula nº 372/STJ). Quando
houver descumprimento injustificado da determinação judicial,
em se tratando de ação cautelar de exibição, o magistrado poderá
ordenar a busca e apreensão do documento ou, nas hipóteses de
exibição incidental de documento, sendo disponível o direito,
poderá aplicar a presunção de veracidade (art. 359 do CPC), a qual
será relativa. (AgRg no REsp 1491088/SP).

Assim, a resposta correta é que “a questão comporta aplicação do CDC,


e a ação revisional pode ser proposta independentemente de medida cautelar
preparatória de exibição de documentos, já que o pleito de exibição do contrato
poderá ser formulado incidentalmente e nos próprios autos”.
Outra questão do Exame de Ordem sobre o direito básico de revisar
contratos:

Analisando o artigo 6º, V, do Código de Defesa do Consumidor, que


prescreve: “São direitos básicos do consumidor: V – a modificação das
cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem


excessivamente onerosas”, assinale a alternativa correta.
a) Não traduz a relativização do princípio contratual da autonomia
da vontade das partes.
b) Almeja, em análise sistemática, precipuamente, a resolução do
contrato firmado entre consumidor e fornecedor.
c) Admite a incidência da cláusula rebus sic stantibus.
d) Exige a imprevisibilidade do fato superveniente.

4.2 Inversão judicial do ônus da prova

Ter o ônus de provar significa suportar o risco pela falta de prova de um


fato pertinente (o risco é a improcedência da ação). A inversão do ônus da prova
pode decorrer da lei (ope legis), como na responsabilidade pelo fato do produto
ou do serviço (arts. 12 e 14 do CDC), ou por determinação judicial (ope judicis)
como no caso do art. 6º, VIII. A norma (no caso da inversão judicial) autoriza o
julgador a inverter o ônus da prova em favor do consumidor em duas hipóteses:
quando for verossímil a afirmação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as
regras ordinárias de experiência.

Ora, na estrutura das relações de consumo, o domínio do


conhecimento sobre o produto ou o serviço, ou ainda sobre o processo
de produção e fornecimento dos mesmos no mercado de consumo é
do fornecedor. Da mesma forma, não se pode desconhecer que a
defesa judicial de interesses exige do titular da pretensão a disposição
de recursos financeiros e técnicos para uma adequada demonstração
da pertinência e procedência do seu interesse. (MIRAGEM, 2012, p.
183)

Impõe-se assim a compreensão dos conceitos de hipossuficiência e


verossimilhança. Os doutrinadores esclarecem que, apesar da semelhança, não
se pode confundir os significados de vulnerabilidade e hipossuficiência.
Conforme visto, todos os consumidores são presumidamente vulneráveis,
conforme o disposto no art. 4º. Já a hipossuficiência relaciona-se com a
ausência de condições de provar sua pretensão. “Já a verossimilhança se
estabelece a partir de um critério de probabilidade, segundo os argumentos
trazidos ao conhecimento do juiz, de que uma dada situação relatada tenha se
dado de modo igual ou bastante semelhante ao conteúdo do relato” (MIRAGEM,
2012, p. 187).
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1ª FASE

A regra geral da distribuição do ônus da prova (que deverá ser invertida)


está prevista no art. 373 do Novo Código de Processo Civil:

Art. 373. O ônus da prova incumbe:


I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito;
II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou
extintivo do direito do autor.

A inversão judicial do ônus da prova deve ocorrer preferencialmente na


fase de saneamento do processo ou, pelo menos, assegurando-se à parte a
quem não incumbia inicialmente o encargo, a reabertura da oportunidade para
apresentação de provas.

PROCESSUAL CIVIL. FORNECIMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA.


INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA. REGRA DE INSTRUÇÃO. EXAME
ANTERIOR À PROLAÇÃO DA SENTENÇA. PRECEDENTES DO STJ.
1. A jurisprudência desta Corte é no sentido de que a inversão do ônus
da prova prevista no art. 6º, VIII, do CDC, é regra de instrução e não
regra de julgamento, sendo que a decisão que a determinar deve -
preferencialmente - ocorrer durante o saneamento do processo ou -
quando proferida em momento posterior - garantir a parte a quem
incumbia esse ônus a oportunidade de apresentar suas provas.
Precedentes: (julgado em 30/09/2014)

O novo Código de Processo Civil determina, no art. 357, que o juiz defina
a distribuição do ônus da prova na decisão de saneamento.
Por fim, destaque-se que o novo CPC disciplinou a possibilidade de
inversão do ônus da prova para qualquer outra ação, nos limites definidos no art.
373.

§ 1o Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa


relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir
o encargo nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da
prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de
modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em
que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus
que lhe foi atribuído.
§ 2o A decisão prevista no § 1o deste artigo não pode gerar situação
em que a desincumbência do encargo pela parte seja impossível ou
excessivamente difícil.
§ 3o A distribuição diversa do ônus da prova também pode ocorrer por
convenção das partes, salvo quando:
I - recair sobre direito indisponível da parte;
II - tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito.
§ 4o A convenção de que trata o § 3o pode ser celebrada antes ou
durante o processo.
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

5. Responsabilidade civil nas relações de consumo: por vício e por


fato.

A responsabilidade civil é uma das áreas do direito que melhor reflete as


transformações sociais, políticas e econômicas do último século. Considerando
que vivenciamos um modelo econômico fundamentado no acesso crescente aos
bens de consumo, não surpreende a afirmação de que a responsabilidade civil
decorrente das relações de consumo assumiu extrema importância na sociedade
contemporânea.
Inicialmente fundamentada na teoria da culpa, a responsabilidade civil
hoje volta seus olhos para a vítima. O Direito preocupa-se com o dano sofrido
pela vítima; o resultado ou objeto. A responsabilidade civil nas relações de
consumo é, portanto, objetiva e fundamentada na teoria do risco (a única
exceção é a responsabilidade dos profissionais liberais por fato do serviço).
O Ministro Herman Benjamin, com muita perspicácia, elaborou uma teoria
que define com precisão os fundamentos da responsabilidade civil nas relações
de consumo: A teoria da qualidade. Segundo o Ministro, o Código de Defesa do
Consumidor, ao dividir o dever de responder em duas órbitas distintas, inseriu
nas relações de consumo o inafastável dever de qualidade dos produtos e
serviços oferecidos no mercado.

No direito do consumidor é possível enxergar duas órbitas distintas –


embora não absolutamente excludentes – de preocupações.
A primeira centraliza suas atenções na garantia da incolumidade físico-
psíquica do consumidor, protegendo sua saúde e segurança, ou seja,
preservando sua vida e integridade contra os acidentes de consumo
provocados pelos riscos de produtos e serviços. Esta órbita, pela
natureza do bem jurídico tutelado, ganha destaque em relação a
segunda.
A segunda esfera de inquietação, diversamente, busca regrar a
incolumidade econômica do consumidor em face dos incidentes (e não
acidentes!) de consumo capazes de atingir seu patrimônio. Não
obstante em termos éticos a proteção da incolumidade físico-psíquica
do consumidor seja prioritária, são os ataques a sua incolumidade
econômica que mais aparecem no seu relacionamento com o
fornecedor.
Em outras palavras: enquanto a primeira órbita afeta o corpo do
consumidor, a outra atinge seu bolso. Todavia, mesmo quando a
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

atividade do fornecedor provoca danos a incolumidade físico-psíquica


do consumidor, reflexamente está atingindo igualmente sua
incolumidade econômica, ocasionado diminuição de seu patrimônio.
Portanto, na identificação do tipo de esfera – e do regime jurídico –
atacada pela atividade do fornecedor, não deve o intérprete buscar um
traço exclusivo e sim preponderante. (BENJAMIN, MARQUES e
BESSA, 2007, p. 100/101)

Desta forma, conclui o autor que o dever de qualidade se subdivide em


qualidade segurança (responsabilidade pelos fatos ou acidentes) e qualidade
adequação (responsabilidade pelos vícios). O primeiro assunto é tratado no CDC
no artigos 12 ao 17 e o segundo nos artigos 18 ao 24.
Antes, porém, de disciplinar as duas espécies de responsabilidade, o
legislador tratou, no início do Capítulo IV - Da Qualidade de Produtos e Serviços,
da Prevenção e da Reparação dos Danos, nos artigos 8º, 9º e 10, sobre a
proteção à saúde e segurança. Estabeleceu o dever de informação sempre que
a periculosidade ou nocividade for inerente ao produto ou serviço (artigos 8º e
9º) e o dever de comunicar ao consumidor caso a periculosidade ou nocividade
tenha sido identificada posteriormente (artigo 10 - chamamento dos
consumidores ou recall).

5.1 Da responsabilidade por fato do produto ou serviço

A responsabilidade pelo fato do produto ou serviço, também chamada de


responsabilidade pelos acidentes de consumo (falha no dever de segurança), é
aquela decorrente dos danos provocados por produtos ou serviços.

Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro,


e o importador respondem, independentemente da existência de culpa,
pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos
decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas,
manipulação, apresentação ou acondicionamento de seus produtos,
bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua
utilização e riscos.
§ 1° O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele
legitimamente se espera, levando-se em consideração as
circunstâncias relevantes, entre as quais:
I - sua apresentação;
II - o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi colocado em circulação.
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

§ 2º O produto não é considerado defeituoso pelo fato de outro de


melhor qualidade ter sido colocado no mercado.
§ 3° O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será
responsabilizado quando provar:
I - que não colocou o produto no mercado;
II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste;
III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

Art. 13. O comerciante é igualmente responsável, nos termos do


artigo anterior, quando:
I - o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador não
puderem ser identificados;
II - o produto for fornecido sem identificação clara do seu
fabricante, produtor, construtor ou importador;
III - não conservar adequadamente os produtos perecíveis.
Parágrafo único. Aquele que efetivar o pagamento ao prejudicado
poderá exercer o direito de regresso contra os demais
responsáveis, segundo sua participação na causação do evento
danoso.

Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da


existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos
consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem
como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição
e riscos.
§ 1° O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o
consumidor dele pode esperar, levando-se em consideração as
circunstâncias relevantes, entre as quais:
I - o modo de seu fornecimento;
II - o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi fornecido.
§ 2º O serviço não é considerado defeituoso pela adoção de novas
técnicas.
§ 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando
provar:
I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;
II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
§ 4° A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será
apurada mediante a verificação de culpa.

Art. 15. (Vetado).

Art. 16. (Vetado).

Art. 17. Para os efeitos desta Seção, equiparam-se aos


consumidores todas as vítimas do evento.

Conforme o parágrafo 1º do artigo 12, o produto é defeituoso quando


não oferece a segurança que dele legitimamente se espera. “O dano é
pressuposto inafastável da responsabilidade civil. Não há que se falar em
responsabilidade civil sem dano – o que pode qualificar-se como patrimonial ou
moral” (BENJAMIN, MARQUES e BESSA, 2014, p. 169). Os fornecedores
responsáveis são aqueles mencionados no artigo. O comerciante só será
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

responsabilizado (por fato do produto) nas hipóteses do artigo 13. A


responsabilidade dos fornecedores é objetiva, exceto a dos profissionais liberais,
conforme art. 14, §4º, que determina que quanto a estes a responsabilização se
dará mediante a verificação de culpa.

Sobre a responsabilidade por fato do produto, a seguinte questão do


Exame de Ordem:

Determinado consumidor, ao mastigar uma fatia de pão com geleia,


encontrou um elemento rígido, o que lhe causou intenso desconforto e
a quebra parcial de um dos dentes. Em razão do fato, ingressou com
medida judicial em face do mercado que vendeu a geleia, a fim de ser
reparado. No curso do processo, a perícia constatou que o elemento
encontrado era uma pequena porção de açúcar cristalizado, não
oferecendo risco à saúde do autor. Diante desta narrativa, assinale a
afirmativa correta.
A) O fabricante e o fornecedor do serviço devem ser excluídos de
responsabilidade, visto que o material não ofereceu qualquer risco à
integridade física do consumidor, não merecendo reparação.
B) O elemento rígido não característico do produto, ainda que não
o tornasse impróprio para o consumo, violou padrões de
segurança, já que houve dano comprovado pelo consumidor.
C) A responsabilidade do fornecedor depende de apuração de culpa e,
portanto, não tendo o comerciante agido de modo a causar
voluntariamente o evento, não deve responder pelo resultado.
D) O comerciante não deve ser condenado e sequer caberia qualquer
medida contra o fabricante, posto que não há fato ou vício do produto,
motivo pelo qual não deve ser responsabilizado pelo alegado defeito.

A alternativa correta é a da letra “B”.


Em relação às excludentes de responsabilidade civil (artigo 12, §3º e 14,
§3) pacificou-se o entendimento de que se trata de inversão legal do ônus da
prova.

A Segunda Seção deste Tribunal, no julgamento do REsp 802.832/MG,


rel. Paulo de Tarso Sanseverino, DJ de 21/09/2011, pacificou a
jurisprudência desta Corte no sentido de que em demanda que trata da
responsabilidade pelo fato do produto ou serviço (arts. 12 e 14 do
CDC), a inversão do ônus da prova decorre da lei” (AgRg no AREsp
402.107/RJ, rel. Min. Sidnei Beneti, 3ª T., 26.11.2013, DJe
09.12.2013).

Ainda quanto à responsabilidade pelo fato do serviço (art. 14) importa


mencionar o dever de segurança inerente a prestação de alguns serviços. Em
relação ao furto de veículos em shopping centers, supermercados e outros
estabelecimentos que contam com estacionamento, a jurisprudência é hoje
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

pacífica no sentido da existência do dever de cuidado, de segurança, e de


vigilância (súmula 130 do STJ).

Também objetiva é a responsabilidade civil das instituições financeiras


por fraudes e delitos praticados por terceiros. Não cabe a alegação de caso
fortuito pois o dever de segurança é inerente à atividade, o que configuraria
fortuito interno.

O entendimento de que atos fraudulentos não eximem o fornecedor de


responsabilidade (não configura culpa exclusiva de terceiro) também é aplicado
a outros fornecedores que não os de serviços bancários, como lojas e
prestadoras de serviços de telefonia, por exemplo.

Conforme já mencionado, o artigo 17 (vítimas dos acidentes de consumo


são consumidores por equiparação) foi objeto de questionamento no XVII EO.
Sobre o mesmo tema, menciona Cláudia Lima Marques (2016, p. 1413) o
interessante caso que ocorreu em Pernambuco, “em que o desabamento de
prédio (acidente de consumo) abalou prédios vizinhos e as vítimas-vizinhos
entraram com ações como “consumidoras”, com base no art. 17 do CDC”.

5.2 Da responsabilidade por vício do produto ou serviço

A responsabilidade pelos vícios dos produtos ou serviços refere-se a seu


adequado funcionamento e a sua adequação aos fins aos quais se destinam.

Nada mais natural e justo que os produtos e serviços oferecidos no


mercado de consumo tenham qualidade, atendam à sua finalidade
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

própria e, consequentemente, às necessidades e expectativas dos


consumidores. O Código de Defesa do Consumidor determina que,
independentemente da garantia oferecida pelo fornecedor (garantia de
fábrica), os produtos e serviços devem ser adequados aos fins a que
se destinam, ou seja, devem funcionar bem, atender às legítimas
expectativas do consumidor (BENJAMIN, MARQUES e BESSA, 2014,
p. 199).

O caput do artigo esclarece a existência de quatro modalidades de vícios:


a) aqueles que tornam o produto impróprio ao consumo; b) aqueles que tornam
o produto inadequado ao consumo; c) aqueles que lhe diminuam o valor e d)
aqueles em desconformidade com o que foi informado sobre eles.

Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não


duráveis respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou
quantidade que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo a
que se destinam ou lhes diminuam o valor, assim como por aqueles
decorrentes da disparidade, com a indicações constantes do
recipiente, da embalagem, rotulagem ou mensagem publicitária,
respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, podendo o
consumidor exigir a substituição das partes viciadas.
§ 1° Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o
consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas
condições de uso;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada,
sem prejuízo de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcional do preço.
§ 2° Poderão as partes convencionar a redução ou ampliação do prazo
previsto no parágrafo anterior, não podendo ser inferior a sete nem
superior a cento e oitenta dias. Nos contratos de adesão, a cláusula de
prazo deverá ser convencionada em separado, por meio de
manifestação expressa do consumidor.
§ 3° O consumidor poderá fazer uso imediato das alternativas do § 1°
deste artigo sempre que, em razão da extensão do vício, a substituição
das partes viciadas puder comprometer a qualidade ou características
do produto, diminuir-lhe o valor ou se tratar de produto essencial.
§ 4° Tendo o consumidor optado pela alternativa do inciso I do § 1°
deste artigo, e não sendo possível a substituição do bem, poderá haver
substituição por outro de espécie, marca ou modelo diversos, mediante
complementação ou restituição de eventual diferença de preço, sem
prejuízo do disposto nos incisos II e III do § 1° deste artigo.
§ 5° No caso de fornecimento de produtos in natura, será responsável
perante o consumidor o fornecedor imediato, exceto quando
identificado claramente seu produtor.
§ 6° São impróprios ao uso e consumo:
I - os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos;
II - os produtos deteriorados, alterados, adulterados, avariados,
falsificados, corrompidos, fraudados, nocivos à vida ou à saúde,
perigosos ou, ainda, aqueles em desacordo com as normas
regulamentares de fabricação, distribuição ou apresentação;
III - os produtos que, por qualquer motivo, se revelem inadequados ao
fim a que se destinam.
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

Percebe-se, assim, que o fornecedor, em regra, tem até 30 dias para


sanar o vício do produto. Entende-se, atualmente, que o prazo de 30 dias para
sanar o vício é também um direito do fornecedor, ou seja, não teria interesse
processual para ingressar com a ação o consumidor que não reclamou
diretamente ao fornecedor. Neste sentido recentes decisões do TJRS:

CONSUMIOR. VÍCIO DO PRODUTO. APARELHO CELULAR QUE


APRESENTOU DEFEITOS. AUSÊNCIA DE PROVA DA
OPORTUNIZAÇÃO DO CONSERTO PELA RÉ. FACULDADE DO
FORNECEDOR DE SANAR O VÍCIO NO PRAZO DE 30 DIAS APÓS
A CONSTATAÇÃO DO DEFEITO. IMPOSSIBILIDADE NO CASO
CONCRETO DO USO IMEDIATO PELA CONSUMIDORA DAS
ALTERNATIVAS POSTAS À DISPOSIÇÃO PELO ARTIGO 18, § 1º,
DO CDC. EXTINÇÃO DO FEITO SEM RESOLUÇÃO DE MÉRITO.
ART. 485, VI, DO CPC. CARÊNCIA DE AÇÃO POR AUSÊNCIA DE
INTERESSE JURÍDICO. A autora não oportunizou a possibilidade de
a ré sanar o vício. Não há qualquer prova nos autos da tentativa de
contato com a ré ou de inexistência de assistência técnica disponível.
Constata-se, portanto, ausência de pretensão resistida por parte da ré
e, por conseqüência, falta interesse de agir da autora. EXTINÇÃO DO
PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO, DE OFÍCIO, POR
AUSÊNCIA DE INTERESSE PROCESSUAL. (Recurso Cível Nº
71006703094, Segunda Turma Recursal Cível, Turmas Recursais,
Relator: Vivian Cristina Angonese Spengler, Julgado em 12/07/2017)

Não terá o prazo de 30 dias, contudo, nas hipóteses do parágrafo 3º do


art. 18, conforme questão (EO) que segue:

Dulce, cinquenta e oito anos de idade, fumante há três décadas, foi


diagnosticada como portadora de enfisema pulmonar. Trata-se de uma
doença pulmonar obstrutiva crônica caracterizada pela dilatação
excessiva dos alvéolos pulmonares, que causa a perda da capacidade
respiratória e uma consequente oxigenação insuficiente. Em razão do
avançado estágio da doença, foi prescrito como essencial o tratamento
de suplementação de oxigênio. Para tanto, Joana, filha de Dulce,
adquiriu para sua mãe um aparelho respiratório na loja Saúde e Bem-
Estar. Porém, com uma semana de uso, o produto parou de funcionar.
Joana procurou imediatamente a loja para substituição do aparelho,
oportunidade na qual foi informada pela gerente que deveria aguardar
o prazo legal de trinta dias para conserto do produto pelo fabricante.
Com base no caso narrado, em relação ao Código de Proteção e
Defesa do Consumidor, assinale a afirmativa correta.
A) Está correta a orientação da vendedora. Joana deverá aguardar o
prazo legal de trinta dias para conserto e, caso não seja sanado o vício,
exigir a substituição do produto, a devolução do dinheiro corrigido
monetariamente ou o abatimento proporcional do preço.
B) Joana não é consumidora destinatária final do produto, logo tem
apenas direito ao conserto do produto durável no prazo de noventa
dias, mas não à devolução da quantia paga.
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

C) Joana não precisa aguardar o prazo legal de trinta dias para


conserto, pois tem direito de exigir a substituição imediata do
produto, em razão de sua essencialidade.
D) Na impossibilidade de substituição do produto por outro da mesma
espécie, Joana poderá optar por um modelo diverso, sem direito à
restituição de eventual diferença de preço, e, se este for de valor maior,
não será devida por Joana qualquer complementação.

Assim, ao contrário do que normalmente o consumidor imagina, o vício


não lhe dará o direito à substituição imediata do produto. Conforme dispõe a
parte final do caput e o parágrafo primeiro, o fornecedor tem o direito de sanar
os vícios, substituindo as partes viciadas, no prazo de até 30 dias. Não sendo o
vício sanado, poderá o consumidor fazer uso das alternativas do parágrafo 1º.
Neste sentido, a seguinte questão do Exame de Ordem:

Ao instalar um novo aparelho de televisão no quarto de seu filho, o


consumidor verifica que a tecla de volume do controle remoto não está
funcionando bem. Em contato com a loja onde adquiriu o produto, é
encaminhado à autorizada. O que esse consumidor pode exigir com
base na lei, nesse momento, do comerciante?
a) A imediata substituição do produto por outro novo.
b) O dinheiro de volta.
c) O conserto do produto no prazo máximo de 30 dias.
d) Um produto idêntico emprestado enquanto durar o conserto.

O art. 19 trata dos vícios de quantidade.

Art. 19. Os fornecedores respondem solidariamente pelos vícios de


quantidade do produto sempre que, respeitadas as variações
decorrentes de sua natureza, seu conteúdo líquido for inferior às
indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou de
mensagem publicitária, podendo o consumidor exigir, alternativamente
e à sua escolha:
I - o abatimento proporcional do preço;
II - complementação do peso ou medida;
III - a substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou
modelo, sem os aludidos vícios;
IV - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada,
sem prejuízo de eventuais perdas e danos.
§ 1° Aplica-se a este artigo o disposto no § 4° do artigo anterior.
§ 2° O fornecedor imediato será responsável quando fizer a pesagem
ou a medição e o instrumento utilizado não estiver aferido segundo os
padrões oficiais.

O art. 20 trata dos vícios na prestação de serviços. Diferentemente do art.


18, ao fornecedor de serviços o Código não disponibiliza prazo para que o vício
seja sanado.

Art. 20. O fornecedor de serviços responde pelos vícios de qualidade


que os tornem impróprios ao consumo ou lhes diminuam o valor, assim
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

como por aqueles decorrentes da disparidade com as indicações


constantes da oferta ou mensagem publicitária, podendo o consumidor
exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - a reexecução dos serviços, sem custo adicional e quando cabível;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada,
sem prejuízo de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcional do preço.
§ 1° A reexecução dos serviços poderá ser confiada a terceiros
devidamente capacitados, por conta e risco do fornecedor.
§ 2° São impróprios os serviços que se mostrem inadequados para os
fins que razoavelmente deles se esperam, bem como aqueles que não
atendam as normas regulamentares de prestabilidade.

Art. 21. No fornecimento de serviços que tenham por objetivo a


reparação de qualquer produto considerar-se-á implícita a obrigação
do fornecedor de empregar componentes de reposição originais
adequados e novos, ou que mantenham as especificações técnicas do
fabricante, salvo, quanto a estes últimos, autorização em contrário
do consumidor.

Recentemente, uma questão do Exame de Ordem mesclou os temas


“vício na prestação de serviços” e “validade e forma do orçamento”.

Hugo colidiu com seu veículo e necessitou de reparos na lataria e na


pintura. Para tanto, procurou, por indicação de um amigo, os serviços
da Oficina Mecânica M, oportunidade na qual lhe foi ofertado
orçamento escrito, válido por15 (quinze) dias, com o valor da mão de
obra e dos materiais a serem utilizados na realização do conserto do
automóvel. Hugo, na certeza da boa indicação, contratou pela primeira
vez com a Oficina. Considerando as regras do Código de Proteção e
Defesa do Consumidor, assinale a afirmativa correta.
A) Segundo a lei do consumidor, o orçamento tem prazo de validade
obrigatório de 10 (dez) dias, contados do seu recebimento pelo
consumidor Hugo. Logo, no caso, somente durante esse período a
Oficina Mecânica M estará vinculada ao valor orçado.
B) Uma vez aprovado o orçamento pelo consumidor, os contraentes
estarão vinculados, sendo correto afirmar que Hugo não responderá
por quaisquer ônus ou acréscimos no valor dos materiais orçados;
contudo, ele poderá vir a responder pela necessidade de contratação
de terceiros não previstos no orçamento prévio.
C) Se o serviço de pintura contratado por Hugo apresentar vícios
de qualidade, é correto afirmar que ele terá tríplice opção, à sua
escolha, de exigir da oficina mecânica: a reexecução do serviço
sem custo adicional; a devolução de eventual quantia já paga,
corrigida monetariamente, ou o abatimento do preço de forma
proporcional.
D) A lei consumerista considera prática abusiva a execução de serviços
sem a prévia elaboração de orçamento, o que pode ser feito por
qualquer meio, oral ou escrito, exigindo se, para sua validade, o
consentimento expresso ou tácito
do consumidor.

5.3 Da responsabilidade solidária


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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

Art. 7° Os direitos previstos neste código não excluem outros


decorrentes de tratados ou convenções internacionais de que o Brasil
seja signatário, da legislação interna ordinária, de regulamentos
expedidos pelas autoridades administrativas competentes, bem como
dos que derivem dos princípios gerais do direito, analogia, costumes e
eqüidade.
Parágrafo único. Tendo mais de um autor a ofensa, todos
responderão solidariamente pela reparação dos danos previstos
nas normas de consumo.

No XIV Exame de Ordem Unificado foi questionado sobre a


responsabilidade solidária nas relações de consumo, mediante o seguinte
enunciado:
Um homem foi submetido a cirurgia para remoção de cálculos renais
em hospital privado. A intervenção foi realizada por equipe médica não
integrante dos quadros de funcionários do referido hospital, apesar de
ter sido indicada por esse mesmo hospital.

Durante o procedimento, houve perfuração do fígado do paciente,


verificada somente três dias após a cirurgia, motivo pelo qual o homem
teve que se submeter a novo procedimento cirúrgico, que lhe deixou
uma grande cicatriz na região abdominal. O paciente ingressou com
ação judicial em face do hospital, visando a indenização por danos
morais e estéticos.

No caso apresentado, a equipe médica que realizou o procedimento não


integrava o quadro de funcionários do hospital acionado, mas foi indicada ao
consumidor por este hospital. Em síntese, as alternativas versavam sobre a
responsabilização ou não do hospital. A alternativa correta foi a de que “o
hospital responde objetivamente pelos danos morais e estéticos decorrentes do
erro médico, tendo em vista que ele indicou a equipe médica”.
O Superior Tribunal de Justiça, em julgamento de um Recurso Especial
em maio de 2015, entendeu também pela responsabilidade solidária em caso
semelhante.

A autora sustentou a ocorrência de erro médico consistente na


perfuração do seu intestino durante a realização de cirurgia de
laparatomia, o que a obrigou, dias depois, a realizar diversos outros
atos cirúrgicos, permanecendo internada na UTI e correndo risco de
morte. Postulou, com isto, o pagamento de indenização por danos
morais em valor não inferior a 500 salários mínimos. O juízo de primeiro
grau, após regular instrução, julgou procedente o pedido, condenando
solidariamente os réus ao pagamento de indenização no valor
equivalente a 500 salários mínimos. Interpostas apelações pelos réus,
o Tribunal de origem reduziu o valor da indenização para 200 salários
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

mínimos. Para a manutenção da condenação solidária, o Tribunal


reconheceu a atuação coordenada dos réus na prestação de
serviços médico-hospitalares à autora, tendo a cirurgia sido
praticada por médicos credenciados à administradora de planos
de saúde, cuja rede de atendimento compreende o hospital réu.
Em seu recurso especial, o HOSPITAL AVICCENA questiona o
reconhecimento da obrigação de indenizar o erro médico em
solidariedade com a administradora de planos de saúde ré,
ressaltando, na linha do que constou do acórdão recorrido, que os
médicos que realizaram a cirurgia eram credenciados junto ao plano
de saúde, sendo, pois, externos ao corpo clínico-hospitalar. Alegou,
assim, a violação do art. 932, III, do CC/02 e a existência de dissídio
jurisprudencial frente ao seguinte precedente, in verbis: RECURSO
ESPECIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. RESPONSABILIDADE CIVIL.
ERRO MÉDICO. NEGLIGÊNCIA. INDENIZAÇÃO. RECURSO
ESPECIAL. 1. A doutrina tem afirmado que a responsabilidade médica
empresarial, no caso de hospitais, é objetiva, indicando o parágrafo
primeiro do artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor como a
norma sustentadora de tal entendimento. Contudo, a responsabilidade
do hospital somente tem espaço quando o dano decorrer de falha de
serviços cuja atribuição é afeta única e exclusivamente ao hospital. Nas
hipóteses de dano decorrente de falha técnica restrita ao profissional
médico, mormente quando este não tem nenhum vínculo com o
hospital – seja de emprego ou de mera preposição –, não cabe atribuir
ao nosocômio a obrigação de indenizar. 2. Na hipótese de prestação
de serviços médicos, o ajuste contratual – vínculo estabelecido entre
médico e paciente – refere-se ao emprego da melhor técnica e
diligência entre as possibilidades de que dispõe o profissional, no seu
meio de atuação, para auxiliar o paciente. Portanto, não pode o médico
assumir compromisso com um resultado específico, fato que leva ao
entendimento de que, se ocorrer dano ao paciente, deve-se averiguar
se houve culpa do profissional – teoria da responsabilidade subjetiva.
No entanto, se, na ocorrência de dano impõe-se ao hospital que
responda objetivamente pelos erros cometidos pelo médico, estar-se-
á aceitando que o contrato firmado seja de resultado, pois se o médico
não garante o resultado, o hospital garantirá. Isso leva ao seguinte
absurdo: na hipótese de intervenção cirúrgica, ou o paciente sai curado
ou será indenizado – daí um contrato de resultado firmado às avessas
da legislação. 3. O cadastro que os hospitais normalmente mantêm de
médicos que utilizam suas instalações para a realização de cirurgias
não é suficiente para caracterizar relação de subordinação entre
médico e hospital. Na verdade, tal procedimento representa um mínimo
de organização empresarial. 4. Recurso especial do Hospital e
Maternidade São Lourenço Ltda. provido. (REsp 908359/SC, Rel.
Ministra NANCY ANDRIGHI, Rel. p/ Acórdão Ministro JOÃO OTÁVIO
DE NORONHA, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 27/08/2008, DJe
17/12/2008). Não se controverte mais, portanto, acerca do defeito
na prestação do serviço ocorrido durante a cirurgia de
laparatomia, a perfuração do intestino da parte autora e o nexo de
causalidade (art. 14 do CDC), mas tão-somente a relação de
solidariedade existente entre o hospital recorrente e a outra ré,
que administrava o plano de saúde a que eram credenciados os
médicos. Em que pese a circunstância de os médicos que realizaram
a cirurgia não pertencerem ao corpo clínico do hospital, em face da
jurisprudência do STJ a este respeito, entendo que, no específico caso
dos autos, a responsabilidade do hospital frente à consumidora autora
deriva do princípio da solidariedade existente entre os integrantes da
cadeia de fornecimento de produto ou serviço, que é matéria de fato.
A solidariedade entre os fornecedores integrantes da mesma
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

cadeia de fornecimento de produtos ou serviços é reconhecida de


forma tranquila na jurisprudência e na doutrina. No âmbito deste
STJ, destaco os seguintes precedentes, proferidos tanto pela Terceira
como pela Quarta Turma: CONSUMIDOR. CONTRATO. SEGURO.
APÓLICE NÃO EMITIDA. ACEITAÇÃO DO SEGURO.
RESPONSABILIDADE. SEGURADORA E CORRETORES. CADEIA
DE FORNECIMENTO. SOLIDARIEDADE. 1. A melhor exegese dos
arts. 14 e 18 do CDC indica que todos aqueles que participam da
introdução do produto ou serviço no mercado devem responder
solidariamente por eventual defeito ou vício, isto é, imputa-se a toda a
cadeia de fornecimento a responsabilidade pela garantia de qualidade
e adequação. 2. O art. 34 do CDC materializa a teoria da aparência,
fazendo com que os deveres de boa-fé, cooperação, transparência e
informação alcancem todos os fornecedores, diretos ou indiretos,
principais ou auxiliares, enfim todos aqueles que, aos olhos do
consumidor, participem da cadeia de fornecimento. 3. No sistema do
CDC fica a critério do consumidor a escolha dos fornecedores
solidários que irão integrar o polo passivo da ação. Poderá exercitar
sua pretensão contra todos ou apenas contra alguns desses
fornecedores, conforme sua comodidade e/ou conveniência. 4. O art.
126 do DL nº 73/66 não afasta a responsabilidade solidária entre
corretoras e seguradoras; ao contrário, confirma-a, fixando o direito de
regresso destas por danos causados por aquelas. 5. Tendo o
consumidor realizado a vistoria prévia, assinado proposta e pago a
primeira parcela do prêmio, pressupõe-se ter havido a aceitação da
seguradora quanto à contratação do seguro, não lhe sendo mais
possível exercer a faculdade de recusar a proposta. 6. Recurso
especial não provido. (REsp 1077911/SP, Rel. Ministra NANCY
ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 04/10/2011, DJe
14/10/2011) AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE
INSTRUMENTO. INCLUSÃO INDEVIDA DE NOME NO CADASTRO
DE INADIMPLENTES. EMPRESA DE TELEFONIA DE LONGA
DISTÂNCIA. SOLIDARIEDADE. INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL.
CABIMENTO. 1. A empresa que integra a cadeia de fornecimento de
serviços de telefonia é responsável solidária pelos danos causados ao
consumidor pela indevida inclusão de seu nome nos órgãos de
restrição ao crédito. 2. Agravo regimental provido para, reconsiderando
decisão anterior, conhecer do recurso especial e dar-lhe parcial
provimento. (AgRg no Ag 1226738/SP, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO
DE NORONHA, QUARTA TURMA, julgado em 17/02/2011, DJe
25/02/2011). Na doutrina, entre outros, esta é a posição de Cláudia
Lima Marques (Comentários ao Código de Defesa do Consumidor , 2ª
ed., rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2006,
p. 289 e ss). e de Sergio Cavalieri Filho (Programa de direito do
consumidor . 2ª ed. São Paulo: Atlas, 2010, p. 274). A solidariedade
entre os fornecedores, diretos ou indiretos, integrantes de uma mesma
cadeia de produção ou de prestação de serviço significa que,
independentemente de quem tenha de fato sido o responsável pelo
defeito do produto ou do serviço, todos se apresentam, frente ao
consumidor, como responsáveis de direito. Assim, uma vez
reconhecida a obrigação de indenizar de um dos fornecedores, a
responsabilidade dos demais frente ao consumidor é atribuída pelo
próprio CDC, conforme destacou com propriedade o eminente Ministro
Luis Felipe Salomão quando do julgamento do Recurso Especial n.º
997.993/MG, in verbis: Ressalte-se também que, para a
responsabilização de todos os integrantes da cadeia de consumo,
apura-se a responsabilidade de um deles, objetiva ou decorrente de
culpa, caso se verifique as hipóteses autorizadoras previstas no CDC.
A responsabilidade dos demais integrantes da cadeia de consumo,
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

todavia, não decorre de seu agir culposo ou de fato próprio, mas de


uma imputação legal de responsabilidade que é servil ao propósito
protetivo do sistema. Evidentemente que, resguardado o consumidor,
podem os fornecedores, no exercício do seu direito de regresso,
rediscutir a parcela de responsabilidade de cada um, na forma do art.
88 do CDC. No caso dos autos, ficou reconhecido que os réus
integravam, relativamente à autora, a mesma cadeia de fornecimento
de serviços. Os médicos que realizaram a cirurgia eram credenciados
junto à administradora do plano de saúde com quem a paciente
mantinha contrato. O hospital, por sua vez, compunha a rede
médico-hospitalar do mesmo plano, fornecendo as instalações e
os serviços necessários para a realização da cirurgia. Essas
circunstâncias foram adequadamente analisadas e reconhecidas no
acórdão recorrido, ainda que sob o título de formação de grupo
econômico: Assim é que o contrato com a segunda corré,
administradora de plano de saúde, tem por objeto prestar
serviços, através de médicos e hospitais credenciados (no caso
concreto, o HOSPITAL AVICCENA S.A e os médicos que
realizaram a cirurgia, (Vinícius Paula de Almeida e Marcus Aurélio
Malanga), enquanto o contrato entre a autora e o hospital
complementa, como adminículo, a finalidade do primeiro. Ambos,
porém, visam um único objeto: prestar ("vender") serviços de
saúde aos usuários do plano: a administradora, de hospital e
médicos credenciados, para prestar o atendimento a que se
comprometera; o hospital e os médicos, de paciente pagos pela
administradora. Demais disso, analisando os contratos sociais dos
corréus, vê-se que os três sócios cotistas da administradora
[AVICCENA ASSISTÊCIA MÉDICA LTDA. (fl. 98)] são igualmente
acionistas do HOSPITAL AVICCENA S.A [AHMED MOHAMED KADRI,
ALI AYOUB AUOUB e MUSTAFÁ FAOUZI AOBOU ARABI (fl. 82)].
Não há nada mais claro e convincente de que se tratam de empresários
unidos pelo mesmo escopo: prestar, uma empresa, os serviços de
saúde remunerados pela outra. Não se pode, assim, negar a atuação
conjunta e coordenada dos fornecedores demandados na prestação
dos serviços de saúde à autora. O reconhecimento, no caso dos
autos, da responsabilidade do hospital frente à consumidora não
implica a inobservância dos precedentes nos quais a
responsabilidade é excluída em razão dos médicos não
pertencerem ao corpo clínico-hospitalar, em face das
peculiaridades do caso concreto. Com efeito, cada vez mais, em
planos privados de saúde, o segurado busca os serviços oferecidos
pela própria administradora, incluindo médicos, hospitais, exames
clínicos e laboratoriais, etc., procurando reduzir as suas despesas. Na
ocorrência de um problema, como no presente caso, não se exige que
ingresse contra todos os profissionais que atuaram na prestação dos
serviços médicos e hospitalares, embora todos, em tese, possam ser
solidariamente responsáveis. Naturalmente, poderão os réus
responsabilizados ingressar com ação de regresso, em processo
autônomo, contra os demais fornecedores, discutindo a parcela de
responsabilidade de cada um. (REsp 1359156 (2012/0263659-3 -
26/03/2015) (inteiro teor).

Em março de 2017 o STJ confirmou o entendimento de que a agência de


viagens responde solidariamente pelos danos sofridos pelo consumidor de seus
serviços, nos seguintes termos:
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

Se o consumidor contrata a realização de uma viagem para o exterior


e parte dela é interrompida por falha na prestação dos serviços, total é
a responsabilidade das agências de turismo que disponibilizam os
pacotes, uma vez que o consumidor não adere singularmente a cada
uma das prestações integrantes, mas, sim, ao conjunto formado por
todas elas, sendo devido, em tal caso, o pagamento de danos morais
(in re ipsa) e materiais, desde devidamente comprovados estes últimos
(Em 02 de março de 2017 foi publicada a decisão monocrática no
AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 941.128 – MS, pelo
RELATOR: MINISTRO MARCO BUZZI)

6. Da decadência e da prescrição

Tema complexo no direito do consumidor é aquele relacionado aos prazos


para reclamação por vício ou por fato. O art. 26 trata do prazo para reclamar
pelos vícios e o próprio legislador o denominou de prazo decadencial. Contudo,
“a decadência tem em consideração a existência de um direito potestativo ou
formativo que, uma vez exercido pelo titular, produz desde logo sua eficácia na
constituição, modificação, ou extinção de uma determinada relação jurídica”
(MIRAGEM, 2012, p. 506). Assim, por sua natureza, pode-se denominar de
prazo decadencial aquele que o consumidor tem para reclamar perante o
fornecedor dos vícios aparentes ou ocultos dos produtos ou serviços. Ocorre que
o fornecedor pode não atender espontaneamente ao pedido do consumidor.
Neste caso, lesado o direito do consumidor e tendo este que recorrer ao
judiciário, a natureza deste segundo prazo se aproximaria muito mais de um
prazo prescricional. Contudo, não é este o entendimento que prepondera na
jurisprudência, que aplica o mesmo prazo do artigo 26 também à “reclamação
judicial”.
O parágrafo 2º do art. 26 do CDC determina que “obsta a decadência” a
reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o fornecedor
de produtos e serviços até a resposta negativa correspondente, que deve ser
transmitida de forma inequívoca. A interpretação majoritária dentre os
doutrinadores da expressão “obstar” foi a de que se trata de interrupção;
assim, após a resposta negativa, o prazo previsto no artigo recomeça.
Recomeça, segundo entendimento de nossos tribunais, para o ajuizamento
de uma ação por vício.
MATERIAL DE APOIO OAB
DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

Outra situação deve ser contemplada: muitas vezes o fornecedor não


nega-se a fazer o conserto, recebe o produto mas o devolve ao consumidor com
os mesmos vícios. Vejamos:
Lembre-se que tratando-se de vício oculto, o prazo decadencial inicia-se
no momento em que ele (o vício) se evidenciar.
A reclamação formulada pelo consumidor obsta o transcurso do prazo
decadencial. Caso o fornecedor negue-se a sanar o vício, o prazo decadencial
recomeça no dia seguinte a resposta negativa.
Quando, após a reclamação, o fornecedor recebe o produto para realizar
o conserto (art. 18), o prazo permanece obstado. Caso o conserto não se realize
a contento (não se efetive), o prazo para a reclamação judicial recomeça após a
devolução do produto ao consumidor (art. 18, §1º).
A interpretação deve ser conjunta e coerente: a devolução do produto sem
que o vício tenha sido sanado reabre o prazo para a reclamação (agora judicial),
com a escolha pelo conserto ou por uma das alternativas do parágrafo 1º do art.
18. Como também é um direito do fornecedor sanar o vício em até 30 dias
(exceto nas hipóteses do art. 18, §3º), não podemos cogitar que neste período
(em que o fornecedor fica com o produto para sanar o vício) esteja transcorrendo
o prazo para reclamar judicialmente, pois o consumidor ainda acredita que o
produto será devolvido com o vício sanado.
Já o prazo prescricional para o exercício da pretensão reparatória por
danos causados aos consumidores-vítimas de acidentes de consumo é de cinco
anos, segundo estabelece o art. 27 do CDC. Verifique a seguinte questão do
Exame de Ordem:

Franco adquiriu um veículo zero quilômetro em novembro de 2010. Ao


sair com o automóvel da concessionária, percebeu um ruído todas as
vezes em que acionava a embreagem para a troca de marcha.
Retornou à loja, e os funcionários disseram que tal barulho era natural
ao veículo, cujo motor era novo. Oito meses depois, ao retornar para
fazer a revisão de dez mil quilômetros, o consumidor se queixou que o
ruído persistia, mas foi novamente informado de que se tratava de
característica do modelo. Cerca de uma semana depois, o veículo
parou de funcionar e foi rebocado até a concessionária, lá
permanecendo por mais de sessenta dias. Franco acionou o Poder
Judiciário alegando vício oculto e pleiteando ressarcimento pelos
danos materiais e indenização por danos morais. Considerando o que
dispõe o Código de Proteção e Defesa do Consumidor, a respeito do
narrado acima, é correto afirmar que, por se tratar de vício oculto,
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

a) o prazo decadencial para reclamar se iniciou com a retirada do


veículo da concessionária, devendo o processo ser extinto.
b) o direito de reclamar judicialmente se iniciou no momento
em que ficou evidenciado o defeito, e o prazo decadencial é de
noventa dias.
c) o prazo decadencial é de trinta dias contados do momento em
que o veículo parou de funcionar, tornando-se imprestável para o uso.
d) o consumidor Franco tinha o prazo de sete dias para desistir do
contrato e, tendo deixado de exercê-lo, operou-se a decadência.

Tal questão relata um caso de vício do produto. Contudo, o enunciado


afirma que o consumidor ajuizou ação por danos materiais e morais (dano à
incolumidade psíquica – fato do produto, portanto). Surge então a dúvida, sua
ação é meramente por vício ou também é por fato (danos morais)? Percebe-se
facilmente que as assertivas “a”, “c” e “d” estão incorretas, pois fazem referência
a prazos que não correspondem aquele para reclamar de vício oculto em produto
durável (90 dias) e, para fugir da discussão sobre o prazo ser decadencial ou
prescricional, o avaliador redigiu a assertiva correta sem entrar na questão de
fundo sobre o pedido versar sobre vício apenas ou fato e vício. Deixou-a dúbia.
Observe alguns entendimentos específicos sobre prazos prescricionais:
O prazo prescricional nas ações relativas aos contratos de seguro é o
previsto no artigo 206, § 1º, II, do Código Civil, segundo o qual prescreve em um
ano a pretensão do segurado contra o segurador. Contudo, segundo o STJ, esse
prazo dirige-se à pretensão resultante de inadimplemento contratual,
envolvendo a cobertura securitária em si. No caso em que a pretensão decorre
de prestação de serviço defeituosa, incide o prazo prescricional estabelecido
no artigo 27 do Código de Defesa do Consumidor (no caso, pedido de dano
moral).
Para os pedidos de repetição do indébito (cobrança indevida, nulidade de
cláusulas, entre outras) o STJ tem utilizado o prazo de três anos do art. 206, §3º,
IV:

Cuidando-se de pretensão de nulidade de cláusula de reajuste


prevista em contrato de plano ou seguro de assistência à saúde ainda
vigente, com a consequente repetição do indébito, a ação ajuizada
está fundada no enriquecimento sem causa e, por isso, o prazo
prescricional é o trienal de que trata o art. 206, § 3º, IV, do Código
Civil de 2002 (STJ, REsp 1360969 / RS, agosto de 2016).
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

7. Das práticas comerciais

O art. 29 do CDC determina que, para os fins do Capítulo V (das práticas


comerciais), equiparam-se aos consumidores todas as pessoas determináveis
ou não, expostas às práticas neles previstas. É importante, desta forma, não
esquecer que não é apenas o contratante que é protegido pelo CDC, o que,
inclusive, é tema questionado nos exames da OAB.

SEÇÃO II

Da Oferta

Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa,


veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a
produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor
que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser
celebrado.

Art. 31. A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem


assegurar informações corretas, claras, precisas, ostensivas e em
língua portuguesa sobre suas características, qualidades, quantidade,
composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros
dados, bem como sobre os riscos que apresentam à saúde e
segurança dos consumidores.
Parágrafo único. As informações de que trata este artigo, nos produtos
refrigerados oferecidos ao consumidor, serão gravadas de forma
indelével. (Incluído pela Lei nº 11.989, de 2009)

Art. 32. Os fabricantes e importadores deverão assegurar a oferta de


componentes e peças de reposição enquanto não cessar a fabricação
ou importação do produto.
Parágrafo único. Cessadas a produção ou importação, a oferta deverá
ser mantida por período razoável de tempo, na forma da lei.

Art. 33. Em caso de oferta ou venda por telefone ou reembolso postal,


deve constar o nome do fabricante e endereço na embalagem,
publicidade e em todos os impressos utilizados na transação comercial.
Parágrafo único. É proibida a publicidade de bens e serviços por
telefone, quando a chamada for onerosa ao consumidor que a
origina. (Incluído pela Lei nº 11.800, de 2008).

Art. 34. O fornecedor do produto ou serviço é solidariamente


responsável pelos atos de seus prepostos ou representantes
autônomos.

Art. 35. Se o fornecedor de produtos ou serviços recusar cumprimento


à oferta, apresentação ou publicidade, o consumidor poderá,
alternativamente e à sua livre escolha:
I - exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta,
apresentação ou publicidade;
II - aceitar outro produto ou prestação de serviço equivalente;
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

III - rescindir o contrato, com direito à restituição de quantia


eventualmente antecipada, monetariamente atualizada, e a perdas e
danos.

Oferta, em termos gerais, é uma proposta de contrato que uma pessoa


faz a outra. Contudo, no Direito do Consumidor, por suas características,
abrange inclusive a publicidade.

No contrato de massa, em virtude de seu caráter coletivo, a oferta deixa


de ser individualizada e cristalina, e passa a ser feita também através
de meios massificados, como a publicidade, a exposição das
mercadorias em vitrines, em exposições, e até na rua. Quando o dono
da banca de jornais e revistas expõe as suas mercadorias ao público,
está fazendo oferta. (CAVALIERI FILHO, 2011, p. 146),

Os artigos 30 e seguintes tratam do princípio da vinculação, que significa


a obrigação do fornecedor de cumprir o que ofertou. São dois os requisitos para
a vinculação: que a oferta efetivamente chegue ao conhecimento dos
consumidores (seja veiculada) e que seja suficientemente precisa (não se trate
de um exagero publicitário óbvio).

SEÇÃO III
Da Publicidade

Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o


consumidor, fácil e imediatamente, a identifique como tal.
Parágrafo único. O fornecedor, na publicidade de seus produtos ou
serviços, manterá, em seu poder, para informação dos legítimos
interessados, os dados fáticos, técnicos e científicos que dão
sustentação à mensagem.
Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.
§ 1° É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação
de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer
outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o
consumidor a respeito da natureza, características, qualidade,
quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados
sobre produtos e serviços.
§ 2° É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer
natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se
aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança,
desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o
consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua
saúde ou segurança.
§ 3° Para os efeitos deste código, a publicidade é enganosa por
omissão quando deixar de informar sobre dado essencial do produto
ou serviço.
§ 4° (Vetado).
Art. 38. O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou
comunicação publicitária cabe a quem as patrocina.
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

O caput do artigo 36 determina a necessidade de identificação da


mensagem publicitária, ou seja, o consumidor não pode “receber” publicidade
sem saber se tratar de uma. O parágrafo único traz o chamado princípio da
transparência da fundamentação. Por exemplo, se a escola anuncia que
consegue inserir a maioria dos seus alunos egressos no mercado de trabalho,
deve dispor de dados que comprovem essa informação.
Nos artigos seguintes o legislador tratou de conceituar e proibir a
publicidade enganosa e a abusiva. Publicidade enganosa é aquela capaz de
enganar o consumidor total ou parcialmente, por omissão ou comissão. É
irrelevante a intenção ou não de enganar, basta o resultado. Leva-se em conta
somente a capacidade de induzir em erro. Já a publicidade abusiva é aquela que
fere o sistema de valores da Constituição.
Importa destacar que a responsabilidade é solidária também na oferta e
na publicidade no caso de anúncio promovido pelo fabricante mas que beneficia,
também, o comerciante. Veja o informativo de Jurisprudência do STJ sobre a
responsabilidade solidária do fabricante de automóveis.

Informativo de Jurisprudência nº 0562


Período: 18 a 28 de maio de 2015
Quarta Turma
DIREITO DO CONSUMIDOR. RESPONSABILIDADE DO
FABRICANTE QUE GARANTE NA PUBLICIDADE A QUALIDADE
DOS PRODUTOS OFERTADOS.
Responde solidariamente por vício de qualidade do automóvel
adquirido o fabricante de veículos automotores que participa de
propaganda publicitária garantindo com sua marca a excelência
dos produtos ofertados por revendedor de veículos usados. O
princípio da vinculação da oferta reflete a imposição da
transparência e da boa-fé nos métodos comerciais, na publicidade
e nos contratos, de forma que esta exsurge como princípio
máximo orientador, nos termos do art. 30 do CDC. Realmente, é
inequívoco o caráter vinculativo da oferta, integrando o contrato,
de modo que o fornecedor de produtos ou serviços se
responsabiliza também pelas expectativas que a publicidade
venha a despertar no consumidor, mormente quando veicula
informação de produto ou serviço com a chancela de determinada
marca. Trata-se de materialização do princípio da boa-fé objetiva,
exigindo do anunciante os deveres anexos de lealdade, confiança,
cooperação, proteção e informação, sob pena
de responsabilidade. O próprio art. 30 do CDC enfatiza
expressamente que a informação transmitida "obriga o
fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar", atraindo
a responsabilidade solidária daqueles que participem,
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1ª FASE

notadamente quando expõe diretamente a sua marca no


informativo publicitário. A propósito, a jurisprudência do STJ
reconhece a responsabilidade solidária de todos os fornecedores
que venham a se beneficiar da cadeia de fornecimento, seja pela
utilização da marca, seja por fazer parte da publicidade. Trata-se,
cabe ressaltar, de caso de responsabilização objetiva. Nesse
contexto, dentro do seu poder de livremente avalizar e oferecer
diversos tipos de produtos e serviços, ao agregar o seu "carimbo"
de excelência aos veículos usados anunciados, a fabricante acaba
por atrair a solidariedade pela oferta do produto/serviço e o ônus
de fornecer a qualidade legitimamente esperada
pelo consumidor. Na verdade, a utilização de marca de renome -
utilização essa consentida, até por força legal (art. 3º, III, da Lei
6.729/1979) - gera no consumidor legítima expectativa de que o
negócio é garantido pela montadora, razão pela qual deve esta
responder por eventuais desvios próprios dos negócios jurídicos
celebrados nessa seara. REsp 1.365.609-SP, Rel. Min. Luis Felipe
Salomão, julgado em 28/4/2015, DJe 25/5/2015.

O julgado é muito elucidativo em relação aos princípios gerais de direito


do consumidor, especialmente boa-fé objetiva, vinculação à oferta e a
solidariedade na publicidade.

SEÇÃO IV
Das Práticas Abusivas

Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras


práticas abusivas: (Redação dada pela Lei nº 8.884, de 11.6.1994)
I - condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento
de outro produto ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites
quantitativos;
II - recusar atendimento às demandas dos consumidores, na exata
medida de suas disponibilidades de estoque, e, ainda, de conformidade
com os usos e costumes;
III - enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer
produto, ou fornecer qualquer serviço;
IV - prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em
vista sua idade, saúde, conhecimento ou condição social, para
impingir-lhe seus produtos ou serviços;
V - exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva;
VI - executar serviços sem a prévia elaboração de orçamento e
autorização expressa do consumidor, ressalvadas as decorrentes de
práticas anteriores entre as partes;
VII - repassar informação depreciativa, referente a ato praticado pelo
consumidor no exercício de seus direitos;
VIII - colocar, no mercado de consumo, qualquer produto ou serviço
em desacordo com as normas expedidas pelos órgãos oficiais
competentes ou, se normas específicas não existirem, pela Associação
Brasileira de Normas Técnicas ou outra entidade credenciada pelo
Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial
(Conmetro);
IX - recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, diretamente
a quem se disponha a adquiri-los mediante pronto pagamento,
ressalvados os casos de intermediação regulados em leis
especiais; (Redação dada pela Lei nº 8.884, de 11.6.1994)
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1ª FASE

X - elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços. (Incluído


pela Lei nº 8.884, de 11.6.1994)
XI - Dispositivo incluído pela MPV nº 1.890-67, de 22.10.1999,
transformado em inciso XIII, quando da conversão na Lei nº 9.870, de
23.11.1999
XII - deixar de estipular prazo para o cumprimento de sua obrigação ou
deixar a fixação de seu termo inicial a seu exclusivo critério.(Incluído
pela Lei nº 9.008, de 21.3.1995)
XIII - aplicar fórmula ou índice de reajuste diverso do legal ou
contratualmente estabelecido. (Incluído pela Lei nº 9.870, de
23.11.1999)
Parágrafo único. Os serviços prestados e os produtos remetidos ou
entregues ao consumidor, na hipótese prevista no inciso III, equiparam-
se às amostras grátis, inexistindo obrigação de pagamento.

Práticas abusivas, segundo Antonio Benjamin, “é a desconformidade


com os padrões mercadológicos de boa conduta em relação ao
consumidor”. O rol apresentado no artigo é exemplificativo. O inciso I
refere-se à venda casada, assunto sempre muito comentado na imprensa.
O inciso III, já questionado no exame da ordem, refere-se a proibição do
ato de enviar ou entregar produto ou serviço sem solicitação prévia.
Ainda sobre práticas abusivas, já objeto de questionamento pela
FGV a súmula 532 do STJ:

Súmula 532 - Constitui prática comercial abusiva o envio de cartão de


crédito sem prévia e expressa solicitação do consumidor,
configurando-se ato ilícito indenizável e sujeito à aplicação de multa
administrativa. (Súmula 532, CORTE ESPECIAL, julgado em
03/06/2015, DJe 08/06/2015).

Ainda dentro da seção sobre práticas abusivas, o Código trata do


orçamento.

Art. 40. O fornecedor de serviço será obrigado a entregar ao


consumidor orçamento prévio discriminando o valor da mão-de-obra,
dos materiais e equipamentos a serem empregados, as condições de
pagamento, bem como as datas de início e término dos serviços.
§ 1º Salvo estipulação em contrário, o valor orçado terá validade pelo
prazo de dez dias, contado de seu recebimento pelo consumidor.
§ 2° Uma vez aprovado pelo consumidor, o orçamento obriga os
contraentes e somente pode ser alterado mediante livre
negociação das partes.
§ 3° O consumidor não responde por quaisquer ônus ou acréscimos
decorrentes da contratação de serviços de terceiros não previstos no
orçamento prévio.
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

O art. 42 trata da obrigatoriedade do fornecimento de orçamento e da


aplicação do princípio da vinculação ao mesmo. Abaixo, questão do Exame de
Ordem sobre o orçamento.

A empresa Cristal Ltda., atendendo à solicitação da cliente Ruth,


realizou orçamento para prestação de serviço, discriminando material,
equipamentos, mão de obra, condições de pagamento e datas para
início e término do serviço de instalação de oito janelas e quatro portas
em alumínio na residência da consumidora. Com base no narrado
acima, é correto afirmar que
a) o orçamento terá validade de trinta dias, independentemente da
data do recebimento e aprovação pela consumidora Ruth.
b) Ruth não responderá por eventuais acréscimos não previstos no
orçamento prévio, exceto se decorrente da contratação de serviço de
terceiro.
c) o valor orçado terá validade de dez dias, contados do
recebimento pela consumidora; aprovado, obriga os contraentes,
que poderão alterá-lo mediante livre negociação.
d) uma vez aprovado, o orçamento obriga os contraentes e não
poderá alterado ou negociado pelas partes, que, buscando mudar os
termos, deverão fazer novo orçamento.

A seção V do CDC trata da cobrança de dívida. O caput do art. 42 trata


do dever de respeito ao consumidor e da preservação de sua dignidade, e o
parágrafo único da repetição do indébito em dobro.

SEÇÃO V
Da Cobrança de Dívidas

Art. 42. Na cobrança de débitos, o consumidor inadimplente não será


exposto a ridículo, nem será submetido a qualquer tipo de
constrangimento ou ameaça.
Parágrafo único. O consumidor cobrado em quantia indevida tem
direito à repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que
pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros
legais, salvo hipótese de engano justificável.

Art. 42-A. Em todos os documentos de cobrança de débitos


apresentados ao consumidor, deverão constar o nome, o endereço e o
número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas – CPF ou no
Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica – CNPJ do fornecedor do
produto ou serviço correspondente. (Incluído pela Lei nº 12.039, de
2009)

O CDC não proíbe o ato de cobrar, apenas os abusos empreendidos nesta


prática. O parágrafo único trata da repetição do indébito, ou seja, o consumidor
cobrado em quantia indevida terá direito à restituição em dobro. São, portanto,
requisitos desta penalidade a cobrança de dívida extrajudicial de consumo. A
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

multa é devida salvo engano justificável. As decisões ainda são divergentes


sobre o conceito de engano justificável. Decisões mais recentes, inclusive do
STJ, estão exigindo comprovação de má-fé para a restituição em dobro.
Ainda dentro do capítulo “Práticas Comerciais” o CDC trata dos bancos
de dados e cadastros de consumidores.

SEÇÃO VI
Dos Bancos de Dados e Cadastros de Consumidores

Art. 43. O consumidor, sem prejuízo do disposto no art. 86, terá acesso
às informações existentes em cadastros, fichas, registros e dados
pessoais e de consumo arquivados sobre ele, bem como sobre as suas
respectivas fontes.
§ 1° Os cadastros e dados de consumidores devem ser objetivos,
claros, verdadeiros e em linguagem de fácil compreensão, não
podendo conter informações negativas referentes a período superior a
cinco anos.
§ 2° A abertura de cadastro, ficha, registro e dados pessoais e de
consumo deverá ser comunicada por escrito ao consumidor, quando
não solicitada por ele.
§ 3° O consumidor, sempre que encontrar inexatidão nos seus dados
e cadastros, poderá exigir sua imediata correção, devendo o arquivista,
no prazo de cinco dias úteis, comunicar a alteração aos eventuais
destinatários das informações incorretas.
§ 4° Os bancos de dados e cadastros relativos a consumidores, os
serviços de proteção ao crédito e congêneres são considerados
entidades de caráter público.
§ 5° Consumada a prescrição relativa à cobrança de débitos do
consumidor, não serão fornecidas, pelos respectivos Sistemas de
Proteção ao Crédito, quaisquer informações que possam impedir ou
dificultar novo acesso ao crédito junto aos fornecedores.
§ 6° (Vide Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência)

Art. 44. Os órgãos públicos de defesa do consumidor manterão


cadastros atualizados de reclamações fundamentadas contra
fornecedores de produtos e serviços, devendo divulgá-lo pública e
anualmente. A divulgação indicará se a reclamação foi atendida ou não
pelo fornecedor.
§ 1° É facultado o acesso às informações lá constantes para orientação
e consulta por qualquer interessado.
§ 2° Aplicam-se a este artigo, no que couber, as mesmas regras
enunciadas no artigo anterior e as do parágrafo único do art. 22 deste
código.
Art. 45. (Vetado).

O art. 43 trata dos bancos de dados e cadastros dos consumidores. Ao


discipliná-los o legislador reconheceu sua licitude, desde que criados e mantidos
conforme as regras estipuladas na lei.
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

Embora permitida a existência de arquivos de consumo, vez que úteis


para a dinamicidade da economia, beneficiando o fornecedor e o
próprio consumidor, há evidente preocupação da lei em impor limites e
regras, considerando a ameaça que os arquivos de consumo
representam á privacidade e honra das pessoas. (BENHAMIN,
MARQUES e BESSA, 2014, p. 325).

Súmulas do STJ sobre o assunto:

Súmula 323: A inscrição de inadimplente pode ser mantida nos


serviços de proteção ao crédito por, no máximo, cinco anos.
Súmula 359: Cabe ao órgão mantenedor do Cadastro de
Proteção ao Crédito a notificação do devedor antes de proceder
à inscrição.
Súmula 385: Da anotação irregular em cadastro de proteção ao
crédito, não cabe indenização por dano moral, quando
preexistente legítima inscrição, ressalvado o direito ao
cancelamento.
Súmula 404: É dispensável o aviso de recebimento (AR) na
carta de comunicação ao consumidor sobre a negativação de
seu nome em bancos de dados e cadastros.
Súmula 548 - Incumbe ao credor a exclusão do registro da
dívida em nome do devedor no cadastro de inadimplentes no
prazo de cinco dias úteis, a partir do integral e efetivo
pagamento do débito.
Súmula 550 - A utilização de escore de crédito, método
estatístico de avaliação de risco que não constitui banco de
dados, dispensa o consentimento do consumidor, que terá o
direito de solicitar esclarecimentos sobre as informações
pessoais valoradas e as fontes dos dados considerados no
respectivo cálculo.

Ainda sobre esse tema, importa esclarecer que um dos precedentes que
deram origem a Súmula 359 (cabe ao órgão mantenedor do cadastro de
proteção ao crédito a notificação do devedor antes de proceder à inscrição), diz
que:

MEDIDA CAUTELAR - INSCRIÇÃO EM CADASTRO DE RESTRIÇÃO


AO CRÉDITO - LEGITIMIDADE PASSIVA - REQUISITOS -
ORIENTAÇÃO DA SEGUNDA SEÇÃO. 1. Os bancos são partes
ilegítimas para responder pela responsabilidade da comunicação
da inscrição, que é dever dos órgãos de proteção ao crédito (cf.
REsp 442.483/BARROS MONTEIRO e REsp 345.674/PASSARINHO).
No entanto, são partes legítimas para responder às ações que buscam
impedi-los de solicitar a inscrição.
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

Depreende-se, portanto, que a responsabilidade por danos morais


decorrentes da ausência de notificação é apenas do cadastrador e não do
credor.

8. Da proteção contratual

Importa compreender que a proteção contratual do consumidor começa


na fase pré-contratual, com a oferta, conforme exposto anteriormente. Já a fase
contratual necessita de maior proteção em razão da preponderante contratação
por adesão.

SEÇÃO I
Disposições Gerais

Art. 46. Os contratos que regulam as relações de consumo não


obrigarão os consumidores, se não lhes for dada a oportunidade de
tomar conhecimento prévio de seu conteúdo, ou se os respectivos
instrumentos forem redigidos de modo a dificultar a compreensão de
seu sentido e alcance.

Art. 47. As cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais


favorável ao consumidor.

Art. 48. As declarações de vontade constantes de escritos particulares,


recibos e pré-contratos relativos às relações de consumo vinculam o
fornecedor, ensejando inclusive execução específica, nos termos do
art. 84 e parágrafos.

A primeira disposição, do art. 46, confirma os princípios da informação e


da transparência. Dar conhecimento, segundo a melhor doutrina, não é
apenas oportunizar a leitura, mas proporcionar compreensão. Sem dar o
conhecimento o contrato se torna ineficaz. Mesmo oportunizando a
compreensão, se as cláusulas ainda necessitarem de interpretação,
especialmente em razão de alguma ambiguidade, essa deverá se dar da maneira
mais favorável ao consumidor (art. 47). Por fim, ressalva o legislador que todas
as espécies de documentos relativos às relações de consumo vinculam
(obrigam) o fornecedor.

Art. 49. O consumidor pode desistir do contrato, no prazo de 7 dias a


contar de sua assinatura ou do ato de recebimento do produto ou
serviço, sempre que a contratação de fornecimento de produtos e
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por


telefone ou a domicílio.
Parágrafo único. Se o consumidor exercitar o direito de arrependimento
previsto neste artigo, os valores eventualmente pagos, a qualquer
título, durante o prazo de reflexão, serão devolvidos, de imediato,
monetariamente atualizados.

Um dos instrumentos de proteção mais utilizados na atualidade é o direito


de arrependimento. Importante não esquecer que ele se refere às compras
feitas fora do estabelecimento comercial (a domicílio, pela TV, internet...).
A principal razão do direito de arrependimento é proporcionar ao consumidor um
prazo de reflexão, no qual possa desistir do contrato, independentemente de
qualquer justificativa. Segue questão do exame de ordem sobre o direito de
arrependimento:

Quando a contratação ocorre por site da internet, o consumidor pode


desistir da compra?
a) Sim. Quando a compra é feita pela internet, o consumidor pode
desistir da compra em até 30 dias depois que recebe o produto.
b) Não. Quando a compra é feita pela internet, o consumidor é
obrigado a ficar com o produto, a menos que ele apresente vício. Só
nessa hipótese o consumidor pode desistir.
c) Não. O direito de arrependimento só existe para as compras
feitas na própria loja, e não pela internet.
d) Sim. Quando a compra é feita fora do estabelecimento
comercial, o consumidor pode desistir do contrato no prazo de
sete dias, mesmo sem apresentar seus motivos para a
desistência.

O art. 50 trata da garantia contratual.

Art. 50. A garantia contratual é complementar à legal e será conferida


mediante termo escrito.
Parágrafo único. O termo de garantia ou equivalente deve ser
padronizado e esclarecer, de maneira adequada em que consiste a
mesma garantia, bem como a forma, o prazo e o lugar em que pode
ser exercitada e os ônus a cargo do consumidor, devendo ser-lhe
entregue, devidamente preenchido pelo fornecedor, no ato do
fornecimento, acompanhado de manual de instrução, de instalação e
uso do produto em linguagem didática, com ilustrações.

Conforme o art. 26 do CDC, nos casos de vícios dos produtos ou serviços,


o prazo para o consumidor reclamar é decadencial, de 30 dias para produtos não
duráveis e de 90 dias para produtos duráveis. O art. 50 determina que o prazo
da garantia contratual (aquela oferecida pelo fornecedor por liberalidade) é
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

complementar ao prazo da garantia legal. Como a garantia legal (art. 24) não
possui prazo estipulado em lei, convencionou-se pela utilização do prazo
decadencial (para reclamar) como prazo de garantia legal. “De acordo com esse
entendimento, o prazo da garantia convencional começa a correr a partir da
entrega do produto ou da prestação do serviço, enquanto o prazo da garantia
legal (30 ou 90 dias) tem por termo inicial o dia seguinte do último dia da garantia
convencional” (CAVALIERI FILHO, 2011, p. 163).

SEÇÃO II
Das Cláusulas Abusivas

Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas


contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que:
I - impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do
fornecedor por vícios de qualquer natureza dos produtos e serviços ou
impliquem renúncia ou disposição de direitos. Nas relações de
consumo entre o fornecedor e o consumidor pessoa jurídica, a
indenização poderá ser limitada, em situações justificáveis;
II - subtraiam ao consumidor a opção de reembolso da quantia já paga,
nos casos previstos neste código;
III - transfiram responsabilidades a terceiros;
IV - estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que
coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam
incompatíveis com a boa-fé ou a eqüidade;
V - (Vetado);
VI - estabeleçam inversão do ônus da prova em prejuízo do
consumidor;
VII - determinem a utilização compulsória de arbitragem;
VIII - imponham representante para concluir ou realizar outro negócio
jurídico pelo consumidor;
IX - deixem ao fornecedor a opção de concluir ou não o contrato,
embora obrigando o consumidor;
X - permitam ao fornecedor, direta ou indiretamente, variação do preço
de maneira unilateral;
XI - autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente, sem
que igual direito seja conferido ao consumidor;
XII - obriguem o consumidor a ressarcir os custos de cobrança de sua
obrigação, sem que igual direito lhe seja conferido contra o fornecedor;
XIII - autorizem o fornecedor a modificar unilateralmente o conteúdo ou
a qualidade do contrato, após sua celebração;
XIV - infrinjam ou possibilitem a violação de normas ambientais;
XV - estejam em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor;
XVI - possibilitem a renúncia do direito de indenização por benfeitorias
necessárias.
§ 1º Presume-se exagerada, entre outros casos, a vantagem que:
I - ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que
pertence;
II - restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza
do contrato, de tal modo a ameaçar seu objeto ou equilíbrio contratual;
III - se mostra excessivamente onerosa para o consumidor,
considerando-se a natureza e conteúdo do contrato, o interesse das
partes e outras circunstâncias peculiares ao caso.
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

§ 2° A nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o


contrato, exceto quando de sua ausência, apesar dos esforços de
integração, decorrer ônus excessivo a qualquer das partes.
§ 3° (Vetado).
§ 4° É facultado a qualquer consumidor ou entidade que o represente
requerer ao Ministério Público que ajuíze a competente ação para ser
declarada a nulidade de cláusula contratual que contrarie o disposto
neste código ou de qualquer forma não assegure o justo equilíbrio entre
direitos e obrigações das partes.

As denominadas cláusulas abusivas, segundo o CDC, são nulas de pleno


direito. “O controle das cláusulas abusivas e decretação da sua nulidade é
competência tipicamente judicial” (MIRAGEM, 2012, p. 295). O rol apresentado
no artigo é exemplificativo. Questão do IX Exame da Ordem versou sobre as
abusividades previstas nos incisos I, VI, VII e VIII, com transcrição literal dos
incisos (negativa ou afirmativamente).

O exame destas cláusulas em espécie observa tanto a desproporção


de direitos e deveres entre as partes, a violação do equilíbrio entre as
prestações do contrato, quanto aquelas que diminuam ou exonerem a
responsabilidade do fornecedor, dentre outras. Da mesma forma, o art.
51, IV, do CDC determina, como cláusula abusiva, as que
“estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que
coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam
incompatíveis com a boa-fé ou a equidade”. Trata-se de cláusula de
abertura do sistema de reconhecimento das cláusulas abusivas no
CDC, a partir da qual se dá o desenvolvimento jurisprudencial em
relação à violação dos deveres decorrentes dos princípios da boa-fé,
do equilíbrio ou da equidade. (MIRAGEM, 2012, p. 296).

Destaca-se, assim, o inciso IV, do art. 51, que determina abusiva a


cláusula que cria um desequilíbrio e o inciso XV, que refere aquelas que estejam
em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor, como cláusulas
abertas que devem ser interpretadas em conformidade com os princípios e
regras do Direito do Consumidor. Já em relação ao art. 51, I, veja a seguinte
questão do Exame de Ordem:

Martins celebrou negócio jurídico com a empresa Zoop Z para o


fornecimento de dez volumes de determinada mercadoria para
entretenimento infantil. No contrato restava estabelecido que Martins
vistoriara toda mercadoria antes da aquisição e que o consumidor
retiraria os produtos no depósito da empresa. Considerando tal
situação fictícia, assinale a alternativa correta à luz do disposto na Lei
nº. 8.078/90, de acordo com cada hipótese abaixo apresentada:
A) A garantia legal do produto independe de termo expresso no
contrato, bem como é lícito ao fornecedor estipular que se exime de
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

responsabilidade na hipótese de vício de qualidade por inadequação


do produto, desde que fundada em ignorância sobre o vício.
B) É nula de pleno direito a cláusula contratual que exonere a
contratada de qualquer obrigação de indenizar por vício do
produto em razão de ter sido a mercadoria vistoriada previamente
pelo consumidor.
C) O contrato poderia prever a impossibilidade de reembolso da
quantia por Martins, bem como ter transferido previamente a
responsabilidade por eventual vício do produto, com exclusividade, ao
fabricante.
D) A Zoop Z tem liberdade para estabelecer compulsoriamente a
utilização de arbitragem, bem como exigir o ressarcimento dos custos
de cobrança da obrigação de Martins, sem que o mesmo seja conferido
contra o fornecedor.

Em relação ao inciso XI do art. 51, a seguinte questão:

João celebrou contrato de seguro de vida e invalidez, aderindo a plano


oferecido por conhecida rede particular. O contrato de adesão, válido
por cinco anos, prevê a possibilidade de cancelamento, em favor da
seguradora, antes de ocorrer o sinistro, por alegação de desequilíbrio
econômico‐financeiro. A esse respeito, assinale a afirmativa correta.
A) Os contratos de seguro ofertados no mercado de consumo, apesar
de serem de adesão, são regidos pelo Código Civil, e a eles se aplica
o Código de Defesa do Consumidor apenas subsidiariamente e em
casos estritos.
B) A cláusula prevista, que estipula a possibilidade de cancelamento
unilateral do contrato em caso de desequilíbrio econômico, seria viável
desde que exercida na primeira metade do contrato.
C) O Ministério Público tem legitimidade para ajuizar demanda
contra a seguradora, buscando ser declarada a nulidade da
cláusula contratual celebrada com os consumidores, e que seja
proibido à seguradora continuar a ofertá‐la no mercado de
consumo.
D) A cláusula prevista no contrato celebrado por João não é abusiva,
pois o seguro deve atentar para a equação financeira atuarial,
necessária ao equilíbrio econômico da avença e à própria higidez e
continuidade do contrato.

O artigo 52 trata dos contratos de outorga de crédito ou financiamento.

Art. 52. No fornecimento de produtos ou serviços que envolva outorga


de crédito ou concessão de financiamento ao consumidor, o fornecedor
deverá, entre outros requisitos, informá-lo prévia e adequadamente
sobre:
I - preço do produto ou serviço em moeda corrente nacional;
II - montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros;
III - acréscimos legalmente previstos;
IV - número e periodicidade das prestações;
V - soma total a pagar, com e sem financiamento.
§ 1° As multas de mora decorrentes do inadimplemento de obrigações
no seu termo não poderão ser superiores a dois por cento do valor da
prestação.(Redação dada pela Lei nº 9.298, de 1º.8.1996)
MATERIAL DE APOIO OAB
DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

§ 2º É assegurado ao consumidor a liquidação antecipada do débito,


total ou parcialmente, mediante redução proporcional dos juros e
demais acréscimos.
§ 3º (Vetado).

Art. 53. Nos contratos de compra e venda de móveis ou imóveis


mediante pagamento em prestações, bem como nas alienações
fiduciárias em garantia, consideram-se nulas de pleno direito as
cláusulas que estabeleçam a perda total das prestações pagas em
benefício do credor que, em razão do inadimplemento, pleitear a
resolução do contrato e a retomada do produto alienado.
§ 1° (Vetado).
§ 2º Nos contratos do sistema de consórcio de produtos duráveis, a
compensação ou a restituição das parcelas quitadas, na forma deste
artigo, terá descontada, além da vantagem econômica auferida com a
fruição, os prejuízos que o desistente ou inadimplente causar ao grupo.
§ 3° Os contratos de que trata o caput deste artigo serão expressos em
moeda corrente nacional.

O caput do art. 52 detalha as informações mínimas que devem ser


apresentadas ao consumidor: a) preço do produto ou serviço em moeda corrente
nacional; b) montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros; c)
acréscimos legalmente previstos; d) número e periodicidade das prestações; e)
soma total a pagar com e sem financiamento.

SEÇÃO III
Dos Contratos de Adesão

Art. 54. Contrato de adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido


aprovadas pela autoridade competente ou estabelecidas
unilateralmente pelo fornecedor de produtos ou serviços, sem que o
consumidor possa discutir ou modificar substancialmente seu
conteúdo.
§ 1° A inserção de cláusula no formulário não desfigura a natureza de
adesão do contrato.
§ 2° Nos contratos de adesão admite-se cláusula resolutória, desde
que a alternativa, cabendo a escolha ao consumidor, ressalvando-se o
disposto no § 2° do artigo anterior.
§ 3o Os contratos de adesão escritos serão redigidos em termos claros
e com caracteres ostensivos e legíveis, cujo tamanho da fonte não será
inferior ao corpo doze, de modo a facilitar sua compreensão pelo
consumidor.(Redação dada pela nº 11.785, de 2008)
§ 4° As cláusulas que implicarem limitação de direito do consumidor
deverão ser redigidas com destaque, permitindo sua imediata e fácil
compreensão.
§ 5° (Vetado)

A inserção de cláusula em formulário de contrato (pré-elaborado) não


desconfigura sua natureza de adesão. Não podem ser redigidos com fonte em
tamanho inferior ao corpo 12.
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DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

9. Infrações penais

O Direito Penal do Consumidor tem sua sede em duas normas: no Código


de Defesa do Consumidor e na Lei 8.137/90, que define crimes contra a ordem
tributária, econômica e contra as relações de consumo. A compreensão das
principais regras de direito material do Código auxiliam na compreensão e
identificação dos tipos penais.

A para das condutas típicas relacionadas na legislação penal acerca


de crimes de consumo impróprios, o CDC vai estabelecer uma série de
tipos penais, visando a proteção de diversos aspectos da relação de
consumo. Neste sentido privilegia a descrição de condutas que violam
deveres expressos previstos em outras disposições do Código,
estabelecendo um universo de crimes de consumos próprios,
identificados com a proteção específica do consumidor individual ou da
coletividade de consumidores. (MIRAGEM, 2012, p. 655).

A título de exemplo, uma das questões do XV Exame da Ordem Unificado


questionava sobre a negativa de Banco de Dados e Cadastro em fornecer a
informação sobre a origem do cadastramento negativo. A alternativa correta era
sobre o tipo penal previsto no art. 72 e foi redigida nos seguintes termos: “o
procedimento do empregado, ao negar as informações que constam no Banco
de Dados e Cadastros sobre o consumidor, configura infração penal punível com
pena de detenção ou multa, nos termos tipificados no Código de Defesa do
Consumidor”. Assim, considerando os princípios de Direito Penal, especialmente
os da legalidade e taxatividade, sugere-se que o estudo deste título dê-se pela
leitura e memorização das infrações penais, conforme segue.

TÍTULO II
Das Infrações Penais

Art. 61. Constituem crimes contra as relações de consumo previstas


neste código, sem prejuízo do disposto no Código Penal e leis
especiais, as condutas tipificadas nos artigos seguintes.

Art. 62. (Vetado).

Art. 63. Omitir dizeres ou sinais ostensivos sobre a nocividade ou


periculosidade de produtos, nas embalagens, nos invólucros,
recipientes ou publicidade:
Pena - Detenção de seis meses a dois anos e multa.
MATERIAL DE APOIO OAB
DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

§ 1° Incorrerá nas mesmas penas quem deixar de alertar, mediante


recomendações escritas ostensivas, sobre a periculosidade do serviço
a ser prestado.
§ 2° Se o crime é culposo:
Pena Detenção de um a seis meses ou multa.

Art. 64. Deixar de comunicar à autoridade competente e aos


consumidores a nocividade ou periculosidade de produtos cujo
conhecimento seja posterior à sua colocação no mercado:
Pena - Detenção de seis meses a dois anos e multa.
Parágrafo único. Incorrerá nas mesmas penas quem deixar de retirar
do mercado, imediatamente quando determinado pela autoridade
competente, os produtos nocivos ou perigosos, na forma deste artigo.

Art. 65. Executar serviço de alto grau de periculosidade, contrariando


determinação de autoridade competente:
Pena Detenção de seis meses a dois anos e multa.
Parágrafo único. As penas deste artigo são aplicáveis sem prejuízo das
correspondentes à lesão corporal e à morte.

Art. 66. Fazer afirmação falsa ou enganosa, ou omitir informação


relevante sobre a natureza, característica, qualidade, quantidade,
segurança, desempenho, durabilidade, preço ou garantia de produtos
ou serviços:
Pena - Detenção de três meses a um ano e multa.
§ 1º Incorrerá nas mesmas penas quem patrocinar a oferta.
§ 2º Se o crime é culposo;
Pena Detenção de um a seis meses ou multa.

Art. 67. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser
enganosa ou abusiva:
Pena Detenção de três meses a um ano e multa.
Parágrafo único. (Vetado).

Art. 68. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser
capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou
perigosa a sua saúde ou segurança:
Pena - Detenção de seis meses a dois anos e multa:
Parágrafo único. (Vetado).

Art. 69. Deixar de organizar dados fáticos, técnicos e científicos que


dão base à publicidade:
Pena Detenção de um a seis meses ou multa.

Art. 70. Empregar na reparação de produtos, peça ou componentes de


reposição usados, sem autorização do consumidor:
Pena Detenção de três meses a um ano e multa.

Art. 71. Utilizar, na cobrança de dívidas, de ameaça, coação,


constrangimento físico ou moral, afirmações falsas incorretas ou
enganosas ou de qualquer outro procedimento que exponha o
consumidor, injustificadamente, a ridículo ou interfira com seu trabalho,
descanso ou lazer:
Pena Detenção de três meses a um ano e multa.

Art. 72. Impedir ou dificultar o acesso do consumidor às informações


que sobre ele constem em cadastros, banco de dados, fichas e
registros:
Pena Detenção de seis meses a um ano ou multa.
MATERIAL DE APOIO OAB
DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

Art. 73. Deixar de corrigir imediatamente informação sobre consumidor


constante de cadastro, banco de dados, fichas ou registros que sabe
ou deveria saber ser inexata:
Pena Detenção de um a seis meses ou multa.

Art. 74. Deixar de entregar ao consumidor o termo de garantia


adequadamente preenchido e com especificação clara de seu
conteúdo;
Pena Detenção de um a seis meses ou multa.

10. Da defesa do consumidor em juízo

O Código de Defesa do Consumidor estabelece algumas garantias


processuais ao consumidor. De nada adiantaria estabelecer regras protetivas de
direito material e negligenciar quanto ao processo. Melhor seria se as demandas
consumeristas sequer precisassem ser judicializadas, mas muitos fornecedores
ainda oferecem um serviço de atendimento ao consumidor extremamente
deficiente, o que acarreta a necessidade de acesso à justiça.

Em relação ao consumidor, a problemática do acesso à justiça é mais


grave em razão da enorme desigualdade existente entre os litigantes –
eventuais X habituais. Voltemos a Mauro Capelletti: “Enquanto o
produtor é de regra organizado, juridicamente bem informado e
tipicamente um litigante habitual (no sentido de que o confronto
judiciário não representará para ele episódio solitário, que o encontre
desprovido de informação e experiência), o consumidor, ao contrário,
está isolado; é um litigante ocasional e naturalmente relutante em
defrontar-se com o poderoso adversário. E as maiores vítimas desse
desequilíbrio são os cidadãos das classes sociais menos abastadas e
culturalmente desaparelhados, por ficarem mais expostos às políticas
agressivas da empresa moderna” (palestra sobre o Acesso dos
Consumidores à Justiça. (CAVALIERI FILHO, 2011, p. 341).

Atento a essa necessidade, o legislador dedicou todo um título à defesa


do consumidor em juízo, dividindo-o em ações individuais e ações coletivas. Sob
o título “das ações de responsabilidade do fornecedor de produtos e serviços”
disciplinou aspectos relativos às ações individuais.

CAPÍTULO III
Das Ações de Responsabilidade do Fornecedor de Produtos e
Serviços

Art. 101. Na ação de responsabilidade civil do fornecedor de produtos


e serviços, sem prejuízo do disposto nos Capítulos I e II deste título,
serão observadas as seguintes normas:
MATERIAL DE APOIO OAB
DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

I - a ação pode ser proposta no domicílio do autor;


II - o réu que houver contratado seguro de responsabilidade poderá
chamar ao processo o segurador, vedada a integração do contraditório
pelo Instituto de Resseguros do Brasil. Nesta hipótese, a sentença que
julgar procedente o pedido condenará o réu nos termos do art. 80 do
Código de Processo Civil. Se o réu houver sido declarado falido, o
síndico será intimado a informar a existência de seguro de
responsabilidade, facultando-se, em caso afirmativo, o ajuizamento de
ação de indenização diretamente contra o segurador, vedada a
denunciação da lide ao Instituto de Resseguros do Brasil e dispensado
o litisconsórcio obrigatório com este.

Art. 102. Os legitimados a agir na forma deste código poderão propor


ação visando compelir o Poder Público competente a proibir, em todo
o território nacional, a produção, divulgação distribuição ou venda, ou
a determinar a alteração na composição, estrutura, fórmula ou
acondicionamento de produto, cujo uso ou consumo regular se revele
nocivo ou perigoso à saúde pública e à incolumidade pessoal.

A primeira e mais importante garantia foi permitir ao consumidor o


ajuizamento da ação no foro do seu domicílio. Em razão disso, consagrou-se
o entendimento jurisprudencial da não admissão do foro de eleição,
quando este, de alguma forma, dificulte o acesso à justiça do consumidor.

11. Da convenção coletiva de consumo

Art. 107. As entidades civis de consumidores e as associações de


fornecedores ou sindicatos de categoria econômica podem regular, por
convenção escrita, relações de consumo que tenham por objeto
estabelecer condições relativas ao preço, à qualidade, à quantidade, à
garantia e características de produtos e serviços, bem como à
reclamação e composição do conflito de consumo.
§ 1° A convenção tornar-se-á obrigatória a partir do registro do
instrumento no cartório de títulos e documentos.
§ 2° A convenção somente obrigará os filiados às entidades
signatárias.
§ 3° Não se exime de cumprir a convenção o fornecedor que se
desligar da entidade em data posterior ao registro do instrumento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENAJMIN, A. H.; MARQUES, C. L.; BESSA, L. R e. Manual de Direito do


Consumidor. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014.

CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de Direito do Consumidor. São Paulo:


Atlas, 2011.
MATERIAL DE APOIO OAB
DIREITO DO CONSUMIDOR
1ª FASE

MIRAGEM, Bruno. Curso de Direito do Consumidor. São Paulo: Revista dos


Tribunais, 2012.