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Da teoria urbana crítica ao direito à cidade 1

Peter Marcuse

Resumo
O direito à cidade está se tornando, na teoria e na prática, uma formulação ampla e
eficaz de um conjunto de demandas a serem ativamente pensadas e perseguidas. Mas
direito de quem, qual direito e à que cidade? Cada questão é examinada por sua vez,
primeiramente no contexto histórico de 1968 em que Henri Lefebvre popularizou a
frase em primeiro lugar, em seguida, em seu significado para a orientação da ação. A
conclusão sugere que a exposição, proposição e politização das questões-chave pode
nos aproximar da implementação desse direito.

I. Introdução: visão geral e definições

A preocupação principal deste artigo é o que eu considero ser o fim último da teoria
urbana crítica: implementar a demanda para um Direito à Cidade. Mas isso é uma
demanda, um objetivo, que precisa de definição. O direito de quem, qual direito, e à que
cidade é que se trata? O artigo começa com um olhar para os problemas atuais que as
pessoas enfrentam hoje em dia, e, em seguida, olha para eles em seu contexto histórico,
focando na diferença entre a crise de 1968, que produziu a demanda para o Direito à
Cidade, e a crise que enfrentamos hoje. A questão então é: como é que entendemos o
Direito à Cidade hoje, e como pode uma teoria urbana crítica contribuir para
implementá-lo? O artigo sugere uma abordagem para a ação que se baseia em três
etapas que uma teoria crítica poderia seguir: expor, propor e politizar. A conclusão
apresenta uma ideia talvez excêntrica das possibilidades para a mudança social de
grande escala e duradoura que podem realmente ser esperadas hoje. Será que um outro
mundo não é apenas possível, mas realisticamente atingível?
Uma palavra sobre o uso de termos. “Crítico”, “urbano”, “teoria” e “prática” são
quatro palavras e conceitos importantes. (Pode-se argumentar que a “teoria e prática”
são realmente apenas uma palavra neste contexto, mas isso é mais verdadeiro na teoria
do que na prática.)
“Crítico”, eu considero ser, entre outras coisas, um atalho para uma atitude de
avaliação para a realidade, um questionamento ao invés de uma aceitação do mundo
como ele é, um desmontar e examinar e tentar compreender o mundo. Isso leva a uma
posição não só necessariamente crítica no sentido de crítica negativa, mas também de
exposição crítica dos aspetos positivos e das possibilidades de mudança, o que implica
posições sobre o que está errado e precisa de mudança, mas também sobre o que é
desejável e deve ser construído e promovido.
“Urbano”, eu considero um atalho para a sociedade [the societal] tal como
coagulou nas cidades hoje, e para indicar o ponto em que a borracha daquilo que é
pessoal atinge o solo da sociedade, a intersecção da vida quotidiana com o mundo
sistêmico socialmente criado sobre nós.

1
Peter Marcuse (2009), “From critical urban theory to the right to the city”, City, 13: 2, p. 185-197.
Disponível em: http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/13604810902982250. Acesso em: 2 jul.
2014. Traduzido por Jorge de La Barre.
1
“Teoria”, eu considero ser a tentativa de entender, explicar e iluminar o
significado e as possibilidades do mundo no qual a prática ocorre. É, em certo sentido, o
aspeto consciente e articulado da prática, da ação. É desenvolvido através da ação, e por
sua vez informa a compreensão e sustenta a prática.
“Prática” é muitas vezes falado como se fosse o irmão siamês da teoria, porque é
necessário para a teoria e porque a teoria deveria levar à prática, se for levado a sério. A
imagem é de uma teoria e uma prática que estão ligadas organicamente, que uma teoria
crítica depende de uma prática crítica e uma prática crítica depende de uma teoria
crítica. Mas não é tão simples. A Comuna de Paris, um exemplo clássico de prática
crítica, começou sem “teoria”, e os principais expoentes da teoria crítica viram seu
trabalho como Flaschenpost, nas palavras de Adorno, a análise escrita e colocada numa
garrafa lançada no oceano na esperança de que algum dia seria recuperada e tornar-se-ia
útil. Mas pode ter sido uma das falhas do mainstream da teoria crítica que se viu
evoluindo independentemente da prática, e pode igualmente ter sido uma fraqueza de
algumas formas de ação crítica que prosseguiram desinformados e até mesmo rejeitando
a teoria crítica, como na abordagem do We Are the Poors (Desai, 2002) e em algumas
formas de ação anarquista e comunitária.2
De qualquer modo, tal como utilizado aqui, a teoria urbana crítica é tomada
como a análise que flui da experiência da prática no desenvolvimento das
potencialidades da sociedade urbana atual, e a teoria crítica se destina a iluminar e
informar o curso futuro de tal prática.
As seções que se seguem discutem a realidade de hoje e sua história, o direito à
cidade em termos de direito de quem, qual direito, e à que cidade, as soluções em
termos da formulação Expor, Propor, Politizar e finalmente, chegar ao objetivo.

II. A realidade de hoje e sua história

Hoje

No momento em que escrevemos, dois desenvolvimentos formam o contexto para nossa


análise: a eleição de Barack Obama como presidente dos EUA e aprofundamento da
crise econômica global.
A eleição de Obama foi vista como um evento dramático, não só nos EUA mas em todo
o mundo. O que de fato significa? O que mudou, e o que não mudou? Responder a
questão requer exatamente a teoria crítica. Pois a resposta é, em termos convencionais,
tudo mudou, mas também, em termos críticos, nada mudou – e é a capacidade da teoria
crítica de dizer o que mudou e o que não mudou que lhe dá direito a um lugar
importante no nosso pensamento e ação. O que mudou é que o uso do racismo como um
suporte para as políticas económicas e sociais que exploram e oprimem tornou-se
contraproducente, pois o racismo é rejeitado por cada vez mais pessoas (embora não por
todos) como contrário às suas próprias experiências e valores. E ainda temos o racismo
institucional, de modo que para cada dólar de riqueza detida pela família branca típica, a
família africana americana tem apenas dez centavos (Lui, 2009, p. A15). O que não
mudou é a estrutura subjacente da sociedade na qual a eleição teve lugar, nem
politicamente – esta foi a campanha mais cara da história dos EUA, e o papel da mídia
nela foi enorme – nem economicamente – a equipe do Goldman Sachs que está ao
2
Estou ciente de que a escola conhecida como teoria crítica chega à crítica a partir de uma direção
diferente, mas é uma que, eu acredito, leva inevitavelmente a essa posição. Eu suspeito que a raiz das
diferenças entre meu pai e Adorno na era do Vietnã estava na falta de vontade de Adorno para lidar com a
questão das sementes e dos movimentos para a mudança, que havia se tornado a grande preocupação do
meu pai.
2
comando do tesouro nacional, e seus favoritos economistas acadêmicos, estão
executando o papel econômico do governo Federal após a eleição de Obama como
fizeram antes, e o resgate de $700 bilhões para o setor financeiro já autorizado será
implementado na íntegra, se não for ampliado. Até o sóbrio New York Times escreve:

“A presença de Goldman no departamento do Tesouro dos EUA é tão onipresente que


outros banqueiros e concorrentes têm dado à empresa estrelada um novo apelido;
Governo Sachs.” (Creswell e White, 2008, p. 1)

Outro aspeto da campanha eleitoral presidencial dos EUA que levou ao resultado da
eleição é digno de nota, e está ligado a um grande argumento que eu quero fazer aqui.
Ambos partidos fizeram campanha sob o slogan de “mudança” [“Change”]; a de Obama
foi “Mudança que você pode acreditar”, McCain destacou seu recorde de dissidente,
não-conformista sempre que podia. Cerca de 50 % viram a mudança necessária numa
direção, cerca de 50 % a viu em outra, mas quase ninguém estava satisfeito com as
coisas como elas são. Se a teoria crítica urbana é capaz de expor as raízes dessa
insatisfação, e mostrar às duas metades quase iguais que a sua insatisfação é com as
mesmas características da economia, política, sociedade, ela terá feito o seu trabalho.
O outro desenvolvimento, já se desdobrando quando a eleição estava ocorrendo,
é a crise econômica. Eu foco sobre os EUA, mas o quadro é semelhante globalmente.
Nos EUA, hoje, mais de 6 milhões de famílias (Credit Suisse, 2008) enfrentam
execuções hipotecárias, o desemprego está subindo a umas altas de há várias décadas, o
uso dos abrigos de emergência pelos sem-teto está no ponto mais alto em Nova York, os
salários reais estão caindo muito atrás dos aumentos de produtividade, o fosso entre
ricos e pobres está aumentando. A crise financeira parece estar se espalhando, engolindo
cada vez mais pessoas, causando cada vez mais desemprego, insegurança, fome e
cobiça, uma insatisfação cada vez maior com as condições tais quais estão, com a
desigualdade, o luxo no meio da pobreza, do analfabetismo, tão substantivo como
linguístico, o egoísmo no lugar da solidariedade, o isolamento no lugar do amor. Mas eu
acho que não é uma crise financeira se espalhando para outras partes da economia que
enfrentamos, mas uma economia cujas contradições estão surgindo de uma forma muito
visível no setor financeiro, mas apenas como manifestações de contradições muito mais
profundas, que não deveríamos deixar escondidas atrás de um foco em questões de
regulamentação ou desregulamentação, numa pequena excrescência de um sistema
fundamentalmente falho como um todo. O problema não está em trocas de falta de
crédito não reguladas [unregulated credit default swaps] ou em fundos cobertura fora de
controle [out of control hedge funds]; o problema está na exploração, dominação,
repressão de todo o sistema.
Fundamentalmente, a crise vem de um sistema que produz necessariamente,
tanto desigualdade material bruta como produz ao mesmo tempo insegurança bruta e
descontentamento e distorções emocionais. A cobiça não é uma aberração do sistema; é
o que faz o sistema avançar. Chamando cobiça “a procura do lucro” é um eufemismo
que tenta justificar um sistema que depende da cobiça para produzir crescimento à custa
de todos os outros valores, e que asfixia qualquer criatividade que não sirva o lucro.
Ativistas antiaborto, fundamentalistas religiosos, defensores dos “valores da família”,
são tanto um reflexo do empobrecimento emocional como a fome e a falta de moradia
são da privação material. A sociedade unidimensional em sua força motriz produz
pessoas unidimensionais, e se esforça de ser apoiada por eles. As vítimas do sistema
incluem tanto os materialmente desprovidos e os intelectual e socialmente alienados,
como exploramos a seguir.

3
A história do Direito à Cidade como um slogan lidando com tais problemas
entrou em uso generalizado em grande parte a partir dos eventos – a teoria e a prática –
de maio de 1968 em Paris, e seus paralelos no mundo todo. Uma discussão mais
aprofundada requer um olhar para essa história, o que veio antes, como ele se compara
aos eventos de hoje.

História: antes e depois de 1968

“Crise?” O capitalismo sempre foi um sistema com profundas contradições internas. O


marxismo teve a investigação das crises no centro das suas preocupações, e as suas
conclusões são pouco suscetíveis de ser refutadas pelos acontecimentos presentes. No
século 20, cinco grandes crises, cinco períodos de profunda e contínua agitação social,
podem ser identificados. Eles diferem em sua gravidade e consequências nos respetivos
pontos fortes e fracos de ambos os críticos do sistema e seus defensores – um ponto
crítico. As cinco crises são:

1917: A crise após o fim da Primeira Guerra Mundial, e a vitória da Revolução


Russa, a República de Weimar
1929: A Grande Depressão, o triunfo do fascismo, o New Deal
1968: O movimento dos direitos civis, a nova esquerda, os protestos estudantis, a
Guerra do Vietnã
1990: A crise do socialismo realmente existente na Europa Oriental e na União
Soviética
2008: A crise mais-do-que-financeira de hoje.

Menciono três deles, de 1917, 1929 e 1990, apenas para fazer um ponto muitas vezes
esquecido: a gama de resoluções de crise é ampla, não se limita aos tipos de perguntas
que parecem antecipar o discurso público hoje: vamos regular a especulação ou não,
vamos aumentar os benefícios sociais ou não, vamos acabar com essa guerra ou não,
vamos resgatar esse banco ou esse negócio ou não, vamos aumentar as barreiras
comerciais ou diminuí-las. Historicamente, as escolhas são muito mais amplas. Como
essas crises anteriores mostraram, nos extremos deitam, e sempre deitaram, o socialismo
de um lado, a barbárie, na forma moderna do fascismo, por outro. Nenhum dos
extremos parece iminente hoje, se por razões diferentes – não o socialismo, por falta de
uma base que pressiona para ele ou possa realizá-lo, e não o fascismo, porque as forças
de dominação são mais sutis e mais insidiosas os meios para manter-se no poder do que
a violência crua.3 Em cada crise, o resultado tem dependido, não apenas da força ou
fraqueza das forças críticas (e não a qualidade da sua teoria crítica), mas também dos
pontos fortes e fracos do sistema estabelecido. De fato, uma função-chave da teoria
crítica pode muito bem ser expor e avaliar ambos pontos fortes e fracos do sistema
existente e a natureza última de suas crises, assim informando a prática sobre o qual seu
potencial estratégico real, assim como analisar as estratégias que esta prática poderia
adotar.
Depois de 1917, nenhuma dessas crises envolveu mais do que violência
esporádica, e tudo salvo 1929 na Europa parecia na realidade (se não sempre nas mentes
dos participantes) remoto dos extremos do comunismo e do fascismo. Mas as crises de
1968 e 1990 foram diferentes das anteriores em uma relação fundamental: elas não eram

3
Por baixo, a violência ainda desempenha um papel, como mostra o nível de encarceramento nos EUA,
assim como mostra a violência da direita contra a oposição, tanto a esquerda e/os não-conformistas
culturais.
4
baseadas no colapso material do sistema existente, na profundidade da pobreza ou
opressão ou cobiça material, mas na insatisfação combinada de grandes elementos da
população com os potenciais frustrados que eles viam na sociedade – de certa forma,
baseados na injustiça em vez, ou em adição, da cobiça. A contradição entre a realidade e
o potencial para um progresso maior minou o socialismo realmente existente durante o
período estalinista, mas o potencial era ainda mais claro em maio de 1968,
especialmente em Paris, mas em abril do mesmo ano em universidades nos EUA e em
outros lugares também. Em cada caso, a ação crítica representava um novo elemento no
protesto de oposição. Pela primeira vez em uma escala significativa, a agitação
resultante das aspirações dos alienados eram ligadas, mesmo que tênues e em tensão
constante, com as demandas dos materialmente explorados: as reivindicações dos
estudantes com as dos trabalhadores (ver Marcuse, 2008). Os trabalhadores como um
todo não eram uniformemente favoráveis, e os órgãos institucionais da classe
trabalhadora eram opostos aos protestos; no entanto o apoio do trabalhador na base era
forte.
Por outro lado, o Estado contra o qual os protestos eram direcionados, os
governantes, os capitalistas e subscritores do establishment eram fortes. O contexto não
era de crise económica; o sistema ainda era, nas palavras do meu pai, produzindo os
bens. E os bens que por ele produzidos satisfazia a maioria; aqueles que aspiravam a
algo mais do que esses bens eram uma minoria. O protesto foi derrotado.
Hoje, em 2009, temos de certa forma a situação inversa. O sistema é instável na
sua produção de bens, cuja entrega depende hoje cada vez mais dos arranjos financeiros
em vez da produção doméstica direta no âmbito da economia nacional. As execuções
hipotecárias sobem dramaticamente, com cerca de 4.000.000 ameaçados, o desemprego
está subindo, as receitas fiscais locais e, assim, os serviços governamentais locais estão
encolhendo, a educação pública está em perigo, a segurança das aposentadorias é
ameaçada pois os fundos de pensão perdem grandes percentuais do seu valor. E as
coisas devem piorar.
A resposta do establishment tem sido ampla e profundamente impopular. As
maiores instituições financeiras tomaram conta do tesouro nacional muito diretamente
em mãos privadas, privatizaram de fato o governo (bastante uma reversão da
nacionalização dos bancos descrita por Marx no Manifesto Comunista). Goldman
Sachs, uma das maiores empresas bancárias financeiras privadas e de especulação,
agora tem seus membros dirigindo o tesouro nacional, distribuindo vários bilhões de
dólares para os maiores bancos e instituições financeiras, aqueles precisamente que são
universalmente reconhecidos como causadores da crise imediata da qual eles deveriam
estar respondendo. A insegurança é generalizada e profunda, e os governantes e seus
lacaios são quase apologéticos em sua resposta; Alan Greenspan, enquanto escrevo isso,
admitiu ter “superestimado o mercado”.
No entanto, o protesto foi contido. A vida no campus mal percebe a crise. Os
sindicatos se limitam a pedir limites para os salários dos CEOs. Bernie Sanders, o
membro socialista do Congresso (eleito como independente – socialista não é um rótulo
com qual você pode ser eleito) fala de nacionalização dos bancos; ninguém escuta. A
mídia denuncia a “cobiça” dos banqueiros; ninguém culpa o sistema bancário e sua
força motriz, a acumulação de lucro e expansão do capital. A intelligentsia da esquerda
fala para si mesmo, tentando descobrir o quão profunda a crise; a mídia constrói um
muro contra o questionamento fundamental do sistema. O socialismo continua a ser um
palavrão na política eleitoral dos Estados Unidos, evitado e condenado
inquestionavelmente pelos contendores, que só falam de regulação e retomada do
crescimento econômico.

5
A teoria urbana crítica pode fornecer alguma luz sobre por que essa situação
existe. Tem a ver com a questão de para quem o direito à cidade está em jogo, quem os
atores potenciais, os “agentes da mudança” são, e o que é que os motiva para propor a
mudança básica, ou para opor-se a ela.

III. Direito à Cidade

O direito à cidade é tanto um slogan imediatamente compreensível e


intuitivamente atraente, e uma formulação teórica complexa e provocante. O que que o
Direito à Cidade significa? Mais especificamente: estamos falando dos Direitos de
Quem? De qual direito estamos falando? De que Cidade queremos o direito?
Henri Lefebvre popularizou o slogan em 1968, mas ele era mais provocante do
que cuidadoso no seu uso. A melhor definição que ele deu é:

“... O direito à cidade é como um grito e uma demanda. O direito serpenteia lentamente
através os desvios surpreendentes da nostalgia e do turismo, o retorno para o coração da
cidade tradicional, e a chamada de centralidades existentes ou recentemente
desenvolvidas.” (Lefebvre, 1967, p. 158)

Em outros lugares, ele segue ondulando:

“o direito à informação, os direitos de uso de múltiplos serviços, o direito dos usuários a


fazerem conhecer as suas ideias sobre o espaço e o tempo das suas atividades nas áreas
urbanas; incluiria também o direito de uso do centro”. (Lefebvre, 1991, p 34.)

Então: o direito de quem, qual direito e à que cidade?

Direito de quem?

“Direito de quem” é uma questão complexa, e uma sobre a qual eu acho que uma
expansão da discussão existente valeria a pena – seria útil tanto teoricamente como na
prática.
É uma questão de longa data. Herbert Marcuse debateu com ela (Marcuse,
1969). David Harvey (2009) chamou recentemente a atenção para ela no contexto de
hoje:

“Eu não acho que estamos em condições de definir quem serão os agentes da mudança
na conjuntura atual e claramente isso irá variar de uma parte do mundo para outra. Nos
Estados Unidos agora há sinais de que elementos da classe empresarial, que tem
beneficiado dos ganhos do capital financeiro todos esses anos estão ficando irritados e
podem tornar-se um pouco radicais. Um monte de pessoas foram demitidas nos serviços
financeiros, em alguns casos, eles sequer tiveram suas hipotecas encerradas. Produtores
culturais estão acordando para a natureza dos problemas que enfrentamos e, da mesma
forma que as escolas de arte nos anos 1960 eram centros de radicalismo político, algo
assim está possivelmente reemergindo. Nós podemos assistir ao surgimento de
organizações transnacionais pois as reduções nas remessas terão espalhado a crise para
lugares como o México rural ou Kerala.”

A análise a seguir é nova, mas eu acho que ela é consistente com a de Lefebvre, e
certamente com a do meu pai. O direito de Lefebvre é ao mesmo tempo um grito e uma
demanda, um grito por necessidade e uma demanda por algo mais. Essas são duas coisas
separadas. Eu gostaria de reformulá-las para uma demanda exigente por aqueles
6
privados de direitos materiais básicos e legais existentes, e uma aspiração para o futuro
da parte dos descontentes com a vida tal como eles a vêem ao seu redor, entendida como
limitando os seus próprios potenciais de crescimento e criatividade.
A demanda vem daqueles diretamente em necessidade, diretamente oprimidos,
aqueles para os quais até mesmo suas necessidades mais imediatas não forem
cumpridas: os sem-teto, os famintos, os presos, os perseguidos por motivos de gênero,
raciais, religiosos. É uma demanda involuntária, aqueles cujo trabalho fere sua saúde,
aqueles cuja renda é inferior à subsistência. O grito vem da aspiração dos
superficialmente integrados ao sistema e compartilhando dos seus benefícios materiais,
mas limitados em suas oportunidades de atividade criativa, oprimidos em suas relações
sociais, culpados talvez para uma prosperidade imerecida, insatisfeitos nas esperanças
para suas vidas. A discussão sobre o papel da arte, e sobre uma repulsa estética contra os
resultados da ordem de coisas existente, é relevante (Miles, no prelo). Para ambos, sua
unidimensionalidade corrói sua humanidade, e a partir da mesma fonte, mas faz isto de
formas diferentes.
Para que não haja mal-entendidos, aqueles privados até mesmo das necessidades
materiais da vida têm o mesmo direito, e a mesma necessidade, de uma vida mais plena
para a qual os alienados aspiram tal como os alienados têm, e as fontes de insatisfação
para ambos surgem de necessidades humanas igualmente orgânicas e essenciais. “Erst
kommt das Fressen, dann kommt morrer die Morale”, como Brecht disse; 4 mas ambos
são necessários para uma vida humana e humanista. Onde escolhas devem ser feitas, as
demandas dos privados têm direito à prioridade sobre o cumprimento das aspirações dos
alienados.
Retornar então aos direitos de quem é a nossa preocupação, a demanda é
daqueles que são excluídos, o choro é dos que são alienados; a demanda é para as
necessidades materiais da vida, a aspiração é para um direito mais amplo para o que é
necessário além do material para levar uma vida satisfatória. Mas, para tornar a
discussão mais clara, deixe-me fazer uma breve digressão para uma definição
esquemática de termos.5
Uma análise em termos de interesses materiais, em termos de classe um tanto
tradicionais (ver, por exemplo, em termos urbanos: Marcuse, 1989) ao longo de linhas
de posição nas relações de produção (um pouco modernizadas), poderia ser:

● Os excluídos (não um termo exato de fato, pois eles são de fato uma parte do sistema,
sem as proteções conquistadas pela classe trabalhadora para o trabalho, mas eles operam
nas sua margens).
● A classe trabalhadora, os materialmente explorados (incluindo aquilo que é
eufemisticamente chamado de classe média, ou seja, trabalhadores de colarinho branco
bem como de azul, qualificados bem como não qualificados, de serviço bem como de
transformação, mas mal pagos e produzindo lucro para outros) – em conjunto com os
excluídos, podemos falar desses dois grupos como os privados.
● As pessoas de empresas pequenas (os proprietários individuais, os pequenos
empresários, os artesãos).
● A pequena nobreza [gentry] (incluindo as pessoas de empresas pequenas mais bem-
sucedidas, profissionais, os funcionários bem pagos das multinacionais).
● Os capitalistas (proprietários e gerentes decisores de grandes empresas comerciais).

4
“Primeiro vem o comer, depois vem a moral”.
5
As “cinco faces da opressão” de Iris Marion Young podem fornecer uma base alternativa para a análise
que estou propondo.
7
● A intelligentsia do establishment (incluindo grande parte da mídia, acadêmicos,
artistas e outros ativos no aspeto ideológico dos processos de produção).
● Os politicamente poderosos (incluindo a maioria dos que estão ou que aspiram a altos
cargos públicos).

Do ponto de vista econômico, o grito para o Direito à Cidade aqui vem dos mais
marginalizados e dos mal pagos e membros inseguros da classe trabalhadora, não da
maior parte da nobreza, da intelligentsia, dos capitalistas.
Uma análise em termos “culturais”, ao longo de linhas de relação com a
sociedade e ideologia cultural, étnica e de gênero dominante, poderia ser:

● Os diretamente oprimidos (oprimidos ao longo de linhas de raça, etnicidade, gênero,


estilo de vida, muitas vezes chamados de excluídos, mas excluídos apenas neste sentido
“cultural”, muitas vezes incluídos economicamente).
● O alienados (de qualquer classe econômica, muitos jovens, artistas, uma parte
significativa da intelligentsia, em resistência ao sistema dominante como impedindo a
satisfação adequada das suas necessidades humanas).
● Os inseguros (um grupo instável, variando com as mudanças conjunturais, por
exemplo, nível da crise, prosperidade, incluindo grande parte da classe operária, e
periodicamente, parte da nobreza).
● Os lacaios desgraçados do poder (incluindo parte da nobreza e parte da
intelligentsia).
● Os subscritores e beneficiários das atitudes e crenças hegemônicas cultural e
ideologicamente estabelecidas.

Visto sob este ponto de vista, a demanda para o Direito à Cidade vem dos diretamente
oprimidos, a aspiração vem dos alienados.
Demanda e aspiração, privação e descontentamento. A demanda levou à
Revolução russa, a aspiração levou à queda do muro de Berlim. Ambas a demanda e a
aspiração vieram à tona, de forma independente, em 1968 (ver acima), mas não
conseguiram chegar plenamente juntas; a distância entre o privado e o alienado
permaneceu. A descrição da reunião do Fórum Social Mundial em Belém em 2009
como “O encontro do afligido” [“The Gathering of the Distressed”] (Ramirez e Cruz,
2009), pode ser interpretado como abrangendo ambos os aflitos materiais e culturais ou
intelectuais. Superar essa distância, com a devida prioridade para a privado e atenção
para o alienado, é sem dúvida o que precisa ser feito hoje.
É crucialmente importante deixar claro que não é o direito à cidade de todos com
a qual estamos preocupados, mas que há de fato um conflito entre os direitos que
precisa ser enfrentado e resolvido, em vez de ignorado. Alguns já têm o direito à cidade,
estão lutando por ele agora, têm-no bem na mão (embora “bem” pode não ser a palavra
certa, hoje!). Eles são os poderes financeiros, os proprietários de imóveis e
especuladores, a hierarquia política chave do poder do Estado, os proprietários da mídia.
É o direito à cidade daqueles que não o tem agora, com quem estamos
preocupados. Mas isto não é uma resposta útil. É necessário saber quem está mais
profundamente afetado, quem é suscetível de conduzir a luta, que será mais capaz de
apoiá-la, quais serão as suas razões? Contribuir para entender quem exatamente vai ser,
é uma contribuição que a teoria crítica urbana deve tentar fazer. Sugiro aqui que é uma
combinação dos privados e dos descontentes que irá liderar o impulso para o Direito à
Cidade, mas a questão precisa de muito mais atenção.

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Especificamente, eu diria que o descontentamento, e neste sentido a privação,
não levam automaticamente ao apoio à reivindicação ao direito à cidade para todos os
privados e alienados. A ameaça de descontentamento, especialmente quando combinada
com o medo da agitação da parte dos privados e da classe trabalhadora, sempre
preocupou aqueles os de cima (“Um espectro está infestando a Europa…”). O esforço
para canalizar esse descontentamento tem sido uma tarefa principal para os lacaios do
poder, os manipuladores da ideologia, com a mídia, as escolas, instituições religiosas, e
uma variedade de organizações comerciais e cívicas como seus aliados/alvos. Os
resultados podem ser vistos em uma variedade de fenômenos emocionais de grupo
bastante difundidos, circulando em torno de questões como:

● Antiaborto e direito à vida


● O direito de possuir armas
● Medidas anti-fiscais
● Homofobia
● Racismo
● Sentimento anti-imigrante
● Fundamentalismo religioso
● Valores familiares
● Belicismo chauvinista
● Patriotismo falso
● Elementos de fanatismo esportivo.

E, eu diria:

● Propriedade da casa como o Sonho Americano.

É tentador usar termos freudianos para o processo, a repressão do descontentamento e


sua sublimação nestes fenômenos emocionais, uma catexis na qual a emoção está ligada
a essas questões e removida de descontentamentos mais perigosos, ou mesmo da
realização do descontentamento (H. Marcuse, 1955; Zizek, 2008). Um confronto direto
com essa repressão/sublimação pode ter que ser uma parte muito concreta de qualquer
ação política prática para conseguir uma mudança efetiva.
Então, eu diria que as pessoas afetadas por esses fenômenos estão também entre
os privados e os descontentes, mas a direção da sua reação é completamente o oposto. É
a base para a velha formulação que o futuro está entre socialismo e barbárie, são eles
que fornecem a base para a barbárie, o “socialismo nacional”, mas é uma base que pode
também ser abordada de uma forma progressiva.
A batalha torna-se assim cada vez mais uma batalha de ideologia, de
compreensão, fundamentada na opressão material mas não limitada a isso, combinando
as demandas dos oprimidos com as aspirações dos alienados.
A forma organizacional dessa oposição precisa ser explorada. Claramente, a
opinião de que será o proletariado que, como uma única classe, lidera a luta com a ajuda
de alguns intelectuais está desatualizada. Se no processo de luta, blocos sociais, à la
Gramsci, podem se desenvolver, algo sólido terá sido alcançado. Os debates atuais no
Fórum Social Mundial, notavelmente na sua reunião em Belém sobre a natureza desse
encontro, sugerem que uma compreensão teórica ampla ao longo das linhas acima
podem ajudar a esclarecer que se trata de um único conflito no qual todos os grupos
participantes estão envolvidos, com um único objetivo, mesmo se a forma imediata seja
apenas de um fórum (onde grupos simpatizantes em torno de várias questões se reúnem

9
para trocar experiências e debater), ou de uma coligação (uma reunião temporária em
torno de questões específicas temporal e espacialmente limitadas), ou de uma aliança
(uma coalizão mais permanente), ou de um movimento (menos organizado, menos claro
em seus objetivos finais, mas muito claro na sua solidariedade e preocupado com várias
questões), uma assembleia (uma reunião única, ou várias reuniões únicas, de vários
grupos para vários níveis de pensamento comum, partilha, ação). Há outras
formulações: redes, convergência inter-rede, rede de redes (Costello e Smith, 2009),
mas essas são formulações que levantam a questão sobre qual tipo de reunião uma
“rede” é – convergência sobre o quê, em torno de quê? O argumento aqui é que há uma
convergência de todos os grupos, coalizões, alianças, movimentos, assembleias em
torno de um conjunto de objetivos, que vêem o capitalismo como o inimigo comum e o
direito à cidade como sua causa comum.

Qual direito?

O direito à cidade é uma reivindicação e uma bandeira sob a qual a mobilizar um lado
no conflito sobre quem deveria ter o benefício da cidade e que tipo de cidade deveria
ser. É uma reivindicação moral, fundada em princípios fundamentais da justiça, da ética,
da moralidade, da virtude, do bem. “Direito” não se entende como um direito legal
exequível através de um processo judicial hoje (embora pode ser parte do pedido como
um passo na direção da realização do Direito à Cidade). Pelo contrário, são vários
direitos que são incorporados aqui: não só um, não só um direito ao espaço público, ou
um direito à informação e transparência no governo, ou um direito de acesso ao centro,
ou um direito a tal ou tal serviço, mas o direito a um conjunto, uma complexidade, no
qual cada uma das partes é parte de um conjunto único para o qual o direito é exigido. O
morador de rua em Los Angeles não ganhou o direito à cidade quando ele está
autorizado a dormir num banco de parque no centro. Muito mais é envolvido, e o
conceito é como de uma coletividade de direitos, não de direitos individualistas.
A demanda é feita como um direito não só num sentido legal mas também num
sentido moral, uma demanda não só para um direito como para a justiça dentro do
sistema legal existente, mas um direito num plano moral mais elevado que exige um
sistema melhor no qual as demandas podem ser plena e totalmente cumpridas.

Que cidade?

Lefebvre é bastante claro sobre isso: não é o direito à cidade existente que é exigido,
mas o direito à uma cidade do futuro, portanto não necessariamente a uma cidade no
sentido convencional, mas um lugar numa sociedade urbana na qual a distinção
hierárquica entre a cidade e o país desapareceu. A demanda do agricultor sem-terra na
Amazônia no Brasil não está cumprida dando-lhe entrada numa favela no meio do Rio
de Janeiro. Como Lefebvre (1967, p. 158) disse:

“O direito à cidade não pode ser concebido como um simples direito de visita ou como
um retorno às cidades tradicionais.”

E de fato, não uma cidade, mas sim toda uma sociedade. O “urbano” é apenas uma
sinédoque e uma metáfora, em Lefebvre (1967, pp 158, 45):

“O direito à cidade só pode ser formulado como um direito transformado e renovado à


vida urbana.”

10
“… a partir deste ponto eu já não me referirei à cidade, mas sim ao urbano”.

Harvey (2003) formula bem o que tal cidade/sociedade pode ser em princípio; ele usa a
frase de Robert Park: “a cidade do desejo do coração”.
Mas primeiro, como uma precondição para perseguir o que é desejado, uma
cidade onde as necessidades materiais e as aspirações são cumpridas, as necessidades
dos privados e as dos alienados, a clareza – até certo ponto – deveria ser procurada para
ver qual poderíamos ter.
Os princípios que tal cidade poderia incorporar podem ser definidos no geral.
Eles incluiriam conceitos como justiça, equidade, democracia, o pleno desenvolvimento
das potencialidades ou capacidades humanas, a todos de acordo com as suas
necessidades, o reconhecimento das diferenças humanas. Eles incluiriam termos como
sustentabilidade e diversidade, mas estes são mais desideratos na busca de objetivos em
vez de fins em si mesmos.
Mas há um limite para o quanto benefício pode ser adquirido a partir da tentativa
de soletrar esses princípios em termos claros hoje. 6 Essa cidade não é para ser prevista
em detalhes, como Lefebvre disse muitas vezes (na verdade, seguindo Marx e Engels,
em oposição com os primeiros utopistas – ver Engels, 1880).

“Na medida em que os contornos da cidade futura podem ser descritos, ela poderia ser
definida imaginando a reversão da situação atual, empurrando para os seus limites a
imagem convertida do mundo de cabeça para baixo.” (Lefebvre, 1967, p. 172)

IV. Soluções: expor, propor, politizar

Dados os problemas que enfrentamos hoje, quais são as soluções? Mais especificamente
para os fins desta discussão, qual é a contribuição que a teoria urbana crítica pode fazer
para essas soluções? Como a teoria pode informar e ajudar a prática – pois, enquanto na
teoria, teoria e prática são uma, na prática existem diferenças reais, se apenas que o
desenvolvimento da teoria e da liderança na prática reside em grande parte em
diferentes pessoas, diferentes ocupações, diferentes histórias de vida. Nossas tarefas
comuns, os privilegiados (para ser honesto sobre isso) que trabalham no campo da
teoria, e os privilegiados de forma diferente por serem capazes de liderar no campo da
prática, a nossa tarefa é fazer com que essa ligação entre a teoria e a prática e torná-la
produtiva. Em outras palavras, como é que passamos da teoria urbana crítica à prática
urbana radical?
No meu próprio campo, o planejamento urbano, um exame sobre o que o
planejamento em Nova Orleans estava fazendo depois do furacão Katrina levou a uma
sugestão para uma abordagem que eu chamei de Planejamento Crítico, e delineei uma
abordagem em três etapas:7 poderiam ser resumidas em três palavras: Expor, Propor e
Politizar. Expor no sentido de analisar as raízes do problema e deixar claro e comunicar
essa análise para aqueles que precisam dela e podem usá-la. Propor, no sentido de
trabalhar com as pessoas afetadas a fim de elas apresentarem propostas reais,

6
Discute-se o ponto, e as dificuldades são mostradas, em muitas das contribuições a Marcuse (no prelo).
7
Marcuse (2007). Numa elaboração ulterior, eu sugiro desagregar as três etapas em seis: Refletir (para
esclarecer os valores de quem e o próprio papel dos planejadores), Teorizar (para entender as raízes do
problema, cuja forma imediata e atores concretos deveria levar então à próxima etapa), Expor (para
comunicar claramente as realidades subjacentes ao problema, as partes e os interesses envolvidos),
Propor (para colocar propostas concretas para a ação), Divulgar (para deixar claro os pressupostos
envolvidos, e os limites daquilo que pode ser esperado), e Politizar (para lidar com questões de estratégia
e tática envolvidas na implementação).
11
programas, metas, estratégias, para alcançar os resultados desejados. A teoria urbana
crítica deveria ajudar a aprofundar a exposição, ajudar a formular respostas que
questionam as causas profundas assim expostas, e demonstram a necessidade de uma
resposta politizada. Politizar, no sentido de esclarecer as implicações da ação política de
aquilo que era exposto e proposto, e apoiar a organização em torno das propostas,
informando a ação. Politizar inclui ficar atento às questões de estratégia de organização
e de política do dia-a-dia. E quando apropriado, inclui apoiar a organização diretamente
com intervenções na mídia e por vezes levantar as questões dentro dos próprios grupos
de pares críticos, muitas vezes acadêmicos.

V. O objetivo do Direito à Cidade, e como vamos chegar lá?

Se esta é a estratégia para a ação usando a teoria e prática urbana crítica e, qual
exatamente o seu objetivo final? Assim, um ou dois comentários sobre exatamente o que
a visão da sociedade para a qual o Direito à Cidade está implicitamente orientada.
Mais imediatamente, o objetivo pode ser lido a partir da contribuição principal
imediata do Direito à Cidade: a afirmação é afirmação para uma totalidade, para algo
inteiro e algo totalmente diferente da cidade existente, da sociedade existente. Lefebvre
e a maioria das pessoas nas ruas de Paris e nos edifícios ocupados de Columbia em 1968
podem chamá-lo de socialismo ou comunismo, mas vários são os nomes: uma sociedade
democrática (Purcell, 2008), ou uma sociedade apoiando esforços para a vida, liberdade
e busca da felicidade, como na Declaração de Independência dos EUA, ou para
liberdade, igualdade, fraternidade, como na Revolução Francesa, ou uma sociedade
justa (Fainstein, 2009) ou humana, ou uma que permite o pleno desenvolvimento das
capacidades humanas (Nussbaum, 1999; também desenvolvido pela Fainstein de 2009),
o potencial dos seres humanos como espécie (Marx, 1844). O que todas essas
formulações devem implicar, se a análise da teoria urbana crítica é correta, é uma
rejeição fundamental do sistema capitalista vigente. O que todas mas as mais antiquadas
propostas utópicas também têm em comum é uma rejeição da ideia de que o futuro mais
desejável pode ser escrito, desenhado, definido, agora, com antecedência, exceto nos
princípios mais gerais. Só na experiência de chegar lá, nas decisões democráticas que
acompanham o processo, é que um futuro melhor pode ser formado. Não é por falta de
imaginação ou atenção inadequada ou pensamento errado que nenhum quadro concreto
é apresentado, mas porque, precisamente, a direção para ações no futuro não deveria ser
apropriado, mas deixado para a experiência democrática dos que estão de fato
implementando a visão.
Pode uma alternativa ao capitalismo realmente ser realizada, dado o poder
comprovado do sistema estabelecido?8 Não é apenas o produto final difícil de imaginar,
mas os passos que lá levam são difíceis de ver; agora qualquer coisa na agenda parece
trivial, com tal perspetiva de longo prazo. Muitos acreditam que espaços de esperança,
na formulação de David Harvey (2000), podem ser encontrados, e muitos desses
espaços de facto estão movendo-se na direção de uma mudança mais ampla. Há talvez
um acordo geral, por Marx, Lefebvre, meu pai, Harvey e outras pessoas pensantes, que
as sementes do futuro devem ser encontradas no presente. Mas o que significa isso
exatamente, além da conceção espacial?
Uma imagem espacial para as sementes do futuro pode ser útil (Pinder, 2005;
Miles, 2007) e tudo o que for feito terá certamente um aspeto espacial também. 9 Mas
8
Para uma recente abordagem honesta, pensativa para uma resposta, ver Ehrenreich e Fletcher (2009).
9
Veja a próxima publicação das atas da conferência de Nanterre sobre Justiça espacial, e a revista que se
desenvolveu a partir dela.
12
um foco espacial tem seus perigos também: a maioria dos problemas têm um aspeto
espacial, mas as suas origens se encontram em arenas econômicas, sociais, políticas,
sendo o espaço uma causa parcial e um agravamento, mas apenas parcial. Talvez seja
melhor ver as sementes do futuro como setores. É claramente possível ter setores da
vida cotidiana que são livres de formas capitalistas, operando dentro do sistema
capitalista mas não dele, não dominados por ele. Resumindo, esses são os setores da
economia e da vida cotidiana que não são operados pelo sistema de lucro, que estão
dentro dele mas não dele, que não são motivados pelo lucro mas contam com a
solidariedade, humanidade, flexão dos músculos e o desenvolvimento de impulsos
criativos, para seu próprio bem. Eles terão de tirar recursos do setor por fins lucrativos,
de preferência de forma democrática e aberta através do governo, mas a sua própria
força motriz será encontrada em princípios gerais que são radicalmente diferentes dos
que motivaram a economia com fins lucrativos, e os princípios que podem ter cada vez
mais amplos visibilidade e recurso.
Tais setores, tais áreas de atividade, já existem, são bem conhecidas, são
procuradas. As aspirações daqueles que estão alienados do capitalismo apontam nesta
direção. Os artistas criam, os professores ensinam, os inventores inventam, os filósofos
pensam, os jovens voluntariam, não por fins lucrativos, mas porque eles acreditam que a
vida é para isso mesmo, é o que eles querem fazer. Eles se deparam com as mesmas
restrições que tornam as pessoas sem-abrigo, com fome, doente, empobrecidas, pessoas
cujas demandas assim conectam naturalmente com as aspirações dos alienados. O
objetivo final da maioria dos movimentos sociais, e certamente do movimento do
Direito à Cidade, leva necessariamente nessa direção: eles não estão atrás do lucro, mas
buscam um ambiente de vida digno e solidário. O lucro, se uma preocupação em tudo, é
um meio para um fim, o que não é o consumo elevado, estatuto social ou acumulação
adicional, mas sim condições de vida decentes para todos. Assim, os culturalmente
alienados e os imediatamente privados têm um inimigo comum. E isso é cada vez mais
reconhecido, mesmo que seu nome não seja sempre o mesmo: capitalismo,
neoliberalismo, cobiça, multinacionais, elite do poder, burguesia, classe capitalista.
Acima de tudo, eliminando o lucro como meio e motivação no setor político,
eliminando o papel da riqueza e o poder ligado a ela a partir de decisões públicas, é um
requisito fundamental tanto para os imediatamente oprimidos e os alienados.
A lógica de tentar expulsar aquele inimigo da vida cotidiana, um setor de cada
vez, é atraente. Estamos nos movendo nessa direção, embora a atual direção só está se
arrastando por lá com relutância, em cuidados de saúde e na educação, dois setores em
que o conflito sobre o privado versus público se transformou, se apenas ligeiramente,
em favor do público. A oportunidade está aí na habitação. A crise econômica ampliou
certamente o papel do governo em finanças, bancário, imobiliário, se sempre dentro dos
limites ideológicos conservadores.
Uma teoria urbana crítica, dedicada a apoiar o direito à cidade, precisa expor as
raízes comuns da privação e do descontentamento, e mostrar a natureza comum das
demandas e aspirações da maioria do povo. Uma teoria urbana crítica pode desenvolver
os princípios em torno dos quais os privados e os alienados podem fazer causa comum
em busca do Direito à Cidade. Como politizar esse terreno comum de forma mais
eficaz? Nós já temos setores da sociedade onde o comum é visível, onde a ação para as
pessoas, não para fins lucrativos, é a regra. Pense (infelizmente apenas alguns setores)
na educação. Pense (infelizmente apenas alguns setores) nos cuidados de saúde. Pense
(infelizmente apenas alguns setores) das artes. Pense na exploração espacial. Pense no
movimento ambiental. Pense no setor sem fins lucrativos, e cooperativo, na habitação.
Pense no esforço para aprofundar a democracia e ampliar a participação nas decisões

13
públicas, e limitar ou abolir o papel do dinheiro nas eleições e decisões governamentais.
Em cada uma delas, o slogan CIDADES PARA AS PESSOAS, NÃO PARA O LUCRO,
ressoa. Deixe que seja o clamor político que encarna a natureza da cidade em que o
direito está sendo reivindicado. Que seja o grito que forma um laço cerca de uma parte
do sistema capitalista após o outro. Rudi Dutschke, no auge do movimento de 1968 na
Alemanha, falou da “longa marcha através das instituições”. Vamos pegá-las,
separadamente ou em conjunto. Vamos apertar o laço em torno do sistema de habitação,
e andarmos para espremer o lucro fora dele, um setor de cada vez. A crise das hipotecas,
por exemplo, poderia ser uma oportunidade para mudar de novo nessa direção
(Marcuse, no prelo), como a habitação social tem sido antes. Não vamos ter medo de
nomear o objetivo comum, e o inimigo comum.
Uma teoria urbana crítica, internamente ligada à prática, pode ajudar a chegar lá.

Referências
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February.

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Harvey, D. (2009) http://www.counterpunch.org/weisbrot03062009.html

Lefebvre, H. (1991) ‘Les illusions de la modernité’, in I. Ramonet, J. Decornoy, and Ch.


Brie (eds) La ville partout et partout en crise, Manière de voir, 13. Paris: Le Monde
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Lefebvre, H. (1996 [1967]) ‘The Right to the City’, in E. Kofman and E. Lebas (eds)
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14
Lui, M. (2009) ‘The wealth gap gets wider’, The Washington Post, 23 March.

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Marcuse, H. (1969) An Essay on Liberation. Boston: Beacon Press.

Marcuse, P. (1989) ‘“Dual City”: a muddy metaphor for a quartered city’, International
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Marcuse, P. (2008) ‘In defense of the ’60’s’, In These Times 32(8), pp. 33–35.

(…)

Peter Marcuse é Professor Emérito de Planejamento Urbano na Universidade de


Columbia. Ele é o co-editor de Globalizing Cities (Blackwell, 2000) e o autor de vários
artigos sobre a teoria urbana crítica e planejamento, reestruturação urbana e divisão
socio-espacial urbana.

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