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CURSO DE CONCRETO ARMADO UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

CENTRO TECNOLÓGICO
MAYRA PERLINGEIRO & EDUARDO VALERIANO PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA CIVIL

VI.1 O FENÔMENO da FISSURAÇÃO do CONCRETO

Além de fundamental para estruturas de concreto armado, o fenômeno da


fissuração é tema de abrangência e profundidade.
No concreto protendido, armaduras ativas impedem sua fissuração. No concreto
armado, pode-se apenas controlar este fenômeno por meio da verificação do ELSs de
abertura de fissuras e das prescrições de detalhamento para quantidade e
espaçamentos mínimos de suas armaduras, ditas passivas. Em ambos, durante a fase
de execução das estruturas, diversos procedimentos ligados à cura do concreto
destinam-se a restringir ou impedir esta manifestação.
A “Patologia das Estruturas”, bem como as técnicas de recuperação e reforço
de estruturas degradadas ou colapsadas, constituem campos de trabalho
especializados da Engenharia Estrutural, que lidam com estruturas que falham parcial
ou completamente em relação a seu nível de segurança; desempenho ou durabilidade.
Falhas no comportamento de estruturas de concreto armado podem ser
ocasionadas por deficiências de projeto, de execução, de utilização; falta de
manutenção ou por acidentes. Em tais casos, os quadros fissuratórios de uma
estrutura ou de seus elementos são, com freqüência, o principal meio que a
Engenharia Estrutural possui para detectar e diagnosticar a causa, extensão dos
danos e gravidade da situação que conduziu à falha estrutural.
O estudo da fissuração aqui abordado é inteiramente orientado para a
compreensão do fenômeno que inevitavelmente ocorre em estruturas de concreto
armado, quando projetadas, executadas, utilizadas e mantidas adequadamente. Serão
estudados os mecanismos que deflagram a fissuração em elementos fletidos de
concreto armado, bem como as imposições de norma e as técnicas de projeto que se
dispõe para seu controle.
Elementos estruturais de concreto armado, já dimensionados à flexão pelo MEL
em seus ELUs de compressão do concreto e alongamento excessivo do aço, nos
quais se garante sua segurança ao se impor que sua resistência última da seção seja
superior ou igual à solicitação de dimensionamento à (Mr ≥ Md), devem ainda satisfazer
condições de desempenho em serviço e durabilidade. Para isto, devem ser cumpridas

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exigências complementares estudadas nas verificações dos Estados Limites de


Serviço, sendo o controle da fissuração um destes ELSs.

VI.2 GÊNESE e EFEITOS DELETÉRIOS da FISSURAÇÃO

De acordo com os agentes que as originam, as fissuras são classificadas nos


três seguintes grupos:

o 1º Grupo - Fissuras provocadas por variações volumétricas: São as


produzidas pela restrição que a estrutura oferece aos efeitos da retração do
concreto e da ação da variação de temperatura.
As prescrições normativas de armaduras mínimas, a boa técnica de
detalhamento e uma cura adequada do concreto conduzem a um controle
eficiente das fissuras provocadas por retração. O fracionamento de uma
estrutura, em trechos separados por juntas de dilatação, minimiza os efeitos da
variação de temperatura e as solicitações produzidas por esta ação são
tratadas da mesma forma que as demais.

o 2º Grupo - Fissuras produzidas por solicitações de cortante e torção: Nos


casos usuais, a NBR 6118 dispensa a avaliação específica da abertura deste
grupo de fissuras, substituindo o controle direto por prescrições relativas à
quantidade mínima e ao detalhamento das armaduras transversais.

o 3º Grupo - Fissuras produzidas por solicitações de flexão e tração: São


controladas por meio de técnica normalizada, por meio da qual se calcula e se
fixam limites aos valores das aberturas.

Elementos de concreto armado sujeitos às combinações das ações em serviço


encontram-se inevitavelmente fissurados em suas regiões tracionadas, devido à baixa
resistência do concreto à tração.
As fissuras, da ordem de décimos de milímetros, não geram efeitos adversos sobre
a segurança à ruptura, condições de serviço e durabilidade destes elementos.
Entretanto, se não controladas durante as fases de projeto e construção, mantidas
abaixo de limites aceitáveis, produzem os seguintes efeitos deletérios que influem
negativamente no desempenho em serviço e na durabilidade da estrutura à qual
pertencem:

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o Ferem uma das propriedades que viabilizam o funcionamento do concreto


armado, permitindo o contato de agentes atmosféricos com a armação e
possibilitando sua corrosão.

o Ferem padrões estéticos e produzem a sensação de insegurança nos usuários.

Com objetivo de se limitar tais efeitos a níveis que não comprometam sua
utilização e durabilidade, as estruturas de concreto armados são submetidas à controle
de fissuração calcado em modelo teórico e normalizado pela NBR 6118.

VI.3 CONTROLE DA FISSURAÇÃO EM ELEMENTOS FLETIDOS

VI.3.1 – Síntese da Abordagem Rigorosa da Norma NBR 6118:2003

O controle da fissuração em elementos fletidos de concreto armado passa por


quatro fases encadeadas:

1º. Define-se o nível de agressividade ambiental da região onde a estrutura será


construída: (CAA)

2º. Em função do ambiente definido, do tipo de concreto, de características do


elemento estrutural e com base na experiência previamente acumulada a
NBR6118 fixa o valor limite de abertura de fissuras, que seriam toleradas pela
estrutura, sem comprometimento de seu desempenho em serviço e
durabilidade: wk limite

3º. Aplica-se um procedimento (modelo e ferramenta) de cálculo do valor estimado


de abertura de fissuras para a seção fletida que se está verificando: wk estimado

4º. Comparam-se os valores das aberturas de fissuras wk. Se wk estimado for inferior a
wk limite, a estrutura atende o ELS-W e pode se iniciar o detalhamento da
armadura longitudinal de flexão. Caso contrário, efetuam-se as modificações
necessárias, geralmente implicando em acréscimo da armadura já
dimensionada para flexão.

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As duas fases iniciais são normalizadas pela NBR 6118 e não demandam
trabalho de cálculo por parte do projetista. A terceira fase depende de um conjunto de
cálculos que constituem a essência da verificação do ELS-W de fissuração e será
apreciada em seguida.
A última fase é resultado da aplicação dos conceitos ora em desenvolvimento e
pode ser melhor avaliada no Módulo de Exercícios desta série.

VI.3.2 – A Influência do Ambiente

Segundo a norma NBR 6118 a verificação do estado limite de abertura das


fissuras é denominada ELS-W e tem início com a classificação da agressividade do
ambiente no qual a estrutura será construída.
A seção 6.4.1 define que a agressividade do meio ambiente está relacionada às
ações físicas e químicas que atuam sobre a estrutura, independentemente das ações
mecânicas, das variações volumétricas de origem térmica e da retração hidráulica.
De acordo com a seção 6.4.2, a agressividade ambiental deve ser classificada
de acordo com a tabela abaixo.

Tabela 1- Classes de Agressividade Ambiental

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VI.3.3 – Fixação dos Valores de Wk Limite de Abertura de Fissuras

Depois de classificada a classe de agressividade ambiental, a seção 13.4.2 de


norma fixa na tabela abaixo os limites máximos para abertura característica w k das
fissuras de forma que as mesmas não sejam nocivas quanto à utilização da estrutura
em serviço e a sua durabilidade.
Como se verifica, os valores máximos para abertura característica de fissuras
fica compreendido entre 2 e 4 décimos de milímetro para a solicitação em serviço Sd
derivada da combinação freqüente das ações.

Tabela 2 - Exigências de Durabilidade Relacionadas à Fissuração


e às Classes de Agressividade Ambiental

As combinações acima podem ser obtidas de acordo com a seção 11.8.3 de


norma que classifica as combinações de serviço de acordo com sua permanência na
estrutura. Estas são próprias para verificações dos ELSs como se viu no Módulo I.

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o Combinação Quase Permanente (CQP): Pode atuar durante grande parte do


período de vida da estrutura e sua consideração pode ser necessária na
verificação do estado limite de deformações excessivas.

o Combinação Freqüente (CF): Se repete muitas vezes durante o período de


vida da estrutura e sua combinação (para o concreto armado) é necessária
na verificação do estado limite abertura de fissuras e de vibrações
excessivas.

o Combinação Rara (CR): Ocorre algumas vezes durante o período de vida da


estrutura e sua consideração é usada na verificação do estado limite de
formação de fissuras.

Os coeficientes Ѱ1 e Ѱ2 são definidos pela seção 11.7 da norma, conforme já


exposto também no Módulo I deste curso.
A seção 23 define para pontes rodoviárias: ψ1 = 0,5 para verificação das vigas;
ψ1 = 0,7 para transversinas; e ψ1 = 0,8 para lajes de tabuleiro e para pontes
ferroviárias:

VI.4.2 –Avaliação dos Valores de Wk Estimado de Abertura de Fissuras

3.1 – O MODELO TEÓRICO DE AVALIAÇÀO DA ABERTURA DE FISSURA

O cálculo do valor da abertura estimada das fissuras wk , em elementos


submetidos a tensões normais, baseia-se em modelos teórico-experimentais
observados em ensaios de laboratório.
No concreto armado as tensões nas armaduras tracionadas decorrem de
alongamentos muito superiores aos suportados pelo concreto a ele aderido. Nessas
condições o concreto fissura e a soma das aberturas ao longo do elemento é
equivalente a diferença entre os alongamentos do aço e do concreto.

O tirante possui inicialmente comprimento Sr, valor equivalente à distância entre


fissuras. O concreto alonga-se até que as tensões trativas em seu corpo atingem sua
resistência fct e seu comprimento alcança o valor máximo:

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WK

Lcon  Sr .  Sr . C
(3.1)

Neste momento forma-se a fissura e o aço passa a absorver também a parcela


de tensões trativas que anteriormente eram resistidas pelo concreto.
Em função de sua maior ductilidade, o comprimento do aço supera o do
concreto e também atinge seu valor máximo:

Laço  S r  S r . si
(3.2)

A abertura wk da fissura resulta da diferença entre os alongamentos


experimentados pelo aço e pelo concreto do tirante.

wk  Laço  Lcon  S r . si  S r . C  S r . si   C 


(3.3)

O alongamento unitário do concreto pode ser desprezado diante da magnitude


do alongamento unitário do aço e a abertura da fissura passa a ser:

wk  S r . si
(3.4)

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A deformação unitária do aço depende da sua tensão e de seu módulo de


elasticidade e a abertura da fissura é expressa por:

 si
wk  S r .
E si (3.5)

Ac

As

Figura 3.4 - Forças e Mecanismos de Formação de Fissuras

A tensão do aço em serviço é calculada no Estádio II com coeficientes de


ponderação próprios do ELS de abertura de fissuras (EL S-W) e, como seu módulo de
deformação Esi é constante conhecida, a única incógnita a ser definida passa a ser a
distância entre fissuras Sr.
A força no concreto do tirante à esquerda da seção AA é transferida por
aderência pela barra de aço ao concreto e equivale à:

Fcesq    i  S r . f bd
(3.6)

Onde fbd é a tensão de aderência entre aço e concreto definida no capítulo 2.


À direita da seção dois mecanismos podem ser assumidos: No primeiro deles,
denominado formação sistemática de fissuras a força à direita da seção AA provém do
concreto do tirante e é equivale à:

Fcdir  Acri  f ct
(3.7)

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Onde Acrit é a área crítica, correspondente à área do tirante aderida à barra


conforme indicado na figura 2.4.
A partir deste ponto, define-se a taxa de armadura passiva (ρri) como a relação
entre a área de aço do tirante Asi e sua área crítica:

Asi
 ri 
Acri (3.8)

Portanto,

Asi
Fcdir  Acri  f ct   f ct
 ri (3.9)

No segundo mecanismo de formação de fissuras, denominado fissuração não


sistemática, a força à direita da seção AA provém da barra de aço e equivale à;

Fsidir  Asi   si
(3.10)

O equilíbrio da seção nestes dois momentos resulta nos mecanismos abaixo


expressos:

   i2 i
 A f 1
 si  f ct  4  f ct  S r  4  ct  S r  k1  i 
  ri  ri  ri f bd  ri
  i  S r . f bd 
   i2  

 si si
A     si  S r  k 2  i  si  S r  k 3  i  si
 4 f bd f ctm

(3.11)

Que introduzidos na expressão básica 3.5, fornecem as expressões teóricas


que representam as duas possibilidades para cálculo da abertura de fissuras:

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  si 1  si
 wk  Sr  E  k1  i    E
 si ri s

  si  
wk  S r   k3  i  si  si
 Esi f ctm Es
(3.12)

3.2 – A ABORDAGEM RIGOROSA DA ABNT NBR-6118:2003

As expressões anteriores, derivadas do modelo teórico com dois mecanismos


de formação de fissuras, são calibradas com base em ensaios experimentais e
normalizadas pela NBR 6118:2003 conforme segue:

Figura 3.5 - Concreto de Envolvimento da Armadura: Área do Tirante

Para baixas taxas de armadura passiva prevalece o mecanismo que deu origem à
primeira expressão de 3.12, com a seguinte constituição:

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i  si  4 
wk      45 
12,51 E si   ri  (3.13)

Para taxas elevadas de armadura passiva prevalece o mecanismo que deu


origem à segunda expressão de 3.12, com a seguinte constituição:

i  si 3 si
wk   
12,51 Esi f ctm (3.13)

Onde, σsi, Φi, Esi, ρri são examinados para cada área de envolvimento em
exame e fctm a resistência à tração média do concreto e η1, o coeficiente de
conformação superficial da armadura, já definidos no Módulo I.

3.3 – A ABORDAGEM SIMPLIFICADA DA NBR-6118:2003

A norma apresenta uma proposta simplificada para controle do ELS-W na qual


se dispensa o cálculo da abertura de fissuras.
O controle é feito limitando-se os parâmetros que influem no processo de
formação e abertura de fissuras: O diâmetro da armadura, a tensão no aço e a taxa de
armadura passiva, sendo esta última controlada de forma indireta via espaçamento
entre barras.

Tabela 3 - Valores Máximos de Diâmetro e Espaçamento

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Tabela 4 - Correspondência entre Classe de Agressividade Ambiental e


Cobrimento Nominal

Tabela 5 - Combinações

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