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SB.

24-Z-D-V (Sumé)

3
GEOLOGIA ESTRUTURAL/
GEOTECTÔNICA
3.1 Introdução 3.2 Deformações

A geologia da Folha Sumé é constituída es- Feições da primeira fase deformativa (D 1) são
sencialmente pelos complexos Gnáissico-Alu- observadas apenas em alguns locais, ressal-
minoso/Sertânia, Sumé e Surubim-Caroalina, tando dobras em bainha na porção sudeste da
vários litótipos ortognáissicos de idades atri- área (ponto VC-170), bem como feições SC e
buídas ao Mesoproterozóico (?), além de grani- milonitos dobrados raramente observados na
tóides brasilianos; todos inseridos na Faixa de região entre as localidades de Camalaú e Sumé
Dobramentos Pajeú-Paraíba e Maciço Pernam- (PB). Nestes locais pode-se constatar uma
buco-Alagoas, de Brito Neves (1975). lineação de estiramento (Lx 1) de forte rake, indi-
Neste contexto foram identificadas, por meio cando uma tectônica tangencial (empurrão 1)
de dados de campo (foliações, superfícies SC-C’, com transporte para NW (figura 3.1a).
cristais rotacionados ou assimétricos, lineações Na segunda fase deformativa (D 2), as feições
de estiramento, eixos de dobras e vergências de estruturais são mais evidentes, como a marcan-
dobras) e análises de produtos de sensoriamento te foliação S 2. Os critérios cinemáticos indicam
remoto (fotografias aéreas e imagens de satélite), uma tectônica tangencial (empurrão 2 ) com
três fases de deformação dúctil; as duas primei- transporte para NE ou SW (figura 3.1b). Dobras
ras estão correlacionadas a tectônicas tangen- recumbentes, por vezes observadas em cam-
ciais de baixo ângulo, com transporte de massa po, são atribuídas ao evento D 1/D 2.
para NW (D1), e posteriormente outra com trans- Em alguns pontos da região a W-SW de Camalaú
porte para NE ou SW (D2). A última fase (D3) cor- (PB), os critérios cinemáticos sugerem que o trans-
responde à tectônica transcorrente brasiliana. porte de massa durante o D2 tenha sido para SW.

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Isto pode ser atribuído a uma interferência não-coa- O evento deformativo D3 gerou padrões de in-
xial de D3 com relação a D2, onde dobras teriam um terferência tipos 2 e 3 de Ramsay (1967), observa-
flanco invertido, fato este não caracterizado no dos em mesoescala e macroescala, como os cor-
campo; uma outra alternativa seria que aquela pos de ortognaisses nas adjacências de Camalaú
região corresponderia a uma fatia (capa) com me- (PB). Entretanto, pode-se argumentar, em alguns
nor taxa de deformação do empurrão2; ou ainda es- locais, que os mesmos não sejam coaxiais (pelo
taria correlacionada a retroempurrões. Tais consi- menos em certas regiões), como um dos modelos
derações feitas com relação a D2 x D3, também de- possíveis para explicar a inversão do transporte
vem ser admitidas para D1 x D2, tendo em vista que de massa do empurrão2 na região a oeste de Ca-
feições (reliquiares) do empurrão1 (D1) da Folha malaú.
Sumé sugerem transporte de massa para NW, en- Nas regiões de baixo strain de D2/D3, por vezes
quanto que em regiões adjacentes foi sugerido as dobras F1/F2 não estão totalmente giradas para
transporte para SE (Campos Neto et al., 1994 e o plano do fluxo deformacional, como observado
Santos, 1995). na porção a NW de Camalaú (PB).
A terceira fase (D3) corresponde a uma tectô-
nica dúctil transcorrente brasiliana, a qual gerou
antiformes e sinformes (F 3) com planos axiais 3.3 Metamorfismo
verticalizados (figura 3.1c), bem como expressi-
vas zonas de cisalhamento como as do Congo e Os eventos D1/D2 atingiram fácies anfibolito médio
Coxixola. A alternância entre critérios sinistrais e a alto (M1/M2), o que é evidenciado pela associação
dextrais observados principalmente a NE de Ca- quartzo-feldspato-biotita-sillimanita-granada-cordie-
malaú (PB), pode ser atribuída a dobras F 3 afe- rita. Em determinados locais observam-se efeitos de
tando o empurrão 2 (figura 3.2), fato este que anatexia gerando granitóides a sillimanita (ponto
deve ser também considerado em relação a em- AW-02). Na faixa situada entre a localidade de Firme-
purrão1 x empurrão 2. za (PB) até a Serra da Barra (sudeste de Santa Luzia
Atravessando a Folha Sumé, com direção do Cariri-PB), os efeitos da anatexia são mais eviden-
aproximadamente E-W, observa-se a Zona de tes, bem como a presença de rochas granulíticas,
Cisalhamento de Coxixola, que estende-se observadas nos pontos VC-110, VC-197 e VC-198.
desde a região a norte de Tuparetama-PE (Fo- Os granulitos podem representar retro-
lha Monteiro/SB.24-Z-D-IV), por toda a Folha metamorfismo em rochas eclogíticas, as
Santa Cruz do Capibaribe (SB.24-Z-D-VI), se- quais têm sido reconhecidas em algumas
guindo em direção ao litoral, constituindo uma l o c a l i d a d e s d a F a i x a P i a n c ó - A l t o B r í g i-
marcante zona transcorrente dextral, com inci- da/Pajeú Paraíba, por Beurlen & Villarroel
piente movimentação tardia sinistral. Corres- (1990), Beurlen et al. (1991) e Almeida et al.
ponde, em parte, ao Lineamento Cariris Ve- ( 1 9 9 3 ) . N e s t e c o n t e x t o t a m b é m o b s e r-
lhos, de Albuquerque (1970). vam-se ortoanfibolitos e metapiroxenitos;
A Zona de Cisalhamento do Congo possui estes, com hiperstênio, na localidade de
direção aproximadamente NE-SW, estenden- Firmeza (ponto VC-222). As rochas granulí-
do-se desde o Lineamento Pernambuco (nor- ticas/eclogíticas (?), podem ter sido carrea-
te de Arcoverde-PE), até a Zona de Cisalha- das dos seus ambientes de formação por
mento de Coxixola (sudoeste de São Domin- força dos eventos tectônicos tangenciais,
gos-PB). Constitui-se numa transcorrência si- como os atribuídos à Folha Sumé; ou terem
nistral, evidenciada por lineações de estira- sido soerguidas em outras regiões e poste-
mento horizontalizadas (Lx 3 ), critérios SC-C’, riormente deslocadas pelas estruturas bra-
cristais assimétricos, e feições de macroes- silianas, como a Zona de Cisalhamento de
cala observadas em produtos de sensores re- Coxixola.
motos. Uma incipiente fase tardia com deslo- A assembléia mineral associada às trans-
camento dextral é, por vezes, evidenciada corrências brasilianas indica que o metamor-
através de fraturas de extensão/C’. fismo M 3 atingiu a isógrada da sillimanita

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SB. 24-Z-D-V (Sumé)

(A)
N

B1

(B) B2

B1

Seção XZ de D2

Seção XZ de D1

B3
Seção XZ de D3
(C)

B2

Seção XZ de D2

B1

Lx1 (Rake intermediário a alto com transporte indicado)


Lx2 (Rake intermediário a alto com transporte indicado)
Lx3 (Baixo rake e horizontalizada)

Figura 3.1 – Lineações de estiramento/minerais associadas aos eventos deformativos da Folha Sumé:
A) D1; B) D1 + D2; C) D1 + D2 + D3.

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N
Z
X
Y
Y X Y
Z
X
Z

SW NE

Porfiroclasto assimétrico Sentido de transporte


c
s Foliação SC Plano horizontal de
Y referência
X Eixos do elipsóide de
Z Strain de D2
5 cm

Figura 3.2.a – Seção XZ do elipsóide de strain Figura 3.2.b – Sinforme D3 provocando rotação da
(verticalizada), associada ao empurrão (D2), seção XZ de D2 para um plano horizontalizado
indicando transporte para nordeste. (notar a alternância dos critérios cinemáticos de D2
entre sinistral e dextral).

(Zona de Cisalhamento do Congo), sendo re- Van Schmus et al. (1994). Estes autores res-
conhecida, em alguns locais da Zona de Cisa- saltam a existência de um episódio acrescio-
lhamento de Coxixola, paragênese mineral da nal/colisional no final do Mesoproterozóico
fácies xisto-verde. (Evento Cariris Velhos), ao obterem datações
U/PB em zircões com cerca de 1,0Ga, e ida-
des-modelo Sm/Nd mais antigas em torno de
3.4 Correlações Geocronológicas e 1,5Ga.
Magmatismo Os ortognaisses tipo g 1a são aqui considera-
dos como cedo a sin-tectônicos ao evento D 1;
Em razão da pequena quantidade de da- os g 1b , sin-tectônicos e os ortognaisses g 1c
dos geocronológicos na Folha Sumé, as ida- como sin a tardi-tectônicos e considerados
des aqui propostas correspondem a correla- c o m o i n t r u s i v o s n o C o m p l e x o G n á i s s i-
ções entre as características dos litótipos co-Aluminoso/Sertânia (figura 3.3a). Ressal-
desta folha com outras regiões da Província ta-se sua semelhança com os augen gnaisses
Borborema. da serra do Machado, datados em 1.038±32Ma
Ao evento D 1 atribui-se idade mesoprotero- (Scheid & Ferreira, 1991), admitida como idade
zóica (1,0Ga ?), pela similaridade entre o mista pelos referidos autores, porém, à luz dos
Complexo Gnáissico-Aluminoso/Sertânia, or- dados atuais, esta possibilidade tende a ser
tognaisses tonalíticos e augen gnaisses car- descartada, sendo correlacionada ao Evento
tografados nesta folha, com as seqüências Cariris Velhos.
datadas por Brito Neves et al. (1990, 1993 e Os diagramas discriminantes de ambien-
1995), Santos (1993), Santos et al. (1993) e te tectônico utilizados (figuras 3.4 a 3.6) in-

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C S

NW SE

A) Posicionamento sin-tectônico dos


ortognaisses tipo g 1 ao empurrão D1.
v
v
v

S C

NE SW
B) Processo de anatexia dos ortognais-
ses tipo g 1 e dos complexos Sertânia
v
v
v

e Sumé, gerando os ortognaisses ti-


po g 2, sin-tectônicos ao empurrão D2.

N S
v
C) Desenvolvimento de zonas de cisalha-
v v
mento transcorrentes e posicionamen-
to dos granitóides tipo g 3,d, sin-pós D3
(Evento Brasiliano).

L E G E N D A
Granitóides Brasilianos (g 3 ed ) Porfiroclastos Assimétricos
S
Ortognaisses Graníticos (g 2) C Foliação S-C
Augen Ortognaisses (g 1b,c ) Sentido de Transporte (teto a cima)
Ortognaisses Tonalíticos (g 1a) Transcorrência Dextral
Transcorrência Sinistral
COMPLEXOS SERTÂNIA E SUMÉ
v v v

Formação Metacalcário Paragnaisses Ortoanfibolitos


Ferrífera e Metamargas Aluminosos

Figura 3.3 – Perfis esquemáticos para os modelos de posicionamento dos corpos magmáticos da Folha Sumé.

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dicam que os ortognaisses tonalíticos/anor- 3.5 Ambientes Geotectônicos


tosíticos representam uma associação de
arco magmático, enquanto que os ortog- A montagem de um quadro geotectônico é difi-
naisses tonalíticos cinza espalham-se nes- cultada pela superposição de eventos tectônicos
tes diagramas (g 1a ). Com relação aos augen pré-brasilianos e brasilianos que afetaram grande
ortognaisses (g 1b), estão posicionados no cam- parte da Faixa de Dobramentos Pajeú-Paraíba.
po dos granitóides colisionais e intraplaca. Rochas com afinidades eclogíticas foram reco-
Os ortognaisses g 1c foram descritos por nhecidas por Beurlen & Villaroel (1990), Beurlen et
Scheid & Ferreira (1993) como rochas alcali- al. (1991) e Almeida et al. (1993), respectivamente
nas tardi-orogênicas. São aqui considerados nas adjacências das localidades de Floresta (PE)
como os membros finais posicionados no e Itatuba (PB), as quais, adicionando-se as ocor-
evento tangencial 1 (ou mais antigos), ressal- rências de rochas granulíticas (retrometamórficas
tando-se a possibilidade de serem tardi-tan- ?) observados na Folha Sumé, bem como um ali-
gencial 2. nhamento gravimétrico positivo, citado por Brito
Para a tectônica tangencial D 2 atribuiu-se Neves et al. (1982), indicam a possibilidade de
uma idade compreendida entre 1,0Ga e existência de uma paleossutura na região (meso-
750Ma (?), considerando-se a possibilidade proterozóica ?). Tal sutura pode estar sendo mate-
de ser um evento progressivo de D 1 , ou ain- rializada pela presença do Complexo Sumé.
da, que seria um estágio precoce da defor- Esta sutura deve ter sido retrabalhada pelas
mação brasiliana (D 3 ). Atribui-se à fase D 2 , transcorrências brasilianas como a Zona de Cisa-
os processos de migmatização do Complexo lhamento Afogados da Ingazeira (a oeste da Fo-
Gnáissico-Aluminoso/Sertânia e ortognais- lha Sumé) ou Congo; e também ter sido fragmen-
ses tonalíticos (g 1 ), gerando ortognaisses tada neste evento tectônico (Zona de Cisalha-
graníticos e granitóides com sillimanita, tipo mento de Coxixola ?).
g 2 (figura 3.3b). Ressalta-se também que um perfil gravi-
Utilizando-se diagramas discriminantes de métrico de 179km de extensão, com esta-
ambiente tectônico (figuras 3.4 a 3.6), as ções espaçadas de 1km, atravessando a Fo-
amostras dos ortognaisses tipo g 2 posicio- lha Sumé, identificou uma provável sutura en-
nam-se predominantemente nos campos dos tre o Maciço Pernambuco-Alagoas e a Faixa
granitóides sin-colisionais e intraplaca. Pajeú-Paraíba, a partir da sua assinatura
O terceiro evento (D 3 ) é caracterizado anômala em um par positivo-negativo típico
pela geração de antiformes e sinformes de limites crustais fósseis do Proterozóico
com planos axiais verticalizados (F 3 ), além (Oliveira et al., 1994). Este fato é reforçado
de zonas de cisalhamentos transcorrentes pelas ocorrências das rochas eclogíticas su-
(Congo e Coxixola) correlacionadas ao pracitadas.
Evento Brasiliano. A esta fase associa-se O Complexo Gnáissico-Aluminoso da Folha
um intenso magmatismo, responsável pelo Sumé foi correlacionado com o Complexo Ser-
posicionamento dos granitóides tipo g 3 (fi- tânia, amplamente reconhecido no Sistema Pa-
gura 3.3c). jeú-Paraíba ao qual é atribuído uma sedimen-
As análises litoquímicas dos granitói- tação marinha.
d e s d a s e r r a d a E n g a b e l a d a ( g 3c) e d o O Complexo Surubim-Caroalina está repre-
C o m p l e x o P r a t a ( g 3d) d i s t r i b u e m - s e n o s sentado por uma seqüência metassedimentar
d i a g r a m a s d e a m b i e n t e tectônico (figuras com xistos/gnaisses com expressivas lentes de
3.7 a 3.9) no campo dos granitos intraplaca, mármores, além de quartzitos basais descontí-
fato este já ressaltado por Melo et al. (1995), nuos, observados nas regiões de Surubim (PB) e
enquanto que as amostras do batólito de Al- Santa Cruz do Capibaribe (PE). À luz dos conhe-
mas (g 3e ) quando plotadas nestes diagra- cimentos atuais, sugere uma sedimentação ma-
mas, são caracterizadas como sin-colisio- rinha rasa, provavelmente num ambiente de
nais. margem passiva.

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SB. 24-Z-D-V (Sumé)

2.500
1 - Fracionados do manto

R2 2 - Pré-colisional
3 - Soerguimento pós-colisional
2.000
4 - Tardi-orogênico
5 - Anorogênico
6 - Sincolisional 1 Figura 3.4 – Diagrama multicatiônico R1 x R2
1.500
7 - Pós-orogênico de Batchelor & Bowden (1985).
2
1.000
3
4
500 6
5
7
0
0 500 1.000 1.500 2.000 2.500 3.000

R1

1.000

Nb Intraplaca

100

Figura 3.5 – Diagrama discriminante de ambi-


ente tectônico de Pearce et al. (1984).

10
Arco vulcânico
ou Cadeia oceânica

Sincolisional
1
1 10 100 1.000
Y

1.000 Figura 3.6 – Diagrama discriminante de ambi-


Sincolisional Intraplaca ente tectônico de Pearce et al. (1984).
Rb

100
SIMBOLOGIA

+ g 2 (Ortognaisse granítico)
10 x g 1b (Augen ortognaisse)
Arco vulcânico Cadeia oceânica
* g 1a (Gnaisse leucotonalítico/anortosítico)
o g 1a (Ortognaisse tonalítico cinza)
1
o 1gl (Granulito)
1 10 100 1.000

Y + Nb

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2.500

R2 1 - Fracionados do manto
2.000
2 - Pré-colisional
3 - Soerguimento pós-colisional
1 Figura 3.7 – Diagrama multicatiônico R1 x R2
1.500 4 - Tardi-orogênico
de Batchelor & Bowden (1985).
5 - Anorogênico
6 - Sincolisional
2
1.000 3
7 - Pós-
orogênico 4
500 6
5
7
0
0 500 1.000 1.500 2.000 2.500 3.000
R1

1.000

Nb
Intraplaca

100
Figura 3.8 – Diagrama discriminante de ambiente
tectônico de Pearce et al. (1984).

10 Arco vulcânico

ou Cadeia oceânica

Sincolisional
1
1 10 100 1.000
Y

1.000
Sincolisional Intraplaca
Figura 3.9 – Diagrama discriminante de ambiente
Rb tectônico de Pearce et al. (1984).
100

10 SIMBOLOGIA
Arco vulcânico Cadeia oceânica
+g 3e (Batólito de Almas)
og 3d (Complexo Prata)
1 * g
1 10 100 1.000 3c (Stock Sa. Engabelada)
Y + Nb

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