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História

Como os imigrantes importaram a educação japonesa para


o Brasil
Quando os primeiros japoneses imigraram para o Brasil, no início do século 20, fundaram escolas paralelas
para manter o estilo de educação que tinham em seu país. Algumas delas existem até hoje, formando a 4ª
geração de descendentes
Por Giselle Hirata
 26 jun 2018, 18h28

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Em 1929, a família de Sanju Waragaya embarcou em Kobe para dar meia volta ao mundo em 60 dias. A
bordo do Bingo Maru, atracaram em Santos (SP) 21 anos após o primeiro navio de imigrantes japoneses, o
Kasato Maru, aportar por aqui. Com mulher e seis lhos, Sanju rumou para o interior paulista. Foi em Nova
Aliança que os Waragaya começaram a vida no Brasil, na lavoura de café. Quando chegaram à cidade, já
havia uma colônia nipônica, assim como uma pequena escola japonesa (nihongakko), que recebeu os
lhos de Sanju. Como ex-diretor de escola em Fukushima – sim, aquela do acidente nuclear em 2011 –, ele
queria que todos tivessem uma boa formação para retornar ao Japão em pouco tempo, sem carem
atrasados nos estudos.
Nihongakko: algumas atividades das escolas japonesas. (Guilherme Henrique/Superinteressante)

Essas primeiras escolas comunitárias eram bem simples: casas de pau a pique, com paredes de barro e
chão batido. E, se o número de alunos fosse pequeno, as aulas aconteciam na casa de alguém mesmo. Os
professores eram os imigrantes mais escolarizados e educados na cultura japonesa. Era o caso de Sanju,
que lecionava para as crianças da comunidade sem abandonar o trabalho na roça.

À época, não havia material didático. Os poucos livros eram os que couberam nas malas para a viagem até
o Brasil. Por isso, as aulas eram basicamente sobre o idioma e a cultura japoneses.

A construção das escolas era questão de ordem, uma vez que as comunidades japonesas cavam longe
de centros urbanos e o governo brasileiro não se responsabilizava pela educação de imigrantes. Em 1938,
inclusive, Getúlio Vargas proibiu o ensino de línguas estrangeiras no País e os japoneses foram obrigados a
suspender as aulas. Mas Sanju e outros professores em dezenas de colônias espalhadas do Paraná ao
Pará continuaram o ensino de forma clandestina, com aulas noturnas e deslocando professores até as
residências dos alunos.

No começo dos anos 1930, os Waragaya foram para Mogi das Cruzes (SP). Lá, compraram um pedaço de
terra para começar um cultivo de hortaliças. Não havia colônia e os lhos de Sanju tinham que andar 15 km
para estudar. Para que os netos não sofressem o mesmo, Sanju e seus lhos construíram uma escola no
sítio. Em 1960, o local já atendia mais de 40 alunos (entre descendentes de Sanju e vizinhos). Um dos
lhos do Sr. Waragaya, Choju, virou professor (e, futuramente, herdeiro do sítio). Seguindo a tradição da
família, os lhos de Choju foram educados, ao mesmo tempo, nas escolas brasileira e japonesa, além de
ingressarem na universidade.
Séculos de ensino
Você já deve ter ouvido na escola que “enquanto você dorme, tem um japonês estudando”. O clichê é
herança da importância que o Japão dá para a educação desde o século 12. Ainda no período feudal
(1187-1867), as crianças já eram obrigadas a ir para a escola. E não havia distinção social: lhos de
comerciantes, de lavradores, de artesãos e de samurais tinham o mesmo ensino. O alvo era dar
oportunidade de ascensão social a todos. Mais tarde, a meta de ensino passou a ser preparar o povo para
o trabalho industrial. A preocupação com a educação, en m, atravessou gerações, e hoje a taxa de
alfabetização nipônica chega a 99%.

Entre os séculos 19 e 20, as condições de vida pioraram, principalmente na Era Meiji, que iniciou a
industrialização e transformou o Japão em uma potência. O crescimento das cidades gerou êxodo rural – e
mais pobreza urbana. Para evitar isso, o governo passou a incentivar a imigração. E o Brasil era um destino
amplamente divulgado pelo governo japonês.
A CHEGADA: Os milhares de japoneses que vieram para cá de navio no início do século 19 plantaram café, milho,
algodão… e escolas. (Guilherme Henrique/Superinteressante)

Em 1913, um rapaz de 18 anos se aventurou sozinho, partindo de Fukuoka rumo ao Brasil. Kizo Hirata
terminou os estudos no Japão, deixou a família para trás e veio para a região de Bauru (SP) trabalhar em
uma fazenda de algodão. Mudou-se para uma colônia em Gonzaga (SP) e lá formou uma família – seus
cinco lhos estudaram no nihongakko da comunidade. Em 1940, a família migrou para a zona rural de
Arapongas (PR) e iniciou uma plantação de café. Com a chegada de outras famílias nipônicas, fundaram a
colônia Esperança. Adivinhe qual foi a primeira construção erguida depois das moradias? A escola, claro.
Lá, a criançada de Kizo aprendia japonês com vizinhos e português com freiras, além de praticar atividades
musicais e esportivas.

Ao terminar o primário, as crianças precisavam caminhar 11 km até a cidade para cursar o ginásio. Muitas
desistiram. Para que os descendentes tivessem mais acesso à educação, os Hirata partiram do Paraná
para o interior paulista em 1979. A família se instalou em Biritiba Mirim, começou um negócio de produtos
agrícolas e, claro, se juntou à colônia japonesa local. Os netos de Kizo ingressaram na escola comunitária
(fundada nos anos 1970), assim como todos os seus descendentes até hoje.

Entre os muros da escola


Sanju Waragaya, que abre esta reportagem, e Kizo Hirata são meus bisavôs. O legado de educação que
eles construíram se estendeu a mim, à minha irmã, aos meus primos. Comecei o nihongakko com 5 anos e
ia às aulas diariamente. Ao longo de minha vida escolar, me dividi entre o ensino da escola pública e o da
escola japonesa – de 7h a 12h40 no ensino “brasileiro” e de 14h a 16h no nihongakko.

No caminho entre as duas, pegava uma marmita (bentô) que minha mãe deixava na banca de jornal do
meu pai. Comia bolinho de arroz (oniguiri), omelete em tiras (tamagô) e tirinhas de frango empanado
(karaguê) antes das aulas da tarde começarem. Aprendi a ler e a escrever os ideogramas japoneses, mas
as atividades artísticas e culturais foram as que mais me marcaram, talvez por me aproximar da origem de
meus ancestrais.

As aulas de origami eram terapêuticas e desa adoras. O mesmo posso dizer sobre a prática da caligra a
(shuji) com pincel e tinta preta em papel japonês (washi) – treinava por horas com meu avô para escrever
sem rasgar o papel. Aprendíamos matemática com o ábaco (soroban) e percussão tocando tambor (taikô).
E ainda tinha uma hora semanal de TV, com animações como Totoro e Chihiro, além de humorísticos
japoneses.
DISCIPLINA: A limpeza diária da classe era rotina – em raros momentos, porém, rolavam castigos físicos. (Guilherme
Henrique/Superinteressante)

Havia também os eventos anuais que mobilizavam não só a escola como toda a comunidade. Desses, o
undokai – uma gincana para as famílias, com competições durante todo o dia – era um dos mais
esperados. Além das corridas, tinha disputa de bola ao cesto (tamaire) e cabo de guerra (tsuna hiki). Nos
intervalos, a atração era o bon-odori, ritual de dança apresentado pelos alunos com a participação das avós
(batchans). Lembro também da ginástica de rádio (radio taiso), uma gravação que narra exercícios para
serem realizados em sincronia por todos no início do undokai.

Em setembro sempre tem o keirokai, uma festividade em homenagem aos avôs (ditchans) e avós da
comunidade. É um dia de comilança e de apresentações artísticas. Na minha época, durante os anos 1990,
ensaiávamos por vários meses o teatro musical, o coral, as danças… Era ocasião, também, para expormos
desenhos e caligra as. O mais legal era a possibilidade de receber um prêmio das mãos do ditchan caso
meu trabalho fosse contemplado.

Disciplina old school


Como estudei em uma escola de colônia bem tradicional, a agenda era cheia. Além das aulas regulares,
também tinha o atletismo (rikujou) nas manhãs de sábado e domingo, e o karaokê sábado à noite. Fora as
competições entre colônias, também aos ns de semana.

Como a gente dava conta? Com empenho e disciplina – valores caros à cultura japonesa, assim como a
ética, o respeito e a obediência.

A autodisciplina está tão enraizada na educação japonesa quanto o sentimento de débito com os pais.
Assim como os ancestrais que chegaram ao Brasil se esforçaram para construir escolas, os descendentes
lutam para dar a melhor educação aos lhos. Por isso, as crianças são ensinadas a encarar o cumprimento
das obrigações como forma de retribuição. Daí vem a dedicação (ou pressão) para tirar boas notas,
ingressar em boas universidades e obter sucesso pro ssional.

Na escola, além do respeito e da pontualidade, os alunos devem manter a ordem dos materiais pessoais e
de uso comum. Também é de responsabilidade deles preservar o espaço de estudo, com limpezas diárias
(osouji) após o m das aulas. Na minha escola, nos dividíamos em grupos e cada equipe tinha tarefas
semanais: varrer a sala, limpar as mesas, cuidar do jardim e lavar os banheiros – no m do ano ainda
fazíamos uma faxina geral.
FESTAS: Competições esportivas e festivais artísticos anuais divertem e perpetuam a cultura e as tradições
japonesas entre os descendentes. (Guilherme Henrique/Superinteressante)

Mas a disciplina não era sempre, digamos, tão espontânea… Às vezes rolavam punições físicas – o que
hoje já não ocorre mais. No Japão, aliás, elas foram proibidas após a 2a Guerra Mundial, mas alguns
castigos leves ainda acontecem por lá de forma velada. Para alguns professores mais velhos que
tínhamos, punir sicamente certas negligências seria uma maneira de “fortalecer o espírito” ou “formar
caráter”. Práticas como segurar um balde de água com os braços esticados, car em pé fora da sala de
aula ou tomar um cascudo na cabeça (genkotsu) já chegaram a acontecer comigo e alguns colegas –
ainda que fosse raro.

Atualmente, as escolas japonesas têm perdido força – embora resistam em algumas cidades do interior
paulista que ainda abrigam colônias e associações de moradores japoneses. É o caso da minha escola, em
Biritiba Mirim, que mantém mais de 40 alunos – eram quase cem alunos nos anos 1990. De lá para cá,
muita coisa mudou.

Felipe Hijioka, 11 anos, conta que as aulas acontecem duas vezes por semana, com duração de uma hora
– e a ênfase é o ensino de língua japonesa. “Na minha sala tem crianças e adolescentes, estudando o
mesmo nível. Tem até ‘brasileiros’ estudando”, explica, referindo-se a colegas não descendentes de
japoneses, o que não existia quando eu estudava. Caio Yoshida, 16 anos, também estuda no nihongakko
em Biritiba Mirim e cita tradições que foram mantidas: “Participamos anualmente do keirokai e ensaiamos
algumas apresentações. Até tem aula de caligra a de vez em quando, mas o foco é estudar a gramática, a
leitura e a pronúncia do idioma japonês”. As faxinas depois das aulas foram mantidas, assim como o
origami.
Desde que saí do nihongakko, aos 15 anos, me afastei da colônia – só mantive contato pelas redes sociais
com antigos amigos. Depois de relembrar minha história e pesquisar sobre as origens da tradição escolar
japonesa para escrever esta reportagem, deu vontade de voltar. Já recebi convites do meu pai, do meu tio
Antônio (que me contou a saga do meu bisavô Sanju) e de minha tia-avó Paulina (que me falou sobre o
biso Kizo) para participar de eventos da comunidade. Boa ideia. Seria uma forma de celebrar – e retribuir –
a educação que tive.

Fontes: Leiko Matsubara Morales, Junko Ota e Lica Hashimoto, do departamento de Letras Orientais da
USP; Literacy and Language Classes in Community Centers, da UNESCO; Bunkyo de São Paulo; Fundação
Japão; Livros Resistência & Integração – 100 anos de Imigração Japonesa no Brasil, do IBGE e Educação e
Cultura: Brasil e Japão, de Tizuko Morchida Kishimoto e Zeila de Brito Fabri Demartini

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Edição 391 Julho 2018
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