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Universidade da Beira Interior

FCSH – Sociologia: Exclusões e Políticas Sociais


Gerontologia Social

Os Cuidados a um
Familiar Idoso
Uma História de Vida

Docente: Prof. Dr. Johanna Schouten


Discente: Sandra Matos m3453

27- Maio - 2010


Os Cuidados a um Familiar Idoso

Idosos

Idosos….
Rostos e olhos enrugados,
Faces descoloridas…
Corações que entesouram tanta
Experiência, sabedoria e bondade!
1

Idosos…
Muitas vezes renegados
Pelos amigos, pela família,
Abandonados à própria sorte,
Guiados por mãos estranhas,
Alimentados e vestidos
Com dedicação por desconhecidos,
Que ouvem suas histórias de
Outrora,
Narradas com um fio de voz…
Um fio de voz que traduz
Muita esperança no coração
De quem hoje é uma criança
Que exibe a sua vivencia,
Passeia a sua experiência,
Segurando a mão que o acolhe
E o acaricia...

Arneyde T. Marcheschi

Universidade da Beira Interior – Gerontologia Social


Os Cuidados a um Familiar Idoso

Introdução

O presente trabalho1 insere-se na problemática geral dos cuidados prestados a familiares


idosos.
Esta temática têm sido amplamente discutida e explorada pelos teóricos no sentido de
perceber de que modo as famílias se organizam entre todas as esferas da sua vida
quotidiana.
2
Tendo em conta este tipo de cuidados é necessário identificar o tipo de relações
intergeracionais existentes assim como possíveis ligações a instituições seja elas
permanentemente ou apenas em situações esporádicas.

Neste trabalho, tendo em conta o contexto identificado em cima, irá ter-se uma história
de vida específica, referente a uma idosa, de nome Maria, de modo a exemplificar
aspectos que se debatem na teoria. Os dados apresentados ao longo do trabalho foram
recolhidos através de duas entrevistas semi-estruturadas à idosa e à cuidadora principal2.

Palavras-chave: Gerontologia, Família, Idosos, Fratrias, relações intergeracionais,


envelhecimento, modos de cuidar.

1
Este trabalho foi realizado no âmbito da cadeira de Gerontologia Social, leccionada no Mestrado de
Exclusões e Políticas Sociais existente na Universidade da Beira Interior.
2
É notável ao longo dos excertos das entrevistas a utilização de nomes e pronomes que evidenciam a
minha proximidade para com as entrevistadas, o que se revelou uma dificuldade ao longo do
questionamento.

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Há quem diga que a família é mais uma das instituições que está em crise, todavia no
que diz respeito ao suporte familiar prestado aos mais envelhecidos, Portugal continua a
ser um dos que privilegia o apoio familiar em detrimento do apoio institucional,
recorrendo a este somente em último caso, segundo Tennstedt e McKinlay a família
continua a assegurar a maioria dos cuidados e apoios a idosos, mantendo-os assim no
seio familiar (in Paúl, s/d, 283).
A história da D. Maria faz parte das que, as famílias, só pensam em institucionalização 3
quando não existir outra alternativa, contudo essa opção ainda está longe de se tornar
realizável.
D. Maria, uma senhora com os seus 83 anos, sempre esteve habituada a viver no meio
da natureza, entre árvores, e animais, tornando-se este o ambiente em que gosta de viver
e onde se sente bem.
Mãe de sete filhos (quatro raparigas e três rapazes), e viúva há 20 anos, nunca se sentiu
sozinha. Com o passar dos anos, o seu coração foi enfraquecendo assim como a visão,
sendo estes os únicos males de que se queixa, e ao mesmo tempo as razões que levaram
os filhos a tornarem-se cuidadores mais presentes.
Há mais ou menos dois anos, os filhos juntaram-se a fim de desenvolverem estratégias
para que a D. Maria não passasse tanto tempo sozinha. De acordo como o grau de
dependência do idoso, também assim se modificam o tipo de cuidados que são
prestados pela família, se se trata de um idoso altamente dependente, necessitará de
apoio nos cuidados mais básicos, caso contrário ocorre, quando o idoso necessita apenas
um tipo de cuidado, mais no sentido de “supervisão”, como é o caso, na medida em que
a falta de vista não facilita em algumas tarefas do seu dia-a-dia, principalmente na
preparação da alimentação (José, e Wall, 2008: 66).

Numa primeira fase, digamos assim, as decisões que a fratria tomou, não foram tidas em
conta pela idosa, num primeiro momento ela aceitou e concordou, mas quando deveriam
ocorrer alterações, ou deslocamentos para casa de um dos filhos, arranjava sempre
maneira de permanecer na sua casa mais algum tempo.
Numa seguinte reunião de fratria (passados alguns meses), as decisões tomadas já foram
tidas mais em conta pela idosa, contudo ainda hoje, nada acontece devidamente como
estabelecido.

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Dos sete filhos apenas dois deles habitam na localidade onde a idosa sempre viveu,
numa freguesia do Fundão (Vale de Prazeres), uma outra filha reside em Lisboa, e
vivem mais duas na Covilhã, os dois restantes vivem no estrangeiro (França).
Apesar de serem sete filhos, A fratria é constituída apenas por seis filhos, um dos filhos
que está em França ficou automaticamente fora da fratria, e assim das decisões tomadas,
por não estar tão próximo e por não manter um contacto mais regular, nem fisicamente,
nem através de outros meios como telefone e carta. A outra filha apesar de estar também
no estrangeiro possui uma postura mais interessada e presente, sendo esta a filha mais 4
velha, é lhe conferida uma determinada legitimidade pelos restantes irmãos. Ou seja foi
verificado que nenhuma decisão ocorre sem a aceitação dela.
“Todos não, menos dois, não foi? Menos a Mª José e o Zé Manel mas de acordo com ela.
Menos um, é que não esteve na reunião com a gente.” (Conceição, cuidadora)

Como já foi referido, a decisão de colocar a D. Maria num lar não foi do agrado dos
filhos, tentando assim arranjar alternativas, para evitar essa situação, e de modo a
manter a idosa no seio familiar o máximo de tempo. Ou seja, a solução resultante foi
numa primeira instância, a D. Maria passar um mês em casa de cada filho, sendo
retribuído a estes uma quantia em dinheiro. Contudo a exequibilidade de tal opção, não
se tornava viável, devido às características de cada agregado, e da própria vontade da
idosa, aspectos que foram necessários ter em conta.
As características referidas em cima, dizem respeito ao facto de em dois agregados não
existir ninguém em casa durante o dia (devido à actividade profissional), um outro
agregado, por se localizar no estrangeiro, e outro ainda por se localizar também a uma
longa distância, a qual não é suportada pela D. Maria. Sendo assim sobraram dois
agregados entre os quais é possível a idosa dividir a sua estadia (Covilhã e Vale de
Prazeres).
“Concordei que queriam que eu fosse um mês para o Tio Tó, um mês paqui, um mês lá
para cima, e um mês para outro lado, eu concordei com isso. Mas agora estou aqui, é só daqui
para a Tia são. (…) o Tio Tó, ela está a trabalhar, ele não para também em casa também está a
trabalhar e eu para estar ali todo o dia sozinha, ou estou aqui ou vou para a Tia São(…) a Tia
Rosinda umas vezes vai ali deitar o gado mas depois vem ou vai ali a sachar ou a regar um
bocado de terra e vem é diferente não é?” (D. Maria)

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“Ficaram de parte, a tia Rosinda e eu é que dividimos em vir só para as nossas.


[Porquê?] Porque a tua mãe estava a trabalhar, a tia São estava a trabalhar, a Tia Lurdes, lá
para baixo ela não ia. Foi combinado só para nós os dois, não sei.” (Conceição, cuidadora)

Apesar de ter sido aqui explicitamente explicado as razões da escolha dos agregados,
aquando da decisão, estas foram automaticamente percebidas, o que fez com que os
filhos pertencentes a cada um desses agregados se tenham logo voluntariado para tal,
visto concordar que eram as melhores soluções. Contudo também foi consensual que
5
mesmo entre esses dois agregados era preferível a idosa estar mais tempo a residir na
Covilhã, uma vez que a filha não exerce uma actividade profissional fora de casa,
apenas na agricultura, sempre conseguia um maior acompanhamento/supervisão da D.
Maria, assim como proporcionar melhores condições, para além que ainda poderia
contar com uma ajuda mais regular da outra filha que reside perto. Por outro lado
também foi consensual que era impossível manter D. Maria muito tempo longe da sua
casa, longe da sua terra, da sua “quinta” sendo, ainda por cima, a sua casa própria
geminada com a do outro agregado cuidador. Neste sentido quando se dá ênfase à
vontade do idoso e tentar proporcionar o maior bem-estar possível, tendo em conta os
recursos disponíveis de cada elemento da fratria, a autora Luísa Pimentel (2008:5),
define que se está perante uma “regulação equitativa negociada com base no princípio
do efeito”.

Actualmente é notório que existe uma flexibilidade na rotação entre cada cuidador. A
idosa gere a estadia em casa de cada filho consoante a sua vontade, e porventura devido
a alguns serviços que tenha que efectuar na localidade em questão, como consultas no
médico, levantamento de alimentação no centro de dia, entre outros. Ou seja, não ocorre
uma calendarização rígida. “Agora já há dois meses, já há dois meses e meio que está
para além” (Conceição, cuidadora). Este aspecto revela que o modo de cuidados está
assente num “esquema rotativo flexível”, isto é, são mais “facilmente e frequentemente
adaptados às circunstâncias” (Pimentel, 2008: 6).

Outro aspecto que é visível, e tal como os teóricos defendem, é que os cuidadores são na
generalidade dos casos mulheres, mesmo quando o elemento pertencente à fratria é um
filho, quem posteriormente fica com os encargos é a esposa, ou seja a nora da idosa.
Neste caso específico, verifica-se isso mesmo, as duas principais cuidadoras são filha e

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nora. Neste pequeno trabalho confirma-se o que refere a autora Graça Pimenta et al
(2008:611) relativamente às cuidadoras, pois são normalmente “mulheres, casadas, com
média de 55 anos de idade e com uma reduzida escolaridade, tema aos seus encargos,
além do papel de cuidador do idoso, o cuidado do lar, como mãe de família”.

Quanto aos apoios prestados, a idosa recebe um cabaz em datas festivas do centro de dia
de Vale de Prazeres, aquando a realização da entrevista, a idosa tinha informações que
esse mesmo cabaz ia passar a ser entregue mensalmente á própria, contudo não se 6
chegou a verificar, permanecendo a entrega apenas em alturas festivas. Foi interessante,
porque ao longo desta explicação a D. Maria já utilizava este argumento para passar
mais tempo “na quinta” devido a ter de ir receber pessoalmente o cabaz.

“sim porque vão dar a mercearia todos os meses, ali agora, e eu tenho que ir primeiro
a ver como é qu’é… se lá pode ir uma pessoa levantar-ma então vou…se lá não pode ir
ninguém a levantar-ma a mercearia tenho que eu estar aqui para ir a levantá-la”. (D. Maria)

Nos dois agregados familiares é notável a ajuda prestada pelos restantes membros, isto
é, os filhos do cuidador/ os netos da D. Maria prestam também cuidados/apoios sempre
que necessário. Quando a D. Maria se encontra na Covilhã, a outra filha que se encontra
na mesma localidade, também a visita regularmente ajudando sempre que necessário,
sendo esta a maneira que encontra de ajudar, uma vez que não possui condições para
receber a idosa em sua casa como já foi referido.

“Na casa da Tia São, não tenho dores de cabeça com os comprimidos, o João, quando é
a hora do comer põe-me ali os comprimidos em cima da mesa que eu devo tomar, a verdade
agente tem que a dizer. É homem, mas à hora de manhã, ou à noite, ou ao meio dia, quando ele
está é ele é que prepara”. (D. Maria)

“Sou eu que tomo conta de tudo, só as vezes a tua mãe é que quando é preciso cá vem,
mai do resto (…) e os remédios o João quando cá está e sempre ele” (Conceição, cuidadora)

Tendo em conta o que foi referido acima, poderá indicar-se que consoante a teoria o tipo
de solução encontrada reside num “perfil misto” uma vez que para além dos cuidados
prestados pelos familiares, a idosa em questão recebe ajudas, principalmente a nível de

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alimentação, de um centro de dia, e mesmo quando é necessário dirige-se a este para


obter uma refeição (paga), mesmo que isso ocorra em momentos pontuais (José e Wall,
2008:66). Outros autores definem este tipo de perfil como sendo “estratégias de
complementaridade” (Pimentel, 2008:6).
“Dever ou Afecto”, a D. Maria espera que cuidem dela por gostarem e terem carinho
por ela, contudo também admite ser uma obrigação dos filhos, esta prestação de
cuidados, como sendo uma forma de retribuição.
“Eu na minha ideia acho que eles têm direito a tratar de mim porque eu quando eles eram 7
pequenos também tratei deles. Agora se quiserem tratar de mim com carinhos tratam, se não
quiserem também não vale a pena tarem a tratarem-me por favor!”. (D. Maria)

Conclusão

Ao longo de todo o trabalho estão presentes aspectos conclusivos na comparação entre a


teoria e este caso específico. É possível adequar a teoria, a nível dos modos de
regulação e de estratégias para o cuidado de um familiar idoso, contudo torna-se visível
após este trabalho que nada é tão linear, nada se torna tão rígido quando ocorre
empiricamente, existem por vezes a utilização em simultâneo de vários modos de
cuidar, assim como a nível das estratégias.
Outro aspecto importante de salientar, reporta-se ao facto de a idosa possuir uma
liberdade nas suas escolhas e vontades apesar das decisões tomadas pela fratria,
verificando-se sempre uma enorme flexibilidade de modo a corresponder sempre às
expectativas da mesma.
A saúde das cuidadoras, neste caso, também se tornou num aspecto relevante, contudo
não era o propósito deste trabalho, permanecendo assim, a ideia para um próximo
trabalho nesta área, perceber até que ponto a saúde das cuidadoras é influenciada pela
carga de trabalho das mesmas, juntamente com os cuidados prestados à idosa.

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Bibliografia

JOSÉ, São José e WALL, Karin (2008) “Trabalhar e cuidar de um idoso dependente:
Problemas e Soluçoes” in Actas dos ateliers do Vº Congresso Português de
Sociologia, pp 65- 72
PAÚL, Constança (s/d) Envelhecimento Activo e Redes de suporte social, disponível
em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3732.pdf 8
PIMENTA, Graça e tal (2008) “Perfil do familiar cuidador de idoso fragilizado em
convívio doméstico da grande região do Porto, Portugal” in Revista da
Escola de Enfermagem USP, disponível em
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0080-
62342009000300016&script=sci_arttext
PIMENTEL, Luísa, (2008) “Entre o dever e os afectos: os dilemas de cuidar de
pessoas idosas em contexto familiar” in V Congresso Português de
Sociologia

Bibliografia Consultada

LAGE, Isabel (2005) “Cuidados Familiares a Idosos” in PAUL, Constança e


FONSECA, António (2005) Envelhecer em Portugal. Psicologia, saúde e
prestação de cuidados, Lisboa: Climepsi Editores, pp203- 229
MARTIN, Claude (1995) “Os limites da protecção da família” in Revista Critica de
Ciências Sociais, nº42, pp. 53- 76
MAURITTI, Rosário (2004) “Padrões de Vida na Velhice” in Análise Social, nº 171,
pp. 339-363
OLIVEIRA, Camila e tal (2006) Idosos e Família: Asilo ou Casa, disponível em
http://www.psicologia.com.pt/artigos/ver_artigo.php?codigo=A0281

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