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A Queda de Cingapura

Derrota na Malásia

A colônia pagou caro pela incrível falha dos britânicos em reconhecer a crescente ameaça japonesa. Uma das
rotas para Cingapura - a que atravessava a floresta - era “impenetrável” a um exército invasor... mas foi por
ali que passaram os nipônicos. E uma retirada humilhante e sangrenta deixou os civis à mercê da medonha
ocupação.

Colapso de uma fachada


O livro de Arhur Swinson é um relato inteligente e fascinante da campanha japonesa na Malásia, iniciada em
dezembro de 1941, que culminou com a queda de Cingapura, no começo de fevereiro de 1942.

No plano japonês, a conquista da Malásia e Cingapura cabia ao 25 o Exército nipônico, do General Yamashita,
formado de três divisões, com tropas de apoio - somando o efetivo de combate uns 70.000 homens e o
efetivo total aproximadamente 110.000 homens. Os transportes marítimos à disposição de Yamashita eram
suficientes para levar apenas um quarto da força através do Golfo do Sião - 17.000 soldados combatentes,
26.000 ao todo. Essa fração avançada deveria tomar os aeródromos setentrionais; o grosso do exército
nipônico se deslocaria por terra, através da Indochina e do Sião.

Os principais desembarques japoneses foram feitos em Singora e Patani, na garganta siamesa da península
Malaia, com quatro desembarques subsidiários, mais ao norte, na costa do Sião.. Estes desembarques foram
feitos às primeiras horas do dia 8 de dezembro, hora local. O avanço de evitação pretendido pelos britânicos,
a “Operação Matador”, iniciou-se tarde demais, por relutarem estes em cruzar a fronteira do Sião antes que a
neutralidade do país fosse violada pelos japoneses. Pela manhã de 10 de dezembro, a 5 a Divisão japonesa já
se havia desviado para a costa oeste e penetrara a fronteira da Malásia, avançando, por duas estradas, até
Kedah.

Naquele dia, os britânicos sofreram um desastre no mar. Após a decisão, tomada em julho, de cortar os
suprimentos petrolíferos para o Japão, Winston Churchill “compreendera os efeitos formidáveis dos
embargos” - tarde demais, conforme ele próprio reconheceu - e um mês depois, a 25 de agosto, propôs o
envio para o Oriente de uma força naval “repressiva”, conforme classificação sua. Nessa conformidade, o
Prince of Wales e o cruzador de batalha Repulse zarparam para Cingapura - mas sem o apoio de porta-
aviões. O que fora destacado para acompanhá-los encalhara na Jamaica e teve de ser levado para o estaleiro,
para reparos. Havia outro no oceano Índico e ao alcance de Cingapura, mas não recebeu ordens para se
deslocar para lá.

O Prince of Wales e o Repulse chegaram a Cingapura a 2 de dezembro e, no dia seguinte, o Almirante Sir
Tom Phillips assumiu o comando da Esquadra do Extremo Oriente. Pelo meio-dia de 8 de dezembro, Phillips
soube que os japoneses estavam desembarcando tropas em Singora e Kota Bahru, protegidos por pelo menos
um couraçado da classe Kongo, cinco cruzadores e 20 destróieres. No fim da tarde, Phillips zarpou para o
norte, com a chamada “Força Z” - os dois grandes navios referidos e uma escolta de quatro destróieres - para
atacar os transportes, embora não pudesse contar com cobertura aérea de aviões baseados em terra, uma vez
que os aeródromos haviam sido tomados pelo inimigo.

Na noite do dia 9, o tempo melhorou, desfazendo-se do manto que aumentava a obscuridade. Sua “Força Z”
foi avistada do ar, de modo que Phillips desviou-se para o sul, rumando para Cingapura. Mas, naquela noite
chegou um sinal de lá informando, erroneamente, que os japoneses haviam feito um desembarque em
Kuantan, ponto situado a meio do caminho. Julgando que talvez fosse possível surpreendê-los, e que o risco
era justificado, ele alterou o curso da força, dirigindo-se para Kuantan.

Os japoneses estavam porém, preparados para qualquer movimento de interceptação que a “Força Z”, cuja
chegada a Cingapura fora transmitida ao mundo, viesse a tentar. Sua 22 a Flotilha Aérea, de elite, com os
melhores pilotos da arma aeronaval, estava baseada nos aeródromos próximos de Saigon, no sul da
Indochina. Os dois navios foram afundados, o Repulse por volta das 12h30, e o Prince of Wales às 13h20.
Este golpe selou o destino da Malásia - e de Cingapura. Os japoneses puderam continuar desembarcando sem
obstáculos e estabelecer bases aéreas em terra. A superioridade da força aérea nipônica sobre os parcos
efetivos aéreos que os britânicos possuíam na Malásia foi decisiva no colapso da resistência que estes
tentaram, permitindo que as tropas de terra japonesas abrissem caminho pela Península Malaia abaixo e
forçassem a porta traseira de Cingapura.

A partir de 10 de dezembro, a retirada britânica pela costa oeste tornou-se quase contínua. Obstáculos
rodoviários eram vencidos, ora pelos tanques e artilharia japoneses, ora pelo ataque de flanco da infantaria
nipônica, que se infiltrava pela selva limítrofe.

Na noite de sábado, 8 de fevereiro de 1942, as duas divisões avançadas da força invasora, que haviam
coberto os 800 km de extensão da península Malaia, cruzaram o estreito canal que separa a ilha de Cingapura
do continente. A travessia foi feita num trecho do canal, cujo comprimento é de 48 km, de 1.600 m de
largura.

Barcaças de desembarque blindadas transportaram as primeiras levas de atacantes, seguindo as restantes em


toda sorte de barcos que puderam ser reunidos, e vários japoneses chegaram mesmo a nadar até a outra
margem - levando seus fuzis e munição. Algumas das barcaças foram afundadas, mas a maioria das tropas de
assalto desembarcou a salvo, pois houve falhas dos defensores, falhas que nunca foram explicadas
satisfatoriamente. Os holofotes das praias não foram utilizados, meios de comunicação falharam, ou não
fizeram uso deles, e a artilharia demorou a lançar sua cortina de fogo defensivo.

Ao clarear o dia, 13.000 japoneses estavam em terra e os defensores haviam recuado para posições situadas
no interior. Antes do meio-dia, os efetivos dos invasores haviam subido para mais de 20.000 homens, que
estabeleceram um profundo “alojamento” na parte noroeste da ilha - que tem mais ou menos o mesmo
tamanho da Ilha de Wight. Mais tarde, uma terceira divisão japonesa também desembarcou, elevando o total
para bem mais de 30.000 homens.

Havia duas outras divisões nas proximidades, no continente, mas o General Yamashita julgou que não
poderia deslocá-las eficazmente no avanço para a ilha.

Numericamente, os defensores tinham na ilha efetivos mais que suficientes para repelir a invasão, sobretudo
porque ela se deu no setor onde era mais esperada. O General Percival tinha cerca de 85.000 soldados sob
seu comando - na maioria britânicos, australianos e indianos, além de unidades locais, malaias e chinesas.
Mas a maioria era mal treinada para enfrentar a força atacante japonesa, composta de soldados especialmente
escolhidos para a finalidade, e foram sempre superados na densa selva ou nos seringais. Em geral, a
liderança eram ruim.

As unidades aéreas foram logo batidas, inferiorizadas em número e na qualidade de aviões, e o pouco que
restava foi retirado nos momentos finais da luta. A falta de proteção contra os ferozes e incessantes ataques
aéreos do inimigo foi o fator mais desmoralizante para os soldados, cujo ânimo já estava deprimido pelo
longa retirada através da Península Malaia.

Em Cingapura, o fim deu-se no domingo, 15 de fevereiro - exatamente uma semana após os desembarques
dos japoneses. Já então, os defensores haviam sido repelidos para os subúrbios da cidade de Cingapura,
situada na costa sul da ilha. Os estoques de alimento estavam diminuindo e o suprimento de água podia ser
cortado a qualquer momento. Naquela noite, bandeira branca em punho, o General Percival saiu para render-
se ao comandante japonês.

Pelo menos de imediato, o efeito estratégico da perda de Cingapura foi desastroso, pois a ela seguiu-se logo a
conquista da Birmânia e das Índias Orientais Holandesas - num avanço de duas pontas que levou os
japoneses a se aproximarem ameaçadoramente da Índia, num flanco, e da Austrália, no outro. Seguiram-se
quase quatro anos de luta, de luta muito cruenta, antes que Cingapura fosse recuperada, como resultado do
colapso definitivo do Japão, devido à exaustão e ao choque da explosão das bombas atômicas.

Mas os efeitos mais prolongados e mais amplos da queda inicial de Cingapura foram irreparáveis. Cingapura
fora um símbolo - símbolo do poderio do Ocidente no Extremo Oriente, erguido e por muito tempo mantido
pelo poderio marítimo britânico.
O general e a tarefa
Na manhã de 2 novembro de 1941, três tenentes-generais graduados do Exército Imperial Japonês
apresentaram-se ao Chefe do Estado-Maior-Geral, General Sugiyama. Eram eles Masaharu Homma, Hitoshi
Imamura e Tomoyuki Yamashita, e a notícia que receberam foi provavelmente o fato mais importante da
carreira desses oficiais: dentro de poucas semanas, o Japão estaria em guerra e eles seriam os principais
comandantes-de-campanha. Homma dirigiria o 14 o Exército contra o General Douglas MacArthur, nas
Filipinas; Imamura, o 26o Exército contra as Índias Orientais Holandesas; e Yamashita, o 25 o Exército contra
a Malásia e Cingapura. Silenciando por instantes para permitir que os generais expressassem humildemente
gratidão pela honra que lhes estava sendo concedida, Sugiyama ficou surpreendido ao ver-se sob uma
barragem de perguntas feitas por Homma, que desejava saber exatamente quem compilara os sumários do
Serviço de Inteligência sobre as forças inimigas, quem marcara as datas para o término das campanhas e
como as tropas destinadas às operações haviam sido distribuídas. Homma detestava Sugiyama e não
demorou muito para que a atmosfera ficasse um tanto tensa; mas Imamura conseguiu fazer que se
restabelecesse a calma, observando que embora fosse necessária a fixação de datas, ninguém estava sendo
obrigado a dar garantias. Homma, acrescentou ele, devia aceitar a tarefa que lhe fora destinada e fazer o
melhor possível. Nenhum soldado podia fazer mais que isso.

Terminada a reunião, depois de trocarem votos de boa sorte, Homma, Imamura e Yamashita partiram em
direção aos respectivos Q-Gs, para darem início ao planejamento. Embora compreendesse o ponto de vista
de Homma, Yamashita não pensaria em discutir daquele modo, pois era por demais versado no código
samurai, que dispunha que o soldado deveria cumprir qualquer tarefa, ainda que lhe custasse a vida. Os
padrões que adotava eram rígidos e absolutos, assim como sua devoção ao Imperador.

Não obstante, Yamashita recebeu seu comando com dubiedade, pois sabia que Tojo, Sugiyama e a Facção de
Controle - uma das panelinhas políticas do exército japonês - que ocupavam o poder, não gostavam dele.
Sabia também que seria meticulosamente observado e espionado, e qualquer fracasso seria punido com
demissão e ignomínia. Tampouco estava ele confiante em que o sucesso lhe pudesse render grandes
recompensas. Yamashita era uma personalidade curiosa e complexa. Com 56 anos de idade, era gordo, mas
muito tenso; talentoso, mas muitas vezes desorientado; inflexível e difícil de contentar; moderno em muitos
aspectos, mas preso ao passado. Embora avesso à hipocrisia e à evasão, e no tocante à arte militar mostrasse
grande realismo e tirocínio, ainda assim sua carreira sofria por causa da divisão de lealdades e de problemas
não solucionados. Às vezes ele se enterrava até o pescoço em aventuras políticas, e suas mãos não eram nada
limpas. Mas, mesmo seus inimigos reconheciam nele notáveis qualidades de competência e liderança, e seus
amigos - especialmente os jovens oficiais que haviam servido em seu Estado-Maior - consideravam-no o
melhor comandante de todo o exército, não duvidando que ele tomaria Cingapura.

Yamashita nasceu na aldeia de Osugi Mura, em Shikoku, a menor das ilhas metropolitanas do Japão, filho de
um médico. Durante algum tempo, Yamashita pensou em seguir a carreira do pai, mas suas notas escolares
não eram nada boas, por isso que seus pais passaram a ver o exército a melhor esperança para o filho. Ele
disse o seguinte dessa decisão: “Talvez fosse meu destino. Eu não escolhi essa carreira. Talvez meu pai
tivesse sugerido a idéia porque eu era grande e saudável, e minha mãe não fez objeções sérias porque
acreditava, Deus a abençoe, que eu jamais passaria no rigoroso exame de admissão”. Mas ele passou com
facilidade e ingressou na Academia Militar de Hiroxima, formando-se com distinção. Destacado para a
infantaria, demonstrou tal domínio dos segredos da arma, que ganhou ingresso na Escola de Estado-Maior.
Em 1916, formou-se em sexto lugar e em seguida começou uma temporada de serviço no Estado-Maior-
Geral. Ali, as suas qualidades foram-se evidenciando e, em três anos, subiu de capitão a tenente-coronel. Em
1919, foi para a Suiça, como adido militar; em 1926, já no posto de major-general, retornou ao Japão, para
lecionar na escola de Estado-Maior, sendo depois mandado para Viena. Casado com uma filha do General
Nagayama, em 1916, não tinha filhos; quando de folga, seu passatempo eram a pesca e a jardinagem. Ele
gostava de música, mas não de dançar; não tinha automóvel e nunca aprendeu a dirigir. Era profundamente
religioso, acreditando sem reservas no grande Deus Norito e no Deus mau, ou Diabo, Susano, embora ainda
se discuta se ele era tão profundamente ligado à religião quanto ao código samurai.

Pelo final dos anos 20, as panelinhas militares do Japão estavam agindo, cada qual procurando gritar mais
alto seu patriotismo e sua lealdade ao Imperador, mas todas, desmedidamente ambiciosas, decididas a
conseguir o que queriam, independente do custo. Yamashita ligou-se à Casta Imperial e a seu líder, o fanático
General Araki, que pregava a necessidade de um governo militar. Yamashita detestava os ricos representantes
da classe empresarial, que compravam o poder, e não confiava nas suas ambições políticas; e ele encorajava
alguns dos jovens oficiais com suas perigosas intrigas. Enquanto Yamashita comandava o 3 o Regimento, Tojo
comandava o 1o, e fazia deste o centro de atividade de uma panelinha militar rival: a Facção de Controle.
Eles haviam servido juntos na Suiça, onde entre os dois nasceu forte antipatia que a rivalidade política
transformaria em inimizade muito séria. Em 1936, depois que os moderados triunfaram nas eleições para a
Dieta, o Ministério da Guerra notificou que a 1 a Divisão de Infantaria (incluindo o 1o e o 3o Regimentos)
seria transferida para a Manchúria. Isto provocou agitação entre os jovens oficiais, e dois dos protegidos de
Yamashita, Capitão Ando e Capitão Nonaka, o procuraram com o rascunho de um manifesto que declarava
abertamente que a guerra contra a Rússia, China, Grã-Bretanha e Estados Unidos não estava longe, e
prosseguia: “Estamos convencidos de que é nosso dever destituir os vilões que cercam o trono. Nós, filhos da
querida pátria dos deuses, agimos com pureza de coração”. Sem aconselhar ou restringir os conspiradores,
Yamashita devolveu-lhes o manifesto sem qualquer comentário, e a 26 de fevereiro eles entraram em ação.
Vários membros do governo foram assassinados e a vida em Tóquio parou. Yamashita foi destacado para
atuar como negociador entre o governo e os rebeldes e, a 28, transmitiu-lhes as ordens do Imperador, para
que todos depusessem as armas e retornassem aos quartéis. Quando Ando, Nonaka e o grupo de jovens
oficiais que o cercavam lhe perguntaram o que deveriam fazer, ele respondeu secamente: “Suicidem-se -
cometam seppuku”. A maioria concordou, mas quando o Capitão Isobe declarou que não tinha intenção de
morrer, Yamashita olhou-o com frio desprezo e afastou-se. Na sua opinião, o código samurai, dispondo que o
fracasso devia ser expiado com o suicídio, não admitia exceções. Ao mesmo tempo, enquanto encorajava a
revolta de todas as maneiras concebíveis, Yamashita tomara o cuidado de não fazer nada que pudesse
implicá-lo. Um dos conspiradores, ao comentar suas atitudes colocava-o “entre o esperto e o ardiloso”, e
havia muita verdade nisso. Só que não era suficientemente ardiloso para iludir o Imperador, que depois que
Araki e outros oficiais ou foram reformados ou demitidos de seus postos, retirou da lista de promoções o
nome de Yamashita e o designou para o comando de uma brigada na Coréia. Ali ele se saiu bem. Mais tarde,
foi mandado para a China, onde comandou uma divisão. Posteriormente, tornou-se Chefe de Estado-Maior
do Exército da China Setentrional. Os oficiais que na época serviam sob seu comando ouviram-no dizer,
mais de uma vez, que ansiava morrer em ação, pois sentia profundamente a censura que lhe fizera o
Imperador. Mas as chances para o serviço ativo eram limitadas e, quando lhe suspenderam o impedimento a
promoções, em 1937, ele foi a tenente-general. Sua reputação militar cresceu gradualmente, e em julho de
1940 foi chamado de volta a Tóquio, para substituir Tojo como Inspetor-Geral da Aviação do Exército.
Alguns meses depois, nomeado Tojo Ministro da Guerra, ele foi mandado em viagem à Alemanha e Itália.
Tojo decidira que era preciso negar a Yamashita qualquer chance de se transformar no ponto focal de
elementos dissidentes. Ele passou seis meses na Europa, visitando depósitos e áreas de treinamento e
estudando as armas mais modernas do exército alemão. Em seu relatório, chamou a atenção das autoridades
nipônicas para o fato de que o Japão não poderia travar uma guerra moderna se não procedesse a um
completo programa de atualização de sua força aérea, de sua unidades mecanizadas, de todo o equipamento
de comunicações e de engenharia. Tojo não gostou do relatório, ignorando-o quase todo. Ao retornar ao
Japão, Yamashita foi mandado para o posto insignificante de comandante do Exército de Defesa de
Kwantung, na Manchúria, onde permaneceu até novembro de 1941, quando recebeu ordens de Sugiyama
para se apresentar ao Q-G Imperial, em Tóquio, onde foi informado da sua nomeação para o 25 o Exército.

Embora não fosse imperialista fanático, como alguns, não pode haver dúvida de que Yamashita considerava
justa e inevitável a guerra iminente. Mais tarde escreveu:
“A causa desta guerra é fundamentalmente econômica. Há cinqüenta anos o Japão era mais ou menos auto-
suficiente - o povo podia viver da terra. Desde então, a população praticamente dobrou, de modo que o Japão
passou a depender de fontes externas para suprir-se de alimentos e outras necessidades. A importação de tais
mercadorias tem de ser custeada, basicamente, por mercadorias. Este esforço foi, entretanto, prejudicado, por
uma ou outra razão, pelos outros países. O Japão tentou resolver as incompreensões através de métodos
pacíficos, mas, frustrados, ou negados, os esforços que desenvolveu, considerou necessário empenhar-se em
guerra aberta”.

Este argumento eqüivale, virtualmente, a afirmar que se um país necessita de territórios, por motivos
econômicos, pode tomá-los à força.

A verdade é que o exército japonês havia muito mostrava-se propenso à guerra e, aos poucos, reuniu força
suficiente para buscar seus objetivos. Já em 1919, o senador americano Henry Cabot Lofge advertira:
“O Japão está apoiado em idéias alemãs e considera a guerra uma indústria, porque, pela guerra, conseguiu
ampliar o Império. Ele ameaçará a segurança do mundo”.
Demorou um pouco para que as profecias do senador se realizassem, mas em 1931 o Japão invadiu a
Manchúria e criou o Estado do Exército de Machukuo. Em 1937, ele inventou o incidente da Ponte de Marco
Polo, em Pequim, que provocou a guerra com a China e, dois anos mais tarde, ele levou a guerra até a China
meridional. Em setembro de 1940, pouco antes de assinatura do “Pacto Tripartite”, com a Alemanha e a
Itália, suas tropas invadiram o norte da Indochina. Naturalmente, estas conquistas provocaram grande
oposição entre as Potências Ocidentais, especialmente nos Estados Unidos, que mantinham elos de amizade
com a China. A partir de 1938, o governo americano começou a embargar as exportações de bens
manufaturados para o Japão, e nos dois anos seguintes incluiu na lista de mercadorias embargadas duas das
que mais necessitava ele: sucata de ferro e petróleo. Pelo verão de 1941, o laço estava tão apertado que os
líderes japoneses compreenderam que tinham de submeter-se às exigências americanas, e se retirarem dos
territórios conquistados, ou lutar contra os Estados Unidos. Não é de espantar que escolhessem a luta.

Mas o passo que tornou a guerra inevitável - se é que já não o era - foi a ascensão de Hideki Tojo ao posto de
Primeiro-Ministro. Figura sinistra, ele adquiriu enorme prestígio em 1937, como Chefe de Estado-Maior do
Exército de Kwantung. Líder inconteste da Facção de Controle, ele fora, anteriormente, chefe da kempei, ou
Polícia Militar, que sob sua orientação desfrutou de grande poder em todo o exército e marinha, e, na
verdade, no país inteiro. Como Ministro da Guerra, aumentou ele, gradualmente, a força que possuía e o
domínio do exército sobre o destino da nação. Mas, quando aceitou o convite para formar um gabinete, em
outubro de 1941, para evitar uma crise política, ele externou a disposição em que estava de levar o país à
guerra. Assim, o exército e a marinha aceleraram seus preparativos e a finalização dos planos de guerra
tornou-se questão da mais alta prioridade.

Esses planos já iam bem adiantados quando, a 6 de setembro, houve uma Conferência Imperial, presente o
Imperador, e se fixara limite de tempo para as negociações com os Estados Unidos. A despeito da afirmação
do Imperador, de que todos os recursos diplomáticos tinham de ser tentados antes de se pensar em qualquer
outra forma de ação, foram feitos pedidos de 400.000 toneladas de navios, para o deslocamento de quatro
milhões de soldados, e o recrutamento de milhares de outros. Ao mesmo tempo, um ataque à Rússia,
defendido por um grupo de generais (“os defensores do caminho do norte”), foi decisivamente rejeitado, em
favor de um ataque contra o Sião, a Malásia e as Filipinas. Ademais, o Almirante Yamamoto, Comandante-
Chefe das Forças Combinadas Navais e Aéreas, que combatera o plano de ataque aos Estados Unidos e Grã-
Bretanha, fora vencido e tachado de derrotista. O Estado-Maior-Geral Naval aliava-se ao exército.

Havia, contudo, controvérsias sobre a tática a ser empregada contra a Malásia, as quais foram resolvidas
numa série de conferências dos representantes das várias armas. A Marinha queria que os desembarques
fossem precedidos por bombardeio prolongado das defesas de praia e de um ataque intensivo contra as bases
aéreas. A menos que se fizesse isso, argumentou o Estado-Maior Naval, suas belonaves estariam vulneráveis
a ataques aéreos e, como disse um oficial: “Retidos ali, protegendo os comboios, seríamos presas fáceis”. O
exército, por outro lado, defendia a aplicação do elemento surpresa. Os generais estavam convencidos de que
os britânicos não moveriam um dedo antes que a guerra fosse declarada ou as hostilidades se iniciassem,
quando então as tropas de assalto já estariam em terra. Além disso, desde o clarear do dia, a 3 a Divisão Aérea
estaria em ação e, com sua grande vantagem em quantidade e qualidade de aviões, poderia obter o domínio
aéreo em poucas horas.

Havia outros fatores implicados no argumento. O Dr. Nishimura, oficial do serviço de meteorologia de
Formosa, era de opinião que a 6 e 7 de dezembro haveria ventos moderados, mas no dia 8 a monção norte-
leste começaria e, daí em diante, o mar ao longo da costa malaia se tornaria cada vez mais agitado. Portanto,
8 de dezembro era o último dia possível para os desembarques, e se se perdesse tempo com um bombardeio
preliminar, toda a operação talvez fracassasse. Era muito provável que os desembarques não pudessem ser
tentados novamente antes do mês de abril.

Mas, a despeito desse argumento, e de outros, o Estado-Maior Naval manteve-se firme; os riscos para suas
belonaves eram inaceitáveis, diziam os representantes do órgão. Era preciso chegar-se a um meio-termo.
Então, diante do impasse, o Vice-Almirante Jisaburo Ozawa, já designado Comandante da Força Combinada,
levantou-se e falou aos presentes à conferência. Ele compreendia o desejo do exército, de desembarcar logo e
sem bombardeio prévio, disse. Suas razões eram válidas e deviam ser aceitas pelo Almirante Yamamoto e
pelo Estado-Maior Naval. Então, para espanto de todos e para horror do Almirante, ele declarou: “Acho que
a Marinha devia aceitar a proposta do Exército, mesmo com risco de aniquilamento”. A discussão terminara,
havendo concordância sobre o plano de invasão da Malásia.
Naturalmente, tudo isto aconteceu antes da nomeação de Yamashita, que ao assumir o comando, a 5 de
novembro, descobriu que seus interesses haviam sido protegidos pelo General Iida. É de duvidar que
Yamashita soubesse muita coisa sobre a Malásia, embora freqüentemente mencionada nas reuniões do
Estado-Maior, pela grande importância que tinha para o Japão, tendo em vista o embargo que lhe era
aplicado pelos Aliados. Juntamente com a grande base naval britânica que havia na Ilha de Cingapura, ela
representava uma presa de espantosa riqueza.

Mas, como seria ela capturada? Como Yamashita viria a descobrir, o Alto Comando estudava o problema
havia um ano. Em janeiro de 1941, estabelecera-se na ilha de Formosa uma pequena unidade chamada
“Seção de Pesquisa do Exército de Taiwan”, sob o comando de uma figura secundária da Facção de Controle
e sequaz do general Tojo, o Coronel Masanobu Tsuji. Tsuji era mandão e vivia interferindo em tudo, sendo
por isso, e por ser espião de Tojo ali colocado para controlar os passos dos comandantes, segundo opinião de
todos, odiado por seus companheiros de farda. Não obstante, ele tinha grande poder de percepção e
assimilação, o que lhe seria de grande utilidade, pois recebera instruções para estudar a questão da guerra na
selva, como seria travada na Malásia, e resolver os problemas por ela apresentados. Assim, com o auxílio de
dez ajudantes, ele começou a sondar rápido e profundamente. De que maneira as táticas deveriam ser
adaptadas para a guerra tropical e na selva? Que tipo de roupa e que equipamento seriam necessários? E as
comunicações, como seriam feitas? Como seriam solucionados os problemas sanitários e de socorro aos
feridos? Conforme Tsuji registrou: “Infernamos os especialistas em todos os setores. Chegamos mesmo a
usar nossa hora da sesta para palestras, sempre assistidas com avidez... Esse grupo insignificante, naquele
momento era por certo a autoridade suprema em guerra tropical”. Pela primavera de 1941, Tsuji começou a
pensar na solução do caso relacionado com o objetivo final da campanha, ou seja, a base naval de Cingapura.
Depois de interrogar oficiais do exército e da marinha, redigiu suas conclusões, nos seguintes termos:

“1. A Fortaleza Cingapura era sólida e poderosa na parte do litoral, mas praticamente indefesa na parte
posterior, confrontante com a Província de Johore.
2. Os informes publicados nos jornais sobre os efetivos de aviões de caça da RAF eram propaganda
intencional, exagerando seus efetivos reais.
3. O exército britânico na Malásia contava com cinco ou seis divisões, cujos efetivos totalizavam
aproximadamente 80.000 homens. A proporção de soldados europeus era provavelmente inferior a 50%”.

A despeito da rede de espionagem que o Japão vinham mantendo por todo o Extremo Oriente há muitos
anos, Tsuji descobriu que carecia de dados topográficos precisos. Felizmente para ele, o Major Terundo
Kunitake fora adido militar no consulado de Cingapura e durante o tempo em que lá funcionou fez um
levantamento de estradas, rios e pontes. Ao longo da principal rodovia-tronco, que ia de Cingapura à
fronteira do Sião, informou ele, havia nada menos de 250 pontes, número bem superior ao que Tsuji
calculara pelos mapas em pequena escala e imprecisos que possuía. Ele compreendeu imediatamente que
quanto mais tempo demorasse para reparar as pontes durante o avanço para o sul, mais tempo teriam os
britânicos para construir as defesas terrestres de Cingapura. Assim, ele recomendou que um regimento de
sapadores fosse agregado a cada divisão de infantaria empenhada no ataque, e que um regimento adicional
ficasse sob o controle direto do comandante-de-exército. As estimativas do tipo e quantidade de equipamento
para pontes também foram revistas à luz da informação fornecida pelo Major Kunitake, e os sapadores
puseram-se a ensaiar seu papel nas selvas de Formosa.

Recebendo rapidamente todo esse material ao assumir o comando, Yamashita estava confiante na capacidade
de cumprir a tarefa que lhe fora destinada. Uma das coisas que o impressionaram foi a constatação de que o
grosso das tropas que o confrontavam seria de indianos que, segundo comentou ele, “deveriam facilitar
muito as coisas para nós”. A idéia de que quaisquer tropas asiáticas pudessem resistir aos japoneses numa
batalha franca lhe parecia muito ridícula. Na verdade, quando lhe ofereceram cinco divisões para a
campanha, ele respondeu: “Não - quatro bastarão. E só recorrerei à quarta se realmente precisar dela”. As
formações finalmente escolhidas foram a 5 a Divisão do Tenente-General Takuro Matsui, a 18 a Divisão, do
Tenente-General Renya Mutaguchi, e a Divisão de Guardas Imperiais, do Tenente-General Nishimura.
Destas, a altamente mecanizada 5 a Divisão, que servira na China, era decididamente a mais experiente e as
relações de Yamashita com seu comandante eram excelentes. Suas relações com Renya Mutaguchi, o
colérico e ambicioso comandante da 18a Divisão, também eram amistosas. Ambos haviam sido baluartes da
panelinha do Caminho Imperial e, em 1937, Mutaguchi servira como chefe de Estado-Maior de Yamashita. A
18a Divisão, embora não tão mecanizada e experiente quanto a 5 a Divisão, ainda assim desfrutava de sólida
reputação e obviamente se sairia muito bem sob seu atual comandante. Na verdade, ao chegar ao Q-G do 25 o
Exército, Mutaguchi começou a exigir papel preponderante para a sua formação, oferecendo-se também para
liderar o avanço desde a costa até Cingapura. Ninguém ansiava mais pela glória militar do que Mutaguchi.

As relações com Takuma Nishimura, que comandava a Divisão de Guardas, não eram tão boas. Ele e
Yamashita haviam entrado em choque alguns anos antes, quando Nishimura presidiu um conselho de guerra
que julgou alguns jovens oficiais da Casta Imperial. Nishimura, que era teimoso e de capacidade limitada,
ressentia-se por estar sob o comando de Yamashita e resolveu obedecer o mínimo possível às suas ordens.
Embora os regimentos dos Guardas fossem soberbos em cerimônias, tinham recebido pouco treinamento e a
Divisão não entrava em ação desde a guerra russo-japonesa de 1905. Quando Yamashita a viu em manobras,
ficou um tanto horrorizado, e mandou Nishimura imediatamente intensificar o treinamento de batalha.
Entretanto, Nishimura nada fez nesse sentido e, quando sua divisão embarcou para a campanha, a opinião do
Estado-Maior do 25o Exército era de que ela estava inapta para combate. Para complicar ainda mais as
coisas, Nishimura era velho aliado do feldmarechal Conde Terauchi, superior de Yamashita no Exército Sul e
que também pertencia à Facção de Controle. Yamashita tinha inimigos tanto no escalão superior quanto no
inferior e não deve ter ficado satisfeito ao saber que Masanobu Tsuji fora agregado ao seu Estado-Maior,
como espião pessoal do Primeiro Ministro, Tojo. Pode-se mencionar aqui também que, quando Yamashita
decidiu iniciar sua ofensiva com três divisões, em lugar das cinco que lhe haviam sido oferecidas, ele não o
fez por fanfarronada, mas por entender que a força escolhida era a maior que poderia ser abastecida à medida
que a linha de comunicações aumentasse, com o avanço para o sul, na direção de Cingapura. Ele não tinha
confiança alguma em qualquer Q-G dirigido por Terauchi.

Para completar a composição da força de assalto de Yamashita, dois regimentos de artilharia pesada de
campanha e a 3a Brigada de Tanques apoiariam a infantaria. A cobertura aérea seria proporcionada pela 3 a
Divisão Aérea, com um total de 459 aviões e outros 159 aparelhos seriam fornecidos pela Marinha. O
Esquadrão Sul, do Vice-Almirante Ozawa, que seria responsável pela proteção aos comboios até que estes
chegassem à costa malaia, compreenderia um cruzador de batalha, 10 destróieres e cinco submarinos.

Somente na segunda semana de novembro é que Yamashita deixou Tóquio, dirigindo-se de avião ao seu Q-
G, que ficava no porto de Samah, em Hainan, uma ilha, estrategicamente colocada, que os japoneses haviam
ocupado em fevereiro de 1939. Ela fica situada a meio caminho da costa sudeste da China e a costa da
Indochina. Ali, Yamashita encontrou atividade febril. Seu Estado-Maior formava-se apressadamente - seus
membros haviam sido trazidos de unidades e Q-Gs espalhados pelo Japão e territórios por ele ocupados, não
havendo entre eles qualquer relacionamento anterior. Cada qual apresentou-se pessoalmente a Yamashita.
Assim, especula-se ainda, sobre a maneira como se teriam organizado para trabalhar em equipe. Mas, a
personalidade de Yamashita causou em todos impressão profunda e imediata, e a pressa, o pânico e a
confusão foram evitados. O chefe de Estado-Maior era o Tenente-Coronel Ichiji Sugita, e também havia um
subcomandante de exército, Majot-General Managi.

Por enquanto, é só o que se pode falar do 25 o Exército e de sua tarefa. E quanto ao plano? Em síntese, este
estipulava que a esquadra de invasão partiria de Samah a 4 de dezembro - quatro dias antes do começo da
guerra - e se dividiria em cinco comboios. Dois destes, levando a 5 a Divisão, de Matsui, e parte da 18 a
Divisão, de Mutaguchi, rumariam para Singora, 200 km a noroeste da fronteira malaio-tailandesa, no Istmo
de Kra; dois outros comboios rumariam para Patani, 100 km a sudeste; e um forte grupo de brigada da 18 a
Divisão, sob o comando do Major-General Takumi, seria transportado pelo comboio restante para Kota
Bharu, na costa malaia, logo ao sul da fronteira Thai. Como uma olhada no mapa mostrará, as rodovias-
troncos que cortam a Península Malaia vão diretamente até Cingapura e Patani, de modo que facilitariam as
comunicações ao longo do eixo de avanço. Além disso, como Yamashita podia ver de imediato, usando esses
portos tailandeses, ele poderia desembarcar o grosso das suas forças antes que os britânicos cruzassem a
fronteira da Malásia para enfrentá-las. Os desembarques em Kota Bharu seriam sem dúvida combatidos e os
riscos neles implicados, consideráveis. Não obstante, Yamashita ponderou, eles desviariam a atenção do
adversário do ponto em que seria feito o ataque principal, e se tudo corresse bem, Takumi poderia ganhar
rapidamente o interior e cuidar dos aeródromos avançados. Tudo dependeria do estabelecimento da
superioridade aérea logo de início.

Contudo, era imperioso que fossem reunidos os transportes, não só vindos dos portos japoneses, mas também
de Xangai, Cantão e Formosa. O Tenente-Coronel Kera, Chefe dos Transportes Navais do Exército, parecia
estar certo de que todos os navios chegariam antes do anoitecer de 2 de dezembro, a data marcada. Mas. Na
verdade, às 16h nenhum navio ainda aparecera e Yamashita começava a imaginar o que poderia ter
acontecido. Será que os capitães haviam lido errado as suas ordens? Será que o Q-G Imperial havia mudado
de plano sem avisá-lo? Ou será que o Q-G de Terauchi cometera a primeira das muitas palermices que
cometeu? A situação ficou tensa, pois o horário para os embarques era apertado e, a menos que as tropas e o
equipamento começassem a embarcar de acordo com os planos, o resultado seria o caos. Para complicar as
coisas, a comunicação pelo rádio estava proibida e uma série de telefonemas feitos pelo agitado Kera não
conseguiu informação alguma. Parecia que a guerra, ou pelo menos a campanha de Yamashita, começaria
com fracasso. Então, pouco antes do pôr-do-sol, avistou-se fumaça no horizonte e, um a um, os navios
entraram no porto. Por volta das 12h do dia seguinte, Yamashita foi informado pelo seu Estado-Maior que o
embarque começara no horário.

Naquela noite ele recebeu as ordens finais de Terauchi:


1. Fica estabelecido que as operações militares comecem a 8 de dezembro.
2. O 25o Exército deve cooperar com a marinha, no começo das operações militares para a ocupação da
Malásia.
3. O 25o Exército iniciará as operações baseado em ordens anteriores. Contudo, se as negociações nipo-
americanas forem concluídas até a data acima fixada, as operações militares serão canceladas.

Ninguém pensava seriamente no cancelamento das operações, e alguns oficiais achavam que a inserção de
um “se” nesse estágio tardio poderia ter efeito negativo sobre o moral da tropa. Contudo, quando Yamashita
convocou seu Estado-Maior, na manhã seguinte, para dar as instruções finais, a confiança voltou. Muitos
oficiais tinham lágrimas nos olhos; o momento era de emoção. Para os japoneses, 8 de dezembro seria o que
“Der Tag” fôra para os prussianos, em 1914: “O Dia” com que havia muito sonhavam e para o qual tanto
haviam planejado; a oportunidade de esmagar os britânicos e americanos e estabelecer nova ordem no
Extremo Oriente, sob o sol glorioso do Japão. Eles confiavam inteiramente no comandante que tinham e no
resultado da campanha. Nada poderia detê-los.

A fortaleza ao sol

“Aqui estou, em Cingapura, fiel à minha palavra e deleitando-me com todo o prazer que um apoio em tal
exemplo clássico deve inspirar. Este local possui um porto excelente... Estamos a uma semana, por mar, da
China, perto de Sião e do próprio centro do Império Malaio. Nosso posto flanqueia por completo o Estreito
de Málaca e defende, quaisquer que sejam as circunstâncias, uma passagem para nossos navios que vêm da
China...” O autor destas palavras foi Sir Thomas Stamford Raffles e o ano, 1819. Com a rivalidade, nas
Índias Orientais, entre britânicos e holandeses tornando-se mais intensa com o passar dos anos, Raffles
(funcionário da Companhia das Índias Orientais) recebera ordens para ir lá e descobrir novo porto, dentro do
arquipélago, para formar o centro de todo o comércio nativo. Felizmente, antes de partir para a Malásia, ele
havia tomado conhecimento da existência da pequena Ilha de Cingapura, aninhada perto da ponta da
península Malaia, e marcou-a como possível novo posto. Completamente desconhecido dos holandeses, o
local, formado principalmente de pântanos e selva, era quase desabitado. Raffles se inteirava, nos estudos
que realizou sobre a região malaia, que séculos antes existira na ilha uma velha civilização cujas ruínas ainda
eram parcialmente visíveis. Agindo com base no conselho de Raffles, a Companhia comprou Cingapura ao
Sultão de Johore e a bandeira britânica foi hasteada a 29 de fevereiro de 1819.

A Ilha de Cingapura se parece com a forma da Ilha Wight, estendendo-se por 43 km de leste a oeste e por 21
km (na sua largura máxima) de norte a sul. O Estreito de Johore, que a separa do continente, varia, em
largura de 600 m a 5.000 m, e próximo do ponto mais estreito os britânicos ergueram uma ponte. O terreno é
ondulado e os únicos acidentes geográficos notáveis são algumas colinas situadas perto do centro da ilha,
incluindo Bukit Timah e Bukit Mandai, que se erguem à altura de 200 m. No sul, há uma crista baixa,
chamada Pasir Panjang, com cerca de 6.500 m de comprimento, que domina os acessos ocidentais da ilha.
Com exceção do sudeste, a linha costeira é interrompida por cursos de água e pequenos rios, orlados por
mangues. A maioria das estradas leva à cidade de Cingapura, situada na costa sul, ligeiramente para a
extremidade leste da ilha. Ali, em 1941, viviam cerca de 550.000 pessoas, compostas, como a população da
Malásia, de chineses, e malaios, com pequena proporção de tamil e até mesmo alguns europeus. Se, como
local, Cingapura era ideal, o mesmo não acontecia com seu clima. A ilha fica situada a apenas 150 km do
equador e o ar é quente e úmido; o clima desgasta a energia física e mental, sobretudo dos europeus. Na
verdade, o clima causou grande impacto sobre os acontecimentos entre 1920 e 1941.

A Península Malaia tem aproximadamente 640 km de comprimento; sua largura varia entre 100 e 320 km.
Como uma ligeira olhada no mapa mostrará, ela se estende de norte para o sul, com o Estreito de Málaca a
oeste e o Mar da China Meridional no leste; é ligada à Tailândia por um trecho estreito de terra, chamado
Istmo de Kra. A extensão territorial da península é equivalente à da Inglaterra e País de Gales juntos e tem
um espinhaço que lhe corre pelo centro, uma série de montanhas cobertas de selva. Estas montanhas chegam
a alcançar, no norte, 2.300 m de altura, caindo parra 1.000 m no sul. Em ambos os lados dos montes
estendem-se planícies costeiras, orladas, na costa oeste, por mangues e, na costa leste, por praias arenosas.
As planícies são cortadas por centenas de rios e cursos de água que descem das montanhas para o mar e,
como estes muitas vezes são cobertos por selva densa, há extensas áreas pantanosas. Devido à grande
precipitação pluviométrica (até 5,50 m nas montanhas), a vegetação cresce durante todo o ano e, na sua
maioria, as selvas malaias são muito mais densas do que as indianas ou birmanesas. Existem árvores
gigantescas interligadas por trepadeiras, enquanto que, ao nível do solo, os arbustos são densos e quase
intransponíveis, com a visibilidade reduzida a pouco mais de um metro. Nas áreas pantanosas existem
grossos cinturões de espinheiros, fazendo da abertura de caminhos através deles tarefa lenta e dolorosa. Mais
da metade da área total é coberta por essa selva espessa e primitiva, mas na planície oeste e em Johore
grandes áreas foram abertas para cultivo, estendendo-se por considerável distância de ambos os lados da
rodovia e da ferrovia. No norte, existem arrozais e, no sul, áreas de produção de mandioca e legumes. Nos
locais onde o cultivo é abandonado, ainda que por breve período, a selva se reapossa deles, havendo plantas
secundárias de densidade espantosa e capim-elefante de até 2 metros de altura.

Em 1941, a população ficava entre 4 e 5 milhões de almas, dois milhões de malaios, dois milhões de
chineses e o restante era tamil, da Índia. A população européia totalizava cerca de 20.000. Os malaios são
uma raça gentil de pescadores e plantadores. Gostam de levar horas sentados sob um coqueiro, esperando
que o coco caia, a subir nele para colher o fruto. Os chineses, a maioria dos quais se deslocou para a malásia
para comerciar, mostravam-se muito mais dinâmicos, chegando vários deles a fazer consideráveis fortunas.
Na sua maioria, eles pareciam não ter ambição política e não revelavam interesse (pelo menos até fins de
1941) pela defesa do país. Havia também milhares de japoneses, muitos deles barbeiros ou fotógrafos,
embora alguns possuíssem seringais. Era corrente a afirmação de que em grande parte pertenciam ao Serviço
de Inteligência japonês.

A história de como os britânicos tomaram a Malásia é complicada, e não há necessidade de contá-la em


detalhes aqui. Foi um processo de instalações de postos de comércio, desenvolvimento de relações com os
governantes locais e depois a assinatura de tratados pelos quais os britânicos lhes garantiam proteção em
troca de direitos de comércio e outros. Por volta de 1941, quando o sultão de Johore aceitou um conselheiro
britânico, o país adquiriu estrutura política que perduraria até a chegada dos japoneses. Essa estrutura era
complexa e esta complexidade teve seu impacto sobre os acontecimentos dos anos 20 e dos anos 30. O
governador britânico, por exemplo, se quisesse chegar a novo acordo, teria de negociar com nada menos de
11 governos separados. Estes representavam os Estabelecimentos do Estreito de Cingapura, Málaca e
Penang, que formavam uma colônia britânica; os Estados federados da Malásia (Perak, Selangor, Negri
Semilan e Pahang); e os Estados Não-Federados de Johore (Trengganu, Kelantan, Kedah e Perlis). Os quatro
últimos estados tinham cada qual seu próprio sultão e estavam incorporados ao Império Britânico por tratado
assinado separadamente. Embora essa constituição desconjuntada fosse viável em tempos de paz, não estava
preparada para resistir às tensões da guerra.

Para os britânicos, a Malásia não era um baluarte da defesa imperial, mas apenas uma mina de ouro - ou,
para ser mais preciso, uma mina de borracha e estanho. Pouco depois do começo do século, o governo
britânico pensou que se pudesse encontrar a espécie certa de seringueira, o domínio mantido pelo Brasil
sobre os suprimentos mundiais de borracha poderia ser destruído. Assim, com a cooperação dos jardins
botânicos de Kew, mandou-se um enviado às florestas de seringais silvestres do Brasil para colher espécimes
que crescessem em solo e sob precipitação pluviométrica semelhante aos da Malásia. Finalmente,
escolheram-se dois espécimes e grandes áreas de selva das planícies ocidentais da Malásia foram abertas e
cultivadas. As seringueiras pegaram e cresceram livremente. Por volta de 1941, os seringais cobriam nada
menos que 1,2 milhão de hectares e alcançavam mais de um terço da produção mundial de borracha,
enquanto que a exploração das jazidas de estanho ganhou tal desenvolvimento, que passou a produzir 58%
do metal extraído no mundo.

Esta ênfase na produção de matérias-primas e no comércio naturalmente causou impacto sobre a hierarquia
européia e em sua escala de valores. Os homens de negócios consideravam os seus interesses - incluindo
seus prazeres - de suma importância, e se julgavam acima das forças armadas praticamente não entravam em
seus cálculos. Nenhum comandante, por exemplo, se atrevia a levar suas tropas através de um seringal,
mesmo para treinamento considerado vitalmente necessário. Essa subjugação dos interesses da defesa não é
tão extraordinária como possa parecer, pois durante todo o século XIX não houve nenhum inimigo
concebível. Até que, sob pressão dos americanos, o Japão abriu seus portos ao comércio internacional, ele
estivera mergulhado em isolamento primitivo e, depois disso, a Grã-Bretanha o tinha como país amigo. Em
1902, os dois países assinaram um tratado de aliança.

Somente em 1915 é que o Japão revelou ao mundo os primeiros sinais de sonhos de expansão, publicando
suas “Vinte e Uma Exigências” à China. Embora viesse a modificá-las, depois de violentos protestos da Grã-
Bretanha e dos Estados Unidos, ainda assim o Japão obteve importantes concessões na Península de Xantung
e na Manchúria meridional. Pela ajuda prestada aos Aliados na Primeira Guerra Mundial, o Japão recebeu
um mandato sobre as ilhas Marianas, Carolinas e Marshall. Mais importante, começou a aumentar sua
marinha, que passou a ser a terceira do mundo. Então, em 1929, surgiu o “Memorial Tanaka”, uma
declaração das intenções japonesas que muitos comparam ao Mein Kampf de Hitler. O Barão Tanaka, que
ocupava o posto de general no exército japonês, era o Primeiro-Ministro e líder do Partido Seiyukai (liberal)
e no memorial apresentava sua solução para os problemas do Japão:

“Os suprimentos de alimento e as matérias-primas do Japão diminuem na proporção do aumento de sua


população. Se esperarmos apenas desenvolver o comércio, seremos derrotados pela Inglaterra e pelos
Estados Unidos, que possuem poderio capitalista inigualável. Nossa melhor política reside na tomada de
providências positivas para nos assegurar direitos e privilégios na Manchúria e na Mongólia. Com os
recursos da China à nossa disposição, poderemos conquistar a Índia, o Arquipélago, a Ásia Menor, a Ásia
Central e até mesmo a Europa”.

Diante dos protestos das potências ocidentais, o governo japonês declarou que o documento era falso, mas os
acontecimentos logo indicariam que, como declaração de intenções, ele era muito exato.

Oito anos antes do aparecimento do “Memorial”, o governo britânico reconhecera que, com a eliminação da
marinha alemã e com a ascensão da marinha japonesa, a balança do poderio naval pendeu mais para o
Pacífico. A única base naval britânica no Extremo Oriente estava em Hong-Kong, e esta - independente de
contar com instalações apenas limitadas - não poderia ser defendida em tempo de guerra. Assim, em 1921, a
Comissão de Defesa Imperial examinou a situação e recomendou que se construísse uma base em Cingapura.
A 16 de junho daquele ano, o Gabinete concedeu aprovação à medida, e no ano seguinte escolheu-se o local
exato - no lado norte da ilha, a uns 8 km a leste da ponte. Dois anos depois, antes que o projeto começasse
realmente a ser executado, o governo trabalhista subiu ao poder e o pôs de lado. Entretanto, a vida desse
governo foi breve e, ao retornarem ao poder, os conservadores mandaram que se reiniciassem os trabalhos.
Também foi examinada a questão da defesa. O exército considerava extremamente difícil, se não impossível,
o ataque pela Península Malaia, devido ao terreno e à selva. O único ataque possível a Cingapura, segundo o
governo concordava, era por mar.

Tinham assim início dez anos de brigas entre as forças armadas. O Ministério da Aeronáutica dizia que os
bombardeiros-torpedeiros, protegidos por caças, com o apoio de baterias de canhões médios, poderiam
proporcionar um sistema de defesa mais barato e mais eficiente do que as baterias de canhões pesados. O
Almirantado e o Ministério da Guerra, contudo, não aceitavam isso, afirmando que os canhões pesados
sempre se mostraram os mais poderosos repressores contra belonaves. Somente em 1926 é que a Comissão
de Defesa Imperial chegou a uma decisão: o primeiro estágio do desenvolvimento deveria incluir baterias
pesadas e médias, mais três canhões de 15 polegadas, e que a questão dos aviões versus baterias pesadas
seria resolvida mais tarde. Mais alguns anos foram desperdiçados em brigas e, em 1929, quando outro
governo trabalhista subiu ao poder, decidiu concentrar esforços no desarmamento. Em 1930, realizou-se uma
conferência que resultou na assinatura do Tratado Naval de Londres, que previa a redução de armamentos.
Para Cingapura, adotou-se uma política de trabalho lento.

No ano seguinte, essa política começou a parecer um tanto desorientada, pois, na Alemanha, Hitler havia
começado sua marcha para o poder e o exército japonês, tendo forjado um incidente na Ferrovia
Manchuriana Meridional, ocupou Mukden e outros pontos estratégicos, engolindo finalmente toda a
Manchúria. Já então os Chefes de Estado-Maior haviam advertido ao governo que “seria o cúmulo da
loucura perpetuar o estado de indefensibilidade no Extremo Oriente”, e se decidiu que os planos traçados
para Cingapura deveriam ser levados avante. Mas a guerra entre as forças armadas ressurgiu e somente em
maio de 1932 é que o governo ordenou que, embora o canhão devesse constituir a principal arma de defesa,
os aviões deveriam proporcionar valiosa ajuda. A responsabilidade pela defesa de Cingapura seria distribuída
pelas três armas que, segundo se esperava, trabalhariam em estreita colaboração.
Mas o trabalho prosseguiu com muita lentidão e no final de 1935 - quinze anos após a decisão inicial de se
construir a base - o primeiro estágio ficou pronto. Já então o governo havia concedido permissão para que
fossem instaladas baterias de canhões pesados, e certa urgência finalmente apareceu. E havia boa razão para
isso, pois à parte exigirem paridade em armamentos navais, os japoneses evidentemente visavam ao domínio
total da China. Paralelamente à construção da base naval, os trabalhos nos aeródromos da Malásia
prosseguiram e os locais escolhidos para localizá-los foram Kota Bharu e Kuantan. A razão para que fossem
instalados tão ao norte devia-se à necessidade de serem detetados os comboios inimigos o mais cedo
possível, mas a RAF não se dignou de consultar o exército e, com isso, os aeródromos não podiam ser
defendidos contra as forças da terra assim que estas conseguissem desembarcar. Para aumentar a confusão, o
plano de defesa em operação nessa época não incluía o norte e o leste da Malásia, de modo que era
necessário revê-lo com urgência.

Curiosamente, durante todos esses anos de discussões e indecisão ninguém pensara no fato de ter a Malásia
mais de 1.600 km de costa, a metade da qual exposta, à época, a ataque japonês. Ninguém tampouco pensara
em que a defesa da base naval da Ilha de Cingapura estava ligada à defesa de toda a Península Malaia.
Contudo, em 1937, um tênue raio de luz da realidade começou a penetrar o nevoeiro, e o Major-General
Dobbie, Comandante da Malásia, foi chamado a examinar novamente o plano de defesa, e do ponto de vista
japonês. Todos os seus cálculos se baseariam na suposição de que uma esquadra britânica não poderia chegar
em menos de setenta dias para ajudar a Península. Dobbie, homem capaz e de boa formação religiosa (ele
alcançaria grande distinção na defesa de Malta), começou por realizar vários exercícios com tropas e, em
outubro, informou que, ao contrário da opinião ortodoxa, os desembarques pelos japoneses na costa leste
eram possíveis durante a monção do nordeste, de outubro a março, e aliás esse período era particularmente
perigoso, porque a má visibilidade limitaria o reconhecimento aéreo. Dobbie também observou que, como
medida preliminar do ataque, os japoneses provavelmente estabeleceriam bases aéreas avançadas no Sião e
também poderiam realizar desembarques ao longo da costa daquele país. Previu com extraordinária precisão
que os desembarques principais ocorreriam em Singora e Patani, no Sião, e em Kota Bharu, na Malásia. Se
sua previsão fosse considerada, declarou ele, grandes reforços reveriam ser enviados sem delongas. A
sugestão foi ignorada. Em julho de 1938, quando as ambições japonesas se haviam revelado de maneira mais
clara, Dobbie advertiu que a selva em Johore (na Malásia meridional) não era intransponível para a
infantaria, mas foi novamente ignorado. Por volta de 1939, tudo o que conseguira arrancar do governo não ia
além de umas míseras 60.000 libras, gastas em grande parte na construção de embasamentos para
metralhadoras ao longo da costa sul da Ilha de Cingapura e em Johore.

Entrementes, enquanto os japoneses provocavam o incidente de Pequim, em julho de 1937, que levaria a
guerra à China setentrional, desembarcando no ano seguinte em Amoy, cerca de 480 km a nordeste de Hong-
Kong, os Chefes de Estado-Maior continuavam revendo as defesas do Extremo Oriente e foram instados pela
Nova Zelândia a despachar uma esquadra imediatamente, antes do início das hostilidades. Mas a atenção de
todos se voltava cada vez mais para a Europa, onde Hitler fazia ameaças terríveis, e a ridícula figura de
Neville Chamberlain se deslocava apressadamente de Londres para a Alemanha e vice-versa. Em fevereiro
de 1939, os Chefes de Estado-Maior completaram mais uma apreciação, baseada na premissa de que os
inimigos principais seriam a Alemanha, a Itália e o Japão. Já se admitia que a esquadra tinha de ser enviada
para o Extremo Oriente, embora seus efetivos devessem “Depender das nossas reservas e da evolução dos
problemas surgidos na Europa”. Mas, com a situação na Alemanha se deteriorando rapidamente, não se
tomou nenhuma atitude específica, e em maio, quando a Comissão de Defesa Imperial realizou sua sessão,
embora o Japão já fosse considerado inimigo mais sério do que a Itália, chegaram os Chefes de Estado-Maior
à conclusão de que, diante dos fatores que tinham de ser levados em conta, “não seria possível declarar
definitivamente quando, após a intervenção japonesa, a esquadra poderia ser despachada para o Extremo
Oriente”, nem o número de navios que poderiam integrá-la. Em julho, decidiram eles investigar a
possibilidade de se acumular estoques de alimentos na Malásia, para os civis e soldados, suficientes para seis
meses. E, pouco antes de Hitler invadir a Polônia, uma brigada indiana, um regimento de artilharia de
montanha e dois esquadrões de bombardeiros foram enviados da Índia.

Qual seria então o efetivo total disponível para defender o país, agora que a guerra se tornara uma realidade?
Incrivelmente, a defesa da Malásia setentrional ficou entregue aos Voluntários dos Estados Malaios
Federados, e a Johore, às forças dos seus estados. A recém-chegada brigada indiana foi mantida na reserva,
para a defesa de Johore. E a Ilha de Cingapura - que, como nos lembramos, tem mais de 32 km de
comprimento - foi confiada a cinco batalhões regulares, dois batalhões de voluntários, dois regimentos de
artilharia de costa, três regimentos antiaéreos e quatro companhias de sapadores da fortaleza. Havia uma
força ainda menor em Penang. Os seis esquadrões da força aérea tinham um total de 58 aviões. Se o Japão
atacasse naquele momento, a resistência seria apenas simbólica.

Não se pode dizer que a situação preocupava muito à grande maioria do povo. Em geral os malaios só se
preocupavam com o que sucedia em seus próprios kampongs, os chineses cuidavam dos seus negócios e os
trabalhadores tamil, na maioria analfabetos, cuidavam apenas, como sempre, da sobrevivência. Os
comerciantes e administradores britânicos permaneciam bem-aventuradamente ignorantes da situação
estratégica e concentravam suas energias sobretudo no cumprimento das instruções governamentais para
aumentar a produção de borracha e estanho. A demanda desses produtos, vitais para o esforço de guerra
aliado, se intensificaria com o passar dos meses. Exceto mudanças marginais, não se pode dizer que a vida
nas comunidades européias mudou muito. Ainda havia uísque no clube e as quadras de tênis e os campos de
golfe permaneciam imaculadamente bem cuidados, como sempre. O traje de rigor era usado até mesmo para
as ocasiões menos importantes, e os criados eram abundantes e baratos. Para a Malásia, a guerra parecia
muito distante. Os jornais cinematográficos com os fatos da Europa tinham um ar de completa irrealidade. E
continuariam a tê-lo, mesmo quando a Polônia caiu e, depois, a França, bem como quando Hitler lançou toda
a fúria do exército e da força aérea alemães contra o povo da Rússia.

Em 1940, o Governador da Colônia dos estabelecimentos do Estreito era Sir Shenton Thomas filho de um
vigário de Cambridge, que adquirira experiência no serviço colonial na África. Já na casa dos sessenta anos,
ele achava o clima de Cingapura um tormento que o fazia sonhar a cada passo com a aposentadoria. Embora
não fosse inábil, não era homem para uma crise; não podia dominar os acontecimentos. Agora ele estava em
conflito com o recém-chegado comandante, Tenente-Coronel Bond, que ficou horrorizado com a ausência de
defesas em Cingapura e queria recrutar uma força de trabalho de cules para pôr as coisas a funcionar.
Thomas, discordando da medida, fez a seguinte comunicação ao governo central: “Considero nosso dever
dar absoluta prioridade às exigências da indústria”. O governo, tanto quanto se pode afirmar, não lhe abriu os
olhos, e os chineses, os tamis e os malaios continuaram trabalhando nas minas e plantações. Thomas
costumava chamar a Malásia de “o arsenal do dólar”, observando que os Estados Unidos compravam 25
vezes a quantidade de bens que a ela vendiam. Em 1937, as compras dos Estados Unidos àquele país subiram
nada menos de 235 milhões de dólares. Enquanto sua rixa com Bond prosseguia, Thomas afirmava que só no
trimestre terminado a 30 de novembro, 137.331 toneladas de borracha foram exportadas para os Estados
Unidos. Seria errado dizer que Sir Shenton ignorava por completo o perigo de guerra. Em seus cabogramas
para Londres, ele sempre expressava a opinião de que só com aviões em quantidade suficiente é que a
repressão a ataques seria factível. O Comandante do grupamento aéreo no Extremo Oriente, Marechal-do-Ar
Babington, naturalmente concordava com ele.

Durante todo o ano de 1940 houve conferências, reuniões, apreciações e um constante vaivém de papéis, mas
não se fez muita coisa de prático. Com a piora da situação na Europa, Rússia e Oriente Médio, os assuntos do
Extremo Oriente ficaram em último lugar nas prioridades. Contudo, em outubro, os Chefes de Estado-Maior
recomendaram a criação de um sistema unificado de defesa para o Extremo Oriente, sob um comandante-
chefe. O homem escolhido para esse posto vital foi o Marechal-do-Ar Sir Robert Brooke-Popham, ex-
governador do Quênia e que fora chamado novamente para a ativa quando do começo da guerra. A nomeação
não entusiasmou a muita gente. “Brookham”, como o Marechal-do-Ar era conhecido em toda a RAF, alto e
desengonçado, com bigode vermelho e maneiras tímidas, quase juvenis, recebeu essa enorme tarefa tarde
demais. Contudo, era corajoso e nada tinha de tolo. Assim que seu Q-G entrou em operação, ele informou
aos Chefes de Estado-Maior que a base de Cingapura não tinha condição de ser defendida para uso da
esquadra se toda a Malásia também o fosse. Para garantir a segurança, o exército teria de trabalhar
estreitamente com a RAF e no momento havia séria escassez de homens e aviões. Sendo a estimativa dos
próprios Chefes de Estado-maior de 336 aviões, somente 48 estavam disponíveis. A resposta que lhe deram
foi que aquela quantidade seria alcançada em fins de 1941, mais Brooke-Popham continuou cético, e tinha
boas razões para isso. Um dos obstáculos principais ao envio de reforços para o Extremo Oriente nessa época
era Winston Churchill que, a 13 de janeiro de 1941, comunicou aos chefes de Estado-Maior: “A situação
política no Extremo Oriente não parece exigir, e os efetivos da Força Aérea de modo algum permitem, a
manutenção de forças tão grandes no Extremo Oriente nesse momento”. Portanto, Brooke-Popham jamais
recebeu os reforços de que necessitava, mas, ao mesmo tempo, deve-se dizer que ele aparentava equilibrar-se
naquela atmosfera de Cingapura, que parecia a “Terra do Nunca”, de “Peter Pan”. Suas freqüentes
declarações otimistas, destinadas a iludir os japoneses, apenas serviam para aumentar a sensação de
irrealidade. Naturalmente, os japoneses, com se excelente Serviço de Inteligência, não se deixaram iludir por
um instante sequer.
Contudo, chegaram reforços, ainda que em escala inadequada. Em fevereiro, o Major-General Gordon
Bennett ali desembarcou com a 8 a Divisão australiana, e dizia-se que mais navios de tropas estavam a
caminho. Entrementes, Babington foi substituído pelo Vice-Marechal-do-Ar Conway Pulford, e Bond pelo
Tenente-General A. E. Percival. Uma das principais figuras do drama iminente, Percival era uma
personalidade neutra, sendo mais oficial de Estado-Maior do que comandante de tropa, não possuindo
mesmo qualidades de liderança. Ele fazia tudo de acordo com os regulamentos, ainda que as circunstâncias
exigissem procedimentos diferente, e se não carecia do senso de urgência, por certo carecia de emoção. Não
era homem para uma crise e certamente não o era para uma campanha desesperada. Pergunta-se, então:
Como é que ele alcançou tão alto posto? Para começar, ele demonstrara grande bravura pessoal na Primeira
Guerra Mundial, recebendo a Ordem do Mérito Militar com barra, a Cruz Militar e a Croix de Guerre
francesa. Começando a guerra como soldado raso - tinha 27 anos quando se alistou - chegou ao comando de
um batalhão antes do fim do conflito. Seu trabalho durante os distúrbios na Irlanda, em 1921,
impressionaram Churchill, então Ministro da Guerra, e Lloyd George, o Primeiro-Ministro, e foi este quem o
recomendou para um curso na Escola de Estado-Maior, em Camberley, embora tivesse passado da idade
normal. Demonstrando notável aptidão para o trabalho burocrático, ele se saiu bem na escola de Estado-
Maior e passou para a Escola de Defesa Imperial. O ano de 1936 o encontrou na Malásia, como Chefe de
Estado-Maior do General Dobbie, onde seus dotes para redigir memorandos bem escritos e enérgicos, sobre
qualquer assunto, também lhe valeram muito. Na verdade, ele era excelente em qualquer trabalho que não
incluísse contato com soldados. Terminando seu tempo de serviço, retornou à Inglaterra, mas, com o começo
da guerra, movimentou-se para obter um posto mais ativo e alguém no Ministério da Guerra se lembrou de
que ele se saíra muito bem na Malásia, Assim, a decisão fatídica foi tomada. Nomeado Comandante em
março de 1941, recebeu ordens para partir dentro de três dias.

Desde o começo ele foi perseguido pelo azar. O aerobote destacado para levá-lo enguiçou e a substituição da
peça que deu origem ao defeito demorou cinco semanas. Ao chegar a Cingapura, verificou que pouco havia
sido feito desde que ali estivera, vários anos antes. Não havia um único avião disponível para ajudar o
exército e a RAF lhe pediu que não usasse nenhum dos seus aviões “exceto em ocasiões especiais”. Nas
viagens de inspeção que realizou pela península, teve de utilizar aviões civis ou os pequenos aparelhos DH
Moth, pilotados por homens da Força Aérea Voluntária. Aí é que ele descobriu que as pistas de pouso, no
norte, haviam sido feitas em posições indefensáveis. Além disso, não estavam sendo usadas, pois a RAF não
tinha homens ou aviões suficientes para ocupá-las. (Entretanto, todas foram equipadas com vastas
quantidades de combustíveis que acabaram caindo em poder dos japoneses). Os trabalhos de instalações de
defesa, tanto na península como na Ilha de Cingapura, estavam quase parados. As forças armadas não tinham
permissão de pagar aos cules salário suficientemente alto para atraí-los das minas de estanho e dos seringais.
Com isso, o trabalho de defesa, que Dobbie considerava urgente em 1937, ainda estava no estágio de
planejamento. E, dos caças que o governo prometera enviar, não havia nem sinal.

Acontece que o envio de Hurricanes estava sendo discutido pelos Chefes de Estado-Maior, em Londres,
nessa época. O representante da RAF alegou que os Buffalos, caças americanos, seriam adversários para
qualquer avião japonês que aparecesse, alegação que foi aceita. Avisado disso, Sir Robert Brooke-Popham
comentou: “Daremos um jeito, com os Buffalos aqui... A Inglaterra pode ficar com os Super-Spitfires e
Hiper-Hurricanes”. Seu Serviço de Inteligência nada podia informar com precisão sobre os aviões japoneses.

Não eram somente aviões que faltavam na Malásia. Quando Percival terminou sua primeira viagem de
inspeção, descobrira que não havia um só tanque em toda a área.

Mas um otimismo complacente ainda predominava nos altos escalões. A 9 de setembro, Duff Cooper, ex-
diplomata e amigo de Winston Churchill, chegou a Cingapura com instruções “para examinar os arranjos
existentes para consulta e comunicações entre as várias autoridades britânicas na área... e informar como
estes poderiam ser mais eficazes”. A 29 daquele mês, ele realizou sua primeira conferência, e o grupo de
talentos militares, administrativos e políticos aceitou a opinião de que o Japão estava concentrando forças
contra a Rússia. Considerava-se muito pouco provável que ele arriscasse uma guerra contra os Estados
Unidos, Grã-Bretanha e Holanda simultaneamente. Os desembarques na costa da Malásia pareciam tão
improváveis que nem mereceram o direito de um exame detalhado. Essa conferência foi realizada quatro dias
depois que o relatório do General Dobbie mostrou com clareza que tais desembarques eram bastante viáveis
e nove meses depois que os nipônicos deram início aos preparativos para os mesmos, na Ilha de Hainan.

A despeito da queda do governo Konoye, a 16 de outubro, e da sua substituição pela administração militar
extremista do General Tojo, o otimismo ainda persistia. Ainda a 26 de outubro, Churchill telegrafou ao
Primeiro Ministro australiano, dizendo que o Japão não arriscaria uma guerra até que a Rússia fosse vencida
pelos alemães. Contudo, para fazer face a qualquer eventualidade, duas das mais poderosas belonaves da
Grã-Bretanha, o HMS Prince of Wales e o HMS Repulse, estariam rumando para o Extremo Oriente. O que
ele não disse é que o porta-aviões HMS Indomitable, destacado para acompanhá-las, havia sido danificado
em Kingston, Jamaica, e como não havia outro para substituí-lo, os gigantescos navios de linha zarpariam
sozinhos.

Os preparativos de defesa em terra não impressionavam nada. Para defender o norte da Malásia havia só a
11a Divisão indiana (então com apenas duas brigadas de tropas parcialmente treinadas, a 6 a e a 15a Brigadas),
enquanto que, na costa leste, estavam a 8 a e a 22a Brigada da 9a Divisão indiana. Com a 28a Brigada de
Infantaria Independente e algumas tropas de defesa de aeródromos, essas fracas formações compunham o III
Corpo, do General Heath. Elas eram bem fortes em artilharia, mas não tinham tanque algum - ainda não
havia um só tanque na Península Malaia nem na Ilha de Cingapura. As tropas da Fortaleza Cingapura
consistiam da 8a Divisão australiana, de Gordon Bennett (apenas duas brigadas), a 12 a Brigada Independente
e duas Brigadas de Infantaria malaias. Exceto uns poucos batalhões britânicos, como os Leicesters e os
Argyll and Sutherland Highlanders, estas tropas era de qualidade ruim, mal treinadas e lideradas com
indiferença. Os reforços, ainda a caminho, não eram melhores. E ninguém sabia como operar na selva.

Assim, escoaram-se os últimos dias de paz. Ajudado pelo General Heath, Percival tentou intensificar o
treinamento de suas tropas; tentou, inutilmente, arrancar dinheiro do governo para realizar trabalhos
defensivos; tentou construir grandes posições defensivas em Jitra, na rodovia-tronco, a 63 km ao sul da
fronteira siamesa, e em Gurun, a 32 km abaixo desta. Mas os homens de negócio ainda dominavam a
Malásia e não queriam tropas por perto das suas plantações ou em suas propriedades. À mais leve
aproximação de tropas, eles reagiam com protestos junto ao governador, Sir Shenton Thomas, que
normalmente os apoiava. A vida civil corria sem anormalidade. Qualquer um que falasse de guerra era
acusado de “tagarela”. Para Brooke-Popham, para Percival e Duff Cooper, e, aliás, para qualquer
comandante de força armada, mesmo de regimento, conseguir qualquer coisa nessa atmosfera parecia quase
impossível. Era como tentar nadar em melado.

Nada ilustra melhor seu problema do que a mixórdia contida no “Matador”, nome do plano que lhe
mandaram seguir assim que começassem as hostilidades, que estabelecia fosse feito um rápido avanço contra
Singora, no Sião, para tomá-la e defendê-la contra qualquer invasão marítima. A unidade destacada para essa
difícil tarefa foi a 11 a Divisão indiana, do Major-General Murray-Lyon - que também fora designada para
defender a posição de Jitra. Como cumpriria ele as duas tarefas, completamente antagônicas, é algo que
jamais se resolveu. Tampouco se decidiu quando exatamente se daria a ordem para o avanço. A política do
governo era impedir qualquer ato de provocação, mas os militares naturalmente queriam chegar a Singora
muito antes dos japoneses, para terem tempo de preparar a defesa. As discussões prosseguiram até 5 de
dezembro - dia seguinte à partida do exército de Yamashita de Samah. Mesmo então, Brooke-Popham
recebeu ordens de esperar até que o território do Sião fosse violado. A única concessão que recebeu foi de
poder despachar suas tropas sem necessitar da prévia aprovação de Londres.

Mas esta concessão, como tudo o mais, viera tarde. Pouco depois as bombas estariam caindo, fazendo ecoar
pela selva o som de muitos estrondos. A ameaça japonesa, transformando-se em fúria por todo o Pacífico
Ocidental, lançara “um crepúsculo sinistro”, para usar a expressão de Winston Churchill, a 8 de dezembro de
1941.

O gosto da realidade

“A lua, como uma bandeja, mergulhava para além do mar ocidental e o sol, de um vermelho intenso, surgia
no leste. A baía de Smah, cintilando em ondas de ouro e prata, era uma pintura. Os homens, no comboio de
vinte navios, olhavam para onde aproavam... quando os navios de escolta alinharam à direita e esquerda do
comboio... marcaram, por certo, o ponto de partida que determinaria o destino da nação para o próprio
século. A sorte estava lançada”. Assim o Coronel Tsuji descreveu a cena do momento em que o comboio de
Yamashita zarpou, na noite de 4 de dezembro. Não há dúvida de que seus sentimentos refletiam os de muitos
oficiais e soldados do 25o Exército.

Durante a noite de 4 para 5 de dezembro, a viagem prosseguiu sem incidentes. Pouco depois de clarear o dia,
veio um sinal de um dos aviões de escolta, comunicando: “Nenhum inimigo à vista no mar da China
Meridional”, e esta informação foi confirmada por vários outros relatórios, Mas, por volta das 10h,
Yamashita recebeu uma mensagem, a bordo do Ryijo, não muito confortante: “Submarino inimigo a 314 km,
ao largo de Saigon; velocidade 10 nós”- porém, mais tarde, revelou-se tratar-se de alarme falso. O incidente
seguinte só ocorreu às 13h30 do dia 6, quando um avião britânico sobrevoou o comboio. Era um Hudson de
Kota Bharu que, embora atacado por caças, conseguiu escapar. Yamashita acreditava que ele tivesse
transmitido informações sobre o tamanho, rumo e velocidade do comboio e que se podia esperar alguma
reação. Mas a sorte veio colocar-se de seu lado, pois o tempo nublou-se mais, desencadeando-se um
temporal que cegou a visibilidade e impossibilitou o reconhecimento aéreo. Às 19h, conforme planejado, o
comboio desviou-se para o norte, como se rumasse para o Golfo do Sião, e quando tornou a mudar de rumo,
na manhã seguinte, o céu ainda estava nublado e o tempo piorara. Contudo, às 10h10 Yamashita recebeu um
sinal do Vice-Almirante Ozawa: “Operações de desembarque podem prosseguir de acordo com os planos”.

O desembarque mais prejudicado pelo tempo foi o de Kota Bharu, onde o Major-General Takumi estaria no
comando. Um sinal retransmitido pela nave-capitânia indicou que, embora as ondas subissem já a um metro,
as condições gerais eram boas. Nas primeiras horas do dia 8, Yamashita soube que pouco antes da meia-noite
os três barcos que conduziam Takumi e seus homens haviam ancorado ao largo, com sua escolta naval. O
que não lhe disseram era que eles estavam a 2.000 m ao sul da sua posição correta e bem defronte aos
canhões da 8a Brigada indiana. Como Takumi recordou mais tarde: “Havia uma luz pálida, da lua em
crescente sobre o mar. Uma brisa forte soprava e eu podia ouvi-la assobiando nas antenas do rádio. As ondas
tinham agora dois metros” Esperando que elas não aumentassem ainda mais, Takumi lembrou que, de acordo
com os estudos de estado-maior para a operação, ondas desse tamanho eram as maiores que se podia aceitar.
Mais forte o vento do que o que estava soprando, então resultaria no caos.

Na verdade, quase se estabeleceu o caos. O trabalho de arriamento das barcaças e de levá-las até a terra foi
extremamente difícil. Tão logo tocavam a água, elas começavam a balançar violentamente, afastando-se dos
costados dos navios para logo se chocarem contra eles. Os soldados, temerosos de serem esmagados pelo
violento vaivém que faziam, gritavam na escuridão. Citando novamente Takumi: “Eles não só estavam
atrapalhados pelos coletes salva-vidas, como também sobrecarregados de fuzis, metralhadoras leves,
munição e equipamento. Era muito difícil saltar dentro da barcaça de desembarque e mais difícil ainda tomar
os lugares devidos. De vez em quando, um soldado caía gritando, dentro da água e os sapadores o
pescavam”.

Nessas circunstâncias, não é de surpreender que primeira leva de barcaças, sob o comando do Coronel Nasu,
demorasse mais de uma hora para ser lançada. Pacientemente, Nasu esperou, no mar agitado, até que Takumi
desse o sinal luminoso mandando-o avançar; respondeu ao sinal recebido, e deu a ordem. Takumi prossegue:
“As barcaças de desembarque puseram-se a caminho da costa em quatro fileiras. O barulho do motor
superpunha-se ao som das ondas. Então, uma luz vermelha brilhou duas vezes, entre as palmeiras, na costa.
A isto seguiu-se o fogo de fuzil, partido de sete ou oito lugares, e depois fogo de artilharia e metralhadora. O
inimigo parecia estar ali em grande número”.

Às 02h, com a segunda leva ainda por ser lançada, a RAF apareceu e bombardeou o comboio. Isto de tal
modo perturbou o Comandante da escolta naval que ele assinalou para Takumi exigindo o cancelamento da
operação. Takumi recusou, observando que não podia chamar de volta os que estavam já à beira da praia, e
de qualquer modo, as outras levas estariam a caminho aí pelas 06h. Até então, seria preciso aceitar os riscos.
O comandante da escolta cedeu com relutância, mas, minutos mais tarde, o Awajisan Maru, que transportava
Takumi e seu Estado-Maior, foi atingido por uma bomba e começou a adernar. Pedindo uma lancha, Takumi
estava prestes a dirigir-se para outro transporte, mas mudou de idéia e rumou direto para a praia. A decisão
foi, sem dúvida corajosa, pois a recepção que recebeu foi violenta. Ele a descreve: “Muitos oficiais e
soldados foram mortos ou feridos, muitos saltaram na água antes de a barcaça encalhar e nadaram até a praia.
As posições inimigas situavam-se a cerca de 100 m da água e podíamos ver que seus postos estavam
cercados de alambrados. Os canhões apontavam diretamente para nós”. Outra barcaça, como Takumi pôde
ver, encalhara logo abaixo dos postos defensivos e em local ainda mais difícil. Grandes quantidades de
homens eram ceifados pelo fogo de metralhadora pesada. O mar ainda estava tão agitado que os soldados
tinham dificuldade em se manterem equilibrados, ao saltarem dos barcos, e muitos foram mortos na corrida
de alguns metros da água à areia da praia. “A confusão, em todas as praias, era total”, escreveu Takumi, “mas
os comandantes de unidade compreenderam que se permanecessem onde estavam morreriam até o último
homem, de modo que a ordem foi para “prosseguir”. Os oficiais correram para o interior, seguidos dos
soldados, que logo começaram a rodear as posições inimigas e a escavar a areia sob o arame farpado.
Também usamos granadas”.
Eram quase 04h quando Yamashita recebeu a primeira notícia de Takumi, expressa sucintamente:
“Conseguimos desembarcar às 02h15”. Yamashita estava a bordo do seu navio, na baía de Singora, onde
chegara às 00h35. Não houve oposição, desembarcando as tropas em ordem de parada. O próprio Yamashita
desceu a terra às 05h20 e registra em seu diário:
“08h. Entrei na residência do governador e mandei que a polícia fosse desarmada.
13h. Consegui chegar a acordo com o governo tailandês.
23h. Terminadas as diligências que nos permitem passar por território tailandês”.

Naturalmente, o governo siamês não tinha outra alternativa senão submeter-se humildemente para não ver
seu país destruído. O que Yamashita chamou “formalidades” foi simplesmente uma exigência ríspida.

Enquanto Yamashita cumpria as tarefas mencionadas, o Estado-Maior do 25 o Exército aprontava-se


rapidamente para avançar rumo sul, Malásia adentro. O Coronel Tsuji (Oficial de Operações do Estado-
Maior) enchera os caminhões de soldados, disfarçados de refugiados civis e soldados siameses, e mandou-os
apressadamente pela fronteira, para tomar as pontes vitais antes que os britânicos as demolissem.

Yamashita já havia tomado conhecimento de que o ataque aéreo à base naval americana de Pearl Harbor fora
um sucesso. Ele sabia que a supremacia naval no Pacífico passara, dessa forma, para os japoneses, e que a
superioridade aérea sobre toda a península Malaia e Cingapura seria questão de horas. Entrementes, Matsui e
a 5a Divisão, deslocando-se pelas rodovias Singora - Alor - Star e Patani - Kroh, dirigiram-se para o sul,
liderados por colunas de tanques. Seu objetivo era Jitra, na província de Kedah, situada perto da costa
ocidental, no entroncamento da rodovia de Kangar com a rodovia-tronco principal. Na verdade, Jitra era a
chave de toda a campanha.

Chegamos então ao momento de examinar as primeiras horas da guerra, segundo o comportamento dos
britânicos, que se mostraram lentos, confusos e sem o necessário aguerrimento. A realidade se fez sentir com
dolorosa lentidão.

A edição matutina do Malaya Tribute estampava em manchete: “Vinte e sete navios japoneses avistados ao
largo da ponta do Camboja”, situado na extremidade sul da Indochina e, segundo mensagem de Reuter,
transcrita logo abaixo, os navios rumavam para oeste, na direção do Sião, da Malásia, ou de ambos. Para
James Glover, que era o principal redator do jornal, a notícia só tinha um significado: guerra. Brooke-
Popham, para quem o significado era outro, não demorou a telefonar para Glover, protestando contra a
“publicação de notícias alarmistas”. “A situação não é tão séria como o Tribune quer fazer crer.”
Evidentemente, deste ponto de vista partilhava a maioria da comunidade européia, pois quando Glover foi
para o seu ponto de encontro dominical favorito, o Hotel Sea View, ali, estavam homens de negócios, oficiais
das forças armadas, funcionários públicos e suas esposas, relaxando, com seus copos de drinks gelados,
enquanto os criados chineses se movimentavam discretamente de mesa em mesa e a orquestra tocava uma
seleção de músicas do filme “Branca de Neve e os Sete Anões”, de Walt Disney.

Os comandantes militares não se encontravam no hotel, mas não se pode dizer que estavam reagindo com a
necessária rapidez. A 6 de dezembro, quando o sinal do avião Hudson foi recebido, Brooke-popham não
desfechou a “Operação Matador”, ordenando apenas “Estado de Prontidão”. Assim, as tropas da 11 a Divisão
indiana permaneceram em seus acampamentos, na fronteira siamesa, que as chuvas da monção encharcara.
Percival, mais tarde, escreveu em seus despachos que “não havia causa exagerada de alarma, pois, segundo
supunha, a expedição japonesa rumava contra o Sião”. Na noite do dia 7, outro avião informou sobre a
presença de um cruzador japonês que navegava na direção oeste e, mais tarde, de quatro destróieres e um
navio mercante, com o convés abarrotado de soldados, que se dirigiam para o sul. Ainda assim, não houve
alarma. Embora o embaixador japonês no Sião já tivesse tido uma audiência com o governo do país exigindo
a passagem das tropas de Yamashita pelo seu território, em direção à Malásia, nem a Legação Britânica, nem
o Serviço de Inteligência britânico souberam disso.

Foi pouco depois de uma hora da manhã de segunda-feira, dia 8, que Sir Shenton Thomas soube que a guerra
realmente chegara. Do seu Q-G, em Fort Cunning, o General Percival informava, pelo telefone, ao
governador que os desembarques haviam começado em Kota Bharu. Segundo um relato, Thomas respondeu,
um tanto impremeditadamente: “Bem, creio que você expulsou os homenzinhos dali”, e depois telefonou,
dando instruções para que todos os japoneses fossem arrebanhados e os planos de segurança fossem postos
em operação. Três horas depois houve outro telefonema, desta vez do Vice-Marechal-do-Ar Pulford, que
informou que os aviões inimigos estavam a apenas 40 km de Cingapura. Às 04h15 as primeiras bombas
começaram a cair. Quando o ataque terminou, 61 pessoas haviam sido mortas e 133 feridas, a maioria no
quarteirão chinês.

O ataque foi um choque para Thomas e para os comandantes militares. Percival nem sequer sabia que havia
aviões inimigos mais perto do que a Indochina francesa, a 1.000 km de distância. Assim, as horas que
mediaram entre o recebimento da notícia de Kota Bharu e o começo do ataque foram desperdiçadas. Não
foram dadas instruções para reduzir o número de lâmpadas acesas, ou para o completo escurecimento da
cidade. As ruas permaneciam intensamente iluminadas. A iluminação era feita a gás e as lâmpadas tinham de
ser apagadas uma a uma por um homem que para tanto se utilizava de uma vara comprida - processo que
demorava muitas horas. Mais tarde, num exemplo excelente de bagunça administrativa, Sir Shenton Thomas
escreveu: “A ordem de prontidão não incluía o black-out”. Fica-se pensando: Para que se incomodou ele em
dar instruções?

Se havia confusão civil em Cingapura, também havia confusão militar mais ao norte. Sabendo dos
desembarques feitos em Kota Bharu, Brooke-Popham admitiu que era perfeitamente inútil o lançamento da
“Matador”, pois a 11a Divisão se veria flanqueada. Assim, cancelou a operação e mandou que as tropas se
retirassem para Jitra, a fim de tomarem posição defensiva. É justo que se mencione que os soldados estavam
exasperados e desmoralizados. Eles eram inexperientes até mesmo em treinamento básico, quanto mais em
preparo para a guerra na selva. Muitas unidades haviam perdido seus melhores suboficiais e soldados, que
haviam sido despachados para a Índia, a fim de treinarem novas unidades. Havia uma longa cadeia de
comando entre Brooke-Popham e as tropas que guarneciam a fronteira e, naquele momento, tal cadeia de
comando parecia um tanto tênue. Para começar, Brooke-Popham não conseguia encontrar Percival, pois este
escolhera aquele momento para deixar seu Q-G, a fim de colocar a par o Conselho Legislativo do que se
passava. Encontrado Percival, este teve de retornar ao seu gabinete e pedir uma ligação telefônica com a
frente de batalha pela linha civil. As ordens só chegaram a Murray-Lyon, comandante da 11 a Divisão, às 13h,
o que representou a perda de 10 preciosas horas. Quando os soldados afinal retornaram a Jitra, encontraram
as trincheiras inundadas e inúteis, sendo obrigados a cavar outras. A perda das dez horas deu aos japoneses a
vitória em Jitra, antes mesmo de iniciados os disparos. Mas, ficou evidente, toda a idéia da “Operação
Matador” fora mal concebida. Os soldados que montavam guarda à fronteira, que deveria estar protegida por
alambrados, teriam que ser substituídos por tropas descansadas. A História Oficial da Guerra observa
simplesmente que “O Q-G do Comandante Malaio, ao que tudo indica, não compreendeu a necessidade de
uma decisão rápida”. Isto, naturalmente, atenua a espantosa proporção da verdade. Se um comandante não
toma uma decisão rápida, tendo o inimigo às portas, que se pode dizer dele? Ninguém esperava grande coisa
de Brooke-Popham, mas Percival deixou bem clara a impressão de que, apesar do consignado sobre seu
comportamento pessoal em ação e do sucesso que colheu como oficial de Estado-maior, não era
absolutamente um líder. Daí em diante, as impressões viriam com crescente freqüência.

Confusão em Cingapura e mixórdia na fronteira. Já houvera confusão em Kota Bharu. Os soldados indianos
da 8a Brigada, do Brigadeiro Key, haviam lutado com grande bravura atrás das suas defesas fortemente
minadas e alambradas, infligindo pesadas baixas ao inimigo, mas por volta das 04h os japoneses tinham
conseguido tomar dois pontos fortes. Ao amanhecer, quando eles estavam ampliando gradualmente o ponto
de apoio que conquistaram, o comandante da brigada decidiu lançar um contra-ataque com os Fuzileiros
Dogras da Força de Fronteira Indiana, que deveriam avançar para leste, ao longo das praias desde Badang,
enquanto o apoio seria dado pelos canhões embasados perto do aeródromo. O terreno, cortado por rios e
cursos de água pantanosos, era difícil e o contra-ataque fracassou. Ainda assim, os dogras mantiveram-se
firmes na praia e, embora a situação ali fosse confusa, estava, no entanto, longe de ser desesperada.

A freqüente intervalos, durante o dia, o aeródromo fora bombardeado e metralhado. Então, por volta das 16h,
começaram a correr boatos de que os japoneses haviam penetrado livremente através das defesas da praia e
estavam no perímetro do aeródromo. O que pode ter acontecido é que algumas balas perdidas chegaram até
ali, e os soldados - que nunca haviam estado em ação - tiraram conclusões precipitadas. O mais importante é
que um oficial, ainda por ser identificado, deu ordens para que o “plano de negação” fosse executado. Assim,
em questão de minutos, os prédios foram incendiados e a equipe de terra embarcou em seus veículos e foi
embora. Sabendo disso, o comandante de esquadrilha e o Brigadeiro Key realizaram um reconhecimento
rápido, descobrindo que não havia japoneses nas proximidades do aeródromo. Mas era tarde demais; os
homens não podiam ser chamados de volta. O pior ainda é que os estoques de bombas e gasolina estavam
ainda por serem destruídos, e as pistas, por serem postas fora de ação. Os aviões já haviam sido retirados
para Kuantan, por ordem do Q-G da Aeronáutica, de modo que os soldados indianos que defendiam
resolutamente as praias ficaram sem qualquer cobertura aérea.
A providência seguinte era inevitável. Quando mais navios de tropas japonesas chegaram ao largo da costa, o
Brigadeiro Key decidiu recuar. Os nipônicos haviam conseguido sua cabeça-de-praia em menos de 24 horas.
Felizmente, a 73a Bateria de Campanha fora para o aeródromo e incendiara os depósitos de gasolina,
bombardeando-os a queima-roupa, mas as pistas ainda estavam utilizáveis.

Após o anoitecer, a artilharia e os canhões antiaéreos escaparam sem dificuldades. Mas os três batalhões
avançados passaram maus bocados, atolando-se nos arroios e pântanos, sob chuva torrencial. Ocupando uma
linha defensiva a alguns quilômetros para o interior, eles foram intensamente atacados por morteiros e,
depois, por infantaria, e para evitar o perigo de cerco foram obrigados a recuar novamente. Os aeródromos
de Gong Kedah e Machang foram abandonados. Por volta de 11 de dezembro, Key concentrara sua brigada
sobre a ferrovia que corre ao sul de Machang, e ali tomou poderosa posição defensiva. Contudo, o
comandante-de-divisão de Key, Major-General Barstow, já havia solicitado a seu superior, General Heath,
permissão para recuar para Lipis, na Malásia central. A tarefa principal da brigada, observou ele, fora a
defesa dos aeródromos do norte que, uma vez abandonados, levava a que ela procurasse encurtar sua tênue
linha de comunicação. Hearth, por sua vez, buscou a permissão de Percival, que novamente não estava onde
deveria estar. Ele deixara seu QG e tomara o trem para Cingapura. Nas palavras dos historiadores oficiais,
“Sua ausência da frente, nessa conjuntura crítica, foi inoportuna”. Foi pior que inoportuna, foi absoluta falta
de habilidade militar.

A guerra aérea fora pior que a terrestre. Uma força de bombardeiros despachada para bombardear Singora
não tivera êxito algum, perdendo, além disso, muitos aparelhos para os caças inimigos. A RAF não
conseguira proporcionar cobertura aérea suficiente aos aeródromos do norte e o sistema de aviso se mostrara
apenas ainda inadequado. Repetidamente os aviões foram surpreendidos em terra, e só durante o dia 8 de
dezembro as unidades aéreas que operavam dos aeródromos do norte foram reduzidas de 110 para 50
aparelhos. Dos aeródromos situados em torno de Singora e dos aeródromos do norte, depois que estes
entraram de novo em funcionamento, os japoneses logo aumentaram sua força de ataque. Em breve os céus
lhes pertenceriam.

Nessa atmosfera de confusão e de desintegração, não é de surpreender que os boatos e informações falsas se
multiplicassem. O mais sério destes foi o de um desembarque em Kuantan, na costa leste, a 300 km ao norte
de Cingapura. Os acontecimentos sucederam-se assim:

Pouco depois do meio-dia de 8 de dezembro, o Almirante Tom Phillips, comandante da “Força Z”, integrada
pelo HMS Prince of Wales, pelo HMS Repulse e quatro destróieres, convocou uma conferência, a bordo da
sua nave-capitânia. Acabara de chegar a informação dos desembarques em Singora e Kota Bharu, e Phillips
era de opinião de que, com cobertura de caça, a Marinha Real poderia destruir os transportes japoneses e
suas escoltas. De qualquer modo, a “Força Z” não poderia permanecer inativa em tal conjuntura. Assim, às
15h35, deixou ela o porto de Cingapura, rumando para noroeste. Pouco antes de zarpar, Phillips foi avisado
de que a RAF duvidava que pudesse proporcionar cobertura de caça ao largo de Singora e, no dia seguinte,
ele soube que os aeródromos do norte da Malásia tinham caído em poder do inimigo. Corajosamente,
Phillips decidiu que, se sua força não fosse avistada por aviões no dia 9, ele tentaria executar sua missão, e às
16h ordenou que a esquadra tomasse o rumo norte. Nesse momento o tempo estava encoberto e caíam
violentas chuvas, mas algumas horas depois o céu clareou e três aviões apareceram. Toda a esperança de
surpresa se perdera e sem cobertura aérea os navios seriam violentamente atacados pelos esquadrões
japoneses muito antes de chegarem ao objetivo. Assim, às 20h15, Phillips, sentindo que os riscos eram
grandes demais, retornou pesarosamente a Cingapura. Chegavam, porém, informações dos “desembarques”
em Kuantan e o almirante decidiu que tinha de agir. Tendo sido visto zarpar para o norte antes do anoitecer,
era pouco provável, ponderou ele, que os japoneses desconfiassem da sua presença em Kuantan, situada bem
ao sul, e havia boa chance de ele conseguir surpresa. Assim, pouco antes de uma hora do dia 10 de dezembro
ele tornou a alterar o rumo - para Kuantan.

Mas o almirante subestimara a eficiência dos nipônicos e a determinação em que se encontravam de não
deixar que Prince of Wales e o Repulse prejudicasse, seus planos. Submarinos haviam avistado a “Força Z”
no dia 9 cedo, comunicando aos seus o rumo e a velocidade que ela levava. O Almirante Kondo mandara
imediatamente o 7o Esquadrão de Cruzadores rumar para o sul, a fim de interceptar Phillips. Os aviões da 22 a
Flotilha Aérea, armados de torpedos, decolaram para um ataque noturno, mas não conseguiram encontrar a
“Força Z”, devido à mudança de rumo, e retornaram a Saigon. Então, às 02h10 do dia 10, outro submarino
avistou os navios britânicos e disparou cinco torpedos, que erraram, todos o alvo. Enfurecido, Kondo,
verificando que seus navios jamais alcançariam Phillips, mandou a 22 a Flotilha Aérea atacar ao amanhecer.
Imediatamente após receber a ordem, o comandante da flotilha despachou 12 aviões de reconhecimento e
pouco antes das 03h30 um destes avistou os navios de Phillips. Mantendo-os à vista, o piloto comunicou-se
com seu QG e, pouco antes do amanhecer, a força de ataque decolou: 34 bombardeiros de alto nível e 51
bombardeiros-torpedeiros, que rumaram confiantes para sudoeste.

Entrementes, a “Força Z” navegava para Kuantan, onde chegou às 08h. Não encontrando sinal algum de
invasão, Phillips decidiu realizar uma varredura para o norte e leste a fim de examinar algumas barcaças que
haviam sido avistadas a distância. Às 10h chegaram informes sobre a presença de aviões hostis e 20 minutos
depois o operador do radar do Repulse comunicou o surgimento de pontos em sua tela. Os aviões se
aproximavam, vindos do sudoeste. Pelas 11h era possível ver nove deles no céu, os quais começaram
sistematicamente um ataque de bombardeio de alto nível contra o Repulse. Demonstrando boa precisão de
tiros, os nipônicos faziam cair, de ambos os lados do navio, sua bombas, atingindo uma delas o convés do
barco, mas, felizmente, não conseguiu perfurar sua blindagem. Pouco antes do meio-dia, um esquadrão de
bombardeiros-torpedeiros apareceu e os grandes navios de linha começaram a manobrar. O Repulse
conseguiu, mas quando o Prince of Wales se desviou para bombordo, houve duas enormes explosões. Seus
eixos de hélice pararam imediatamente e ele ficou desgovernado. Alguns minutos depois, adernava para
bombordo, baixando sua velocidade para 15 nós. Às 12h10 seu capitão comunicou: “Fora de controle”.
Entrementes, o Repulse fora violentamente atacado pelos bombardeiros e bombardeiros-torpedeiros, mas
mostrando incrível habilidade de manobra, seu comandante, Capitão Tennant, conseguira escapar a todos. Os
aviões continuavam chegando. O Prince of Wales foi atingido por mais três torpedos, e depois foi a vez do
Repulse. Aviões convergiam sobre ele de todas as direções, não demorando muito para um torpedo atingi-lo.
Perdendo o poder de manobra, ele foi repetidamente atingido. O leme enguiçou e o Capitão Tennant,
compreendendo que a situação era desesperada, mandou sua tripulação para o convés, a fim de soltar os
barcos salva-vidas. Ele próprio narra o que aconteceu:
“Os homens corriam para o convés. Todos haviam sido avisados 24 horas antes para que se munissem de
salva-vidas. Quando o navio estava com 34 graus de adernamento para bombordo, olhei para boreste da
ponte e vi o imediato e duzentos ou trezentos homens se reunirem a boreste. Não vislumbrei qualquer indício
de pânico ou indisciplina. Da ponte, disse-lhes que eles haviam lutado muito bem e lhes desejava boa sorte.
O navio manteve-se por pelo menos um ou dois minutos com uma inclinação de 60 ou 70 graus para
bombordo, tombando às 12h33”.

Dos 69 oficiais e 1.240 marinheiros, 42 e 754, respectivamente, foram recolhidos pelos destróieres. Muitos
foram mortos durante o ataque, outros afogaram-se.

Entrementes, com os conveses inundados, o avariado Prince of Wales navegava para o norte, sempre atacado
pelos bombardeiros. Por volta das 13h ele começou a afundar e seu capitão ordenou aos que ainda se
encontravam a bordo que abandonassem o barco. Todos, exceto 20 oficiais e uns 300 homens foram salvos,
mas não havia sinal do Almirante Tom Phillips nem do Capitão Leach entre os sobreviventes. Talvez não
quisessem ser salvos. Quando o esquadrão de Buffalos, destacados para dar cobertura aérea chegou a
Cingapura, o mar estava coalhado de destroços e homens flutuando à espera de serem recolhidos pelos
destróieres. Curiosamente, os homens estavam longe de se sentirem desanimados, como um piloto disse mais
tarde:
“Era evidente que os três destróieres demorariam horas para recolher aquelas centenas de homens agarrados
a destroços ou nadando na água suja e oleosa. Além do mais, havia a ameaça iminente de outro ataque, de
bombardeio e metralhadora. Todos eles deveriam estar compreendendo isso, mas quando sobrevoei o local,
todos acenaram e ergueram o polegar... o que me deixou meio abalado, pois ali estava algo acima da natureza
humana”.

A perda da “Força Z” foi um dos maiores desastres sofridos pela Marinha Real em toda a sua história. Para
os britânicos que viviam na Malásia, a perda de uma lenda, pois haviam sido informados de que a chegada da
esquadra lhes garantiria a segurança, e a esquadra fora eliminada em questão de horas, tal como a esquadra
americana em Pearl Harbor. Quando Duff Cooper transmitiu pelo rádio, de Cingapura, naquela noite, que a
lamentável perda exigia que os soldados lutassem mais e mais aguerridamente, eles riram tibiamente, com o
moral ainda mais abatido. Que diabo estariam fazendo seus líderes? E o almirante? Onde estavam os aviões?
Ninguém lhes podia dar uma resposta satisfatória e nem mesmo um raio de esperança. Tudo o que podiam
fazer era continuar lutando na chuva torrencial.

Para Winston Churchill, o desastre foi sem paralelo. Mais tarde, ele escreveu:
“Em toda a guerra, jamais recebi choque tão direto... Enquanto rolava para lá e para cá, na cama, compreendi
todo o horror da notícia. Não havia navios de linha britânica ou americanos no Oceano Índico ou Pacífico,
exceto os sobreviventes de Pearl Harbor, que voltava, às pressas para a Califórnia. Por toda aquela vasta
extensão de água, o Japão reinava supremo, e por toda parte estávamos fracos e nus”.

Como em todos os grandes desastres navais, a perda da “Força Z” tinha seus mistérios. Por que Tom Phillips
não avisou Cingapura, ao saber que estava sendo seguido às 10h20 do dia 10? Por que não comunicou à base
a intenção de rumar para Kuantan? E, uma vez avistados os aviões inimigos na tela do radar, por que não
solicitou o apoio dos Buffalos do Esquadrão 453, que aguardavam em Sembawang para lhe dar cobertura
aérea? A informação de que os couraçados estavam sendo atacados partiu do Capitão Tennant, mas... tarde
demais.

A notícia de que o Prince of Wales e o Repulse haviam sido afundados pelo preço insignificante de três
aviões foi recebida no Japão com enorme entusiasmo. Era uma vitória única e sem precedentes em toda a
história militar. Para Yamashita, cujo QG ainda estava em Singora, isto significava que sua linha de
comunicações, que ia até Samah, estava segura. Entrementes, suas tropas dirigiam-se para o sul, para Jitra, e
ele confiava em que seria vitorioso ali, alcançando depois, inevitavelmente, Cingapura.

Desastre em Jitra

No começo da guerra, o político e ex-diplomata Duff Cooper fora nomeado por Churchill para o postos de
Ministro Residente para Assuntos do Extremo Oriente, em nível de gabinete. Sua tarefa principal era presidir
o Conselho de Guerra, mas ele também substituiria os comandantes das forças armadas nas suas “atribuições
extemporâneas”, daria orientação política e solucionaria qualquer problema no local, desde que, por falta de
tempo, não pudesse submetê-lo à decisão de Whitehall. Contudo, segundo dispunham as instruções que
tinha, não lhe cabia interferir naquilo que fosse de responsabilidade dos chefes das forças armadas ou dos
“representantes de Sua Majestade no Extremo Oriente”. Como se vê, a função de Duff Cooper nada tinha de
fácil. Entretanto, homem muito inteligente e dotado de certa agressividade, na primeira reunião que teve com
os militares, a 10 de dezembro, afirmou que, como presidente do Conselho, a ele cabia dirigir a guerra. Logo
houve oposição por parte de Sir Shenton Thomas, que contestou que o Conselho tivesse poderes executivos.
Brooke-Popham concordou que ele continuaria recebendo ordens do Ministério da Guerra, e não de qualquer
civil. Assim, o Presidente do Conselho de Guerra e seus dois principais colegas tornaram-se inimigos
jurados, e, com isso, as três armas não trabalhavam em conjunto agora, como não trabalhavam antes.
Chegara a ter-se a impressão de que alguns dos comandantes graduados preferiam a derrota a cooperar com
seus colegas. Desse modo, o Conselho de Guerra redundou num fracasso.

Voltando à 11a Divisão, que havia tomado posição no entroncamento rodoviário de Jitra. Embora fosse a
melhor posição da área, ela estava longe de ser ideal, sendo escolhida porque protegia o aeródromo de Alor
Star e um grupo de aeródromos menores, mais ao sul. Alor Star era um dos mais famosos aeródromos do
Extremo Oriente, na época, porque ali foram feitas dezenas de tentativas de quebra de recordes de vôo e
corridas aéreas. Amy Johnson parara ali, no vôo da Inglaterra à Austrália, em 1930, assim como Kingsford-
Smith, Bert Hunkler, Ray Parer e outros. Ele também foi usado na famosa Corrida Aérea Inglaterra-Austrália
de 1934, e os holandeses Moll e Parmentier pousaram ali, assim como os americanos Roscoe Turner e Clyde
Pangborn, e os vitoriosos ingleses Scott e Black. Alor Star, com suas instalações e sua reserva de
combustível e suprimentos, era de imensa importância para a RAF.

Como já dissemos, a 11 a Divisão, ao retornar da “Operação Matador”, encontrou as trincheiras inundadas,


sem qualquer alambrado e outras formas de proteção. As minas antitanques ainda estavam empilhadas e não
havia um metro sequer de linha telefônica estendido. Seus integrantes puseram-se logo a trabalhar,
chapinhando na lama e com chuva pesada caindo sobre eles. Cada minuto era precioso e, como eles
compreendiam muito bem, não restavam muitos.

Murray-Lyon deslocara sua divisão com a 15a Brigada à direita, a 6a Brigada à esquerda e a 26a Brigada na
reserva. A frente ia das colinas cobertas de selva, passando por grandes áreas de plantio de arroz, ao mar,
estendendo-se por cerca de 24 km, dos quais a 6 a Brigada cobria três quartos. Apoiando a infantaria havia
duas baterias do 155o Regimento de Campanha e uma bateria do 22o Regimento de Montanha, além do 80o
Regimento Antitanque, menos uma de suas baterias. Destacamentos do 1/14 o do Punjab cobriam a posição
principal e, a partir das 08h do dia 11, estes foram atacados pelos japoneses. Em pouco, suas seções
avançadas foram vencidas e os dois canhões antitanques se perderam. O Brigadeiro Garrett (15 a Brigada)
decidiu recuar a unidade através da posição principal. Mas, às 15h, Murray-Lyon mandou-o tomar posição
perto de Nangka, a 3 km de Jitra, e os Punjabis começaram a recuar na chuva. Então os japoneses atacaram
com uma coluna de infantaria liderada por tanques, que desceu pela estrada a grande velocidade. Em pouco,
ela destruiu a retaguarda da 15a e alcançou a coluna principal, que logo rompeu formação e entrou em
pânico. A maioria dos Punjabis, que jamais tinha visto um tanque, pôs-se a correr, em busca de proteção. O
pior é que uma seção da 2a Bateria Antitanques fora surpreendida com seus canhões engatados no armão -
sem conseguir, sequer, disparar um só tiro. Os japoneses avançaram até que seu primeiro tanque foi destruído
pelos fuzis antitanques, quando toparam com 2/1 o de Gurkhas, que defendia o principal posto avançado, em
Asun.

Travou-se luta feroz, mas os japoneses conservaram a iniciativa. Atacando os Gurkhas frontalmente e pelos
flancos, eles conseguiram limpar a estrada e prosseguiram atacando selvagemente uma posição após outra. O
batalhão Gurkha fragmentou-se, frustrando-se as tentativas de retirada em ordem. Assim como fizeram os
Punjabis, os integrantes do batalhão meteram-se pela selva adentro em pequenos grupos, juntando-se à sua
brigada na manhã seguinte.

Entrementes, tinha havido outra confusão desastrosa. Após o noitecer do dia 11, as tropas do posto avançado
da 6a Brigada deslocavam-se para a principal posição de Jitra, cumprindo ordens, levando veículos de
transporte, sete canhões antitanque e quatro canhões de montanha. Seu caminho cruzava um curso de água
em Manggoi, a oeste de Jitra, e onde a ponte fora preparada para demolição. Sentindo a aproximação da
coluna, o nervoso oficial imaginou tratar-se dos japoneses e prontamente fez explodir a ponte. Como não
havia material para repará-la, os veículos e canhões tiveram de ser abandonados. Na história das guerras, é
bem possível que jamais tenha havido tanta confusão e estupidez.

É interessante o confronto do relato do colapso feito pelos britânicos com o dos japoneses. Segundo Tsuji,
que estava no local, a unidade que atacou e desbaratou os Punjabis, perto de Nangka, era o Batalhão de
Reconhecimento do Tenente-Coronel Saeki, incidente que envolveu a 2 a Bateria Antitanque, diz ele o
seguinte:
“Dez canhões, com suas bocas viradas para nós, estavam alinhados na estrada, mas não víamos nenhum
homem das suas guarnições perto deles. O inimigo, ao que parecia, procurava abrigar-se da violenta chuva
sob as seringueiras... e por causa dessa ligeira negligência, sofreram derrota esmagadora”.

Se os canhões estavam ainda engatados em seus armãos ou se aconteceu como Tsuji disse, a verdade é que o
resultado foi lamentabilíssimo. Com dois batalhões destruídos antes de iniciada a batalha principal, Murray-
Lyon perdeu sua reserva divisionária.

Assim que escureceu, Saeki despachou uma patrulha, sob o tenente Otto, para reconhecer a posição ocupada
pelo 2/9o Jats, no flanco direito britânico. Uma hora depois, Otto retornou com a informação de que as
companhias estavam fortemente protegidas por alambrados, mas que havia brechas entre as posições
avançadas. Pelo que pôde verificar, em meio à escuridão, acrescentou, o inimigo ainda estava acomodando-
se. Um ataque noturno teria, portanto, boa chance de sucesso. Saeki aceitou o conselho e desfechou um
ataque duas horas após, mas o volume do fogo de metralhadora e de artilharia fê-lo parar. Quando as
companhias de reserva foram lançadas em combate, tampouco lograram sucesso. Saeki, um tanto abalado,
falou em suicidar-se, dirigindo um ataque desesperado contra o inimigo. Embora um oficial superior
procurasse dissuadi-lo, os sobreviventes do Batalhão de Reconhecimento sentiram a falta de decisão e
ficaram momentaneamente abalados. Contudo, quando Saeki ordenou um ataque no centro, por toda a
unidade, apoiada por morteiros, os nipônicos, depois de luta intensa, conseguiram meter uma cunha profunda
nas posições britânicas. Entretanto, os Leicester e o 2/2 o Gurkhas resistiram, contendo novamente o ataque.
Então, o Pelotão de Transportadores do 2 o East Surreys contra-atacou, impedindo uma tentativa de envolver
os Leicesters.

“Nesta hora difícil, o Oficial General-Comandante pede a todas as fileiras do Comando Malaio que façam
um esforço decidido e contínuo para salvaguardar a Malásia e os territórios britânicos adjacentes. Os olhos
do Império nos fitam. Toda a nossa posição no Extremo Oriente estará em jogo. A luta talvez seja prolongada
e dura, mas sejamos firmes, aconteça o que acontecer, e nos mostremos dignos da grande confiança que nos
foi depositada”.

No dia 12, a “ordem do Dia” de Percival, emitida 48 horas antes, chegou até a tropas de Jitra, não causando
impacto algum. A batalha começara em confusão e continuava confusa. Percival era pouco mais que um
nome. Molhados de famintos, olhos fitos, através da selva, na direção dos japoneses, os soldados, fossem
britânicos ou indianos, não tinham muita fé em seus líderes ou esperança no resultado da campanha.

Nesses momentos, o instinto das tropas combatentes quase sempre reflete a verdade. Enquanto era lida a
“Ordem do Dia”, Murray-Lyon, Comandante da divisão, insistia junto ao general Heath, comandante do III
Corpo, para que lhe desse permissão de recuar para Gurn, 50 km ao sul. Fazia tal solicitação porque, disse
ele, lhe haviam dito que sua divisão era a única formação disponível para defender o norte da Malásia e ele
não podia arriscar-se. Os soldados, acrescentou, estavam desanimados por ter de combater contra forças mais
fortes, apoiadas por tanques. Ele também se encontrava preocupado com suas comunicações - isto é, que os
japoneses o envolvessem, pela retaguarda e lhe fechassem a estrada. Nesse momento, Heath ainda estava em
Cingapura com Percival e lhe submeteu o pedido. Este mostrou-se contrário a retirada tão longa, convencido
de que isto teria efeito negativo sobre os próprios soldados e sobre a população civil, no que era apoiado pelo
Conselho de Guerra.

Mas, embora conseguisse, às vezes, impor sua vontade, Percival não tinha o pulso necessário para proceder
como autêntico comandante, revelando tendências cada vez maior para ceder a Heath. Gordon Bennett,
comandante australiano escreveu:
“Heath... tinha personalidade mais forte que a de Percival e quase sempre conseguia impor-lhe sua vontade.
Em todas as conferências a que compareci, Heath insistia em retiradas. Na verdade, um dos seus brigadeiros
fora destacado para fazer reconhecimento de sucessivas linhas de retirada península abaixo.. [Numa ocasião]
sugeri que o único modo de enfrentar a situação era atacar. Ele ridicularizou a idéia”.

Levando em conta a possibilidade de que Bennett (cujas tropas ainda não haviam entrado em ação enquanto
se travava a batalha por Jitra) estava tentando justificar sua própria conduta, ainda assim, deve haver alguma
verdade em sua declaração.

Além de não conseguir impor sua vontade, Percival não logrou pôr em execução qualquer plano tático
enquanto a batalha em Jitra ainda prosseguia. No dia 12 de dezembro, era pelo menos evidente que a 11 a
Divisão estava sendo tão maltratada que a retirada era apenas questão de tempo. Por que não escolheu ele a
mais forte posição defensiva possível no caminho de volta a Cingapura, usando todos os homens disponíveis
para fortificá-la e abastecê-la para um prolongado cerco? Por que não construiu ele uma série de bases na
selva, de onde os japoneses poderiam ser atacados pelo flanco e pela retaguarda enquanto empreendiam seus
ganchos? Por que não pensou ele na guerra de guerrilha, em terreno tão favorável à sua prática? O Coronel
Spencer Chapman, que mais tarde se tornou famoso pela exploração da tática da guerrilha, já fizera
sugestões construtivas, apenas para ouvir como resposta que o Comando da Malásia não estava interessado
em tais idéias. Assim, o quadro se repetiria: luta, retirada; luta e novamente retirada... até que não houvesse
mais para onde se retirar.

Por volta do meio-dia do dia 12, o Major-General Kawamura, comandante da 9 a Brigada de Infantaria,
chegou ao local e mandou o 41o Regimento atacar pelo lado leste da estrada, enquanto o 40 o Regimento
atacava do outro lado. A operação teria lugar depois do anoitecer. Entrementes, Saeki estava de novo em
ação e por volta das 15h ameaçava os flancos dos Jats e dos Leicesters. Contudo, esta última unidade lutara
bem e estava cheia de confiança. Quando, por volta das 15h15, ela recebeu ordem para se retirar para a outra
margem de um arroio chamado Sungei Jitra, os que a integravam protestaram violentamente. Entretanto,
Murray-Lyon insistiu, de modo que eles voltaram, assim como os Jats. Este foi mais um grande golpe no
moral da tropa.

Mas os danos não acabaram por aí. Descendo a estrada para o seu QG naquela noite, Murray-Lyon encontrou
a coluna de transportes em começo de pânico, devido a boatos de que os tanques japoneses haviam penetrado
novamente. Mais tarde chegaram-lhe os boatos de que os Jats e Punjabis haviam sido vencidos e, embora
isso não fosse verdade, ainda assim houve impacto. Temendo que a estrada em pouco fosse cortada na altura
da retaguarda da sua divisão, Murray-Lyon decidiu que teria de passar para trás de um obstáculo para
tanques no dia seguinte. Assim, às 19h30, ele se comunicou com Heath, pedindo permissão para recuar para
a outra margem do Sungei Kedah, em Gurun. Heath, que ainda estava em Cingapura com Percival, apoiou o
pedido e Percival cedeu. A seguinte mensagem foi então mandada:
“Consideramos que sua tarefa é lutar pela segurança do norte de Kedah. Apenas uma divisão japonesa deve
estar em oposição às forças sob seu comando. A melhor solução, segundo consideramos, talvez seja impedir
o avanço dos tanques inimigos com bons obstáculos e dispor suas forças de modo a obter considerável
profundidade nas duas estradas e campo de ação para sua artilharia, que é superior à do inimigo. As reservas
para emprego na área divisionária estão sendo providenciadas”.

Com esta mensagem - cuja ingenuidade raia pelo incrível - foi dada também permissão a Murray-Lyon para
recuar conforme seu critério. Assim, às 22h ele ordenou a seus homens que se deslocassem para a outra
margem do Sungei Kedah, em Alor Star, cerca de 24 km à retaguarda.

Uma vez mais, os soldados, exaustos, recolheram sua munição e equipamento e desceram a estrada, debaixo
de chuva torrencial. Os Leicesters estavam furiosos por serem retirados da posição que ocupavam. Unidades
se dispersaram e fragmentaram na escuridão, perdendo-se toda a ordem e coesão. Alguns comandantes de
unidade, temendo congestionamento nas estradas, levaram-nas, pelo leito da ferrovia, para oeste; algumas
desceram pelas praias e outras nem sequer receberam a ordem de recuar. Somente na manhã seguinte é que
estas perceberam o acontecido, quando então tiveram de romper contato com o inimigo às pressas, deixando
para trás boa quantidade de munição e equipamento. Embora a tentativa dos japoneses de interferir na
retirada fosse enfrentada com decisão pelo 2/2 o Gurkhas, a retirada foi um autêntico desastre. A 11 a Divisão
indiana jamais seria a mesma novamente.

Quanto à ação em Jitra, foi provavelmente a maior desgraça dos exércitos britânico-indianos desde
Chillianwala, na Segunda Guerra Sikh, de 1848. Centenas de homens se perderam, assim como canhões,
equipamento e veículos. Porém, o mais irritante é que Matsui nem sequer se sentiu obrigado a deslocar toda
a 5a Divisão: o trabalho fora feito pela guarda avançada, cujos efetivos totalizavam apenas dois batalhões e
uma companhia de tanques. O total de perdas sofridas pelos nipônicos não chegou a 50 homens. Matsui
registrou o seguinte em seu diário: “Os soldados inimigos não têm espírito de luta... estão contentes por se
renderem... estão aliviados por saírem da guerra”. Quanto a Yamashita, escreveu em seu diário, no dia 10 de
novembro: “Se os soldados indianos estão incluídos nas forças britânicas que defendem a Malásia, o trabalho
será fácil”. Depois de tudo que se passou, ele considerou justificada a previsão que fez.

Já se esclareceram as razões principais para a derrota: a grande dispersão das posições de unidade, que
permitiu aos japoneses realizar penetrações profundas; a fuga desordenada depois que se abandonou a
“Operação Matador”; e o pouco tempo concedido à 11 a Divisão para ocupar e preparar sua posição. Não há
dúvida que Murray-Lyon cometeu erro desastroso ao emprenhar dois batalhões em deveres de posto
avançado sem a proteção de qualquer obstáculo antitanque. Quando estes foram isolados, e tendo perdido a
reserva divisionária, não puderam conter a penetração inimiga. À parte, reagiram a qualquer boato que
corria; a oficialidade, por sua vez, não se mostrou capaz de lidar com eles na campanha. As comunicações
entre os batalhões e o QG divisionário eram muito primitivas. Na ausência de aparelhos de rádio, eles se
faziam através de estafetas, que quase sempre se perdiam.

Deve-se mencionar aqui que nenhum dos dois lados estava bem equipado com mapas. Os mapas britânicos
eram em grande escala, mas na maioria datavam de 1915, omitindo, portanto, muita coisa que o
desenvolvimento da região fez aparecer. Os japoneses dependiam de mapas pequenos, na maioria copiados
de atlas escolares, mas seus oficiais estavam acostumados com eles, pois o exército japonês sempre lutou
com mapas inadequados. Contudo, uma vez travado contato, os japoneses trabalhavam excelentemente em
terra e tiveram a sorte de capturar um mapa britânico com todas as posições defensivas marcadas. Depois de
seu treinamento na Ilha de Hainan, a região de mata cerrada não os preocupava, embora detestassem a selva
como qualquer outro soldado.

Mas, o importante é que eles acreditavam em seus comandantes e tinham a iniciativa. Nas batalhas futuras,
não pretendiam perder essa vantagem

A longa retirada

A situação dos Aliados no Norte da Malásia, quando um sol tímido surgiu na manhã de 13 de dezembro, não
era realmente boa. Protegidos por elementos da retaguarda da 28 a Brigada que por ali se encontravam, os
remanescentes da 11a Divisão indiana recuavam para guarnecer uma posição atrás do Sungei Kedah, em Alor
Star. Muitos dos soldados haviam perdido ou jogado fora suas armas e vagavam à procura das suas unidades.
Entrementes, tocaieiros japoneses, vestidos como malaios, haviam penetrado na selva, flanqueando a
posição, gastando-se algum tempo na caça a esses elementos.
Era evidente que para deter a velocidade do avanço dos nipônicos era vital que se destruíssem as pontes
rodoviárias e ferroviárias sobre o Sungei Kedah, tendo-se instalado as cargas durante a noite de 12 para 13.
Pouco depois do amanhecer, Murray-Lyon e o comandante dos sapadores aguardaram junto à ponte
rodoviária que os últimos soldados a cruzassem, e ficaram surpresos quando dois motociclistas japoneses
apareceram ruidosamente pela estrada, vindo na sua direção. Ambos logo foram eliminados e Murray-Lyon
mandou destruir as pontes. A ponte rodoviária explodiu sem dificuldades, mas a ferroviária, embora
danificada, permaneceu. Nesse momento, um trem blindado desceu a linha, vindo do norte, e todos
esperavam que se completasse a destruição da ponte. Mas, para espanto geral, ele a transpôs e prosseguiu,
desaparecendo de vista. Assim, foi preciso colocar mais explosivos para destruí-la de vez.

E bem a tempo, pois nesse momento a guarda avançada japonesa apareceu e os soldados tentaram
arduamente cruzar o rio. Alguns conseguiram, mas foram repelidos por um contra-ataque desfechado pelo
2/9o Gurkhas. Parado, olhando seus soldados, encharcados, desorganizados e exaustos, Murray-Lyon decidiu
que eles não estavam em condições de resistir a uma defesa prolongada. A única esperança era romper
contato com o inimigo e recuar os 30 km até Gurun. Ali talvez houvesse tempo para que a tropa se
reorganizasse. Percival talvez cumprisse sua promessa de mandar reforços de Cingapura.

Assim, naquela noite, a divisão tornou a recuar, com a chuva ainda caindo forte e os veículos engarrafados
na única estrada. Embora houvesse sido feito o reconhecimento da posição de Gurun, nenhum trabalho de
defesa foi realizado. A tropa, já castigada, teria de recomeçar tudo. A posição escolhida ficava sobre a
rodovia e a ferrovia principais, cerca de 5 km ao norte de Gurun, e corria desde as encostas cobertas de selva
do monte Kedah, à esquerda, até a selva, cerca de 3 km à direita, Embora não fosse, a posição, dotada de
recursos naturais de defesa, podia ser pior. Mas o que a 11 a Divisão precisava era de tempo... tempo para
entrincheirar-se... tempo para colocar os alambrados e minas... tempo para abrir um campo de tiro... e, mais
que tudo, tempo para dormir.

Infelizmente para eles, tempo era algo que não teriam. Os regimentos de sapadores de Yamashita, depois de
seu exaustivo treinamento em Hainan, estavam trabalhando com tremenda rapidez no reparo das pontes
dinamitadas. Assim, pouco depois do almoço, no dia 14, quando os últimos desgarrados mal haviam sido
recolhidos, uns doze caminhões carregados de soldados de infantaria japoneses, apoiados por três tanques,
desceram pesadamente a estrada. Murray-Lyon esperava que os nipônicos demorassem pelo menos três dias
para consertar a ponte rodoviária sobre o Sungei Kedah - e ali estavam eles, apenas 30 horas mais tarde. A 6 a
Brigada defendia a estrada e a linha férrea (com a 28 a Brigada à sua direita e a 15a Brigada, reduzida a 600
homens, na reserva). Contudo, foram os artilheiros antitanques que abriram fogo primeiro, destruindo o
tanque que vinha na frente. Os outros dois afastaram-se, mas a infantaria, que já se deslocara, lançou um
ataque furioso contra os Punjabis à esquerda da estrada. Duas horas depois, após terem sido fortemente
reforçados, eles conseguiram penetrar as posições indianas e não demorou muito para que houvesse soldados
recuando às pressas. O moral do batalhão estava muito baixo e a precisão dos morteiros japoneses
preocupava os jawans indianos. Além disso, eles estavam desesperadamente exaustos. Foi quando o
comandante da brigada, Brigadeiro Lay, concluiu que, a menos que se fizesse algo depressa, a posição se
fragmentaria. Assim, com grande coragem, ele organizou um contra-ataque e o dirigiu pessoalmente. A
posição em torno do marco rodoviário 20 foi estabilizada. A visão e o desassombro do brigadeiro muito
contribuíram para restaurar a confiança da tropa.

Entrementes, o comandante-de-corpo, General Heath, finalmente apareceu para avistar-se com Murray-Lyon,
em seu QG, a alguns quilômetros ao sul de Gurun. Ali, este último declarou que seus soldados estavam
praticamente incapacitados para realizar uma série de batalhas entremeadas de longas retiradas. Impunha-se,
insistiu, uma longa retirada, por caminhões, até uma área de concentração a ser escolhida. Depois de
descansada e reorganizada, a tropa poderia lutar novamente - mas não antes disso. Em princípio, Heart
concordou, mas estipulou que a tarefa imediata da 11 a Divisão era deter os japoneses em Gurun. Não havia
necessidade de se preocupar com a linha de comunicações, acrescentou; a 12 a Brigada estava agora sob seu
comando e iria para o bloqueio das estradas de Kroh e Grik para o leste. Naquela noite, Hearth telefonou a
Percival recomendando que a 11 a Divisão recuasse 100 km ou mais, para trás do rio Perak. Poder-se-ia fazer
uma defesa temporária no rio Muda, para dar tempo a que a guarnição fosse evacuada da ilha Penang.
Entrementes, os japoneses seriam retidos por uma longa série de demolições ao longo da rodovia e da
ferrovia. Com isso, Percival concordou em que outra retirada talvez fosse inevitável, mas disse a Heath que a
11a Divisão não poderia recuar para o outro lado do rio Muda sem sua permissão.
Porém uma vez mais, os japoneses não esperaram os acontecimentos. Pouco depois da meia-noite eles
lançaram prolongado bombardeio de morteiros e depois atacaram diretamente pela estrada, atravessando as
posições dos Punjabis. Em pouco haviam penetrado as posições defendidas pelo 2 o East Surreys, ao sul.
Chegaram então ao QG regimental, matando o oficial-comandante e seu Estado-Maior e prosseguiram para
cuidar do QG da 6a Brigada. Com exceção do Brigadeiro Ley, que estava fora, com uma unidade, todos
foram eliminados. Na manhã seguinte, com um enorme buraco no centro da posição, o Brigadeiro
Carpendale, da 28a Brigada, reuniu todos os soldados que pôde encontrar e conseguiu deter o inimigo. Mas
quando Murray-Lyon chegou, ele imediatamente ordenou outra retirada, para uma posição a 12 km para trás,
que era protegida por uma força mista de infantaria e cavalaria. Contudo, não demorou muito a compreender
que a 28a Brigada era agora a única formação sob seu comando em estado de obedecer ordens, e decidiu
recuar para o outro lado do rio Muda naquela noite. Felizmente, os japoneses, que haviam sofrido seriamente
com o fogo de artilharia durante o dia, não os perseguiram. Pela manhã do dia 16, os remanescentes da 11 a
Divisão já estavam em suas novas posições. Não é preciso dizer que eles perderam mais homens e
equipamentos, na confusão de mais uma retirada e por causa de demolições prematuras.

Esta decisão significava que a ilha Penang, já sob intenso bombardeio aéreo, teria de ser evacuada. O golpe
no moral civil foi sério, mas havia outra alternativa, porque, depois da destruição das usinas elétricas e da
contaminação dos reservatórios de água, estabeleceu-se o temor de uma epidemia de cólera e tifo. Não havia
necessidade de realizar a evacuação com tal desordem e com tanto descuido. Quando os japoneses chegaram,
encontraram dezenas de barcos a motor, juncos e barcaças que logo utilizaram para as operações marítimas.

A 18 de dezembro, quando então a 11 a Divisão já recuara mais outros 50 km, para uma posição atrás do rio
Krian, Percival foi obrigado a fazer completa revisão da sua estratégia, pois agora via claramente que exceto
a 5a Divisão de Matsui, na rodovia-tronco, ele estava enfrentando outra divisão, na estrada Patani - Kroh -
Grik - que entrava na estrada-tronco do leste em Kuala Kangsar - e uma terceira divisão, na costa leste, em
Kelentan. Para opor-se a tão poderosa força atacante ele contava com os remanescentes da 11 a Divisão, já
esgotados, com duas brigadas na costa leste, a 8 a Divisão Australiana, de Gordon Bennett (duas brigadas
apenas), em Johore, e as tropas da guarnição de Cingapura. É preciso, no entanto, lembrar que a tarefa básica
de Percival não era a defesa da Malásia, mas da base naval de Cingapura. Contudo, naquelas circunstâncias,
como seria isso possível? Se deslocasse os australianos para substituir a 11 a Divisão, Johore ficaria desnuda;
se não os deslocasse, havia a chance de os japoneses penetrarem antes da chegada de reforços. Aí estava
outro problema. Quanto mais para o sul os japoneses avançassem, maior número de aeródromos cairia em
suas mãos, e deles poderiam ameaçar os comboios que traziam reforços. Assim, tendo de tirar o melhor
partido de uma tarefa ruim, Percival foi obrigado a ordenar que a 11 a Divisão tentasse deter os japoneses o
mais ao norte possível, até a chegada dos reforços.

Mas, quando viriam tais reforços? A previsão mais otimista era para meados de janeiro e, após a chegada, os
homens precisariam de tempo para descarregar o equipamento, para se organizarem e acostumarem com o
clima úmido e pegajoso. Isto, por sua vez, significava que as tropas da frente norte, exaustas e de moral
baixo, teriam de continuar lutando por mais um mês, sem ter cobertura aérea ou o apoio de um único tanque,
além de ficarem cada vez mais em inferioridade numérica.

Como seria possível continuarem lutando? Percival decidiu que o melhor seria fazê-los recuar e colocá-los
sob a proteção de obstáculos de tanques - o rio Perak, que corre para o mar através de Kuala Kangsar. Ali, a
12a Brigada indiana se juntaria à divisão, e a malbaratada 6 a Brigada seria unida à 15a Brigada. Mas as
reorganizações, embora necessárias, não permitiam aos soldados repouso algum, deteriorando as condições
físicas da tropa, que já eram ruins. Durante a retirada para o rio Perak, um oficial escreveu:
“Não pode continuar assim. Os soldados estão completamente esgotados. O único repouso que conseguem é
um coma inquieto quando se acocoram nos caminhões que viajam apinhados e sacolejando muito. Quando
chegam ao destino, eles saltam e são obrigados a trabalhar imediatamente. Eles estão estupidificados de tanto
sono. Para que entendam a ordem mais simples, temos de bater neles, para avivar-lhe a mente. Então, eles se
movem como autômatos e se agacham quando um avião japonês os sobrevoa a 60 m de altura”.

O comportamento dos soldados e a complicada situação não passavam despercebidos da população asiática.
O domínio britânico do seu país, que parecia tão forte e permanente, estava ruindo por terra e a superioridade
européia se revelava um mito.

Yamashita não estava muito preocupado com o obstáculo oferecido pelo rio Perak, pois sabia que seu
inimigo estava fraco demais para protegê-lo numa frente ampla. Assim, ele mandou que o 4 a Regimento de
Guardas se deslocasse pela densa região a leste de Kuala Kangsar e avançasse sobre a cidade de Ipoh. A 26
de dezembro, o regimento atravessou o rio sem oposição e se dirigiu para o sul a toda velocidade.
Entretanto, Yamashita estava preocupado com o obstáculo existente no trecho entre Kampat e Kuala Kubu.
Ali, a rodovia e a ferrovia passavam por um estreito desfiladeiro, não dando oportunidade para movimentos
de flanco, a não ser por mar. Nas mãos de um inimigo obstinado, o desfiladeiro poderia ser bloqueado por
semanas a fio, esvaziando o impulso dos japoneses. Qual seria a melhor tática a adotar? Yamashita acreditava
que os soldados britânicos e indianos estavam em tal estado, que só poderiam oferecer resistência vigorosa a
intervalos bem espaçados. Assim, ele tinha de continuar a pressioná-los, lançando um corpo de tropas atrás
do outro para não aliviar a carga sobre eles. Assim é que suas ordens foram para que logo o 4 o de Guardas
tomasse Ipoh, Matsui deveria prosseguir em direção a Kuala Lumpur, grande cidade e centro administrativo
de Selangor. Enquanto esse movimento estivesse nos estágios iniciais, o 4 o Regimento de Guardas realizaria
um rápido movimento através de Bentong, para cortar a retirada dos britânicos. Yamashita mostrava-se
irritado com o fato de seus comandantes subalternos virem permitindo que os soldados inimigos escapassem
à noite. “Não quero apenas repeli-los”, repetia ele, “quero destruí-los”. Até então, sua linha de comunicações
estava funcionando muito bem, embora já houvesse escassez de munição de artilharia. Como ele
compreendia muito bem, cada quilômetro avançado representava tensão extra sobre as comunicações e ele
ainda estava a centenas de quilômetros de Cingapura.

Durante os dias seguintes, ele avançou rapidamente, e a 31 de dezembro o III Corpo estava de volta a
Kampar, cerca de 40 km ao sul de Ipoh. Ali, o General Heath esperava deter os japoneses, pois a posição era
forte, situada de ambos os lados de uma colina íngreme e coberta por selva espessa. Para a infantaria, havia
um campo de tiro de mais de mil metros - um grande alívio após a região por onde vinham lutando até então.
A observação de artilharia também era boa e havia esperança de que os artilheiros, por fim, tivessem uma
chance de fazer pender a balança da batalha contra os japoneses. O plano de Matsui era atacar pela estrada,
enquanto o 42o Regimento se desviava para oeste. Na verdade, esta última unidade, tendo atolado nos
pântanos, chegou tarde demais para influenciar na batalha.

Esta começou logo após o amanhecer do Ano Novo de 1942. Os canhões e morteiros japoneses abriram fogo,
cobrindo as posições avançadas diante de Kampar. Quando os canhões se calaram, a infantaria atacou,
desencadeando-se violenta luta. Ela foi detida, exceto à direita, onde capturou um ponto conhecido como
Crista de Thompson. No todo, a situação parecia relativamente estável. Alguns dos soldados britânicos e
indianos revelaram eficiência digna de nota. É de Percival o seguinte registro:
“Os ataques inimigos foram feitos com a conhecida ferocidade e menosprezo pelo perigo do soldado
japonês. Houve tenaz resistência, apesar de pesadas perdas, por parte da infantaria britânica e de sua
artilharia de apoio e, finalmente, quando o inimigo capturou uma posição-chave e as reservas do batalhão
estavam esgotadas, houve uma carga, no velho e tradicional estilo, por parte da companhia Sikh do 18 o
Regimento do Punjab. Através de tremenda barragem de fogo de morteiro e metralhadora, eles avançaram,
liderados pelo seu comandante-de-companhia, Capitão Graham, que, mortalmente ferido, passou o comando
ao subcomandante, que deu continuidade à carga. O verdadeiro rugido que emitiam enquanto atacavam
revelava a fúria de que estavam possuídos. Posto em fuga o inimigo, que sofreu perdas pesadas, restaurada a
normalidade, somente 30 integrantes da valente companhia estavam vivos. A Batalha de Kampar provara que
nossas tropas treinadas britânicas ou indianas, eram superiores, de homem para homem, aos soldados
japoneses”.

Mas tropas precisam de comandantes e de equipamento e, comandantes precisam de confiança em sua


própria capacidade de dominar acontecimentos. Antes do anoitecer, o General Heath recebeu a notícia de que
uma força marítima japonesa desembarcara a cerca de 30 km mais ao sul, em Utan Milintang, e rumava para
o interior. A 12a Brigada recebeu ordens de mantê-la afastada da rodovia-tronco. Entrementes, o Major-
General Paris (que substituíra Murray-Lyon como comandante da 11 a Divisão) ficou preocupado com sua
linha de comunicações e pediu permissão para recuar. Heath procurou Percival, que concedeu a permissão
solicitada, mas insistiu em que a 11a Divisão tinha de continuar lutando no desfiladeiro e mantendo o inimigo
ao norte de Kuala Kubu - 120 km abaixo de Kampar - até 15 de janeiro. Se Kuala Kubu fosse tomada, o
mesmo aconteceria com seu aeródromo, e se isto acontecesse antes que o prometido comboio chegasse a
Cingapura, só haveria mais desastres.

Na verdade, a 3 de janeiro, quando a 11 a Divisão recuava de Kampar, um comboio transportando a 45 a


Brigada indiana chegou a Cingapura. Mas a notícia não era tão boa quanto parecia. Quando Percival viu os
soldados, achou que eram “muito jovens, imaturos e destreinados, e estavam saindo de sua primeira
experiência no mar”. Os reforços que se lhes seguiriam não seriam muito melhores. Alguns seriam até piores.
Wavell assume o comando

No Dia de Natal de 1941 houve na Casa Branca uma conferência dos Chefes de Estado-Maior. Ali, o Chefe
de Estado-Maior do Exército Americano, General Marshall, propôs que se nomeasse um Comandante
Supremo para o Extremo Oriente e, após longos debates, sugeriu-se o nome do General Sir Archibald
Wavell. Os Chefes de Estado-Maior britânicos não gostaram muito da idéia, temendo a reação da opinião
pública americana, se houvesse outros desastres, os quais pareciam inevitáveis. Wavell era o militar que
gozava de maior reputação na Grã-Bretanha, na época. Ele conseguira excelente vitória sobre os italianos no
deserto líbio - a primeira vitória militar britânica da guerra - porém, mais tarde, foi avassalado pelos
acontecimentos no Comando do Mediterrâneo, e transferido para a Índia, onde se tornou Comandante-Chefe.
Sendo, por temperamento, seco e nada exuberante, era, apesar disso, muito estimado pelos subordinados e
reconhecidamente capaz. Sua prosa era leve e lúcida e ele tinha grande dom para a narrativa. Entre os
generais britânicos, somente Sir Ian Hamilton, comandante em Galipoli em 1915, lhe era comparável como
escritor. Mas, como conferencista ou orador, era patético. Como Hamilton, dele não se pode dizer que tenha
sido muito feliz em ação, talvez porque chegasse quase sempre aos campos de batalha quando tudo parecia
sem remédio. Seu novo comando era conhecido pela sigla ABDA - iniciais correspondentes a americano,
britânico, holandês [dutch] e australiano - e se estendia desde a Birmânia até as Filipinas. Não é de
surpreender que, ao ser informado da sua nomeação, tenha comentado: “Tenho ouvido falar de homens que
tiveram de auxiliar no nascimento de bebê, mas estes são gêmeos”. O Tenente-General Sir Henry Pownall,
que substituiu Brooke-Popham (por insistência de Duff Cooper), se tornaria seu Chefe de Estado-Maior,
sendo extinto o velho QG do Extremo Oriente.

Mas, a nomeação de novos comandantes não significa propriamente dividendos certos e imediatos nem
reorganização perfeita das unidades. Somente a 7 de janeiro é que Wavell chegou a Cingapura e naquele
momento vários desastres já se tinham verificado.

A 1o de janeiro, os japoneses atacaram a 22 a Brigada indiana (da 9a Divisão do General Barstow) e a


expulsou do aeródromo de Kuantan, situado na costa leste, a uns 250 km ao norte de Cingapura. Os aviões
japoneses baseados em terra puderam dar grande passo para seu objetivo final.

Entrementes, a 11a Divisão recuara para o último obstáculo antes de chegar a Kuala Lumpur - o rio Slim. Ali,
sua tarefa, designada por Percival, seria manter o inimigo ao norte de Kuala Lumpur até 11 de janeiro, ou por
mais tempo, se possível. Naturalmente, o General Hearth estava preocupado com a possibilidade de outros
desembarques japoneses pela costa, especialmente em Kuala Selangor e Port Swettenham, onde havia uma
baía excelente. Para enfrentar esta ameaça, ele destacou uma força mista de cavalaria e infantaria, apoiada
por uma bateria de canhões.

Na verdade, Yamashita tinha acabado de ordenar um desembarque marítimo atrás dos britânicos. Matsui e a
5a Divisão, reforçada por um batalhão de tanques, avançariam diretamente para Kuala Lumpur, enquanto
destacamentos da Divisão de Guardas desembarcavam nos portos mencionados. Contudo, quando estes
chegaram, a 2 de janeiro, receberam calorosa recepção dos artilheiros e não conseguiram desembarcar
naquele dia, nem no dia seguinte. Contudo, no dia 4, eles conseguiram um ponto de apoio ao norte de Kuala
Selangor, e após violenta batalha avançaram para o interior em efetivos de batalhão. Percival chamou a
Marinha Real, com urgência, para deter outros desembarques, mas a “Flotilha Perak”, que fora organizada
para enfrentar esse tipo de ameaça, estava reduzido a duas lanchas a motor. Uma vez mais, a superioridade
aérea esmagadora dos japoneses se fazia sentir. Durante o dia, a Flotilha era bombardeada de modo tão
implacável que tinha de se manter abrigada nos cursos de água. Quando saía, à noite, era tarde demais para
alcançar as forças marítimas inimigas.

Enquanto isso acontecia, a 11a Divisão tentava fortificar suas novas posições, cobrindo o rio Slim. Essas
posições abrangiam a estrada e a ferrovia; além disso, considerava-se que a selva, nos flancos, era tão densa
e tão cheia de arbustos que os japoneses não poderiam realizar ataques de flanco por ali. Exceto o fato de
terem minado a estrada, os defensores da posição admitiam que ela fosse à prova de tanque.

Mas a dificuldade é que os homens não podiam trabalhar durante o dia, por muito freqüentes os bombardeios
e metralhamentos. Só à noite é que os trabalhos nas trincheiras podiam ser feitos. Embora os bombardeios
não infligissem muitas baixas, impediam que os soldados dormissem, daí o efeito desmoralizador que
tinham. O Comandante do 5/2o Punjab registrou:
“O batalhão estava exausto; principalmente os que exerciam função de comando, que não podiam sequer
cochilar, dada a responsabilidade que tinham. O batalhão recuara 280 km em três semanas e só descansara
três dias. Ele sofrera 250 baixas, na maioria mortos. O moral dos homens estava baixo e o batalhão perdera
50% da sua eficiência de combate”.

E a 5 de janeiro escreveu:
“Encontrei um grupo de homens em estado de letargia, sentados nas trincheiras. Disseram que não podiam
dormir devido aos contínuos ataques aéreos inimigos. Na verdade, estavam completamente deprimidos. Não
havia movimento na estrada e o silêncio mortal, acentuado pelo efeito sufocante da selva, estava mexendo
com seus nervos... A selva punha em todos forte sensação de cegueira”.

Foi nesse dia que os japoneses lançaram seu ataque, e logo foram recebidos pelo fogo intenso do 4/19 o de
Hyderabad e recuaram, deixando 60 mortos no campo. Após a meia-noite, tornaram a atacar, pela ferrovia e
pela rodovia. Três horas depois, lançaram forte barragem de artilharia e despacharam uma coluna de tanques
pela rodovia, seguida de infantaria, em caminhões. Em uma hora, o primeiro obstáculo fora vencido e os
tanques avançaram novamente até que o líder atingiu uma mina diante dos Punjabis, perto do Marco 61.
Imediatamente, a infantaria saltou dos caminhões e atacou os Punjabis, que os repeliram com fuzis e
metralhadoras leves e, mais tarde, com baionetas. Três tanques foram postos fora de combate. Então, os
japoneses descobriram algumas estradas laterais que, embora cobertas de arbustos, eram perfeitamente
transponíveis, e conduziram seus tanques por elas, até chegarem ao Marco 62, onde encontraram a
Companhia de Reserva dos Punjabis. Sobre a luta que se seguiu, o Coronel Deakin, dos Punjabis, escreveu:
“O tumulto... desafia a descrição. Os tanques estavam colados uns aos outros, motores roncando, guarnições
gritando, metralhadoras cuspindo fogo e morteiros e canhões disparando com a máxima intensidade. O
pelotão sobre o atalho lançava granadas e um dos tanques teve sua lagarta destruída por fuzis antitanques. Os
dois canhões antitanques dispararam duas granadas, uma das quais foi certeira, e depois retiraram-se para a
área dos Argylls. Outro tanque se destruiu nas minas”.

Durante toda uma hora a companhia de reserva e o QG do batalhão resistiram à fúria do ataque, embora não
sem sofrerem pesadas baixas. Então, às 6h30, os japoneses descobriram a segunda estrada lateral e puseram-
se novamente a caminho. Já então, eles tinham 30 tanques em ação.

Da valente defesa dos Punjabis, contra grandes desvantagens, deveriam ter-se aproveitado as unidades da
retaguarda deles para bloquearem e minarem a rodovia, porém, uma vez mais, houve muita confusão e as
linhas telefônicas foram cortadas, Os Argyll and Sutherland Highlanders mal tiveram tempo de preparar um
obstáculo onde a rodovia-tronco atravessava um seringal, quando quatro tanques apareceram na estrada e o
destruíram. Agora, os tanques prosseguiam para Trolak, cerca de 10 km a norte da ponte do rio Slim, onde
foram por algum tempo detidos pelos carros blindados dos Argylls, que, por incrível que pareça, estavam
armados apenas de ineficazes fuzis antitanques. Contudo, não demorou muito para que o inevitável
acontecesse; os carros blindados foram destruídos e os Argylls tiveram de se proteger e observar, impotentes,
o avanço dos tanques inimigos. Uma vez mais, os responsáveis pela destruição da ponte fracassaram no
cumprimento da tarefa de que estavam incumbidos. Os escoceses retornaram finalmente ao rio Slim, pela
selva.

Entrementes, os tanques japoneses haviam prosseguido em seu avanço, alcançando o 5/14 o do Punjab quando
este se deslocava para ocupar uma posição de controle. As companhias avançadas perderam muito, antes de
terem tempo de fugir para a selva. Ali, as companhias de retaguarda juntaram-se a elas e dispararam contra a
estrada. Não demorou para que a infantaria, vindas em caminhões se juntasse aos tanques, desenvolvendo-se
uma batalha. Os japoneses, com o apoio dos tanques, foram-se impondo gradualmente ao adversário, e outro
batalhão teve de recuar para o rio Slim, pela selva. Os canhões antitanques, que haviam sido mandados para
apoiar os Punjabis na sua posição de controle, foram tomados antes mesmo de entrarem em ação.

O que deu aos japoneses o êxito, exceto a grande vantagem de possuírem tanques, foi a incrível rapidez com
que lançaram seus ataques. Qualquer unidade surpreendida fora de posição era dispersada e esmagada em
questão de minutos. Repetidamente, a 11 a Divisão foi alcançada pelos acontecimentos, não só devido à
exaustão, mas também por causa das más comunicações. Na série de retiradas que fez desde Jitra, perdera a
maior parte do equipamento de rádio que possuía e, de qualquer modo, a arte de usar rádios em região
densamente arborizada ainda não fora dominada. Cortadas as linhas telefônicas, quando os estafetas
conseguiam chegar ao seu destino com as mensagens, a situação já mudara - sempre para pior. Os tanques
continuavam avançando; passaram pelo 2/9 o Gurkhas que estava tomando posição em Kampon Slim, aldeia
situada cerca de 10 km antes da ponte fluvial. Os soldados permaneceram onde estavam, aguardando o
ataque da infantaria. Entretanto, mais abaixo, na estrada, os tanques surpreenderam o 2/1 o Gurkhas, que
avançava em coluna, e logo o dispersaram, destruindo a seguir duas baterias do 137 o Regimento de
Campanha, que estavam paradas junto da estrada, antes de se dirigirem para a ponte do rio Slim, onde
chegaram pouco depois das 08h30.

Ali, a única unidade existente era um grupo de canhões antitanques Bofors e seu comandante, felizmente
advertido por um sinaleiro que voltara correndo num caminhão, baixou-lhes a alça de mira a abriu fogo
contra os tanques, à distância de 100 m. Mas foi inútil; as pequenas granadas ricochetearam nos cascos dos
tanques e os japoneses cobraram pesado tributo nos artilheiros dos Bofors, logo dispersados. Os tanques
cruzaram a ponte, deixando um deles a protegê-la, e continuaram descendo a estrada por mais 3 km, quando
encontraram o 155o Regimento de Campanha da Artilharia Real, cujos artilheiros não sabiam que havia
tanques inimigos dentro de um espaço de 30 km. Superando rapidamente a surpresa, eles se esforçaram por
colocar seus canhões em ação e um obuseiro de 4,5 pol. acertou uma granada em cheio no tanque da frente,
disparada à distância de 30 m. Isto deteve o avanço e, hostilizados por grupos caçadores de tanques, os
japoneses concentraram seus blindados na ponte, onde foram alvo de violento fogo do 155 o Regimento de
Campanha. Mas eles haviam feito um trabalho excelente, desorganizando quase duas brigadas e roubando
aos britânicos grandes quantidades de canhões e veículos. A História Oficial Britânica da Guerra descreve a
ação como “um grande desastre”, o que não é exagero algum. As perdas britânicas resultaram no abandono
da Malásia central e reduziram as chances de defender o Johore até que os reforços pudessem ser lançados
em combate. Não se pode negar que os regimentos lutaram mal, mas o mesmo aconteceria com quase todas
as unidades surpreendidas por blindados quando se deslocando em formação cerrada ao longo de uma
estrada. Evidentemente havia completa falta de treinamento sobre a forma de enfrentar tanques e,
especialmente, de manusear canhões antitanques em regiões como a Malásia. Em 1941 a infantaria
simplesmente não estava equipada para lidar com tanques.

Foi durante a ação do rio Slim que Wavell chegou a Cingapura para assumir o comando. Desde o começo ele
sentiu que precisava urgentemente de tempo: tempo para estabelecer uma série de bases aéreas desde
Cingapura até Java; tempo para desembarcar a 18 a Divisão britânica em Cingapura e, se possível, novo corpo
australiano. Entretanto, para que isso fosse possível, o inimigo tinha de ser mantido ao norte de Johore até
fins de janeiro.

Mas, primeiramente ele queria inspecionar as tropas e descobrir o que havia de errado com elas. Assim,
dirigiu-se para o norte, a fim de avistar-se com Heath e Gordon Bennett. Este último, comandante
australiano, era um personagem controvertido, criticando tudo o que era britânico e quase todos os seus
superiores. Ele ainda não conduzira seus soldados em ação. Muitos deles haviam chegado a Cingapura
completamente destreinados - como ele disse: “Eles foram recrutados num fim de semana e embarcados para
a Malásia na semana seguinte”. Alguns deles, ao desembarcarem, nem sequer sabiam disparar um fuzil.
Contudo, como a divisão não ia logo entrar em ação, havia tempo para algum treinamento na selva, e Bennett
parecia confiante em que poderia deter os japoneses, se ninguém mais pudesse. Agora, ele seria submetido à
prova, pois a ordem que Wavell lhe deu era para que tomasse posição ao longo do rio Muar. O III Corpo de
Heath, que evidentemente não podia resistir diante de Kuala Lumpur por mais dois dias, recuaria através de
suas linhas e, depois de reequipar-se, tomaria posição nas costas leste e oeste de Johore. O plano tinha
desvantagens, pois permitia a Yamashita avançar sem oposição por Selangor, Negri Sembilan e Málaca, mas
ele compreendeu que não havia razão para tentar manter a 11 a Divisão em ação por mais tempo. Ela estava
completamente esgotada.

Tendo dado suas ordens, Wavell retornou a Cingapura, onde outro choque o esperava, quase tão grande
quanto a notícia do rio Slim. Interrogando o Brigadeiro Ivan Simson, comandante do grupamento de
sapadores, inteirou-se de que as sugestões deste para iniciar trabalhos de defesa haviam sido recusadas por
Percival. Ademais, ele fora desviado do seu setor de serviço para cuidar da defesa Civil. Pensando que
Simson talvez estivesse exagerando, ou tentando vingar-se de Percival, com quem se desentendeu muito,
Wavell reuniu os dois oficiais e com eles fez uma viagem de inspeção pela costa norte da ilha. Foi então que
Wavell percebeu que na realidade não se fizera absolutamente nada; toda a costa estava inteiramente
indefesa. Nem sequer se planejaram trabalhos. “Muito abalado” - para usar suas próprias palavras - ele
voltou-se para Percival e perguntou irritado por que o conselho de Simson fora recusado e por que não se
fizera coisa alguma. Percival respondeu que a construção de obras de defesa teria produzido impacto
negativo no moral da tropa. Mal acreditando no que ouvia, Wavell retrucou que o impacto seria ainda mais
negativo quando os soldados começassem a cruzar o elevado, vindo do continente, e, a julgar pelas
aparências, isto não demoraria muito. Assim, ele ordenou que Percival resolvesse os problemas
imediatamente.

Antes de partir, Wavell teve uma reunião com Duff Cooper, que achava que já não tinha mais nada a fazer ali
e pediu para ir embora. Alguns dias depois seu pedido foi aceito, mas, antes de partir, ele comunicou a
Churchill que havia “absoluta falta de confiança na administração”, acrescentando que, como um colapso
poderia paralisar as forças armadas, eram necessárias algumas mudanças importantes. O resultado é que
Stanley Jones, o odiado Secretário Colonial, foi demitido e Sir Shenton Thomas permaneceu em seu posto.
Alguns dias depois, num esforço desesperado para restaurar a confiança, este último declarou, numa circular
dirigida ao Serviço Público Malaio: “Os dias da papelada acabaram. Doravante não haverá mais
transferência de arquivos de um departamento para outro e de um chefe de departamento para outro.”

Sobre isso, o Straits Times comentou acidentalmente: “O aviso está com dois anos e meio de atraso”. O mal-
estar reinante na Malásia continuava tão enervante quanto antes, e a realidade nem sequer começara a fazer-
se sentir. Quando um jovem oficial que comandava um destacamento de ambulância se aproximou, em seu
carro, da casa do gerente de um seringal das proximidades de Kuala Lumpur, o gerente apareceu,
perguntando-lhe irritado, como se atrevia a invadir sua propriedade privada, acrescentando que faria a quem
de direito uma queixa formal de infração de regulamentos. O jovem oficial respondeu-lhe que talvez os
japoneses ouvissem com atenção e cortesia a queixa, pois eles estavam chegando.

A 13 de janeiro, um segundo comboio chegou a Cingapura, trazendo a 18 a Divisão britânica e 51 caças


Hurricanes, ainda encaixotados. Uma semana depois, quando os bombardeiros japoneses apareceram, oito
deles foram derrubados. Mas os Hurricanes não eram adversários para os Zeros, exceto em altitudes
superiores a 6.000 m, mas os Zeros não queriam subir tanto. Assim, mesmo com novos homens e material, a
situação piorou ainda mais. Os generais britânicos só podiam pensar em retirada e tudo agora dependia de
Gordon Bennett e dos australianos.

Poder-se-ia imaginar que, como seu avanço prosseguia com rapidez e por um custo tão baixo, Yamashita
talvez se sentisse muito satisfeito, mas seu diário dá conta do contrário. Ele desconfiava de que, após a queda
de Cingapura, Tojo planejava matá-lo, embora os motivos não estejam claros. Talvez ele tivesse recebido
informes do Japão sobre a entusiástica cobertura que a imprensa dava à sua campanha. Como Homma
estivesse retido nas Filipinas pela resistência americana, os jornais comentavam muito sobre a Malásia,
fazendo de Yamashita um herói nacional. Como ele sabia muito bem, Tojo temia e detestava rivais e
Yamashita estivera muito envolvido em complôs e assassinato para duvidar que Tojo hesitasse em eliminá-lo.
As relações com seu velho inimigo, o Feldmarechal Terauchi, também haviam piorado e, a 1 o de janeiro,
Yamashita escreveu em seu diário: “Não posso confiar nas comunicações com Terauchi e o Exército do Sul,
ou em apoio aéreo dado por eles. É muito ruim que no Japão não haja ninguém ocupando altos postos em
quem se possa confiar. A maioria abusa do poder”. No dia seguinte, acrescentou: “Detesto o egoísmo dos que
não estão no poder. Eles não têm consciência e seu único objetivo é agarrar mais poder ainda”. Yamashita
odiava os civis ricos, especialmente os que rodeavam o governo e, no dia 5, escrevia sobre os oportunistas de
Tóquio: “Esses homens, postos a serviço da pátria, raramente se saem bem nas crises. Tanto praticam abuso
do poder autoridades civis como militares. Terei de observá-los”. Naturalmente, os militares a que se referia
eram os seus velhos inimigos da “Facção de Controle”, e os civis, os grandes industriais.

Se seus superiores não conseguiam a aprovação de Yamashita, seus subordinados não se saíam muito melhor.
Sobre Nishimura, comandante da Divisão de Guardas Imperiais, ele escreveu: “Ele desperdiçou uma semana
por desobedecer ordens”. Nem mesmo a 5 a Divisão de Matsui, que arcara com o fardo mais pesado da
campanha, foi elogiada. No dia 6, Yamashita escrevia: “Mandei-a realizar um movimento de flanco para
envolver o inimigo e esmagá-lo. Mas minhas ordens não foram obedecidas. Estou contrariado com a falta de
treinamento e a qualidade inferior dos seus comandantes”. No dia 8, registrou: “Os comandantes e soldados
da divisão não têm espírito combativo. Não conseguem esmagar o inimigo”. Provavelmente ele se reportava
ao fato de a 11a Divisão continuar escapando.

Embora Yamashita fosse um perfeccionista, não há dúvida de que muitos dos seus comentários se
justificavam. Muitos dos soldados japoneses eram mal treinados; tagarelavam enquanto se deslocavam pela
selva; perdiam-se no caminho; muitos oficiais e soldados não sabiam ler mapas direito; a coordenação entre
a infantaria e os artilheiros às vezes era defeituosa, e baixo o padrão de patrulha nipônico. O Tenente-
Coronel Spencer Chapman, que ficaria nas selvas para organizar a guerra de guerrilha (tarde demais, Percival
concordara com sua sugestão), observou os japoneses avançar para Kuala Lumpur.
A maioria estava de bicicleta, em grupos de 40 ou 50 homens, deslocando-se em fileiras de três ou quatro e
tagarelando e rindo como se fossem para um jogo de futebol. Na verdade, alguns deles usavam camisas de
futebol; ao que parecia, não tinham uniforme ou equipamento padronizado, usando a roupa a mais leve
possível.

Na verdade, a bicicleta comum era uma das armas secretas do exército japonês, pois, nela, um homem podia
percorrer 30 quilômetros por dia, e até mais, com um fuzil ou metralhadora leve, munição e cerca de 30 kg
de equipamento. Quando uma unidade chegava a um rio, os homens punham a bicicleta nas costas e o
vadeavam. Através de método tão simples mantiveram o avanço em ritmo incrível. E devido à esmagadora
superioridade aérea e em tanques, muitas unidades ainda não haviam entrado em ação. Parte da 18 a Divisão,
de Renya Mutaguchi, nem sequer cruzara a fronteira tailandesa, para o sul.

Como todos os comandantes de exército, Yamashita não gostava de visitantes em seu QG e, no dia 9,
consignou em seu diário: “Cinco oficiais de Estado-Maior chegaram do Grande QG, em Tóquio. São
odiosos”. Na verdade, quanto mais se aproximava de Cingapura, mais ressentido se mostrava contra Tóquio
e o QG do Exército do Sul. Então, Terauchi o insultou deliberadamente, concedendo condecorações ao
Major-General Takumi e a seu grupo de brigada sem o consultar previamente. Yamashita, a propósito,
registrou em seu diário:
“Se o Exército do Sul começar a entregar condecorações, os homens receberão ordens daquela formação e
não do 25o Exército. Aquele desgraçado Terauchi! Ele está vivendo no luxo em Saigon, dormindo em cama
confortável, boa comida e jogando xadrez japonês”.

Com o passar do mês de janeiro, a neurose de Yamashita tornou-se cada vez mais pronunciada e, certa vez,
seu chefe de Estado-Maior, Suzuki, comentou: “Nosso general está a beira da exaustão nervosa”.

Nesse meio tempo, para alegrá-lo, ele trouxera os despojos de Kuala Lumpur. Grande parte do que havia ali
em estoque havia sido levado de trem, com os suprimentos. Os suprimentos de gasolina e óleo foram
desperdiçados ou incendiados e os prédios do aeródromo, destruídos. Kuala Lumpur era uma imensa presa e
muitas lojas foram encontradas intatas.

No dia em que suas tropas avançadas entraram na cidade, Yamashita fez nova apreciação. A última posição
defensiva antes de Cingapura ponderou, era a linha do Sungei Muar, onde acreditava que os britânicos fariam
um esforço desesperado para detê-lo. Em vista disso, seu plano era concentrar a Divisão de Guardas
Imperiais em Málaca, onde ela se prepararia para descer pela costa. Entrementes, após um descanso, a 5 a
Divisão de Matsui, continuaria descendo a rodovia-tronco. Em outras palavras, sua tática era continuar
flanqueando as posições britânicas, sem deixar, entretanto, de combatê-las frontalmente. Ele também pediu
ao Exército do Sul que desembarcasse as unidades restantes da 18 a Divisão em Singora, despachando-as a
seguir para Johore, pela estrada. Nesse meio tempo, ele mandou o 55 o Regimento avançar pela costa leste,
para ocupar Endau e Mersing. Dado que tinham superioridade aérea, o plano era bom. Se obteria, ou não, o
sucesso que imediato os planos anteriores alcançaram, iria depender de Gordon Bennett e dos australianos.

Retirada para a ilha

O plano que Bennett, havia muito, tinha proposto a Percival e Heath se baseava na aplicação da guerra de
emboscada para deter os japoneses. A rodovia-tronco, perto de Gemas, onde sua divisão (com a 9 a Divisão
indiana na sua retaguarda) estava então localizada, parecia ser o ponto ideal para pôr em ação o plano. Com
este objetivo, uma companhia de infantaria foi oculta na selva, a leste de uma ponte fluvial, enquanto uma
bateria de canhões de campanha cobria a rodovia pelo oeste. Por volta das 16 horas, o Destacamento
Mukaide (um batalhão de infantaria, em bicicletas, apoiado por um regimento de tanques, alguns canhões e
sapadores) desceu a estrada e permitiram-lhe passar. Então a ponte foi destruída e a infantaria abriu fogo.
Uma vez mais, as comunicações com os artilheiros fracassou e eles não abriram fogo, mas numerosos
japoneses foram mortos.

Na manhã seguinte, bombardeiros inimigos atacaram Gemas e os postos de infantaria, a alguns quilômetros a
oeste da cidade, também foram atacados e, uma vez mais, uma emboscada deu resultado. Vários tanques
foram destruídos, sofrendo os nipônicos 80 baixas. Contudo, avolumando os japoneses reforços aos que se
encontravam em batalha, os australianos tiveram de ceder terreno. No dia 15, os caças Buffalos, da RAF,
fizeram uma surtida, metralhando as tropas que rumavam para Gemas, dando à situação aspecto muito
promissor.

Sabedor das pesadas baixas sofridas pelo Destacamento Mukaide, Matsui assumiu o controle, enviando a 9 a
Brigada de Infantaria pela rodovia-tronco para eliminar a resistência Antes de Batu Anam. Entrementes, foi
também enviada a 21a Brigada, para um amplo flanqueio a oeste do monte Ofir. Paralelamente às duas
medidas, a Divisão de Guardas Imperiais, que descia em duas colunas a região costeira, pressionava o
adversário. O plano de Nishimura era reter o inimigo na cidade de Muar com um regimento, enquanto outro
atravessava o Sungei Muar mais acima. Registre-se que, embora as relações entre Yamashita e Nishimura
não tivessem de modo algum melhorado durante a campanha, a Divisão de Guardas Imperiais se havia
comportado muito melhor do que o esperado. Nishimura, excessivamente teimoso, ainda fazia as coisas à sua
maneira, dando cumprimento às ordens de modo um tanto frouxo, mas enquanto estava vencendo, ação após
ação, Yamashita não interferia mais do que o necessário.

Na ação no Sungei Muar, Nishimura esteve com sorte, pois teve como adversário a recém-chegada 11 a
Brigada indiana, que nunca estivera em combate. Seu comandante, o Brigadeiro Duncan, foi bastante
prejudicado pelas ordens de Gordon Bennett, que cometera o mesmo erro de Murray-Lyon em Jitra -
tentando cobrir todos os acessos possíveis, dispersando, portanto, em demasia as suas tropas. Assim, a 15 de
janeiro, depois de por quatro dias bombardeada a cidade de Muar, as companhia avançadas dos Fuzileiros de
Rajputana, que estavam na costa, perto de Kesang, foram vencidas. Então, após o anoitecer, um batalhão de
Guardas cruzou o rio em pequenos barcos e avançou sobre Muar, pegando de surpresa, em seu
deslocamento, numerosos soldados indianos, que descansavam, com suas armas empilhadas. No dia
seguinte, um ataque frontal foi frustrado pela 65 a Bateria australiana, que disparou contra as barcaças que se
aproximavam; mas, à tarde, um ataque feito pelo leste, por soldados que haviam cruzado o Sungei Muar
mais a montante, foi bem sucedido e os remanescentes dos Fuzileiros de Rajputana recuaram. Em dois dias
de luta eles perderam o comandante e o subcomandante, além de centenas de soldados, ficando em flagrante
inferioridade.

Quando Bennett tomou conhecimento do que tinha passado em Muar ficou preocupado com sua linha de
comunicações, que vinha desde Gemas, e despachou um batalhão da 27 a Brigada australiana para reforçar a
45a Brigada indiana. Contudo, seu Serviço de Inteligência estava totalmente equivocado, quando informou
ter havido em Muar apenas um pequeno revés. Ao instruir o comandante do batalhão australiano, ele chegou
mesmo a comentar: “Os efetivos inimigos são de apenas 200 homens. Você poderá sanar o problema com um
contra-ataque e retornar a Gemas em poucos dias”. Ele parecia não ter idéia de que Nishimura , com toda a
sua divisão, vinha descendo a costa.

Contudo, tendo cruzado o Sungei Muar com muito mais facilidade do que esperava, Nishimura planejava
envolver e aniquilar as tropas que estavam entre o Sungei Muar e o Sungei Bat Pahat, 50 km a sudeste.
Assim, ele mandou o 5o Regimento de Guardas atacar Bakri, enquanto o 4 o Regimento de Guardas se
deslocava pela rodovia costeira, cruzava o Sungei Bat Pahat ao norte da cidade e ocupava a estrada que
corria para Bukit Pelandok, no interior. O ataque começou ao amanhecer do dia 18 e, embora resistissem
com bastante vigor, indianos e australianos foram superados e acabaram por recuar.

Foi também no dia 18 que Percival percebeu que Yamashita pretendia lançar a 5 a Divisão pela rodovia e a
Divisão de Guardas Imperiais pela costa. Contra a oposição de Bennett, Percival transferiu as tropas da costa
para o comando de Heath, rotulando-as de Força oeste, enquanto que as formações de Bennett passavam a
ser chamadas de Força Leste. Os rótulos, entretanto, em nada ajudaram a melhorar a situação. Enquanto
Nishimura descia a costa, Percival ficava cada vez mais preocupado com a ameaça à retaguarda de Bennett,
de modo que nova retirada foi feita. Ninguém pensava em flanquear os japoneses e surpreendê-los pela
retaguarda para cortar suas tênues linhas de comunicação; ninguém pensava em ofensiva. Nesse meio tempo,
a 45a Brigada, em Parit Sulong, foi isolada, largando ao abandono os feridos, vindo a morrer muitos deles por
falta de socorros médicos. A 22 de janeiro, dois aviões de Cingapura lançaram alimentos e suprimentos
médicos para a guarnição sitiada. Mas a situação ficava cada vez mais desesperada. Frustrando-se o contra-
ataque de uma unidade australiana que tinha o fito de lhe prestar ajuda, o Tenente-Coronel Anderson decidiu
retirar a brigada dali da melhor maneira possível. Ordenando que fossem destruídos todo o equipamento
pesado e as reservas de munição, e deixando os feridos entregues aos cuidados de voluntários, ele mandou
que as unidades se dividissem em pequenos grupos e tentassem escapar pela selva. Conseguiram o intento
500 australianos e 400 indianos, muitos deles feridos. Mas, como unidade de combate, a brigada fora
destruída.
Já então, as tropas de Matsui haviam chegado a Labis, na rodovia-tronco, e ele decidiu manter-se na estrada
costeira e dirigir-se para Bat Pahat. Uma vez dominada esta cidade, ele estaria a 120 km de Cingapura.

Nessa época, a sorte de Cingapura começou a inquietar a muita gente, sobretudo Winston Churchill os
líderes aliados. A 15 de janeiro, Churchill escreveu a Wavell:
“Queira informar-me sobre o que aconteceria no caso de o senhor ser obrigado a recuar para a ilha”.
“Quantos soldados serão necessários para defender essa área? Que meios existem para deter os
desembarques [como] os que foram feitos em Hong Kong?”

No dia seguinte, Wavell respondeu que, em sua primeira visita à ilha, verificou que todos os planos tinham
por meta o rechaço aos ataques marítimos e “que pouco, ou nada, fora feito no sentido de fortificar o lado
norte da ilha, para impedir a travessia do Estreito de Johore...” A notícia foi um golpe sério para Churchill,
que mais tarde registraria:
“Foi profundamente chocado que li essa mensagem na manhã do dia 19. Não havia fortificação permanente
em torno da base naval e da cidade! Além disso, mais espantoso ainda, nenhum dos comandantes, desde o
começo da guerra, e sobretudo depois que os japoneses se estabeleceram na Indochina, tomara qualquer
providência digna de menção para construir as defesas de campanha... Não posso compreender como
deixaram de me comunicar isso. A verdade, entretanto, é que os comandantes locais, nem os meus
consultores sentiram, pelo visto, a terrível necessidade de tais defesas... Não escrevo isto para desculpar-me,
de modo algum. Eu deveria ter sabido. Meus consultores deveriam ter sabido e eu deveria ter sido
informado, deveria ter perguntado.”
A razão por que “não perguntei”, explica Churchill, “se a base de Cingapura dispunha, ou não, de defesas no
lado da terra é que nunca me ocorrera pudessem considerá-las dispensáveis, assim como jamais admiti que
um couraçado pudesse ser lançado ao mar sem o casco”.

Mas esta era realmente a situação. As desculpas dadas a Churchill eram as mesmas que apresentaram ao
Brigadeiro Ivan Simson quando este levantou a questão: o fato de terem as tropas de se concentrara no
treinamento, de não ter Whitehall fornecido fundos, o esforço para construir defesas no norte da Malásia. Os
comentários de Churchill a respeito foram: “Não considero válido essas razões. As defesas deveriam ter sido
construídas”.

Mas, com o inimigo a menos de 160 km de distância e se aproximando rapidamente, o que deveria fazer? No
dia 19, Churchill escreveu ao General Ismay, Chefe de Estado-Maior, comunicando-lhe que um plano de
emergência devia ser logo feito, visando a usar os canhões da fortaleza com cargas reduzidas, minando-se e
obstruindo os locais de desembarque, instalando-se alambrados e armadilhas, construindo-se fortificações de
campanha em pontos fortes e instalando-se baterias de campanha, com holofotes, em cada extremidade do
Estreito. E acrescentou: “Toda a população masculina devia ser empregada na construção de obras de
defesa... a defesa da Ilha de Cingapura tem de ser mantida por todos os meios... a cidade de Cingapura tem
de ser transformada numa cidadela e defendida até a morte. Não se pode pensar em rendição”.

No dia 20, Churchill comunicou a Wavell:


“Quero deixar perfeitamente claro que espero que cada palmo de terreno seja defendido, que o inimigo nada
capture intato. Se tiver de haver rendição, que ela não se verifique antes de a cidade de Cingapura se
transformar em ruínas.”

Fato importante é que a palavra “rendição” aparecia agora pela primeira vez. A resposta de Wavell à
mensagem de Churchill, embora lhe assegurasse que Percival tinha ordens de resistir o mais tempo possível,
acrescentava:
“Contudo, devo informá-lo de que duvido que a ilha possa ser defendida por muito tempo, após a perda de
Johore... Parte da guarnição foi enviada para Johore e muitas das tropas que aqui permanecem são de valor
duvidoso. Sinto dar-lhe um quadro deprimente, mas não desejo que o senhor tenha idéia falsa das
possibilidades de defesa da ilha.”

No dia seguinte, 21 de janeiro, Wavell tornou a comunicar, informando que a situação piorara muito,
“impondo-se a necessidade de retirada de tropas na área de Segamat-Labis, e talvez de uma retirada geral
para Johore, Bahru, e finalmente para a ilha”. Ele acrescentou que as providências preparatórias para a defesa
da ilha estavam sendo tomadas com os limitados recursos disponíveis. Contudo, a viabilidade da defesa
dependeria não só do estado dos soldados, mas também “da capacidade da Força Aérea de manter caças na
ilha”. Embora não dissesse, a RAF tinha apenas 28 caças e, assim, estava em desesperada inferioridade
numérica.

Sua declaração sobre as “providências preparatórias” para a defesa de Cingapura era um tanto exagerada.
Embora Wavell viesse insistindo para que Percival agisse, praticamente não se fez coisa alguma até 23 de
janeiro, quando um plano esquemático foi divulgado, mas outros cinco dias decorreram antes que se
conhecessem os detalhes. Já então, a força de trabalho civil fora dispersada pelos incessantes ataques aéreos
e, quando se fez a convocação, poucos se apresentaram. Mesmo assim, nenhuma terra foi cavada antes do
fim do mês.

Enquanto se escrever sobre história militar, haverá especulação a cerca da inacreditável situação daquele
teatro de guerra. Por que ninguém pensou em construir defesas na costa norte quando a base foi planejada,
nos anos 20 e 30? Por que ninguém reagiu à advertência de Dobbie, de que os japoneses poderiam atacar
pela península? Por que tal perigo não sensibilizou Percival - e, mais especificamente, por que não deu
atenção alguma à advertência de Simson? Por que não obedeceu ele às ordens de Wavell (ou da Guerra)?
Como é que um homem tão bravo em ação e tão sensato sobre outras questões pôde ser tão inepto a respeito
desse problema, chegando mesmo às raias da insanidade? Por que o moral da população civil lhe pareceu tão
importante, a ponto de levá-lo a ignorar a necessidade militar? Seu próprio relato, em The War in Malaya,
vazado em lógica maio maluca, vale a pena ser citado:
“O fato de não se ter construído defesa alguma nas costas norte e oeste da ilha... tem dado causa a muito
comentário crítico, mesmo nos escalões mais elevados. Isto tem sido imputado à falta de previsão por parte
dos sucessivos oficiais que ali comandaram. Tal crítica é por demais injusta. Em primeiro lugar, os oficiais
generais comandantes não tinham autoridade alguma para construir defesas quando e onde achassem
necessário. As defesas de Cingapura foram construídas de acordo com um plano do Ministério da Guerra...
Depois, havia a questão do objetivo das defesas. Este era, claramente, a proteção da Base Naval - Não a
defesa da Ilha de Cingapura.”

Mas, como se poderia proteger a base naval depois do inimigo haver entrado na ilha? Par isto, ele não dá
resposta aceitável. No cômputo geral, só se pode concluir que, nesse setor, Percival era tão pouco lúcido
quanto teimoso. Como tudo fora feito “de acordo com o plano do Ministério da Guerra”, como a parte
burocrática fora cumprida e todos os procedimentos tinham sido obedecidos, ele estava satisfeito. Percival
simplesmente não reagiu às realidades da guerra. Parece que era tarde demais para ele compreender que o
rápido avanço de Yamashita jogara por terra todas as teorias anteriores.

O curioso é que, enquanto se defende por não ter feito coisa alguma, Percival se congratula pelo que foi
feito, antes que as tropas cruzassem o elevado, vindo de Johore:
“Sítios para localizar as defesas avançadas e as reservas haviam sido escolhidos. Postos de observação de
artilharia e posições para canhões haviam sido marcados. Localizações de QG de formações tinham sido
fixadas, e comunicações providenciadas. Posições de metralhadoras haviam sido construídas. Obstáculos de
óleo e cargas de profundidade tinham sido colocados em arroios que pareciam ser prováveis pontos de
desembarque. Holofotes extras tinham sido reunidos e postos em disponibilidade. Obstáculos antitanques
haviam sido construídos... O plano geral de defesa consistia em cobrir os acessos com pontos fortificados,
mantendo reservas móveis prontas para contra-atacar.”

Quanto a isto, só se pode concluir que tais preparativos só teoricamente eram de fato aceitáveis.
Provavelmente o plano de defesa não teria funcionado, ainda que a maneira de ele conduzir a batalha não
fosse tão inepta. Mas, estamo-nos apressando. Ainda havia as últimas batalhas a serem travadas na Península.

Na manhã de 22 de janeiro, Percival realizou uma conferência em Regam, durante a qual decidiu recuar
numa linha que ia de Kluang a Ayer Hitam. Isto significava que apenas a ponta da península - 32 km dela -
permaneceria em mãos aliadas. A retirada foi feita desorganizadamente, prejudicada pelas más comunicações
e sob violento ataque aéreo. Freqüentemente, os comandantes de infantaria, pediam apoio aéreo, mas, RAF
reduzida a 74 bombardeiros e 28 caças (os efetivos japoneses montavam 250 e 150, respectivamente), só um
chamado de cada vez podia ser atendido. Contudo, houve ataques contra os aeródromos de Kuala Lumpur e
Kuantan e os bombardeiros atacaram transportes inimigos na rodovia-tronco. Entretanto, esses esforços não
causaram qualquer impacto sobre os acontecimentos. Os japoneses continuavam atacando cidades e aldeias,
jogando por terra o moral do civil. Em janeiro, houve nada menos de 2.100 baixas entre civis, só na cidade
de Cingapura.
A retirada prosseguia, de quando em quando interrompida pela obstinação de alguns comandantes não-
graduados, momentos em que sobressaíam. Não havia ausência de bravura entre oficiais ou soldados; eles
simplesmente estavam em inferioridade em armamentos e eram, por isso, dominados. Por mais tanques que
destruíssem, o número deles parecia aumentar. Os ataques aéreos prosseguiam durante as horas do dia. Na
costa leste, a 22a Brigada Australiana logrou um pequeno êxito, emboscando o 40 o Regimento de Infantaria
perto de Mersing. Os japoneses foram de tal forma maltratados, que começaram a retirar-se, e Yamashita se
viu obrigado a enviar para a área grossos reforços.

A 26 de janeiro, Heath emitiu ordens para que o III Corpo recuasse para a Ilha de Cingapura.

Mas ainda haveria outro desastre. A 22a Brigada indiana foi isolada por um movimento de cerco realizado
pelos nipônicos e seu comandante, o Brigadeiro Painter, decidiu que a única esperança era retirar-se pela
selva, a oeste da ferrovia. A unidade pôs-se em movimento, transportando seus feridos, e durante quatro dias
esforçou-se por escapar à rede inimiga. A formação já estava reduzida a 350 homens, a maioria sem
munição, e a 1o de fevereiro, quando deram com forte posição japonesa lhe bloqueando o caminho, Painter
não teve outra alternativa senão render-se. Somente uns poucos homens, que se haviam separado do corpo
principal, alcançaram abrigo temporário na Ilha de Cingapura.

Mas, voltemos atrás alguns dias: 26 de janeiro, Percival comunicara a Wavell:


“Considero que a situação está-se tornando grave. Com nosso efetivos esgotados, é difícil à pressão terrestre
inimiga, combinada com a atividade aérea contínua e praticamente sem oposição. Estamos lutando por toda a
parte, mas talvez sejamos repelidos até a ilha dentro de uma semana.”

Na manhã seguinte, ele escreveu uma mensagem pessoal:


“Uma situação muito crítica surgiu. O inimigo isolou e venceu a maioria das forças na costa oeste... A menos
que possamos detê-lo, será difícil colocar nossas colunas em outras estradas a tempo, especialmente porque
ambas estão sofrendo pressão. De qualquer modo, parece que não poderemos defender Johore por mais de
três ou quatro dias. Estaremos em dificuldades na ilha, a menos que possamos trazer de volta todas as tropas
restantes.”

O número total de caças, acrescentou, estava reduzido a nove, e era cada vez mais difícil manter os
aeródromos em ação.

Wavell era de opinião de que, nessa emergência, todos os soldados deveriam ser evacuados do continente.
Por certo não havia necessidade de deixá-los ser isolados apenas para ganhar mais um ou dois dias. A 28,
Percival realizou uma conferência na qual Heath comentou que a Força Leste e a Força Oeste já estava, sem
reservas, e qualquer tentativa de manter-se firme no Johore do sul significaria mais desastre. Assim, ficou
decidido que a evacuação começaria o mais breve possível, sendo completada na noite de 30 para 31, decisão
feliz, pois Yamashita decidira mandar uma coluna pelo interior da costa oeste para fechar os caminhos de
retirada. Se pudesse isolar todas as tropas em Johore, ele acreditava que Cingapura se renderia sem luta
prolongada. O movimento que ordenou quase teve êxito.

As tropas, exauridas, começaram a cruzar a elevação de 1.100 m, situada entre Johore e a Ilha de Cingapura.
Dizem que muitos acreditavam que houvesse terminado o longo pesadelo que vinham vivendo, que a ilha era
uma fortaleza inexpugnável, onde poderiam resistir até que uma poderosa força naval e militar viesse ajudá-
los. Em breve se desiludiriam. A ilha não era uma fortaleza. O plano para a sua defesa fora divulgado
somente no dia 28 de janeiro, quando ainda alguns civis bancavam de privilegiados dominadores, embora o
momento fosse de crise. Quando o Major Angus Rose, dos Argyll and Sutherland Highlanders, pretendia
cortar seu campo de tiro, foi informado peremptoriamente de que, primeiro, teria de obter permissão “da
autoridade competente”; e quando decidiu fazer do Clube de Golfe um ponto forte, o secretário da
agremiação advertiu-o de que “nada poderá ser feito até que tenhamos realizado uma reunião de diretoria”. A
um oficial artilheiro que instalou suas tropas no campo de golfe, perguntaram “que diabos estava ele fazendo
ali; se não sabia que o Clube de Golfe era propriedade privada”.

Exceto outras considerações de comando e moral, era muito pouco provável que pudesse ser bem sucedida
uma batalha travada em ambiente de tanta frustração e fantasia. Os augúrios estavam certos. A campanha
entrava em sua última fase... a última e a mais desastrosa de todas.

Prelúdio da batalha
A 31 de janeiro, Percival assumiu o comando de todas as tropas da ilha, que totalizavam uns 85.000 homens,
dos quais 15.000 eram administrativos, ou não-combatentes, de modo que seus efetivos iam a quase três
divisões. De infantaria, tinha 13 batalhões britânicos, seis australianos, 17 indianos e dois malaios. Havia
também três batalhões de metralhadoras. No papel, esta força parecia poderosa, mas a realidade era um tanto
diferente: seis dos batalhões britânicos acabavam de desembarcar e os outros estavam muito aquém dos
efetivos normais. Continha a unidade grande número de homens que eram virtualmente pouco mais que
recrutas. A escassez de armas era sensível, sobretudo entre as unidades que haviam lutado no continente;
além disso, apenas uma das três unidades de metralhadoras estava mais ou menos completa.

Pior ainda que a falta de armas era o estado do moral da tropa, reduzido, quase, a zero, diante da notícia de
que os aviões que resistiram aos embates ali verificados se retiravam e da evacuação da base naval. Desde
que todo aquele esforço foi feito para defender a base naval, a evacuação desta foi um golpe estonteante.
George Hammond, do Malaya Tribune, mais tarde escreveu sobre sua reação à notícia: “Nunca, durante toda
a luta - todas as derrotas - experimentei tão grande desalento. Parecia impossível que essa fortaleza naval,
que custara 60 milhões de libras e demorara 17 anos para ser construída, pudesse ser abandonada assim - sem
sequer lutar-se por ela”. A base, saliente-se, era de fato gigantesca. Ela possuía tanques de óleo com
capacidade para milhões de toneladas; tinha depósitos subterrâneos de munição, oficinas e diques secos. O
dique flutuante era tão grande que 60.000 homens poderiam reunir-se nele. Havia 62 quilômetros quadrados
de ancoradouro de águas profundas; uma cidade completa, com lojas, cinemas, igrejas, e nada menos de 17
campos de futebol. Como é que a abandonaram antes que os soldados tivessem recuado do continente para a
ilha - os soldados que por sua defesa ofereciam a vida? De quem partiu a ordem?

Embora os soldados jamais viessem a saber disso, o Almirantado já a 21 de janeiro tinha avisado ao Contra-
Almirante Spooner, Comandante-Chefe Naval, que deveria retirar da base o pessoal especializado. Uma
semana depois, Spooner transferiu toda a equipe do estaleiro para a cidade de Cingapura e, depois, embarcou
para o Ceilão a maioria dos que a integravam. Ficando apenas os considerados necessários para ajudar as
unidades de demolição do exército. Spooner nem sequer avisou a Percival que o plano, cuidadosamente
elaborado, da “terra arrasada” não fora executado antes da partida do seu pessoal.

Sabendo da notícia, George Hammond e alguns outros jornalistas foram, de carro, à base, e a cena que
presenciaram era quase inacreditável. Segundo Noel Barber, em seu Sinister Twilight:
“Sentinelas indianas, recostadas indolentemente nos portões, mandaram-nos entrar sem se incomodarem em
saber o que queríamos. Passamos por quartéis, já desertos, que haviam abrigado uma força de trabalho de
12.000 asiáticos; perto dos escritórios da administração havia enorme área de terreno juncado de
equipamento - camisas, cassetetes, máscaras contra gás e armários de madeira. A grande grua, que podia
erguer uma torreta de canhão completa, ainda estava perfeita; enormes caldeiras de navios, na oficina de
caldeiras, estavam á espera da marinha japonesa, além de tornos, peças de reposição para aviões, prateleiras
de equipamento de rádio, dezenas de caixas de válvulas; um armazém estava cheio de imensas bobinas de
corda, fio e arame. Da elevação em que nos encontrávamos, víamos toda a parte superior do gigantesco
dique flutuante que fora rebocado desde a Inglaterra até ali.”

Por toda parte havia sinais de partida apressada, de pânico. Uma bola de futebol ainda permanecia junto da
entrada do gol. Refeições inacabadas juncavam as mesas do rancho e as cozinhas estavam cheias de panelas,
pratos e talheres ainda por lavar. Moscas e ratos já haviam chegado à procura de comida abandonada; depois,
caminhões cheios de soldados chegaram “para surrupiar” e muitos deles trocaram as roupas esfarrapadas que
trajavam por outras. Encontraram também, o que lhe deu grande satisfação, cigarros e comida enlatada em
enormes quantidades. O exército teve de utilizar 120 caminhões para, fazendo cada um deles 21 viagens,
remover todo o material portátil abandonado pela marinha.

Preparando-se às pressas para sua última batalha, Percival concluiu que os japoneses poderiam combinar o
ataque pelo estreito de Johore com uma operação marítima, decidindo, com base nesse raciocínio, que os 110
km de costa fossem defendidos. Mas qual deveria ser a tática defensiva? Deter os desembarques japoneses,
apertá-los perto das praias, caso fossem bem sucedidos? Ou defender as praias com poucos soldados,
reservando as forças principais para um contra-ataque? A segunda alternativa significava travar a batalha no
interior da ilha, em terreno favorável aos nipônicos, além de representar o desmoronamento do moral da
população civil e militar a notícia de que o inimigo estava na ilha. Assim, sendo, Percival optou pela primeira
alternativa, embora sentisse que a linha costeira, entrecortada de cursos de água e mangues, seria de defesa
difícil e que grandes extensões de área seriam defendidas apenas fracamente, devido à falta de tropas.
Mas, que tipo de comando seria adotado? Percival decidiu dividir a ilha em três áreas - norte, sul e oeste. A
8a Divisão australiana, de Gordon Bennett, seria a principal formação da área oeste, começando a oeste da
ponte, enquanto que a 11a e a 18a Divisões defenderiam a área norte, que se dirigia, da elevação, para leste.
Na área sul estava uma mistura de tropas, inclusive a 1 a Brigada malaia. Não se pode dizer que o plano era
bom, pois tinha uma falha fatal. Na visita que fez à ilha no dia 20 de janeiro, Wavell advertiu a Percival que a
costa noroeste era o ponto fraco e que ali seria o local mais provável do ataque de Yamashita. Ali, sugeriu
ele, deveria ser colocada a 18a Divisão britânica, que, embora inexperiente, ainda estava descansada.
Contudo, Percival acreditava que a área visada seria a nordeste e dispôs suas tropas nessa conformidade.
Assim, a parte noroeste vital foi entregue a Gordon Bennett, que tinha sob seu comando, além da divisão que
dirigia (enfraquecida por ter sido completada com 1.900 soldados destreinados), a 44 a Brigada indiana,
formação parcialmente treinada, por isso mesmo insegura de si. Bennett, também longe de estar seguro de si,
escreveu:
“Para defender a frentes australiana, tenho apenas quatro batalhões de infantaria dignos de confiança e duas
companhias do bem treinado batalhão de metralhadoras. A área é a parte mais desabitada da ilha. Realizei
uma conferência com os comandantes da brigada... todos concordaram que tínhamos poucos homens.
Compreendi que seria injusto pedir-lhes, e a seus homens, que lutassem sem recursos... A parte noroeste da
ilha é densamente coberta de mangues que crescem até a beira da água. Os postos, situados a muitas centenas
de metros uns dos outros, têm um campo de fogo de apenas 200 m cada.”

Se a frente era fraca, a retaguarda estava atravancada, pois todas as unidades administrativas se localizavam
em suas próprias formações. Embora muitas delas não tivessem tarefas a realizar, os que a integravam não
foram distribuídos às unidades de infantaria, nem reunidos em patrulhas para cobrir o terreno entre os postos
de defesa. A segurança era espantosamente falha. Muitos agentes japoneses ainda operavam seus rádios para
transmitir informações sobre a localização e movimento de unidades. A Rádio Tóquio dava detalhes dos
danos causados pelos bombardeios aéreos.

Aproximava-se o momento em que a negligência verificada na ilha, a falta de obras de defesa era expressão
disso, iria render dividendos terríveis, pois toda mão-de-obra civil desaparecera. Os soldados tiveram então
de começar a fazê-las. A tarefa era difícil e verificou-se ser praticamente impossível cavar trincheiras perto
das praias, porque a água infiltrava. Assim, foi preciso construir anteparos de arame farpado, protegidos por
toneladas de minas antitanques. A maior parte desse trabalho só a noite podia ser feita, para evitar ataques
aéreos, de modo que se perdiam horas preciosas. Contudo, concentraram-se na área avançada reservas de
alimento e de munição bastantes para 10 dias. Ao mesmo tempo, foram feitos planos para destruir os
principais arsenais da ilha. A gasolina existente nos reservatórios dos aeródromos - uma vez que não havia
mais aviões para usá-la - foi derramada nos arroios, medida determinada pela falta de imaginação, pois
poderia ser usada contra o inimigo. Com os milhões de galões de combustível, Percival poderia criar uma
barreira de fogo ao longo do Estreito de Johore - e era isto, aliás, o que os japoneses esperavam que
acontecesse. Exceto algumas armadilhas destinadas a despejar pequenas quantidades de óleo em chamas nos
arroios do norte, nada mais foi feito. E como os cálculos de Percival sobre as intenções do inimigo
estivessem errados, até mesmo as armadilhas fracassaram.

Lembremo-nos de que a desculpa de Percival para a total ausência de obras de defesa ao longo da costa norte
era o possível dano ao moral civil. Agora, o moral era prejudicado por rumores de que Cingapura não seria
defendida. Os chineses, que temiam mais que ninguém a chegada dos japoneses, estavam em pânico. Não
havia abrigos antiaéreos e, quando os bombardeiros japoneses sobrevoavam a cidade, as ruas de Cingapura
ficavam coalhadas de gente que corria para lá e para cá, sem saber o que fazer ou para onde ir. Ao fim dos
ataques, caminhões faziam a ronda, recolhendo cadáveres que eram lançados em valas comuns. Como um
escritor observou, era igualzinho à Peste Negra medieval.

A propósito do moral dos que ali se encontravam, Percival fez a seguinte declaração à imprensa:
“A batalha da Malásia terminou e a Batalha de Cingapura começou. Durante quase dois meses nossos
soldados combateram no continente um inimigo que levava sobre nós duas vantagens: superioridade aérea e
considerável liberdade de movimento pelo mar.
Nossa tarefa se tem resumido em procurar impor baixas ao inimigo e ganhar tempo, para permitir que as
forças aliadas se concentrem para a luta no Extremo Oriente. Hoje, estamos em nossa ilha-fortaleza.
Na realização dessa tarefa, queremos a ajuda de todos, homens e mulheres que estão na ilha. Há trabalhos
para todos. Qualquer inimigo que pise na fortaleza tem de ser liquidado imediatamente. Não há mais lugar
para conversa inútil nem para a boataria. Nosso dever é claro. Com firme decisão e determinação,
venceremos.”

É de duvidar que esse apelo tivesse algum efeito; soldados e civis podiam ver as demolições, ou os
preparativos que se faziam para realizá-las, e concluir, sem possibilidade de erro, que os superiores
consideravam desesperadora a situação.

Se a situação de Percival era desesperadora, a de Yamashita estava longe de ser ditosa. Em vez de concentrar
na manutenção de suas linhas de comunicações, longas e tênues, mas que precisavam manter-se abertas, o
Exército do Sul o vinha bombardeando com papel. A 23 de janeiro, o Feldmarechal Terauchi chegou mesmo
a mandar seu Chefe de Estado-Maior, Tenente-General Osamu Tsukada, com volumosas notas sobre a forma
de capturar Cingapura. Yamashita reduziu as notas a pedaços, observando em seu diário: “Sempre que há
duas alternativas, o Exército do Sul insiste na errada”. A munição era escassa para o ataque a Cingapura,
especialmente em termos de granadas para os canhões de campanha, que lhe vinham sendo enviadas em
pequenas quantidades. Embora a Divisão Aérea estivesse martelando Cingapura, ela raramente obedecia às
instruções de Yamashita e muitos pedidos de ataques aéreos foram completamente ignorados.

Contudo, os preparativos para o ataque prosseguiram com rapidez e Yamashita, do seu QG, situado no
Palácio Imperial do Sultão de Johore, podia ver a ilha do outro lado do Estreito, seu último objetivo na
campanha. Suas três divisões já se haviam aproximado e, nos arroios que corriam defronte a Cingapura, ele
reunira 200 lanchas desmontáveis, equipadas com motores de popa, e 100 barcaças de assalto maiores.
Diariamente, as tropas de assalto realizavam exercícios de embarque e desembarque, não deixando nada ao
acaso. Os 4.000 homens que formavam a primeira leva haviam lutado na China e eram mestres em
desembarques navais. Yamashita sabia que eles não falhariam.

Pelo dia 4 de fevereiro, os reconhecimentos para a travessia e o trabalho de Estado-Maior subseqüente já


estavam prontos e o Chefe de Estado-Maior, Suzuki, começou a redigir as ordens. Às 11h do dia 6,
Yamashita convocou seus comandantes divisionários no Palácio Imperial para recebê-las. Em síntese, seu
plano estabelecia que a divisão de Nishimura faria um ataque simulado, a leste, na noite de 7 de fevereiro,
desembarcando na ilha Palau Ubin, diante de Chengi. Então, depois do anoitecer do dia 8, a 5 a e a 18a
Divisões, sob o comando de Matsui e Mutaguchi, respectivamente, atravessariam para o canto noroeste da
ilha. Uma vez estabelecidas, a Divisão de Guardas Imperiais as seguiria. Matsui e Mutaguchi ficaram
encantados com o plano, mas Nishimura, compreensivelmente, não estava, achando que os Guardas
Imperiais haviam sido insultados, por receberem papel subsidiário. Deve-se acrescentar que Yamashita não
estava apenas dependendo do ataque simulado da Divisão de Guardas para iludir Percival. Campos falsos
haviam sido erguidos no continente, diante da base naval, e comboios de caminhões receberam ordens de se
moverem para leste à luz do dia, e depois, voltarem após anoitecer para repetir as manobras no dia seguinte.

Não havia nada de particularmente original nessa manobra - Allenby fizera a mesma coisa na Palestina, em
1918 - mas dava a Percival a impressão de que seus cálculos estavam certos. Assim, o Brigadeiro Stimson,
que vinha fazendo depósitos a oeste do elevado, recebeu ordens de mudá-los para leste. Simson ficou
naturalmente horrorizado, pois toda a sua experiência militar lhe dizia que o ataque viria pelo noroeste. Ele
estava certo disso. Durante semanas estivera reunindo minas, armadilhas, alambrados, piquetes, tambores de
gasolina e outros materiais. Contudo, Percival era o comandante e suas ordens tinham de ser obedecidas.
Assim, com grande esforço, os depósitos foram transferidos para leste do elevado a 5 de fevereiro. Contudo,
naquela noite, Percival recebeu informes de Gordon Bennett de que os japoneses estavam ausentes do lado
oposto do seu setor, a oeste. Percival mandou que os depósitos fossem novamente transferidos para oeste.
Mas já fora de tempo.

O bombardeio de artilharia de Yamashita começou no dia 5, sendo os principais alvos os três aeródromos do
norte, a Base Naval, e os principais entroncamentos rodoviários. No dia 6, o bombardeios continuou, dirigido
sobretudo contra o noroeste da ilha e a extremidade do elevado. Uma brecha de 60 metros fora aberta no
elevado e na ponte ferroviária adjacente. Mas, como os japoneses descobriram depois, a água junto da brecha
tinha apenas 1,50 m de profundidade na vazante e os homens podiam vadeá-la. No dia 7, houve mais
bombardeio e, naquela noite, uma patrulha foi despachada para a ilha, em missão de reconhecimento da
costa, entre o Sungei Skudei e o Sungei Malayu, mas não penetrou o suficiente para localizar as barcaças de
desembarque. Contudo, ela informou da presença de concentrações de tropas nos seringais e disse que havia
muito tráfego nas estradas da área. Essa informação só chegou ao QG de Percival às 15h30 da tarde seguinte
- mesmo então, a situação permanecia estática e as comunicações continuavam sendo incrivelmente ruins.
Quando Bennett pediu um avião para fazer observações para a sua artilharia, foi informado de que não havia
nenhum em disponibilidade, o que levou a determinar fossem feitos disparos sem observação contra as áreas
mencionadas pela patrulha. Já então, todos, inclusive Percival, deviam perceber que o ataque era iminente e
que os canhões deveriam ser apontados para os arroios noroeste. Mas, como de hábito, Percival nunca estava
presente quando mais necessário, por isso as barcaças de assalto puderam reunir-se e ser carregadas sem
qualquer interferência.

Desde o amanhecer de 8 de fevereiro, os aviões japoneses apareceram, bombardeando e metralhando os


australianos na área ocidental. Então à tarde, os canhões abriram fogo e durante quase cinco horas
bombardearam as defesas avançadas, os QGs e as comunicações. Ao pôr-do-sol, depois de cortadas as linhas
telefônicas, houve uma trégua, seguida de um bombardeio ainda mais intenso. Na opinião de Percival, com
que Bennett dessa vez concordou, o bombardeio prosseguiria por três ou quatro dias; assim, os artilheiros
não receberam ordens de lançar concentrações de fogo sobre os arroios. Porém, uma vez mais, o instinto de
Percival o iludiu e, na verdade, muitas das decisões por ele tomadas nessa época parecem absolutamente sem
sentido. Dentro de poucas horas ele receberia uma surpresa desagradável. A infantaria avançada estaria
iniciando a última batalha dessa desastrosa campanha.

A queda de Cingapura

“Os batalhões saíram de seus abrigos para os pontos de embarque; então, começou a concentração da
artilharia. “Embarcar” e “Soltar as amarras” - foram as ordens de um oficial, dadas a poucos metros dali. A
artilharia suspendera seus disparos e o silêncio era total. Olhei para cima e vi o céu repleto de estrelas. O
segundo barco foi lançado no canal, depois o terceiro. Então, a artilharia do inimigo abriu fogo.”

O autor destas linhas foi Kiyomoto Heida, soldado da 5 a Divisão, de Matsui. Seria pouco mais de 21h30 de 8
de fevereiro quando esta unidade embarcou. Uma hora depois, os australianos viram a barcaça de
desembarque aproximar-se e não demorou muito para que toda a costa, desde Tanjong Buloh até Tanjong
Marai, fosse atacada. Embora intenso fogo de canhões e morteiros se abatesse sobre eles, os australianos da
22a Brigada, espalhados por mais de 12 km de costa, deram início a sistemático bombardeio. Mas a noite
estava escura e somente quando incendiaram alguns dos barcos é que puderam ver alguma coisa. De um
modo geral, eles visavam apenas às silhuetas, ou apontavam suas armas na direção do som dos motores de
popa. Os metralhadores movimentavam lentamente as suas armas na horizontal, mas, atirando às cegas, o
consumo de munição foi desproporcional aos danos que produziram. “Onde estavam os desgraçados dos
holofotes?” perguntavam os soldados. Eles haviam sido informados de que o plano previa a ligação dos
holofotes assim que fossem avistadas as barcaças de desembarque. Mas o que não sabiam é que todas as
linhas de comunicação haviam sido cortadas horas antes, de modo que as unidades envolvidas não receberam
ordem alguma. Poder-se-ia dizer que, tivesse havido um pouco de bom senso, as guarnições dos holofotes tê-
los-iam acendido sem esperar pelo recebimento de ordens. Mas lhes haviam incutido firmemente idéia de
que, de maneira alguma, deveriam usar a iniciativa própria. O Brigadeiro Taylor (comandante da 22 a
Brigada), ao que parece, tinha medo de que os holofotes pudessem ser destruídos antes da chegada dos
barcos.

As linhas de comunicações que iam até os artilheiros também estavam cortadas e só quando a infantaria
australiana começou a lançar foguetes anunciadores de perigo é que alguns canhões abriram fogo. Mas foram
poucos, e tarde demais. Os japoneses já tinham começado a desembarcar.

O conjunto de ações foi uma tragédia e, assim como a Península, resultou da falta de imaginação e mau
planejamento. Era evidente que, com um bombardeio intenso, havia o risco de as linhas serem cortadas.
Logo, ao comandante da infantaria avançada, na praia, devia caber a determinação do momento em que
deveriam ser ligados os holofotes. Tendo o estreito, no ponto em que foi cruzado, menos de 1.600 m de
largura, o que significava 10 minutos de viagem, no máximo 15, pelas barcaças de assalto, não havia um
segundo a perder. As luzes deveriam ter sido acesas e as granadas, disparadas tão logo as metralhadoras
começassem a atirar. Mesmo assim, os australianos destruíram a primeira leva de barcaças de assalto e
infligiram pesadas baixas à segunda. Em pouco, os japoneses puderam ver onde se situavam os pontos de
defesa e manobrar de forma a evitá-los. Mesmo assim, muitos barcos só conseguiram chegar à praia depois
de duas ou três tentativas. Tão logo tocavam em terra, os homens corriam para o interior e atacavam por trás
dos postos defensivos australianos. Alguns destes já haviam gasto toda a munição, de modo que houve luta
corpo a corpo nos pântanos e mangues, com a infantaria se defendendo a baioneta. Muitos postos foram
vencidos, abrindo-se então brechas por onde se infiltraram as levas seguintes praticamente sem oposição.
Gradualmente, o peso do ataque aumentou e, reunindo suas unidades, os comandantes japoneses, que traziam
bússolas presas ao pulso, conduziam seus homens para o sul, na direção de Ama Keng. Enquanto isso, os
australianos sobreviventes tentavam recuar, e um deles, Kenneth Attiwill, que serviu durante toda a
campanha, fez um relato vívido dos apertos que viveu.

“Grupos de homens se separavam dos companheiros, na escuridão desnorteante. Alguns perderam-se. Muitos
morreram. Outros, conseguiram chegar a Bukit Timah e outros ainda alcançaram a Cidade de Cingapura.
Bem antes de serem recolhidos, reorganizados e mandados de volta, viveram desorganização total. Por efeito
da retirada, toda a brigada teve de se deslocar e, pelas 10h do dia 9 - menos de 12 horas após ter-se iniciado o
ataque - a 22a Brigada australiana, sobre cujo poder de combate se apoiara a defesa da área noroeste da ilha,
deixara de ser uma força combatente coesa.”

Só à meia-noite é que Percival se inteirou do que estava acontecendo, certificando-se de que a previsão que
fez sobre o momento em que se iniciaria o ataque estava totalmente errada. Soube também que Bennett
cedera ao Brigadeiro Taylor as reservas que possuía para um contra-ataque ao clarear o dia. Os aviões que
restavam na ilha, 10 Hurricanes e quatro obsoletos Swordfish, também receberam ordens de atacar as áreas
de desembarque inimigas ao amanhecer. Eles decolaram pouco depois das 06h e deram com uma esquadrilha
de nada menos de 84 aviões inimigos aproximando-se da ilha. Eles a interceptaram e em dois ataques
encarniçados, derrubaram vários deles.

Algumas horas antes, as tropas japonesas haviam chegado às posições australianas, perto de Ama Keng, que
protegiam o acesso ao aeródromo de Tengah, 3 km ao sul. Por algum tempo, os australianos defenderam suas
posições e até fizeram um contra-ataque bem sucedido; mas, inevitavelmente, os japoneses os flanquearam e
os obrigaram a recuar. A confusão, no seio da 22 a Brigada, aumentou, verificando Taylor que a única
esperança era recuar diretamente pela Rodovia Jorong. Seis horas após o desembarque, os japoneses haviam
conseguido ocupar a maior parte da área ocidental. Quando clareasse o dia, eles prosseguiriam em seu
avanço.

Na verdade, antes do meio-dia do dia 9, o Estado-Maior de Yamashita informou-o de que toda a infantaria da
5a e da 18a Divisões havia cruzado o estreito, com várias das suas unidades de artilharia. Era a vez da Divisão
de Guardas Imperiais desembarcar, atrás da 5 a Divisão, mas Nishimura hesitou. Os Guardas Imperiais,
achando que haviam perdido prestígio durante a batalha do rio Muar, encheram-se de fúria, decapitando
cerca de 200 feridos que as brigadas australianas e indianas haviam deixado para trás, quando obrigadas a se
embrenharem na selva, para cortar caminho para o sul. Durante a batalha, o comandante do velho regimento
de Yamashita, o 3o regimento de Guardas, fora ferido e Yamashita escolheu o seu substituto. Nishimura
irritou-se com o fato, por entender que o ato de designação do substituto do comandante ferido era
prerrogativa sua, e decidiu incomodar Yamashita ao máximo. Primeiro, protestou que sua divisão estava
sendo impedida de entrar em combate. Depois, quando chegaram as ordens para avançar, começou a
contestá-las. Yamashita, mais tarde, escreveu: “Mandei os Guardas Imperiais atravessar o estreito. Então, seu
comandante pediu-me outras ordens. Recebi dele uma mensagem em que dizia que seus soldados hesitavam
em atravessar devido ao óleo inflamado que havia na superfície da água. Parecia-me que ele ainda estava
irritado por não ter liderado o ataque. Ordenei-lhe que cumprisse seu dever”. Mesmo assim, Nishimura não
se mexeu, e mandou um jovem oficial de seu Estado-Maior discutir com Yamashita. Este, já saturado, disse-
lhe rispidamente: “Volte ao seu comandante e diga-lhe que a Divisão de Guardas Imperiais pode fazer o que
quiser nessa batalha”. Nishimura sentiu o insulto implícito na reação de Yamashita, que dessa forma deixava
claro que se vitoriaria com ou sem a sua participação, e, irritado, deu ordens de avançar.

Ao anoitecer do dia 9, Yamashita cruzou o estreito, com seu Estado-Maior, a bordo de uma pequena barcaça.
Tão apinhada ia a embarcação, que todos viajavam de pé. Quando desembarcaram, o Coronel Tsuji sentiu
algo mover-se sob seus pés e acendeu sua lanterna, iluminando fileiras de prisioneiros britânicos e
australianos, capturados no primeiro assalto, que ali jaziam amarrados uns aos outros. Os nipônicos
caminharam tranqüilamente sobre eles. A significação disso era muito sensível para passar despercebida.

Já então, Gordon Bennett conseguira estabilizar a situação na área ocidental, muito embora, como ele devia
estar ciente, os japoneses estivessem trazendo tanques para a ilha, dando a certeza de que a pressão em breve
aumentaria consideravelmente. Contudo, a linha Jurong, esticada numa elevação de 5 km de extensão, da
nascente do rio Kranji à do Jurong, estava já ocupada. Embora não dispusesse de cercas de arame farpado, de
campos minados nem de trincheiras antitanques, a posição era naturalmente forte. Se defendida por tropas
resolutas, poderia resistir durante dias.
Examinando a situação, Percival tinha de decidir o que fazer se os japoneses penetrassem na direção de
Bukit Timah, situada a apenas 8 km a noroeste da Cidade de Cingapura. O que deveria fazer? Recuar para a
extremidade leste da ilha, ou formar uma linha defensiva em torno da cidade? Ele se decidiu pela segunda
alternativa, porque, do contrário, seria necessário abandonar os principais depósitos de suprimentos e os
hospitais. Além disso, a defesa dos reservatórios de água que abasteciam a cidade era da maior importância.
Durante a noite do dia 9, ele apresentou seu plano oralmente a Heath e Simmons (comandante da área sul) e,
após a meia-noite, divulgou-o como instrução secreta a todos os comandantes superiores e seus Estados-
Maiores. Uma vez mais, houve confusão, pois Bennett emitiu uma ordem operacional, baseada na instrução,
a seus subordinados, indicando-lhes posições no perímetro. O Brigadeiro Maxwell, comandante da 27 a
Brigada australiana, interpretou de tal forma a ordem, que bateu em retirada, e o fez sem avisar a Gordon
Bennett. O Brigadeiro Taylor, que defendia a posição central da linha Jurong, supôs igualmente que lhe fora
ordenada uma retirada - o que deu como resultado o abandono da linha, perdendo-se dessa forma, toda a
esperança de deter os japoneses na parte oeste da ilha.

Esta era a situação quando Wavell chegou no dia 10, para sua última visita à ilha. Visitando o QG de Gordon
Bennett com Percival, Wavell ordenou a realização de um contra-ataque imediato. Contudo, tinha pouca fé
no sucesso da medida. Ao voltar para Java, informou a Churchill:
“A Batalha por Cingapura não está indo bem. Os japoneses, com sua tática usual de infiltração, avançam
com muito mais rapidez do que se poderia esperar na parte oeste da ilha... O moral da tropa não é em geral
muito bom. Em parte alguma é tão elevado quanto gostaria que fosse... Os principais problemas são a falta
de treinamento suficiente de algumas das tropas de reforço e um complexo de inferioridade que a tática
arrojada e hábil dos japoneses e seu domínio do ar provocaram. Todo o possível está sendo feito para dar à
tropa mais aguerrimento e ofensividade e uma perspectiva mais otimista. Mas não posso fingir, e declarar
que tenha logrado êxito no intento. Ordenei o mais categoricamente possível que não se pense em rendição e
que todos devem continuar lutando, até o fim.”

A situação dos britânicos continuou piorando e, pela tarde do dia 10, quando os tanques médios japoneses
chegaram, avizinhou-se do caos. As tropas indianas que cobriam as colinas de Bukit Timah estavam
dispersadas. Ao anoitecer, somente os Argylls and Sutherland Highlanders estavam entre as colunas inimigas
e os vitais depósitos de Bukit Timah. Com os veículos que encontraram e algumas minas antitanques, eles
apressadamente ergueram um obstáculo. Quando a coluna japonesa chegou, por volta das 22h30, o tanque da
frente foi destruído; mas a força atacante, composta de nada menos de 50 tanques, apoiados por infantaria,
obrigou os Argylls a recuara para leste da estrada. Por volta da meia-noite os japoneses já controlavam o vital
entroncamento rodoviário, cortando assim as comunicações aliadas de norte a sul.

Pelo amanhecer do dia 13, as forças aliadas estavam dentro de um perímetro de 45 km da cidade de
Cingapura. Não havia mais para onde recuar.

A cidade estava mergulhada no caos, com sua população duplicada pela convergência de 500.000 refugiados.
Densa nuvem de fumaça desprendida dos tanques de óleo em chamas pairava sobre a cidade. Pelas ruas,
juncadas de veículos abandonados, vagavam soldados, sem comando, sem ordens. Às vezes, aparecia por ali
uma coluna perdida, e perdida se deslocava. Nos portais das casas, desertores se esparramavam, enquanto
outros, embriagados, cambaleavam pelas ruas. Eram inevitáveis as brigas entre bêbados. Os saques às casas
comerciais, de ocorrência freqüente, juncavam as ruas de maços de cigarros e de mil e outras coisas.
Crianças andavam hesitantes em bicicletas grandes demais para elas. Desertores saíam das agências de
vendas de automóveis, dirigindo loucamente carros roubados até se chocarem contra algum obstáculo.
Mulheres e crianças corriam pelas ruas, carregando galinhas, sacos de alimento enlatado, de farinha de arroz,
roubados das lojas. Os cinemas estavam repletos, principalmente de soldados. De vez em quando, um ataque
aéreo fazia explodir trechos enormes da cidade, pondo em louca disparada os que ali se encontravam, pois
não havia abrigos antiaéreos, nem para onde fugir. Por toda a cidade ardiam incêndios, mas ninguém lhes
dava atenção. Todos se sentiam condenados e sabiam que nada podiam fazer.

Embora a batalha prosseguisse rápida, não tinha a velocidade que Yamashita desejava que tivesse. Seu
encarregado de abastecimento, Coronel Ikatini, pusera-lhe a par das condições de um setor. A escassez de
gasolina e de munição de artilharia punha fora de cogitação um sítio prolongado. A linha de comunicações
do Japão até Cingapura e de Singora até Cingapura estava interrompida. O que se faria? Deveria ele manter o
impulso do ataque, na esperança de que Percival se rendesse? Ou fazer alto e esperar que o Exército do Sul
se movimentasse e mandasse mais suprimentos? Contra a primeira alternativa estava o temor de Yamashita
de que Percival recuasse para dentro da cidade e combatesse de rua em rua. Tal movimento teria apresentado
problemas espantosos porque, à parte o problema do abastecimento, o exército de Yamashita estaria em
inferioridade numérica - e a luta de rua consome soldados em grandes quantidades. Mas foi a primeira
alternativa que ele escolheu, pois havia sintetizado argutamente a personalidade de Percival e compreendia a
total desmoralização das forças aliadas. Mais tarde, ele escreveu:
“Meu ataque a Cingapura foi um blefe, um blefe que deu certo. Eu tinha 30.000 homens e estava em
inferioridade numérica, na proporção de três para um. Sabia que se tivesse de lutar por muito tempo pela
posse de Cingapura, seria vencido. Eis por que a rendição tinha de ser imediata. Durante todo o tempo eu
receava que os britânicos descobrissem nossa inferioridade numérica e carência de suprimentos e me
obrigassem a uma desastrosa luta de rua.”

Assim, os artilheiros receberam ordens de disparar os canhões como se sua munição fosse interminável.
Entrementes, os aviões martelavam os aeródromos e os tanques continuavam a dispersar a esgotada
infantaria. A pressão foi mantida ininterruptamente.

Em Londres, a notícia de que se desintegrava a defesa da ilha fora recebida com incredulidade e desalento.
Mesmo depois dos desastres dos três últimos anos, sobretudo dos ocorridos desde a entrada do Japão na
guerra, perdurava a esperança de que um milagre aconteceria, de que Cingapura, de algum modo, se salvaria.
O mito era tão poderoso que resistiu até mesmo ao impacto dos fatos mais concretos. A 10 de fevereiro,
Churchill comunicara a Wavell:
“Creio que o senhor deve compreender como vemos a situação de Cingapura. O Gabinete foi informado de
que Percival tem mais de 100.000 homens, dos quais 33.000 são britânicos e 17.000 são australianos. É de
duvidar que os japoneses tenham tantos homens em toda a Península Malaia... Nessa circunstâncias, os
defensores devem estar em grande superioridade numérica em relação às forças japonesas que atravessaram
o estreito e que, numa batalha bem disputada, devem destruí-las. Nesse estágio, não se deve pensar em salvar
soldados nem poupar a população civil. A batalha deve ser travada até o fim e a qualquer preço... Os
comandantes e oficiais superiores devem morrer com seus soldados. A honra do Império Britânico e do
Exército Britânico está em jogo. Confio em que o senhor não mostrará piedade nem fraqueza de nenhuma
forma.”

Em sua resposta, Wavell foi pessimista. Embora Percival não tivesse tantos soldados quanto Churchill
imaginava, disse ele: “Percival deve ter... o bastante para enfrentar o inimigo desembarcado, se se puder
fazer com que as tropas ajam com vigor e determinação suficientes”. Ele também informou que, ao retornar
de Cingapura caíra do cais, no escuro, e fraturara duas vértebras, ficando incapacitado pelo menos por
algumas semanas. Foi do hospital que Wavell comunicou a Percival, no dia 13:
“O senhor tem de se manter em luta, como está fazendo. Mas, depois de feito tudo quanto humanamente
possível, alguns talvez possam escapar em pequenos barcos e rumar para Sumatra e para as ilhas.”

No mesmo dia, Percival comunicou a Wavell:


“O inimigo está agora a 5.000 metros do cais, o que coloca toda a cidade de Cingapura ao alcance da
artilharia de campanha. Também corremos o risco de ficar sem água e alimentos. Na opinião dos
comandantes, as tropas já empenhadas estão demasiado cansadas para resistir a um forte ataque ou desfechar
um contra-ataque... Nessas condições, é pouco provável que a resistência possa durar mais de um ou dois
dias... Chegará o momento em que nos inteiraremos de que de nada valerá maior derramamento de sangue.
Suas instruções de 10 de fevereiro estão sendo cumpridas, mas, nas circunstâncias, será que o senhor poderia
examinar a possibilidade de dar-me poderes discricionários?

A linguagem formal não obscurecia a realidade do apelo de Percival: ele queria render-se. Mas Wavell não
concordou, respondendo-lhe no dia 14:
“O senhor tem de continuar infligindo o máximo dano ao inimigo, durante o maior tempo possível, lutando
de casa em casa, se necessário. Ao reter o inimigo e infligir-lhe baixas, o senhor poderá estar influenciando
vitalmente outros teatros de operação. Compreendo a situação que o senhor está enfrentando, mas a ação
ininterrupta é essencial.”

Entrementes, Churchill estivera examinando a situação e concluíra que “agora estou certo de que tudo está
perdido em Cingapura e de que seria erro insistir em morticínio desnecessário”. Assim, no mesmo dia, ele
comunicou a Wavell:
“Naturalmente, só o senhor é que pode julgar quando chegar o momento em que não possa obter mais nada
em Cingapura e deve instruir Percival nessa conformidade.”
No dia seguinte, Wavell comunicou-se com Percival, informando-o da mudança na situação:
“Enquanto estiver em posição de infligir perdas e danos ao inimigo e suas tropas estiverem fisicamente
capazes de assim agir, o senhor deve continuar lutando. O tempo ganho e os danos causados ao inimigo são
de enorme importância nesta crise. Quando estiver plenamente cônscio de que tal não é mais possível, dou-
lhe permissão para cessar a resistência, a seu critério... Aconteça o que acontecer, sou-lhe grato, e a todos os
seus soldados, pelos bravos esforços dos últimos dias.”

Percival recebeu este comunicado com alívio, pois seus problemas em Cingapura estavam aumentando
rapidamente. O suprimento de água que chegava à cidade vinha de uma elevatória em Woodleigh, situada a
menos de 1 km das posições avançadas japonesas. Devido, porém, aos danos produzidos nos canos, dois
terços da água se perdiam, e a algumas partes da cidade não chegava uma só gota. O brigadeiro Simson e
grupos dos Engenheiros Reais tentavam valentemente consertar os encanamentos e manter o abastecimento,
mas tudo inútil. Tornou-se então evidente que o perigo de uma epidemia de tifo estava aumentando, diante da
informação da existência de cadáveres no reservatório, contaminando a água servida à população. Às 10h de
sábado, dia 14, Simson teve de informar a Percival que talvez dentro de 48 horas se verificasse o colapso do
abastecimento de água. A reação de Percival foi chamar o Engenheiro Municipal, anunciando depois de
breve conferência com ele: “Enquanto houver água, continuaremos lutando”.

Contudo, Shenton Thomas, o governador, para quem o perigo de uma epidemia se sobrepunha a todos os
outros, comunicou-se com o Escritório Colonial, em Londres, dando conta do seguinte:
“O Oficial General-Comandante me informa que a Cidade de Cingapura foi cercada. Neste momento, há um
milhão de pessoas num raio de 5 km. O abastecimento de água talvez não dure 24 horas, em virtude de
avarias no encanamento. Muitos mortos jazem nas ruas e o sepultamento é impossível. Enfrentamos o risco
de epidemias. Julguei de meu dever prestar-lhes estas informações.”

Shenton Thomas mantivera a aparência de normalidade até o último minuto. Aos convidados às recepções
realizadas no palácio do governo exigia o uso de smoking, e o cardápio do dia era impresso, como sempre.
No dia 15, domingo, Percival convocou uma conferência dos seus comandantes e do Estado-Maior em Fort
Canning, às 09h30. De cada um deles, ouviu breve relatório sobre a situação. Disseram-lhe todos que o
momento era de desespero. Não havia quase água nenhuma... o Exército tinha ração para poucos dias... e a
gasolina que restava era a existente nos tanques dos caminhões. Não demoraria muito para que a última
centelha de esperança se apagasse e, após uns 15 minutos, mais ou menos, conforme Gordon Bennett
registrou: “Silenciosamente e tristemente, decidimo-nos render”.

Três dias antes, Yamashita fizera lançar por avião uma nota, endereçada ao “Alto Comando do Exército
Britânico”, em que dizia:
“Excelência. Eu, o Alto Comando do Exército Nipônico, baseado no espírito de cavalheirismo (bushido)
japonês, tenho a honra de apresentar esta nota a Vossa Excelência, aconselhando-o a render a força que se
encontra na Malásia.
Meu sincero respeito ao seu exército, que, fiel ao espírito tradicional da Grã-Bretanha, defende
galhardamente Cingapura, agora isolada e sem auxílio. Muitas lutas violentas e arrojadas foram travadas
pelos seus bravos oficiais e soldados, para honra da arte marcial britânica. Mas, a situação evoluiu de forma a
selar o destino de Cingapura, e o prosseguimento de resistência inútil só serve para infligir sofrimento a
milhares de não-combatentes que se refugiam na cidade, sem coisa alguma acrescentar à honra de seu
exército.
Espero que Vossa Excelência, aceitando meu conselho, e reconhecendo a inutilidade da resistência, ordene
sem demora a toda frente que cesse as hostilidades e, ao mesmo tempo, despache seus parlamentares de
acordo com o procedimento apresentado no fim dessa nota. Se, ao contrário Vossa Excelência ignorar meu
conselho e mantenha a continuidade da luta, serei obrigado, embora relutando, por considerações
humanitárias, a ordenar a meu exército que proceda ao aniquilamento de Cingapura.
Ao encerrar, apresento meus sinceros respeitos a Vossa Excelência.
(Assinado) Tomoyuki Yamashita
1. Os parlamentares devem ir até a rodovia de Bukit Timah
2. Os parlamentares devem portar uma grande bandeira branca e a bandeira britânica.”

Yamashita não recebera resposta alguma a esta comunicação e, com seus estoques de munição diminuindo
rapidamente, começava a pensar se o desastre não o ameaçava. Uma vez iniciada, a luta nas ruas poderia
prosseguir interminavelmente, fuzil contra fuzil, baioneta contra baioneta. Nem seus tanques, nem sua
artilharia poderiam dominar a batalha, como vinham fazendo. Até mesmo a superioridade aérea, com os
exércitos agarrados num corpo a corpo, deixaria de ser fator decisivo. A luta prosseguiu durante os dias 13 e
14... e, na manhã de domingo, dia 15, Yamashita foi ao QG de Mutaguchi, situado no ponto dominante de
Bukit Timah. Densa nuvem de fumaça cobria a cidade e Mutaguchi comunicou que o fogo da artilharia
inimiga diminuíra. Acreditava que várias baterias tinham sido destruídas por ataques aéreos. Sempre ávido
por combater, Mutaguchi estivera observando suas tropas em ação na costa sul onde, desde o amanhecer,
haviam avançado três quilômetros, conforme informou a Yamashita.

Por volta das 10h, tendo Yamashita já retornado a seu QG, uma patrulha despachada pela divisão de
Mutaguchi informou que uma bandeira fora hasteada entre as árvores, à frente. Um oficial foi incumbido de
verificar o informe e telefonou a Mutaguchi dizendo que uma bandeira branca também fora hasteada nos
estúdios da rádio. Mais tarde, um carro aproximou-se pela rodovia Bukit Timah, sob uma bandeira branca, e
o Tenente-Coronel Sugita, do Serviço de Inteligência do QG de Yamashita, foi recebê-lo.

No carro estavam o Brigadeiro Newbiggin, Chefe Administrativo de Percival, e Hugh Fraser, Secretário
Colonial em exercício. Antes de chegarem às linhas japonesas, bateram num campo minado, sendo forçados
a abandonar o carro e prosseguir a pé, empunhando a bandeira branca. Finalmente, alguns soldados saíram
dos seringais, de armas em punho. Mas, compreendendo o que a bandeira branca significava, pediram aos
britânicos que alinhassem para que fossem batidas algumas fotos. Durante algum tempo houve muitos
empurrões quando cada soldado tentava aparecer na foto e depois escolhia uma boa posição para tirar a sua.

Às 14h chegaram Sugita e um oficial subalterno, a quem Newbiggin entregou a carta em que Percival
sugeria que o cessar-fogo se verificasse às 16 h, para permitir que os dois comandantes discutissem os
termos da rendição. Contudo, as instruções de Yamashita a Sugita não admitiam discussões; ele não cessaria
fogo até que Percival tivesse assinado um documento de rendição. Como ele escreveu mais tarde: “Preparei-
me contra um logro e mandei que o comandante britânico viesse pessoalmente”. O encontro foi marcado
para a Fábrica Ford, em Bukit Timah, onde Percival chegou às 17h15, com dois oficiais de Estado-maior e
um intérprete. Yamashita chegou logo a seguir. Depois das apresentações feitas pelo seu intérprete, Hishikari,
os comandantes sentaram-se um diante do outro, sob o olhar atento dos fotógrafos e cinegrafistas. De acordo
com o relato oficial japonês da reunião, o diálogo foi o seguinte:
“ - Responda-me sucintamente - O senhor deseja render-se incondicionalmente?
- Sim.
- Os senhores têm algum prisioneiro de guerra japonês?
- Nenhum.
- Tem algum civil japonês?
- Não. Todos eles foram mandados para a Índia.
- Muito bem. Queira assinar este documento de rendição.”

Percival leu mais ou menos a metade, e perguntou:


“ - O senhor me dará um prazo até amanhã pela manhã?
Yamashita respondeu irritado:
“ - Se o senhor não assinar agora, continuaremos lutando. Tudo o que eu quero saber é: O senhor se rende
incondicionalmente ou não?”
Percival empalideceu e começou a falar com o intérprete em voz baixa, mas Yamashita o interrompeu, dedo
em riste e gritando: “Sim ou não?”
Percival olhou para o intérprete e, então, disse: “Sim”.
“ - Muito bem. Cessaremos as hostilidades às 22h, hora do Japão.”

Tendo assinado, Percival pediu que as forças japonesas não entrassem na cidade até a manhã seguinte, pois
ele precisaria de tempo para comunicar a rendição aos comandantes das redondezas e à população civil.
Depois que Yamashita concordou, teve lugar o seguinte diálogo:
“ - E sobre a vida dos civis e dos soldados britânicos, indianos e australianos? O senhor as garantirá?
- Sim. Pode tranqüilizar-se quanto a isto. Eu posso garanti-los totalmente.”

A reunião terminou. O ajudante de Yamashita escreveu:


“A reunião entre os dois comandantes terminou às 19h, quando o inimigo aceitou a rendição incondicional.
Yamashita ergueu-se e tornou a apertar a mão do comandante inimigo. Ele estava cercado por cinegrafistas e
correspondentes de guerra. Mais tarde, ele disse-me que queria dizer algumas palavras amáveis a Percival
enquanto lhe apertava a mão, pois parecia doente, tão pálido e magro estava. Resolveu, entretanto, não dizer
coisa alguma, porque não falava inglês e compreendia ser muito difícil transmitir o que se sente quando as
palavras estão sendo interpretadas por uma terceira pessoa."

Com a assinatura do documento de rendição, Yamashita conseguiu o maior triunfo já conquistado por
qualquer general japonês, em toda a história do exército nipônico. A grande base naval de Cingapura, com
seus imensos recursos naturais, poderia então ser colocada a serviço do esforço de guerra do Japão. Sua
campanha durara apenas 73 dias e suas baixas totais foram de somente 9.824 homens, dos quais uns 3.000
foram mortos. E 80.000 homens lhe haviam deposto as armas.

Para os Aliados, sobretudo para Winston Churchill, o desastre foi tão espantoso que desafiava a imaginação.
Demoraria ainda um pouco para que se inteirassem de suas verdadeiras proporções. Entrementes, o único
alento veio na forma de um comunicado do Presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, cujo exército
iria ter nas Filipinas o mesmo destino dos britânicos:
“Compreendo como a queda de Cingapura lhe deve ter feito sofrer e ao povo britânico. Porém, por mais
sérios que tenham sido os nossos reveses... temos de olhar para a frente, e pensar nas providências que
devem ser tomadas para atingir o inimigo. Espero que o senhor esteja com ânimo forte nestas semanas de
sofrimento, porque estou certo de que o senhor goza da confiança da maioria do povo britânico. Quero que
saiba que penso no senhor constantemente e sei que não hesitará em recorrer a nosso auxílio, se houver
alguma coisa que possamos fazer... Não deixe de escrever-me.”

Não cabe a um britânico dizer se os Estados Unidos tiveram ou não presidente maior que Franklin Roosevelt,
mas, por certo, a Grã- Bretanha jamais teve amigo maior. E mais que nunca ela iria precisar dele.

Pós-escrito e autópsia

Como todas as tragédias, a perda da Malásia e de Cingapura suscitou muitas questões. Se se tivesse
permitido que a 11a Divisão se consolidasse em Jitra, em lugar de ser lançada na inútil “Operação Matador”...
Se o porta-aviões Indomitable não tivesse encalhado na Jamaica... se os soldados tivessem sido dirigidos por
um bom comandante-de-campanha, em vez de Percival...se a costa norte da Ilha de Cingapura tivesse sido
fortificada... se a infantaria tivesse sido apoiada mesmo que por apenas dois regimentos de tanques.
Poderíamos prosseguir numa enfiada de se, sem finalidade alguma. A verdade brutal é que a batalha já estava
perdida anos antes de ser iniciada. Como Wavell escreveu, ao saber da rendição:
“As dificuldades vêm de muito longe: o clima, a atmosfera do país (a Malásia esteve dormindo durante pelo
menos uns duzentos anos), a falta de vigor em nosso treinamento de tempo de paz, a inadequação da nossa
tática e de nosso equipamento, e a dificuldade que encontramos para fazer face à tática muito hábil e arrojada
dos japoneses na luta na selva.”

Sem o equipamento necessário, até mesmo tropas bem treinadas de pouco valem, mas é injusto culpar o
governo britânico por não ter enviado tanques e aviões, que não existiam. Os escassos recursos disponíveis
tinham de ser concentrados na defesa da pátria, pois se a Inglaterra caísse para os alemães, toda a esperança
de recuperação se perderia. Assim, a Malásia e todas as possessões britânicas no Extremo Oriente, inclusive
a Birmânia, ficaram no fim da fila. É interessante notar que a mesma situação aconteceu nas Filipinas. Nem
mesmo os Estados Unidos, com seus vastíssimos recursos, puderam equipar esses territórios para enfrentar a
invasão japonesa.

Assim, a verdade é que, colocado um Montgomery no lugar de Percival, o resultado teria sido o mesmo,
ainda que demorasse mais um pouco. O exército britânico não tinha conhecimento algum da arte de operar
em território coberto de selva. Dois anos se passariam para que aprendesse. Somente em março de 1944 é
que o XV Corpo Indiano, no Arakan, mostrou como as táticas japonesas podiam ser superadas, com o uso de
aviões. Mas para que fosse possível esse procedimento tático, a superioridade aérea teria de ser arrancada
previamente aos japoneses. Na verdade, o ar era a chave de toda a situação.

As garantias levianamente dadas por Yamashita, quanto à segurança dos soldados e civis, não foram
cumpridas. Centenas de chineses foram levados para a costa leste de Cingapura e, depois de terem cavado as
próprias sepulturas, metralhados. A 18 a Divisão, de Mutaguchi, causou devastação entre os feridos. Mais
tarde, milhares de prisioneiros de guerra morreriam na “Ferrovia da Morte” . Quando a Kempei (a polícia
secreta de Tojo) chegou a Cingapura muita gente desapareceu. É difícil dizer até que ponto as brutalidades
cometidas ali partiram do próprio Yamashita. O trabalho que tinha pela frente era de tal ordem, que ele teve
de pedir a bombeiro, médicos, enfermeiros e sanitaristas britânicos que permanecessem em seus postos até
que suas tarefas fossem assumidas por japoneses.

Ele, é certo, não se entregou às fanfarronadas do comum dos conquistadores. Quando Terauchi mandou
perguntar-lhe quando seria a entrada triunfal em Cingapura, sua resposta foi: “O 25 o Exército não realizará
nenhum desfile, mas a cerimônia fúnebre está marcada para 20 de fevereiro”. Alguns dias depois, Terauchi
informou que estaria indo para Cingapura com o QG do Exército do Sul e que o 25 o Exército teria de mudar
para a Indonésia.

Qual seria a próxima função de Yamashita? Conduziria ele seu exército contra a Austrália, como desejava, ou
se dirigiria para oeste, para a Birmânia e, depois, para a Índia? Em julho, ele soube que o haviam escolhido
para o exercício do comando da 1 a Área no Manchukuo, o estado-títere criado pelo exército japonês na
Manchúria. Sua tarefa seria defender a região oriental desse país contra a Rússia e, no caso de guerra, atacar
o porto siberiano de Vladivostock. Embora fosse um posto de certa importância, Yamashita estava no direito
de considerar a medida um insulto. Após uma grande vitória, ele seria desviado para uma área distante e não-
operacional, onde passaria a maior parte do tempo treinando tropas. Contudo, ele aceitou a ordem sem se
queixar. Tudo o que desejava era comparecer à presença do Imperador e pedir perdão por haver participado
no incidente sangrento de fevereiro de 1936. Confiante em que seria recebido pelo Imperador, Yamashita
preparou um documento, para ler perante ele, em que fazia um relato da campanha da Malásia. Mas então lhe
aconteceu duas calamidades, segundo entendimento seu. Primeiro, soube que Tojo mandara ordens para que
ele partisse diretamente para seu novo comando. Depois, foi informado de que o Imperador não se esquecera
dos acontecimentos de fevereiro de 1936 e não lhe concederia a anelada audiência.

A 17 de julho, o conquistador de Cingapura iniciou a sombria jornada para o Manchukuo, onde permaneceria
até 25 de setembro de 1944, quando foi chamado a assumir o comando das forças japonesas nas Filipinas,
que esperavam um ataque dos vingadores exércitos do General Douglas MacArthur. Não há necessidade de
traçar o curso da campanha subseqüente. A 1 o de setembro, quando os restos do seu exército foram
envolvidos nas montanhas de Luzon, ele decidiu que tinha de obedecer as ordens do Imperador e render-se.

Percival fora mantido como prisioneiro de guerra, primeiro em Cingapura, depois em Formosa e na
Manchúria, passando fome, como a maioria dos seus companheiros. Com a rendição dos nipônicos, ele
recebeu a agradável notícia de que, com o General Wainwright (o bravo comandante dos americanos em
Bataan), fora convidado por MacArthur a assistir à cerimônia de rendição, na Baía de Tóquio. Depois, foi
para as Filipinas, onde novamente se sentaria diante de Yamashita, mas em circunstâncias muito diferentes.
Mais tarde, ele escreveu:
“Quando Yamashita entrou na sala, vi que ele levantou um dos sobrolhos e um olhar de surpresa lhe surgiu
no rosto - mas apenas por instantes. Recolocou logo a máscara de esfinge, comum a todos os japoneses e não
demonstrou mais interesse algum.”

Mais tarde Yamashita foi julgado, por uma comissão Militar dos Estados Unidos, por “atrocidades brutais e
outros grandes crimes contra o povo dos Estados Unidos, seus aliados e dependências”, cometidos
principalmente em Manilha. Considerado culpado, foi enforcado a 23 de fevereiro de 1946.

A história de Yamashita foi contada em detalhes em outro local, não se fazendo necessário repeti-la. Basta
dizer que, entre o momento em que deixou Cingapura e o de sua morte, o destino do Japão completara seu
ciclo. Após Cingapura, ele capturou as Filipinas e as Índias Orientais Holandesas, varreu a Birmânia e, pelo
verão de 1942, estava nas fronteiras da Índia. Os australianos venceram na Nova Guiné. Os americanos
contra-atacaram no Pacífico. Em 1944, após a “Marcha sobre Delhi, de Mutaguchi, os britânicos, que haviam
encontrado dois grandes comandantes nas pessoas do Almirante Lorde Mountbatten e do General Slim,
revidaram e, em 12 meses, conquistaram a maior vitória terrestre contra o Japão em toda a sua história. Três
exércitos inteiros, o 15o, o 28o e o 33o, foram irremediavelmente esmagados, com 190.000 homens mortos no
campo de batalha. Antes de a bomba atômica explodir sobre Hiroxima, a Birmânia ficou livre do inimigo. É
com prazer que se conta que os soldados indianos, que Yamashita tanto desprezava, desempenharam papel
importante nessa vitória: adequadamente treinados e equipados, demonstraram o que eram verdadeiramente.

Mas a vitória aliada sobre o Japão em nada alterou uma coisa que Cingapura deixou evidenciada sem
qualquer sombra de dúvida. Que o lugar do homem branco, no Oriente, nunca mais seria o mesmo.
Cingapura e os Estados Malaios obteriam a independência, assim como as Filipinas e a Indonésia.
Felizmente, podemos informar que no momento estão em paz.