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A Batalha de Berlim

A bandeira vermelha tremula no Reichstag

Fim da luta em Berlim


A rendição alemã

Ninguém já duvidava que, naqueles dias de abril de 1945, Berlim estava perdida. A capital do Terceiro Reich
encontrava-se praticamente indefesa ante o ataque dos soviéticos. Os dirigentes alemães sempre
subestimaram, desde o longínquo mês de setembro de 1939, a possibilidade de que o inimigo chegasse até ao
coração da Alemanha. Não se tinha traçado planos nem preparado defesas. Bem recentemente, quando o
exército soviético chegou às margens do Oder, nos princípios de 1945, é que começou a construir algumas
fortificações. Tarde, muito tarde. Por outro lado, as comandos locais não contavam com tropas, armamentos,
munições ou abastecimentos de qualquer tipo. Os homens que, anos antes, possuíam uma das mais
formidáveis máquinas de guerra de todos os tempos, achavam-se agora em condições realmente lamentáveis.
De fato, tinham que enfrentar uma imponente massa de aço que avançava sobre eles, tal como gigantescas
tenazes, contando somente com frágeis batalhões e armamento obsoleto. Com a aproximação dos exércitos
soviéticos, a cidade de Berlim tinha-se convulsionado. Apressadamente, os comandos, improvisando
soluções, iniciaram a construção de defesas. Mas era tarde, muito tarde. Contudo, os homens se entregaram à
tarefa, febrilmente.

Nos fins de fevereiro de 1945, já estava construído o primeiro cinturão de obras defensivas. A linha percorria
os setores leste, sul e oeste da cidade. Estava constituída por uma série de pontos defensivos, pomposamente
chamados "pontos fortificados" ("fortalezas"). Na realidade, tratava-se de trincheiras abertas apressadamente,
nas quais tinham sido colocadas algumas metralhadoras, armas leves de todos os tipos, uns tantos morteiros e
peças de artilharia. Casamatas de cimento, improvisadas, pretendiam dar solidez àquela leve linha de defesa.
Os efetivos que guarneciam tais "fortalezas" eram, em sua maioria, batalhões do Volkssturm mal armados e
pessimamente treinados. Por outro lado, muitas posições nem mesmo contavam com pessoal e se
encontravam praticamente abandonadas.

Uma segunda linha de defesa circundava Berlim. Era formada por três anéis concêntricos. O primeiro estava
composto por diversos objetos, móveis ou fixos, que pudessem servir como obstáculos: veículos, velhos
vagões de estrada de ferro carregados com blocos de pedras, restos de edifícios, casamatas, montanhas de
escombros. A linha ininterrupta envolvia Berlim numa extensão de quase cem quilômetros.

O segundo anel se prolongava ao longo de uns quarenta quilômetros, e era constituído principalmente por
armadilhas antitanques e espaldões de artilharia.

O terceiro e mais interior, tinha sido formado unindo entre si grandes edifícios e fortificando-os. Ali deveria
ser feita a última resistência.

No que se refere aos efetivos destinados à defesa, os cálculos do General Reymann previam que as
necessidades mínimas elevavam-se à casa dos 200.000 homens totalmente equipados e bem treinados. A
realidade, contudo, estava muito aquém dos citados cálculos. A base da defesa, de fato, era feita por uns
60.000 homens do Volkssturm, cujas idades oscilavam entre os quinze e setenta anos. O Volkssturm, por
outro lado, carecia de unidades de transporte, de veículos, de armas e até de uniformes. Seus homens
utilizavam quinze tipos diferentes de fuzis e dez de metralhadoras. A munição, por sua vez, deveria ser
distribuída em conformidade com os diferentes tipos de armamento. Em síntese, um só fato basta para
esclarecer a situação da capacidade defensiva dos citados combatentes. Ao se iniciar o ataque soviético cada
homem do Volkssturm dispunha, em média, de cinco cartuchos. Às unidades populares se uniam batalhões
das Juventudes Hitleristas, destacamentos de polícia, grupos da Luftwaffe convertidos em companhias de
infantaria e uma variedade de soldados de todas as armas, todas as idades e todas os categorias. Um
denominador comum servia para todos: pouco ou nenhum treinamento, a falta de armas e munições e uma
direção vacilante e contraditória.
Com referência aos blindados que deveriam enfrentar os soviéticos, um informe detalhado, solicitado pelo
General Reymann, ressaltava que a dotação total de tanques com que Berlim contava para a sua defesa subia
a 25 unidades, achando-se outros 75 em fase de construção.

A cidade encontrava-se, entretanto, submetida a uma insuportável tensão. Os civis, mulheres e crianças em
sua maioria, afastavam-se dos pontos-chaves da defesa. Os setores que ainda permaneciam abertos ao
trânsito eram fechados e bloqueados apressadamente. Os homens do Volkssturm e demais unidades dirigiam-
se para os pontos determinados. Tinha começado a distribuição das últimas armas e aberto os armazéns de
víveres. As patrulhas das SS percorriam as casas, requisitando e enviando para a frente todo o homem que se
achasse em condições de manejar uma arma. Um movimento incomum e estranho, protagonizado por
velozes automóveis que ostentavam bandeiras do partido nazista e da Wehrmacht, tinha começado.
Individualmente em alguns casos, em pequenos grupos em outros, muitos chefes do partido fugiam de
Berlim, sozinhos ou acompanhados por suas famílias. Outros o faziam diretamente em caminhões, alguns
pertencentes às forças combatentes, nos quais tinham entulhado móveis e obras de arte. Os civis,
testemunhos daquele êxodo, compreendiam enfim que Berlim estava irremediavelmente perdida.

Mais um indício se somou à convicção do fim iminente; com efeito, em muitas das grandes fábricas e
laboratórios que ainda funcionavam, os diretores reuniram o pessoal e transmitiram as instruções necessárias
para proceder à destruição das instalações, tão logo lhes fosse ordenado. Entretanto, todo o contorno da
cidade se tinha tornado vermelho pelos clarões dos incêndios. A artilharia soviética disparava sem cessar
sobre os ninhos de resistência dos alemães, demolindo-os uns após outros. Nas encruzilhadas, nos abrigos
rapidamente improvisados, nas casamatas, nas trincheiras e nos focos de resistência organizados nos
edifícios, os grupos do Volkssturm e as unidades mistas que lutavam ao seu lado resistiam o mais que
podiam ao ataque soviético. A resistência, contudo, não era levada em consideração. Bastava uma investida
dos blindados para que aquelas frágeis linhas defensivas se desmoronassem estrepitosamente. Muitos
homens, além disso, abandonavam suas armas, já sem munição e conseqüentemente inúteis, e fugiam
procurando salvar a própria vida.

A máxima confusão tinha-se apoderado da cidade e de seus habitantes. Os grandes empórios eram saqueados
sucessivamente. Os depósitos oficiais de víveres tinham aberto as suas portas e distribuíam seu suprimento
sem qualquer limitação. Enquanto isso, um furacão de fogo e aço desabava sobre Berlim. Os mortos e
feridos amontoavam-se nas ruas numa trágica desordem. Todos os serviços públicos estavam paralisados.
Telégrafos, telefones, correios, esgotos, enfim, tudo tinha desaparecido. O caos começava a dominar a capital
da Alemanha.

Nos cinturões defensivos, entretanto, os homens do Volkssturm, das Juventudes Hitleristas, da polícia, da
Wehrmacht, da Marinha, da Luftwaffe e das SS combatiam desesperadamente, até esgotar as suas munições
ou serem dizimados pelos tanques soviéticos, que avançavam incessantemente. Por cima deles, na
retaguarda, em toda Berlim, as granadas da artilharia soviética caíam sem tréguas, num constante e terrível
martelamento.

Berlim, lentamente, agonizava. A 26 de julho, o órgão oficial Völkischer Beobachter deixou de circular.
Logo em seguida surgiu um novo jornal, o Der Panzerbär (O Urso Blindado), destinado aos combatentes
daquela derradeira batalha.

As ruas da cidade, entretanto, já não eram mais transitáveis. Montanhas de escombros impediam o trânsito.
As tubulações estouradas emergiam. Já não havia mais gás, água e eletricidade. Os edifícios se
desmoronavam ao receberem o impacto de centenas de granadas soviéticas. Milhares de berlinenses ficavam
aprisionados pelos escombros sem que ninguém os pudesse socorrer.

As patrulhas das SS, incansavelmente, continuavam prendendo e executando os homens que surpreendessem
afastados dos cinturões de defesa. Centenas de berlinenses escondiam-se nos porões ou casas abandonadas,
numa tentativa de evitar a morte. Ela, contudo, não dava trégua. Chegava tarde ou cedo em forma de granada
soviética ou patrulha de repressão.

Berlim, indubitavelmente, agonizava. Seus habitantes morriam com ela.


A 22 de abril o telégrafo deixou de funcionar totalmente. A última mensagem que chegou à capital da
Alemanha procedia de Tóquio. Desejava "boa sorte" aos defensores...

Os T-34 e os canhões autopropulsados, entretanto, avançavam, como uma gigantesca pinça que se fechava
em torno da capital da Alemanha. Depois dela, convergindo sobre aquela cidade que era o objetivo máximo,
centenas de milhares de homens de todas os regiões da URSS cerravam fileiras, disparando as suas armas
infatigavelmente. Tinham percorrido milhares de quilômetros e, por fim, tinham chegado. Bastava o golpe
final. E eles se preparavam para desfechá-lo.

Nas proximidades e mesmo nos subúrbios de Berlim, os primeiros berlinenses começavam a cair prisioneiros
dos soviéticos. Surgiam, ali, paralelamente, episódios díspares, profundamente contraditórios. As
experiências adquiridas pelos vencidos, naquela ocasião, variavam entre o mais profundo terror e a melhor
sensação de alívio. Com efeito, de acordo com uma regra invariável, os soldados soviéticos da primeira
linha, veteranos da frente, eram disciplinados e corretos. Obedeciam a seus oficiais e evitavam cometer atos
de barbaridade. Não saqueavam e nem violavam, distribuindo em muitos casos, suas próprias rações entre os
vencidos. Os oficiais, serenos e corretos, limitavam-se a identificar os prisioneiros e ainda a providenciar
alimentos e remédios para os civis que ficassem atrás de suas linhas. Em muitos casos, também, e
principalmente quando falavam com mulheres alemães, enfermeiras e freiras, as preveniam do que
aconteceria quando chegassem depois deles as tropas da segunda linha. Porque, efetivamente, as vagas de
soldados soviéticos que chegavam depois dos veteranos não se distinguiam por sua correção e disciplina.
Pelo contrário, faziam do saque e da violação fato comum.

No que se refere ao sistema de comando alemão, praticamente, não existia mais. Os comandos locais,
desligados do comando supremo, agiam por sua própria conta, manejando os seus efetivos à vontade e
guiando-se pela precária informação que recolhiam sobre o terreno. As comunicações não existiam. As
ordens eram despachadas por estafetas que, freqüentemente, não chegavam aos seus destinos.
Conseqüentemente, movimentos inexistentes eram dados como executados, propiciando, assim, a maior
desorganização. Finalmente, os quartéis-generais do OKH e do OKW foram fundidos sob um comando
único, numa suprema tentativa para dar agilidade e elasticidade às comunicações e à elaboração de planos.
Tanto uma coisa quanto outra se desenvolviam no terreno da improvisação. O comando supremo, agora
OKH-OKW, desconhecia a posição das unidades que defendiam Berlim, bem como o das tropas que estavam
em torno da capital, compreendendo os das frentes do Oder e do Elba. Os pedidos de informes eram
contínuos. As respostas parciais e errôneas. Em conseqüência, ordens eram emitidas para unidades que já não
existiam. Em outros casos, ordens destinadas a unidades reais e com capacidade de luta não chegavam a
destino ou o faziam duas ou três vezes, contradizendo-se sucessivamente. Tal fato motivava que unidades
inteiras abandonassem as suas posições em busca de outras, das quais se retiravam pouco depois com ordens
de retornar à inicial.

Ordens, contra-ordens, pedidos de apoio enviados a regimentos inexistentes, movimentos desdobrados por
comandos que ignoravam o que se passava para além da porta de seu abrigo, tudo contribuía para criar uma
atmosfera de irrealidade. Os comandos rodeavam grandes mesas; nelas, mapas detalhados apresentavam uma
profusão de pequenas bandeiras, símbolos de unidades. Cada uma delas representava uma divisão, um
regimento ou um batalhão. Em muitos casos, contudo, em tais momentos, já não existiam uns e outros.
Entretanto, Berlim ardia. Os incêndios corriam pela capital, propagando-se rapidamente. Os serviços de
bombeiros já não existiam. Os efetivos do Corpo de Bombeiros, por sua vez, mobilizados e armados
precipitadamente, tinham sido enviados aos redutos defensivos, para enfrentar os soviéticos.

Todas as unidades da defesa pediam desesperadamente reforços, homens, armas, munições, blindados,
combustível. De nada se dispunha. Todos os homens se achavam empunhando armas. Todos os suprimentos
de munições tinham sido distribuídos. Todo o combustível se tinha esgotado. Berlim se debatia, agonizando.
O fim tinha chegado.

Hitler, entretanto, emitia com doentia insistência sua única ordem, repetida até o cansaço: "Resistir...
resistir... resistir..."

Os soviéticos, por seu lado, lançando na batalha as suas colunas de combatentes, em quantidades que
pareciam inesgotáveis, destroçavam as defesas umas após outros e avançavam sem pausa. Atacavam por
todos os lodos, infatigavelmente, sem reparar nas baixos, arrasando os ninhos de resistência. Os blindados
avançavam na primeira fila, disparando os seus canhões e investindo contra as defesas. Depois deles, a
infantaria ocupava os edifícios, desalojando os defensores ou eliminando-os. Alguns redutos que se
distinguiam por sua tenacidade, eram dinamitados sem perda de tempo e voavam pelos ares. Assim, edifícios
nos quais lutavam alemães e soviéticos, desabavam sobre os defensores e os atacantes, enterrando vivos uns
e outros. Soldados soviéticos, munidos de lança-chamas, que avançavam logo após a infantaria de choque,
exterminavam os destacamentos alemães que ficavam na retaguarda dos soviéticos se não se rendessem
instantaneamente.

O morticínio atingia a níveis alucinantes. Milhares de homens morriam a cada minuto. Nada nem ninguém
poderia socorrê-los. Aquilo era um furacão que devorava lenta, mas firmemente, a todos que se colocassem
em seu caminho. Dezenas de soldados alemães vagavam desorientados, aturdidos pela violência dos
combates, sem encontrar o rumo que lhes permitisse escapar daquele inferno.

Os diversos setores de Berlim começavam o cair em mãos dos soviéticos, sucessivamente. Zehlendorf foi
tomado rapidamente. Pankow resistiu quarenta e oito horas ao embate dos efetivos blindados dos soviéticos.
Em Weddinfi combateu-se três dias, violentamente e sem quartel. As barricadas eram despedaçadas em
seqüência. Os abrigos desapareciam demolidos pelos disparos do artilharia soviética. Nuvens de pó, cimento
e pedaços humanos voavam pelos ares depois dos impactos das granadas de grande calibre. A população
civil, entretanto, assistia aterrorizada, refugiada nos porões, aquela luta sem quartel. Mulheres, crianças e
velhos careciam de alimentos, água e medicamentos. Muitos abrigos ficavam inundados quando os
encanamentos que corriam pelo subsolo arrebentavam. Desta forma, centenas de mulheres e homens
morriam afogados, sem esperanças e nem possibilidades de abandonar aquelas armadilhas.

Os incêndios na superfície tinham alcançado tal magnitude que o clarão intensíssimo iluminava a cidade. Os
reduzidos grupos de bombeiros que procuravam debelar os incêndios eram metralhados imediatamente pelos
aviões soviéticos que sobrevoavam a cidade. Berlim estava sendo consumida por um gigantesco holocausto.

As pontes existentes em Berlim eram 248. Desse total 120 já tinham sido destruídas, a fim de diminuir a
progressão dos soviéticos. Inumeráveis destacamentos das SS percorriam a cidade destruindo tudo que
pudesse ter utilidade para os soviéticos. A falta de dinamite fazia que, em muitos casos, fossem empregadas
diretamente bombas de aviação.

A 28 de abril, os soviéticos tinham apertado o cerco e os alemães se defendiam na zona central da cidade.
Somente um corredor ainda se mantinha aberto na direção oeste de Berlim e era mantido desesperadamente
pelos alemães.

O relato de um oficial do 57° Corpo de Tanques trata desses momentos. O texto diz: "Abril 25. Cinco e meia
da madrugada. Novos ataques maciços de tanques. Somos obrigados a nos retirar. Recebemos ordens da
Chancelaria: nossa divisão deve deslocar-se imediatamente para Alexanderplatz, ao norte. Às nove a ordem
foi cancelada. Às dez, o ataque russo contra o aeroporto se torno irresistível. São erguidas novas linhas de
defesa no centro. Forte luta nas ruas; existem muitas baixas entre os civis. Por todos os lodos se vê animais
moribundos. As mulheres fogem de porão em porão. Estão-nos empurrando para o noroeste. Novas ordens
de avançar para o norte, como foi indicado anteriormente. É evidente que existe uma completa desordem nos
centros de comando; sem dúvida, as informações que recebem no Führerbunker são falsas: ordenam que nos
responsabilizemos por posições que já estão em mãos dos russos. Chegamos e nos retiramos ante os
freqüentes ataques aéreos dos russos. Inscrições nas paredes dos casas dizem: "As horas antes do amanhecer
são as mais escuras" e "Retiramo-nos, mas apesar disso estamos vencendo". Achamos corpos de desertores
enforcados ou mortos a bala. O que nossos olhos vêem nessa marcha, nos ficará gravado para sempre. A
última hora da tarde a formação de uma nova organização, Corpo de Voluntários Mohnke: "Tragam suas
armas, seus equipamentos e a comida de que disponham. Todo alemão é necessário!" A luta agora se
concentra no setor comercial, de bancos e bolsa. Ocorrem as primeiras escaramuças nos túneis dos trens
subterrâneos, por onde os russos tentam infiltrar-se ocupando posições por trás das nossas linhas.
Os túneis estão repletos de civis.

"Abril 26. A noite está avermelhada pelo fogo. Ouve-se os estrondos dos canhoneios e das explosões. A não
ser isso, o silêncio é profundo e terrível. Disparam contra nós de muitas casas; seguramente se trata de
trabalhadores estrangeiros. Notícias: diz-se que o comandante da cidade foi substituído. O General Weidling
assume o cargo; o General Mummert põe-se à frente das forças de tanques.
"Por volta das cinco e meia. Outro pavoroso fogo concentrado de artilharia. Os russos atacam. Devemos
retirar-nos novamente, lutando rua por rua, Três de nós perguntamos esta manhã: Onde está Wenck?
Garantiram-nos que as pontas-de-lança de Wenck estão em Werder; 37 km a sudeste de Berlim. Ninguém se
entende. Um informe fidedigno do Ministério da Propaganda diz que todas as tropos da frente do Elba
marcham para Berlim.

"Por volta das onze horas, L. regressa do Ministério do Propaganda, com os olhos brilhantes e nos traz um
informe que acaba de receber diretamente do Secretário de Estado, Naumann. Foram abertas negociações
com as potências do oeste. Teremos que sacrificar alguma coisa, porém as potências do oeste não permitirão
que os russos se apoderem de Berlim. O moral de todos sobe enormemente. L. nos informa estar
absolutamente seguro de que não teremos que lutar mais do que vinte e quatro horas; digamos quarenta e
oito, no máximo.

"Chega às nossas mãos um exemplar do jornal de Goebbels Der Angriff. Um artigo confirma o que acaba de
nos ser dito por L.: "As táticas dos bolcheviques indicam que já sabem que os reforços do oeste logo
chegarão a Berlim. Nesta batalha se decidirá a nossa sorte, a sorte da Europa. Se nos mantivermos firmes, a
guinada que esta guerra dará será decisiva". Contudo existe algo que me surpreende. Em outra de suas
colunas o jornal diz também: "Se resistirmos ao ataque sem perigo dos soviéticos, aqui, na nossa principal
linha de defesa, no próprio coração de Berlim, o resultado da guerra se inverterá, independentemente do que
os Estados Unidos e a Inglaterra decidirem!"

"Foi instalado um novo posto de comando nos túneis da estrada de ferro Anhalt. A estação parece um campo
de artilharia. As mulheres e crianças escondem-se agachadas em buracos e cantos, atentas ao menor ruído da
batalha. As granadas destroçam os telhados, o cimento começa a cair do teto. Cheiro de pólvora e fumo nos
túneis.

"Imediatamente a guerra açoita o nosso posto de comando. Gritos, choro e blasfêmias no túnel. Lutamos pela
posse das escadas que conduzem para a rua. A água começa a correr pelos túneis, e o pânico se apodera da
multidão, que cai por cima dos trilhos e das pessoas que estavam dormindo. As crianças e os feridos são
abandonados e pisados até à morte. A água os cobre: sobe quase um metro e começa o baixar lentamente. O
pânico se espalha e dura horas e horas. Muitos se afogaram. Por que isso aconteceu? "Alguém", obedecendo
ordens de "alguém", determinou que os engenheiros explodissem as represas de um dos canais para inundar
os túneis e evitar que os russos continuassem passando por eles.

"As últimas horas do tarde mudamos novamente de posição. Presenciamos um espetáculo terrível à entrada
da estação do subterrâneo a poucos metros do nível da rua: o impacto de uma bomba de grande potência
destruiu o teto, e homens, mulheres, crianças e soldados foram literalmente esmagados contra a parede pela
força da explosão. A noite, uma pequena trégua no tiroteio.

"Abril 27. Continuam os ataques sem cessar durante toda a noite. Cada vez existem mais sinais de que isto
está para acabar. Mas não há nada que se possa fazer... não se pode abandonar a luta no último instante e se
arrepender o resto da vida. K. nos traz novos informes: diz que uma divisão de tanques americanos já está a
caminho de Berlim. Diz-se que na Chancelaria estão mais certos do que nunca da vitória final. Só existem
comunicações entre as tropas, com exceção de uns poucos batalhões que, entretanto, possuem equipamento
de rádio. Os cabos telefônicos foram despedaçados pelas granadas. As condições físicas em que se vive são
indescritíveis. Não existe descanso nem fôlego. Come-se de qualquer maneira, e apenas existe pão. Bebemos
água que tiramos dos túneis. Ataques de nervos. Os feridos que não estejam praticamente esquartejados não
são considerados como tal: Os civis, escondidos nos porões, têm medo. Muitos foram enforcados como
desertores. Os pelotões volantes do conselho sumaríssimo retiram os civis dos porões onde encontrem
desertores, por cumplicidade.

"Este tribunal sumaríssimo aparece hoje em nosso setor freqüentemente. É formado por oficiais das SS,
muito jovens. Não existe um só que possua medalhas ou condecorações de qualquer classe. São cegamente
fanáticos. A esperança de terminar tudo e o temor dos conselhos fazem com que nossos homens retornem à
luta.

"O General Mummert solicita que cessem essas visitas ao nosso setor. Uma divisão como a nossa, que se
orgulha de contar em suas fileiras com a maior proporção de homens que ostentam as maiores condecorações
por seu valor e arrojo, não merece ser perseguida por rapazolas como estes. Ficou decidido terminar a bala
com a justiça que qualquer tribunal venha impor no nosso setor.

"Toda a grande extensão da Potsdamer Platz está arrasada e em ruínas. Existem montões de veículos
destruídos, ambulâncias meio esmagadas com feridos dentro. Mortos por toda a parte, muitos terrivelmente
despedaçados pelos tanques e caminhões que lhes passaram por cima.

"Pela noite procuramos estabelecer contato com o Ministério da Propaganda para saber mais notícias de
Wenck e das divisões americanas. Existem rumores de que também o 9 o Exército se dirige para Berlim. No
oeste estão sendo feitos tratados para uma paz geral. Violento conhoneio no centro da cidade.

"Já não podemos manter nossas atuais posições. As quatro da madrugada nos retiramos pelos túneis da
estrada de ferro. No túnel contíguo ao nosso, os russos marcham na direção oposta, na direção das posições
que acabamos de perder."

Na noite de 28 para 29 de abril de 1945, os canhões soviéticos da 150 a Divisão lançaram as suas primeiras
granadas contra a Chancelaria do Reich. Nos arredores, entretanto, os efetivos soviéticos lutavam ferozmente
contra as unidades alemães que defendiam os edifícios vizinhos. Os canhões e "katyuchas" disparavam a
queima-roupa, quase sem fazer pontaria, em meio a um estrondo espantoso. O matraquear de centenas de
metralhadoras de todos os calibres se somava a esse fatídico concerto. Naqueles momentos, o setor da
Chancelaria se tinha convertido num verdadeiro inferno de aço, fogo e gritos. Os corpos dos defensores
voavam pelos ares, despedaçados. As posições se fragmentavam. As casamatas voavam em mil pedaços. Os
soviéticos avançavam, sem parar, aproximando-se lentamente do último reduto.

Para dezenas de milhares de cidadãos alemães, a luta se tinha convertido numa longa agonio. Muitos,
milhares, dezenas de milhares, caíam numa indiferença total, alheios aos sucessos e totalmente desligados da
realidade. Uma idéia fixa os torturava: o final da luta, a paz, o silêncio. Já não importava mais o resultado da
guerra. Não importava cair em mãos dos soviéticos. Não importava o que poderia acontecer. Somente
interessava o fim daquele pesadelo.

Na manhã de 30 de abril, restava em poder dos alemães, em Berlim, um estreito setor de uns doze
quilômetros de comprimento. Ali, os últimos defensores da capital do Terceiro Reich lutavam, disparando as
suas armas obsoletas a esmo.

O fim estava próximo. O pano não tardaria a cair, pondo fim ao último ato daquele espantoso drama.

A rendição

2 de maio de 1945. A 1 hora da madrugada, a luta prossegue com intensidade crescente. Os destacamentos
das SS lutam desesperadamente, retrocedendo sempre. Os soviéticos, disparando um dilúvio de granadas,
avançam para eles. Canhões, metralhadoras, lança-chamas e fuzis atiram sem parar. Os homens lutam
mecanicamente, já alheios aos disparos, explosões, desmoronamentos e alaridos. Ninguém parece ter idéia
do que está acontecendo. Transformados em espectros, os soldados alemães disparam, carregam suas armas e
tornam a disparar. Os comandos alemães, em compensação, avaliam a situação na sua real gravidade. E a
conseqüência é traduzida pouco depois da 1 hora da madrugada do dia 2 de maio. A essa hora os serviços de
comunicação da 79a Divisão de Fuzileiros do Exército Vermelho captam uma mensagem provinda das linhas
alemães. Seu texto é breve: "Alô... Aqui é o 56° Corpo Panzer... Pedimos cessar fogo... Às 12h:50min
enviaremos parlamentares à ponte de Potsdam... Irão sob bandeira branca... Aguardamos resposta..."

A resposta soviética não se fez esperar: "Compreendido... Transmitiremos o pedido ao Chefe do Estado-
Maior..."

Imediatamente depois de ter recebido a mensagem, Zhukov determina o cessar fogo. Horas depois, às
12h:50min do dia 2 de maio, o Tenente-Coronel von Dufving, Chefe do Estado-Maior de Weidling,
acompanhado por outros comandantes, chega à ponte de Potsdam, empunhando a bandeira branca.

Os parlamentares alemães são imediatamente conduzidos ao Quartel-General de Zhukov: Pouco depois, os


alto-falantes em toda a cidade anunciavam o fim das hostilidades. Os disparos, contudo, continuariam sendo
ouvidos por vários dias.
A luta, oficialmente, tinha terminado.

A batalha de Berlim tinha cessado. A capital do Terceiro Reich já estava em poder dos soviéticos. A queda de
Berlim significava, nem mais nem menos, o fim da guerra.

Enquanto isso, no subsolo da Chancelaria, no refúgio blindado de Hitler, outro drama se desenrolava.

Anexo
O último comunicado alemão
É o seguinte o texto do último comunicado emitido pelo Quartel-General da Wehrmacht, no dia 9 de maio de 1945:
"Na Prússia Oriental, as divisões alemães defendiam, combatendo com todas as suas forças, o estuário do Vístula e a
parte ocidental do Frisches Haff. Distinguiu-se na luta a 7 a Divisão de Infantaria. Pelo valor demonstrado, o seu
comandante, o General von Saucken, foi condecorado com as folhas de carvalho, com espadas e brilhantes, para a sua
Cruz de Ferro de Cavalheiro. O grupo operacional que luta na Curlândia e que, sob as ordens do general de infantaria
Hilpert, opôs durante meses férrea resistência às formações blindadas e de infantaria, muito superiores conquistou glória
eterna. O grupo repeliu os ultimatos de rendição, enquanto, em perfeita ordem, os aviões de transporte, voando para
oeste, continuavam transportando os feridos e os pais de família. Os oficiais e o Estado-Maior permaneceram junto aos
soldados.
"A meia-noite, de acordo com as condições aceitas por nós, cessaram as hostilidades e os movimentos de tropas. Os
defensores de Breslávia, que durante dois meses repeliram os ataques soviéticos, depois de uma heróica resistência,
foram, no último minuto, vencidos pela superioridade inimiga.
"Nas frentes sudeste e leste, os Estados-Maiores receberam ordens de cessar fogo... Nos setores afastados da pátria, os
defensores das bases atlânticas, as tropas da Noruega e as guarnições das ilhas do Egeu justificaram, por sua obediência
e disciplina a tradicional honra do soldado alemão.
"A partir da meia-noite, as armas silenciaram. Por ordem do grande almirante, as forças armadas finalizaram uma luta
sem perspectivas. Assim termina uma luta heróica, que durou quase cinco anos, que nos deu grandes vitórias e também
duras derrotas. As forças alemães sucumbiram ante a superioridade inimiga em homens e material.
"Fiel a seu próprio juramento, o soldado alemão cumpriu tarefas que se tornarão inesquecíveis... O próprio inimigo não
poderá deixar de reconhecê-lo, admitindo os sacrifícios do soldado alemão na terra, no mar e no ar. Cada soldado pode,
portanto, depor sem escrúpulos as armas e dedicar-se, nesta hora gravíssima da nossa história, à tarefa de reconstruir a
pátria..."

Dispositivo alemão
Desdobramento das forças nazistas na frente leste, a partir de abril de 1944:
Fins de abril de 1944, quatro grupos de exércitos:
Grupo de Exércitos N: General Lindemann
Grupo de Exércitos Centro: General von Bush
Grupo de Exércitos Ucrânia N: General Model
Grupo de Exércitos Ucrânia S: General Schoerner
Fins de julho de 1944, cinco grupos de exércitos:
Grupo de Exércitos N: General Schoerner
Grupo de Exércitos Centro: General von Bush
Grupo de Exércitos Ucrânia S: General Friessner
Grupo de Exércitos E (Iugoslávia) General Loehr
Grupo de Exércitos F (Grécia) : Marechal von Weichs
Janeiro de 1945:
Frente da Curlândia: General Gunther
Grupo de Exércitos Vístula: Himmler (depois Heinrici)
Grupo de Exércitos Centro: General Harpe (depois Schoerner e von Vietinghoff)
Grupo de Exércitos Sul: General Woehler (depois Schoerner)
Grupo de Exércitos E: Marechal von Weichs
1o de maio de 1945:
Frente da Curlândia: Gunther (Curlândia)
Grupo de Exércitos Centro: Rendulic (Oder-Neisse)
Grupo de Exércitos Sul: Schoerner (Boêmia)
Grupo de Exércitos E: von Weichs (Hungria-Iugoslávia).

Quinze dias de abril


15 de abril: Vinda da Alemanha meridional, Eva Braun chega a Berlim para se reunir a Hitler.
23 de abril: São emitidas ordens para resistir até ao último homem. São criados os tribunais sumários. 23-24 de abril: Os
efetivos da Primeira Frente da Rússia Branca, sob o comando do Marechal Zhukov, conquistam Frankfurt sobre o Oder,
Oranienburg, Birkenwerder, Pankow, Friedrichsfelde e Köpenich. As tropas da Primeira Frente da Ucrânia, sob o
comando do Marechal Koniev, apoderam-se de Kottbus, Lübben, Zossen, Belzig, Marienfelde, Trebbin e Teltow,
24 de abril: O Coronel-General von Greim é chamado a Berlim. Soviéticos e alemães combatem no aeroporto de
Tempelhof.
24 de abril: A cidade de Berlim é cercada. As vanguardas soviéticas penetram em diversos pontos. Combate-se
intensamente no canal Teltow. Os soviéticos ultrapassam os subúrbios e avançam para o centro da cidade.
26 de abril: O Coronel-General von Greim é ferido por uma granada antiaérea, quando sobrevoava Berlim. A aviadora
Hanna Reitsch aterrissa próximo da porta de Brandemburgo. O General Weidling é nomeado comandante da "fortaleza
de Berlim".
26-27 de abril: Durante a noite, Hitler solicita ao General Schoerner um ataque que levante o sítio de Berlim.
27 de abril; Ordena-se que sejam abertas as comportas do Sprea para inundar os túneis. Milhares de civis e soldados
morrem afogados. Hitler demite o general das SS Steiner, que deveria lançar um ataque pelo norte para libertar Berlim,
O coronel-general soviético Bersarin é nomeado comandante de Berlim. As tropas soviéticas conquistam Potsdam e
Spandau.
28 de abril: O General Krebs telefona pela última vez para o Marechal Keitel. Se a ajuda não chegar a Berlim dentro de
vinte e quatro horas, será muito tarde. Keitel se dirige a Busse e Wenck, exigindo-lhes ação. Mensagem de Bormann a
Doenitz: "A Chancelaria é um montão de ruínas." Combate-se encarniçadamente nas ruas da capital alemã. O
Volkssturm e as Juventudes Hitleristas lutam desesperadamente, apesar da falta de elementos e de sua pouca instrução.
28-29 de abril: Por ordem do Führer, Hanna Reitsch e von Greim saem de Berlim em avião dirigindo-se para Rechlin, a
fim de seguir depois para Plön, onde se encontra o Quartel-General de Doenitz. Ali deverão prender Himmler, que
estabeleceu contato com o inimigo. Himmler nega a acusação. No dia seguinte, a situação já esta superada com a morte
de Hitler. Durante a noite, o ataque do Corpo de Exército de Wenek é detido pelos soviéticos. Nesta mesma noite, Hitler
se casa com Eva Braun, sendo testemunhas Goebbels e Bormann. Hitler dita o seu testamento político.
29 de abril: O General Weidling informa que os soviéticos estão em Saarlanstrasse. Weidling esclarece que os
soviéticos, no máximo até 1o de maio, estarão diante do abrigo de Hitler. Propõe imediatamente que se tente a fuga
enquanto há tempo. Axmann, das Juventudes Hitleristas o apóia. Hitler, contudo, repele a proposta. Os tanques
soviéticos passam, deixando para trás a estação Anhalter Bahnhof. Luta-se intensamente na Praça de Potsdam e na
Hermann Goeringstrasse. Os canhões soviéticos continuam arrasando a cidade. O fogo começa a se concentrar na área
do abrigo de Hitler.
29-30 de abril: A luta continua com mais intensidade do que nunca. A artilharia soviética bombardeia a Wilhelmstrasse e
a Chancelaria. O fogo sobre a cidade é intenso. Os canhões soviéticos disparam metodicamente demolindo quarteirão
após quarteirão, A luta, nas ruas, atinge grande dramaticidade. Edifícios inteiros são demolidos com cargas de dinamite,
2 de maio: Pouco depois da meia-noite, uma mensagem chega às linhas soviéticas. Foi transmitida pelo 57 o Corpo
Blindado, rendendo-se. Weidling desloca-se para as linhas soviéticas, debaixo de bandeira branca. Ali é recebido por
Zhukov. Os soviéticos aceitam o cessar fogo. Alto-falantes difundem por toda a cidade a notícia do cessar fogo,
convidando os combatentes a aceitar os termos e a depor as armas. A maioria das unidades alemães se rendem.
Algumas, contudo, continuarão combatendo por vários dias ainda.