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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

ESCOLA DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA


DISCIPLINA DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E SOCIEDADE I

DA IDENTIDADE DA
TECNOLOGIA MODERNA
(PROF. DRA. ANGELA LUZIA MIRANDA1)

1
Dra. em Filosofia (Universidad de Salamanca-ES); Dra. em Ética (Universidad del Pais Vasco); Professora da
ECT/UFRN. Texto produzido e elaborado como material didático para as aulas da disciplina de Ciência,
Tecnologia e Sociedade. Proibida sua reprodução sem autorização prévia de autoria.
DA IDENTIDADE DA TECNOLOGIA MODERNA2

Assim, pois, a essência da técnica


também não é de modo algum algo
técnico.3

1. INTRODUÇÃO

Qual é a gênese da tecnologia? Qual sua origem? Qual a sua


identidade? Tecnologia é o mesmo que técnica? No que ela se diferencia da
ciência? Estas indagações que, a princípio parecem simplistas e até
impertinentes como propósito de uma pesquisa científica, são elementares
para quem deseja se aventurar em conhecer histórica e filosoficamente a
tecnologia. Longe de ser uma preocupação de caráter meramente semântico,
conceitual, estas indagações nos remetem a um problema profundo e
filosófico, que é a questão da natureza da tecnologia.

Este texto pretende, então, fornecer uma reflexão, ainda que introdutória
sobre a identidade da tecnologia moderna.

Trata-se de elucidar certos aspectos que constituem o ser da tecnologia


em sentido moderno. Ou seja, trata-se de indagar e identificar qual a sua

2
Texto extraído de MIRANDA, Ângela Luzia. Da natureza da tecnologia: uma análise filosófica
sobre as dimensões ontológica, epistemológica e axiológica da tecnologia moderna. 2002. 161f. Dissertação
(Mestrado em Tecnologia) - Programa de Pós-graduação em Tecnologia, Centro Federal de Educação
Tecnológica do Paraná, Curitiba, 2002. Parte do que aqui será apresentado fora exposto em comunicação
apresentada pela autora desta pesquisa. Cf. MIRANDA, Angela L. Da natureza da tecnologia: uma análise
sobre a gênese da tecnologia moderna. In: Simpósio Internacional: Ciência e Tecnologia como Cultura e
Desenvolvimento – Um Enfoque Histórico, 2001, São Paulo. Caderno de Resumos...CIHC/USP, Nov/2001,
10 pp.
3
HEIDEGGER, Martin, A questão da técnica. In: Cadernos de Tradução, n. 2, DF/USP, 1997, p.
42.
3

essência. É somente a partir deste questionamento que podemos compreender


a natureza da tecnologia em suas diferentes interfaces ou em sua
complexidade como fenômeno social.
A dimensão ontológica da tecnologia diz respeito ao seu “ser” em
sentido metafísico (do grego: τά µετά τά ϕυσικά = o que está além da
física)4. A ontologia é a ciência do ser enquanto ser. Portanto, a análise
ontológica da tecnologia implica em indagar qual o ser da tecnologia; refere-
se à sua gênese, à sua identidade, à sua essência.
No pensamento grego, prevalece a concepção ontológica de que a
identidade já está determinada na natureza de cada ser5. Um ser será
existencialmente aquilo que previamente estiver contido na sua substância.
Aristóteles se refere ao termo, do seguinte modo: “A substância de cada coisa
é a causa primeira do ser desta coisa. Algumas coisas não são substanciais,
porém aquelas que são tais são naturais e estão postas pela natureza, e de tal
maneira é claro que a substância é a natureza mesma e que não é elemento
senão princípio”6. Então, conhecer a substância dos seres é poder distinguí-los
dos demais seres; é poder atribuir-lhe uma identidade própria. É, pois, pela
substância que podemos afirmar que “um ser não pode não ser”7. Dessa
visão, decorrem os princípios da lógica aristotélica, como, o princípio da não-
contradição, o princípio da identidade e o princípio do terceiro excluído.
Bem mais tarde, Sartre, um dos precursores do existencialismo
(corrente filosófica predominante no séc. XX) vai inverter tal propositura.
Diferentemente de Aristóteles, para Sartre é a existência que precede a
4
O termo metafísica foi introduzido por um aluno de Aristóteles, Andrônico de Rodes, no Séc. I a.C
(Cf. LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 665)
Em verdade, Aristóteles falava de uma prima philosophia para designar a ciência das causas primeiras. Já o
termo ontologia foi introduzido por Christian Wolff, discípulo de Leibnitz, e consagrado por Heidegger para
designar a nova ontologia moderna. Cf. também ABBAGNANO, Nicola, Diccionario de Filosofia, México:
Fondo de la Cultura Econômica, 1996, pp. 793-799.
5
ABBAGNANO, op. cit., p. 794.
6
ARISTÒTELES, Metafísica, VII, 17, 1041b 27. Apud ABBAGNANO, op. cit., p. 795. (tradução
livre)
7
Em sentido inverso tal propositura pode ser exemplificada, considerando que um cachorro nunca
será, pois, um cavalo. Cf. os livros VII, VIII e IX da Metafísica de Aristóteles, citado por ABBAGNANO,
op. cit., p. 795.
4

essência8. Ou seja, nós somos o que nossas circunstâncias indicam. Dizia


Ortega e Gasset que “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Portanto, Sartre,
influenciado pela visão marxista e diante da visão de dialeticidade do real,
inverte a lógica aristotélica, considerando que a historicidade dos fenômenos
é fator indispensável para a constituição de seu ser9. A essência, pois, não é
algo imutável, inalterável, mas, também ela, inclusive, se constitui pela
existência do ser. Trata-se de uma concepção aberta e não fechada de
ontologia.
A esta altura deve o leitor estar se perguntado qual a relação desta
discussão com a questão da tecnologia. Responde-se dizendo: tudo. A
inclusão desta reflexão introdutória torna-se mister diante da postura que aqui
será adotada ao descrever o ser e o sentido da tecnologia.

Dito de outro modo: ao tratar da essência da tecnologia, não se pretende dar


um enfoque determinista, imutável ou a-histórico sobre a tecnologia.
Entende-se que a tecnologia é um fenômeno social, circunscrita a partir de
circunstâncias históricas de cada época e, por isso mesmo, passível de
identidade variável ao longo da história. Portanto, compreender sua essência
significa, inclusive, analisá-la tendo em vista uma perspectiva conjuntural.

Nisso, justifica-se o recorte temporal que realizamos, pois, entendemos


que na modernidade, devido a fatores econômicos, políticos, sociais, culturais,
etc, a tecnologia é marcada por uma outra identidade que a difere da
concepção grega ou medieval, por exemplo. Esta é, pois, uma das conclusões
deste trabalho. E é esta opção metodológica de análise que nos credencia a

8
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. In: OS PENSADORES. São Paulo:
Nova Cultural, 1987, pp. 5 e 6.
9
Vale lembrar que o conceito de “historicidade” filosoficamente é introduzido por Hegel na época
contemporânea, somente a partir do séc. XIX. Neste sentido, cf. as obras de HEGEL: Lições sobre a filosofia
da história e Fenomenologia do espírito, citado por CORBESIER, Roland. Introdução à filosofia. Tomo I, 3
ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasiliense, 1990, pp. 92 e 93.
5

descrever ontologicamente a tecnologia sem correr o risco de cair em


posições de caráter deterministas ou essencialistas, considerando a
tecnologia como um fenômeno único, inerente e intransponível ao ser
humano no decorrer de toda a história. Postura esta, aliás, que será
rechaçada logo de início quando abordarmos o aspecto etimológico e
conceitual da tecnologia.

Compreender a identidade da tecnologia significa, então, circunscrever sua


necessidade e função social. Afinal, se a sociedade pode ser denominada de
“industrializada”, ou “pós-industrializada”, ou ainda “informatizada”, assim o
é devido, inclusive, ao fenômeno social da tecnologia. Consideramos ser de
fundamental importância na sociedade em que vivemos pensar sobre este
prisma a tecnologia, pois, o mundo que nos cerca é o da tecnosfera.
Cibernética, automação, engenharia genética, computação eletrônica, eis
alguns dos ícones representativos da sociedade tecnológica que nos envolve
quotidianamente. Por isso, refletir sobre a natureza da tecnologia, implica em
tomar posição frente a ela, enquanto valoração deste fenômeno social.

Claro está que nossa pretensão não tem em vista o esgotamento do


assunto, até porque o tema não se nos apresenta de modo tão simples. A
reflexão que propomos fazer mais que uma conotação semântica, pretende ser
filosófica; mais que arqueológica, pretende ser contextual; mais que
fenomenológica, pretende ser histórica. Aliás, mais que histórica, pretende ser
ontológica, posto que a tecnologia é, antes de tudo uma categoria existencial,
ou seja, é um fenômeno que diz respeito à condição existencial do homem de
estar-no-mundo. Nisto reside a complexidade do assunto. Mas, acreditamos,
que este é também o desafio, pois, aí está o cerne da questão.
6

Por causa da abordagem metodológica que privilegia a análise


filosófica, a natureza da tecnologia será estudada, tendo em vista a seguinte
estruturação didática.
A- Com o propósito de introduzir o assunto e, a título provocativo,
introdutório e não de aprofundamento, destacamos alguns posicionamentos
valorativos a respeito da função social da tecnologia na atual sociedade em
que vivemos. Tais posicionamentos foram explicitados a fim de reforçar a
tese de que a valoração ou a função social que atribuímos à tecnologia está
intrinsecamente relacionada com a concepção que temos dela. Ou seja, a
emissão de juízo que atribuo à tecnologia e seu papel na sociedade dependem
do conceito que tenho dela. Daí a importância capital em discutir a natureza
deste fenômeno social.
B- De posse desta problematização que nos impulsiona a aprofundar o
assunto, adentramos propriamente no tema, iniciando com alguns
esclarecimentos de caráter semântico sobre o uso de conceitos, como:
ciência, técnica e tecnologia. Aqui, enfocamos as aproximações e
diferenciações conceituais destas categorias, inclusive, demonstrando os
equívocos conceituais mais comuns. Do mesmo modo que também
procuramos resgatar o sentido etimológico originário dado pelo berço da
filosofia grega. Essa análise introdutória, meramente semântica da tecnologia
e de categorias correlatas, será importante para esclarecer ao leitor dos limites
desta opção metodológica ao enfocar o assunto, a qual necessita, pois, do
auxílio de uma outra ferramenta que é a análise filosófica e contextual.
C- Por isso mesmo, num segundo momento, passamos a aprofundar
especificamente a gênese da tecnologia moderna, sob a perspectiva de sua
identidade na modernidade.
Partimos da concepção de Heidegger sobre a essência da técnica, que
constitui, cremos nós, um dos pensadores indispensáveis para a compreensão
ontológica da tecnologia em nossa época atual. Destacando suas principais
7

idéias sobre a questão da técnica, observou-se o empenho do filósofo em


desmistificar os conceitos de caráter antropológico e instrumental dado à
técnica pelos contemporâneos. Mas aqui também pontuamos a insuficiência
da análise fenomenológica da tecnologia realizada por Heidegger.
O próximo passo, então, foi buscar nos autores modernos uma análise
da tecnologia que privilegiasse o sentido histórico, concreto e dialético da
tecnologia moderna. Encontramo-la em Marx que concebe a tecnologia
moderna a partir da produção do capital.10 Então, para Marx, a tecnologia é o
uso da ciência como força produtiva em vista o maior lucro, ou seja, na
modernidade a tecnologia surge da aliança entre o saber e o fazer (ciência e
técnica), com vista a maior produção. Ressaltamos a aliança entre ciência e
técnica, como condição sine qua non para o surgimento da tecnologia da
forma como a compreendemos hoje. Desta compreensão, adveio a
necessidade de aprofundar a estreita relação entre tecnologia e ciência na
modernidade.
Tal exigência obrigou-nos a dar um outro passo: utilizando-se do
contexto histórico do séc. XVII, enfatizamos o caráter ideológico da aliança
entre ciência e técnica, a partir da visão dos teóricos da Escola de Frankfurt,
sobretudo Habermas. Aqui fizemos menção à Teoria Crítica da Escola de
Frankfurt sobre a ciência e a técnica enquanto ideologia, que tem na
tecnologia a realização da fusão entre o conhecimento teórico (ciência) e
conhecimento prático (técnica).
d- Por fim, a título conclusivo, enfatizamos os principais aspectos
apontados neste capítulo que indicam, segundo nosso critério, o norte para
uma compreensão ontológica da tecnologia na modernidade, em sentido

10
Neste sentido justifica-se a inversão histórica por nós utilizada, quando da exposição da gênese da
tecnologia moderna (Cf. tópicos .4.1 e 4.2 deste capítulo). Como se observa, historicamente Marx é anterior a
Heidegger. No entanto, a opção metodológica de iniciar o estudo da questão por Heidegger, tem em vista sua
análise fenomenológica sobre o assunto, que constitui, em nosso entendimento, ponto de partida, mas não de
chegada. A visão de dialeticidade e historicidade do real empregada por Marx, pode nos auxiliar, cremos nós,
a dar um passo adiante na compreensão da identidade da tecnologia moderna.
8

crítico. Neste momento, iniciamos o embate teórico com algumas concepções


sobre o tema assinaladas no decorrer do trabalho, ao mesmo tempo em que
também reforçamos outras posições e vertentes de análise, transcritas no
decorrer do trabalho.

2. TECNOLOGIA E VALORAÇÃO SOCIAL: ALGUNS


POSICIONAMENTOS

Como fora dito anteriormente, a discussão sobre o que é a tecnologia,


fatalmente nos conduz a um posicionamento valorativo frente a ela. E, porque
vivemos no mundo da tecnosfera, seja para negar, para confirmar ou para
exaltar a tecnologia, muitos são os autores que apresentam suas avaliações e
posições a cerca da valoração social da tecnologia. Assim, com o intuito de
problematizar o assunto e julgando ser esta a melhor opção didático-
metodológica, optamos por iniciar a análise ontológica sobre a tecnologia,
apresentando alguns posicionamentos existentes atualmente na doutrina a
respeito da função social da tecnologia.

Destacamos aqui, três desses diferentes posicionamentos, classificando-os


como sendo representativos respectivamente da corrente otimista, da
corrente pessimista e da corrente moderada.

A- A tecnologia na visão dos otimistas: Como representante da


corrente otimista, podemos citar um dos pensadores mais importantes da
atualidade sobre a sociedade informática, que tem uma visão otimista sobre a
tecnologia. Trata-se de Adam Schaff, para quem:

A sociedade informática proporcionará os pressupostos para uma vida


humana mais feliz; eliminará aquilo que tem sido a principal fonte da
má qualidade de vida das massas na ordenação do quotidiano: a miséria
ou, pelo menos, a privação. Abrirá possibilidades para a plena auto-
9

realização da personalidade humana, seja liberando o homem do árduo


trabalho manual e do monótono e repetitivo trabalho intelectual, seja
lhe oferecendo tempo livre necessário e um imenso progresso do
conhecimento disponível, suficientes para garantir o desenvolvimento.
Desse modo, o homem receberá tudo o que constitui o fundamento de
uma vida mais feliz. Todo o restante dependerá dele, de sua atividade
individual e social11.

Na previsão de Schaff encontramos algumas idéias característica


daqueles que defendem incondicionalmente a tecnologia, inclusive nos
moldes em que ela se encontra hoje. Argumentos como: “garantia de bem-
estar para o homem”; “desoneração do trabalho pesado”; “necessidade básica
para o progresso e o desenvolvimento”; “curso natural do desenvolvimento e
do progresso científico” são comuns nesta visão de tecnologia.

B- A tecnologia na visão dos pessimistas: Uma outra corrente se opõe


frontalmente aos “otimistas”, porque considera que, na gênese da tecnologia,
está a destruição da vida e do planeta. Para os pessimistas, não há que se falar
sequer em possibilidade de reversão do quadro de destruição, a permanecer a
natureza da tecnologia tal como a concebemos hoje. Citemos a observação de
Enguita:
A tecnologia continua sendo o resultado ‘natural’ da ciência em uma
sociedade orientada pela busca do lucro empresarial. Sua aplicação é
também, em certo sentido, inevitável, devido aos mercados
competitivos. Seus efeitos, contudo, não são já positivos, mas
negativos: ela destrói lugares de trabalho, condena os trabalhadores a
empregos desqualificados, monótonos e rotineiros, induz ao
consumismo, desumaniza as relações sociais e, enfim, nos conduz ao
holocausto universal. Os trabalhadores, o movimento operário, a
esquerda tradicional e o marxismo não souberam responder à
civilização produtivista que acompanha o mito do progresso [...]. O

11
SCHAFF, Adam. A sociedade informática. São Paulo: Brasiliense, 1993 , p. 154 e 155.
10

trabalho não será nunca reino de liberdade de forma que se torna


necessário falar de uma cultura do ócio e do tempo livre12.

Relacionando com a noção de trabalho, esta corrente considera que a


tecnologia é um mal implacável, posto que trará consigo a eliminação do
trabalho humano. Condição esta, alegam, sobretudo, os marxistas, inerente ao
processo de humanização do homem. Ademais, dizem “os pessimistas”, a
tecnologia orientada pelo lucro, existe em função da maior produção, daí a
robotização e, por fim, a destruição do homem.

C- A tecnologia na visão dos moderados: Uma terceira via, prega a


necessidade de repensar a direção dada à tecnologia hoje, postulando que é
necessário minimizar os riscos sem abdicar dos benefícios que a tecnologia
propicia a humanidade. Neste sentido, Kneller assinala:

O caminho mais sensato é almejar um progresso limitado e manter seus


inevitáveis custos em nível mínimo.
Alguma inovação tecnológica é essencial e desejável. Ela tem sido
necessária à modernização de todas as sociedades, e habilitará a nossa a
sobreviver e melhorar. O desenvolvimento de novas tecnologias deve
ser encorajado e o treinamento de tecnólogos imaginativos promovido.
[...] A tecnologia pode criar ou destruir, tornar o homem mais humano
ou menos. Mas as civilizações, como os indivíduos, devem correr
riscos se quiserem progredir. Se exercermos prudência para minimizar
os danos da tecnologia e incentivar o máximo seus benefícios,
certamente valerá a pena aceitar o risco13.

Em síntese, a posição dos “moderados” consiste em enfatizar um sistema


tecnológico capaz de se adequar a uma sociedade democrática mais humana.
Motoyama diz: “Por conseguinte, para a materialização de uma sociedade

12
ENGUITA, Mariano F. Tecnologia e sociedade; a ideologia da racionalidade técnica, a
organização do trabalho e a educação. In: SILVA, Thomaz T. da. Trabalho, educação e prática social; por
uma teoria da formação humana. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991. p. 231.
13
KNELLER, , G. F. A ciência como atividade humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980. pp. 269 e
270.
11

democrática é insubstituível a evolução tecnológica adequada às


características humanas e regionais”14.

Como se vê, tais posicionamentos confrontam-se entre si. Disso decorre


a primeira observação importante e necessária da nossa análise: o significado,
o valor e o papel que atribuímos à tecnologia na sociedade estão
intrinsecamente relacionados com a concepção que temos dela. Daí a
importância capital em discutir a natureza deste fenômeno social.
Com o objetivo de aprofundar um pouco mais o dito acima,
começamos pela distinção entre ciência, técnica e tecnologia.

3. CIÊNCIA, TÉCNICA E TECNOLOGIA: APROXIMAÇÕES E


DIFERENCIAÇÕES

Tendo em vista que o foco principal da análise aqui proposta é apontar


algumas reflexões sobre a gênese da tecnologia, inicialmente entendemos que
é necessário fazer algumas distinções entre ciência, técnica e tecnologia, visto
que freqüentemente encontramos referências que utilizam os termos como
sinônimo. Esses equívocos conceituais (a de confundir técnica com
tecnologia; ciência com tecnologia ou ciência e técnica) já nos dão uma ideia
da dimensão do problema sobre a identidade destes elementos na
modernidade.

A) A distinção entre Técnica e Tecnologia:


Inicialmente explicitemos a distinção entre técnica e tecnologia. Para
tanto, citemos o sentido conceitual dos dois termos extraído do Dicionário das
Ciências Sociais, citado por Ruy Gama. Primeiramente o conceito de técnica,
depois o de tecnologia:
14
GAMA, R. Engenho..., op. cit., p.11.
12

Técnica: conjunto de regras práticas para fazer coisas determinadas,


envolvendo habilidade do executor e transmitidas, verbalmente, pelo
exemplo, no uso das mãos, dos instrumentos e ferramentas e das
máquinas. Alarga-se freqüentemente o conceito para nele incluir o
conjunto de processos de uma ciência, arte ou ofício, para obtenção de
um resultado determinado com o melhor rendimento possível.
Tecnologia: estudo ou conhecimento científico das operações técnicas
ou da técnica. Compreende o estudo sistemático dos instrumentos,
ferramentas e das máquinas empregadas nos diversos ramos da técnica,
dos gestos e dos tempos de trabalho e dos custos, dos materiais e da
energia empregada. A tecnologia implica na aplicação de métodos das
ciências físicas e naturais [...]15.
Como se verifica na primeira parte do conceito citado acima, a técnica
compreende essencialmente a noção do ‘fazer’, habilidade esta inata ao ser
humano, utilizada na resolução dos problemas fundamentais do homem.
Portanto, ela é tão antiga, quanto à própria linguagem e nasce da relação
homem e natureza, em vista da sobrevivência daquele. Esta noção que
comumente encontramos nos dicionários, será severamente criticada por
Heidegger, em seu ensaio sobre A questão da técnica, o qual apresentamos
mais adiante. Segundo Heidegger, trata-se de uma noção instrumental e
antropológica de técnica que corresponde ao que é correto, mas não ao que é
verdadeiro, sob o ponto de vista filosófico da essência da técnica (Cf. tópico
4.1 deste artigo). Já a tecnologia, conforme enseja a afirmativa acima, possui
uma amplitude maior, visto que abrange “o conhecimento científico das
operações técnicas”.

B) A distinção entre Ciência, Técnica e Tecnologia:


E a ciência? No que ela se diferencia da técnica e da tecnologia? Em
sentido etimológico e genealógico, a ciência compreende o saber teórico,
explicativo da realidade e que envolve a natureza e a cultura como um todo.
Portanto, a ciência enquanto forma de conhecimento, é mais abrangente que a

15
BIROU, Alain. Dicionário das ciências sociais. Lisboa: Ed. D. Quixote, 1966, citado por
GAMA, Ruy. A tecnologia e o trabalho na história. São Paulo:Edusp, 1987, p. 30 e 31.
13

tecnologia, pois, aquela é o pensamento organizado racional (o “logos” grego)


sobre o mundo, o real; enquanto que a tecnologia é o “logos” da técnica em
específico. Sobre a distinção entre ciência e técnica, é mister salientar que na
Grécia Antiga (séc. VI) havia uma distinção entre o saber teórico,
contemplativo promovido pela filosofia (theoresis), do qual tinham acesso
somente os filósofos, e o saber prático e técnico, promovido pelos artesãos e
acessível aos escravos (poiésis)16.

b.1- O sentido originário de técnica:


Mas, esta distinção comumente encontrada na literatura que trata do
assunto merece ainda maior aprofundamento. Recuperemos, então, o sentido
originário de técnica, dado pelos gregos.
O historiador da filosofia Giovanne Reale esclarece que: a palavra
grega techné (τέχνη) “implica, ao mesmo tempo, conhecimento do universal
e aplicação prática, com a predominância do primeiro sobre a segunda”17.

Portanto, o sentido de técnica empregado pelos gregos diz respeito a um


conhecimento universal aplicado à prática, donde o possuía o artesão que, ao
produzir um utensílio tinha a dimensão da totalidade do objeto produzido.
Esta distinção nos parece fundamental diante do propósito de nossa análise,
pois, em sentido moderno, a técnica passou a ser um conhecimento
eminentemente prático e específico: diz-se do conhecimento técnico aquele
que é especializado. A predominância é sempre da aplicação prática em
detrimento ao conhecimento universal, ao contrário do que propunha a
civilização grega.

16
Alguns estudiosos (como Heidegger) entendem que apesar de os gregos fazerem esta distinção
entre teoria e prática, nao se pode dizer que o gregos separam a teoria da prática. Para os gregos a theresis é a
mais profunda prática.
17
REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. Vol. 1. São Paulo: Loyola, 1995, p. 250.
14

Ademais, é por isso que se torna incorreto atribuir a palavra techné o


mesmo sentido de “arte” tal como conhecemos hoje. Neste sentido Reale
alerta:

A palavra techné tem em grego uma extensão muito mais vasta que a
nossa palavra ‘arte’. Com essa se pensa uma atividade profissional
qualquer fundada sobre um saber especializado , isto é, não só a
pintura, a escultura, a arquitetura e a música, mas também, e mais
ainda, a arte sanitária, a arte da guerra e até mesmo a arte do piloto. E
dado que a palavra exprime que tal consuetude e ou atividade prática
não se apóia só sobre uma rotina, mas sobre regras gerais e sobre
conhecimentos seguros, ela chega facilmente ao significado de ‘teoria’,
significado que tem correntemente na filosofia de Platão e de
Aristóteles, especialmente onde se trata de contrapô-la à pura empiria
ou ‘prática’. Por outro lado, techné se distingue de epistéme, a ‘ciência
pura’, enquanto a techné é pensada sempre a serviço de uma práxis.18

A “práxis” grega (πραξις), em sentido amplo, indica sempre “o agir e


o fazer dos homens, como atitudes distintas da contemplação”19.
Diferentemente da poiésis (ποιήσις) que indica “produção”: uma ação que
produz fora do sujeito, a práxis é a ação que parte do sujeito e volta para o
sujeito. Portanto, é uma ação moral.
Enrique Dussel, ao elaborar uma Filosofia de la producción, já na parte
introdutória de sua obra chama, a atenção para o sentido da questão, quando
diz:

Desde já devemos aclarar que prático vem do grego (πραξις: práxis) e


indica a relação homem-homem; em especial a relação política, ou as
relações sociais de produção.
Enquanto que poiésis e poiético vem de outra palavra grega (ποιήσις:
fazer, produzir, fabricar) e indica a relação homem-natureza, em
especial a relação tecnológica, ou todo o âmbito das forças produtivas,
a divisão do trabalho, o processo de trabalho, etc20.

18
Id. Ibid.
19
REALE, op. cit., p. 211.
20
DUSSEL, Filosofía..., op. cit., p. 13. (Tradução livre).
15

Mas há ainda outro esclarecimento sobre a técnica que aqui é mister


expor. Trata-se da relação entre phronesis e techné, a qual também se ocupou
Aristóteles.

O VI livro da Ética a Nicômaco é consagrado à prudência (phronesis)


que é a virtude da decisão certa e justa. Para determinar o que esta
virtude tem de específico, o filósofo a comparava às virtudes
intelectuais, à ciência, à arte (techne) , à sapiência, à inteligência
intuitiva. A aproximação entre phronesis e techne se impõe de modo
especial porque ambas pertencem à razão prática. Têm em comum que
cada uma versa sobre “o que é que pode ser de outro modo”, qual é seu
contingente, por oposição ao necessário, que é objeto da ciência
propriamente dita. De resto, diferem-se a poiésis, a criação e a práxis,
a ação ética. A techne se refere à primeira, phronesis à segunda21.

Nota-se, então, que para Aristóteles a técnica possui uma estreita


vinculação com a prudência. A técnica é a virtude mais puramente
intelectual da prudência.

A esta altura, vale a seguinte observação: se para os gregos a técnica estava


estreitamente vinculada ao conhecimento prudente, hoje nós entendemos
que técnica está voltada ao conhecimento eficiente, funcional. Você
consegue perceber alguma diferenciação de valores entre ambas visões? Em
outros termos: existe diferença nas seguintes afirmações: “técnico é um
conhecimento prudente” e “técnico é um conhecimento eficiente”? Quais são
estas diferenças?

Aristóteles fala na techné como um “habitus poiético segundo a razão


certa”; é a razão que dirige a produção. Por isso, Cottier, prosseguindo na
interpretação de Aristóteles, sobre a técnica, esclarece: “Poiesis pode, em
realidade, ser traduzida como produção, fazer, fabricação, criação. Os Latinos

21
COTTIER, Georges. Criteri di giudizio etico sulla tecnologia. In: BAUSOLA, Adriano et al.
Etica e transformazioni tecnologiche. Milano: Vita e Pensiero, 1987, p. 72.(tradução livre)
16

dirão ars factiva”22. em síntese: para Aristóteles, a techné, enquanto poiésis,


assim como a phronesis compreendem ambas a parte da razão prática.

b.1- O sentido originário de tecnologia:


Prossigamos com o aclaramento dos termos, tratando agora da
tecnologia.
Aristóteles, em seu tratado sobre Política, imaginava a seguinte
situação:

Com efeito, se cada instrumento pudesse cumprir a sua função a uma


ordem dada ou apenas prevista, conforme diz das estátuas de Dédalo ou
das tripeças de Éfeso, as quais, a ouvir o poeta, “entram de próprio
impulso na assembléia divina”, assim também se as lançadeiras
tecessem as toalhas por si mesmas e se as palhetas tocassem a cetra, os
mestres artesãos não haveriam de precisar de subordinados, nem os
patrões de escravos23.

Da situação utopicamente imaginada pelo filósofo que não acreditava


poder existir uma sociedade sem escravos, o que se viu foi a sua realização. A
utopia tornou-se realidade, quando passou a ser real a possibilidade da
substituição do trabalho escravo pelo desenvolvimento técnico, ou seja,
através do instrumento que funciona direto por um comando e que substitui o
trabalho servil do homem. Então, agora, o instrumento passou a significar
mais que uma mera ferramenta, porque alberga em si a habilidade da arte, ou
seja, contém em si o conhecimento procedimental que antes pertencia ao
homem. Nascia aí o sentido de tecnologia.
Sobre o uso em sentido histórico do termo “tecnologia”, Ruy Gama
alerta que remonta às origens da civilização ocidental. E diz:

A palavra tecnologia não é nova; apesar das afirmações de que ela foi
inventada no séc. XVIII, há fortes argumentos contrários. O Dicionário
etimológico da língua portuguesa, de Antenor Nascentes dá como
origem a palavra grega Technologia e o Dictionaire grec-français de A.
22
ARISTOTELES, Ética a Nicômaco. 1140a , 10-16. Ib. ibid. (tradução livre).
23
ARISTÓTELES, La Política. 1253b, 33 – 1244a , 1. Apud, COTTIER, op. cit., p. 76.(Tradução
livre).
17

Bailly dá para τεχνολσγια, ας o significado de “tratado ou dissertação


de uma arte”. O importante é que Bailly assinala sua presença na obra
de Cícero (106 – 43 a.C.), particularmente em Cartas a Alticus24.

Mas, o fato é que a tecnologia em sentido moderno está


intrinsecamente relacionada com a aliança entre ciência e técnica. Milton
Vargas, por exemplo, esclarece que a tecnologia é um fenômeno da
modernidade:

No início do século XVII, dois fatos cooperaram para o aparecimento


da tecnologia como uma aproximação da técnica com a ciência
moderna. O primeiro foi o aparecimento, na Europa, de uma crença de
que tudo que pudesse ser feito pelo homem poderia sê-lo por
intermédio de conhecimentos científicos. O segundo foi que a ciência
experimental exigia, para seus experimentos, instrumentos de medida
precisos que teriam que ser fabricados ou por cientistas com dotes
artesanais ou por artesãos, informados pelas teorias científicas.
Essa, sem dúvida, foi a origem da tecnologia como utilização das
teorias científicas na solução de problemas técnicos [...] Os primeiros
sucessos apareceram ao se explicar o funcionamento das máquinas a
vapor por meio de teorias científicas para a construção de máquinas
elétricas e confirmou-se com a eletrônica; não se sabe exatamente onde
termina a ciência e começa a técnica25.

A constatação do referido autor sobre o surgimento da tecnologia


evidencia que a tecnologia, em sentido moderno, não pode ser entendida
simplesmente como o estudo da técnica. É mais que isso: a tecnologia
implica na utilização das teorias científicas na solução de problemas
técnicos.
Para ele, a tecnologia está intrinsecamente relacionada com a aliança
entre ciência e técnica. Portanto, é da aliança entre o saber técnico e o saber
científico, a partir da era moderna, parceria esta inevitável pela visão

24
GAMA, R. Engenho e tecnologia. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1983, p. 40.
25
VARGAS, M. Dupla transferência; o caso da mecânica dos solos. Revista USP. São Paulo, n. 7,
p. 3-12, 1990. Apud RIBEIRO DE SOUZA, Sonia Maria. Um outro olhar. São Paulo: FTD, 1995, p. 229.
Semelhante posição adota o autor ao discorrer sobre “Tecnologia, técnica e ciência”, in GAMA, Ruy (Org.)
Ciência e técnica (ontologia de textos históricos). São Paulo: T. A. Queiroz, Editor, 1984, p. 14 e VARGAS,
Milton. Metodologia da pesquisa tecnológica. Rio de janeiro: Globo, 1985, p. 13 e ss.
18

empirista da ciência e pelo surgimento da sociedade capitalista, solidificada


no processo da Revolução Industrial, que surgirá o conceito de tecnologia tal
como compreendemos hoje.
Sobre o uso do termo a partir da era moderna, em que está explícito a
preocupação de aliar Teoria e Prática, citam-se alguns exemplos extraídos da
pesquisa realizada também por Ruy Gama.
O termo em si foi cunhado pelo alemão Johann Beckmann (1739-1811)
que era professor de Ciências econômicas de Göttingen. Ele se dedicava a
explanação científica das artes dos técnicos e artesãos.26 Nos Estados Unidos,
o termo “technology” foi usado em 1829 por Jacob Bigelon, que, nas suas
conferências referia-se ao termo como “aplicação da ciência às artes úteis” 27.
Em 1861, com a fundação do MIT (Massachussets Institute de Technology) o
projeto previa claramente a necessidade de um conhecimento voltado às
finalidades práticas, ao invés de um saber “puro”, meramente teórico.28 A
École Polytechnique, criada na França em 1794, visava, entre outros
objetivos, a reunião entre a teoria e a prática. Os dizeres de um dos pioneiros
da criação deste instituto, Gaspar Monge, expresso logo no prefácio da sua
obra Geometria Descritiva, citado por Gama, ilustra a proposta da escola:

Para tirar a Nação Francesa da condição de dependência da indústria


estrangeira em que está mergulhada até o momento, é preciso, em
primeiro lugar, estabelecer a instrução baseada no conhecimento dos
objetos, para o que é necessário ter precisão – o que até o presente está
abandonada – e educar as mãos de nossos técnicos especialistas no
manejo dos instrumentos. (grifo nosso)29.

Também em Portugal, o uso do termo usado por José Bonifácio, talvez


pela primeira vez naquele país, enfatizava a necessidade de “eliminar a
oposição entre teoria e prática”. Um senhor de engenho no séc. XIX aqui no

26
GAMA, Engenho..., op. cit., p. 9.
27
GAMA, Engenho..., op. cit., p. 50.
28
GAMA, R. História.da técnica e da tecnologia. São Paulo, 1985, p. 10 e 11.
29
GAMA, Engenho..., op. cit., p. 42
19

Brasil escrevia “com veemência sobre o uso da ciência para finalidades


práticas”30.

Como se vê , todas as situações acima descritas sobre o sentido de


tecnologia, ainda que geograficamente e historicamente narradas de maneira
isolada e factual, apontam para a mesma necessidade, qual seja: unir o
conhecimento teórico (especialmente dos cientistas) ao conhecimento prático
(sobretudo dos técnicos). Tal necessidade não acontece por acaso ou
aleatoriamente; ela é fruto de um projeto político, econômico, social, enfim de
uma nova cosmovisão, o qual está sendo engendrado neste período: trata-se
do surgimento da sociedade capitalista.

b.3- O contexto histórico moderno de aplicação dos termos:


Contudo, também o conceito meramente semântico não é suficiente
para atingir o propósito deste trabalho, posto que entendemos que não existe
significado fora de seu contexto, pois, todo conceito necessariamente nasce de
uma determinada conjuntura e se transforma a partir de outros novos
contextos. É por isso, inclusive, que optamos pelo uso do termo conceito e
não definição. O sentido de definição fecha o significado sob o ponto de
vista da dinamicidade da história, o que não é nossa posição. Portanto,
necessário é indagar sobre qual contexto estamos nos referindo à técnica, à
tecnologia e à própria ciência.
Uma demonstração clara de que o conceito sofre variações de acordo
com a dinamicidade da história reside na própria passagem do dicionário da
Oxford (The Oxford English Dictionary), editado em 1895 e 1900, para quem
“[...] o sentido que se aproxima do grego τεχνολσγια registrado em 1683, é
dado como obsoleto, em desuso no inglês moderno”31. Como se percebe, o

30
GAMA, História...., op. cit., p. 11
31
GAMA, R. Engenho e tecnologia. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1983, p. 40.
20

sentido de tecnologia a partir do séc. XIX não é o mesmo que o registrado até
o séc. XVII.

Assim, entendemos que dar igual significado à tecnologia antes e depois da


era moderna parece-nos um equívoco, posto que, com as transformações
advindas, sobretudo, da ciência na modernidade a tecnologia passou a
significar mais que o mero estudo sobre a técnica. Neste sentido alude
Medeiros e Medeiros32 que a tecnologia possui significado próprio por ser
uma versão mais elaborada da técnica; ela não pode ser confundida com os
produtos que ajuda fabricar.

A fim de esclarecer melhor o que queremos dizer, situemos então,


histórica e filosoficamente a gênese e a identidade da tecnologia moderna, a
partir da análise de três grandes pensadores que se ocuparam do tema neste
período. Estamos nos referindo especificamente a Heidegger, a Marx e a
Escola de Frankfurt (sobretudo, Habermas).

4. A GÊNESE DA TECNOLOGIA MODERNA

4.1. Heidegger e a Questão da Essência da Técnica

Certamente o pensamento de Heidegger constitui o marco referencial


para aqueles que desejam se aventurar em discutir o significado da tecnologia,
sobretudo, a partir da modernidade. Através de uma brilhante conferência,
proferida em 1953, em Munique, intitulada A questão da técnica33, Heidegger
lança as bases filosóficas sobre a essência da técnica em sentido moderno

32
MEDEIROS e MEDEIROS. O que é tecnologia. São Paulo: Brasiliense, 1993, p. 7 e ss.
33
HEIDEGGER op. cit. O original consta da obra em alemão, intitulada Die frage nach der technik..
21

que, para efeito de nossa avaliação e tendo em vista o objetivo deste trabalho,
tornam-se imprescindíveis traduzi-los aqui34.

Heidegger introduz o tema, esclarecendo que “a técnica não é a mesma coisa


que a essência da técnica”35. Com isso, ele considera que a resposta sobre a
questão da técnica não é uma resposta técnica, mas ela é antes de tudo,
filosófica. Então, nunca chegaremos a identificar o que é a técnica, falando do
que é técnico, ou referindo-se aos aparatos técnicos.

Também outra consideração que compõe a base do pensamento de


Heidegger, e que é, sem dúvida, a mais importante para a nossa pesquisa, diz
respeito ao significado instrumental (a técnica como mero fazer) e
antropológico (a técnica como meio de sobrevivência para o ser humano)
atribuído à técnica com o advento da era moderna. Heidegger coloca em
crise tal concepção e o faz a partir da seguinte análise.

Assim, se eu digo que a técnica “é um meio para fins”, ou que “é um fazer do


homem”, estou conferindo à técnica uma determinação instrumental e
antropológica. Esta é a definição moderna de técnica, que segundo Heidegger,

34
Ao descrever a biografia de Heidegger, Safranski lembra que a conferência sobre A questão da
técnica não é um avanço isolado neste terreno. Heidegger toma a palavra num debate que já estava
acontecendo na Europa, sobretudo, com o desconforto do mundo pós-guerra diante da técnica e da
necessidade de discutir a relação entre política e tecnologia. Neste cenário, figuravam tanto os apologéticos,
quanto os críticos da tecnologia. Por exemplo, do lado dos críticos, encontramos as manifestações em
homenagem a Kafka, um homem horrorizado com o “poder do mundo coisificado”; a análise profética de
Huxley em Admirável mundo novo; a obra de Weber, O terceiro ou o quarto homem, em que ele descreve o
horror de uma civilização técnica e a visão de Friedrich Jünger, para quem a técnica não é só um meio, mas
um modo de vida. Do lado dos anticríticos da crítica, figuravam posições, como: o “mal” não reside na
técnica, mas no ser humano; “é preciso evitar a demonização da técnica, e em troca analisar melhor a técnica
da demonização”, descrevia um artigo publicado no Monat, e que também era a posição de Max Bense. Além
desses, vale lembrar ainda que o físico Heisenberg, bem como o filósofo José Ortega y Gasset (com a
publicação de sua obra Meditações sobre a técnica) também participavam deste contexto. Ambos, inclusive,
faziam-se presentes na referida conferência de Heidegger, a qual fora, “talvez o maior sucesso público de
Heidegger na Alemanha do pós-guerra”. Cf. SAFRANSKI, Rüdiger, Heidegger: um mestre da Alemanha
entre o bem e o mal. São Paulo: Geração Editorial, 2000, pp. 455-472.
35
HEIDEGGER, op. cit., p. 41.
22

é uma concepção instrumental de técnica, baseada na idéia de “fazer” e de


“meio”.

É esta visão moderna de técnica que será exaustivamente questionada


por Heidegger: mesmo sendo tal concepção correta, argumenta o filósofo, ela
pode não ser verdadeira. O correto nem sempre é sinônimo de verdadeiro,
pois, aquele pode ocultar a essência de algo, ou seja, daquilo que é
verdadeiro. E acrescenta: somente o que é verdadeiro nos leva a uma relação
livre com o que nos toca a partir de sua essência. Disso conclui-se que a
correta denominação instrumental de técnica não nos revela ainda sua
essência.
Sobre a essência da técnica, Heidegger recorre ao conceito de Platão
(Banquete 205 b) sobre poiésis (como todo fazer-chegar à presença, que passa
do não-presente à presença, por meio da produção), Heidegger esclarece que é
através da produção que algo se torna des-velado, aparecido. A isso
chamamos de verdade: é a descoberta de algo; é o “des-abrigar”, no sentido
heideggeriano. Aplicando este conceito de verdade à questão da técnica,
diremos, então, que a técnica não é só um meio, portanto não é meramente um
instrumento; “é um modo de desabrigar”, porque atua no seio do produzir. “O
produzir leva do ocultamento para o descobrimento”, afirma Heidegger36.
Portanto, “todo tipo de pro-duzir seria, neste caso, um modo de des-
velamento, um modo da techné que manifesta a verdade”37.
Mas, o desabrigar da técnica moderna possui um sentido diferente
daquele empregado pelos gregos. Por isso, ela é incomparável com outras
técnicas anteriores. Ela é mais que a simples técnica manual, e o “desabrigar”
da técnica moderna assenta num “desafiar”, observa Heidegger. O desafio

36
HEIDEGGER, op. cit., p. 53.
37
DUSSEL, Filosofía...,op. cit., p. 66. (Tradução livre)
23

consiste em exigir da natureza aquilo que lhe é suscetível de oferecimento ao


homem. Não se trata simplesmente de guardar e cuidar.

Heidegger utiliza o exemplo do camponês: se, antes, seu esforço consistia em


preparar a terra para plantar e colher, no modo de exigir e desafiar da
técnica moderna, a ação do camponês, agora é outra, porque sua exigência
para com a natureza também é outra. Não se trata somente de pôr a semente
no solo, e sim desafiar a natureza no sentido de extrair dela o máximo de
proveito e o mínimo de despesas. O campo não é somente o lugar de guardar
a semente; “o campo é agora uma indústria de alimentação motorizada”38.
Portanto, mais que extrair, a intenção e o desafio da técnica moderna é
explorar, armazenar, estocar.

Disso decorre que o significado das coisas existentes a priori se altera com a
intervenção humana pela técnica. Um rio que abriga uma hidroelétrica, deixa
de ser ele mesmo e passa a constituir outro significado. Como rio ele é agora a
essência da central elétrica: o rio que tem a pressão da água. Em verdade, não
é o rio que abriga a hidroelétrica, mas é o rio que está construído na central
hidroelétrica; a sua existência vale pela energia que produz e não por ser ele
mesmo o rio.

A técnica é um desabrigar que desafia exatamente por isso: seu


descobrimento é um “pôr desafiante”: ela significa nada menos do que o
modo pelo qual tudo o que é tocado pelo desabrigar desafiante se
essencializa”39. Tudo que é tocado pela técnica se essencializa por ela.

38
Id. Ibid.
39
HEIDEGGER, op. cit., p. 61.
24

Assim já não podemos ver uma cachoeira sem pensar quantos watts de
potência vamos extrair dali; já não vemos uma floresta sem deixar de calcular
quanto ganharemos pela extração da madeira dali... Heidegger observa: já não
vemos as coisas em si, como ser, mas como subsistência, algo a meu dispor.

Há uma estrutura maquinal, engenhosa, o qual Heidegger denomina


Ge-stell, que pode ser entendida como uma estrutura de pensamento que faz
com que já não consigamos pensar nada fora do esquema técnico.

Às resoluções dos problemas técnicos sugerimos mais técnica. Portanto, há


uma engrenagem, característica do modo de pensar moderno que confere à
técnica um lugar privilegiado na vida do homem moderno. Já não pensamos
soluções fora do técnico. Isso é o que Heidegger denomina a grande armação
ou estrutura engenhosa do nosso modo de ser e fazer na modernidade.

A técnica, portanto, não é um problema técnico, e sim, filosófico,


porque diz respeito a como nos relacionamos com o mundo.
Segundo Heidegger, o homem está situado no âmbito essencial desta
grande engrenagem. Nestes termos, ele esclarece “o destino de desabrigar
sempre domina os homens”40. Mas, o sentido de levar destinadamente
apontado por Heidegger, como sendo inerente, ao modo de ser da técnica, não
pode ser confundido com aquele discurso determinista e fatalista,
comumente usado, de que a técnica é o destino de nossa época (não podemos
viver sem técnica) e seu transcurso não pode ser desviado porque inalterável.
Ainda que o destino do desabrigar domine os homens, ele conduz à liberdade,
porque a essência desta reside no des-velamento da verdade.
Daí que para Heidegger o perigo não está na técnica, considerada por
muitos como demoníaca. O que há de perigoso, assegura ele, é a essência da
40
Id. Ibid.
25

técnica, enquanto um destino de desvelamento tal como ocorre hoje: um


modo de engrenagem que faz com que não consigamos ver outra saída senão
pelo modo técnico. Por isso, ele diz: “A ameaça dos homens não vem
primeiramente das máquinas e aparelhos da técnica cujo efeito pode causar a
morte. A autêntica ameaça já atacou o homem na sua essência”41.

Mas, paradoxalmente, onde existe o perigo, cresce também a


possibilidade de salvação, assinala Heidegger, parafraseando o poeta
Hölderlin, no hino Patmos. Em que medida? Na medida em que “avistamos a
essencialização da técnica e não apenas fitamos a técnica”42, responde o
filósofo. Porque a essência da técnica não é nada de técnico, a salvação do
perigo da técnica, vem pelo seu enfrentamento, pelo questionamento do que é
aparentemente técnico por um lado, e por outro lado, daquilo que é totalmente
diferente dela43.
Embora a análise heideggeriana seja fundamental para a compreensão
da técnica moderna, sobretudo, quando Heidegger esclarece que o sentido
moderno de técnica difere dos gregos porque ela implica num descobrimento
da natureza que revela a verdade, através da produção (poiésis) que agora é
desafiadora, posto que a natureza é colocada
numa situação de ter que entregar sua energia a fim de que possa ser extraída
e acumulada , Dussel observa que a visão do filósofo existencialista ainda é
parcial, visto que não chega a realizar uma crítica ao sistema capitalista, de
cujo horizonte vê-se o caráter exploratório da natureza, do sentido da
produção.
Em outros termos, a análise fenomenológica de Heidegger não dá conta
da compreensão econômica da técnica que, na modernidade concebe a
natureza a partir dos elementos utilizáveis que serão “transformados para um

41
HEIDEGGER, op. cit., p. 81.
42
HEIDEGGER, op. cit., p. 89.
43
HEIDEGGER, op. cit., p. 93
26

uso máximo com o mínimo de gastos”44. E esta análise dialética e histórica


da tecnologia encontramos em Marx. Passemos agora a aprofundar a análise
marxista no tocante à compreensão da gênese da tecnologia moderna a partir
do modo de produção, em específico, o modo de produção capitalista.

4.2 Marx e a Tecnologia como (Re) Produção do Capital

Karl Marx contempla o sentido de tecnologia, tanto na sua famosa obra


O capital, sobretudo no Tomo I, como também nos manuscritos de 1851
(Caderno tecnológico-histórico) e nos manuscritos de 1861 a 1863,
intitulados Los Grundrisse ou Capital e Tecnologia.
Levando em conta a concepção antropológica de ser humano como
homo-faber, para Marx, a tecnologia se constitui como mediação da vida
humana, que se realiza na produção (poiésis). Buscando uma história crítica
da tecnologia, ele diz: “A tecnologia nos descobre a atitude do homem ante a
natureza, o processo direto de produção de sua vida e, portanto, das condições
de sua vida social e de suas idéias e representações espirituais que delas se
derivam”45.
Desta concepção de tecnologia, Marx procura elaborar uma teoria da
produção a partir da categoria de trabalho. Segundo o filósofo, o trabalho é o
elemento fundante da produção. Daí o sentido de ser humano como homo-
faber. Este, como sujeito produtor, realiza na produção a objetivação de sua
pessoa. Dito de outro modo: o trabalho, como atividade abstrata representa,
para Marx, a maneira pela qual o homem se humaniza46.

44
DUSSEL, op. cit., p. 68.
45
MARX, Karl, O capital, I, p. 331, nota 89, Apud, Dussel, Filosofia...op. cit., p. 14. (Tradução
livre)
46
Conferir a reflexão de ENGELS sobre O papel do trabalho na transformação do macaco em
homem, In: MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Textos. Vol. 1. São Paulo: Edições Sociais, 1977.
27

Mas, em sentido concreto, no contexto da sociedade do séc. XIX, já sob


os efeitos da Revolução Industrial e observando A situação da classe operária
na Inglaterra47 Engels
constata que o trabalho deixou de ser fonte de humanização para ser
alienação, com a introdução das máquinas. Numa passagem brilhante e
comparada com o modo de produção anterior ao da sociedade capitalista, ele
observa:

Antes de introduzir as máquinas, a matéria prima se fiava e se tecia na


mesma casa do trabalhador... com estes inventos, aperfeiçoados desde
então, ano após ano, se havia assegurado o triunfo do trabalho
mecânico sobre o trabalho manual. A divisão do trabalho; o emprego
da força hidráulica e, sobretudo, da força a vapor e o mecanismo da
maquinaria são os três grandes pilares por meio dos quais a indústria
exaspera ao mundo. O tecedor mecânico compete com o tecedor
manual e o tecedor manual, sem trabalho, ou mal pago passa a
competência ao que tem trabalho ou ganha mais, e procura desprezá-lo.
Cada aperfeiçoamento da maquinaria deixa sem pão a muitos
operários.48

Portanto, o trabalho na sociedade capitalista torna-se alienado,


primeiro, porque passa a ser desvinculado da natureza; segundo, porque é
realizado através de um conhecimento especializado (daí a divisão do trabalho
intelectual do trabalho de execução) sobre o que se produz em si, donde
ocorre a perda substancial do conhecimento do trabalhador que antes detinha
a techné (recuperando o sentido grego do conhecimento universal,
individualizado e autônomo daquilo que se produz, lembremos o artesão
medieval, por exemplo) e, terceiro, porque está vinculado à produção como
excedente e não como modo de subsistência, assim como o era nas sociedades
primitivas. Assim, o trabalhador, por lhe faltarem as condições materiais para
a produção (de trabalho), vende a sua força de trabalho ao capitalista. Nisto
consiste a alienação do trabalho.

47
Titulo da obra do jovem Engels, em 1844.
48
Citado por DUSSEL, op. cit., p. 119.
28

Além disso, se nas sociedades primitivas, a produção equivalia ao


consumo, agora, a produção equivale ao acúmulo.

A produção como acúmulo gera o capital. Este só existe porque existe o


trabalho excedente do trabalhador, que agora produz não para sua
subsistência, mas como excedente. O excedente de produção é adquirido
através da maximização da produção e da minimização do tempo. Este
processo é garantido pela tecnologia, através da maquinaria.

Sobre o surgimento das máquinas, Marx observa:

A natureza não constrói máquinas, locomotivas, ferrovias, telégrafos


elétricos, selfatinas, etc. São produtos da industriosidade humana;
materiais naturais transformados em órgãos da vontade humana sobre a
natureza, ou da participação humana na natureza. São órgãos do
cérebro humano, criados pela mão humana; o poder do conhecimento
objetivado. O desenvolvimento do capital fixo indica o grau geral em
que o conhecimento se tornou força direta da produção, e que grau,
conseqüentemente, as próprias condições do processo da vida social
tem estado sob o controle do intelecto geral e foram transformados de
acordo com ele. A que grau os poderes da produção social têm sido
produzidos, não apenas na forma de conhecimento, mas também como
órgãos imediatos da prática social, do processo real da vida.49

Esses produtos da “industriosidade humana” que geram o


“conhecimento objetivado”, ou o “trabalho morto”, porque agora é realizado
pela máquina e não mais pelo trabalhador, só foram possíveis graças à
aplicação intencional da ciência na produção.

A transformação da ciência em força produtiva, isto é, aplicada à tecnologia, é


descrita historicamente por Marx, nos seguintes termos:

Só no século XVII, muitos cientistas se dedicaram ao estudo


minuncioso e assíduo do artesanato, das manufaturas e das fábricas.
Alguns fizeram desse campo o objeto de suas pesquisas.

49
MARX, Los grundrisse, I, p. 706. Apud BRYAN, op. cit.,, p. 52.
29

Só em épocas relativamente moderna descobriu-se a vinculação que


une a mecânica, a física e a química com o artesanato (melhor seria
dizer com a indústria). Entre os artesãos as regras e as experiências
transmitiam-se dos mestres aos aprendizes e oficiais [...]50.

Ou seja, utilizando-se do conhecimento científico para sistematizar o


conhecimento técnico e empregando a ciência como força produtiva
(máquinas), a tecnologia moderna rompe com as práticas artesanais
primitivas, posto que separa o saber do trabalhador. O acúmulo do saber
do trabalhador é incorporado à máquina pelo capital. A máquina é, agora, o
instrumento de trabalho como tal. Daí o conceito de Marx de “máquina-
ferramenta”: aquela que executa o trabalho humano, posto que a ferramenta
utilizada pelo homem em seu trabalho é transferida para um mecanismo, a
máquina, que toma o lugar da simples ferramenta51.

Em síntese, na era moderna a tecnologia garante a mais valia e o lucro, base


do funcionamento do capital, pois, o uso do conhecimento científico como
força produtiva produz a máquina que garante a maior lucratividade, já que
ela representa a maximização da produção em detrimento à minimização do
tempo. Disso decorre, uma primeira conclusão importante para entender o
sentido de tecnologia dado por Marx: “a tecnologia é uma mediação
necessária dentro do sistema capitalista diretamente ligada a uma maior
rentabilidade”52.

Outra conclusão também fundamental é que através da tecnologia,


retira-se do trabalhador o conhecimento historicamente acumulado (a
tehcné) que passa agora a integrar a máquina.

50
MARX, Capital y tecnologia. Manuscritos de 1861-1863. p. 93, citado por BRYAN, op. cit.,p.
63.
51
MARX, O capital.., op. cit.,p. 426.
52
DUSSEL, op. cit., p. 231. (Tradução livre).
30

Na sociedade atual, dita informática, o ship, por exemplo, acumula o


conhecimento do trabalhador adquirido ao longo de sua história de trabalho e
da história do trabalho pelo homo-faber, e que foi expropriado pelo capital.
Assim, nos Manuscritos de 1844, Marx conclui: O operário tem sido
reduzido à condição de máquina; a máquina pode opor-se a ele como
competidor”53. Então, o trabalhador que detinha o conhecimento de seu ofício,
ao invés de criador, passa a ser um mero operador ou monitor da máquina e
sequer conhece sua engenhosidade.
A contribuição da análise crítica de Marx sobre a tecnologia moderna
em sua concretude reside em grande parte nesta importante constatação:

Mas, na máquina, a ciência realizada apresenta-se ante os operários


como capital. Na realidade, toda essa utilização − fundada no trabalho
social – da ciência, das forças naturais e dos produtos em grandes
quantidades, não surge ante o trabalho senão como meios de exploração
do trabalho, como meios de apropriar-se do trabalho excedente, e,
portanto, como forças pertencentes ao capital. O capital, naturalmente,
só utiliza esses meios para explorar o trabalho; mas para explorá-lo tem
que aplicá-los à produção (leia-se tecnologia). E desse modo, o
desenvolvimento das forças produtivas sociais do trabalho e as
condições desse desenvolvimento apresentam-se como obra do
capital[...]54.

Concluindo a contribuição de Marx para nossa reflexão, vale lembrar que para
este filósofo que se transferiu para a Inglaterra, berço da Sociedade Industrial
e germe do capitalismo, a fim de compreendê-la in loco, a tecnologia deve
ser compreendida a partir de três níveis: como instrumento de trabalho,
como processo de produção e como capital.

No primeiro caso, trata-se da intervenção da tecnologia no processo de


trabalho, como instrumentos objetivos de produção, é o que realiza a

53
Citado por DUSSEL, op. cit., p.121.
54
MARX, O Captal, capítulo inédito, pp 86 e 87, citado por BRYAN, op. cit., p. 53.
31

máquina-ferramenta, por exemplo.55. Já como processo de produção, a


tecnologia realiza a produtividade crescente, a partir da mais-valia relativa. E,
a tecnologia como capital representa o momento de transubstanciação da
tecnologia em capital. Trata-se da tecnologia como “capital constante” (isto é,
aquela parte do capital que se transforma em meios de produção, materiais
auxiliares e meios de trabalho; como “capital produtivo” (ou seja, o dinheiro
transformado em mercadorias. E, para produzir novas mercadorias, este
capital compra o “trabalho vivo” e as máquinas: é o investimento em
tecnologia) e como “capital fixo” que significa a fixação do capital produtivo
como meios de produção, enquanto perdurar a produção. É a retirada do
capital de circulação para incorporá-lo ao processo de produção.
Sem dúvida, é na condição de processo de produção que a tecnologia
moderna mais evidencia sua identidade, pois:

Na maquinaria, a ciência se apresenta ao operário como algo alheio e


externo e o trabalho vivo aparece subsumido sob o objetivado que
opera de maneira autônoma...O processo constante de produção,
contudo, não aparece como subsumido sob a habilidade direta do
operário, senão como aplicação tecnológica da ciência. Dar à produção
um caráter científico é, portanto, a tendência do capital, e se reduz o
trabalho a mero momento deste processo56.

Este processo é revelador do problema ético do conhecimento


tecnológico, pois, no cerne da questão da tecnologia está o predomínio do
conhecimento científico que contribui para a alienação do trabalho, à medida
que sua utilização é requerida como necessária à transformação do trabalho
vivo em trabalho objetivado (ou “trabalho morto”).
Resta ainda esclarecer que sob o ponto de vista histórico a tecnologia
moderna possui uma estreita relação com a ciência, conforme demonstrou

55
Vale dizer, que o sentido de instrumento objetivo dado por Marx, não se refere somente à
ferramenta.; a máquina-ferramenta, é mais que ferramenta, à medida que executa a função da força motriz
humana. O esclarecimento tem em vista a preocupação semântica da qual se ocupa Ruy Gama. Segundo ele,
“instrumento” é diferente de “ferramenta” que é diferente de “máquina”. (Cf. GAMA, Ruy. Meios de
trabalho. Téchne. São Paulo, n. 10, maio/junho, 1994, pp. 2; 31-35).
56
MARX, Los Grundrisse, II, p.221, citado por DUSSEL, op. cit., p.141. (tradução livre)
32

Marx, em diversas passagens ao revelar o processo de produção capitalista.


Desse modo, não é possível deixar de lado, ao tratar do aspecto ontológico da
tecnologia moderna, a estreita vinculação da tecnologia com a chamada
“Ciência Moderna”, a qual passou a ser objeto de crítica dos teóricos da
Escola de Frankfurt no séc XX. Por isso, ocupemo-nos um pouco mais do
tema.

4.3 Técnica e Ciência como Ideologia: A Crítica da Teoria Crítica

A história do surgimento da tecnologia moderna confunde-se com a


história da ciência em termos de modernidade. Régis de Morais, ao descrever
o contexto tecnológico do séc. XVII, constata que “de Galileu em diante a
ciência e a técnica nunca puderam, de fato, desenvolver-se apartadamente”57.
Também Engels, ao descrever o processo da revolução Industrial no séc. XIX
considera que “o mundo industrial tirou partido da ciência e da técnica”58.
Estes dados, além daqueles apresentados por Marx que transcrevemos
acima, nos parecem elementares para entender a gênese da tecnologia
moderna, pois, sem a inclusão da questão do surgimento da ciência moderna
no cenário da discussão que aqui propomos
fazer, dificilmente teremos uma compreensão mais profunda sobre o
significado da tecnologia hoje, a partir da modernidade. Semelhante à
tecnologia, também a ciência, com o advento da modernidade, passou a ter
um outro significado, diferente daquele dado pelos gregos, por exemplo.
Vejamos o que diz o relato de estudos de história da ciência realizado por
Japiassu:

A ciência moderna nasceu com o advento da sociedade mercantilista.


Não surgiu como uma atividade pura e desinteressada, como uma

57
REGIS DE MORAIS, J. F. Ciência e tecnologia: introdução metodológica e crítica. São Paulo:
Cortez & Morais, 1977, p. 105.
58
Citado por JAPIASSU, H. As paixões da ciência. São Paulo: Letras & Letras, 1999, p. 157.
33

aventura espiritual ou intelectual. Mas dentro de um contexto histórico,


separável de um movimento visando à racionalização da existência. E é
todo desenvolvimento da sociedade comercial “industrial”, técnica e
científica que se inscreve no programa prático da racionalidade
burguesa: não se faz comércio empiricamente, pois ele é um negócio de
cálculo, deve ser feito racionalmente. Assim, a burguesia nascente, que
logo se instala no poder, tem necessidade de um sistema de produção
permitindo-lhe uma exploração sempre maior e mais eficaz da
Natureza. E tal sistema não tarda a fazer apelo a um novo tipo de
trabalhador: o cientista. Doravante cabe-lhe a responsabilidade de
detectar as leis gerais da Natureza. Quanto ao trabalho propriamente
produtivo [...], é da alçada de engenheiros, que utilizam as descobertas
dos cientistas em termos de aplicações particulares59.

É com esta tese que corroboramos. A ciência na era moderna não se


constitui como um saber livre e desinteressado, teórico e especulativo. Na
modernidade, ela se tornou um saber pragmático, necessário para dar garantia
à aplicabilidade da técnica. Ideologicamente, muitas vezes, converteu-se em
tecnologia, porque se aliou à técnica. Dussel, analisando geopoliticamente o
contexto social da história da tecnologia, considera que a ciência ocupa um
papel de mediação privilegiada para o alcance da produtividade do
desenvolvimento tecnológico, sobretudo nos países centrais, chamados
“desenvolvidos”. Sua argumentação ajuda-nos a entender o papel político da
ciência e sua relação com a tecnologia:

A ciência, então, encontra-se crescentemente acoplada


instrumentalmente à tecnologia; a tecnologia não é uma mera aplicação
da ciência, senão que o conjunto tecnológico responde às necessidades
de gerenciamento e controle, o que introduz-se obrigatoriamente no
debate sobre a tecnologia, os problemas globais da organização
econômica, da segurança e o militarismo. É um fato conhecido que
uma altíssima porcentagem dos cientistas e tecnólogos trabalham em
tarefas diretamente ligadas ao avanço da produção bélica60.

O físico alemão Heisenberg, em 1976 já observava:

59
Id. Ibid.
60
DUSSEL, op. cit.,, p. 231. (tradução livre)
34

Em todo este processo evolutivo que se estende ao longo dos últimos


duzentos anos, a técnica tem sido ao mesmo tempo condição prévia e
conseqüência da ciência. É sua condição prévia, porque amiúde uma
expansão e aprofundamento da ciência só são possíveis graças a um
aperfeiçoamento dos instrumentos de observação, recorde-se a
invenção do telescópio e do microscópio e da descoberta de raio X. É,
por outro lado, conseqüência porque, em geral, a exploração da técnica
das forças da natureza só se torna possível graças a um profundo
conhecimento do respectivo campo da experiência61.
A interdependência entre ciência e técnica é visto por muitos como
proveitosa, daí o prestígio profissional do técnico que é aquele capaz de
adaptar a ciência à prática. É no interior da valorização do conhecimento
pragmático que se insere a tecnologia. Segundo Kneller,

A tecnologia é essencialmente uma atividade prática, a qual consiste


mais em alterar do que em compreender o mundo. Onde a ciência
procura formular as leis a que a natureza obedece, a tecnologia utiliza
essas formulações para criar implementos e aparelhos que façam a
natureza obedecer ao homem. Tal como a ciência, entretanto, a
tecnologia é uma entidade imensamente complexa que consiste em
fenômenos de muitas espécies – agentes, instituições, produtos,
conhecimentos, técnicas, etc62.

Mas os teóricos da Escola de Frankfurt vêem nesta aliança um perigo para a


razão emancipadora, pois, com a tecnologia a razão passou a ser um mero
instrumento de dominação, atrelando a ciência à técnica. É o que Habermas
denomina o agir-racional-com-respeito-a-fins, ou seja, uma razão
instrumental que tem em vista o progresso científico e técnico. A razão
tornou-se pragmática e através da ciência e da técnica matematizou o real e
mecanizou a natureza, dissociando-a do homem.

Parafraseando Marcuse, o filósofo acrescenta:

Os princípios da ciência moderna foram estruturados a priori de modo a


poderem servir de instrumentos conceituais para um universo de
controle produtivo que se perfaz automaticamente; o operacionalismo

61
Citado por SOUZA, S. M. R de. Um outro olhar. São Paulo: FTD, 1995, p. 230.
62
KNELLER, G. F. A ciência como atividade humana. Rio de Janeiro: Zahar, 1980, p. 245 e 246.
35

técnico passou a corresponder ao operacionalismo prático. O método


científico que levou à dominação cada vez mais eficaz da natureza
passou a fornecer tanto os conceitos puros, como os instrumentos da
dominação cada vez mais eficaz do homem pelo homem, através da
dominação da natureza [...]. Hoje a dominação se perpetua e se estende
não apenas através da tecnologia, mas enquanto tecnologia, e esta
garante a formidável legitimação do poder político em expansão que
absorve todas as esferas da cultura.[...]63.

Habermas, analisando ainda a visão positivista de ciência e de técnica,


considera que esta produziu o tecnicismo: “ideologia que consiste na tentativa
de fazer funcionar na prática, e a qualquer custo, o saber cientifico e a técnica
que dele possa resultar. Nesse sentido pode-se falar de um imbricamento entre
ciência e técnica, pois esta, embora dependa da primeira, retroage sobre ela,
determinando seus rumos”64.

Ainda sobre a cientifização da técnica, termo usado pelo próprio


filósofo, Habermas, acrescenta:

No capitalismo, a pressão institucional para aumentar a produtividade


do trabalho pela introdução de novas técnicas sempre existiu. Todavia,
as inovações dependiam de invenções esporádicas que, por sua vez,
podiam ter sido induzidas economicamente, tendo, entretanto, ainda o
caráter de um crescimento natural. Isso mudou [a partir do século XIX],
na medida em que o progresso técnico entrou em circuito retroativo
com o progresso da ciência moderna. Com a pesquisa industrial em
grande escala, ciência, técnica e valorização foram inseridas no mesmo
sistema. Ao mesmo tempo, a industrialização liga-se a uma pesquisa
encomendada pelo Estado que favorece, em primeira linha, o progresso
científico e técnico do setor militar. De lá as informações voltam para
os setores de bens civis. Assim, técnica e ciência tornam-se a principal

63
HABERMAS, J. Técnica e ciência enquanto ideologia. In: OS PENSADORES. São Paulo: Abril
Cultural, 1983, p. 305. O significado de razão instrumental será retomado no próximo capítulo quando
abordarmos o conhecimento da tecnologia.
64
In: OS PENSADORES, Benjamim, Habermas, Horkheimer e Adorno – Vida e Obra. São Paulo:
Abril Cultural, 1983, p. XVII.
36

força produtiva, com o que caem por terra as condições de aplicação da


teoria do valor do trabalho de Marx65.

Repare que Habermas considera a cientifização da técnica como uma


nova força produtiva, posto que o “progresso técnico-científico tornou-se uma
fonte independente de mais-valia”. Segundo o filósofo frankfutiano, isso só
ocorreu graças à produção em grande escala, que exigiu pesquisa industrial
que aliasse ciência e técnica, donde ambas foram inseridas no mesmo sistema.

Habermas observa que até o séc. XIX não havia interdependência entre
ciência e técnica. É com Galileu (séc. XVII) que as ciências passam a gerir
um saber tecnicamente aproveitável, mas que só terá reais chances de
aplicação concreta a partir do séc. XIX, com a pesquisa em grande escala,
oriunda da Revolução Industrial. Deste modo, a tecnologia confere à ciência
precisão e controle nos resultados de suas descobertas e a prerrogativa não
somente de um saber destinado a facilitar a relação do homem com o mundo,
mas destinado a dominar, controlar e transformar o mundo. “O caso da
biologia genética revela como a tecnologia da física, da química, da
cibernética determinaram uma atividade interdisciplinar que resultou em
descobertas e mudanças na biologia”66.

Em síntese, a Teoria Crítica dos frankfurtianos considera que a ciência


moderna instrumentalizou a razão e escravizou o homem através do controle
lógico-tecnológico, criando a tecnocracia, onde toda a vida humana é
conduzida e determinada pelos padrões técnicos impostos pela ciência. Tudo
se submete às regras da produção tecnológica. E Marcuse acrescenta: “A
dinâmica do progresso técnico está sempre impregnada de conteúdo político.
O logos da técnica tornou-se o logos da servidão. A força da tecnologia que

65
HABERMAS, Técnica..., op. cit., pp. 330 e 331.
66
Exemplo citado por CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1998, p. 279.
37

poderia ser libertadora _ pela instrumentalização das coisas _ tornou-se um


entrave à libertação _ pela instrumentalização dos homens [...]”67.

Hoje quem dirige e controla a pesquisa científica é o poder tecnológico,


situado fora, inclusive, dos grandes centros de pesquisa, como as
universidades. Estas perderam, em grande parte, o senso de ciência como
pesquisa livre e com autonomia e se tornaram referência de pesquisas
encomendadas por centros de tecnologia, feitas, inclusive, sem que os
cientistas jamais saibam de sua finalidade.

Vale dizer aqui que, quando Habermas realiza a leitura acima descrita
sobre a dimensão ideológica da técnica e da ciência, era a década de 70,
período em que o contexto geo-político é marcado pela chamada “guerra-
fria”, cuja hegemonia política é americana, espaço situado das pesquisas de
Habermas e o lugar privilegiado de onde o filósofo observa a realidade,
sobretudo, com a subordinação das pesquisas científicas no processo de
militarização dos EUA. É o que Habermas denomina de “complexo ciência-
técnica-indústria-exército-administração”.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Do tecido aqui construído sobre a natureza da tecnologia, retomemos


alguns aspectos em vista do propósito em âmbito geral deste trabalho.
Numa sociedade em que o conhecimento especializado e tecnicista
tornou-se hegemônico, o qual representa o predomínio do fazer sobre o saber,
da aplicação sobre a reflexão, fundamental é retomar e resgatar o sentido
originário de técnica atribuído aos gregos. Vimos que a techné na Grécia
Antiga consistia no conhecimento universal aplicado à prática, com vistas à
67
MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial. Rio de Janeiro: Zahar, 1982, p. 257.
38

predominância daquele sobre este. Dela era possuidor o artífice ou artesão que
ao fabricar os produtos manufaturados (prática) detinha o conhecimento da
constituição de todo o processo de produção (conhecimento universal)68.
Ao contrário, ser possuidor da técnica hoje (ser técnico) significa tão
somente ter a habilidade de operar, monitorar a máquina, sem que seja
necessário conhecer integralmente seu processo de funcionamento. A
máquina, sim! Esta detém o conhecimento acumulado do trabalhador.
Portanto, a techné, que fora adquirida no decorrer de toda história do trabalho
humano, tornou-se trabalho objetivo da máquina, reservando-se ao homem
somente a função de operar (a máquina) e não mais a função de criar. Por
isso, segundo a visão marxista, o modo de produção capitalista representa a
perda qualitativa do trabalho humano69.
Vimos que, afora a discussão sobre o uso do termo, o fato é que nunca
chegaremos à essência da técnica ou da tecnologia, falando do que é
técnico ou do aparato tecnológico, conforme também alertou Heidegger.
Este é outro aspecto importante como conclusão desta primeira parte.
Disso decorre a necessidade de elaborar uma reflexão filosófica sobre o
que é a tecnologia, e, ao fazê-la, conclui-se que não podemos atribuir o
mesmo significado à tecnologia antes e depois da era moderna. Semelhante à
história da ciência na modernidade, a tecnologia sofre e propicia
68
O trabalho do artesão foi possível ser visto até o século XIX, quando do início da Revolução
Industrial. Bravermann descreve o artesão, nesta época, como aquele que “estava ligado ao conhecimento
técnico e científico de seu tempo na prática diária de seu ofício”. E acrescenta: “Estes artesãos eram uma
parte importante do público científico de sua época e, como norma, mostravam um interesse pela ciência e
pela cultura que ia além do diretamente relacionado com o seu trabalho”. Neste mesmo sentido,
encontramos a leitura de Landes sobre os primeiros artesãos a ocupar a função de maquinistas. Ele constata:
“Ainda mais impressionante era a preparação teórica desses homens [...]. Mesmo os maquinistas
(Millwright) ordinários, como faz notar Fairbain, eram, em geral, ‘um bom aritmético, sabia algo de
geometria, nivelamento e medição, e, em alguns casos, possuía conhecimento muito preciso de matemática
prática. Podia calcular a velocidade, resistência e potência das máquinas, podia desenhar em plano e em
seção...’ Grande parte desses ‘feitos e potencialidades intelectuais elevados’ refletiam as abundantes
oportunidades para a educação técnica em ‘povoados’ como Manchester, que iam desde as academias
dissidentes e sociedades ilustradas até os conferencistas locais e visitantes, as escolas privadas ‘matemáticas
e comerciais’ com aulas vespertinas e uma ampla circulação de manuais práticos e publicações periódicas e
enciclopédicas”. Citado por ENGUITA, Mariano F. A face oculta da escola: educação e trabalho no
capitalismo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989, pp. 119 e 120.
69
MARX, Los Grundrisse..., op.cit., pp. 497 e 498. Neste sentido conferir a análise sobre o
desenvolvimento capitalista e apropriação de saber, in: BRYAN, op. cit., p. 42.
39

transformações profundas de caráter político, econômico, social, filosófico.


Por isso mesmo, a tecnologia moderna não pode ser considerada o mero
estudo da técnica. Ela representa mais que isso, pois, quando a ciência, a
partir do renascimento, aliou-se à técnica, com o fim de promover a
junção entre o saber e o fazer (teoria e prática), nascia aí a tecnologia tal
como a conhecemos hoje.
A tecnologia é fruto da aliança entre ciência e técnica, a qual
produziu a razão instrumental, como no dizer da Teoria Crítica da Escola de
Frankfurt. Esta aliança propiciou o agir-racional-com-respeito-a-fins,
conforme assinala Habermas, a serviço do poder político e econômico da
sociedade baseada no modo de produção capitalista (séc. XVIII), que tem
como mola propulsora o lucro, advindo da produção e da expropriação da
natureza. Então, se antes a razão tinha caráter contemplativo, com o advento
da modernidade, ela passou a ser instrumental. É neste contexto que deve ser
pensada a tecnologia moderna; ela não pode ser analisada fora do modo de
produção, conforme observou Marx70. Já alertamos para este fato, mas vale
ainda lembrar os dizeres de Bastos, que aqui serve como síntese do que
afirmamos anteriormente:
A tecnologia é um modo de produção, utilizando a totalidade dos
instrumentos, dispositivos, invenções e artifícios. Por isso, é também,
uma maneira de organizar e perpetuar as relações sociais no âmbito das
forças produtivas. Assim, é tempo, é espaço, custo e venda; pois não é
apenas fabricada no recinto dos laboratórios e usinas, mas reinventada
pela maneira como for aplicada e metodologicamente organizada(grifo
nosso)71.

Seguindo esta mesma análise, encontramos a leitura de David Noble


que, apoiado na visão de Marcuse (este influenciado pelo pensamento
marxista), assim se refere: “a tecnologia moderna, como modo de produção

70
Cf item .4.2 deste capítulo.
71
BASTOS, João Augusto S. L. A. de. (Org.) Tecnologia e interação. Curitiba: CEFET-PR, 1998,
p. 13.
40

específico do capitalismo industrial avançado, foi, ao mesmo tempo, um


produto e um meio de desenvolvimento capitalista”72.
Embora a critica contundente de Rui Gama acerca destes
posicionamentos, considerando ser “discursos antitecnológicos” e que
reduzem a tecnologia ao modo de produção73, este esclarecimento nos parece
fundamental, visto que conforme tomamos o conceito, será também nossa
postura frente à tecnologia, em termos de valoração, de emissão de juízo. Isto
é, o valor que atribuímos à tecnologia necessariamente está vinculado à noção
histórica que temos dela.

Deste modo, se concebemos que a tecnologia é meramente o estudo da


técnica, existente desde os primórdios, com o surgimento do ser humano74,
com certeza, tê-la-emos como um instituto indispensável para a sociedade,
porque instransponível pelo homem. Porém, se considerarmos que a
tecnologia em sentido moderno está inserida e se produziu num contexto
social, político e econômico determinado, qual seja, o surgimento da
sociedade capitalista, então, nossa visão sobre a tecnologia e seu papel na
sociedade, certamente será outro. Primeiro, porque assim, desmitifica-se
aquele discurso em que a tecnologia é tida como um “mal necessário”, porque
existe intrinsecamente com a existência humana. Ora, pelo argumento
meramente da anterioridade histórica, neste caso, dilui-se esta concepção.

72
NOBLE, D. América by design. New York, Oxford University Press, 1980, p.33. Apud: GAMA,
R. A tecnologia e o trabalho na história. São Paulo: Edusp, 1987, p. 19
73
Ibid. A crítica do referido autor é assim explicitada: Colocada a questão em termos marcusianos,
a crítica da sociedade burguesa cede lugar à crítica da tecnologia e da ciência; o responsável
historicamente não é o capitalismo, mas a máquina, a tecnologia, a ciência. É fácil constatar a freqüência
com que essa formulação aparece, explícita ou implicitamente nos discurso antitecnológicos de diversos
matizes. Diferentemente da posição de Ruy Gama, consideramos que a posição de Noble não encerra a
responsabilidade somente na tecnologia, pois ele afirma que a tecnologia não é só meio, mas também produto
da sociedade capitalista. Portanto, ele admite uma relação recíproca entre capitalismo e tecnologia, enquanto
forma de subsistência histórica. Em outros termos, corroboramos com Noble, colocando a seguinte questão:
tendo em vista que a mola propulsora do sistema capitalista é o lucro, é possível pensar a sociedade
capitalista sem o desenvolvimento tecnológico nos moldes do que aí está, advindo do atrelamento entre
ciência e técnica a partir da época moderna?
74
A compreensão que “a tecnologia é tão antiga quanto o próprio homem” (FORBES) é analisada
por GAMA, R. A tecnologia e o trabalho na história. São Paulo: Edusp, 1987, p. 14 e ss.
41

Visto que se a tecnologia da forma como a concebemos hoje surgiu em certo


período histórico, logo, dado a sua historicidade ela não se constitui como
inerente à condição humana desde sempre. Se assim o é, é historicamente e
não essencial ou substancialmente.

Parece-nos que este ponto de partida configura-se elementar para o


nosso propósito, pois, consideramos que na gênese da discussão sobre a
natureza da tecnologia a utilização
de conceitos meramente semânticos não nos garante a propriedade de
argumentação acerca do assunto. Por isso, entendemos que tal postura
metodológica é insuficiente para elucidar o que realmente significa
tecnologia, pois necessário é identificar a que tecnologia estamos nos
referindo.
Tal entendimento, desmistifica a concepção (de caráter essencialista)
de que a tecnologia é um fenômeno inerente à condição humana, tão antiga
quanto à técnica. A segunda motivação, é que nos faz perceber a necessidade
de dirigir a razão (o pensar) para a emancipação do homem e não para
sua escravidão, como ocorre na razão instrumental, conforme a avaliação
dos frankfurtianos. O terceiro motivo é conseqüência do anterior, pois,
conduzir a razão para a emancipação, significa postular a autonomia da
ciência, que nos tempos modernos tornou-se escrava da tecnologia. A
produção do pensamento livre e autônomo (sem querer aqui pretender
neutralidade científica), é condição sine qua non para redefinir qual a função
social da ciência, da técnica e da tecnologia.
O panorama da sociedade tecnológica na atualidade nos credencia a
postular tais
razões e necessidades. Passados mais de três séculos, já temos condições
históricas suficientes para avaliar as significações da tecnologia moderna que
plasmou a sociedade como industrial, pós-industrial e, agora, diz-se da
42

sociedade informática. Os símbolos semióticos criados cinematograficamente


como representação social estão aí através de Blade Runner, Matrix,
Inteligência Artificial, dentre outros. E, segundo a avaliação de alguns
pensadores da atualidade como: Robert Kurz, Arrighi, Ramonet, Boaventura
Santos, vivemos hoje o “colapso da modernização”75. A começar pela própria
confiança absoluta na ciência que emanciparia o homem de toda escravidão,
obscurantismos e medo.
De fato, isso não ocorreu. O que constatamos hoje é a escravidão do
próprio homem pelas suas invenções e descobertas tecnológicas, só possíveis
graças à aliança entre ciência e técnica. Outro fato ajuda-nos a ilustrar o que
avaliam estes autores. Nunca na história da humanidade tantas pessoas
morreram de fome, na miséria ou pela violência. A constatação está nos dados
apontados por Boaventura76. O próprio Hobsbawn, ao tecer a história do
século XX, considera que vivemos a era dos extremos,77 devido aos
paradoxos que se nos apresentam. A começar pela próprio avanço tecnológico
de um lado e o extermínio de culturas e povos (seja pela miséria, seja pela
guerra) de outro lado.

Disso tudo concluímos que a tecnologia não é neutra. Ela é atividade cuja
identidade é histórica e não instransponível ou determinada desde
sempre. E sua identidade depende desta avaliação. E porque é um
fenômeno histórico, outro pode ser o entorno ou a “natureza” que
podemos dar a ela.

75
A expressão constitui o próprio título da obra de Robert Kurz.
76
SANTOS, B. S de. Crítica da razão indolente contra o desperdício da experiência. São Paulo:
Cortez, 2000, p. 22 e ss.
77
HOBSBAWN, E. A era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Cia das Letras, 1995.