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DESCENTRALIZAÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DE POLÍTICAS

Profa. Dra. Rita de Cássia Oliveira

Já no início do texto postado na semana anterior, Sarmento (2012) toca num


problema central no debate sobre as políticas educacionais no tempo presente. A autora
inicia o seu texto inquirindo o dilema de “centralizar ou não as políticas da Educação”.
Qual a importância dessa preocupação? De fato, o autoritarismo é tendenciosamente
centralizador (OLIVEIRA, 2007), limita a participação, a autonomia local e impõe
regras construídas pelo auto. Historicamente, essa perspectiva orientou a política no
Estado brasileiro até que a abertura à participação contribuiu para a criação de caminhos
que levaram à negociações mais democratizantes, desde o final da década de 1970.

A imposição do poder político centralizado é própria de ditaduras e à


descentralização corresponde a criação de novas possibilidades de participação dos
governos locais nos rumos da política nacional. Abordando as políticas atuais no tempo
presente, Sarmento (2012) discorre sobre a centralização no sentido dos usos das
atribuições estatuídas para a União, enquanto nível de governo da república federativa
do Brasil, por parte do governo federal. Trata-se da tendência recente, investigada por
Oliveira (2014), do aprofundamento das ações da União no cumprimento da sua
atribuição suplementar de apoiar, tecnicamente e financeiramente, os sistemas de ensino
dos entes federativos subnacionais. Este aspecto será estudado de forma pormenorizada
na última unidade de estudos desta disciplina.

Com a centralização do poder na esfera da União, a outra face da centralização


seria a descentralização. Maria Hermínia Tavares de Almeida (2005) considera que a
descentralização

é um termo ambíguo, que vem sendo usado indistintamente para descrever


vários graus e formas de mudança no papel do governo nacional por meio de:
a) transferência de capacidades fiscais e de decisão sobre políticas para
autoridades subnacionais; b) transferência para outras esferas de governo de
responsabilidades pela implementação e gestão de políticas e programas
definidos no nível federal e c) deslocamento de atribuições do governo
nacional para os setores privado e não-governamental (ALMEIDA, 2005, p.
30).
Por isso, Almeida (2005, p. 30) explicita que a descentralização ocorre quando
há “transferência de autoridade e responsabilidade, no que diz respeito a funções
públicas, do governo central para governos locais”, ao que se alinha Arretche (2011, p.
16) quando analisa a implementação de políticas no contexto da prática e complementa
tal conceito considerando ser a descentralização a “institucionalização no plano local de
condições técnicas para a implementação de tarefas de gestão de políticas sociais”, após
a referida transferência de autoridade e de responsabilidades.

Em sua análise dos processos de municipalização, Oliveira (1999, p.14) mostrou


que institucionalizar políticas no plano local sem o correspondente apoio para
desenvolver as tarefas propostas caracteriza a desconcentração, que é um conceito
diferente de descentralização. Na desconcentração a União transfere atribuições aos
governos locais, sem, no entanto, dar-lhes o apoio material e institucional necessário
para o sucesso das políticas a serem desenvolvidas. Na desconcentração há delegação de
funções do centro para o local, objetivando assegurar a eficácia do poder central. A
municipalização do ensino foi intensamente induzida por esta via Oliveira (1999, p.14).

Na descentralização há busca da eficácia em relação ao poder local. Nesse


contexto ganha destaque a autonomia que, mais do que um interesse do poder público
local, é uma exigência tendo em vista o aspecto organizacional e administrativo dos
sistemas de ensino e das escolas públicas que os integram.

Estudamos na semana anterior as competências dos entes federativos e pudemos


perceber que, pela natureza do Estado Federativo, a União tem atribuições não somente
amplas, mas também centralizadoras. Os estados e municípios, além de suas atribuições,
têm institucionalizado a sua autonomia como entes federativos, assim podem legislar e
decidir sobre a direção política em acordo com os interesses dos governos locais. Por
isso, a descentralização corresponde ao status quo dos estados e dos municípios,
enquanto entes federativos autônomos.

Embora a União tenha atribuições amplas e seja função do Estado induzir


políticas públicas educacionais, a implementação delas sempre ocorre no plano local, ou
seja nos estados e nos municípios. É nesse processo que emerge a dialética entre a
centralização e a descentralização, afastando-se de qualquer sentido maniqueísta, ao
contrário, exigindo a compreensão das competências e atribuições dos entes federativos
e de conceitos importantes que ajudam a caminhar em direção ao contexto da prática,
quando são implementadas as políticas da União, dos estados e dos municípios e de
onde emergem as demandas de formulação e reformulação dessas políticas, ou seja, das
leis.

Já no sétimo período e, portanto, alunos de diversas disciplinas que propõem ou


já propuseram estudar as políticas públicas, o seu planejamento e a sua gestão, devem
ter lido muitos textos que discorrem sobre a descentralização das políticas. Convidamos
vocês a trazerem, também, as suas reflexões sobre os textos já estudados em outras
disciplinas para o enlace com as reflexões suscitadas pelos estudos realizados nesta
disciplina: Educação Brasileira: legislação e sistema.

No que diz respeito ao estudo da legislação educacional, destacamos a


importância de conhecer de forma pormenorizada as seguintes orientações normativas
estatuídas: artigo 211 da CRFB de 1988 e LDBEN de 1996, título IV todo. Dos artigos
15 a 20 – sistemas na LDBEN, a lei chega a estabelecer como os recursos chegam nas
escolas. Nos desdobramentos dessa discussão é que conseguimos analisar o impacto da
lei na organização dos sistemas de ensino. Vamos começar a pensar nesses aspectos?

REFERÊNCIAS

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