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Muitos anos mais tarde, noticiou-se que o cérebro de Ishi tinha sido

nviado ao Instituto Smithsoniano de Washington, D.e., onde perma-


eceu esquecido por décadas. Em 1999, uma união de grupos interes-
ados, incluindo o Comitê Cultural Nativo Americano da Cidade de
utte, localizou o cérebro conservado. Seguiu-se uma acalorada discus-
.10 em círculos antropológicos sobre o que fazer e o que pensar, em
retrospectiva, dos acontecimentos que cercaram a morte de Ishi quase
...m século antes. Em 2000, líderes dos grupos de Redding Rancheria e
_ it River, que alegam descender dos yana, ganharam posse do cérebro
ara devolvê-lo à Califórnia e enterrá-lo com as cinzas exumadas de Ishi
em um local secreto. Todo o episódio, que se estende por nove décadas,
atesta a drástica mudança de atitudes em relação à tutela do passado
indígena americano ocorrida desde a época de Kroeber .

.lfargaret Mead e Ruth Benedict


CONFIGURACIONISMO -

À medida que se desenvolveu a Antropologia Cultural Busca de padrões ou


configurações culturais,
Americana, a busca de padrões culturais lançada por Kroeber,
com frequência na
por vezes chamada CONFIGURACIONISMO, deu uma guinada linguagem da Psicologia.

para tornar-se PSICOANTROPOLOGIA, contribuição puramente


. '"r. I . I· d
amencana à recria Antropo ógica. Essa esco a, enraíza a no
PSICOANTROPOLOGIA -

Antropologia voltada para


ensinamento de Boas de que cultura é um fenômeno mental, as relações entre cultura e

foi popularizada por seus discípulos mais famosos, no caso personalidade.

discípulas, Margaret Mead e Ruth Benedict, e assumiu no-


vos rumos com antropólogos que reagiram à psicologia freudiana.
Os primeiros psicoantropólogos tinham curiosidade pela relação
entre cultura e personalidade, a saber, como os indivíduos ACULTURAÇÃO - Processo

contribuem para a cultura e como, através da ACULTURAÇÃO, de aquisição da cultura


por um indivíduo, em geral
a cultura contribui para os indivíduos ou os molda. Os psi- durante o crescimento.

coantropólogos entenderam que essa relação difere de cul-


tura para cultura. Sob a influência de Boas, começaram a incluir em seu
campo de trabalho e em seus escritos observações sobre os sentimentos,
atitudes e outros estados psicológicos humanos. A Antropologia ficou
mais viva e envolvente ao adquirir um rosto humano.

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Margaret Mead (1901-1978) - Defensora destacada do "relativismo cultural" e mais famosa
antropóloga americana de meados do século XX.

A antropóloga primordialmente responsável por essa transforma -


foi Margaret Mead (1901-1978). Menina precoce com pais de orient -
ção acadêmica, Mead foi criada na Filadélfia, frequentou faculdade di.-
rante um ano no Meio-oeste Americano, rumando então para o le r,
em busca de uma educação mais cosmopolita no Barnard College, :-
liado à Universidade Colúmbia. Com ambições de poetisa e escritor
abandonou a literatura ao decidir que lhe faltava talento para o suce -
so comercial de público e passou a gravitar em torno de Boas e u
colega dele, Ruth Benedict, que a convenceram de que a Antropolo-
gia "importava". Boas estava profundamente envolvido no esforço d
usar a Antropologia para fazer frente às doutrinas -da hereditariedade
entre as quais a psicologia freudiana, que crescia em popularidade no

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meios acadêmicos. Freud havia estabelecido que certas fases do desen-
.olvimento psicológico humano eram fixadas pela natureza e universais.
Boas discordava, achando que a doutrina de Freud era determinada pela
cultura, isto é, etnocêntrica. Orientou Margaret Mead a selecionar uma
·ase psicológica do desenvolvimento do indivíduo e a estudá-Ia numa
cultura não ocidental, esperando demonstrar que sua manifestação lá
iferia de como isso se dava no Ocidente. Mead selecionou (ou acabou
:icando com) a adolescência feminina no Arquipélago de Samoa, no Pa-
cííico Sul. Morou lá por vários meses com a família de um missionário,
venturando-se pelas aldeias para entrevistar um número selecionado de
dolescentes samoanas. O resultado desse pioneiro trabalho de campo
:oi o primeiro dos seus inúmeros livros, Coming of Age in Samoa (Che-
undo à maioridade em Samoa, 1928), um clássico da Antropologia de
:odos os tempos.
A mensagem desse livro era de que a adolescência feminina no ar-
uipélago era uma transição psicologicamente sem distúrbios da infân-
_ a para a maturidade, durante a qual as jovens eram poupadas das pro-
ações e tribulações "normais" do despertar sexual porque, ao contrário
garotas norte-americanas, as samoanas tinham sido sexualmente
_ rmissivas enquanto meninas. A conclusão era de que a adolescência
- -o era perturbada por natureza hereditária. E a inferência era de que
- adolescentes americanas seriam menos perturbadas se os americanos
atassem uma atitude mais permissiva em relação ao sexo. O livro de
ead foi um sucesso imediato de vendas, atraindo a atenção pública por
s declarações ousadas e controvertidas. E foi a largada de uma longa
arteira como porta-voz das causas liberais, de pregação pela tolerân-
e o entendimento e de como o conhecimento de comportamentos
óticos em lugares distantes dava a oportunidade de refletir sobre as
: rudes consideradas "normais" em seu próprio país. Tornou-se assim
mais famosa antropóloga do século XX e aquela primordialmente res-
nsável por dar à Antropologia a reputação do relativismo cultural.
Outros livros fundamentais de Mead foram Crescendo na Nova
-;úné (1930) e Sexo e temperamento em três sociedades primitivas (1935),
m exemplos etnográficos de como os papéis sexuais são culturalmen-
aprendidos e, da mesma forma que a adolescência, não programados
Ia natureza. Em parte do seu trabalho inicial, Mead teve a colabo-

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ração do segundo marido, o antropólogo australiano Reo Fort -
mais tarde trabalhou com o terceiro marido, o antropólogo brit
e pesquisador em Psicologia Gregory Bateson (o primeiro mari
um pastor protestante convertido à Arqueologia, Luther Cres
Mead também manteve um relacionamento íntimo com Ruth Ben
que a encorajou a persistir e foi sua conselheira em épocas de afl;
Em 1982, quatro anos após a morte de Mead, o etnógrafo austra
Derek Freeman (1916-2001) publicou em seu livro Margaret Mead
Samoa: The Making and Unmaking of an Anthropological Myth um
lanço crítico da pesquisa que ela realizou no Pacífico Sul, a que se se ....
em 1999 The Fateful Hoaxing of Margaret Mead: A Historical Analysi.
her Samoan Research. Freeman repreendia Mead (postumamente)
ser superficial no método e não ter estudado a história de Samoa

Ruth Benedict (1887 -1948) - A "configuracionista" Benedict foi um dos expoentes teóricos
da Escola Americana da Cultura e Personalidade.

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egundo ele incluía violência e tumultos sexuais, desmentindo o retrato
tnográfico fornecido por Mead de um pacato paraíso sexual. Margaret
_Iead, na visão de Freeman, foi um produto ingênuo de Boas, que a
mpelia com força excessiva a fazer pesquisas que resultassem como ele
_ueria. Os livros de Freeman desencadearam um vigoroso e prolongado
ebate entre seus defensores e detratores e os de Mead, criando uma
ndústria de quintal de polêmica acadêmica.
Quando Mead chegou à Universidade Colúmbia, Ruth Benedict
·887-1948) já estava lá. Ela havia estudado Literatura no Vassar Colle-
lecionado na escola secundária e, da mesma forma que Mead, aban-
~ nado as aspirações a viver como escritora e poetisa. Procurando dar
ovo sentido à vida, matriculou-se num curso de Antropologia na Nova
z; cola para a Pesquisa Social de Nova York, onde conheceu Franz Boas.
"\.hando que a Antropologia era uma forma de expressar sua criativi-
de e um meio intelectual de explorar os fundamentos de sua própria
nsaçâo de alienação cultural, decidiu fazer carreira na disciplina. Rea-
zou trabalho de campo sob orientação de Kroeber, que apresentou-lhe
onfiguracionismo, e aí voltou à Colúmbia para lecionar com Boas,
udando-o a treinar Mead e outros estudantes que se destacavam.
Assim como Mead, ela estava interessada na relação entre cultura e
_ rsonalidade. Mas enquanto Mead descrevia as personalidades cultu-
-::Jmente condicionadas de indivíduos, Benedict descrevia as persona-
Iades de culturas inteiras. Segundo ela, cada cultura tinha GESTALT _ Configuração

ja própria configuração ou GESTALT de personalidade. Ilus- psicológica atribuída por

+açôes forçadas dessa abordagem foram o foco do seu livro alguns psicoantropólogos
a toda uma cultura .
. drões de cultura (1934), um venerado campeão de vendas
rante décadas. Nessa obra ela contrasta as personalidades de três cul-
ras: os kwakiutl da costa noroeste do Pacífico, os zuni do sudoeste
ericano e os dobuans do Pacífico Sul. Tomando os nomes de emprés-
mo ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), caracterizou
kwakiutl como "dionisíacos" porque pareciam megalomaníacos e da-
a excessos, encenando visões inquisitivas com autotortura e libações
.rimoniais com consumo abusivo e destruição de bens materiais. Os
_ni, ao contrário, eram "apolíneos" porque pareciam pacatos e contidos
Ia moderação, com cerimônias tranquilas que refreavam a licenciosida-
. Baseada em pesquisa etnográfica de Reo Fortune, ela caracterizou os

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dobuans como "paranoides" porque pareciam preocupados com brui
ria e sempre suspeitando de roubo de batata-doce uns dos outros. P
Benedict, esses três casos ilustravam o poder da cultura de moldar pers
nalidades normativas divergentes, resultando em definições divergen
de "desvio". E, de maneira tipicamente boasiana, concluía que, poden
uma cultura considerar desviante o que outra considerava normativo,
desvios não eram determinados pela natureza.
Depois de Padrões de cultura, Ruth Benedict continuou a execu
os mandamentos de Boas para a Antropologia promovendo o rela--
vismo cultural e combatendo o racismo e o etnocentrismo tanto in -
lectual quanto politicamente. Para mostrar que o conceito de raça
cientificamente frágil e politicamente destrutivo, escreveu Raça: ciên
e política (1945), e durante a Segunda Guerra Mundial uniu-se a outr
antropólogos para ajudar a derrotar o nazismo e as potências do Eix
trabalhando para o governo americano em Washington. Resultado de
CARÁTER NACIONAL _ esforço moral patriótico foi seu livro O crisântemo e a espa
Personalidade dominante (1946), estudo do CARÁTER NACIONAL japonês. No perío
de uma nação, segundo da Segunda Guerra, outros estudos do caráter nacional-
alguns psicoantropólogos.
vezes chamados de ESTUDOS DE CULTURA A DISTÂNCIA porq
ESTUDOS DE CULTURA A tinham que ser realizados sem a ajuda do trabalho de ca -
DISTÂNCIA - Estudos
po - perderam credibilidade porque os antropólogos fazi
de cultura sem
apoio no trabalho de generalizações exacerbadas sobre a capacidade de a person -
campo, praticados lidade infantil moldar o comportamento cultural dos ad -
por psicoantropóloqos
americanos no periodo da
tos. Um caso de triste fama foi o de Geoffrey Gorer, q
Segunda Guerra Mundial. atribuiu a cultura "obsessivo-compulsiva" do Japão ao tr -
no prematuro para o uso do vaso sanitário e a cultura "m -
níaco-depressiva" da Rússia ao uso prolongado da fralda na iníânci
Esse tipo de aviltamento teórico da abordagem psicológica era causa
em parte pela aplicação descuidada da Psicologia Freudiana.
Mead e Benedict foram as duas antropólogas mais famosas da pn-
meira metade do século XX. O surgimento da Antropologia Feminis
no final do século produziu um interesse renovado em suas vidas, ép
ca e amizade. O interesse estendeu-se então a outras estudantes me-
nos conhecidas de Boas, como a folclorista e escritora afro-america '
Zora Neale Hurston (1891-1960). Mead, Benedict, Hurston e outro-
antropólogos são hoje objeto de inúmeras biografias (mais de 10 apenas

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e Mead) que exploram como indivíduos que se sentem culturalmen-
te alienados podem pender para a Antropologia e nela "se encontrar",
chegando mesmo, ainda que inconscientemente, a modelar a disciplina
egundo as suas próprias necessidades psicológicas.

desenvolvimento da Antropologia Psicológica

Psicoantropólogos como Margaret Mead e Ruth Benedict sabiam


Psicologia Freudiana, mas não queriam utilizá-Ia como base do seu
rabalho. Mesmo assim, os antropólogos do período boasiano achavam
rtos elementos da teoria de Freud instigantes. A Antropologia Psico-
ica entrou em uma nova fase quando os antropólogos criticaram a
eoria Freudiana, rejeitando-a na maior parte, mas incorporando alguns
ios seus fundamentos dentro de uma perspectiva teórica revista.
Sob vários aspectos, a Teoria Freudiana representava o próprio tipo
antropologia que Franz Boas e seus discípulos estavam tentando su-
raroAs ideias de Freud eram altamente especulativas, supergeneraliza-
, evolucionistas, fiéis à hereditariedade, sexistas e, ao equiparar adul-
não ocidentais às crianças ocidentais, racista e etnocêntrica. Boas
'ou Mead para tentar refutar a proposição de Freud de que a confusão
icossexual adolescente era universal. O antropólogo social britânico
onislaw Malinowski tinha em mente um objetivo parecido quando
monstrou que o Complexo de Édipo era irrelevante para os ilhéus
Trobriande, no Pacífico Sul, porque no seu sistema matrilinear de
rentesco a fonte de autoridade sobre os filhos era "irmão VARIAVEIS - Unidades de

análise cuidadosamente
mãe", não "pai". Esse tipo de pesquisa mostrava que, se
definidas que podem
~ma parte da Teoria Freudiana devia ser salva para a An- ser manipuladas

pologia, todo o edifício teórico teria que ser reconstruí- estatisticamente e produzir
correlações.
com VARIÁVEIS interculturais.
Ao mesmo tempo em que consideravam a Teoria Freudiana obje-
-el e anacrônica, os antropólogos boasianos achavam-na estirnulan-
e envolvente. Da mesma maneira que a Antropologia, a Psicologia
- udiana era iconoclástica, forçando as pessoas a analisar pensamentos
.:omportamentos que aceitavam no geral como "normais". E era um
rpo de ideias sobre a personalidade, matéria em que a Antropologia

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não podia reivindicar qualquer conhecimento profundo. Os psicoantr -
pólogos foram atraídos para a Psicologia Freudiana na década de 19-_
e, quando isso aconteceu, tiveram que mudá-Ia em aspectos fundam
ANTROPOLOGIA FREUDIANA - tais. Abandonaram a explicação de Freud sobre a evolu ~-
Escola da Antropologia d d f f d
Psicológica que incorporou
psíquica, eprecian o sua ên ase no sexo; re un iram
certos elementos da concepções num molde de relativismo cultural e focar
psicologia de Sigmund no desenvolvimento da personalidade normal, em vez
Freud. Também
chamada Antropologia patológica. O resultado foi uma nova fase da Antropoloc
Psicodinâmica. Psicológica, uma fase freudiana, caracterizada pelo estu
do desenvolvimento da personalidade em comparação ir-
INSTITUIÇOES
CULTURAIS
PRIMÁRIAS
- tercultural, com uma forte ênfase na importância da prim -
Em Antropologia ra infância.
Psicodinâmica, instituições
que afetam a criação
O principal arquiteto teórico da ANTROPOLOGIA FRE -
infantil e que moldam DIA A foi Abram Kardiner (1891-1981), um psicanali -
a estrutura básica da
que estudou com Freud, mas concluiu que as ideias do me-
personalidade.
tre eram culturalmente condicionadas - em parte produ
INSTITUIÇOES
CULTURAIS da própria infância de Freud - e tinham que ser revista
SECUNDARIAS
- Em
Para realizar essa tarefa, organizou um seminário de an-
Antropologia
Psicodinâmica, instituições tropólogos em Nova York no final da década de 1930. E -
sociais que são projeções tre os principais participantes estavam os boasianos Ru
da estrutura básica da
personalidade e que
Benedict, Ruth Bunzel, Edward Sapir e Cora Du Bois.
ajudam as pessoas a lidar objetivo era desenvolver um arcabouço teórico para inve -
com o mundo.
tigar como diferentes experiências culturais alimentava
ESTRUTURA
BAslCA diferentes tipos de personalidade. A partir das conclusõ
DAPERSONALIDADE
- do seminário, Kardiner montou um modelo de pesqui
Em Antropologia
com três componentes principais: INSTITUIÇÕES CULTURAl
Psicodinâmica, a
personalidade nuclear, PRIMÁRIAS, INSTITUIÇÕES CULTURAIS SECUNDÁRIAS e ESTRUTL-
moldada pelas instituições RA BÁSICA DA PERSONALIDADE. Instituições primárias eram a
culturais primárias e
projetada nas instituições
envolvidas na criação infantil, por exemplo nas práticas d
culturais secundárias. alimentação e desmame e no atendimento em creches. In -
tituições secundárias eram as principais instituições sociai
PSICODINÂMICA
- Relativa
políticas e religiosas. No modelo de Kardiner a estrutura bá-
à Escola de Antropologia
Psicológica, que adotou sica da personalidade era moldada pelas instituições primá-
certos elementos da rias e depois "projetada" sobre as secundárias, cuja função
Psicologia de Sigmund
Freud; com frequência
era ajudar as pessoas a enfrentar o mundo, pintando-o em
chamada de Antropologia cores familiares para a adaptação cultural. Kardiner chamou
Freudiana.
essa abordagem de PSICODINÂMICA.

120
h

f,
fi.

-'h j

Desenhos de jovem da Ilha de Alor - Cora Du Bois (1903-1991) usou esses desenhos do jovem
Atamau Maugliki, de 14 anos, para interpretar a "personalidade básica" de Alor: a) coqueiro;
b) samambaia; c) espirito maligno; d) estatueta de espirito guardião da aldeia; e) espirito familiar
maligno de vidente; f) samambaia; g) altar dos espíritos; h) flor do falcoeiro; i) estatueta de espírito
guardião da aldeia; j) escultura de barco dos espíritos.

A tarefa da pesquisa psicodinâmica era avaliar de forma independen-


as instituições primárias e secundárias e a estrutura básica de perso-
alidade, correlacionando-as então segundo o modelo de Kardiner. Para
"aliar a estrutura básica de personalidade os antropólogos psicodinâmi-
usavam testes clínicos como o de Apercepção Temática (TAT) e o de
orschach ou da "mancha de tinta" para fazer os informantes "projeta-
- m" suas personalidades no papel. A primeira pesquisa sistemática desse
- . o foi feita por Cora Du Bois (1903-1991) na Ilha de Alor, nas Índias
rientais Holandesas. Ela coletou perfis de Rorschach, desenhos inían-
e histórias da vida psicológica que enviou a Nova York para avaliação

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de especialistas clínicos. Eles concluíram que a personalidade básica
Ilha de Alor era superficial, indiferente e apática. Como se desenvol
essa personalidade básica? Segundo Du Bois, ela se desenvolvia a par..:
da experiência de desprezo materno na primeira infância, causada
necessidade das mães de passarem longos períodos longe dos filhos
dando das roças. Isso ensinava as crianças a não esperar que suas nec -
sidades emocionais fossem prontamente satisfeitas, com a consequên
posterior de que a baixa expectativa se projetava na religião, caracteriza-
da por divindades indiferentes e imagens produzidas descuidadamen
Moldada por essa projeção, a religião podia ajudar as crianças a se adap -
rem ao desprezo materno. The People of Alar (1944), o livro de Du Boi
foi o ponto alto teórico da Antropologia Psicodinâmica.
Os pontos baixos teóricos foram os estudos de caráter nacional .
período da Segunda Guerra, principalmente os de Geoffrey Gorer sobr
o Japão e a Rússia, que marcaram o fim da mistura séria de Antropologia
e Teoria Freudiana. A partir da década de 1950, inovações nos método
de pesquisa em Ciência Social, sobretudo o uso crescente da Estatísti-
ca, levaram os antropólogos a se distanciar da Psicologia Freudiana,
qual, do ponto de vista da ciência empírica, parecia eivada de conceito
maldefinidos e impossíveis de investigar. Uma nova geração de psicoan-
tropólogos começou a purgar a Antropologia desses conceitos e a usar
a estatística para dar precisão às generalizações culturais transversai .
O esforço pioneiro nessa nova direção foi Child Training and Perso-
nality: A Cross-Cultural Study (1953), de John Whiting e Irvin Child.
que geraram dados em cortes transversais de cultura a partir de fonte
como os Arquivos da Área de Relações Humanas da Universidade Yale
e os manipularam estatisticamente para revelar importantes associaçõe
culturais. Um exemplo de associação foi descrito por Marvin Harri
em The Rise of Anthropological Theory, envolvendo os seguintes traços:
prolongados períodos de aleitamento materno; prolongada proibição de
relações sexuais pós-parto; poligamia, prática de um homem ter mais de
uma mulher; as crianças dormindo exclusivamente com a mãe; patrili-
nearidade e patrilocalidade, determinação da genealogia e da residência
pós-conjugal segundo a linha masculina; e estritos rituais de puberdade
masculina, muitas vezes severos.

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Em estatística, a associação não prova necessariamente SISTEMAS DE MANUTENÇÃO -

No modelo antropológico
ausalidade, mas pode sugeri-la e ajudar a estreitar a
psicológico de John
uisa das relações de causa e efeito. Os antropólogos Whiting e Irvin Child,

zrn capazes de ligar os traços descritos por Whiting e equivalentes às instituições


culturais primárias de
d numa cadeia causal de eventos que começa com a ne- Abram Kardiner sem
.idade de prolongados períodos de amamentação para componentes freudianos.

rir a dieta proteica e termina com a necessidade de for-


SISTEMAS PROJETiVOS - No
rituais de puberdade masculina para cortar a íntima liga- modelo antropológico

- do filho com a mãe em culturas de dominação masculi- psicológico de John


Whiting e Irvin Child,
hiting e Child modificaram o modelo psicodinâmico equivalentes às instituições
Kardiner e renomearam seus principais componentes. culturais secundárias
de Abram Kardiner sem
sim, as instituições primárias viraram SISTEMAS DE MANU-
componentes freudianos.
'çÃo, especialmente as que afetam as práticas de criação
:antil; as instituições secundárias viraram SISTEMAS PROJE..> VARIÁVEIS DE PERSONALIDADE -

No modelo antropológico
OS; e a estrutura básica de personalidade virou VARIÁVEIS
psicológico de John
PERSONALIDADE. Whiting e Irvin Child,
equivalentes á estrutura
os 25 anos entre Coming of Age in Samoa e Child Trai- básica de personalidade
g and Personality, a Antropologia Psicológica Americana de Abram Kardiner sem

-oluiu por fases pré- freudiana, freudiana e pós- freudiana. componentes freudianos.

_'m ramo da Antropologia que começara como tentativa


manística e quase literária de tornar os americanos mais tolerantes
m os diferentes tipos de cultura e personalidade acabaria por se mo-
lar, em meados do século XX, segundo o esquema psicologicamente
esligado" das Ciências Sociais. Ao longo de todas essas transforma-
'ões, a investigação da cultura e da personalidade permaneceu uma con-
- ibuição exclusivamente americana à Teoria Antropológica .

.Antropologia Estrutural Francesa

Enquanto Franz Boas e discípulos divulgavam seus ramos da An-


rropologia na América do Norte, outras influências teóricas operavam
na França e na Grã-Bretanha. O evolucionismo cultural clássico na
verdade nunca pegou na França. Em vez disso, a influência seminal e
eneralizada de Émile Durkheim garantiu que, ao assumir sua identida-
de no novo século, a Antropologia Francesa o fizesse em continuidade
ao legado do século XIX e não como uma ruptura. Racionalista tanto

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