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SOllPSISMQ- Ideia de que histórico expõe-se à crítica de deixar aberta a porta ao o

o eu individual é a única
curantismo, ao SOLIPSISMO e ao relativismo extremo - to
realidade e que o mundo
exterior só existe na nossa em firme oposição às pretensões universalistas do estru:
imaginação. ralismo. Ainda persiste o apelo da ideia de que sequên
padronizadas de significado simbólico estão em relac
observável e "decifrável" com outras, tendo muitos antropólogo
esforçado em adaptar esse aspecto do estruturalismo francês a u
etnografia mais sensível tanto contextual quanto historicamente.
Pode-se, pois, indagar da validade dessas críticas e até que po
foram aceitas pelos teóricos da Antropologia. Como observou J
Robbins num en aio recente, tais críticas equivalem a "versões ob
nadamente simplistas da distinção quente/frio" que ignora os ar
mentos mais sutis de Lévi-Strauss em relação à mudança social e h -
tórica. Na opinião de Robbins, a perspectiva supostamente a-histón
de Lévi-Strauss deve ser considerada uma meditação sobre "o perigo
universalizar um modelo cultural ocidental da natureza e o valor da m -
dança como constructo teórico". Por essa razão o seu legado e o
estruturalismo francês devem ser vistos como contribuiçã
ESTRUTURAliSMO
- Na
Antropologia Social a uma crescente consciência disciplinar sobre a necessida
Britânica, preocupação de cautela ao exportar modelos ocidentais de sociedade
sincrônica com a
estrutura social, por vezes
cultura, contribuição que seria de grande importância déc -
chamado morfologia das mais tarde.
social. Na Antropologia
Estrutural Francesa,
preocupação com as
fonmas elementares das
Antropologia Social Britânica
mentalidades e culturas.
Os mais destacados antropólogos britânicos nas prime -
FUNCIONALISMO
- Na
ras décadas do século XX foram Alfred Reginald Radcliff -
Antropologia Social
Britânica, tanto a teoria -Brown e Bronislaw Malinowski, cujas fortes personalidad
de Radcliffe-Brown sobre e intelectos infundiram à Antropologia Britânica uma agen-
como as partes de uma
sociedade contribuem
da teórica muito diferente da que havia consumido o esfor-
para o todo quanto a teoria ço de seus antecessores no século XIX. Trabalhando separa-
de Bronislaw Malinowski
damente e, no caso de Radcliffe-Brown, sob a influênci
sobre como a cultura
responde às necessidades de Émile Durkheim, eles fundaram a escola conhecid
biológicas de maneira
como Antropologia Social Britânica. Os "ismos" fulcrai
hierarquicamente
organizada
dessa escola foram o ESTRUTURALISMO, o FU CIONALISMO e.

136
r vezes, o FUNCIONALISMO ESTRUTURAL, baseados, em es- FUNCIONALISMO ESTR

Na Antropologia SOCIal
ial quanto à obra de Radcliffe-Brown e seus discípulos,
Britânica, preocupação
ANALOGIA ORGÂNICA de Durkheim, conceitualização da sincrônica com a estrutura

iedade como um organismo. e a função sociais.

Analogias entre fenômenos sociais e biológicos surgi- ANALOGIA ORGÂNICA-

em durante a Revolução Científica, que inspirou os cien- Comparação da sociedade

. .
tas sOCIaISa mo delar seus projetos
e ar seus oroi nas ..
ciências naturais,. a um organismo.

floresceram depois de Darwin, que atraiu a atenção tan- MORFOLOGIA SOCIAL - Na


Antropologia Social
O para a evolução biológica quanto social. Os organismos
Britânica, estudo da
iológicos têm estruturas e funções. O estudo científico da estrutura social de acordo

trutura orgânica é morfologia e o da função orgânica é fi- com a analogia orgânica.

iologia. Pela analogia orgânica, o estudo científico da so-


FISIOLOGIA SOCIAL - Na
ciedade deveria incluir a MORFOLOGIA SOCIAL e a FISIOLOGIA Antropologia Social

OCIAL. Outra inferência é de que deveria incluir a evolução Britânica, estudo da função
social de acordo com a
social, mas a Antropologia Social Britânica associava o evo- analogia orgânica.

ucionismo à Antropologia do século XIX e não quis ela-


orar essa parte da analogia orgânica. Sua orientação foi sincrônica ou
a-histórica, em vez de diacrônica ou preocupada com a mudança através
do tempo.
A visão britânica de "sociedade" era significativamente diferente da
visão americana de "cultura". Os antropólogos americanos entendiam
cultura como abrangendo os pensamentos e comportamentos econômi-
cos, sociais, políticos e religiosos, com uma dimensão tanto
ESTRUTURA SOCIAL - Na
sincrônica quanto diacrônica. Os britânicos, ao contrário, Antropologia Social
Britânica, a matriz social
focavam mais estritamente o estudo sincrônico da socieda-
do comportamento; por
de. ESTRUTURA SOCIAL era a matriz ou molde da sociedade, ao vezes chamada morfologia
social.
passo que FUNÇÂO SOCIAL era o papel que as partes indivi-
duais da sociedade desempenhavam na manutenção do todo
FUNÇÃO SOCIAL - Na
estrutural. O resultado do funcionamento social adequado Antropologia Social

era uma estrutura social mantida em equilíbrio ou, para usar Britânica, a contribuição de
uma parte da sociedade
um termo de analogia orgânica, em "saúde" estrutural. De- com o todo; por vezes

rivadas do pensamento durkheimiano, as teorias gêmeas do chamada fisiologia social.

estruturalismo e do funcionalismo inclinaram a Antropolo-


gia Britânica a ver a sociedade como harmoniosa e estável, ao contrário
dos evolucionistas, que viam a cultura como propensa à mudança, ou

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dos marxistas, que a viam em conflito. Os antropólogos sociais britâ -
cos também diferiam dos particularistas históricos americanos por
orientação sincrônica e relativa falta de envolvimento com a cultura m -
terial, que por sua vez os antropólogos americanos mantinham atrav
de suas ligações mais estreitas com os arqueólogos.

A.R. Radcliffe-Brown

Alfred Reginald Radcliffe-Brown (1881-1955), protoupo do


tropólogo social britânico, foi a figura que incorporou, mais do q
qualquer outra em sua geração, as aspirações emergentes de um gru
acadêmico cada vez mais profissionalizado que buscava maneiras de -
além dos princípios evolucionistas que lhes foram transmitidos pela e -
peculação de poltrona de Tylor, Morgan e outros.
Com formação em Ciências Naturais e apresentado à Antropol -
gia na Universidade de Cambridge, Radcliffe-Brown foi de início i -
fluenciado por membros da Expedição Antropológica de Carnbridz
de 1898-1899 ao Estreito de Torres, faixa de mar que separa a Austrá
da Nova Guiné. A expedição fora um desdobramento exploratório
uma equipe multidisciplinar de pesquisadores para coletar informaçõ
sobre povos nativos da região. Entre os participantes estavam o antr
pólogo Alfred Cort Haddon (1855-1940), o médico Charles Seligm -
(1873-1940), o psicólogo William H.L. Rivers (1864-1922), o estudan-
te de Psicologia William McDougall (1871-1938) e vários linguistas
fotógrafos. A expedição estabeleceu novos padrões de excelência err
MÉTODO GENEALÓGICO -
trabalho de campo, rendeu muitas publicações e ajudou
Enfoque do trabalho de lançar ou solidificar a carreira de participantes-chave. fu-
campo etnográfico no vers, por exemplo, iria criar o MÉTODO GENEALÓGICO e
parentesco, inaugurado
pelos antropólogos sociais Antropologia, baseado na percepção de que o cerne da o -
britânicos, notadamente ganização social não ocidental é o parentesco e de que
William H.R. Rivers.
parentesco pode ser melhor entendido através do estudo
História Cultural e da Psicologia. No início da carreira e sob a tutela
Rivers, Radcliffe-Brown realizou pesquisa genealógica nas Ilhas Anda-
mã, na Baía de Bengala, e criou reputação com sua monografia Os ilhéi .
de Andamã (1922), hoje um clássico. Exerceria em seguida atividad
letivas na Inglaterra, Austrália, África do Sul e Estados Unidos, onde

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início dos anos de 1930 lecionou e ocupou a cátedra do Departa-
nto de Antropologia da Universidade de Chicago. Ali interagiu com
-irropólogos boasianos como Robert Lowie e Fred Eggan (1906-1991)
egundo a maioria dos testemunhos, teria exercido grande influên-
pessoal e profissional, talvez ajudado por sua personalidade por ve-
exuberante, ampliando o apelo daquilo que concebia como ciência
rural da sociedade primitiva, para além dos limites da Antropologia
ritânica, Além da obra mencionada, seus principais livros incluem Or-
snização social das tribos australianas (1930-1931), Uma ciência natural
sociedade (1948), Sistemas africanos de parentesco e casamento (1950),
~m colaboração com C. Daryll Forde (1902-1973), e Estrutura e/unção
..1 sociedade primitiva (1952).
Apesar de exposto no início à etnologia de Rivers, em sua própria
bra Radcliffe-Brown evitou o trabalho não comparativo do mentor e
uscou uma base mais "científica" para a Antropologia. Por isso entre
antropólogos britânicos leva com frequência o crédito de ter recor-
rido às ideias de Durkheim sobre a solidariedade mecânica e orgânica
corno base teórica do seu trabalho de campo etnográfico na Austrália e
na África. Suas percepções originais transformaram por fim a teoria de
Durkheim em uma variante mais fundamentada empiricamente, na qual
a olidariedade mecânica e, especialmente, a orgânica serviam de moldu-
ra para o exercício de uma sociologia sincrônica, comparativa, de siste-
mas sociais não ocidentais. A questão primordial que Radcliffe-Brown
entou responder em suas pesquisas foi a de saber como a atividade ritual
e diferentes instituições sociais, em especial o parentesco, contribuíam
para a manutenção da estrutura social nas sociedades "primitivas". En-
re suas mais famosas contribuições à Teoria Estrutural-fun-
LINHAGENS - Grupos de
ionalista estão as definições dos princípios estruturais que parentesco de várias

informam a solidariedade dos grupos de irmãos e LINHAGENS gerações definido por


ligação com ancestrais
e das várias práticas sociais associadas a eles, cujo prirnitivis- comuns.
mo os tornou invisíveis ao olho ocidental.
De maneira geral, Radcliffe-Brown é melhor representado na obra
e no pensamento dos muitos estudantes que influenciou para a tradição
britânica, para além do próprio corpo de suas pesquisas e escritos, que
não é vasto. À exceção de Malinowski, que desenvolveu uma perspec-
tiva própria do funcionalismo, a maioria dos antropólogos de tradição

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britânica na primeira metade do século XX seguiu as pegadas men - -
cantes de Radcliffe-Brown, que introduziu a obra de Durkheim p
muitos profissionais.

Bronislaw Malinowski

o mais influente antropólogo britânico da primeira metade do


culo XX, depois de Radcliffe-Brown, foi Bronislaw Malinowski (1
1942), nascido e criado na Polônia e introduzido no cenário britâru
como estudante de Antropologia da Escola de Economia de Londr
Em 1914 partiu para trabalho de campo na Nova Guiné e foi detido
Ilhas Trobriand pela Primeira Guerra Mundial, onde obteve autoriza -
do governo britânico para permanecer e ficou vários anos realizan
pesquisa etnográfica que resultou no seu Argonautas do Pacífico Ocid
tal (1922), amplamente considerado o melhor dos primeiros clássic
Por fim retomou à Escola de Economia de Londres, onde nas déca
de 1920 e 1930 ajudou a formar a segunda geração de antropólogos
ciais britânicos. No crepúsculo da carreira, também lecionou por eu
período na Universidade Yale, embora sua influência lá nem de lon,
rivalizasse com a de Radcliffe-Brown entre os antropólogos american
em Chicago. Os títulos de alguns livros de Malinowski eram "sucul --
tos" e instigantes, por exemplo: Sexo e repressão na sociedade selvag
(1927) eA vida sexual dos selvagens (1929). Também escreveu Liberda
e civilização (1944), Uma teoria científica da cultura (1944) e Diário
sentido estrito do termo (1967). O diário foi publicado 25 anos apó
morte de Malinowski e é digno de nota pelo registro intensamente p -
soal, com frequência meditativo e melancólico dos anos que passou e
trabalho de campo nas Ilhas Trobriand.
Os antropólogos reconhecem que Malinowski foi o primeiro
OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA - mais importante praticante inicial do método etnográfi
Estilo de trabalho de
campo em Antropologia da OBSERVAÇÃO PARTICIPATIVA, pelo qual os pesquisadores
que requer que o campo tentam alcançar compreensão etnográfica através
pesquisador veja as coisas
tanto do seu ponto de vista
uma hábil síntese de participação "subjetiva" de dentro co
quanto do ponto de vista uma observação "objetiva" de fora. Em Argonautas do Pa .-
do "nativo". fico Ocidental, apresentou também uma análise clássica

140
círculo kula de trocas econômicas em Trobriand e explorou a Psicologia
_reudiana no contexto de uma cultura matrilinear não ocidental. No
nível da teoria, porém, o direito de Malinowski à fama em Antropologia
enta-se primordialmente na sua Teoria do Funcionalismo.

THE
KULA RING

50 O 50
! ' 1

o Círculo Kula - Pela análise de Bronislaw Malinowski (1884-1942), no "círculo"


os colares (sou/aval são trocados na direção dos ponteiros do relógio e os braceletes
de conchas (mwail) em sentido oposto.

A concepção de funcionalismo de Malinowski diferia da de Rad-


liffe-Brown por estar enraizada na Biologia mais de maneira efetiva
que por analogia. Malinowski admitia, como Freud, que as pessoas têm
necessidades biológicas básicas, incluindo uma necessidade básica de
exo. A cultura funciona para satisfazer essas necessidades básicas com
respostas básicas. E, ao [azê-lo, cria um segundo nível de necessida-
des, as necessidades culturais ou instrumentais, que são satisfeitas com
respostas culturais instrumentais. As respostas instrumentais criam ne-
essidades culturais integradoras que, por sua vez, são satisfeitas por
respostas culturais integradoras. Toda essa hierarquia teórica de necessi-

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dades e respostas, que por sua vez se tornam necessidades, foi inspir
no trabalho de campo em Trobriand, onde, segundo o próprio diário
Malinowski, ele sofreu porque suas necessidades biológicas básicas -
eram satisfeitas numa cultura "estranha".
Nos últimos anos, os historiadores da Antropologia têm lanç
o olhar para além do veio principal das tradições antropológicas na
nais britânica, francesa e norte-americana. Cada vez mais reconhe
não apenas o caráter internacional da Antropologia, mas tarnbé
diversidade dos contextos culturais que alimentam os antropólogo
suas teorias. Um caso exemplar é o próprio Malinowski, cujas raíz
polonesas, anteriormente encobertas, são agora investigadas. E
raízes serão provavelmente mais visíveis em histórias futuras da A-
tropologia Social Britânica.

E.E. Evans-Pritchard

U ma segunda geração de antropólogos sociais britânicos segu


os passos de Radcliffe-Brown e Malinowski e ampliou seus caminh
antropológicos. Talvez o mais notável deles tenha sido Edward Ev -
Evans-Pritchard (1902-1973).
Ao contrário de seus predecessores, Evans-Pritchard desenvolv
uma perspectiva claramente histórica, única na época em termos de A -
tropologia Social Britânica e que criou certa afinidade entre sua obr
e a dos colegas americanos. É, assim, um paradoxo genial que o le a-
do teórico de Evans-Pritchard, embora talvez represente o apogeu
funcionalismo estrutural na linha de Radcliffe-Brown, também abor
questões de suprema importância para gerações posteriores de antropó-
logos. Em toda a sua carreira e cada vez mais intensamente, Evans-Pri -
chard opôs-se a situar a Antropologia como ciência experimental o
ANTROPOLOGIA SIMBÓLICA _ da natureza. Ao contrário, preferia encará-Ia como uma da
Escola antropológica, Ciências Humanas e via o papel do etnógrafo como o de in-
associada a Victor
Turner, segundo a qual a
térprete da história e do significado cultural. Por essa razão.
solidariedade social é uma muitos acharam que ele deveria ser com justiça considerad
função dos sistemas de
o pai da ANTROPOLOGIA SIMBÓLICA ou interpretativa. Mais do
lógica simbólica que ligam
as pessoas. que qualquer outra figura de sua geração trabalhando den-

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do funcionalismo estrutural estabelecido por Radcliffe-Brown, ele
dou a direção da Antropologia Social Britânica, de orientação cientí-
ca para um rumo mais "cultural", ao propor que a melhor abordagem
a investigar a estrutura social era modelá-Ia numa série de "mapas"
nitivos, lógicos e flexíveis, que dessem forma e significado ao com-
rtamento social.
Entre as décadas de 1920 e 1940, Evans-Pritchard construiu uma
- putação de africanista oriental, produzindo uma série de elegantes es-
. dos etnográficos com base em seu trabalho de campo entre as socie-
- des axante e núer do sul do Sudão; os mais conhecidos deles são Bru-
ria, oráculos e magia entre os axante (1937), Os núer (1940), Sistemas
líticos africanos (com FORTES, 1940), Parentesco e casamento entre os
iúer (1951) e Religião núer (1956). Em especial no seu trabalho com os
úer, revisitou a noção de Radcliffe-Brown de estrutura social e rejeitou
ideia de que as sociedades são mais bem-entendidas através de uma
analogia mecânica com organismos. De uma maneira que antecipava a
bra de Lévi-Strauss e Clifford Geertz, preferiu buscar interpretações
e estruturas culturais que forneciam sentido para membros de uma so-
iedade ao costurar vários aspectos da experiência de vida. Por exemplo,
núer são dotados de uma estrutura cultural unificada, ou sistema de
ógica abstrata, que informa tanto as ideias que os indivíduos têm sobre
ecologia, espaço, tempo e parentesco quanto as relações e práticas so-
iais que são geradas por essas ideias.
Além de sua reputação como prolífico pesquisador de campo, Evans-
-Pritchard é famoso também como um dos primeiros grandes defensores
da causa do relativisrno cultural. Ao contrário de Franz Boas, para quem
uma perspectiva relativista derivava da convicção de que sociedades di-
ferentes têm experiências históricas fundamentalmente distintas, Evans-
-Pritchard preocupou-se primordialmente em provar a coerência e lógi-
ca do que muitos antropólogos e filósofos (notadamente o acadêmico
francês Lucien Lévy-Bruhl [1857-1939J) encaravam como pensamento
"primitivo", a fim de mostrar que a capacidade ordenativa e de racionali-
dade não se limitava ao mundo ocidental, constituindo, ao contrário, um
sine qua non de toda vida social humana. Ficou célebre a argumentação
sobre a lógica da visão de mundo primitiva em sua obra-prima etnográ-

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Maio Junho Julho Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro Janeiro Fevereiro Março

c H u v A s
s E c
o S R I O S E N C H E M
O S R I O S S E C

H O R T c U L T U R A
Preparo da roça Preparo da roça para o QUEIMA DO MATO
para o primeiro segundo plantio de painço
plantio de painço ESTAÇÃO DA P E S -
e de milho CONSTRUÇÃO & REFORMA
Colheita Primeira safra Segunda safra
do milho de painço de painço
c A ç A
ESCASSEZ DE COMIDA C O L E T
FARTURA DE COMIDA

A L o E A s
Os mais Os mais
velhos jovens A C A M P A M E N T O
voltam voltam Mais jovens nos primeiros Todo mundo nos acampa
às aldeias às aldeias acampamentos principais da estação da
Cerimônias de casamento, de iniciação, mortuárias e outras
Principallemporada
dealaqueaosdinka

Sasonalidade núer - É como o antropólogo social britânico E.E. Evans-Pritchard resumiu


em 1940 a divisão das estações para os núer da África Oriental.

fica Bruxaria, oráculos e magia entre os axante (1937). Evans-Pritchar


rejeitava o argumento de alguns contemporâneos de que a bruxaria
a feitiçaria eram evidência de lógica pré-racional. Não era coincidên
que tais argumentos tivessem para muitos o efeito de confirmar a noçâ
de uma hierarquia natural de culturas e raças, cujo ápice era territóri
quase exclusivo dos brancos europeus. Evans-Pritchard argumentava, d
forma convincente, em sentido oposto. Baseado na longa experiência
de trabalho de campo etnográfico entre os axante, ele raciocinava qu
aquelas crenças e o complexo de práticas, expectativas e medos associado
a elas eram na verdade bem racionais se consideradas as suposições da
sociedade axante sobre as interpretações dos mundos visível e invisível
e a capacidade de alguns indivíduos de fazer o mal aos outros. Esse mal
podia ser feito quer conscientemente, ~través da manipulação técnica de
objetos poderosos, quer inconscientemente, através de um órgão corpó-
reo específico que causasse o infortúnio alheio.

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Apesar de seu compromisso com uma visão histórica e relativista,
tanto irônico que a obra de Evans-Pritchard seja frequentemente
da como perfeito exemplo de pesquisa realizada à sombra do co-
alisrno europeu na África. Embora reconhecendo suas CHOQUE COLONIAL - o
~ ribuições, críticos tardios do CHOQUE COLO IAL, tanto choque histórico entre

-modernos quanto ligados à economia política, também colonizadores europeus


e povos indígenas,
ideraram seu trabalho, como o de outros da mesma ge- marginalizados

• - O, maculado moralmente e teoricamente suspeito. Ain- ou oprimidos pelo


colonialismo.
a sim, mesmo seus críticos mais severos reconhecem o
n amento criterioso, a prosa eloquente e o cuidado do detalhe que
·ormam os escritos etnográficos de Evans-Pritchard .

..1X Gluckman e a "Escola de Manchester"

Max Gluckman (1911-1975) é reconhecido por muitos INSTITUTORHOOES-LMNGSTQNE-

ntro da tradição antropológica britânica como o principal Instituto de pesquisa em


Zâmbia que realizou muita
ponsável, talvez mais até do que Edmund Leach, por in- pesquisa etnográfica

ndir à formulação de estrutura social de Radcliffe-Brown no período final do


coloníalismo britânico
m foco intenso nos mecanismos de controle e mudança so- e mais tarde passou

cial. No tocante à etnografia ele contribuiu para formar uma a chamar-se Instituto
Nacional de Pesquisa de
eração de antropólogos, através do seu trabalho com o INS-
Zâmbía.
"!UUTO RHODES-LIVINGSTONE (mais tarde Instituto Nacional
PROCESSO SOCIAL - Segundo
e Pesquisa de Zâmbia) no final da década de 1930 e início o funcionalismo estrutural

e 1940; sob sua tutela, figuras da importância de um Victor em sua última fase, a

. d aram a mu d ar o f oco d a A ntropo lozi


Turner aju ogia Socia
. 1B·n- mudança social concebida
como criação contínua de
rânica, de uma visão no geral estática e atemporal de estrutu- uma estrutura social fluída

ra social para uma perspectiva dinâmica de PROCESSO SOCIAL. e dinâmica.

Sul-africano, Gluckman fez doutorado em Antropologia Social


na Universidade de Oxford e preocupou-se especialmente em iden-
tificar e explicar a dinâmica do equilíbrio e da mudança sociais na
África Meridional. Em 1949, após sua colaboração com o Institu-
to Rhodes-Livingstone e vários anos na Universidade de Oxford,
fundou o Departamento de Antropologia Social da Universidade
de Manchester, onde criou um círculo de estudantes comprometi-
dos com sua inconfundível abordagem da exposição teórica política

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ESCOlA DE MANCHESTER - e processual. Essa legendária ESCOLA DE MANCHESTE
Circulo de antropólogos
Antropologia Social foi responsável pela produção d
formados por Max
Gluckman na Universidade rios textos-chave de Antropologia nas décadas de 19::
de Manchester nas 1960, todos com a marca da influência de Gluckmar:
décadas de 1950 e de
1960.
própria obra dele inclui alguns clássicos nos subgên
da Antropologia Política e Legal (criada por ele), c
Rituais de rebelião no Sudeste Africano (1954), Costume e conflit
África (1955), Ordem e rebelião na África tribal (1963) e Política
e ritual na sociedade tribal (1965).
O caráter marcante da pesquisa e teona de Gluckman está
preocupação abrangente com a natureza da estabilidade social e
seu oposto, a mudança social, o que o levou com seus alunos a
CINTURÃO DO COBRE - Região senvolver um corpo original de pesquisa em áreas urb
central da Zâmbia e da
e tam b em
/ nos meios
. rurais. tra dici
icionais estu d a d os p
República Democrática do
Congo (Copperbelt) que antropólogos. Em especial, a área em processo de urb
serviu de área de pesquisa zação e industrialização da África Central chamada CI1\
para Max Gluckman
e outros antropólogos RÃo DO COBRE (Copperbelt), englobando parte da Zârnbi
ligados ao Instituto da República Democrática do Congo, foi importante I:
Rhodes-Livingstone. d e pesqUlsa
- para vanos
/ . antropo / Iogos doo Lnsti
nstrtuto
des-Livingstone que procuravam melhor entendimento dos proces
migratórios entre campo e cidade.
No tocante à Teoria Antropológica, Gluckman é especialme
muito conhecido por desenvolver a noção de que todas as socieda
RITUAIS DA REBELIÃO _ incorporam o que chamou de RITUAIS DA REBELIÃO. Er
Expressão cunhada importantes "válvulas de escape", dizia, para qualquer
por Max Gluckman dem social, devido a seu potencial de minimizar conflir
para descrever o papel
socialmente construtivo do reais sublimando-os em atos ritualísticos. Tais rituais era!
ritual para ajudar a evitar o poderosos por sua capacidade de chamar a atenção tanr
conflito real.
para o conflito propriamente dito quanto para a necessida
da autoridade legítima de conter os distúrbios da ordem social. De
forma, a estabilidade social era mantida pela incorporação da tensão
da hostilidade em atos rituais convencionais e socialmente legítimo-
Ideias localizadas sobre lei e legalidade desempenhavam grande pap
nessa abordagem, devido à influência que Gluckman acreditava terem
na administração de disputas e conflitos.

146
udo da Antropologia Social Britânica

. -o conjunto excepcionalmente vasto e diversificado da pesquisa,


- pção teórica e biografia britânicas alguns outros nomes além dos
o contribuíram nas primeiras décadas da Antropologia Social e
- em atenção. No geral, como aconteceu com Evans-Pritchard, as
ografias mais significativas no campo etnográfico, entre as décadas
_930 e 1960, ampliaram e aguçaram cultural, histórica e/ou politica-
te a perspectiva funcionalista estrutural de Radcliffe-Brown.
Entre esses nomes adicionais destacam-se Raymond Firth (1901-
.::.), cuja monografia de mais de 600 páginas Nós, os ticópia (1936)
..•dou a transformar as noções predominantes do que poderia ser a
ografia estrutural-funcionalista, dando considerável profundidade
tórica e econômica a sua análise da sociedade das Ilhas Salomão. O
iado Political Systems o/ Highland Burma (1954), de Edmund
_ ach, infundiu a análise estrutural-funcionalista durkheimiana, até en-
:0 baseada na noção de solidariedade social pré-reflexiva, de um estrutu-
. mo inspirado em sua celebrada "conversão" à obra de Lévi-Strauss,
e levava à ideia de que instituições e convenções sociais comuns po-
. m ser partilhadas por grupos culturais e linguísticos que sob outros
aspectos se mostram muito diversos. Meyer Fortes (1906-1983) foi
orolífico ao escrever sobre a complexidade das relações sociais em Gana
. ex., A rede de parentesco entre os talense [1949J) e traçou GRUPODE DESCEND~NCIA·

claras distinções entre o tipo de mecanismos responsáveis Individuos que se


consideram membros
ela solidariedade na esfera familiar doméstica (psicológi- de uma linhagem.

'OS e morais) e os que mantêm a solidariedade no GRUPO DE descendentes de um

DESCENDÊNCIA
· e Iega I'mais amp Io.
po Iítico ancestral comum real ou
hipotético.

Além desses, Victor Turner (1920-1983), que foi aluno


de Gluckman, cultivou um corpo de pesquisa de orientação processual
extremamente influente sobre a organização social entre os ndembu de
Zâmbia, tornando-se a figura proeminente da Antropologia Simbólica
Britânica. Bem no início da carreira, sua monografia Cisma e continui-
dade na sociedade africana (1957) revelou-se talvez a mais sofisticada
politicamente do período na linha do funcionalismo estrutural.
Por fim, a influência da pesquisa britânica, especialmente Radclif-
fe-Brown, foi tal que exerceu também profundo impacto na Antro-

147
pologia Americana herdeira de Boas. Por exemplo, em Fred E _
parcialmente convertido ao funcionalismo estrutural ao interagir
Radcliffe-Brown em Chicago e que deu à epistemologia uma per
tiva diacrônica, histórica.
O choque colonial referido por gerações posteriores de antro
logos projetou-se amplamente sobre a pesquisa britânica da prim
metade do século XX. Basicamente porque o Império Britânico, POt'-
cia colonialista de influência mundial, ocupava muitos territórios,
especial na África, que todos viam como ideal para o trabalho de carnt
etnográfico - todos com exceção dos habitantes nativos. Assim, mui
antropólogos, incluindo Evans-Pritchard, Fortes e Gluckman, reali -
ram intenso trabalho de campo entre povos que pouca opção tinha
não ser suportar a presença desses estrangeiros intrusos por períod
muitas vezes prolongados.
Em 1940, Fortes e Evans-Pritchard publicaram Sistemas políticos afr.-
canos, livro de ensaios controvertido sobre etnografia africana. Algu

CONTROLE INDIRETO - Política


desses ensaios visavam contradizer o argumento de antropé
colonial britânica de logos evolucionistas de que a evolução da organização polí -
cooptar líderes nativos
ca pnmitIVa, em contraste com a organização por parentes c
para nâo ter que governar
à força. estava relacionada à alta densidade populacional. Os autor
citavam exemplos africanos para mostrar que, ao contrári
alguns grupos de baixa densidade populacional tinham organização po-
lítica, enquanto outros com alta densidade populacional careciam des
organização. Críticos da Antropologia Social Britânica usaram o livro d
Fortes e Pritchard para ilustrar equívocos dessa abordagem, que segundo
eles dava insuficiente atenção à história africana e, consequentemente.
não conseguia reconhecer que essas exceções etnográficas eram distor-
ções evolucionárias causadas pelo colonialismo e a escravidão. Os antro-
pólogos sociais britânicos foram também criticados por implícita e expli-
citamente apoiarem a política externa britânica do governo ou CONTROLE

INDIRETO, que se apoiava no conhecimento etnográfico para manipular,


cooptar e cooperar com líderes nativos, evitando assim a necessidade de
governar diretamente com o emprego da força bruta.
Malinowski e Radcliffe-Brown foram antagonistas que brigaram por
detalhes teóricos e nunca conseguiram chegar a um acordo sobre quem

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verdadeiro funcionalista. Dada a rejeição final do funcionalismo
o uma epistemologia na Antropologia, isso acabou virando um pon-
discussão, e o melodrama e retórica que caracterizaram esses deba-
niciais parecem hoje um tanto estranhos. Mas não se deve esquecer
assim como Boas, seu equivalente nos Estados Unidos, Malinowski
dcliffe-Brown deram juntos à Antropologia Britânica um caráter
rio e uma identidade no século XX fundamentada em pesquisa em-
-a e teoria rigorosa, ao contrário da especulação de poltrona e das
teses dos evolucionistas unilineares como Tylor e Morgan.
A variedade de funcionalismo biocultural de Malinowski foi a pri-
ra a ser desacreditada e descartada (junto com suas conclusões e
- inações pessoais) por sua descendência na disciplina, mas o longo e
:lOS0 trabalho de campo que realizou nas Ilhas Trobriand continua a
•. um paradigma para todos os que se formam e "vão à luta" pesqui-
r, Da mesma forma, a qualidade e o nível de detalhe de suas inúme-
monografias estabeleceram como gênero literário um estilo seminal
_ análise de dados que ainda não foi desbancado como veículo para a
osição de pesquisa em Antropologia Sociocultural. Tão importante
nto essa contribuição, o funcionalismo estrutural desbravado por
dcliffe-Brown serviu de ponte entre a obra seminal de Émile Dur-
eim e os interesses de uma segunda e uma terceira gerações de antro-
. 'logos sociais britânicos povoadas de acadêmicos do alto calibre e da
:ersidade de competências que representam Evans-Pritchard, Fortes,
_ ach, Gluckman, Firth, Douglas e Turner. Esses antropólogos con-
guiram combinar concepções de estrutura com uma visão cultural e
• lítica e uma sofisticação que ainda resistem a um exame minucioso
-o século XXI.

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