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PRESCRIÇÃO E DIREITO INTERTEMPORAL

PRESCRIÇÃO E DIREITO INTERTEMPORAL


Soluções Práticas de Direito - Nelson Nery Junior | vol. 6/2014 | p. 119 - 138 | Set /
2014
DTR\2014\17359

Nelson Nery Jr.


Professor Titular das Faculdades de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo (PUC-SP) e Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP).
Advogado e Consultor Jurídico Sócio Fundador do Nery Advogados.

Área do Direito: Fundamentos do Direito


Resumo: Prescrição. Incidência sobre a pretensão de direito material. Prescrição da
pretensão executória. Sujeição às regras de prescrição da pretensão de direito material
que se anseia executar. STF 150. Teoria da actio nata. Aplicação que abrange a
prescrição da pretensão executória. Momento em que nasce o poder de execução. Dies a
quo. Trânsito em julgado da sentença condenatória. Prescrição e direito intertemporal.
CC 203 § 3.º IV (regra especial). Vigência imediata. LICC 6.º: Quando lei nova
estabelece prazo especial para prescrição, anteriormente regulamentada por regra geral,
o novo prazo passa a correr a partir da vigência da lei nova.

Palavras-chave: Prescrição - Decadência - Direitos subjetivos - Direitos à prestação -


Direitos potestativos - Pretensão de direito material - Pretensão de execução da
condenação - Regras de direito material - Actio nata - Dies a quo - Trânsito em julgado -
Ação coletiva - Execução coletiva - Pre tensão executória - Pretensão individual - Prazo
prescricional - Direito intertemporal - Novo prazo - Efeito retroativo e efeito imediato -
Princípio da irretroatividade da lei - Fatos pendentes (facta pendentia) - En riquecimento
sem causa.
Sumário:

1.Consulta - 2.Prescrição. Conceito. Incidência. Pretensão de direito material. Prescrição


da pretensão executória. STF 150 - 3.Teoria da actio nata. Alcance e requisitos. Dies a
quo da prescrição da pretensão executória. Trânsito em julgado da ação coletiva -
4.Prescrição. Direito intertemporal. Efeito retroativo e efeito imediato. CC 2028. Sujeição
ao novo prazo prescricional. Regra especial vs. prazo geral. Redução do prazo
prescricional. Possibilidade. Jornada IV STJ 299. Inexistência de direito adquirido ao
prazo anterior. Enriquecimento sem causa. Elementos. Caracterização. Prazo novo de 3
anos - 5.Conclusão: resposta ao quesito formulado

1. Consulta

Itaú-Unibanco S.A. (doravante denominado simplesmente “Itaú” ou “Consulente”), por


intermédio de seu ilustre advogado, o Doutor Luiz Eduardo Caram-Garcia, honra-nos
com a presente consulta, na qual nos indaga sobre a prescrição da pretensão executória
da sentença exarada na Ação Civil Pública n. 38765/98, que versa sobre as diferenças de
correção monetária não creditadas em aplicações em cadernetas de poupança.
Indaga-nos, ainda, sobre qual o diploma legal a ser aplicado no caso em tela, a fim de
definir o dies a quo, bem como o termo ad quem, da aludida prescrição.

Para tanto, o consulente encaminhou-nos cópias das principais peças da referida ação
civil pública, movida pela Associação Paranaense de Defesa do Consumidor – APADECO
[doravante denominada apenas “APADECO”], em que figura como réu o Banco do Estado
do Paraná S.A. – Banestado, posteriormente adquirido pelo consulente, incluindo, entre
outras, petição inicial, contestação, sentença condenatória, apelação interposta pelo
Banco, acórdão do TJPR que julgou a apelação, recurso especial interposto pelo Banco,
decisão que negou seguimento ao recurso especial, agravo de instrumento contra
decisão denegatória de recurso especial, decisão do STJ que negou seguimento ao
recurso, agravo regimental interposto nos autos do agravo de instrumento, decisão do
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STJ que negou seguimento ao agravo regimental e a certidão de trânsito em julgado da


decisão denegatória proferida no agravo regimental (f. 367 dos autos do Ag 437663).

Encaminharam, ainda, cópias de algumas das milhares de ações de execução e de


cumprimento de sentença que lhe moveram os poupadores, que passaram a pleitear a
execução da sentença exarada nos autos da ação civil pública.

A ação civil pública foi proposta objetivando a cobrança de diferenças de atualização


monetária em contas-poupança, decorrentes do advento de Planos Econômicos editados
pelo Governo Federal, que não teriam sido aplicadas corretamente pelo banco
consulente.

Na aludida ação de rito ordinário, proposta em 14.04.1998, a autora aduz, em síntese:

(i) que o banco consulente teria aplicado às cadernetas de poupança índice de correção
inferior ao devido;

(ii) que os poupadores, clientes do Banco, seriam titulares do direito adquirido à


atualização dos saldos de suas cadernetas de poupança com base em índices corretos;

(iii) que, com relação ao Plano Bresser, a correção deveria ser feita pelo índice de Preços
ao Consumidor (IPC) ou pelas Letras do Banco Central (LBC);

(iv) que, com relação ao Plano Verão, os saldos das cadernetas de poupança deveriam
ser atualizados com base no rendimento da Letra Financeira do Tesouro Nacional (LFT).

Assim, APADECO pleiteou a condenação do Itaú ao pagamento, a todos os poupadores


do Estado do Paraná que mantinham cadernetas de poupança junto à instituição, das
diferenças de correção monetária das aludidas cadernetas.

Sobreveio sentença, em 26.01.2000, que julgou procedente o pedido da autora,


condenando o consulente ao pagamento das diferenças das correções aplicadas às
cadernetas de poupança, “no mês de junho de 1987, no índice de 26,06%, conforme
entendimento jurisprudencial [TJPR, 3.ª CC, Acórdão n. 12692, rel. Juiz. Conv. Sérgio
Arenhart, e TJDFT, 5.ª T., Acórdão n. 82271, rel. Des. Adelith de Carvalho Lopes, j.
04.12.1995] e de janeiro de 1989, no índice de 42,72% (RSTJ 93/175, 97/90 e
105/15)”, com o acréscimo de correção monetária e juros de 0,5% sobre os rendimentos
não creditados, a partir das épocas devidas até o efetivo pagamento, e acrescidos de
juros de mora a partir da citação, incluindo-se aí todas as diferenças não devidamente
remuneradas e creditadas.

O TJPR confirmou a sentença lançada, negando provimento ao recurso de apelação


interposto pelo consulente, em acórdão proferido em 20.02.2001, o que motivou o
consulente a interpor recurso especial.

Ao proceder ao juízo de admissibilidade do recurso excepcional interposto, a ele negou


seguimento o TJPR, razão pela qual houve a interposição de agravo de instrumento
contra a decisão denegatória.

Também a esse recurso foi negado provimento pela Corte Superior. Houve a interposição
de agravo regimental nos autos do agravo de instrumento, mas o STJ manteve a decisão
de improvimento do recurso.

Essa decisão transitou em julgado em 03.09.2002, o que foi certificado nos autos pela
zelosa serventia (f. 367 do Agravo de Instrumento n. 437663/PR), de modo que se
confirmou a sentença lançada nos autos, em seu inteiro teor.

Com fundamento na decisão transitada em julgado, milhares de poupadores ingressaram


em juízo para executar a sentença de mérito exarada pelo juízo de primeiro grau,
confirmada pelo TJPR e pela Corte Superior, e, ao fim, transitada em julgado, como já se
afirmou.
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A consulta é apresentada com o seguinte quesito, que será respondido ao final deste
parecer:

Está prescrita a pretensão executória da condenação proferida na sentença da Ação Civil


Pública n. 38765/98 pelos consumidores supostamente lesados? Em caso afirmativo, a
partir de quando se operou a referida prescrição?

Postos assim os fatos, passemos à análise dos aspectos jurídicos que conformam o caso,
atentando, de acordo com o escopo da consulta formulada, à análise da prescrição da
pretensão executória da sentença exarada na Ação Civil Pública n. 38765/98, que versa
sobre as diferenças de correção monetária não creditadas em aplicações em cadernetas
de poupança e, ainda, sobre qual o diploma legal a ser aplicado no caso em tela, a fim
de definir o dies a quo, bem como o termo ad quem, da aludida prescrição.
2. Prescrição. Conceito. Incidência. Pretensão de direito material. Prescrição da
pretensão executória. STF 150

Muito se fala a respeito da dificuldade de distinção dos conceitos de prescrição e


decadência. Antes do advento do CC/2002, a dificuldade era ainda maior, já que o
CC/1916 englobava “indiscriminadamente, sob uma mesma denominação e
subordinados a um mesmo capítulo, os prazos de prescrição e os prazos de decadência,
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dando-lhes, consequentemente, tratamento igual”.

Todavia, a clareza da redação do CC 189 traduz a opção do legislador pela adoção do


critério científico de distinção dos institutos. Destarte, a fórmula oferecida por Antônio
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Luis Câmara Leal, segundo a qual a decadência extinguiria o direito, enquanto a
prescrição extinguiria a ação, resta superada pelo direito positivo vigente.

Com efeito, tanto a prescrição como a decadência são institutos de direito que têm por
objetivo atribuir punição àquele que negligencia o exercício de sua pretensão ou de seu
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direito. Contudo, enquanto a decadência consubstancia-se em punição que extingue o
próprio direito pelo seu não exercício no prazo legal, a prescrição é a “causa extintiva da
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pretensão de direito material pelo seu não exercício no prazo estipulado pela lei”.

Este critério é, de fato, o mais adequado porque não é exclusivamente processual,


tampouco parte de premissa processual, como a princípio se poderia supor. Trata-se, em
verdade, de critério fundado na pretensão de direito material e de seu exercício e que,
por isso, culmina por informar os critérios para a classificação das ações.

Isto porque, como se sabe, a classificação dos direitos informa a classificação das ações.
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De acordo com a classificação dos direitos subjetivos proposta por Giuseppe Chiovenda,
estes se dividem em (i) direitos à prestação e (ii) direitos potestativos.

De maneira resumida, a primeira classe de direitos compreende aqueles que têm por
finalidade a obtenção de determinado bem da vida por meio de uma prestação, positiva
ou negativa, de outrem. A segunda categoria compreende, entretanto, o poder de
sujeição que o exercício desses direitos cria para outra(s) pessoa(s),
independentemente, ou até em desconformidade com a vontade dessas últimas.
Expliquemos melhor.

Os direitos à prestação englobam grande parte daqueles que compõem as classes dos
direitos reais e pessoais. Em ambas essas classes, “há sempre um sujeito passivo
obrigado a uma prestação, seja positiva (dar ou fazer), como nos direitos de crédito,
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seja negativa (abster-se), como nos direitos de propriedade”.

Os direitos potestativos, por sua vez, independem de prestação do sujeito passivo para
que determinada declaração de vontade tenha o poder de influir em situações jurídicas
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de outras pessoas, sem que essas nada façam para tanto.

Como afirma Thiago Rodovalho, no exercício dos direitos potestativos, o que se pleiteia
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não é propriamente uma prestação (seja de dar, fazer, não fazer ou abster-se) do
sujeito passivo (ainda que em alguns casos ocorra, aparentemente, uma prestação);
deseja-se tão somente obter a modificação, extinção ou criação de uma determinada
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relação jurídica.

Como exemplos de direitos potestativos, podemos citar o poder que têm o mandante e o
doador de revogarem o mandato e a doação, o poder que tem o herdeiro de aceitar ou
renunciar a herança, o poder de escolha nas obrigações alternativas, o poder de
requerer a interdição de pessoas etc.

A distinção entre as duas classes de direitos subjetivos é dada também por Andreas Von
Tuhr. O autor constata que, em princípio, quando se trata de modificar os limites entre
duas esferas jurídicas, é necessário o acordo entre as partes ou, nos casos em que este
não ocorre, a determinação judicial – aqui estamos diante de direitos a uma prestação.
Entretanto, quando uma das partes é capaz de realizar a modificação em virtude de sua
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só vontade, neste caso cabe falar em direitos potestativos (Gestaltungsrechten).

A classificação dos direitos subjetivos se faz necessária porque os direitos potestativos


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estão sujeitos à decadência e os direitos a uma prestação estão sujeitos à prescrição.
Esta teoria vem corrigir o entendimento vulgarizado que procura distinguir as espécies
pelo critério de que a prescrição atingiria a ação, enquanto a decadência atingiria o
direito em si mesmo considerado. Já dissemos que não se trata disto. A questão é saber
qual o tipo de direito que é atingido, para se separar o que é prescrição e o que é
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decadência e, depois, verificar se, no caso concreto, ocorreu uma das duas hipóteses.

Uma vez que o reconhecimento do tipo de direito que se está a examinar é salutar para
a distinção das hipóteses de prescrição e decadência, trouxemos a classificação dos
direitos subjetivos informadora da classificação das ações.
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Com efeito, temos defendido que, para distinguir prescrição de decadência, é
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necessário o exame da natureza da ação em sentido material (CC/1916 75). Assim, é
preciso lembrar que existem ações declaratórias, ações condenatórias, ações
constitutivas, ações mandamentais e ações executivas. As ações declaratórias são
perpétuas, pois a qualquer tempo se pode pedir (pedido) a declaração da existência ou
da inexistência de uma relação jurídica. Já as ações condenatórias, que visam obrigar a
comportamento, são sujeitas, sempre, a prescrição e as constitutivas, que visam a criar,
modificar ou extinguir situações jurídicas subjetivas, se acaso tiverem prazo estipulado
em lei, este prazo será de decadência. As ações mandamentais e ações executivas,
como têm em si um preceito condenatório ou constitutivo, seguem o regime do preceito
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que englobam.

No caso sub examine estamos diante de claro exemplo de prescrição, já que se trata de
ação condenatória. Isto porque a ação civil pública promovida pela Associação
Paranaense de Defesa do Consumidor – APADECO pretendeu obrigar o consulente ao
pagamento das diferenças de correção monetária em cadernetas de poupança, que
teriam sido apropriadas nos meses de julho de 1987 e janeiro de 1989, quando da
implantação dos planos econômicos governamentais denominados “Bresser” e “Verão”.

Desse modo, tendo em vista que a ação civil pública tinha por objetivo obrigar o
consulente a determinado comportamento, não há que se falar em decadência, mas sim
em prescrição. Contudo, considerando que a condenação da referida ação civil pública já
transitou em julgado, não existe razão para falarmos em prescrição da pretensão de
direito material. O tema da discussão consiste, portanto, na pretensão de execução da
condenação imposta ao consulente.

Com efeito, importante pontuar o prazo de prescrição a que está sujeita a execução. Do
mesmo modo como não há que se imaginar que seja perpétua a pretensão do exercício
de um direito violado, também não é eterna a possibilidade de execução da sentença
que reconhece esse direito. A melhor doutrina entende que o prazo de prescrição da
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pretensão executória é o mesmo estabelecido em lei para a prescrição da pretensão do


direito material cuja execução se almeja. São as palavras de Enrico Tullio Liebman:

“Parece certa a opinião de que, depois da sentença condenatória, recomeça a correr


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prazo de prescrição igual ao disposto em lei para a ação respectiva”. (destacamos)

No mesmo sentido, é a lição de Amílcar de Castro:

“A sentença não opera novação; é ato judicial meramente interruptor da prescrição. E,


assim sendo, desde sua data recomeça a correr a prescrição do direito e, demorando a
execução, ou suspensa em qualquer ponto a instância da execução, por tanto tempo
quanto tenha a lei fixado para a prescrição do direito declarado na sentença, prescrito
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ficará esse direito”. (destacamos)

Dada a relevância do tema, o Supremo Tribunal Federal houve por bem sumulá-lo. O
STF 150 possui a seguinte redação: “Prescreve a execução no mesmo prazo de
prescrição da ação”. Desse modo, não há dúvidas de que a prescrição da pretensão
executória de determinado direito declarado em sentença é regulada pelo próprio direito
material violado.

Estabelecida a premissa de que a hipótese do caso em tela é de prescrição e esclarecido


que o prazo de prescrição da pretensão executória é o mesmo dado para a prescrição da
pretensão do direito material, resta saber a partir de que momento começa a transcorrer
o prazo da pretensão da execução (cumprimento) da sentença proferida na ação civil
pública sob análise.
3. Teoria da actio nata. Alcance e requisitos. Dies a quo da prescrição da pretensão
executória. Trânsito em julgado da ação coletiva

Considera-se princípio importante em matéria de prescrição, notadamente referente ao


momento em que surge a ação, o princípio da actio nata. De acordo com ele, só pode
ser ajuizada a demanda uma vez que for violado o direito subjetivo e só a partir dessa
violação efetiva, portanto, é que se contam os prazos prescricionais e decadenciais. É
difícil, em muitos casos, precisar o momento em que se encontram violados os direitos
subjetivos, notadamente em casos de nulidade e anulabilidade.

“Não basta, porém, que o direito tenha existência atual e possa ser exercido por seu
titular, é necessário, para admissibilidade da ação, que esse direito sofra alguma
violação que deva ser por ela removida. É da violação, portanto, que nasce a ação. E a
prescrição começa a correr desde que a ação teve nascimento, isto é, desde a data em
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que a violação se verificou”.

A referendar o sistema da prescrição, existem três máximas que podem servir de guia
para o intérprete quando a decidir sobre questões relativas à prescrição e à decadência.
São elas: actio nata, actioni nondum natæ non præscribitur, actioni nondum natæ toties
præscribitur quoties nativitas est in potestate creditoris. Elas servem de importante
rumo a ser seguido pelo intérprete na difícil tarefa de enveredar pelo campo da
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prescrição e da decadência.

A primeira, como vimos, significa que a prescrição só se conta com o início da ação. A
segunda significa que a ação não nascida não prescreve. A terceira, que a ação não
nascida prescreve quando o seu poder de exercício está nas mãos do credor.

A mais correta, de acordo com o nosso sistema legislativo vigente, entretanto, é a teoria
da actio nata. Isto porque, em matéria de prescrição, adotamos o sistema da violação do
direito subjetivo, segundo o qual é da sua violação que nasce a pretensão (Anspruch).
Portanto, do ponto de vista da terminologia do CC, temos uma escada: direito subjetivo,
pretensão e ação. A actio nasce com a violação do direito subjetivo, concomitantemente
à pretensão, na terminologia do CC. Assim, no exato momento de consumação da
violação ao direito subjetivo é que se determina o dies a quo da prescrição da pretensão.
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Neste sentido o CC 189:

“Violado o direito, nasce para o titular a pretensão, a qual se extingue pela prescrição,
nos prazos a que aludem os arts. 205 e 206”.

A teoria da actio nata – do qual o princípio contra non valentem agere é manifestação –
é a melhor forma de compreender o sentido e alcance da prescrição, pois, ao fim das
contas, é a ação a forma concreta que o sujeito de direito tem para realizar o conteúdo
de seu direito subjetivo de forma prática, de encaminhar seu ato em direção a sua
finalidade verdadeira.

“Mais concreta e melhor delimitada é a teoria da actio nata, quando por actio se entenda
o poder de requerer a satisfação do direito. Há nessa o elemento preciso da lesão do
direito, o qual em si é plenamente justo, não se duvidando que a partir do ponto, no
qual o direito é violado surge um dever de reação, começa a prescrição. A teoria para
todos os casos, que é capaz de abraçar, é exata; mas essa deixa a descoberto as
hipóteses de inércia exclusivamente subjetiva do titular, independentemente de qualquer
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lesão do direito”.

A inércia subjetiva sem lesão de direito pode ocorrer em casos de nulidade ou


anulabilidade em que o dano se verifique a posteriori. Assim, durante certo arco
temporal, existe transcurso de prazo sem dano. Este prazo não é de prescrição nem de
decadência, mas de mera passagem de tempo. O prazo só começará a eventualmente
fluir com a lesão. Embora haja a nulidade, apenas quando esta atingir a esfera jurídica
do terceiro, começará a fluir o prazo de prescrição ou de decadência.

O caso sub examine não é hipótese de prescrição da pretensão material, já que houve
propositura de ação civil pública cuja sentença já, inclusive, passou em julgado.
Contudo, as considerações feitas a respeito da actio nata são de extrema relevância,
uma vez que, como dissemos, aplica-se o prazo prescricional da ação de conhecimento à
pretensão de execução da sentença de tal ação, observando-se, neste caso, a
particularidade de se tratar de pretensões executivas individuais frente à pretensão
coletiva da ação de conhecimento.

O que importa observar é que a teoria da actio nata tem aplicabilidade também quanto à
pretensão executória, já que essa segue as mesmas regras estabelecidas para a
prescrição da pretensão de direito material. Com efeito, o direito de executar
determinada sentença nasce no momento em que se define o último ato do processo de
conhecimento.
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Certo é que “a determinação do último ato processual nem sempre é fácil de fazer-se”.
Contudo, esta não é a realidade do caso ora examinado, em que resta claro que o último
ato processual praticado na ação de conhecimento é o trânsito em julgado da sentença
condenatória proferida na presente ação civil pública, certificada nas f. 367 dos autos do
Ag 437663.

Se o trânsito em julgado da ação civil pública em referência se deu em 03.09.2002,


lógica é a conclusão de que nessa data se fixou o dies a quo para a contagem da
prescrição da pretensão executória da respectiva sentença genérica de conhecimento,
seja pelo processo de execução stricto sensu (execução fundada em título judicial – até
23.06.2006), seja pelo instituto do cumprimento de sentença (CPC 475-I, a partir de
24.06.2006).

Assim, se na teoria da actio nata, actio quer significar o poder de requerer a satisfação
de determinado direito, e a aplicação de referida teoria alcança também a pretensão
executória, o nascimento do poder de execução da sentença condenatória da ação civil
pública em tela se deu em 03.09.2002.

Uma vez determinado o dies a quo da prescrição da pretensão executória – 03.09.2002,


data do trânsito em julgado da sentença condenatória da ação civil pública movida pela
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APADECO –, bem como a premissa de que a prescrição da pretensão executória segue o


mesmo prazo estabelecido em lei para a prescrição da pretensão do direito material cuja
sentença se anseia executar (STF 150), resta, então, perquirir sobre qual prazo
prescricional se aplica ao caso concreto e o seu término (dies ad quem), o que passamos
a fazer a seguir.
4. Prescrição. Direito intertemporal. Efeito retroativo e efeito imediato. CC 2028.
Sujeição ao novo prazo prescricional. Regra especial vs. prazo geral. Redução do prazo
prescricional. Possibilidade. Jornada IV STJ 299. Inexistência de direito adquirido ao
prazo anterior. Enriquecimento sem causa. Elementos. Caracterização. Prazo novo de 3
anos

O princípio da irretroatividade da lei está consagrado entre nós pelas disposições da CF


5.º XXXVI e da LICC 6.º, razão pela qual se asseguram a sobrevivência e a ultratividade
da lei antiga. Por “esse princípio a lei nova não pode retroagir para atingir o ato jurídico
perfeito, o direito adquirido ou a coisa julgada. A lei nova tem efeito imediato e geral
(LICC 6.º caput), atingindo somente os fatos pendentes (facta pendentia) e os futuros (
facta futura) que se realizarem já sob sua vigência, não abrangendo os fatos pretéritos (
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facta praeterita), estes últimos protegidos pela cláusula constitucional”.

O efeito retroativo da lei nova consiste em sua aplicação dentro do passado, e o efeito
imediato é a aplicação da lei nova dentro do presente. Nosso sistema veda a aplicação
da lei nova dentro do passado, isto é, para os fatos ocorridos no passado. Os fatos
pendentes (facta pendentia) são na verdade, os fatos presentes regulados pela eficácia
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imediata da lei nova, vale dizer, que se aplica dentro do presente.

Tal como já anotamos:

“a lei nova atinge as relações continuativas (facta pendentia), isto é, aquelas que se
encontram em execução, ainda que hajam sido geradas na vigência da lei antiga. Essa
eficácia imediata da lei nova nada tem a ver com a retroatividade, de modo que não se
coloca o problema de ofensa à garantia constitucional da CF 5.º XXXVI e legal da LICC
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6.º”.

No caso sub examine, de acordo com a teoria da actio nata, o direito de executar a
sentença condenatória da ação civil pública em apreço nasceu para as partes a partir do
seu trânsito em julgado, que ocorreu em 03.09.2002.

Todavia, em razão da vigência do Novo Código Civil brasileiro, existem questões de


direito intertemporal que incidem na hipótese e merecem melhor reflexão. Isso ocorre
porque o CC 206 § 3.º IV e IV estabeleceu prazos especiais de prescrição para as
pretensões que buscam ressarcimento por enriquecimento sem causa e reparação civil.
Essas pretensões, no revogado CC/1916 177, possuíam o prazo prescricional geral de 20
anos.

Não obstante, a substituição do antigo prazo geral de 20 anos por prazo especial de 3
anos, o CC 2028 estabeleceu regra de direito intertemporal para a aplicação dos novos
prazos prescricionais. O dispositivo legal tem a seguinte redação: serão os da lei anterior
os prazos, quando reduzidos por este Código, e se, na data de sua entrada em vigor, já
houver transcorrido mais da metade do tempo estabelecido na lei revogada.

Desse modo, quando tiver decorrido menos da metade do prazo de prescrição regulado
pelo CC/1916 (ou por lei extravagante) e esse mesmo prazo tiver sido diminuído pela lei
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nova (CC/2002), aplica-se a regra da lei nova, a partir da sua vigência – 12.01.2003 –,
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desprezando-se o tempo que já havia fluído sob a égide da lei revogada.

Esse é o entendimento do STJ:

“Ação de indenização. Ato ilícito. Prescrição. Prazo. Contagem. Marco inicial. Regra de
transição. Novo Código Civil. 1. Se pela regra de transição (CC 2028) há de ser aplicado
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o novo prazo de prescrição, previsto no CC 206 § 3.º IV do mesmo diploma legal, o


marco inicial de contagem é o dia 11 de janeiro de 2003, data de entrada em vigor do
novo Código, e não a data do fato gerador do direito. Precedentes do STJ. 2. Recurso
especial conhecido e provido para, afastando a prescrição, no caso concreto, determinar
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a volta dos autos ao primeiro grau de jurisdição para julgar a demanda”.

Nesse sentido, merece destaque a Jornada IV STJ 299, referente à contagem de prazo.

Jornada IV STJ 299: “Iniciada a contagem de determinado prazo sob a égide do


CC/1916, e vindo a lei nova a reduzi-lo, prevalecerá o prazo antigo, desde que
transcorrido mais da metade desta na data da entrada em vigor do CC. O novo prazo
será contado a partir de 11 de janeiro de 2003, desprezando-se o tempo anteriormente
decorrido, salvo quando o não aproveitamento do prazo já decorrido implicar aumento
do prazo prescricional previsto na lei revogada, hipótese em que deve ser aproveitado o
prazo já decorrido durante o domínio da lei antiga, estabelecendo-se uma continuidade
temporal”.

O surgimento da pretensão executória ocorreu com o trânsito em julgado da sentença


coletiva condenatória em 03.09.2002. O CC entrou em vigor no dia 12.01.2003. Assim,
poder-se-ia cogitar da aplicação da regra de direito intertemporal do CC 2028, para
reger a prescrição das pretensões executivas individuais ora em comento.

Ocorre, no entanto, que o mais correto para o presente caso não consiste,
necessariamente, na aplicação do direito intertemporal do CC 2028, porquanto não se
trata de aplicação de direito intertemporal, e sim da aplicação do prazo especial de
prescrição sobre o revogado prazo geral.

Ou seja, o CC 2028 se refere àqueles prazos da mesma classe; por consequência, não se
pode reconhecer redução quando a lei nova institui prazo especial. Por isso, não se
aplica aqui o CC 2028, devendo-se, então, considerar o prazo novo (3 anos) a partir da
vigência do novo Código Civil (12.01.2003). Sempre que o novo CC estabelece prazo
especial sobre questão regulamentada anteriormente por prazo geral, essa nova regra
especial constitui direito novo, cuja incidência submete-se ao LICC 6.º, devendo a nova
regra ser aplicada imediatamente.

Sobre essa questão, já tivemos a oportunidade de nos manifestar da seguinte maneira:

“A interposição do CC 618 suscita interessante questão acerca da aplicação da regra do


CC 2028. Isto porque a redução dos prazos a que alude o CC 2028 se refere àqueles da
mesma classe, ou seja, não se pode reconhecer redução quando a lei nova institui prazo
especial para hipótese antes regulada pelo prazo geral. É importante atentar para o fato
de que a prescrição da ação para obter do construtor indenização pelos defeitos da obra,
pelo sistema anterior, regulava-se por prazo geral (20 anos – CC/1916 1245 e 177), e
agora, por prazo especial (3 anos – CC 618 e 206 § 3.º V). Por isso, não se aplica aqui o
CC 2028: considera-se o prazo novo (3 anos), a partir da vigência do novo CC
27
(12.01.2003)”.

Ocorre que o novo prazo especial, tal como afirmamos, apenas deve ser contado a partir
da vigência da lei que encurtou o prazo prescricional. Essa lição está contida em célebre
acórdão do STF, assim ementado:

“Tratando-se de lei que encurtou o prazo da prescrição, ela é aplicável às prescrições em


curso, mas contando-se o novo prazo da data em que a mesma lei começou a vigorar
(p. ex., acórdãos do Supremo no ‘Arquivo Judiciário’, vol. 20, p. 3 e vol. 27, p. 239).

“É bem clara e precisa a lição de Roubier (Les conflits de lois dans le temps, 1933, 2.º
28
vol., p. 242-243).”

Claro está, portanto, que o CC 206 § 3.º IV e IV estabeleceu prazos especiais de


prescrição para as pretensões individuais que buscam ressarcimento por enriquecimento
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PRESCRIÇÃO E DIREITO INTERTEMPORAL

sem causa e reparação civil; dessa maneira, no caso sob análise, não incide a regra de
direito intertemporal (CC 2028), porque se trata de aplicação de prazo (direito) novo,
cuja incidência deve ser imediata, nos termos da LICC 6.º, o que significa dizer: a partir
do início da vigência do CC.

Com esse mesmo entendimento já julgou o TJSP, em acórdão relatado pelo Des. Nestor
Duarte, nos seguintes termos;

“Ora, a redução de prazos a que alude o art. 2028 do CC se refere àqueles da mesma
classe, ou seja, não se pode reconhecer redução quando a lei nova institui prazo especial
para a hipótese antes regulada pelo prazo geral. A hipótese presente, portanto, não é de
conflito de leis no tempo que, para qualificar-se deve referir-se ao mesmo objeto.
Trata-se, no presente caso, de direito novo, cuja regra se sujeita ao princípio do efeito
imediato (art. 6.º da LICC), atingindo, apenas, as partes posteriores dos fatos pendentes
(cf. R. Limongi França. A irretroatividade das leis e o direito adquirido, 5. ed., Forense,
1998, p. 210). Deste modo, a prescrição trienal só se inicia a partir da vigência do novo
29
Código Civil”.

Limongi França conclui da mesma maneira. Ao comentar a respeito do início da vigência


da lei nova que altera prazo prescricional, assevera que a solução “parece encontrar-se
na aplicação imediata da lei, considerando-se válido o lapso já decorrido, e
computando-se o lapso por escoar de acordo com a lei nova. Está isto não apenas de
acordo com a lógica jurídica, senão também com a regra de efeito imediato, a qual
constitui atualmente uma das vigas mestras do nosso sistema de Direito Intertemporal”.
30

Sobre essa temática, o Código Civil Suíço tem disposição expressa [art. 49 (2) do Livro
Final], em que determina a aplicação do novo prazo prescricional a partir da entrada em
vigor da lei nova.

“Schlusstitel – Schweizerisches Zivilgesetzbuch vom 10. Dezember 1907, Art. 49:

“2. Kürzere, durch dieses Gesetz bestimmte Fristen der Verjährung oder der Verwirkung
fangen erst mit dem Inkrafttreten dieses Gesetzes zu laufen an.

“2. Les délais plus courts fixes par le present code en matière de prescription ou de
déchéance ne commencent à courir que dès l’entrée en vigueur de la loi nouvelle.

“2. I termini più brevi di prescrizioni o di perenzione stabiliti da questa legge cominciano
31
a decorrere solo dall’entrata in vigore della legge nuova”.

Assim sendo, o prazo prescricional para os particulares executarem individualmente a


sentença coletiva, que transitou em julgado no dia 03.09.2002, iniciou-se naquela data;
sobrevindo, porém, lei nova (CC 2002), que estabeleceu regra especial de prazo
prescricional para a pretensão executiva individual incidente à hipótese (3 anos), e tendo
a novel legislação aplicação imediata, aplica-se ela ao caso a partir de sua vigência, isto
é, no dia 12.01.2003; logo, o dia ad quem para o prazo prescricional ocorreu
precisamente no dia 12.01.2006.

É mister destacar que não se pode cogitar, em hipótese alguma, a respeito de possível
direito adquirido em relação ao prazo antigo. Tal como assevera Miguel Maria de Serpa
Lopes, “de um ponto de vista geral, a prescrição, como já o dissemos, se fundamenta
num lapso de tempo. Por conseguinte, enquanto não consumado o tempo legal,
enquanto não terminado o fato in itinere, está sujeita à superveniência de uma lei nova,
quer modificando-lhe a estrutura e os requisitos, quer alterando o próprio lapso de
tempo que até mesmo abolindo-a. Assim, durante esse percurso, não passa de uma
esperança pois, até o derradeiro momento, pode ser cortada por uma nova lei, sob a
32
invocação de proteção aos superiores interesses da coletividade”.

Limongi França, com precisão, rechaça a possibilidade do direito adquirido ao prazo


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PRESCRIÇÃO E DIREITO INTERTEMPORAL

anterior: “com efeito, se, de um lado, fora mister respeitar a lei antiga e, nesse caso,
haveria hipóteses de prazos já completos no próprio início da vigência da lei nova, do
outro, cumpriria considerar que a parte contrária (quando houvesse), de acordo com o
diploma antiquado, também contava com um prazo para tomar providências para
33
inibição da perda do direito”.

Portanto, em 12.01.2006 operou-se a prescrição do exercício da pretensão executória


individual da sentença proferida na ação civil pública em apreço, cujo fundamento [causa
petendi] apoia-se na alegação da ocorrência de hipótese configuradora de
enriquecimento sem causa.

A esse propósito, cremos de bom alvitre observar que a figura do enriquecimento sem
causa está, atualmente, positivada no CC 884. Jorge Americano, com embasamento em
Guilherme Moreira, afirma: “no livre desenvolvimento das atividades individuais, o
princípio do não locupletamento significa que o resultado dessas atividades, sob o ponto
de vista econômico, não deve reverter em benefício de terceiros, sempre que este
34
proveito não tenha uma causa que a lei admita ou reconheça como legítima”.

Orlando Gomes define o instituto afirmando que há enriquecimento sem causa quando
estão presentes os seguintes elementos: a) enriquecimento de alguém; b) o
empobrecimento de outrem; c) nexo de causalidade entre o enriquecimento e o
35
empobrecimento; d) falta de causa ou causa injusta.

Para se auferir se houve o enriquecimento sem justa causa, deve-se indagar se a


vantagem patrimonial obtida é atribuída por uma razão justa, por um título legítimo, ou
36
por um motivo lícito.

Esse é o entendimento do STJ: “a correção monetária, por não representar aumento do


principal da dívida, apenas resguardando o valor real desta, incide desde a data em que
a instituição financeira deixou de remunerar a caderneta de poupança com índice
37
correto, para evitar enriquecimento sem causa do depositário”.

No caso sub examine, a sentença coletiva condenatória resultou da ação promovida pela
APADECO, que buscava o ressarcimento de valores que deixaram de ser creditados em
cadernetas de poupança pela instituição financeira depositária, ora executada, e que lhe
geraram automaticamente o enriquecimento sem causa.

Nota-se, portanto, que a causa petendi da ação civil pública se subsume ao


enriquecimento sem causa, haja vista que sustenta que o dever de reparação deve ser
mensurado levando em conta o benefício auferido sem justificação jurídica. Esse é o
entendimento de José Roberto de Castro Neves:

“Saliente-se, nesse passo, uma distinção fundamental na reparação decorrente do


enriquecimento sem causa e da responsabilidade aquiliana. Nesta, afere-se o prejuízo do
lesado, para que o dano seja plenamente indenizado, ao passo que no enriquecimento
sem causa a recomposição será mensurada pelo benefício sem justificação jurídica. A
distinção não é sutil.

O dano pode ser maior, mas, no enriquecimento sem causa, a reparação se limite à
devolução do benefício ou proveito. O enfoque primordial, portanto, é, ao mesmo tempo,
38
no ganho do patrimônio do beneficiado e no decréscimo no patrimônio do lesado”.

A própria APADECO afirmava que os poupadores teriam sido lesados porque suas
cadernetas de poupança teriam sido corrigidas por aplicação de índice diverso (LBCs) do
qual deveria ter sido aplicado, o IPC; logo, teria ocorrido o empobrecimento dos
poupadores.

Ao mesmo tempo em que conquistava aumento patrimonial à custa de outrem, em razão


da apropriação monetária paga a menor, essa prática era realizada sem nenhum
respaldo legal, uma vez que as alterações trazidas pela Medida Provisória n. 32/89 não
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PRESCRIÇÃO E DIREITO INTERTEMPORAL

se aplicam às cadernetas de poupança que têm aniversário até 15.01.1989, porquanto


aquela não poderia retroagir para atingir essas contas.

Por conseguinte, dúvidas não restam de que a pretensão individual executória da


condenação contida na sentença proferida na ação civil pública rege-se pela mesma
medida (STF 150) da prescrição da ação ressarcimento de enriquecimento sem causa,
estabelecida em 3 anos (CC 206 § 3.º IV), a qual operou-se, irremediavelmente, em
12.01.2006.
5. Conclusão: resposta ao quesito formulado

Em vista de todo o exposto, passamos a responder ao quesito formulado pelo


consulente:

Está prescrita a pretensão executória da condenação proferida na sentença da Ação Civil


Pública n. 38765/98 pelos consumidores supostamente lesados? Em caso afirmativo, a
partir de quando se operou a referida prescrição?

Resposta: Sim. Tendo-se em conta a teoria da actio nata aplicável ao caso, e que nela
actio quer significar o poder de requerer a satisfação de determinado direito, e que a
aplicação de referida teoria alcança também a pretensão executória, conclui-se que o
nascimento do poder de execução da sentença condenatória da ação civil pública em tela
se deu em 03.09.2002, correspondendo à data do trânsito em julgado da sentença
condenatória da ação civil pública movida pela APADECO e constituindo o dies a quo da
prescrição da pretensão executória.

Cediço que a prescrição da pretensão executória segue o mesmo prazo estabelecido em


lei para a prescrição da pretensão do direito material cuja sentença se anseia executar (
STF 150), e tendo em vista que a sentença da ação civil pública busca promover o
ressarcimento de enriquecimento sem causa, atendendo a causa petendi em que se
funda a aludida demanda, conclui-se que o prazo prescricional para os particulares
executarem a sentença coletiva, que transitou em julgado no dia 03.09.2002, iniciou-se
naquela data; sobrevindo, porém, lei nova (CC 2002) que estabeleceu regra especial de
prazo prescricional incidente à hipótese (3 anos), e tendo a novel legislação aplicação
imediata, aplica-se ela ao caso a partir de sua vigência, isto é, no dia 12.01.2003, logo,
o dies ad quem para o prazo prescricional ocorreu precisamente no dia 12.01.2006.

O que se verifica, portanto, é que, pela aplicação do sistema prescricional do CC (de 3


anos), a pretensão individual para executar a sentença proferida nos autos da Ação Civil
Pública n. 38765/98 já se encontra prescrita desde 12.01.2006.

É o nosso parecer, salvo melhor juízo.

São Paulo, 3 de setembro de 2009.

1 Agnelo AMORIM FILHO, Critério científico para distinguir a prescrição da decadência e


para identificar as ações imprescritíveis, RT n. 744, São Paulo: Ed. RT, out. 1997, p.
726.

2 Antônio Luis da CÂMARA LEAL, Da prescrição e da decadência; teoria geral de direito


civil, 4. ed., Rio de Janeiro: Forense, 1982.

3 A punição a que nos referimos respeita à impossibilidade de perenidade de exercício de


direito tido como violado. É dizer, não é de interesse social que a parte cujo direito tenha
sido violado tenha a possibilidade de pretendê-lo quando bem entender, de maneira
infindável. A prescrição tem função estabilizadora das relações jurídicas, garantindo,
assim, a segurança jurídica. Sobre a prescrição como punição: Antônio Luis da CÂMARA
Página 11
PRESCRIÇÃO E DIREITO INTERTEMPORAL

LEAL, Da prescrição e da decadência, cit., n. 19, p. 26.

4 Nelson NERY JUNIOR e Rosa Maria de Andrade NERY, Código Civil comentado, 6. ed.,
São Paulo: Ed. RT, 2008, coment. 1 CC 189, p. 374.

5 Giuseppe CHIOVENDA, Istituzioni di diritto processuale civile, 2. ed., Napoli: Casa


Editrice Dott. Eugenio Jovene, 1935, vol. I, n. 4, p. 8-14.

6 Agnelo AMORIM FILHO, Critério científico para distinguir a prescrição da decadência,


cit., p. 728.

7 Nas palavras de Giuseppe CHIOVENDA: “Questa categoria di diritti, di recente studiata


dalla dottrina, particolarmente processuale, si contrappone nettadamente alla prima,
perchè nei diritti potestativi manca completamente ciò che è caratteristico dei diritti ad
una prestazione, cioè appunto l’obbligo d’una persona di eseguire una prestazione. In
molti casi la legge concede a taluno il potere di influire colla sua manifestazione di
volontà sulla condizione giuridica di un altro, senza il consorso della volontà di costui: a)
o facendo cessare un diritto o uno stato giuridico esistente; b) o producendo un nuovo
diritto o stato o effeto giuridico” (Istituzioni, cit., vol. I, n. 4, p. 12).

8 Thiago RODOVALHO dos Santos, Prescrição e decadência no âmbito do Código Civil


Brasileiro, Campinas: Copola, 2003, p. 76.

9 Os direitos potestativos fazem parte e estão de tal maneira interligados às relações de


direito, especialmente no que respeita a demandas, que não podem ser transmitidos
independentemente. Nas palavras do autor: “Von den Gestaltungrechten sind die
meisten als untrennbare Bestandteile mit einem Rechtsverhältnis oder Recht,
insbesondere einer Forderung, verbunden und können daher nicht selbständig
übertragen werden” (Andreas VON TUHR, Der Allgemeine Teil des Deutschen
Bürgerlichen Rechts, Berlin: Duncker & Humbolt, 1957, vol. 1, t. 1, § 12, n. IV, p. 225).

10 Neste sentido, por exemplo: Yussef Said CAHALI, Aspectos processuais da prescrição
e da decadência, São Paulo: Ed. RT, 1979, p. 22 (“Cuidando-se, pois, de direito
potestativo, o seu titular vai a juízo pretendendo a criação, modificação ou extinção da
situação jurídica que está autorizado a determinar por ato unilateral de sua vontade;
conseqüentemente, a tutela dos direitos potestativos se dá mediante as denominadas
ações constitutivas”).

11 “Tratando-se de pretensão que se exerce em juízo mediante ação condenatória, terá


sempre cunho patrimonial e, portanto, sujeita à extinção por meio de prazo
prescricional, devendo o juiz examinar essa matéria de ofício. Tratando-se de pretensão
que se exerce em juízo mediante ação constitutiva, com prazo de exercício previsto
expressamente em lei, esse prazo de extinção é de decadência, devendo o juiz examinar
essa matéria de ofício. Assim, o juiz poderá decretar, de ofício, a decadência e a
prescrição” (Nelson NERY JUNIOR e Rosa Maria de ANDRADE NERY, Código de Processo
Civil Comentado, 10. ed., São Paulo: Ed. RT, 2007, coment. 21 CPC 219, p. 470).

12 Nelson NERY JUNIOR e Rosa Maria de ANDRADE NERY, Código Civil comentado, cit.,
coments. 2 a 5 CC 189, p. 374-375.

13 Nelson NERY JUNIOR e Rosa Maria de ANDRADE NERY, Código de Processo Civil
Comentado, cit., coment. 3 CPC 220, p. 476-477.

14 Neste sentido, Agnelo AMORIM FILHO, Critério científico para distinguir a prescrição
da decadência, cit., p.725-750.

15 Enrico Tullio LIEBMAN, Processo de Execução, 4. ed., com notas de atualização do


Prof. Joaquim Munhoz de Mello, São Paulo: Saraiva, 1980, n. 34, p. 84.
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PRESCRIÇÃO E DIREITO INTERTEMPORAL

16 Amílcar de CASTRO, Comentários ao Código de Processo Civil, 2. ed., Rio de Janeiro:


Forense, 1963, vol. X, t. 2, n. 482, p. 466.

17 Antonio Luís da CÂMARA LEAL, Da prescrição e da decadência, cit., p. 22.

18 Giuseppe PUGLIESE, La prescrizione estintiva, 4. ed., Torino: Utet, 1924, p. 99.

19 Giuseppe PUGLIESE. La prescrizione estintiva, cit., p. 102 (“Più concreta e meglio


delimitata è la teorica dell’actio nata, quando per actio s’intenda la potestà di richiedere
il soddisfacimento del diritto. Vi ha in essa l’elemento preciso della lesione del diritto, il
quale in sè è pienamente giusto, non dubitandosi che dal punto, in cui il diritto è violato
e diventa un dovere la reazione, incomincia la prescrizione. La teorica per tutti i casi, che
è capace di abbracciare, è esatta; ma ad essa sfuggono le ipotesi d’inerzia
esclusivamente soggettiva del titolare, independente da qualsiasi lesione del diritto”).

20 Pontes DE MIRANDA, Tratado de direito privado, 4. ed., São Paulo: Ed. RT, 1983, t.
VI, n. 10, p. 240.

21 Nelson NERY JUNIOR e Rosa Maria de ANDRADE NERY, Código Civil comentado, cit.,
coment. 1 Livro complementar, p. 1235.

22 Nelson NERY JUNIOR e Rosa Maria de ANDRADE NERY, Código Civil comentado, cit.,
coment. 4 Livro complementar, p. 1235. V. Paul ROUBIER, Le droit transitoire (conflits
des lois dans le temps), 2. ed., Paris: Éditions Dalloz et Sirey, 1960, n. 38, p. 177.

23 Nelson NERY JUNIOR e Rosa Maria de ANDRADE NERY, Código Cvil Comentado, cit.,
coment. 5 Livro complementar, p. 1235.

24 Tal como já explicamos, “O novo CC entrou em vigor em 12 de janeiro de 2003. A


contagem se faz de acordo com a regra da LC 95/1998 8.º § 1.º, com redação dada pela
LC 107/2001, verbis: ‘art. 8.º (…) § 1.º A contagem do prazo para a entrada em vigor
das leis que estabeleçam período de vacância far-se-á com a inclusão da data da
publicação e do último dia do prazo, entrando em vigor no dia subsequente à sua
consumação integral’. O texto do CC (L 10406) foi publicado na edição extra do DOU de
11.01.2003, o CC entrou em vigor no dia subsequente (12.01.2003) ao da consumação
integral do prazo (11.01.2003)” (Nelson NERY JUNIOR e Rosa Maria de ANDRADE NERY,
Código Civil comentado, cit., coment. 2 CC 2044, p. 1243).

25 Nelson NERY JUNIOR e Rosa Maria de ANDRADE NERY, Código Civil comentado, cit.,
coment. 3 CC 2028, p. 1238. Nesse sentido: Antonio JEOVÁ SANTOS, Direito
intertemporal e o novo Código Civil, 2. ed., São Paulo: Ed. RT, 2004, p. 108.

26 STJ, 4.ª T., REsp 838414-RJ, rel. Min. Fernando Gonçalves, j. 08.04.2008, v.u., DJU
22.04.2008.

27 Nelson NERY JUNIOR e Rosa Maria de ANDRADE NERY, Código Civil comentado, cit.,
coment. 2 CC 2028, p. 1238.

28 STF, 1.ª T., RE 51706, rel. Min. Luis Gallotti, j. 04.04.1963, v.u., DJU 25.07.1963, p.
403.

29 TJSP, 34.ª Câm.Dir.Priv., Ag 899300-0/5, rel. Des. Nestor Duarte, j. 22.06.2005,


v.u., in Revista de Direito Privado, n. 28, p. 347, São Paulo: Ed. RT, out.-dez., 2006.

30 R. LIMONGI FRANÇA, O direito adquirido à face do encurtamento de prazos pela lei


nova, Revista de Direito Civil, n. 20, p. 183, São Paulo: Ed. RT, abr.-jun., 1982.

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PRESCRIÇÃO E DIREITO INTERTEMPORAL

31 V. Marc AMSTUTZ, Peter BREITSCHMID, Andreas FURRER, Daniel GIRSBERGER,


Claire HUGUENIN, Markus MÜLLER-CHEN, Vito ROBERTO, Alexandra RUMO-JUNGIO e
Anton K. SCHNYDER, Handkommentar zum Schweizerischen Privatrecht, Zürich:
Schulthess Juristische Medien, 2007, SchT ZGB 49, p. 1182.

32 Miguel Maria de SERPA LOPES, Comentários à Lei de Introdução ao Código Civil, 2.


ed., vol. I, São Paulo: Livraria Freitas Bastos, 1959, p. 347.

33 R. LIMONGI FRANÇA, O direito adquirido à face do encurtamento de prazos pela lei


nova, cit., p. 183.

34 Jorge AMERICANO, Ensaio sobre o enriquecimento sem causa, São Paulo: Saraiva,
1933, p. 111.

35 Orlando GOMES, Obrigações, 17. ed., Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 301.

36 Orlando GOMES, Obrigações, cit., p. 301.

37 STJ, 3.ª T., REsp 97156-MG, rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, j. 10.06.1997,
v.u., DJU 15.09.1997, p. 44375.

38 José Roberto de CASTRO NEVES, O enriquecimento sem causa como fonte de


obrigações, RT, n. 843, p. 111, São Paulo: Ed. RT, jan., 2006.

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