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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

O SANGUE DOS INOCENTES

Júlia Navarro

Título da edição original: La sangre de los inocentes


Copyright C 2007, Julia Navarro Copyright C 2007, Random House Mondadori, SA
Todos os direitos de publicação desta obra em língua portuguesa, excepto Brasil, reservados por:
GÓTICA
Denominação social: Gótica 2000, Sociedade Editora e livreira,Lda. Sede social: Av. das Tulipas,40C
Miraflores 1495-159 Algés
E-mail: gótica@difel.pt
Capa: Design de João Rocha sobre ilustração de Christie's Images/Corbis/VM1
Revisão: Fernanda Alves
Pré-impressão: Gráfica 99, Ida.
Impressão e acabamento: Tipografia Guerra
Viseu Outubro de 2007
Distribuição DIFEIL
Av. das Tulipas, 40 C
Miraflores, 1495-159 Algés
Outubro de 2007
A editora Gótica é uma empresa do grupo Difel

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

A minha mãe, Martina Elia Fernández,


in memorian, com todo o meu amor. Obrigada.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Agradecimentos
Atrás de um livro há muitas outras pessoas para além do autor. Durante o longo ano e
meio em que escrevi O Sangue dos Inocentes, contei com a generosidade, paciência e apoio
de Fermín e Alex, e também com alguns amigos muito queridos que não me regatearam
estímulos e permaneceram muito próximos, como Fernando Escribano, Margarita Robles,
Carmen Martínez Terrón, Dolores Travesedo e Lota Pedrosa, ou os meus primos Juan Manuel e
Mercedes.
Abraham Dar, com afecto e paciência, conduziu-me pela Israel de ontem e de hoje,
aquela dos pioneiros dos primeiros kibutzim, recomendou-me livros, procurou-me
documentação e respondeu a todas as minhas perguntas e dúvidas acerca da situação dos
judeus na França de Vichy ou na Berlim dos primeiros meses da Segunda Guerra Mundial,
e garanto-vos que foram muitas.
Também não posso esquecer o apoio e a confiança do meu editor David Trias, de Núria
Tey e Riccardo Cavallero; de Luciano de Cea e de toda a equipa de comerciais da Plaza y
Janés; de Alicia Martí e Letícia Rodero, sempre com um sorriso; de Emilia Lope que me ajudou
a passar a limpo o manuscrito, e, à partida, Justyna Rzewuska, que abriu as portas para que
os meus romances se leiam em mais de vinte e seis países. A verdade é que me faltaria espaço
para demonstrar o meu agradecimento a quantos trabalham na Plaza y Janés, e que tornam
possível a chegada dos meus romances à mão dos leitores.
Com Tifis, o meu cão, um pastor-alemão nobre e fiel, dei longos passeios que me
serviram para aclarar ideias acerca do que estava a escrever.
Reconheço que sem a minha família e amigos não seria capaz de fazer nada, e muito
menos escrever um romance como aquele que segura nas suas mãos.

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PRIMEIRA PARTE

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Languedoc, meados do século XIII

Sou espião e tenho medo. Tenho medo de Deus, porque em Seu nome fiz coisas
terríveis.
Mas não, não Lhe atribuirei a culpa das minhas misérias porque não é Sua, apenas
minha e da minha senhora. Na verdade, a culpa é dela e apenas dela, porque sempre se
comportou como um ser omnipotente perante todos aqueles que têm estado ao seu lado.
Jamais ousámos contradizê-la, nem sequer o seu esposo, o meu bom senhor.
Vou morrer, sinto-o nas entranhas. Sei que chegou a minha hora, por mais que o
médico me assegure que ainda viverei durante muito tempo, porque o mal que me
consome não é mortal. Mas ele apenas estuda a cor da íris dos meus olhos e a minha língua,
e sangra-me para me retirar os maus humores do corpo, embora isso não alivie a dor
permanente que sinto na boca do estômago.
O mal que me consome tenho-o na alma porque não sei quem sou, nem qual o
Deus verdadeiro. E por mais que sirva os dois, acabo por os atraiçoar a ambos.
Escrevo para aliviar a mente, apenas por isso, embora saiba que, se estas páginas
caírem nas mãos dos meus inimigos ou até na dos meus amigos, terei assinado a minha
sentença de morte.
Faz frio e, talvez porque tenha a alma gelada, por mais que me envolva na minha capa,
não consigo aquecer os ossos.
Esta manhã, Frei Pèire, ao trazer-me um caldo quente, tentou animar-me com a
notícia do Natal. Diz que Frei Ferrer me virá visitar mais tarde, mas pedi-lhe que me
desculpasse perante o inquisidor. Os olhos de Frei Ferrer provocam-me vertigens e a sua
voz pausada, terror. Nos meus pesadelos, envia-me para o inferno, e mesmo ali sinto frio.
Mas estou a desvairar, a quem interessa que tenha frio?
Os irmãos não desconfiam ao ver-me escrever. É o meu Ofício. Sou escrivão da
Inquisição.
Os meus outros irmãos também não desconfiam. Sabem que a minha senhora me

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pediu que escreva uma crónica do que acontece neste recanto do mundo. Quer que um dia
os homens conheçam a iniquidade daqueles que dizem representar Deus.
Quando ergo o olhar para o céu, Montségur surge entre a névoa, e a sua imagem
desfocada enche-me de ansiedade.
Imagino o ir e vir da minha senhora a dar ordens a uns e outros. Porque por mais que
dona Maria se tenha convertido em perfeita está no seu carácter mandar. Nem quero
pensar em que complicações nos teria metido se fosse homem.
De vez em quando, filtra-se através da tela grossa da minha tenda a voz forte do
senescal. Hugues des Arcis não parece estar de bom humor esta manhã, mas quem o está?
Faz frio, e a neve cobre o vale e as montanhas. Os homens estão cansados, estamos aqui
desde o passado mês de Maio, e receiam que o senhor Pèire Rotger de Mirapoix aguente
durante muitos mais meses o cerco. O senhor de Mirapoix conta com a cumplicidade dos
habitantes do lugar que, nas barbas do senescal, são capazes de ir e vir da fortaleza
levando provisões e notícias de parentes e amigos.
Ontem recebi uma mensagem da minha senhora dona Maria, na qual me incita a
reunirmo-nos esta noite. Talvez o meu desassossego se deva ao ter de atender a esta última
ordem.
Um dos camponeses da zona, que fornece o senescal com o queijo das suas cabras,
conseguiu entrar na minha tenda para me entregar a carta de dona Maria. As suas
instruções são precisas: quando a noite cair, devo abandonar o acampamento e caminhar
até à entrada do vale. Ali alguém me levará pelas passagens secretas que sei conduzirem a
Montségur. Se Hugues des Arcis soubesse da sua existência pagar-me-ia bem pela informa-
ção, ou talvez me mandasse castigar por não lhas ter revelado há mais tempo.
A tarde torna-se eterna. Oiço passos, quem será?
— Estais bem, Julián? Frei Pèire alarmou-me ao dizer que estáveis com febre.
O frade levantou-se de um salto e abraçou o homem alto e robusto que acabava
de entrar na tenda sem autorização. Era o irmão. Por um instante, sentiu-se melhor, como
quando era criança e se sentia protegido pela figura imponente de Fernando, o qual era
capaz de derrubar com um soco qualquer pessoa que se aproximasse. Mas era sobretudo o
olhar sereno e confiante que desarmava os seus adversários, e fazia com que os amigos se
sentissem seguros.
— Fernando, vós aqui? Que alegria! Quando chegastes?

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— Há apenas uma hora que chegámos ao acampamento.


— Chegaram?
— Sim, eu com mais cinco cavaleiros. O bispo de Albi, Durand de Belcaire, pediu
ajuda ao grão-mestre. O nosso irmão Arthur Bonard é um engenheiro hábil, tal como o
bispo.
— Há já dias que chegaram os reforços que o bispo enviou ao nosso senhor Hugues des
Arcis. Mas não sabia que também tinha pedido ajuda ao Templo. É um homem de Deus
aquele que gosta da guerra, já que é capaz de imaginar todos os tipos de máquinas e
artefactos para destruir o inimigo.
— Presumo que terá outras virtudes... — respondeu Fernando com um sorriso.
— Oh, sim! Discursa aos soldados quase melhor do que o senhor Des Arcis.
— Bem, não está nada mal para um bispo — troçou Fernando.
— Dizei-me, os templários querem acabar com os bons homens? Ouvi rumores de
que não gostam de perseguir cristãos.
Fernando demorou a responder. De seguida, suspirou e disse em voz baixa:
— Não façais caso dos rumores.
— Isso não é uma resposta. Não confiais em mim?
— Claro que sim! Sois meu irmão! Bem, dar-vos-ei uma resposta. Os cristãos têm
adversários poderosos, demasiados para perder energias a combater entre nós. Que dano
causam os bons homens? Vivem como verdadeiros cristãos, e dão testemunho de pobreza.
— Mas renegam a Cruz! Não vêem Nosso Senhor nela.
— Consideram a Cruz como um símbolo, como o lugar onde foi crucificado. Mas não
sou teólogo, sou um simples soldado.
— E também monge.
— Cumpro com Deus como me manda a Santa Madre Igreja, embora isso não
signifique que não possa pensar. Não gosto de perseguir cristãos.
— Nem vós nem aqueles que pertencem à vossa Ordem — replicou Julián.
— E vós, gostais de ver mulheres e crianças a arder nas fogueiras?
A pergunta de Fernando provocou-lhe náuseas.

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— Que Deus os guarde no Seu seio! — exclamou Julián, enquanto se persignava.


— A Igreja garante que estão no inferno — asseverou Fernando em tom de troça. —
Não nos aflijamos e conformemo-nos com a situação. Nem a vós, nem a mim, agradam as
mortes dos inocentes. Quanto ao Templo.., somos filhos obedientes da Igreja, pediram os
nossos serviços por isso aqui estamos. Outra coisa é aquilo que faremos.
— Deus seja louvado! Desse modo, estais aqui mas como se não...
— Qualquer coisa parecida.
— Tende cuidado, Fernando. Encontra-se entre nós Frei Ferrer, que vê heresia até
no silêncio.
— Frei Ferrer? Devo confessar-vos que as notícias que ouvi dele são inquietantes.
Porque está aqui?
— Dirige a nossa ordem e jurou fazer justiça, ao mandar para a fogueira os assassinos
dos nossos irmãos.
— Referi-vos aos dominicanos assassinados em Avignon?
— Assim é. Chegaram a essa cidade em busca de hereges. Acompanhavam--nos oito
escrivães que foram vítimas de uma emboscada. Raimundo de Alfaro, o administrador
do conde de Toulouse em Avignon, autorizou o seu assassinato.
— Mas isso não está provado — contestou Fernando.
— Duvidais, senhor? — ouviram nas suas costas.
Julián e Fernando voltaram-se, surpreendidos. Frei Ferrer acabava de entrar na tenda
e ouvira as últimas palavras.
Fernando não se alterou, apesar do olhar carregado de reprovação com que o
inquisidor o observava.
— Vós sois...?
— Frei Ferrer — respondeu o dominicano —, e perguntava-vos se duvidais da
cumplicidade de Alfaro no assassinato dos meus dois irmãos.
— Não existem provas de que isso tenha acontecido.
— Provas? — trovejou Frei Ferrer. — Sabei que Alfaro alojou os meus irmãos na torre
de menagem do castelo, onde ninguém lhes pudesse prestar socorro, longe de qualquer
olhar. Sabei também que foram assassinados a meio da noite por um destacamento de

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hereges saído daqui, de Montségur, este ninho de iniquidade que Deus destruirá. A Igreja
não perdoará esta afronta. Esses a que chamam Bons Cristãos são um bando de assassinos.
Julián olhava-o aterrorizado e incapaz de se mover. Fernando avaliou o dominicano e
decidiu que seria um erro entrar em conflito com ele.
— Ignoro os pormenores do ocorrido. Se dizeis que foi assim, então que seja.
Frei Ferrer cravou os olhos em Julián, que parecia prestes a desmaiar.
— Frei Pèire insistiu que não vos viesse ver porque necessitais de repousar, mas
faltaria à piedade e à caridade se não me preocupasse convosco. Vejo que estais
acompanhado, e visitar-vos-ei noutra altura.
Frei Ferrer saiu com a mesma rapidez com que os surpreendera.
— Vamos, não vos assusteis, vi-vos empalidecer — riu-se Fernando. — É vosso irmão
em Deus.
— Vós.., vós não o conheceis — murmurou Julián.
— Não gostaria de estar no lugar dos hereges. Receio que algo que falta a este Frei
Ferrer seja a compaixão.
— Presumo que sabeis que vossa mãe continua em Montségur, acompanhada pela
mais nova de vossas irmãs.
Fernando assentiu com uma expressão séria e preocupada. Evocar a mãe, dona
Maria, causou-lhe uma dor repentina no peito. Nunca a sentira muito próxima, apesar de lhe
querer mais até do que ao próprio pai. Enérgica e inquieta, não prodigalizara demasiadas
carícias entre os filhos, por muito que quisesse a todos e os protegesse, procurando-lhes
um futuro.
— Eu... bem... vi-a nalgumas ocasiões — confessou Julián.
— Não é de estranhar, o castelo nunca esteve incomunicável. Sabemos que alguns
dos seus homens sobem e descem por passagens secretas que apenas eles conhecem.
Minha mãe enviou-me uma carta não há muito tempo.
— Escreveu-vos? — perguntou Julián, assustado. — Só a senhora se poderia atrever a
fazer algo assim!
— Não vos preocupeis. Minha mãe é inteligente e não nos colocou em perigo.
Recebi a missiva através de um pajem da casa de minha irmã Marian. Já sabeis que seu
esposo, dom Bertran d'Amis, serve o conde Raimundo, de modo que Marian recebe notícias

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frequentes de minha mãe. Agora que estou aqui tentarei visitá-la, não sei bem como...
talvez me possais ajudar.
— Nem sequer o deveis tentar! O meu senhor Hugues des Arcis matar-vos-ia, e o bispo
excomungar-vos-ia.
— Saberei encontrar um modo, meu bom Julián. Tentarei convencê-la a abandonar
Montségur ou, pelo menos, que o permita a minha irmã Teresa, que mal deixou a infância.
Mais tarde ou mais cedo, o castelo será conquistado e... bem, vós sabeis tão bem quanto
eu: não haverá piedade para os cátaros. Tentarei convencê-la, devo-o a meu pai, ao nosso
pai.
Julián baixou a cabeça envergonhado. Doíam-lhe as entranhas ao saber-se um
bastardo de dom Juan de Aínsa.
— Vamos, Julián, não vos quero ver abatido!
Julián sentou-se e serviu-se de um jarro de água que bebeu com sofreguidão sem o
oferecer a Fernando. Este esperou em silêncio até que o irmão reencontrasse o sossego
antes de prosseguir.
— Estivestes com dom Juan? — perguntou Julián num fio de voz.
— Há muitos anos, de regresso a este país, consegui desviar-me e passar por Aínsa
para visitar nosso pai. Estive apenas dois dias com ele, mas foi o suficiente para nos
inteirarmos um do outro. Continua a amar minha mãe tanto como no dia em que a
desposou e o destino dela angustia-o. Pediu-me que a salvasse, a ela e à minha irmã mais
nova. Prometi-lhe que faria o impossível para que abandonasse Montségur, embora ambos
saibamos que minha mãe não deixará o castelo, que defrontará a própria morte porque não
teme nada nem ninguém, nem sequer Deus.
— Dom Juan encontra-se bem de saúde?
— Está muito enfermo, a gota quase que o impede de andar, e sofre de espasmos no
coração. A mais velha das minhas irmãs trata dele com devoção. Já sabeis que dona Marta
enviuvou e regressou à casa paterna com seus dois filhos, em busca da protecção de nosso
pai.
— Dona Marta sempre foi a sua filha favorita.
— É a mais velha de todos nós e durante algum tempo parecia que ia ser a sua única
filha, já que minha mãe não engravidava. Com excepção, claro, dos outros filhos que meu
pai teve...
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Sim, os seus bastardos. Dom Juan amava dona Maria, mas nunca teve pejo em
tomar outras donzelas.
— Vossa mãe era muito formosa.
— Sim, devia sê-lo, nunca tive o prazer de a conhecer.
Os dois homens ficaram em silêncio, cada um absorto nos seus pensamentos. O ar
frio e o pigarro de Frei Pèire devolveu-os à realidade.
— Desculpai-me, dom Fernando, vinha comprovar se Frei Julián se encontrava bem.
Não sei se se sentirá com forças para jantar connosco ou se prefere que lhe tragamos até
aqui a refeição...
— Se não vos incomoda, desejaria ficar na tenda — afirmou Julián. — Sinto-me mal.
Quem sabe o sono me sirva de ajuda.
— Direi ao médico que vos volte a examinar — disse Frei.
— Não! Rogo-vos! Não suportaria outra sangria! Um pouco de sopa e um pedaço de
pão para molhar no vinho serão os melhores dos remédios. Estou muito cansado, Frei
Pèire...
— Creio que tem razão — intercedeu Fernando. — O melhor que podemos fazer pelo
meu bom irmão é deixar que repouse. Não há nada melhor do que um bom sono
reparador.
— Quanto a vós, dom Fernando, esperam-vos para partilhar o jantar com meu senhor
Hugues des Arcis e o resto dos cavaleiros.
— Não me demorarei mais de um minuto, o tempo que tardareis em trazer o caldo e
o vinho com pão ao bom Julián.
Com passo diligente, Frei Pèiré voltou a sair da tenda, preocupado pela palidez do
irmão Julián. Que Deus o perdoasse, mas acreditava ter visto a morte reflectida no rosto
dele.
— Sinto ter-vos causado pesar — disse Fernando, quando ficaram de novo sós.
— Não vos preocupeis.
— Sim, preocupo-me porque vos aprecio, e quer gosteis quer não, somos meios-
irmãos. Isso não vos deveria afligir. Sois filho de um nobre senhor da vila de Aínsa.
— E de uma criada de vossa casa.

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— De uma jovem bela e encantadora que não teve outra opção senão entregar-se ao
seu senhor. Não fui eu que ditei as regras, nem estou de acordo com elas. Mas vós sabeis
tão bem quanto eu que os senhores têm filhos fora do matrimónio. Tivestes sorte, porque
minha mãe nunca abandonou os filhos bastardos, nem tão-pouco as suas mães. Procurou
dar a todos uma posição e colocou um especial empenho no vosso caso. Fostes criado no
nosso solar de família, aprendestes a montar a cavalo ao mesmo tempo que eu e fizeram-
-vos aprender a ler e a escrever, inclusive, minha mãe comprou-vos o vosso cargo
eclesiástico...
— Mas sou um bastardo.
— Somos todos iguais perante os olhos de Deus. No dia do Juízo Final não vos
perguntarão pelo momento nem pela circunstância do vosso nascimento, apenas por aquilo
que fizestes nesta vida.
Julián, aterrado, começou a tossir convulsivamente enquanto Fernando tentava em
vão fazê-lo beber água.
— Acalmai-vos e bebei água! Mas, que vos está a acontecer?
— O juízo de Deus... sei que irei para o inferno.
O frade tremia e as lágrimas deslizavam-lhe pelas faces. A angústia e o medo
converteram o escrivão da inquisição numa criança.
— Mas, Julián, qual a vossa culpa para que vos sintais assim?
— Vossa mãe, é ela a culpada do meu sofrimento!
— Calai-vos! Como vos atreveis a dizer tamanha barbaridade!
As lágrimas inundaram o rosto do frade que, por entre fortes convulsões, caiu no
austero catre onde dormia. Fernando não sabia que fazer. Sentia pena ao ver o estado de
Julián, a quem sempre quisera e protegera, e que preferia ao resto dos seus irmãos.
— É uma sorte que tenha vindo connosco o cavaleiro Armand. É um físico bom e no
Oriente aumentou os seus conhecimentos. Pedir-lhe-ei que vos visite e vos dê um remédio
para o mal que vos apoquenta. Agora tenho de ir. Amanhã, voltarei para vos ver.
Fernando saiu da tenda, intrigado pelo sofrimento de Julián. Preocupava-o, mais que
o padecimento físico do irmão, saber que tinha a alma apoquentada.

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Julián permaneceu um bom bocado encolhido no catre. Nem sequer se mexeu


quando Frei Pèire lhe levou a sopa, o pão e o vinho. Preferiu fingir que estava a dormir para
não ter que se confrontar com outra conversa acerca do seu calamitoso estado de saúde.
Quando deixou de ouvir os passos de Frei Pèire, sentou-se para molhar o pedaço de pão no
vinho de sabor áspero que algumas vezes lhe conseguia levantar o ânimo. Bebeu de uma só
vez a sopa e voltou a estender-se, à espera que se desvanecessem os ruídos do
acampamento para acudir ao pedido de dona Maria. O homem que lhe entregara a
mensagem da senhora esperá-lo-ia no exterior do acampamento para o conduzir através
dos penhascos até ao lugar onde se devia encontrar com ela.
Não soube quanto tempo passara quando ouviu um ruído perto da tenda. Sentou-
se sobressaltado, consciente de que adormecera. Conseguiu levantar-se a muito custo e
serviu-se de um copo de água, que bebeu com sofreguidão. De seguida, enxaguou o rosto,
vestiu o hábito amarrotado, e saiu silenciosamente da tenda. Sentia que as pancadas do
coração podiam despertar o acampamento que nesse momento estava tranquilo, iluminado
pelas chamas das fogueiras que tentavam aliviar o frio intenso daquela noite de Inverno.
Escapuliu-se do acampamento com passos rápidos e dirigiu-se ao bosque, certo que a
qualquer momento apareceria o enviado de dona Maria.
— Estais atrasado — recriminou-o o homem que saiu ao seu encontro como se se
tratasse de um espectro. Era um cabreiro que conhecia bem os caminhos da montanha.
— Não pude vir antes.
— Ou adormecestes — replicou o homem, de mau humor.
— Não, não adormeci, só que não posso sair do acampamento quando me apetece.
— Pois outros o fazem.
— Isso é uma surpresa!
— Surpreende-vos que entre os soldados recrutados à força existam alguns que têm
familiares ali em cima?

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Julián calou-se. De modo que Fernando tinha razão. Havia quem entrasse e saísse de
Montségur como de sua própria casa.
— Onde é que a senhora me espera?
— Segui-me até ao lugar.
Caminharam perto de uma hora entre penhascos formados por blocos calcários
que terminavam na enorme rocha onde, desafiador ao olho humano, se encontrava o
castelo de Montségur.
O cabreiro deteve-se junto de umas árvores que se encarrapitavam por um dos
penhascos. Mal recuperara o fôlego quando se encontrou perante dona Maria.
Julián, filho, quanto me alegra ver-te!
— Minha senhora...
— Vem, senta-te a meu lado, não temos muito tempo e temos de o aproveitar. Quero
que me contes como estão as coisas ali em baixo. Os nossos espiões dizem que Hugues des
Arcis conta com dez mil homens. Espero que o conde de Toulouse não se amedronte
perante essa força e cumpra os seus compromissos para com esta terra. Não se trata
apenas de fé, mas sim de poder.
— Que dizeis, senhora?
— Se Hugues des Arcis conquistar Montségur, acabou-se a liberdade na nossa terra.
O rei quer estas terras porque, sem elas, o seu reino não vale nada. Pensas que lhe
interessam os cátaros? Não, filho, não te iludas, aqui não se luta por Deus, mas sim pelo
poder. Querem o nosso país para a Coroa.
— Mas o papa quer erradicar a heresia!
— O papa sim, mas ao rei de França tanto lhe faz.
— Senhora, dizeis cada coisa...!
— Bem, não te cansarei com as minhas ideias, prefiro ouvir-te, ou melhor, que
respondas às minhas perguntas.
Durante uma hora, dona Maria interrogou Julián. Não houve pormenor acerca das
forças de Hugues des Arcis sobre as quais não lhe colocasse perguntas.
— E tu, Julián? Continuas a ser um crente?
— Que sei eu! Estou confuso, senhora, já nem sei quem é Deus.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Mas como é possível que digas isso? Enganei-me contigo? Sempre te considerei
inteligente, por isso quis que estudasses e te tornasses dominicano...
— Contudo, a única coisa que quereis é que atraiçoe os meus irmãos!
— O que quero é que sirvas o Deus verdadeiro, e não o demónio que tens por Deus.
Julián persignou-se, espantado. Dona Maria atormentava-o com as suas ideias
heréticas e fazia-o duvidar. Ainda recordava o dia em que o chamara para lhe dizer que
encontrara o Deus verdadeiro, e que a partir desse momento ele também o deveria servir.
Explicou-lhe que o mundo fora criado por uma divindade inferior, um demónio que
encarcerara os verdadeiros anjos, e que estes anjos eram as almas humanas que apenas se
libertariam com a morte. O corpo, disse-lhe, era uma prisão, o pior dos calabouços. Deus
nada tinha a ver com a terra oblivionis. Era Ele o artífice do espírito, não da realidade
material. Coexistiam duas criações, a má e a boa, a terrena e a espiritual. Os perfeitos,
acrescentou, ajudam-nos a encontrar o caminho para fugir da prisão e para que a nossa
alma se encontre no céu com essa parte do nosso espírito que voltará a tornar-nos inteiros.
— Vi dom Fernando.
— Meu filho?
— Vosso filho.
— Encontra-se bem?
— Sim, pelo menos parece. Chegou hoje ao acampamento. O bispo de Albi pediu
aos templários que o ajudassem com alguns dos seus artefactos, e um dos frades, de uma
das comendas vizinhas, é um engenheiro especializado. O vosso filho faz parte da comitiva.
— Alegro-me que esteja aqui e não no Oriente, isso permitir-me-á despedir-me dele.
— Quer ver-vos.
— E eu também. Encarregar-te-ás de o trazer até aqui.
— Eu? Mandai um dos vossos homens...
— Por Deus, Julián, eu não mando em homens!
— Mas, senhora...
— Deves obedecer-me.
— Nunca deixei de o fazer — assentiu Julián, entristecido.
— Estás a escrever a história que te pedi?

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Estou a fazê-lo com grande risco de vida.


— Não tenhas tanto apego por essa carne feita pelo demónio. Escreve, Julián,
escreve, os homens devem saber o que se está a passar aqui. Se a tua Igreja, a Grande
Rameira, pudesse, apagaria para sempre a nossa existência. Apenas nos restará por escrito
que existimos, o que fazemos e em que acreditamos, a nossa história não será esquecida. A
verdade deve salvar-se através dos escritos. Não podemos permitir que eles apaguem a
nossa memória.
— Escrevo aquilo que me dissestes e tudo quanto acontece aqui. Mas devo avisar-
-vos, senhora, que Montségur cairá. Até vosso filho está certo que isso irá acontecer.
— E achas que não o sei? Não confio que o conde de Toulouse seja capaz de vencer o
cerco a que fomos submetidos. Raimundo quer que resistamos, mas deixou-nos à mercê das
nossas próprias forças e engenho.
— O conde jurou perseguir os hereges...
— O conde tenta salvar-se e salvar as suas terras. Os hereges, como nos chamas, são
apenas peças no tabuleiro, as suas próprias peças. Não esqueças que nascemos nesta terra.
— Vós sois aragonesa.
— Na verdade, apenas a minha mãe é que era de Aragão. O meu pai era de
Carcassone e sempre senti que pertencia a este país. Nesta terra nasci e vivi os primeiros
anos da minha vida, e daqui saí para me desposar com o bom de dom Juan, o meu esposo,
que espero se encontre bem.
— Oh, sim! Vosso filho viu-o, e, embora tenha achaques devido ao seu estado de
saúde, parece que está a ser bem tratado pela vossa filha mais velha, dona Marta.
— A vida tem sido generosa com ambos. Ele tem Marta, e eu tenho Teresa. E dos
meus dois varões, Fernando ainda vive.
Dona Maria ficou em silêncio; por um instante evocou o filho morto anos antes, num
lance contra outro cavaleiro. Sim, restava-lhe Fernando, mas este nunca fora inteiramente
seu. Talvez a culpa fosse dela, já que durante muitos anos chorara o filho mais velho e não
prestara atenção ao mais novo. Fernando deixara o lar de família para ingressar no Templo
e combater os infiéis. Duvidava da fé do filho e julgava saber que o seu ingresso no Templo
fora mais um sinal de rebeldia que de devoção. Mas já era demasiado tarde para voltar
atrás, sobretudo agora, que tinha a morte tão próxima.
— Quero que regresses dentro de três dias. Dar-te-ei uma carta para meu esposo.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Mas não poderei fazê-la chegar! Frei Ferrer tem olhos em toda a parte.
— És escrivão da Inquisição! Claro que podes! Não deves deixar-te amedrontar por
esse frade maligno.
— Foi ele que excomungou grande parte dos cavaleiros do país. Não hesitará em
fazê-lo comigo.
— Faz o que te peço, Julián!
— Senhora, ele permanecerá aos pés de Montségur até...
— Até conseguir conquistar o castelo e matar-nos a todos.
— Porque não fugis? Vossa filha Marian goza de uma boa posição na corte de dom
Raimundo. Seu esposo...
— Seu esposo é tão pusilânime quanto o próprio Raimundo, mais preocupado em
manter a cabeça sobre o pescoço do que por qualquer outro assunto.
— Mas, dona Marian é crente...
— Sim, isso sim, pelo menos a minha filha não me atraiçoou. E agora, ouve-me e
obedece. Dar-te-ei uma carta para meu esposo, não me interessa quando a podes entregar,
mas assegura-te que a lê. Também me trarás Fernando. Quanto aos teus escritos, quando
estiverem terminados entregá-los-ás a Marian. Ela sobreviverá e saberá guardar a nossa
história até chegar o momento de a poder trazer à luz.
— Isso pode nunca vir a acontecer — atreveu-se Julián a dizer.
— Não digas insanidades! Nem sequer o rei de França é eterno. E Marian tem
filhos, e estes por sua vez terão filhos. O importante é que a nossa história fique escrita.
Tudo aquilo que não está escrito não existe. Não podemos deixar o nosso sofrimento ao
acaso da recordação dos homens. Deus iluminou-me quando te trouxe a nossa casa e me
empenhei para que aprendesses a ler e a escrever.
— Dona Maria, não posso trazer-vos vosso filho.
— Fernando? E porque não?
— Saberá que sou um traidor e com uma única palavra pode enviar-me para a
fogueira.
— Fernando não fará isso. Ama-te, Julián, considera-te seu irmão, e, além disso, é
incapaz de nos atraiçoar. Os remorsos por não poder confessar o que sabe irão devorá-lo,
mas guardará silêncio. Não, não te denunciará, nem a mim tão-pouco. Sou sua mãe.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Mas que lhe hei-de dizer?


— Diz-lhe parte da verdade. Que recebestes um recado meu, que nos vimos e me
anunciaste a sua chegada, e que te implorei para o ver. Não, não lhe digas que te implorei,
não acreditará. Diz-lhe apenas que me quero encontrar com ele. Encontrar-me-ei aqui com
ambos, dentro de três noites.
— Enviareis alguém para nos ir buscar?
— De que outro modo poderiam chegar até aqui? Se não o fizesse, acabariam no
fundo de uma ravina. E agora, vai-te e pensa no verdadeiro Deus e no momento de deixares
a casca que te envolve.
Julián ia protestar, mas a sua senhora desaparecera sem que ele conseguisse ver para
onde. Por um momento, sentiu-se perdido, prestes a acreditar que tudo não passara de
um sonho e que dona Maria era uma aparição, mas o pigarro do cabreiro devolveu-o à
realidade.
— Despachai-vos. Hoje a senhora demorou-se mais do que o esperado, e temos um
longo caminho antes de vos poder deixar no acampamento.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Podia-se perceber o alvorecer através das nuvens carregadas de chuva quando


chegaram ao acampamento. Na obscuridade da tenda, ainda transpareciam os restos do
braseiro. Cansado, preparou-se para dormir antes que o surpreendesse o amanhecer.
— De onde vindes?
A voz grossa de Fernando sobressaltou-o.
— Por Deus, assustastes-me!
— Não tanto como me assustei eu ao vir até aqui e não vos encontrar. Procurei-vos
por todo o acampamento sem que ninguém me tenha sabido dizer onde estáveis.
— Estais louco! Que fizestes? — lamentou-se Julián.
— Vamos, não vos assusteis e dizei-me de onde vindes.
— Não o acreditarias.
— Meu querido irmão, a vida ensinou-me que o incrível faz parte da realidade.
— Assim que vos fostes, recebi uma mensagem.
Fernando olhava Julián com uma expressão de curiosidade e pena, ao ver o
sofrimento que se reflectia no rosto transpirado e exausto.
— E essa mensagem fez-vos abandonar a vossa tenda a meio da noite, embora
estejais enfermos como estais?
— Era de dona Maria — confessou Julián, e baixou a voz.
— Minha mãe... bem, era de esperar que mais cedo ou mais tarde entrasse em
contacto convosco. É a primeira mensagem que recebeis dela?
— Por Deus, Fernando, pareceis não dar importância ao que vos digo! Vossa mãe é
uma perfeita, uma iniciada consagrada à virtude, talvez a mulher mais influente de
Montségur.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Não exagereis, embora, conhecendo-a como a conheço, esteja certo que poucos se
atreverão a desobedecer-lhe. Bom, dizei-me que vos dizia na mensagem.
— Pedia-me que abandonasse o acampamento e me reunisse com ela.
Fernando riu-se com vontade e espanto perante a ousadia da mãe. Pouco depois, deu
uma palmada carinhosa nas costas de Julián, e sentou-se a seu lado preparado para o ouvir.
— Contai-me toda a verdade.
— A verdade...? Já não sei qual a verdade. A senhora teve conhecimento da vossa
presença aqui e pediu-me que vos levasse até ela.
— Pouco a pouco, Julián. Foi a primeira vez que a vistes? E como soube da minha
presença no acampamento se cheguei apenas há algumas horas?
— Deveis saber que Pèire Rotger de Mirapoix é um dos chefes militares da praça,
além de se certificar de que em Montségur não faltem alimentos. O senhor De Mirapoix é
parente de Raimon de Perelha.
— Eu sei, eu sei, não preciso que me expliqueis com quem nos defrontamos. São
homens corajosos e decididos.
— Como vos atreveis a falar assim de vossos inimigos?
— Mas, Julián, sobressaltai-vos por tudo e por nada. Porque não podemos
reconhecer virtudes nos homens contra os quais lutamos? Eles têm a sua causa, nós a
nossa.
— E Deus, com quem está?
Fernando deteve-se a pensar em silêncio. De seguida, cravou os olhos nos de Julián e
levantou-se, incomodado. Caminhou a passos largos pela tenda.
— Basta de conversa! Sois vós que tendes de responder às minhas perguntas.
O frade baixou a cabeça resignado. Fernando conhecia-o bem. Ser-lhe-ia difícil
enganá-lo, por mais que dona Maria lhe tivesse pedido que não lhe dissesse toda a verdade.
Apesar disso, decidiu seguir as instruções da sua senhora.
— Vossa mãe enviou um homem que me conduziu através das sombras. Andámos
durante muito tempo, não sei se duas ou três horas, estou esgotado. Em seguida, dona
Maria surgiu de entre as rochas e ordenou-me que vos levasse até ela, daqui a três dias. É
tudo.
— É tudo? Parece-me pouco tratando-se de minha mãe — respondeu Fernando,
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

desconfiado.
— Bom, também me disse que quer enviar uma carta a vosso pai para que lha façais
chegar.
Pensativo, Fernando observou Julián e perguntou-se se o irmão conservaria um
pouco de saúde para o dia da reunião com a mãe. O rosto do frade parecia uma máscara
mortuária. Ou Armand, o seu companheiro templário, encontrava o mal que apoquentava
Julián ou este, pensou Fernando, não continuaria vivo por muito mais tempo.
— Agora quero que me obedeceis — disse a Julián. — Deitai-vos e não saís do leito
até que eu regresse de manhã. Virei com o meu companheiro Armand. Já vos disse que é
um físico excelente, ele aliviar-vos-á do vosso mal. Ah!, e não deveis dizer a ninguém o que
se passou. Mandar-vos-iam enforcar.
Julián estremeceu ao ouvir a advertência de Fernando, que saiu da tenda com um ar
preocupado.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

O frio do amanhecer envolvia os homens do acampamento instalado por Hugues des


Arcis no Col de Tremblement, um local estratégico que impedia aos sitiados a melhor saída
do vale.
Nessa manhã, o senescal de Carcassone, Hugues des Arcis, parecia encontrar-se de
bom humor, apesar do tempo indemente. Católico convencido da bondade da sua causa,
congratulava-se com o apoio incondicional do arcebispo de Narbonne, Pèire Amiel, e com a
presença dos cavaleiros templários, embora nestes últimos não confiasse totalmente. No
entanto, sentia-se grato por se encontrar entre eles um grande engenheiro militar.
Na tenda do senescal, um criado servia aos presentes vinho misturado com água.
Bebiam para combater o frio.
Hugues des Arcis dispôs-se a explicar aos recém-chegados a situação.
— Não estou disposto a passar o resto da minha vida perante estes penhascos.
Sabemos que a guarnição de Montségur foi reforçada com camponeses da região, para os
quais a montanha não tem segredos. Conto com dez mil homens, mas nem sequer com esta
força consegui controlar todos os caminhos que conduzem até lá acima. Não pudemos
submetê-los pela fome nem pela sede, porque desde que o Verão terminou ainda não
deixou de chover. Tomar a fortaleza de assalto é impossível, pelo menos até agora tem-no
sido; o simples facto de nos atirarem pedras tem-nos causado um dano considerável.
— Não é possível escalar até àquele ninho de águias por algum lugar ao abrigo dos
olhos? — perguntou Arthur, o engenheiro templário. Hugues des Arcis apontou para o
mapa.
— Estamos aqui: no Col de Tremblement, aos pés deste maldito penhasco. A encosta
que vedes em frente conduz directamente ao castelo. Ao situar o grosso das nossas forças
neste lugar, a única coisa que conseguimos foi impedir o acesso directo à fortaleza e
controlar a aldeia vizinha, onde têm familiares que, apesar da nossa presença, os
abastecem. Enviei os meus homens para escalar esses penhascos e procurarem um acesso
até ao cume da montanha, mas embora tivéssemos lá chegado e conseguíssemos dominar
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

as sentinelas ainda não atingimos o nosso objectivo. Há um desnível de vários metros que o
separa do castelo.
«Confesso-vos, cavaleiros, que os meus melhores homens dedicaram todo o seu
esforço e empenho a trepar esses penhascos enganosos, já que não foram poucas as
ocasiões em que, ao acreditarem ter encontrado uma passagem escondida que nos podia
conduzir até lá acima, enfrentaram desfiladeiros que terminavam em ravinas. Dada a
situação do terreno, também não nos é possível utilizar as nossas máquinas de guerra, já
que não conseguimos alcançar nem a mais baixa das suas defesas. Bem, tomei uma decisão
que espero resulte acertada. Amanhã chegará um grupo de gascões para os quais as
montanhas não têm segredos. Exigem um bom pagamento e recebê-lo-ão se, como espero,
conseguirem abrir uma brecha nas defesas deles, um caminho que nos aproxime do cume.
— E que podem fazer os gascões que os vossos homens não tenham sido capazes? —
perguntou Fernando com uma expressão ofendida.
— Recomendaram-mos e asseguraram-me que nem Montségur, nem nenhuma
outra montanha, tem segredos para eles. Os seus pés são firmes onde outros tropeçam e
na escuridão vêem como se fosse de dia. Devemos tentá-lo, cavaleiros — respondeu o
senescal.
— Por onde, como e quando tentarão os vossos gascões aproximar-se de
Montségur? — insistiu Fernando.
— Serão eles a decidir — sentenciou Hugues des Arcis.
Durante toda a manhã, os cavaleiros continuaram a falar da situação e daquilo que o
senescal previa se os gascões tivessem êxito. O seu principal objectivo era conseguirem
aproximar do castelo algumas das máquinas de guerra, pois só assim poderiam derrotar
os sitiados. Foi então a vez de perguntas por parte do cavaleiro templário Arthur Bonard.
Daquela reunião, o que mais surpreendeu Fernando foi o fogo vingativo que brilhava
nos olhos de Frei Ferrer, o inquisidor-mor. Não existia uma centelha de piedade no seu olhar
e as suas palavras pareciam ditadas por uma intensa paixão. Dizia-se que aquele homem
estava dominado pelo ódio.
Perto do meio-dia fizeram um intervalo para ingerirem o generoso almoço fornecido
pelo arcebispo de Narbonne, momento em que Fernando pediu ao companheiro Armand
de la Tour que o acompanhasse para visitar Julián.
O frade dormia, esgotado, e a seu lado, o bom Frei Pèire secava-lhe a fronte com um
pano húmido enquanto rezava e implorava a Deus pela saúde do ilustre escrivão da
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Inquisição.
O frade sobressaltou-se ao ver entrar os dois cavaleiros templários.
— Desculpai a nossa irrupção, mas gostaria que o cavaleiro Armand examinasse o
bom Julián para ver se lhe pode aliviar a sua doença.
— Oxalá! Porém, deveis saber que o físico do senescal o visita quase diariamente,
mas até ao momento não conseguiu mitigar o seu mal.
Armand de la Tour rogou ao frade que os deixasse sozinhos e este, a contragosto,
obedeceu. Não gostava dos templários, considerava-os arrogantes e misteriosos, e ouvira
algumas histórias que colocavam em questão a santidade destes monges soldados.
O físico templário aproximou-se do leito onde Julián jazia e sem qualquer
consideração destapou-o, o que sobressaltou o enfermo.
Fernando tranquilizou-o, assegurando que estava em boas mãos e instou-o a
responder a quantas perguntas o físico lhe fizesse.
— Onde vos dói? — quis saber De la Tour.
Julián apontou desde o coração até ao ventre. Confessou-lhe que às vezes a dor era tão
aguda que não se conseguia endireitar nem caminhar, e em certas ocasiões sentia um
formigueiro nos braços e nas pernas até os sentir rígidos. Tinha febre, explicou; além disso,
também tinha vómitos.
Armand de la Tour examinou minuciosamente o enfermo. Fê-lo mostrar a língua, de
seguida afundou os dedos hábeis no estômago e no ventre; a seguir, fê-lo esticar e
encolher as extremidades. Depois chegou a vez dos olhos e da cabeça.
Fernando assistia em silêncio aos gestos do companheiro de armas e sorria
interiormente ao ver o receio reflectido no rosto do irmão.
Depois de examinar Julián, o cavaleiro Armand de la Tour sentou-se a seu lado e pediu-
-lhe que descrevesse em pormenor tudo o que se referia às suas dores.
— O que vos preocupa, Frei Julián? — perguntou o físico de repente.
Temendo que aquele templário fosse capaz de lhe ler a alma, Julián sofreu uma forte
convulsão.
— A vida não é fácil num acampamento militar — respondeu, a tentar desviar a
atenção de De la Tour.
— Não é o mais do que em qualquer outro lugar, e a vós nada vos falta. Sois
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

escrivão da inquisição, à espera de examinar de perto as almas perdidas dos hereges de


Montségur.
Julián persignou-se e voltou a ser presa de tremores. Uma onda de frio e suor
inundou-lhe a fronte.
— Creio que sofreis, Frei Julián, e se me disserdes porquê, talvez vos possa ajudar.
— Sofrer? Bem... sofro por essas almas perdidas que em breve irão para o inferno.
— Mas vós sois um homem experiente, há anos que exerceis como escrivão.
— A responsabilidade é tanta... receio equivocar-me nos meus juízos...
— Sois apenas um escrivão, a vós não vos compete julgar.
— Não penseis isso, em certas ocasiões os meus irmãos requerem os meus juízos.
Sabem que a mim não se me pode escapar nenhuma palavra dos acusados, e que é devido
ao meu entendimento de quanto dizem que às vezes depende a pena.
— Insisto que sois um homem experiente.
— Sou-o, sou-o, não há muito participei num conclave e, para evitar o erro dos juízes
contra os suspeitos, compilei um glossário para fazer melhor o meu trabalho. Frei Ferrer
guiou-nos.
Julián pigarreou e, cravando os olhos em Armand de la Tour, recitou como se se
tratasse de uma litania:
— São «hereges» os que se obstinam no erro. São «crentes» os que acreditam nos
erros dos hereges e os assimilam. Os «suspeitos de heresia» são aqueles que estão
presentes nos sermões dos hereges e participam, por pouco que seja, nas suas
cerimonias. Os «simplesmente suspeitos» fizeram estas coisas apenas uma vez. Os
«suspeitos perigosos» muitas vezes. Os «suspeitos muito perigosos» fizeram estas coisas
com muita frequência. Os «encobridores» são os que conhecem os hereges, mas não os
denunciam. Os «ocultadores» são os que consentiram em impedir que se descubram os
hereges. Os «receptores» são os que receberam duas vezes os hereges nas suas
propriedades. Os «defensores» são os que defendem com conhecimento de causa os
hereges, de modo a que a Igreja não extirpe a depravação herética. Os «favorecedores»
são todos os que referi em maior ou menor grau. Os «reincidentes» são aqueles que voltam
aos seus antigos erros heréticos, depois de terem renunciado formalmente aos mesmos...
— Bem, bem, é óbvio que conheceis a vossa função e como distinguir os hereges.
Com esse glossário, é difícil equivocar-vos, não é verdade? — perguntou o cavaleiro em tom
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

de troça.
— Não penseis isso... às vezes.., às vezes, é difícil saber se mentem ou se são
simplesmente inocentes. Entre os hereges existe gente rústica que responde com
simplicidade às perguntas sem se aperceber que com as suas palavras semeiam a
desconfiança... mas talvez sejam inocentes, apenas não o sabem demonstrar... Porém, Frei
Ferrer...
— Esse dominicano... — Fernando não se atreveu a terminar a frase.
— De onde vem? — quis saber o cavaleiro De la Tour.
— É catalão, de Perpignan, e encarregou-se de tudo depois do assassinato de nossos
irmãos em Avignon. É muito meticuloso, nada escapa ao seu olhar, lê no coração dos
homens e sabe quando lhe mentem — explicou o frade, frustrado e nervoso.
— E aterra-vos — acrescentou Armand de la Tour.
— Oh, é meu irmão em Cristo! — protestou Julián. — Será ele a encarregar-se dos
hereges de Montségur.
— E a vós preocupa-vos a sorte que podem correr?
— Se me preocupa? Sabeis que a sentença pode ser a fogueira. Já vistes algum homem
morrer na fogueira? Os hereges desafiam a Igreja, muitos negam-se a pedir perdão e
preferem morrer queimados. Vi mulheres e homens, e também jovens, a enfrentar o fogo a
cantar, enquanto o cheiro a carne queimada se prendia no ar, até o cheiro da nossa roupa e
o nosso se tornar insuportável. Esse cheiro... às vezes acordo a sentir o cheiro a carne
queimada e vejo os rostos daqueles que por não saberem dizer a palavra exacta foram
pasto das chamas.
— Dói-vos a consciência — sentenciou o físico. — É um alívio saber que ainda existe
quem tenha consciência.
— Mas que dizeis! — protestou o frade, assustado. — Asseguro-vos que a minha
consciência nada tem a ver com a dor que me atravessa o ventre. Será que não sois capaz
de diagnosticar o meu mal?
— Acalmai-vos, meu bom frade. Ter consciência é um dom, decerto um dom
doloroso, mas um dom.
— Não vos entendo!
— Irmão, não vos agiteis — interrompeu-o Fernando. — E vós, Armand, que estais a

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

dizer? Não consigo perceber onde quereis chegar.


— O vosso irmão sofre muito e esse sofrimento é o seu principal mal. Não creio que
padeça do fígado nem sequer acredito que a sua doença esteja nos intestinos, ou na
garganta... O seu mal está na alma, e para isso só existe um remédio.
Fernando ouvia atento o cavaleiro Armand. Meditava em tudo quanto este dizia,
enquanto Julián os observava, a tremer como uma criança apanhada em falta.
Bom, qual é esse remédio? — perguntou Fernando.
— Que viva de acordo com a sua consciência, que não faça nada de que tenha de se
envergonhar, que oiça a palavra que Deus lhe murmura ao ouvido e que resiste a seguir.
Vosso irmão sofre pelos bons homens... e fá-lo porque não está certo que sejam uns
malvados ou, em qualquer dos casos, não acredita que as crenças destes mereçam tanto
sofrimento, ou estarei enganado?
Julián chorava como uma criança entre convulsões e tremores, perante o olhar
compassivo de Fernando, que se aproximou para o abraçar, e tentar consolá-lo.
— Então, não terá de tomar qualquer remédio? — insistiu Fernando.
— Sim, dar-lhe-ei algo para o ajudar a conciliar o sono. O que não deve fazer é
submeter-se a mais sangrias desnecessárias que o estão a debilitar. Eu mesmo preparar-
-vos-ei umas ervas que tomareis antes de vos deitardes. Ajudar-vos-ão a encontrar um
sono tranquilo e profundo. Quanto ao resto, não me parece que tenhais algum mal.
— Estais enganado — queixou-se Julián, estou doente.
— Sim, mas a vossa é uma doença da alma. Só quando estiverdes em paz com a vossa
consciência sentireis alívio, até lá a única coisa que poderei fazer por vós é ajudar-vos a
dormir. Falarei com o físico do senescal para o aconselhar a parar com as sangrias a que vos
submete.
Julián estremeceu ao pensar que o templário falaria com o físico do senescal acerca
do mal da sua alma. Armand de la Tour não conseguiu evitar um sentimento de compaixão
ao ver o medo reflectir-se nos olhos do frade dominicano. Pensou que Julián não possuía as
virtudes de Domingo de Guzmán, o fundador da ordem que fizera da sua vida um modelo
de sacrifício e ascetismo parecido com o dos bons homens, os quais quis com tanto afinco
fazer regressar ao seio da Igreja. O templário perguntou-se porque é que Julián teria seguido
Domingo de Guzmán, se tudo nele indicava que possuía um espírito frágil.
— Não vos preocupeis, Julián, ninguém saberá de vosso mal. Não mentirei, mas
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também não entrarei em pormenores. Pedirei autorização para vos tratar com as minhas
ervas e ver se vos consigo aliviar.
— Obrigado, Armand — disse Fernando, e apertou com gratidão o ombro do
companheiro. — E agora, Julián, começai por cumprir as instruções que Armand vos deu.
Quando vos sentirdes melhor, devereis passear, visitar os soldados. Sem dúvida sentir-se-ão
gratos por um frade se preocupar com as suas almas, e deste modo tereis tempo para
esquecer durante algum tempo a vossa.
— Também pediremos a Frei Pèire uma bacia com água morna e sabão. Não vos faria
mal lavar-vos — acrescentou o físico templário.
Julián não foi capaz de colocar objecções às recomendações do cavaleiro e do irmão.
Olhou-os com gratidão e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se reconfortado. A
presença de Fernando desanuviara-lhe momentaneamente as névoas da solidão que o
acompanhava desde que entrara na ordem dos dominicanos.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Fernando e Armand de la Tour deixaram Julián imerso nas suas atribulações, e com
passo firme dirigiram-se à zona do acampamento onde se encontravam os seus
companheiros templários.
— Não vos deveis preocupar com Julián — disse o físico.
— Eu sei, depois de vos ouvir estou mais tranquilo, embora esteja a ver que as
enfermidades da alma são tão devastadoras quanto as do corpo.
— Às vezes são piores, mas no caso de Julián a vossa presença servirá para que
recupere as forças que lhe faltam. Convosco sente-se seguro.
— O meu irmão tem vivido atormentado desde que soube que era filho bastardo
de meu pai.
— Não deve ser fácil estar-se nessa posição, por mais que me tenhais contado a
bondade de vossos pais, sobretudo a generosidade de dona Maria, vossa mãe...
— Presumo que não o possamos compreender na sua totalidade, já que nascemos
cavaleiros. Agradeço-vos por terdes visitado Julián e sei que conto com a vossa discrição.
Agora queria perguntar-vos que vos parece a situação em relação a Montségur.
— É uma questão de tempo.
— Que quereis dizer?
— Que ninguém resiste eternamente. E que, por mais que pareça difícil chegar lá
acima, pode ser feito. O preço são vidas, e tanto o senescal Hugues des Arcis como o rei Luís
não as pouparão no momento de pagar.
Voltaram a imergir nos seus pensamentos até se encontrarem com os companheiros,
que nesse momento limpavam as armas.
— Alegro-me que tenhais regressado — saudou-os Arthur Bonard. — O senescal
mandou que nos reunamos ao seu estado-maior.
Arthur Bonard era tão eficaz a inventar material de guerra como seco e directo a
falar.
— E vós, que respondestes? — quis saber Fernando.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Não devemos desobedecer ao senescal nem ao rei Luís, nem tão-pouco ao


arcebispo de Narbonne — respondeu Bonard.
— Isso quer dizer que ficamos — sentenciou Fernando.
— Isso quer dizer que aguardaremos para ver se esses ferozes gascões de que o
senescal nos falou são capazes de se aproximar da fortaleza. Será interessante conhecer o
resultado de tal façanha — respondeu o engenheiro.
— E nós que faremos? — perguntou Fernando.
— Esperar, observar, falar e pouco mais. Já sabeis que a nossa ordem não gosta de
matar cristãos, e essas gentes de Montségur são-no. Equivocados sim, mas não deixam de
ser cristãos. Receio por eles, já que o arcebispo de Narbonne e Frei Ferrer estão
dispostos a vingar a morte de Étienne de Saint-Thibéry e Guilhèm Arnold. Como bem
sabeis, esses dois inquisidores foram assassinados há mais de um ano em Avignon.
— Foi a única ocasião em que os bons homens participaram num acto criminoso —
referiu um dos templários.
— Não o fizeram directamente — desculpou-os Fernando.
— Não sejais ingénuo — interrompeu Armand de la Tour. — Acaso acreditais que não
matar directamente um homem com a espada ou com as mãos lhes retira a
responsabilidade da sua morte...? Os homens que mataram os inquisidores saíram daqui,
de Montségur. Acreditais por acaso que os bispos hereges Bertran Martí ou Raimon Agulher
não sabiam o que ia acontecer em Avignon? Não é segredo que a notícia do assassinato dos
inquisidores foi celebrado em Montségur e que até repicaram os sinos de uma igreja. O
assassinato de Étienne de Saint-Thibéry e Guilhèm Arnold foi levado a cabo por crentes,
entre eles Guilhèm de Lahille, Guilhèm de Balaguier e Bernat de Sent Martí...
— Mas como sabeis tanto do que aconteceu naquela noite? — perguntou Fernando,
cada vez mais surpreendido.
— Sei-o, ou julgo sabê-lo, mas não falaremos disto nem com o senescal nem com o
arcebispo de Narbonne. Mas podeis ver que existem momentos em que todos os homens
pecam por acções, por omissões, ou simplesmente porque nos alegramos pelo sofrimento
dos nossos inimigos. Talvez nem fôssemos homens se não o fizéssemos.
Fez-se silêncio entre os cavaleiros. O físico expusera de modo cru como o mal fazia
parte da essência humana.
— Bem, agora já sabeis que ficaremos algum tempo — disse Arthur Bonard —, o
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suficiente para não ofender nem o arcebispo nem o senescal. Se pudermos, não
participaremos em nenhuma batalha, embora ache que podemos estar tranquilos quanto a
isso. Os homens de Montségur não a planeiam e ainda passará algum tempo antes que o
senescal Hugues des Arcis consiga fazê-los descer daquele penhasco infernal.
Subitamente, surgiu um pajem a correr com um recado do arcebispo de Narbonne.
Convidava-os para jantar. Os cavaleiros responderam que iriam pontualmente. Sentiam
curiosidade em conhecer o interior da sumptuosa tenda do arcebispo, da qual se dizia estar
mais bem equipada do que a do próprio senescal. Era esse o problema da Igreja. Os seus
sacerdotes não viviam de acordo com o caminho de humildade e pobreza ensinado por
Cristo, por mais que o espanhol Domingo de Guzmán tivesse dado exemplos de que no seu
seio também existia quem não esquecesse a mensagem do Mestre. No entanto, apesar dele
e dos seus frades darem exemplo de ascetismo e privações, mostravam-se impiedosos com
quem se negava a regressar ao seio da Igreja.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

O cabreiro apresentou-se na tenda de Julián mais tarde do que fora combinado.


Fernando estava inquieto. Receava que tivesse acontecido algo de inesperado, algo
que tivesse impedido a mãe de mandar alguém buscá-los.
A noite fechara-se em volta do acampamento e até à tenda de Julián chegavam, de
vez em quando, as vozes das sentinelas que davam a senha, e a tosses seca dos soldados
que tinham adoecido durante a longa espera, a prepararem o cerco a Montségur.
Julián permanecia sentado no catre, estranhamente quieto. Batiam-lhe com força as
veias das têmporas e pensou que naquele sintoma, o físico templário vira medo e apenas
medo.
Quando o cabreiro deslizou pela abertura da tenda a ciciar o nome de Julián, os dois
homens apressaram-se a sair ao seu encontro.
— Porque vos atrasastes? — quis saber Fernando.
O homem olhou-o com uma expressão aborrecida antes de responder:
— Vejo, senhor, que sois soldado, de modo que deveríeis saber que o senescal tem
olhos em toda a parte, e que esses demónios dos gascões estão há duas noites a estudar
o terreno, estão por toda a parte, e não quero ser eu a cair nas mãos deles. Não imaginais
o que o senescal seria capaz de fazer a um traidor. Claro que eu não o sou, sou apenas um
homem desta terra, um crente que serve o verdadeiro Deus.
— Basta de conversa! — interrompeu-o Fernando. — Conduzi-nos aonde nos
esperam!
O céu parecia um manto negro e mal conseguiam ver o que se encontrava alguns
passos à frente deles, apesar de o cabreiro os conduzir com a segurança de quem conhece o
terreno mesmo com os olhos fechados.
A Fernando pareceu-lhe uma eternidade a caminhada através de desfiladeiros e ervas
daninhas, e surpreendeu-se por .Julián não ter emitido uma única queixa. Apercebeu-se que
o irmão fizera aquele e outros caminhos em muitas ocasiões, e que devia ter-se encontrado
frequentemente com a sua mãe.
De repente, o homem parou e indicou-lhes com a mão que se detivessem. Fizeram-
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-no com uma ponta de inquietação, temendo ter tropeçado nalguma patrulha de gascões.
Mas não foi um gascão com quem se encontraram de repente, mas sim com dona Maria,
que surgiu entre as ervas a sorrir-lhes.
— Já era tempo! — recriminou-os a dama, envolta numa capa negra.
— Mãe!
A mulher aproximou-se do filho templário e antes de o abraçar, observou-o
expectante.
— Como mudaste! Transformaste-te num homem.
De seguida, abraçou-o e apertou-o com ansiedade, enquanto suspirava a tentar
conter as lágrimas.
Fernando deixou-se acarinhar pela mãe, enquanto aspirava o cheiro a lavanda que se
desprendia do manto que a envolvia. Era uma perfeita, mas seria sempre uma dama que
nem nas circunstâncias mais extremas renunciaria ao seu toque pessoal de vaidade, mesmo
que fosse apenas para perfumar uma capa áspera.
— Senta-te, temos muito que falar e pouco tempo para o fazer. Como estás, Julián?
Vejo-te com melhor cara, e tu, Fernando, meu filho, conta-me que foi feito de ti durante
estes anos em que não nos vimos..Julián disse-me que foste ver teu pai. Como está ele?
Rezo por ele, e tranquiliza-me saber que tua irmã Marta trata dele. Deve fazê-lo melhor que
eu, pois tem a doçura e paciência que a mim me faltam.
Enquanto dona Maria falava, Fernando observava-a com emoção.
Cabelos brancos tinham coberto o cabelo outrora trigueiro da mãe. O rosto afilara-
-se-lhe, perdera peso, mas nos olhos continuava a brilhar a mesma luz. Toda ela desprendia
a energia de sempre. Continuava a ser uma mulher à qual era difícil desobedecer.
Dona Maria segurava entre as suas as mãos do filho, que acariciava com a ternura
que ele tantas vezes sentira que lhe fora negada. Fernando tinha um nó na garganta e, com
receio de quebrar aquele momento que lhe parecia mágico, não se atrevia a dizer uma
palavra.
— Senhora, o senescal vai enviar alguns gascões para conquistar Montségur —
anunciou Julián. — Deveríeis sair antes que seja demasiado tarde. Se não por vós, fazei-o
pela vossa filha pequena. Teresa não é culpada por professardes uma fé que conduz à
fogueira.
— Sei bem que chegou há dois dias um grupo de gascões. O meu admirado Hugues des
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Arcis sabe que os seus gascões poderão trepar por estes desfiladeiros e chegar ao castelo. O
bom do Pèire Rotger de Mirapoix acha que é impossível, mas conheço bem o senescal. É um
soldado obstinado que não se deterá até destruir Montségur.
— Então, se o sabeis, porque estais empenhada em morrer? — gritou Julián.
— Deixa-nos sós! — ordenou dona Maria. — Não me canses e deixa-me falar com
meu filho e despedir-me dele, pois será a última vez que nos veremos nesta vida.
Julián abatido, sentou-se numa rocha a poucos metros deles.
Dona Maria cravou os olhos cor de mel nos olhos negros de Fernando, a tentar ler-lhe
as emoções e os sentimentos.
— Amo-te, digo-to, pois podes ter sido alguma vez assaltado por dúvidas. Sei que não
fui a mãe que tu esperavas, nem a que gostaria de ter sido. Não me desculparei
enumerando motivos que nem a mim convencem. Sou um ser imperfeito. Esta capa que
me envolve tentou apodrecer a minha alma, mas afortunadamente desprendi-me dela.
— Mãe...!
— Cala-te e ouve-me, Fernando, não temos muito tempo e é muito o que te devo
dizer. Aqui tens o teu meio-irmão Julián, que é fraco e assustadiço, o qual tentei convencer a
abraçar a verdadeira fé, mas a única coisa que consegui foi que viva atormentado. Apesar
disso, confio nele, tem o teu sangue, sangue dos Aínsa, e por isso jamais nos atraiçoará. Há
meses que lhe pedi, já que sabe ler e escrever, que não permita que nossos netos e os
netos deles e os seus bisnetos esqueçam o que aqui aconteceu. Quero que escreva uma
crónica em que conte tudo, a maldade da Grande Rameira, como não consegue suportar
que existam cristãos que vivam de acordo com os ensinamentos de Jesus, que partilhemos
quanto possuímos com quem nada tem, que ajudemos quem necessita. Ela, a Grande
Rameira, vive envolta em roupagens adamascadas, cercada de criados e riqueza, afastada
de pobres e enfermos, e serve o diabo, porque faz parte dele.
— Mãe, blasfemais!
— Não o faço, Fernando, e tu... e tu, meu filho, bem o sabes. Conheces a avareza da
Igreja a que nós chamamos Grande Rameira. Tu e aqueles como tu viram a sua iniquidade.
Não te pedirei que o aceites aqui e agora, mas sei como eras e portanto sei que eras bom,
que estás disposto a morrer pelos fracos, a sacrificar-te pelos necessitados, a dar a tua vida
a Deus, sem esperar nada em troca. Ouve: Julián escreverá essa crónica, na qual relatará que
tivemos em dona Branca de Castela uma adversária poderosa e fanática. Sem ela, a França
não existiria e Raimundo conservaria o condado de Toulouse.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Dona Branca foi generosa com os condes de Toulouse e de Foix. Devido à sua
intercessão, o rei não os castigou tão severamente quanto mereciam — replicou Fernando.
— Não sejas ingénuo! Dona Branca é o melhor governante de França. Sem ela, o filho
não seria ninguém. Se Luís se mostrou misericordioso não foi por outro motivo senão por
conselho da mãe. Dona Branca não irá tolerar que se empobreça mais esta terra por causa
da guerra, e não o consentirá porque muito em breve pertencerá totalmente à Coroa.
Quando Montségur cair, o nosso país será morto.
— Acrediteis que Raimundo não virá em auxílio de Montségur?
— Não, não o fará. O conde abandonar-nos-á à nossa própria sorte. Como bem
sabes, tua irmã vive na corte de Raimundo, já que seu marido, Bertran d'Amis, ocupa um
lugar principal ao lado do conde. Ela faz-me chegar notícias seguras acerca daquilo que
poderemos esperar em Montségur. No concílio de Béziers toda a horda da Grande
Rameira tomou a decisão de esmagar Montségur. Aqui encontram-se os homens que
acabaram com a vida dos odiosos inquisidores Étienne de Saint-Thibéry e Guilhèm Arnold,
de modo que Montségur é o último bastião dos verdadeiros cristãos. Só quando o castelo
for destruído pelas chamas haverá paz.
— E dizei-lo assim!
— Que seja cristã não significa que seja tonta e não entenda as regras do tabuleiro da
política. Conheci dona Branca e garanto-te que sinto uma verdadeira admiração por ela. Eu
teria feito o mesmo, se o destino me tivesse colocado no seu lugar.
— No entanto, depois dos assassinatos dos inquisidores em Avignon, as pessoas do
país pegaram outra vez em armas... — referiu Fernando com timidez, impressionado pela
lição de política que naquelas estranhas circunstâncias estava a receber da mãe.
— Uma tempestade num copo de água. A família Saint-Gilles está acabada, Raimundo
sabe-o e portanto não voltará a enfrentar o rei de França. A Coroa e a Igreja derrotaram-
-no. Rotger Bernat de Foix já o tinha aceitado antes, por isso assinou a paz com os franceses.
Sem ele, Raimundo não é ninguém, e como tal teve que seguir os seus passos. Mas a Igreja
não perdoa, de modo que Montségur pagará pelos inquisidores mortos em Avignon. Se
não o fizesse, as gentes daqui poderiam ter a tentação de continuar a estripar frades. Por
isso, em Béziers tomou-se a decisão de destruir Montségur.
— E depois? — perguntou Fernando, angustiado.
— Depois os trovadores enaltecerão o nosso sacrifício e a crónica de Julián servirá
para que os nossos netos saibam a verdade, e não esqueçam que é sobre a inteligência e o
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

fanatismo de uma rainha que cresceu uma monarquia que acabou com as liberdades do
nosso país.
— Ide por Teresa, eu tirar-vos-ei daqui — suplicou Fernando com desespero.
— Tu sabes que não o farei, acreditas que serei capaz de fugir? Tens-me em tão
pouca conta?
— Teresa não passa de uma criança, condenarias minha irmã à morte?
Dona Maria suspirou impaciente. Sentia a dor de Fernando, preocupado pela morte,
incapaz de ver a verdade, essa verdade que ela abraçara com alegria ao saber que o corpo é
o pior pesadelo, o manto de que teremos de nos desprender para nos convertermos em
essência e encontrarmo-nos, por fim, com Deus.
— Fernando, filho, no trigo há casca e grão, e o corpo não passa de uma casca. Teresa
não morrerá, apenas...
Fernando interrompeu-a furioso e afastou as mãos das dela, sem se alterar pela pena
que se reflectia nos olhos da mãe. Ambos sofriam do mesmo modo. O filho pensava que
estava condenado a não se entender com a mãe, e a mãe recriminava-se por não ser capaz
de entender a verdade do filho.
— Mãe, Teresa não merece morrer na fogueira. Trazei-ma ou subirei por ela, mesmo
que perca a vida a fazê-lo.
Dona Maria ouvia-o. Sabia que cumpriria o que acabara de dizer. Mas não queria ver
Fernando morto. No seu foro íntimo, apesar das suas crenças, desejava que o filho vivesse.
Ele tinha que cumprir uma missão e ainda era cedo para que regressasse à pátria celeste.
— Dou-te a minha palavra que farei com que Teresa saia de Montségur. Não a forçarei,
mas pedir-lhe-ei se assim o desejares.
— Peço-vos mais, mãe, exijo-vos que a obrigueis a deixar esta montanha. Não vos
perdoarei a vida de minha irmã.
Olharam-se em silêncio incapazes de expressar em voz alta a dor, o amor e a
admiração que sentiam um pelo outro. Dona Maria voltou a agarrar as mãos do filho, levou-
as ao rosto, e beijou-lhe a ponta dos dedos.
— Quero morrer e regressar ao meu ser celestial, mas não repousarei descansada se
souber que parto com o teu ódio, de modo que farei o impossível para convencer Teresa.
Dou-te a minha palavra, tu sabes quanto vale. Apenas te peço que não me culpes se
Teresa não aceitar a ordem que lhe darei.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Quero que a tragas amanhã mesmo. Ordenai ao cabreiro que amanhã, quando cair
a noite, nos volte a conduzir até aqui.
— Isso não posso prometer. Procurar-vos-á quando não houver perigo, amanhã, no
dia a seguir, em breve o saberás. Até que isso venha a acontecer, confia em mim.
— Tenho a vossa palavra — assentiu Fernando.
— Sim, tens a palavra de uma boa cristã.
— Meu pai... meu pai pediu-me que saudasses em seu nome o senhor De Perelha.
Sabeis que, apesar de tudo, o tem em grande apreço.
— Fá-lo-ei. É um homem corajoso que sabe que vai morrer, tal como sua esposa
Corba de Lantar e suas queridas filhas.
— Pediu-me que lhe fizesse chegar o pedido de que trate de vós, mas não sei como o
poderei fazer...
— Eu mesmo lho direi, embora não faça falta, já que a família Perelha me distingue
com seu afecto e amizade. Não foram poucas as ocasiões em que me têm oferecido a sua
protecção para que regresse às terras de teu pai em Aínsa.
— A vossas terras, senhora — recordou-lhe Fernando.
— Nada possuo e nada quero possuir, assim o digo há muito tempo. Apenas lamento
o sofrimento que causei a teu pai e a ti, e o não ser capaz de vos fazer abraçar a verdadeira
fé.
— Cristo vos julgará, senhora.
— Cristo?
— Nosso Senhor, Deus.
— Filho, como gostaria de te falar de Jesus! Dizes-te cristão e, no entanto, sujas a
tua alma com rituais que nada têm a ver com o Mestre. O dia mais feliz da minha vida foi
aquele em que recebi o consolament, o verdadeiro baptismo espiritual, o único sacramento
que permite a salvação da alma. Quando o bispo me colocou as mãos...
— Calai-vos, por favor! Nada quero saber de vossa heresia.
— São eles os hereges, são eles os que se afastaram do caminho. Recorda-te que o
Senhor disse: «João baptizou com água, mas vós fostes baptizados com o Espírito Santo.»
— Basta, mãe, não temos tempo para discussões teológicas!

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Dona Maria calou-se e apertou com força as mãos do filho. De seguida, sem que este
o esperasse, abraçou-o e desatou a chorar.
Fernando sobressaltou-se. Nunca vira a mãe derramar lágrimas, e até ouvira dizer na
casa de Aínsa que dona Maria nem sequer deixara escapar um queixume quando trouxe os
filhos ao mundo.
— Mãe, perdoai a minha rudeza — desculpou-se Fernando.
— Desculpa-me tu a minha, meu filho, mas é-me mais difícil despedir-me de ti do que
tinha imaginado. Saberás o muito que te amei, embora saiba que não o sentes. Perdoa-me
se puderes...
— Não me pedis perdão, eu... eu vos amo, senhora. Admiro a vossa fé e integridade,
invejo-vos porque não duvidais...
— A vida não permite que voltemos atrás — disse dona Maria, enquanto secava as
lágrimas com as costas da mão sem soltar a do filho.
— Que quereis que faça? — perguntou Fernando.
— A minha última vontade é que digas a teu pai que sempre o amei e que lamento
quanta dor lhe causei. Não fui a esposa que esperava nem a que merecia, mas isso já não
podemos mudar. Apenas quero que algum dia os nossos netos saibam o que aconteceu
aqui. Que saibam que fomos bons cristãos decididos a viver como o Mestre disse, e que nos
encontrámos imersos numa luta pelo poder, que uns e outros ansiavam. O nosso pecado
foi sermos o espelho em que a Igreja não suporta olhar-se, porque vê humildade e pureza
onde nela apenas existe avareza e corrupção. Não, não te preocupes, não vou iniciar uma
discussão teológica, mas promete-me que tratarás de Julián para que escreva a crónica de
que o encarreguei. Promete-me também que quando estiver terminada, a entregarás a tua
irmã Marian para que seja ela quem, através dos filhos, se encarregue de manter viva a
memória do que aconteceu em Montségur. Tu és um monge guerreiro, Marta está
demasiado apegada à Igreja... bem, apenas Marian pode fazer o que te peço. Ela é uma
crente e seu esposo também. É ela a indicada para...
— Não vos justifiqueis, mãe, tendes razão. Dou-vos a minha palavra de que cumprirei
a vossa última vontade.
Fernando apertou a mãe nos braços e não conseguiu conter as lágrimas. Agradeceu
às sombras da noite por impedirem Julián e o cabreiro de o verem dominado pela emoção.
— Mandar-te-ei Teresa assim que puder.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Sei que o fareis.


Mãe e filho voltaram a abraçar-se, antes de dona Maria desaparecer como se se
tratasse de um sonho.
Fernando viu Julián que, encostado a uma rocha, também chorava. O cabreiro, a
curta distância, parecia distraído a ouvir os ruídos da noite.
Os três homens iniciaram o caminho de regresso sem trocar palavra. Fernando sentia
o peso da emoção do encontro com a mãe, e jurou a si próprio que não participaria na
tomada de Montségur. Não seria capaz de estar nas fileiras de quem daria a morte a dona
Maria, por mais que ela insistisse que o corpo não passava da casca do trigo, sendo a alma o
grão. Sentia que aquele corpo enérgico era a sua mãe e não suportaria que ninguém o
fizesse sofrer.
O cabreiro instou-os a que caminhassem depressa. O encontro com dona Maria fora
mais longo do que o previsto e o alvorecer surpreendeu-os quando chegaram ao
acampamento.
Fernando e Julián separaram-se, cada um em direcção à sua tenda. Não tinham
pronunciado qualquer palavra durante o caminho. Falariam quando ambos voltassem a ter
o domínio das suas emoções.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Hugues des Arcis esfregava as mãos para combater o frio da manhã. O chefe dos
gascões mandara-lhe recado, a pedir para ser recebido.
O senescal de Carcassone convocara de imediato o seu estado-maior, além do
arcebispo de Narbonne e o bispo de Albi, cuja vocação eclesiástica era menor que a de
soldado. Os seis cavaleiros templários também foram convidados a participar na reunião.
— Bem, ides dizer-nos por onde subireis? — perguntou o senescal de Carcassone ao
chefe dos gascões, um homem baixo de aspecto robusto, mãos grandes e olhos de
predador.
— Os meus homens e eu examinámos o terreno, e não é fácil aquilo que pretendeis
de nós.
— Se o fosse, não estaríeis aqui — respondeu secamente o senescal. — É muito o que
ganhareis se cumprirdes a tarefa, de modo que não vale a pena perdermos tempo a
discutir sobre as dificuldades do terreno. O que quero saber é como e quando actuareis.
— Creio que é possível chegarmos ao ponto mais alto, aquele a que chamais a Rocha
de la Tour. O ilustríssimo senhor bispo de Albi — o gascão apontou com o dedo indicador —
precisa desse baluarte para colocar as suas máquinas de guerra, e tê-lo-á.
— E por onde subireis?
— Por leste. É a única maneira de alcançar essa zona do penhasco, a partir do caminho
ocidental seríamos uma presa fácil para os de Montségur.
O senescal sabia que aquela era uma parede a pique, que fora impossível de ser
escalada pelos seus homens mais audazes, mas se os gascões assegurassem que o poderiam
fazer, teria que esperar para ver se resultaria.
— Quando o fareis?
— Esta noite — assegurou o gascão —, mas depende de alguém. Por isso, pedi para
ser recebido por vós. Necessito de uma boa bolsa de moedas para uma pessoa que nos
conduzirá através dos penhascos.
— Um traidor entre os hereges! — exclamou entusiasmado o arcebispo de Narbonne.
— Chamais-lhe traidor — respondeu o gascão —, mas não passa de um homem
como eu, que conhece bem a região e que tanto se lhe dá como ou a quem se reza.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Ficaram em silêncio, incomodados pelas palavras do chefe dos montanheses.


— É um homem que aspira a viver melhor, apenas isso — disse o gascão com dureza
num tom arrastado nas palavras. — Bom, vós é que decidis. Os de Montségur jamais
imaginarão que nos vamos aproximar por esse lado. É um bastião separado do castelo por
muitos metros, um suicídio, a não ser que se saiba chegar até ali. E há um homem que sabe
como o fazer.
— Quem é? — quis saber Hugues des Arcis. — Trazei-mo cá.
— Ah, que coisa pedis! Isso é impossível, não aceitaria falar convosco, não confia em
vós — riu-se o gascão. — Fala comigo por motivos familiares, mas não o fará com os
franceses, não vos tem em grande apreço.
Hugues des Arcis pigarreou, irritado pela insolência do homem. Poderia obrigá-lo a
revelar o nome do traidor se o submetesse a tortura, mas então os gascões negar-se-iam a
participar em qualquer acção. Tomou uma decisão, embora sem a comunicar de imediato ao
chefe dos gascões.
— Ide, já vos mandarei chamar.
O gascão saiu da tenda certo que o grão-senescal de Carcassone, o homem que
representava o rei Luís, não teria outro remédio senão ceder ao seu pedido. Conhecia bem
a natureza dos nobres para saber que o senescal mandar-lhe-ia recado com uma boa bolsa
recheada de moedas.

Frei Pèire via como Julián sorvia a beberagem preparada pelo físico templário. O
silêncio dele era uma recriminação óbvia, porque o bom frade achava que o físico do
senescal sabia muito mais que um templário que passara a vida a combater sarracenos, do
outro lado do mar. Apesar disso, reconhecia que Julián passava as noites tranquilo, sem
sofrer com aquelas convulsões que o faziam temer pela sua vida.
O dominicano continuava taciturno, sim, mas queixava-se menos de dores de
estômago, e um pouco de cor regressara às faces flácidas.
Julián quebrou o silêncio e perguntou a Frei Pèire pelos rumores que corriam pelo
acampamento, dos quais sempre se envaidecia de estar bem informado.
— Pouca coisa, excepto que os gascões saíram esta noite para tentarem aproximar-
-se da plataforma da crista oriental da montanha, aquela que dá para as traseiras do
castelo. Parece que entre os hereges há um traidor disposto a conduzi-los por um caminho
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

secreto.
— Um traidor? Não posso acreditar... — murmurou o frade.
— São piores que cães, e entre eles há-os cobiçosos — concluiu Frei Pèire.
— Julián não o quis contrariar, mas custava-lhe a acreditar que entre aqueles que
sobreviviam a custo em Montségur à espera da morte existissem traidores. Pensou em
dona Maria e na pequena Teresa, e não conseguiu evitar um arrepio.
— Outra vez! — lamentou-se Frei Pèire. — Chamarei o físico do senescal. Voltastes a
ter tremores, essas ervas do templário não são nada eficazes...
— Não vos incomodeis, irmão, já estou bem — suplicou Julián —, foi apenas um
arrepio.
— Deveríeis ver o físico...
— Estou a dizer-vos que estou bem, não vos preocupeis. Dizei-me que mais sabeis...
— Pouco mais.., o senhor Des Arcis mostra-se impaciente, o rei Luís mandou há dois
dias um emissário para saber a situação. O senescal espera poder dar-lhe boas notícias, se os
gascões cumprirem com o prometido.
— E quem é o traidor? — perguntou Julián, e sentiu o rubor a invadir-lhe o rosto.
— Ninguém o sabe, apenas o chefe dos gascões. Dizem que é um parente seu que se
casou com uma mulher desta região e que conhece bem os atalhos destas montanhas. De
qualquer maneira, faz-se pagar bem. Um pajem entregou uma bolsa bem recheada ao
gascão.
Julián bocejou para dar a entender ao frade que estava cansado. De seguida, sentou-
se no catre.
— Quereis que rezemos o terço? — propôs o bom Frei Pèire.
— Agradeço-vos, mas rezei-o antes da vossa chegada. Prefiro rezar sozinho antes de
adormecer.
— Então, deixo-vos. Se precisardes de algo...
— Dou-vos graças, irmão.
Mal o frade saíra da tenda, quando Fernando entrou sobressaltando Julián.
— Como vos encontrais? — quis Fernando saber.
— Preocupado pela notícia que Frei Pèire me deu. Sabeis que existe um traidor em
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Montségur?
— Em Montségur, não. Aqui perto de nós, um homem do lugar; parece que é da família
do chefe dos gascões.
Os dois irmãos ficaram alguns segundos em silêncio, cada um embrenhado nos
próprios pensamentos.
— Que vamos fazer? — perguntou
— Fazer? Nós? Não vos compreendo, Julián...
— Vossa mãe está ali em cima e...
— Minha mãe escolheu.
Voltaram a ficar em silêncio, cada um a pensar em dona Maria.
— Não soube nada do cabreiro — disse Julián.
— Minha mãe cumprirá a sua palavra, e far-nos-á saber como e onde ir buscar minha
irmã Teresa.
— E se não puder...
— Minha mãe? Acaso não a conheceis? Fá-lo-á, mesmo que para isso tenha que
enfrentar sozinha o exército do senescal.
— Sim, é bem capaz disso — concordou Julián.
— Vim dizer-vos que não ficarei aqui muito mais tempo. Assim que saiba que a minha
irmã partiu, na verdade iremos todos.
— Partireis com os vossos irmãos?
— Sim, convencemos o senescal de que não somos necessários, já que conta com o
engenho do bispo de Albi para as máquinas de guerra. Além disso, precisam de nós na
nossa comenda. Em breve, regressaremos ao Oriente.
— Os templários não gostam de combater os hereges — sentenciou Julián.
— São cristãos como nós, Julián, os Bons Cristãos, como se denominam, e às vezes
penso que têm razão, que na verdade são-no. Qual é o seu pecado? Vivem na pobreza para
dar o exemplo, ajudam os necessitados, curam os enfermos, acolhem os órfãos...
— Mas não acreditam em Nosso Senhor — protestou o frade.
— Sim, acreditam nele, só que de uma maneira diferente. Odeiam a Cruz por ser o

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

símbolo do sofrimento, dizem que Jesus não pertence ao mundo visível, acreditam que
existe um Deus bom e outro mau. De que outro modo se pode compreender a existência de
tanta iniquidade e sofrimento? Como explicar que, se Deus criou tudo, como pôde criar o
mal ou pelo menos permita que o mal exista? Que tem Deus a ver com a morte de tantos
inocentes? O Demónio existe e tem um poder imenso. Nós chamamos o mal de uma
maneira, eles de outra. As diferenças também não são muito grandes.
— Mas que dizeis! Estais a cometer um sacrilégio!
— Meu bom dominicano! Às vezes esqueço-me que pertenceis à ordem
encarregada de combater a heresia, e que sois escrivão da Inquisição. Sereis vós a mandar
para a fogueira quantos se abrigam em Montségur.
— Calai-vos! Não me atormenteis, Fernando! Sabeis bem quanto sofro por tudo
isto! O Demo atormenta-me a alma!
— Não é o Demo que vos atormenta, mas sim a vossa consciência, incapaz de
distinguir o que está bem do que está mal. E vós sabeis tão bem quanto eu que essa
gente não faz mal algum, que são inocentes...
— Não o são! Revoltaram-se contra a nossa Santa Madre Igreja.
— Revoltaram-se contra a corrupção da nossa Santa Madre Igreja, contra clérigos
amorais, contra o fausto dos bispos...
— Acusar-vos-ão de heresia!
— Quem? Fá-lo-eis vós?
— Eu? Sabeis que jamais faria tal coisa, sois... sois meu meio-irmão.
— Sei, Julián, que além disso não o faríeis porque sois bom.
— Rogo-vos que não digais a ninguém o que acabastes de me dizer — suplicou
o frade.— Acusar-vos-iam de heresia.
— Não o farei. Sou um monge, não discuto, acato quanto me diz e ordena a nossa
Santa Madre Igreja e luto, arrisco a vida contra os sarracenos, mas às vezes… às
vezes deixo que os pensamentos fluam e, então, onde antes só existiam certezas
encontro dúvidas que nem sequer me atrevo a expor ao meu confessor. Mas a vós sim,
Julián, embora saiba que sois um dominicano, um guardião da verdadeira fé. Agora queria
falar convosco acerca dessa crónica que estais a escrever. Como a fareis chegar a minha irmã
Marian?

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— Não sei. Vossa mãe encarregou-me de uma missão bastante difícil, espero que seja
ela a procurar-me.
— Que faremos com Teresa?
— Que faremos? Eu sou um frade, não a posso ter comigo.
— E eu um monge guerreiro, também não a posso levar para a comenda... Poderíeis
enviá-la para junto de minha irmã Marian, para a corte do conde Raimundo?
— Estaria melhor com vosso pai e vossa irmã Marta em Aínsa...
— Seria difícil para ela voltar a Aínsa. Mais cedo ou mais tarde, as garras da Inquisição
cravar-se-iam nela. As vossas garras, Julián... Não, não me olheis assim. Em Aínsa todos
sabem que Teresa está com minha mãe em Montségur e que são ambas hereges. Não terão
piedade para com a pobre criança, de modo que o único lugar onde pode encontrar
protecção é com minha irmã Marian. Meu cunhado, Bertran d'Amis, é um cavaleiro
importante na corte do conde Raimundo. Rogo-vos que a envieis para ali.
— Mas como poderei fazê-lo? — lamentou-se Julián.
— Tem de haver alguém em quem confieis.
— Não, não confio em ninguém. Já tenho que me preocupar bastante para que não
saibam que mantenho contactos com os hereges.
— Pensaremos nalguma coisa, ainda ficarei por aqui durante mais dois ou três dias.
Fernando saiu da tenda, deixando Julián aterrado perante a ideia de ter de se
encarregar de Teresa. O templário não tinha outra escolha senão encarregar o irmão dessa
responsabilidade. Mesmo sabendo como estava débil, não duvidava da sua lealdade para
com a casa de Aínsa de que fazia parte, já que tinham o mesmo pai.
Com passos decididos dirigiu-se à própria tenda e começou a rezar e a rogar a Deus
que não os abandonasse.
Julián caiu de joelhos junto do catre e pediu o mesmo favor ao Todo-Poderoso.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

A Lua não apareceu naquela noite. O acampamento encontrava-se num estranho


silêncio, apenas quebrado pelo rumor do vento gelado, que inquietava o senescal Hugues
des Arcis enquanto aguardava na tenda notícias da incursão que os gascões tinham iniciado
uma hora antes.
O senescal caminhava nervoso, a aguardar os acontecimentos. Pensava que Deus
estava do seu lado e que, quando tivesse de escolher entre a vida dos hereges e a dos seus
filhos fiéis, não teria dúvidas. Ele sim, tinha-as: sabia que o castelo de Montségur parecia
inexpugnável e que o seu senhor, Raimon de Perelha, e o comandante da guarnição, Pèire
Rotger de Mirapoix, tinham demonstrado coragem e inteligência durante os meses de
assédio.
Em Montségur vivem mais de quatrocentas pessoas entre soldados, perfeitos,
crentes, criados e outras famílias vassalas do senhor De Perelha.
Em várias plataformas suspensas das encostas da montanha, viam-se pequenas casas
e cabanas onde os locais garantiam que se encontravam a maior parte dos perfeitos a orar e
a ajudar quantos tinham procurado refúgio no castelo. O senescal pensou que, se Deus se
manifestava em toda a parte, muito depressa Montségur deixaria de existir e o
condado de Toulouse já não seria um problema para o bom rei Luís.
Enquanto o senescal esperava, os gascões iniciaram a marcha conduzidos por um
homem parecido com eles. Falavam do mesmo modo, já que o homem saíra da Gasconha
e nunca sentira que fazia parte daquele país, pelo que agora se prestava a atraiçoá-lo por
uma boa bolsa de moedas que lhe serviriam para regressar a casa, levando a sua mulher
rebelde e os três filhos, por mais que aquela lhe tivesse assegurado que nada nem ninguém
a tirariam da sua terra. Dessa vez não o preocupava a teimosia da mulher, colocaria de lado
o orgulho quando Montségur caísse e fizesse tilintar perante os olhos dela a bolsa enviada
pelo senescal.
O frio gelava-lhes as mãos e dificultava a subida. Os gascões guardavam um silêncio
sepulcral, pois sabiam que se os homens que protegiam os baluartes os descobrissem perto
do castelo a morte deles era certa. Tinham que evitar quedas que os denunciassem, e
sentiam que as costas lhes rangiam sob o peso das armas.
Mal viam onde colocavam os pés e temiam cair no precipício. Mas o pagamento era
bom. Além disso, ajudar a vencer aqueles hereges que se escondiam em Montségur,
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

segundo lhes tinham prometido os homens da Igreja, trar-lhes-ia uma enorme


recompensa celestial no dia em que morressem.
Não sabiam há quanto tempo subiam, mas já tinham as mãos esfoladas e uma dor
excruciante em todos os músculos do corpo. Apesar disso, estavam certos daquilo que os
esperava no baluarte: enfrentar soldados temíveis.
Afinal, Deus estava do lado deles, diziam, porque surpreenderam os rivais a dormir e,
antes que estes se apercebessem, deitaram-nos para o vazio e conquistaram o baluarte. O
chefe dos gascões e o traidor deram palmadinhas nas costas, agradecidos. Fora mais fácil
do que tinham esperado. Já não lhes doíam as mãos, por mais que tivessem deixado a pele
entre as rochas, nem sentiam picadas na base das costas. Saboreavam agora a vitória e
apenas os mais avarentos pensavam que deveriam ter pedido um pagamento maior ao
senescal por aquela espectacular façanha.
Alguns dos homens, conduzidos pelo traidor, regressaram ao acampamento para dar
a boa notícia.
Hugues des Arcis bebia uma taça de vinho morno quando um soldado pediu
permissão para anunciar a chegada dos gascões. Depois de ouvir o que tinham para lhe
dizer, murmurou uma oração em silêncio e deu graças a Deus por se ter manifestado a seu
favor.
A notícia correu célere pelo acampamento. Os gascões tinham tomado a Rocha de La
Tour, a menos de cem metros do castelo. Daquela altura, quase podiam ver os rostos dos
refugiados de Montségur.
Os ocupantes, orgulhosos da sua façanha, alguns até bastante surpreendidos por
aquilo que tinham sido capazes de fazer, comentavam entre gargalhadas que, se a noite não
tivesse escondido os perigos da escalada, não teriam arriscado a vida daquela maneira.
O senescal chamou os seus nobres a conselho e enviou um emissário à corte real
para anunciar a nova. Pela primeira vez, desde que se iniciara o cerco não duvidou que em
breve, muito em breve, Montségur cairia.
Hugues des Arcis reconhecia que muitos dos seus homens estavam fartos de estar ali.
Eram daquele país e, embora devessem à Coroa a prestação do serviço militar, não
desejavam que aquele baluarte onde se refugiavam os Bons Cristãos fosse conquistado. De
modo que muitos deles aguardavam impacientes que passasse o seu tempo de serviço a
cargo do rei Luís para abandonar aquele exército que não consideravam como seu.
Muitos tinham família em Montségur, e alguns até comunicavam com eles. Não
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

queriam atraiçoar o rei, mas também não queriam atraiçoar-se a si mesmos.


O golpe que lhes tinham infligido podia ser mortal. Raimon de Perelha e Pèire Rotger
de Mirapoix não se enganavam. Ou o conde Raimundo lhes enviava reforços ou
Montségur não resistiria.
Durante os dias que se seguiram, assistiram impotentes à instalação da maquinaria de
guerra, uma catapulta pequena e aríetes, com o que podiam acossar a muralha do castelo.
O bispo de Albi, Durand de Belcaire, encarregou-se de supervisionar a operação e
decidiu-se a discursar aos seus homens acerca da vitória. Entretanto, Fernando não fazia
mais que atrasar quanto podia a partida dos seus companheiros templários, à espera de
receber notícias da mãe, que não apareciam, embora já tivessem passado quase duas
semanas.
Dormia um sono agitado quando uma mão lhe apertou o ombro. Saltou
sobressaltado do catre, com a arma pronta a rasgar o pescoço do agressor...
— Não vos assusteis, Fernando, sou eu.
— Julián! Que fazeis aqui? Podem ver-vos....
— Eu sei, mas não temos tempo, segui-me.
Fernando saiu da tenda e receou que os companheiros de armas tivessem acordado.
— Que aconteceu? Porque vos arriscastes a vir até aqui e a meio da noite?
— O cabreiro trouxe-me uma mensagem de dona Maria.
— E Teresa...?
— Ouvi. Dentro de duas noites, abandonarão a fortaleza alguns perfeitos. Parece
que vão guardar em lugar bem escondido as riquezas que possuem. Com eles, virá vossa
irmã. Dona Maria quer que sejais vós e apenas vós quem a vá buscar e que sirvais de
escolta aos perfeitos. Se não o aceitardes, vossa irmã permanecerá em Montségur. Vossa
mãe assegura que não tem outro modo de a fazer sair com garantias.
— Deu-me a sua palavra! — protestou Fernando.
— E vai cumpri-la a seu modo.
— Isso é chantagem.
— É a sua maneira de vos obrigar a proteger esses perfeitos e o que quer que levam
com eles.

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— Não sei se o poderei fazer.


— Fá-lo-eis, não há outra alternativa.
Nessa noite, era Julián quem mostrava mais integridade do que o irmão.
— Mas não vos apercebeis que não posso desaparecer? Os meus irmãos perguntar-
me-ão onde vou.., não os posso enganar.
— Não, não os deveis enganar.
Fernando e Julián voltaram-se assustados ao ouvir a voz que os surpreendera.
Arthur Bonard observava-os com uma expressão severa. Os irmãos coraram.
— Então, Fernando, contareis a nós, vossos companheiros, qual é o mistério?
De entre as sombras surgiu o resto dos cavaleiros. Fernando conseguiu ler nos
olhos de Armand de la Tour, o físico, um vislumbre de compreensão.
Fez um gesto e entraram na tenda que partilhavam, seguidos por Julián. Depois de se
sentar, Fernando explicou-lhes a situação. A mãe, disse, era uma perfeita e temia que a irmã
mais nova também o fosse, embora não tivesse a certeza, pois tinha apenas catorze anos.
Não lhes escondeu que vira a mãe e também que lhe rogara que salvasse Teresa, e
que a deixasse partir.
— Minha mãe enviou-me recado de que devo ser eu a ir buscar minha irmã. Também
me exige que escolte uns perfeitos que abandonarão Montségur com os bens mais valiosos
da comunidade. Será dentro de duas noites, mas Julián ainda não sabe onde será o
encontro.
— E vós, irmão Julián, contactais com os hereges?
O frade tremeu perante a pergunta do templário. Arthur Bonard infundia-lhe um
profundo respeito, mas também temor. Sabia das suas façanhas na Terra Santa, mas
conhecia sobretudo a sua fé e ascetismo, que o levava a recusar qualquer honraria. Não,
não saberia mentir àquele homem, nem que fosse para salvar a vida.
— Acompanho o senescal desde que sitiou Montségur à espera do julgamento dos
hereges — acabou Julián por dizer.
— Eu sei. Pertenceis à ordem de Domingo de Guzmán, e vossa é a responsabilidade
de encontrar hereges entre o trigo — acrescentou Bonard.
— Dona Maria soube que estava aqui e mandou-me chamar. Queria notícias de casa,

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de dom João, seu esposo, e de seus filhos, de Fernando e Marta. Também me ordenou uma
missão.
— Ordenou-vos? — perguntou Bonard. — Como é possível que dona Maria vos possa
ordenar algo a vós, um dominicano?
— Não a conheceis, ela é... não se lhe pode negar nada. Obedeço-lhe desde que
tenho uso da razão e tudo quanto sou a ela devo. Pertenço-lhe.
— Mas que dizeis! — O cavaleiro Bonard parecia escandalizado.
— Não, não me entendeis mal. Professo um enorme respeito por dona Maria, só que
ela governa as vidas de quantos tem por perto e eu sou um deles.
— Sabeis que vos podem queimar na fogueira por conluio com hereges? —
perguntou Bonard.
— Sei, e se me denunciardes não haverá piedade para comigo. Para a Igreja seria um
duro golpe que um dos seus, um dominicano, membro da Inquisição, mantenha contactos
com os hereges, e que além disso se preste a ajudá-los. Seria o próprio Frei Ferrer a acender
a pira.
O cavaleiro Armand de la Tour deu um passo em frente e, cravando os olhos nos do
companheiro Bonard, sentenciou:
— Segundo parece não vamos ter outro remédio senão proteger-vos para nos
protegermos. Ninguém quererá ter sobre a consciência a vossa morte na fogueira, nem a de
vosso irmão Fernando. À Igreja não convém que um escrivão da Inquisição tenha contactos
com os hereges, nem ao Templo que um dos seus tenha uma mãe perfeita.
— Proteger? — perguntou Arthur Bonard, desorientado.
— Sim, proteger. Não os vamos denunciar, e além disso, não falámos já da dor que
nos causa esta luta fratricida entre cristãos? O Templo procura manter-se afastado deste
conflito, assim o disseram os nossos superiores, e até agora temos evitado ver-nos
envolvidos nesta cruzada contra aqueles a que chamam Bons Cristãos. Não, eu não
permitirei que enviem para a fogueira o nosso companheiro Fernando de Aínsa. Também
não me parece um crime ajudar a salvar a vida de uma criança inocente. Que poderá ela
saber acerca de teologia? Sou monge, sou guerreiro, mas também sou físico e abomino que
se destruam vidas. Não vos creio capaz, Bonard, de entregar nosso irmão.
O engenheiro baixou os olhos e fechou-os. Procurou interiormente uma resposta
para os problemas com que se defrontavam.
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— Não podemos ajudar a fugir esses hereges — acabou por dizer.


— Sim, sim, podemos — insistiu Armand de la Tour.
— Isso é traição — afirmou Bonard.
— Não é. Iremos salvar uma criança e escoltá-la-emos, a ela e aos seus
acompanhantes, até um lugar seguro. Nada mais.
— Deram-me a responsabilidade de dirigir o nosso grupo, e não faremos isso —
recordou Bonard a olhar não apenas para Armand, mas também para os outros três
cavaleiros que os acompanhavam.
Um deles, um jovem da idade de Fernando, pediu autorização para falar.
— Senhor, eu gostaria de ajudar Fernando de Aínsa. Não vejo qualquer mal em salvar
sua irmã, nem creio que seja uma traição. Está-se a atraiçoar o rei por se ajudar uma
criança a fugir da fogueira? Não poderia voltar a olhar para Fernando se soubesse que tinha
condenado a irmã dele à fogueira.
— No entanto, não vais ajudar a salvar sua mãe... — disse Bonard.
O jovem não se amedrontou e respondeu de imediato:
— Não, não acredito que o devamos fazer. Dona Maria sabe o que faz. A vós
preocupa-vos a traição... e eu não creio que isto o seja.
— A mim preocupa-me envolver o Templo na fuga dos perfeitos de Montségur! Isso é
um crime! Sabei-lo tão bem quanto eu.
— Pior seria denunciar Fernando e fazer com que caísse nas mãos da Inquisição.
Sabeis que muitos dos nossos inimigos veriam nisso uma oportunidade para nos tentar
destruir — reiterou Armand de la Tour.
— Temos outra alternativa: partir de imediato.
As palavras do cavaleiro Bonard pareciam não admitir qualquer resposta. Mas nem
Fernando nem Julián estavam dispostos a ceder.
— Senhor, a minha vida está nas vossas mãos. Não vos peço que me ajudeis. Sei que
quando isto terminar sofrerei o castigo exemplar que mereço, mas ou me denunciais e
assim me prendeis, ou sabei que ajudarei minha irmã a fugir e que escoltarei esses perfeitos
até um lugar seguro. É a última vontade de minha mãe antes de morrer e cumpri-la-ei.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Bertran Martí, o idoso bispo dos hereges, mandara reunir todo o ouro, prata, pedras
preciosas, e outros objectos de valor que se pudessem transportar. Há algum tempo que se
guardavam em Montségur as oferendas que os nobres entregavam à causa dos Bons
Cristãos. Com aquele ouro, construíam casas para acolher os órfãos, curar os enfermos,
socorrer as viúvas...
O idoso bispo queria colocá-lo a salvo, em mãos seguras, para continuar com a obra
dos Bons Cristãos.
Dois dos seus diáconos, Matèu e Pèire Bonet, seriam os encarregados de fugir de
Montségur e da fogueira, à qual mais cedo ou mais tarde todos se sabiam condenados.
Juntamente com os diáconos iria a pequena Teresa de Aínsa. A mãe, dona Maria, ordenara
que a salvassem.
Dona Maria contara a Bertran Martí a conversa que tivera com o filho e o
compromisso de salvar Teresa. A dama sabia que para que o bispo aceitasse arriscar-se a
uma tal missão, ela deveria contribuir para o êxito da mesma, daí a sua ideia de que
Fernando ajudasse a fugir os dois perfeitos juntamente com a filha. Essa artimanha era a sua
única opção se queria cumprir a promessa que fizera a Fernando. Sabia que o filho não
entenderia a sua exigência, mas não tinha alternativa.
Para além das suas preocupações, Raimon de Perelha e Pèire Rotger de Mirapoix
tinham agora as de fazer sair sem perigo os dois diáconos.
Dessa vez o traidor pertencia ao lado dos cruzados, mas seria um traidor? Aquele
soldado da região, que servia com as armas um rei pelo qual não professava nenhuma
simpatia, tinha a irmã e sobrinhos dentro de Montségur. O homem aceitou arriscar a vida
para atender ao pedido da irmã e do senhor De Mirapoix.
Era um homem de Camon, o feudo de Pèire Rotger de Mirapoix, o qual lhe
prometera uma boa recompensa para «não ver» como fugiam dois diáconos.
Fixaram a noite da fuga em que ele e outros companheiros de Camon estariam de
guarda. Havia apenas uma passagem por onde poderiam fugir, difícil e tenebrosa, a única
que não contava com a forte vigilância dos cruzados.
Teresa chorava abraçada à mãe. O bispo Bertran Martí dera-lhe o consolament, o que
lhe assegurava um lugar no céu. A pequena não se queria separar da mãe nem daqueles

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com quem partilhara tantas desventuras nos meses de cerco. Odiava com toda a alma os
cruzados, que acreditava serem soldados do Maligno, e suplicava à mãe que lhe permitisse
deixar aquele mundo maldito juntamente com ela.
Dona Maria não encontrava palavras para o desconsolo da filha.
— Dei a minha palavra a Fernando, e ele só acede em nos ajudar se fores com os
diáconos. Queres que tudo aquilo que possuímos caia nas mãos dos cruzados? Esse ouro e
essa prata servirão para manter a nossa Igreja, para salvar muitos irmãos. Tu mesma os
condenarás à fogueira se não te quiseres salvar. A nossa fé precisa de mais tempo para se
arraigar nos corações. Se depois de destruir Montségur não houver ninguém que possa dar
testemunho da nossa fé, de que terá servido o sacrifício? Tu tens essa missão, Teresa,
tens de viver para que a fé dos Bons Cristãos permaneça. O irmão Matèu tem além disso a
missão de ir à corte do conde de Toulouse e explicar-lhe a nossa situação. A única hipótese
de salvar Montségur depende de ti, minha filha.
— E onde me levará Fernando? — perguntou a menina a soluçar.
— Deixar-te-á a salvo. De seguida, irás com Matèu para a corte de Raimundo, para
junto de tua irmã e de seu esposo.
Fernando aguardava impaciente entre a vegetação densa do monte. O cabreiro
conduzira-os até ali, mal caíra a noite. Estavam há horas à espera sem ouvir outro som para
além do dos animais do bosque.
O homem permanecia em silêncio. Fernando sabia que não muito longe dali se
encontravam os seus companheiros templários. Bonard acedera ao pedido de Armand de la
Tour, que encontrara uma maneira de o ajudar, mas sem comprometer o Templo na
aventura. Segui-lo-iam de perto, cobrir-lhes-iam as costas, tentariam protegê-los, mas não
participariam directamente. De regresso à comenda, entregaria Fernando ao grão-mestre
para que este decidisse o castigo a dar-lhe, embora Bonard não tivesse ilusões. Eles
também sofreriam as consequências pela sua cumplicidade, por mais pequena que esta
fosse.
O ligeiro estalar de um ramo alertou o cabreiro e deixou Fernando tenso. Exaustos,
com as mãos a sangrar e o cansaço reflectido no rosto, surgiram dois homens seguidos por
uma figura envolta num manto que andava aos tropeções.
— São eles — anunciou o cabreiro.
Fernando aproximou-se em duas passadas dos homens, que se limitou a saudar
com um gesto, e de seguida afastou o manto que cobria a cabeça e o rosto da irmã.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Teresa!
A menina primeiro olhou-o com ódio, mas de seguida foi-se abaixo e deixou escapar
um caudal de lágrimas.
— Fazei-a calar ou encontrar-nos-ão — ordenou Matèu. — Cruzámo-nos com uns
soldados. Não foi fácil chegar até aqui.
— Acalma-te, Teresa, em breve tereis tempo para chorar — tentou acalmá-la
Fernando, sem saber muito bem como tratar a criança que quase se convertera numa
mulher.
O cabreiro fez-lhes sinal para que se calassem. Parecera-lhe ouvir um ruído. Estavam
todos nervosos, tensos.
— Os cavalos estão perto daqui, a poucos metros, embrulhámos os cascos para não
fazerem barulho. Sabeis montar? — perguntou Fernando aos diáconos.
— Sabemos — responderam estes.
— Nesse caso, a caminho...
Fernando abria a marcha, protegido pelos companheiros. Os perfeitos tinham-lhe
indicado que os acompanhasse a um lugar das montanhas de Sabartés. Ali esconderiam o
seu carregamento até que chegasse o momento de o utilizar.
Cavalgaram sem descanso até que os dois homens fizeram um sinal a Fernando para
que os aguardasse naquele local do bosque. Em seguida, a pé, perderam-se por entre o mato.
Fernando pensou ouvir vozes de outros homens, mas não se moveu de onde estava, como lhe
tinham pedido os perfeitos.
Quando regressaram, falaram entre eles com uma certa animação e, pelo que diziam,
Fernando percebeu que se tinham encontrado com alguém. Nenhum dos homens
confirmou essa impressão. Percebeu que se sentiam aliviados por saber que a sua carga
estava em boas mãos.
Cavalgaram, de modo a evitar os soldados. Fernando conduzia-os, seguro, através de
bosques e montes baixos. Tentava evitar povoações e, sobretudo, homens de armas.
Permanecia de guarda durante a noite a velar o sono dos fugitivos, e sabia que muito perto
deles, os companheiros estavam à espreita de quem quer que se aproximasse. Correram
um certo perigo numa ou duas ocasiões, mas saíram-se bem graças à perícia do templário.
Os dois diáconos sentiam-se seguros sob a protecção de Fernando. Quem se teria
atrevido a enfrentar um soldado do Templo?
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Teresa estava esgotada por ter cavalgado sem descanso nas últimas etapas até chegar
às terras baixas, onde nesse momento se encontrava a corte do conde Raimundo.
Fernando não a quis acompanhar até ao castelo. Despediu-se dela, e obrigou-a a prometer
que obedeceria à irmã mais velha e ao marido.
De seguida despediu-se dos perfeitos, depois de lhes recomendar a irmã.
— Confio-a nas vossas mãos. Meu cunhado, Bertran d'Amis, saberá recompensar-vos.
— Não precisamos de nenhuma recompensa — respondeu Pèire Bonet sem
esconder a irritação pelas palavras do templário.
— Nos vos quis ofender — desculpou-se Fernando.
— Nesta vida, não esperamos nenhuma recompensa — insistiu o perfeito. — Vossa
irmã recebeu o consolament, e assim também é nossa irmã.
Fernando abraçou Teresa. Em seguida, montou o cavalo e esporeou-o com força.
Sabia que os companheiros o esperavam. Teresa viveria, enquanto ele partia em busca do
seu castigo. Perguntou a si mesmo se realmente o mereceria.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

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A situação em Montségur piorara e era uma questão de tempo até que o senhor de
Perelha aceitasse a rendição.
Sob a enérgica direcção do bispo de Albi, as máquinas de guerra não davam descanso
aos defensores. Os cruzados estavam já a poucos metros do castelo e as catapultas
tinham abatido uma boa parte do muro oriental.
Julián escrevia abstraído a crónica que dona Maria lhe mandara escrever. A dama
mandara-lhe, através do cabreiro, a mensagem de que Teresa estava a salvo junto da irmã
na corte do conde Raimundo. No entanto, isso já fora há algum tempo. O Natal passara,
Janeiro estava a chegar ao fim e continuava sem ter notícias de dona Maria.
De Fernando também não havia novas. Parecia que a terra o tinha engolido. Sentiu-se
algumas vezes tentado a obter notícias da comenda templária, situada a poucos dias a
cavalo, mas não se atrevera a fazê-lo para não aumentar os problemas de Fernando e, o
que era pior, alertar os inimigos de ambos. De modo que se dedicara dia e noite a escrever
aquela crónica sobre Montségur e os hereges, que um dia depositaria nas mãos da meia-
-irmã Marian.
Escondia com zelo os seus escritos para evitar a tentação de os ler àqueles que
visitavam a sua tenda.
Às vezes, achava que surpreendia Ferrer a observá-lo com desconfiança. Sentia a
antipatia do superior, dizia-se que era incapaz de mostrar bons sentimentos para com alguém.
Até Frei Pèire parecia assustado na sua presença.
Um sopro de ar atravessou a abertura da porta da tenda, que deu passagem a Frei
Pèire.
— Julián, como vos encontrais hoje?
— Melhor, irmão, melhor.
— Como trabalhais!
— Quero estar preparado para quando começar o julgamento dos hereges.
— Mas que escreveis com tanto zelo?
— Ponho em ordem sentenças de outros julgamentos de hereges, e as disposições
aprovadas nos concílios. Nada de importante, mas ajuda-me a passar as horas nestes dias

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

de chuva em que apenas um louco se atreveria a sair.


— Tendes razão. Confesso-vos que a humidade me está a afectar os ossos. Há dias
em que os membros me doem de tal modo que penso que não os conseguirei mover. O
físico do senescal sangrou-me, mas não me alivia a dor.
— O físico do senescal não sabe nada.
— Mas, Julián!
— É um carniceiro cuja única ciência consiste em tirar sangue das veias, quer se trate
de uma dor de barriga ou de uma constipação.
Frei Pèire não respondeu. No seu silêncio, havia uma aceitação implícita das palavras de
Julián. Durante um bocado, conversaram das notícias que corriam pelo acampamento, embora
não tivesse acontecido nada de assinalar.
Pouco depois de Frei Pèire ter saído, um criado entrou e anunciou-lhe que o cabreiro
solicitava autorização para o visitar. Do ombro, pendia-lhe uma fiada de queijos.
— Vim trazer alguns queijos ao senescal — disse.
Julián sentiu um ataque de vertigem, pois embora ansiasse por notícias de dona Maria,
também as temia. Continuava sem saber o que poderia ter acontecido à senhora.
— Dona Maria quer ver-vos. Uma noite destas virei buscar-vos, não sei quando.
Agora as coisas mudaram, e ir e vir de Montségur é mais difícil. Mas estai preparado.
A partir desse momento, Julián voltou a dormir inquieto, apesar das ervas que o físico
templário lhe receitara conseguirem induzir-lhe o sono. As suas noites encheram-se de
pesadelos nos quais dona Maria aparecia a dar-lhe as mais diversas ordens que colocavam
em grande perigo a sua vida. Acordava sobressaltado no meio de suores frios que lhe
percorriam a coluna. Voltara a perder o apetite. Frei Pèire acreditava que ele era um santo,
convencido que a magreza se devia ao afã do sacrifício e renúncia a tudo o que era
material, incluindo a boa mesa que ainda era possível encontrar naquele acampamento.
Na noite em que o cabreiro apareceu, Julián acabara de beber a infusão que lhe
permitiria adormecer.
— Apressai-vos, hoje a noite não está muito clara. Devemos aproveitar para chegar o
quanto antes.
Julián seguiu-o e receou adormecer pelo caminho, embora, na verdade, o que mais
temesse fosse cair nas mãos dos cruzados, aos quais não poderia explicar porque estava a

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

escalar penhascos com o cabreiro em direcção ao castelo amaldiçoado.


Uma vez mais perdeu a noção do tempo. Não sabia há quanto tempo andavam,
embora lhe parecesse que era muito mais do que nas vezes anteriores. Doíam-lhe os pés.

Quando dona Maria apareceu, de repente, como um fantasma, custou-lhe a


reconhece-la.
O rosto da dama emagrecera ainda mais devido às privações e um círculo violeta
marcava-lhe o olhar, agora apagado. Dona Maria perdera, além da louçania, a vivacidade de
antigamente. Via-se que estava extenuada. Abraçou-o com afecto, como não o fazia há
muito tempo.
— Vem, senta-te, o tempo é pouco — disse-lhe, e convidou-o a sentar-se junto dela
numa saliência da rocha.
— Minha senhora, vejo que estais cansada.
— Estou, as vossas catapultas não nos dão tréguas. Esse demónio do bispo com as
suas máquinas infernais.., enfim, já falta pouco, mas não é da guerra que vos quero falar,
mas sim de meu filho.
— De Fernando? Senhora, eu... perdoai-me, mas não tive notícias dele.
— Já o imaginava. Não te atreveste a indagar.
— Senhora, é difícil saber o que acontece atrás dos muros das comendas do Templo. Os
cavaleiros apenas respondem perante o papa.
— Mas poderias ter ido visitar Fernando.
— Vós sabeis que os cavaleiros templários não recebem visitas. É-lhes proibido, são
monges, senhora.
— Bem, pois se tu não vais, vou eu.
— Vós! Mas não o podereis fazer.
— Claro que posso. Sabes? Não são só as máquinas do demónio do teu bispo que
me impedem de dormir. O destino de Fernando atormenta-me, porque me sinto
responsável se tiver sofrido algum mal. Uma coisa é saber que pode morrer em combate a
lutar contra os sarracenos e outra muito diferente estar numa masmorra a apodrecer.
— Havia um cavaleiro, Armand de la Tour, um físico, que parecia ter-lhe afecto...

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Então, Julián, tenta entrar em contacto com esse cavaleiro. Que te dê notícias de
Fernando.
— Mas, senhora, isso não é possível!
— Mas terá de ser — sentenciou dona Maria. — Dentro de duas semanas, mandar-
-te-ei buscar. Acredito que, pelo menos, resistiremos mais duas semanas — murmurou
para si mesma.
— Senhora, não sabeis o que me pedis.
— Sim, claro que sei. Hei-de morrer com a consciência tranquila e não falta muito para
que isso suceda. Tu mesmo me julgarás e me enviarás para a fogueira.
Julián baixou a cabeça, constrangido pelas palavras premonitórias de dona Maria.
Não conseguiu conter as lágrimas.
— Vamos, filho, não chores, as coisas são assim, tu empenhaste-te em servir essa
Igreja que nada mais é do que uma Grande Rameira, e fizeste caso omisso das minhas
recomendações.
— Vós quisestes que fosse dominicano!
— Isso foi antes de encontrar os Bons Cristãos.
— Senhora, pretendeis que todos os outros acreditem no mesmo que vós, e que
deixemos de acreditar quando vós deixeis de o fazer, e que vejamos o dia quando é
crepúsculo e a noite quando amanhece...
— Basta, Julián! Não te atormentes, não te vou exigir que mudes de crença, já não
tenho tempo para isso. Além disso, à tua maneira, também tu és um herege.
— Deus tenha piedade de mim!
— Isso não sei — brincou dona Maria, sem que Julián se apercebesse do tom trocista
da sua voz.
O cabreiro aproximou-se deles e fez um sinal à dama.
— É verdade — disse dona Maria —, passou-se o tempo e deves partir. Mandar-te-ei
buscar para que me dês notícias de Fernando.
— Voltastes a ter notícias de Teresa? — perguntou Julián com um tom insistente na
voz.
—Já te mandei dizer que Teresa está bem. Em finais de Janeiro, Matèu, um dos

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perfeitos que a acompanhou até à corte de Raimundo, regressou. Mas não voltámos a ter
notícias.
— Um desses homens regressou?
— Claro, acabei de to dizer. Pensámos que viria com reforços, mas apenas trouxe dois
homens de armas. Pèire Rotger de Mirapoix acha que se deve voltar a tentar.
— Voltar a pedir ajuda ao conde?
— Mirapoix convenceu o senhor do castelo, o seu parente Raimon de Perelha, de
que é necessário manter a esperança nos homens. Por isso, voltou a pedir ao nosso
bispo, Bertran Martí, que reenvie Matèu ou outro dos diáconos para falar com
Raimundo. Podes ver o quanto confio em ti, que te revelo os nossos segredos mais
íntimos e a angústia da nossa situação.
— Não vos desejo nenhum mal.
— És bom, Julián, só que agora estás no lugar errado. Falta-te a perspicácia para te
aperceberes do erro. Acreditas que converteres-te num bom cristão é um salto no abismo,
mas na realidade é-o mais do que possas imaginar.

Julián queixou-se a Frei Pèire de que não lhe restava nem uma folha das ervas do
físico templário, e que sem elas a dor de ventre voltaria a martirizá-lo, e não conseguiria
conciliar o sono.
Pelo seu lado, o bom do frade tentou convencê-lo que não podia enviar ninguém à
comenda, com o muito estranho pedido que faltavam ervas a um dominicano. Além
disso, Frei Ferrer não o autorizaria.
Durante dois dias Julián manteve-se de cama, a queixar-se de uma insuportável dor
no abdómen. Até se deixou sangrar pelo físico do senescal, o que fez com que a palidez da
sua pele já de si branca aumentasse.
A contragosto, Frei Ferrer acedeu às súplicas de Frei Pèire e consentiu em enviar um
pajem ao castelo do Templo situado em Agen, a comenda templária de Armand de la Tour e
do irmão de Julián.
O pajem foi recompensado com uma bolsa de moedas, com a promessa de
receber mais outra se além de trazer as preciosas ervas conseguisse obter notícias de
Fernando.

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— É meu irmão — explicou Julián —, saudai-o da minha parte se vos for possível, e se
não for, dai essas saudações ao cavaleiro de la Tour para que ele lhas transmita quando tiver
oportunidade.
O pajem não regressou passada uma semana e Julián não teve as esperadas notícias.
— Lamento ter fracassado no meu encargo, não pude ver o físico — disse.
Julián empalideceu. Temia o pior.
— Mas não vos preocupeis, os cavaleiros deram-me uma saca cheia dessas ervas que
tanto vos aliviam.
— E meu irmão? Que sabeis dele?
— Pouco. Um criado dos cavaleiros contou-me que uns quantos estiveram na prisão,
depois de regressarem de uma viagem. Aparentemente, tinham cometido um acto de
desobediência. Creio que vosso irmão estava entre eles. O criado contou-me que as
masmorras do castelo não são dignas nem de animais, e que os homens enlouquecem
nesses buracos, aonde não chega uma réstia de luz, e que por alimento apenas recebem
meia taça de água por dia e meio pedaço de pão.
— Como sabeis que meu irmão estava entre eles?
— Esteve aqui com quatro outros cavaleiros há pouco tempo. Os cavaleiros castigados
faziam parte desse grupo, de modo que não é preciso pensar muito para saber onde está.
Prometestes-me uma recompensa se vos desse notícias seguras e estas são-no — recordou-
-lhe o pajem com uma expressão de cobiça.

Julián entregou-lhe a bolsa. Não sabia se podia acreditar nas palavras dele, mas não
tinha outra escolha senão considerá-las como verdadeiras. Tremia ao pensar no momento
em que tivesse de transmitir as notícias a dona Maria, mas, sobretudo, temia a sua reacção.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

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Corba de Lantar ajudava dona Maria a vestir-se. A mulher do senhor de Montségur,


Raimon de Perelha, não hesitara perante o pedido da amiga. Dona Maria precisava de roupa
de dama, a qual não tinha, já que era uma perfeita e o seu traje habitual era uma saia
pardacenta e um manto negro. Porém, não se podia apresentar vestida daquele modo no
castelo de Agen e enfrentar o grão-mestre da comenda onde Fernando estava preso.
Raimon de Perelha tentara fazer com que dona Maria desistisse da sua aventura, mas
todos os seus argumentos embateram na teimosia da dama. Pèire Rotger de Mirapoix
também não teve mais sorte ao tentar fazê-lo.
— Poderemos não nos voltar a ver — comentou Corba, enquanto ajudava a colocar a
touca na amiga.
— Voltarei, correrei a mesma sorte de quantos estão aqui, mas hei-de tentar salvar o
meu filho.
— Eu sei e compreendo-vos, contudo não deveis sentir-vos culpada pela sorte de
Fernando.
— Sabeis uma coisa, Corba? Com este filho, nunca fiz as coisas como devia. Sempre
soube que ingressou no Templo mais por rebeldia do que por vocação. Creio que o fez para
me castigar. Não posso abandoná-lo à mercê desses monges guerreiros que me parecem
tão estranhos.
— O grão-mestre poderá não vos receber.
— Receber-me-á, não terá outro remédio senão fazê-lo.
Dona Maria recusara roupa luxuosa, e envolvia-se num vestido azul-escuro,
acompanhado por um manto da mesma cor forrado com pele de coelho. Apanhara o cabelo
e tentara dar cor às faces.
Não lhe foi fácil deixar o castelo, sem que os cruzados a vissem. Nesse mês de
Fevereiro, os homens do senescal podiam observar dos seus posto os rostos abatidos dos
defensores do castelo.
De novo, Pèire Rotger de Mirapoix teve que procurar a cumplicidade dos soldados
cruzados da sua região, aos quais ofereceu duas bolsas de moedas para que mantivessem os

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

companheiros ocupados enquanto dona Maria se embrenhava por entre as sombras da


noite.
A dama cavalgou escoltada por um pajem até ao castelo de Agen. Não aceitou
nenhum descanso. Queria salvar o filho, mas também regressar o quanto antes a
Montségur para correr a mesma sorte dos seus irmãos. O bispo Bertran Martí abençoara-
-a e encomendara-a a Deus.
Desenhado na linha do horizonte, o castelo de Agen era imponente. Dona Maria
indicou ao pajem que se detivesse para se refrescar e pentear, e também para ajeitar o
vestuário e apresentar-se perante o grão-mestre templário como a dama que era.
A sua chegada ao castelo provocou uma enorme surpresa. Anunciou com altivez:
— Sou dona Maria, senhora de Aínsa.
Um criado pediu-lhe que aguardasse numa sala onde apenas havia um banco de
pedra no qual se sentar. Porém, estava demasiado tensa para descansar, de modo que
cruzou a sala várias vezes à espera que aparecesse o grão-mestre.
Quando o criado entrou, leu-lhe no rosto que trazia más notícias.
— Não vos pode receber. Lamento, senhora.
— O senhor Yves de Avenaret não me quer receber?
— Não o pode fazer, senhora.
— Bem, podes dizer-lhe que ficarei aqui até que o faça. Trazei-me água e qualquer coisa
para comer. Não tenho pressa.
O criado olhou assustado para a dama. Sentia-se impotente perante a atitude
enérgica de dona Maria.
— Mas não podeis ficar aqui! Este é um castelo do Templo, e não é permitida a
presença de damas.
— Eu sei, e a minha vontade é ir-me embora quanto antes, mas não o farei até que o
senhor de Avenaret me receba.
— Senhora, não insistis! — suplicou o criado.
— Não o farei. Quero apenas que comuniques ao grão-mestre que o esperarei aqui,
que não partirei até falar com ele de algo que diz respeito ao Templo, ao rei Luís e ao papa,
bem como a nós dois.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

O criado saiu, apavorado perante a menção das pessoas de relevo que a dama
referira.
Só passado um longo momento é que regressou e encontrou dona Maria tal como
a deixara, a cruzar a sala em largas passadas.
— O grão-mestre vai receber-vos.
Dona Maria não respondeu e seguiu-o com uma passada rápida através das geladas
salas do castelo, onde se cruzou com alguns cavaleiros que a olharam de lado com
curiosidade.
Yves de Avenaret era um homem já entrado na idade. Extremamente magro, os olhos
afundados nas órbitas transmitiam um espírito ascético.
Permanecia de pé, rígido, junto de uma cadeira de espaldar alto. A sala estava nua com
excepção da cadeira, de uma mesa com vários rolos de pergaminho e material para
escrever. Uma lareira de pedra embutida na parede aquecia a sala.
O templário cravou o olhar cinzento em dona Maria, sem que esta baixasse os olhos.
Se aquele homem achava que a podia intimidar, enganara-se no adversário.
— Dizei o que tendes para dizer, senhora — pediu-lhe com um tom de voz
autoritário, sem a convidar a sentar.
— Serei breve. Sou tão zelosa do meu tempo quanto vós do vosso. Haveis
encarcerado meu filho Fernando de Aínsa. Sabeis que não cometeu qualquer crime,
excepto o de cumprir a última vontade da mãe que, em breve, será enviada para a
fogueira.
O grão-mestre não conseguiu evitar surpreender-se ao ouvir dona Maria falar com
tamanha crueza acerca do seu próprio destino.
— Mal-educado seria Fernando se negasse um favor a sua mãe, na véspera da morte
desta. Meu filho queria salvar a vida da mais pequena das irmãs e acedi, embora a tenha
obrigado a ser escoltada por dois perfeitos, dois diáconos da nossa Igreja, até um lugar seguro.
Sim, pressionei-o. A vida da irmã a troco da garantia de fuga de dois homens bons com os
nossos bens mais valiosos, que permitirão que se continue a espalhar a Palavra de Deus. É
esse o seu pecado. Vós castigaste-lo com extrema dureza, fostes impiedoso para com
um jovem que não podia desobedecer a sua mãe. Sei que o tendes nas masmorras deste
castelo juntamente com quatro outros templários que se viram envolvidos sem o quererem
nestes feitos. Sei que se opuseram com veemência, mas escolheram não deixar Fernando

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

sozinho, receosos que os cruzados o detivessem, o que poderia ter provocado um enorme
escândalo. Não é preciso muita imaginação para saber que, se tivessem encontrado
Fernando, o Templo ter-se-ia visto comprometido na fuga de dois importantes homens da
Igreja dos Bons Cristãos. Ninguém teria acreditado que um templário agia sem o
consentimento do seu grão-mestre. Os seus companheiros agiram com prudência, numa
tentativa para evitar que a situação criada não trouxesse mais dificuldades, por isso
seguiram-no a curta distância sem intervir no que fazia, que nada mais era de que colocar a
irmã a salvo e aos dois diáconos em lugar seguro. Agora quero que vós façais justiça.
Yves de Avenaret olhava furioso aquela mulher intrépida que lhe falava com tanta
serenidade e altivez, como se fosse um chefe em batalha que não admite réplica.
Sentia-se irritado consigo mesmo por a ter recebido, mas ao mesmo tempo, ao vê-la,
compreendia que dona Maria era capaz de conseguir o que quer que se propusesse
conseguir, e temia o que poderia vir a fazer se não lhe satisfizessem as suas exigências.
— Pedis justiça, senhora? Que sabeis vós de justiça? Como vos atreveis a apresentar-
-vos aqui com ameaças...?
— Ameaças? Ameacei-vos? Dizei-me em qual das minhas palavras encontrastes um
indício de ameaça. Não, senhor de Avenaret, ainda não vos ameacei.
O templário remexeu-se nervoso e desejou acabar quanto antes com a conversa que
estava a manter com aquela mulher, a qual pressentia que podia ser uma fonte de
problemas.
— Vosso filho violou os seus juramentos. Quando se entra no Templo, despedimo-
-nos da família para sempre. Ele desobedeceu e colocou-nos em perigo. Há-de pagar por
isso.
— Regras estranhas de uns monges que dizem servir Deus e pedem aos homens
que esqueçam a quem amam, à mãe que os trouxe ao mundo, aos irmãos... Como poderão
fazer algo pelos outros se viram as costas aos seus? Não se pode apagar a mente dos
homens, eliminar-lhes o passado, por mais que tenham assumido um novo compromisso.
Meu filho teve de me obedecer, não tinha outra alternativa, reagiu como um irmão, não
como um monge.
— É estranho ouvir-vos falar assim, a vós, que sois uma herege e deixastes esposo e
filhos.
Dona Maria sentiu a estocada no coração, mas não o mostrou e decidiu continuar a
lutar.
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— Não sois meu juiz. O vosso Deus também não o é, de modo que é melhor não
perdermos tempo a falar de mim. Venho dizer-vos que se não libertardes o meu filho e os
seus companheiros, o rei Luís e o papa saberão que uns cavaleiros templários desta
comenda ajudaram a fugir dois diáconos de Montségur, que levavam consigo um
importante e enorme tesouro. Saberão também que depois de o fazerem, haveis feito
desaparecer os ditos cavaleiros para que ninguém soubesse da façanha, talvez porque o
Templo se converteu em guardião do tesouro dos Bons Cristãos?
— Como vos atreveis a dizer semelhantes coisas? Sabeis que não tivemos nada a ver
com isso!
— Abrir-se-á um processo em que tereis de demonstrar a vossa inocência ao Templo,
ao papa e ao rei. Os homens nunca acreditam no evidente, de modo que ninguém
acreditará que Fernando obedecia a sua pobre mãe perfeita para salvar a irmã. Sei que o
Templo tem muitos inimigos, alguns muito poderosos. Isto servirá para que se
entretenham. Onde está o nosso tesouro? Eu juraria que vós é que o tendes.
— Herege! — gritou o grão-mestre.
— Herege? Pensei que vós é que o éreis. Quero que meu filho saia de imediato dessa
masmorra onde o encerrastes, e também quero pedir-vos que o envieis para a Terra Santa,
longe daqui, de vós, de mim. Peço o mesmo para os outros cavaleiros. Jurareis sobre a vossa
Bíblia que jamais direis o que se passou e nunca os perseguireis. Se não cumprirdes com a
vossa palavra dareis contas a Deus, que não será magnânimo convosco, filho do Diabo.
Yves de Avenaret tremia, furioso. Se dona Maria fosse um homem tê-lo-ia
trespassado com a espada, mas aquela mulher era o pior dos inimigos, dura, implacável,
irredutível. Se não concordasse, o Templo ver-se-ia envolvido num escândalo, e ele acabaria
numa masmorra julgado por traição, mas o sangue inflamava-se-lhe ao pensar em aceitar a
chantagem daquela dama.
— Dona Maria calou-se. Sentia-se extenuada. Ainda não sabia se ganhara a partida ou
não, mas era tanta a sua determinação que decidiu enterrar aquele templário no Iodo da
história se ele não libertasse o seu filho. Ela mesma iria à corte de Luís, pediria para ver o rei
e mandaria uma missiva ao papa. Apresentar-se-ia como uma Boa Cristã, uma herege, diriam
eles, em contrapartida acusaria o Templo de ter roubado o tesouro guardado em
Montségur. Não sabia o que poderia acontecer, para além de ser condenada de imediato à
fogueira, mas, pelo menos, semearia tal confusão que o Templo não sairia incólume da sua
investida.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Yves de Avenaret observou com um ódio profundo aquela mulher, que provocara a
única derrota da sua vida.
— Vosso filho será libertado. Tendes a minha palavra.
— Primeiro, jurai sobre a vossa Bíblia, depois mandá-lo-eis comparecer perante a
minha pessoa, dar-lhe-eis a ele e a seus companheiros comida, água, cavalos e salvo-
-condutos, e depois sairei com eles para sempre deste castelo. Ah, e como não confio em
vós, já que podeis ter a tentação de me quererdes arrebatar a vida antes que seja devorada
pelas chamas, sabei que outros Bons Cristãos estão dispostos a cumprir com aquilo que vos
disse, se acontecer algo a mim ou a meu filho.
— Sois uma herege e como tal não compreendeis o valor da palavra de um
cavaleiro.
— Sou Maria de Aínsa, desposei o melhor e mais valoroso dos cavaleiros, e garanto-
-vos que em nada se parece convosco.
Voltaram a medir-se e trocaram um olhar. O de Yves de Avenaret, carregado de ira; o
de Maria de Aínsa, de determinação.
A dama aproximou-se da mesa e apontou para a Bíblia que se encontrava aberta.
— Jurai, senhor, jurai.
Yves de Avenaret fê-lo. Jurou com raiva e firmeza tudo aquilo que aquela mulher lhe
pedia. Jurou por Deus e pela sua honra. De seguida, saiu da sala e deixou dona Maria à
espera, impaciente.
Demorou mais de uma hora a regressar e fê-lo com Fernando, que se apoiava num
criado, já que mal se aguentava de pé, e que tapava os olhos doridos pela luz que inundava a
sala. Viam-se-lhe os ossos, tinha o cabelo desgrenhado e um cheiro fétido desprendia-se da
roupa sebenta que o cobria.
— Mãe, viestes!
Dona Maria aproximou-se do filho, sem conseguir conter as lágrimas ao vê-lo em
semelhante estado.
— É assim que trateis vossos irmãos! — gritou furiosa a Yves de Avenaret. — Nunca
como hoje vi o Diabo tão de perto.
Fernando apoiou-se à parede, desorientado pelo que via, temendo que a mãe
enfurecesse o grão-mestre. Mas dona Maria voltara a recuperar o domínio sobre si própria

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

e dirigiu-se ao templário com uma voz gélida.


— Mandai que ajudem meu filho a lavar-se, proporcionai-lhe roupa e alimento. Fareis
o mesmo com seus companheiros. Quando estiverem prontos, que venham aqui, a esta
sala, porque será daqui que sairemos.
Quando ficou sozinha, não conseguiu resistir ao cansaço que a afligia, e sem pensar
duas vezes sentou-se na cadeira alta que pertencia ao grão-mestre. Não soube se
adormeceu nem quanto tempo passara, mas os passos ruidosos de homens a entrar na
sala devolveram-na à realidade.
Fernando ainda se apoiava a um dos criados, tal como os outros cavaleiros também
ajudados por criados do Templo.
Estavam lavados, com roupa nova, e o cabelo húmido, recém-lavado. Dona Maria
duvidou se seriam capazes de montar a cavalo, mas decidiu que não devia continuar a
tentar a sorte. Quanto mais depressa deixassem aquele castelo, mais seguros se
encontrariam.
— Os cavalos estão preparados, juntamente com quatro mulas com víveres e armas.
Aqui estão os salvo-condutos e as cartas de passagem para que possam embarcar rumo à
Terra de Nosso Senhor.
Dona Maria pegou nos salvo-condutos e guardou-os. Durante um segundo, cruzou o
olhar com o do grão-mestre e soube que aquele homem cumpriria a palavra dada por mais
que a odiasse.

Não disseram mais nada. Dona Maria fez um gesto a indicar aos cavaleiros que se
pusessem em marcha. Estes não tinham proferido palavra e ainda se perguntavam sobre o
que estava a acontecer. Tinham passado da obscuridade e do silêncio para serem libertados,
lavados e enviados, como se nada se tivesse passado, a combater os sarracenos. E tudo aquilo
parecia dever-se àquela mulher magra, de olhos penetrantes e expressão firme, que tanto se
parecia com Fernando.
Deixaram o castelo conduzidos por dois criados que faziam parte da comitiva, além
de cinco escudeiros, que também pareciam surpreendidos pela missão repentina. Mas
ninguém perguntou nada ao grão-mestre, ninguém ousaria discutir as suas ordens.
Limitavam-se a obedecer-lhe.
Tinham-se já afastado um bom bocado do castelo quando dona Maria mandou a

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

comitiva deter-se. Desmontou e disse aos cavaleiros templários que descansassem,


enquanto falava com o filho. Daquela vez iam-se despedir para sempre.
— Fernando, filho, peço-te que me perdoes o sofrimento que te causei.
— Não sois culpada, mãe — respondeu o jovem —, eu sabia que iria ser castigado e
aceitei violar as regras. Vós não me obrigastes.
— Claro que obriguei! E na minha consciência pesa cada segundo do teu sofrimento e
do dos teus companheiros. Perdoa-me, pois nunca poderei morrer em paz sem o teu
perdão.
— Mãe, nada tenho para vos perdoar. Ainda não sei como conseguistes tirar-nos
daquela masmorra...
— Consegui-o e isso é suficiente.
— O grão-mestre é um homem duro, mas justo.
—Justo? É justo castigar um homem sem ver a luz, encerrado entre animais, dar-lhe
apenas meio pedaço de pão para o manter vivo? Acreditas mesmo que merecias esse inferno?
Não. Nem tu, nem os teus companheiros mereciam essa sentença. Teríeis morrido com
vergonha, sendo inocentes. O demónio habita nos homens que são capazes de fazer o que
te fizeram.
— Mãe, por amor de Deus! Não digais isso!
— Receio os homens que não duvidam.
— Vós também o fazeis.
— Que sabes tu, filho! Às vezes, é demasiado tarde para regressar pelo caminho
empreendido.
— Que ireis fazer, mãe?
— Regresso a Montségur. Dentro em pouco, hei-de morrer.
— Fugi! Não tendes de regressar, meu pai proteger-vos-á.
— Causar-lhe-ia a sua desgraça se o fizesse. Não, não lhe posso fazer isso. Não quero
voltar, filho, não o quero fazer.
— Quanto tempo resistirá Montségur?
— Pouco, Matèu saiu duas vezes. A primeira regressou com dois homens como
reforço, e agora estamos à espera do seu regresso, mas não temos ilusões. Raimundo não

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virá, abandona-nos à nossa sorte. Sabe que se voltar a desafiar o rei não haverá perdão,
prefere conservar a vida e algumas das suas terras. É cada vez mais difícil entrar e sair de
Montségur; apesar disso, Matèu mandou-nos dizer que há dois senhores, Bernat d’Alio e
Arnaut de So, dispostos a pagar a um chefe de rebeldes aragonês de nome Corbario,
para que venha em nosso socorro com alguns dos seus homens. Mas não voltámos a ter
notícias.
— Mãe, procurai refúgio entre os Bons Cristãos que ainda devem existir nestas terras,
mas não regresseis.
— Filho, não te preocupes comigo. Já vivi a minha vida, a única coisa que lamento é
não ter sabido dar-te aquilo que merecias.
— Salvaste-me a vida.
— Devia-ta.
— Apenas por isso?
— E porque te amo, Fernando, amo-te com toda a minha alma, embora não tenha
sabido dizer-to. Fui muito dura com aqueles que me rodeavam, e lamento sobretudo não ter
sabido aproximar-me de ti, filho. Quanto a isso, responderei perante Deus.
Fernando apertou a mão dela entre as suas e de seguida, abraçou-a. Desejava que
naquele abraço prolongado a mãe sentisse quanto lhe queria.
Os cavaleiros aproximaram-se com passos cambaleantes, até ao local onde se
encontravam mãe e filho.
— Queremos agradecer-vos — disse Armand de la Tour, o físico templário.
— Eu é que vos agradeço e vos peço perdão, já que coloquei em risco as vossas vidas.
— Fostes muito corajosa, senhora — afirmou Arthur Bonard.
— Cumpri com a minha consciência, quero morrer em paz. Agora, partamos. Meu
filho explicar-vos-á tudo. O vosso grão-mestre jurou-me que não vos perseguirá e ninguém
saberá o que aconteceu. Guardai também vós silêncio. A todos convém manter em segredo
o que aconteceu.
Os cavaleiros juraram que dos seus lábios jamais sairia uma palavra e tentaram, em
vão, convencê-la a não regressar a Montségur.
— Cada um de nós tem de enfrentar o seu destino. Todos escolhemos o nosso, e eu
escolhi esta maneira de morrer. Mas ide em paz e que Deus vos proteja, cavaleiros.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Mãe e filho abraçaram-se mais uma vez. Pelas faces de ambos corriam lágrimas, mas
nenhum as tentou conter.
— Amo-te, Fernando. Vive, vive como o cavaleiro que és, como o último senhor De
Aínsa.
Em seguida, sem olhar para trás, dona Maria montou a cavalo e a galope dirigiu-se a
Montségur.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

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Uma brisa suave anunciava a Primavera, naquele dia 16 de Março de 1244. Julián
murmurava uma oração sem conseguir evitar que lhe batessem os dentes. A poeira do
caminho indicava que, de um momento para o outro veriam aparecer o cortejo dos
refugiados de Montségur. Os combates das últimas semanas tinham sido intensos e, tanto o
senhor do castelo, Raimon de Perelha, como o seu comandante, Pèire Rotger de Mirapoix,
haviam chegado à conclusão que era inútil resistir durante muito mais tempo. Desta vez, o
conde Raimundo iria manter o seu compromisso de vassalagem para com o rei Luís; além
disso, a nobreza do país não se sentia capaz de socorrer quem lutava em Montségur:
faltava-lhes um chefe e o condado estava exausto.
No primeiro dia de Março, Pèire Rotger de Mirapoix saíra para negociar com os
cruzados. Era tal a alegria do senescal Hugues des Arcis, que ou por bondade natural ou
pelo desejo de acabar quanto antes com o cerco que durava há nove longos meses, a
verdade é que o cavaleiro se mostrou magnânimo. Tal como os outros frades dominicanos
Julián foi testemunha da rendição. Hugues des Arcis concedeu um prazo de quinze dias para
que os sitiados abandonassem o castelo, e exigiram reféns, entre eles Jordan, filho do
senhor de Montségur, e Arnaut de Mirapoix, parente do comandante da guarnição, além de
Raimon Martí, irmão do bispo dos Bons Cristãos.
Também ficou acordado estabelecerem-se duas categorias, a dos perfeitos e a de
todos aqueles que, embora os tendo ajudado, não tinham professado a fé dos Bons
Cristãos, da Igreja de Deus. Para os Bons Cristãos, a condenação era irrevogável: morreriam
na fogueira, mas aqueles que renunciassem à sua fé poderiam salvar a vida. Os dominicanos
estavam impacientes por começar os exaustivos interrogatórios, dos quais Julián seria o
escrivão. Frei Ferrer, o implacável inquisidor, estava ansioso por mandar para a fogueira
aqueles desgraçados. Seria ele mesmo a recompilar as actas de tudo quanto se passara em
Montségur.
Dona Maria, tal como o resto dos perfeitos, consolava as boas gentes que os tinham
ajudado e partilhado com eles os sofrimentos do cerco. Muitos dos que haviam defendido
Montségur sem serem Bons Cristãos decidiram pedir ao bispo Bertran Martí o consolament
para assim terem a mesma sorte que os perfeitos. Corba, a mulher de Raimon de Perelha,
juntou-se aos perfeitos, tal como sua filha Esclarmonde.
De nada serviram as súplicas do marido, o senhor de Montségur. A dama sentiu

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que faria aquele sacrifício como último testemunho do sofrimento vivido, como um gesto
para as gerações futuras.
Quatro outros cavaleiros juntaram-se a ela, para além de um mercador, um
escudeiro, um besteiro, seis soldados...
Bertran Martí perguntou, um a um, aos perfeitos se desejavam retractar-se, para
desse modo se livrarem da fogueira. O idoso bispo assegurava-lhes a sua compreensão, mas
nem um único quis renunciar à sua fé.
Os perfeitos distribuíram os poucos pertences entre vizinhos e amigos, e
aproveitaram para escrever cartas aos parentes mais próximos.
As missivas de dona Maria tiveram dois destinatários. Uma ia dirigida ao marido, dom
Juan de Aínsa; outra, à filha Marian, dama na corte de Raimundo VII. Por um momento,
pensou em escrever a Julián, mas afastou essa tentação com receio de o comprometer.
Sabia que o filho do marido cumpriria a sua palavra e escreveria a crónica acerca da queda
de Montségur.
Quanto fanatismo, lamentou-se a dama. Os Bons Cristãos não tinham feito nenhum
mal, excepto o de viverem na pobreza e ajudarem os seus semelhantes. Pagavam com a
fogueira o facto de não se manterem na ortodoxia restrita da Igreja, e não era assim tanto o
que os separava.
Ao longe, viu erguerem-se os estandartes e as cruzes dos homens do senescal. Dona
Maria não conseguiu evitar um gesto de repugnância perante a visão daqueles madeiros
em forma de cruz, que os seguidores de Roma adoravam.
Rezava a Jesus, que pregara a mensagem de Deus na terra. No entanto, não acreditava
que tivesse morrido na cruz para salvar os homens. Jesus não era de carne, não podia sofrer
nenhum mal porque era Filho de Deus. Também considerava uma aberração a liturgia em que
os sacerdotes enganavam o povo, fazendo acreditar que convertiam em vinho o sangue de
Jesus e o pão na sua carne. Que horror, devorar Jesus! Apercebiam-se do que aquilo queria
dizer?
São João deixara-o claro no seu Evangelho: «O meu reino não é deste mundo» ou
«não são do mundo tal como eu também não o sou».
O único sacramento que permitia salvar a alma era o cansolament, o baptismo
espiritual. Sim, João Baptista baptizava com água, mas Jesus pousava as mãos para assim
receber o Espírito Santo e rezava a única oração que agradava a Deus, o pai-nosso.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Nesses dias, dona Maria congratulava-se ao ver quantos dos seus vizinhos tinham
decidido receber o consolament. Que absurdo, dizia, deitar água sobre uma criança e dizer
que está baptizada. O baptismo, bem o ensinava o bispo Bertran Martí, apenas era possível
na idade adulta. Receber ou não o Espírito Santo era uma decisão individual.
A dama acabou de escrever, e tentou ordenar os pensamentos que deixara vaguear
enquanto erguia os olhos para observar a enorme pira de lenha amontoada pelos cruzados.
Não faltava muito para que ela mesma fosse queimada nessa fogueira e se desprendesse da
sua casca, do seu corpo, e se libertasse para se encontrar com Deus.
O cabreiro informou-a que Frei Ferrer aguardava ansioso que chegasse o dia
marcado para os ver arder no fogo, mas antes disso seria ele mesmo a interrogá-los. Dona
Maria sentia uma punhalada de inquietação. O dominicano catalão era um demónio, um
homem cruel incapaz de sentir compaixão. Acendera fogueiras por todo o país, refinara as
artes do interrogatório, revira antigos arquivos para encontrar alguma falha que lhe
pudesse servir para mandar para a fogueira qualquer pessoa que se tivesse livrado por uma
simples falta de provas. Julián temia-o, de cada vez que falava dele dilatavam-se-lhe as
pupilas e um suor frio começava-lhe a correr da nuca. De que seria capaz aquele homem
quando descessem de Montségur?
Confessou a sua angústia a Bertran Martí nos seus derradeiros momentos. Fora
talvez demasiado egoísta ao pensar apenas em viver a sua fé, deixando o marido e os
filhos à sua sorte.
O bispo consolou-a, mas não conseguiu apagar aquela dor da alma dela. Fernando
perdoara-lhe, mas Juan, o marido? E a filha Marta? E os netos? Compreenderiam que
tivesse decidido consumir-se na fogueira?
Uma mulher perfeita aproximou-se para a avisar que chegara a hora de deixar o
castelo. Dona Maria procurou o sargento, que lhe prometeu que faria chegar as cartas ao
seu destino. Entregou-lhas como se se tratasse de um tesouro e ele, comovido, beijou a
mão da dama que tanta coragem lhes dera nos momentos mais amargos do cerco.
Raimon de Perelha deu a ordem para se iniciar a descida. Entretanto, dona Maria
procurou com o olhar Pèire Rotger de Mirapoix, que dava ordens aos soldados e
organizava a rendição. Sabia que o senhor De Perelha exigira que o seu comandante
salvasse a vida, que fugisse. Para isso, encarregara-o de uma missão. Também sabia que,
dois dias antes, o bispo Bertran Martí decidira que dois perfeitos tentariam retirar o
resto do ouro e da prata que ainda se encontrava em Montségur. Os perfeitos Amelh

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Aicart e Huc Petavi, conduzidos por um homem das montanhas, iam descer pelas paredes
da montanha, mas antes aguardariam que a comitiva chegasse ao seu destino e que
caíssem as sombras da noite.
A sua missão consistiria em irem ao mesmo bosque onde os perfeitos que
acompanharam Teresa, não muito tempo antes, tinham escondido o grosso do tesouro.
Naquele amanhecer tépido e primaveril, tudo o que os rodeava convidava a viver,
mas boa parte daqueles que integravam o cortejo que saía de Montségur sabiam que
estavam a saborear as últimas horas de vida .
A trégua terminara. Aos pés do castelo, encontrava-se o senescal Hugues des
Arcis, acompanhado pelo bispo de Albi e os dominicanos Ferrer e Durand, para além de
Julián e de Pèire. Há horas que se erguera uma paliçada capaz de albergar duzentas pessoas.
Os feixes de lenha, resina e palha, aguardavam, prontos a arder.
Os perfeitos, descalços, vestidos com hábitos de serapilheira grossa, caminhavam de
cabeça erguida. Precediam-nos as boas gentes com as quais tinham partilhado tantos
meses de sofrimento em Montségur.
Os inquisidores tentavam que os hereges renunciassem à sua fé, mas estes pareciam
não os ouvir.
Frei Ferrer instigava-os a arrependerem-se e a beijarem a cruz. Os perfeitos viravam a
cabeça, e um até cuspiu sobre o adorado símbolo do cristianismo católico.
Os olhos do inquisidor brilhavam de alegria a cada gesto de repúdio da cruz.
— É a maior prova da maldade dos hereges — bramava. — Merecem a fogueira!
Dona Maria procurava o olhar de Julián e, ao sorrir-lhe, tentou insuflar-lhe a força que
faltava ao frade. Frei Ferrer aproximou-se com uma passada apressada da dama, e
convidou-a a beijar a cruz. Dona Maria repudiou-a e voltou o rosto, mas o inquisidor
regozijou-se ao colocá-la a poucos centímetros da boca dela. A senhora De Aínsa não queria
cuspir. Embora soubesse que a cruz era apenas um pedaço de madeira, que Jesus não estava
de modo algum nela, algo no seu íntimo impedia-a de cuspir sobre ela como o tinham feito
alguns dos seus amigos.
Julián observava angustiado a cena. Sentia uma enorme vontade de empurrar Frei
Ferrer, de lhe arrancar a cruz e atirá-la ao chão, para que não continuasse a martirizar com ela a
sua senhora. Mas esse pensamento espantava-o.
Estava prestes a gritar, mas os olhos de dona Maria devolveram-lhe a calma.
76
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

A dama, juntamente com os restantes perfeitos, entrou na paliçada. Os hereges


começaram a rezar, liderados pelo idoso bispo Bertran Martí, enquanto os soldados os
atavam aos postes, que tinham rodeado de resina e palha. Quando o inquisidor Ferrer
emitiu um sinal, prenderam-nos à fogueira.
As chamas deslizavam entre os pés dos condenados, que continuavam a rezar sem
pedir clemência.
Julián olhava para os pés de dona Maria e para a bainha da sua túnica, que começara
a arder. Não conseguiu evitar um grito rouco e angustiado que, por sorte, ninguém
conseguiu ouvir.
Não conseguia afastar os olhos da senhora De Aínsa, a imagem da dignidade atada
àquela estaca, corajosa até ao fim. Os lábios murmuravam preces mas não pediam
clemência, enquanto Julián sentia os olhos dela a cravarem-se nele, a darem-lhe uma última
ordem: «Escreve a crónica. Que a posteridade saiba por que morremos em Montségur.»
O fogo era tão vivo que Frei Ferrer e os outros dominicanos tiveram de se afastar
para, à distância, continuarem a contemplar aquele espectáculo macabro. O cheiro a carne
queimada inundava a montanha, e o calor que se desprendia da fogueira abrasava o ar e as
pedras. Nuvens negras cobriam o céu que, minutos antes, luzia com um azul intenso.
Os olhos de Frei Ferrer brilhavam entusiasmados. Era o apogeu da sua carreira.
Regozijava-se ao ver arder perante ele os últimos resistentes do país. Sabia que ainda havia
perfeitos tanto nos povoados como escondidos nos bosques, mas ele procurá-los-ia até
os transformar em fumo, como fizera com os habitantes de Montségur.
— Julián! Julián! Estais bem?
A voz de Frei Pèire devolveu-o à realidade. Julián, estendido no chão, não sabia
quando desmaiara. À frente dele, Frei Ferrer olhava-o com desprezo.
— Tão frágil é vossa fé que perdeis os sentidos ao ver arder os hereges? — perguntou
o inquisidor.
— Foi o calor e o cheiro forte — desculpou-o Frei Pèire —, eu também me senti
enjoado.
— Pois recobrai-vos, porque temos de começar quanto antes a ouvir as confissões
desta gente.
— Hoje mesmo? — perguntou Julián, angustiado.
— Sim — respondeu o inquisidor, sem hesitar. — E sabei que não consentirei
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

qualquer fraqueza por parte de um escrivão da Inquisição.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

13

A noite estava fresca, mas a aragem que corria não era capaz de apagar o cheiro a
carne queimada.
Os cruzados pareciam ter caído num estranho mutismo. Não tinham vontade de falar
uns com os outros, como se o fim do cerco e a rendição de Montségur não fossem um
enorme triunfo, mas sim um fracasso velado.
Alguns homens não tinham conseguido ocultar as lágrimas. Os detidos, que
esperavam ser interrogados por Frei Ferrer, tinham familiares ou amigos angustiados com
a sua sorte. Alguns tinham-se aproximado de Frei Pèire e de Frei Julián para lhes perguntar o
que aconteceria com aqueles que não eram perfeitos e que estavam detidos. Os dois frades
asseguraram-lhes que a Igreja cumpriria o que prometera: interrogaria quantos tinham
vivido dentro de Montségur, mas não os queimariam, excepto se Frei Ferrer encontrasse
neles o mais pequeno indício de heresia.
Os interrogatórios duraram vários dias e foram exaustivos. Pèire e Julián escreviam a
grande velocidade as perguntas do seu superior e as respostas titubeantes dos acusados. Em
certas ocasiões, Frei Ferrer submetia os prisioneiros à prova de fogo. Colocava-os perante um
crucifixo, e instava-os a beijarem-no e a rezarem o pai-nosso.
Frei Ferrer sabia que nenhum dos bons homens ou boas mulheres seriam capazes de
adorar a cruz, de modo que assim que via uma hesitação, enfurecia-se até conseguir uma
confissão de heresia.
Todas as declarações dos defensores de Montségur eram transcritas com minúcia
pelos escrivães da Inquisição e enviadas para lugar seguro.
Quando a noite caía, Julián dirigia-se à tenda e continuava a escrever febrilmente, a
narrar o horror que vivia a cada dia, a falta de misericórdia de Frei Ferrer. Julián via no seu
superior uma mente doente e retorcida, um fanático que se deleitava com a dor alheia em
nome de Deus.

Uma noite, o cabreiro entrou de repente na tenda quando ele se preparava para
apagar a vela e tentar adormecer.
— Mas que fazeis aqui? — exclamou assustado.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Venho recordar-vos a promessa que fizestes a dona Maria. A crónica está pronta?
— Ainda não, ainda me falta muito para contar.
—Talvez quereis acrescentar que dois perfeitos conseguiram salvar-se, que o senhor
De Mirapoix os ajudou, e que também ele salvou a vida.
— Frei Ferrei mandou procurá-lo por todos os recantos...
—Mas não o encontrará. O senhor De Perelha fez com que Pèire Rotger de Mirapoix
vivesse. Quem sabe se será capaz de organizar alguma resistência contra os invasores.
Julián calou-se. O que o cabreiro dizia não passava de um sonho, um sonho
impossível. A Igreja e o rei de França tinham ganho a partida. Quem não o aceitasse,
apenas teria um futuro como proscrito.
— Que tinham de tão especial esses perfeitos para que fosse decidida a sua fuga?
— Em Montségur guardava-se ouro, prata e pedras preciosas doadas pelos cavaleiros
e damas crentes, ou que tinham decidido abandonar tudo para se tornarem perfeitos. Era
com esse tesouro que mantínhamos a Igreja de Deus, as casas onde as perfeitas acolhiam as
viúvas e os órfãos, a ajuda para os nossos irmãos desvalidos, e também para comprar
víveres, e até armas para os nossos defensores... O nosso bispo não queria que o tesouro
caísse na mão dos nossos verdugos. Confiava que outros perfeitos pudessem continuar a
transmitir a palavra de Deus, e para isso era necessário ter uma bolsa bem cheia. Os
nossos irmãos esconderam esse ouro em lugar seguro. Quando chegar o momento,
utilizá-lo-ão como devem. Conto-vos tudo isto, porque a senhora disse-me para o fazer.
— Tínheis-lhe afecto?
O cabreiro baixou os olhos e com a ponta do sapato raspou o chão, enquanto
procurava palavras que fizessem justiça à devoção que sentia para com dona Maria.
— Cuidou de minha esposa durante a sua longa enfermidade. O físico disse que as
pústulas que tinha eram contagiosas, mas dona Maria não se assustou. Lavava-as e limpava-
-as, depois estendia sobre elas uma mistura de barro e ervas. Nem sequer eu me atrevia a
aproximar-me dela, que Deus perdoe a minha cobardia. Também foi generosa com a minha
filha, e deu-lhe um dote que lhe permitiu fazer um bom casamento com um palafreneiro do
conde de Toulouse. E enviou o meu filho para casa de sua filha Marian, onde serve o seu
esposo.
— Sempre foi generosa.
— Até ao último momento. Repartiu quanto tinha pelos mais pobres de entre nós. A
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

vós.., a vós queria-vos, falava sempre de vós como o seu «bom Julián». Pediu que vos viesse
ver e vos dissesse tudo isto. Também me pediu que vos rogasse que fosseis cuidadoso e
fizésseis chegar quanto antes a crónica a dona Marian.
— Não sei como o poderei fazer... — lamentou-se Julián.
— Eu mesmo lha levarei.
— Vós?
— Não ficarei aqui muito tempo, apenas aquele que demorardes a terminar vossa
crónica. Já vos disse que meus filhos se encontram sob a protecção de dona Marian, na
corte do conde Raimundo. Espero poder ganhar a vida perto deles. Aqui... não me
consigo desprender do cheiro a carne queimada, a carne dos Bons Cristãos.
Concordaram em voltar a encontrar-se três dias depois, embora Julián não lhe tivesse
garantido que poderia concluir a crónica.
Não lho disse, mas temia mais que nunca Frei Ferrer e, embora tivesse a crónica bem
escondida, temia que o superior a descobrisse, já que criara o hábito de se apresentar de
surpresa na sua tenda.
Julián sentia a desconfiança de Frei Ferrer e este sentia o medo de Julián .

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

14

— Frei Julián, Frei Julián! — gritou Frei Pèire, ao entrar como uma exalação na tenda.
— Que aconteceu, irmão? — perguntou Julián que nesse momento se preparava para
ir até ao local dos interrogatórios.
— Frei Ferrer mandou deter vosso amigo, o cabreiro!
Julián voltou a sentir as náuseas que o acometiam sempre que tinha medo, mas
recompôs-se e, sem saber como, arranjou coragem e aproximou-se em passo rápido do local
onde Frei Ferrer se encontrava.
O cabreiro tinha as mãos atadas atrás das costas e fora brutalmente açoitado.
— Que aconteceu? Que mal fez este homem?
Frei Ferrer olhou-o incrédulo. Considerava Julián um cobarde incapaz de se interessar
por alguém, a não ser por ele mesmo.
— Conheceis este homem? — perguntou-lhe Frei Ferrer, desconfiado.
— Sim, conheço-o e o senescal também. Na verdade, todos os que se encontram
neste acampamento conhecem-no, já que durante nove meses forneceu-nos leite e bons
queijos.
— Então, enganou-vos a todos — asseverou Frei Ferrer.
— Enganou? Como?
— É um crente, um herege.
— Impossível! — afirmou Julián, e olhou angustiado para o cabreiro.
— Uma das camponesas denunciou-o. Garantiu que entrava e saía de Montségur
para levar mensagens, e que espiava este acampamento.
— E vós acreditastes?
— Que outras provas são necessárias para o condenar por traição?
— Provas? É precisamente isso que não temos. Uma mulher acusa-o e, que mais
apresentou ela, para além desse testemunho?
— Isso é suficiente — insistiu Frei Ferrer.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— É uma fraca prova. Todas as pessoas podem dizer o que quiserem acerca das
outras por despeito, para vos contentar ou para salvar a pele.
— Defendeis este homem? Porquê?
O tom acerado da voz de Frei Ferrer fez Julián tremer. Conseguia ver nos olhos dele a
crueldade que lhe habitava o interior.
— É muito fácil saber se este homem é um herege — disse Julián, ao mesmo tempo
que retirava do pescoço a cruz que ali trazia.
Olhou o cabreiro nos olhos, e suplicou-lhe com o olhar que fizesse o que lhe pedia.
Aproximou-se com passos decididos e estendeu-lhe a cruz.
— Beijai-a, bom homem, afastai as dúvidas de meu irmão.
O cabreiro nem hesitou. Agarrou a cruz com força e, olhando primeiro para Julián e
em seguida para Frei Ferrer, beijou-a repetidas vezes. Depois, persignou-se e caiu de
joelhos com a cruz presa entre as mãos, a chorar e a murmurar uma oração.
— Vistes? De que outra prova necessiteis? Este homem é um bom cristão — disse, e
salientou as últimas palavras.
Frei Ferrer estava vermelho de ira. Desejava com todas as forças bater no frade
intrometido que até ao momento lhe parecera um infeliz. Onde arranjara a coragem para
defender o cabreiro?
— Deixai-o ir, está inocente — suplicou Julián. — Ninguém acreditará na justiça da
Igreja, se não formos capazes de separar o trigo do joio.
Um grupo de soldados tinha-se juntado perto deles. Contemplavam a cena
expectantes, muitos deles fartos de ver morrer familiares e amigos por indicação daquele
frade que não conhecia a compaixão.
Frei Ferrer deu meia-volta, sem proferir palavra. A fúria desenhava-se-lhe no rosto e
Julián perguntou-se o que seria capaz de fazer.
— Ide — ordenou ao cabreiro. — Agora mesmo, sem perder tempo, não leveis nada.
Fora!
O homem levantou-se e com lágrimas nos olhos abandonou o acampamento sem
olhar para trás, receoso que Frei Ferrer o mandasse prender.
Julián sentia-se exausto, mas pela primeira vez em muito tempo, em paz consigo
mesmo. Pensou em Armand de la Tour, o físico templário cuja única receita para lhe curar

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

os males fora aconselhá-lo a agir sempre de acordo com a sua consciência.


— Um dia — murmurou —, um dia, alguém vingará o sangue dos inocentes.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

SEGUNDA PARTE

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

5 de Maio de 1938
Carcassone, França
«Um dia, alguém vingará o sangue dos inocentes.»
A última frase comoveu-o profundamente. O relato escrito naqueles rolos de
pergaminho, que tinham sobrevivido durante mais de sete séculos num castelo perdido no
Sul de França, tinham-no impressionado.
O dono do castelo aguardava, impaciente, a sua opinião de perito. Não gostava
daquele homem e muito menos do seu advogado — que parecia ter uma enorme influência
sobre o dono da casa—, mas disse a si mesmo que isso não tinha qualquer importância.
Estava ali como especialista da época medieval da Universidade de Paris, não para
socializar.
Esfregou os olhos e olhou para o relógio. Estivera toda a tarde imerso na leitura, e o
crepúsculo começava a adivinhar-se através das janelas que davam para o jardim bem
tratado.
O café arrefecera, e limitara-se a mordiscar as sanduíches primorosamente alinhadas
numa bandeja de prata.
Embora tivesse a certeza de que eram autênticos, pensara pedir ao conde que lhe
permitisse levá-los para a universidade. Queria consultar um grupo de especialistas na
datação de manuscritos.
Saiu da sala à procura do conde, mas nem dera três passos quando um criado se
aproximou dele.
— Deseja alguma coisa, professor?
— Sim. Poderia chamar o senhor conde?
— Sim, senhor. Ele está à sua espera no escritório.
Etienne Marie de la Pallisière, vigésimo segundo conde d'Amis, não se fez esperar.
Acompanhado pelo advogado, o senhor Saint-Martin, apareceu rapidamente, ansioso por
ouvir a opinião do perito.
— E então, professor? — perguntou o conde sem mais preâmbulos.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— É um relato extraordinário, escrito por um homem atormentado, dotado de uma


enorme sensibilidade. Na minha opinião é autêntico, mas gostaria de o levar para Paris e
consultar outros colegas...
— Disseram-nos que o senhor era o melhor — disse o advogado, com uma expressão
azeda.
— O melhor...? Agradeço o elogio, mas existem outros colegas com a mesma ou
maior erudição académica do que eu.
— Não gosto dos homens modestos — afirmou D'Amis.
— Asseguro-lhe que não o sou, mas também não sou presunçoso. Parece-me, senhor,
que nesta altura em que existe... eu diria um certo estigma contra os cátaros, não é de mais
ser-se escrupuloso. Desde que no século XIX esse personagem chamado Peyrat, aprendiz de
historiador, começou a fantasiar acerca dos cátaros, são muitos os documentos falsos, as
interpretações erróneas e a pseudo-literatura que se considera como verídica. Sou um
historiador e, desse modo, não dou nada por certo até o ter comprovado cientificamente.
— Então, parece-lhe que Peyrat era um impostor! — exclamou aborrecido o
advogado do conde.
— Sim, senhor Saint-Martin, esse pastor da Igreja Reformada parece-me um
ignorante que causou importantes danos à história, pelo menos no que se refere à
história de França. Atribuir aos cátaros elementos esotéricos é desprezar a história. O tal
Peyrat queria vê-los como precursores da Reforma.
— E o senhor não está de acordo — murmurou o conde.
—Isso é uma tolice — afirmou o professor —, tal como esse movimento político que
quer impulsionar uma França com identidades e línguas diferentes. Na minha opinião, isso
seria dar um passo atrás na história. Não me parece que se tenha de sacrificar o Estado
moderno para regressar à Idade Média. Digam o que disserem quantos indocumentados
que se fingem historiadores e que até reinventam a história do modo que mais lhes apraz, o
século XIII não foi nenhuma Arcádia.
O conde d'Amis olhou com desprezo o professor antes de afirmar com uma voz
abafada:
— Nós pertencemos a esse movimento político que aspira a que o Languedoc
recupere a sua história, a sua língua e a sua autonomia, arrebatadas pela força das armas.
Ferdinand Arnaud estava prestes a desatar à gargalhada, mas conteve-se. Já calculara
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

que aqueles homens circunspectos poderiam pertencer ao movimento de iluminados por


trás daquela teoria, um País Cátaro.
— Bem, não estamos aqui para discutir política — disse o advogado —, mas sim para
saber a sua opinião como especialista, e já que não se considera o melhor...
D'Amis fez um gesto a Saint-Martin para que se calasse. Irritava-lhe o professor, mas
fora-lhe recomendado como a autoridade máxima do período medieval francês, como o
homem que mais sabia acerca dos cátaros ou albigenses, e não queria perdê-lo, por mais
que tudo indicasse que as relações não iam ser fáceis.
— Que propõe, professor?
— Propor? Que quer dizer?
— Quero autenticar esses pergaminhos. Vai fazê-lo?
— Fá-lo-ei, se permitir que os leve a Paris ou se o senhor mos levar lá. Já disse que
acredito que sejam autênticos, mas preciso de os examinar mais profundamente. O que
não compreendo é... enfim... como é que ainda não foram autenticados.
— No arquivo familiar existem vários documentos e pergaminhos, todos eles
classificados, mas este... bom, a história desta crónica de Frei Julián é um pouco especial.
Os olhos de Ferdinand brilharam curiosos, mas o conde não pareceu disposto a dizer
mais uma palavra acerca do assunto.
— Bom, eu mesmo levar-lhos-ei. Diga-me a que horas lhos posso entregar... talvez na
próxima segunda-feira. Este fim-de-semana temos convidados no castelo e não poderei
deslocar-me.
— Estarei no meu gabinete a partir das oito, tenho uma aula às nove e acabo ao meio
dia, de modo que se quiser podemos encontrar-nos ao meio-dia, ou se preferir durante a
tarde, a partir das três.
— Às três está bem.
— Ficarei encantado por o voltar a ver.
Ferdinand Arnaud levantou-se, preparado para partir. Ainda tinha tempo de apanhar
o último comboio para Paris. Parecia que o conde lhe adivinhara o pensamento.
— O meu motorista levá-lo-á à estação, mas ainda podemos beber qualquer coisa
antes de se ir embora.
Não teve qualquer hipótese de recusar. Como se tivesse estado à escuta, um criado
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

entrou com uma bandeja na qual se encontravam duas taças com aperitivos e uma garrafa de
Chablis frio.
O conde estendeu um copo a Ferdinand que aceitou resignado, embora se tivesse
alegrado de imediato por o ter feito. Aquele Chablis era excelente, sem dúvida que o
melhor que provara em toda a vida.
— Acredita que hoje em dia existam cátaros? — perguntou, de repente, o advogado
perante o olhar reprovador do conde.
— Não. Como poderiam existir? O que existem são muitos charlatães que se
aproveitam da ingenuidade das pessoas. Essa moda da teosofia nos cenáculos de Paris, e
possivelmente também aqui, irrita-me muitíssimo. Os cátaros não têm nada de esotérico,
imagino-os a removerem-se nos túmulos, indignados pela distorção que esses grupos de
esotéricos e ocultistas tão em voga estão a fazer.
O conde e o advogado trocaram um olhar cúmplice. Ferdinand Arnaud não tinha papas
na língua e parecia divertir-se a provocá-los, como se soubesse que eles pertenciam a esses
grupos que tanto dizia desprezar.
— Qual é a sua opinião acerca de Déodat Roche? — insistiu o advogado.
O professor soltou uma gargalhada, que aos dois homens soou como ofensiva.
— Um mentecapto! E aqueles que o seguem ainda o são mais!
— Presumo que pensa o mesmo do escritor Maurice Magret — disse o advogado.
— Tenho de lhe reconhecer um certo talento como escritor, mas todas as suas
teorias não passam de contos para crianças. Insisto, senhores, não houve nada de
esotérico no movimento dos cátaros ou Bons Cristãos, como se chamavam a si mesmos.
Não percam tempo com superstições, nem se deixem enganar.
— E porque é que acha que nos deixaremos enganar? — perguntou o conde d'Amis.
— Pelo vosso interesse nos nomes que acabam de referir. Déodat Roche é um
notário que nada sabe acerca do período medieval. A sua obsessão é construir um «País
Cátaro». Não se pode alterar a história, a história foi o que foi.
«Quanto a Maurice Magret, já lhes disse que acho que é um escritor talentoso, mas
fantasia acerca dos cátaros, não é nenhum especialista, deixa correr a imaginação por mais
que os seus livros tenham êxito e um monte de seguidores.
«Vivemos um momento difícil, a crise que assola a Europa faz com que muitos

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

acreditem que existiu um tempo passado em que as coisas correram melhor. É em


momentos destes que os astrólogos, espiritistas e charlatães se aproveitam do medo. Do
medo que percorre a Europa perante a incerteza do futuro. Há pessoas dispostas a
acreditar no incrível porque se sentem mais tranquilizadas do que se enfrentarem a
realidade.
— Assim, acredita que o contexto político europeu está relacionado com o interesse
que muitos sentem pelos cátaros — insistiu o advogado.
— Sim. Nos momentos de incerteza, costuma espalhar-se um certo obscurantismo.
— No meu caso, senhor, devo dizer-lhe que o interesse é de família. Como já reparou,
o meu apelido é d'Amis.
— Não foi difícil chegar a essa conclusão. A partir dos pergaminhos, percebe-se que
estes chegaram às mãos da filha de dona Maria, Marian, casada com o cavaleiro Bertran
d'Amis, do qual o senhor deve ser o seu ilustre descendente.
— É verdade — afirmou, orgulhoso, o conde.
— Posso voltar a perguntar porque é que só agora a sua família tornou públicos estes
documentos?
— Ainda não os tornámos públicos, professor, e não tenho a certeza se o iremos
fazer. Mas responderei à sua pergunta. Esses pergaminhos fazem parte da minha herança.
Só estão na minha posse há cerca de três meses, desde que o meu pai faleceu.
— Imagino que conhecia a existência dos pergaminhos...
— Sim, claro. Durante séculos a minha família guardou-os como um grande segredo. A
sua simples posse colocava em perigo as suas vidas inocentes. Foi o meu avô quem
decidiu que chegara o momento de os trazer à luz do dia. Queria legá-los a uma
universidade e era esse o seu plano, quando morreu. O meu pai não era da mesma opinião
e guardou-os à espera de... bem, ele tinha outros planos, mas antes queria autenticar os
documentos.
— Porquê? Porque tinha dúvidas quanto a uns documentos de família? — quis
Ferdinand saber.
— O meu avô não sentia demasiado interesse pelo passado familiar, e,
aparentemente, só falou deles ao meu pai pouco tempo antes de morrer. Agora sou eu
que tenho a responsabilidade de fazer com eles o que considero justo.
— E o que é justo, conde? — perguntou o professor Arnaud, curioso.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

O conde d'Amis não respondeu. Olhou para o relógio e o criado voltou a surgir,
como se tivesse percebido através das paredes os desejos do seu senhor.
— Chegou a hora de acompanhar o professor à estação.
— O carro está à espera junto à porta, senhor — anunciou o criado.
— Bom, professor, encontrar-nos-emos na próxima segunda-feira, às três, no seu
gabinete — disse o conde como despedida.
O advogado inclinou a cabeça num gesto que pareceu ao professor uma espécie
de reverência. «Que tipos bizarros», pensou Ferdinand Arnaud, mas não disse nada.

Os jornais não podiam trazer notícias mais alarmantes. 1938 chegava ao fim e estava a
transformar-se num pesadelo para a economia europeia.
E, como se fosse pouco, na Alemanha, um louco chamado Adolfo Hitler incendiava as
multidões com discursos que provocavam calafrios em Arnaud.
O professor, como tantos outros franceses, acreditava que Hitler mentia ao
presidente Daladier ao garantir-lhe que não possuía qualquer vontade expansionista, nem
queria iniciar uma guerra. Por outro lado, Os seus compatriotas enganavam-se ao
considerarem-se seguros atrás da linha Maginot1. Consolava-se ao pensar que o tempo
resolveria tudo e os jovens iriam perceber que o medo do futuro não se pode combater
com a repressão, nem através da culpabilização dos estrangeiros.
— Estás com má cara. Deve ter sido o sono que te tornou mal-educado. É a
segunda vez que passas pela minha sala sem me cumprimentares.
Ferdinand sorriu à mulher que lhe falava. Acabara de entrar na sala dos professores
sem se aperceber que Martine Dupont se encontrava ali a fumar um cigarro. Martine,
também professora de História Medieval, era uma docente severa e competente, cujo
único problema era a sua beleza, até na sua idade, pois já passava dos quarenta. O ser bela
causara-lhe mais do que um desgosto.
Tivera que estudar mais que ninguém para demonstrar até à saturação que o cérebro
superava o físico. Também tivera que colocar alguns colegas no lugar, deixar claro que não
era uma presa fácil, e que o ser celibatária era um sinal da sua identidade. Nada mais lhe
importava, excepto a carreira, à qual se dedicava com toda a energia.
1
Linha de fortificações de defesa construída pela França, ao longo das suas fronteiras com a Itália e a Alemanha, após a Primeira Guerra
Mundial. (N. da T.)

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Martine gostava especialmente de Ferdinand, já que este nunca demonstrara o


menor interesse por ela. Para Martine, isso era um alívio.
— Desculpa, tens razão, tenho sono. Ontem cheguei muito tarde a casa e os anos
já pesam. Desde que fiz cinquenta que não sou o mesmo. A minha mulher e o meu filho
dizem que me transformei num resmungão, mas o pior é que se não durmo oito horas, não
sou o mesmo.
Martine sorriu, compreensiva.
— Nem consegues imaginar onde estive — prosseguiu Ferdinand.
— No teu caso, tenho a certeza que não.
— Há uma semana um colega da Universidade de Toulouse ligou-me a pedir que me
deslocasse a um château perto de Carcassone, para examinar os documentos de um
amigo. Pediu-mo como um favor especial e não tive outro remédio senão aceitar. E sinto-
-me satisfeito por ter ido.
— Encontraste um tesouro?
— Sim, acho que sim. Um documento maravilhoso. Nada mais, nada menos do que
uma crónica escrita por um escrivão da Inquisição que servia de espião dos cátaros.
Martine franziu a testa. Tal como Ferdinand, aborrecia-se que tudo o que se
relacionasse com os cátaros estivesse a adquirir um revestimento de esoterismo e
irrealidade.
— Garanto-te que é uma preciosidade. Uma dama cátara que pede ao filho bastardo
do marido, que é dominicano, que deixe escrita para a posteridade uma crónica acerca da
perseguição da qual os Bons Cristãos foram alvo.
— Mas que coisa tão estranha! — protestou Martine.
— Hás-de lê-la. Contado deste modo, parece algo fantástico, mas não o é. Quero que
deites uma vista de olhos a esses pergaminhos e me dês a tua opinião.
— Onde é que eles estão?
— O conde vai trazê-los na segunda-feira.
— Então trata-se de um conde... — riu-se Martine.
— Sim, o dono desse tesouro é um conde. E um conde muito invulgar, tal como o seu

92
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

advogado. Eu diria que são dois... bem, quiseram saber a minha opinião acerca de Roche e
Magret...
— Céus, que horror! Esses dois são só bazófias. Tens a certeza que esses pergaminhos
são autênticos?
— Tenho, verás. Terei de os convencer a deixarem-me publicá-los, e isso não vai ser
fácil.
— Porquê?
— Se estiveres cá na segunda-feira, apresentar-te-ei o conde e vais perceber porquê.

93
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

2
Ferdinand Arnaud passou o fim-de-semana a procurar nos seus livros alguma coisa
que lhe pudesse dar uma pista acerca do extraordinário documento do conde d'Amis.
Não encontrou nada, excepto o que já sabia. As actas dos interrogatórios dos pobres
diabos de Montségur deviam-se ao zelo de Frei Ferrer. Agora, Ferdinand sabia um pouco
mais. Sabia que um dos escrivães fora um frade atormentado que dividia a sua fidelidade
entre o Deus católico e o Deus dos cátaros.
Não lhe era difícil imaginar Frei Julián. Reconhecia que era inteligente, já que
conseguira sobreviver navegando entre duas margens perigosas, e até percebia que existia
nele algo do cavaleiro que não pudera ser por motivos de nascimento. Mas se Frei Julián lhe
parecia um personagem apaixonante, cheio de matizes e contradições, achava dona Maria
uma mulher extraordinária. Dura, corajosa, uma mulher de armas.
Pensou que teria gostado de conhecer ambos.
No entanto, já não tinha tantas certezas acerca do que o conde d'Amis queria fazer
com os pergaminhos, embora pressentisse que podia estar envolvido nalguma daquelas
sociedades secretas que pediam o ressurgir de um país cátaro inexistente.
Segunda-feira, às três em ponto, um contínuo anunciou-lhe a visita do conde d'Amis.
Pediu a Martine que ficasse alguns minutos com ele no gabinete, para a poder apresentar
ao conde.
A sua primeira surpresa foi vê-lo chegar acompanhado pelo advogado, o senhor
Saint-Martin. Os dois homens saudaram Martine secamente e esta, incomodada, saiu
imediatamente do gabinete.
— A professora Dupont é uma das melhores medievalistas de França — disse
Ferdinand, secamente.
— Se tivéssemos querido pedir a opinião dela, não estaríamos aqui — respondeu o
advogado com azedume.
Ferdinand convidou-os a sentarem-se; em seguida explicou os trâmites que iria seguir
para autenticar os pergaminhos. Garantiu-lhes que, na reitoria, iriam receber um recibo
certificado da entrega dos documentos com o compromisso da universidade de que os
mesmos seriam tratados com absoluta confidencialidade e sem que sofressem qualquer
dano.
O advogado Saint-Martin estudou os papéis e os termos do acordo, antes de indicar
94
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

ao conde d'Amis que estava tudo em ordem.


— Agora, senhor conde, gostaria de saber o que pretende fazer com esses
pergaminhos. São uma preciosidade e merecem ser conhecidos. É o melhor relato
existente do que aconteceu em Montségur. Existem nalguns arquivos testemunhos
recolhidos pela Inquisição, mas o relato de um acontecimento contado por alguém com
conhecimento de ambas as partes tem um valor extraordinário. Não lhe escondo que
gostaria de publicar um trabalho acerca desses pergaminhos. Os custos da publicação
ficariam a cargo da universidade. Se aceitar, teria de lhe pedir que me deixasse consultar
outros documentos familiares...
Os dois homens entreolharam-se ao ouvir o professor Arnaud. Em seguida, como se o
tivessem ensaiado, o conde falou:
— Meu caro professor, vamos por partes. Para mim, é-me mais urgente que verifique
a sua autenticidade. Depois, falaremos do que fazer no futuro.
Ferdinand não insistiu. Percebeu que os dois homens tinham um plano do qual não
pensavam afastar-se nem um milímetro. Teria de esperar por outra altura.
— De acordo. Farei o que me pede. Falaremos depois.
— Quando terá uma reposta? — perguntou o conde.
— Telefonar-lhe-ei daqui a três ou quatro dias...
— Não pode ser mais rápido? — quis saber o advogado.
—Garanto-lhes que tenho o máximo de interesse nesses pergaminhos, mas a
autenticação consiste num processo que não posso, não quero, nem devo evitar.
— Para a Igreja será um golpe fatal — afirmou o conde d'Amis.
— Para a Igreja? Porquê? Esses documentos têm valor histórico, mas não alteram os
factos.
— Mas um dos seus atraiçoou-os — insistiu o conde.
— Um dos seus viu-se envolvido num conflito humano, nada mais. Isso também não
altera a história. Garanto-lhe que estes documentos não vão afectar a Igreja.
— É católico? — perguntou-lhe directamente o advogado Saint-Martin.
— Essa é uma pergunta pessoal a que não tenho de responder, senhor. Mas dir-
-lhe-ei que sou historiador, e se consegui o respeito dos meus Colegas foi pelo meu trabalho,
no qual nunca intervieram as minhas convicções pessoais fossem quais fossem. Investigo o
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

passado, não o reescrevo de acordo com o que penso. Mas se o senhor tem algo contra a
Igreja, procure outra coisa como arma. Esses pergaminhos ser-lhe-ão indiferentes. Têm
valor histórico, não político. Não mudam a história nem numa vírgula.
— Esperaremos a sua chamada — disse o conde, ao mesmo tempo que se levantava.
Ferdinand ajudou o conde e o advogado a preencherem os formulários, que lhe
concediam a guarda temporária dos documentos. Em seguida, despediu-se deles no portão
da universidade.
Quando ficou sozinho, Ferdinand pensou que aqueles homens eram muito estranhos.
A sua pretensão de causar um conflito na Igreja através daqueles documentos era de uma
ingenuidade que raiava a estupidez.
Foi procurar Martine, que se encontrava na sala dos professores, e assim que entrou
sentiu a tensão. Martine discutia acaloradamente com outros dois professores.
— A guerra rebentou? — perguntou Ferdinand para tentar aliviar a tensão da sala.
— Não te armes em engraçado, a situação não está para brincadeiras — respondeu o
professor Cernay, um cinquentão como Ferdinand.
— Mas o que é que aconteceu?
— Recuso-me a acreditar que esse louco do Hitler vá contagiar a França com os seus
ideais xenófobos — respondeu Martine.
— E eu disse-lhe para não ser tão ingénua — acrescentou o professor Cernay.
— Martine está empenhada em idealizar os valores republicanos. É-lhe impossível
admitir que o país que fez a Revolução seja capaz de se deixar levar pelos instintos mais
baixos, como se a Revolução também não tivesse libertado esses mesmos instintos — disse o
professor Jean Thierry.
— É a distância que embeleza as coisas e lhes retira o horror do momento, a miséria
do quotidiano — insistiu Cernay.
— Hoje expulsei da sala um aluno explicou Martine. — Estamos numa parte do
programa de que os alunos costumam gostar, sabem qual é, o século XIII e a situação no
Languedoc, os hereges... Enfim, depois da explicação, abri um espaço para que os alunos
colocassem dúvidas e perguntas, e um imbecil saiu-se com uma dissertação em que dizia
que nos encontramos no umbral de uma nova época em que a Occitânia1 voltará a
recuperar a independência perdida. Em seguida, fez uma ode ao «homem novo» que surgirá
1
Região situada entre a Espanha e a França que compreende a Provença, o Limousin, o
Auvergne, a Gasconha, o Languedoc e o Delfinado. (N. da T.)

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nessa sociedade ideal, um «homem puro», de «raça pura», e a partir daí começou a divagar
acerca dos males que afligem a Europa actual, a assinalar os judeus como o cancro que
corrói os países e como deve ser erradicado.
— Fizeste bem em mandá-lo sair da sala — disse Ferdinand.
— Sim. E estávamos a falar disso. Acho que esse rapaz é um idiota solitário, alguém
que se limita a ler pseudoliteratura barata acerca dos cátaros. O ano passado publicou-se na
Alemanha A Corte de Lúcifer: Uma Viagem aos Bons Espíritos da Europa, que teve um certo
êxito no continente. É de Otto Rahn, autor da Cruzada contra o Graal: a Tragédia do
Catarismo, um livro execrável, onde se inventa uma nova raça. Os cátaros são seres
superiores, pagãos, um grupo de esotéricos que guardam o Graal.
— Conheço esses livros, e sim, tens razão, são pseudoliteratura — concordou
Ferdinand.
— A nossa colega não quer reconhecer que as teorias esotéricas são perigosas —
ripostou o professor Cernay. — Não dão apenas lugar à pseudoliteratura. Há quem as utilize
com tal habilidade que se convertem em cavalo de batalha para ideais racistas, e esse
estudante de que nos estava a falar é um exemplo claro disso. Mas, infelizmente, não é um
exemplo isolado.
— Tenho vários alunos racistas — disse o professor Thierry. — Na minha sala, já
houve vários choques dialécticos e algumas situações quase violentas. Entre os meus alunos,
há judeus que não estão dispostos a ser tratados como raça inferior e, obviamente, se
defendem dos ataques, até agora verbais, de alguns dos seus colegas.
— Céus, quanta falta de inteligência, em especial aqui na universidade! — lamentou-se
Cernay.
— Propus uma reunião do corpo docente para resolvermos este assunto —
prosseguiu Thierry —, mas Martine acha que estamos a criar uma confusão, apenas
devido à atitude isolada de quatro ou cinco idiotas. Diz que se considerarmos isto como um
problema, alguns alunos seguirão os idiotas só para contrariar os professores.
Ferdinand acendeu um cigarro e ficou pensativo. Não tinha uma resposta para aquela
questão. Por um lado, achava que era melhor acabar desde já com aquelas atitudes
xenófobas que começavam a surgir na universidade, mas por outro lado... Martine poderia
ter razão, e a única coisa que conseguiriam era que os alunos, por rebeldia, assumissem como
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

moda uma ideologia que se poderia tornar perigosa. Considerou aquilo durante alguns
segundos, depois a sua mente lógica impôs-se.
Martine, acho que os nossos colegas têm razão. Deveríamos fazer alguma coisa. Esta
universidade não pode ficar paralisada perante o perigo da xenofobia. Devemos tratar disto de
modo inteligente, isto é, cortar pela raiz qualquer manifestação repugnante como tu fizeste
hoje.
— O problema é que temos alguns colegas que vêem com uma certa simpatia
algumas destas ideias... — protestou Martine.
— É porque não são especialistas da Idade Média — riu-se Ferdinand. — Assim
podemos arranjar umas quantas aulas gratuitas para os nossos colegas e explicar-lhes como
se vivia na Idade Média.
Passaram mais um bocado a debater aquela situação. A eles, juntaram-se outros
professores que concordaram com aquela decisão. Na universidade começavam a
manifestar-se, abertamente, alguns extremismos que falavam da construção de uma
grande Europa, com uma raça superior, tal como Hitler propunha na Alemanha. No
entanto, chegaram à conclusão de que, em França, excepto entre alguns grupos
minoritários, aquelas ideias perigosas não encontrariam apoiantes.
O relatório do grupo de peritos da universidade foi conclusivo. Os pergaminhos eram
autênticos, e podiam ser datados de meados do século XIII. Aquilo não constituiu nenhuma
surpresa para Ferdinand Arnaud, mas apesar disso sentiu-se satisfeito. A crónica daquele
Frei Julián tinha-o comovido mais do que queria admitir, e ansiava poder escrever um
ensaio académico, mas não os tinha todos consigo. O extravagante conde e o seu estranho
advogado pareciam empenhados em dar àqueles documentos um significado diferente do
histórico e académico.
O conde d'Amis pedira-lhe que fosse até ao castelo para decidir o futuro dos
pergaminhos. Ferdinand tinha poucas esperanças de o convencer a autorizá-lo a trabalhar
com a crónica de Frei Julián, mas pensou que, embora fosse em terreno inimigo, valia a pena
tentar.
— Posso ir contigo? — perguntou-lhe o filho, David, um jovem de dezassete anos,
bom estudante e tão calmo como a mãe.
— Gostaria que viesses, mas não sei como seríamos recebidos pelo conde. É um
homem muito estranho — desculpou-se Ferdinand.
— Vês pouco o teu filho — protestou Miriam, a mulher do professor. — Eu já me
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

habituei a que andes de um lado para o outro, mas David sente saudades tuas.
Ferdinand sabia que a mulher tinha razão, mas não queria piorar ainda mais as
relações que tinha com o conde e não se atrevia a apresentar-se com David no castelo. De
repente, ao olhá-la, sentiu uma punhalada de inquietação ao recordar a conversa que tivera
dois dias antes com os colegas acerca da política anti-semita do governo alemão, que
parecia encontrar eco nalguns sectores da sociedade francesa.
Miriam era judia. Tal como ele era católico agnóstico, ela era judia agnóstica. Nenhum
dos dois era praticante, nem ela ia à sinagoga nem ele à Igreja. Não tinham uma atitude
beligerante para com a religião, mas esta também não fazia parte da vida deles, nem da do
filho. Quando David nasceu, os pais de Miriam pediram encarecidamente que lhe fizessem a
circuncisão e que entrasse no mundo como judeu. Aceitou. Os seus pais, agnósticos como
ele, disseram que lhes era indiferente. «Não se pode impor uma religião», dissera o pai.
«Quando for mais velho, David decidirá em que quer acreditar, se quiser acreditar nalguma
coisa.» No seu foro íntimo, os pais achavam que a religião, além de dividir os homens, era uma
fonte de superstição. De modo que David era oficialmente judeu — embora de qualquer
maneira já o fosse para a comunidade judaica, pois, segundo a tradição, a condição de
judeu é transmitida pela mãe.
Os avós maternos fizeram com que David cumprisse alguns dos rituais religiosos, mas
tinham-no feito com delicadeza, sem se mostrarem exigentes. Assim, aos treze anos fizera o
bar mitzvab, a comunhão judia, a entrada no mundo dos adultos.
David não recusava aquelas visitas periódicas à sinagoga, porque gostava de agradar
aos avós maternos e estes sentiam-se especialmente satisfeitos com ele. Miriam era filha
única e David o seu único neto.
No entanto, Miriam inquietava-se com questões diferentes. Ser-se judeu poderia vir
a transformar-se num problema como aquele que estava a acontecer na Alemanha? Veria o
filho a ser descriminado por isso? E ela sofreria algum tipo de descriminação por pertencer a
um povo cuja religião lhe era indiferente?
Ferdinand, distraído com os seus pensamentos, não lhe estava a prestar atenção. De
repente, surpreendeu-se ao ouvir as últimas palavras dela.
— … e então David deu-lhe um murro, mas...
— O que é que disseste?
— Mas não me estavas a ouvir? Estava a dizer que insultaram o teu filho e lhe
chamaram «judeu de merda», que ele aguentou bastante tempo antes de se virar e lhe dar
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

um murro...
— A quem? — perguntou com a voz alterada, enquanto procurava os olhos de David,
que nesse momento o observava expectante.
— Ferdinand, o teu problema é que não me ouves! Por isso, não estás a perceber o
que te estou a contar!
Baixou a cabeça em sinal de assentimento. Era verdade, não lhe estava a prestar
atenção. Miriam estava irritada e perturbada, mais do que ele pensara.
— Desculpa, começa outra vez.
— Não te dissemos nada para não te preocupar, mas já há algum tempo que o filho
do senhor Dubois, o açougueiro, se mete com David, chama-lhe «cão judeu» e lamenta-
-se que em França não exista um Hitler.
Até agora David evitou confrontar-se com ele, mas ontem o rapaz estava à espera
dele junto à porta do liceu com os amigos. Começaram a empurrá-lo, e o pior é que
ninguém o defendeu. Até os amigos de David desapareceram e deixaram-no sozinho. O
nosso filho não conseguiu aguentar a humilhação e deu um murro a esse sem-vergonha
do Dubois, e o pai dele apresentou-se aqui, hoje de manhã, para falar contigo...
Ferdinand olhou horrorizado para Miriam e para David. Como é que aquilo podia ter
acontecido sem se aperceber? O que é que estava a acontecer? Teriam os seus colegas
razão, e ele, tal como Martine, negava-se a ver a gravidade do que se estava a passar?
Aproximou-se do filho e abraçou-o, tentando transmitir-lhe a sua protecção e apoio,
mas David estava tenso. Não recusou o abraço, mas também não o retribuiu.
— Lamento, filho, falarei com o pai desse imbecil e prometo-te que não voltará a
acontecer.
—Tens a certeza? — perguntou David num tom desafiador. — Quem te disse que o
pai dele te vai prestar atenção? Além disso, nem sequer sabes o que o senhor Dubois
pensa a nosso respeito. No outro dia, fui com a mãe às compras e quando saímos do
talho, ouvimos o comentário: «Não queria esses judeus, nem como carne picada.»
Ferdinand sentiu que lhe tinham dado um soco no estômago. Miriam olhou-o,
preocupada. Sabia que ela era corajosa, incapaz de se render perante comentários
grosseiros ou racistas, mas o filho… Teria David a força da mãe, ou até a dele? O rapaz
estava profundamente magoado, e ele não soubera de nada, nem sequer quando estava
em casa.
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— Sou eu que vou pedir explicações ao pai desse cretino. Denuncia-lo-ei se for
preciso.
David soltou uma gargalhada amarga que desconcertou os pais.
— Vais denunciá-lo? A quem? Não sabes o que se passa? Tu... tu que gostas de
política.
— É verdade, mas não sou militante de nenhum partido. Dou-me bastante mal com
a disciplina — tentou justificar-se, num tom meio trocista.
— Mas lês os jornais, ou também não o fazes? — A voz de David era inquisitorial.
— Ferdinand, estou preocupada — interveio Miriam. — Há dois dias, a minha mãe
apareceu cá em casa a chorar. Tinha recebido uma carta da tia Sara, que uns amigos que
fugiram da Alemanha lhe trouxeram. Assaltaram-lhes a loja, e contaram que há algumas
semanas também destruíram a livraria dos meus tios. Um grupo de camisas-castanhas
apareceu durante a noite, partiram as prateleiras, deitaram os livros para a rua e fizeram
uma fogueira com eles. Deram uma tareia aos meus tios. O tio Yitzhak tem um braço
partido e mal consegue mexer o pescoço, a minha tia tem o corpo cheio de nódoas negras
dos pontapés que lhe deram. Estão aterrorizados, não sabem o que fazer. O meu pai quer
que saiam imediatamente da Alemanha, mas eles estão hesitantes. Toda a sua vida se
encontra naquele país. A minha tia é francesa, mas o tio Yitzhak é alemão, mais alemão que
ninguém e não compreende o que se está a passar.
A descrição da mulher gelou-lhe a alma. Sara, a doce Sara, irmã do pai de Miriam, uma
mulher alegre, sempre pronta a ajudar os outros. Era bibliotecária, tal como o pai de
Miriam. Conhecera Yitzhak numa viagem que fizera à Alemanha. Entrara na livraria dele,
começaram a conversar e ficou para sempre em Berlim. Adaptara-se bem à sua nova pátria,
e agora uns lunáticos tinham-na espancado, mas porquê? Estremeceu horrorizado só de
pensar nisso.
— Devem sair de lá o quanto antes — disse Ferdinand, preocupado. Ajudá-los-emos
tanto quanto pudermos. Diz-lhe que podem contar connosco.
— Já o sabem, mas sou eu que vou à Alemanha.

— Tu? Estás doida! Porque queres lá ir?

— Quero ver o que se passa, ajudá-los a tomar uma decisão. Estão aterrorizados, não
são capazes de pensar no que lhes convém. Receiam que toda a sua vida fique destruída. Já
perderam a livraria, agora temem perder a casa. Ferdinand, já há algum tempo que os meus

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tios não podem sair de casa sem levar cosida nos casacos a estrela de David, que os identifica
como judeus.
— Um costume medieval... começou Ferdinand.
— Sim, um costume medieval que nunca foi esquecido — afirmou Miriam com
tristeza. — Os judeus são os culpados, Os «outros», aqueles a quem podem culpar por aquilo
que lhes corre mal. E, além disso, matámos Cristo. Pregámo-lo na cruz e...
— Cala-te, por amor de Deus! Dizes cada coisa, em especial tu!
— Sabes, Ferdinand? Começo a sentir-me judia.
A afirmação de Miriam desorientou-o. De repente, a mulher olhava-o com uma
centelha de fúria, como se ele tivesse alguma coisa a ver com o que se estava a passar na
Alemanha ou com os simpatizantes de Hitler em França.
Não soube que responder à mulher. Sentia-se constrangido por aquilo que ela lhe
contara. Sabia muito bem o que estava a acontecer na Alemanha, fora informado do que se
passava por uns colegas que tinham viajado até àquele país, e no ano anterior até tinham
feito um peditório na universidade para ajudar dois professores judeus que se viram
obrigados a fugir daquele ambiente de horror e ódio. Sim, não podia dizer que aquilo que
Miriam lhe contava fosse uma novidade para si. Por mais que o Governo da Frente Popular
tivesse insistido que algo assim não se podia passar com eles, franceses. Tal como o pai lhe
dissera que em Espanha a República estava a perder a guerra, podia acontecer que o nazismo
ganhasse a batalha em França.
O pai dizia que era catalão de Perpignan. Tinham família do outro lado da fronteira, em
Espanha. Republicanos e socialistas como o pai, as notícias que enviavam eram cada vez
mais alarmantes: tios mortos na frente, primos desaparecidos no fragor de alguma
batalha... O fascismo parecia estar a vencer em todo o lado.
O mundo que conhecia estava a desmoronar-se à sua volta, enquanto ele continuava
a explicar aos jovens como compreender a Idade Média. Sabia que as ligas Fascistas
francesas funcionavam na clandestinidade, e que nos últimos tempos tinham perdido o
medo e começavam a assomar a cabeça. Talvez o senhor Dubois e o filho pertencessem a
alguma dessas ligas.
Decidiu aceder ao pedido de David e levá-lo ao castelo do conde d'Amis. Não sabia
como é que o conde iria reagir, mas era-lhe indiferente. David pedira-lho, precisava de
certezas, de se sentir protegido pelo pai. Adiou a conversa com Miriam para quando
regressasse. A ideia da mulher de ir à Alemanha era uma loucura que não estava disposto a
permitir.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Durante a viagem até Carcassone, pai e filho falaram da conversa que Ferdinand
tivera com o senhor Dubois. Descobrira que aquele era um verdadeiro fascista, que
classificou o professor como pouco patriota por ter misturado o seu sangue francês com o
sangue impuro de uma judia. O professor respondeu com uma gargalhada sonora, o que
fez aumentar a fúria do senhor Dubois, e não conseguiu evitar dizer ao açougueiro que o
achava cómico. Quando desligou o telefone, sentiu um gosto amargo na boca do
estômago. Sentiu um enorme desprezo por Dubois, mas ao mesmo tempo percebeu que o
açougueiro podia ser perigoso.
Quando chegaram à estação, o carro do conde esperava-os para os conduzir até ao
castelo.
D'Amis insistira em convidá-los para jantar e, assim, conheceriam uns cavalheiros
alemães especialistas em literatura medieval.
O mordomo aguardava-os à porta do castelo. Não se alterou quando Ferdinand lhe
explicou que viajava acompanhado pelo filho.
— Lamento, não pude avisar o conde. De qualquer maneira, não acredito que
fiquemos muito tempo.
O mordomo acompanhou-os até à sala onde Ferdinand estivera naquele primeiro
dia em que visitara o castelo, para avaliar a crónica de Frei Julián.
Não demorou muito até que o aristocrata aparecesse acompanhado por um
rapazinho, com uns dez anos, e pelo advogado, Pierre de Saint-Martin.
— Professor, informaram-me que vinha acompanhado pelo seu filho. Ah, estou a
ver que já é um rapaz! De qualquer maneira, o meu filho Raymond pode mostrar-lhe o
castelo. Desde já, gostaria que se considerassem meus convidados para esta noite. Presumo
que tenham trazido o essencial.
— Não queria incomodar, surgiu um imprevisto...
— Não é incómodo nenhum. Mandarei buscar as vossas coisas ao carro, e mais tarde
levá-los-ão aos vossos quartos. Agora, professor, estou ansioso por falarmos do resultado da
sua investigação.
Ferdinand acompanhou com os olhos David que saiu da sala com o pequeno
Raymond, um menino loiro com uns imensos olhos verdes, como os do conde, e sem
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

saber porquê sentiu uma vaga de apreensão. A frieza da criança surpreendera-o, parecia
um militar em miniatura, uma caricatura de alguém mais velho que ele.
— Então, professor, explique-se — incitou-o o conde.
Até àquele momento, o advogado ainda não abrira a boca. Limitara-se a saudá-lo com
uma ligeira inclinação da cabeça.
Durante quase uma hora, Ferdinand falou exaustivamente acerca dos pergaminhos,
sobre os resultados dos testes laboratoriais, a opinião dos colegas e, sobretudo, a
oportunidade que aquela jóia medieval fosse conhecida por todos, insistindo na
possibilidade de fazer um trabalho completo se o deixassem examinar outros documentos
da família.
— Esta crónica de Frei Julián pode ter alguma relação com outros manuscritos ou
documentos do seu arquivo familiar. Valia a pena tentar — concluiu.
O conde ouvia-o ansioso, enquanto o advogado continuava sem mover um
músculo, como se o que Ferdinand dizia não tivesse qualquer interesse para ele. Por vezes,
até bocejava.
— Bem, já que nos confirmou que são autênticos, irei pensar no seu pedido,
professor, mas não me peça que lhe dê uma resposta de imediato. Para o senhor, esta
crónica tem apenas um valor histórico... para mim e para a minha família é algo mais.
Ferdinand tentara ver em D'Amis o descendente daquela dona Maria enérgica e cheia
de senso comum, e daquele dom Juan de Aínsa que, como bom cavaleiro, ficara na casa de
família sem dizer nem pedir nada. Comparou-o também com aquele apaixonado
cavaleiro templário, Fernando, e com o próprio Frei Julián. Aquelas figuras pareciam-lhe
muita mais humanas do que aquele conde orgulhoso, que mais parecia o personagem de
uma ópera do que um verdadeiro nobre.
— A proposta da universidade é generosa — insistiu Ferdinand.
— Eu sei, eu sei, mas falaremos dela mais tarde. Agora, se me desculpar, tenho de
atender aos meus outros convidados. O jantar será servido às sete. Descanse até essa
hora. Acho que o seu filho está nos estábulos. O meu adora cavalos e não resiste a levar as
nossas visitas até lá. Temos excelentes animais.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Estás a aborrecer-te muito? — perguntou Ferdinand a David, enquanto fazia o nó


da gravata para ir jantar.
— Gente estranha! São muito orgulhosos, inclusive o miúdo, Raymond.
É um fedelho muito arrogante. Sabes de que é que me falou? Dos cátaros,
da maldade da Igreja católica... Ufa, lavaram o cérebro a esse pobre miúdo!
— São um pouco estranhos — concordou Ferdinand.
— Se não gostas deles, porque estamos aqui?
— Há alturas em que não podemos dizer que não. Já te contei que um professor de
Toulouse, que foi meu professor, me telefonou e pediu-me o favor de dar uma vista de
olhos a uns pergaminhos que constituíam um documento singular. A verdade é que me
sinto satisfeito por ter tido a oportunidade de ler a crónica de Frei Julián. É um relato
comovedor.
Um criado acompanhou-os a uma sala que antecedia a sala de jantar. O conde e os
seus convidados, incluindo o pequeno Raymond, vestiam smokings.
— Nós somos diferentes — sussurrou Ferdinand ao filho —, o nosso inundo é o da
inteligência.
— Não te preocupes. Sentir-me-ia ridículo com um desses fatos, olha para o miúdo…
O conde apresentou-lhes os convidados, três homens e duas mulheres, para além
do advogado. Ferdinand pensou que aquele castelo não tinha senhora, já que nenhuma das
mulheres lhe foi apresentada como dona da casa.
— O barão Von Steiner, a sua mulher, a baronesa Von Steiner, o conde e a condessa
Von Trotta, e um colega seu da Universidade de Berlim, Henrich Marbung. Já conhece o
senhor Saint-Martin, tal como o meu filho Raymond...
— Enquanto bebiam uma taça de champanhe, a conversa foi normal. Até ao primeiro
prato, Ferdinand não se apercebera que estava a partilhar o jantar com um grupo de
fascistas requintados.
— Toda a Alemanha está entusiasmada com Rahn — afirmou o professor da
Universidade de Berlim —, e não é para menos. Rahn foi capaz de ver onde outros não viam
nada, apenas pedras ou palavras.
— Refere-se a Otto Rahn, o autor da Cruzada contra o Graal? — perguntou
Ferdinand.

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—Esse mesmo. Um homem ilustre que tenho a honra de conhecer. Estou aqui com a
incumbência de encontrar...
— O Graal? — perguntou Ferdinand, divertido.
— Surpreende-o, professor?
— Surpreende-me que um professor da Universidade de Berlim venha à procura de
algo que não existe. O Graal é um mito, uma invenção muito oportuna como recurso
literário.
— Está a negar a sua existência? — quis saber o conde Von Trotta.
— Claro que sim. Não nego que o livro de Rahn seja imaginativo, já que foi capaz de
elaborar teorias bastante sugestivas, mas carece de significado histórico, o que não é de
estranhar se tivermos em consideração que esse senhor não é historiador, mas sim escritor,
de modo que deu, de um modo brilhante, rédea solta à sua imaginação.
— Mas como se atreve...! — exclamou o professor Marbung, sem esconder a fúria. —
Devia saber que Rahn bebeu das melhores fontes, conhece esta terra melhor que o senhor, e
todas as suas teorias estão baseadas em factos. Nenhuma das suas afirmações é gratuita.
— Lamento ter de o contradizer, mas não é bem assim. Sei que os seus livros se
converteram em grandes êxitos e que muitas pessoas acreditam piamente nas suas
especulações, mas o Languedoc que descreve não é real, e as suas hipóteses imaginativas
não estão cientificamente fundamentadas em nada que as sustente — insistiu Ferdinand.
— É muito contundente nos seus juízos — afirmou o barão Von Steiner.
— Sou contundente no momento de falar do que sei e recuso que a história seja
reescrita, apesar do muito que possa sair embelezada no processo. Quanto ao objectivo de
Otto Rahn, tal como ele confessa, de encontrar um fio condutor entre Montségur e
Montsalvat, o castelo de Wolfram von Eschenbach, o autor de Parsifal, é um exercício
tão belo como inútil. Lamento não lhes poder dar outra opinião.
— Pedimos ao professor Arnaud para certificar a autenticidade da crónica de Frei
Julián, precisamente porque conta com o respeito da comunidade académica — afirmou o
conde d'Amis. — O professor jamais daria o seu nihil obstat a algo de que não estivesse
verdadeiramente certo. De modo que para mim tem um valor incalculável a certificação dos
pergaminhos de família.
— Talvez seja possível convencer o professor a colaborar connosco — sugeriu a
baronesa Von Steiner.
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— Colaborar? Não creio que o professor seja um dos nossos — replicou o advogado
Saint-Martin. — Creio que seria mais um obstáculo...
— Não os compreendo, cavalheiros... — murmurou Ferdinand.
— Senhor, fazemos parte de uma... uma sociedade cultural, que procura a verdade
acerca do mistério cátaro e se é possível encontrar o Graal, apesar de o senhor não acreditar
na sua existência. Mas embora a sua seja uma opinião douta, outros académicos têm
opiniões contrárias e...
— Nenhum académico sério acredita no Graal. — Ferdinand interrompeu a
explicação do barão Von Steiner.
— O senhor só acredita no que vê — sentenciou o conde.
— Sou um professor, as minhas armas são a ciência e a razão.
— Acredita em Deus, professor? — perguntou-lhe a condessa Von Trotta.
— É uma pergunta que me fizeram há alguns dias e que considero absolutamente
impertinente. Aquilo em que acredito ou deixo de acreditar pertence à minha vida privada e
nada tem a ver com a minha actividade científica.
— Não aborreçamos o professor — disse o conde. — Bela maneira de o convencer
para a nossa causa... Brindemos para que seja o início de uma amizade e colaboração
frutuosa. Estamos todos interessados na verdade, apenas procuramos a verdade. Professor
Arnaud, o senhor juntar-se-ia à equipa que estou a formar para procurar a verdade do
catarismo?
— Desculpe-me, conde, mas não existe nenhuma verdade que seja necessário
procurar acerca dos cátaros, porque já temos certezas. Já disse que me repugnam essas
interpretações irreais acerca dos cátaros. São um exercício absurdo no qual jamais
participarei.
— Estou-lhe a pedir que dirija a nossa equipa... Procuraremos onde nos disser para
procurar — insistiu o conde.
— O que se passa é que não há nada a procurar. Poderemos encontrar alguma acta
perdida da Inquisição ou um documento precioso como o que a sua família conservou,
mas nada mais que isso. O Graal não existe.
— Está a afirmar que o cálice sagrado não existe? — perguntou o advogado Saint-
-Martin.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Na verdade, sim. O senhor acredita mesmo que aquela taça em que Jesus levou o
vinho para partilhar com os discípulos ainda existe, dois mil anos depois? Acredita que um
dos seus discípulos a escondeu entre as pregas do manto a pensar na posteridade?
— 0 senhor não acredita em nada! — exclamou a baronesa Von Steiner. — É
evidente que o Graal não é uma taça, é... algo mais, algo que pode curar, que dará um poder
sem limites a quem o possuir.
— Minha senhora, eu não confundo fé com superstição.
— E o tesouro dos cátaros, que acha que é? — perguntou o advogado Saint-Martin.
— Ouro, prata, moedas, alguns objectos de valor... Doações feitas à Igreja dos Bons
Cristãos por damas e cavaleiros, nada mais. Não procurem nenhum talismã porque não
existe.
— Apesar disso, gostaríamos de contar consigo — insistiu o conde.
— Lamento, mas não estou disponível.
Fez-se um silêncio incómodo. David olhou para o pai com admiração. Nunca o vira
mostrar a sua autoridade académica com tanta firmeza. Sentia-se comovido pela coragem
dele ao não se acobardar perante aquela situação tensa e com aqueles estranhos
indivíduos.
— Que pensa da situação na Alemanha? — perguntou a baronesa Von Steiner para
mudar de assunto.
— Preocupa-me e muito. Acho que Adolfo Hitler acabará por se transformar num
pesadelo, não apenas para a Alemanha, mas também para o resto da Europa.
— Não partilha os ideais da nossa revolução? — quis saber a baronesa.
— A vossa revolução? Custa-me considerá-la como uma revolução, minha senhora.
— Por favor, não seja irónico! — protestou aquela, zangada. — Hitler está a mudar a
Alemanha e mudará o mundo. A França terá de aceitar a supremacia dos seus ideais.
— Garanto-lhe, baronesa, que são muitos os que farão o impossível para que os
ideais do vosso líder não ultrapassem a fronteira.
— Vamos, vamos, não falemos de política! — interveio o conde d'Amis, a tentar
apaziguar os ânimos. — Estamos a falar de história, e por isso é que gostaria de poder
contar com o professor. Senhor Arnaud, o professor Marbung, um grande amigo,
apresentou às autoridades académicas da sua universidade a minha proposta de colocar em

108
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

marcha um grupo de trabalho que desvendasse toda a verdade acerca do país cátaro, e
parece que ficaram entusiasmados com a ideia. Também sou um grande admirador de Otto
Rahn, que, como é natural, gostaria que tivesse uma participação no projecto...
O pequeno Raymond permanecera em silêncio, e observava-os fascinado, quando de
repente interrompeu a conversa com uma pergunta ao professor Arnaud:
— Gosta dos nazis?
O conde cravou os olhos — nos quais se lia uma cólera fria — no filho. David
pensou ver, para além de inquietação, medo nos olhos verdes que Raymond baixou,
envergonhado.
— Não, filho, não gosto dos nazis — respondeu Ferdinand. Olhou para o conde e
não para o rapaz quando respondeu.
— Tens cada saída, Raymond! — exclamou o advogado.
O mordomo entrou na sala de jantar para anunciar que o café ia ser servido no salão,
o que foi um alívio para todos os comensais, que tinham emudecido.
A caminho do salão, Ferdinand aproximou-se do conde.
— Senhor, creio que é melhor que eu e o meu filho partamos. Não o quero
incomodar mais com a minha presença, nem a si, nem aos seus convidados. Se o seu
motorista nos puder levar a Carcassone, tenho a certeza que encontraremos um hotel onde
passar a noite...
— Por favor, professor! Por quem me toma? É meu convidado e tem todo o direito a
manifestar as suas opiniões. Sentir-me-ia ofendido se se fosse embora. Amanhã de manhã,
o meu motorista levá-lo-á à estação, como tinha previsto. Quanto ao comentário do meu
filho… Espero que não o leve a sério, é uma criança, ouve conversas e não compreende
bem o seu significado. Não gostaria que tivesse uma imagem errada sobre nós...
Ferdinand não se atreveu a dizer que se sentia incomodado, mas receou ser mal-
-educado se insistisse em ir-se embora. Talvez tivesse sido a admiração que a baronesa Von
Steiner parecia sentir por Hitler.
A conversa tornou-se mais descontraída enquanto bebiam café e conhaque, embora
Ferdinand não pudesse evitar sentir-se tenso.
O conde pediu a Ferdinand que explicasse a importância dos pergaminhos aos seus
convidados.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Arnaud fez uma descrição apaixonada da Crónica de Frei Julián, e falou deste como se
fosse seu amigo.
— E como é que a sua família conservou esses pergaminhos? — quis saber a
baronesa Von Steiner.
— Não sei. Presumo que foram passados de pais para filhos, com a incumbência de os
manterem secretos até que chegasse o momento — explicou o conde.
— O momento de vingar o sangue dos inocentes.
As palavras do advogado Saint-Martin provocaram um silêncio momentâneo.
David, que até àquele momento se mantivera calado, olhou para o pai e antes que
este tivesse tempo de lhe fazer um gesto para que não falasse, perguntou:
— Como e quem vai vingar o sangue dos inocentes?
— A maior vingança é devolver-lhes a voz — afirmou o advogado —, reivindicá-los,
defender o Languedoc da ocupação francesa.
— Mas os senhores são franceses! — replicou David.
— Somos occitanos, franceses à força.
Esta região não era a Arcádia... — apontou Ferdinand.
O senhor conhece a história — desafiou-o Saint-Martin.
— E como a conheço sei que a vida na Idade Média não era invejável, nem sequer
aqui. O país cátaro não existe. É o resultado da imaginação de alguns escritores e
apaixonados pelo século XIX que sublimaram a cultura dos trovadores, ao dar a esse período
histórico uma visão empolgante e romântica. É curioso. Os pobres cátaros servem para
tudo. Para os anticlero, para os esotéricos, para os nacionalistas, para os liberais... Todos os
reinterpretam e acreditam ver neles os sinais de identidade das suas próprias convicções.
Nunca vi um período da história tão manipulado e mal interpretado como este.
— O senhor não é occitano — insistiu o advogado.
— Bem, na verdade, sou-o um pouco. O meu pai é de Perpignan e a minha mãe de
Toulouse, de modo que, de certa maneira, tenho algo a ver com esta terra embora, se
querem que vos diga a verdade, me seja indiferente de onde sou ou de onde são os
outros. O que me interessa é onde me sinto bem e com quem estou, importa-me a
dignidade humana, a justiça e a paz. De onde alguém é, é algo que não se escolhe.
— Nega as suas raízes? — perguntou o conde Von Trotta.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Não tenho necessidade de me rever nelas. O que importa é o que somos como
pessoas, não o local onde nascemos. Nascer num lugar pode determinar o mundo das
emoções íntimas, os sabores, os cheiros, a música, a paisagem... mas não quero nem
permito que isso me determine enquanto pessoa.
— É comunista? — perguntou-lhe o professor Marbung.
Ferdinand pensou se deveria responder a essa pergunta feita num tom impertinente,
mas achou que, se não o fizesse, sentir-se-ia um cobarde que escondia os próprios ideais.
— Sou um democrata. Não milito em nenhum partido.
— Ah! — exclamou o professor Marbung. — Na verdade, conde d'Amis, seria
impossível que eu e o professor Arnaud pudéssemos colaborar.
O conde cravou o olhar verde e frio no professor antes de lhe responder.
— Senhores, eu procuro a competência profissional.
O advogado Saint-Martin preparou-se para intervir, mas pareceu arrepender-se. Não
compreendia o conde, nem a sua determinação em contar com Arnaud.
— Conde... — começou a protestar o professor Marbung.
— Não discutamos, cavalheiros. Quero poder contar com a colaboração de ambos
para este projecto. Pensem o que quiserem, mas ponham o vosso talento e saber ao serviço
da história.
— Acho que não me compreendeu — disse Ferdinand num tom incisivo. — Não
tenho a mínima intenção de trabalhar em nenhum projecto que tenha a ver com... com
fantasias. Além disso, não estou disponível. O meu trabalho na Universidade de Paris ocupa
todo o meu tempo. Se me permitir, gostaria de trabalhar na Crónica de Frei Julián, dá-la a
conhecer, escrever acerca dela, publicá-la.., mas não quero ter nada a ver com nenhum
outro projecto.
— Depois falamos, professor Arnaud... depois falamos... — assentiu o conde.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

A hora de partida do comboio com destino a Paris era às cinco da tarde. A Ferdinand
parecia-lhe insuportável permanecer mais tempo no castelo, mas o conde não parecia
disposto a deixar que se fosse embora nem um minuto antes.
— De manhã, tentou seduzi-lo com uma oferta que quase fez com que Arnaud
hesitasse.
— Quero que escreva uma história acerca dos cátaros. Uma nova história, que
investigue, que procure, que utilize a Crónica de Frei Julián, e, se acreditar que são tudo
fantasias, que ajude a dissipar as dúvidas acerca do Graal. Mas, em todo o caso, que tente
como historiador ver o que pode existir, na realidade. Falarei com a universidade para que o
dispensem durante algum tempo. Naturalmente, encarregar-me-ei de todas as despesas.
— Ferdinand, mais para não continuar a sofrer toda aquela pressão, prometeu que ia
pensar. Em seguida, procurou refúgio no quarto. À excepção do advogado Saint-Martin e do
professor Marbung, não vira os restantes convidados.
O pequeno Raymond propôs a David voltar a visitar os estábulos.
— Ontem fizeste uma pergunta acerca dos nazis. Porquê?
— Não posso falar disso — respondeu Raymond.
— Porquê?
— O teu pai bate-te?
— Não! Nunca! Castiga-me, mas bater-me... nunca me bateu. E o teu?
Raymond permaneceu em silêncio, enquanto estendia a mão para acariciar o lombo
de uma égua castanha.
— Tenho de aprender. Tenho de aprender a assumir as minhas responsabilidades. E
mereço que me castiguem quando não o faço.
— Depende da maneira como te castigam — afirmou David.
—Algumas pessoas são... são diferentes. Pertencemos a uma raça especial, e... bem...
eu.., eu sou uma dessas pessoas, tal como o meu pai, como Saint-Martin ou os amigos do
meu pai... Tu não sei... não me pareces, nem o teu pai...

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

—Sinto-me muito orgulhoso do meu pai, entre outras coisas porque é um


democrata — asseverou David num tom aborrecido, esquecendo-se de que estava a falar
com uma criança de dez anos.
— Os democratas, os socialistas e os comunistas são um cancro, como os judeus —
replicou Raymond.
Se lhe tivessem batido, David não se teria sentido mais magoado. O pai pedira-lhe na
noite anterior que evitasse qualquer discussão com aquelas pessoas, mas sentia uma
enorme vontade de saber, de perguntar. Raymond era o único disposto a prestar-lhe
atenção e acabava de proferir a palavra amaldiçoada: judeu.
— Eu sou judeu — respondeu David, desafiador — e não sou nenhum cancro.
Raymond olhou-o perplexo, mordeu o lábio e desatou a correr. Temia a reacção do
pai por ter voltado a falar de mais, e ainda lhe doíam as nádegas devido ao açoite que
apanhara. O cinto do pai empolara-lhe a pele e, em contacto com as calças, sentia um ardor
enorme. Estava prestes a entrar no castelo quando deu de caras com o professor Marbung.
— São judeus! — gritou a criança.
— Judeus? Quem? — perguntou o professor, alterado.
— David e o pai. Ele disse-me que o eram — respondeu Raymond, e apontou para os
estábulos onde se via recortada a figura de David.
O professor Marbung e Raymond entraram no castelo à procura do conde d'Amis,
que encontraram no escritório a falar com o advogado Saint-Martin.
— Conde! O seu filho acaba de me dar uma terrível notícia!
O tom de voz do professor Marbung preocupou os dois homens, que se
levantaram de imediato ao pensarem que tinha acontecido algum acidente.
— O que é que aconteceu, Raymond, o que é que se passa?
— São judeus — afirmou a criança. — David confessou-mo.
O conde d'Amis apertou os punhos, a tentar controlar a contrariedade.
— Isso altera as coisas — murmurou o advogado.
—Jamais trabalharei com um judeu! Não tolerarei que um judeu repugnante conheça
os nossos planos...! Bem que desconfiei do seu interesse em querer que desistíssemos de
procurar o Graal! — afirmou o professor Marbung, furioso.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— E, no entanto... seria um erro não podermos contar com o professor Arnaud. O


seu antigo professor da Universidade de Toulouse não me disse que era judeu... — explicou
o conde.
— O filho dele disse-o a Raymond... — insistiu o advogado —, de modo que não
existem dúvidas.
Ninguém viu David na soleira da porta a observá-los com os olhos cheios de raiva e
desprezo.
— Eu sou judeu, ele não.
Olharam-no sobressaltados, preocupados pela presença inesperada do adolescente.
Há quanto tempo estaria ali, a ouvi-los?
— Jovem, não seja mal-educado, não se ouve atrás das portas — disse o conde.
— A porta estava aberta, e para ir para o meu quarto tenho de passar em frente dela.
— De qualquer maneira, um cavalheiro não ouve uma conversa que não lhe diz
respeito. Mas já que o fez, acompanhe-nos, por favor— ordenou o conde.
David entrou com um passo hesitante. Apetecia-lhe sair a correr para ir procurar o
pai, mas não se atreveu a contrariar o conde d'Amis.
— Sente-se, jovem.
Tanto Raymond como o advogado Saint-Martin e o professor Marbung aguardavam
expectantes a próxima reacção de D'Amis.
— Bom, jovem, sabe que existem pessoas que têm preconceitos, que não gostam dos
judeus, pensam que são culpados de algumas das coisas que acontecem. Não me interessa
o que os outros pensam. O que me interessa é a história, e quero que o seu pai trabalhe
neste projecto. É-me indiferente que seja judeu ou não.
David estava prestes a protestar e a chamar-lhe mentiroso, mas na verdade não tinha
qualquer motivo para o acusar. Fora o professor Marbung quem manifestara o seu
desprezo pelos judeus, não o conde.
— O seu filho pensa que os judeus são um cancro.
— O meu filho tem dez anos e ouve conversas que não compreende, o que o leva a...
digamos, ser imprudente. Peço-lhe desculpa em nome dele.
O jovem ficou sem saber que dizer. Cravou os olhos no professor Marbung, ansioso
por ter uma desculpa para se levantar e mostrar a sua ira.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Mas o professor parecia não estar interessado na discussão e tinha o olhar perdido
no fumo do cigarro.
— Vou ter com meu pai — foi tudo o que David conseguiu dizer.
— Vá, vá, mas peço-lhe que não o aborreça com mal-entendidos. David deu meia
volta e dirigiu-se para as escadas, desejoso de encontrar o pai no quarto. Iria pedir-lhe que
partissem de imediato.
— Ah, já voltaste! — Ferdinand estava a ler deitado na cama. O rosto exibia uma
expressão de tédio. — Desculpa não podermos ir mais cedo. Acho que ainda vamos ter de
almoçar com eles.
— Disseram-me que os judeus são um cancro — replicou David muito alterado.
Ferdinand sentou-se, preocupado. Percebeu que o filho não estava bem.
— Mas o que é que estás a dizer?
— Foi Raymond... esse miúdo disse em voz alta o que o pai e os outros não se
atreveram a dizer — respondeu David. — Para eles, a pior coisa que alguém pode ser é
democrata ou judeu. Depois, ouvi-os a falar. O professor Marbung disse que como eras
judeu não podia trabalhar contigo, que não queres que encontrem o Graal.
— Mas que loucura é essa? Vou agora mesmo falar com o conde d'Amis. Podemos
apressar a nossa saída, trocaremos o bilhete na estação.
David pareceu acalmar-se, mas Ferdinand apercebeu-se que o filho estava a sofrer. De
repente, sentiu-se diferente e rejeitado.
— Qual é o mal de se ser judeu? Porque há tantas pessoas que nos odeiam?
— Os ignorantes odeiam o que desconhecem, mas na história da Europa há
momentos execráveis: a Inquisição, os pogroms... O judeu é o estrangeiro ou aquele que é
diferente, alguém a quem culpar por todos os males da sociedade. É essa a desculpa que os
poderosos utilizam para desviar a atenção das suas responsabilidades para com a sociedade.
Além disso, é um bom negócio ficarem com os bens da comunidade judaica, e sobretudo,
não lhe pagarem as dívidas que contraíram.
— Os avós não são ricos, nem a tia Sara... — balbuciou David.
— Não, não são. A maior parte dos judeus queimados nas fogueiras também não o
eram. A maior perversidade dos carrascos era inculcar nas suas vítimas a ideia de que eram
culpadas de alguma coisa, pela qual tinham de pagar. Estas acabavam por o aceitar

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

tacitamente e perguntavam-se que mal tinham feito. Não, não questiones os motivos que
levam os nazis a perseguir a tua tia Sara, nem o que fizeram os teus avós, ou o que é que tu
fizeste para que te odeiem. Até o simples facto de te questionares é uma monstruosidade.
— Mas continuo sem perceber o motivo para tanto ódio. Não imaginas o desprezo
com que Raymond me disse que os judeus são um cancro, e o professor Marbung... Bem, o
professor parece-me o pior de todos.
Umas pancadas leves na porta interromperam a conversa entre pai e filho. O
mordomo transmitiu-lhes o pedido do conde para que se reunissem no salão quando
estivessem prontos.
Ferdinand suspirou. Sentia-se dividido entre o seu desejo de poder dispor da crónica
de Frei Julián e a necessidade de se ir embora. Sentia-se a afogar naquele castelo.
Quando entraram no salão, o conde esperava-os, bem como Raymond e Saint-
-Martin.
Apesar da segurança que demonstrava, Ferdinand conseguiu aperceber-se de um
tique nervoso no modo como fechava e abria a mão direita.
O rosto de Raymond reflectia dor e medo, mas ao mesmo tempo, pelo modo como
olhava para David, parecia que a criança o recriminava de alguma coisa.
— Professor, há pouco falei e desculpei-me perante o seu filho. Agora faço-o
consigo. Infelizmente, Raymond comportou-se de um modo abominável com os seus
comentários impertinentes. Peço-lhe que o desculpe a ele e a mim, por vos ter ofendido.
Não era de maneira alguma minha intenção e, se me permite ser sincero, muito menos
do meu interesse.
— Deveria preocupar-se com os comentários do seu filho — respondeu Ferdinand,
friamente.
— Já foi castigado por eles. Garanto-lhe que não se irá esquecer tão depressa do erro
cometido.
— Não se trata de cometer um erro por fazer uma observação, trata-se do que
significa pensar nessa observação — replicou Ferdinand.
— O professor sabe que as crianças ouvem coisas que não compreendem e ficam
desorientadas no momento de...
— De afirmar que ser judeu e democrata é o pior dos cancros? — O tom de voz de
David reflectia a sua dor e raiva.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

O conde olhou para David e de seguida, com um gesto, indicou ao filho que
despisse o casaco e puxasse a camisa para cima. Raymond empalideceu, e depois corou,
muito envergonhado.
Quando Raymond mostrou as costas nuas, Ferdinand e David soltaram uma
exclamação de horror. Nas costas da criança viam-se as marcas que o cinto do pai lhe
deixara. A pele empolada e sangrenta não deixava lugar a dúvidas. Raymond fora
fortemente açoitado.
— Santo Deus! Eu... — disse Ferdinand.
—Espero que seja suficiente como satisfação pela ofensa feita por meu filho —
replicou o conde, secamente.
— Isso não era necessário! Abomino o castigo físico... Mas como pôde fazer isto a uma
criança, ao seu próprio filho? — Ferdinand não encontrava palavras para expressar o horror
que sentia ao ver aquelas marcas de maus-tratos.
David sentia náuseas, porque achava que era culpado daquela tortura. Talvez,
pensou, a sua reacção perante o que Raymond dissera tivesse sido exagerada e, na verdade,
não tinha muita importância o que uma criança de dez anos dizia. Não sabia que fazer, mas
sentia um enorme desejo de pedir desculpa à criança.
— Lamento — balbuciou, e deu um passo em direcção à criança. — Eu… eu... lamento
imenso.
— O que se passou, passou. Raymond aprenderá com o erro cometido. Agora,
professor, quero penitenciar-me do que aconteceu, e não me ocorre outra maneira de o
fazer para além de lhe anunciar que pode dispor do manuscrito de Frei Julián. Aceito a oferta
da sua universidade. Faça um estudo mais exaustivo, dê a conhecer o seu ensaio. Os
arquivos familiares estão ao seu dispor, mas terá que vir até aqui consultá-los. Não quero
que os nossos documentos andem por aí espalhados.
Ferdinand ficou perplexo. Não esperara que o conde aceitasse desfazer-se da crónica
do seu antepassado, e muito menos sem qualquer condição. Também ele se sentiu enjoado
e envergonhado consigo mesmo. Tanto ele como David não teriam ficado demasiado
zangados? Não estariam demasiado sensíveis depois das palavras que Dubois dirigira a David,
às quais se viera acrescentar a desgraça da tia Sara?
Raymond continuava com as costas descobertas, a expor a sua humilhação e dor, sem
se atrever a tapar-se antes que o pai lhe desse autorização. Por fim, o conde fez um gesto a
autorizá-lo a baixar a camisa.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Não sei que dizer.., tudo isto é... lamento... lamento o que aconteceu — balbuciou
Ferdinand —, acho que não devíamos misturar uma coisa com a outra.
— Aceite, por favor, as minhas desculpas e a minha oferta. O meu advogado e amigo,
o senhor Saint-Martin, irá redigir um documento de empréstimo da crónica de Frei Julián
para estudo e custódia por parte da Universidade de Paris. Na próxima semana, estará
preparado e eu mesmo entregar-lho-ei em Paris. No fim da próxima semana, tenho que
visitar a capital por motivo de negócios. Telefonar-lhe-ei para marcar uma reunião consigo e
com o reitor da universidade.
Ferdinand sentia-se desorientado e simultaneamente constrangido com todos
aqueles acontecimentos. Sentia uma enorme vergonha por tudo aquilo que estava a
acontecer, e também por si mesmo, pela sua ânsia em ter na sua posse a crónica de Frei
Julián, que parecia retirar a importância ao que acontecera a Raymond.
Aceitou a oferta do conde e agradeceu-lhe. Evitou o olhar de David.
Falaria mais tarde com ele, no comboio, acerca de tudo o que se passara.
O almoço decorreu de modo mais ameno que o jantar da noite ante-
rior. Os convidados do conde pareciam desejosos de lhe agradar. Apenas
o professor Marbung mantinha uma certa distância, tal como o advogado Saint-Martin.
Falaram de tudo e de nada, de música, de literatura e de gastronomia. O barão Von Steiner
mostrou ser um grande conhecedor de vinhos franceses e fez-lhes uma dissertação a esse
respeito. Quando o conde se despediu à porta do castelo, o ânimo de Ferdinand estava
imerso na confusão, mas disposto a deixar-se levar pela promessa de que dentro de uma
semana teria nas mãos para estudo a ansiada crónica de Frei Julián.

Pouco depois da partida de Ferdinand e de David, o conde e os convidados reuniram-


-se no escritório, com grande sigilo e expressões preocupadas.
— Não compreendo a sua atitude, conde — atreveu-se a recriminá-lo o professor
Marbung —, nem a sua determinação em contar com o professor Arnaud. Não precisamos
dele.
— Engana-se. O nome do professor Arnaud abrir-nos-á arquivos e portas que, de
outro modo, nos estariam vedados. Precisamos do seu prestígio para procurar o que
queremos — explicou o conde —, a questão é não o alertar para as nossas intenções, ou
seja, evitar os erros que todos cometemos durante o jantar de ontem.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— A maior autoridade mundial acerca do catarismo é Otto Rahn — afirmou o


professor Marbung. — Se seguirmos os seus passos, encontraremos o Graal.
— Seguir apenas os seus passos, não, professor. Estamos em França, e os Franceses
são chauvinistas. Rahn não impressionará alguns arquivistas que têm à sua guarda
documentos valiosos, mas o professor Arnaud sim. Ele será a nossa chave, o nosso guia
cego, avançará sem saber onde queremos chegar, mas abrindo o caminho.
— Tenho de admitir que a sua jogada foi genial — disse o conde Von Trotta. —
Acabou por partir insultado, mas ao mesmo tempo grato.
— Sim, e a sentir-se em dívida para comigo, com a minha magnanimidade. Nunca
colaboraria connosco por dinheiro, e se conhecesse as nossas intenções faria os impossíveis
para nos deter.
— Um ignorante — murmurou o professor Marbung. — Se fosse capaz de
compreender a profundidade da Corte de Lúcifer saberia que os cátaros nada mais são que
os fiéis seguidores de uma doutrina que se perde na noite dos tempos. Os cátaros nada têm
a ver com a Igreja, nem com a tradição judaico-cristã. Só Rahn é que foi capaz de o ver... O
Deus de Roma, bah!, cuspo sobre ele.
— Quem acredita no Deus dos papas? Um verdadeiro embuste para os pobres —
acrescentou o barão Von Steiner.
— Os católicos sonham com sofrer na sua própria cruz para imitar o seu Cristo. Pois
bem, tê-la-ão — sentenciou o advogado Saint-Martin. — Que morram com ela.
— Senhores, é evidente que nós não participamos nas loucuras da religião, somos
homens esclarecidos. Mas não nos devemos expor perante qualquer pessoa. Isto não é a
Alemanha e podem desconfiar da nossa atitude. De modo que será melhor dissimularmos
as nossas ideias perante estranhos. Por agora, precisamos do professor Arnaud, e o mais
importante é que ele mordeu o isco. O senhor, professor Marbung, e segundo as
instruções de Berlim, continuará a trabalhar como até agora. Sonho com o dia em que a
deusa Razão vingue o sangue vertido no Languedoc.
Ferdinand Arnaud aceitou, contrariado, colaborar na investigação do conde. Este não
lhe pediu que se deslocasse a Toulouse ou a Carcassone, nem que escalasse os desfiladeiros de
Montségur. Apenas lhe indicou que abrisse portas e movesse os fios necessários para ter
acesso a determinados arquivos, e que as autoridades locais não levantassem obstáculos às
escavações.
Arnaud tentava tranquilizar a consciência, dizendo que não havia nada de mal em
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

ajudar um colega da Universidade de Berlim, por muito pouco que gostasse dele. Mas sentia
uma inquietação no fundo da alma que não lhe permitia sentir-se bem consigo mesmo.
Aqueles amigos do conde repugnavam-no, entusiastas de Otto Rahn e com ideais nazis.
Em compensação, iludia-se com a publicação da crónica de Frei Julián, que, embora
não contivesse revelações substanciais acerca da localização de Montségur, tinha, sim, o
valor histórico do relato dos acontecimentos escrito na primeira pessoa, e sobretudo, a
descrição dos protagonistas daquele drama.
— Afinal existes!
Ferdinand sorriu ao ver Martine irromper no gabinete. Há alguns dias que não se
encontravam e ouvira o rumor que Martine voltara a confrontar-se com um aluno pelos
comentários racistas deste.
— Parece que te estás a transformar na guardiã da essência da República —
respondeu-lhe a modo de saudação.
— Mas sem demasiado êxito. Esses fascistas crescem como fungos, ou antes estavam
escondidos e agora deixam-se ver... Mas aqui na universidade... Já te contaram?
— Sim, já sei que mandaste sair da aula outro dos teus alunos por dizer que os
judeus não passam de uma merda.
— O fedelho encarou-me e ameaçou-me. Disse para eu ter cuidado, quem poderia
saber onde é que ele e eu estaríamos no futuro.
— E tu puseste-o imediatamente na rua, e disseste-lhe que estava suspenso.
— Sim, e a gentalha organizou-se. O pai veio falar com o reitor e agora a questão é se
me podem obrigar ou não a apresentar desculpas. Não o vou fazer. Ou o rapaz ou eu, e se
tiver que me ir embora irei, mas não vou ceder à pressão do fedelho. Se a nossa autoridade
for quebrada e nos deixarmos amedrontar, será melhor fechar a universidade.
— Pelo que sei, o corpo docente apoia-te, até aqueles que não gostam de ti —
brincou Ferdinand.
— Vencer nesta questão não será apenas em meu benefício — queixou-se Martine.
— Eu sei.
— E tu, como estás?
— Bem, embora...
— O que é que aconteceu?
120
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Estou preocupado com Miriam e David. Já te contei o incidente que o meu filho
teve e o que aconteceu à tia da minha mulher... Miriam insiste em ir a Berlim e eu... não
gosto dessa ideia, pode ser perigoso.
— Não me parece que lhe aconteça alguma coisa. Miriam é francesa.
— E o seu tio Yitzhak é alemão, no entanto, destruíram-lhe a livraria herdada dos
avós. E tu expulsaste dois alunos das aulas em menos de dois meses.
— Sim, tenho a sensação de que o nosso mundo se está a desmoronar — admitiu
Martine.
— Pois, mas não o vamos permitir, professora. Vamos lutar.
— Seremos suficientemente corajosos para o fazer? Não recearemos envolver-nos e
perder os nossos privilégios?
— É verdade que somos humanos e não feitos do estofo dos heróis, mas isso não
significa que fiquemos de braços cruzados. Tu não o fazes, Martine.
— Não me posso dar a esse luxo.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

5
Paris, 20 de Abril de 1939
— Miriam, peço-te que reconsideres — suplicou Ferdinand.
— Não, está decidido, vou procurá-los, quero saber o que aconteceu, onde estão.
Nem penses que vou deixar que seja o meu pai a fazê-lo. E na embaixada disseram que se
não sabemos nada deles, é porque foram de férias. Cínicos! É o que são, cínicos.
David observava em silêncio a última discussão dos pais, discussões essas que se
tinham tornado mais frequentes nos últimos tempos. Tinham ambos os nervos à flor da
pele. O pai verificara que a universidade deixara de ser o lugar onde desfrutava com tanto
prazer do seu trabalho. Desde que tinham regressado do castelo d'Amis via-o angustiado e,
quando recebia uma chamada do conde ou do professor Marbung a pedir-lhe que fizesse
alguma coisa, irritava-se com facilidade. Regressara umas duas vezes ao castelo, sem o
convidar a acompanhá-lo. Ele também não teria querido ir, aquelas pessoas pareciam-lhe
sinistras.
Ferdinand parecia resignado a dar-se com o conde d'Amis, desde que com isso
pudesse trabalhar na crónica de Frei Julián. Ainda não terminara o ensaio que ia publicar
com o aval da universidade, e desde que regressara às aulas, depois das férias de Verão,
parecia desanimado, não voltando a escrever. Agora estava a discutir com a mãe, e insistia
que ela não devia ir a Berlim procurar os tios.
— Miriam, receio o que pode estar a acontecer ali — insistia. — Sempre achei que o
Pacto de Munique foi tempo que Hitler ganhou, embora o nosso presidente acredite a pés
juntos nesse indesejável.
— Eu vou, Ferdinand! — exclamou Miriam, enquanto fechava a mala. — Ouve bem,
todos temos prioridades na vida. Disseste-nos que há qualquer coisa que te repugna no
conde d'Amis, e depois do que aconteceu não me surpreende. No entanto, continuas a
dar-te com ele. Supliquei-te que devolvesses o maldito manuscrito e nunca mais voltasses
onde insultaram o nosso filho, ao chamá-lo de judeu. Bem, eu também tenho a minha
prioridade, e essa é saber o que aconteceu aos meus tios. Ninguém me vai impedir de o
fazer, Ferdinand, nem sequer tu.
— Estás a reprovar o meu trabalho! Não sabia que te incomodava tanto!
— O teu trabalho? Não, Ferdinand, não reprovo o teu trabalho, reprovo a tua
cegueira, que te deixes utilizar, manipular. Inquieta-me tudo aquilo que me contaste

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

acerca desse conde e dos seus amigos. O que é que tens a ver com um grupo de pessoas
que anda à procura do Graal? Porque é que os ajudas?
— Não Os estou a ajudar! Não tenho nada a ver com essa investigação.
— Tentas convencer-te disso! Não podes enganar-te assim tanto a ti próprio! Sabes
porque é que andas irritado, porque é que quase não falas, porque é que evitas conversas
acerca da crónica de Frei Julián? Eu digo-te. Porque não estás satisfeito, porque sabes que
estás a colaborar com uma coisa de que não gostas, com pessoas sinistras.
— Contei-te como o conde espancou o filho por ele ter insultado David! Parece-
-te uma prova pequena da sua atitude e convicções?
— Esse conde parece-me muito inteligente.
— Por favor, parem de discutir! — quase suplicou David. —A mãe vai-se embora... Vamos
ficar muito preocupados, e não gostaria que partisse triste.
— Miriam abraçou o filho, comovida. Queria-lhe mais que à própria vida. Não apenas
porque era seu filho, mas também pela sua sensibilidade, pela sua capacidade para se
colocar na pele dos outros e sentir compaixão pelos que sofriam.
Desde que regressara daquele castelo d'Amis, David pedira aos avós que lhe
explicassem o que tinha de fazer para ser um bom judeu. Agora ia com frequência à
sinagoga e acompanhava os avós a todas as celebrações religiosas. Até pendurara uma
minúscula estrela de David no pescoço. Tinham-no atingido com a palavra «judeu» e
precisava de saber o que se escondia atrás dessa palavra para despertar tanto ódio. Embora
dissesse a si mesmo que ser judeu não o fazia sentir-se diferente do resto dos amigos,
estava obcecado em encontrar a diferença.
Ferdinand rendera-se à súplica de David, e aproximou-se da mulher e do filho para os
abraçar, a um de cada vez.
— Lamento, lamento não ser capaz de explicar melhor a minha preocupação. Quero-
vos tanto!
— E nós a ti, pai. Eu também não quero que a mãe vá, mas sei que tem de o fazer,
e prefiro que vá em paz.
Saíram do apartamento de mãos dadas e a falar de ninharias.
Durante o trajecto até à Gare de Lyon, Ferdinand escondia a angústia concentrando-se na
condução, enquanto David não parava de falar com a mãe.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

O assobio do comboio a anunciar a partida quebrou o ânimo dos três. David não
conseguiu evitar as lágrimas agora que via a mãe partir, e Ferdinand recriminou-se por ter
discutido com Miriam.
— Tem cuidado! Por favor, tem cuidado! — disse Ferdinand.
— Mãe, volta depressa — suplicou, pelo seu lado, David.
Ela, com ternura, disse-lhes adeus e enviou-lhes beijos através da distância que o
comboio ia estabelecendo.

Ferdinand estava distraído a ler uns papéis, quando Martine entrou como um raio no
gabinete dele.
— Não aguento mais!
Ficou a olhá-la imóvel, incapaz de falar. Martine apercebeu-se da surpresa que se
reflectia no rosto do amigo.
— Desculpa, mas não aguento mais estes fascistas. Quando cheguei à sala de aula,
encontrei sentado na minha mesa um rapaz que enaltecia as essências da França e as
nocivas influências estrangeiras. O idiota disse-me que era membro das Juventudes
Patrióticas. Pedi ao reitor que abrisse um precedente e o expulsasse da universidade.
Convocou uma reunião informal do corpo docente, por isso vim buscar-te. Sabia que estavas
aqui fechado, a trabalhar, sem saberes de nada.
Ferdinand levantou-se como se fosse um autómato. Todos os dias aconteciam
incidentes daquele género, e Martine parecia ter-se transformado na Joana d'Arc contra o
fascismo. A professora estava profundamente empenhada em não tolerar qualquer tipo
de manifestação oposta ao que ela acreditava ser a encarnação da República.
— Lamento não poder ir a essa reunião — desculpou-se ele. — Prometi a David que o
ia buscar ao liceu.
Quando chegou, o filho já se tinha ido embora, o que lhe provocou uma sensação de
angústia. Dirigiu-se a casa, a rezar para que o encontrasse ali.
David estava a ouvir rádio na sala, sem poder esconder o seu sofrimento.
— A mãe... — murmurou —, não sabemos nada da mãe, e está lá... Tens que
telefonar para a embaixada...
Sentou-se ao lado do filho e ouviu as notícias que o locutor, com uma voz grave, lia.

124
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

O telefone sobressaltou-os. David atendeu-o rapidamente. — É o avó Jean — disse, e


estendeu o telefone ao pai.
— Pai... sim.., eu sei, nós estamos bem. Não, não sabemos nada de Miriam.
Com muito esforço, Ferdinand conseguiu responder ao pai, preocupado com Miriam.
— Não, diz à mãe que esteja tranquila, não precisamos de nada, se precisarmos eu
telefono. Combinado, combinado, iremos jantar esta noite a vossa casa. Sim, às sete, não te
preocupes.
Quando desligou o telefone, sentiu-se inundado por suores frios. David
continuava sentado junto do rádio como se esperasse que, a qualquer momento, o locutor
fosse dar notícias da mãe.
— Que vamos fazer, pai?
— Não sei, filho, não sei. Paul Castres, um colega da universidade, tem um cunhado que
trabalha no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Pode ser que através dele consigamos
saber alguma coisa.
O amigo prometera ligar-lhe quando pudesse falar com o cunhado, embora lhe
tivesse pedido paciência. «Sabes como é, actualmente, até a mim é-me difícil falar com
ele.»
Passaram o resto do dia a falar pelo telefone e a receber chamadas de parentes e
amigos, sempre à espera que quando o telefone tocasse fosse Paul Castres.
— Ela prometeu que nos telefonava — sussurrava David —, prometeu.
Ferdinand não tinha respostas para o filho. Desde que Miriam partira nunca lhes tinha
telefonado, e ninguém atendia na casa dos tios Yitzhak e Sara. Na verdade, estavam há dias
preocupados pela falta de notícias.
Pai e filho sentiam-se desorientados, sem saber o que fazer ou a quem recorrer que os
pudesse aconselhar no meio do seu desespero.
— Só quero ir para casa dos avós depois do teu amigo nos telefonar — pediu David
ao pai.
Eram cerca das seis da tarde quando, por fim, o professor Paul Castres telefonou.
— Não te posso dizer muito, apenas que a nossa embaixada em Berlim vai tentar fazer
alguma coisa. O meu cunhado pediu-me a direcção dos tios da tua mulher e o número de
telefone. Alguém da embaixada vai tentar entrar em contacto com eles, mas é um

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

momento de grande confusão e a posição da França está muito comprometida... O meu


cunhado diz que Hitler enganou muito bem enganado o presidente Daladier na Conferência
de Munique.
Ferdinand estava pouco preocupado com o modo como Hitler enganara o presidente
da França. Nesse momento, a sua única preocupação era o destino de Miriam.
Quando chegaram a casa dos pais dele, os sogros também lá se encontravam. Tentou
animá-los, e também reconfortar-se, e comunicou-lhes que a Embaixada de França em
Berlim ia tentar localizar Miriam.
Comeram pouco, apesar da insistência da mãe dele, empenhada em que comessem
«porque nos maus momentos é que se precisa de ter força», como se o facto de comerem
um bife lhes pudesse insuflar a energia de que necessitavam para encontrar Miriam.
Mas era David quem parecia estar mais abalado. Não existiam palavras que pudessem
dissipar a sua angústia. Tanto os avós paternos como os maternos fizeram os impossíveis para
o tirar do seu mutismo, mas ele manteve-se calado. Desejava apenas estar com o pai e
partilhar o seu desânimo.

No dia seguinte, David recusou-se a ir para o liceu. Muito contrariado suportou a


presença de uma ou de outra das avós, que tinham combinado ir por turnos a casa deles.
Tratavam dos afazeres domésticos, cozinhavam e, sobretudo, tentavam fazer com
que não se sentissem sozinhos, embora ambos o tivessem preferido.
Paul Castres animava o colega quando o encontrava nos corredores da faculdade. O
cunhado ajudá-lo-ia, tinha a certeza disso. Quatro dias depois, Paul aproximou-se dele para
lhe dizer que o cunhado os ia receber no seu gabinete, no Quai d'Orsay.
Ferdinand e David apresentaram-se à hora marcada na porta do ministério, onde
Castres os esperava para os acompanhar até ao gabinete do cunhado. Atravessaram
corredores onde funcionários circunspectos pareciam avançar muito depressa para algum
lado. Detiveram-se perante uma porta igual às outras e Paul bateu com os nós dos dedos.
Ouviram um «Entre» seco e incisivo.
O cunhado de Paul era um homem prestes a reformar-se, um funcionário que
trabalhara durante toda a vida naquele edifício, que conhecia melhor do que a própria casa.
— Bem, senhor Arnaud, a única notícia que lhes posso dar é que não tenho notícias.
— Como? Que quer dizer com isso? — perguntou Ferdinand, preocupado.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Pedi a um amigo da embaixada que, quando tivesse um momento disponível, fosse


até à casa dos seus parentes. Há já algum tempo que não vive ali ninguém. A livraria no piso
térreo... Bom, creio que já não existe... Quanto à casa no primeiro piso, já há algum tempo
que está desabitada, segundo o informaram uns vizinhos. Os seus parentes limitaram-se a
partir, e não deixaram qualquer direcção. Quanto à sua mulher... Bem, ninguém a viu. A
embaixada efectuou algumas indagações, discretas dadas as circunstâncias, porque não
estamos nos melhores termos com as autoridades alemãs. Mas sempre se tem amigos, e o
Ministério do Interior alemão não tem notícias de nenhum acidente, nem de nenhuma
ocorrência, em que a sua mulher possa estar envolvida. Quase poderia ser uma boa notícia
poder dizer-lhe que sofreu um acidente de viação ou que estava hospitalizada, e que por
esse motivo não tinham notícias dela. Mas, infelizmente, a verdade é que ninguém viu a sua
esposa.
Ferdinand sentiu que o tinham atingido na cabeça, enquanto David não foi capaz
de se conter e desatou a chorar. Sentiam-se presos num pesadelo em que Miriam
desaparecera, e eles não podiam fazer nada para a salvar.
— O que é que se pode fazer? — perguntou Paul Castres por eles, já que tanto
Ferdinand como o filho pareciam incapazes de reagir.
— Nada, não podemos fazer mais nada. Pedi à embaixada que, de vez em quando, e
na medida dos possíveis, vá até à casa dos seus parentes para ver se regressaram, e que
nos contactos que efectuarem com as autoridades nos indiquem qualquer notícia acerca da
sua mulher.
— Vou a Berlim — afirmou Ferdinand, determinado.
— Acho que não vai servir de muito, e desaconselho-o a fazê-lo. Bom... gostaria de falar
consigo a sós. Paul, podes sair com o jovem? Não demoro muito.
Quando ficaram sozinhos, o funcionário olhou incomodado para Ferdinand, como se
não encontrasse palavras para se exprimir.
— Bom... eu... sabe, senhor Arnaud, gostaria que não se sentisse ofendido, mas... não
sei... talvez a sua mulher...
— Não percebo o que está a querer dizer...
—Desculpe fazer-lhe uma pergunta pessoal, mas davam-se bem? Ferdinand
compreendeu o que o cunhado do amigo não se atrevia a dizer.
— Está a perguntar-me se acho que a minha mulher me abandonou?

127
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Bem, essas coisas acontecem. Se não estivéssemos no meio de uma crise bélica, a
situação seria menos dramática... talvez a sua mulher tenha... tenha partido com alguém...
— Eu acompanhei-a ao comboio respondeu Ferdinand, nervoso.
— Sim, claro, pode tê-la acompanhado ao comboio, mas isso não significa que não
houvesse alguém nesse comboio com quem ela tivesse decidido partir.
— Não, isso não aconteceu. Somos uma família feliz, sem problemas, amamo-nos,
pode ter a certeza disso — disse, enquanto se sentia corar devido ao embaraço.
— Bem, era uma possibilidade... não a queria colocar em frente do seu filho.
— Foi muito amável — disse Ferdinand, a tentar reprimir a raiva que começava a
invadi-lo.
— Não posso dizer-lhe mais nada. Se tivermos alguma notícia, entraremos de
imediato em contacto consigo. Mas peço-lhe que não cometa uma loucura. Não tente ir a
Berlim, não nestas circunstâncias.
— Quando entraremos na guerra?
— Não lhe posso responder a essa pergunta, mas estou pessimista, muito pessimista.
Extra-oficialmente, dir-lhe-ei que acho que Hitler vai tentar invadir a França. A minha
opinião não é partilhada por muitos dos meus colegas, nem pelo nosso governo, mas o meu
sexto sentido diz-me que é isso que vai acontecer. Sabe, estive colocado em Berlim até ao
ano passado e nada do que está a acontecer me surpreende, por mais que o nosso governo
queira mostrar que não o esperava.
— Temos a linha Maginot.
— Não temos nada, senhor Arnaud, temos que ser muito ingénuos para acreditar
que estamos protegidos por uma linha imaginária.
— Então...
— Na minha opinião, é uma questão de tempo, até Hitler decidir invadir a
França, mas insisto que essa é apenas a minha opinião, não a do Quai d'Orsay. Acho que não
faltará muito até entrarmos em guerra com a Alemanha.
Com uma expressão grave e preocupada, o professor Arnaud despediu-se do
diplomata com um aperto de mão forte.

128
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Tomaram ambos a decisão, sem discussões. Estavam de acordo que não podiam
cruzar os braços e aceitar, sem mais nem menos, o desaparecimento de Miriam.
Comunicaram a decisão ao resto da família. Ferdinand iria a Berlim e tentaria
localizar a mulher e os tios desta, Yitzhak e Sara.
Os pais de Miriam choraram agradecidos. Não podiam aceitar assim o
desaparecimento da filha. David ficaria com eles até ao regresso do pai. O jovem teria
preferido esperar em casa, mas Ferdinand disse-lhe que só se soubesse que estava em
segurança é que partiria tranquilo.
Pediu ao professor Castres que falasse com o cunhado no Quai d'Orsay, para
que o recebessem na embaixada de Berlim.
Estava no gabinete a corrigir uns exames quando recebeu a visita inesperada do
conde d`Amis.
— Meu caro professor, desculpe ter-me apresentado de surpresa. Estou em Paris, e
pensei em passar por aqui para o visitar. Incomodo-o?
Não se atreveu a dizer-lhe que na verdade o incomodava, que estava a trabalhar
contra-relógio e que lhe faltava tempo para deixar tudo acabado antes de viajar para Berlim,
de modo que o convidou a sentar-se, e deixou patente a sua falta de entusiasmo.
— Na verdade — prosseguiu o conde enquanto se sentava —, queria anunciar-lhe
que recebemos reforços. Um grupo de estudantes alemães, alunos do professor Marbung,
juntou-se a nós. São muito eficientes e entusiastas, de modo que a sua presença nos será
de grande ajuda.
— Sinto-me satisfeito por si — respondeu Ferdinand, secamente.
— Estamos a estudar as estelas disciformes...
—São monumentos fúnebres que nada têm a ver com os cátaros. Sabe, conde?
Surpreende-me que um homem inteligente como o senhor persiga uma fantasia. Não existe
nenhum tesouro cátaro. Aquele ouro e prata, as moedas que levaram de Montségur
serviram para ajudar os Bons Cristãos que quase viviam na clandestinidade por causa da
Inquisição, e para continuarem a auxiliar as suas obras de caridade.
— Sou eu que me surpreendo com a sua determinação em querer demonstrar o
contrário. O professor é o único especialista nos cátaros que nega a existência do tesouro, o
único que nega a existência do Graal, o único que garante que esses desenhos estranhos que
encontrámos nas grutas perto de Montségur são simples rabiscos e não um código secreto
129
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

deixado pelos cátaros...


— Pode ter a certeza que não sou o único. Posso apresentar-lhe, pelo menos, uma
dúzia de professores que lhe dirão o mesmo, mas não vale a pena. O senhor não está
interessado. De qualquer maneira, quero recordar-lhe aquilo que lhe disse noutras
ocasiões: não partilho as suas teorias, nem as dos seus amigos, no que se refere aos
cátaros. Pode-me pedir que procure nos arquivos históricos, mas não quero colaborar em
mais nada.
— Encontrámos outros desenhos gravados numa gruta desconhecida até ao
momento. Foi um acaso, e gostaria que fosse a Montségur para a visitar. Poderia vir
comigo, regresso amanhã...
— Lamento, mas não posso. Vou partir para Berlim — respondeu Ferdinand,
aborrecido com a insistência do aristocrata.
— Para Berlim? — perguntou, admirado, o conde d'Amis.
— Sim, para Berlim.
— Por motivos académicos? — insistiu o conde.
— Por motivos pessoais... — Ferdinand interrompeu-se por segundos, mas em seguida
pensou que aquele conde com amigos alemães influentes talvez o pudesse ajudar. — Vou à
procura da minha mulher. Desapareceu.
— A sua mulher desapareceu? Onde? Em Berlim? — O tom de voz do Conde reflectia
espanto pela confissão de Ferdinand.
— A minha mulher é judia. Foi à procura dos tios, que também são judeus. Não
tínhamos notícias deles há algum tempo. Soubemos que um grupo de selvagens lhes
destruiu a livraria, uma das mais antigas e conceituadas de Berlim, e que os tinham
espancado. Depois, nunca mais soubemos nada. Telefonámos-lhes, mas ninguém atendeu.
Os meus sogros entraram em contacto com amigos alemães e ninguém nos soube indicar o
paradeiro deles. Desapareceram, de modo que Miriam tomou a decisão de partir para
Berlim. Não queria ficar sem fazer nada, receava o que poderia ter acontecido aos tios.
Partiu a 20 de Abril, desde então, nunca mais tivemos notícias dela.
O conde ouvia-o em silêncio e olhava-o fixamente, como se tentasse captar um
sentido oculto naquelas palavras. Ferdinand esperava que D'Amis se oferecesse para o
ajudar, mas o silêncio que se instalou entre ambos parecia aumentar.
— Vou partir para Berlim, de modo que não me posso ocupar dos seus desenhos,
130

Á
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

e bem gostaria de o fazer — disse Ferdinand sem esconder a sua irritação e desilusão.
— Que quer? — perguntou o conde d'Amis, em voz baixa.
— O senhor conhece pessoas importantes na Alemanha. Poderia ajudar-me.
O conde voltou a calar-se, a meditar no pedido de Ferdinand. Em seguida, levantou-se
e estendeu-lhe a mão para se despedir.
— Verei o que posso fazer. Em que hotel de Berlim é que vai ficar? .
— Na verdade, ainda não sei. Irei até à casa dos tios de Miriam, e depois... não sei,
suponho que encontrarei um hotel.
— Bom, escreva-me o nome dessas pessoas desaparecidas e quando chegar a Berlim
telefone-me. Dir-lhe-ei quem deve contactar e se é possível fazer alguma coisa. Não vai na
melhor altura, não me parece que um francês seja bem recebido.
Ferdinand escreveu rapidamente o nome de Sara e de Yitzhak, bem como o endereço
deles, para além do nome de Miriam. Quando entregou o papel ao conde, leu nos olhos
deste uma expressão de desprezo. Não apertaram a mão, nem voltaram a dizer mais nada.
Ferdinand ficou de pé, a olhar para o aristocrata enquanto este saía do gabinete, sem saber
se .. aquele homem, por quem sentia uma aversão velada, poderia ser a sua única e última
esperança.

131
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Em Berlim não estava frio, mas chovia e a humidade entranhava-se na roupa até
chegar aos ossos. O motorista de táxi que o conduziu a casa dos tios de Miriam era um
apoiante de Hitler, que considerava como o salvador da Alemanha. Ferdinand mantinha-se
calado, não queria discutir com aquele homem. Na verdade, não queria discutir nada com
ninguém. Apenas queria encontrar Miriam.
Quando o carro se deteve em frente da loja, o motorista olhou-o desconfiado.
— Aqui deviam viver judeus... — disse e olhou para a casa com um olhar experiente.
— Como é que sabe? — perguntou Ferdinand, irritado.
— Veja bem como está esta loja... Tenho a certeza que recebeu a visita dos nossos
jovens corajosos. Os nossos filhos são o melhor da Alemanha, corajosos, determinados. São a
vanguarda da nossa revolução. Estou certo de que deram uma boa lição aos judeus que
eram donos desta loja.
Ferdinand pagou-lhe, e conteve a vontade de o esmurrar. Nunca batera em ninguém.
Nem sequer quando era criança gostava de lutas, mas aquele homem era capaz de fazer
sobressair o pior que existia em si. Permaneceu no mesmo sítio, à espera que o táxi se
perdesse entre o tráfico de Berlim antes de se dirigir à porta.
A livraria estava completamente destruída. Não havia nada no interior, parecia um
esqueleto descarnado. Não restava nem um único livro, e as estantes onde antes se
encontravam jaziam partidas no chão, junto a um amontoado de vidros e restos de folhas
rasgadas e pisadas.
Dirigiu-se ao fundo da sala, a uma porta que dava passagem para uma saleta onde se
encontravam as escadas de acesso ao primeiro piso, onde a tia Sara e o marido viviam: um
apartamento pequeno e elegante composto por dois quartos, uma sala, o escritório do tio
Yitzhak, uma cozinha e a casa de banho. A porta estava rebentada, as dobradiças arrancadas, e
tanto a mesa como as quatro cadeiras que a cercavam estavam partidas. Subiu as escadas,
sentindo-se desolado.
A casa estava no mesmo estado que a livraria: a cama revirada, o sofá esventrado,
pratos e copos partidos e espalhados pela cozinha... Pensou que apenas bárbaros seriam
capazes de cometer um acto de violência tão gratuito.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

De seguida, viu a fotografia, com a moldura partida, pisada, junto de outras molduras
e fotografias. Baixou-se para a apanhar. Ali estava ele, junto de Miriam, David e dos tios
quando, cinco anos antes, tinham estado em Berlim. Demorou o olhar sobre o filho. David
tinha então doze anos e para ele fora um acontecimento a viagem a Berlim.
— Destruíram tudo.
Virou-se sobressaltado e deparou-se com uma mulher jovem, com cerca de vinte e
cinco anos, de estatura média, cabelo castanho e olhos azuis. Não era bonita nem feia,
apenas uma mulher de rosto anónimo, fácil de esquecer, que trazia uma criança com cerca
de um ano nos braços.
— Quem é você? — perguntou Ferdinand em alemão. Por sorte, não perdera a
fluência nesse idioma.
— E o senhor?
— Sou... sou sobrinho de... bem, na verdade, a minha mulher é sobrinha de Sara, a
mulher de Yitzhak Levi.
— Chamo-me Inge Schmmid, e ajudava os seus tios.
— Não sabia... O que faz aqui?
— Queria limpar um pouco isto. Já cá vim várias vezes, mas nunca me decidi a fazê-lo.
Talvez esperasse que aparecessem a qualquer momento...
— Em que é que ajudava os meus tios?
— Só estava com eles há um ano. Fazia um pouco de tudo. Era vendedora na
loja, tratava do correio, colocava e limpava as estantes... Presumo que saiba que Sara tinha
vertigens, e Yitzhak sofria do lumbago, de modo que procuraram alguém para os ajudar.
Olhou-a surpreendido. Como é que aquela jovem se atrevera a trabalhar para um
casal judeu? Sabia que Sara e Yitzhak, como tantos outros, tinham cosida a estrela de David
nos casacos, estavam identificados como judeus, e manter contactos com eles não era fácil.
—Precisava de um trabalho onde pudesse estar com o meu filho
explicou Inge. — Sou mãe solteira, a minha família não quer saber de
mim, o pai do meu filho desapareceu antes de ele nascer. Uma cliente da loja dos seus tios
que é minha vizinha colocou-nos em contacto, e eles aceitaram que viesse trabalhar com
Günter. Os seus tios eram muito bons;
— Eram? — perguntou Ferdinand, alarmado.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Bem, não sei, são, eram... A verdade é que não sei o que foi feito deles
— Diga-me o que é que sabe do que se passou.
— Eu não estava, foi num sábado à noite. Chegou um grupo de camisas-castanhas,
apedrejaram a montra e partiram-na. A seguir, entraram na livraria, começaram a atirar
com as estantes e a rasgar os livros, depois subiram à casa. Os seus tios estavam
assustados, abraçados, e receavam que aquele pudesse ser o último dia das suas vidas.
Parece que se limitaram a espancá-los, a deixá-los caídos no chão, ensanguentados.
— E ninguém fez nada? Nenhum vizinho veio socorrê-los?
— Sabe uma coisa? O resto da Europa não quer saber do que está a acontecer na
Alemanha. Os alemães também não se querem preocupar, de modo que Hitler tem o
campo livre para fazer o que quiser.
— Não respondeu à minha pergunta. Porque é que ninguém fez nada?
— Porque ninguém ajudaria judeus. Isso seria colocarem-se numa situação difícil, sob
suspeita, de modo que, quando se trata de judeus, ninguém vê ou ouve nada.
— Quem é que deu o sinal de alarme?
— Sara contou-me que quando o pesadelo terminou e os camisas-castanhas
partiram, ela e o marido ficaram muito tempo deitados no chão. Não se conseguiam
mexer e o fio do telefone tinha sido arrancado. Eu vivo a duas ruas de distância e, por
acaso, encontrei-me com a porteira deste edifício no domingo de manhã. Contou-me, a rir,
que os meus patrões tinham tido uma «visita», e que eu tinha ficado sem trabalho porque
já não havia livros para vender. Corri até aqui com Günter nos braços e encontrei-os
estendidos no chão, a tremer e magoados pelas feridas e cortes. Disseram-me que
chamasse uns amigos, um casal mais velho, de judeus. Ele é médico, embora esteja
reformado. Vieram de imediato. Entre todos, conseguimos deixar isto mais ou menos
decente, embora não nos tivéssemos atrevido a fazer nada na livraria, já que isso poderia
levar a que os camisas-castanhas voltassem. Creio que o seu tio entrou em contacto com a
família em França. Diziam que iam partir, que iam fugir daqui.
Inge calou-se, enquanto procurava um lugar onde colocar a criança. Levantou uma
cadeira e sentou-a.
— Não te mexas, Günter — pediu-lhe e depositou um beijo sonoro na face do
bebé. — Se quiser, posso ajudá-lo a ajeitar um pouco isto.
— Se não se importar...
134
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Ferdinand não sabia muito bem para que serviria tentar devolver a aparência de uma
casa àquele lugar destroçado, mas, pelo menos, a actividade ajudá-lo-ia a acalmar-se
enquanto continuava a ouvir Inge que, com uma rapidez assombrosa levantava móveis,
sacudia colchões, varria os restos da loiça espalhada pelo chão da cozinha... Ele seguia-a
para onde quer que ela fosse, e fazia o que ela lhe mandava.
— E depois? O que é que aconteceu?
— Durante alguns dias parecia que tudo tinha voltado à normalidade, essa estranha
normalidade na qual vivemos. Eu vinha vê-los todos os dias. Não podia fazer nada na livraria,
mas podia ajudá-los aqui, já que mal se podiam mexer devido aos golpes que receberam.
«Numa sexta-feira, despedi-me deles. Insistiram que ficasse com o sábado livre, que
eles se conseguiam arranjar sozinhos. A verdade é que receberam a visita de alguns amigos.
Vim até cá no domingo para ver como estavam, e encontrei a casa como a vê. Eles não
estavam. Fui perguntar à porteira se sabia deles e ela disse-me que não sabia de nada. Subi
as escadas para perguntar aos vizinhos do segundo e do terceiro piso, aos do quarto, e a
resposta foi sempre a mesma: não sabiam de nada, não tinham visto nada, não tinham
ouvido nada.
— Quando foi isso?
— Em meados de Março.
— E não entrou em contacto com os amigos dos meus tios?
— A agenda deles tinha desaparecido, mas eu sabia a direcção do médico e fui vê-lo.
Também tinha desaparecido e a sua casa... bem, a sua casa estava arrasada como esta.
— Mas deve conhecer outros amigos, outras direcções! — gritou Ferdinand.
— Não se enerve. A verdade é que não sei onde viviam os amigos dos seus tios, nem
havia motivo para o saber. Já lhe disse que procurei a agenda, um caderno, algum sítio onde
pudessem ter apontado direcções ou números de telefone, mas não encontrei nada. Talvez
o senhor tenha mais sorte.
De repente, Ferdinand receou que Inge se aborrecesse e o deixasse ali, que o único
vínculo com Sara e Yitzhak desaparecesse, a sua única pista para encontrar Miriam.
— Desculpe, desculpe-me por ter gritado.., estou... estou mal.., a minha mulher veio
até aqui e também desapareceu.
—A sua mulher? Quando? Não a vi...

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Saiu de Paris a 20 de Abril, prometeu telefonar-nos quando chegasse mas não o


fez. A embaixada tem tentado encontrá-la, mas não teve qualquer sucesso, eu... estou
desesperado. Miriam veio até aqui para levar Sara e Yitzhak para Paris, para os tirar deste
pesadelo. Tem razão, ninguém quer ver nada, ninguém quer ver o que se passa aqui.
Ficamos escandalizados quando nos dizem que os judeus andam com a estrela de David
cosida nos casacos, mas não fazemos nada, dizemos que vai passar, que isto não pode
durar, que os judeus alemães são antes de mais alemães...
— Bem, nunca vi aqui ninguém até hoje. Vamos perguntar à porteira, mas digo-lhe
desde já que será inútil. É nazi, pode ter sido ela a denunciar os seus tios, quem tenha
avisado que queriam partir... não sei.
— E os outros vizinhos do prédio?
— Pessoas idosas, com medo. Ninguém se atreve a mostrar compaixão pelos
judeus, receiam ser confundidos, que pensem que o seu sangue não é puro... enfim, todas
essas loucuras.
— E a senhora? Não receia...?
— A mim, não me acontecerá nada. O meu pai é nazi, a minha mãe é nazi, os meus
tios são nazis... Estão bem relacionados. Eu sou a ovelha negra da família, não me aceitam,
mas não me querem fazer mal. O meu pai é polícia, o meu tio é polícia... de modo que...
— E o pai do seu filho?
— O pai do meu filho era comunista e judeu. Não me abandonou, sei que não me
abandonou, simplesmente desapareceu. À minha família causa-lhe horror que um dos seus,
o meu filho, tenha sangue judeu, de modo que preferem não saber nada de mim, manter-
-me afastada, para que pelo meu lado não os comprometa.
— Onde pensa que está o... o pai do seu filho?
— Não sei. Talvez morto, ou teve de fugir de repente... não sei, entrei em contacto
com alguns amigos... não confiam totalmente em mim, por causa do meu pai e do meu tio.
Está a ver, sou indesejada por todos.
Inge contara-lhe a sua história com simplicidade, sem se alterar, como se tudo aquilo
que lhe acontecera não fosse nada de extraordinário. Olhou-a nos olhos, a tentar descobrir
alguma coisa atrás do aspecto anónimo de boa rapariga.
— De que é que vive?
— Limpo as casas de alguns dos meus vizinhos. Pagam-me pouco, exploram-me
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

porque sabem que não tenho outra opção. Não tenho com quem deixar Günter.
— E a sua mãe?
— Para a minha mãe, sou uma desilusão. Não sou nazi, não me casei, tive um filho,
tenho contactos com comunistas e judeus... Não me quer ver, tem medo que a infecte.
— Lamento — disse Ferdinand.
—Já falei bastante de mim. Agora, falemos de si.
—Já lhe contei, a minha mulher veio saber o que tinha acontecido aos tios, e não
voltámos a saber nada a respeito dela. Temos um filho, David. Pode imaginar a angústia em
que se encontra.
Inge entrou na pequena casa de banho com a vassoura na mão para varrer os
pedaços de vidro espalhados pelo chão.
— Já poderia ter ajeitado isto, mas tenho pouco tempo — desculpou-se.
— Deixe, eu fá-lo-ei, embora na verdade.., bem, presumo que a possamos ajeitar um
pouco.
Estava a acabar de varrer, quando Ferdinand se baixou junto ao lavatório onde vira
um objecto entre os vidros partidos.
— Mas que está a fazer? — exclamou Inge.
— Isto... isto é de Miriam — respondeu, a balbuciar.
Inge olhou para aquilo que Ferdinand apanhara: um lápis para os lábios, pisado.
Ferdinand olhou-o e acariciou-o como se se tratasse de Miriam. Ficara mudo e inerte.
Aquele lápis emocionara-o. Saiu da casa de banho seguido por Inge e sentou-se numa
cadeira.
—Tem a certeza que é da sua mulher? Sara também pintava os lábios.
— Sei muito bem como era o lápis para os lábios de Miriam. Utilizou sempre o
mesmo, desde que nos conhecemos na universidade que nunca a vi usar outra marca, nem
outra cor...
— Então, a sua mulher esteve aqui. Vamos ver se encontramos mais alguma coisa —
propôs Inge.
Durante uma hora revistaram os restos de tudo quanto ainda se encontrava no
apartamento. Quando enfiaram a mão na bacia, cortaram-se ao procurar entre os vidros

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

partidos. Günter observava-os, e de vez em quando começava a chorar para chamar a


atenção da mãe. Ferdinand estava tentado a dizer-lhe que se fosse embora, que fosse tratar
do filho, mas tinha medo de ficar sozinho. lnge era a única coisa que o unia aos tios de Miriam
e à própria Miriam, de modo que, apesar dos soluços da criança, pediu-lhe que continuasse a
ajudá-lo. Ela pareceu ler-lhe os pensamentos.
—Tem sorte por hoje ser sábado — disse lnge. — Se fosse outro dia, não poderia
estar aqui. Mas, por sorte, nos fins-de-semana ninguém me pede que vá esfregar o chão, e
assim posso ficar para ajeitar isto e ver se encontramos mais alguma coisa.
Três horas depois, o apartamento tinha um aspecto mais apresentável, embora o sofá
continuasse esventrado. Faltavam duas pernas à mesa da sala de jantar, os colchões
estavam rebentados e o frio penetrava pelas janelas sem vidros.
Ferdinand guardara o lápis para os lábios, como se fosse um tesouro.
— Convido-o a vir até minha casa. Pode comer qualquer coisa e beber um chá, antes
de ir para o hotel. Onde é que está alojado?
— Não sei — respondeu Ferdinand —, ainda não pensei nisso. Indique-me um que não
fique longe daqui.
Inge considerou o homem e pareceu hesitar alguns segundos antes de dizer:
— Se quiser, posso alugar-lhe um quarto. Na minha casa, tenho um quarto livre, casa
de banho, e... bem, não tenho luxos, mas parece-me que é uma casa cómoda, e tenho
telefone. Não lhe escondo que o dinheiro me faz falta.
Aceitou a proposta da jovem. Não se sentia capaz de ficar sozinho. Precisava de uma
presença humana a seu lado, alguém que lhe desse esperança.
— Antes de irmos, gostaria de falar com a porteira — pediu Ferdinand.
— Vamos descer e procurá-la.
Iam a sair quando se depararam com uma mulher gorda, com o cabelo colado à nuca e
enrolado num carrapito. Ferdinand pensou que a maldade aflorava por cada poro do rosto
daquela mulher.
— Você aqui outra vez... — A mulher recriminou Inge. —Já lhe disse que não gosto de
a ver a deambular por aqui. Não há aqui nada para si, a Polícia disse-me que os avisasse se
aparecesse alguém, de modo que terei de lhes dizer que você tem um interesse mórbido
nesta casa.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— A senhora avisou a Policia acerca da visita de uma mulher francesa? —


perguntou Ferdinand perante o espanto da mulher gorda, que até àquele momento não
lhe prestara qualquer atenção.
— Quem é o senhor? O que é que lhe interessa aquilo que eu faço? — gritou.
— Sou parente do casal Levi. E a minha mulher veio até cá e...
— Outro judeu repugnante! — gritou a mulher.
Com um olhar, Inge indicou a Ferdinand que se calasse.
— Não, senhora Bruning, este senhor não é judeu, é um parente indirecto dos Levi. A
mulher dele é que era sobrinha. Parece que veio até aqui para saber o que é que lhes tinha
acontecido. E tenho a certeza que você a viu.
A porteira olhou Inge com uma expressão de ódio, antes de empurrar os dois na
direcção da porta.
— Não esteve aqui ninguém. Felizmente, já não temos judeus sujos a contaminar esta
casa. Vão-se embora ou chamo a Polícia.
Ferdinand esquivou-se a um dos empurrões da porteira e, virando-se para ela,
defrontou-a.
— A minha mulher esteve aqui — afirmou. — Diga-me para onde foi, se lhe disse
alguma coisa...
— Vá-se embora! Não esteve aqui ninguém.
— Onde estão Yitzhak e Sara? — perguntou Ferdinand. — Tem de o saber, não lhe
deve escapar nada.
— E eu é que havia de saber! Foram-se embora e é tudo. Oxalá esses porcos desses
judeus nunca mais voltem!
— Deviam ter-se despedido, ter dito para onde iam... insistiu Ferdinand.
— Não o fizeram. Dessa gente não se pode esperar nada, não têm o nossos valores,
nem a nossa educação. Limitaram-se a ir-se embora.
—A minha mulher perguntou-lhe por eles quando esteve aqui — afirmou Ferdinand.
Esforçava-se por parecer amável.
A porteira olhou-o com desprezo, mas Ferdinand leu-lhe nos olhos algo mais.
Interpretou aquele olhar como a confirmação de que vira Miriam, e que era dona de

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

um segredo que a fazia sentir-se superior.


— Por favor — suplicou —, diga-me o que sabe, dar-lhe-ei tudo o que tenho.
— Vá-se embora, não sei de que é que está a falar, e quanto a dar-me… não me pode
dar nada, não quero nada dos judeus, nem dos amigos deles.
Günter começou a chorar assustado, e Inge puxou a manga da gabardina de
Ferdinand para que este a seguisse, apesar de ele resistir a ir-se embora.
— Minha senhora, a única coisa que quero é que me diga onde estão os tios da minha
mulher, e se a viu a ela.., por favor!
— Vou chamar a Polícia, se não parar de me chatear.
— Pode chamar a Polícia, mas não pode afastar-me daqui. Esta é a casa de uns
parentes e se quiser, posso ficar. Não me pode expulsar, vemos o que dizem as autoridades.
Falarei com a minha embaixada.
A mulher olhou-o espantada. Aquele homem que falava alemão com sotaque francês
atrevia-se a confrontá-la. Hesitou por um momento, mas de imediato voltou a dominar a
situação.
— Muito bem, telefone para a sua embaixada ou a quem quiser, já veremos o que
acontece quando o contar à Polícia.
— Senhora Bruning, parece-me que tudo isto é desnecessário — interveio lnge. —
Posso garantir que este homem é parente dos Levi, de modo que você não pode impedir
que estejamos aqui.
— Vão-se embora! — gritou a mulher. Empurrou-os para fora da porta e fechou-a com
um murro.
Quando se encontraram na rua, Ferdinand preparou-se para volta atrás mas Inge
pediu-lhe que não o fizesse.
— Agora deve estar a ligar aos camisas-castanhas, estes virão e... bem, é melhor que
não estejamos aqui. Voltaremos depois.
— Sou um cidadão francês.
— Aqui não é ninguém, nem eu, somos ambos um nada, apenas eles são alguma
coisa. Primeiro dar-lhe-ão uma tareia, depois atirá-lo-ão para uma estrumeira, e ninguém
terá visto nada, nem saberá de nada. Dirão que se meteu nalgum sarilho, que é um
delinquente, qualquer coisa de que se lembrem, e a sua embaixada não fará nada. Ou

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

pensa que a França irá declarar guerra à Alemanha por sua causa?
Ferdinand calou-se e encolheu-se dentro da gabardina. Sentia-se mais impotente que
nunca.
— Miriam esteve em casa dos tios — afirmou num fio de voz. — Pode ser que sim,
mas eles já não estavam lá.
— Se perguntou àquela mulher...
— Se o fez, nunca saberemos o que se passou.
— Mas tenho a certeza que esteve na casa. Tenho de falar com os vizinhos. Alguém
deve saber alguma coisa.
lnge deteve-se bruscamente, e virou-se para ele com o rosto muito sério.
— Quero ajudá-lo, mas de uma maneira inteligente. Não sabe aquilo que está a
enfrentar.
— E você sabe?
— Sei. Vivo aqui, já vi milhares de pessoas a inscreverem-se num recenseamento para
judeus, a prenderem uma estrela amarela na roupa para poderem sair à rua. Já vi as suas
lojas e casas destruídas como as de Yitzhak e de Sara, e também vi desaparecerem colegas da
faculdade, comunistas como o pai do meu filho, e comprovei que as pessoas à minha volta
não vêem nada. Já lho expliquei, mas recusa-se a acreditar.
— Acredito, Inge — murmurou Ferdinand —, mas agora sei que Miriam esteve
aqui e tenho de fazer alguma coisa.
—E fá-lo-á. Mas voltar agora a casa de Sara e de Yitzhak não serviria de nada. Tenho a
chave da porta. Podemos regressar de noite ou noutra altura.
lnge explicou à porteira do prédio onde vivia que Ferdinand era parente de uns
amigos, que viera a Berlim numa viagem de negócios, e que lhe ia alugar um quarto durante
a sua estadia.
— Também é nazi? — perguntou Ferdinand a Inge, quando subiam as escadas até
ao andar dela.
— Não como a senhora Bruning, mas está encantada com Hitler. Diz que vai devolver
a grandeza à Alemanha. É amável comigo, à sua maneira. Foi ela que falou com os vizinhos
para lhes dizer que eu estava disponível para fazer trabalhos de limpeza.
Entraram no apartamento, situado no último piso. Era um sótão de tecto inclinado,
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

onde mal se conseguia estar de pé nalguns sítios. O vestíbulo, minúsculo, dava passagem
para uma sala e para duas portas. Uma conduzia à cozinha, a outra à casa de banho. Por sua
vez, a sala tinha outras duas portas que davam para os dois únicos quartos da casa.
— Vim viver para aqui quando o meu noivo desapareceu. O aluguer não é caro, a
dona vive no primeiro piso e aluga as águas-furtadas. São quatro ao todo. Ao meu lado, fica
a vizinha que lhe contei que comprava livros aos seus tios. É professora, solteira, sem filhos
e boa pessoa. Sente-se incomodada com o que se está a passar na Alemanha. Outra das
águas-furtadas é ocupada por um músico e pela mulher, um casal já idoso a quem custa
subir as escadas. Ele ganha a vida a tocar piano num restaurante. E na quarta, vive Hans.
Não sei qual o seu apelido, todos lhe chamam Hans. Está a estudar medicina. São bons
vizinhos, nós somos os pobres do edifício. Nos pisos de baixo, vivem pessoas abastadas.
Ferdinand desfez a maleta que levara consigo. Um fato, um casaco de malha, outro
par de calças e uns sapatos, para além de roupa interior e um par de camisas. O quarto era
pequeno, com uma janela oval de onde se via a rua. Uma cama, uma mesa, uma mesinha-
-de-cabeceira e duas cadeiras, para além do guarda-fato, ocupavam todo o quarto sem
deixar um único espaço livre. Mas o quarto era cómodo, alegre e limpo. Sentia algo de
estranho por se encontrar ali, mas continuava a pensar que preferia isso a estar sozinho.
Telefonou aos sogros para lhes explicar o que acontecera até àquele momento e
ficou satisfeito por David não estar em casa. Receava o momento em que tivesse que lhe
dizer que ainda não sabia nada da mãe. Explicou ao sogro que ia ficar na casa da empregada
do tio Yitzhak e da tia Sara, porque ia ajudá-lo a tentar encontrá-los; deu-lhes o número de
telefone para que David lhe telefonasse quando voltasse. Também lhes pediu direcções e
números de telefone de amigos judeus de Yitzhak e de Sara, alguém que lhe pudesse dar,
por mais pequena que fosse, uma pista acerca do paradeiro deles.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

lnge não tardou a preparar uma refeição ligeira. Uma tortilha com um pouco de
queijo. Depois ofereceu-lhe um chá. Günter comeu uma papa com leite e farinha, à qual
Inge acrescentou um ovo. O menino comeu sem refilar e de seguida, cansado, adormeceu
nos braços da mãe.
— Lamento não ter nada de melhor para lhe dar. Vivo apenas com o suficiente —
desculpou-se.
— A tortilha está boa e além disso não tenho fome. Mas já agora, tome. — Tirou umas
quantas notas da carteira. — Para além do aluguer do quarto, que me dirá quanto é, isto
ajudará a pagar os meus gastos, a comida, o telefone... enfim... Não quero ser um fardo.
— Obrigada disse ela, enquanto pegava no dinheiro. — Quanto ao aluguer... dê-me
aquilo que achar melhor. O que decidir estará bem.
Chegaram a acordo quanto ao valor do aluguer do quarto durante uma semana.
Ferdinand achava que nesse período de tempo conseguiria encontrar alguma pista de
Miriam e dos tios, e com alguma sorte regressar com eles a França. Inge não o quis
contrariar. Tinha a certeza que as coisas não iam ser assim tão fáceis.
Depois de comer, Ferdinand foi à Embaixada de França, mas não encontrou o
funcionário amigo do cunhado de Paul Castres. Pediram-lhe um cartão com o nome e
disseram-lhe que regressasse no dia seguinte às oito horas.
Quando saiu da embaixada, mandou parar um táxi e deu ao motorista uma das
direcções que o sogro lhe indicara.
O motorista observava-o através do espelho retrovisor. Ferdinand Começou a sentir-
-se incomodado.
— O senhor é francês — adivinhou o homem.
— Sim, sou francês.
— Fala bem alemão, mas o sotaque...
— Sim — admitiu Ferdinand.
— Vai para uma zona onde moram muitos judeus — disse o taxista, atento à reacção
dele.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Ferdinand achou melhor não responder. Que podia dizer àquele homem que, na
melhor das hipóteses, era nazi?
— Aqui, as coisas estão más para os judeus — insistiu o homem. — Sim, eu sei —
respondeu apático.
— Parece que têm culpa de tudo — disse o homem, num tom de troça.
— Não sabia...
— Bom, já chegámos. Esta é a casa que procurava e o veículo preto que vê ali parado
é da Polícia.
Saiu do táxi e dirigiu-se a passos rápidos para o edifício indicado. Premiu várias vezes
a campainha da porta até que uma mulher baixa e nervosa a abriu, olhando-o com uma
expressão de terror.
— Queria falar com o professor Bauer — disse a modo de cumprimento.
— Quem é o senhor? — perguntou a mulher.
— Sabe, parece que os tios da minha mulher, Sara e Yitzhak Levi, e também os meus
sogros conhecem o professor. Foram os meus sogros que me deram esta direcção. Este é
o meu cartão, sou professor da Universidade de Paris.
A mulher olhou-o com pena, e hesitou quanto àquilo que devia fazer. Mas
prontamente, convidou-o a entrar.
— Entre.
Acompanhou-a até uma sala na qual pediu que aguardasse.
O professor Bauer não demorou muito tempo a aparecer. O homem, já idoso, ainda
conservava uma certa presença física. Era alto, de costas largas, e os olhos, de um azul-
-escuro e intenso, brilhavam enérgicos.
— Quem é o senhor?
— Chamo-me Ferdinand Arnaud, e a minha mulher é sobrinha de Sara e Yitzhak Levi.
Desapareceram, e a minha mulher veio até Berlim e... também desapareceu.
Nos olhos do professor Bauer surgiu a compaixão que aquele homem, que se
apresentara de surpresa na sua casa, lhe causava.
Via que estava desesperado, e que fazia um enorme esforço para não enlouquecer
como tinha acontecido a tantos outros.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Conheço Sara e Yitzhak, e sei que desapareceram. Quanto à sua mulher, não tenho
qualquer notícia. Lamento.
A mulher entrou com um tabuleiro e um serviço de chá e, diligente, pousou-o em cima
de uma mesa baixa. Em seguida, saiu sem proferir palavra.
— A minha mulher, Lea, era muito amiga de Sara. Para falar verdade, foi a primeira
amiga que Sara teve em Berlim.
— O meu sogro contou-me... — murmurou Ferdinand.
— Conheci os seus sogros há alguns anos, depois vi-os nalgumas ocasiões, quando
vieram visitar Yitzhak e Sara.
— O que é que lhes aconteceu? — perguntou Ferdinand, temendo as respostas que o
professor Bauer lhe pudesse dar.
— Fizeram-nos desaparecer. Não são os primeiros, nem serão os últimos. Um dia
destes, acontecer-nos-á a nós.
— Mas como é que é possível?
— Somos judeus.
— Mas…
— Não sabemos muito, senhor Arnaud. Apenas que alguns judeus são levados para
campos de trabalho. Também não sabemos muito bem onde ficam esses campos. Ninguém
voltou para contar.
— Mas porquê? Não consigo compreender.
—Já lhe disse. Somos judeus, apenas judeus. De repente, deixámos de ser alemães.
— E isso significa...
— Que nos despojam das nossas posses, que não temos direito a possuir nada, que
sobrevivemos miseravelmente, que nos levam para campos de trabalho para fazer
funcionar as fábricas de armamento, que não podemos andar pela rua como cidadãos
normais, que perdemos os nossos empregos... Eu perdi a minha cátedra, senhor Arnaud.
Ensinei Medicina durante quarenta anos, mas como sou judeu parece que posso
contaminar os jovens alemães. Agora, vivo recolhido dentro de casa, embora tenha alguma
sorte. Alguns dos meus colegas desapareceram, fizeram-nos desaparecer.
— E como é que o professor...?

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Como é que continuo aqui? No meio do mal, também é possível encontrar o bem.
Nem todos os alemães são iguais, embora a maioria prefira olhar para outro lado e fingir
que não vê. Mas há pessoas boas, pessoas que fazem os impossíveis para lutar contra a
injustiça, correndo o risco do seu bem-estar. Tenho amigos que me tentam proteger,
professores como eu, colegas, doentes a quem salvei a vida como médico, que fazem os im-
possíveis para que vivamos, para que não desapareçamos como tantos outros judeus. Mas
sei que não seremos uma excepção, é apenas uma questão de tempo até que nos venham
buscar. Um dia desapareceremos, tal como Yitzhak e Sara.
— O que diz é uma loucura! Não é possível!
O professor Bauer olhou-o com pena. Não queria dar falsas esperanças àquele
homem, por maior que fosse o seu desespero.
— Sabemos que os camisas-castanhas destruíram a livraria de Yitzhak e fizeram uma
fogueira com os livros. Que os espancaram até lhes partirem vários ossos. Outro amigo
nosso, o doutor Haddas, foi socorrê-los ao ser avisado por uma jovem que trabalhava para
eles. Mas os camisas-castanhas regressaram passados alguns dias, e Yitzhak e Sara
desapareceram, tal como o doutor Haddas e a família. Acha que não tentámos descobrir o
seu paradeiro? Mas é como chocar contra um muro, ninguém sabe de nada.
— A minha mulher chegou a Berlim há alguns dias. Sei que esteve em casa dos tios,
porque encontrei isto. — Ferdinand mostrou o lápis para os lábios envolto num pano. —
Encontrei-o caído no chão da casa de banho, entre um monte de objectos partidos. A
porteira... acho que a porteira sabe de alguma coisa, mandou-nos embora.
O professor pediu a Ferdinand que se acalmasse e lhe explicasse em pormenor tudo o
que acontecera desde a sua chegada. Ouviu-o em silêncio, e sentiu a angústia profunda
destilada por cada palavra.
— As porteiras, os vizinhos.., muitos são a ponta de lança dos grupos de camisas-
-castanhas. Apressam-se a denunciar que nos seus prédios vivem judeus... depois, uma
noite, chegam esses selvagens e destroem tudo. Ela até pode ter visto a sua mulher, mas
ninguém a poderá obrigar a confessar. Sente-se forte. Na Alemanha, tanto se lhes dá um
judeu a mais ou um a menos.
— Mas posso denunciá-la.
— O que é que vai denunciar? Dirá que encontrou um lápis para os lábios que
pertencia à sua mulher e que desconfia que a porteira a viu. Nada mais. Desengane-se,
ninguém fará nada quanto a isso.
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— Mas quem a fez desaparecer? — perguntou Ferdinand, levantando a voz.


— A Polícia, os camisas-castanhas, a Gestapo... o regime, senhor Arnaud. Chame a
Polícia, faça-se acompanhar de alguém da sua embaixada, faça uma denúncia, mas ninguém
fará nada porque não vão ser eles a investigar.
— A minha mulher é francesa.
— Não sei o que lhe aconteceu, não sei, mas pelo que me contou não é difícil de
imaginar algumas das coisas que podem ter acontecido. Talvez tenha discutido com a
porteira ao perguntar-lhe por Yitzhak e Sara, talvez essa nazi a tenha denunciado e os seus
amigos da Polícia ou dos camisas-castanhas tivessem aparecido para a deter. Estamos em
guerra, professor, a sua embaixada apresentará os pedidos necessários, mas se alguém se
irritou com a sua mulher... ou se alguém decidiu castigá-la pela sua atitude ao enfrentá-
-los.., então, pode ter acontecido qualquer coisa.
Ferdinand escondeu o rosto entre as mãos e começou a chorar. Não suportava ouvir
aquelas palavras. Aquele homem não o deixava ter nem um pouco de esperança. Recusava-
-se a admitir que na Alemanha que ele conhecera, a da razão e da inteligência, aquilo
estivesse a acontecer. Agora, mal reconhecia aquele país.
— Está a querer dizer que me renda e regresse a França? — perguntou ao médico,
com a voz alterada.
— Estou apenas a descrever-lhe a situação, nada mais. Desculpe-me por o fazer.
— Poderiam Sara e Yitzhak ter-se escondido na casa de algum amigo?
Bauer hesitou antes de lhe responder.
— Professor Arnaud, se estivessem escondidos sabê-lo-íamos, ter-nos-iam avisado,
garanto-lhe.
— O que é que posso fazer? O que é que o senhor faria?
— Já lhe disse. Tentaria procurá-los, mas sabendo o que enfrentar.
Nesse momento, entrou Lea, a mulher do doutor Bauer. Era uma mulher baixa e
nervosa, que apertava as mãos com um gesto de impotência.
— Professor Arnaud, há alguns meses desapareceram o nosso filho e a mulher com
os nossos dois netos, o mais velho de vinte e um anos, o mais novo de dezassete. Fizemos
os impossíveis para saber do seu paradeiro, os amigos que tão generosamente nos ajudam,
tentaram tudo, mas não conseguimos saber nada, apenas que é provável que estejam num

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

campo de trabalho, apenas isso. Contudo, nem sequer temos a certeza se estão vivos. Por
isso, o meu marido não lhe mente, nem lhe diz palavras que o possam consolar.
A mulher começou a chorar, e secou as lágrimas com um lenço. O professor Bauer
levantou-se e abraçou-a.
— Vamos, querida, vamos, não chores.
— Lamento murmurou Ferdinand —, lamento...
— Não precisa de se desculpar, compreendemos a sua dor, porque também é a
nossa, e é a de tantos outros da nossa comunidade que um dia viram desaparecer os pais,
os filhos, um sobrinho, um neto. Todos os dias chegam-nos notícias desses
desaparecimentos. A sua mulher é francesa, pode ser que tenha sorte e consiga... Não
quero ser cruel consigo, mas será difícil que a libertem só porque é francesa. Se a
maltrataram, se a enviaram para um campo, como admiti-lo? Lamento, senhor Arnaud,
lamento ter sido eu a dizer-lhe a verdade. A minha mulher e eu sabemos o que está a
sofrer...
O professor Bauer entregou-lhe uma lista com as direcções dos amigos mais íntimos
de Sara e Yitzhak, e insistiu que fosse prudente, pois era possível que a Polícia já o estivesse
a seguir.
— Decerto que a porteira da casa dos Yitzhak avisou os amigos que o senhor anda a
pedir informações acerca da sua mulher e tios. Tenha cuidado, por si e por nós.
— Inge... bem, Yitzhak e Sara confiavam nela? Ofereceu-se para me alugar um quarto,
e aceitei. Não sei se me precipitei...
— É uma boa rapariga — garantiu Lea. — Comunista como o noivo, só que não a
prenderam ou, como ela diz, o pai, apesar de não lhe falar, protege-a e evita que a
detenham.
— Também é comunista? — perguntou Ferdinand, surpreendido.
— Sim, quem me contou foi Sara. Ela e o noivo pertenciam à mesma célula, mas um
dia ele desapareceu. Tinha de distribuir uns panfletos na universidade. Devem-no ter
detido, porque nunca mais se voltou a saber nada dele. Inge teve o filho, e parece que se
afastou um pouco dos antigos colegas, mas não sei bem. Acho que se pode confiar nela.
— Obrigado.., não sei como agradecer o que fizeram por mim.
— Não fizemos nada, a não ser tirar-lhe ainda mais as esperanças.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Por favor, mande cumprimentos aos seus sogros — pediu-lhe o professor Bauer. —
Foram uns excelentes anfitriões quando estivemos em Paris.
Ao sair, Ferdinand reparou que, na esquina, o veículo negro, com dois indivíduos que
lhe pareciam sinistros, continuava no mesmo lugar. Decidiu caminhar para pôr em ordem as
emoções. Estava exausto, não apenas porque ainda não descansara da viagem, mas por
tudo o que vivera nas últimas horas. Deteve-se numa loja que estava prestes a fechar.
Comprou maçãs, café, chá, farinha, bolachas, massa, manteiga e fiambre, pensando que,
desse modo, estava a fazer com que a sua estadia fosse menos dispendiosa para Inge.
Teve que andar mais do que previra até encontrar um táxi, e sentiu-se aliviado
quando entrou num. Conhecia Berlim, mas não suficientemente bem para não se perder.
Inge acabara de dar banho a Günter e estava a dar-lhe de comer. O bebé tinha sono
e adormeceu assim que a mãe o deitou.
Ferdinand contou-lhe a visita que fizera à embaixada e à casa dos Bauer, além do que
estes lhe tinham contado, excepto que pensavam ser ela uma militante comunista. Parecia
distraída, como se estivesse noutro sítio.
— Posso pedir-lhe um favor?
Ferdinand olhou-a surpreendido. Ficou tenso, era ele que precisava de favores, mas
respondeu afirmativamente.
— Tenho de sair durante uma hora, talvez duas... Günter é muito bonzinho e dorme
durante toda a noite, mas ficaria mais tranquila se soubesse que está junto dele. Só lhe
peço que deixe a porta do seu quarto entreaberta, pois se acordar começa a chorar.
Disse-lhe que podia contar com ele, e até brincou, afirmando que estava tão cansado
que ele mesmo iria dormir tão profundamente que não ouviria nada. Ela sorriu, distraída, e
assim que arrumou os pratos do jantar despediu-se.
— Não voltarei muito tarde, muito obrigada por tratar do menino.
Onde iria? Teve o pressentimento que ia reunir-se com os seus camaradas
comunistas.
Decidiu telefonar a David e falar com ele, agora que estava sozinho.
O filho perguntou-lhe angustiado se descobrira o paradeiro da mãe, e ele contou-lhe
o que se passara e para não perder a esperança. Em seguida, voltou a falar com o sogro,
que lhe pediu que continuasse à procura de Miriam, insistindo para que não se
preocupasse com David, pois tratariam dele como se fosse uma jóia.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Quando, por fim, se enfiou na cama, sentiu uma enorme vontade de chorar. Onde
estava Miriam? Voltaria a vê-la ou teria desaparecido para sempre?
Teve dificuldade em adormecer. Eram duas da madrugada quando olhou para o
relógio pela última vez. Inge ainda não regressara. Também lhe teria acontecido alguma
coisa?

— Acorde, ou chegará atrasado.


Na soleira da porta, Inge, apesar de perfeitamente vestida e penteada, mostrava que
não dormira.
— São seis e meia, vou fazer café e torrar pão. Quer tomar o pequeno-almoço?
Ferdinand assentiu, e dirigiu-se à casa de banho onde, depois de um duche, começou
a arranjar-se rapidamente. Vinte minutos depois, estavam ambos sentados à mesa, a
tomar o pequeno-almoço.
— Isto é um luxo — disse Inge —, normalmente não posso comprar café, é
demasiado caro para mim.
Depois do pequeno-almoço acordou Günter, deu-lhe leite com bolachas e vestiu-o
com rapidez.
— Hoje tenho três casas para limpar, de modo que só nos veremos à tarde, a não ser
que queira vir almoçar. Ao meio-dia, volto a casa para dar de comer a Günter, e depois
continuo a trabalhar.
— Não se preocupe comigo. Tenho de ir à embaixada e quero visitar alguns outros
amigos de Sara e de Yitzhak. Não tenho outras pistas.
Ela mordeu o lábio. Ia dizer-lhe alguma coisa, mas arrependeu-se. De seguida, saiu
com o bebé ao colo.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Esperavam-no na embaixada. O funcionário ouviu-o com paciência e amabilidade, até


Ferdinand terminar o seu relato.
— Bom, como já o devem ter informado, fizemos tudo o que foi possível para
encontrar a sua mulher. Eu mesmo fui a casa dos senhores Levi, e logo à partida a atitude da
porteira não foi das melhores. Estava ansiosa que eu me viesse embora, e não me deu
nenhum explicação, excepto que os tios da sua mulher não estavam. Falámos com alguns
amigos que ainda nos restam na Polícia e com o Ministério dos Negócios Estrangeiros ale-
mão. Todos prometeram o máximo de interesse no caso, mas até agora não nos deram
qualquer motivo para o que aconteceu.
— Mas estão a fazer alguma coisa? — perguntou Ferdinand, sem esconder o
desespero.
— Oficialmente aceitam as nossas petições, ouvem-nos e garantem-nos que farão
tudo que estiver ao seu alcance.
— E o senhor acredita neles?
O funcionário baixou os olhos, procurou um cigarro, ofereceu outro a Ferdinand, e
depois respondeu. Precisara desses segundos para avaliar se podia dar uma resposta
relativamente honesta àquele homem desesperado.
— As minhas opiniões pessoais não interessam, senhor Arnaud. O senhor sabe o
que se está a passar. A Alemanha está em guerra, primeiro foram os Sudetas, depois...
veremos, mas Hitler continuará a fazer avançar os seus exércitos até submeter toda a
Europa. Nesta altura, a posição de França está muito comprometida. Hitler considera-se
invencível, não teme nada nem ninguém, não existe país que respeite.
— Por favor, já sei qual é a situação política.
— Saberá mesmo? Bem, então, não lhe será difícil compreender que no Ministério
dos Negócios Estrangeiros alemão o menor dos problemas deles seja a sua mulher.
Lamento ter de lhe dizer isto.
— O Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão não se preocupa com o
desaparecimento e denúncia de uma cidadã francesa?
— Não, não se preocupa. Essa é a verdade. Tomam nota, fizeram-me preencher

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

vários formulários, e foi tudo.


— E a Polícia? — perguntou Ferdinand, como se não tivesse ouvido as últimas
palavras.
— A Polícia diz que, embora tenhamos garantido que a sua mulher apanhou em Paris
um comboio com destino a Berlim, isso não significa que tenha chegado à cidade, pode ter
descido em qualquer estação... Ninguém a viu, não temos nem uma única prova de que a
sua mulher chegou a Berlim.
Ferdinand tirou do bolso do casaco um lenço, no qual envolvera o lápis para os lábios.
— Encontrei-o no chão da casa de banho dos seus tios. Pertence a Miriam.
O homem olhou para o objecto, sem lhe tocar.
— Bom, enviarei uma mensagem à Polícia e ao Ministério dos Negócios Estrangeiros
a contar o que descobriu. Acha bem?
— Sim, mas faça mais qualquer coisa. Pergunte à Polícia se interrogaram o revisor do
comboio. Decerto que lhe pediu o bilhete. Ele pode dizer se ela saiu em Berlim.
— Tem uma fotografia da sua mulher?
— Sim, trouxe várias.
Tirou da carteira quatro fotografias de Miriam. O funcionário olhou-as, curioso. As
imagens eram as de uma mulher madura, com cerca de quarenta anos, alta, magra, cabelo
castanho claro e curto, e olhos castanhos.
— Agora diga-me que mais posso fazer — perguntou o professor, desesperado.
— Esperar, nada mais. Se quiser regressar a Paris, entraremos em contacto consigo se
houver alguma novidade.
— O que é que faria se tivesse sido a sua mulher a desaparecer nestas circunstâncias?
— Rezava.
Ferdinand não esperara uma resposta que lhe pudesse sobressaltar de tal modo a
alma.
— O que é que aconteceu à minha mulher? —perguntou, já sem forças.
— Garanto-lhe que não sei. Dou-lhe a minha palavra que estamos a fazer tudo o que
nos é possível.
— Mas sem confiança, sem fé. Para vocês é um assunto de rotina.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Senhor Arnaud, garanto-lhe que compreendo a sua angústia, mas por mais incrível
que pareça, é difícil fazer mais do que aquilo que estamos a fazer. Hitler alterou as regras, e,
como lhe disse, despreza tanto os seus amigos quanto os seus aliados, e na Alemanha ele é
a lei.
— Quero que interroguem o revisor — insistiu Ferdinand.
— Pedi-lo-ei.
Combinaram voltar a encontrar-se dali a alguns dias. Não tinha mais nada para fazer,
por isso dirigiu-se à estação. Ali, andou de um lado para o outro até que decidiu aproximar-
-se de um dos guichés e perguntou pelo chefe da estação.
Quando conseguiu encontrar o homem, este ouviu-o impaciente como se se tratasse
de um louco. O comboio de Paris já tinha chegado e o revisor estava a descansar. Podia
tentar noutro dia, embora fosse difícil que ele se lembrasse de uma passageira daquele
comboio. Por acaso acontecera algo de especial? O livro de incidentes não tinha qualquer
registo no dia 20 de Abril.
Despediu-se sem muitas contemplações, e Ferdinand sentiu-se tão sozinho como
nunca imaginou que viria a sentir-se.
Decidiu continuar a visitar a lista de amigos de Yitzhak e de Sara, que o sogro lhe dera.
A loja dos Landauer não ficava distante, de modo que se dirigiu para esta a pé.
O edifício era imponente e os transeuntes daquela rua davam a impressão de serem
pessoas abastadas. Procurava uma loja de antiguidades. O sogro dissera-lhe que era uma das
melhores de Berlim. Devia tê-lo sido, mas agora estava fechada e com as montras partidas.
Era evidente que a loja dos Landauer recebera a visita dos camisas-castanhas. Entrou pela
porta adjacente e perguntou à porteira pela família Landauer.
— Foram-se embora — disse a mulher. — Não me parece que regressem.
— E o que é que aconteceu à loja?
— Eram judeus — respondeu a mulher, como justificação.
— Que eu saiba, eram alemães. — Ferdinand sentia-se dominado pela raiva.
— Judeus, eram judeus — insistiu ela.
— Para onde os levaram?
— Levaram? Eu não lhe disse que os tinham levado, apenas que se foram embora. E o
senhor quem é? Outro judeu?
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Observou-a com raiva, ia dizer-lhe que não, que não era judeu, mas fez
exactamente o contrário.
— Sim, também sou judeu. Vá depressa denunciar-me aos seus amigos.
Afastou-se da porta a passos rápidos, a tentar controlar a respiração. Seriam todas as
porteiras de Berlim iguais? Perguntou-se se aquela mulher, se todos aqueles que tinham
transformado os judeus em bodes expiatórios das suas loucuras, iam à missa, se seriam
cristãos, se se aperceberiam que o cristianismo nascera de Jesus, um judeu.
Não teve mais sorte nas direcções seguintes. Ninguém lhe soube dar notícias das
famílias pelas quais perguntava. Tinham-se ido embora, diziam. Nada mais.
Mas na última morada, foi uma mulher com cerca de trinta anos, cheia de cabelos
brancos e o medo a aparecer-lhe nos olhos, que lhe abriu a porta.
— Por favor, gostaria de falar com o senhor Schneider.
— É o meu pai, mas não está. Quem é o senhor?
Ferdinand explicou-lhe rapidamente quem era e porque é que estava ali. A mulher
convidou-o então a entrar.
— Yitzhak e Sara são amigos dos meus pais, conheço-os bem, passámos muitos
sabbats com eles. Visitámo-los quando... quando aconteceu aquilo na livraria. Depois,
desapareceram. O meu pai aproximou-se várias vezes da casa, com muitas precauções. Já
sabe que os judeus não são bem recebidos em lugar algum.
— Pelo menos, vocês continuam aqui.
— Por quanto tempo? O senhor já o comprovou. De repente, um dia, as pessoas
desaparecem, deixam de existir. Dizem que levam os judeus para os campos de trabalho.
Mas os idosos e as crianças, para quê? Tenho duas filhas e consegui enviá-las para fora da
Alemanha, é a única coisa de que me sinto satisfeita.
— Para fora da Alemanha? Para onde as enviou?
— Temos família nos Estados Unidos, um irmão meu partiu para esse país há alguns
anos. Eu... eu trabalhava no Ministério dos Negócios Estrangeiros até que me despediram.
Ali ouviam-se muitas coisas, também há pessoas boas, embora estejam tão assustadas
como nós. Vou contar-lhe o que se passou. O meu chefe era um homem bom, e um dia
chamou-me para dizer que tinha de me despedir, que eu não era pessoa de confiança
aos olhos dos novos senhores da Alemanha, e deu-me um conselho. «Vai-te embora, fá-lo
antes que seja demasiado tarde. Parte com as tuas filhas e ajudar-te-ei no que puder.» Eu
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

não quis deixar os meus pais, porque eles resistiram a deixar esta cidade, diziam que eram
alemães. Porém, decidi que se aquele homem me estava a falar assim era por um motivo
muito grave, de modo que entrei em contacto com o meu irmão e perguntei-lhe se podia
ficar com as minhas filhas. Dou graças a Deus por viverem em segurança, em Nova Iorque.
— Onde é que estão agora os seus pais?
— Foram encontrar-se com amigos, espero que não lhes tenha acontecido nada.
Quando se sai de casa, nunca se sabe se se vai voltar.
Não ficou muito mais tempo. Sabia que a mulher não podia lançar nenhuma luz sobre
o desaparecimento de Yitzhak e de Sara, e muito menos de Miriam.
Deambulou sem rumo pela cidade, e entrou em várias lojas para comprar comida
para levar a Inge. Quando esta o viu carregado de embrulhos, repreendeu-o.
— Não deveria comprar tantas coisas. Agradeço-lhe, mas não quero que se sinta
obrigado, já paga pelo seu quarto.
— Não a quero ofender — desculpou-se.
— Não, não me ofende. Antes pelo contrário, sou eu que não quero que sinta ter a
obrigação de me ajudar. Aceito a vida como ela é. Na verdade, eu é que escolhi o que me
acontece.
Ferdinand indignou-se ao ouvi-la falar assim. Não, ela não escolhera ter nazis como
família, nem nascer num país à beira da loucura, nem que o seu noivo tivesse desaparecido,
nem que não pudesse trabalhar noutra coisa para além de limpar casas. Ele não escolhera o
que se estava a passar, de modo algum escolhera aquele pesadelo.
Jantaram quase em silêncio. Günter adormecera há um bocado. Inge estava cansada,
e ele também. Ajudou-a a levantar os pratos e depois pediu-lhe autorização para telefonar
ao filho. A conversa com David foi difícil, mas não o podia enganar nem dar-lhe falsas
esperanças.
— Filho, continuo à procura da tua mãe, faço o impossível, mas se soubesses como
está este país...
A David pouco lhe importava a situação da Alemanha. A única coisa que queria era
encontrar a mãe, não aceitava que tivesse desaparecido, nem que os tivesse abandonado
sem mais nem menos. Sabia que ela não os deixaria por nada no mundo.
Dormiu toda a noite, e ficou surpreendido quando na manhã seguinte, lnge o
acordou.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Tenho de ir trabalhar. Deixei-lhe café na cozinha.


— Que horas são?
— Oito. Como não me disse que tinha de se levantar cedo, pensei que lhe faria bem
dormir mais um pouco.
Assim que ouviu a porta fechar-se, saltou da cama. Não tinha nada que fazer. Já
visitara os amigos de Yitzhak e de Sara que o sogro conhecia, e devia dar algum tempo ao
funcionário da embaixada. Não podia apresentar-se todos os dias, a pedir notícias. De
repente, lembrou-se do conde d'Amis. Pedira-lhe ajuda e ele não dissera nada.
Quando o conde atendeu o telefone, pareceu-lhe mal-humorado, e durante a
conversa mostrou-se seco e incisivo. Mas depois de muita insistência aceitou dar-lhe o
número de telefone do barão Von Steiner, para que lhe telefonasse em seu nome.
O barão estranhou a chamada dele, mas aceitou recebê-lo nessa tarde às três horas
no seu escritório.
Ferdinand regressou à estação. Daquela vez também não teve sorte, já que não
encontrou o revisor do comboio procedente de Paris. Passeou por Berlim, sem destino.
Sabia que não ia conseguir nada, mas decidiu regressar a casa dos tios de Miriam.
Andou para baixo e para cima ao longo do passeio. Fixou o olhar nas montras partidas
da livraria, em cuja porta tinham pregado madeiras para impedir a entrada a intrusos. Não
viu a porteira, nem ninguém entrar ou sair da porta. Parecia um edifício desabitado,
embora soubesse que não o estava. Voltou a ter a sensação que alguém o observava do
segundo piso, mas não conseguiu identificar quem era.
Regressou a casa de lnge, no exacto momento em que esta dava de comer ao filho.
— Quer que lhe prepare alguma coisa? — ofereceu-se ela.
— Não, não se preocupe, não tenho fome. Beberei um chá e comerei umas bolachas.
— Tem de comer, não lhe servirá de nada não o fazer. Pensa-se mal com o estômago
vazio.
— Sim, mas não tenho vontade, depois janto. Às três, vou-me encontrar com um
homem, o barão Von Steiner.
— Von Steiner? Conhece-o?
— Conheci-o há pouco mais de um ano, no Sul de França, no castelo do conde d'Amis.
Já lhe contei que sou perito da Idade Média e dou aulas na Universidade de Paris.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— É um homem muito bem relacionado. Se alguém o pode ajudar é ele, deveria ter
começado por aí.
— Conhece Hitler?
— Presumo que sim. Tem muito dinheiro e é daqueles que dizem que a Providência
trouxe-nos Hitler para salvar a Alemanha.
— E como sabe o que é que diz?
— Porque leio os jornais e oiço a rádio, tal como o senhor.
Inge acabou de dar de comer a Günter e deixou o pequeno sentado no chão,
cercado pelos seus brinquedos, enquanto ela se voltava a preparar para sair.
— Hoje não tenho tanto trabalho, mas ontem deixei algumas coisas para engomar
em casa da minha senhoria, e por isso estarei algumas horas ausente. Espero-o para jantar?
— Se não se importar...
— Claro que não! Embora não sejamos a melhor das companhias um para o outro,
porque ambos temos problemas, sempre é melhor jantar acompanhados que sozinhos.
Faltavam cinco minutos para as três quando premiu a campainha do escritório de Von
Steiner, situado num edifício no centro da cidade.
Um homem abriu-lhe a porta e convidou-o a entrar para uma sala de espera, onde
cada pormenor evidenciava não apenas bom gosto, mas também a situação económica do
seu proprietário: os quadros, o tapete, as cadeiras de cabedal, a mesa de mogno...
Às três em ponto, acompanhou-o até ao gabinete do barão.
— Senhor Arnaud, que surpresa!
— Eu sei, barão, obrigado por me receber.
— Diga-me, que faz em Berlim? Tem alguma coisa a ver com as suas investigações
acerca de Frei Julián? — riu-se o barão da própria piada.
— Não, barão, tem a ver com a minha mulher.
— A sua mulher?
Ferdinand voltou a explicar o que acontecera. De tanto o fazer, já depurara a história
até lhe deixar apenas o essencial.
O barão ouviu-o sem se alterar. Cruzou as mãos em cima da secretária e pareceu
hesitar antes de falar.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— O que me conta é muito estranho. Sinceramente, custa-me a acreditar que alguém


pudesse desaparecer assim, a não ser...
— A não ser...
— A não ser que esse desaparecimento fosse voluntário, perdoe a minha franqueza.
Dessa vez foi Ferdinand quem hesitou na resposta. Era a terceira vez que alguém
sugeria que Miriam desaparecera voluntariamente. Primeiro, o funcionário do Quai d'Orsay,
em seguida o funcionário da embaixada, e agora o barão. Sentia-se impotente e zangado
perante aquelas insinuações. Parecia-lhe repugnante ter de se justificar perante estranhos.
Mas voltou a fazê-lo mais uma vez, sentindo a impaciência do barão que olhava
dissimuladamente para o relógio.
—... não quero roubar o seu tempo, apenas lhe peço ajuda. O senhor pode conseguir
que a Polícia leve o meu caso a sério, que investiguem, que interroguem o revisor.
Quanto ao desaparecimento dos tios de Miriam, para minha surpresa não são os únicos.
Parece que os judeus alemães desaparecem de um dia para o outro, e ninguém sabe nada a
respeito deles, excepto que são levados para campos de trabalho. Porquê? Como podem
desaparecer assim? O que é que se passa com os seus negócios, com os seus empregos?
Parece-me terrível o que está a acontecer aqui.
O barão deu um murro na mesa, sem esconder a sua indignação.
— Como se atreve a criticar-nos? Os judeus.., aqui ninguém desaparece, há muitos
criminosos que vão para campos de trabalho. Os judeus receberam muito da Alemanha, e
chegou o momento de devolverem o que receberam. E é neste momento que precisamos
de mãos nas fábricas para enfrentar os desafios fixados pelo Führer. Os nossos jovens
preparam-se para ir para a frente de batalha, os melhores homens da Alemanha estão
preparados para morrer pela sua pátria, e o senhor preocupa-se porque uns quantos... uns
quantos judeus trabalham. É indigno!
Não soube se se devia calar ou trair as suas convicções. Foi um momento difícil em
que se sentiu destroçado, mas por fim decidiu que atraiçoar-se a si mesmo seria atraiçoar
Miriam e David.
— Barão, não partilho dos ideais políticos do seu Führer, e muito menos no que se
refere aos judeus. Os tios de Miriam são alemães, os judeus que vivem na Alemanha são
alemães. Cada homem deve poder rezar ao Deus que quiser, sem que isso tenha a ver com
patriotismo ou com o local onde nasceu. Entre os melhores cérebros da Alemanha
encontrará muitos judeus, não se pode escrever a história deste país sem eles, e o senhor
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

sabe disso. Mas não vim para discutir, apenas para lhe pedir ajuda. Pode ajudar-me?
— O barão Von Steiner olhou-o fixamente e, depois, levantou-se da cadeira.
— Dê à minha secretária todos os dados relativos à sua mulher e tios. Telefonar-
-lhe-ei. E agora, senhor Arnaud, tenho muito que fazer. Recordo-lhe que os nossos
países não estão propriamente nas melhores relações.
Despediram-se com uma inclinação fria e rápida da cabeça. A secretária
acompanhou-o até à porta, depois de anotar rapidamente a informação que o professor
lhe deu.
— Ferdinand olhou para o relógio. Não estivera nem vinte minutos naquele
gabinete. Respirou fundo, reconfortado pelo ar frio e pela chuva que começava a cair
com força. Só lhe restava esperar que a embaixada ou o barão lhe dessem alguma pista. A
espera, por mais curta que fosse, parecia-lhe eterna.
— Quando chegou a casa, Inge estava a fazer o jantar e ouvia rádio, enquanto Günter
brincava sentado no chão. Parecia satisfeita.
— Que tal correu o encontro com Von Steiner? — perguntou.
— Não muito bem, mas espero que me ajude.
Contou-lhe o que tinha acontecido, bem como a vergonha que sentira por ter de
defender o seu casamento perante desconhecidos. Em seguida, pediu-lhe autorização para
telefonar a David. Falou com o filho, que lhe Pareceu ainda mais angustiado. A mãe de
Miriam disse-lhe logo que David mal comia, que há dias que se recusava a ir para o liceu, e
que quase não dormia. Pediu para voltar a falar com o filho, para o tentar convencer de que
tinha de ser forte.
— Tens de o ser, por ti, por ela, e também por mim. A tua mãe não se renderá, esteja
onde estiver, de modo que nós também não o podemos fazer.
— Mas onde está? Onde achas que está? —gritou David.
A conversa com o filho deprimiu-o ainda mais. Sentia-se inútil, perdido, sem saber qual
o rumo que devia seguir. Inge observava-o em silêncio, enquanto punha a mesa. Dirigiu-se
ao quarto, precisava de estar só.
Uma hora depois, Inge chamou-o suavemente à porta do quarto.
— Günter adormeceu. Quer jantar? Sei que não há motivos para celebrarmos, mas
preparei um strudel com as maçãs que comprou. Espero que goste. Não que seja muito boa

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

cozinheira, mas adoro fazer tartes.


— Estavam a jantar em silêncio quando a campainha os sobressaltou. Inge levantou-se
e foi abrir a porta. Ouviu-a falar com um homem, que depois entrou na sala.
— O jovem era alto e vestia um uniforme militar. Estava de mão dada com Inge, e
ela parecia tranquila ao lado dele.
— Ferdinand, apresento-lhe o meu irmão Gustav. Acaba de chegar de licença. É a
única pessoa da minha família com quem me dou. De vez em quando, vem-me visitar.
Apertaram a mão e o jovem sentou-se com eles, a partilhar o jantar. Inge explicou
quem era o seu hóspede e porque é que estava ali. Gustav ouvia e fazia perguntas,
interessado em tudo quanto Ferdinand contava.
— Lamento o que está a acontecer, embora não ache estranho. Na Alemanha, estão a
acontecer tantas coisas...
Gustav deu notícias do resto da família a lnge. A cada dia que passava, a mãe
mostrava-se mais fanática. Adorava Hitler e colocara a fotografia dele num nicho, como se
se tratasse de um santo. O pai queixava-se das muitas horas de trabalho devidas à
necessidade de limpar as ruas da escória «o que quer dizer, judeus, comunistas,
homossexuais... todos aqueles que não são nazis».
A irmã mais nova, Ingrid, continuava na escola, e os pais estavam a convertê-la numa
perfeita nazi.
Ferdinand interessou-se pela opinião do irmão de Inge, acerca daquilo que estava a
acontecer no país.
— Eu queria ser soldado antes de tudo isto, talvez porque desde pequeno que os
meus pais me diziam que o melhor era ter uma posição segura no Estado. Não gostava
de ser polícia, abomino o que o meu pai faz, e ser soldado parecia-me mais digno, mas
agora... sei que terei de combater, mas não temos nenhum inimigo. Hitler decidiu «salvar» a
Europa, e para eles nada melhor do que a Alemanha para dirigir a Europa. Sou soldado e
obedeço. Não faço perguntas, mas penso, e embora não partilhe as ideias de Inge, não
creio que deva morrer pelas deles, como também não acredito que os judeus sejam o
motivo dos problemas da Alemanha. Mas, como lhe digo, eu não decido, só obedeço.
Quando acabaram de jantar, Ferdinand ofereceu-se para levantar os pratos enquanto
os dois irmãos falavam. Depois, deu-lhes as boas-noites. Não lhes queria impor a sua
presença. Reparara que Inge estava ansiosa por saber notícias da família. Deitou-se na cama

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

e começou a ler, enquanto o sono não chegava.


De manhã, tomou o pequeno-almoço com Inge, e ofereceu-se para ficar com
Günter já que não tinha nada para fazer.
— Se quiser posso levá-lo ao parque, hoje não está a chover...
— E se lhe telefonam?
—Bom, a Inge está a limpar o andar de baixo, de modo que lhe levaria imediatamente
o menino.
Ela aceitou, encantada. Disse-lhe que assim o trabalho renderia mais e acabaria mais
depressa, o que lhe saberia bem para poder descansar um pouco. O trabalho era duro,
doíam-lhe as costas e também os joelhos por estar tantas horas ajoelhada a esfregar o
chão.
— Porque não tenta terminar os estudos? — perguntou-lhe ele.

— Eu estava a estudar filologia, queria ser professora, mas foi um sonho que enterrei.
Já lhe disse que aceito a vida como ela é. Não serei professora, serei o que agora sou. Pelo
menos, posso sustentar o meu filho, e andar para a frente.
Ferdinand levou a criança a passear. Günter era um menino bem-comportado e,
apesar de ser muito pequeno, parecia saber que tinha de se portar bem e não ser um
incómodo para a mãe quando esta trabalhava, já que só assim é que o poderia levar com
ela.
Levou-o até o parque e fê-lo dar alguns passos, agarrado à sua mão. Seria uma
surpresa para Inge ver aqueles avanços, já que se queixava de que o menino estava um
pouco atrasado no andar.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Os dias começaram a ter a sua própria rotina. De manhã, saía com Günter, que
evoluía rapidamente e já andava quase sozinho, e de tarde habituara-se a ir a casa dos
Bauer ou dos Schneider, para saber se tinham alguma notícia de Yitzhak e de Sara. Também
fora mais duas vezes à estação para tentar falar, sem êxito, com o revisor.
Dez dias depois da sua chegada a Berlim, recebeu a chamada do funcionário da
embaixada, que lhe marcou uma reunião para o dia seguinte às oito horas.
Apareceu nervoso e pontual. Receava saber que continuavam sem notícias de
Miriam.
— Senhor Arnaud, tenho algumas informações que o Ministério dos Negócios
Estrangeiros me enviou.
Entregou-lhe uma pasta cujo conteúdo era desolador. Não existia qualquer
informação de que uma cidadã francesa tivesse sofrido qualquer acidente na Alemanha,
nem que estivesse internada nalgum hospital. Também não havia notícias de nenhum
incidente em que estivesse envolvida uma cidadã francesa, pelo que nem os comissariados
nem os centros de detenção tinham notícias dela. Não havia qualquer informação de que a
dita cidadã tivesse chegado a Berlim. O Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão dava o
assunto como encerrado.
— Assim, de um modo tão simples? — perguntou Ferdinand, decepcionado.
— Simplesmente assim. A nível oficial, o caso está encerrado.
— Não pode insistir? — suplicou ao funcionário.
— Posso tentar, mas não se darão ao trabalho de fazer nada. Voltarão a enviar-me
um relatório semelhante a este.
— Acha que fizeram alguma coisa, que a tenham procurado?
— Senhor Arnaud, aquilo que eu acho é indiferente. Eles dizem que o fizeram e é este
o resultado. O que sei é que não farão mais nada.
— E a Polícia?
— Já sabe que temos aí alguns contactos, mas ainda não nos disseram nada. Hoje de
manhã, antes de o senhor chegar, falei com o nosso contacto, e garanto-lhe que não tinham

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

qualquer conhecimento acerca do paradeiro da sua mulher. Estão até convencidos que
nunca chegou a Berlim.
— E interrogaram o revisor?
— Parece que o localizaram e lhe mostraram a fotografia da sua esposa, mas ele não
se lembra dela. O embaixador disse-me para o informar que continuaremos a envidar todos
os esforços que se encontram ao nosso alcance, mas que não lhe podemos dar esperanças e
prometer-lhe resultados. É como procurar um fantasma.
— A minha mulher é real. Ela chegou a Berlim e esteve em casa dos tios.
—Não duvido, senhor Arnaud, mas tem de compreender que não podemos fazer
mais do que aquilo que estamos a fazer.
— Acho que as autoridades alemãs não estão a fazer nada — sentenciou Ferdinand.
— O que não compreendo é porquê.
O homem calou-se, enquanto o olhava. Era um diplomata, mas também não tinha
resposta para essa pergunta.
Saiu abatido da embaixada. Sabia que não iam fazer mais nada, e possivelmente
enviar-lhe-iam de vez em quando uma informação concisa: sem notícias do paradeiro da
senhora Arnaud.
Se regressasse a Paris, estaria a admitir que considerava Miriam perdida para sempre.
Não se sentia capaz de enfrentar a angústia do filho, nem dos sogros, nem a sua. Tinha de
continuar, mas não sabia que direcção seguir.
Voltou a deambular sem rumo por aquela cidade que odiava cada vez mais, sentindo
as gotas da chuva a misturarem-se com as lágrimas.
«Onde estás, Miriam? Onde estás?», sussurrou enquanto chorava. Algumas pessoas
voltaram-se para o olhar e imaginavam que aquele homem estava a combater uma dor que
não conseguia ocultar. Pouco lhe importavam os outros. Sentia-se despedaçado por dentro
e a dor era demasiado grande para se preocupar com aqueles que o olhavam com
curiosidade.
Chegou ensopado a casa de lnge. Dirigiu-se directamente ao quarto para evitar que
ela o visse naquele estado, mas Inge seguiu-o preocupada.
— Desculpe, não o quero incomodar, mas teve alguma notícia? Aconteceu alguma
coisa?

163
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Olhou-a por entre as lágrimas, incapaz de falar e ela, com timidez, aproximou-se e
abraçou-o, para lhe tentar transmitir um consolo que sabia inútil. Depois, saiu do quarto
para deixar que ele se recompusesse.
Passados alguns minutos, Ferdinand juntou-se a ela.
— Hoje de manhã, estive na embaixada.
Inge esperou que fosse ele a contar-lhe o que acontecera, porque não queria
aprofundar as feridas daquele homem.
— A minha mulher transformou-se num fantasma, deixou de existir. Só me resta
esperar pelas informações de Von Steiner, se é que ele mas vai dar.
— Irá dar-lhas, tenho a certeza que sim. De contrário, não se teria incomodado a
pedir-lhe os dados da sua mulher e tios. Pode ser que ele tenha mais sorte.
— Não sei, Inge. O pior é que não me ocorre mais nada para fazer. Sei que está cá, mas
onde? Pensei em colocar anúncio nos jornais.
— Parece-me uma boa ideia. Pode ser que alguém a tenha visto e lhe dê uma pista.
Não perde nada em o tentar. Posso acompanhá-lo esta tarde. Hoje não tenho mais
trabalho.
Colocaram anúncios nos jornais mais importantes, e ofereceram uma pequena
recompensa por qualquer informação respeitante a Miriam. lnge achava que aquele
dinheiro era capaz de dar resultado e Ferdinand precisava de acreditar que era verdade.
Nessa noite, voltaram a jantar em silêncio. Qualquer palavra teria sido de mais.
No dia seguinte, os jornais mostravam a fotografia de Miriam, e Ferdinand passou
todo o dia em casa junto do telefone, mas ninguém ligou. No segundo dia, recebeu uma
chamada. A secretária do barão marcava-lhe um encontro para aquela tarde.
Pela primeira vez desde que era criança, rezou com todas as suas forças para que
nessa tarde lhe dissessem qualquer coisa a respeito do paradeiro de Miriam, o que lhe tinha
acontecido, algo que provasse que não se convertera num fantasma.
O barão recebeu-o de pé no gabinete, como a indicar que a reunião não ia demorar
muito.
— Senhor Arnaud, dada a amizade que me une ao conde d'Amis e à recomendação
deste para que o ajude, tentei efectuar indagações acerca do paradeiro da sua mulher. Vi
que o senhor recorreu aos jornais...

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Estou desesperado, barão — admitiu Ferdinand. — Farei qualquer coisa para a


encontrar.
— Bem, incomodei algumas pessoas importantes, e sei que estas se interessaram
pelo assunto de modo a darem-me uma resposta satisfatória, mas lamento dizer-lhe que o
desaparecimento da sua mulher é um enigma. Interrogaram o revisor do comboio, e até
outros empregados, e ninguém se lembra de nada. Procuraram-na nos...
Ferdinand interrompeu-o, perante o espanto do barão.
— Hospitais, comissariados, prisões.., e nada, nem rasto. Como se a senhora Arnaud
não existisse, ou nunca tivesse apanhado o comboio para Berlim.
O rosto do barão denunciou o desconforto que a interrupção de Ferdinand lhe
causara. Aquele homem exasperava-o, desde que D'Amis o apresentara no castelo.
— O senhor não quer admitir a verdade, senhor Arnaud.
— E qual é a verdade, barão?
— Que a sua mulher desapareceu voluntariamente, que o deixou, senhor Arnaud.
Não me compete saber porquê, mas essa é a única evidência.
— Está enganado, barão. A minha mulher chegou a Berlim e foi a casa dos tios.
Encontrei o lápis para os lábios dela na casa de banho da casa, uma casa arrasada pelos
camisas-castanhas. Levaram-nos a eles por serem judeus, imagino que para um desses
campos de trabalho, mas e Miriam? Que foi que ela fez? É francesa, não é alemã, não tem
nada a ver convosco.
O barão permaneceu em silêncio a ouvi-lo, impassível, como se nada do que
Ferdinand dissesse o pudesse comover.
— O que é que fazem com as pessoas, barão? O senhor é nazi? É um desses
desalmados? Não o imagino aliado dessa gentalha.
— Compreendo a sua preocupação e desconcerto, mas não posso fazer nada. O senhor
não se conforma com a verdade, de modo que, professor Arnaud...
—Já saio, barão. Não preciso que me acompanhe até à porta. Sou apenas o marido
de uma judia desaparecida. Quem é que se interessa por uma judia a mais ou a menos?
Daquela vez, as lágrimas eram de raiva. Falaria com David e com os sogros, e entre
todos decidiriam o que fazer.
Quando chegou a casa de Inge encontrou-a a falar com Deborah, a filha dos

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Schneider, a mulher de cabelo grisalho que enviara as filhas para Nova Iorque. A mulher
triste que o recebera aterrorizada.
— Desculpe ter-me apresentado aqui, mas vimos a fotografia da sua mulher no
anúncio do jornal, e o meu pai pediu-me que viesse até cá para saber como é que se
encontra. Queremos que saiba que não está sozinho no seu desespero.
— Cada vez que falam da minha mulher, sinto que a tentam conspurcar com palavras.
— Não sei como o podemos ajudar — lamentou-se Deborah Schneider. — Eu e os
meus pais gostaríamos de fazer alguma coisa, o que pudermos, conte connosco...
— Obrigado. Os senhores, tal como os Bauer, ajudaram-me a não me ir abaixo, são o
único elo que tenho com os tios de Miriam e, portanto, com ela, devido a estas
circunstâncias. O problema é que não sei o que fazer…
— Terá de partir — afirmou Deborah —, não pode ficar aqui indefinidamente, e se
ela.., bem, se a sua mulher conseguir sair de onde está, procurá-lo-á.
— Mas onde está? Diga-me, se o souber.
— Não sei. Talvez tivesse tido um confronto com a porteira da casa dos tios, e esta
tenha avisado os camisas-castanhas. Ou levaram-na porque era judia, embora lhes tivesse
dito que era francesa. Pode ser que tenha sido isso o que aconteceu, e agora não se
atrevem a deixá-la partir porque poderia contar o que não querem que ninguém saiba.
—Se foi assim, isso pode significar que nunca a vão libertar, que a vão manter presa
para sempre...
— É a única coisa que me parece que possa ter acontecido...
— Então, tenho que continuar a procurá-la — afirmou ele. — Para onde levam os
judeus que fazem desaparecer? Onde ficam esses campos de trabalho?
— Ninguém voltou para o contar — afirmou Deborah. — Só as pessoas importantes
do regime é que sabem.
— Acho que o melhor é voltarmos a falar com a porteira — sugeriu Inge —, talvez até
a possamos tentar subornar.., não será fácil, porque é uma fanática, mas com essas pessoas
nunca se sabe. Também podemos tentar falar com algum dos vizinhos dos seus tios. Talvez
se atrevam a dizer-nos alguma coisa.
— Vou fazer isso — disse Ferdinand. — Vou agora mesmo.
Deborah Schneider concordou em ficar a tomar conta de Günter, desejosa de que a

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

visita a casa dos Levi desse os seus frutos. Sentia pena daquele homem que procurava com
tanto desespero a mulher. Rezou e deu graças a Deus por a ter iluminado para que
enviasse as filhas para os Estados Unidos. Ela poderia desaparecer como tantos outros
judeus, mas, ao menos, as filhas sobreviveriam.
A escuridão envolvia Berlim, apesar de mal passar das sete da tarde. O táxi parou à
porta da casa de Yitzhak e de Sara. A porta da loja estava coberta por tábuas mal pregadas,
que serviam para impedir a passagem dos intrusos. Estava fechada, mas Inge tinha as
chaves. Decidira visitar primeiro os vizinhos antes de se confrontar com a porteira. Subiram
as escadas em passo firme, até ao segundo piso onde havia dois apartamentos. Bateram à
porta da direita, mas por mais que insistissem não obtiveram resposta. Ou naquela casa não
habitava ninguém, ou não queriam a visita de estranhos. Em seguida, tentaram na porta da
esquerda, e quase de imediato apareceu uma mulher.
— Que desejam? — perguntou desconfiada.
— Boa tarde, minha senhora. Eu era a empregada dos Levi, decerto que me deve ter
visto alguma vez na livraria, e este senhor é sobrinho, bem, a mulher é sobrinha dos
Levi...
— E o que é que me interessa quem são? O que é que querem? — respondeu a
mulher com maus modos.
— Queríamos saber para onde levaram Yitzhak e Sara. Pode ser que tenha ouvido
alguma coisa... e também lhe queríamos perguntar se soube alguma coisa do incidente que
aconteceu aqui em meados de Abril, quando a sobrinha dos Levi chegou a casa deles e
encontrou.., já sabe, os danos que a loja e a casa sofreram.
— Não sei de nada, não vi nada, nem ouvi nada.
— A mulher estava prestes a fechar-lhes a porta, mas Ferdinand impediu-a.

— Minha senhora, não lhe estamos a pedir que nos revele um segredo inconfessável.
Queremos apenas que nos diga para onde acha que levaram os Levi, e se viu a minha
mulher quando ela esteve aqui.
— Não sei de que é que me está a falar, deixe-me em paz ou chamo a Polícia.

—A Polícia? E porquê? Porque lhe estamos a fazer perguntas acerca de um casal


idoso e da sua sobrinha? Na Alemanha, isso é um crime? — Ferdinand não conseguiu conter
a irritação.
—A mulher fechou a porta bruscamente, sem lhes dar tempo a reagir. Inge olhou
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

para ele, e com um gesto indicou-lhe que a seguisse até ao terceiro piso.
Não tiveram mais sorte do que com a mulher do piso inferior. Depois de lhes dizerem
que não sabiam de nada, fecharam-lhes de imediato a porta, como se o facto de falarem com
eles lhes pudesse causar algum problema.
Subiram piso atrás de piso até chegarem ao último, onde havia três portas.
— Estas devem ser as águas-furtadas como no meu prédio.

Ficaram surpreendidos quando bateram na primeira porta, e deram de caras com a


porteira.
— Boa tarde, senhora Bruning, podemos entrar e falar consigo? — pediu Inge com
um sorriso.
A porteira, tão surpreendida quanto eles, abriu a porta e, antes de poder falar, já
Inge e Ferdinand se encontravam dentro de casa. Ao fundo da sala, estava um homem
sentado a ouvir rádio com um jornal nas mãos. Não lhes foi difícil perceber que era o marido
da porteira.
— Disse-lhes que não voltassem aqui — disse ela, num tom ameaçador.
— Senhora Bruning — começou Ferdinand —, sei que é uma mulher muito sensível e
por isso voltei. A senhora, que tem família, consegue compreender o desespero de alguém
que não encontra a mulher. Imagine que lhe acontecia a mesma coisa a si, que o seu marido
desaparecia de repente, sem deixar rasto...
A mulher olhou-o, e hesitou quanto à resposta. O tom entristecido de Ferdinand
parecia tê-la comovido, mas apenas por instantes, porque em seguida olhou-os com uma
expressão carregada de desprezo.
— E porque é que me pergunta a mim pela sua mulher? — gritou. — Se ela o deixou,
procure noutro lugar. Você é que sabe com que tipo de mulher é que está casado.
Ferdinand ergueu a mão para a esbofetear, mas lnge meteu-se entre os dois por
temer as consequências. O marido da porteira aproximou-se ao ouvir os gritos da mulher.
— Ursula, o que é que se passa?
— Estão a fazer perguntas acerca dessa gentalha!
— Que gentalha?
— Os Levi, esta é aquela que os ajudava na livraria — disse, apontando para Inge. — E
este o marido da sobrinha. E perguntam-me a mim por essa gente! Devem estar no inferno
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

com o diabo, do qual espero que não os deixem sair!


— Acalma-te, mulher, e vai lá para dentro que eu trato disto. O que é que querem de
nós? — inquiriu o homem, tão gordo como a mulher, e sem um único cabelo.
Inge agarrou o braço de Ferdinand e tentou acalmá-lo. Depois, dirigiu-se ao homem:
— Senhor Bruning, não vos queremos incomodar, e desculpe se chegámos num mau
momento, mas se não fosse importante não nos teríamos atrevido a fazê-lo.
Durante alguns minutos, falou como se estivesse a falar com uma criança, de modo a
que o homem respondesse às perguntas que tanto enfureciam a mulher. Ele observava-os
com a frieza impessoal dos que se odeiam pela sua própria impotência.
Fosse pelo tom de voz neutro e calmo de Inge, fosse por se sentir importante
perante os intrusos, a verdade é que o homem os ouviu até ao fim, apesar das
imprecações que a mulher lhes lançava da sala, enquanto lhe pedia que os enxotasse.
— Se a sua mulher desapareceu, vá à Polícia. Nós não sabemos de nada — disse
com desprezo, a olhar para Ferdinand. — Quanto aos Levi, eram lixo humano, judeus, e
estão onde deveriam estar.
— Onde? — perguntou Inge, suavemente, com o seu melhor sorriso.
— Não sei, em qualquer lugar em que façam alguma coisa de útil por este país que
roubaram com a sua avareza. Se voltarem, serão enxotados daqui para fora.
— Mas é aqui que é a casa deles, a loja pertence-lhes —disse Ferdinand.
— Se não regressarem, deixará de lhes pertencer e passará para as mãos de bons
alemães. Já suportámos durante demasiado tempo os judeus neste país. O Führer sabe o que
deve fazer com eles. São um cancro.
Ferdinand ia responder, mas Inge apertou-lhe o braço com força. Era a sua maneira
de lhe pedir que a deixasse tratar com os Bruning.
— Sabe para onde levaram a sobrinha deles? Sabemos que esteve aqui, encontrámos
algumas das suas coisas, de modo que não temos dúvidas, e gostaríamos de saber...
Inge não pôde terminar a frase, porque a porteira voltara ao vestíbulo, e empurrava-os
raivosa.
— Fora daqui, amigos nojentos dos judeus! Fora daqui!
Acabaram no patamar com a porta fechada, a ouvir os impropérios da porteira e os
gritos do marido.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Sentiam-se exaustos, com raiva da frustração à flor da pele. Tocaram à


campainha de outra das casas, mas ninguém respondeu. Sentiam que estavam a ser
observados pelo ralo da porta.
Entraram na casa dos Levi e voltaram a revistá-la de alto a baixo, para ver se
conseguiam encontrar alguma pista. Não encontraram nada, mas repararam que estivera ali
alguém depois deles. Algumas coisas não estavam como eles as tinham deixado. Inge sugeriu
que talvez a Polícia tivesse ido até ali procurar algum indício da presença de Miriam, a
pedido da embaixada. Mas isso não serviu de consolo a Ferdinand. Ali, naquela casa, perdia-
-se o rasto de Miriam, ali esfumava-se. Entretanto, continuava sem saber o que tinha
realmente acontecido.

Deborah parecia encantada com Günter. Encontraram-na sentada no chão a brincar


com o bebé. Entristeceu ao ouvir o relato do que acontecera, mas antes de se ir embora
deu um conselho a Ferdinand.
— Sei que é muito duro o que lhe vou dizer, mas regresse a Paris. Volte para o seu filho,
é a única coisa que lhe resta.
— E abandono Miriam? Não, não o posso fazer.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

10

Os dias que se seguiram converteram-se num pesadelo. Não tinha nenhum lugar
onde ir, nem nada para fazer. Telefonou para a embaixada algumas vezes e disseram-lhe,
amavelmente, que não havia nenhuma novidade. Também entre os amigos de Sara e de
Yitzhak não acontecera nada de relevante.
Inge não lhe dizia nada, mas na verdade também não falavam muito. Ela trabalhava
durante todo o dia, e quando se encontravam à hora do jantar, estava demasiado cansada.
Voltou-lhe a pedir, três ou quatro vezes, que ficasse com Günter enquanto saía à noite. Um
dia confessou-lhe que se reunia com os seus camaradas do partido comunista porque estes
tinham voltado a aceitá-la.
Pelo seu lado, David insistia para que ele ficasse em Berlim, à procura da mãe. Nas
palavras entrecortadas dos sogros, percebia que também estes não se resignavam a que
voltasse sem Miriam.
A passagem do tempo começou a tornar-se insuportável. Estava em Berlim para se
sentir perto da mulher mas talvez, dizia a si mesmo, fosse uma maneira de tranquilizar a
consciência mais do que qualquer outra coisa. Sentia-se culpado, culpado por a ter deixado
empreender aquela viagem, culpado por não ter sido capaz de ver o que se estava a passar
na Alemanha, embora não fosse nenhum segredo que Hitler aplicara leis radicais, cujas
primeiras vítimas eram os judeus.

Uma manhã, recebeu uma chamada do conde d'Amis.


— Senhor Arnaud, quando pensa regressar a França? — perguntou-lhe o conde
sem mais preâmbulos.
Disse-lhe que iria ficar até encontrar Miriam e ficou surpreendido com a reacção
brutal do conde.
— Se não regressar de imediato e acabar o trabalho acerca da crónica de Frei Julián,
ver-me-ei obrigado a terminar o acordo que tenho consigo e com a sua universidade. Fui
paciente com os seus problemas pessoais, mas tem de compreender que não posso, nem
quero, continuar a esperar. Além disso, preciso de si no castelo para orientar o meu grupo
de trabalho. Tenho aqui vinte pessoas à espera de instruções. Recordo-lhe que isso faz
parte do acordo. Falei com o reitor da sua universidade, e ele disse que lhe ia telefonar.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Decida-se depressa, senhor Arnaud, não vou esperar muito mais.


Mal lhe deu tempo a protestar. O conde não se importava com outros motivos para
além dos próprios interesses. Tal como lhe dissera, passados poucos minutos, recebeu uma
chamada da universidade. O coordenador do departamento de História mostrou-se cordial
e amistoso. Naturalmente que todos entendiam o drama por que estava a passar e
podia ficar o tempo de que necessitasse, mas não poderia regressar a Paris durante alguns
dias para tratar de uns assuntos? Alguém tinha de o substituir nas aulas. Quanto ao trabalho
acerca da crónica de Frei Julián, também tinham de tomar decisões. A universidade
comprometera-se na sua publicação, e talvez ele pudesse aconselhar quem poderia acabar
aquela tarefa.
Para Ferdinand, aquelas duas chamadas devolveram-no à realidade. Antes do
desaparecimento de Miriam era outro homem. Tinha uma família, um trabalho apaixonante,
amigos e colegas, publicava artigos sobre a França medieval, dava conferências por toda a
Europa... agora também ele acabara por se transformar num fantasma. Não se encontrava
no local onde antes tinha uma vida. Ou regressava ou despedia-se de tudo o que fora.
Tinha de tomar uma decisão que iria ser crucial para o resto da sua vida. Porque
ficar em Berlim também significava estar separado de David, e teria de pensar de que é que
ia viver. As poupanças de toda uma vida não durariam para sempre, se continuasse sem
fazer nada. Um colega sugerira-lhe que pedisse uma licença...
— Se eu fosse o Ferdinand, voltava — aconselhou-o Inge, durante o jantar. — Agora é
difícil encontrá-la, talvez daqui a mais algum tempo. Poderia vir até cá de vez em quando.
— Não a quero abandonar.
— Se for e voltar depois, não a vai abandonar, mas também não abandona o seu
filho. Não pode destruir tudo o que ambos construíram. A vida não é tudo ou nada. Às
vezes, é necessário procurar soluções intermédias para sobreviver.
— A Inge é como os camaleões — recriminou-a ele —, até me espanta que aceite
que o seu chefe Estaline assine acordos com Hitler, e que isso não a faça reformular nada.
— Estaline sabe que este não é o momento do tudo ou nada, e aguarda.
— Entretanto, os comunistas apodrecem nas prisões alemãs — recordou-lhe.
— Sim, alguns até se suicidaram porque não conseguem compreender. Sentem-se
atraiçoados. Mas a vida não é como se quer, mas como deve ser. Os chineses dizem que
devemos ser como os juncos, que se dobram quando o vento os açoita mas não se partem,

172
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

continuam de pé.
— Você é um junco.
— Não tenho outro remédio, não posso nem quero deixar de acreditar naquilo em
que acredito. Sou comunista, sim, e sei que temos razão, mas não basta tê-la, temos de
esperar pelo momento; entretanto, deixamo-nos dobrar pelo vento.
— E se o pai do seu filho nunca regressar?
— Já conto com isso.

— Aceita não voltar a vê-lo?


— Sim. É mais que provável que nunca regresse.
— E isso não a magoa?
— Até ao mais fundo da minha alma, mas não está nas minhas mãos fazer mais do
que já fiz, do que faço todos os dias ao criar o nosso filho.
— Os cristãos chamam a isso resignação...
— Está enganado. Aceitar a realidade não é resignação, é uma maneira de a enfrentar.
Não tenho poder para alterar as coisas. Hitler vai continuar com a sua política racista, vai
continuar a pactuar com Estaline e a prender os comunistas. Nada vai mudar só porque eu
quero ou me lamento.
— É demasiado jovem para se expressar com tanta dureza. Dá-me pena ouvi-la
falar assim.
— Preferiria ver-me chorar e que o meu filho morresse de fome? Preferiria ver-me
agir como a heroína de um romance e correr o risco de desaparecer? Acha mesmo que isso
é melhor?
— Não a critico, Inge, porque também desejo que não me critiquem a mim.
— Se acabar por decidir regressar a Paris, e voltar de vez em quando a Berlim para
continuar à procura de Miriam, gostaria que continuasse a alugar-me o quarto. O dinheiro
faz-me falta e é um hóspede que não dá problemas. Talvez se vier uma ou duas vezes por
mês... não sei, pense nisso...
Decidiu seguir o conselho de Inge. Apesar da jovem ainda não ter feito vinte e cinco
anos, parecia transpirar senso comum e experiência. Também ela vira desaparecer o pai do
seu filho e aguentava, inquebrantável. Mas o que é que esperaria?

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

11

Por fim, acontecera. A Alemanha e a França estavam em guerra, mas não se


combatia. Os jornais franceses apelidavam a situação de «guerra tola». Alguns achavam que
o ultimato dado pelo governo francês a Hitler para que se retirasse da Polónia fora um gesto
de coragem, mas com gesto ou sem ele, oficialmente, os dois países estavam em guerra. De
modo que, pensou Ferdinand, também não poderia ter prolongado durante muito mais
tempo a sua estadia em Berlim.
O reencontro com David não foi fácil. O filho recriminava-o com o silêncio, por não ter
sido capaz de encontrar a mãe. Ouvia-o gritar de noite entre pesadelos que lhe
atormentavam a alma, e às vezes discutiam porque não estudava. A vida perdera todo o
interesse para o jovem.
Os seus colegas da universidade alegraram-se ao vê-lo, e ouviram os relatos acerca
do governo de Hitler, preocupados e circunspectos. Sim, as pessoas desapareciam, judeus,
comunistas, ciganos, todos aqueles que incomodavam o regime, e ninguém dizia nada,
ninguém parecia preocupar-se com isso. «Vão para campos de trabalho, nada mais que
isso.»
Ao princípio, fora a Berlim com uma certa frequência. Ficava em casa de lnge e
durante três ou quatro dias dedicava-se a telefonar para a embaixada, a visitar os amigos
dos tios de Miriam, que, por sua vez, o apresentavam a outros exilados da sua pátria. Depois,
regressava a Paris com a alma cheia de angústia, e dizia a si mesmo que estava a cumprir um
ritual para acalmar a consciência, um rito ineficaz e estéril. Mas desde que Hitler invadira a
Polónia, e a França entrara oficialmente em guerra que não pudera regressar.
Quando, alguns meses depois, no dia 10 de Maio de 1940, a França — tal como a
Holanda e a Bélgica — caiu como um fruto maduro nas mãos do ditador nazi, foi dos
poucos franceses que não se surpreendeu. Em menos de quatro semanas, as tropas
francesas batiam em retirada, e Paris encontrava-se sem defesas perante os soldados do
Terceiro Reich.
As teorias do general Maxime Weygand e do vice-presidente do governo, o marechal
Pétain, acabaram por se impor no gabinete de crise. Preferiam negociar o cessar-fogo com a
Alemanha do que continuar a combater sem sucesso.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Uma tarde em que se encontrava no seu gabinete na universidade, Martine entrou


para falar com ele.
— Vou-me embora. Queria despedir-me de ti, antes que os outros o soubessem.
— Vais-te embora? Mas porquê?
— Não sabes?
— O que é que aconteceu?
— O que se previa. Hoje, 22 de Junho, o general Huntziger e o marechal Keitel
assinaram o armistício em Compiègne. Acabou.
— Que queres dizer com acabou?
— O que se diz é que Pétain vai encarregar-se de tudo, que o primeiro-ministro
Reynaud lhe deixa o campo livre, que se vai demitir. Podes imaginar o que vai acontecer.
— E para onde vais?
— Nunca te disse que era judia?
Ele olhou-a perplexo, sem saber que dizer.
Não, nunca lho dissera. Além disso, pelo apelido Dupont jamais teria pensado que o
fosse.
— A minha mãe é judia, o meu pai não. Mas tanto faz, eu sou-o. Espero que percebas
que nunca me tinha apercebido que o era. A minha mãe é uma judia laica, jamais a vi ir à
sinagoga, e o meu pai um cristão igualmente laico, nunca entra numa igreja, de modo que
tenho vivido bastante à margem da religião, mas agora...
—Tu és francesa, Martine — protestou ele.
— Sim, mas francesa judia. Antes era apenas francesa, mas tu sabes que nem no
nosso país se escapa ao anti-semitismo, tal como no resto da Europa. Não quero andar
com uma estrela de David cosida na lapela do casaco, não conseguiria aguentar...
Ferdinand calou-se, sem saber que dizer. Martine pegou-lhe na mão e apertou-lha
afectuosamente.
— Para onde vais? — quis saber.
— Para a Palestina.
— Estás doida! Que vais fazer aí?

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Ainda não sei, para já vou para um kibutz. Há dois anos uns amigos partiram para a
Palestina e, bem, dizem que aquilo é uma verdadeira aventura. Talvez tenha chegado o
momento de fazer algumas alterações na minha vida. Depois dir-te-ei como me dou a
plantar alfaces.
— Mas porque é que não vais para os Estados Unidos? Aí poderás progredir, és uma
professora conceituada.
— Não é assim tão fácil; além disso, acho que neste momento devo ir para a
Palestina, quero saber o que significa ser judia, que sensações terei quando pisar a Terra
Prometida.
— Estarás aí a salvo?
— Não sei. Os meus amigos contaram-me que dormem com uma espingarda nas
mãos, e tu sabes que em 1936 houve uma rebelião árabe contra a presença de judeus na
Palestina. Parece que, apesar dos ingleses, a situação não é um mar de rosas. Tanto quanto
sei, os ingleses fazem os impossíveis para impedir que entrem mais judeus, mas apesar disso
continuam a chegar...
— Desculpa ser indiscreto, mas o que é os teus amigos faziam antes de irem para a
Palestina?
— Jean é advogado e Marie faz perfumes. Eram vizinhos e amigos, e acho que me
estão a dar um bom conselho quando me dizem que vá antes que não o possa fazer.
— Como é que o vais conseguir?
— Podes não acreditar, mas é um padre que me vai ajudar. É irmão de uma amiga.
— Vou sentir a tua falta, Martine — confessou Ferdinand.
— E eu a tua. Foste o melhor amigo que tive aqui. Depois verás como todos te virão
perguntar se sabias que eu era judia.
A decisão de Martine fê-lo recordar-se de Deborah Schneider e da explicação que lhe
dera para se ter separado das filhas, ao enviá-las para Nova Iorque. Pensou que talvez
devesse reflectir acerca do futuro de David. Por mais difícil que lhe fosse admiti-lo, para as
novas autoridades o filho era judeu, apenas judeu.
Custou-lhe tomar a decisão que sabia que ia provocar uma enorme comoção na
família, mas estava decidido a impor a sua vontade. Falou primeiro com o filho, em seguida
pediu aos pais, aos sogros e aos restantes membros da família que se reunissem em sua
casa.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Sei que aquilo que vos vou dizer vai surpreender-vos, mas decidi enviar David para
a Palestina.
Os sogros olharam-no atónitos, os pais não sabiam o que dizer, o irmão mais velho
pigarreou incomodado, e a mulher dele apertou nervosamente as mãos.
— Não me vou embora, pai — interrompeu-o David. — Não irei para lugar algum até
que a mãe apareça.
—Já sei que não queres ir, já falámos acerca disso, mas lamento, filho, neste caso a tua
opinião não conta. O importante é a tua vida, e actualmente já não estás em segurança
aqui, e eu não quero...
Ficaram calados, lembrando-se todos do rosto de Miriam.
— Tenho uma amiga que vai partir dentro de alguns dias. David irá com ela. Têm
família lá? — perguntou aos sogros.
— Sim, claro — respondeu a mãe de Miriam. — Tenho dois irmãos e vários sobrinhos.
A vida não é fácil nessa região…
— Eu sei, mas pelo menos ser-se judeu não é um estigma como aqui.
— Isto é França — interrompeu-o o irmão trais velho.
— Sim, isto é França. E o que é que se passou na culta e refinada Alemanha, onde um
cabo se transformou no governante de toda uma nação? Recordo-te que os nossos
governantes são fantoches manipulados a partir de Berlim. Vi-o com os meus próprios
olhos. Recuso-me a que o meu filho desapareça um dia numa rua de Paris, ou que lhe
dêem uma tareia à saída do liceu, ou que ande com uma estrela de David cosida na lapela
do casaco. Miriam não teria aguentado isso. Podem imaginar o que vai significar para mim a
sua ausência, mas pelo menos saberei que está vivo e isso é a única coisa que me importa.
Ferdinand tem razão — disse o pai. — Isto é França, filho, mas já viste o que fizeram
com os republicanos espanhóis? Mandaram muitos regressar, outros foram enviados para
campos, os jornais classificaram-nos de «dejectos humanos», «invasores perigosos.>...
A mãe de Ferdinand interrompeu o marido para lhe recordar que o Le Populaire ou
L'Oeuvre apoiavam-nos e que o cardeal Verdier quebrara muitas lanças a seu favor e, até,
alguns escritores católicos como Jacques Maritain ou François Mauriac os defendiam contra
ventos e marés.
Mas o pai de Ferdinand insistiu que David estaria melhor fora do país. O professor
agradeceu-lhe o apoio. Sabia que o pai estava indignado com a atitude do governo francês
177
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

para com os refugiados espanhóis, entre os quais tinham conseguido salvar alguns parentes.
Nem o pai, nem ele, confiavam naquela nova França. Estavam os dois cansados de ver como
os homens tapavam os olhos para não ver.
David implorou ao pai que o deixasse ficar, mas Ferdinand manteve-se firme na
sua decisão, embora se perguntasse intimamente se tudo aquilo não seria uma loucura.
— E o que é que tu vais fazer, pai?
— Ficarei aqui, perto da tua mãe, à espera dela, e continuarei a estudar a crónica de
Frei Julián. É uma história tão bela quanto trágica.
— Mas se não gostas de ir ao castelo...
— Não, filho, não gosto dessas pessoas e, por sorte, já há algum tempo que não vou,
não é imprescindível para o meu trabalho. Além disso, acho que o conde também prefere
ter-me a uma certa distância. Depois do que aconteceu à tua mãe... é difícil suportar quem
quer que seja que simpatize com os nazis.
— De modo que te vais fechar no passado — disse David, entristecido.
— Enquanto tu constróis o futuro, eu refugiar-me-ei no passado. Não é um mau
acordo, filho. Quando te fores embora, reencontrar-me-ei com Frei Julián.

178
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

12

... Falta-nos piedade, precisamente a nós que deveríamos dar o exemplo. Mas a Frei
Ferrer brilha-lhe a ira no olhos e acredita que apenas o fogo pode purificar aquilo em que os
hereges tocaram. Por isso, ordenou que se queimasse até às últimas pedras de
Montségur, para purificar o lugar contaminado pela presença dos hereges.
— Apenas o fogo purificará estas pedras — clamava Frei Ferrer.
Já perdi a conta dos dias que se passaram desde que deixámos Montségur, e
também perdi a conta às confissões de hereges dispostos a denunciar os filhos, os pais, os
irmãos e os vizinhos para salvarem a vida. Onde estão os mártires de Montségur? Que foi
feito do seu exemplo?
Agora que nenhum exército os virá salvar, os anteriormente heróicos homens e
mulheres que se faziam chamar de Bons Cristãos são apenas isso, homens e mulheres
assustados.
Confesso que já não me impressionam como antigamente, quando os respeitava e
admirava em segredo pela firmeza das suas convicções. Agora sei que são iguais a mim, têm
medo, e desprezo-os tanto como me desprezo a mim mesmo.
Mentiria se dissesse que todos se renderam. Não é assim, mas são poucos. Não quero
nem imaginar como teria dona Maria sofrido se tivesse visto tantas traições.
Estive em Carcassone e em Limoux, em Bram e em Lagrasse, e em todos os lugares
acontece o mesmo. Quando chegamos, estão à nossa espera para falar de outros e assim
salvarem-se.
E eu, senhor, continuo enfermo, sem que as ervas do cavaleiro Armand me
aliviem. Já vos expliquei na minha anterior missiva que o cavaleiro templário, companheiro
de armas e dom Fernando, era considerado uma eminência na arte de curar, e atestar que as
suas ervas resultaram até agora comigo. Talvez o cheiro a carne queimada seja aquilo que
embota os meus sentidos e me fecha o estômago, ou talvez seja o cheiro a medo, o medo
que soltam esses desgraçados que confessam as suas faltas perante mim.
Rezo a Deus para que esta carta chegue a vossas mãos, porque tremo só de pensar
que pode cair na mão dos meus irmãos. Frei Ferrer mandar-me-ia arder directamente no
Inferno, e até o bom do Frei Pèire não perdoaria a minha traição.

179
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Já vos disse que perdi a noção do tempo e assim é, mas como sinto que a
enfermidade avança, queria pedir-vos uma graça. Sei que não a mereço, que nunca me
considerastes como vosso filho, mas por mais que vos desagrade a ideia, o certo é que o
sou e por isso atrevo-me a pedir-vos que me deis sepultura em Aínsa. Sinto que não viverei
muito mais e em breve pedir-vos-ei licença para vos visitar.
Quero que a terra que me cubra seja a mesma que me viu nascer. Rogo-vos que me
enterrem como um Aínsa, bastardo, sim, mas fruto do vosso sangue.
Perdoai-me o meu desvario, mas a cabeça arde-me devido à febre, e a dor agarra-se-
-me às entranhas. Sonho com a água gelada da nossa fonte e com aquelas manhãs frias
em que corria a caminho do palheiro para fazer o que me ordenáveis.
Sim, pedirei licença a Frei Ferrer, Deus há-de querer que tenha piedade da minha
doença e me permita ir despedir-me de vós e poder morrer em paz.
Sabeis, dom Juan, que os mortos me visitam a qualquer hora do dia, e oiço as suas
orações a misturarem-se no meu cérebro?
Vejo os seus rostos lamentáveis, os dedos crispados, desfeitos pelo fogo, que
reclamam que lhes faça justiça. Mas não serei eu que a poderei fazer, isso sabia-o dona
Maria demasiado bem. Por isso, o seu empenho para que deixasse escrita a crónica do que
aconteceu em Montségur, que está bem resguardada em casa de dona Marian e de seu
esposo, dom Bertran d'Amis.
Um dia, meu senhor, alguém vingará o sangue inocente que derramámos em nome
da cruz, porque tanto sangue não poderá permanecer impune. Onde hoje existe traição, um
dia existirá orgulho e sede de vingança. Sim, meu senhor, um dia alguém vingará com fúria o
sangue dos inocentes. Até lá, rogo-vos, meu senhor, que me acolheis a vosso lado para
morrer em paz.

Ferdinand continuou a ler a carta que encontrara no arquivo de uma família


aparentada com os Aínsa. Não lhe fora fácil seguir a pista de Frei Julián, porque estava
empenhado em procurar o seu rasto por Carcassone e Toulouse, mas uma manhã acordou
cheio de saudades de Miriam e de David, e pensou que se ele só queria estar com os seus,
então Frei Julián teria sentido o mesmo.
Tinha-se demorado mais do que previra a concluir a história, mas acaso isso
importava quando tantas pessoas tinham morrido por causa da guerra? Por mais que o
castelo d'Amis fosse uma ilha no meio da desolação da Europa, nem sequer o conde
180
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

pudera manter permanentemente os grupos que se ofereciam para fazer escavações


entre as pedras de Montségur.
Dali a poucos dias apresentaria o trabalho na Universidade de Paris, e reunir-se-ia
com o conde para lhe contar as peripécias de alguns dos seus antepassados.
Tivera que fazer algumas viagens até ao castelo para ler alguns tomos e levar a cabo
uma busca nos arquivos da família. Tentara sempre que as suas estadias fossem curtas e
mantinha-se afastado daqueles grupos de alemães que faziam parte da equipa de
investigação do conde.
Repugnava-lhe encontrar-se com eles, de modo que não ficava alojado no castelo.
Preferia fazer alguns quilómetros e dormir em Carcassone. O conde também não ocultava a
antipatia que sentia por ele, mas continuava sem lhe colocar obstáculos, de modo a que ele
pudesse prosseguir com a crónica de Frei Julián.
Viajara sempre que pudera, seguindo o rasto dos arquivos da Inquisição, e
mergulhara em crónicas medievais à procura de pistas que o conduzissem àquela família
que, segundo acreditava, havia sido chamada a conservar a memória da rendição de
Montségur. Também nos arquivos familiares dos Aínsa encontrara alguns tesouros.
A família já não existia como tal, excepto no ramo francês dos D'Amis e de alguns
parentes afastados, mas os seus arquivos encontravam-se num museu local.
Para além de Fernando de Aínsa, o irmão, teria alguém amado Frei Julián? No arquivo dos
Aínsa não encontrara nenhum documento que indicasse a existência daquele filho bastardo.
Dom Juan morrera um ano depois da chegada de Frei Julián e deixara a propriedade a cargo
de dona Marta, a filha viúva e com dois filhos, que encontrara protecção junto do pai.
Entre os documentos da família, outra das jóias eram as cartas enviadas ao pai por
dona Marian, a mulher do cavaleiro Bertran d'Amis, o homem de confiança do conde de
Toulouse.

Querido pai, sinto vossa dor porque é a minha, pela perda de minha mãe. Sei que
nunca entendestes a sua decisão de abandonar o solar da família para, ao encomendar a
vida a Deus, servir os Bons Cristãos e todos quantos desejaram saber a Verdade. Agora que
minha mãe morreu, quero dizer-vos que as vezes em que estive com ela nos últimos anos,
não ocultava o quanto lhe pesava na alma a vossa ausência. Nunca quis a ninguém tanto
quanto a vós, nem sequer aos filhos e netos. Na vida de minha mãe, houve dois grandes
amores: Deus e vós.
181
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Quanto à vida na corte do conde, mudou muito e confesso-vos que tenho medo.
Meu esposo é pessoa de confiança do conde de Toulouse mas Raimundo é um
sobrevivente que, como sabeis, tem de contentar o rei de França e o papa, os quais, apesar
de lhe terem perdoado, não confiam nele. Na sua corte, continuam a existir alguns Bons
Cristãos e crentes como nós, mas pediram-nos discrição. Há alguns dias, um dos seus amigos
mais queridos suplicou-lhe com lágrimas nos olhos que voltasse aos braços da Igreja, para
não se ver obrigado a ser ele mesmo a entregá-lo à Inquisição. Os «cães» do papa atiçam
dom Raimundo para que este lhes indique alguns dos seus amigos que são suspeitos de
heresia.
Não tenho a força de minha mãe, nem a de meu esposo, e temo-nos acomodado à
nova situação, de modo que procuramos ser discretos e acompanhamos o conde em
quantas missas e liturgias ele participa, por mais que interiormente choremos ao ter de nos
ajoelhar perante a cruz. Meu esposo diz-me para não pensar, para olhar para a cruz como
se fosse um pedaço de madeira sem qualquer valor, que tanto dá que façamos algumas
reverências, que são apenas gestos. Mas cada vez que me persigno, sinto que estou a
atraiçoar minha mãe e a condenar a minha alma, porque o sangue dos inocentes clama
justiça.
Perdoai-me, pai, esta confissão, já que vós sois um bom católico ao qual a fé de
minha mãe e a minha causaram tanto mal, mas tenho-vos como generoso e bom, e conto
com vosso perdão tal como perdoastes a minha mãe...

Aquela carta de dona Marian esteve fechada durante meses depois da derrota de
Montségur. Numa dobra do pergaminho, encontrara duas palavras escritas pelo punho de
dom Juan de Aínsa: «Pobre filha».
Duas palavras simples que sugeriam a dor daquele homem, não só pela perda da
mulher, mas também pelas dificuldades que dona Marian defrontava, ou talvez fossem um
lamento pela perda da própria alma.
Encontrara na igreja testemunhos da fé de dom Juan. Doações em vida a igrejas e
conventos. Também se mostrara generoso no seu testamento.
No arquivo local estava guardada uma relação dos bens doados pelos Aínsa ao longo
dos séculos, e era surpreendente verificar que alguns tinham sido entregues pela própria
dona Marian. Ferdinand não via ali qualquer mistério devido à correspondência da filha com
o pai. Ela, tal como o conde de Toulose, Raimundo VII, também optara por sobreviver.

182
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Meu muito amado e respeitado pai, escrevo-vos num momento de profunda dor. O
nosso senhor, dom Raimundo, viu-se obrigado a enviar para a fogueira oitenta Bons
Cristãos de Agen, cidade situada junto a Garonne, onde os perfeitos viviam
aprazivelmente, embora sempre com o receio de que os «cães» do papa cravassem os
dentes neles.
Dom Raimundo não pôde recusar condenar à fogueira essas boas pessoas, embora
tenha a alma triste e os tenha chorado durante vários dias, sem querer tomar alimento nem
ocultar sua tribulação.
O bom conde está enfermo e lamenta-se das provas que o rei e o papa lhe exigem. Eu
mesma o vi a lamentar-se, com lágrimas nos olhos, da traição feita a seus súbditos, mas que
podia fazer?
Ontem reuniu um grupo de amigos fiéis, entre os quais se encontrava meu esposo,
dom Bertran. Agradeceu-lhes não lhe terem, durante todos estes anos, causado
desgostos, ao fazerem alarde da sua verdadeira fé. Por fidelidade a ele, mantivemo-nos
discretos, e atraiçoámos a Verdade com gestos, mas nunca com o coração.
Mas o meu senhor, o conde Raimundo, teme aquilo que poderá acontecer quando
desaparecer, e por isso, pai, quero solicitar-vos protecção para o caso de termos de deixar
Toulouse durante algum tempo. Se não nos puderdes receber, iremos para Pavia ou
Génova, onde sabemos que os nobres desses locais são benevolentes para com os Bons
Cristãos.
Se nos acolherdes, não vos causaremos problema algum, já que, como sabeis,
aparentamos ser filhos da Igreja, de modo que presenciaremos os cultos junto de vós e de
minha irmã e de meus dois sobrinhos, que ardo em desejo de conhecer...

Na carta que se seguia, dona Marian anunciava ao pai a morte do conde de


Toulouse e avisava-o que partira em direcção a Aínsa.

Meu muito querido pai, o nosso bom conde Raimundo de Toulouse libertou-se do seu
corpo e jaz em Fontevraul, onde descansará para sempre junto a sua mãe, dona Joana, seu
tio, dom Ricardo, e seus avós, dom Henrique e dona Leonor.
Suponho que estais inteirado que o conde adoeceu com febres em Milão, embora
a sua saúde também se tivesse ressentido com tantos sofrimentos.

183
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

A sua herança é agora de dona Joana, sua filha, e de seu esposo, Alfonso de
Poitiers, aos quais Deus ainda não concedeu filhos.
Meu esposo, dom Bertran, acredita que estarei mais segura convosco, e até que a
situação esteja clarificada, agradecer-vos-ia que aceitásseis que vos vá visitar com meus
filhos.
Espero não ser um fardo e que minha estada não se prolongue no tempo, já que,
como sabeis, quero a meu esposo e entristece-me a separação...

Talvez a verdadeira jóia fosse a carta enviada por dona Marian a Frei Julián,
pouco depois de partir da casa do pai, onde se refugiara durante alguns meses.
Pelo tom da missiva, era fácil deduzir que a dama e o frade tinham passado
muitas noites a conversar.
Dona Marian devia ter chegado a Aínsa em finais de 1449, ou início de 1450,
poucos meses depois da morte do conde de Toulouse, de modo que pudera
despedir-se do pai, já doente.

Meu bom frade, é-me estranho chamar-vos assim já que os frades têm sido uma
constante fonte de desdita na minha vida e na dos meus, mas nestes meses passados no
solar de família, compreendi o motivo por que minha mãe confiava em vós. Por mais que
vos choque, Frei Julián, sois um bom cristão, embora vivais confundido ao acreditardes que
Jesus está representado nesse objecto de tortura que é a cruz. Mas esta missiva não serve
para prolongar as discussões e conversas que mantivemos, antes, sim, para vos agradecer
vossa bondade. Haveis confortado meu pai nos seus últimos dias e sois de enorme ajuda
para minha irmã, dona Marta, e meus dois sobrinhos.
Não creio que nos voltemos a ver. Por isso, quero reiterar que o compromisso que
assumistes com minha mãe, dona Maria, se cumprirá. Vossa crónica um dia verá a luz, e os
homens saberão quão grande era a iniquidade do rei e do papa.
Sabei que meus filhos são já depositários da verdade de quanto aconteceu durante
todos estes anos, e, embora evitem mostrar que professam a verdadeira fé para não
criarem problemas, sonham com o dia em que possam vingar o sangue dos inocentes. Serão
eles ou seus filhos, ou os filhos de seus filhos, mas um dia, a família D'Amis vingará o sangue
derramado, porque só então poderão os inocentes repousar...

184
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

13

Norte de Espanha, 1946


Ferdinand guardava, como se se tratasse de um tesouro, as cópias da
correspondência de dona Marian que, pelo que conseguira reconstruir, regressara para
junto do marido, na época leal vassalo de Alfonso de Poitiers, marido de dona Joana, a
única filha de Raimundo VII, conde de Toulouse.
Era evidente que a fé de dona Marian e de dom Bertrand d'Amis não os impedia de
querer viver e, embora os cátaros sonhassem em deixar este mundo e desprender-se da
casca maldita que consideravam que era o corpo, no caso destes dois nobres pesavam
muitos outros interesses, já que tinham morrido idosos.
Sentiu-se repugnado. Quanto fanatismo! Quanto sangue derramado em nome de
Deus! Pensou que Deus não poderia perdoar a quem utilizava o Seu nome para torturar e
assassinar outros seres humanos. Era impossível que isso acontecesse, e deveria importar-
se mais com o modo como Lhe rezavam, como O sentiam!
Lembrou-se de David, o filho adorado, ao qual tinham arrancado a inocência e que se
convertera num sionista radical.
Fizera vinte e cinco anos e continuava na Palestina. Não queria regressar a França.
«Sou judeu», dizia. «Eles fizeram com que me sentisse diferente, e é isso que sou:
diferente.» E perguntava: «Onde estavam os que agora se escandalizam com o que
aconteceu nos campos de concentração? Se nós, judeus, aprendemos alguma coisa, é
que só podemos contar connosco. Por isso, temos de ter uma pátria de onde não nos
possam afastar.»
David já não se sentia parte dele, nem do passado comum. Ligara-se à mãe
desaparecida e construíra sobre esse desaparecimento a sua razão de ser.
Quando a guerra terminou, pediu-lhe que o acompanhasse a Berlim para tentar
encontrar algum rasto de Miriam, mas o filho recusou-se.
— Odeio-os, pai, odeio-os tanto que se saísse à rua e pensasse que qualquer pessoa
poderia ser culpada da morte da minha mãe, não aguentaria. Não posso ir. O único desejo
que tenho é matá-los a eles e aos amigos, a todos os que colaboraram com o seu silêncio.
— Nem todos os alemães são assassinos, David. Existem ali pessoas que sofreram

185
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

muito. Os teus tios eram alemães.


— Tens razão, pai, mas não consigo evitar o que sinto, de modo que é melhor não te
acompanhar. Deixa-me ser injusto e arbitrário. Sou judeu, posso dar-me a esse luxo depois
de seis milhões de mortos.
Compreendia o filho, que perdera a mãe e os avós por serem judeus.
Ferdinand ainda se recordava daquele 17 de Julho de 1942, quando em Paris os
sogros foram detidos com outros milhares de judeus. Eram, na sua grande parte, mulheres,
crianças, idosos. Levaram-nos para o Velódromo de Inverno. Ele ficou a saber o que se
passava porque um amigo dos sogros o fora avisar à universidade.
— Levaram-nos! — gritou o homem, irrompendo pelo seu gabinete.
Correu de imediato até casa deles e não os encontrou. Deu graças a Deus por ter
conseguido tirar David de França.
Não pôde fazer nada, por mais que tentasse todas as portas imagináveis. Os pais de
Miriam, bem como os restantes judeus de Paris, foram conduzidos para o campo de
Pithiviers e depois para o de Drancy, antes de serem transferidos para Auschwitz, de onde
nunca regressaram.
Soube tudo isso mais tarde. Naquela época, Os homens do regime de Vichy
comportavam-se como os burocratas alemães. Não sabiam nada, não diziam nada,
limitavam-se a agir. Primeiro promulgaram um Estatuto para os Judeus, de seguida criaram
um Comissariado Geral para as Questões Judaicas, e mais tarde levaram-nos para os campos
de concentração.
Demorou algum tempo até o dizer a David, porque sabia que o filho não ia aguentar
outra perda, e durante algum tempo, quando lhe perguntava pelos avós, evitava responder-
lhe directamente.
Um dia, o filho deixou de lhe perguntar, e limitou-se a dizer: «Levaram-nos, não foi?».
Ouvia os soluços de David, e conteve-se para que ele não ouvisse os seus pelo telefone.
Sim, David podia dar-se ao luxo de ser arbitrário depois de seis milhões de mortos.

Agora o filho trabalhava num kibutz e dizia estar bem, e até que era feliz.
Confessou-lhe que tinha um sonho. Fazer parte da Haganá, um grupo secreto de defesa que
estava a organizar centenas de judeus civis na Palestina, dispostos a lutar por aquele
pedaço de terra e convertê-lo na sua pátria. Mas, por enquanto, tinha de se limitar a ajudar
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

a defesa do seu próprio kibutz. Numa das primeiras cartas que escrevera, falara de um novo
amigo.

Estou a aprender árabe. Quem me está a ensinar é um palestiniano, que vive numa
quinta perto do kibutz. O meu amigo chama-se Hamza e tem a minha idade. Eu ensino-lhe
francês, e algumas vezes saímos juntos para o campo. Gosta de futebol e eu também, como
sabes. O chefe do kibutz disse-me para não confiar demasiado nele, mas eu confio. É uma
boa pessoa e a única coisa que quer é o mesmo que eu: viver em paz, ter um pedaço de
terra que sinta que é seu. Esta terra é pequena, mas cabemos todos, é o que eu respondo
ao chefe do kibutz. Temos que conseguir viver juntos. Hamza pensa como eu. No outro
dia, fomos caçar. A verdade é que não caçámos nada, mas divertimo-nos muito. Recebe-me
na casa dele como amigo, e convidou-me a jantar várias vezes com eles. Hamza também
vem ao kibutz, antes nunca se tinha atrevido a entrar, às vezes ajuda-me com os trabalhos
no campo. Não gosto destes, mas tenho de os fazer. Estou tão satisfeito por ter um amigo
palestiniano! Yacob, o nosso chefe, acha que um dia vamos ter problemas, mas eu não
concordo, embora saiba que alguns palestinianos receiam a nossa presença. Eu digo a
Hamza que o correcto seria conseguir um país onde nós e eles coubéssemos. Ao fim e ao
cabo, somos todos filhos de Abraão...

As cartas de David estavam cheias de entusiasmo. Pelo menos, isso confortava-lhe a


alma. O filho continuava a ser uma boa pessoa. Iria visitá-lo, mas antes tinha de regressar a
Berlim, e em seguida, terminar o trabalho acerca de Frei Julián.
Voltou a sentir náuseas ao recordar-se do conde d'Amis, daquelas pessoas
extravagantes que tinham feito escavações à volta de Montségur à procura de um tesouro
inexistente. No seu foro íntimo, troçava deles, era a sua vingança perante a idiotice que
exibiam.
Sentia asco e desprezo pelo conde. A muito custo, continuara com a investigação,
sabendo que o conde d'Amis era um devoto do regime de Vichy. Um colega de Toulouse
avisara-o acerca dos amigos alemães do conde: «Procuram o Graal para Hitler». Mas ele já
o sabia. Parecera-lhe algo de tão disparatado que não lhe quisera dar qualquer importância,
embora com a passagem do tempo tivesse percebido que, apesar dos esforços do conde para
ser discreto, este denunciava uma obsessão fanática pela independência do Languedoc. Se o
conde apoiava a Alemanha era com a esperança de ver a sua região separada de França, e

187
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

recuperar a autonomia perdida nas guerras cátaras.


Sabia que em Montségur se tinham reunido os seguidores de Otto Rahn, e que estes
faziam parte dos grupos de trabalho do conde. Mas este era inteligente e nunca se juntara
a eles. Ele também não o fizera, ainda que, nalgumas ocasiões, se tivesse cruzado com
alguns deles, que chegavam exaustos depois de esburacarem Montségur.
Não lhe interessava a vida depois do desaparecimento de Miriam. Mantinha a
esperança de que um dia alguém lhe desse uma pista; então, tentaria pressionar o conde
para se servir da influência dos seus amigos alemães. Mas isso nunca acontecera. A
guerra mostrara-se em toda a sua crueldade, a França dividira-se em duas, e todas as
histórias pessoais tinham ficado esquecidas. A sua também.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

14

Do seu retiro, Ferdinand continuou a recordar os meses que se seguiram ao final da


guerra.
Foi à Alemanha sem David, a casa de Inge, que sobrevivera a todas as vicissitudes da
guerra. Juntos voltaram a procurar Miriam. Iam de um sítio ao outro para lerem as listas dos
prisioneiros dos campos de concentração. Numa dessas listas, encontrou os Bauer, noutra
Deborah, e chorou-os com raiva e pena.
Encontraram a data em que Sara e Yitzhak tinham chegado a Dachau, e em que foram
conduzidos às câmaras de gás. Mas nem rasto de Miriam.
— Temos de esperar que se saiba a verdade — disse-lhe Inge. — Temos de esperar que,
um dia, nos digam quantas pessoas morreram nos comissariados. Acho que Miriam deve ter
sido levada pelos camisas-castanhas, e quem sabe se a espancaram até à morte, ou se
morreu torturada pela Gestapo. Ainda falta muito até que abram os arquivos. Os alemães
não se suportam a si mesmos, e preferem continuar sem saber tudo o que fizeram e que
deixaram de fazer.
— E tu, Inge, como te sentes? — perguntou-lhe.
Após alguns momentos de silêncio, ela mordeu o lábio e cruzou as mãos no colo
antes de responder.
— Sinto-me enojada. Enojada de mim, do meu país, das pessoas. Não será fácil
voltarmo-nos a reconciliar connosco. A Alemanha será para sempre perseguida por este
pesadelo.
— Vocês eram o pesadelo — respondeu Ferdinand com dureza.
— Tens razão, e também sabes que sou daquelas pessoas que não pretendem evitar
num um pouco da responsabilidade, nem sequer a pessoal, por aquilo que aconteceu. Eu
estava aqui, poderia ter tentado fazer alguma coisa como tantos outros, e não o fiz. A
minha única obsessão foi sobreviver e esperar que tudo terminasse.
Também encontrara o pai de Günter. A data da entrada dele em Auschwitz e a
da sua execução. Sabia que jamais o ia voltar a ver, que não regressaria de onde estava.
E agora, Inge?
— Espero poder encontrar um trabalho melhor.
189
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Confessou-lhe também que durante a guerra chegara a trabalhar como prostituta dos
militares para poder alimentar Günter.
— Quando não me pediam para fazer limpezas, não tinha outro remédio senão ir
para as ruas. Deram-me a direcção de um sítio onde só iam oficiais alemães, quando
estavam de licença em Berlim. Fui até lá algumas vezes.
Ferdinand sabia que aquilo a marcara, mas Inge nunca lho diria, não se iria abaixo
perante ninguém. A sua única obsessão era continuar.
— Que queres fazer? — perguntou-lhe ele.
—Gostaria de acabar o curso e ser professora. Com um pouco de sorte, vou
conseguir. Günter tem sete anos, já não precisa muito de mim. Poderei dispor de algum
tempo para estudar de noite, e entretanto continuarei com o trabalho de que te falei.
Começara a trabalhar como telefonista num hotel, e sentia-se satisfeita apesar de o
salário ser baixo. Mas ela arranjava-se.
Inge era poupada, estava habituada a sobreviver. De modo que o conseguia fazer
com pouco.
— Nunca pensaste em ir-te embora?
— Para onde e para quê? Não, não acho que seja boa ideia, aqui... bem... aqui sei como
posso viver, e noutro sítio decerto que me seria mais difícil. Não posso arriscar-me por causa
de Günter. Ele tem direito a uma vida melhor, e este país, apesar do que te disse antes, irá
para a frente. Verás, até pode ser que a Alemanha se transforme numa terra de
oportunidades, está tudo por fazer.
— Ainda és comunista? — perguntou-lhe curioso.
— Não, não sou, sou apenas eu.
Na verdade, sempre fora assim, mas a resposta dela impressionou-o. lnge ainda não
fizera trinta anos, e falava como uma mulher idosa e sem fé.
— E tu o que és, Ferdinand? — perguntou-lhe ela.
— Não sei que te responder, embora os europeus devam estar muito agradecidos aos
teus amigos russos bem como aos norte-americanos. Ganharam ambos a guerra e
libertaram-nos do inferno.
— Sim, devemos muito à mãe Rússia, e disse-te um dia que Estaline esperou por este
momento.

190
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Mas o pacto Molotov-Ribbentrop foi uma punhalada.


— Foi política.
— Política da pior, uma página negra na história dos comunistas.
— De todos os comunistas?
— Sim, de todos. No meu país, alguns dirigentes comunistas querem agora que
acreditemos que Hitler queria a guerra com a França e que a Política de Estaline o refreou a
tempo.
— E foi isso que aconteceu.
— E que me dizes da «cedência» de Hitler à União Soviética dos Países Bálticos e do
Leste da Polónia?
— Acabas de me dizer que devemos muito à Rússia.
— Mas estou a pensar nas pessoas, nos soldados, nas mães, penso nas pessoas de
carne e osso que se sacrificaram.
— Se Napoleão não conseguiu vencer os russos, muito menos o iria conseguir Hitler
— replicou ela e esboçou um sorriso.

Um dia pediu a lnge que o acompanhasse a casa dos tios de Miriam. Queria ver a
porteira, a senhor Bruning. Talvez agora lhe dissesse a verdade.
Inge tentou dissuadi-lo, pois sabia que aquilo o ia destroçar, mas aceitou acompanhá-
-lo.
A senhora Bruning sobrevivera à guerra e estava mais gorda do que quando a tinham
visto pela última vez.
Quando lhes abriu a porta, reconheceu-os de imediato e empalideceu.
— Vocês...! O que é que querem...? Já lhes disse que não sei nada...
Mas ambos repararam que a mulher já não se mostrava arrogante, nem exibia o
autoritarismo de que fazia gala quando pendurara a suástica na janela da casa.
— Senhora Bruning, depende da senhora o que vai acontecer — ameaçou-a
Ferdinand, a exibir-se. — Agora somos nós que fazemos listas dos colaboradores dos nazis,
que denunciaram tantas pessoas boas... Fale, e poderei dar-lhe uma oportunidade.
— Fale, senhora Bruning, não tem outra escolha — interveio Inge.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

A mulher secou o suor que lhe inundava a testa com as costas da mão. Exsudava o
cheiro do medo. Vacilava sem saber que fazer, e depois convidou-os a entrar.
— O meu marido morreu — disse-lhes. — Fiquei sozinha, com uma filha e dois netos.
O marido da minha filha morreu na Rússia. Se me denunciarem... não sei que será de nós.
Inge agarrou o braço de Ferdinand para evitar que este insultasse a
mulher. Aquele lamento parecia imoral vindo da boca de uma nazi. Mas
a única maneira de saber a verdade era não a pressionar mais do que devia.
—Estamos a ouvi-la, senhora Bruning — disse Inge, com suavidade.
— Ela chegou de manhã e ficou muito zangada quando viu a livraria.
Eu... pedi-lhe que se calasse, mas ela insultou-me, disse-me que éramos
uns selvagens, que tipo de povo era este que atirava livros para a rua, os
queimava e fazia desaparecer dois pobres velhos. Ameaçou-me, a mim... atreveu-se a
ameaçar-me. Disse-lhe que era uma cadela judia e começou a rir-se, e disse-me que sim, que
era judia e que nunca se sentira mais orgulhosa de o ser do que naquele momento.
Mandei-a embora e ela continuou a rir-se. Perguntou quem é que eu pensava que era para
a mandar embora da casa dos tios. Avisei-a que, se não se fosse embora... Em seguida,
apareceram eles. O irmão do meu genro era chefe dos camisas-castanhas, e um cunhado
trabalhava na Gestapo. Ela confrontou-os, disse-lhes que não se atrevessem a pôr-lhe as
mãos em cima, que era cidadã francesa, que ia telefonar para a embaixada... Então, um
bateu-lhe e ela mordeu-lhe a mão. Voltaram a bater-lhe e levaram-na.
As lágrimas ensopavam o rosto de Ferdinand. Via Miriam a confrontar-se com
aqueles selvagens. Ela, tão racional, tão segura do poder da razão e da força da lei,
enfrentara aquele exército do mal.
Inge apertou-lhe a mão, a tentar consolá-lo, em vão.
— Senhora Bruning, diga-me onde ficava o quartel-general dos camisas-castanhas, e
em que departamento da Gestapo trabalhava o cunhado do seu genro — pediu Inge com
voz firme.
A porteira escreveu tudo num papel, enquanto chorava e pedia que tivessem piedade
dela e dos netos.
— Ajudei-vos.., digam-lhe que tenham isso em consideração... ajudei-vos... —
implorava entre soluços. — Não sei o que se passou depois, ninguém me disse nada...
— Sabe como mataram Yitzhak e Sara Levi? — inquiriu Inge, friamente.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Não... não sei nada... nem sabia que tinham morrido...


— Numa câmara de gás. Consegue imaginar o que é morrer assim? E sabe porque
morreram? — prosseguiu Inge.
— Não... não... — gemeu a porteira.
— Porque o mal existe e porque você faz parte dele. Acho que merece uma morte
horrível, mas não me cabe a mim dar-lha. Você responderá pelo que fez, senhora
Bruning, as pessoas que morreram por sua culpa não a deixarão descansar. Não feche os
olhos, senhora Bruning, porque estão aí...
A mulher chorava histérica, a sentir-se cercada por fantasmas.
— Agora vamo-nos embora, mas alguém virá buscá-la. Deve ser julgada e pagar
pelo que fez — sentenciou lnge, sabendo que não aconteceria nada àquela mulher.
Segurava Ferdinand pelo braço, como se se tratasse de uma criança perdida. Sentia-o
destruído, inerte, com uma dor impossível de suportar. Aquele momento fora pior do que
todos aqueles anos sem ter notícias de Miriam. Por fim, estava prestes a encontrá-la e não
conseguia aguentar.
Agora, o sofrimento pelo qual ela passara adquiria as tonalidades sórdidas da
realidade. Miriam estava a deixar de ser um fantasma e voltava a adquirir substância
humana.
Durante vários dias, acompanhado por um funcionário da embaixada, andou de um
lado para o outro, a reunir-se com os novos administradores da cidade, ora com os norte-
americanos, ora com os russos... Havia comités por toda a parte, a tentarem reconstruir o
que acontecera na Alemanha das suásticas, a indagar o paradeiro dos desaparecidos e a
comparar as listas dos assassinados em massa nos campos de extermínio. Não foi fácil que
lhe prestassem atenção. O seu era um caso isolado, um entre milhares, mas teve a sorte de
um funcionário norte-americano, John Morrow, ter ficado impressionado com a história.
Morrow era professor de História em Oxford, um homem que decidira alistar-se para
combater os nazis porque não concebia um mundo dominado por aquele punhado de
assassinos e psicopatas. Partira para a guerra por convicção moral e encontrava-se agora
destacado em Berlim, naquele Quartel-General, a tentar ajudar a pôr uma ordem no caos
daquela cidade.
— Compreendo a sua angústia, senhor Arnaud, se a minha mulher tivesse
desaparecido, eu teria enlouquecido. Vou fazer-lhe uma confidência: ela também é judia. É

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

de Nova Iorque, mas os avós chegaram aos Estados Unidos vindos da Polónia em busca de
uma oportunidade. Sinto uma enorme raiva quando vejo o que os nazis fizeram. Escreveram
a pior página da História.
Assim, John Morrow ajudou-os e abriu-lhe portas que permaneciam fechadas, até
encontrarem os arquivos do comissariado de um bairro de Berlim para onde, a 21 de Abril
de 1939, Miriam fora conduzida depois da sua detenção. Uma nota breve indicava que a
detida falecera nesse mesmo dia devido a uma paragem cardiorrespiratória, e o seu corpo
lançado a uma vala comum.
Ferdinand chorou como uma criança enquanto lia aquele papel amarelecido, que um
funcionário meticuloso guardara no arquivo do comissariado.
Deixaram-no chorar sozinho sem o tentarem consolar. Sabiam que nada do que
dissessem teria qualquer significado para ele.
Não era preciso ter-se muita imaginação para se saber o que tinha acontecido. Deviam
ter espancado Miriam quando a detiveram em casa dos tios e também no comissariado. O
espancamento deveria ter-lhe causado a morte. Assim tão simples e tão cruel.
Durante dois dias, andou como um zumbi, incapaz de falar, comer ou dormir. Inge e
John Morrow combinaram uma maneira de não o deixar sozinho. Temiam que
enlouquecesse, que não quisesse regressar ao mundo dos vivos, abstraído como estava na
sua longa e silenciosa conversa com Miriam.
Foi Inge que tomou a decisão de telefonar a David, e John conseguiu localizá-lo no
kibutz em Haifa.
Ela entrou no quarto onde Ferdinand estava deitado sobre a cama, com o olhar
perdido no tecto. Tinha uma barba de vários dias, e cheirava a suor e a lágrimas.
— O teu filho está ao telefone, levanta-te.
O professor pareceu não a ouvir, mas, depois, virou os olhos para ela, e olhou-a sem a
ver.
— David está ao telefone, levanta-te — repetiu Inge.
Levantou-se com dificuldade como se o corpo lhe pesasse uma tonelada, e os braços
e as pernas não lhe respondessem. Inge aproximou-se e estendeu-lhe a mão para o ajudar a
levantar-se, e conduzi-lo à sala.
Ferdinand pegou no telefone, mas permaneceu mudo. Então, Inge tirou-lho das mãos
e pediu a David:
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— O teu pai está ao telefone. Fala.


Durante alguns segundos, Ferdinand continuou encerrado no silêncio, em seguida
desatou a chorar. Inge saiu da sala e foi para a cozinha. Deixou-o sozinho, pois sabia que
aquela conversa entre pai e filho não devia ter testemunhas.
Agora que já se tinham passado alguns meses, Ferdinand sentia-se ainda mais
agradecido a Inge. Recordava-se de como ela voltara para a sala, se sentara à frente dele,
lhe pegara na mão, e lhe dissera numa voz muito baixa:
— Estás destroçado, totalmente feito em pedaços, mas tens de te recompor a pouco
e pouco, juntar os pedaços. É isso ou morrer, e eu não acredito que devas morrer. Miriam
não to perdoaria. Morto não lhe serves de nada e, no entanto, vivo podes ajudar o teu
filho, aquilo que ela mais amava.
Acompanhou-o até à casa de banho e abriu o duche.
— Arranja-te, estás um nojo.
No dia em que deixou Berlim, John Morrow foi ao aeroporto despedir-se dele e
entregou-lhe um sobrescrito fechado.
— Pediste-me que investigasse o paradeiro dos pais de Miriam e eu fi-lo. Como podes
calcular, morreram num campo de concentração. Aqui está todo o percurso que fizeram: do
campo de Pithiviers levaram-nos para Drancy e dali para Auschwitz. Lamento. Os alemães
são os maiores culpados do que aconteceu, mas não o fizeram sozinhos. Será que os po-
líticos de Vichy não saberiam o que significava mandar os seus compatriotas para Auschwitz?
Não posso acreditar... Sabes, Ferdinand? Creio que um dia, a Europa terá de fazer um
exame de consciência, porque esta loucura foi fruto do anti-semitismo, não apenas de um
louco, mas também de séculos de perseguições a judeus, de os considerarem culpados de
tudo, de os apresentarem como os assassinos de Jesus Cristo. É curioso que esqueçam que
Cristo era judeu e que nunca quis ser outra coisa senão ser judeu, por mais que a sua
mensagem fosse universal... A esquerda também tem que fazer um exame de consciência,
Ferdinand, por mais que isso os horrorize. Tudo isto aconteceu porque existiu essa cultura
durante séculos. És professor universitário como eu, e temos a obrigação de erguer a voz e
colocar as nossas razões à frente das suas contradições. Não existem atenuantes para o
que aconteceu.
— No avião abriu o sobrescrito e leu os documentos onde, de modo resumido, surgia
relatada a tragédia dos pais de Miriam. Não tinha apenas de contar a David o que
acontecera à mãe, também tinha de lhe falar do horror sofrido pelos avós.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Quatro dias depois, encontrou-se com o filho em Paris. Choraram juntos até ficarem
sem lágrimas. Falaram de Miriam, dos avós, do tempo passado e do futuro.
— Obrigado, pai, por me teres enviado para Israel. Salvaste-me a vida; viste o que ia
acontecer... e eu, que não queria ir! Se tivesse ficado...
— Não penses mais nisso. Partiste e estás vivo, isso é o mais importante. Deves viver
por ti, pela tua mãe, pelos teus avós. Tenho a certeza que eles, quando sofriam em
Auschwitz, pensavam em ti e sentiam-se aliviados por saber que estavas a salvo.
David mudara. Agora era um jovem seguro de si mesmo, com um ideal pelo qual lutar.
— Sim, sou sionista, pai. O sionismo não é mais que um regresso à pátria, era aquilo
que devíamos ter feito há muitos séculos. Se o tivéssemos feito, isto não teria acontecido.
Por isso, criámos grupos para nos defendermos. Os ingleses estão contra nós, não somos
um exército, pai, porque não temos uniformes, apenas armas, mas estamos dispostos a lu-
tar pela nossa terra. Os judeus precisam de uma pátria. Assim, o que aconteceu na Alemanha
não voltará a acontecer. Quantas vezes nos expulsaram daquilo que pensámos ser os nossos
países, das nossas casas? Quantos pogroms mais teremos de suportar? Não, acabou-se, não
voltaremos a permitir que nos levem ao matadouro como ovelhas por sermos judeus, não
voltaremos a sentir-nos como cidadãos de segunda. Vou lutar, pai, tenho que o fazer. A
mãe tê-lo-ia querido. Tu contaste-me. Enfrentou essa porca da senhora Bruning, por isso a
prenderam, por isso lhe deram uma tareia que acabou com a vida dela. Se ela estivesse
viva, pensaria como eu e convencer-te-ia a que viesses connosco para a Palestina.
Continuam a chegar emigrantes apesar dos ingleses, e parece que se formou um comité
anglo-americano que está a estudar o horrível Livro Branco que os ingleses impuseram em
1939, e que restringe a emigração de judeus para a Palestina. Os muito porcos...
— David!
— Pai, agora os judeus podem vir e é o que estão a fazer. Gostaria tanto que
estivesses ali comigo...
— Tens razão, David, deves lutar. Para mim, seria uma farsa viver lá. Posso visitar-te,
passar algum tempo contigo, mas não me sinto capaz de participar no teu sonho de
construir um Estado judeu. Se a tua mãe fosse viva... É o teu sonho, David, eu apoio-te de
todo o coração, faças o que fizeres, embora não goste. Só te peço que não esqueças
algumas das coisas que a tua mãe e eu te ensinámos. Não te esqueças que não é importante
o nome que damos a Deus, nem o modo como lhe rezamos. Não te transformes num
lunático, peço-to pela tua mãe, ela nunca o teria sido.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Nesse momento, o filho olhou-o com uma expressão muito séria e começou a chorar.
— Deus? Eu não acredito em Deus, pai, não acredito em Deus porque lhe pedi que
me devolvesse a minha mãe e não o fez. Se existisse, não teria permitido que morressem
seis milhões de inocentes nas câmaras de gás. Acreditas que eles não lhe rezaram e lhe
pediram piedade e compaixão? Onde é que Ele estava? Não teria querido evitar a morte de
inocentes? Não pôde? Porque permitiu que matassem a minha mãe?
— Filho, não culpes Deus dos actos de Hitler.
— Se Deus existe, permitiu uma matança. Tu deste-me uma educação laica. Portanto,
não me venhas agora falar de Deus. Vou lutar para que nunca mais ninguém possa matar
impunemente judeus. Vou lutar para que os judeus tenham um lugar, para que não nos
persigam mais. Eu não representei nada para Ele quando precisei, e Ele deixou de
representar o que quer que fosse para mim. Que mais é que nos pode fazer?
Não tinha resposta para as perguntas do filho, e também não a tinha para as suas.
Nem sequer sabia porque é que Deus o preocupava. Talvez devido às muitas horas de
estudo e reflexão acerca dos cátaros ou a perseguição dos hereges, a Inquisição e tantas
outras barbaridades cometidas pelos homens em Seu nome.
Sentiu-se destroçado por dentro quando voltou a despedir-se de David. O filho
regressava a Eretz Israel, como ele chamava à Palestina.
A única coisa que o agarrava à vida, à própria existência, era David, de modo que teria
de arranjar uma maneira de evitar que o vínculo se quebrasse.
Agora, antecipava o momento em que se reencontraria com o filho, dali a um mês
ou dois. Entregaria, entretanto, o trabalho acerca de Frei Julián e a universidade iria
apresentá-lo como um dos seus estudos de investigação acerca do passado. Também o
conde d'Amis aguardava, ansioso, o resultado de tantos anos de trabalho, interrompido
pelas vicissitudes da guerra.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

1 5

Um mês depois, quando estava prestes a partir para Israel para visitar David, o
director do departamento de História chamou-o com urgência ao seu gabinete.
Surpreendeu-se ao encontrar três padres com o colega.
— Ferdinand, estes senhores são o padre Nevers, da nunciatura em França, o padre
Grillo, da Secretaria de Estado do Vaticano, e o seu secretário, Ignacio Aguirre.
— Muito prazer — disse e apertou-lhes a mão, sem perceber o motivo daquela
visita.
— Eles vão explicar-te porque estão aqui e o pedido que nos fizeram — explicou o
director do departamento.
O padre Nevers e o padre Grillo trocaram um olhar fugaz, no qual decidiram qual dos
dois ia falar primeiro. Fê-lo o francês.
— Professor Arnaud, vou directo ao assunto.
— Sim, é muito amável — respondeu Ferdinand, cada vez mais surpreendido.
— Sabemos que esteve a trabalhar para o conde d'Amis.
— Lamento contradizê-lo, mas não é bem assim — interrompeu-o Ferdinand—
Presumo que o director do departamento lhes tenha explicado que efectuei uma
investigação acerca da crónica escrita por um frade dominicano durante o cerco de
Montségur. Essa crónica chegou às minhas mãos através do conde d'Amis, que queria que eu
a autenticasse. A partir dessa altura, o conde permitiu à universidade que eu trabalhasse
nesse documento e autorizou que se iniciasse um estudo académico, cujo fim era aumentar
os conhecimentos que temos acerca do que significou a perseguição dos cátaros e,
sobretudo, a configuração de França tal como a conhecemos. Foi isso que fiz, entre outras
coisas, nos últimos anos. O meu trabalho foi feito para a universidade, não para um
particular. O resultado desse trabalho foi publicado com o selo da universidade.
— Mas o professor esteve em contacto permanente com o conde d'Amis —
asseverou o padre Grillo, com um francês excelente.
— Sim, claro, tive de investigar nos seus arquivos familiares, de modo que fui com
uma certa frequência ao castelo d'Amis, uma frequência interrompida pelos acasos da
guerra.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Estes senhores já conhecem o trabalho publicado pela universidade — disse o


director do departamento —, o que me surpreendeu de maneira muito agradável.
— Presumo que vos incomoda que agora seja publicado um estudo sobre o que
significou aquela cruzada contra os cátaros, mas garanto-lhes que o meu trabalho é
puramente académico. Não tenho qualquer intenção de prejudicar a Igreja pelos seus erros
passados — afirmou Ferdinand num tom de voz, em que se notava uma certa irritação.
— Professor Arnaud, não viemos debater essas circunstâncias históricas, nem o
motivo das acções da Igreja. Neste momento o que nos preocupa é o presente, não o que
um estudo académico possa mostrar acerca do que aconteceu no século XIII — respondeu
o representante da nunciatura, o padre Nevers.
— Bem, então diga-me o que pretende — pediu Ferdinand.
— Durante estes últimos anos, e apesar da guerra, grupos de... não sei bem como lhes
chamar, estudiosos? alemães e também franceses, fizeram escavações na zona de
Montségur, à procura de... à procura de um tesouro, e sabemos que foi o senhor que os
liderou — disse o padre Nevers.
— Ah, não! Isso é que não! Não liderei ninguém! — protestou, Ferdinand.
— Testemunhas garantem que o fez.
— Explicar-vos-ei exactamente o que fiz e o que não fiz, mas diga-me antes o que se
passa, o que pretendem...
O padre Grillo pigarreou. Ferdinand olhou-o fixamente. Era um homem de meia-
-idade, com cabelos grisalhos e perfeitamente penteados, de compleição morena, e mãos
compridas e largas. Tinha um toque de aristocrata.
— Senhor Arnaud, dir-lhe-emos o que é que se passa — disse o padre Grillo. — Há
alguns meses chegou-nos a notícia dos trabalhos que um grupo de filonazis estava a
efectuar nos arredores de Montségur. Desde 1939 que procuravam o tesouro dos cátaros,
um tesouro que alguns pensam ser o Graal.
Ferdinand soltou uma gargalhada que surpreendeu os três padres e o director do
departamento, que o olhou aborrecido.
— Por favor! Imagino que os senhores não acreditam nessas histórias fantásticas!
Senhores, tenho vários livros publicados acerca desse período da história de França, e
acerca da perseguição efectuada à heresia. Nalgum capítulo, falei do tesouro, e deixei claro
que não passava de moedas e de jóias que foram tiradas de Montségur para que os
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

sobreviventes pudessem continuar com a Igreja dos Bons Cristãos. Não existe nenhum
mistério quanto a esse tesouro, nenhum. Não há um Graal, não existe um Graal, os
senhores não deviam ler livros esotéricos nem os daquele nazi, Otto Rahn, que, no entanto,
não deixa de ser brilhante. Sou historiador, não fantasista, de modo que não encontrarão
nada escrito por mim que avalize a teoria absurda do Graal.
— Então, qual foi a tua relação com esses grupos de trabalho? — perguntou o director
do departamento de História.
— Sabes muito bem — respondeu Ferdinand, irritado —, porque to expliquei mais de
uma vez. Efectivamente, o conde d'Amis tinha grupos de rapazes a fazer escavações na zona.
Eram liderados por um ou outro professor das universidades alemãs, que, influenciados pelas
histórias de Rahn, tinham a certeza que iam encontrar o tesouro dos cátaros. Esses grupos
apareciam e desapareciam. A única coisa que o conde me pedia de vez em quando era que
examinasse os documentos relativos aos seus trabalhos e conclusões, e respondi sempre o
mesmo: que eram conclusões falsas, absurdas, que ali não existia nenhum tesouro e que o
Graal não existia, embora nunca me tivessem dito directamente o que procuravam. Foi o
preço baixo que tive de pagar para que me permitissem investigar os seus arquivos. Sim, eram
filonazis como os senhores dizem. — E olhou para os sacerdotes. — Na verdade, não eram
diferentes de tantos franceses que colaboraram com a Alemanha. A verdade é que nunca
lhes prestei muita atenção. Não gostava deles, tal como também não gostava do conde. O
meu único objectivo era investigar, aprofundar a história de Frei Julián. Esse era o meu
trabalho. Se o leram, não podem ter dúvidas a esse respeito.
— Queríamos que nos contasse tudo de que se lembra a respeito desses grupos,
aquilo que o conde realmente procurava — insistiu o padre Nevers.
— Já lhe disse. Procuravam o tesouro dos cátaros. Os senhores sabem que houve um
escritor pitoresco, Napoleon Peyrat, pastor da Igreja Reformada, que escreveu A História dos
Albigenses. Na verdade, reescreveu a história com mitos, lendas, contos infantis.., enfim,
temos de reconhecer que era um bom narrador, tal como o foi Otto Rahn. As fábulas de
Peyrat deram lugar à moda de tudo aquilo que era provençal, e alguns alimentaram
extravagantes ideias nacionalistas acerca do Languedoc perdido. Alguns indivíduos,
menores, esotéricos e ocultistas, desenvolveram outras histórias acerca dos cátaros e do
Languedoc. Outro escritor, Maurice Magret, contribuiu muito para essa moda. Dedicou um
capítulo alucinante aos cátaros na sua obra Os Novos Magos. Antes da guerra, tinha
muitíssimos seguidores, sem se afastar muito do próprio Otto Rahn.
— E o que é que tudo isso tem a ver com o conde d'Amis? — insistiu o padre Grillo.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— É descendente de uma perfeita, uma mulher que foi queimada em Montségur. A


crónica de Frei Julián foi guardada e passada de pais para filhos, durante gerações. Se
tivesse caído nas mãos da Inquisição, tê-los-iam matado a todos, incluindo o próprio Frei
Julián, apesar de ser dominicano. De modo que essa crónica sempre foi rodeada por um
certo segredo. Não a queriam dar a conhecer para que ninguém os apontasse como
hereges. Recordo-vos que não há muito tempo, Pio X, que foi papa, como sabem, entre 1905
e 1914, incluiu a Inquisição quando reorganizou a Cúria, que passou a denominar-se a
Congregação do Santo Ofício. O que significa que, embora oficialmente já não exista,
ainda existe. E a memória de Montségur e da perseguição dos hereges passou de geração em
geração. Das minhas conversas com o conde, deduzi que ele sonha com a independência do
Languedoc. Creio que a sua simpatia para com a Alemanha era proporcional ao desprezo
que sente pela França por ter anexado, como ele diz, a sua terra, o Languedoc. Como vêem,
há pessoas que não assumem a história, para quem a passagem dos séculos e os acon-
tecimentos não têm qualquer importância. O conde sonha com um Languedoc
independente e à partida sente pouca simpatia para com a Igreja Católica, mas isso são
deduções minhas. Também não o poderia afirmar, porque sempre procurou ser discreto no
momento de expressar opiniões políticas ou religiosas.
— É tudo? — perguntou o padre Grillo.
— É tudo quanto sei e lhes posso contar. O meu querido colega também conhece o
conde assim como outras pessoas desta universidade; há pouco tempo fizemos-lhe a
entrega oficial do resultado do meu trabalho. Diria que não ficou muito satisfeito, que
esperava mais, mas não disse nada. Quanto a ele, continua a apoiar esses grupos que se
dedicam a esburacar o Languedoc em busca do tesouro, o que, na verdade, não me tem
preocupado.
— Senhor Arnaud, correm rumores que o conde d'Amis encontrou algo de muito
especial — afirmou o padre Nevers.
—E o que é essa coisa tão especial? — perguntou Ferdinand com curiosidade.
— É isso que não sabemos, e que queríamos averiguar — explicou o padre Grillo. —
Durante a guerra, os rumores insistiam que era o próprio Heinrich Himmler que estava por
trás de algumas das escavações de Montségur, e que os seus agentes estavam em contacto
com alguns elementos dos grupos do conde. Inclusive.., bem, embora pareça um disparate,
outro rumor aponta para o facto de Alfred Rosenberg ter sobrevoado Montségur a 16 de
Março de 1944, dia que coincidiu com o septingentésimo aniversário da rendição do
castelo. E, depois, o pior dos rumores. A possibilidade de terem encontrado algo que coloca
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em perigo a Igreja.
— O que é que vos preocupa? Dos nazis, podem esperar muitas coisas. Depois de
terem assassinado seis milhões de pessoas nas câmaras de gás não me sinto surpreendido
que o teórico favorito do nazismo de Hider, Rosenberg, tenha subido a bordo de um avião
para sobrevoar Montségur, ou que um indivíduo tão sinistro quanto Himmler tenha podido
interessar-se por histórias esotéricas. Não, nada do que me possam contar a respeito dessas
pessoas me surpreende, mas acho que se tecem muitas patranhas em volta de Montségur, e
pode ter acontecido que durante a guerra houvesse pessoas interessadas em espalhar essas
e outras coisas. A mim, é-me indiferente. A maior parte dos trabalhos que se publicam acerca
de Montségur e do tesouro cátaro são simples rumores, por isso não acredito que se tenha
encontrado alguma coisa que possa colocar em dificuldades a Igreja, a não ser que os
senhores tenham um segredo inconfessável, fechado a sete chaves, e que temam seja
revelado. O que não consigo compreender é o que esse segredo tem a ver com Montségur.
— Professor Arnaud, a Igreja não tem segredos inconfessáveis — respondeu o padre
Nevers, irritado.
— É-me indiferente. Apenas me interessaria como historiador, e neste momento nem
sequer assim — respondeu Ferdinand com uma enorme frieza.
— O que é que pensa que é o Graal? — perguntou-lhe em voz baixa o padre Grillo,
que permanecera alheio à crescente tensão entre o padre Nevers e o professor Arnaud.
— Não sei, isso teriam de ser os senhores a dizer-me — sentenciou Ferdinand. —
Como podem compreender, não acredito que a taça em que Jesus bebeu na Última Ceia
se tenha conservado durante vinte séculos. Teria algum dos apóstolos, naquela noite,
pensado na posteridade e decidido guardar aquela taça? E porque não o prato em que
comeram? É absurdo, e os senhores sabem-no. O negócio das relíquias nunca me
interessou. Compreendo que existam milhões de pessoas que, de boa-fé, acreditem que o
osso tal ou tal pertenceu a um santo, ou que um pedaço de madeira faz parte da cruz em
que Cristo foi crucificado, ou que a taça da Última Ceia tenha sido guardada e chegado aos
dias de hoje, mas isso são histórias para crianças e tenho a certeza que nenhum dos
senhores acredita nelas. A fé é outra coisa, Deus é outra coisa.
— Não sabíamos que era teólogo — ironizou o padre Grillo.
— Nem eu vos considero idiotas. Se o fossem não teriam sobrevivido dois mil anos —
replicou Ferdinand.
— Bem, chegámos a um consenso — admitiu o padre Grillo. — Agora vem a segunda
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parte. Poderia ajudar-nos a averiguar o que é que encontraram exactamente em


Montségur?
— Não há nada para encontrar, não há nada para averiguar.
— Para a Igreja é importante saber com que se defronta — disse o padre Nevers.
— A Igreja não tem que se defrontar com nada. Possivelmente, apenas com uma
patranha que não vos será difícil desfazer.
— Poderia visitar o conde e tentar averiguar? — pediu-lhe directamente o padre
Grillo. — Talvez um de nós o possa acompanhar.
— Digamos que as minhas relações com o conde... são tensas, precisamente porque
me mantive afastado dos seus grupos de trabalho. Quanto aos senhores... enfim, nota-se
demasiado bem que são padres, e não acredito que o conde sinta qualquer desejo de se
confessar, a não ser...
— A não ser...? — perguntou o padre Grillo.
— Não sei. O senhor — respondeu, dirigindo-se ao jovem — não tem aspecto de
padre, pode ser que o consiga fazer passar por um dos meus alunos.
Ignacio Aguirre arrepiou-se quando sentiu todos os olhares fixos nele, e procurou com
os olhos o auxílio do padre Grillo.
— Ah, o jovem Aguirre! É um jovem competente, com bons dotes que poderá
desenvolver na Secretaria de Estado, mas é apenas um assistente, um escrivão. Ainda não
tem nem formação, nem experiência. De facto, trouxe-o comigo porque o seu superior me
pediu que durante estes meses de Verão permaneça a meu lado para praticar, mas o seu
futuro está ainda por determinar. Ainda não acabou os estudos.
— Se o senhor me acompanhasse ao castelo, o conde não demoraria nem um
segundo a aperceber-se que é algo mais do que, suponhamos, um estudioso de história
medieval. Nota-se demasiado que é um homem da Igreja, enquanto o padre Nevers... Acho
que me lembro de ter visto uma fotografia dele nos jornais. Por isso, lembrei-me deste
jovem. De qualquer maneira, posso ir sozinho e ter sorte, embora repita que o conde não
está exactamente satisfeito com o meu trabalho e não sei como me receberá.
O padre Grillo e o padre Nevers voltaram a trocar um daqueles olhares com que
pareciam entender-se sem necessidade de palavras.
— Mandaremos o jovem Aguirre consigo. Assim pode ir-se habituando. Quando é que
o professor pode ir? — quis saber o padre Grillo.
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— Amanhã, da parte da tarde. Dentro de dez dias vou viajar, vou visitar o meu filho a
Israel, e garanto-lhes que não desmarcarei a viagem por nada nem por ninguém.
— Não lhe pedimos tanto, senhor Arnaud. Sabemos quanto o senhor como o seu
filho sofreram. Ficar-lhe-emos agradecidos, se puder averiguar alguma coisa — respondeu o
padre Nevers.
— Acho que este jovem — sugeriu Ferdinand — deveria ler o meu livro acerca de
Frei Julián e actualizar-se no que se refere aos cátaros. Se vos parecer bem, da parte da
tarde partiremos para o castelo. Telefonarei ao conde para lhe anunciar a nossa visita;
espero que não se recuse a receber-nos. Ah! E é melhor que se vista como um estudante,
ou dificilmente poderia passar por meu aluno.

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16

Durante o trajecto de comboio, Ignacio Aguirre insistiu para que ele lhe
explicasse a «verdadeira» história dos cátaros.
— Sei que deveria saber mais, mas não é o meu forte — confessou.
Ferdinand explicou-lhe. Mas pouco antes de chegarem à estação, tirou uma carta
de David que encontrara na caixa do correio antes de partir.

Jantei há alguns dias em casa de Hamza. A mãe dele preparou cordeiro com ervas
aromáticas. Foi o melhor cordeiro que comi até hoje. Levei-lhes pão ázimo que fazemos no
kibutz e um cesto de fruta do nosso pomar. Hamza riu-se e disse que não era preciso ter-
-me incomodado em levá-la, porque de vez em quando ele tirava-a. Estivemos a conversar
até tarde. Eles pensam que os queremos afastar da terra deles, e contou-me que os seus
líderes querem que desconfiem de nós. O pai de Hamza acha que um dia teremos de nos
confrontar, mas eu disse-lhes que o podemos evitar, que apenas depende de nós. Ontem,
Hamza veio jantar comigo ao kibutz. Receberam-no bem. Ao princípio ele mostra-se sempre
tímido, mas depois, quando ganha confiança, sente-se como se estivesse em casa.
Surpreende-o que partilhemos tudo, que comamos juntos, que ninguém tenha nada e que
não existam classes sociais. Aqui tanto faz ser-se engenheiro como camponês, fazemos
todos o mesmo trabalho. Também lhe chamou a atenção que as crianças vivam todas juntas
numa casa comum, todos os dias tratadas por duas mães enquanto as outras trabalham.
Mostrei-lhe todos os recantos do kibutz e ele confessou-me que às vezes, quando estamos
distraídos, apanha algumas maçãs das nossas macieiras. Rimo-nos por causa disso, e
ficou surpreendido por eu não me ter aborrecido, embora lhe tenha pedido para ter
cuidado, a fim de que não o vissem. A seguir, durante o jantar, falámos de como teria sido
bom formar um Estado judaico-palestiniano, tal como proposto em 1937 na Sociedade das
Nações. Mas os líderes árabes recusaram-no e eu disse que foi um erro porque poderíamos
ter formado um Estado como a Suíça. Enfim, já não podemos voltar atrás, mas resisto à ideia
de que um dia eu e Hamza tenhamos de nos confrontar porque os políticos assim o
decidiram.
Nem ele nem eu somos assim tão diferentes, apesar de dois mundos opostos. Hamza
diz que já percebe algumas coisas quando falo em árabe, e a verdade é que ele aprendeu
mais francês do que eu aprendi a sua língua. É muito inteligente, na realidade é o meu
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

melhor amigo. Ias gostar de o conhecer. Estou ansioso que venhas, receber-te-ei de
braços abertos, sei que ficarás surpreendido pela vida no kibutz. Isto sim, é que é socialismo
puro. Ah! Os pais de Hamza disseram-me que te vão convidar para jantar...

A carta continuava a contar mais episódios da vida quotidiana naquele recanto de


Israel.
A vida de David não era isenta de privações e dificuldades, mas ao menos era feliz, ou
assim o parecia a Ferdinand, nas cartas que recebia com tanta frequência.
— Boas notícias? — perguntou Ignacio Aguirre.
— É uma carta do meu filho. Sim, são boas.
— Vive muito longe?
— Na Palestina. David é judeu, a mãe era judia.
Disse-o com um tom de desafio que fez com que o padre corasse.
— Sabemos o quanto sofreu — replicou este.
— Investigaram-me? — perguntou Ferdinand, curioso.
— Oh, não! Nada disso, mas quando começaram a chegar as notícias do que se
passava em Montségur, surgiu o seu nome... bom, imagino que a nunciatura de Paris deva
ter perguntado quem é que o senhor era.
— De modo que, além de lerem o meu trabalho acerca de Frei Julián, quiseram saber
que tipo de pessoa é que eu era?
O sacerdote não respondeu directamente à pergunta. Esboçou um sorriso,
enquanto ganhava tempo.
— O professor é reconhecido pela comunidade universitária. E o seu trabalho
acerca de Frei Julián e muito interessante, parece que está vivo.
— Ele esteve vivo. Um homem como nós, que as dúvidas fizeram adoecer. Queria ser
leal a Deus e à sua família, e isso significava viver uma falsidade.
— Apenas atraiçoou Deus. Manteve-se fiel à família, a uma família que não o aceitava.
— Acredita mesmo que atraiçoou Deus?
— Sim — respondeu o sacerdote.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Eu acho que não o fez. Simplesmente tentou conciliar duas lealdades, mas nunca
duvidou de Deus.
— Não sabia que Deus servir.
— Sempre serviu o mesmo Deus, já que só há um, chame-se como se chamar, reze-se
como se rezar, entenda-se como se entender. E nunca renegou a cruz, apesar de lhe repugnar
o que se fazia em nome dela. Consigo não teria acontecido o mesmo?
Ignacio Aguirre hesitou, e colocou a si mesmo aquela pergunta. Como se teria ele
sentido? Teria podido suportar o comportamento fanático daqueles que considerava
irmãos?
— Não se pode julgar os homens fora do contexto em que viveram — respondeu o
padre. — Não podemos ver a história com os olhos de hoje.
— Agora compreendo porque é que, sendo tão jovem, trabalha na Secretaria de
Estado.
O sacerdote soltou uma gargalhada que desconcertou Ferdinand.
— Mas não trabalho lá! O padre Grillo já lho explicou. Estou ali provisoriamente durante
o Verão porque o meu superior, que é amigo do padre Grillo, lhe pediu que me desse
trabalho para que começasse a ganhar prática. Faço um pouco de tudo: arquivo, vou buscar
café, passo a limpo cartas, traduções... Na verdade, o padre Grillo trouxe-me porque o seu
secretário está de férias, creio que tem a mãe doente, e deram-lhe autorização para a visitar.
De modo que me encontrei com este presente. Porque vir a França foi um presente.
— Mas fala muito bem francês.
— Sou basco.
— E o que é que isso tem a ver?
— Tenho uma tia casada com um francês de Biarritz, e passei com ela e com os meus
primos alguns Verões. Dizem que tenho jeito para as línguas. O meu director garante que se
alguém é capaz de falar basco, pode fazê-lo em qualquer outra língua.
— Não quero ser indiscreto, mas como é que um jovem como você decidiu ser padre?
— Porque tenho a vocação para servir Deus. Os meus pais levaram-me para o
seminário para estudar, já sabe que quando não há muito dinheiro numa família um modo
de se poder estudar é ir para o seminário, e no meu caso encontrei a vocação. Já sabe que a
minha terra é a de Santo Inácio, e um sacerdote jesuíta, parente afastado do meu pai,

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

ajudou-me. . Graças a ele, pude estudar estes últimos anos em Roma.


— Você é um rapaz com futuro. Talvez um dia chegue a ser papa, embora sem a
sotaina não pareça um padre, mas um jovem normal...
— Sou jesuíta, servirei onde me mandarem servir, mas isso de ser papa parece-me
difícil — respondeu Ignacio bem-humorado. — E o senhor é crente?
— Na verdade, sou agnóstico, mas tenho um profundo respeito pelos que crêem e
por Deus.
— Apesar de ser agnóstico, fala de Deus como se para si existisse.
— Não, não tenho certezas, apenas respeito. Os meus pais também são agnósticos,
e durante todos estes anos não encontrei o rasto de Deus em parte alguma, de modo que
quase me pareceu um milagre continuar a ser agnóstico.
A conversa estava a adquirir um tom demasiado pessoal. Quando chegaram à
estação, Ferdinand decidiu desviá-la para os cátaros e Frei Julián.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

17

Raymond recebeu-os à porta do castelo. O filho do conde convertera-se num rapaz


alto e forte. No seu rosto destacavam-se uns olhos verdes intensos, cheios de curiosidade,
mas que ao mesmo tempo mantinham as distâncias.
— Seja bem-vindo, professor — saudou ele a Ferdinand —, e também o senhor...
— Aguirre — disse Ferdinand. O sacerdote estava, no entanto, um pouco
constrangido pela situação.
— O meu pai regressa amanhã, mas quando lhe telefonei para lhe dizer que nos
queria visitar, pediu-me que o recebesse e que me pusesse à sua disposição. Mandou que
lhe preparassem o seu quarto habitual, e para si, senhor Aguirre, um que fica mesmo ao
lado. Espero que fiquem à vontade. O almoço será servido dentro de duas horas, se
precisarem de mim para alguma coisa ficarei encantado em poder-vos ajudar.
— Ignacio é um excelente aluno. Creio que acabará por saber mais acerca dos cátaros
do que eu, e nestes últimos meses ajudou-me com o livro. Achei que lhe devia mostrar o
lugar das minhas investigações...
— Quando quiser, professor. Vão a Montségur?
— Gostaria muito de o fazer. Expliquei a Ignacio que quando nos aproximamos da
montanha, sentimos algo de especial, apercebemo-nos que a história se impregnou na
terra.
— É verdade, não há ninguém que se aproxime de Montségur que fique indiferente
— respondeu Raymond.
Viram chegar um jipe com dois homens. Um deles jovem, outro da idade de Arnaud.
— Os dois cavalheiros que acabaram de chegar também são convidados do meu pai.
Vieram fazer um passeio — explicou Raymond, enquanto os dois homens desciam do todo-
-o-terreno, e entregavam as chaves a um dos criados.
— Apresento-lhes o professor Arnaud e o seu assistente, o senhor Aguirre. Os
senhores Stresemann e Randall.
Cumprimentaram-se sem entusiasmo e começaram uma conversa banal acerca do
tempo e da beleza do lugar, antes de subirem aos respectivos quartos.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Ainda não se passara muito tempo quando o mordomo bateu à porta de Ferdinand
para o avisar que Raymond os esperava, para os acompanhar onde quisessem.
Ferdinand e Ignacio reuniram-se ao filho do conde, desejoso de mostrar os seus dotes
como dono da casa.
— Então a história dos cátaros também o apaixona — disse a Aguirre.
— Sim, o professor Arnaud contagiou-me com o seu entusiasmo — respondeu o
jovem padre, e corou ao ter de responder a uma pergunta tão directa mas, sobretudo,
por ter de mentir.
— Chegou a conhecer bem a história de Frei Julián?
— Bem... sim... na verdade.., é uma história apaixonante. Tanto sofrimento!
Decidido a não intervir, Ferdinand ouvia os dois jovens enquanto começavam a dar
um passeio à volta do castelo. Pensou que talvez Raymond cometesse uma indiscrição,
como lhe acontecera daquela vez com David. Notava-se que recebera uma educação rígida,
assim como a convicção que um dia, quando fosse ele o conde d'Amis, teria de estar à
altura da história da família, ou pelo menos daquilo que o pai inculcara nele.
— Não admito a intolerância da Igreja quando pretende impor a ferro e fogo as suas
crenças, incapaz de respeitar o próximo, como se fosse guardiã da verdade. Antes da
existência da Igreja, já existiam outras religiões. Assim, porque é que há-de ser a Igreja
Católica a ter o monopólio da verdade? — exclamou Raymond.
— Tem a verdade revelada por Deus — respondeu Ignacio, incomodado por não
poder dizer muito mais, já que Ferdinand lhe fizera um gesto para que não discutisse.
— A verdade revelada? Isso é um conto infantil... — sentenciou Raymond, convicto.
— Quantos concílios houve para chegarem a um acordo acerca daquilo em que os católicos
têm de acreditar? Não há nenhuma verdade revelada, apenas uma poderosa máquina de
poder destinada a dominar os incautos.
— E o senhor, em que é que acredita? — perguntou-lhe Ignacio.
— Eu? Na razão e no direito dos habitantes desta terra a acreditarem em quem
quiserem. Sabe porque é que Igreja dos Bons Cristãos esteve prestes a derrotar a Igreja
Católica? Simplesmente porque os seus perfeitos viviam como bons cristãos, e davam o
exemplo de humildade e pobreza. Foi por isso que a Igreja teve de acabar com eles. Não
podia suportar o seu exemplo. Na minha família, existiram perfeitos.
— Sim, dona Maria — disse Ignacio, a quem lhe custava cada vez mais conter-se sem
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responder a Raymond como achava que ele merecia.


— Dona Maria, a sua filha dona Marian, dom Bertran, os filhos de ambos... —
prosseguiu Raymond.
— Mas suponho que o senhor não é cátaro...
— Não, não... já expliquei que só acredito na deusa razão, mas esta continua a ser
uma terra de cátaros, embora não se manifestem.
— Continuam a existir cátaros? — perguntou Ignacio, surpreendido.
— Claro que sim! Não se pode esmagar as ideias, nem as crenças. Não existe nenhuma
família na Occitânia que não descenda dos cátaros.
Ferdinand ouvia Raymond com preocupação, já que nas palavras do jovem parecia
aflorar um certo fanatismo.
Partilharam o almoço com os outros dois convidados do conde, que disseram ser
estudiosos do catarismo.
Ignacio permaneceu em silêncio, a ouvir Ferdinand rebater algumas das teorias dos
dois estudiosos, até que surpreendeu todos ao lançar a pergunta para o ar.
— E os senhores acreditam que existe um Graal?
Ferdinand olhou-o espantado e Raymond curioso, enquanto os senhores Stresemann
e Randall permaneciam calados.
— Bom, pergunto-vos isto porque li muita coisa acerca desse assunto. Há
historiadores que acreditam que o tesouro dos cátaros é o Graal. O meu professor não
acredita e ensinou-nos que não passa de uma história, mas... não sei, desculpe-me, professor
Arnaud, mas não partilho das suas convicções — explicou Ignacio.
Ninguém pareceu ter pressa em responder, incluindo Ferdinand, que achou
admirável a armadilha que o jovem padre lhes estendera.
— Tanto a teoria do professor Arnaud como aquelas que apontam, efectivamente,
para a existência de um tesouro cátaro escondido e que esse tesouro cátaro pode ser o
Graal são possíveis — asseverou o senhor Randall.
— Não podemos descartar nada logo à partida — disse o senhor Stresemann.
— Sim, os historiadores descartam as fantasias e elucubrações de escritores de
romances esotéricos. Senhores, a investigação histórica é uma ciência que não pode ser
contaminada pela imaginação fértil daqueles que não são cientistas — explicou Ferdinand,
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

muito sério. — Quanto ao meu caro aluno.., vejo que os meus ensinamentos não tiveram
muito êxito... e ele que se destacou na minha cadeira e que espero, com o tempo, se
venha a tornar meu assistente.
— E o que é que acham que pode ser o Graal? — perguntou Ignacio, a aparentar
uma inocência que não deixou de surpreender Ferdinand. — Presume-se que seja a taça em
que Cristo bebeu durante a Última Ceia...
— Leu a obra de Wolfram von Eschenbach? — perguntou o senhor Stresemann.
— Sim, é uma belíssima obra. Em Parsifal, o Graal é algo mais, algo que proporciona
um poder ilimitado a quem o possui.
— Exactamente — assentiu o convidado, que pelo sotaque parecia ser alsaciano.
— Oxalá alguém o encontrasse! — exclamou Ignacio, entusiasmado.
— Há muitas pessoas empenhadas em encontrá-lo, mas não se pode encontrar o que
não existe — sentenciou Ferdinand, que parecia recriminar o aluno.
— Possivelmente foram os templários que o levaram — insistiu o sacerdote.
— As supostas relações entre cátaros e templários são falsas. Também expliquei isso
nas aulas, e que eu saiba foi um dos assuntos abordados no exame final.
— Como é que pode afirmar com tanta certeza que os templários não protegiam os
cátaros? — perguntou o senhor Randall, com uma expressão aborrecida.
— Não sou eu que o digo, os factos é que o demonstram. O Templo tinha castelos e
comendas no Languedoc, e boas relações com os senhores destas terras, mas isso não
significa que participassem nas suas querelas. A única coisa certa é que, em Espanha, os
templários também lutaram contra os muçulmanos, e não consideravam uma missão sua
combater com outros cristãos, por muito hereges que estes fossem. Também ninguém lhes
pediu para o fazerem.
— E não acredita que os templários pudessem ter trazido o Santo Graal e que o
tivessem escondido aqui, no Languedoc? — interveio Raymond.
— Não, porque o Graal não existe, de modo que dificilmente poderiam trazer o que
não existe.
— Mas, professor, há estudiosos que garantem que os templários encontraram uma
sala oculta debaixo do Templo de Salomão, em Jerusalém, e que existiam ali segredos
importantes, os quais lhes deram muito poder, pois, com eles, puderam chantagear a Igreja,

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

que receava que estes se pudessem difundir...


— Isso são elucubrações esotéricas que não se baseiam em qualquer tipo de prova.
Os templários converteram-se num estorvo para Felipe IV de França, que quis unificar as
ordens militares e submetê-las ao poder da Coroa, e ficar à partida com os bens deles. O rei
confrontava-se com o Papa Bonifácio VIII e organizou uma campanha contra ele,
precisamente porque este se opunha a que o monarca francês ficasse com os impostos
sobre os bens da Igreja de que o rei necessitava, por os seus cofres estarem vazios devido à
guerra contra a Inglaterra. E o seu homem de confiança, o conselheiro Guillaume de
Nogaret, foi o braço executor da política do rei contra o papa e os templários.
— Acusava-os de cuspirem na cruz — recordou Raymond, e esboçou um sorriso —,
tal como os cátaros, que a repudiavam.
— Foi um templário expulso da ordem quem começou a difundir as acusações de
blasfémia, sodomia, rituais iniciáticos secretos... Esse homem serviu, de bandeja, a Nogaret
a desculpa para que Felipe iniciasse o processo contra o Templo. Nogaret convenceu o
inquisidor de França, que também era confessor do rei, a começar a investigar o Templo.
Nessa altura, o papa era Clemente, que repreendeu o inquisidor e protestou junto do rei
por este se meter numa camisa-de-onze-varas. Mas Felipe, através de Nogaret, voltou a
iniciar uma campanha contra o papa. Apesar disso, Clemente resistiu tanto quanto pôde, e
temos de recordar que no início os templários foram declarados inocentes pelo papa, que
só depois decidiu que se investigariam os actos dos cavaleiros mas individualmente, de
modo a não se acusar a ordem no seu todo, já que alguns templários tinham admitido as
práticas de que os acusavam, embora outros se tivessem retractado ao alegarem que
tinham confessado sob tortura...
— Mas cuspiam ou não na cruz? — interrompeu Raymond, cortante.
Ferdinand observou o olhar trocista de Raymond, que combinava com a intenção da
pergunta. O jovem apenas aceitaria um «sim» ou um «não», pouco lhe importava as
explicações ou as atenuantes.
— Depois de terem sido torturados, alguns templários confessaram crimes
horrendos, mas na minha opinião, e atendendo a alguns documentos, ou seja, aos factos, o
Templo não era uma ordem esotérica, por mais que alguns romancistas os utilizem como
recurso literário e os apresentem como cavaleiros misteriosos. A dissolução do Templo foi
um braço de ferro entre o rei de França e o papa, por motivos que nada tem a ver com os
estritamente religiosos. Entre outras coisas, Felipe pretendia que Clemente condenasse o

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seu antecessor Bonifácio VIII por heresia, ao que o novo papa se opôs. Mas Clemente
também não podia enfrentar totalmente o rei e acabou por ceder com os templários.
— Não respondeu à minha pergunta — insistiu Raymond.
— Se o torturassem, a si ou a qualquer um de nós, acabaríamos por confessar o que
nos pedissem, de modo que os testemunhos obtidos sob tortura não têm cem por cento de
fiabilidade. Por mais que muitos se empenhem em apresentar o Templo como uma ordem
misteriosa, a verdade é que não o foi. Tiveram também o azar do seu último grão-mestre,
Jacques de Molay, não ser um modelo de inteligência, nem um político experiente. Não
direi que teve responsabilidade no que aconteceu, mas sei que não era homem para fazer
frente a uma circunstância tão difícil quanto aquela.
— De modo que não nega que cuspiram na cruz — afirmou Raymond, satisfeito.
— Se não o nego! Todas essas histórias extravagantes acerca de terem encontrado o
Graal e outros segredos que podem colocar a Igreja em dificuldades, são lendas. Por favor!,
não confundamos os romances com a história!
— O professor parece que declarou guerra aos escritores — disse Ignacio.
— Um romance que trata de história pode ser muito divertido, mas isso não significa
que ofereça a versão real dos acontecimentos.

Quando o almoço terminou, Raymond ofereceu-se para fazer de guia por Carcassone.
No dia seguinte, logo de manhã, partiram para Montségur.
A capacidade do jesuíta para ganhar a confiança de Raymond chamou a atenção de
Ferdinand. Tinha-o questionado acerca da verdade histórica para dar lugar à fabulação, que
era o terreno em que há anos o conde e o filho se empenhavam em movimentar-se.
Ignacio mostrou-se entusiasmado com Carcassone, e Ferdinand percebeu que aquilo
era sincero.
À noite, desculpou-se com uma enorme dor de cabeça e cansaço, para não ter de
descer para jantar. Tinha-o combinado com Ignacio, já que a presença deste agradava ao
filho do conde que parecia sentir-se à vontade com o sacerdote.
No entanto, o jantar foi decepcionante, pois nem Raymond nem os outros
convidados disseram nada de especial, nem deram nenhuma pista acerca da presumível
descoberta do Graal, e Ignacio não se atreveu a questioná-los.

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Na manhã seguinte, levantaram-se ao amanhecer para irem até Montségur. Ali,


Raymond deixou-se levar pela magia do que o rodeava e contou a Ignacio aquilo que estavam
a procurar, num momento em que Ferdinand se separou deliberadamente deles.
— O professor Arnaud é um céptico. Por isso é que o seu trabalho acerca de Frei Julián
não tem paixão, por mais que todos digam que é esplêndido. Na verdade, o meu pai
esperava mais.
— E o que é que esperava?
— Alguma pista sobre o tesouro.
— Mas como é que Frei Julián ia saber onde estava o tesouro?
— Dona Maria confiava nele. Não se esqueça que ela conseguiu fazer sair de
Montségur dois perfeitos que levavam o tesouro.
— Tem razão — concordou Ignacio. — E os senhores que estão há tanto tempo a
escavar, já o encontraram?
Raymond decidiu confiar naquele jovem com que parecia dar-se tão bem.
— A verdade é que não encontrámos nada. Nada que possamos dizer que seja o
Graal. Há estudiosos que acreditam que o Graal é uma pedra caída do céu com poderes
ilimitados, e que está guardada nalgum lugar perto daqui. Outros estudiosos pensam que os
templários a levaram para a Escócia e que a enterraram em Edimburgo. E... bem, um
professor que esteve aqui tinha outra teoria. Achava que o Graal não era um objecto.
— Então o que é?
— Pode ser uma pessoa.
— Uma pessoa?
— Acredita que Jesus fosse solteiro?
— Bem, acredito naquilo que nos ensinaram...
— Existem documentos muito antigos que indicam que se casou com Maria
Madalena, e que até tiveram filhos. Pode ser que... bem, pode ser que o Graal sejam os
descendentes de Jesus.
Ignacio não soube se se devia rir ou irritar, mas decidiu não fazer nenhuma das duas
coisas para não alertar aquele jovem com que, apesar de tudo, simpatizava.
— E como é que os descendentes de Jesus chegaram aqui?

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— Talvez com Maria Madalena, ou talvez séculos depois. Talvez os templários


tenham encontrado esses documentos e foi isso que guardaram com tanto zelo.
— É a isso que o professor Arnaud chama de histórias esotéricas, pseudoliteratura
barata.
— Na verdade, o professor Arnaud nunca esteve interessado em encontrar o Graal.
Todos os seus esforços concentraram-se na crónica de Frei Julián. Quando o meu pai lhe
pedia que viesse ao castelo e falasse com um ou outro professor, ele desculpava-se. Se por
acaso estivesse aqui, rebatia sempre qualquer teoria que divergisse das suas, e nem ouvia o
que diziam. Mas o meu pai dizia que era melhor contarmos com ele pelo seu prestígio,
porque isso abria portas aos nossos especialistas o que, na verdade, era o que lhe
interessava.
— Então, não encontraram nada? — voltou a perguntar Ignacio.
— Nada. Limitámo-nos a utilizar as teorias que lhe contei, mas continuamos à procura
de provas. Estão aqui, é apenas uma questão de tempo até que as encontremos. Gostaria
de trabalhar connosco? — perguntou Raymond, entusiasmado.
— Bem... na verdade, seria muito interessante, mas não me parece que possa... Sabe
tenho de acabar os estudos, ainda não estou suficientemente preparado.
— Não seja modesto! O professor Arnaud diz que é o seu melhor aluno.
— Sim, mas isso não significa que saiba tudo. Mas... bem, sim, gostaria de saber se
encontram alguma coisa, seria apaixonante...
— Se alguma vez quiser vir sem o professor Arnaud, telefone-me. Será bem recebido,
e pode juntar-se aos nossos grupos de trabalho mesmo que temporariamente. Agora
temos pessoas à procura em Edimburgo, porque a teoria de que os templários esconderam
ali o Graal também não é de rejeitar.
— E se o encontrarem, o que é que farão?
— Sabe o que é que Frei Julián disse na sua crónica. Alguém deve vingar o sangue dos
inocentes, a nossa família não pode deixar impunes os crimes da Igreja Católica. O que
queremos é destruí-la, que pague pelo seu fanatismo, e por ter acabado com a liberdade
desta terra. É uma responsabilidade que todos os d'Amis assumiram de geração para
geração, e o meu pai sonha ser ele a efectuar essa vingança.
— Mas acredita que é assim tão fácil destruir a Igreja?
— Sim. Se encontrarmos o Graal, seja este o que quer que seja, consegui-lo-emos.
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Devemo-lo ao Languedoc. Gostaria que viesse até aqui de vez em quando, acho que ia dar-se
bem com o meu pai, e tenho a certeza que com aquilo que sabe iria contribuir para a nossa
busca.
lgnacio sorriu-lhe e, simultaneamente, engoliu em seco, ao assimilar todas as
barbaridades que acabara de ouvir. De repente, Raymond parecia-lhe um louco e temia
ainda mais o pai, o conde d'Amis, que conheceria naquela noite.
O que não conseguia perceber era se aquele era um grupo de fanáticos perigosos
ou pacíficos. Voltou a sorrir, pois sabia-se observado pelo olhar de Raymond.
— Presumo que seja um cavalheiro, de modo que lhe peço a sua palavra de que não
comentará nada do que falámos com o professor Arnaud. Sei que lhe é leal enquanto aluno,
mas confiei em si... decerto não o deveria ter feito, por isso só ficarei tranquilo se me der a
sua palavra.
Raymond olhava-o com uma expressão muito séria, enquanto esperava a resposta e
Ignacio sentiu-se mal. Teria que se confessar e pedir perdão a Deus por aquilo que estava
prestes a fazer. Sentiu-se sujo quando estendeu a mão a Raymond, e lhe disse:
— Não se preocupe, guardarei segredo.
— Ah! E também não o comente com o meu pai... não me perdoará a indiscrição. Ele
acha que confio demasiado nas pessoas... enfim... espero não me ter enganado consigo.
Ferdinand, que se mantivera afastado enquanto fumava dois cigarros, a andar de um
lado para o outro e a exibir um estranho interesse nas ruínas, interrompeu-os.
— Acho que devíamos pensar em irmo-nos embora. Gostaria de ver o seu pai,
Raymond — disse o professor.
— Sim, como quiser.

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O conde d'Amis manteve-se frio e distante com Ferdinand, embora se tivesse


mostrado receptivo com Ignacio, devido ao interesse que o filho demonstrava pelo jovem.
Naquela noite, mal falaram da crónica de Frei Julián ou dos cátaros. O conde não falou
muito e os seus convidados pareciam entristecidos. Retiraram-se todos para os respectivos
quartos quando o jantar terminou.
— O prejuízo que tantos romancistas de algibeira estão a causar! — exclamou
Ferdinand, depois de ter ouvido o relato minucioso que Ignacio lhe fez da sua conversa com
Raymond.
— E não confiam muito em si — replicou Ignacio.
— A desconfiança é mútua. Que personagens! O mais incrível é que indivíduos
formados e sérios acreditem nessas patranhas postas a circular por um monte de
desalmados. Então, temos entre nós os descendentes de Jesus! Num mundo onde não
existem segredos, porque nem existiram no passado, nem existem no presente, nem
existirão no futuro, parece que os filhos de Jesus e de Maria Madalena mantiveram-se
escondidos. Como se uma coisa dessas não tivesse sido impossível de esconder.
— Bem, isso ou o Graal está escondido em Edimburgo.
— São capazes de perfurar todos os castelos à procura de um objecto mágico que
apenas existe nas suas cabeças. Estão doentes!
— O seu objectivo é destruir a Igreja Católica, foi isso que Raymond me disse —
explicou Ignacio.
Ferdinand começou a rir-se.
— Mas como é que lhes ocorreu tamanha idiotice! Destruir a Igreja!
— Bem, eu não vejo onde está a graça — protestou Ignacio.
Ferdinand ficou sério e cravou os olhos nos olhos preocupados de Ignacio.
— Acredita que podem destruir a mensagem de Jesus? Acredita que quem tem fé e
acredita em Jesus deixaria de acreditar Nele porque afinal era um homem? Jesus era judeu,
um rabino, e naquela sociedade os rabinos eram casados. Eu não sei se o foi ou não, tanto
se me dá, mas a verdade é que nunca nos chegaram provas sérias acerca disso. É-me
difícil acreditar que se, na verdade, teve mulher e filhos, isso se tivesse convertido num

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segredo por parte dos apóstolos, que eram pessoas simples, casadas, com famílias, e para
quem ter mulher e filhos era normal, de modo que não acredito que aqueles homens se
tenham conluiado para ocultar a mulher de Jesus. Com que objectivo? Não estavam a
inventar o cristianismo, não podiam imaginar o que Jesus pusera em margem, em que é que
a sua mensagem se iria transformar ao longo dos séculos... De qualquer maneira, se Jesus
tivesse sido casado, isso não destruiria a Igreja, apenas teria que aceitar que os padres se
casassem. E se um concílio determinou que não o podiam fazer, outro concílio poderia
decidir o contrário. Nada mais. Sinceramente, não acredito que isso fosse um problema
para qualquer cristão.
— E diz-se o professor agnóstico! — exclamou Ignacio, maravilhado pela convicção de
Ferdinand perante a solidez da Igreja.
— Agnóstico sim, mas não tonto. Consigo compreender os motivos da Igreja para
preferir que os seus sacerdotes sejam celibatários, mas não me parece que o edifício possa
estremecer porque Jesus tivesse sido casado, embora insista que não existe nenhuma prova
histórica sólida que o indique, por isso... assunto encerrado.
— É precisamente essa prova que eles procuram.
— Não a vão encontrar porque não existe.
— O senhor fala ex cátedra! — protestou Ignacio.
— Não, falo com senso comum. Tenho a certeza que Roma teria um grande número
de respostas se surgisse uma prova nessa direcção. Mas não se preocupe, pois, excepto em
especulações pseudoliterárias, não encontrarão nenhuma.
— É curioso, o senhor utiliza a razão para reafirmar a posição da Igreja.
— Grande conclusão! Sou historiador e analiso as coisas em perspectiva. A família
d'Amis não vai conseguir atirar borda fora dois mil anos de Igreja católica, por muito que se
sintam deslumbrados pelo seu papel de vingadores. Não se preocupe, Ignacio, e tenha um
pouco mais de fé na sua Igreja. O importante é que possa dizer aos seus superiores:
«Missão cumprida.» É o espião perfeito.
Naquele momento, foi Ignacio que se riu com vontade. Não gostava de ter passado
aqueles dois dias a enganar Raymond, por mais que dissesse a si mesmo que dissimulava e
quase mentia para proteger um bem maior, mas, apesar disso, a consciência pesava-lhe.
— Não gostei nada do que fiz — confessou.
— Não fez nada de que se deva envergonhar. A mim, não me teriam contado nada.
219
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Nem o conde e muito menos Raymond. Foi um momento oportuno que surgiu. Fica com
uma informação exacta, de modo que a sua Igreja já sabe com que é que se defronta se
acabarem por encontrar aquilo que procuram, coisa demasiado improvável.
— Espero que aquilo que averiguámos seja suficiente...
— É, claro que é. O pior que pode acontecer é não se saber o que se enfrenta, mas
quando se sabe, é mais fácil organizar a defesa. Verá que o padre Grillo e o padre Nevers
vão vê-lo assim.
— Tenho pena de Raymond. É tão jovem.., mas o ambiente em que vive transtornou--
o. O pai imbuiu-o de um tal fanatismo que o vejo capaz de fazer qualquer coisa — lamentou
Ignacio.
— Sim, é uma vítima do pai. Quando o conheci era uma criança, e recebia castigos
severos. Batiam-lhe quando não estava à altura do que o pai esperava dele. Estão a lavar-
-lhe o cérebro desde que nasceu e, pelo que vi, assumiu como suas as obsessões absurdas
do conde. É uma pena, mas quanto a isso nenhum de nós pode fazer alguma coisa. Creio
que a minha relação com os D'Amis chegou ao fim, e sinto-me aliviado.
— A crónica de Frei Julián foi muito importante para si, não é verdade?
— É belíssima. Comoveu-me profundamente quando a li e é um importante
documento histórico. Um dominicano sob as ordens do terrível Frei Ferrer, que conta na
primeira pessoa o que aconteceu no campo de batalha. Mas é, sobretudo, a história de um
conflito humano exposto com toda a crueza. Pareceu-me importante dá-la a conhecer e que
outros historiadores a tivessem à sua disposição para que continuassem a desenterrar esse
período da história de França.
— E da história da Igreja.
— Um dia, a Igreja terá de pedir perdão por todos os erros que cometeu — disse
Ferdinand.
Ignacio não respondeu. Não o podia fazer, porque tinha de admitir que também ele
se sentia constrangido por ter-se podido matar em nome de Deus.

Ferdinand estranhou ver o pai na estação. Nunca o fora esperar depois do regresso
de nenhuma viagem, de modo que, se estava ali, isso só poderia significar que acontecera
algo de grave.
Desceu rapidamente do comboio.
220
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— O que é que aconteceu? — perguntou, sem mais preâmbulos.


-- David... está no hospital... fizeram-lhe uma emboscada. É grave. Avisaram-nos hoje
de manhã, ligaram-te para casa e para a universidade, e o reitor telefonou-nos... A tua mãe
preparou-te a mala, e eu comprei os bilhetes de comboio e de barco. Se não te importas,
vou acompanhar-te.
Mas Ferdinand já não o ouvia. O rosto contraíra-se-lhe numa expressão de dor, e o ar
parecia não lhe chegar aos pulmões. Estava pálido, com os olhos desorbitados, mudo,
incapaz de emitir um som. No bolso do casaco tinha a última carta de David, palavras que
ressoavam de alegria, vontade de viver e esperança. E, de repente, as palavras do filho
tinham-se convertido em sangue.
Ignacio não sabia o que fazer nem o que dizer. Agarrou-lhe o braço com força a
incitou-o a andar.
— Vamos, depressa!
Caminharam em silêncio até que Ferdinand se recompôs do estado de choque.
— Está vivo? — murmurou.
— Sim, está vivo, mas muito mal — respondeu o pai.
— Recuperará — afirmou Ignacio —, rezaremos e recuperará...
— Deus nunca esteve connosco quando precisámos — afirmou Ferdinand num fio de
voz —, há muito tempo que nos abandonou, a mim e ao meu filho.
O professor olhou para o pai com os olhos vermelhos. Apenas queria uma resposta à
sua pergunta: O que é que aconteceu a David? O que é que se passou?

221
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

19

Jerusalém, semanas antes

— Hamza, tens que te decidir. — O tom do homem não admitia dúvidas, e os seus
olhos negros pareciam perfurar os olhos de Hamza.
— Não nos fizeram nada, porque não podemos falar, chegar a um acordo? —
respondeu Hamza com um certo desafio na voz, apesar de o homem o assustar.
— Os sionistas estão a conseguir que o mundo os apoie, há uns anos quiseram que
criássemos um Estado em conjunto, agora querem dividir a nossa terra em duas. Não
podemos aceitar! Ou nós ou eles! — gritou o homem.
— Por favor, acalma-te... o meu filho é jovem e não percebe bem o que se passa...
— intercedeu o pai de Hamza.
— Rashid, ou o teu filho é um traidor e nesse caso serás tu a resolver o problema, ou é
um cobarde e também deverás resolver isso, ou então une-se a nós e demonstra que é um
patriota.
— Não sou nem traidor, nem cobarde, Mahmud — protestou Hamza —, apenas
penso com a minha cabeça.
— Cala-te! — ordenou-lhe o pai, que estava assustado porque sabia de é que
Mahmud era capaz.
Hamza baixou a cabeça, consciente que Mahmud não lhe deixaria nenhuma saída, e
que desobedecer-lhe poderia custar a vida da sua família e a dele.
O irmão Ali, de dez anos, observava-os com olhos assustados, sentado no chão ao
lado do irmão mais novo. As duas irmãs estavam num quarto junto da mãe. Aquela era uma
conversa de homens.
— Lutaremos, casa a casa, pomar a pomar, com os nossos irmãos da Síria, da
Jordânia, do Egipto, do Irão... todos os irmãos árabes apoiam-nos. Não podemos ceder a
terra aos judeus. Empurrá-los-emos até ao mar — sentenciou Mahmud. — Ou fazes parte
do Exército de Salvação, ou do nosso grupo, ou morres com eles, Hamza. Tu é que decides.
— Lutará convosco — afirmou Rashid, o pai de Hamza —, e eu também. Somos

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

palestinianos e bons muçulmanos. Tens razão, esta é a nossa terra, devemos lutar por ela,
Os judeus são astuciosos. Primeiro vieram instalar-se junto de nós, mas agora querem ficar
com tudo. Vamos empurrá-los para o mar.
Hamza olhou espantado para o pai. Não o reconhecia nas palavras que acabara de
dizer. Ainda lhe ressoavam nos ouvidos as palavras de paz do pai, a sua convicção de que o
confronto com os judeus só traria a desgraça.
— Não temos de pagar pelo que aconteceu na Europa. Hitler não fez bem o seu
trabalho — disse Mahmud, a rir-se. — Se querem terras, que lhes dêem a Califórnia, ou a
Floresta Negra, ou a Provença, mas que não as roubem a nós. Querem roubar-nos a nossa
terra para calarem a consciência.
— Tens razão, Mahmud — respondeu Rashid —, tens razão, não temos qualquer
motivo para lhes cedermos as nossas terras e convertermo-nos em hóspedes da nossa
própria casa. Lutaremos. Estamos dispostos a morrer.
— Por agora, é suficiente o teu filho mais velho. É dele que precisamos, mas não
duvides que te pediremos os teus outros filhos e a tua vida, se for necessário — disse
Mahmud, num tom ameaçador. — Amanhã, mandar-te-ei chamar — disse a Hamza, a modo
de despedida.

Quando Mahmud e os seus homens partiram, Rashid sentou-se à mesa, sabendo-se


vencido. A mulher saiu do quarto com as duas filhas e aproximou-se dele. Pousou-lhe uma
mão sobre o ombro para o animar.
— Fizeste bem, Rashid, agiste com inteligência. Não podemos fazer mais nada —
disse a mulher.
— Não podemos ou não queremos? — interrompeu-a Hamza com raiva.
— Tem que se saber quando não existem portas na parede. Se não se consegue ver
isso, está-se perdido.
— O que vejo é que esta guerra já foi decidida por todos nós. Nem sequer foi
Mahmud. Acreditas que os pobres contam? Mahmud é apenas um dos muitos tolos úteis
para morrer e fazer morrer outros. Esta guerra foi organizada no Cairo, ou em Damasco... O
que sei é que nós, e os que são como nós, vamos morrer — respondeu Hamza.
— Não te iludas, filho, os teus amigos judeus defender-se-ão e matarão, tal como nós
— afirmou a mãe.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— E se não quiser lutar? — perguntou Hamza, a desafiar a mãe.


— Tens duas irmãs. Estão comprometidas para quando forem mais velhas. Recusá-las-
-iam. Mas, para além disso, um dia levantar-nos-íamos e o nosso pomar estaria destruído. E
noutro dia o teu pai mandaria matar-te porque, de outro modo, matar-nos-iam a todos.
Não fiz as leis, Hamza, aceito-as como são, e tu deves fazer o mesmo para não fazeres cair
sobre a tua família a vergonha, a desonra e a miséria. Luta, filho, luta.
A mulher aproximou-se do filho e acariciou-lhe o rosto, enquanto o observava com
tristeza.
Os dados da sorte estavam lançados. A ela, correspondia-lhe sacrificar o filho mais
velho, e via-se incapaz de o impedir.
— Hamza, não podes voltar a ver David — disse-lhe o pai, com uma voz cansada. —
Evita esse rapaz judeu. É melhor para ti e também para ele.
— E que lhe devo dizer? Olá, David, há pessoas que decidiram que vos devemos
matar. Ah! E não te ofendas, isto não é nada de pessoal. Tu e eu não somos ninguém, não
contamos para nada, a nossa obrigação é matarmo-nos quando nos disserem que o
devemos fazer, e já está. Quem disparará primeiro, tu ou eu? — Hamza fazia uma imitação
amarga do que diria a David.
O pai, a mãe e os irmãos olhavam-no com pena. Viam-no sofrer, mas ao mesmo
tempo sentiam-se incapazes de aplacar a sua dor. Mahmud era agora um deles. Passara de
esmagar torrões a dirigir homens, e estava disposto a fazer quanto lhe pedissem. Tinha fé
em si mesmo e na causa que ia servir.
— Hamza, a nossa vida depende de ti — acrescentou o pai com tristeza. — Não te
posso obrigar a lutar, mas se não o fizeres...
— Fá-lo-ei, pai, fá-lo-ei — assentiu Hamza com os olhos cheios de lágrimas, enquanto
saía de casa à procura das sombras da noite.
Caminhou algum tempo sem rumo. Apesar da escuridão da noite, conhecia como a
palma da mão cada pedaço do terreno e não precisava de ver.
Nascera naquele bocado de terra. A mãe trouxera-o ao mundo naquela casa
modesta, rodeada de árvores de fruto e de um regato onde chapinhava quando era criança.
Fora feliz. Não precisava de mais do que tinha: a família, a horta onde trabalhavam,
acompanhar o pai à cidade para vender frutas e legumes, montado no burro. Também
desfrutava dos jantares no pátio, quando os tios os iam visitar e podia brincar com os
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

primos a trepar pelas árvores e a esconder-se entre os arbustos.


O seu mundo desmoronara-se, porque de repente tinha inimigos. Inimigos que nem
sequer pudera escolher.
Pensou em David. Que lhe diria? Não lhe poderia dizer a verdade. «Estamos a
organizar-nos para vos empurrarmos para o mar.» Teria que se esquivar, evitar encontrá-lo,
impor distâncias...
Teve vontade de rir, ao recordar a primeira vez em que se tinham visto. Hamza espiava
as pessoas dos kibutz, através da vedação. Na verdade, deitava o olho a uma rapariga da
sua idade, de cabelo loiro como o trigo e belos olhos azuis, com que trocava olhares de cada
vez que se encontravam, e lhe provocava sentimentos contraditórios. O mundo de Hamza
não era um mundo de mulheres, e estas nunca o tinham interessado muito, mas aquela
rapariga parecia tão delicada, tão irreal, que não o assustava.
Sorria-lhe e saudava-o com a mão, e ele sentia o coração a acelerar. Gostaria de ter
saltado a vedação, de a ter ajudado a apanhar laranjas, ou a limpar a terra das ervas daninhas.
Era isso que David fazia quando o vira pela primeira vez. Estava a preparar a terra para ser
semeada, e notava-se-lhe uma expressão de dor no rosto. De vez em quando, levava as mãos
aos rins e esfregava-os com força. Via-se que nunca trabalhara na terra. Mas no kibutz
todos trabalhavam por igual, não importava de onde vinham, nem a que se dedicavam
antes de chegar ali. Viviam da terra, tal como ele e a família.
David erguera os olhos e vira-o. Endireitou-se e avançou até à vedação. Sorria-lhe, por
isso não desatara a correr como noutras alturas quando Yacob, o chefe do kibutz, um
homem magro e austero que parecia estar sempre de mau humor, o apanhava.
Começaram a falar em inglês, uma língua que os dois arranhavam, e em poucos minutos
parecia que se conheciam desde sempre. David confessou-lhe que estava rebentado e que
lhe doía todo o corpo. Hamza ofereceu-se para o ajudar e, para sua surpresa, ele aceitou. Foi a
primeira vez que entrou no kibutz e teve a sorte de ver mais de perto a rapariga dos seus
sonhos. Era russa, chamava-se Tânia, tinha quinze anos, e mal sabia inglês.
Desde então, entrava e saía do kibutz com familiaridade, a mesma com que David ia a
casa dele, onde sempre fora bem recebido. Agora teria de lhe dizer para não voltar. Ele
também não voltaria a atravessar a vedação.

Mahmud dissera que no dia seguinte mandá-lo-ia buscar para começar o treino
militar. Não sabia disparar, apenas lavrar, mas teria de aprender a empunhar uma arma e a
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

matar. Matar. A palavra parecia-lhe terrível e irreal. Como seria matar? Que sentiria ao ver
um homem cair à sua frente? E se fosse ele a morrer?
Continuou a caminhar sem rumo, até se sentir esgotado. Não sabia quanto tempo tinha
andado. Tanto se lhe dava. Temia a chegada da manhã.

— Não deverias confiar tanto nele. Um dia, teremos de nos confrontar, é inevitável —
sentenciava Yacob. Dirigia-se a David e a um grupo de jovens com os quais partilhava o
jantar.
— É meu amigo e nunca lutarei contra ele. Podemos falar e discutir acerca das nossas
diferenças, não há motivo para nos matarmos. O nosso problema são os ingleses, não os
palestinianos — argumentou David.
— O nosso problema é todo o mundo. Os ingleses já afrouxaram a corda e permitem
a entrada de emigrantes. Sabemos que muito em breve haverá uma nova resolução das
Nações Unidas, a propor a criação de dois Estados, mas os árabes negar-se-ão — explicou
Yacob com uma expressão de impaciência.
— Tens muita certeza que vão recusar, mas se consultarem os palestinianos são
capazes de ter uma surpresa... — alegou David.
— Continuas a ser francês — respondeu-lhe um homem mais velho que fumava
cachimbo. — Isto é o Oriente, aqui não funcionam as regras da democracia. Ninguém vai
consultar os palestinianos, serão os egípcios, os jordanos, os sírios, os sauditas aqueles que
vão decidir por eles. Demoram tempo a organizar-se. Já tivemos confrontos, já nos
atacaram, noutros kibutzim já houve baixas causadas por ataques de guerrilheiros. Porque é
que achas que patrulhamos a vedação durante a noite? Irão atacar-nos, mandaram-nos
fazê-lo e eles cumprirão ordens.
David ia responder, mas calou-se. Todos respeitavam Saul, o homem do cachimbo, um
homem que nascera em Israel, como os pais, os avós, e os pais, e os avós destes. Toda a sua
família permanecera naquela terra sagrada século após século, e sobrevivera a romanos,
árabes, cruzados, tártaros, turcos e, também, ao protectorado britânico. Saul fazia parte da
Haganá, as forças de defesa organizadas para se defenderem dos ingleses e dos ataques dos
árabes. Percorria o país, ia de um lugar para outro, falava perfeitamente árabe, e podia
confundir-se com qualquer palestiniano. Saul era uma lenda porque vivera num dos
primeiros kibutzim, em Tell Nay, e também um símbolo de coragem e bravura para todos
aqueles que chegavam a Eretz Israel, porque resistira e repelira os ataques dos árabes do
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Norte.
Eram poucas as coisas que escapavam ao olhar de Saul, porque tinha amigos em toda a
parte e, como dizia Yacob, fontes de informação até no inferno.
Continuaram a falar durante mais um bocado acerca daquilo que se podia avizinhar
se, por fim, as Nações Unidas votassem a favor da formação de dois Estados. Saul garantiu
que os países árabes recusariam a proposta e, então, aumentariam os conflitos com os
palestinianos.
— Não se esqueçam que só contamos connosco — recordava-lhes Yacob. — Ninguém
virá ajudar-nos, de modo que teremos que nos defender casa a casa, pedra a pedra.
Yacob destilava amargura. Era alemão, de Munique, e fora para Israel em 1920 a
pedido do pai, que via como a inflação monetária e o avanço do anti-semitismo aumentava
entre os alemães.
Tal como outros jovens, Yacob deixara a família, o lar, os amigos, a sua vida, para trás.
Participara na fundação da primeira associação operária israelita, em seguida, ajudara a
fundar aquele kibutz que agora dirigia.
Os pais, tal como a maior parte dos membros da família, tinham sido mortos nas
câmaras de gás. Fora o único que sobrevivera e perdera o sorriso para sempre.
Saul e Yacob anunciaram-lhes que a partir do dia seguinte iam dedicar mais tempo à
instrução militar, tanto aos homens como às mulheres. Já não se tratava apenas de andar à
volta da vedação com uma caçadeira ao ombro. Além disso, o kibutz, tal como outros, ia
dedicar-se à produção de armas ligeiras e munições.
— E quem nos vais ensinar a fazê-las? — perguntou ingenuamente Tânia, a rapariga
russa de que Hamza gostava.
— Virão membros da Haganá, eles ensinar-nos-ão. Precisamos de mais armas, temos
de estar preparados. As dos ingleses e dos polacos não são suficientes. Ninguém nos arranja
armas, por mais que os nossos façam tudo para as conseguir. Estamos mal armados perante
os árabes, e precisamos de nos poder defender. Vocês têm de aprender a disparar uma pis-
tola, uma metralhadora... Também têm de aprender a lutar com as mãos ou com uma faca.
A partir de amanhã, dedicaremos algumas horas à instrução, assim como a construir armas
— anunciou-lhes Saul.
— Então, é inevitável... — murmurou David.
— É, e quanto mais depressa o perceberes, melhor para ti e para todos — replicou
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Yacob. — Antes estavas disposto a lutar, dizias que não podíamos deixar que nos tirassem a
terra, que só assim teríamos um lar onde não se repetiria o que aconteceu à tua mãe e aos
teus tios. Não te lembras? Porque é que agora duvidas?
— Claro que quero lutar por esta terra! Sei que os judeus precisam de um lugar
próprio, e que não podemos continuar a viver por empréstimo em países que, depois, nos
tratam como cidadãos de segunda ou nos matam. Não tenho dúvidas quanto a isso, só
que... só que acredito que é possível viver em paz com os palestinianos, que é possível
chegar a acordo com eles, que os nossos direitos são compatíveis com os deles.
A apaixonada declaração de David foi bem recebida pelo resto dos jovens. Saul
apercebeu-se que, apesar da dureza da vida no kibutz, dos discursos que os alertavam
para os perigos, eles tinham fé, não apenas no futuro, mas também nos outros seres
humanos, fossem quem fossem, e que estavam fartos de ter inimigos.
— Amanhã virás comigo, David. Tenho de visitar alguns amigos palestinianos. São
chefes das suas respectivas comunidades, a minha família e as deles conhecem-se desde
sempre. São amigos, David, amigos a quem quero e contra os quais terei de lutar. E eles contra
mim. Virás comigo para que te expliquem o que vai acontecer, por mais que não o
queiramos.
David não conseguiu conciliar o sono naquela noite. Acordou algumas vezes, a
transpirar e atacado pelo mesmo pesadelo. Via-se numa refrega, a disparar, e de seguida,
sentia uma intensa dor no estômago e acordava angustiado.
Decidiu levantar-se e sentar-se a ler, mas não conseguiu concentrar-se. Ainda não
terminara o livro do pai acerca de Frei Julián. Não sabia porquê, talvez por repulsa, não
tanto por aquele frade que lhe parecia tão cobarde, mas sim pelo seu descendente, aquele
conde que o irritava profundamente. No seu foro íntimo, pensava que todas as desgraças
tinham começado no castelo do conde d'Amis. Além disso, a obsessão do pai por Frei
Julián também os tinha afastado. Nunca lho dissera, mas recriminava-o por não querer
reconhecer que tipo de pessoas eram o conde e os seus amigos. Não tinha dúvidas que se
tratavam de nazis ou, pelo menos, simpatizantes, por mais que o pai lhe tivesse dito que
uma grande parte dos franceses não tinha motivos para se sentir orgulhosa do que aconte-
cera durante o regime de Vichy. Todo o mundo olhava para outro lado, era a maneira de
resistir, dizia. Mas não era verdade. Houvera pessoas que tinham resistido a sério, que
enfrentaram os nazis, que morreram a lutar. O avô paterno tinha-lhe falado dos
republicanos espanhóis, daqueles homens que tinham organizado a Resistência, que não se
tinham rendido e que tinham aguentado até ao fim.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Passou a mão por cima da capa do livro, sem se decidir a abri-lo. Queria lê-lo antes da
chegada do pai para o comentar, mas ainda não passara da página dez. Sabia que o pai não
o iria recriminar por não o ler, embora ficasse satisfeito se ele o fizesse. Tentaria no dia
seguinte. Nesse momento, sentia-se demasiado entristecido pela conversa de Saul e Yacob.
Não queria ser inimigo dos palestinianos, embora soubesse que estes desconfiavam dos
colonos judeus, porque assim lho tinham dito Hamza e Rashid, o pai. «O problema», dizia, «é
que ninguém faz nada para que nos sentemos a falar uns com os outros, e decidirmos como
queremos viver e organizarmo-nos. Porque é que ninguém se decide a fazer um esforço?
Porquê?» Se deixassem isso com ele e com Hamza, decerto que não iriam ter problemas.
Discutiriam, sim, mas chegariam a um acordo.
Talvez Hamza e ele tivessem de se dedicar à política para fazerem os seus povos
verem a razão.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

20

O Sol ainda não nascera quando umas pancadas secas na porta, acordaram Hamza.
Esfregou os olhos e olhou para o despertador. No exterior do quarto que partilhava com
os irmãos, ouvia-se ruído. A mãe e as irmãs já deviam estar a tratar das tarefas da casa, e o
pai estava prestes a dar de comer aos animais antes de sair para o campo.
O som de vozes alertou-o. O pai falava com alguém em voz baixa. Um segundo depois,
abria a porta do quarto.
— Levanta-te, Hamza, estão à tua espera.
Lavou-se depressa e vestiu-se ainda com maior rapidez. Sentia as pancadas do
coração e pensava que os outros também as ouviam. A mãe colocara uma tigela de leite de
cabra em cima da mesa, e disse-lhe para a beber rapidamente.
Um homem, de pé na soleira da porta, olhava-o impaciente.
— Não temos o dia todo. Temos de ir antes de os judeus acordarem. É melhor que
não te vejam.
Mal bebeu o leite, secou a boca com as costas da mão e disse ao homem que estava
pronto.
Saíram de casa sem ruído. Sentia o olhar dos pais cravado nas costas. Naquele dia,
começava o resto da sua vida e pressentia que seria muito pior do que aquela que deixava
para trás.
O homem disse chamar-se Mohamed e explicou-lhe que iriam a pé até à estrada,
onde deixara um camião. Não o quisera levar até à casa, para não alertar as pessoas do
kiburtz. Em seguida, iriam buscar outros rapazes antes de chegarem ao lugar onde lhes iam
ensinar a manejar armas.
Hamza conhecia um dos rapazes que foram buscar. Vivia numa casa perto da da sua
família e eram camponeses como ele. Mas ao contrário dele, parecia satisfeito com aquela
mudança de vida.
— Vou tentar com estes — disse-lhe, baixando a voz—, mas se não houver acção, vou
com outros. Tenho um primo que tem contactos importantes.
Outro dos jovens que recolheram era professor num povoado próximo. Alto e
magro, com o olhar brilhante, também parecia feliz por ter sido recrutado. Os outros, que
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

perfaziam o número de dez, eram camponeses como ele e também pareciam satisfeitos.
Hamza começou a pensar se não era ele que estava errado.
O camião sacolejava por um caminho sem asfalto. Mohamed aconselhou-os a
evitarem a estrada, e se os ingleses os detivessem que dissessem que iam trabalhar numa
quinta próxima. Na verdade, Mohamed levava-os para sul, para perto da fronteira jordana.
O veículo estacionou junto de um grupo de tendas beduínas. Mohamed disse-lhes que
saíssem, mas que não se afastassem do camião. Obedeceram-lhe e durante alguns minutos
não aconteceu nada. Observaram as mulheres beduínas, com o rosto coberto, que pareciam
distraídas a observar os caldeirões onde preparavam os alimentos. Um grupo de velhos
conversava, sentados em frente de uma tenda a fumar e a beber chá. Mais à frente, um
bando de crianças corria e brincava. De repente viram-se cercados por uma dezena de
homens do deserto, armados de espingardas. Um deles, sem dúvida o chefe, falou com
Mohamed.
— Chegaste atrasado.
— Não é fácil despistar os ingleses e os judeus. Estão por toda a parte e agora sentem-
-se seguros, porque os ingleses desviam os olhos a tudo quanto fazem.
— São estes todos? — perguntou o chefe, e olhou para o grupo de jovens de
Mohamed.
— Deve chegar outro camião com mais alguns. Vêm com um tio meu, mas saiu depois
do nosso.
— Comecemos quanto antes.
Para surpresa de todos o homem que parecia um chefe beduíno destapou o rosto.
— Sou o vosso instrutor — disse —, chamo-me Husayn. Sou oficial da Legião Árabe
e vou-vos ensinar a manejar armas, montar bombas e lutar. Ficarão aqui cerca de dois
dias, no máximo três, de modo que prestem atenção e não percam, nem me façam perder
tempo. Sigam-me.
Seguiram-no até um lugar onde se encontravam mais homens vestidos como os
beduínos. Husayn entregou-lhes roupas como as usadas pelos nómadas.
— Assim passarão despercebidos — disse —, e se alguém aparecer, poderão passar
por jovens desta tribo.
De seguida, levou-os até um lugar cheio de armas espalhadas pelo chão.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Não lhes tinham oferecido água, nem comida. Não pareciam dispostos a perderem
nem um segundo com cortesias, algo de estranho em homens do deserto. Mal passara uma
hora quando outro grupo de jovens, chegados de outros povoados, se juntaram a eles.
Também estavam vestidos de beduínos.
Durante várias horas, familiarizaram-se com armas diferentes. Ensinaram-nos a
montar e a desmontar pistolas, os rudimentos para fabricar uma bomba, ou a disparar uma
espingarda.
Husayn mostrava-se implacável. Não os deixava descansar nem um segundo. Quando
a tarde começou a cair e a noite parecia anunciar-se, um beduíno aproximou-se a cavalo,
trocou algumas palavras com Husayn e este levantou a mão para lhes indicar que parassem.
— Agora, vão beber e comer. Depois, aconselho-vos a não fazerem nada para além de
dormir. Antes que o Sol nasça, estarei de novo aqui, e o dia vai ser longo. Ainda não
aprenderam o suficiente, com o que sabem nem conseguiriam sobreviver.
Dito isto, Husayn entrou para um jipe, onde o esperavam três homens, e desapareceu
entre as sombras do crepúsculo.
— Não estás mal — disse Mohamed a Hamza, enquanto se aproximavam de uma
fogueira, ao redor da qual um grupo de homens comia cordeiro.
Abriram o círculo e convidaram-nos a partilhar o jantar. Os homens falavam de
guerra. Haveria guerra contra os judeus. Os irmãos da Jordânia, da Síria e do Egipto, da Arábia
e de tantos outros países tinham prometido ajudá-los a conservar a terra sagrada. Não
partilhariam nada com os judeus, porque é que o deveriam fazer?
Hamza ouvia enquanto comia, mas preferia não falar. Não podia argumentar com
tantos homens convencidos de uma causa. Iriam rotulá-lo de traidor, não o podiam
compreender. Falar ali das vantagens de ter um Estado próprio e deixar de estar sob a
protecção dos ingleses ou antes dos otomanos, teria sido uma opinião que causaria
recriminações. Porque não poderiam existir dois Estados, ou até só um partilhado pelos
judeus? Tanto quanto ele sabia nunca tinham tido um Estado, aquele nunca fora um país,
tinham estado sempre sob a protecção dos outros, e agora estavam prestes a recusar essa
oportunidade porque os seus chefes diziam que não se iam deixar vergar. No entanto,
Hamza pensava que sempre tinham estado vergados e que se tratava, precisamente, de o
deixarem de estar.
Dormiu profundamente, enrolado numa manta junto aos restos da fogueira. Estava
esgotado e com as emoções à flor da pele.
232
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Tal como lhes dissera, Husayn apareceu às quatro da manhã, quando ainda era noite
cerrada. Juntamente com Mohamed, não se deteve em contemplações para os acordar.
Em menos de meia hora, estavam preparados e a treinar. Tinham que montar e
desmontar armas sem luz, avançar a arrastarem-se pelo chão... Já a manhã ia alta quando
Husayn os deixou beber água.
Têm dez minutos para descansar e beber, nem mais um minuto.
Efectivamente, não tiveram um segundo de descanso. Famintos e sedentos,
esperaram que caísse a noite para regressarem ao acampamento dos beduínos, onde dessa
vez Husayn se sentou com eles.
—Já aprenderam alguma coisa — explicou-lhes. —Já aprenderam o suficiente para
matar e tentar evitar que vos matem. Se tiverem fé e coragem serão capazes de conservar
a vida, mas se tiverem dúvidas irão perdê-la. Nunca se sintam emocionados pelo olhar
de um inimigo, não importa que seja um soldado, uma mulher ou uma criança. Ou é
ele ou vocês, a vossa vida ou a dele, e se duvidarem, morrerão. Já perceberam que
as regras que têm de seguir são muito simples. Quando tiverem de atacar, disparem
primeiro, sem pensar.
— Quando haverá guerra? — perguntou o professor.
— Não sei, mas temos de estar preparados. Os judeus querem ficar com a nossa
terra, temos de lhes demonstrar que não o podem fazer. Pode ser que se evite a
guerra ou pode ser que não. Os políticos discutem nas Nações Unidas para lhes dar
aquilo a que os judeus chamam um «lar». Que lho dêem, mas não o nosso. Os nossos
irmãos também combatem com as armas da política, devemos esperar, mas até que
chegue o momento, a nossa missão é fazer a vida difícil aos judeus, para que não se
sintam seguros, que não possam cultivar a terra sem levar uma arma ao ombro, que não
possam andar pela estrada sem medo de serem atacados, que as suas mulheres te-
nham medo de andar sozinhas pelo campo, que os seus filhos não possam sair das
vedações das suas casas ou dos seus kibutzim. Vamos atacá-los, causar-lhes baixas. A táctica
é simples. Chegamos a um sítio, apanhamo-los de surpresa, matamo-los e partimos. Que
não durmam tranquilos, que esta terra se transforme na sua sepultura, se insistirem
em ficar.
«Cada um de vós fará parte de um grupo com um chefe. Será ele que vos indicará os
objectivos, de acordo com o que nos interessa. Devem obedecer. As vossas famílias
sabem que a partir de agora haverá ocasiões em que vocês desaparecerão, mas nem a eles

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

poderão dizer para onde, nem o que vão fazer. Aquele que não obedeça ou que nos
atraiçoe receberá um castigo, que só pode ser a morte, e a vossa família também sofrerá
as consequências.
Ouviram-se alguns murmúrios de protesto. Os jovens garantiam que estavam
ansiosos por matar os judeus e empurrá-los para o mar. Mas Husayn não pareceu
comovido por aquelas proclamações de fidelidade. Só saberia que tipo de homens
eram quando chegasse a hora de matar, algo que fariam muito em breve, porque
quanto mais depressa matassem, mais depressa se sentiriam parte do grupo, e
comprometidos com a causa. O sangue derramado era a melhor aliança entre os
combatentes.
Mohamed voltou a acordá-los ao amanhecer, incitando-os a entrarem depressa
para o camião. Regressavam a casa.
Os beduínos observaram a sua partida com indiferença. Mal tiveram tempo de
se despedir do outro grupo de jovens com os quais tinham partilhado aqueles dias de
instrução.
Hamza pensou que o pior ainda estava para vir.

234
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

21

Saul esperava David sentado no carro com a porta aberta e o motor a funcionar.
— Estás atrasado — disse, sem dissimular o aborrecimento.
— Lamento, não sabia que estavas a falar a sério quando disseste que hoje vinha
contigo.
— Eu falo sempre a sério, todos nós falamos a sério. Achas que isto é uma
brincadeira?
— Lamento, desculpa.
Mantiveram-se em silêncio durante um longo bocado. David observava Saul,
concentrado nos seus pensamentos, como se estivesse muito longe dali. Não se atrevia a
fazer-lhe nenhuma pergunta, pois receava uma resposta mal-humorada. Parecia-lhe que o
homem exagerara o aborrecimento, já que o atraso não passara de dez minutos.
— Abre o porta-luvas — ordenou-lhe Saul de repente —, e tira a pistola. Está metida
numa bolsa.
David obedeceu. Preparava-se para a estender a Saul, quando este lhe fez um gesto
de negação com a cabeça.
— Não é para mim, a minha está dentro do casaco. É para ti, a estrada de Jerusalém
não é segura. Há dois dias mataram quatro dos nossos.
— Mas eu não sei disparar muito bem! — protestou David, e sentiu uma onda de
medo a percorrer-lhe o corpo.
— Se dispararem contra nós, terás de disparar. Ou te defendes ou deixas-te matar. É
simples.
—Já te disse que não sei disparar bem. Até agora no kibutz nunca tive que disparar
contra ninguém.
— Tiveste sorte, mas outros não a tiveram, e tu mesmo viste como, nalguma
escaramuça, feriram companheiros teus. Que tenhas conseguido sobreviver, só significa
que tens tido sorte.
Saul explicou-lhe como manejar a arma, embora tivesse insistido que aquilo não tinha
qualquer mistério.

235
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Em seguida, durante um bom bocado, voltaram a ficar em silêncio. No entanto,


David reparou que Saul estava alerta.
— O que é que sabes desse rapaz palestiniano do qual te tornaste tão amigo? —
perguntou-lhe de repente.
— Hamza? É meu amigo, está a ensinar-me árabe e eu ensino-lhe francês. Entendemo-
nos em inglês que, na verdade, fala melhor que eu.
— Sim, aqui todos tivemos que o aprender para entendermos os ingleses. Mas que
mais sabes?
— Bem, deves saber mais que eu, já te vi falar uma vez com Rashid, o pai dele.
— Conhecemo-nos há algum tempo, a horta dele é pegada à nossa vedação, temos
feito negócio, e as portas do nosso kibutz permaneceram sempre abertas para eles. Rashid
é bom tipo, e suponho que o filho também o seja, mas gostaria de saber de que é que vocês
falam e o que pensam a respeito do que se está a passar.
Pensamos o mesmo. Acreditamos que se deixarem os judeus e os palestinianos
entenderem-se directamente podemos chegar a um acordo, mas há pessoas empenhadas
em nos envenenar. Hamza concorda comigo em que deveríamos criar um Estado comum,
uma confederação, mas se não for possível, o melhor é que haja dois Estados. Tudo, menos
lutar.
— Mas lutará. Os chefes dele encarregar-se-ão disso. Mahmud já os visitou.
— Mahmud? Quem é?
— Um dos chefes da guerrilha. Dirige um grupo na nossa região, que já efectuou
alguns ataques a kibutzim e montou algumas emboscadas na estrada. Mahmud está a
recrutar jovens entre os rapazes das quintas e das aldeias, e esteve em casa de Rashid. Por
agora, conformar-se-á em levar Hamza.
— Mas isso é impossível! Hamza não lutará! É contra a guerra, não acredita que os
problemas se resolvam aos tiros. Quer a sua terra, quer que prospere, tem dignidade, mas
acha que se pode lutar sem matar.
— Tudo isso não passa de palavras e de sonhos. Temos, antes, que enfrentar a
realidade e Hamza sabe disso. Não terá outro remédio, se não fazer o que lhe pedem.
— E o que é que lhe vão pedir?
— Que mate, que os ajude a empurrar-nos para o mar. É isso que dizem alguns líderes

236
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

árabes. Sabes, Amin Husayni, o grande mufti de Jerusalém, era aliado dos nazis, sempre foi
bem recebido por Hitler e, infelizmente, a sua influência foi e continua a ser determinante
nesta terra.
— Não sabia...
— Pois é melhor que o saibas. Está na hora de perderes a inocência.
David ia protestar, mas Saul não o deixou.
— Segura-te!
De repente, deu uma guinada no carro e enfiou pelo outro lado da estrada, sem
quase dar tempo a que o jovem se agarrasse. O veículo derrapou durante alguns metros, e
esteve prestes a capotar. Um carro, que passara como um raio, fez a mesma manobra e
rodou para passar para o outro lado da estrada.
— Segura-te outra vez!
Saul voltou a fazer a mesma manobra, para voltar à faixa onde se encontravam. O
veículo que os perseguia ainda não estabilizara quando quis voltar para o outro lado, mas
daquela vez derrapou e saiu da estrada.
— Mas, o que é que aconteceu? — gritou David, a tremer de medo.
— Já há um bocado que vinham atrás de nós, e a única maneira de saber se era por
acaso ou se nos seguiam era essa.
— Podias ter-nos morto!
— Sim. Podia ter falhado e matarmo-nos, ou eles dispararem e acabarem connosco. Não
havia muitas opções. Tratou-se de decidir qual o mal menor, embora às vezes os males
sejam todos iguais.
— Estás louco! — gritou-lhe David.
— Acalma-te! Não quero rapazes histéricos. Não eras tu que dizia que os judeus não
podiam permitir que os continuassem a matar? Não te ouvi dizer que precisamos de um lar,
de uma pátria, uma terra nossa? Como achas que a vamos conquistar? — gritou Saul. — Por
acaso, achas que nos vão oferecê-la? Não, ninguém o fará, agora sentem horror pelo que
aconteceu, pelos seis milhões de judeus assassinados, mas esquecer-se-ão e, quando o
tempo passar, se puderem, se não nos tornarmos suficientemente fortes, voltarão a matar-
-nos. Não aprendeste nada durante todo este tempo?
David sentia-se tão furioso quanto humilhado. A vida não fora fácil para ele, desde

237
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

que chegara a Israel. Aprendera o que era a solidão, esfolara as mãos a trabalhar no campo,
lavara pratos, trocara fraldas, dera de comer aos animais... Deixara para trás uma vida
confortável onde se sentia amado pela família. Sabia que o pai fizera o que estava certo ao
mandá-lo para ali porque lhe salvara a vida, mas, ao mesmo tempo, ele pagara um preço
enorme, terrível, por a ter conservado. Sim, acreditava que tinham de lutar para conservar
aquele pedaço de terra, mas a luta sempre lhe parecera algo de abstracto. De repente,
diziam-lhe que tinha de aprender a matar e recriminava-se pelos próprios escrúpulos
porque, na verdade, ainda não há muito sonhava com fazer parte da Haganá.
Fora a sua amizade com Hamza que o mudara. Quanto mais as conversas entre
ambos se aprofundavam, quanto mais abriam o coração um ao outro, mais a sua vontade
de lutar se transformava no desejo de falar, de encontrar através das palavras uma
solução para aqueles problemas que pareciam irresolúveis. Seriam, ele e Hamza,
estúpidos?
Saul enganava-se ao pensar que não aprendera nada desde que chegara a Israel.
Aprendera que fazia parte de uma sociedade que até há pouco tempo sentia como
estranha. Aprendera que aquela era a terra donde um dia haviam saído os seus
antepassados, e que a única possibilidade de sobreviver era regressar a ela, aprendera que
na Terra Prometida não chovia maná, e cada fruto que esta lhes dava custara-lhes horas e
suor. Aprendera o que era a solidão.
Mas não disse nada disto a Saul. Sabia que nada daquilo o comoveria, até podia nem o
entender. Admirava Saul, mas não era como ele.
— Todos vamos ter de lutar. Já não se trata de enfrentar os ingleses, agora trata-se
de sobrevivência. Ou lutamos para ficar, para possuir este pedaço de terra, para ter um
Estado, ou podemos voltar a esperar a Diáspora, e isso até que se decidam a matar-nos.
Lamento.
Saul proferira aquelas últimas palavras com cansaço. Continuou a conduzir em
silêncio, e foi David que falou.
— Como é que sabes da visita desse... Mahmud... a casa de Rashid e Hamza?
— Porque a minha obrigação é sabê-lo. Sou responsável pela segurança do kibutz.
— Então, isso significa que espias a família de Rashid...
— Então, isso significa que a tua vida e a de todos os que vivem no kibutz pode
depender daquilo que sei ou que não sei. Até agora não tivemos demasiados problemas, já
te disse que Rashid é um bom homem, mas terá de obedecer. Ele sabe-o e eu também.
238
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Nunca confiaram em mim para as questões de defesa do kibutz.


— Não é verdade. Tu patrulhaste a vedação tal como os outros e montaste guarda. Se
nos tivessem atacado, terias de nos defender.
— Porque é que não me pediram para me juntar à Haganá?
— Tudo a seu tempo.
— Mas escolheram alguns amigos meus.
— Deves aprender a aceitar o que se decide. Se até agora não te pedimos que te
juntasses à Haganá é porque pensávamos que não estavas preparado.
— Porquê? Achas que não posso ser um bom soldado?
— Isso aprende-se. Na verdade, vão todos aprender a disparar, a usar explosivos, a
utilizar as armas de que dispomos, que não são muitas. Mas fazer parte da Haganá requer...
bem, terás de o aprender.
— Achas que sou fraco, que não tenho coragem?
— Não, não acho. És um sobrevivente, e para se o ser tem de se possuir coragem.
— Estamos com tanta falta de armas que temos de as fabricar? — Perguntou David, a
tentar mudar de assunto.
— Já sabes que possuímos algumas armas inglesas e polacas, mas até agora ninguém
nos quis vender nem uma pistola. Por isso, depois da guerra começámos a montar pequenas
fábricas clandestinas, e produzimos munições e armas pequenas. Mas vamos precisar de
muitas mais. Por isso, o nosso kibutz irá ter uma oficina na qual todos irão trabalhar.
Saul parou bruscamente o carro e convidou-o a descer. Ao longe, vislumbrava-se
Jerusalém que reluzia sob os raios mornos do Sol do meio-dia. Vista dali, parecia emersa em
calma. Permaneceram alguns minutos em silêncio até que o balir de uma cabra os devolveu
à realidade.
— Vamos, não quero chegar demasiado tarde.
— Ainda não me disseste onde é que vamos.
— Já saberás.
— Conduziu o carro até às proximidades de uma cidade, e desviou-se por um caminho
de terra que os levou até junto de uma vedação, atrás da qual se erguia uma casa de pedra
dourada, de dois pisos, cercada de árvores de fruto e de palmeiras.

239
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Saul deteve-se em frente da vedação e esperou. De repente surgiram dois


palestinianos com uma kufiya na cabeça e espingardas ao ombro, mas Saul não pareceu ficar
preocupado. Os homens olharam-nos e um deles sorriu. Em seguida, abriram a cancela para
os deixar passar.
Havia outros homens armados a guardar o jardim amplo. Atrás da vivenda, abria-se
uma enorme quinta que se assemelhava a um pomar. Um grupo de crianças corria aos gritos
e risadas. Uma delas aproximou-se do veículo, a sacudir a mão. Não devia ter mais de doze
ou treze anos.
— Saul, ainda bem que vieste!
— Olá, Ibrahim! Sabes o que te trago?

— Lembraste-te do meu aniversário?

— Claro que sim! Toma, vai abrir o teu presente e depois diz-me se gostaste.

Saul falava em árabe, e David sentiu-se satisfeito ao ver que as lições que Hamza lhe
dera permitiam-lhe entender o que diziam. Não deixava de se sentir espantado com a
familiaridade do menino palestiniano com Saul, nem o serem tão bem recebidos naquela
casa.
Uma mulher jovem, aparentando não mais de trinta ou trinta e cinco anos, surgiu na
soleira da porta. Vestia-se à ocidental, uma blusa e um casaco justos, e uma saia que lhe
chegava aos tornozelos. O cabelo era muito negro, tal como os olhos.
— Saul, que alegria! Vem, chegas mesmo a tempo de beber café, sei que o preferes
ao chá.
Ele pegou-lhe nas mãos, e apertou-lhas em forma de cumprimento e ternura, e
depois apresentou-a a David.
— Apresento-te David Arnaud. É francês, e está connosco há algum tempo.
— Vive no kibukz?
— Sim, mataram-lhe a mãe na Alemanha.

— Lamento — murmurou a mulher, enquanto lhe estendia a mão e o saudava com


simpatia. — Ainda custa a acreditar naquilo que fizeram...
— David não soube que responder. Decidiu esboçar um sorriso e manter-se calado.

— Entra. Abdul está com uns amigos, mas vai querer ver-te de seguida. Já o mandei
avisar.
240
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Entraram para o vestíbulo, e David ficou surpreendido com a sobriedade e elegância


da casa. A mulher desapareceu por uma porta, e com um gesto indicou-lhes que
esperassem. Um momento depois, abriu-se outra porta e um homem alto, moreno e
também vestido à ocidental, de fato e gravata, abriu os braços para abraçar Saul.
— Saul! Entra, bom amigo, não estava à tua espera. Estou com alguns amigos, e é uma
sorte, porque assim podemos falar contigo acerca do que se está a passar.
Saul apresentou-lhe Abdul, e David percebeu que se encontrava perante um
homem especial. Com um gesto elegante dirigiu-se a ele num inglês com o sotaque da
classe alta, antes de Saul ter tempo de lhe dizer que David falava e compreendia árabe.
Emanava poder.
Entraram para uma sala ampla, onde uma mesa grande ocupava o centro. À volta
desta, vários sofás baixos enchiam a sala. Dez homens, alguns a beber café, outros chá,
falavam animadamente.
Receberam-nos cordialmente, convidando-os a sentarem-se entre eles. Passados
alguns minutos de uma conversa trivial, Saul dirigiu-se a Abdul e a todos os homens
presentes.
— Estamos perto de conseguir que as Nações Unidas proponham a criação de dois
Estados. Nós vamos aceitar. É uma boa oportunidade para todos, mas as nossas notícias não
são boas. Cada vez há mais kibutzim atacados, a estrada de Jerusalém transformou-se numa
armadilha e alguns dos nossos foram metralhados... Que me podem dizer, meus amigos?
Os homens tinham-no ouvido em silêncio com uma expressão preocupada, e antes
que Abdul pudesse falar, fê-lo um homem já idoso, com a cabeça coberta por uma kufiya.
— Estamos divididos. Muitos de nós não vos querem aqui. Primeiro chegaram uns
quantos, mas depois mais e mais. Os nossos receiam que fiquem com tudo, que sejamos nós
a pagar o que os alemães vos fizeram.
— E tu que achas? — perguntou Saul.
— Nunca deixaram esta terra viver em paz, mas é nossa. Nós já estávamos aqui, e
agora, o que é que acontecerá? Acho que podemos viver em paz, mas há forças
importantes que acham o contrário, que vos querem fora daqui, não querem um Estado
judeu na nossa terra. O que é que podemos fazer?
— Dizer que podemos viver juntos e em paz.
— E podemos? — perguntou o ancião.
241
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Nós queremos que assim seja. Só precisamos de um lar.


— E tiram-nos o nosso?
— Não éramos livres antes de começarem a chegar judeus. A tua família esteve sempre
aqui, a minha também, e sofremos com ingleses, turcos, tártaros e, antes disso, com árabes e
romanos... Mas acredita que juntos podemos viver em paz.
— Os nossos líderes religiosos não o vêem assim — respondeu o ancião.
— O vosso principal líder é nazi e vocês sabem-no. Amin Husayni era amigo de Hitler
e envenenou alguns de vós, ao inculcar-vos o ódio contra nós. Mas chegou o momento de
dizer não aos loucos.
— Não é assim tão fácil, Saul — interveio Abdul. —Achas que não o tentámos?
Muitos de nós viajamos há semanas, a ir de um lado para o outro, a falar. Mas estamos
divididos, e aqueles de nós que acham que é possível viver juntos foram rotulados de
traidores. Podemos oferecer a nossa terra? É isso que nos perguntam, e porque é que temos
de o fazer? Estão a invadir-nos, a encurralar-nos, a ficar com tudo... é o que dizem.
— Sabes, Abdul, a terra que possuímos ou é nossa ou comprámo-la. Não roubámos
nada a ninguém, não queremos ficar com tudo. Apenas precisamos de um pedaço de terra
para ter um lar, um Estado. Chegou o momento de vocês também terem um Estado, e
deixarem de ser súbditos e de depender dos outros. É o momento em que ambos devemos
pegar nas rédeas dos nossos povos e fazer algo em conjunto.
— Não será possível — voltou a dizer o ancião. .
— Não o será, se não quisermos que o seja — afirmou Saul.
David ouvia-os em silêncio. Não compreendia tudo o que diziam porque falavam
demasiado depressa, mas compreendia o suficiente para perceber que Saul e aqueles
homens eram amigos, conheciam-se e respeitavam-se. Dependendo deles, não haveria
confrontos.
— E porque não um Estado palestiniano em que os judeus possam viver? — propôs
um homem de meia-idade, vestido à ocidental, como Abdul.
— Não, Hattem — respondeu Saul —, não vamos viver em nenhum Estado que não
seja o nosso. Se tu governasses, sei que ninguém me perseguiria, mas se fosse outro? Os
judeus precisam de uma pátria e só pode ser aquela que sempre foi. Daqui partiram muitos
dos meus, que agora estão a regressar, e outros ficaram. Dizemos que podemos viver
juntos, que devem colocar um fim aos ataques aos kibutzim, e que não temos motivos para
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

nos confrontarmos. Ainda estamos a tempo de evitar uma guerra.


— Tens a certeza que as Nações Unidas vos vão permitir criar um Estado? —
perguntou Hattem.
— É o mais provável, sim. Os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França apoiam a
criação do Estado de Israel. Faz algum sentido que vocês se oponham? Isso conduzir-nos-á à
guerra e todos perderemos, vocês e nós, só que terão de nos matar a todos, não poderão
deixar nem um único judeu vivo, porque todos lutaremos. Desta vez, não nos deixaremos
matar. Não, isso nunca mais irá acontecer.
Discutiram um bom bocado, sem chegarem a um acordo. Um criado entrava de vez
em quando com água fresca, chá, café e fruta.
David remexia-se na cadeira, cansado da imobilidade e daquela discussão, que via
que não levava a lado nenhum.
Só passadas duas ou três horas é que os convidados de Abdul partiram. Ficaram
então sozinhos com o seu anfitrião.
— Lamento, Saul, perdeste — confessou Abdul. Ergueu as mãos num gesto de
impotência.
— Então...
— Então, estamos em grupos diferentes, lutaremos e matar-nos-emos, e de nada
servirá a tua morte e a minha.
— Lutarás?
— Devo estar onde estão os meus. Mesmo que estejam errados. Tu farias o mesmo.
— Sim, Abdul, eu faria o mesmo. Rezarei para não nos encontrarmos em nenhuma
batalha.
— Eu também rezarei porque não me perdoaria ter de te matar, meu irmão.
Os dois homens pareciam estar emocionados. David apercebia-se que entre eles o
afecto era tão profundo quanto sincero e perguntou-se o que era que os unia. Ele, que julgara
Saul com dureza, achando que era incapaz de entender a sua amizade com Hamza,
descobria que Saul tinha laços de amizade fortes como rochas com aquele homem
chamado Abdul.
— Durmam esta noite em minha casa — convidou-os.

243
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Não podemos, temos de visitar alguns amigos — respondeu Saul.


— Não teremos muitas mais oportunidades — lamentou-se Abdul.

— Procurá-las-emos. Achas que alguém pode destruir a nossa amizade? Não, Abdul,
mesmo que tenhamos de nos matar continuaremos a ser amigos, e eu guardar-te-ei para
sempre no coração. Devo-te a vida — recordou Saul, a rir.
— Isso porque sempre foste um imprudente! — respondeu Abdul com outra
gargalhada.
— Quando éramos pequenos, caí a um ribeiro — explicou Saul a David, que os ouvia,
atónito —, ainda não sabia nadar, nem Abdul, mas atirou-se à água e puxou-me para terra.
Não sei como o conseguiu, porque eu agarrava-me com força ao pescoço dele, e Abdul
chapinhava a bater com as mãos e os pés, a tentar manter-nos a ambos a flutuar. Con-
seguiu agarrar-se à saliência de uma rocha e puxar por mim, até conseguirmos sair. Acho
que nunca mais bebi água em toda a minha vida.
— Nem eu, meu amigo, nem eu...
Abdul e Saul conversaram durante um bocado sobre outros episódios de quando
eram miúdos. David via-os rir enquanto se recordavam, mas as suas gargalhadas estavam
carregadas de nostalgia.
Punha-se o Sol quando se despediram de Abdul e da mulher deste à porta de casa.
A emoção que ambos sentiam era palpável, bem como a tristeza da mulher de Abdul.
Estavam a entrar para o carro, quando Abdul os chamou:
— Saul, esta será sempre a tua casa! Aqui estarás a salvo, aconteça o que acontecer!
Saul saiu do veículo e dirigiu-se à casa. Os homens voltaram a abraçar-se, perante o
assombro de David ao ver aqueles dois homens, dois guerreiros, tão emocionados porque
tinham de se enfrentar e lutar.
— Eu vivia naquela casa — disse-lhe Saul e apontou para uma construção de pedra
muito parecida com a de Abdul, localizada a poucos metros do local onde se encontravam.
— E já não vive ali ninguém...
— Os meus pais morreram e eu comecei a trabalhar com os grupos de judeus que
chegavam a Eretz Israel. E embora saibas que nunca estou em nenhum local fixo, onde
passo mais tempo é no kibutz.
Chegaram perante uma cancela mais baixa que a da casa de Abdul, mas ao

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

contrário daquela não saiu nenhum homem armado. Saul conduziu o carro até à porta de
casa, da qual saía naquele momento um velho vestido à maneira tradicional dos
palestinianos, com a kufiya a cobrir-lhe a cabeça.
— Saul!
O ancião abraçou Saul e entraram ambos em casa, sem prestar atenção a David que
os seguia, curioso.
Uma mulher palestiniana com um vestido que a cobria até aos pés e o cabelo coberto
por um hiyab empurrava o marido para poder abraçar Saul.
— Quanto tempo sem nos vires visitar! O que é que te aconteceu? — recriminou-o a
mulher.
— Trabalho, muito trabalho — desculpou-se Saul —, mas lembro-me sempre de
vocês.
— Podes estar tranquilo, guardamos a tua casa como se fosse nossa — afirmou o
ancião.
—Eu sei.
A mulher foi a correr buscar água, chá, fruta e doces, que colocou primorosamente
num tabuleiro.
David reparou que a vivenda tinha uma estrutura parecida com a de Abdul, até a sala
com sofás a cercar uma mesa que ocupava o centro.
Sentaram-se e Saul ouviu as explicações do homem acerca da última colheita, as
novidades entre os vizinhos e a dor de ossos provocada pela idade.
— Vai haver guerra, Marwan.
— Eu sei, Saul, eu sei, mas vamos ficar aqui, e assim tu salvarás a tua casa.
— Não te quero pedir tanto.
— Não me pediste, nós é que decidimos. A minha mulher está de acordo e os nossos
filhos.., uns sim e outros não. Mas não nos vamos mudar daqui, também é a nossa casa. Foi
aqui que nasci e aqui nasceram os meus filhos. O meu avô e o meu pai viveram aqui,
ajudaram os teus a trabalhar a terra.
— Eu sei, Marwan, fomos sempre amigos, mas agora...
— Agora vai haver guerra, mas nós não vos enfrentaremos. Vamos ficar a tratar da

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casa, e quando tudo acabar voltarás. Todas as guerras acabam, Saul, todas.
Saul e Marwan falaram do que era necessário fazer na casa e na quinta, e para
surpresa de David, Saul entregou uma avultada quantidade de dinheiro a Marwan.
— Mas não precisamos! Temos recebido a ajuda que nos mandas, já te mostro as
contas.
— Não preciso de as ver. Este dinheiro é para o caso de vos acontecer alguma coisa. É
melhor que tenhas uma reserva, já que não sei quando poderei voltar.
— Mas é demasiado...!
— Espero que seja suficiente.
A mulher insistiu para que ficassem para jantar e que dormissem ali. Saul hesitou,
mas logo se deixou convencer, embora lhes tivesse dito que primeiro tinham de tratar de
uns assuntos.

— E agora onde vamos? — quis David saber.


— A um kibutz perto daqui. Tenho de me reunir com alguns oficiais da Haganá.
Esperam-me às sete.
— E o que é que eu faço?
— Não te faria mal ouvires.
— Está bem, e esses palestinianos que tratam da tua casa... Nota-se que te amam...
— Conheço-os desde criança, confiar-lhes-ia a minha vida.
— Então, porque me recriminas por ser amigo de Hamza?
— Não te recriminei por nada, limitei-me a avisar-te do que vai acontecer. Eu
também sou amigo de Abdul. Crescemos juntos, tivemos os mesmos professores,
apaixonámo-nos pela primeira vez pela mesma rapariga, uma prima dele. Mas ambos
sabemos que temos de lutar um contra o outro. Ouviste-o dizer isso.
— Tudo isto me parece uma loucura. Por um lado, temos amigos palestinianos, por
outro, eles atacam-nos, nós defendemo-nos, matamo-los, eles matam-nos...
— Sim, às vezes até a mim me custa a entender. Mas é muito simples. Esta é a nossa
pátria, chegaram os romanos, conquistaram-na e a partir daí, não deixaram de nos invadir.
Muitos judeus partiram, e ao longo dos séculos viveram noutros lugares, a fazer parte deles,

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sentindo-se como se pertencessem a outra terra, mas sempre a sentir saudades desta.
Não te vou dar uma lição de história, e falar-te dos pogroms ou da Inquisição, até ao
Holocausto. Agora trata-se de recuperar a nossa pátria, para que não exista no mundo um
judeu sem lar.
— Eu sentia-me francês, apenas francês, até que a minha mãe desapareceu. Não me
tinha apercebido do que significava ser judeu. Na verdade, nem me sentia judeu.
— Pois agora já sabes o que isso significa.
— Somos assim tão diferentes que não nos possamos entender?
Saul pensou na resposta durante alguns segundos. Na realidade não se sentia
diferente de Abdul, nem de Marwan, nem de tantos outros amigos com os quais crescera.
—A diferença encontra-se no facto de a maior parte dos judeus que estão a chegar
virem do Ocidente, e a vossa maneira de ver as coisas e organizar a sociedade é ocidental. Aí
é que se encontra a diferença, o abismo. Eu nasci aqui, tal como toda a minha família, de
modo que o meu modo de pensar é mais oriental do que do ocidental, por isso compreendo
os seus medos e receios, e sei que é inevitável o que vai acontecer.
— Mas tentaste convencer Abdul.

— Abdul é um xeque respeitado por muitos outros xeques, e eles ouvem-


-no. Ele e eu não nos enganamos, conhecemos o bom e o mau que existe em
nós mesmos, sabemos o que defendemos e o que queremos. O seu povo
disse que não, e ele ficará do lado deles por mais que ache que estão errados.
«O velho rei Abdullah da Cisjordânia também era a favor de um enten-
dimento, e como sabes, assassinaram-no. A vida e a morte não têm o mes-
mo valor no Oriente. No Ocidente, não entendem isso. Nem tu, tão-pouco.

Chegaram a um kibutz junto ao deserto da Judeia. Estava fortificado e viam-se


homens armados a percorrer todo o perímetro.
Saul deixou-o com outros jovens, enquanto ele se juntava a uma reunião de oficiais
da Haganá. Mostraram-lhe o kibutz, muito maior que o seu, e perguntaram-lhe como se
arranjariam quando os atacassem. Muitos dos jovens que viviam ali faziam parte da
Haganá, e estavam preocupados com aquilo que sabiam que se aproximava.
Uma hora depois, Saul foi ter com ele para regressarem a Jerusalém.
—É uma estupidez voltarmos, mas fá-lo-emos. Marwan e a mulher teriam um
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

desgosto. Além disso, quem sabe quando é que poderei voltar a dormir em casa!
Naquela noite, David não conseguiu dormir. Perguntava-se porque é que Saul o
levara com ele. Mas tinha a certeza que o fizera com alguma intenção. Não era homem para
agir em vão.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

22

Mahmud observava o modo como preparavam as armas. Tinham organizado três


grupos formados por quinze homens cada. Nenhum sabia qual seria o seu objectivo, a
única coisa que lhes haviam dito era que deviam estar preparados antes do amanhecer.
Hamza pensava em David. Mal se tinham visto nos últimos dias. Ele tinha-o evitado,
mas David também o evitara. Tinham-se cumprimentado através da vedação, e fizeram
sinais a dizer que se encontrariam mais tarde, mas não se procuraram. Desconfiaria David
de alguma coisa?, perguntava-se Hamza para, de seguida, afastar esse pensamento. O que é
que poderia saber? Ninguém lhe poderia ter dito que agora fazia parte de um grupo de
guerrilheiros.
Também ele ficara surpreendido por não ver David durante alguns dias.
«Possivelmente, estamos a deixar de ser amigos, porque não confiamos um no outro.
Eu tenho um segredo, e se calhar ele desconfia de mim ou também tem um», pensou.
— Bom, assim gosto, a arma limpa, bem preparada — disse-lhe Mahmud,
interrompendo-lhe os pensamentos.— Esta noite vais demonstrar o que vales e o que
aprendeste.
Hamza não respondeu e permaneceu de cócoras, a aspirar o fumo do tabaco. Agora
fumava sem parar, por mais que a mãe se queixasse. O pai andava mais calado do que era
habitual e a sua disposição azedara-se.
Hamza perguntava-se porque é que Mahmud não lhes quisera adiantar qual seria o
objectivo. Calculou que fosse mais por desconfiança do que para alardear a sua autoridade.
Só às quatro da manhã é que lhes começou a dar ordens.
— O grupo de Ehsan arrasará a aldeia. O de Ali, assaltará o armazém, e o teu, Hamza,
atacará o kibutz que confina com a horta da tua casa. Conheces bem o lugar e foste lá
várias vezes. Entrarão sem que vos vejam e colocam as cargas de dinamite. De seguida,
entrem nas casas e disparem antes que eles tenham tempo de acordar. Quando saírem,
rebentem com a dinamite. Eu acompanho-vos. Escolhi o vosso grupo para combater esta
noite.
— Nesse kibutz, vivem vinte crianças — disse Hamza horrorizado —, morrerão...
— Sim, podem morrer todos ou só alguns, mas isso não nos interessa. São judeus —

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

respondeu Mahmud e riu-se entre dentes. — Se não tiveres coragem, não vás —
acrescentou de modo ameaçador.
Mahmud apontava-lhe directamente para a têmpora. Hamza sabia que não hesitaria
em disparar. Já reparara que Mahmud estava desejoso de arranjar uma desculpa para o
matar e lamentou-se pelo seu amor à vida.
Ouviu as instruções de Mahmud, e conteve as náuseas que se lhe avolumavam no
estômago. Ouviu a gargalhada seca de Mahmud, a regozijar-se pela sua angústia. Aquela
era a prova a que o iria submeter para saber se podia confiar nele. Se fosse capaz de matar
quem conhecia, seria capaz de matar qualquer um. Era uma equação simples e terrível.
Liderou o grupo, arrastando-se por entre os arbustos para se aproximarem da
vedação. Conhecia bem os lugares onde as pessoas do kibutz faziam a patrulha.
Atravessaram a vedação e entraram no recinto, quase sem se atreverem a respirar. Ouviu
as vozes dos que patrulhavam e pensou reconhecer a voz de David.
Pediu a Alá que não fosse ele, que o amigo não estivesse de guarda naquela noite. Se
não estivesse, poderia salvar-lhe a vida. De outro modo, não sabia o que podia acontecer.
Fez um gesto aos homens para se espalharem. Já lhes indicara onde deveriam colocar
as cargas. Uma no ateliê, a outra no silo, outra nas cozinhas, que àquela hora estavam
vazias. No recinto onde guardavam os tractores, no curral dos animais, no poço, para os
deixar sem água, na linha telefónica... Os companheiros moviam-se rápida e
silenciosamente entre as sombras da noite, enquanto ele e outros homens aguardavam o
momento para matar aqueles que patrulhavam, irromper nas habitações e metralhar
aqueles que dormiam. Sabia onde ficava o quarto de David e não entraria ali. Também
não permitiria que alguém o fizesse.
Não demoraram muito a distribuir as cargas e quando se reagruparam, fez um sinal.
Espalharam-se em leque e começaram a abrir as portas com um pontapé, enquanto
metralhavam os que naquele momento dormiam placidamente. Num instante, os gritos
rasgaram o silêncio da noite. O matraquear de outras armas automáticas começou a
responder às deles. As crianças choravam, até o seu pranto ser interrompido por uma bala.
Fora de si, Hamza disparava sem pensar, e corria de um lado para o outro seguido por
Mahmud, que parecia sentir prazer com o caos e a morte.
Viu cair alguns dos companheiros, apanhados pelas balas das pessoas do kibutz.
Surpreendeu-se ao ver Tânia a disparar, enquanto gritava. Recordou-se então que entre os
judeus não se fazia distinção entre as mulheres, e estas recebiam treino militar e manejavam
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

armas. Em seguida, viu-a cair, com o rosto desfeito pela salva de uma metralhadora.
De repente, aconteceu o que mais temia. Viu David com uma pistola nas mãos, a
disparar à queima-roupa. Surpreendeu-o a falta de expressão no rosto do amigo, a firmeza
com que agia. O encontro foi inevitável. Mahmud incitava-o a avançar até ao recanto do
kibutz que David defendia até que, de súbito, encontraram-se frente a frente. David olhou-
-o com pena, mas sem surpresa, como se tivesse estado à espera daquele momento. Hamza
ia dizer-lhe para se cobrir e baixou a pistola. Não pensava matar o amigo, embora se
arriscasse a que Mahtnud o matasse depois a ele. Mas David não vacilou como ele. Avançou
até ao local onde ele estava a disparar. Sentiu uma dor aguda no ventre e ouviu Mahmud
gritar-lhe, sem compreender o que dizia. Em seguida, levou a mão ao estômago e percebeu
que estava a deitar sangue. Voltou a olhar para David e viu a angústia reflectida no rosto do
amigo. Sorriu-lhe enquanto atirava a arma para longe e caía no chão.
Mahmud saltou por cima do cadáver, a disparar uma rajada de metralhadora contra o
homem que acabara de matar Hamza. Pouco lhe importava a morte do companheiro, mas
sentiu uma onda de satisfação quando viu cair o jovem junto do corpo de Hamza. Este,
muito estúpido, hesitara, baixara a arma, e até sorrira ao seu assassino. Merecia morrer
como um cão pela sua cobardia.
Deu ordens para se reagruparem e, enquanto saíam do kibutz, ouviram as explosões
da dinamite. Sentia-se satisfeito, a operação fora um êxito. Aquele kibutz desaparecera da
face da terra.

Era um milagre que ainda estivesse vivo. Os tiros de Mahmud tinham-lhe rebentado
com os pulmões, tinham-lhe desfeito a clavícula, perfurado o estômago e destroçado uma
perna.
Durante vários dias, permaneceu no mundo dos mortos. Os médicos que o trataram
surpreenderam-se com a resistência do seu coração e por não deixar de lutar pela vida.
O ataque ao kibutz fora uma carnificina. Só se tinham salvado cinco crianças. Dos cem
adultos só trinta sobreviviam , e entre eles contava-se David.
Ainda não conseguia falar. Uma máscara de oxigénio ajudava-o a respirar e sentia-se
sem forças para abrir os olhos. Uma vez pensou ver Martine quando os abriu, talvez
também Saul, mas não tinha a certeza.
Ouvia os médicos dizer que ainda não o tinham arrancado às garras da morte, que
ainda era cedo para dizer se iria viver. Era-lhe indiferente. Preferia dormir, desaparecer nos
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

braços dos fármacos que lhe administravam para aliviar as dores. Quando recobrava a
razão, por mais ténue que fosse, via Hamza a sorrir, a dirigir-se a ele com a arma baixa. Sim,
vira como o amigo não tivera qualquer intenção de disparar, mas ele, pelo seu lado, não
hesitara nem um segundo. Viu-o cair a sorrir, como se se tratasse de um jogo, como se lhe
quisesse dizer algo.
Não conseguia viver com o olhar de Hamza na retina. Em nenhum momento da vida
enquanto estivesse acordado, conseguiria deixar de ver o rosto sorridente de Hamza e a
mão dele, a baixar a pistola. Nesse momento, Hamza mostrara a sua coragem e ele a sua
cobardia. Esse instante iria persegui-lo como um pesadelo, e ele não aceitaria transformar-se
num fugitivo. Era melhor morrer. Porque é que o seu coração não se rendia? Porque se
empenhava em bater? Se tivesse forças, arrancaria todos aqueles tubos que o tinham
aprisionado à cama, que lhe entravam e saíam do corpo e o uniam a uns aparelhos que lhe
pareciam monstruosos.
Tanto esforço para lhe salvar a vida, para quê? Se a recuperasse, ele mesmo se
suicidaria. Era isso que lhes queria dizer, mas não o ouviam, talvez porque não lhe saíssem
as palavras.
— David, filho, estás a ouvir-me?
Acreditou ouvir a voz do pai e tentou abrir os olhos, mas sentia-os pesados. Não
podia ser. Era outro sonho. Outro pesadelo.
— Doutor, acha que não me ouve?
— Não sei, não lhe posso dizer. É um milagre que ainda esteja vivo, mas desconheço
a evolução que terá, nem se se poderá mover, ou não... O seu coração resiste a morrer, um
coração jovem e forte que não deixou de bater. Continua em coma, não sei quanto tempo
continuará.
A voz do pai a murmurar-lhe palavras de alento chegavam-lhe até ao mais fundo do
cérebro, naquele sonho do qual parecia não poder despertar.
Também pensava ouvir a voz do avô a incitá-lo a abrir os olhos e a lutar.
— Não te rendas, David, estamos aqui, vive, tens de viver.
Às vezes, ouvia-os com maior clareza. Outras, o som perdia-se na escuridão da
mente.
— O meu filho está em sofrimento, sei-o — pensou ouvir o pai dizer.
— Não, não sofre, está sob o efeito de sedativos, não se preocupe, não Pensa, nem
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

sente — respondeu o médico.


— O doutor está enganado, vejo-o pela expressão do rosto. David sofre, sofre uma
dor profunda e insuportável.., faça qualquer coisa... não o deixe sofrer.
— Garanto-lhe que não sofre, está totalmente sedado, é impossível que sinta alguma
coisa.
— O meu filho sente, doutor, o meu filho sente... eu sei, eu sinto isso. Hamza sorria-
-lhe e pegava-lhe na mão. Não estava zangado com ele.
Quis falar-lhe, mas não lhe saíam as palavras. Precisava de lhe pedir perdão por tê-lo
morto, mas o amigo não o queria ouvir, limitava-se a pegar-lhe na mão e levava-o consigo
para a eternidade.
Ferdinand sentiu que a mão do filho ficara gelada. Apertou-lha com força e,
imediatamente, chamou a enfermeira, aos gritos.
Entraram outros dois médicos e mais enfermeiras, enquanto ele pedia a Deus que
daquela vez não lhe falhasse. Não se lembrava de ter rezado desde a infância, excepto
quando procurara Miriam. Então, não tivera piedade dele; mas agora não podia voltar a
abandoná-lo.
Abriu-se a porta do quarto onde o filho jazia monitorizado desde há dois longos
meses. As enfermeiras saíam com uma expressão de rosto contraída, como quem acaba de
sofrer uma derrota dolorosa, e deixaram que os médicos se aproximassem dele.
Antes que lhe dissessem alguma coisa, Ferdinand soube o que ia ouvir.
Gritou. Um grito desgarrado cheio de uma dor insuportável. Agarraram-no para evitar
que batesse com a cabeça contra a parede, obrigaram-no a sentar-se, enquanto uma
enfermeira lhe puxava a manga para cima para lhe injectar um calmante, como se algo lhe
pudesse acalmar a dor da alma.

Enterraram-no no kibutz, perto da cancela que os separava da horta de Rashid.


Ferdinand viu aquele homem a olhá-lo através das árvores e reconheceu nos olhos dele
a mesma dor que sentia. O filho matara o filho do árabe, e outro homem matara o seu.
Não tinham nada a dizer um ao outro, nem sequer seriam capazes de se
consolarem.
Quando a última pazada de terra cobriu a campa, Ferdinand soube que tinha perdido

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

definitivamente. A sua vida carecia de sentido. O pai segurava-o, envolvendo-lhe as costas


com o braço, e do outro lado, Inge dava-lhe a mão. Fora até ali juntamente com John
Morrow. Como sempre, Inge estava presente nos momentos mais trágicos da sua vida.
Atrás dele, Martine chorava em silêncio.
Miriam não tinha um túmulo. Desaparecera numa vala comum em Berlim. O filho
ficaria naquele recanto do mundo, numa pátria que queria para si, num lugar em que dissera
que só se lutasse por ele poderia evitar o que sucedera à mãe.
Aproximou-se um homem com um cachimbo vazio na mão.
— Não existem palavras para consolar um homem que perdeu o filho, mas quero que
saiba que quem o assassinou está morto.
Em seguida, deu meia-volta e afastou-se. Ferdinand, imóvel e sem saber que fazer ou
dizer, ouviu Martine a sussurrar uma explicação:
— Chama-se Saul e é oficial da Haganá. Esta noite, vingou a morte de David. Procurou
o homem que disparou contra ele, averiguou o seu nome. Tratava-se de Mahmud, um
dirigente da guerrilha. Saul matou-o e apostou a vida para o fazer. Foi sozinho,
surpreendeu-o em casa a jantar com alguns dos seus homens e acabou com a vida de todos.
— De que me serve a morte dele? — perguntou Ferdinand.
— Olho por olho, dente por dente, é essa a lei no Oriente. Se matam um dos nossos,
têm de saber que não se podem esconder, porque iremos encontra-los e matá-los-emos.
Estamos sozinhos, Ferdinand, muito sozinhos. Cercados de inimigos por todos os lados, não
nos podemos permitir o luxo da fraqueza. Para Saul, não foi apenas uma resposta que devia
dar. Ele gostava do teu filho, sabia o que David representava para Hamza, e sempre receou o
momento em que tivessem de se enfrentar.
— Foi David que matou Hamza.
— Sim, ele disparou, ensinaram-no a defender-se. Não consegues imaginar o inferno
daquela noite, quinze crianças morreram assassinadas...
— Eu sei, Martine, eu sei. Não estou a julgar ninguém, só sei que o meu filho está
morto e que outro jovem também o está, que nem eu nem os pais dele podemos ser
consolados. Eles têm outros filhos, a mim não me resta nada excepto esperar o momento
da minha própria morte.
— És um grande historiador...

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— Sou um homem perdido na sua própria história.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

23

Ignacio rezava na capela, quando um sacerdote se aproximou dele para lhe dizer que
lhe estavam a telefonar do Vaticano.
Levantou-se, nervoso, a perguntar-se quem lhe poderia estar a telefonar de Roma
num sábado.
A voz do padre Grillo sobressaltou-o. Há dois meses que terminara o seu trabalho
temporário na Secretaria de Estado e regressara aos seus estudos na universidade. O tempo
que passara entre os muros do Vaticano tinham-no afectado, embora na realidade o que
mais o havia marcado fosse a sua estranha viagem a França.
— Prometi-te que te daria notícias do professor Arnaud. Acabo de receber um
telegrama de Jerusalém. O filho morreu, enterraram-no há alguns dias e o professor vai
regressar a França.
— Meu Deus, pobre homem! — exclamou Ignacio.
— Sim, o professor Arnaud é um homem a quem Deus mandou provas terríveis..,
deve estar destroçado.
— Só tinha o filho — murmurou Ignacio —, pensei que Deus se ia mostrar
misericordioso com ele e lhe salvasse a vida.
— Acabou por não sair do coma profundo em que se encontrava. Se resistiu durante
tanto tempo foi porque o seu coração era jovem, mas os médicos nunca acreditaram que
pudesse sobreviver.
— Rezei tanto por ele... — lamentou-se o jovem sacerdote.
— Todos rezámos.
— Acha que me podia dar a direcção e o número de telefone do professor Arnaud?
— Quando chegar, dar-tos-ei. Poderias vir agora ao escritório?
— Agora?
— Sim. Falei com o teu superior e ele não vê qualquer inconveniente na tua vinda, a
não ser que não possas por algum motivo.
— Não, não tenho nada de especial para fazer, irei.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Fico à tua espera.

A chamada do padre Grillo desconcertou-o. O que é que a Secretaria de Estado


poderia querer dele num sábado à tarde?
Tinham-se voltado a encontrar nalgumas ocasiões, quando o padre Grillo visitara a
casa dos jesuítas. Encontros amistosos e rápidos, com pouco tempo para falar do que
acontecera em França.
Recordava-se do professor Arnaud a correr pela gare, seguido pelo pai, até se perder
por entre a multidão. Tinham-no levado para a nunciatura onde o esperavam o padre Grillo, o
padre Nevers, o núncio, e dois homens que lhe foram apresentados como membros dos
serviços de segurança franceses, ansiosos por saber o que descobrira no castelo d'Amis.
— É um grupo estranho. Poderia classificá-los de fanáticos ou de loucos. A verdade é
que são um pouco perturbadores. Acreditam que vão encontrar o Graal, e especulam com o
que possa ser.
Ouviram-no muito sérios, preocupados, sem o interromper nem lhe fazer perguntas,
até ele acabar de descrever o que vira e ouvira no castelo.
— Raymond, o filho do conde, é um pobre rapaz assustado pelo pai. E o conde
pareceu-me tenebroso. Quanto aos convidados.., o senhor Randall é norte-americano,
com aspecto de militar, falava pouco e ouvia muito, e o senhor Stresemann dizia ser um
estudioso dos cátaros e é, sem dúvida, alemão.
Um dos homens dos serviços secretos franceses expusera com clareza que o conde
d'Amis era um homem inteligente, a quem, antes da guerra, lhe atribuíam contactos com o
regime de Hitler, que nunca tinham sido capazes de provar. O castelo sempre permanecera
resguardado de olhares indiscretos, e aqueles grupos de jovens que patrocinava na busca
de vestígios arqueológicos pareciam tão inocentes como uma manhã límpida de Primavera.
Apesar disso, persistia a suspeita que por trás das buscas arqueológicas havia algo mais.
— Bom, já lhes contei o que se passa. Procuram o Graal. Acreditam poder ser um
objecto mágico que conferirá poderes extraordinários a quem o possua, ou podem ser
os descendentes de Jesus e de Maria Madalena. O professor ri-se destas teorias, e diz que
são pseudoliteratura barata. Garante que não vão encontrar o Graal porque este não existe.
Para os franceses, a questão não era tanto que o conde d'Amis procurasse o Graal,
mas sim que mantivesse relações com alguma sociedade secreta de antigos nazis. Alguns

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tinham fugido da Alemanha e espalhado por todo o mundo. Não podiam pôr de lado a ideia
que D'Amis pudesse ter dado refúgio a alguns.
— Aquilo que não nos podemos permitir é o escândalo de ter nazis refugiados em
França — observou um dos homens dos serviços de segurança, preocupado.
Pelo seu lado, para a Igreja, o problema girava em volta das especulações acerca do
Santo Graal. O padre Grillo concordava com a opinião do professor Arnaud: «É melhor saber
aquilo com que nos confrontamos, porque assim poderemos preparar a resposta.»
Tinham-no felicitado pelas suas averiguações. O padre Grillo até insinuara que no
futuro se poderia vir a transformar num bom diplomata, e chegar a trabalhar na Secretaria
de Estado permanentemente.
E agora, meses depois, surgia a chamada do padre Grillo para anunciar a morte do
filho do professor Arnaud e chamá-lo ao Vaticano.
Foi informar o director da casa que ia sair porque o padre Grillo o chamara.
— Sim, falei com. Acho que chegou a tua oportunidade.
— A minha oportunidade?
— Não gostavas da carreira diplomática? Estás prestes a acabar os estudos, e o padre
Grillo diz que foste um bom secretário. Ele mesmo to dirá, mas parece que o secretário
dele tem uma doença cardíaca e o médico aconselhou-lhe uma vida tranquila, algo
impensável na Secretaria de Estado. Parece-me que te vão pedir que o substituas.
Ignacio não ocultou a satisfação. Trabalhar no Vaticano fora uma experiência
extraordinária e desejava poder regressar.
No seu gabinete, o padre Grillo falava ao telefone em japonês e fez um sinal a Ignacio,
indicando-lhe que aguardasse até terminar a conversa.
— Bom, fico satisfeito por teres podido vir.
— Sim, claro, bem... fico satisfeito por me ter chamado.
— Ainda não sabes para quê?
Ignacio baixou a cabeça para tentar esconder o rubor que sentia no rosto.
— O teu superior já to disse? — perguntou o padre Grillo, a rir-se.
— Sim, comentou qualquer coisa...
— Se não tens outros planos, gostaria de te propor que trabalhasses comigo. Este

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Verão fizeste-lo bem, falas inglês, francês, espanhol e italiano na perfeição, e creio que
dominas o árabe, o que nos será muito útil.
— E basco.
— Que dizes?
— Também falo basco.
— Bom, em princípio, não me parece que falares basco te seja muito útil aqui, mas
nunca se sabe. Conseguirás conciliar o fim dos teus estudos com o trabalho aqui?
— Acho que o conseguirei fazer. Dormirei um pouco menos à noite.
— Disso não duvides, não apenas porque tens de estudar, mas também porque aqui
não existem horários.
— Quando é que quer que comece?
— Agora mesmo.
Ignacio não se opôs. O superior dele tivera razão. Aquela era a sua oportunidade e
tinha de a aproveitar.
— Tenho um monte de cartas por responder e um problema numa diocese francesa.
Além disso, tenho de preparar a visita que o presidente dos Estados Unidos vai fazer ao
papa. E o secretário de Estado precisa dos papéis para ontem, e já estamos no hoje...
Nenhum dos dois almoçou, embora tivessem tomado alguns cafés muito fortes.
Passaram o resto da manhã e boa parte da tarde a trabalhar. Mas não eram os únicos na
Secretaria de Estado. Até o cardeal passou pelo gabinete para despachar alguns assuntos
urgentes, apesar de ser sábado. O padre Grillo tinha razão. No Vaticano nunca se
descansava.
Eram cerca das nove da noite quando o padre Grillo deu por terminado o dia de
trabalho.
—Já que não te dei tempo para almoçares, convido-te para jantar. É o mínimo que
posso fazer.
Levou-o a uma trattoria no Trastevere, pouco frequentada pelos turistas.
— Passaste todo o dia ansioso por me fazeres perguntas acerca do professor Arnaud
— animou-o o padre Grillo.
— Sim, gostaria de saber o que é que aconteceu. O professor impressionou-me.

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Considera-se agnóstico, mas fala de Deus como se fosse uma presença permanente na sua
vida. A morte do filho deve ter sido terrível para ele. Já lhe disse que lhe quero escrever.
Não me parece que se interesse muito pelo que tenho a dizer-lhe, mas sinto que o devo
fazer.
— Não apenas isso, dentro de pouco tempo irás a Paris.
— A Paris? Tenho exames...
— Faremos com que não coincidam com a tua viagem. Quero que regresses ao
castelo d'Amis e me faças um relatório da evolução do caso. Mas só viajarás daqui a uns dois
meses, se tanto.
— Quer saber se encontraram alguma coisa?
— Queremos saber o que estão a fazer, é tudo. É um grupo inquietante. Os nossos
amigos franceses pediram-nos para colaborar e, como o interesse é comum, tentaremos ver
o que podemos fazer.
— Não sei se me receberão...
— Disseste que o filho do conde, Raymond, te convidou a ir quando quisesses.
— Sim, mas isso são coisas que se dizem em certos momentos. Parece-me que o
conde não gostou muito dessa ideia.
— De qualquer maneira, vamos tentá-lo, mas por enquanto não. Depois digo-te
quando.

Estava nervoso. Quando telefonou ao professor Arnaud, este mostrara-se


muito seco durante a conversa telefónica. Concordou recebê-lo sem qualquer
entusiasmo. E agora receava encontrar-se com ele.
Não se levantou para o cumprimentar. Limitou-se a indicar-lhe que se sentasse.
Em poucos meses, Ferdinand Arnaud convertera-se num velho. O cabelo branco, os
olhos apagados, o olhar crispado, as mãos com a pele cheia de manchas... Custava-lhe
reconhecer naquele homem aquele que, meses antes, o acompanhara ao castelo
d'Amis, cheio de vitalidade e de esperança no futuro, e que contava os dias para
viajar até Israel e visitar o filho.
— Professor, obrigado por me receber.
— Não obteve resposta. Permaneceu em silêncio, apático, indiferente.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Ignacio engoliu em seco, não sabia como abordar aquela situação. Percebia
que nada do que lhe dissesse o podia interessar. Nem sequer o podia consolar, ninguém
poderia reparar a ferida que recebera.
— Lamento a morte do seu filho.
— Ferdinand continuava sem se mover, mudo, a aguardar que o sacerdote
acabasse de falar e se fosse embora, que o deixasse em paz.
— Não o quero incomodar, apenas... enfim, precisava de lhe dizer quanto
lamento, e que durante estes meses tenho rezado por si e pelo se filho.
—A expressão de Ferdinand não se alterou para desespero de Ignacio que,
derrotado, decidiu ir-se embora.
— Vou-me embora, não o queria incomodar. Desculpe tê-lo importunado com a
minha presença.
Ainda mal se levantara, quando Ferdinand lhe indicou com a mão que se voltasse
a sentar.
— Não tenho nada a dizer, nem a si, nem a ninguém. Não suporto que me
dêem as condolências, nem que me falem de David. Na verdade, a única coisa que
espero neste momento é morrer. Se tivesse coragem, já não estaria aqui.
—A confissão de Ferdinand deixou-o derrotado. Continuava sem encontrar
palavras para comunicar com ele, para lhe mostrar que sentia como seu o sofrimento
dele, que faria qualquer coisa ao seu alcance para o ajudar.
— Sinto-me satisfeito por lhe faltar essa coragem e que continue aqui— achou por
bem dizer —, a sua morte não serviria de nada.
— Eu sei isso, mas serviria para deixar de sofrer. Não pode imaginar como a dor
de alma pode ser insuportável.
Não, não o podia imaginar, de modo que não o pensava enganar e dizer-
-lhe que sim. Não sabia o que era perder a mulher amada, procurá-la desesperadamente,
para saber anos depois que fora assassinada. Não sabia o que era perder um filho e que esse
filho também tivesse arrancado a vida a outros como ele. Na verdade, a sua vida decorrera
sem nada de relevante, e, portanto, sem sofrimento. De modo que não podia dizer que sabia
o que estava a sofrer, porque nem remotamente o podia intuir. E, no entanto, era sacerdote
e achava que a sua missão também era consolar aqueles que sofriam. Mas fazê-lo naquele
momento teria sido uma impostura.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Concordei em recebê-lo, porque o reitor mo pediu. Não vou estar aqui muito mais
tempo, vou-me embora, mas entretanto tenho de aparentar uma certa normalidade.
— Para onde vai?
— Para parte alguma, para minha casa, esperar o momento do meu enterro.
-- Não é culpado de nada.
— Não, claro que não. Não pense que me estou a castigar porque me sinto culpado
de alguma coisa. Simplesmente, não tenho vontade de viver. Aqui converti-me num
incómodo. Não suporto os meus alunos e eles não me suportam a mim. É-me indiferente
que aprendam ou não, que compreendam o que lhes explico ou não. Não os vejo, perante
mim vislumbro formas estranhas que se movem e falam sem sentido. É melhor ir-me
embora e é isso que farei quando acabar o ano lectivo.
— Acha que a sua mulher e o seu filho iriam ficar satisfeitos?
— Um dia disse-lhe que era agnóstico. Agora, as coisas são-me mais claras. Não há
nada, não há Deus. De modo que nem a minha mulher, nem o meu filho existem. Só na
minha cabeça e na daqueles que os conheceram. Não pensam, não sentem, não existem.
Portanto, não podem sentir-se nem satisfeitos, nem insatisfeitos com o que eu faço. Por
favor, evite os falsos consolos da cura.
Não era minha intenção incomodá-lo, compreendo que não acredita em nada, mas
para mim a sua mulher e o seu filho existem. Permita-me que também defenda as minhas
certezas.
— Como compreenderá, não tenho vontade de discutir acerca de crenças. É-me
indiferente aquilo em que acredita. Diga-me o que quer, por que motivo me veio ver.
— Senti a necessidade de o fazer, de lhe dizer o quanto lamento o que se passou. Sim,
eu sei que a si lhe custa a acreditar que um desconhecido se possa importar com alguma
coisa do que lhe aconteceu, mas a verdade é que me importo, e não porque seja sacerdote,
importa-me como ser humano. Pode ser que o professor tenha sido a primeira pessoa que
na verdade vi sofrer e o seu sofrimento me tenha afectado de tal modo que não pude
deixar de me sentir envolvido nele.
— Era só isso que me queria dizer? O reitor disse-me que queria voltar ao castelo.
— É verdade, mas garanto-lhe que isso não tem nada a ver com o meu desejo de o
visitar.
— Porque é que quer regressar ao castelo?
262
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Porque os serviços de segurança têm informações inquietantes acerca das


actividades do conde, e porque a Igreja quer saber se avançaram na sua busca.
— Não o acompanharei.
— Não lho pedi.
— Melhor assim.
— A crónica de Frei Julián já não significa nada para si?
— Foi um trabalho, nada mais.
— Sempre pensei que significava algo para si.
— Significou, mas isso pertence ao passado. No presente, não me interessa. Não sei
se já se apercebeu que estou morto.

263
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

24

Daquela vez, a viagem de comboio pareceu-lhe cansativa. Olhava para a frente e via o
assento vazio. Em menos de um ano, a sua vida sofrera muitas mudanças.
Terminara os estudos com uma boa média, trabalhava na Secretaria de Estado,
estivera perto do Santo Padre umas duas vezes... A família orgulhava-se dele e gabavam-se
perante os vizinhos. Cada dia que passava sentia-se mais seguro da decisão que tomara ao
tornar-se sacerdote. Nada o podia satisfazer mais que servir a Deus onde a Sua Igreja
pudesse necessitar.
Esperava estar à altura da missão da qual fora incumbido. Não ia ser fácil. Não se
sentia bem a enganar os outros. Além disso, temia que a qualquer momento se
apercebessem que era uma fraude. Quando telefonou a Raymond este pareceu satisfeito,
mas hesitou, a seguir, quando lhe disse que ia a Carcassone e que gostaria de o visitar.
Pediu-lhe que esperasse alguns minutos, enquanto consultava o pai para saber se o
poderia receber. Sentiu-se aliviado quando Raymond lhe disse que o convidariam para
almoçar. De modo que a sua estadia no castelo iria ser curta, já que o convite incluía apenas
o almoço.
Pareceu-lhe que Raymond ficara mais alto desde a última vez em que o vira. Decerto
que ainda estava em idade de crescer. Recebeu-o à porta do castelo com cordialidade, mas
com um olhar atento, como se não se sentisse à vontade na sua presença.
— Sinto-me satisfeito por o voltar a ver— disse apertando-lhe a mão. — A sua
chamada foi uma surpresa.
— Espero não ter incomodado. Tive que vir a Carcassone pesquisar umas coisas nos
arquivos e pensei em passar por aqui para vos cumprimentar. Foram muito amáveis comigo
quando estive cá com o professor Arnaud.
— Ah, o professor Arnaud! Dizem que enlouqueceu.
Ignacio sentiu-se incomodado com a observação e não foi capaz de se conter.
— Pois foram mal informados. O professor está óptimo.
— Disseram-nos que a morte do filho o transtornou...
— Bem, é normal nestes casos, imagine o que aconteceria ao seu pai se o perdesse...
Mas o trabalho ajudou-o a superar esse mau momento, e pouco a pouco volta ao que foi.

264
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Raymond não fez qualquer outro comentário, mas cravou o olhar em Ignacio e este
soube que ele não acreditara.
Começaram a caminhar pelos jardins do castelo sem rumo fixo, e sem saber muito
bem como quebrar o gelo que se formara entre ambos.
— Como vai a busca? — perguntou Ignacio, directamente.
— A busca? Refere-se a que busca?
— Ao Graal. Quando estive aqui, contou-me que estavam prestes a encontrá-lo.
— Peço-lhe que não se refira a isso em frente do meu pai, ou dos seus convidados.
Fui indiscreto, falei de mais, algo imperdoável da minha parte.
— Por favor, não se preocupe! Naturalmente que não direi nada em frente do seu
pai. Se lhe perguntei foi apenas como historiador que ambiciono ser, e essa missão parece-
-me a mais extraordinária de quantas possam ser feitas.
— E é, mas infelizmente ainda não conseguimos nada. Levará algum tempo e muita
paciência, mas o meu pai tem a certeza que o iremos conseguir.
— Nesse dia, e embora corra o risco de parecer mal-educado, peço-lhe que me
deixe ver o que encontrarem.
Raymond riu-se, vaidoso. Sentia-se poderoso perante aquele jovem aspirante a
historiador, que parecia estar a suplicar-lhe que o deixasse meter as mãos no bolo.
— Não lho posso prometer, não depende de mim, mas garanto-lhe que vou tentar.
— Em que fase estão?
— Procuramos documentos, temos pessoas a investigar na Escócia, continuamos com
as escavações... nada de novo, mas encontrá-lo-emos, não duvide. O Graal é nosso.

O almoço decorreu quase em silêncio. Tal como da vez anterior, o conde mostrou-se
seco e distante, no limite do que poderia ser considerado um mau anfitrião.
Os convidados do conde eram um grupo heterogéneo formado por jovens da idade
de Raymond e homens da idade do conde. Ninguém fez qualquer alusão aos motivos que os
tinham levado até ali.
Depois do almoço, desapareceram todos e deram as desculpas mais variadas.
Raymond convidou Ignacio a tomar café antes que o carro o levasse a Carcassone.

265
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Sabe, parece cada vez mais evidente que o Graal é o sangue de Jesus. Se o
confirmarmos, adeus Igreja. São patéticos esses padres ajoelhados perante a cruz, perante
um objecto de tortura. Estão doentes. O pior é a quantidade de imbecis que acreditam
neles.
— É uma teoria interessante — resolveu Ignacio dizer —, mas difícil de provar.
— Provocaria prejuízos à Igreja se se difundisse. Quando muito, um dia, escrever-se-
-ão livros a esse respeito. Veremos a reacção.
— Escrever? Mas porquê?
— Um livro acerca dos segredos de Montségur, uma compilação de lendas... até um
romance.
— Mas nada disso seria uma demonstração daquilo que querem provar.
— Já sabe que quando se repete uma coisa milhões de vezes...
— Essa é uma frase de Goebbels.
— Infelizmente, não é por ele a ter dito que deixa de ser verdade.
— Trata-se apenas de prejudicar a Igreja?
—Trata-se de muita coisa, mas também disso. Têm de pagar pelo que fizeram.
Derramaram muito sangue inocente. Lembre-se da crónica de Frei Julián.

Regressou a Roma insatisfeito. Fracassara na sua tentativa de se aproximar do


professor Arnaud, e as informações que recebera no castelo também não eram nada de
extraordinário.
O padre Grillo não era da mesma opinião. Achava que Raymond lhe dissera mais do
que quisera.
— Vão começar a espalhar especulações acerca de Jesus e Maria Madalena, e há
muitas pessoas desejosas de acreditar nisso. O próprio Raymond disse-to. O objectivo é
prejudicar a Igreja. Encontrarão quem escreva um ou vários livros, podem inundar as
livrarias com romances, ensaios falsos... tentarão iniciar uma polémica connosco. Devemos
estar preparados para quando isso acontecer e pensar na resposta.
— A melhor resposta é que não existe resposta — sugeriu Ignacio.
— Que não digamos nada?

266
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Exacto. A Igreja não deve responder a boatos nem a teorias peregrinas, apenas
responder a factos.
— Transmitirei a tua opinião ao secretário de Estado.
— Não brinque comigo.
-- Não estou a brincar. Quando falar com ele acerca deste assunto, dir-lhe-ei qual a
tua opinião. Talvez o teu conselho seja o mais acertado.
Só um mês depois é que o padre Grillo voltou a referir-se ao assunto. Quando entrou
no seu gabinete, Ignacio viu no rosto sério o preâmbulo de uma má notícia.
— Em primeiro lugar, quero dizer-te que o secretário de Estado decidiu que sejas o
responsável do assunto francês. De agora em diante, estás encarregado de obter notícias
dos trabalhos do conde e dos seus amigos, e ficares alerta a qualquer publicação acerca do
Graal. Terás à tua disposição todos os meios de que necessitares. Quem poderia imaginar
que um frade dominicano da Inquisição fosse dar tanto trabalho e dores de cabeça. Frei
Julián converteu-se num pesadelo.
— Bom, o pobre frade não tem culpa do que fazem os descendentes da sua família.
— Essa crónica.., enfim, não vou julgá-la. É evidente que o pobre sofria.
— Imagino que algum dia a Igreja terá de rever alguns dos seus actos, para os poder
explicar à luz actual.
— Isso, Ignacio, não nos diz respeito, nem a mim nem a ti. Apenas temos que
permanecer alerta perante o que a família de Frei Julián possa fazer. Não te separes da sua
crónica, porque foi ela que provocou tudo isto. E... bem.., tenho que te dar uma má
notícia. Sei que te vai afectar.
Ignacio engoliu em seco e iniciou uma oração, a pedir que não se referisse à sua
família.
— O professor Arnaud faleceu de um enfarte. Teve um final triste. Parece que não o
viam há dois dias e na universidade ficaram preocupados. Entraram em contacto com a
família e... bem, encontraram-no morto.
— Não, não morreu, já estava morto.
— Ignacio!
Ignacio saiu do gabinete com a Crónica de Frei Julián na mão. Sabia que aquele livro o
uniria para sempre a Ferdinand Arnaud.

267
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Dois dias depois, Ignacio estava na nunciatura de Paris junto do padre Nevers e dos
dois polícias que o tinham ido interrogar.
Explicaram-lhe que não havia nada de extraordinário no falecimento
do professor Arnaud e que a autópsia confirmara o enfarte de miocárdio.
O padre Nevers estava nervoso. A situação incomodava-o. Porque é
que o professor Arnaud tivera a infeliz ideia de deixar em herança a Ignacio
Aguirre todos os seus papéis referentes à investigação histórica acerca de
Frei Julián? Colocava a si mesmo aquela pergunta, mas a Polícia também a formulara. Por
isso, tinham pedido à nunciatura para falar com o sacerdote espanhol.
Ferdinand Arnaud falecera de um enfarte, mas no dia da sua morte deixara as coisas
perfeitamente organizadas, bem como uma caixa de tamanho considerável com uma
direcção e um nome escrito: «Ignacio Aguirre. Secretaria de Estado. Cidade do Vaticano.»
Naturalmente, a Policia abrira a caixa e encontrara um enorme monte de papéis e
cadernos que para eles não faziam o mínimo sentido. Nestes, com uma letra apertada,
Ferdinand escrevera acerca do livro de Frei Julián, mas também escrevera reflexões mais
pessoais acerca do conde e dos amigos deste. Para além dos papéis, havia uma carta fechada
e lacrada também para Ignacio.
Em cima da mesa do gabinete também tinham encontrado outra carta dirigida a uma
direcção em Berlim, em nome de uma mulher, Inge Schmmid, com a qual a universidade
entrara em contacto. A Polícia também mostrou interesse em falar com a senhora
Schmmid.
A carta para a senhora Schmmid não parecia conter nada de relevante, apenas
indicava a direcção e o número de telefone de um notário de Paris com o qual ela devia
entrar imediatamente em contacto. Agradecia-lhe por o ter ajudado a manter-se de pé
nos momentos mais difíceis da sua vida, e incitava-a a procurar a felicidade.
— Esta senhora é a herdeira de todos os bens materiais. O andar na rue Foucault
onde vivia, o carro e todas as suas poupanças. Um bom quinhão... — disse um dos polícias.
Quanto à carta para o sacerdote, a Polícia não conseguia perceber se tinha algum
dado importante. Por isso, haviam insistido em vê-lo, já que, diziam, não se tinham atrevido
a abri-la, algo de que Ignacio duvidava, embora tivesse o lacre intacto.
— Garanto-lhes que não sabia que o professor Arnaud ia decidir entregar
precisamente a mim os seus mais estimados documentos — assegurou-lhes Ignacio.
— Eram muito amigos? — perguntou um dos polícias.
268
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Mal se conheciam! — afirmou o padre Nevers, embora não lho tivessem


perguntado a ele.
— Erauma pessoa muito especial para mim, mais que um amigo. Quanto ao motivo
por que me escolheu para ficar com os seus papéis, não o sei. Talvez confiasse em mim,
que soubesse...
— Que soubesse... o quê? — perguntou o polícia.
— Que vou precisar desses papéis no futuro, que aqui podem encontrar-se as chaves
do que pode acontecer.
— Mas a que é que o senhor se está a referir? O que é que pode acontecer que tenha
a ver com essa crónica medieval? — interrompeu-o o segundo polícia, enfastiado com
aquela conversa que lhe parecia inútil.
— Lamento, mas não vos posso dizer o que sei. Apenas que me sinto muito honrado
por o professor Arnaud me ter legado os seus papéis.
— Preparou esta caixa um dia antes de morrer… No entanto, a autópsia revela que
morreu de causas naturais, um enfarte. Por isso é que não entendemos o motivo destas
duas cartas de despedida.
—Já estava morto — afirmou Ignacio, perante o espanto dos polícias e do padre
Nevers.
— Como diz? — perguntou um dos polícias.
— Que já estava morto, deixara de viver, embora continuasse a respirar. Morreu no
mesmo dia em que enterrou o filio David.
— Mas, Ignacio! Como é que podes dizer isso? — protestou o padre Nevers.
— É a verdade, pode-se estar morto em vida. Eu não o sabia, soube-o depois, na
última vez em que vi o professor Arnaud. Apenas esperava que o coração parasse, e era
uma questão de dias.
— Que coisas dizes!

Ignacio não queria ficar muito tempo em Paris, mas sentia-se curioso por conhecer
aquela Frau Schmmid, da qual nunca ouvira falar. Por isso, perguntou aos polícias se ainda
se encontrava em Paris.

269
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Sim, tem de tratar dos papéis da herança. Está hospedada no hotel Sena, na
margem esquerda. É um hotel pequeno e modesto, perto de Saint-Michel. O padre Nevers
franziu a testa ao perceber que a intenção de Ignacio era visitar aquela mulher
desconhecida.
— Mas porque é que a queres conhecer? Porque é que te interessa quem é? A vida
do professor Arnaud não nos diz respeito.
— Tem razão, padre, mas sinto a necessidade de a conhecer. Pode ser que ela saiba
porque é que o professor Arnaud decidiu deixar-me os seus papéis.
— Tens a carta do professor Arnaud. Decerto que nela te explica o motivo da sua
decisão.
Mas Ignacio não se deixou convencer pelo padre Nevers.
— Não se preocupe comigo. Regressarei pelos meus próprios meios.
— Mas se nem sequer sabes se essa senhora está no hotel!
Ignacio não respondeu. Saiu do carro e, a sorrir, despediu-se dele.
— Depois telefono-lhe, padre, não me iria embora sem me despedir.

O recepcionista do hotel olhou-o curioso. Não era vulgar ver um padre naquele
lugar. E ainda ficou mais surpreendido quando lhe perguntou pela senhora Schmmid.
— Está com sorte, porque saiu de manhã cedo e acabou de regressar nem há
cinco minutos. Pode sentar-se naquela cadeira, que eu vou avisá-la.
Inge não demorou nem dois minutos a descer à recepção e dirigiu-se a Ignacio, com a
inquietação reflectida no rosto. O que é que um padre poderia querer dela?
— Boa tarde, que deseja?
Ele ficou tão espantado quanto ela. Pensou que devia andar pela casa dos trinta, mas
as rugas à volta dos olhos e a expressão dos lábios eram marcas claras de alguém que vivera
e sofrera.
— Desculpe incomodá-la, senhora Schmmid, chamo-me Ignacio Aguirre.
O nome não lhe dizia nada. Nunca ouvira falar dele.
Explicou-lhe quem era, e ela ouviu-o sem dizer palavra, nem mostrar curiosidade.
— Conhecia o professor Arnaud há muito tempo? — atreveu-se Ignacio a
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

perguntar àquela mulher de expressão inescrutável.


— Sim, conhecemo-nos há muito tempo.
Ignacio começou a ficar impaciente. Ela não parecia disposta a dar-lhe nenhuma
explicação.
—Desculpe importuná-la, mas... enfim, gostaria de saber mais alguma coisa a
respeito do professor Arnaud. Encontrei-me com um legado que não esperava e não sei
porquê. Quis conhecê-la, porque sei que foi a si que ele deixou tudo quanto tinha. Por
favor, poderíamos ir a algum sítio beber um café?
Inge hesitou durante alguns segundos. Em seguida, cravou um olhar directo e franco
nos olhos de Ignacio.
— Se quiser, podemos ir beber um café e falar, mas não me parece que lhe possa
tirar as suas dúvidas. Nunca me falou de si, nem tinha motivos para o fazer.
Saíram do hotel e andaram até chegar a um café, com uma esplanada coberta.
Instintivamente, Ignacio procurou um recanto afastado onde não os incomodassem.
Inge pediu chá e ele café, e aguardaram que o empregado lhos trouxesse até
começarem a falar.
— Não sei porque é que o professor Arnaud decidiu deixar-lhe os seus papéis.
Lamento, não tenho essa resposta, que é a única de que precisa.
— Quando foi a última vez que viu o professor Arnaud? — quis Ignacio saber.
— No enterro do filho, na Palestina. Despedimo-nos no aeroporto. Ele regressava a
Paris e eu a Berlim. Estava destroçado. Para ele, a vida acabou no momento em que
enterraram David.
— Eu estava com ele quando lhe deram a notícia de que o filho fora ferido.
Acompanhei-o ao castelo d'Amis. Estivemos lá apenas dois dias, e quando regressámos o pai
do professor Arnaud estava na estação à espera dele para lhe explicar o que é que
acontecera.
— Imagino que tenha sido um momento terrível para ele. E quando é que o voltou a
ver?
—Já há algum tempo. Vim a Paris falar com ele. Eu tinha de regressar ao castelo.
— E queria que ele o acompanhasse?
— Teria gostado, sim, mas fui sobretudo vê-lo porque precisava de lhe dizer o que
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

sentia pelo filho. Mandei-lhe uma carta de pêsames, mas não obtive qualquer resposta.
— Porque é que o professor lhe interessava tanto?
Ignacio fizera-se aquela pergunta em muitíssimas ocasiões e ainda não encontrara a
resposta.
— Não sei. Talvez fosse a conversa que tivemos no comboio a respeito de Deus, da
Igreja... Impressionou-me. Pensei que, para alguém que se declarava agnóstico, tinha uma
invejável fé em Deus e na Igreja. Surpreendeu-me, e teria gostado de prosseguir com
aquela conversa.
— Tinha sofrido muito.
— Sim, sei o que aconteceu à mulher dele. Conheceu-a?
Então Inge explicou-lhe como se tinham conhecido, e o vínculo invisível que se
estabelecera entre eles, naqueles anos em que procurara Miriam. Contou-lhe que juntos
tinham descoberto o que acontecera aos tios, que mais tarde a senhora Bruning, a porteira
de Sara e Yitzhak, lhes confessara que fora ela quem denunciara Miriam e como a tinham
levado.
— Desculpe-me por lhe fazer uma pergunta tão pessoal, mas que fazia a senhora
naqueles tempos?
— Era uma jovem comunista, com um noivo comunista do qual tive um filho, e com
uns pais nazis que me renegaram. Sara e Yitzhak ajudaram-me, deram-me trabalho,
trataram-me como a um ser humano. Mas se quer saber qual a relação que tive com os
nazis, posso dizer-lhe que sou uma sobrevivente, não atirei bombas à sua passagem, nem
matei ninguém. Não fiz nada, limitei-me a sobreviver.
— Não, não lhe estava a perguntar isso, desculpe, não quero remexer nas suas
feridas.
— Não o está a fazer, não me recrimino de nada.
Ignacio não se atreveu a perguntar-lhe se a ela e a Ferdinand os tinha unido algo mais
do que o infortúnio, mas Inge percebeu aquilo que o sacerdote queria saber.
— E se quer saber se durante todos estes anos houve algo entre nós, a resposta é
não. Nunca me olhou como a uma mulher, nem eu o vi como um homem. Embora lhe custe
a acreditar, é possível a amizade entre um homem e uma mulher.
— Não, não me custa a acreditar.

272
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Naquela situação desesperada em que nos encontrávamos nenhum dos dois


precisava de amor, não desse tipo de amor. Acho que chegámos a estar mais unidos do que
se tivéssemos dormido juntos.
Ele corou, apesar do modo de falar de Inge não exibir qualquer tipo de provocação.
— E agora que já sabe um pouco mais a meu respeito, porque é que acha que ele me
deixou os seus papéis?
— Não sei, na verdade não sei nada a seu respeito. O professor Arnaud estava
fascinado pela crónica de Frei Julián, era muito importante para ele, mas ao mesmo
tempo sentia uma certa repulsa pelo conde. Não o ajudou muito. Na verdade, o conde
d'Amis não o fez porque não lhe podia dizer que os amigos pertenciam ao grupo de
assassinos que tinham acabado com a vida da mulher dele. De modo que o conde e os
amigos mostraram-se indiferentes ao desespero do professor, e este nunca lhes perdoou.
Também não gostava das ideias dele, nem da sua obsessão pelo Graal, nem que
acreditasse que fosse possível a independência da Occitânia. Acho que o conde
esperava que os nazis o ajudassem a conseguir que a Occitânia fosse independente de
França. Talvez tudo isso o inquietasse mais do que queria mostrar, e talvez tivesse decidido
confiar em si para que fizesse frente ao conde se chegasse esse momento. Mas insisto, não
sei, nunca me falou de si.
— Depois de Israel voltaram a falar?
—Sim, liguei-lhe umas duas vezes. E escrevi-lhe várias cartas às quais ele respondeu.
Mas garanto-lhe que nunca me disse nada a seu respeito, lamento. Também não tinha
qualquer motivo para mo dizer. Embora fôssemos amigos, isso não significa que eu saiba
tudo a respeito dele.
— Fala do professor no presente, como se ainda estivesse vivo.
— Para mim está, e estará sempre.
— E agora, que vai fazer?
— O que sempre quis e que ele me pediu que fizesse. Vou terminar o curso, e depois
darei aulas, serei professora. Ferdinand foi muito generoso comigo. Deixou-me todas as
suas poupanças e a casa. Vou vendê-la, ele pediu-me na carta. Voltarei a estudar e
manterei o meu filho sem angústias. Ele pede-me que seja feliz, ou que pelo menos o tente.
Na verdade, deu-me a felicidade. Posso voltar a retomar o meu curso que era aquilo por que
mais ansiava, era o meu sonho oculto.

273
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— O que é que estudava?


— Filologia alemã.
— Terá sorte.
Inge encolheu os ombros. Não acreditava na sorte, era apenas uma sobrevivente.
Ignacio pensou que não tinha nada em comum com aquela mulher, apenas uns anos
mais velha que ele e, que, no entanto, sofrera o que ele possivelmente nunca viria a sofrer.
Sentia que o destino de ambos os unira, porque o professor Arnaud assim o quisera.
— Vou-lhe dar a minha direcção em Roma, para o caso de algum dia passar por lá.
Também gostaria de saber onde se encontra se for a Berlim. O professor Arnaud
transformou-nos nos seus herdeiros...
— E pensa que isso nos une? — perguntou ela, num tom irónico.
— Sim, penso que isso nos une. Não sei porquê, mas é o que penso, ou melhor, é
isso que sinto. Talvez algum dia precise de ajuda. Se tal acontecer, lembre-se de mim. Farei
o que estiver nas minhas mãos para a ajudar.
— Não acredito em Deus — afirmou ela em resposta.
— Não lhe perguntei se acredita. Porque mo está a dizer?
Inge levantou-se e estendeu-lhe a mão para se despedir.
— Vejo que está atormentado pela morte de Ferdinand, e não o deveria estar.
Morreu porque para ele já não fazia sentido viver. Agora está em paz.

Viu-a sair do café com passo firme, e pensou que aquela mulher nunca precisaria
nem dele, nem de ninguém. Ela mesma lho dissera. Era uma sobrevivente. E já sobrevivera
ao pior.
Telefonou ao padre Nevers para se despedir.
— Fica para jantar.
— Não, prefiro regressar a Roma. Tenho muito trabalho, o padre Grillo não pode ficar
sem secretário. Com um pouco de sorte, talvez consiga apanhar o último voo.
Na verdade, precisava de estar sozinho para ler com calma a carta do professor
Arnaud.
Teve sorte e conseguiu fazê-lo no avião. Rasgou com uma certa emoção o envelope
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

branco que continha algumas folhas escritas à mão, com uma letra pequena e apertada,
mas nítida.
O professor Arnaud dizia-lhe que todos aqueles papéis que constituíam o seu
trabalho acerca da crónica de Frei Julián já não tinham qualquer significado para ele, mas
... pode ser que algum dia consiga encontrar neles algo que o ajude a confrontar-se
com aquilo que o conde pode fazer com as suas ideias extravagantes, embora já saiba que
na minha opinião nunca encontrará nada, porque não há nada para encontrar. Já pouco me
importam as coisas dos vivos, pois sinto que já não pertenço a este mundo, mas você é
jovem e conserva intacta a sua fé na humanidade, de modo que pode fazer algo por ela.
Lute para evitar que se derrame sangue inocente.
Ao longo da história, derramou-se muito sangue porque os homens se
consideravam deuses e não lhes importava semear o mundo com morte, porque para eles,
os outros homens não passam de carne com uma forma mas sem voz, sem alma. Não os
vêem, não os sentem, não lhes importa que morram desde que sirvam os seus interesses.
Também se derramou muito sangue em nome de Deus, que contradição! O que é que Deus
pensará destes homens que utilizaram e utilizam o Seu nome para matar? Não acha que a
Igreja deveria reflectir acerca disto? E fazer algo, sim, e porque não começar por si?
Frei Julián afirmava que um dia alguém vingaria o sangue dos inocentes, mas acho
que seria melhor que não continuasse a ser derramado. A vingança não serve para nada
aos mortos...
Ignacio não conseguiu conter as lágrimas. Aquela carta era mais que um
testamento. Era um pedido para que fizesse algo, para que dedicasse a sua vida a evitar a
morte de inocentes. Pedira a Inge que fosse feliz, e a ele que desse um sentido à sua vocação
como sacerdote, um sentido diferente do que ele mesmo imaginara. Poderia e saberia fazê-
lo?
Quando chegou a Roma, era noite cerrada. Estava esgotado, mas sentia-se incapaz de
dormir. Abriu a caixa onde o professor Arnaud colocara com todo o cuidado os seus papéis e
começou a viajar pelos anos em que Frei Julián vivera. Quis ver a mão de Deus no facto do
seu destino estar unido ao daquele frade dominicano que clamava vingança em nome dos
inocentes.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

TERCEIRA PARTE

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Sábado em Atenas, actualmente

Na varanda do quarto, o homem observava distraído o modo como o ténue sol da


manhã se reflectia no mármore, e fazia com que este parecesse ainda mais branco e
reluzente.
Embora ainda não fossem oito, na praça Sintagma o trânsito já estava caótico.
Limusinas negras esperavam à porta do Grã-Bretanha para transportar alguns dos
banqueiros, políticos e empresários alojados no velho e senhorial hotel, todos eles
participantes da Cimeira para o Desenvolvimento que se celebrava em Atenas.
Durante um momento, o homem pensou que ele, tal como alguns daqueles homens
que moviam os fios do mundo, preferia o Grã-Bretanha a outros hotéis mais modernos e
sofisticados de Atenas. E não só porque estava situado no coração da cidade, em frente ao
Parlamento, mas porque o Grã-Bretanha ainda conservava o glamour dos antigos hotéis
europeus.
Olhou distraído para o relógio, pois sabia que ainda dispunha de tempo antes de
comparecer no encontro combinado com alguns participantes num palácio discreto,
situado numa zona residencial nos arredores da cidade. Na verdade, era naquele palácio
que se iriam tomar as decisões que se repercutiriam sobre os cidadãos de todo o mundo,
durante os meses e anos seguintes. Mas isso era algo que as centenas de jornalistas que
tinham aparecido para fazer a cobertura da Cimeira para o Desenvolvimento não sabiam, e
muito menos os confiantes cidadãos.
Pegou no telemóvel que deixara sobre a mesinha-de-cabeceira e marcou o número
de outro telemóvel. Passou-se apenas um minuto antes de atenderem a chamada.
— Bom dia, conde — disse ao homem que o ouvia a centenas de quilómetros de
distância. — Queria apenas assegurar-lhe que os nossos assuntos continuam no bom
caminho.
A conversa foi rápida, mal durou dois minutos, e quando fechou a tampa do telemóvel
sorriu satisfeito. Ia tudo por bom caminho. Durante um segundo deixou a imaginação voar e
viu o conde d'Amis sentado na poltrona forrada de veludo verde, atrás da mesa de carvalho
maciço do seu escritório, elegantemente vestido e com o cabelo penteado de modo que
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

nem um único cabelo se movesse.


O conde d'Amis fora um achado. Uma pérola perdida no oceano da vida, uma pérola
que se encaixava na perfeição no seu plano.
No seu trabalho não se podia permitir nenhuma falha. Baseava-se na confiança que
homens poderosos depositavam nele, ao saber que era capaz de conseguir o que queriam.
Em resumo: que outros sujassem as mãos para conseguirem os seus objectivos. E ele não se
importava de ter as mãos sujas. Há muito que se imunizara contra qualquer cheiro
desagradável. Pagavam-lhe demasiado bem para ter escrúpulos.
Pancadas discretas na porta arrancaram-no aos seus pensamentos. Uma empregada
perguntou-lhe, solícita, onde podia deixar o tabuleiro do pequeno-almoço e os jornais
do dia. Deu uma vista de olhos pela primeira página do Herald Tribune, enquanto se
sentava e preparava para comer.
Os cabeçalhos da primeira página dividiam-se entre a Cimeira para o
Desenvolvimento e as sequelas de um atentado recente, efectuado por muçulmanos
num cinema de Frankfurt: cinquenta mortos e quase uma centena de feridos. Serviu-se
de uma chávena de café e dedicou-se à leitura.
Sorriu ao verificar a ingenuidade dos jornalistas que classificavam a cimeira como
«histórica». Na verdade, a cimeira era a cobertura perfeita para que alguns homens
poderosos se pudessem reunir perante os olhos do mundo sem chamar a atenção. Uma
dezena de banqueiros, seis ou sete dirigentes de multinacionais, alguns políticos reformados
mas influentes, faziam parte de um clube selecto e sem nome, nem denominação social,
nem sede, nem número de telefone. Eram homens com poder, que moviam os fios da
economia mundial com inversões e retrocessos, cujo único objectivo era o próprio benefício,
e para os quais os países e os cidadãos eram apenas peões num enorme mapa que
acreditavam poder mover à sua vontade.
Esses homens eram respeitados e respeitáveis, figuras de renome mundial,
inacessíveis ao comum dos mortais. Eram homens longe de qualquer suspeita, incapazes
de sujar as mãos.
Uma vez lidos os jornais, ligou a televisão e procurou uma estação que transmitisse em
directo o encerramento da cimeira. Quando o locutor anunciou o último discurso, levantou-se,
apagou a televisão, endireitou a gravata em frente do espelho e antes de sair do quarto ligou
para a recepção para que o porteiro tivesse o carro pronto, em frente da porta do hotel.
Uns minutos depois, o homem emergia no tráfico caótico de Atenas, que não o
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

impediu de chegar pontualmente ao encontro.


Para além de umas quantas árvores centenárias que tornavam impossível o olhar dos
curiosos, o palácio não se via da rua. Uma vedação alta isolava-o do exterior.
No estilo neoclássico tão utilizado em tantos edifícios a partir de meados do
século XIX, via-se que os proprietários tratavam bem da sua conservação.
Ninguém lhe perguntou onde ia, nem quem queria ver. Abriram-lhe o portão para
permitir a entrada do veículo na quinta. De seguida, estacionou e um mordomo silencioso,
que se limitou a cumprimentá-lo, acompanhou-o a uma sala e pediu-lhe que esperasse ali.
Pela janela, viu que limusinas negras começavam a chegar e que estacionavam em frente da
porta do palácio. Destas saíam alguns daqueles homens cujos interesses marcavam a
política mundial.
— Bom dia.
Levantou-se para cumprimentar o homem que acabava de entrar na sala. Alto, com
o cabelo grisalho, de idade indefinida, elegante, o inconfundível sotaque da classe alta
inglesa e a aparência de alguém habituado a mandar sem obter resposta.
O dono daquele palácio não perdeu tempo com circunlóquios, e foi directo ao
assunto.
— Bom, informe-me.
— Antes de vir, falei com o conde d'Amis, e o plano continua no seu curso.
— Tem a certeza que não está a cometer um erro ao confiar nesse conde?
— Tenho a certeza. É o indivíduo ideal para levar em frente o plano. É um homem
desequilibrado, obcecado... sim, é o homem adequado. Até agora, fez o que se lhe pediu
sem cometer erros.
— Para quando está prevista a conclusão do plano?
— Ainda faltam alguns pormenores, pode ser que dentro de um mês esteja tudo
preparado.
— Não se atrase.
— Para que o plano corra bem ainda falta preparação, tempo e dinheiro.
— Eu sei, mas o tempo é uma matéria sensível e escassa, da qual não dispomos de
muita neste momento. Seguiu a cimeira?

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Sim.
— Quantas palavras inúteis se disseram! Mas, enfim! O que a opinião pública quer
ouvir é que o mundo está melhor e que é possível vivermos todos juntos e felizes, como se
dar um estalo com os dedos fosse o suficiente para que todos os seres humanos se
convertessem em anjos.
— Os jornais dizem que a cimeira foi um êxito.
— Sim, é isso que dizem, e sabe o que decidimos? Nada, absolutamente nada. O
comunicado consensual é um extenso compêndio de boas intenções. Os países
desenvolvidos aprovaram planos de desenvolvimento para os países menos desenvolvidos.
Abriram-se vias de diálogo entre países com culturas diferentes, e respeitaram-se as
idiossincrasias e as diferenças de cada um, etc., etc. Ou seja, nada. Enfim... Agora tenho
uma longa reunião com os cavalheiros que me esperam, e que, sem dúvida, será mais
produtiva. Devo comunicar-lhes algo?
— Não, já lhe disse que está tudo encaminhado. Sabe bem que nunca canto vitória
antes do tempo, mas creio que o plano vai correr bem, que será executado e terá o êxito
que pretendem.
— Até agora, você nunca falhou...
— Não, nunca o fiz, senhor, e espero poder continuar a cumprir as suas missões,
como o fiz ao longo de todos estes anos.
— As fontes de energia não podem estar nas mãos desses ignorantes... é incrível que
alguns não se apercebam do perigo que representam. Só há uma maneira de acabar com
eles, de fazer com que o mundo se aperceba que é necessário o confronto...
— Esperemos que o plano sirva para isso.
— Servirá, claro que servirá. Os políticos podem dizer o que quiserem, mas a
opinião pública, previamente sensibilizada, é que os força a ir numa direcção ou na outra.
Nós contribuímos para que a opinião pública acerte. Há quanto tempo não visita Londres?
— Há quatro dias, senhor.
— Ah! já me esquecia que você está em toda a parte. Então terá visto que em
Londres existe de tudo, menos londrinos. Há bairros que parecem um prolongamento do
Paquistão... Os muçulmanos mostram-se cada vez mais exigentes e o governo mais fraco,
preocupado por aparecer como o defensor dos direitos humanos... Como se essa gente lhes
agradecesse! Querem destruir-nos! Acabar com a nossa civilização!
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Sim, isso é evidente.


— É-o para qualquer um que não seja estúpido. Decerto. Teve dificuldades para
encontrar este lugar?
— Não, não me foi difícil chegar até aqui.

— Estepalácio pertence à família da minha mulher. Ela nunca o quis vender, por
uma questão sentimental, e devo reconhecer que, pelo menos, nos é útil para a ocasião.
Bem, estarei em Atenas mais alguns dias antes de regressar a Londres. Se houver
alguma novidade, telefone-me.
— Fá-lo-ei.

— Sabe? Ia-lhe dizer-lhe que estamos satisfeitos com o seu trabalho... você torna
possível o que parece impossível...

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Nesse mesmo sábado, no castelo d'Amis, Sul de Franca

— Senhor, os jornais.
Raymond de la Pallisière, vigésimo terceiro conde d'Amis, levantou-se da cadeira onde
se encontrava sentado a ler alguns documentos, para tirar das mãos do mordomo os
jornais que lhe chegavam, pontualmente, todas as manhãs.
Assim que ficou sozinho, voltou a acomodar-se numa cadeira junto de uma janela, e
perto da lareira que aquecia a sala.
Na mesa baixa que se encontrava à sua frente, pousou os dez jornais que lia
diariamente, cinco franceses e quatro alemães, para além do Herald Tribune.
Herdara aquele hábito do pai, que todas as manhãs trazia os jornais de Carcassone, e
se fechava com eles como se se tratasse de trabalho.
Na verdade, aquele não era o único gesto do pai que imitava. Quase toda a sua rotina
diária era uma cópia do que fora a vida do seu progenitor.
Desde que o pai morrera, introduzira poucas alterações no castelo. Apenas as
imprescindíveis para continuar a garantir o seu conforto e o dos seus convidados.
O pessoal de serviço fora mudando ao longo dos anos.
Pensou no actual mordomo, um homem de meia-idade, educado e minucioso, que
antecipava sempre os seus desejos. Tivera sorte com ele, porque tivera de despedir o
anterior por incompetência.
Na realidade, o mundo mudara tanto que contratar um mordomo era quase uma
excentricidade que apenas os velhos como ele se permitiam, embora os amigos e
conhecidos lhe elogiassem o aspecto, dizendo que não aparentava a idade que tinha.
Mantinha-se direito, com os olhos verdes brilhantes e o cabelo loiro, que ao se tornar
grisalho lhe dava uma aparência imponente.
Lia sempre em primeiro lugar o Herald Tribune, tal como o pai o fazia.
De novo a notícia do atentado de Frankfurt ocupava a primeira página. A Polícia não
detivera nenhum suspeito, embora o atentado tivesse sido reivindicado por um grupo

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

islâmico que estava a colocar em cheque os países da União Europeia e que se auto
denominava o Círculo.
Os líderes do Círculo faziam ameaças nas quais diziam que não permitiriam que os
europeus vivessem em paz, e de facto estavam a cumprir as ameaças. Atentados como os
do cinema de Frankfurt aconteciam de tempos a tempos e, só de vez em quando, a Polícia
conseguia efectuar detenções importantes.
Os homens do Círculo tinham o seu objectivo muito claro. Derrotar os «cruzados» e
reconquistar as terras que, segundo eles, pertenciam aos muçulmanos: al-Andalus, incluindo
Portugal, assim como parte da França, os Balcãs, etc. E, também, varrer os judeus de Israel.
Era esse o seu plano, ao qual se aplicavam com zelo e fanatismo, e nada os parecia poder
deter.
Segundo o Herald Tribune não se tinham encontrado «restos importantes» no
apartamento em que os membros do comando islamita se tinham imolado para não caírem
nas mãos da Polícia, e Raymond perguntou-se a que se referiam quando falavam de
«restos importantes», porque era óbvio que, importantes ou não, tinham encontrado
alguma coisa.
Os jornais alemães ofereciam, fundamentalmente, informações exactas acerca do
atentado, acerca da comoção da sociedade alemã, as vítimas do cinema, as vítimas do edifício
de apartamentos que os elementos do comando tinham feito explodir para se suicidarem, os
estragos que tinham causado.
Raymond sentiu-se inquieto sem saber porquê. Levantou-se e serviu- se de um copo
de calvados apesar de ser cedo. Não eram ainda onze da manhã, mas o calvados
convertera-se na sua melhor companhia, e tanto nos momentos felizes como nos de tensão
era-lhe imprescindível.
Serviu-se de uma medida generosa e, em seguida, decidiu fazer uma chamada
telefónica. Não a fez do telefone pousado sobre a mesa do escritório. Procurou numa das
gavetas da secretária e tirou um telemóvel. Marcou um numero e esperou que o
atendessem. O toque do telefone soou insistente até que ouviu a voz de um homem do
outro lado da linha.
— Bom dia, queria perguntar-lhe acerca do que aconteceu em Frankfurt...
A resposta do homem pareceu tranquilizá-lo. A seguir, sem dizer mais nenhuma
palavra, desligou o telefone e voltou a guardá-lo cuidadosamente na gaveta. Depois olhou
para o relógio. Restavam apenas alguns minutos até que chegassem Os membros do
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

conselho de administração da Memória Cátara, a fundação a que presidia desde a morte do


pai.
Muitos dos membros da fundação eram filhos dos fundadores da Associação para a
Memória dos Cátaros, iniciada pelo pai para dar uma aura de respeitabilidade à sua busca do
Graal e do tesouro dos cátaros.
Raymond pensou no esforço e no dinheiro que o pai e os amigos tinham investido
nessa busca falhada, embora achasse que, apesar de tudo, todos aqueles esforços não
tinham sido inúteis. O Languedoc renascera. Ali estavam os cartazes a anunciar aos turistas
que acabavam de chegar ao País Cátaro, ou o logotipo desenhado como símbolo turístico
com o formato de um disco, ou o sem-fim de cafés, restaurantes e lojas de souvenirs onde a
palavra «cátaro» era uma constante. Alguns dos homens que faziam parte do conselho da
Memória Cátara eram comerciantes abastados, cujo compromisso com o passado era tão
forte quanto o seu. Eram os herdeiros de um país que lhes fora arrebatado pela força das
armas, o qual eles agora governavam a seu modo através das leis modernas do comércio.
Ao conselho, para além dos occitanos, continuavam a pertencer os filhos dos
cavalheiros alemães do pai, vencidos pelas armas na Segunda Guerra Mundial. Alguns
tinham conseguido sobreviver graças à generosidade e ao empenho dos D'Amis. Outros
tinham mudado de apelido e de nacionalidade, outros, ainda, haviam conseguido passar
despercebidos no seu país. Mas tal como acontecera anteriormente com os pais, estavam
todos unidos pela mesma crença, a de se saberem homens superiores e portanto diferentes.
Sim, continuavam a procurar, porque todos eles sabiam que o tesouro dos cátaros
existia e não cediam no seu empenho de o encontrar. A sua era mais do que uma
fundação, como na sua época a associação criada pelo pai fora mais do que uma
associação. Era uma «ordem», uma ordem de cavalheiros comprometidos com a busca do
segredo dos cátaros.
Todos eles se sentiam satisfeitos ao ver que, ano após ano, chegavam jovens de todo
o mundo, seduzidos pelo eco da antiga heresia.
O País Cátaro sobrevivera aos seus destruidores, e a sua antiga fé continuava
aninhada no coração das pessoas.
O mordomo bateu levemente na porta antes de entrar.
— Senhor, os seus convidados chegaram.
Naquele dia, o conselho era importante, um conselho no qual participavam todos os
membros da fundação, bem como os da Ordem Cátara, a irmandade fundada pelo pai. Uma
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

ordem secreta, formada por cinco homens com os quais partilhava um sonho: um sonho de
vingança.
Raymond dirigiu-se ao salão onde o esperavam os membros da irmandade. A
saudação consistiu numa ligeira inclinação da cabeça; em seguida convidou-os a sentarem-
se.
— Senhores, tenho boas notícias. O nosso plano continua em marcha. Ainda não
vos posso indicar uma data concreta, mas dentro de um mês teremos conseguido a nossa
vingança.

Bilbau
Nesse mesmo dia e a essa mesma hora, muito longe dali, Ignacio Aguirre
passeava sem destino a pensar na conversa que acabara de ter com Ovidio Sagradía, o
seu aluno favorito.
O vento soprava com força e trazia com ele o longínquo cheiro a mar. O velho
sacerdote pensou que já não tinha a paciência de antigamente, quando não lhe importava
perder as horas que fossem necessárias para tratar dos problemas dos jovens padres.
Agora, reformado na sua Bilbau natal, o Vaticano, que fora todo o seu mundo,
parecia-lhe distante, se não fosse de vez em quando a chamada de um ou outro cardeal ou
bispo que precisava de informações acerca de algum acontecimento passado em que ele
interviera.
Fizera um longo percurso desde que, quase por acaso, chegara como sacerdote
meritório à Secretaria de Estado e dali ao terceiro piso, onde seguia ao minuto o que se
passava no mundo e analisava as informações que, depois de depuradas, mandava
resumidas em relatórios para a cúpula do poder da Igreja, ou seja, para os gabinetes dos
cardeais e até do papa.
Na verdade, a carreira dele, se é que se lhe poderia chamar isso, devia-se àquela
viagem que fizera a França, muitos anos antes, como secretário do padre Grillo, o homem
que o ajudara a converter-se pouco a pouco naquilo que viera a ser.
Recordava com nitidez tudo o que vivera naqueles dias, a viagem até ao castelo do
conde d'Amis, a sua breve mas profunda relação com o professor Ferdinand Arnaud, a sua
preocupação, reflexo da dos seus superiores, pelo que parecia ser um renascer cátaro. A
Crónica de Frei Julián e aqueles papéis que o professor lhe deixara como herança,

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

convencido que um dia o poderiam ajudar.


Naquela viagem começara a consolidar-se o que viria a ser depois o resto da sua vida
eclesiástica.
Vivera com intensidade, e sentira-se um privilegiado pela oportunidade de servir a
Deus onde os seus superiores acreditavam que fazia mais falta. Por isso, sentia-se irritado
com Ovidio Sagardía, jesuíta como ele, ao qual ajudara a situar-se no intricado mundo do
Vaticano porque acreditava que ele, com a sua crença, a sua inteligência especulativa, a
sua capacidade de trabalho, os seus dotes diplomáticos, a sua solidez sacerdotal, e de
repente... sim, de repente, Ovidio fora-se abaixo, e estava disposto a renunciar a tudo
porque se queria converter num pároco de um lugar qualquer.
Tinham tido várias discussões pelo telefone, mas no fim a angústia de Ovidio era tal
que acedera a ajudá-lo a fazer uma paragem no caminho. O acordo a que tinham chegado
consistia em acolhê-lo durante uma temporada na casa de Bilbau para que, assim que o
sacerdote se tivesse reencontrado, pudesse decidir onde podia servir melhor a Igreja,
porque era disso que se tratava. Servir a Deus e aos outros.
Sim, fora a isso que dedicara a vida. Na verdade, a sua carreira sacerdotal fora
determinada pelo professor Arnaud que lhe pedira que o ajudasse a evitar o derramamento
de sangue inocente. A vida de Arnaud ficara mareada por aquela Crónica de Frei Julián que
se transformara numa obsessão. Mas o frade dominicano clamava a vingança do sangue dos
inocentes, enquanto o professor Arnaud lhe fizera um desafio diferente: evitar que se
derramasse mais sangue.
Pouco antes de falar com Ovidio, fizera-o com o secretário de Estado que, apesar da
decisão do padre de deixar em breve o seu trabalho, o convocara para uma reunião, a fim de
falarem acerca do atentado de Frankfurt. No Vaticano estavam preocupados com aquele
atentado, reivindicado pelo Círculo, a rede de fanáticos islâmicos que, com os seus actos,
estava a conseguir colocar em xeque todos os serviços secretos ocidentais. Como evitar que
se continuasse a derramar sangue inocente?, perguntara o cardeal a Ignacio Aguirre, sem
que este lhe soubesse dar uma resposta.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Cidade do Vaticano

Ovidio Sagardía não prestava atenção ao que aquele homem lhe dizia. Na verdade,
lamentava a sua sorte para si mesmo: «Sou um espião? Que outro nome se pode dar
àquilo que faço? Embora o saiba, irrita-me que me tratem como tal. Pergunto-me como
cheguei até aqui, em que momento é que isso alterou o rumo da minha vida.»
— Alguma opinião?
— Desculpe-me, eminência, estava a pensar no que estes senhores acabam de contar
— respondeu o sacerdote, de modo mecânico.
A voz cortante do cardeal devolvera-o à realidade. Fazia calor na sala, ou talvez fosse o
desânimo que o estivesse a afectar. Os olhares do cardeal e dos dois homens que o
acompanhavam pesavam-lhe. Também eles eram espiões, só que ele servia o Todo-Poderoso
e eles os seus governos.
— Bom, padre, tenha a bondade de nos dizer o que pensa — incitou-o o cardeal.
— Precisaria que me dessem mais informações. Na verdade, o que nos contaram pode
ser alguma coisa ou pode não ser nada. A única coisa que parece certa é que o atentado foi
cometido pelo Círculo.
— Não temos mais informações — assegurou num tom fatigado o homem de cabelo
grisalho. — Oxalá as tivéssemos! Por isso, lhe pedimos ajuda. E sim, efectivamente, o Círculo
reivindicou a matança do cinema de Frankfurt.
O cardeal não respondeu e ele também decidiu manter-se calado. Sabia o que o seu
superior pensava. Que não estavam em dívida para com aqueles homens. Sabia que se
sentia incomodado por aqueles dois homens que tivera de receber devido à ausência do
director de Análise de Política Externa, o bispo Pelizzoli. Mas o ministro do Interior insistira
perante a Secretaria de Estado acerca da urgência da situação e o cardeal concordara em
recebê-los.
— É um quebra-cabeças — afirmou o homem jovem como se falasse sozinho.
Observou-os durante alguns segundos, a tentar avaliar que tipo de homens e espiões

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

eram. O mais velho, o de cabelo grisalho, respondia pelo nome de Lorenzo Panetta.
Mostrava-se seguro de si mesmo, nada impressionado pela magnificência daquele gabinete
cujo tecto fora pintado por Rafael. Era um alto responsável pela segurança do Estado, um
ex-espião que subira de categoria até se transformar num político.
O mais jovem, que idade teria? Não mais de trinta e cinco anos, com um aspecto
militar, embora parecesse constrangido não apenas pelo lugar, mas também pelo
assunto que os levara até àquele gabinete do Vaticano. Tinham-no apresentado como
Matthew Lucas, era norte-americano, e trabalhava como intermediário entre uma agência
de espionagem do seu país e o organismo que coordenava a luta contra o terrorismo no
interior da União Europeia.
Decidiu sair da letargia que o envolvia e voltar a ser quem esperavam que fosse.
Ergueu os ombros e cravou o olhar nos papéis que lhe tinham entregado, lendo-os, daquela
vez sim, com muita atenção.
— Quando é que dizem que estes papéis apareceram? — perguntou sem se dirigir a
nenhum dos homens em especial.
— São parte dos restos encontrados no apartamento em que se suicidaram os
homens do Círculo — respondeu o homem de cabelo grisalho. — Na verdade, não são
papéis, mas sim fragmentos com os quais o laboratório conseguiu reconstruir algumas
frases. Isso aconteceu há quatro dias.
— E porque é que ficaram tão alarmados?
Os dois homens olharam-se antes do mais velho responder:
— Não temos mais nada a acrescentar ao que já contámos. Há meses que a Brigada
Antiterrorista da Interpol seguia Milan Karakoz. Além de traficar armas, também traficava
informações. É um dos traficantes que fornece o Círculo de armas. Também tem contactos
com assassinos a soldo. Uma pérola.
— E não acham que a vossa «pérola» deve ter a experiência suficiente para não
cometer erros e evitar que o seu nome apareça num papel nas mãos dos terroristas?
— Decerto que Karakoz não sabe que o seu nome apareceu num pedaço de papel
entre os restos de um apartamento de Frankfurt — afirmou o homem de cabelo
grisalho.
— Como pode ver no relatório — interveio Matthew Lucas —, um grupo de
terroristas islâmicos ia ser detido pela Polícia alemã. Acreditamos que eram os mesmos

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que, dois dias depois, fizeram explodir o cinema no centro de Frankfurt, onde morreram
mais de trinta pessoas, entre elas cinco crianças. E já se sabe como esses indivíduos
reagem. Preferem morrer a ser detidos. Fizeram-se explodir quando a Polícia lhes ordenou
que saíssem do apartamento, onde se tinham refugiado. Antes queimaram um grande
número de documentos, dos quais restaram pedaços minúsculos que foram examinados
no laboratório. Conseguiram-se resgatar algumas palavras desses papéis. Karakoz, com o
qual presumimos que deviam ter contactos, decerto que lhes fornecia armas. Outros nomes
eram «Sepulcro», «Cruz de Roma», «Sexta-feira», «Saint-Pons», que não sabemos se é o
nome de um lugar ou de uma pessoa ou de ambos, «Lotario», e o fragmento de um livro
que não sabemos a que se refere: «O nosso céu está aberto apenas àqueles que não
são criaturas...» O resto aparece queimado, juntamente com outro fragmento, «o
sangue». Não há mais palavras, não sabemos como continua.
— Está a esquecer-se de «Santo»... — acrescentou Lorenzo Panetta. — Li-o no
relatório, também havia um pedaço de papel em que estava escrito, «correrá o sangue no
coração do Santo...», e outra vez a palavra «c r u z».
— Sim, já explicaram tudo isso e está aqui no relatório, mas não compreendo o que é
que o Vaticano tem a ver com tudo isto. Lamento.
O cardeal olhou-o mal-humorado. Os dois homens ficaram com a certeza que ia
repreendê-lo, e com razão. Na verdade, não sentia o mínimo interesse por aquilo que lhe
estavam a contar, e a única coisa que desejava era pedir que encarregassem outro daquele
trabalho, que não contassem com ele.
— Padre Ovidio, estes cavalheiros não estariam aqui, se não achassem que tudo isto
é importante. Na minha opinião, é-o. A nossa obrigação é colaborar com os nossos
amigos e ajudá-los a resolver este enigma. E é isso que faremos.
A intervenção do cardeal não deixava lugar a dúvidas, e o sacerdote baixou a cabeça,
derrotado.
— O trabalho deveria ser conjunto — sugeriu Matthew Lucas.
— E será, senhor Lucas — afirmou o cardeal. — O Vaticano colaborará com o Centro
de Coordenação Antiterrorista da União Europeia, como não poderia deixar de ser. O
padre Sagardía entrará em contacto convosco quando tiver examinado todas as
informações que nos entregaram. Garanto-lhes que vamos levar este assunto muito a sério.
Os dois homens entreolharam-se, conscientes que o cardeal dava por encerrada a
audiência. A porta do gabinete abriu-se e entrou um sacerdote.
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— O meu secretário vai acompanhá-los.


A despedida foi rápida, e os dois homens deixaram o escritório preocupados pela
apatia que o tal padre Ovidio mostrara.
Quando a porta se fechou, rebentou a tormenta.
—Ora bem, o que é que se passa? — perguntou o cardeal sem ocultar a contrariedade.
—Desculpe-me, eminência, mas não acredito que nada do que nos contaram seja
motivo de alarme.
— Ou seja, o padre acha que Panetta, o maior especialista na luta antiterrorista que
temos em Itália, que trabalha ombro a ombro com outras agências de países aliados no
Centro de Coordenação Antiterrorista da União Europeia, e com a NATO, veio até aqui
assustar-nos como se fossemos meninos de escola. E o senhor Lucas, perito em
movimentos terroristas islâmicos, que pertence à Agência Antiterrorista e de Segurança
Norte-Americana, é um alarmista. Por favor, Ovidio! O que é que se passa?
Ovidio Sagardía esteve tentado a voltar a baixar a cabeça e a não responder à
pergunta directa do cardeal. Mas sabia que aquele não se calaria e que insistiria até que lhe
dissesse a verdade.
— Sua eminência sabe bem o que se passa. Quero deixar tudo isto, encontrar-me
comigo mesmo, mas, sobretudo, reencontrar-me com Deus.
Os dois homens permaneceram em silêncio, olhando-se fixamente, cada um a ler
nos olhos do outro.
— Sabe que dentro de alguns dias vou partir, que consegui que me arranjassem uma
paróquia. É aquilo que quero, ser um pároco de bairro, ajudar as pessoas, sentir-me útil,
viver de acordo com o Evangelho...
Calou-se, perante a expressão do cardeal. Sentia-se perdido porque sabia que nada
do que dissesse comoveria a determinação férrea daquele príncipe da Igreja.
— Lamento, Ovidio, a sua paróquia terá de esperar, pelo menos, até ao regresso de
monsenhor Pelizzoli. Antes de o chamar, falei com ele que acha que é a pessoa adequada
para se encarregar desse trabalho. Confia em si mais do que o padre confia em si mesmo. É
um padre, um jesuíta, um soldado de Deus e tem deveres para com a Igreja. A obrigação de
um sacerdote é servir onde o Igreja nos pede que o façamos. Não se trata do que
queremos, mas do que devemos e a quem o devemos. O padre tem um talento
extraordinário para a análise, tem-lo também para investigar, para se fundir com a
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paisagem. São dons que Deus lhe deu e que não lhe pertencem. Até agora colocou-os ao
serviço da Igreja. Não os abandone, Ovidio, não o faça agora.
— Só quero ser padre.
— É aquilo que é, um padre na primeira linha da batalha. Um jesuíta que sabe que
não pode fazer o que quer mas o que deve, e agora quer fugir.
— Sabe bem que não fujo! — gritou o sacerdote.
— Está com uma crise! Sei-o! — respondeu o cardeal, também aos gritos. — Acha
que é o único sacerdote que tem uma crise, e se pergunta o que está a fazer com a vida?
— Eu não me questiono acerca do sacerdócio, apenas com o que faço, com o que fiz
até este momento. Não acredito ter vivido como nos mandou Nosso Senhor Jesus Cristo.
O cardeal percebeu que tinha perdido e se, nesse momento, tentasse vergar o
homem, perderia o sacerdote para sempre.
— Bom, quem se pode encarregar disto?
— Talvez Domenico. Além disso, é especialista no islão e, se tudo isto está relacionado
com um grupo de muçulmanos, ele é o mais indicado.
— Direi ao Santo Padre que vai partir. Ele vai querer vê-lo, sabe bem o quanto ele o
aprecia.
— Obrigado.
— Obrigado? Não, não me agradeça, não me deixou outra escolha.

— Porque acha que o padre estava tão reticente? Tratou-nos como se fossemos uns
loucos que se apresentaram no Vaticano a contar uma história de óvnis.
— Sim, foi muito desagradável — respondeu Lorenzo Panetta—, embora ache que
tem de fazer aquilo que o mandam fazer.
— O Vaticano é impressionante — disse Matthew Lucas. — Nunca imaginei que o ia
poder ver por dentro, refiro-me a algo mais do que a basílica ou os museus. O cardeal
também me impressionou.
— É um indivíduo importante na nomenclatura da Cúria. Embora não trate
directamente dos serviços secretos do Vaticano, pode dizer-se que toda a informação chega
ao gabinete dele.

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— Serviços secretos do Vaticano?


— Comandante, em que escola se formou? Não sabe que o Vaticano conta com um
dos melhores serviços de informação que existe no mundo? Nada escapa aos seus
ouvidos, mas são muito zelosos com as informações que obtêm. Se nos ajudarem, será mais
fácil.
— Empenhou-se para que nos ajudassem, porquê? Apenas porque num pedaço de
papel surge «Santo» e noutro «Deus de Roma»?
— Isso seria um motivo suficiente, mas para além disso.., verá, tenho a sensação que
existe muito mais do que aquilo que somos capazes de imaginar e de ver, e que precisamos
da ajuda desses padres.
— Mas é o único que acredita nisso. Em Bruxelas, nem todos estavam de acordo em
envolver o Vaticano neste caso.
— Sabe? Há uma grande diferença entre os políticos e os analistas que nunca saíram
de um escritório e aqueles que, como eu, aprenderam na rua.
— Aprenderam?
— Formei-me na rua, a perseguir delinquentes. Garanto-lhe que sei quando num caso
há algo mais do que aquilo que se vê.
— Mas é há muitos anos um... bem, um alto cargo.
— Sim, mas olhe para as minhas mãos e olhe para as suas.
— Para quê?
— As suas são mãos de gabinete, as minhas... bom, o que é que interessa? Tenho um
pressentimento, mas de qualquer maneira não perderemos nada se os cérebros do Vaticano
nos ajudarem.
— Confio mais na ajuda que verdadeiros especialistas nos possam dar. Chegará a
tempo para a reunião?
— Amanhã de tarde estarei em Bruxelas para participar na maldita reunião. Espero
que a Polícia alemã nos mande mais algumas informações e que os seus amigos da da não se
armem em espertos e nos informem se têm algo acerca desses estúpidos nos ficheiros.
— Acerca de quem?
— Dos suicidas, Matthew, dos suicidas.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Eu não diria que são estúpidos, a prova está que conseguiram fazer explodir um
cinema no centro de Frankfurt, com bombas fornecidas pelo inevitável Karakoz.
Ultimamente, aparece em todo o lado.
— Os terroristas pagam bem e a pronto, por isso é que estamos sempre a tropeçar
em Karakoz. A este só lhe interessa o dinheiro. É uma criatura repugnante.
Lorenzo Panetta estacionou o carro no terminal A do aeroporto de Fiumicino.
Matthew Lucas saiu do veículo com uma pequena mala na mão. Os dois homens
despediram-se com um «até amanhã».
No dia seguinte, encontrar-se-iam na «reunião de crise» convocada pelo director do
Centro de Coordenação Antiterrorista da União Europeia. Lorenzo Panetta era o subdirector
do dito organismo e um dos seus mais brilhantes analistas.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Mohamed Amir sentia-se nauseado. Além de medo, tinha fome e sede. Não sabia
se a Polícia alemã andava atrás dele, ou se o davam como morto com o resto dos irmãos
que se tinham imolado com o nome de Alá nos lábios.
Os cristãos diriam que se salvara milagrosamente. Na verdade, fora isso que
acontecera. Receando que a Polícia tomasse a casa de assalto, o primo Yusuf pedira-lhe que
fosse à casa de banho e queimasse todos os papéis, e era isso que estava a fazer quando
ouviu a voz de um polícia a ordenar-lhes que saíssem de braços no ar. Ouviu Yusuf a dizer-
-lhe que fugisse. Não se recordava de como o fizera, mas abrira a janela da casa de banho,
saltara para a cornija exterior, daí deslizara por um algeroz grosso e conseguira chegar à
cornija do piso inferior. Sabia que num dos apartamentos vivia um casal que àquela
hora estava a trabalhar, embora na verdade a Polícia tivesse evacuado o edifício e
provavelmente não encontraria ninguém nos apartamentos. Teve sorte. Empurrou a janela
e esta abriu-se. Não lhe foi difícil deslizar para o interior do apartamento, embora temesse
que a Polícia o encontrasse dentro da casa. Mas não havia ninguém, de modo que
procurou onde se esconder. Depois ouviu a explosão. Os gritos e o fumo invadiram o
edifício. Yusuf e os irmãos tinham preferido imolar-se do que cair nas mãos da Polícia. Eram
mártires dos quais o Círculo iria ficar orgulhoso.
Sentiu-se desorientado e com medo durante alguns segundos, pois receava que a
qualquer momento um polícia o detivesse, mas miraculosamente não aconteceu nada. Sabia
que a meio da tarde chegariam os donos do apartamento, se é que a Polícia não avisara
antes todos os vizinhos acerca da explosão. Se nesse momento a Polícia ainda não se
tivesse ido embora, encontrava-se em perigo, mas no entanto ainda faltavam algumas horas,
de modo que apenas lhe restava esperar em silêncio.
O esconderijo que escolheu fê-lo recordar as brincadeiras de infância. Enfiara-se
debaixo da cama do casal, e os ruídos e gritos do exterior chegavam-lhe até ali.
Como é que os tinham encontrado? Quem é que os atraiçoara? Em quem podia
confiar se conseguisse sair do apartamento?
Esperava que todos os papéis tivessem ardido, de maneira que todas as pistas que
conduziam a outros irmãos — e, sobretudo, àqueles que, Alá os protegesse!, contribuíam
para a causa sagrada — tivessem desaparecido.
O primo Yusuf era o chefe da célula e a essa hora estava sentado junto de Alá, a
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

desfrutar do Paraíso. Sorriu ao imaginar Yusuf cercado de belas huris. Morrera como um
mártir e os pais sentir-se-iam orgulhosos dele. Iria visitá-los quando pudesse, se saísse vivo
daquele apartamento.
As horas pareciam-lhe intermináveis, mas não se atrevia a sair debaixo da cama. O
ruído das sirenes, os gritos, as ordens chegavam-lhe até ali amortecidos.
Eram seis da tarde quando ouviu a porta. Arrastou-se e saiu debaixo da cama. Ouviu
a voz da senhora Heinke, que parecia estar a falar ao telemóvel. Contava a alguém o que
acontecera e afirmava que, afortunadamente, já tinham levado os restos dos corpos dos
terroristas do apartamento superior, e que nesse momento a calma regressara ao edifício.
Queixava-se que ninguém a avisara com antecedência do que acontecera quando podia ter
ficado sem casa, e contou com todo o tipo de pormenores que a essa hora os vizinhos
estavam a regressar a casa, e na rua havia dois carros da Polícia de guarda. O marido —
explicava ao interlocutor — estava a viajar e só chegaria muito tarde no dia seguinte, de
modo que se sentia tranquila por a Polícia estar a guardar o prédio.
Mohamed Amir pensou que estava com sorte. Não lhe seria difícil subjugar aquela
mulher, uma senhora de meia-idade, magra e assustadiça. Apenas tinha de encontrar o
momento oportuno para que ela não tivesse tempo de dar o alarme.
A senhora Heinke permaneceu na sala e de seguida dirigiu-se à cozinha. Só muito
depois foi ao quarto onde, ao entrar, uma mão forte lhe tapou a boca. Depois, caiu ao chão
sem sentidos quando um soco a atingiu na têmpora. Quando recobrou os sentidos, tinha os
olhos tapados com um pano, e outro enfiado na boca impedia-a de emitir o mais
pequeno som.
O marido encontrou-a vinte e quatro horas depois, num estado próximo da
demência. A Polícia não conseguiu que ela lhes dissesse como era o seu agressor.
Na realidade, o senhor Heinke cruzara-se na entrada com Mohamed Amir, mas não
prestara atenção ao jovem, de modo que também não podia dar qualquer pista à Polícia,
que chegou à conclusão que um dos membros do comando conseguira escapar e, depois
de se esconder em casa dos Heinke, saíra tranquilamente para a rua.
O apartamento dos suicidas situava-se num bairro popular, o Sachsenhausen, na
margem meridional do rio Main. Um lugar pitoresco, de ruas empedradas e um grande
número de fábricas de sidra.
Ao fugir do local da explosão, Mohamed Amir encaminhara-se para o Bairro
Vermelho, no centro de Frankfurt, próximo da estação ferroviária, uma zona que as pessoas
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

de bem procuravam evitar, e onde era fácil arranjar as drogas mais avançadas.
Mohamed detivera-se perante uma loja de electrodomésticos, não porque estivesse
interessado no que se encontrava na montra, mas para ver através do vidro se alguém o
seguia. Não queria chamar a atenção, mas estava exausto. Tinha de tomar uma decisão,
embora soubesse o risco que corria, bem como aquele que fazia correr a outros irmãos.
Não tinha muitas alternativas. Tinha de sair de Frankfurt e precisava de ajuda, de maneira que
ia tentar seguir exactamente as recomendações de Yusuf, que lhe dissera para se assegurar
que ninguém o seguia antes de se aproximar da casa do cunhado do primo. Quando
comprovou que ninguém parecia reparar nele, atravessou a rua, entrou no edifício com
passo rápido, e subiu a três a três os degraus até ao segundo piso.
Hesitou alguns segundos. Não sabia qual era a porta a que tinha de bater, mas, por
fim, acabou por premir a campainha da porta do meio.
Demoraram a abrir, embora Mohamed tivesse a impressão que alguém o examinava
através do postigo. Não soube de onde tinha saído, mas de repente sentiu a lâmina fria de
uma navalha junto aos rins.
— Que queres?
O homem falava em árabe, pelo que, apesar do medo que o avassalava, se sentiu mais
tranquilo.
— Procuro Hasan — disse em voz baixa, sem se atrever a fazer um movimento,
cravando os olhos na porta que permanecia fechada.
— Quem és?
— Mohamed, primo de Yusuf. Conheço Hasan, ele pode-te dizer quem sou.
— A que é que vieste?
— Preciso de ajuda.
— Porquê?

— Isso só lho posso dizer a ele.

De repente, a porta abriu-se e o homem atrás de si, empurrou-o para o interior


da casa. Durante alguns segundos, perdeu o sentido da orientação porque tudo à sua
volta estava escuro. Em seguida, sentiu que duas mãos o agarravam e o voltavam a
empurrar com tanta força que caiu ao chão.
— Levanta-te!

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Sentiu-se aliviado ao reconhecer a voz de Hasan e levantou-se cambaleante. Alguém


acendeu a luz; viu-se no meio de uma sala onde, para além de Hasan, o observavam seis
homens. Um deles tinha uma enorme navalha na mão e pensou que devia ser aquele que o
interrogara na soleira da porta.
Mohamed esperou que Hasan falasse. Sentia um enorme respeito por aquele
homem, o mais sábio de quantos conhecera. A ele, devia o ter estudado numa madraça no
Paquistão. Ali encontrara um sentido para a vida, e abandonara para sempre a sua
pretensão de ser um ocidental. Sonhara durante anos em poder fundir-se com Granada, a
sua cidade, mas não o conseguira. Era diferente, diferentes daqueles estúpidos colegas de
turma. Era diferente porque os traços denunciavam-no. «Mouro», chamavam-lhe com
desprezo alguns espanhóis, outros tratavam-no com deferência, mas não passava da
cortesia com que se distingue quem é diferente.
Pensava que quem estava deslocado eram aqueles que troçavam dele.
Estudara na escola pública e depois com bolsas. Primeiro no instituto e mais tarde na
universidade. Com uma bolsa Erasmus fora mandado para Frankfurt, Alemanha, onde viviam
os tios e o primo Yusuf, que fora quem o apresentara a Hasan, o imã que os esclarecia e
lhes dava esperança. Yusuf casara com a irmã mais nova de Hasan, uma mulher alguns
anos mais velha do que o primo e que lhe dera dois filhos.
A mulher de Yusuf não era demasiado bonita, mas para o primo isso era-lhe
indiferente. Para ele, era uma honra ser parente do imã da sua tão fechada comunidade.
Foi Hasan quem o ensinou a deixar de sentir desprezo por si mesmo e a transferir
esse desprezo para os infiéis. Também foi ele que lhe abriu os olhos ao Alcorão, e quem o
afastou de uma vida sem sentido, em que as mulheres e o álcool eram uma constante.
As mulheres... aquelas colegas de estudo para as quais o sexo tinha menos significado
do que assoar o nariz.
Quando acabou os estudos de Turismo, viajou com Yusuf para o Paquistão, e foi ali
que se comprometeu a fazer parte do exército silencioso que daquela vez acabaria com os
cristãos e a sua decadente civilização. Tão decadente que nem se apercebiam que eles se
estavam a aproveitar dos recursos das suas democracias corrompidas para se infiltrarem, à
espera do dia em que arrancariam o coração a todos.
— Foste imprudente ao vires até aqui. A Polícia alemã anda à tua procura e a Interpol
também. Todas as malditas agências de segurança da Europa andam à tua procura.
— Yusuf disse-me para vir, se me encontrasse em dificuldades.
297
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Yusuf! — sussurrou o imã. — A esta hora está com Alá a desfrutar do Paraíso.
Porque é que não estás com ele?
— Consegui fugir. Saltei por uma janela e meti-me no apartamento inferior. Ninguém
me procurou ali.
— Porque estás vivo? — insistiu o imã.
— Yusuf mandou-me queimar uns papéis, e estava a fazer isso quando a Polícia
tomou a casa de assalto. Nesse momento, o meu primo e os irmãos mártires accionaram os
explosivos que levavam agarrados ao corpo e... explodiram.
— E porque é que tu não o fizeste?
— Ele não me deu tempo para colocar a carga, estava a queimar os papéis e... bem,
agi instintivamente, fugi.
— Fugiste — repetiu Hasan com dureza —, e que queres?
— Que me ajude a escapar.
— Para onde queres ir?
— Para onde acha que devo ir? — perguntou Mohamed com humildade e baixou a
cabeça.
— Deverias estar no Paraíso, esse é que era o teu lugar. Aqui és um problema.
Mohamed Amir não se atreveu a levantar os olhos do chão e aguardou o julgamento
do imã.
Hasan andava de um lado para o outro da sala, enquanto o resto dos homens em
silêncio esperavam, tal como Mohamed, a sentença.
— Já que estás vivo, vais tornar-te responsável pela mulher de Yusuf. Tem dois filhos
e precisa de um homem que trate deles. Depois... irás para o al-Andalus. Podes esconder-te
aí. O teu pai ainda ali vive?
— Sim... os meus pais estão em Granada e os meus irmãos também...
— Bom, regressarás para junto dos teus, acompanhado pela tua mulher e filhos.
Sabia que não podia responder ao imã, apesar da vaga de repugnância que lhe
invadira o estômago. Tomar por esposa a mulher do primo, mais do que uma
obrigação para com Yusuf, parecia-lhe um castigo divino.
Fátima, a irmã de Hasan, mulher de Yusuf, era demasiado gorda para o gosto de

298
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Mohamed e já fizera quarenta anos, enquanto ele ainda tinha trinta. Sentiu-se arrasado,
mas afastou de imediato aquele pensamento sobre a mulher de um mártir. Para si, seria
uma honra convertê-la na sua mulher, tal como o imã lho ordenava. Aquilo também
significava que Hasan seria seu parente, e isso, sim, era um privilégio.
— Que devo fazer agora? — perguntou com um certo atordoamento.
— Irás para casa de um irmão. Ali estarás a salvo até que te preparemos os papéis e a
maneira de saíres daqui, para regressares a Espanha. Antes disso, casarás com Fátima. E
agora, conta-nos todos os pormenores do que aconteceu. A vossa acção foi um golpe
duro para os alemães. Estão assustados, tanto quanto os norte-americanos e os ingleses.
Sabem que não podem dormir tranquilos, que estamos em toda a parte. Mas não nos vêem
porque não nos podem ver, o seu sistema impede-os de nos verem.

299
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

O padre Domenico observava Ovidio Sagardía de lado, enquanto falava com


monsenhor Pelizzoli.
O bispo tentava convencer o sacerdote a adiar o seu ansiado plano de regressar a
Espanha, a uma paróquia em Bilbau, como ajudante de outro sacerdote, também jesuíta e
prestes a reformar-se.
— Que achas que significa «o sangue correrá no coração do Santo...»? — perguntava
mal-humorado o bispo ao padre Ovidio.
— Não sei, não pensei nisso. Lamento, o meu pensamento está longe daqui —
confessou Sagardía.
— Mas tens obrigações aqui! — afirmou num tom severo monsenhor Pelizzoli. —
Vamos, Ovidio, estás a comportar-te como uma criança. Onde está o sacerdote? Adia a tua
viagem! Estamos preocupados! O Santo Padre está inquieto com tudo isto, acha... acha que
há aqui qualquer coisa, qualquer coisa obscura a pairar, uma ameaça. Sabes que a Igreja vive
momentos de ansiedade, que temos demasiados inimigos. Precisamos de nos manter unidos
e, sobretudo, que as nossas melhores cabeças não partam, que nos ajudem a pensar, a
confrontar os problemas.
— Não há nada que eu possa fazer que Domenico e o resto da equipa também não
possam — insistiu Ovidio Sagardía com teimosia.
— Ovidio, não gosto de ter de te dizer isto, mas... Falei com os teus superiores, com o
perfeito da Companhia de Jesus, expliquei-lhe que precisamos de ti...
— Santo Deus! Mas o que é isto? Sou apenas um padre, não sou ninguém, ninguém!
— És um homem inteligente, uma das melhores cabeças que temos. Um analista
extraordinário, alguém que noutras ocasiões demonstrou saber encontrar uma agulha num
palheiro, e agora enfrentamos um palheiro imenso, não sabemos por onde começar, não
encontramos qualquer sentido para tudo isto, nem nós, nem os especialistas na luta
antiterrorista da Interpol, nem do Centro de Coordenação Antiterrorista da União
Europeia. Andamos às cegas, todos. Só te peço que penses, que analises esta informação.
la dizer que não, mas uma pancada seca na porta interrompeu-o como prelúdio à
entrada do secretário do bispo.

300
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

O secretário aproximou-se de monsenhor Pelizzoli sem prestar atenção aos dois


sacerdotes. Saíram ambos da sala, sem se incomodarem a dar-lhes qualquer explicação.
— Não te compreendo, Ovidio — disse o padre Domenico. — Pareces uma criança
birrenta, a tua atitude não corresponde ao que és.
— E o que é que sou, Domenico? Diz-me tu o que é que sou. Digo missa sozinho,
não tive a oportunidade de ser padre, um verdadeiro padre que ajude os seus
semelhantes. É-te assim tão estranho que queira fazer uma paragem no caminho e
exercer o ministério ao qual me consagrei?
— Serviste bem a Igreja, foste capaz de nos iluminar quando estávamos às escuras, e
trataste de Sua Santidade...
Ovidio interrompeu-o com uma expressão cansada.
— Tratei?Dizes que soube tratar do papa? Nunca me perdoarei que estivesse prestes
a perder a vida, precisamente porque não fiz bem o meu trabalho. Sentia-me vaidoso
porque me tinham designado para a coordenação do serviço de segurança do Santo Padre,
e pequei por soberba. Não consegui evitar que Ali Agca atentasse contra a sua vida. Tenho
pesadelos nos quais vejo o papa cair morto à minha frente.
—O Santo Padre nunca te recriminou nada, sempre te distinguiu com o seu afecto, e
no Vaticano continuam a confiar em ti.
— Assim é — afirmou o bispo Pelizzoli, que voltara a entrar na sala sem que nenhum
dos dois sacerdotes se apercebesse da sua presença. — Ovidio, estão à tua espera na
secretaria de Sua Santidade. Agora!
Quando o padre saiu da sala, monsenhor Pelizzoli suspirou. Apreciava
verdadeiramente aquele jesuíta que conhecera anos antes. O padre Aguirre recomendara-
-lho para trabalhar no discreto departamento a que a imprensa sensacionalista chamava
de «Serviços Secretos do Vaticano». Na realidade, ele e os seus colaboradores dedicavam-se
a recolher e a analisar informações de todas as partes do mundo para ajudar a Secretaria de
Estado, e assim o Santo Padre, a tomar decisões terrenas e a compreender o porquê das
muitas coisas que se passavam todos os dias no exterior dos muros do Vaticano.
Não faziam nada de extraordinário naquele departamento de análise, embora às
vezes o próprio Ovidio troçasse e dissesse que pertencia aos «Serviços Secretos de Deus».
Gostaria de ter estado tão convencido quanto o padre Aguirre de que aquele departamento
era na verdade útil, porque nalgumas ocasiões, e sem que transpirasse para a opinião
pública, tinham realizado trabalhos de mediação em conflitos que pareciam irresolúveis.
301
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Tratava-se, segundo o velho jesuíta, «de tentar evitar que se derrame sangue
inocente.»
O bispo Pelizzoli sempre lhe chamara a atenção para a importância que tinha para
o padre Aguirre aquela crónica de um tal Frei Julián, que lera a pedido do seu professor,
mas reconhecia que aquela não causara a emoção que parecia ter-lhe causado a ele.
«Esta crónica mudou-me a vida», costumava dizer o padre Aguirre. Ele não
compreendia, por mais que respeitasse o velho jesuíta que dedicara a vida a mediar
conflitos que pareciam ser impossíveis de solucionar.
O bispo despediu-se do padre Domenico e ficou sozinho, distraído, a ler mais uma vez
aquelas frases incoerentes que se tinham salvado do fogo. Pensou que nada acontecia por
acaso e que, se uns pedaços de papel não tinham sido devorados pelo fogo, era porque a
Divina Providência assim o quisera. Mas porquê? Os serviços secretos italianos e,
sobretudo, a Interpol e o recém-criado Centro de Coordenação Antiterrorista da União
Europeia, dedicado quase em exclusivo ao terrorismo islâmico, acreditavam que o Vaticano
podia lançar alguma luz sobre o assunto, precisamente devido a algumas daquelas palavras e
frases resgatadas do fogo. Mas onde estava o fio condutor? Há dois dias que tentavam
desvendar o mistério e não viam a luz. Sabia que precisavam da mente interrogadora de
Ovidio, da imaginação fértil daquele jesuíta, capaz de fazer elucubrações insólitas que, de
seguida, via-se que eram acertadas. Apenas lhe restava esperar que o sacerdote regressasse
das salas privadas do Santo Padre e não lhe ocorreu outro remédio senão rezar e pedir a
Deus que refreasse a teimosia do jesuíta basco.
— Não é assim tão difícil.
Todos os olhares se cravaram na mulher que acabara de dizer aquela frase incisiva.
— Não é assim tão difícil? — perguntou, meio irritado, meio curioso, Lorenzo
Panetta, o subdirector do Centro de Coordenação Antiterrorista da União Europeia.
— Bom, não quero dizer que seja fácil, mas não me parece impossível. Pelo menos,
temos uma pista. Deixem-me alguns segundos para ver se estou certa....
Matthew Lucas dissimulou um sorriso. Estavam ali há uma semana, a dar cabo da
cabeça, uma dezena dos melhores analistas europeus e norte-americanos acerca de
movimentos terroristas islâmicos e, de repente, Mireille Béziers, uma recém-chegada, «a
protegida», sobrinha de um general francês destacado no quartel-general da NATO em
Bruxelas, garantia que o enigma daquelas palavras e frases soltas, resgatadas entre os
papéis queimados dos terroristas mortos, não era assim tão difícil.
302
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Nem sequer no Vaticano o padre Domenico chegara a uma conclusão, de modo


que aquela rapariga não lhes ia dar uma lição.
Mireille Béziers trabalhava há três anos no Centro e passara por diferentes
departamentos. Há dois dias que lhe tinham designado o Departamento de Análise. Parecia
que a jovem pressionara um pouco para que a deixassem entrar no sancta sanctorum do
Centro, e tinha-o conseguido.
Devia andar pela casa dos trinta anos e tinha um bom currículo académico.
Licenciada em História, falava perfeitamente o árabe, motivo pelo qual o seu importante tio
a conseguira meter no Centro.
O pai era diplomata e a rapariga vivera os seus primeiros anos de vida na Síria. Dali
mudara para o Líbano, Israel, Iémen, Tunes... até que regressara a França para fazer os seus
estudos universitários. O tio dizia que ela não falava apenas árabe na perfeição, mas também
«pensava» como se fosse árabe, já que os conhecia tão bem.
O chefe, Hans Wein, e o subdirector, Lorenzo Panetta, tinham-na aceitado
contrariados. Não precisavam de mais analistas, observaram, e muito menos de uma
trintona sem experiência. A sua resistência fora inútil. Por fim, acabaram por a transferir
para o seu último destino, do arquivo para o Departamento de Análise, e ali estava.
— E então? — insistiu Lorenzo Panetta. — Já encontrou a pedra filosofal?
Trocaram todos sorrisos cúmplices pela ironia do subdirector, mas Mireille não
pareceu dar-se por vencida. Olhava com uma expressão séria a transcrição das palavras
resgatadas em Frankfurt: Karakoz, Sepulcro, Cruz de Roma, Sexta-feira, Saint-Pons...
— Saint-Pons poderá ser... Saint-Pons-de-Thomières? — aventurou a jovem.
— E porquê? — quis saber Lorenzo Panetta.
— Porque se entrar na Internet e procurar, quase todas as referências que surgem
referem-se a Saint-Pons-de-Thomières. Na melhor das hipóteses é uma parvoíce, mas há
nomes que sozinhos não nos dizem nada, mas relacionados entre si... Bem, não sei, talvez
como sou de Montpellier...
— Sabe, menina Béziers? É difícil compreendê-la.
A voz gelada de Hans Wein fez calar o murmúrio do pessoal do departamento.
Wein era um bom chefe, mas rigoroso e metódico, e nunca ninguém o vira rir. Não
era um homem que, em princípio, mostrasse ter preconceitos, a prova estava que chegara a
integrar no departamento um grupo heterodoxo de colaboradores de grande parte dos países
303
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

da União Europeia, e com especialidades diferentes. Entre eles, havia advogados,


informáticos, historiadores, sociólogos, antropólogos, matemáticos, etc. Procurava os
melhores para o Departamento de Análise e, descartava a intuição e os pressentimentos. Exigia
que quem trabalhava com ele pensasse e agisse com lógica.
— Bem, quero dizer que existem muitas possibilidades que Saint-Pons seja esta
localidade do Sudeste francês, decerto um lugar belíssimo. Com Lotario é mais complicado.
Há uma personagem no Dom Quixote... um tal Lotario que pretende uma jovem, Camila.
Também temos outros Lotarios, reis do Sacro Império Romano Germânico, por volta do ano
800. Os Lotarios enfrentaram outros reis da época. Disputavam a herança carolíngia...
— Impressionante! — interrompeu-a Matthew Lucas, com um tom irónico.
Mas Mireille não se deu por vencida e continuou a falar com entusiasmo.
— Outro Lotario importante foi Lotario di Segni, mais conhecido como o papa
Inocêncio III. E... bem, há uma ópera de Haendel que se chama assim, Lotario, da qual os
musicólogos dizem que é uma peça um tanto estranha entre as muitas composições deste
músico genial.
Fez-se um silêncio pesado. Hans Wein cravou os olhos azuis de aço nos olhos de
Mireille até esta corar. Lorenzo Panetta pigarreou nervoso e a maior parte dos membros da
equipa pareciam distraídos a olhar para os respectivos computadores, sem levantarem
os olhos. Todos menos Matthew Lucas que se levantou e aplaudiu.
— Bravo! Muito imaginativa. Mas sabe que estamos a investigar um grupo islâmico?
Os homens que se suicidaram em Frankfurt fizeram-no ao som do grito «Alá é grande!»
— Eu sei... — defendeu-se ela —, mas apesar disso, estes nomes...
— Mireille, estas coisas costumam ser complicadas.
Laura White, a mulher que acabava de falar, era a assistente de Hans Wein. O
director do Centro não dava um passo sem ela e, embora pouco dado a elogios, costumava
felicitar-se por contar com ela na equipa.
— A única coisa que você fez foi procurar na Internet — afirmou Matthew Lucas num
tom enfadado —, e lê-nos o que encontrou na Net como se tivesse feito uma enorme
descoberta. A que acha que nos dedicávamos antes da sua chegada?
— Bem... era um sítio por onde podíamos começar — defendeu-se Mireille.
Hans Wein deu meia-volta e dirigiu-se para o seu gabinete. Tinha a irritação
desenhada no rosto, preâmbulo da tormenta que se avizinhava no departamento.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Lorenzo Panetta e Laura White seguiram-no até ao gabinete. Lorenzo pensava que
fora um erro integrar Mireille no caso de Frankfurt. Deveriam ter-lhe dado outro caso. O
pior é que o erro fora seu, porque fora ele quem lhe dissera para se juntar ao grupo que se
encarregava dos suicidas de Frankfurt.
Uma vez dentro do gabinete, Hans Wein desabafou à vontade.
— Essa rapariga é estúpida! Quero-a fora daqui! Já! Agora mesmo! Liga para o
Departamento de Pessoal e que a levem para onde quiserem. Se for necessário, falarei com
o comissário do Interior da União, com o presidente da Comissão Europeia, com quem for
preciso! Céus! Que lhe dêem um emprego, mas não no «meu» departamento.
— Sim, teremos que fazer alguma coisa, a rapariga está muito verde para trabalhar
aqui, embora já tenha algum tempo de casa e, pelo menos, é de confiança — disse Lorenzo
Panetta.
— A minha mulher também é de confiança e não trabalha aqui! — gritou Hans Wein.
— Vamos, acalma-te! A gritar não conseguimos nada. Falarei com o Departamento de
Pessoal, mas primeiro deveríamos sugerir-lhe que seja ela a pedir a transferência. Não
vamos provocar uma crise por causa dessa rapariga. Já sabes como são os políticos. Devem
favores entre si, e aquele que a colocou no Centro é porque deve um favor a alguém da
NATO, da Comissão Europeia; ainda te vetam, de modo que não a podemos despedir sem
mais nem menos. Por outro lado, apesar de lhe chamarmos «a protegida», nesta casa a
maior parte das pessoas entraram com algum tipo de protecção, e a rapariga tem bom
expediente, não trabalhou mal onde tem estado.
— Não faças de advogado do diabo — ripostou-lhe o chefe.
— Acho que não nos devemos preocupar mais do que o necessário — interveio
Laura —, é evidente que à Mireille lhe falta experiência, mas não é tonta, talvez um pouco
ingénua. Mas se não gostas, o melhor é pedirmos a sua transferência.
Alheio aos cartazes de PROIBIDO FUMAR que havia por todo o edifício, Hans Wein
acendeu um cigarro. Ou fumava ou sairia dali para despedir ele mesmo Béziers.
Lorenzo aproveitou para também acender um cigarro. Também precisava de um, e
lamentou ter que fumar às escondidas naquele edifício, tal como a metade daqueles que
trabalhavam ali. Fumar convertera-se quase num crime. Tudo para preservar a saúde,
embora ele fosse da opinião que a moda do politicamente correcto se estava a converter na
ditadura do politicamente correcto.

305
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

As diatribes contra Mireille, tal como aqueles cigarros fumados clandestinamente no


gabinete do chefe, eram um tubo de escape. Ambos sabiam que ia ser difícil livrarem-se da
rapariga.
Laura abriu uma janela para que o fumo se perdesse entre a neblina da manhã. Ela
também fumava, embora menos que o seu chefe.
— Indaga discretamente quais os postos que existem na casa onde poderemos
encaixar a menina Béziers — pediu-lhe Hans Wein.
— Está bem — respondeu Laura enquanto saía do gabinete.
— Laura vale muito — disse Lorenzo Panetta.
— Sim, é uma sorte poder contar com ela. Além disso, não é ambiciosa e gosta do
trabalho — respondeu Hans Wein.
— Porque dizes que não é ambiciosa?
— Porque uma licenciada em Ciências Políticas, que fala quatro idiomas, poderia
escolher outro posto que não fosse o de minha assistente e, se o quisesse, moralmente ver-
-me-ia obrigado a apoiá-la.
— Sim, tens razão, é uma sorte podermos contar com Laura.

306
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

O piloto anunciou que dentro de dez minutos iriam aterrar no aeroporto de


Sondica. Ovidio guardou cuidadosamente na carteira os papéis que o tinham mantido
distraído durante o voo até Bilbau.
O secretário do papa pedira-lhe que ajudasse a resolver o mistério que parecia existir
naquelas frases que se tinham conseguido resgatar do fogo em Frankfurt. Não importava
onde o fazia. Para pensar, não precisava de estar no Vaticano. Apenas lhe pediam que
pensasse, que dedicasse uma parte do seu tempo a ajudar a desvendar aqueles restos de
papel queimado. Nada o impedia de o fazer no seu novo destino, naquela paróquia situada
num bairro novo que crescia junto ao Gran Bilbao. O padre Aguirre esperava-o aí, na
verdade a pessoa mais importante da sua vida, o homem que descobrira a vocação
sacerdotal dele, e que o ajudara a ser alguém na vida, a ter uma carreira no Vaticano.
Fechou os olhos para se tentar recordar melhor dos traços daquele sacerdote já idoso
que um dia, tal como ele fazia agora, deixara o Vaticano para voltar à sua terra para pregar
entre os seus.
Tornara-se jesuíta por causa do padre Aguirre, fora para Roma para estar próximo
daquele que considerava como um pai espiritual, e colocara-se nas mãos dele, permitira
que dirigisse a sua vida sacerdotal, que o encaminhasse primeiro para a diplomacia vaticana,
de seguida... de seguida, até àquele terceiro piso do Vaticano onde estavam instalados os
escritórios sobre os quais a imprensa se limitava a fantasiar. Na realidade, dedicavam-se à
análise de quanto acontecia no mundo, e também coordenavam a segurança do papa e da
Igreja.
O padre Aguirre já fizera oitenta e quatro anos, embora aparentasse um pouco
menos. Alto, magro, direito, apesar do reumatismo provocado por uma dor permanente
nas costas, com o olhar azul e o cabelo branco, o idoso jesuíta esperava impaciente o seu
discípulo.
Os dois homens abraçaram-se emocionados. O professor e o aluno reencontravam-se
na terra de ambos, tantos anos depois, e tinham muito a contar.
Sempre receara que Ovidio acabasse por tomar aquela decisão, mas não tão
depressa. Era ele que, de momento, intrigava e preocupava em partes iguais o velho jesuíta
habituado ao conhecimento das almas atormentadas.

307
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Vamos, vou levar-te a casa. Esperamos que fiques à vontade, preparámos-te um


quarto que espero esteja a teu gosto, embora vivamos modestamente. Mikel está ansioso
por te conhecer. É um bom sacerdote, e um dos poucos jesuítas que não sentiu a chamada
para partir para outros lugares. Acredita que aqui há muito a fazer. Trabalhou na Naval até
que fecharam o estaleiro e agora dá aulas de religião num colégio. Tem artrose como eu.
— Tenho a certeza que ficarei bem. E... bem, quero agradecer-lhe por me ter acolhido,
por me ter ajudado a permitir que viesse. Sei que não foi fácil.
— O Santo Padre gosta de ti, mas ele é, antes de mais, um pastor que quer o melhor
para os seus. Não penses que me custou assim tanto que compreendessem que deviam
deixar-te vir, embora já saibas que não estou de acordo com a tua decisão, acho que estás
errado, mas comprometeste-te a terminar um trabalho e deves fazê-lo.
— Fá-lo-ei. É um caso muito estranho, e o que sugere é... bem, a verdade é que só li
os papéis quando subi para o avião que me trouxe até aqui. Nem sequer o fiz no dia em
que mos entregaram, nem nas conversas com os meus superiores me apercebi realmente o
quanto esses papéis eram estranhos. Espero que me possa ajudar...
— Não os devo ver. É um segredo do Vaticano, e tu fizeste um voto de silêncio.
— Vá lá! Tem o mesmo compromisso que eu. É do escritório...
— Era... embora existam lugares dos quais nunca se sai.
Atravessaram Bilbau até chegarem ao bairro de Begoña, onde os novos blocos de
apartamentos se amontoavam uns junto dos outros com uma certa harmonia. Ovidio
pensou que os bairros operários já não eram aqueles lugares tristes da sua infância e
sentiu-se satisfeito por isso.
Nascera junto ao rio, numa casa onde eram todos tão pobres como a sua família. Na
sua memória predominava o cinzento, o cinzento da fachada da casa, o cinzento chumbo
do céu de Bilbau, o cinzento do avental da mãe, das saias das irmãs, do ferro da fábrica.
O mundo da sua infância não tinha cor, ou talvez todas as cores de que conseguia recor-
dar-se empalideciam perante a explosão cromática que era toda a Itália, e mais que tudo no
Vaticano, onde os grandes mestres tinham pintado cada recanto e obtido a imortalidade.
Apercebeu-se que tudo parecia pequeno, até as montanhas que assomavam através
dos blocos de cimento. Pequeno e até insípido, pensou, e arrependeu-se no mesmo
instante. E não porque fora naquela cidade que nascera, mas porque, se começasse a pensar
que aquilo que o rodeava não tinha qualquer mistério, estava a atraiçoar quem confiava nele e
a si mesmo. Precisava de recuperar a humildade perdida durante aqueles anos em que
308
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

viajara por meio mundo para velar pela segurança do Santo Padre e que o levara a sentar-se
com os poderosos, a lidar com quem manejava os fios da política, da economia, em resumo,
do mundo.
Almoçara e jantara em demasiados palácios, em demasiados reservados de
restaurantes de luxo. Dormira em camas fofas e tivera sempre um carro à sua espera e um
ajudante onde quer que estivesse.
Sim, servira a Igreja, mas agora precisava de servir os mais necessitados da Igreja, aqueles
que tinham perdido a fé ou que a mantinham a muito custo.
Dava graças a Deus por não ter deixado de acreditar, por não alojar no coração
qualquer dúvida.
O bloco onde se situava a casa tinha quatro pisos e a sua arquitectura funcional
indicava que ali viviam pessoas modestas.
O padre Mikel esperava-os à porta, inquieto com a chegada do novo inquilino. Um
romano que, pensava, não aguentaria muito tempo entre eles, longe da magnificência do
Vaticano.
Mikel Ezquerra estava prestes a reformar-se. Já fizera sessenta e cinco anos, era
pároco daquele bairro e dava aulas num colégio próximo. Para ele fora uma experiência,
por vezes dura, ter de partilhar a casa com o padre Aguirre.
Agora pensava que não saberia passar sem ele, mas ao princípio desconfiara daquele
«romano» que ocupara cargos importantes na Cúria, e de quem se dizia que era os ouvidos
do Vaticano.
Mas o padre Aguirre empenhara-se em viver numa casa de bairro com outros jesuítas
e não tinham tido outro remédio senão aceitá-lo. Ele com algumas reticências, o padre
Santiago com satisfação. Mas o padre Santiago era um pouco estranho. Durante o dia
trabalhava na fábrica de cimento, de noite compunha música e lia os clássicos na língua
original. Para o padre Santiago o grego antigo, o aramaico, o árabe ou o latim não tinham
segredos. Era tão alegre por natureza como bondoso, e, apesar de não ser basco, mas sim
andaluz, adaptara-se bem àquela terra que era a de Santo Inácio.
A casa era modesta, embora espaçosa. Um andar com quatro quartos, uma sala de
jantar, uma casa de banho pequena e um terraço. Os quartos eram minúsculos, apenas com
o espaço suficiente para uma cama, uma mesa e uma cadeira, e o guarda-fato embutido na
parede. Mas estava tudo limpo, e cheirava a alfazema.

309
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Itziar veio dar uma ajuda — explicou o padre Mikel —, já sabes como é serviçal.
Apresentou-se dizendo que queria deixar isto decente para que o novo padre não se
assustasse e se fosse embora.
— Itziar é a encarregada da Caritas na paróquia. É uma mulher muito boa e
disponível, e uma cozinheira extraordinária — acrescentou o padre Aguirre.
O padre Santiago ainda não chegara, apesar de, como explicou o padre Mikel,
nunca regressar antes das sete já que comia na fábrica.
Ovidio desfez a mala, consciente da falta de espaço. Perguntou-se onde ia meter os
seus livros quando chegassem de Roma. Apercebeu-se do inútil que lhe seriam ali os fatos
que trazia nas suas malas. Fatos e sotainas, uns quantos pares de sapatos, camisas... Nada
do que possuía lhe ia servir naquele bairro onde os homens trabalhavam nas fábricas
próximas e a maior parte das mulheres se dedicava a cuidar da família e da casa, excepto,
como era óbvio, as jovens.
Adaptar-se-ia a viver ali? Desejara-o fervorosamente, sem dar ouvidos a quem lhe
pedia que reflectisse. Chegara a idealizar a mudança que agora se tornara realidade.
«Humildade», pensou, «tenho de ser humilde.»
Almoçaram os três juntos, a falar de tudo e de nada. O padre Mikel perguntou-lhe
pela vida no Vaticano, e garantiu-lhe que o padre Aguirre não gostava nada de falar dos
longos anos que passara em Roma.
Como era o papa? Quem eram os cardeais com mais poder? Conheciam o
problema basco?
Ovidio respondia com diplomacia às perguntas intermináveis do padre Mikel
perante o olhar divertido do padre Aguirre, até que, perto das três, o sacerdote despediu-se
dos dois amigos para ir dar aulas no colégio.
— Lamento ter de vos deixar, mas tenho aula às cinco e meia. Em seguida, vou
directamente para a igreja para oficiar um funeral às seis. Se não estiveres cansado, passa
depois pela igreja. Não fica longe daqui, e assim podes conhecer as pessoas. Às sete, há uma
reunião com a Caritas e às oito missa.
— Irei — assegurou Ovidio —, estou ansioso por começar.
— Então amanhã podes dizer a missa das sete, e assim Ignacio não terá de
madrugar.
— Gosto de madrugar! — protestou o padre Aguirre.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Sim, mas deverias tratar um pouco mais de ti. Talvez a ti te oiça — disse, dirigindo-
se a Ovidio —, o médico disse-lhe para se tratar e para descansar, mas faz o que lhe
apetece. Ah! E podes começar a habituar-te, não há dia em que não releia um pouco da
crónica desse frade herege.
— Frei Julián — respondeu Ovidio com um sorriso.
— Sim, Frei Julián, todos lemos o livro e, na verdade, é interessante, mas Ignacio está
obcecado com ele.
Quando ficaram sozinhos, o padre Aguirre foi buscar uma garrafa de aguardente, e
serviu apenas um dedo num cálice e um pouco mais no outro.
— Vamos celebrar o teu regresso a casa. Não, não será fácil. A mim também me
custou, houve até um momento em que estive prestes a regressar porque me sentia abafar.
Além disso, a soberba atingia-me diariamente quando lia os jornais ou via televisão, pois
sabia que por trás das notícias há sempre muito mais do que se vê, do que se sabe, e
parecia-me incrível estar fora do jogo. Passei anos até dominar a minha soberba e conseguir
sentir-me em paz comigo.
A confissão do padre Aguirre espantou-o. Contudo, o jesuíta idoso era capaz de lhe
ler na alma, e pressentia a confusão contra a qual lutava naquele momento.
— Aguentarei a pressão — respondeu a sorrir. — Afinal, quem o escolheu fui eu.
— E porquê? Porquê agora?
— Por tédio e porque acho que perdi o rumo. Escolhi ser sacerdote para servir os
outros, e sinto que não o fiz. Para que a mensagem de Cristo faça sentido, temos de viver
como Ele o fez, e ajudar quem necessita. O que é que eu fiz?
— De modo que me recriminas por te ter levado para o terceiro piso...
— Não! Não é isso! Agradeço-lhe todas as oportunidades que me deu, o quanto me
ajudou, não pense que sou mal-agradecido. Teria pena se me interpretasse mal...
— Não o estou a fazer. Compreendo-te, Ovidio, não imaginas o quanto te
compreendo, mas quero saber o motivo.
— O atentado contra o papa fez-me sofrer muitíssimo. Não deixei de me sentir
culpado.
— O papa nunca te culpou pelo que aconteceu.
— O papa é bondoso com as falhas de todos. Nunca me fez a menor recriminação e

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

como sentia a minha angústia não foram poucas as vezes em que me tentou consolar, mas
apesar disso... Foi como se me tivesse apercebido que estava imerso no mundo terrestre,
que nada do que fazia tinha a ver com a dimensão espiritual dos homens. Mal tinha tempo
para reflectir, para pensar em Deus, pertencia aos Seus serviços secretos, mas sem um
momento para me sentir em comunhão com Ele, para rezar a sério, e não de uma
maneira mecânica como fazia. E tem razão, isto vai ser duro, mas fará bem ao meu espírito.
— Rezaremos para que assim seja.

Mais tarde, dirigiram-se à igreja para se encontrarem com o padre Santiago e com o
padre Mikel. O primeiro estava reunido com uns quantos jovens pertencentes à Caritas,
enquanto o segundo acabara de oficiar o funeral. O padre Mikel apresentou-o a uns
quantos paroquianos, e o padre Santiago deu-lhe um forte aperto de mão e uma palmada
nas costas a modo de saudação, para logo o convidar a participar na reunião com os jovens
e pôr em dia as actividades que se desenvolviam entre eles.
— É basco? — quis saber uma rapariga.
— Sim, mas há muito que parti — respondeu Ovidio.
— E qual a sua opinião acerca do que se passa aqui? — perguntou um jovem alto, de
aspecto nervoso.
— E o que é que se passa aqui, na tua opinião?

— Que não nos deixem ser livres — respondeu o rapaz em tom estridente.
— Acabou-se! — interrompeu o padre Santiago. — Estamos aqui para ver como
podemos ajudar os que mais necessitam neste bairro, e quanto a que nos deixem ser
livres...
— Como andaluz, não nos compreende, embora seja um padre simpático —
interrompeu-o outra rapariga, uma adolescente.
— Achas que lá por ser andaluz estou incapacitado para compreender o que se passa
aqui? Desde já, o que se passa é que no nosso bairro existe um grupo de emigrantes
romenos que estão a passar mal, que sobrevivem numa barraca e cujos filhos não vão à
escola; é para isso que estamos aqui, para ver como os podemos ajudar.
— Vamos, deixe-nos falar com o padre novo! — pediu outro jovem.

— O padre novo está de acordo com o padre Santiago — respondeu Ovidio —, e

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

deixa-me dizer-te que não acredito que os homens sejam diferentes por terem nascido num
sítio ou noutro, muito menos que não possamos entender os problemas em função do lugar
de nascimento. Sim, sou basco, mas é o mesmo. A mim, importam-me os seres humanos,
não o seu lugar de nascimento, e dou ainda menos importância ao lugar onde nasci.
Os jovens ficaram a olhá-lo em silêncio, a pensar se gostavam ou não daquele
sacerdote que dizia que pouco lhe importava que fosse basco.
— E então, alguém conseguiu chegar a falar com o chefe dessa tribo de emigrantes
ciganos da Roménia, tal como vos pedi?
— Sim, estive com ele ontem. Um tipo muito estranho. Disse-me que ficarão aqui até
que lhes apeteça, que os filhos não irão para escola nenhuma, que não são católicos, e que
a única coisa que querem é trabalho — explicou um dos jovens.
— Eu também lá estive, com as mulheres. Dizem que não nos vão deixar as crianças,
que elas lhes ensinam o que têm de saber, mas que estão dispostas a aceitar o que lhes
dermos. Pediram-me roupas e brinquedos — acrescentou uma das raparigas.
— O vereador está irritado com o presidente da Câmara, porque diz que se tem de
fazer algo e depressa, antes que as barracas deles se transformem num povoado estável —
disse uma das raparigas.
— E quanto a nós, o que é que acham que podemos e devemos fazer? — perguntou
o padre Santiago.
A partir daí, começou uma conversa em que cada qual deu ideias e fez propostas,
que se foram perfilando até à concretização de um plano simples.
Ovidio escutava em silêncio enquanto observava aqueles jovens e o padre Santiago,
pelo qual sentira uma simpatia imediata.
Quando a reunião acabou, os quatro sacerdotes dirigiram-se para casa, a debater os
assuntos do dia e apresentaram Ovidio a alguns vizinhos com quem se cruzaram.
Depois de jantarem, o padre Santiago propôs rezarem o terço, perante o espanto de
Ovidio. De repente, apercebeu-se que há muitos anos que não o rezava e recriminou-se
por a sua imaginação voar enquanto repetia as ave-marias. Precisava definitivamente de se
reencontrar com o sacerdócio.
Às onze, o padre Mikel disse que era hora de se irem deitar. Ovidio sentia-se cansado
e perplexo perante tantas emoções encontradas.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Mohamed olhou para Fátima sem saber o que lhe dizer, depois olhou para as duas
crianças que esperavam, expectantes, que quebrasse o silêncio que se instalara entre eles.
Aquela era a sua família, dissera-lhe Hasan, comprometendo-o a cuidar das crianças como se
fossem seus filhos e a honrar Fátima.
Fátima, de olhos baixos, pensava que destino a aguardava junto daquele homem mais
novo em cujo olhar lia repugnância. Sabia que não era atraente, que nenhum pedaço do seu
corpo agradaria àquele homem com o qual lhe tinham ordenado que se casasse. Perguntou-
-se se a trataria mal ou, se, pelo contrário, faria como o seu anterior marido, que se limitava
a deitar-se com ela quando se deixava tentar pelo álcool. Isso acontecera umas quantas
vezes, o que ela agradecia porque não encontrava qualquer satisfação naqueles encontros
íntimos, embora se sentisse agradecida por ter podido conceber duas crianças, às quais
queria com loucura.
— As crianças, de cinco e seis anos respectivamente, estavam assustadas perante
aquele homem que o tio Hasan lhe ordenara que chamassem e tratassem como pai.
— Não compreendiam porque é que o pai fora para o Paraíso e as abandonara,
deixando-as ali perante aquele outro pai estranho que as assustava.
— Amanhã partiremos para Granada, para a casa dos meus pais. Ali estaremos em
segurança.
— Nem Fátima nem os filhos responderam. Sabiam que pertenciam àquele homem, o
qual deveriam seguir onde quer que fosse. Apesar disso, a mulher sentiu uma pontada de
inquietação pelo destino que a esperava. Ali, em Frankfurt, era alguém, a irmã de Hasan, que
tantos respeitavam, mas em Granada... passaria a depender da sogra, tal como os filhos, e era
isso o que mais temia. A sorte que as crianças poderiam correr. Mohamed não o sabia, mas
dificilmente lhe poderia dar mais filhos, já que começara a ter os sintomas da menopausa.
Conformar-se-ia o marido com os filhos do primo?
— Agora descansem, a viagem não vai ser fácil.

— Mohamed Amir saiu da sala e suspirou. Fátima desagradava-lhe, de modo que


adiaria o máximo possível o momento de se deitar com ela. Que a mulher dormisse com
os filhos. Veria se encontrava a coragem suficiente para dormir com ela quando chegassem a
Granada.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Hasan garantira-lhe que a Polícia não sabia quem era o membro do comando que
conseguira fugir. Procurava um homem sem rosto, sem identidade, de modo que tinha uma
oportunidade de sair da Alemanha e chegar a Espanha. Viajaria com o seu passaporte,
acompanhado de Fátima e dos filhos. Em Granada, devia integrar-se numa célula de
«adormecidos» para quem levava instruções.
O estômago de Mohamed continuava a doer-lhe, não apenas pela inquietação que o
futuro lhe provocava, mas também por uma frase enigmática que o seu admirado Hasan
fizera deslizar entre as suas recomendações: «Põe uma ordem na tua casa para não termos de
ser nós a fazê-lo.»
— A que é que se referia? A Fátima não podia ser, acabavam de casar-se, e até ao dia
anterior estivera sob a protecção de Hasan. As crianças eram demasiado pequenas para ter
alguma coisa a ver com aquele aviso que mais soara a uma ameaça. E os pais eram bons
muçulmanos. A que é que se referia Hasan?
— Não dormiu bem naquela noite, assaltado pelo pesadelo que o perseguia desde o
dia em que fugira daquele apartamento de Frankfurt, onde o primo e os amigos se tinham
imolado. Sentia que também ele saltara pelo ar, que estava morto, mas por trás da morte
não o esperavam belas huris, apenas escuridão, um imenso espaço negro pelo qual girava
até sentir náuseas como se se tratasse de uma bola.
Quando se levantou, encontrou Fátima a fechar uma mala na qual colocara alimentos
para a viagem. As malas estavam fechadas, colocadas junto à porta da entrada, e o pequeno-
-almoço servido em cima da mesa. As crianças estavam sentadas, em silêncio, receosas de
incomodar aquele homem a que deviam chamar pai.
— Sairemos dentro de meia hora — disse, só para dizer qualquer coisa.

—A mulher assentiu com o olhar e enfiou na mala uma embalagem cheia de


pãezinhos. Ouvira o irmão Hasan a dizer ao novo marido que não saíssem antes das oito, que
procurassem empreender a viagem quando as ruas tivessem pessoas e pudessem passar
despercebidos perante os olhos atentos da Polícia.
Viajariam de carro até Espanha. Um Volkswagen Golf como aqueles que tantos
trabalhadores alemães e emigrantes tinham. Um veículo discreto que não chamaria a
atenção.
Quando Mohamed saiu da casa de banho, Fátima estava a ajeitar o lenço que lhe
deslizara do cabelo sem querer. Vestia um cafetã sob o qual usava calças e uma camisola de
lã grossa, para além de umas botas de chuva forradas. As crianças estavam enfiadas em
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

anoraques de montanhista azul-marinho, e também calçavam resistentes botas de chuva.


Mohamed olhou-os e disse a si mesmo que aquela era a sua família, e que jurara a
Hasan que os protegeria. Suspirou, preocupado com a responsabilidade.
— Vamos.
Abriu a porta e sem olhar para trás, desceu as escadas seguido por Fátima e pelos
filhos. Sentiu que nesse momento começava o resto da sua vida.

Mireille procurou com o olhar um lugar onde se sentar. Os que trabalhavam no


escritório não a tinham convidado a sentar-se junto deles para partilharem o almoço na
cafetaria do Centro. Sabia que lhe chamavam «a protegida», como se algum deles tivesse
chegado ali, para além dos próprios méritos, sem a recomendação de alguém. Não lhe
mostravam qualquer apreço, e, claro, ela também não simpatizava com eles.
Não lhe iam facilitar as coisas. Como se fosse pouco, precipitara-se ao falar naquela
manhã. Não tivera o sentido da oportunidade. De qualquer maneira, sabia que à alcunha de
protegida iriam agora acrescentar a de louca ou de excêntrica.
Viu um lugar livre no canto de uma mesa e sentou-se, sem olhar para quem se
encontrava à sua volta. Não tinha fome, estava deprimida. Perguntava-se se fora ridícula,
isso humilhava-a perante si própria, bem como perante os colegas, e pensava na maneira de
se ressarcir perante estes.
— Posso sentar-me?
Lorenzo Panetta estava de pé com uma chávena de café na mão. Sorria-lhe, o
que a surpreendeu.
— Sim, por favor, sente-se.
— Estava à sua procura.
— Para me despedir?
— Vá lá, Mireille!
— Meti a pata, eu sei, lamento. Compreendo que se queiram desfazer de mim.
Presumo que me tenha vindo sugerir que peça a transferência.
— Sabe, acho que tem um problema. Que não pensa no que diz, que diz
exactamente aquilo que lhe vem à cabeça e isso é um erro, um erro grave, sobretudo
se pretende dedicar-se ao ramo dos serviços secretos.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Tem razão, é o meu principal defeito. Sou incapaz de morder a língua e isso já me
provocou uns quantos dissabores. Mas estou enganada? Não me vem pedir que me vá
embora?
Lorenzo Panetta cravou o olhar em Mireille, a tentar aprofundar mais do que via. A
jovem susteve o olhar dele e, pela primeira vez, Lorenzo apercebeu-se que a rapariga era
mais atraente do que parecia à primeira vista.
Mireille vestia uma roupa anódina para passar despercebida, mas tinha uns brilhantes
olhos negros, tão negros como a cor do cabelo. Era magra, demasiado para o gosto de
Panetta, mas tinha estilo, o inconfundível estilo das mulheres que pertencem a uma classe
social que nunca teve de se preocupar com o custo de um pão ou de um bife.
— Só queria falar consigo acerca do que aconteceu hoje de manhã. Aonde queria
chegar?
— Não pensa que estou louca?
— Na verdade, penso que o pode estar, mas sabe?, sou um velho polícia que nunca
rejeitou nenhuma pista por mais disparatada que parecesse.
Olhou-o espantada. Não previra aquilo. Como era possível que o subdirector do
Centro se incomodasse em falar com ela, depois do que se passara no escritório? Expirou
antes de lhe perguntar:
— E quando se decidiu a dar-me uma oportunidade?
— Não sei se lhe vou dar uma oportunidade. Apenas quero que me explique se
chegou a alguma conclusão, depois do seu passeio pela Internet.
— O que diz o chefe?
— Hans Wein? Deveria perguntar-lhe.
— Não lhe sou simpática. Na verdade, não o sou a todo o departamento.
— Vai-se lamentar?
— Deixe-me que o faça, sinto-me mal.
— Vamos, Mireille, quero saber se chegou a alguma conclusão.
— Ainda não, mas... bem, não me parece impossível encontrar algum sentido para
essas palavras soltas.
— Explique-mo de modo a que possa seguir o fio da sua argumentação.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Se lhe parece que o que lhe digo não é assim tão descabido, irá convencer Hans
Wein a que me dê outra oportunidade?
— Isso terá que ser você mesma a pedir-lhe. No departamento existem regras não
escritas que todos seguimos. Não brincamos em serviço e, sobretudo, antes de fazermos
juízos categóricos pensamos duas vezes.
— Mas isso rouba-vos possibilidades! O ramo dos serviços secretos, como você lhe
chama, deveria deixar livre a especulação, a formulação de combinações múltiplas por mais
loucas que possam parecer, pensar em conjunto...
— As regras, Mireille, tem que se cingir às regras.
— Você sempre se cingiu às regras?
— Como acha que cheguei até aqui? Fui polícia durante muitos anos, trabalhei nas
ruas, mas até nas ruas existem regras. Temos que nos saber mover por entre elas, é esse o
segredo para sobreviver aos burocratas. É o melhor conselho que lhe posso dar.
— Mireille sorriu-lhe agradecida e começou a explicar-lhe o motivo das suas
extravagantes deduções.
— Sabe, sou de Montpellier, e por isso pensei que Saint-Pons pudesse ser o mesmo
Saint-Pons-de-Thomières da minha região. Assim, procurei na Internet, para saber se havia
muitas outras povoações ou lugares com esse nome. E tenho de lhe dizer que não.
Lorenzo Panetta franziu as sobrancelhas e esteve prestes a levantar-se, pensando que
a conversa ia ser uma perda de tempo, mas havia algo naquela mulher que o
desconcertava. Não era nenhuma estúpida, quanto a isso tinha a certeza absoluta.
— Continue.
— Bem, e encontrei uma relação entre Saint-Pons-de-Thomières e Lotario.
— Encontrou?
— Ao ver esses dois nomes juntos, Lotario e Saint-Pons...
— Juntos? Se bem me lembro esses nomes só aparecem juntos em restos de papel
queimado, e nem estavam escritos no mesmo papel.
Mireille susteve o olhar dele e sentiu um calafrio. Apercebia-se que o amabilíssimo
Lorenzo Panetta era um homem muito sagaz, um homem com o qual não se podia brincar.
— Saint-Pons fica no Sul de França — insistiu ela.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Que Saint-Pons?
— Saint-Pons-de-Thomières.
O gesto que Lorenzo fez com a mão interrompeu-a. Mireille olhou-o, expectante.
— Bom, diga-me, que relação podem ter essas palavras com um grupo de terroristas
islâmicos que decidem fazer-se explodir no centro de Frankfurt quando a Polícia os vai
deter?
— Bem, na verdade nenhuma. Limitei-me simplesmente a dizer que essas palavras
fazem sentido.
— Se tivessem aparecido juntas no mesmo papel, talvez, mas... nem assim. Você
como é de Montpellier — disse irónico —, encontrou um sentido para Saint-Pons.
— Tem razão, fui uma estúpida. Lamento. Deixei-me levar pelo entusiasmo. Lamento-
-o deveras.
Porque se rendia tão depressa? Esperara que ela se defendesse. Mas, de repente,
parecia aceitar que tudo o que dissera era uma enorme loucura. O comportamento da
jovem desconcertava-o. Havia algo nela que o atraía.
— Não se recrimine por nada. Isso de tentar procurar respostas até naquilo que
parece aparentemente absurdo, significa que não é das que se rendem.
— É assim tão terrível ter entrado no Centro através de uma recomendação?
A pergunta directa de Mireille apanhou-o desprevenido. Era evidente que ela se
estava a sentir verdadeiramente mal pela animadversão manifestada pelos colegas.
— Não, não é terrível, mas já sabe que incomoda sempre quando abrem a porta a
alguém, quando nós tivemos de subir umas quantas escadas para lá chegar. A si,
simplificaram-lhe os trâmites.
— Sim, mas tenho um bom currículo académico, falo perfeitamente o árabe, conheço
os países árabes porque vivi neles. Ninguém me ofereceu os meus títulos universitários.
— Terá de ganhar o respeito deles para que a considerem uma igual, e para isso... bem,
o melhor que pode fazer é ser discreta, não chamar a atenção, mostrar-se humilde e com
vontade de aprender com os veteranos.
— Também lhes posso levar café — respondeu Mireille, sem poder evitar o tom
irritado da voz.
— Sim, também o pode fazer, e mesmo assim não é certo que o consiga. Pode apenas
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tentá-lo.
— Não sei se vale a pena.
— Isso só você é que o pode dizer. Bem, sinto-me satisfeito por termos falado, e se
não me engano está na hora de voltarmos ao trabalho.
Saíram da cafetaria juntos mas em silêncio, cada um imerso nos próprios
pensamentos, que naquele momento esmiuçavam a conversa que tinham acabado de ter.
Procuravam ambos fendas, contradições, algo especial no que tinham ouvido ao outro.
Quando entraram juntos na sala de Análise, olharam-nos surpreendidos, mas
ninguém disse nada.
— Bom, ao trabalho. Creio que estará melhor com o grupo da senhora Villasante. É
um trabalho mais especulativo.
Mireille ficou calada sem saber que dizer. Andrea Villasante não era uma pessoa fácil,
tinha mau feito e era exigente com os membros da sua equipa. Era, à partida, a favorita do
chefe. Hans Wein considerava Andrea Villasante como a quinta-essência da pessoa adequada
para trabalhar no departamento, não apenas pela sua capacidade profissional, que sem
dúvida possuía — era uma conceituada psicóloga —, mas também pelo seu carácter. Andrea
raramente sorria, passava horas enfiada no trabalho, não dava azo a confianças nem a
brincadeiras. Grande partida que Lorenzo Panetta lhe pregara.
Andrea ocupava um recanto da enorme sala, junto de cinco outras pessoas que
trabalhavam directamente sob a sua batuta. Com um passo decidido, dirigiu-se onde se
encontravam Lorenzo e Mireille.
— Querias falar comigo? — perguntou a Lorenzo, secamente.
— Mireille Béziers passa a trabalhar directamente contigo. Ser-te-á útil. Fala árabe e
viveu muitos anos em países árabes, de modo que conhece bem aquele mundo e pode
ajudar-te a desvendar o motivo de tanto fanatismo.
— Combinado. Sente-se ali, junto da janela, há uma mesa livre — indicou a Mireille,
sem olhar para ela.
Sem se atrever a responder, Mireille seguiu Andrea com uma expressão desolada. A
espanhola não teria contemplações e mandá-la-ia para a rua ao mínimo problema. Além
disso, contava com a bênção do chefe, Hans Wein.
Sentiu uma alfinetada de inveja em relação a Andrea. Chegara ali por mérito próprio,
ninguém lhe dera nada. Era a maior especialista da Europa, e possivelmente do mundo, em
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

psicologia terrorista. Estudara e analisara prisioneiros das Brigadas Vermelhas, do IRA, da


ETA, talibãs, tutsis e hutus, sérvios, croatas e bósnios, que tinham participado em carnifici-
nas e em limpezas étnicas na antiga Jugoslávia, passado meses, até anos, a visitá-los nas suas
celas, e a obter a confiança de uns e a indiferença de outros. Até sofrera algumas agressões.
Mas Andrea Villasante não cedera jamais no seu empenho em tentar esmiuçar as mentes
assassinas, em querer compreender porque é que o ser humano era capaz de se
converter num animal para com os seus semelhantes.
Quando Andrea terminou o curso de Psicologia foi a concurso para trabalhar como
funcionária das prisões em Espanha, e ali começou a lidar com terroristas da ETA.
Nunca se casara, nem tinha filhos, e aos cinquenta anos parecia não ter outros
planos senão dedicar-se com todas as forças e energias ao mesmo objectivo: penetrar nas
mentes dos terroristas, independentemente em nome de quem matassem.
Mireille seguiu-a até à secretária que iria ocupar a partir daquele momento. Pensou
que a sua chefe não era feia, embora também não fosse suficientemente apelativa
para incomodar as outras mulheres, distrair os homens, e conseguir as antipatias de
umas e outros. De estatura média, com o cabelo castanho curto, os olhos da mesma cor,
não tinha um quilo a mais nem a menos, e vestia-se sempre com impecáveis fatos
escuros.
— Sente-se, explicar-lhe-ei como trabalhamos nesta secção. Depois, se tiver alguma
dúvida, pergunte a Diana Parker.
Mireille sentou-se obedientemente, disposta a não sair do guião. Se o fizesse, estaria
fora de jogo e isso era a última coisa que queria.
Enquanto Andrea lhe explicava em que iria consistir o seu trabalho, não conseguiu
evitar desviar os olhos para Matthew Lucas. O norte-americano reflectia no rosto uma
expressão de antipatia, de antipatia em relação a ela, e perguntou-se porquê, embora
tivesse sentido de imediato que o sentimento era recíproco. Ela também não gostava de
Matthew. Sentia uma profunda desconfiança para com os arrogantes funcionários das
agências de informação norte-americanos, quer fosse a da ou qualquer outra.
Comportavam-se como se a responsabilidade de salvar o mundo recaísse sobre eles, e os
europeus fossem todos uns esquerdistas ingénuos, condicionados pelas suas opiniões
públicas, que colocavam sempre a liberdade antes da segurança.
Suspirou resignada. Custara-lhe muito chegar até ali e não se podia arriscar a perder
por motivos pessoais.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Vamos, não é assim tão terrível trabalhar com a nossa equipa.


Diana acabava de a chamar à realidade. Sorriu-lhe. Eram mais ou menos da mesma
idade, e parecia simpática. Pelo menos, sempre se mostrara amável com ela. Sabia que
era licenciada em Antropologia e que também falava árabe. Mireille pensou que talvez
acabasse por se tornar amiga daquela inglesa de longos cabelos loiros e olhos azuis, por mais
que esta fosse o braço direito de Andrea Villasante.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

A viagem foi longa e cansativa. De Frankfurt dirigiram-se a Estrasburgo, de seguida


atravessaram a França e cruzaram os Pirenéus por Perpignan, e percorreram a estrada junto
à costa até Granada. Tinham demorado ao todo quatro dias que se tinham tornado eternos,
e Mohamed preocupara-se com o facto de os poderem mandar parar num controlo de
rotina em qualquer estrada, e que o detivessem.
Mas os infiéis não pareciam desconfiar de uma família. As crianças pequenas tinham-lhe
sido de grande ajuda para afastar a desconfiança dos olhares.
Embora tivesse medo, sentiu-se feliz a partir do momento em que entrou na
província de Granada, inundada pelo cheiro a flor de laranjeira, limões e alfazema. Eram os
cheiros da sua infância. Ainda conservava na memória cada recanto da sua cidade, porque
era a sua, mais sua do que daqueles infiéis que ousavam manchá-la com a sua presença.
Um dia, expulsariam todos os infiéis, e o solo sagrado dos seus antepassados voltaria aos
legítimos donos. Na verdade, a reconquista começara cautelosamente, mas sem
possibilidade de voltar atrás. Cada vez era maior o número de granadinos que voltavam os
olhos para a verdadeira fé e que aclamavam Alá como o seu único Deus. A comunidade
muçulmana estendia-se por todos os recantos perante os olhos dos espanhóis que, levados
pela vontade de exibirem tolerância e para que ninguém os pudesse acusar de perseguir
outras raças ou religiões, se deixavam conquistar sem oferecer resistência.
Sentiu que o pulso se lhe acelerava quando chegaram aos pés do Albaicín. No
bairro da sua infância existia uma importante comunidade muçulmana e o seu aspecto
não era diferente do das cidades do outro lado do estreito.
Regozijou-se ao ver as mulheres com um lenço a tapar-lhes a cabeça, e muitas delas
vestidas da maneira tradicional, com galabiyas que as cobriam do pescoço até aos pés.
Ao cheiro das flores de laranjeira, juntou-se o cheiro a cabedal dos artesãos que
tinham aberto as lojas encavalitadas nas ruas estreitas e tortuosas. Casas brancas de
telhados vermelhos, rodeadas de laranjeiras e ciprestes.
Na Praça Larga, o Arco de Las Pesas relembra o velho esplendor nazari1, assim como a
cisterna da antiga mesquita na Praça de San Salvador.

1
Dinastia muçulmana ibérica. (N. da T.)

323
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Quando chegou a casa do pai, sentiu-se a salvo. Nada de mau lhe podia acontecer
naquele lugar, onde fora tão feliz, apesar das dificuldades do pai para que subsistissem. Mas
conseguira-o com a ajuda da mãe. Ele, a trabalhar na construção, ela como empregada
doméstica nas casas burguesas da cidade. Então, o Albaicín era um lugar marginalizado
pelos infiéis, onde apenas viviam os que não o podiam fazer em nenhum outro sítio.
Nos últimos anos, a comunidade muçulmana crescera e recuperara, ao mesmo
ritmo, aquela parte da cidade que séculos antes brilhava com uma luz própria.
Deixou o carro a alguns metros da casa do pai. Pediu a Fátima e aos filhos desta que o
esperassem até que tivesse a certeza que a família estava em casa.
Bateu à porta com os nós dos dedos, primeiro devagar, depois com força, e de
imediato ouviu a voz melodiosa da mãe.
—Já vai! Já vai!
Quando a mulher abriu a porta, deixou escapar um grito em que se misturavam a
angústia e a alegria em partes iguais.
—Meu filho! Mohamed! Alá ouviu as minhas preces! Filho, estás aqui!
Abraçou-o com força e Mohamed afundou a cabeça no pescoço da mãe, a sentir o
cheiro da água-de-colónia suave de limão com que ela se perfumava.
— Mãe, acalma-te, estou bem! E o pai?
— Pensámos... pensámos que tinha acontecido uma desgraça... O teu pai acaba de se
ir embora, agora trabalha de noite, como guarda de uma obra. Já está velho para andar nos
andaimes. Mas entra, filho, entra. Que alegria!
— E a minha irmã?
A mãe soltou-o e deixou cair os braços ao longo do corpo, como se de repente lhe
tivessem faltado as forças.
— A tua irmã está boa, não deve demorar.
Mohamed recordou-se do aviso de Hasan a respeito da irmã, mas porquê? Decidiu
perguntá-lo mais tarde à mãe, agora tinha de lhe apresentar Fátima e as crianças.
— Mãe, casei, tenho mulher e filhos.
— Mas quando é que te casaste? O teu pai não vai gostar que o tenhas feito sem a
autorização dele!

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— A minha mulher é a irmã mais nova de Hasan. Fátima estava casada com Yusuf e
ele.., bem, morreu como um mártir. Hasan deu-me a honra de me aceitar na sua família ao
dar-me a irmã. Tem dois filhos que agora são meus filhos e serão teus netos. Ocupar-te-ás
de Fátima e deles...
A mãe olhou-o nos olhos, e apercebeu-se do muito que o filho mudara.
A diferença, soube-o de imediato, é que perdera a inocência.
Já não era o jovem idealista que confiava num futuro melhor. Nos seus olhos,
reflectia-se a angústia e o medo, mas também determinação.
— A tua mulher será minha filha e os filhos dela meus netos, e espero que em breve
tenhas os teus para alegrar a minha velhice. Onde estão?
— Estão à minha espera no carro, deixei-o na praceta. Agora vou buscá-los.
Fátima perguntava-se como é que a sogra a iria receber. Achava que por ser irmã de
Hasan a tratariam com tanto respeito e deferência como o faziam os membros da
comunidade em Frankfurt, mas não tinha a certeza disso.
A sogra abraçou-a, beijou as crianças com afecto e convidou-os a todos a entrar.
— Devem estar cansados da viagem e decerto que devem ter fome. Vamos esperar
que Laila chegue e jantaremos juntos. Entretanto, dir-vos-ei onde se podem instalar. Tu e
Mohamed podem ocupar o antigo quarto dele, e ao lado há outro mais pequeno que
utilizamos como arrecadação, mas que servirá para as crianças.
— Enquanto os instalas, vou ter com o meu pai. Diz-me onde fica a obra.
— Não, é melhor esperares até de manhã. O teu pai não gosta de ser incomodado
quando trabalha, a não ser que seja por um motivo urgente.
Mohamed não protestou. Sabia que a mãe tinha razão. O pai podia aborrecer-se se
aparecesse de repente no seu trabalho. Era um homem discreto e cumpridor, que tentava
passar despercebido.
Descarregou as malas e voltou a avisar as crianças para que se portassem bem.
— O meu pai — disse-lhes — é um homem justo, mas não hesita em usar o cinto se
for necessário. Não gosta de gritos, nem que se corra pela casa. Não sujem nada, e nada de
falar se não vos fizerem perguntas.
Os pequenos assentiram, assustados. Reparavam no nervosismo da mãe perante
aquela mulher mais velha que era a mãe de Mohamed, o seu novo pai. Granada também

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

lhes parecia uma cidade estranha, diferente de Frankfurt onde eles tinham nascido.
Uma hora depois, e já de noite, abriu-se a porta da rua e ouviram uns passos rápidos
sobre as lajes de barro cozido.
Laila entrou na sala principal e soltou um grito alegre, enquanto se lançava ao pescoço
do irmão.
— Tu aqui! Que alegria! Hoje é um grande dia! Porque não nos avisaste da tua
chegada?
Mohamed ouviu, a sorrir, a tagarelice da irmã e sentiu uma vaga de carinho para com
ela. Gostava muitíssimo de Laila. A irmã tinha apenas mais três anos que ele. Fora a sua
confidente quando eram pequenos e encobrira-lhe as travessuras para que o pai não usasse
o cinto nele. Pequena, rebelde e corajosa, sempre disposta a ajudar os mais fracos, inclu-
indo todos os cães e gatos abandonados com os quais se cruzava no Albaicín e que
acabavam por encontrar alojamento no pátio traseiro, para desespero da mãe e irritação do
pai.
Laila era baixa, como a mãe, com uns enormes olhos castanho-escuros, o cabelo negro
e a pele branquíssima. Não era uma beldade, mas tinha uma tal força e determinação no
olhar que era difícil não se renderem ao que queria.
Mohamed surpreendeu-se por vê-Ia de cabeça descoberta, vestida com uma saia e
uma camisola de malha como qualquer jovem ocidental, mas não disse nada. Sentia-se
demasiado satisfeito para começar uma discussão com a irmã e, afinal, estavam em casa,
onde ninguém a podia ver.
A mãe serviu o jantar na sala e durante um bom bocado falaram de trivialidades.
Mohamed estava desejoso de saber coisas acerca do trabalho do pai, dos seus antigos
amigos, das mudanças que tinham ocorrido em Granada, da situação política em Espanha.
Saboreava um dos doces preparados pela mãe quando perguntou à irmã pelos
estudos.
— Acabei Direito, sou advogada.
— Bem, não me espanta, sempre gostaste de defender todo o mundo — respondeu
Mohamed.
— Incluindo a ti — replicou Laila.
— Sim, é verdade, sempre foste uma boa irmã — reconheceu Mohamed com
afecto. — Estás a trabalhar?
326
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Sim, na universidade, no Departamento de Direito Internacional. Sou uma das


assistentes do catedrático. Não me pagam muito, apenas o suficiente para ser
independente. Também colaboro numa firma de advogados que os meus amigos da
faculdade montaram quando acabaram o curso.
— Então agora és advogada! — exclamou Mohamed, orgulhoso.
— Sim, sou advogada — afirmou Laila e sorriu ao irmão.
— Reparei que não trazes a hiyab.
— Não a ponho, embora nalgumas ocasiões tenha pensado em fazê-lo, para que
algumas mulheres fiquem mais tranquilas. Bom, não elas, mas as suas famílias. Talvez assim
não fiquem tão desconfiados e possa continuar a ensiná-las.
— A ensinar? O quê?
0 nervosismo da mãe alarmou-o tanto como perceber no olhar da irmã um brilho
desafiador.
— Ensino-lhes o Alcorão. Rezamos, falamos acerca do verdadeiro significado do Livro
Sagrado. Abri uma pequena madraça para mulheres. Bem, na verdade, para todos, mas por
agora só consegui que fossem algumas mulheres. Os muçulmanos ainda são muito
machistas para aceitar que uma mulher dirija as preces e ensine o Santo Alcorão.
Mohamed levantou-se, vermelho de raiva, e bateu com o punho sobre a mesa, o que
fez com que o jarro de água caísse.
— Mas não podes fazer isso! É uma profanação!
Laila olhou-o sem se alterar, sem fazer caso da reacção violenta do irmão.
— Ah, sim? E quem o diz? Onde está escrito que não posso ensinar e dirigir as preces?
Diz-me em que lugar do Alcorão se proíbe que o faça.
Olhou-a desolado. Estudara profundamente o Livro Sagrado, quando, graças a
Hasan, fora para o Paquistão como um bom crente para se converter num soldado de Alá. A
irmã blasfemava ao apoderar-se de um papel que estava vedado às mulheres.
— És mulher.
— Eu sei. Sou mulher e sinto-me orgulhosa por o ser, não há nada de ímpio em ser
mulher. Sou uma mulher e Alá deu-me uma inteligência igual, ou talvez maior, do que a de
muitos homens. Sou crente e há anos que estudo o Alcorão. Sei que o posso ensinar e
dirigir as preces de outros crentes. Sei que não há mal em ser mulher, que não sou mais que

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

tu, mas também não sou menos.


— Estás doida! — gritou Mohamed, perante os olhares receosos da mãe e da mulher.
— Isso é o que o pai diz — respondeu Laila, sem levantar a voz—, mas eu acho que
vocês é que estão enganados. Ou o islão se adapta ao século XXI ou teremos fracassado.
— Fracassado? Quem terá fracassado?
— Nós, os crentes. Não podemos continuar a olhar para o passado. O mundo
muda a cada segundo que passa e não há maneira de voltar atrás. Outras religiões,
embora contrariadas, tiveram que o aceitar. O importante é o espírito, não a palavra.
Acredito que existe um Deus, a vida não teria sentido sem Deus, e os seres humanos,
desde o princípio dos tempos, têm intuído a presença de Deus e interpretado à sua
maneira, até o manipulámos em função de interesses terrestres. O importante não é
apenas que Maomé garanta que o arcanjo Yibril lhe apareceu, o importante é que soube
unir os árabes e canalizar a nossa espiritualidade ao ensinar-nos que existe apenas
um Deus, e afastando-nos de ídolos importados de outros locais. Ele interpretou Deus
à sua maneira, como os cristãos interpretam Deus à sua, e os judeus fazem outro
tanto. Interpretamos Deus segundo a nossa cultura, segundo o meio em que nascemos,
em que nos desenvolvemos, mas Deus é o mesmo, e à partida o que é uma
monstruosidade é matar em nome de Deus.
As últimas palavras de Laila foram para Mohamed como uma punhalada. A irmã
condenava-o. Como se atrevia! O pai costumava dizer que aquela rapariga lhes causaria
problemas e tinha razão. Laila convertera-se num monstro que blasfemava.
— Basta, Laila! — A mãe interrompeu a discussão entre os dois irmãos. — Vai para o
teu quarto e descansa, depois falarás com o teu irmão de... de tudo isso.
— Mas como é que é possível que tenham consentido que a minha irmã se tenha
convertido numa perdida? — gritou Mohamed.
— Como te atreves a insultar-me? Não vês nada mais, senão a ponta do teu nariz! És
um pobre homem, incapaz de pensares por ti mesmo. O que é que te assusta tanto?
Assusta-te a verdade?
— A verdade! Que verdade? A tua verdade? Estás a pisar os sagrados ensinamentos
do nosso Profeta! Como te atreves!
— Até no Irão existe agora uma escola feminina em Qom, e é dirigida por uma
mulher, uma muchtahida.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Calem-se os dois! — voltou a intervir a mãe. — O que é que Fátima vai pensar?
Vai achar que estão os dois doidos...
— A única coisa que vai pensar é que a minha irmã blasfema e os meus pais permitem-
-no — lamentou-se Mohamed.
Fátima baixou a cabeça, atordoada, sem se atrever a intervir. Estava escandalizada
com a atitude de Laila, mas ao mesmo tempo sentia uma certa admiração por ela. Parecia-
-lhe corajosa, e não apenas isso. Que Alá a perdoasse!, mas gostara do que ela dissera. Se
pudesse iria ouvi-la na madraçal... mas não, nunca o faria. Mohamed nunca lho permitiria.
— Em Frankfurt avisaram-me, agora percebo porquê.
— Em Frankfurt?
A voz trémula da mãe fez com Mohamed se apercebesse que expressara em voz alta
aquilo em que estava a pensar. Sim, em Frankfurt, Hasan avisara-o acerca da irmã, incitando-
-o a intervir, a resolver o problema em família ou a comunidade teria de intrometer-se.
— Não sabia que era tão famosa! — ironizou Laila.
— Vou falar com o pai acerca disto. Mas quero que saibas que não podes continuar
assim. Não te prejudicas apenas a ti, também prejudicas a nossa família.
— Não tens qualquer direito sobre mim, nem nenhum poder. Sou um ser livre, livre,
Mohamed, vê se o entendes.
— Livre! O que é significa isso de seres livre? Deves obediência ao nosso pai e a mim
que sou teu irmão! A tua honra é a nossa honra!
— A minha honra, como tu dizes, é minha e portanto intransferível. Os filhos não
pagam pelos erros dos pais, nem os pais pelos dos filhos. Em direito, cada indivíduo é o
único responsável pelos seus actos. Quanto à obediência, lamento decepcionar-te... mas
não tenho de te obedecer, nem a ti nem a ninguém. Respeito o nosso pai, respeito o seu
modo de vida, a sua cultura, as suas tradições, mas isso não significa que tenha que as
assumir totalmente. Quero tanto aos nossos pais quanto te quero a ti, mas sou maior de
idade e tento viver de acordo com a minha consciência.
— Que Alá nos proteja de tanta loucura! Como é que isto nos aconteceu? Que
desgraça para a família!
Laila levantou-se e olhou com pena para o irmão. Ia acariciar-lhe o cabelo, mas
conteve-se. Sabia que ele repudiaria aquele gesto de carinho.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Sabes, Mohamed? Sou eu que lamento que tenhas mudado tanto. Pensava... bem,
pensava que serias diferente, que terias aprendido alguma coisa, não apenas durante a tua
infância aqui, mas também em Frankfurt, embora me tivesse alarmado quando me
disseram que tinhas ido para o Paquistão estudar numa madraçal. Rezei para que não te
perdesses e para não te perder. Que ingenuidade da minha parte! Mantive a esperança que
não te tivessem feito uma lavagem ao cérebro. Vejo agora que o fizeram e acredita que me
sinto profundamente infeliz neste momento.
— Laila, deixa isso, vai descansar — insistiu a mãe.
— Não, ainda não me vou deitar. É sexta-feira, e combinei sair com umas amigas. Não
volto tarde.
Mohamed olhou para a irmã e, de seguida, para a mãe sem saber que dizer. Estava
exausto pela discussão. Sentia-se destroçado por dentro. O rubor cobria-lhe a cara e o
pescoço. O relógio marcava as onze da noite, e a irmã preparava-se para sair, ou assim o
fizera crer. Era possível que fosse isso e que a mãe não tivesse levantado qualquer
objecção?
Ela pareceu ler-lhe os pensamentos, e levantou a mão num gesto que parecia pedir-
-lhe calma.
— A tua irmã sai quando quer. Nunca chega demasiado tarde, é uma rapariga
ajuizada e prudente.
— A minha irmã sai sozinha de noite? Isso é próprio de uma mulher decente? E tu
deixas? E o meu pai? O que é que o meu pai diz? Como é possível que o meu pai aceite esta
situação? Deveria matá-la.
— Cala-te! Como podes dizer isso? É a tua irmã!
— É uma perdida!
— Cala-te! Como é possível que não entendas? Onde achas que vivemos? Isto é
Espanha, já te esqueceste? E tu vens de Frankfurt. As mulheres de lá são diferentes das
daqui? Isto não é a nossa aldeia de Marrocos, sabe-lo bem. Aqui, as mulheres têm direitos,
e até lá os começam a ter. A tua irmã... tem razão nalgumas coisas que disse. O mundo
mudou...
— Mãe! Também enlouqueceste?

Mohamed voltou a dar um murro na mesa e as crianças desataram a chorar. Tinham


permanecido em silêncio, receosas que alguém reparasse nelas, mas a tensão tornara-se-
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

-lhes insuportável e não se conseguiram conter. Fátima tentou acalmá-las, aterrada pela
reacção que o marido pudesse ter. Mas Mohamed limitou-se a mandá-la levar as crianças
para a cama.
Fátima levantou-se rapidamente e, com um filho em cada mão, saiu depressa da sala,
temendo que o marido mudasse de opinião e pudesse descarregar a sua fúria nas costas
deles. Não seria o primeiro homem que soltava a sua frustração e atormentava a mulher e
os filhos.
Na sala ficaram, frente a frente, Mohamed e a mãe. A mulher sustinha o olhar
iracundo do filho, pois sabia que este não se atreveria a faltar-lhe ao respeito.
— Deixa-me sozinho.
— Fá-lo-ei quando levantar a mesa. Devias descansar e clarificar as ideias. Sou uma
mulher ignorante, mas percebo que te mudaram, não sei se no Paquistão se em Frankfurt,
não sei quem nem porquê. Mas consigo ler a desgraça nos teus olhos.
— Cala-te, mãe, e deixa-me!
A mulher não insistiu. Saiu da sala e regressou logo a seguir com um enorme
tabuleiro no qual começou a colocar cuidadosamente os pratos e talheres. Mohamed fingia
que ela não estava ali, imerso como estava nos seus pensamentos, mas a mãe conseguia ler
no rosto do filho confusão e sofrimento. De repente, percebeu que a chegada de Mohamed
lhes ia causar um grande infortúnio e não conseguiu evitar um arrepio.

331
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Laila desceu as ruelas do Albaicín com passo rápido. Ficara de ir ter a um bar, situado
no centro de Granada. Esperavam-na duas colegas do escritório. O bar Generalife era o
ponto de encontro de grande parte dos jovens da cidade. Ficar ali era a garantia que se
iriam encontrar com muitos amigos e conhecidos, sobretudo aos fins-de-semana.
Quando entrou, a amiga Paula acenou-lhe para lhe indicar onde estavam sentadas.
— Atrasaste-te — recriminou-a Paula.
— Sim. O meu irmão acabou de chegar. Há muito que não o via. Já sabes que vive na
Alemanha.
— Há séculos que não o vejo. Ainda continua giro? — perguntou-lhe a amiga Carmen.
— Sim, como sempre — respondeu Laila, sem vontade.

— Era giríssimo e um pouco engatatão — insistiu Carmen.


— Era. Agora casou-se e tem dois filhos.

— Casou-se! Mas quando? — quis Paula saber.


— Há pouco tempo.

— E as crianças? — perguntou Carmen curiosa.


— São do primeiro casamento da mulher.
— Antecipou-se! — exclamou Carmen.

— Porquê? — Laila desejava acabar com aquela conversa, mas não queria parecer
grosseira com as suas duas melhores amigas.
— Pois, porque o teu irmão é mais novo que nós, que somos dois ou três anos mais
velhas, ou seja, deve andar pela casa dos trinta, e casar-se e ser pai de dois filhos foi um
instante. Acabou os estudos?
— Sim,já sabes que tirou Turismo e partiu para a Alemanha para aprender bem
alemão. Temos lá família.., bem, já jantaram?
— Sim — respondeu Paula —, comemos espetadas. Alberto ligou-me para dizer que
vai passar por aqui com Javier. Devem estar prestes a chegar.
Laila pediu uma água tónica e, distraída, tirou um cigarro da caixa que Paula tinha
332
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

sobre a mesa.
— Voltaste a fumar? — perguntou-lhe esta.

— Não, é que... bem, estou um pouco nervosa. Além disso, não deixei completamente
de fumar e, de vez em quando, ainda fumo um.
Carmen começou a contar-lhes os pormenores de uma reunião que tivera naquela
tarde com um novo cliente, que estava num processo de separação matrimonial. Para
alívio de Laila, as três amigas envolveram-se na conversa. Preferia esquecer durante um
bocado o confronto com o irmão.
Carmen e Paula não eram apenas as suas duas melhores amigas, mas também se
tinham juntado à firma que tinham montado com Javier.
Conhecera-as na faculdade. Elas vinham de um colégio de freiras, enquanto Laila
estudara numa escola pública. Ali, ao princípio, olharam-na como um animal raro. Mas Laila
demonstrou-lhes não apenas que era inteligente e capaz de tirar as melhores notas da
turma, mas também que era uma boa companheira, sempre disposta a ajudar os outros.
Não fora fácil que a tratassem como mais uma. Sobretudo, porque o pai não
deixava que ela fizesse ginástica com as outras meninas, e ainda a obrigava a usar o hiyab
na escola. Até ao dia em que Laila se revoltou. Não disse nada para não ofender o pai, mas
ao afastar-se uns metros de casa tirava o lenço, e convenceu a mãe a comprar-lhe um fato
de treino igual ao do resto das colegas de turma. A mãe comprou-lho e juraram guardar
segredo, para que o pai não se sentisse envergonhado.
Mas Laila sentia um profundo mal-estar por enganar o pai e temia a reacção que este
poderia ter se soubesse que a mãe a ajudara, não porque fosse maltratar a mãe, algo de
que seria incapaz, mas pela profunda dor que a mentira lhe causaria. De modo que quando
fez dezoito anos, e estava prestes a entrar para a Faculdade de Direito, sentou-se a falar
com o pai para lhe explicar que não ia colocar o hiyab, que se sentia espanhola, que não
sabia sentir-se de outro modo e que, quando pudesse, escolheria aquela nacionalidade.
O pai gritara e lamentara-se da desgraça de ter uma filha como ela, em seguida,
ameaçara mandá-la para Marrocos e casá-la com um homem bom que lhe tirasse aquelas
ideais absurdas da cabeça. O irmão assistira à discussão entre assustado e aturdido.
Interiormente, pensava como o pai, mas adorava a irmã e era-lhe muito duro pensar que a
iam enviar para Marrocos.
Na verdade, naquela época, Mohamed sentia-se confuso entre o que estava bem
e o que estava mal. Fora para a mesma escola que Laila, saía com pessoas da sua idade e
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

não lhe ocorrera tratar as raparigas de maneira diferente da dos amigos, entre outros
motivos porque elas nunca o teriam deixado. Mas, além disso, a directora da escola
não permitia nenhuma exibição machista. Dona Piedade era feminista, e teria cortado
pela raiz qualquer sinal de discriminação. Na realidade, foi dona Piedade quem
convencera a mãe a deixar Laila fazer o bacharelato, e que também a ajudara a
conseguir uma bolsa para que pudesse entrar na universidade.
Mohamed sentia um respeito reverente pela directora da escola, que com a sua
simples presença era capaz de calar todas as crianças da sala, e isso sem que alguma vez
tivesse proferido uma palavra num tom mais alto que outra. Aquela mulher emanava
autoridade.
No final, Laila acabara por vencer. Já não se escondia do pai quando saía de casa sem o
lenço. Contrariado, o pai aceitou, a pouco e pouco, a nova situação. Laila tentava vestir-se
sem chamar a atenção, e as saias tapavam-lhe sempre os tornozelos. Não usava camisas
justas como as outras raparigas da sua idade, nem decotes, mas, excepto esses pormenores,
vestia-se como as outras raparigas. Sabia que ganhara uma batalha importante contra o pai,
contudo não queria que este se sentisse totalmente derrotado, nem muito menos que a
vergonha o fizesse baixar os olhos ao vê-la.
Quando Alberto e Javier entraram no bar, Paula levantou a mão para lhes indicar
onde estavam sentadas.
Alberto tinha uma loja de material informático, na mesma esquina em que ficava o
escritório delas. Javier era sócio da firma, especializado em direito comercial, enquanto
elas se dedicavam ao direito de família.
Javier era primo de Carmen e colega de curso na faculdade.
—Já jantaram? — perguntou Javier.
— Sim, comemos umas espetadas, e vocês? — respondeu Carmen.
— Alberto e eu estamos famintos, mas se já jantaram, pedimos aqui qualquer coisa e,
depois, vamos a algum sítio. O que é que tens, Laila?
A pergunta de Javier sobressaltou-a. Estava distraída a pensar na discussão que tivera
com o irmão; e mal prestava atenção aos amigos.
— Estáestranha — apontou Paula — e deveria estar contente, porque o irmão
acabou de chegar a Granada. Rapariga, anima-te!
— Mas não tenho nada, estou apenas um pouco cansada.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Cansas-te demasiado a doutrinar essas mulheres... — protestou Paula.

— Vamos, deixa-a — interveio Carmen —, tem todo o direito de não ter um bom dia.
Ou vocês nunca os têm?
— Como está a correr a tua escola? — quis Alberto saber.
— Bem, cada vez aparecem mais mulheres, já somos quinze. Não está nada mal.
Espero aumentar o número, embora quando comecei me tenha conformado com muito
menos.
— Hoje voltei a ver aquele tipo mal-encarado — explicou Carmen —, o que as insulta
quando sobem ao escritório. Não to disse, mas ameacei-o que ia chamar a Polícia e ele foi-
se embora. Há gente muito cretina!
Laila mordeu o lábio. Paula e Carmen não contavam com ela apenas como advogada.
Também lhe tinham cedido uma sala, que ela convertera na sua madraçal. Reunia-se ali
com mulheres muçulmanas para falar do Alcorão. Rezavam e estudavam, e, além disso,
Laila ajudava-as quando podia porque sabia das suas dificuldades familiares. Algumas eram
muito jovens e viviam um conflito duro com os pais, a defenderem pedaços de liberdade.
Não queriam usar o lenço, queriam sair com rapazes e raparigas como o resto das jovens da
sua idade, tinham aprendido na escola que todos os seres humanos eram iguais, e que a
Constituição espanhola garantia que ninguém poderia ser discriminado por motivos de sexo
ou religião.
Tinham vivido a esquizofrenia de serem de uma maneira na escola e de outra no
recinto familiar, e procuravam, desesperadas, o equilíbrio entre dois mundos que,
inexoravelmente, pareciam destinados ao confronto.
No último mês haviam-se deparado com a desagradável surpresa de um jovem
muçulmano que montava guarda na rua, em frente da porta do escritório, e que as
insultava e as incitava a irem para casa.
Javier e Alberto tinham-no recriminado pela sua atitude e ele avisou-os que iam
pagar bem caro o facto de estarem com aquelas mulheres, mas até ao momento a
situação não passara dali.
— Vamos ter mesmo de chamar a Polícia — disse Javier —, porque esse tipo pode ser
um louco.
— Sim, deve ser, para perseguir um grupo de raparigas que se reúnem num escritório
para rezar — acrescentou Alberto.

335
Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— É um fanático. A única coisa que não sei é até onde está disposto a ir.
Calaram-se e olharam para Laila, surpreendidos, porque esta expressara o que todos
pensavam, mas que não se atreviam a dizer para não a ofender.
— Bem, então o melhor é apresentar queixa — insistiu Javier —, e depois veremos
quem é e o que faz.
— Eu sei quem é — afirmou Laila.
— Sabes quem é? E porque é que não nos disseste? — quis Carmen saber.
— Não é que saiba como se chama, mas já o vi pelo Albaicín. Anda com um grupo de
rapazes que... enfim, são todos uns fanáticos.
— Então deveríamos ter cuidado — disse Paula, preocupada —, não nos vá pregar um
susto um dia destes.
— O melhor é eu arranjar outro lugar onde me possa reunir com as minhas alunas.
Dessa maneira, deixaria de vos incomodar.
— Mas que parvoíce! — exclamou Javier.
— Não, não é nenhuma parvoíce. Foram muito generosos comigo, mas não quero
que tenham problemas por minha culpa. Isto não tem nada a ver convosco, de maneira que
vou procurar um andar barato para instalar a minha madraçal.
— Nem penses! — disse Paula. — Não te vamos deixar sozinha. Se é um fanático que
o detenham, tu não estás a fazer nada de mal. É ele que vos quer assustar.
— Acho que te devias aconselhar com alguém acerca do que se está a passar, e ver se
esse imbecil é um perigo ou apenas um fanfarrão — argumentou Alberto.
— O meu pai conhece o delegado do governo. Talvez lhe possa perguntar o que se faz
nestes casos — afirmou Paula.
— Bem, esqueçamos esse cretino e vamos tomar um copo num sítio qualquer, que
para isso trabalhámos duramente esta semana.
Decidiram esquecer o problema, tal como Javier propusera. Apesar de preocupada,
Laila decidiu acompanhar os amigos para se esquecer da discussão com o irmão.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

10

Darwish abriu a porta de casa com uma expressão cansada. Trabalhara toda a noite
como vigilante de uma obra, o que, na sua idade, era melhor do que estar a subir e a descer
andaimes, mas, apesar disso, estava esgotado.
Dirigiu-se à cozinha, com a certeza que iria encontrar a mulher a preparar o pequeno-
-almoço. Laila devia estar a dormir porque era sábado e não trabalhava. Também ele tinha
dois dias de descanso à sua frente.
Quando entrou na cozinha, a mulher estava a preparar, distraída, o café, e nem se
apercebeu da sua presença.
— Olá, mulher!
A mulher virou-se, nervosa, e Darwish leu-lhe o medo no olhar.
— O que é que aconteceu? — perguntou, alarmado.

— Nada, nada, Mohamed chegou. Está a dormir com a mulher e os filhos, mas se
quiseres vou acordá-lo...
— O meu filho? Mas... quando?
— Chegou ontem à tarde, e... bem, digo-te desde já que casou com a irmã de Hasan,
a mulher de Yusuf…
— Mas o que é que estás a dizer, mulher? Explica-me isso bem, que não estou a
perceber nada.
— Parece que... Yusuf morreu. Bem, o nosso filho vai contar-te. O que se passa é que ele
casou-se com a mulher de Yusuf e, agora, temos dois netos.
Darwish fitou a mulher, desorientado pelo nervosismo dela e pela falta de alegria com
a chegada do filho. Falava dele como se tratasse de um estranho.
— O que é que se passa, mulher?
— Nada, o que é que achas que se passa?
— Estou cansado, tenho sono, chego a casa e dizes que o nosso filho chegou, de
uma maneira que parece que se trata de uma desgraça. Porquê? Deu-te assim um desgosto
tão grande por se ter casado? Sim, deveria ter-me pedido autorização, mas se casou com a
irmã de Hasan... bem, para nós é uma honra, e Mohamed explicar-nos-á porque o fez

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

sem avisar.
— Sim, claro. Tens fome?
— Um pouco, mas prefiro descansar. Vou beber um copo de leite com qualquer coisa
doce e irei dormir um bocado, mas acorda-me quando o meu filho acordar. E Laila?
— Está a dormir.
— Mas já viu o irmão?
— Ontem à noite.
— Não me vais dizer mais nada?
Darwish estava a ficar irritado pela atitude da mulher. Não percebia porque estava
tão pesarosa, nem o motivo que os gestos nervosos e o olhar perdido denunciavam. Era
uma boa mulher e fora uma excelente mãe, devotada ao cuidado dos dois filhos.
Também ela trabalhara duramente fora de casa a limpar as vivendas das famílias burguesas
da cidade, o que, sem dúvida, contribuíra para as finanças da casa e para que os dois filhos
pudessem tirar um curso.
Sentou-se e suspirou. Esperaria até falar com Mohamed e conhecer a mulher dele.
Estava demasiado cansado para prestar muita atenção ao estado de ânimo da própria
mulher.
Só acordou às duas da tarde. Custava-lhe a abrir os olhos devido ao cansaço, mas a
mulher instava-o a levantar-se, e recordava-lhe que Mohamed estava em casa.
— Dá-me uns minutos para me lavar. Onde está o meu filho?
— Estão na sala e já é hora de almoçar.
— Porque é que não me acordaste antes?
— Mohamed pediu-me para te deixar descansar...
— E Laila?
— Saiu hoje de manhã. Deve estar a chegar.
— Bom, então almoçamos todos juntos. Espero que te tenhas esmerado. Há dois
anos que não vemos o nosso filho.
— Preparei cuscuz de cordeiro, sei que todos gostam.
Quando Darwish entrou na sala, mal teve tempo de olhar para o filho porque este
abraçou-o de imediato.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Fátima observava-os de pé, a um canto, junto dos filhos.


Darwish deu-lhe as boas-vindas à família e cumprimentou as crianças, a tentar
mentalizar-se que eram seus netos, e era assim que os devia tratar a partir daquele
momento.
Perguntou por Laila e a mulher, nervosa, disse-lhe que ainda não regressara.
— Vamos esperar por ela, não deve demorar. Comemos sempre juntos aos sábados.
É um dos poucos dias em que a tua irmã não trabalha.
— Devíamos falar da minha irmã — sentenciou Mohamed, perante o olhar
preocupado da mãe.
— De Laila? Porquê? — perguntou Darwish, que já percebera qual ia ser a resposta.
— Não anda de hiyab, e, pelo que me contou, abriu uma escola onde ensina o
Alcorão. Estou envergonhado.
— Envergonhado? A tua irmã não está a fazer nada de que te devas envergonhar —
respondeu Darwish. — É impetuosa, mas uma verdadeira crente e jamais se desviou dos
caminhos do Alcorão... Mas falaremos de Laila mais tarde. Agora, fala-me de ti e... da tua
mulher e filhos, e dá-me notícias de Frankfurt. Deves saber, Fátima, que consideramos o
teu irmão Hasan como o nosso guia e é uma honra que tu tenhas unido as duas famílias.
Mohamed mandou a mulher e os filhos desta para a cozinha para ajudar a mãe, de
modo a ficar sozinho com o pai. Quando os dois homens se sentaram frente a frente, sem
testemunhas, Mohamed descreveu em pormenor tudo o que acontecera em Frankfurt.
Darwish sentia cada palavra do filho como um punhal nas entranhas. Uma coisa era
participar dos ideais do Círculo, proteger os seus membros, sonhar que um dia o islão
seria a religião de todos e os cristãos não teriam outro remédio senão converter-se — de
facto, em Granada eram cada vez mais os espanhóis que apostatavam para se converterem
ao islamismo —, mas o que o filho lhe estava a contar era que se convertera num mujaidine
disposto a matar e a morrer e, o mais surpreendente, que participara no atentado ao
cinema de Frankfurt, onde tinham morrido trinta pessoas, e que também se
encontrava naquele apartamento de Frankfurt onde o grupo de mujaidine tivera de se
sacrificar, oferecendo-se em martírio para que a Polícia não os detivesse. Sabia que Yusuf
morrera, mas não imaginara que o filho estivesse presente. Apenas Mohamed se salvara
para poder destruir uns papéis que garantia ter feito em pedaços e depois queimado.
Darwish olhou para o filho incrédulo, sabendo que ele esperava a sua aprovação, mas

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

sentia-se destroçado. O filho participara na matança do cinema e ele vira na televisão as


imagens dos corpos despedaçados, que incluíam crianças. Pensou que no Irão todos os dias
morriam crianças e que na Palestina não havia semana em que o exército de Israel não
disparasse sobre alguém inocente. Pensou que estavam em guerra, e que na guerra mata-
-se e morre-se, e a única coisa que não se pode sentir é piedade, porque isso nos torna
fracos. Mas apesar daquelas reflexões, sentiu uma vaga de náuseas na boca do
estômago enquanto olhava para Mohamed, que se convertera num homem diferente.
Talvez o seu filho fosse como ele quisera que fosse. De contrário, não teria permitido que
tivesse ido primeiro para Frankfurt sob a protecção de Hasan, e mais tarde para o
Paquistão. Sabia que se Mohamed iniciasse essa viagem nunca voltaria o mesmo, mas,
agora, que se deparava com essa realidade, sentia um sabor amargo.
— Porque escolheram um cinema? Havia ali mulheres e crianças... — atreveu-se a
dizer timidamente.
— Havia ali inimigos e por isso morreram. Ou achas que essas mulheres não se
alegram quando vêem cair os nossos no Iraque ou na Palestina? Os filhos delas são
futuros combatentes. Se crescerem, irão lutar contra os nossos. Pai, espero que as tuas
convicções não fraquejem...
— Filho!
— Não vejas mulheres e crianças, vê aquilo que são. Inimigos, inimigos na retaguarda
com os quais temos que acabar. Não é difícil matar quando sabes porque matas.
— E tu, porque o fazes?
Laila estava há alguns minutos na soleira da porta e ouvira grande parte das
explicações do irmão, sem que nem este nem o pai se tivessem apercebido da sua presença.
O relato de Mohamed arrancara-lhe lágrimas do mais fundo do seu ser. Não conseguia
reconhecer o irmão no assassino que via na sala da casa a conversar com o pai.
— Laila! —gritou o pai, sobressaltado. — Sai daqui! Esta é uma conversa de homens.
— De homens? O que Mohamed contou é horrível! Como o pudeste fazer? Como
pudeste...? — gritou Laila com os olhos avermelhados pelas lágrimas.
— Sai daqui! — ordenou-lhe o irmão, furioso. — Sai, antes que te bata, desgraçada. E
cobre a cabeça, se não queres que eu to faça.
— Atreve-te! Atreve-te! — gritou Laila.
A mãe e Fátima entraram na sala, assustadas pelos gritos. E Laila refugiou-se, a chorar,
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

nos braços da mãe.


— É um assassino! Matou todas aquelas pobres pessoas no cinema de Frankfurt... Oh,
Misericordioso! Como o permitistes?
Fátima baixou a cabeça entre envergonhada e receosa. Sabia que Mohamed
participara na carnificina de Frankfurt, tal como Yusuf, o seu primeiro marido, mas isso, até
àquele momento, convertera-os em heróis perante os seus olhos, porque a visão que tinha
da realidade era igual à do irmão Hasan e à da comunidade, embora as lágrimas de Laila a
comovessem e a fizessem duvidar.
Laila saiu da sala e fechou-se a chorar no quarto, enquanto a mãe insistia para que
abrisse a porta. Darwish e Mohamed não se tinham movido da sala, enquanto Fátima
voltara a refugiar-se na cozinha com os dois filhos, receosa do que pudesse acontecer.
Os dois homens comeram sozinhos e estiveram a falar até ao fim da tarde, quando
Darwish se dirigiu ao quarto de Laila e a mandou sair imediatamente.
Quando Laila abriu a porta, mal lhe distinguiu os olhos, inchados pelas lágrimas.
— Lava a cara e vem para a sala, temos que falar — ordenou-lhe.
Encaminhou-se devagar para a casa de banho, onde esfregou a cara com água fria
enquanto tentava conter novas lágrimas que lhe deslizavam pelas faces. Quando, por fim, se
apresentou na sala onde o pai e o irmão a esperavam, sentia-se esgotada e minimizada.
— Vais ouvir-me e obedecer-me, porque de outra maneira podes trazer a desgraça a
esta família — disse-lhe o pai a modo de preâmbulo, mas Laila nem sequer respondeu e
baixou a cabeça. — Estamos em guerra, Laila, por mais que tu não o queiras ver assim.
Chegou o momento em que nos defendemos e saldamos todas as afrontas e humilhações
às quais os cristãos nos submeteram durante os últimos séculos. Fomos desprezados,
espoliados e humilhados até nos tentarem reduzir a nada, e muitos dos nossos dirigentes
deixaram-se corromper pelo Ocidente. Mas Alá quer que esta situação acabe e por isso
inspirou alguns homens santos para que liderem uma nova comunidade de crentes, onde
os puros de coração deverão sacrificar-se para conseguir que a bandeira do islão volte a
esvoaçar por todo o mundo.
— Matando inocentes? — atreveu-se a perguntar num fio de voz.

— Não compreendes! — exclamou o pai, furioso.

— Não, não compreendo. Não compreendo o fanatismo. Não compreendo porque é


que não podemos viver juntos, cristãos e muçulmanos. Não compreendo porque é que os
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

seres humanos se empenham em fazer da diferença um abismo intransponível. Não


compreendo, porque não acredito que Alá seja diferente do Deus cristão ou do Deus
judeu...
Laila não pôde continuar a falar, porque o irmão levantou-se com uma rapidez
extraordinária e deu-lhe uma bofetada que a fez desequilibrar.
—Blasfema! — gritou Mohamed, e ergueu o punho com o qual bateu no rosto da irmã.
O pai interpôs-se entre ambos para evitar que Mohamed voltasse a bater em Laila.
Sentia-se impotente perante a situação.
A mulher voltou a irromper na sala, a gritar, ao ver a filha com o lábio fendido, um
olho negro e a sangrar por causa do murro de Mohamed.
— Que Alá seja misericordioso connosco! O que é que fizemos? — gritava a mãe,
assustada, a abraçar Laila.
— Vocês é que têm a culpa disto! — gritou Mohamed, dirigindo-se aos
pais. — Nunca
deviam ter consentido que chegasse tão longe. Tu, mãe, enganaste o meu pai ao
esconder-lhe as faltas de Laila, tu és a responsável!
— A mulher baixou a cabeça, assustada. Não reconhecia o filho naquele jovem
cheio de ira que lhe gritava ameaçador, mas não se atreveu a responder-lhe, nem sequer se
tentou defender, pois sabia que se dissesse uma única palavra podia aumentar ainda mais a
fúria de Mohamed. Também não sabia como é que o marido ia reagir. Até àquele dia fora
um homem bom que jamais lhes batera, nem a ela nem a Laila, mas via agora nos olhos
do marido um brilho diferente que não sabia como interpretar. Abraçada a Laila e a conter
as lágrimas, pensou que a única coisa que podia fazer era proteger a filha com o próprio
corpo, se Mohamed continuasse a bater na irmã.
Os segundos tornavam-se eternos até que, por fim, o marido falou.
— Leva-a e que não saia do quarto até que eu lho diga. Laila tem de obedecer,
Mohamed tem razão.
Com algum esforço conseguiu levantar a filha e levá-la da sala. Fátima aguardava na
soleira da porta da cozinha e dirigiu-se a ela com passos rápidos para a ajudar a levar Laila
para o quarto. Entre as duas, deitaram-na na cama e com o olhar disseram-se o que deviam
fazer.
Fátima ficou junto da jovem, enquanto a mãe saía do quarto em busca de um
medicamento para curar as feridas.
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Laila mal podia falar. Doía-lhe a cabeça e o olho, tinha a visão desfocada e os lábios
inchados pelo murro.
— Com gestos diligentes, a mãe limpou-lhe as feridas, enquanto Fátima lhe segurava
a cabeça. A mãe deu-lhe um analgésico, enquanto em voz baixa perguntava a Fátima:
— Achas que devíamos chamar um médico?

— Não, não... Vai ficar boa, se viesse um médico poderia.., bom, poderia denunciar-
-nos, e isso seria terrível para todos. Não te preocupes, Laila vai ficar bem.
A mulher olhou-a e assentiu. Fátima estava a proteger Mohamed. Na verdade,
estava a defendê-los a todos, mas mesmo sabendo que a nora tinha razão, sentiu uma
pontada de remorso por não se atrever a fazer o que achava que devia fazer, procurar
que a filha fosse vista por um médico.
— Deveríamos dar-lhe qualquer coisa para dormir — sugeriu Fátima. — Amanhã
estará melhor.
— Não sei.., talvez devêssemos esperar... Encarrega-te dos homens e dos teus filhos,
eu fico com Laila.
Fátima saiu do quarto. Tentou não fazer barulho para que nem o marido nem o sogro
dessem por ela. Tinha medo, medo de Mohamed, medo do que estava a acontecer naquela
casa.
As crianças estavam na cozinha, a brincar em silêncio. A mãe dissera-lhes que não
deveriam incomodar e muito menos aborrecer o seu novo pai, que os pequenos,
instintivamente, temiam. De modo que, sentados no chão, brincavam com uns carrinhos
de plástico sem fazer barulho.
Mohamed e o pai continuavam a falar na sala, e embora tivessem fechado a porta,
conseguia ouvir de vez em quando a voz estridente do marido. Acariciou a cabeça dos
pequenos e sussurrou-lhes que se deviam portar bem e irem-se deitar para não
incomodarem os mais velhos. As crianças não se atreveram a protestar, mas ela conseguiu
ver nos olhos dos filhos o quanto estavam assustados e tristes. Porém, Fátima não se
deixou comover nem mais um segundo pelo rosto entristecido das crianças. As coisas eram
assim e não se podia fazer nada. Gostava de Laila, mas a sua teimosia ia provocar-lhe
uma desgraça. As mulheres tinham que obedecer aos homens, e aceitar que eles
pensassem e decidissem por elas. Não sabia o que é que Laila pretendia, mas de qualquer
maneira, pensou, a cunhada estava errada.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Mohamed e o pai discutiam acerca do que acontecera.


— Estaé a minha casa e sou eu quem decide o que se deve fazer. Se a tua irmã
merece um castigo, é da minha responsabilidade castigá-la, de modo que...
— Mas, pai! — interrompeu-o Mohamed. — És incapaz de a pôr no seu lugar. É uma
vergonha que ande sem a cabeça tapada, e olha como se veste.., não se distingue das
cristãs. Surpreende-me que não tenha nem um pouco de modéstia e se atreva a
enfrentar-nos. Temos que pôr um fim a esta situação. Não deve voltar ao escritório onde
trabalha, e temos que obrigá-la a não escandalizar o Círculo, ao reunir-se com boas muçul-
manas às quais enche a cabeça de fantasias. Laila a ensinar o Alcorão! Que loucura! Temos de
impedir que o faça, se não queremos que os nossos irmãos nos julguem por irreverência.
Hasan advertiu-me que ou éramos capazes de dar um fim a esta situação ou a comunidade
o faria. Que tipo de homens somos nós, se não conseguimos que as mulheres da nossa casa
nos obedeçam?
— Amanhã falarei com ela, mas tu deixa-a em paz — sentenciou o pai.

— Mas se não conseguires fazê-la ver a razão, então fá-lo-ei eu.

— O telefone tocou e Mohamed levantou o auscultador com um gesto decidido.


— Quem fala? — perguntou.

— Ouviu durante um segundo enquanto voltava a corar de raiva.


— Não! Laila não está, e não volte a telefonar. Não tem autorização para falar com a
minha irmã.
O pai olhou-o à espera que lhe dissesse quem era, mas Mohamed deu um murro na
mesa e recomeçou a gritar.
— Um homem a perguntar por Laila! O pervertido atreve-se a telefonar para nossa
casa. Mas como é que consentiste numa coisa destas?
— Mohamed, estamos em Espanha. Filho, pensa bem, não é fácil proibir-lhe tudo.
Laila tem de trabalhar, dar-se com pessoas. Viveste aqui e na Alemanha, sabes que as
mulheres e os homens trabalham juntos, e sabes que em Marrocos também acontece o
mesmo nas cidades, mas o que interessa é a maneira como elas se comportam, e garanto-
-te que a tua irmã nunca fez nada de que nos devamos envergonhar. É uma boa rapariga, e
uma verdadeira crente...
— Mas como a defendes? Não te apercebes de tudo o que Laila faz? Que sentido tem
a nossa luta se as nossas mulheres se comportam como rameiras vulgares?
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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Filho, para ganhar esta guerra temos de ser cautelosos e não chamar a atenção.
Não podemos fechar Laila, tem de continuar a trabalhar...
— De agora em diante, comportar-se-á de maneira diferente, e não sairá sem lenço.
Não lho permitirei.
Pai e filho olharam-se, esgotados. Estavam há muitas horas a falar e o confronto com
Laila deixara marcas nos dois. Chegara o momento de cada um ficar sozinho, a reflectir.
— Porque não levas a tua mulher a conhecer Granada? Ainda não é muito tarde, e a
tua mãe pode deixar o jantar preparado e tomar conta das crianças.
— Sim, fazia-me bem sair um bocado.
Mohamed saiu da sala à procura de Fátima, embora tivesse preferido passear sem
ela. Não que a mulher o incomodasse, já que tentava passar despercebida, mas, apesar
disso, parecia-lhe um fardo. Pensou que ainda não tinham partilhado o leito e que isso não
podia demorar muito mais tempo, já que tanto a sua família como a de Fátima esperavam
que tivessem filhos. Sentiu uma pontada de repugnância na boca do estômago, Porque a
mulher desagradava-lhe fisicamente e não sabia como ia ser capaz de a possuir. O
pensamento enfureceu-o ainda mais e teve vontade de entrar na cozinha e bater-lhe, mas
conteve-se porque afinal ela era irmã de Hasan, e este poderia sentir-se ofendido se
batessem na irmã.
— Mulher, vamos — disse, e fez-lhe sinal para o seguir.
Fátima não se atreveu a recusar. Com um olhar para os filhos, fez-lhes sinal para que
não perguntassem nada, enquanto ela colocava a galabiya e seguia o marido até à porta.
Esperava que a sogra tomasse conta dos pequenos e, embora tivesse gostado de lho pedir,
sabia que não devia porque Mohamed não lhe toleraria nenhum atraso, de modo que saiu
mansamente da casa, a caminhar um passo atrás do marido sem se atrever a dizer-lhe nada.
A essa hora, Granada cheirava a flores de laranjeira, e Mohamed começou a sentir-se
mais tranquilo enquanto evocava os recantos da sua infância envoltos no aroma
inconfundível dessas minúsculas flores, que apenas apareciam de noite para embriagar os
sentidos.
Desceram pelas ruas inclinadas do Albaicín até chegarem à margem do rio, onde
àquela hora grupos de jovens se reuniam nos bares da zona.
Mohamed suspirou ao recordar-se dos anos vividos em Granada, quando também ele
ia a esses bares juntamente com os amigos. Pensou em contá-lo a Fátima, mas sentia-a como

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uma estranha para partilhar com ela as suas recordações e emoções, de modo que voltou a
perder-se nos pensamentos enquanto saboreava com os olhos cada recanto reencontrado.
De repente, recordou-se que ali perto havia um bar onde costumava reunir-se com os
amigos e dirigiu-se para lá, lamentando-se pela companhia de Fátima. Aquele bar não era
um lugar onde se levasse a mulher. No Palácio Vermelho, costumavam juntar-se as «mulas»
da zona, antes de saírem para a rua para distribuírem droga. Ele fora um deles antes de par-
tir para a Alemanha. Aos dezasseis anos, começara a traficar haxixe e felicitava-se com o
dinheiro obtido nessa actividade.
Convertera-se em «mula» porque Ali, o seu melhor amigo, lhe propusera o negócio.
Ele traria o haxixe de Marrocos, e Mohamed e os amigos vendê-lo-iam e ganhariam uma
boa comissão. Aceitou o negócio sem pensar e transformou-se, para além de distribuidor,
em consumidor. Quando aspirava o fumo negro do haxixe sentia que os sentidos se afinavam
e que o mundo era seu. O melhor de tudo era que o ter-se convertido em distribuidor de
droga abrira-lhe portas que, de outro modo, lhe estariam vedadas. As de todos aqueles
«meninos» que viviam nas zonas residenciais da cidade e que o procuravam, suplicantes,
para que lhes vendesse «merda». Às vezes, em certas ocasiões, até o tinham convidado para
algumas festas. Desfrutara bem daquelas raparigas tão bonitas que aceitavam as carícias
dele a troco de haxixe.
Decidiu que entraria no Palácio Vermelho para ver se encontrava algum dos antigos
colegas e compraria uma barra de haxixe. Era daquilo que precisava para se deitar com
Fátima, e disse a si mesmo que ninguém saberia de nada. Sabia que, se chegasse aos ouvidos
de Hasan que voltara a fumar, seria expulso do Círculo.
Hasan avisara-o antes de o enviar para o Paquistão e o aceitar entre os seus. Nada de
drogas, nada de se comportar como aqueles cristãos corruptos, capazes de matar a mãe por
uma dose.
Mas Hasan estava longe, e ele tinha que fazer as honras da cama com Fátima, e só
depois de uma boa pedrada seria capaz de o tentar.
— Fica aqui um pouco, vou ver se está ali um amigo.
— Aqui, sozinha? — atreveu-se Fátima a dizer.
— Mulher, não te vai acontecer nada! É apenas um momento. Empurrou a porta e
sorriu ao ver que nada mudara no Palácio Vermelho. Até Paco continuava atrás do balcão.
— Olha quem está aqui! — exclamou Paco ao vê-lo. — Onde tens estado metido? Há
anos que desapareceste. Disseste qualquer coisa acerca de uma bolsa e até hoje.
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— Olá, Paco, como está tudo?


— Como sempre, sem mudanças. Bom, alguns dos teus amigos estão na prisa por se
armarem em espertos.
— Há tanto tempo que não sei nada deles... Que sabes de Ali e de Pedro?
— Ali desapareceu como tu e Pedro está na prisão, em Córdoba. Apanharam-no com
um fornecimento de pastilhas que dava para abastecer meia Espanha.
— E não sabes nada de Ali?
— Apenas o que se diz por aí. Uns dizem que voltou para Marrocos, outros que a
bófia o apanhou e que está nalguma prisa a cumprir pena, outros que se tornou fanático e
que anda aos tiros pelo Iraque. Vá-se lá saber, estava um pouco pirado. Bem, e tu que
contas?
— Nada de especial, terminei os estudos na Alemanha e voltei para visitar os meus
pais. Ah, e casei!
— Que novidade! Mas o que é que te deu para casares?
— Bem, não me parece que seja assim tão estranho... ouve, sabes de alguém que
tenha material do bom?
— Ou seja, o casamento não te tirou da «merda». Bem, aquele da mesa do fundo, que
é mouro como tu, tem de tudo.
Mohamed hesitou se se havia de dirigir ao homem que Paco lhe apontara. Temia que
o pudessem reconhecer e chegasse aos ouvidos de Hasan, mas decidiu correr o risco. Ou
fumava haxixe ou não se conseguiria deitar com Fátima.
Demorou dois minutos a comprar uma barra de haxixe e saiu do local, garantindo a
Paco que voltaria dentro de pouco tempo, embora não tivesse qualquer intenção de o
fazer.
— Vamos. Comeremos qualquer coisa antes de voltarmos para casa.
Fátima olhou-o surpreendida. Não esperava que o marido a convidasse a comer fora
de casa. Tinha consciência da repulsa que sentia por ela.
Caminharam juntos sem proferir palavra até chegarem a um pequeno bar de onde se
via o Alhambra. Mohamed conduziu-a até uma mesa do fundo e dirigiu-se ao balcão. Dois
minutos depois, um empregado aproximou-se com um tabuleiro em que trazia duas Coca-
-Colas, um prato com queijo e duas doses de tortilha de batatas.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

Comeram sem olhar um para o outro mas, por fim, Mohamed surpreendeu-a ao
perguntar-lhe por Laila.
— O que é que pensas da minha irmã?
Fátima sentiu que o rosto lhe ardia, enquanto procurava as palavras com que
responder ao marido.
—É boa rapariga, e agora que tu estás aqui, tenho a certeza que se portará melhor —
disse, com receio de decepcionar o marido.
— Os meus pais foram demasiado condescendentes com ela, não a souberam
controlar e agora... envergonho-me por ela.
— Não.., não te deverias envergonhar... ela... bem... é boa rapariga.
— É uma estúpida! É uma sorte estarmos aqui, assim poderei endireitá-la.
Não disse mais nada. Com um gesto, pediu a conta e logo que pagou levantou-se
seguido de Fátima. Voltaram a caminhar em silêncio em direcção ao Albaicín.
Encontraram a casa às escuras. Ouviram murmúrios vindos do quarto dos pais e
dirigiram-se para o próprio quarto, onde as crianças dormiam placidamente sobre um
colchão colocado no chão.
— Leva-os para o quarto ao lado. Não devem estar aqui.
Fátima sobressaltou-se ao ouvir a ordem do marido, pois sabia o que a esperava. Não
disse nada. Acordou os pequenos e puxou o colchão até o meter no outro quarto.
Acariciou-lhes o cabelo e incitou-os a voltarem a dormir. Em seguida, a suspirar, regressou
ao quarto, onde encontrou Mohamed a fumar haxixe. Não disse nada, sentou-se na cama
e esperou as ordens do marido, a rezar em silêncio para que aquilo que a esperava não
fosse demasiado insuportável.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

11

Ovidio estava distraído a reler os papéis que o bispo Pelizzoli lhe dera. Escrevera em
folhas diferentes as palavras resgatadas do incêndio e colocara-as sobre a mesa como se se
tratasse de um quebra-cabeças.
— Pareces entretido — disse-lhe o padre Mikel. Olhou-o de lado, enquanto acendia
um cigarro.
— Estou é desorientado — confessou Ovidio —, e não sei por onde começar.
— Deverias dizer aos de Roma que te libertem desse trabalho, porque senão, não te
vais conseguir concentrar na paróquia. Desculpa que to diga, mas vejo-te mais preocupado
com esses papéis do que com os nossos paroquianos. É difícil conciliar o que quer que
tenhas trazido de Roma com os problemas daqui.
— Tens razão, mas não tenho outro remédio senão cumprir com o que me
pediram — desculpou-se Ovidio.
— E tu, Ignacio, poderias deixar de ler essa crónica de Frei Julián, que já deves saber de
cor, e teres pena do rapaz.
O padre Aguirre, que parecia absorto na leitura daquele relato, estava sentado numa
poltrona junto à varanda, mas na verdade não perdera uma palavra da conversa. Pousou o
livro, levantou-se e aproximou-se de Ovidio.
— Sabes, Mikel? Ovidio não tem outro remédio senão examinar esses papéis, porque
foi assim que o Santo Padre decidiu — disse o padre Aguirre num tom cansado.
— O próprio papa! — exclamou o padre Mikel. — Bom, se foi o papa que lho pediu...
mas devem existir outros que o possam fazer para além de Ovidio, porque se continua
assim, não o vão deixar concentrar-se no que se passa aqui — prosseguiu o padre Mikel, a
resmungar.
— E quem somos nós para julgar os motivos do papa? Servimos a Igreja onde nos
pedem, e sem reclamar — respondeu o padre Aguirre.
— Sim, não digo mais nada. É que tenho pena de ver o rapaz todo o dia preocupado
com os papéis. Deverias dar-lhe uma ajuda, porque tu sabes destas coisas.
— De que coisas? — perguntou o padre Aguirre.
— De quais achas? De segredos! No outro dia escutei Ovidio a dizer-te algo acerca da
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carnificina de Frankfurt, que não sei que tem a ver com a Igreja. E tu... bem.., fala-se muito,
e diz-se que, desde que chegaste, te empenhaste em que aqui as pessoas deixem de se
matar.
— E parecia-me que não tinhas percebido nada! — exclamou o padre Aguirre a rir-se.
— Mas, que eu saiba, esse empenho temo-lo todos, não?
— Mas é claro! — respondeu o padre Mikel, também a rir-se. — E se o puder ajudar...
quando muito posso servir de ajuda.
— Não, não podes — respondeu rapidamente Ignacio Aguirre.
— Sabe, padre? Às vezes penso que tanto secretismo não é justificado. O que há de
mal se Mikel e Santiago souberem em que estou a trabalhar? Confio neles como…
— Como não confiaste em ninguém nos últimos trinta anos. — O padre Aguirre
terminou a frase por ele.
— Sim, efectivamente.
— Mas tens de cumprir as regras, é a única maneira de evitares problemas. E no nosso
trabalho, a regra de ouro é a discrição.
— Sim... mas...
— Ovidio, eu colocaria a minha vida nas mãos de Mikel ou de Santiago, mas há
assuntos que não lhes confiaria. Não porque não confie neles, mas porque é melhor para
ambos.
— Em Roma o que diz faz sentido, mas aqui... lamento, padre, aqui não vejo qual o
sentido.
— Tu saberás como deves agir. Apenas te recordo as regras a que estamos
submetidos.
— Não, não me contes nada — interveio o padre Mikel. — Se Ignacio diz que não o
deves fazer, não o faças, mas, pelo menos, ele que te ajude, porque também andou metido
em segredos. Vou buscar Santiago, que está com as crianças do coro. Assim aproveito o
tempo.
Mikel Ezquerra dirigiu-se ao quarto para ir buscar a gabardina e o chapéu, depois
despediu-se dos companheiros com um até breve rápido.
— Que homem! — disse o padre Aguirre, a rir-se. — Tem um feitio...
— É bom homem — respondeu Ovidio.

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Júlia Navarro O Sangue dos Inocentes

— Sim, é verdade. Já te disse que lhe confiaria a minha vida.

— Mas não lhe mostraria os papéis, certo?

— É curioso que questiones um dos fundamentos do nosso Ofício.


—É que aqui as coisas são diferentes. Roma está muito distante e as intrigas do
Vaticano também. Acho que é tudo mais simples do que o modo como o vimos, quando
estamos imersos naquela voragem. Sabe? Eu não apenas confiaria a minha vida ao padre
Mikel e ao padre Santiago, também lhes confiaria estes papéis.
— Não o deves fazer, Ovidio, para teu bem e para bem deles. E o facto de o fazeres
nada tem a ver com confiança.
— Mas o senhor sim, poderia dar-me uma ajuda...

— Não, não deveria, mas vou fazê-lo. Estás desorientado e não sei porquê.

— Talvez a distância me impeça de pensar como o fazia. Aqui tudo é diferente.


— Bem, conta-me e verei se te posso ajudar ou não.

Ovidio ordenou os papéis em cima da mesa e começou a contar-lhe o seu encontro


com Lorenzo Panetta e Matthew Lucas. Depois, explicou-lhe minuciosamente o que sabia
acerca do atentado em Frankfurt. O padre Aguirre ouvia-o sem mover um músculo e, de vez
em quando, fechava os olhos como se precisasse de se abstrair de tudo para compreender o
que Ovidio lhe contava. Quando terminou a exposição, voltou a distribuir sobre a mesa os
papéis em que escrevera cada uma das palavras encontradas naqueles restos de folhas
resgatadas do apartamento de Frankfurt, onde os terroristas se tinham feito explodir.
Ovidio ficou surpreendido com a expressão de amargura e dor que parecia ter-se
desenhado no rosto do velho sacerdote.
— Qual a sua opinião acerca do que lhe contei?
O padre Aguirre olhou-o fixamente, exalou um suspiro de pesar, e respondeu-lhe:
— Vou tentar ajudar-te, embora não o devesse fazer.
— Mas... porquê? — quis Ovidio saber, e olhou preocupado para o rosto sombrio do
velho jesuíta.
— Se tivesse tido um filho, teria gostado que fosse como tu. Talvez por esse motivo te
trate, inconscientemente, como se o fosses — respondeu o padre Aguirre.
— Obrigado, o senhor para mim é mais que um pai — replicou Ovidio, emocionado.

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— Há perguntas às quais não te responderei, porque não posso, não devo e não
quero. Mas vou tentar ajudar-te.
— Obrigado.
— Bem, comecemos. Diz-me a que conclusões já chegaste.
—O problema é esse. Não cheguei a nenhuma. Estou às escuras. Estas palavras
parecem não ter qualquer relação entre si: «Karakoz», «Sepulcro», «Cruz de Roma», «Sexta-
-feira», «Saint-Pons», «Lotario», «cruz»... As frases, tiradas do seu contexto, são absurdas: «o
nosso céu está aberto apenas àqueles que não são criaturas», «sangue», «correrá o sangue
no coração do Santo»... Não consigo perceber o seu significado, mas leio nelas um tom
ameaçador, não sei porquê.
O padre Aguirre concentrou-se na leitura dos esquemas traçados por Ovidio,
enquanto este continuava a falar, mais consigo próprio do que com o sacerdote.
— Não imagino que tipo de papéis ou documentos seriam os que continham estas
palavras, mas tenho a certeza que não têm nada a ver com o Alcorão. E não são de nenhum
livro porque, se olhar para as fotocópias, verá que algumas são palavras escritas à mão, e
não pela mesma pessoa. Nalgumas, os traços são iguais, noutras é evidente que foram
escritas por uma pessoa ou pessoas diferentes. Pensei em pedir um exame caligráfico. Não
que nos vá revelar alguma coisa de especial, mas, pelo menos, dar-nos-á algumas
indicações acerca dos autores. A única palavra clara é «Karakoz» que se refere a um
traficante de armas.
— De onde é? — quis saber o padre Aguirre.
— É sérvio-bósnio. Um indivíduo obscuro que lutou nas guerras da antiga Jugoslávia e
agora se dedica ao tráfico de armas. Os relatórios dos serviços secretos garantem que
Karakoz pode conseguir qualquer arma que lhe peçam, é apenas uma questão de preço.
Segundo a Interpol, nos últimos anos, tem sido um dos fornecedores dos grupos islâmicos
e, sem dúvida, foi ele quem vendeu os explosivos para a carnificina no cinema de
Frankfurt.
— De modo que a única pista sólida que têm é esse Karakoz. Já o interrogaram?
— Parece que não o querem fazer. Preferem tê-lo controlado para ver se faz algum
movimento que conduza a uma pista sólida. Mas não é fácil fazê-lo. Move-se como uma
enguia, e aparece e desaparece sem deixar rasto.
— Karakoz é uma das extremidades da corda.

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— Que quer dizer?


— Imagina que o caso é uma corda. Numa extremidade, temos Karakoz, e se
puxarmos chegaremos à outra extremidade. De maneira que, ou esperas que a Interpol e
o Centro de Coordenação Antiterrorista da União Europeia te contem o que descobriram
acerca desse indivíduo, ou podes tentar averiguá-lo pelos teus próprios meios, o que, sem
dúvida, é mais difícil.
— Presumo que a única coisa que tenho a fazer é pensar no que significam estas
palavras.
— É evidente que é um novo atentado. O que não sabemos é onde, nem como, nem
quando.
Ovidio Sagardía olhou espantado para o padre Aguirre. O que acabara de afirmar
fora como um soco. O velho jesuíta observava-o, sem conseguir dissimular um sorriso.
— Mas, filho, isso é evidente! Se não estivesses tão obcecado com os teus problemas
já o terias visto, tal como o fizeram Panetta e Lucas. Não és assim tão burro! Não é preciso
trabalhares em nenhuma agência de serviços secretos para saber que existe um plano bem
determinado por alguma ou algumas pessoas, decididas a provocar um choque entre o Oci-
dente e o islão. O pior é que o fanatismo islâmico possui aliados em certos sectores, para
os interesses dos quais não há nada de errado que tenhamos uma «guerra fria», só que
esta é diferente, e pretende-se que a religião seja o desencadeador. Sabes? Não posso
acreditar que sejas tão ingénuo. Mais, desiludes-me.
Ovidio engoliu em seco, envergonhado. Trabalhara metade da vida para o
Departamento de Análise de Política Externa, e de repente comportava-se como um
novato. Pior que isso, como um incapaz. O padre Aguirre tinha razão.
— Lamento. É verdade que tenho estado muito enfiado em mim mesmo. Há meses
que não penso em nada, para além de mim...
—E isso converteu-te num imbecil? — recriminou-o o padre Aguirre, aborrecido.
— Não. Bem, espero que não.
— Tenho a certeza que desde o onze de Setembro, até antes, o bispo Pelizzoli nos
deve ter posto a todos a trabalhar no que está a acontecer, e está a mover-se no
mundo islâmico. Não reforçou as delegações do Vaticano com alguns dos nossos
analistas? Não determinou que o problema islâmico seja hoje uma prioridade? Não precisas
de me responder. Conheço bem Luigi Pelizzoli, é tudo menos um incapaz, é uma das