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Em 05 de junho de 1989, um dia após o exército chinês ter dispersado violentamente


o protesto de milhares de estudantes na Praça da Paz Celestial, um jovem desarmado
enfrentou sozinho uma coluna de tanques de guerra, impedindo seu avanço. Este
breve instante de protesto pacífico, registrado pela mídia mundial, tornou-se um dos
maiores ícones de resistência do séc. XX.
Naquele momento histórico, o que o mundo viu foi um homem
desafiando, não apenas uma máquina, mas todo um sistema.
No espetáculo, o foco de atenção é o outro, invisível à mídia,
o condutor do tanque.

O texto “O Homem da Camisa Branca - Para Além da Fresta” de Beto Matos foi desenvolvido com o
apoio do Prêmio Estímulo de Novos Textos de Dramaturgia para Teatro – 2008 da Secretaria do Estado
da Cultura do Governo de São Paulo.
O Espetáculo “O Homem da Camisa Branca – Para Além da Fresta” fez sua estréia em João Pessoa –
Paraíba, no dia 19 de agosto de 2010, no CONEXÃO XXI – FESTIVAL CÊNICO. Em 2012 fez apresentações
no espaço GAG – sede da Cia. Phila7. Foi destaque na MOSTRA FRINGE do FESTIVAL DE TEATRO DE
CURITIBA 2012. Em 2013 Em 2015 foi selecionado no Edital Teatro Contemporâneo (Prefeitura de
SP/FUNARTE) e fez temporada nos teatros distritais de São Paulo. O espetáculo fez inúmeras
apresentações, entre elas, SESI de Mogi das Cruzes, São Vicente, SESC Santos, SESC Palladium - Belo
Horizonte e Itaú Cultural - São Paulo.
Crítica da jornalista Beth Néspoli sobre o espetáculo no Festival em Curitiba.

Estou no Festival de Curitiba, a convite da organização - é honesto informar logo de saída - e, pela
primeira vez em anos que acompanho o festival, sem obrigação de escrever sobre ele, sem pautas prévias.
São apenas quatro dias que terminam hoje à noite, amanhã volto para São Paulo.
Mas vi algo ontem que me estimulou a escrever, a compartilhar: o solo O Homem da Camisa Branca,
com o ator Beto Matos dirigido por Marcos Azevedo. De saída, logo à primeira fala, aos primeiros gestos,
chama atenção a forma como Beto consegue aquilo que é uma perseguição de muitos performers, uma
determinada qualidade de presença, um estar aqui e agora falando diretamente com o espectador, sem traço
de representação, relaxado, ombros soltos, e, ao mesmo tempo, e isso é fundamental, com um "tonus"
corporal outro que não o cotidiano, em um estado alterado, que centra o ator, segura os pés no chão, torna
os gestos precisos e expressivos, aparentemente livre de esforço, um corpo movido pelo que tem a dizer.
É a primeira qualidade que ganha o espectador de saída. Há outras. Trata-se de um espetáculo da
Phila7, grupo dirigido por Marcos Azevedo, que tem como marca identitária a utilização de recursos técnicos
como projeções, câmeras para captação de imagem on line e, por vezes, imagens reis e virtuais se entrecruzam
ou dialogam. Esses recursos estão presentes em O Homem da Camisa Branca. Há projeções num telão ao
fundo do palco, há uso de câmera on line, mas igualmente chama atenção o uso harmônico desses recursos
que não "espetacularizam" a cena, tudo flui sem ser invasivo. Conversando com Marcos Azevedo ao fim da
apresentação sobre esse aspecto ele comenta que usa uma tela negra para projetar "porque a tela branca,
quando não recebe projeção, fica ali gritando em cena, pedindo imagem". Outro recurso utilizado é tirar as
bordas das imagens, ficam esmaecidas, perdem o enquadramento cinematográfico, que assim ficam mais
integradas à cena, elimina-se aquela sensação de uma tela de cinema em palco. E mais, a tela não fica suspensa,
mas no nível do palco, o que provoca outro efeito. São técnicas que eu não havia percebido, ficara apenas essa
sensação de uma projeção que não se torna vaidosa, espetacular, prepotente.
Quanto à dramaturgia, assinada pelo ator, explora-se uma imagem que se tornou mundialmente
conhecida, daquele homem que se posta diante de uma fileira de tanques na Praça da Paz na China. Beto
revisita esse ato e o faz numa interessante inversão de ponto de vista, a partir da visão do condutor do tanque
que tenta desviar do homem. Afinal, uma máquina não para ou desvia por si só. O texto traça uma
aproximação, uma especulação sobre o conflito vivido por aquele homem sem a ambição de chegar a
respostas ou de dissecar aquele acontecimento, apenas compartilha esse ponto de vista, o que leva
evidentemente o espectador a revisitar aquele ato de resistência "também" sob outro ângulo. Tudo é bem
delicado nesse solo que não busca impor ideias e pode levar o espectador mais disponível a pensar sobre a
existência a partir do ato de encher uma xícara de chá, como faz o performer. Para mim valeu ter visto, foi um
dos bons momentos que passei nessa edição do Festival de Curitiba.
Esse solo, O Homem da Camisa Branca, fez parte da programação de uma dessas mostras dentro do
Fringe, intitulada "na companhia de...", que teve curadoria da Cia. Brasileira, de Curitiba, dirigida por Márcio
Abreu. Localizada no ótimo teatro HSBC, um daqueles teatrinhos que tem uma excelente relação
palco/platéia, aquele palco baixo (para quem conhece, como o Anchieta, em São Paulo), a mostra trouxe ainda
o grupo pernambucano Magiluth, com dois espetáculos, elogiados por quem viu, mais a montagem Por que a
Criança Cozinha na Polenta?, dirigida por Nelson Baskerville e dois espetáculos da Cia. Brasileira, Oxigênio e
Isso Te Interessa?, este último eu vou ver hoje.
Cada vez mais, com os anos de experiência acumulada neste festival, acho que essa é a saída para o
Fringe, espaços com curadorias, cada uma delas com diferentes universos estéticos, cujos curadores trazem
grupos afins, garantindo assim ao espectador fazer escolhas mais seguras e uma qualidade mínima que, muitas
vezes, falta aos espetáculos do Fringe. Vi outros espetáculos sobre os quais gostaria de escrever, acompanhei
debates. Mas agora preciso ir ao teatro.

Abril de 2012