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ENTREVISTA DIALOGADA NÚMERO 2

Acadêmico: ​Guilherme Thiesen Netto


Curso: ​Psicologia
Disciplina: ​Estágio Supervisionado I
Canoas, Julho de 2018.

Legenda:
R - Paciente, 27 anos. Sexo: feminino.
G - Estágiário.

Primeiramente, vale ressaltar que a paciente R chegou de forma emergencial nas clínicas
Unilasalle e o estagiário G foi avisado do caso no andar inferior, chegando para os
atendimentos da tarde. Encaminhado pela secretária, foi passado que a paciente havia tido
tentativas de suicídio, e que estava "dopada" no momento em que esteve lá solicitando
atendimento, acompanhada por uma familiar.
Visto a complexidade do caso, foi marcada uma entrevista/acolhimento para o dia posterior.

No dia da sessão, G foi até a sala de espera buscar R, que estava acompanhada de sua tia.

G- Boa tarde, R. Bem-vinda. Pode se sentar nesta poltrona (indico a poltrona que fica mais
para dentro da sala, sendo que já havia deixado o formulário com a prancheta na poltrona
onde sento).
G- Gostaria de te explicar um pouco mais sobre os procedimentos aqui nas clínicas, afim que
a gente possa seguir com algumas perguntas iniciais. Toda e qualquer informação que for
tratada aqui, será mantida apenas entre eu e você - no máximo irei tratá-la com a minha
supervisora, para que ela possa me auxiliar com qualquer demanda que você necessitar.
R- Ok, doutor.
G- Me chamo Guilherme, sou estagiário de psicologia aqui nas clínicas e para começar, vou
pegar algumas informações básicas suas, como nome, telefone, etc - qualquer coisa que você
precisar falar, não tem problema algum, só me interrompa.

Neste momento são colhidas informações sobre as pacientes.


G- Perfeito, R. Gostaria de saber de você o que te traz até aqui…
R- Olha, doutor. Já faz um tempo que eu queria procurar este serviço, mas estive sem forças.
Estou passando por um momento crítico, de depressão, e já faz algum tempo que isso está em
mim.
G- O que está em você, R?
R- Olha, eu tive depressão pós-parto e foi muito ruim para mim, pois tomei medicações e
demorou um tempo para passar, para aquilo tudo fazer efeito. Depois, passaram-se alguns
anos e eu já estou com o meu terceiro filho, sendo que a mais nova tem 2 e o mais velho têm
7 anos. Tem dias que não consigo sair da cama, que só quero ficar deitada, sentindo nada…
Não consigo cuidar da casa, não consigo ter vontade de fazer nada, absolutamente nada.
G- Me conta um pouco mais sobre estes sentimentos que você se refere…
R- É uma coisa bem estranha, pois tudo ao meu redor parece que me sufoca. Por exemplo, eu
estou assim agora porque tenho um marido, motorista de UBER, que há uns dois anos me
trai, há uns dois anos têm relacionamentos com outras mulheres. Eu descobri isso há um
tempo e mesmo assim ele não parou. Continuamos vivendo juntos, pois ele ajuda a criar os
meus filhos, ajuda a pagar as contas. A situação lá em casa está assim…
G - Assim como, R?
R- Não consigo explicar, parece que não tem mais saída. Às vezes tenho vontade de sumir, de
morrer.
G- E como isso seria, R? Se você morresse?
R- (Fica pensativa)
G- Já pensaste em tirar a tua vida?
R- Já tentei tirar a minha vida, doutor.
G- E como foi isso?
R- Tomei uma caixa inteira de Diazepam na primeira vez e na segunda tomei uma caixa
inteira de Rivotril. Em ambas as vezes minha família me viu a tempo de algo acontecer e me
levou para o hospital, onde fiquei internada para fazer uma lavagem e em observação por
alguns dias.
R- Mas naquele momento, só queria morrer, só queria que tudo passasse.
G- O que poderia ter passado, R?
R- Todo este vazio, tudo o isso que acontece. Mas também pensei nos meus filhos e na minha
irmã, pensei que eles precisam de mim…
G- A sua irmã é próxima a você? Sua família também?
R- Meus pais já faleceram, mas a minha irmã mora comigo, têm esquizofrenia, foi
diagnosticada no final da adolescência, mas hoje está medicada e a minha tia que cuida das
medicações dela, e das minhas também, depois que resolvi tomar toda a cartela de
medicamentos.
G- Você tem algum outro histórico de atendimentos psiquiátricos os psicológicos anteriores?
R- Já tomei medicamentos antes, quando tive a depressão pós-parto, mas parei por vários
anos, dai depois quando tomei toda a caixa de medicamento. Agora, comecei o tratamento faz
7 dias e estou começando a me sentir melhor.
G- Você tem algum outro caso de doenças mentais na família? Algo que você lembre?
R- Sim! Minha mãe teve depressão, minha irmã tem esquizofrenia… Tenho dois primeiros
que também tem esquizofrenia… Ah, e meu pai bebia muito… Era agressivo em casa…
G- Pode me contar um pouco mais sobre como era o seu pai?
R- Ele bebia e ficava muito agressivo, usava todo o dinheiro para beber. Batia na minha mãe
bastante, e a gente já conhecia quando isso ia acontecer. Eu não lembro muito bem porque,
mas ele nunca encostou na gente, nunca bateu em mim.
G- E você lembra isso da infância e da adolescência?
R - Pois é, desta fase mesmo. Não posso te dizer que foi ruim, porque tive uma adolescência
legal, estava mais preocupada em trabalhar, sabe? Sai da escola no primeiro ano porque não
conseguia conciliar o trabalho com os estudos, mas resolvi continuar trabalhando porque
gostava bastante. Acho que foi a parte mais feliz da minha vida, essa de trabalhar, ter o meu
dinheiro, fazer as minhas coisas, sabe…
G- O que mais te fazia alegre?
R- Isso, de ter as minhas coisas, de ter meu dinheiro. Fico olhando para estas mulheres hoje
em dia, que trabalham, que tem suas coisas, acho isso muito bonito. Bonito mesmo. Eu queria
era poder fazer isso, mas sei que ainda não é o momento.
G- Mas esse momento pode chegar, R.
R- Eu sei, e quero muito isso. Quero muito poder sair para trabalhar, mas sei que este não é o
momento, que estou apenas começando a tomar os remédios. Mas quero sim, quero mudar…
G - Mudar o que, R?
R- Isso de ter dinheiro, de poder fazer minhas coisas. De voltar a estudar. Quero ver se
consigo fazer um cursinho de noite, porque tenho vontade de fazer enfermagem também.
G- Hoje em dia, qual a sua rede de apoio? Quem te auxilia com as coisas em casa, com seus
filhos… Qual a parte da sua família que está envolvida nisso?
R- Olha, eu não tenho ninguém, apenas a minha tia que cuida da gente com as medicações,
mas no resto, ninguém. Nem meu marido faz muita coisa, apenas busca os filhos da escola. E
eu não tenho vontade de cozinhar, às vezes deixo comida pronta de um dia para o outro. Mas
não tenho ninguém que eu possa contar os meus problemas, sabe… Nem com a minha tia
nem com ninguém.
G- Uma coisa importante que você pode começar a perceber agora, são as mudanças que
podem acontecer conforme você for seguindo o tratamento medicamentoso, tomando ele
certinho e fazendo terapia. A união disso pode vir a trazer diversos benefícios, que você vai
sentir aos poucos, sem pressa, mas que poderá te ajudar muito, principalmente em retomar
aos poucos aspectos da sua vida que você quer ter de volta…
G- Por isso, é bem importante que você vá tomando contato com estas vontades e
sentimentos que acontecem no teu dia a dia e que possa trazer para cá, para que seja
trabalhado em terapia, que este aqui possa vir a ser um espaço onde você possa trazer com
confiança segredos, vontades, enfim, o que você quiser.
R- Pois é, acho isso muito importante neste momento, doutor.
G- Como estamos chegando ao final, gostaria de te dizer duas coisas. A primeira é que você
pode contar com o nosso serviço de psicologia assim que quiser. Vou te passar agora os
horários que estamos aqui, porém, se eu não estiver. você pode ligar ou vir até para falar com
a psicóloga responsável. Se você sentir qualquer coisa, se tiver vontade de se ferir, ou ferir
outras pessoas, estaremos aqui para poder te guiar e dar suporte.
G- Irei levar o seu caso para a reunião com a minha supervisora e telefono para você na
próxima segunda-feira, para que possamos já marcar um horário. Importante que você venha,
para que a gente possa conversar mais e ir "pintando este quadro", olhando para o momento
que você está vivendo agora e tudo o que já passou.
R- Isso vai ser muito importante, doutor. Sinto que é o que preciso neste momento. Muito
obrigado por me escutar e me acolher.
G- Nos encontramos na próxima semana. Lembre-se, qualquer coisa, é só entrar em contato
conosco.