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CAPITULO 24

Roubar e Dizer Mentiras

A MÃE que teve diversos filhos sadios sabe que cada um dêles apresentou profundos problemas,
repetidas vezes, especialmente entre os dois e quatro anos de idade. Um dos filhos teve um período de gritos
noturnos de intensidade bastante severa, de modo que os vizinhos pensaram estar sendo a criança maltratada.
Outro recusou-se terminantemente a ser treinado em hábitos de asseio. Um terceiro era tão asseado e bom que
a mãe ficava preocupada não fossem faltar à criança a espontaneidade e a iniciativa pessoal. Ainda outro era
sujeito a terríveis explosões de cólera, talvez batendo com a cabeça contra obstáculos e retendo a respiração
até a mãe ficar completamente fora de si, e a criança ficar com o rosto azulado, tão próximo quanto possível
de uma convulsão. Uma longa lista poderia ser elaborada desse tipo de coisas que acontecem naturalmente no
decorrer da vida de família. Uma dessas coisas desagradáveis que sucedem e que por vezes dão lugar a
dificuldades especiais é o hábito de roubar

As crianças pequenas, com bastante regularidade, sub- traem moedas das bolsas das mães. Usualmente, não
há nisso qualquer problema. A mãe é bastante tolerante quanto à maneira como a criança opera, despejando o
conteúdo da bolsa e, em geral, misturando tudo. A mãe diverte-se com isso, quando se dá mesmo ao trabalho
de observar o caso. Poderá ter duas bolsas, uma que nunca está ao alcance da criança, enquanto a outra, mais
corrente, fica disponível para

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as explorações infantis. Gradativamente, a criança vai perdendo o hábito e nunca mais se pensa nisso. A mãe
imagina, muito corretamente, que é uma atitude saudável e parte da iniciação infantil em suas relações com a
mãe e as pessoas de modo geral.
Podemos facilmente perceber, contudo, por que encontramos, ocasionalmente, urna mãe realmente
preocupada quando o filho pequeno agarra coisas que pertencem a ela e as oculta. Já tivera a experiência do
outro extremo, o filho mais velho que rouba. Nada existe de mais perturbador para a felicidade de um lar do
que a presença de um filho mais velho (ou adulto) suscetível de praticar roubos. Em vez da confiança geral de
todos, de um modo despreocupado e fácil de deixar as coisas espalhadas pela casa, tem de haver urna técnica
especializada, no intuito de proteger os bens importantes, como seja o dinheiro, os chocolates, o açúcar etc.
Nesse caso, alguém está doente na casa. Muitas pessoas manifestam um sentimento bastante grosseiro quando
pensam nisso. Sentem-se iI)tranqiiilas quando são confrontadas por um roubo, igual ao que lhes sucede
quando a palavra masturbação é mencionada. À parte de terem-se encontrado com ladrões, as pessoas poderão
ficar verdadeiramente perturbadas pelo próprio pensamento do roubo em si, por causa das lutas que travaram
a respeito de tendências para roubar, manifestadas na própria infância delas. É em virtude dêsse incômodo
sentimento de roubo irresistível que as mães por vezes se preocupam desnecessariamente com a tendência
bastante natural das crianças para tomarem coisas pertencentes às suas respectivas mães.
Após uma breve meditação, notar-se-á que num lar comum e normal, em que no existe pessoa doente que
pudesse ser classificada de ladrão, ocorre na realidade uma enorme quantidade de roubos; só que não se lhe dá
o nome de roubo. Uma criança penetra na despensa e apanha um biscoito ou dois, ou serve-se de um torrão de
açúcar. Numa boa família ninguém chama ladrão à criança que faz isso. (Contudo, a mesma criança, numa
instituição, poderá ser punida por isso e ficar marcada em virtude das regras que vigoram aí.) Talvez seja
necessário que os pais estabeleçam regras, a fim de manter o lar em ordem, Poderão ter de elaborar uma lei

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segundo a qual, ao passo que a criança está sempre autorizada a ir buscar pão, ou uma determinada espécie de
bolo, é-lhe interditado servir-se de bolos especiais, ou de açúcar guardado na despensa. Há sempre certa soma
de reciprocidade nessas coisas, e a vida num lar consiste, em considerável medida, no estabelecimento de
relações entre os pais e os filhos, nesses e noutros termos semelhantes.
Mas a criança que, digamos, rouba regularmente maçãs e dispõe delas rapidamente, sem tue disso resulte
qualquer prazer para ela própria, está agindo sob urna compulsão e está doente. Pode-se-lhe chamar ladra.
Não saberá explicar por que fez o que fez e, se insistirem com ela por uma razão, mentirá. A questão é esta:
que está esse menino fazendo? (Certamente o ladrão pode ser uma menina, mas é bastante incômodo usar
ambos os pronomes de cada vez.) O ladrão não está procurando usar o objeto de que se apodera. Está
procurando uma pessoa. Está procurando sua própria mãe, e ignora-o. Para o ladrão, não é a caneta-tinteiro
das Lojas Woolworth, ou a bicicleta encostada ao gradeamento da casa do vizinho ou a maçã do pomar que
pode dar satisfação. Uma criança doente dessa maneira é incapaz de desfrutar a posse das coisas roubadas.
Está unicamente agindo segundo uma fantasia que pertence aos seus primitivos impulsos de amor, e o
máximo que poderá desfrutar é o desempenho da ação e a habilidade exercida. O fato é que perdeu contato
com a mãe, num sentido ou noutro. A mãe pode ou não estar ainda presente. Pode ser que ainda esteja, que
seja uma mãe perfeitamente boa e capaz de dar ao filho qualquer soma de amor. Do ponto de vista da criança,
porém, algo está faltando. Pode querer ibu&to à mãe, e até amá-la, mas, num sentido mais primitivo, ela
perdeu-se para o filho, por uma ou outra razão. A criança que rouba é uma criança em busca da mãe, ou da
pessoa de quem ela tem o direito de roubar; de fato, busca a pessoa de quem pode tomar coisas, tal como,
quando era um bebê de um ou dois anos de idade, tomava coisas da mãe simplesmente porque era sua mãe e
por causa dos direitos que tinha sobre ela.
Há ainda outro ponto: sua própria mãe é realmente sua, porque ela (a criança) a inventou. A idéia da mãe
surgiu

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gradualmente da sua própria capacidade de amor. Podemos saber que a Senhora X, que teve seis filhos, numa
dada época deu à luz o bebê Johnny, amamentou-o, criou-o, e depois teve outro filho. Contudo, do ponto de
vista de Johnny, quando ele nasceu essa mulher era algo por ele criado; ao adaptar-se ativamente às
necessidades do bebê, ela mostrou-
-lhe o que seria sensato criar, como a realidade de fato apresentava, O que a mãe dava de si própria ao bebê
tinha de ser concebido como tal, tinha de ser subjetivo para ele, antes da objetividade começar a ter
algum sentido. 1Fundamental mente, ao averiguarmos o fenômeno de roubar até às próprias raízes, podemos
concluir sempre que o ladrão tinha a necessidade de restabelecer suas relações com o mundo na base de
reencontrar a pessoa que, por ser dedicada a ele, compreendeu-o e está disposta a fazer uma adaptação ativa
às suas necessidades; de fato, para dar-lhe a ilusão de que o mundo contém o que ele pode conceber e para
habilitá-lo a colocar o que ele invoca precisamente onde na realidade existe uma pessoa dedicada, numa

realidade externa “compartilhad&. 3


Qual é a explicação prática disso? O caso é que o bebê sadio que existe em cada um de nós só gradualmente
fica habilitado a perceber objetivamente a mãe que por ele foi inicialmente criada. Esse doloroso processo é o
que se chama desilusionamento e não há necessidade de desiludir ativamente uma criança pequena; pelo
contrário, pode-se dizer que a boa mãe normal retém o desilusionamento e só o permite na medida em que
veja poder a criança aceitá-lo e acolhô -l favoravelmente.
A criança de dois anos de idade que rouba moedas da bolsa da mãe está brincando de bebê faminto que pensa
ter criado sua mãe e supóe ter direitos sobre ela e seus pertences. A desilusão pode vir com demasiada rapidez.
O nascimento de um novo bebê, por exemplo, pode ser um terrível choque dessa maneira particular, mesmo
quando a criança está preparada para o advento do irmãozinho ou irmãzinha e ainda que manifeste
sentimentos favoráveis em relação ao novo bebê. O súbito acesso de desilusão, a respeito do sentimento da
criança de que criara a sua própria mãe, que a chegada de um novo bebê pode provocar, dá facilmente iní-

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cio a uma fase de roubos compulsivos. Em vez de agir na crença de que tem plenos direitos sobre a mãe, a
criança poder-se-á encontrar tomando compulsivamente coisas, especialmente coisas doces, e ocultando-as,
mas sem realmente obter satisfação por tê-las. Se os pais compreenderem o que essa fase de um tipo mais
compulsivo de roubo significa, agirão4 com tato e sensatez. Serão tolerantes, para começar, e tentarão fazer
com que a criança frustrada possa, pelo menos, confiar em certa dose de atenção pessoal, num dado momento
de cada dia; e o tempo para começar a dar à criança uma pequena féria em dinheiro talvez tenha chegado.
Sobretudo, os pais que compreendem essa situação não cairão sobre a criança, como inquisidores ferozes,
exigindo uma confissão. Sabem que, se o fizerem, a criança por certo começará tanto a mentir como a roubar,
e a culpa será inteiramente dos pais.
Isso são problemas correntes em lares comuns e sadios, e na grande maioria dos casos a questão é resolvida
com ponderação; a criança que está temporariamente sob a compulsão de roubar coisas acaba recuperando-se.

Contudo, existe uma grande diferença, segundo os pais compreendam o suficiente sobre o que está
acontecendo, para evitar uma ação insensata, ou segundo eles achem que devem “curar” a roubalheira logo
nas primeiras fases, a fim de impedir que a criança se converta num ladrão confirmado, posteriormente.
Mesmo quando as coisas acabem por correr bem, o montante de sofrimento desnecessário a que as crianças
foram sujeitas, através da má orie’ht<ção desse gênero de detalhes, é tremendo, O sofrimento essencial é
deveras suficiente. Não é apenas a respeito de roubo. De todas as maneiras possíveis, as crianças que sofreram
algum acesso demasiado grande ou súbito de desilusionamento, encontram-
-se sob uma compulsão para fazer coisas sem saber por que, criar confusões, recusar a defecação no momento
correto, cortar as corolas das flores no jardim etc.
Os pais que sentem dever ir até o fundo desses atos e que pedem aos filhos que expliquem os motivos por que
fizeram isto ou aquilo aumentam enormemente as dificuldades das crianças, que nessa época já são bastante
intensas. Urna criança não pode dar a razão real, porque a ignora, e o

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resultado poderá ser que, em vez de sentir uma culpa quase insuportável, em conseqüência de ser mal
compreendida e censurada, sua pessoa se divida em duas partes, uma terrivelmente severa e outra possuída
por impulsos maléficos. A criança, então, deixa de sentir-se culpada, mas, em vez disso, transforma-se no que
as pessoas chamarão de mentirosa.

O choque de ter roubado a bicicleta de alguém nã é mitigado, porém, pelo conhecimento de que o ladrão
estav4 inconscientemente em busca da mãe. Isso é uma outra quéstão muito distinta. Os sentimentos de
vingança da vítima não podem ser ignorados, por certo, e qualquer tentativa de sentimentalismo sobre
crianças delinqüentes destrói a sua própria finalidade, ao incrementar a tensão de antagonismo geral para com
os criminosos. Os magistrados num juizado de menores não podem pensar apenas no ladrão como doente e
não podem ignorar a natureza anti-social do ato delinqüente, bem como a irritação que o mesmo deve
engendrar na parcela localizada da sociedade que foi afetada. Com efeito, exigimos um tremendo esforço da
sociedade quando solicitamos aos tribunais que reconheçam o fato de um ladrão ser um doente, de modo que
um tratamento, em lugar de uma punição, possa ser prescrito.

Existem, claro, muitos roubos que nunca aparecem nos tribunais, porque o assunto é resolvido satisfatoriamente no lar da
criança por bons pais comuns. Pode-se afirmar que a mãe não sente qualquer tensão quando o filho pequeno rouba alguma
coisa dela, visto que nunca lhe passaria pela cabeça classificar isso de roubo e facilmente reconhece como expressão de
amor o que a criança cometeu. Na orientação da criança de quatro e cinco anos de idade, Ou da criança que está passando
por uma fase de roubar compulsivamente, verifica-se, claro, certa tensão na tolerância dos pais. Deveríamos dar a esses
pais tudo o que pudéssemos, no sentido de uma compreensão dos processos envolvidos, a fim de os ajudarmos a
conduzirem seus filhos para o ajustamento social. Por essa razão é que tentei deixar aqui anotado um ponto de vista
pessoal, simplificando deliberadamente o problema a fim de apresentar numa forma que possa ser compreendida pelos
bons pais ou professores.
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