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Curso - Estratégias Didáticas na Alfabetização: (Re)pensando

Possibilidades para a Ação Pedagógica

Contribuições à prática pedagógica


Mesmo entendendo a heterogeneidade como um fato que incide sobre as diferentes esferas
do desenvolvimento humano – cognitiva, afetiva e social – neste texto, bem como nas atividades
formativas, consideramos mais producente centrar nossas discussões no aspecto cognitivo.
As informações sobre heterogeneidade, as quais focaremos no conteúdo desse encontro, indicam
que:
• Trabalhar considerando a heterogeneidade não é realizar um trabalho individualizado que
pressupõe planejar para cada aluno uma atividade diferente. Isso, além de não ser possível
na situação de aula, “significaria retroceder a um sistema de ensino individualizado, que
fecha cada criança numa relação unilateral com o professor e a impede de fazer
precisamente aquilo que é fundamental para o progresso da aprendizagem: interagir com
seus companheiros, confrontar com eles suas ideias sobre
os problemas que tentam resolver, oferecer e receber informações pertinentes”.* Portanto,
considerar que os alunos têm saberes diferentes pressupõe trabalhar em um sistema de
ensino que possibilite que esses saberes sejam compartilhados, discutidos, confrontados,
modificados. As propostas de atividades, ora iguais para todos, ora com variações, devem
permitir que cada aluno possa fazer novas descobertas a partir delas.
• É na interação que os alunos aprendem. Portanto, planejar situações didáticas em que os
alunos estejam agrupados criteriosamente e possam trocar pontos de vista, negociar e
chegar a um acordo é imprescindível no cotidiano da sala de aula. Nessa proposta o
professor deixa de ser o único informante e os alunos passam a ter também um status de
informantes válidos. Essa condição, além de permitir que todos avancem, possibilita uma
mobilidade maior ao professor dentro da sala de aula para atender os que precisam de mais
ajuda. Desse modo, poderá planejar esse atendimento de forma que, por exemplo possa
se dedicar a todos ao longo de uma semana.
• Agrupar os alunos deve ser uma ação intencional e criteriosamente planejada pelo
professor. Tal ação deve estar baseada em três aspectos: o conhecimento dos alunos sobre
o que se pretende ensinar, as características pessoais dos alunos e a clareza do objetivo
da atividade que se pretende propor. Deixar de considerar esses aspectos em geral resulta
em agrupamentos improdutivos, baseados na improvisação.
• Além de contar com os conflitos cognitivos que, naturalmente, o trabalho em parceria
provoca, o professor deve se preocupar em garantir que as atividades propostas sejam
“portadoras” de desafios, ou seja, que carreguem em si um problema a ser resolvido, para
que, na tentativa de solucioná-lo, os aprendizes coloquem em uso tudo o que já sabem
sobre o conteúdo da tarefa. Dessa forma, maiores serão as possibilidades de os alunos
progredirem em seu processo de alfabetização, mesmo quando não puderem contar com
a intervenção direta do professor.
• As atividades individuais, incontestavelmente, devem ter um lugar entre as situações de
aprendizagem propostas aos alunos, pois eles necessitam de espaços em que possam
trabalhar com suas próprias ideias. No entanto, são as atividades que potencializam uma
elaboração cooperativa do conhecimento que devem ser priorizadas.
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• Dadas as diferenças de saberes dos alunos, a maneira de intervir não deve ser a mesma
para todos. É preciso diversificar os tipos de ajuda: propor perguntas que requeiram níveis
de esforço diferentes; oferecer uma informação específica que promova o estabelecimento
de novas relações; ouvir o que o aluno tem a dizer sobre o que pensou para chegar a um
determinado produto; estimular o progresso pessoal.
• Se quer que os alunos assumam como valores a cooperação, o respeito às idéias e
maneiras de ser dos parceiros, a solidariedade, a justiça, o professor precisa atuar de
acordo com esses princípios – ou seja, demonstrar em sala de aula atitudes de cooperação,
de justiça, de solidariedade etc. – e criar um ambiente que traduza os valores que pretende
ensinar. Assim, por exemplo, se a cooperação é um dos valores a ser ensinado, não basta
discursar sobre o que são comportamentos cooperativos: é preciso que a aula transcorra
de fato em um clima cooperativo, no qual seja possível testemunhar e experimentar atitudes
desse tipo.
• Lidar com a heterogeneidade em sala de aula é um aprendizado para o professor. É um
aprendizado trabalhoso, pois, em geral, a ideia de classe heterogênea vai de encontro à
concepção tão difundida de que as classes homogêneas facilitam o aprendizado do aluno
e o trabalho do professor. Na prática, essa concepção, além de não facilitar o aprendizado
dos alunos, contribuiu para a desprofissionalização do professor que, ao delegar a
responsabilidade pelas aprendizagens dos alunos a fontes externas (métodos e materiais
seu papel no processo de aprendizagem.

É preciso então, que o professor assuma a condição de autor da própria prática pedagógica: aquele
que, diante de cada situação, precisa refletir, buscar suas próprias soluções, construir
novas estratégias, tomar decisões, enfim, ter autonomia intelectual. Trilhar esse caminho
exige estudo, reflexão sobre sua ação, auto avaliação, trabalho em parceria, intencionalidade e,
principalmente, disponibilidade para aprender e experimentar.
Destaca-se abaixo alguns exemplos de agrupamentos produtivos de acordo com as
hipóteses de escrita que cada criança se encontra.

SUGESTÃO DE AGRUPAMENTOS
Na fase em que começam a refletir sobre o sistema de escrita alfabética, as crianças devem
ser organizadas em agrupamentos produtivos, para que aprendam na interação com os colegas.
É de extrema importância a utilização das listas de palavras (As listas de palavras são
modelos estáveis de escrita e, por isso, servem para que as crianças sempre recorram a elas
quando necessário, por esse motivo a sugestão é que se disponha das mesmas em sala), no
processo de alfabetização das crianças e a necessidade de se fazer um diagnóstico das hipóteses
de escrita antes de planejar os trabalhos com agrupamentos produtivos.
Mas o que são e o que significam esses agrupamentos produtivos? No que eles podem
ajudar a aprendizagem das crianças e o que devemos levar em conta na hora de fazê-los?
O agrupamento produtivo está a serviço da heterogeneidade da sala de aula – no caso da
alfabetização, da diversidade da esfera cognitiva das crianças – e de que os pequenos aprendem
na interação com os colegas.
Nessa fase em que as crianças começam a refletir sobre o sistema de escrita alfabética, o
professor alfabetizador deve fazer agrupamentos de maneira planejada, intencional e criteriosa.
Portanto, para ser efetivo no planejamento desse trabalho, o docente deve:
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• Conhecer seus alunos, ou seja, saber em qual hipótese de escrita cada aluno se encontra (daí a
importância das sondagens);
• Conhecer as características pessoais das crianças (além de pensar nas hipóteses e as tarefas
que cada um irá desenvolver, o relacionamento da dupla precisa ser positivo);
• Ter clareza do objetivo da atividade que será proposta à dupla (essa atividade precisa ser
desafiadora e possível);
• Intervir nas duplas quando necessário (significa lançar perguntas à dupla para que possam refletir
e colocar em jogo tudo o que sabem para resolver o problema).
Destaca-se abaixo alguns exemplos de agrupamentos produtivos de acordo com as
hipóteses de escrita que cada criança se encontra.

1- Aluno com escrita silábica sem valor sonoro convencional + aluno com escrita
silábica com valor sonoro convencional
A criança que escreve silabicamente representa a pauta sonora por apenas uma letra. Se
essa letra realmente existe na sílaba é considerada convencional. Se não existe, é não
convencional.
Essa dupla é produtiva, pois a criança que escreve utilizando letras que correspondem ao
valor sonoro convencional pode ajudar seu colega que ainda utiliza qualquer letra a pensar sobre
o valor sonoro que é inato a cada símbolo. Porém há a necessidade de pontuar qual tarefa terá
cada um ao realizar a atividade, para que o silábico sem valor não apenas copie do amigo, mas
reflita sobre como escrever.
2- Aluno com escrita silábica com valor sonoro convencional + aluno com escrita silábico-
alfabética
A criança com uso da hipótese silábico-alfabética hora representa a sílaba com o número
correto de letras, hora não. Exemplo: em vez de escrever BONECA, ela escreve BONCA.
Nesse caso se torna uma dupla produtiva, pois a criança que escreve de forma silábico-
alfabética vai ajudar o colega a compreender que, para se escrever uma sílaba, são necessárias
duas letras, por exemplo.
Outras sugestões de agrupamentos:
Pré-silábicos com silábico-alfabético – o silábico-alfabético deverá falar o nome da letra para o
pré-silábico encontrar na régua, assim ele reflete sobre o nome e a identificação da letra e o
silábico-alfabético desenvolve a leitura.
Silábico-com valor – (vogal) deverá usar a régua de leitura para selecionar as consoantes,
problematizando o som da formação silábica.
(consoante) deverá usar a régua de leitura para selecionar as vogais, problematizando o som da
formação silábica.
Adaptação para aluno com necessidade educativa especial – Cadeirante com cognitivo
preservado e a visão apenas central, (alfabética) deverá ser fixada a régua na parede, assim
facilitará a manipulação do jogo.
1- Sapateira das palavras

Material: 1 sapateira ou potinhos transparentes


Palavras ligadas a um mesmo campo semântico ou tema (relacionado a uma história ou
a listas do livro)

Como jogar:
Na sapateira poderá ser apresentado diferentes temas, letra inicial, alfabeto concreto (foto), formar
palavras através das letras móveis previamente selecionadas, ou através de silabas móveis
previamente selecionadas...
Aqui propõe-se atividades a partir da apreciação dos personagens do livro “Todos no sofá”.
A criança poderá escolher, sortear, ou selecionar a partir de quadrinhas qual animal deverá formar
o nome. (a sugestão inicial é a partir de letras móveis previamente selecionadas)
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Variações: (1º ano) Agregar letras que não fazem parte da palavra a fim de criar desafios aos
alunos alfabéticos, solicitar que após montar os nomes dos personagens os registre no caderno
respeitando a ordem alfabética...
Para os pré-silábicos e silábicos sem valor, pode-se variar colocando as iniciais e duas outras,
a fim de que selecionem qual é a letra correta do inicio do nome do animal.
Para os silábicos com valor, procurar agrupa-los para que trabalhem juntos na formação das
palavras, cuidar neste caso para que os parceiros possam discutir ideias.
Identificar os personagens do jogo e nomear oralmente.
Encontrar a letra inicial das palavras. GATO
Encontrar a letra final das palavras.
Identificar o animal pelo som.
Identificar as rimas GATO, PATO, RATO.
Identificar números de letras
Separação de sílabas através das palmas.
Quebra-cabeça usando a figura e as letras.

ATIVIDADE PRÀTICA DO DIA


SOPA DE PEDRA
LIVRO: A sopa de pedra.

OBJETIVO: Incentivar a leitura; Respeitar o ser criança, contextualizando a ação de ensinar com
as necessidades de brincar que a criança tem; Escolher sílabas e selecionar as que formam
palavras.

DESAFIO: Colocar em jogo os conceitos de formação de palavras, escrever palavras


autonomamente de maneira espontânea com base nas sílabas sorteadas.

MATERIAL: História “Sopa de Pedra”, uma panela, uma concha, pratinhos, pedras (de papel) com
sílabas trabalhadas ou que ainda serão trabalhadas como desafio. Tabela de pontuação. Grupos
de quatro alunos.

DESENVOLVIMENTO: O grupo deverá sortear quem iniciará o jogo, para isso podem usar
quadrinhas, brincadeiras de escolha como por exemplo “dois ou um”. Escolhido o primeiro jogador,
este pega a concha e seleciona as sílabas com as quais o aluno deverá elaborar sua palavra
pensada, após anotar na sua tabela, contar o número de sílabas da mesma, essa será sua
pontuação. Os demais jogadores procedem da mesma maneira.
Ao final de quatro rodadas, deverão comparar seus registros e anotar os pontos obtidos.
OBS: Quem elaborar palavras maiores conseguirá obter o maior número de pontos, essa
informação não precisa ser avisada na primeira aplicação do jogo, mas é interessante instigar os
alunos a não produzirem somente palavras dissílabas.
As sílabas que sobrarem nos pratinhos poderão se juntar as das demais rodadas.

JOGO SOPA DE
PEDRA
PALAVRAS Nº DE
ENCONTRADAS SÍLABAS

AVALIAÇÃO: Através do registro escrito (tabela de pontos), atentar-se para as reflexões dos
alunos referentes à escrita.
Analisar conceitos que precisam ser retomados, sistematizados ou já consolidados.
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OBS: É importante ter um caderno para registrar esses dados, os quais poderão ser norteadores
do trabalho de intervenção futura.

MATA BARATA
LIVRO: A Dona Baratinha

OBJETIVO: Incentivar a leitura; Respeitar o ser criança, contextualizando a ação de ensinar com
as necessidades de brincar que a criança tem; Escolher sílabas e pensar em palavras que
comecem com essa sílaba sorteada.

DESAFIO: Colocar em jogo os conceitos de aliteração, escrever palavras autonomamente de


maneira espontânea.

MATERIAL: História “Dona Baratinha”, um chinelo de EVA com velcro, baratas com velcro e
sílabas trabalhadas fixadas nelas, ou que ainda serão trabalhadas como desafio. Tabela de
pontuação. Grupos de quatro alunos.

DESENVOLVIMENTO: O grupo deverá sortear quem iniciará o jogo, para isso podem usar
quadrinhas, brincadeiras de escolha como por exemplo “dois ou um”. Escolhido o primeiro jogador,
este recebe o chinelo e deverá batê-lo nas baratas, aquelas que ficarem presas pelo velcro
serão as sílabas com as quais o aluno deverá formar as palavras e anotar na sua tabela. Assim
que concluir o registro das suas palavras, devolve as baratinhas para o centro da mesa. Os demais
jogadores procedem da mesma maneira.
Ao final de quatro rodadas, deverão comparar seus registros e anotar os pontos da seguinte
maneira:
• Cada sílaba da palavra formada vale 1 ponto.
OBS: Quem elaborar palavras maiores conseguirá obter o maior número de pontos, essa
informação não precisa ser avisada na primeira aplicação do jogo, mas é interessante instigar os
alunos a não produzirem somente palavras dissílabas.
Acrescentar mais baratas com sílabas novas conforme o conteúdo trabalhado exigir.

JOGO MATA BARATA


PALAVRAS ENCONTRADAS Nº DE
SÍLABAS

AVALIAÇÃO: Através do registro escrito (tabela de pontos), atentar-se para as reflexões dos
alunos referentes à escrita.
Analisar conceitos que precisam ser retomados, sistematizados ou já consolidados.
OBS: É importante ter um caderno para registrar esses dados, os quais poderão ser norteadores
do trabalho de intervenção futura.

JOGO DA FORMIGUINHA
LIVRO: A formiguinha e a neve

OBJETIVO: Incentivar a leitura; Respeitar o ser criança, contextualizando a ação de ensinar com
as necessidades de brincar que a criança tem; Encontrar sílabas dentro do tempo estipulado, para
formar palavras trissílabas.
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DESAFIO: Colocar em jogo os conceitos trabalhados na formação das palavras, usar a leitura
como base na construção de novas palavras.

MATERIAL: História “A formiguinha e a neve”, apresentada às crianças com fantoches. Reconto


da história feito pelas crianças com os fantoches e/ou máscaras. Para o jogo: Uma formiga de EVA
por dupla, sílabas trabalhadas móveis repetidas pelo menos duas vezes e vogais repetidas cinco
vezes, uma ampulheta (pode ser confeccionada com duas bocas de garrafa e areia).
OBS: Ao confeccionar a formiga, levar em conta as características reais como três partes para
formar o corpo, duas antenas, seis patas... Desta forma será possível contextualizar com ciências.

DESENVOLVIMENTO: Cada dupla receberá uma tabela com três colunas, onde cada sílaba da
palavra formada será registrada, ao final de quatro rodadas, verifica-se quem ganhou, contando as
sílabas formadas, porém a pontuação será de acordo com:
• Sílabas simples: 1 ponto
• Sílabas com encontro consonantal: 2 pontos
• Sílabas com dígrafos: 3 pontos
Dado o início do jogo a dupla sorteia (par ou ímpar) quem irá iniciar a partida. O primeiro jogador
tem o tempo da ampulheta para montar sua palavra, poderá escolher qualquer sílaba disposta
sobre a mesa.
Acabado seu tempo a dupla analisa se a palavra existe e valida os pontos. O próximo jogador inicia
a sua jogada.

JOGO DA
FORMIGUINHA
AVALIAÇÃO: Levantar dados referentes às palavras que os alunos conseguem produzir com
autonomia, e quais estão apresentando dificuldades, a fim de elencar as futuras atividades
necessárias para que os alunos possam se desenvolver aprimorando seus conhecimentos.
Destacar quais conhecimentos se completam na sala de aula, a fim de melhorar os agrupamentos
nas próximas atividades de maneira que troquem saberes entre si, agilizando assim o processo de
alfabetização.

Postado há 19th June 2017 por Tatiana Cursos (http://prof-tati.blogspot.com/)

CAPOVILLA, A.G.S. Leitura, escrita e consciência fonológica: desenvolvimento, intercorrelações e intervenções.


Tese de Doutorado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1999.

ZORZI, J. L. Aprendizagem e distúrbios da linguagem escrita: Questões clínicas e educacionais. Porto Alegre:
Artmed, 2003.
FORMADORA: Tatiana de C. Schiavon
(tatiana.formacao@capivari.sp.gov.br)