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ESTUDO DE CASO DA BARRAGEM DE ALQUEVA

Camilla Baran
Estudante de Engenharia do Ambiente – Faculdade de Engenahria da Universidade do Porto,
milla_turon@hotmail.com
Marcus Vilar
Estudante de Engenharia do Ambiente – Faculdade de Engenahria da Universidade do Porto,
marcusvilar93@gmail.com
Vitor Ribeiro
Estudante de Engenharia do Ambiente – Faculdade de Engenahria da Universidade do Porto,
vitoraviani@gmail.com

RESUMO

A barragem de Alqueva é de fato um dos maiores ícones de reservatórios de água na europa. Antes de ser implementada
foi realizado um estudo para saber o potencial econômico de crescimento regional, quais os enquadramentos legais
sobre barragens e os impactes ambientais que são resultado dessa construção de modo a concluir sobre o custo benefício
desta barragem.

Palavras chave: aspectos econômicos, enquadramento legal, impacte ambiental.

ABSTRACT

Alqueva´s Dam Case Study – The Dam of Alqueva is one of the biggest reservoirs of water in Europe. Before being built,
some studies were realized in the attempt to know how much the region can develop economically from this reservoir,
what are the legal aspects about Dams and which are the environmental impact resulted from the construction of this
site to evaluate the cost benefit of this project.

Key words: economic aspects, legal framework, environmental impact.

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Introdução

A barragem do Alqueva está localizada no distrito de Beja, no concelho de Moura e na freguesia Alqueva (fig. 1). A
barragem juntamente com seu reservatório engloba o chamado Empreendimento de Fins Múltiplos do Alqueva – EFMA.
De acordo com a Nomenclatura Comum das Unidades Territoriais Estatísticas – NUTS (Regulamento (UE) 868/2014),
está situada na região do Alentejo. Além disso, a barragem se encontra no curso do Rio Guadiana, pertencente à bacia
hidrográfica de Guadiana. A obra foi concluída no ano de 2002 pela Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do
Alqueva SA (EDIA). A altura de sua fundação é de 96 metros e sua albufeira possui uma capacidade total que supera
qualquer outra da Europa, igual a 4 150 milhões de metros cúbicos. Ainda possui área inundada de 250 milhões de
metros quadrados e nível de pleno armazenamento igual a 152 metros. No que tange à central hidrelétrica, a potência
total instalada é de 240 MW, o que produz em média anualmente 269 GW de energia (Comissão Nacional Portuguesa
de Grandes Barragens).

Fig. 1 – Carta de localização da Barragem do Alqueva.

Impactos no desenvolvimento socioeconômico regional do Alentejo

O Alentejo, situado na porção Sul de Portugal, é considerado uma das regiões mais pobres e periféricas da Europa
(Veiga, 2007). Tratando-se de um destino emergente e não massificado, com quase 660 mil hóspedes em 2011 e em
franco crescimento ao longo dos últimos anos, este é seguramente um setor ao qual se reconhecem grandes
potencialidades de desenvolvimento (Agência de Desenvolvimento Regional do Alentejo). A agricultura tem sido a sua
principal atividade nos últimos séculos, tendo como principais culturas praticadas em 2016 o olival (56,27% da produção
total), o milho (7,82%) e a vinha (6,52%), segundo a EDIA, 2016.

Dito isso, a construção do maior lago artificial do mundo – a barragem do Alqueva – foi uma medida tomada com
objetivo principal de promover o regadio intensivo, funcionando como motor de desenvolvimento, além da eletro-
produção e a reserva estratégica de água para uso urbano e industrial (Melo, 2009). Essa construção foi alvo de diversas
contestações por ambientalistas e parte da sociedade civil desde muito antes de sua construção.

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É evidente que um projeto da dimensão de uma barragem provoca tanto mudanças positivas quanto negativas no
ambiente socioeconômico local. Os impactos proporcionados pelos projetos energéticos afetam as mais variadas
vertentes, tais como o abastecimento de água, a saúde da população, a energia, o turismo, o emprego, a economia, a
irrigação e o regime hidrológico local (Velosca, 2009). Estudiosos e especialistas da região afirmam que houve uma
mudança de paradigma na agricultura alentejana e a vários níveis: mais tecnologia; maior profissionalização;
diversificação de produtos; interação com o sector da indústria agroalimentar; produção para os mercados externos e
até uma modificação radical na paisagem, com impacto direto no turismo (Fragoso, 2017).

Impactos ambientais

Foi realizado antes da implementação da barragem de Alqueva alguns estudos de avaliação de impacte ambiental da
região de modo que a barragem fosse construída com o mínimo de impacto possível e estivesse enquadrada numa ótica
de desenvolvimento sustentável.

Alguns dos impactes no meio ecológico foram o da destruição de 250 milhões de metros quadrados de território só na
albufeira de Alqueva, áreas ou corredores ecológicos de diversas espécies raras e em risco de extinção como o Lince
ibérico, águia-real, Águia de Bonnelli, Cegonha-preta, Bufo-real, Gato-bravo, diversas espécies de morcegos e plantas
endêmicas, Lontra e Saramugo. Risco de contaminação biológica da bacia do Sado, elevados riscos de poluição dos
solos e dos aquíferos. Outros fatores também que foram afetados são a estrutura da comunidade da biota aquática. Os
impactos gerados no meio físico da região do Alentejo foram as características climáticas regionais e locais, os efeitos
gerados na agricultura e no conforto humano, além da mudança na geomorfologia, na topografia e na hidrologia.

Ao ser feito o balanço entre os impactos ambientais negativos e os impactos positivos na economia e desenvolvimento
da região percebeu-se que o projeto tinha um potencial positivo então realizou-se um foco na minimização dos prejuízos
causados ao meio ambiente e em atos de compensação. O empreendimento de fins Múltiplos do Alqueva estabeleceu
que para se ter um desenvolvimento sustentável da região de influência era necessário atuar em áreas definidas como
prioritárias na gestão ambiental que são:

-Avaliação de impacte ambiental;

-Preparação da área afeta às infraestruturas do EFMA;

-Acompanhamento ambiental;

-Monitorização ambiental;

-Gestão e exploração de recursos naturais;

-Ordenamento do território e desenvolvimento regional;

Sistemas de gestão na área ambiental.

Há também a reflexão sobre Alqueva na Agência Portuguesa do Ambiente. “A eliminação da barragem e


consequentemente do plano de água, colocaria em causa a satisfação das necessidades de água para consumo humano
de 200 000 habitantes, de vários concelhos, a produção de 520 MW de energia hidroelétrica e o regadio de 119 139 ha.
Acarretaria ainda, como impacte negativo o aumento do nº de captações subterrâneas, e por acréscimo a
sobreexploração dos aquíferos, provocaria impactes ambientais negativos devido ao desaparecimento do ecossistema
lêntico artificial, e o desaparecimento do reservatório de água com a consequente perda de valor paisagístico. Com a
eliminação da barragem desapareceria também a capacidade de regularização de cheias a jusante, com afetação das
respetivas povoações, estradas e terrenos agrícolas.”

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Aspectos econômicos do empreendimento

O Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva (EFMA) totalizou um investimento de 2,4 bilhões de euros entre 1995
e 2016 na região do Alentejo. As principais áreas econômicas afetadas foram: o abastecimento de água, a agricultura,
a agroindústria, a produção de energias e o turismo. Seguindo a sugestão da EDIA no Relatório de Sustentabilidade da
EDIA para o ano de 2016, são quatro dimensões fundamentais utilizadas para avaliar os impactos, a criação de riqueza
(VAB), o impacto sobre o emprego, os efeitos sobre o saldo orçamental público e os efeitos sobre o saldo exterior.

Para a fase de construção, a contabilizar as influências na economia nacional, estima-se um total de VAB acumulados
superiores a 2 bilhões de euros e efeitos de emprego no pico da atividade de construção na casa dos 10 mil postos de
trabalho, o que gerou receitas fiscais de mais de 690 milhões de euros. Apenas para o Alentejo, o total de VAB gerado
foi de cerca de 1,6 milhões de euros, representando 0,7%.

No setor agroalimentar entre 2006 e 2015, notou-se um VAB por volta dos 100 milhões de euros, receita fiscal de 22
milhões de euros e um aumento acumulado no saldo externo entre 125 e 345 milhões de euros.

No setor do turismo entre 2005 e 2015, o VAB acresceu 120 milhões de euros com receitas fiscais globais de 45 milhões
de euros.

Para o setor energético, entre 2006 e 2016 o VAB foi superior a 80 milhões e receitas fiscais de aproximadamente 32
milhões de euros.

No setor agrícola, a produção no período entre 2007 e 2015 gerou um VAB de 395 milhões de euros e custos laborais de
cerca de 79 milhões. Também criou 1100 novos postos de emprego movimentando 28 milhões de euros adicionais de
impostos. Quanto ao saldo externo o impacto foi de aproximadamente 458 milhões de euros.

Quanto ao abastecimento de água, até 2016 as vendas resultaram em 350 mil euros.

Entre 2006 e 2014 os impactos diretos do EFMA geraram nos setores agrícola, agroalimentar, de turismo e de energia,
em termos de produção, uma quantia de 1,1 bilhões de euros, além de um efeito de indução de investimentos que
ultrapassou 1 bilhão de euros.

Enquadramento legal

No âmbito de gestão hídrica, a Agência Portuguesa do Ambiente exerce as funções de Autoridade Nacional da Água e
de Autoridade Nacional de Segurança de Barragens. São utilizados inúmeros instrumentos para a gestão dos recursos
hídricos, nomeadamente o PNA (Plano Nacional da Água, Lei nº 58/2005), que abrange todo o território nacional, os
PGRH (Planos de Gestão de Região Hidrográfica) que abrangem as bacias hidrográficas integradas numa região
hidrográfica e envolvem processos de publicização e consulta. Além disso, existem também os Planos Especiais de
Ordenamento de Território (PEOT), o Plano de Ordenamento de Albufeiras (POA) e o Plano de Ordenamento da Orla
Costeira (POOC), que estão condicionados à aprovação pública (Veiga, 2007).

As principais legislações portuguesas aplicáveis às barragens estão resumidas e podem ser vistas no quadro 1 abaixo.

Quadro 1 – Legislação aplicável às barragens. Legenda: INAG - Instituto Nacional da Água, ARH – Administração da
Região Hidrográfica, CNA – Conselho Nacional da Água, ANA – Autoridade Nacional da Água.
LEGISLAÇÃO INFORMAÇÃO

Decreto-lei n.º 21/1998 É criada a Comissão de Gestão de Albufeiras, diretamente dependente do Ministério do
Ambiente e que tem como atribuição a coordenação do planeamento e exploração das
albufeiras.

Lei nº 58/2005 Aprova a Lei da Água, transpondo para a ordem jurídica nacional a Directiva nº 2000/60/CE,
do Parlamento Europeu e do Conselho e estabelecendo as bases e o quadro institucional para
a gestão sustentável das águas. Define as regiões hidrográficas, as competências do INAG,
ARH, ANA, CNA e estabelece os planos de gestão hídrica e o licenciamento ambiental

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Decreto-Lei n.º 226-A/2007 Determina, juntamente com a Lei da Água, normas de licenciamento ambiental e estabelece
o Regime de Utilizações dos Recursos Hídricos.

Lei n.º 11/2009 Estabelece o regime contra -ordenacional do Regulamento de Segurança de Barragens,
aprovado pelo Decreto -Lei n.º 344/2007, de 15 de Outubro

Decreto - Lei n.º 56/2012, Artigo 8º, nº 1 Define e cria os Conselhos de região hidrográfica - CRH

Decreto - 21/2018 Define os Regulamentos de Segurança de Barragens (RSB) e de Pequenas Barragens (RSPB) e
estabelece o quadro de atuação em vigor para controle de segurança das barragens
portuguesas.

Fonte: Autoria própria

Dessa forma, como previsto pela Lei n.º 58/2005 de 29 de dezembro, pelo Decreto-Lei n.º 226-A/2007 de 31 de maio,
e pela Portaria n.º 1450/2007 de 12 de novembro, a Licença/Concessão de Captação de Águas Superficiais da Empresa
EDIA S.A. pela utilização privativa do domínio público hídrico do EFMA para captação de água para rega e produção de
energia elétrica foi concedida e encontra-se em vigência atualmente.

Conclusão

“Não existe uma alternativa técnica e economicamente viável que se substitua à existente, ou seja não existe uma
opção que possa realizar as funções com o mesmo nível de garantia e que resulte numa opção ambientalmente melhor,
nomeadamente: i) Não é possível imputar/transferir estes consumos de água para outra albufeira, face à
indisponibilidade de volume útil para satisfazer os usos, e a construção das necessárias infraestruturas de derivação da
água tem custos incomportáveis; ii) A necessidade de garantir uma regularização interanual para assegurar o
abastecimento e a rega, não torna possível a construção de uma barragem de menores dimensões; iii) Atingir as metas
das energias renováveis para Portugal; iv) A substituição dos consumos para rega a partir de captações de água
subterrânea, com origem nas massas de água subterrânea, também não garantirá as necessidades hídricas, levando à
sobreexploração e à degradação dos habitat dependentes das águas subterrâneas. A implementação do regime de
caudais ecológicos, a jusante de Pedrógão, poderá minimizar os efeitos adversos para jusante.”

Referências bibliográficas

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VEIGA, Bruno Gonzaga Agapito da . Participação social e políticas públicas de gestão das águas: olhares sobre as
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VELOSCA DE, J. M. N. B. C.Os efeitos das grandes barragens no desenvolvimento socioeconômico local. Tese de Mestrado
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