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Por que tanta

insegurança?

Todos que se interessam, ainda que minimamente por educação e


psicologia, sabem que a nossa vida adulta é um reflexo direto das nossas
experiencias na infância. A maneira como nascemos, o afeto que
recebemos dos nossos pais ou primeiros cuidadores, nossa relação com a
família, etc., tudo isto traça um caminho do qual não nos desviamos
facilmente e se o fizermos, será por algo que nos incomoda
profundamente e precisamos parar e analisar. Logo, se sua experiencia
amorosa anda um tanto fracassada, se as frustrações se acumulam e a
única coisa da qual tem certeza é de que não quer que continue assim,
uma rápida análise de como foi sua primeira infância, de como foram suas
primeiras relações românticas, pode ajudar a enxergar os problemas e
partir para uma solução para sair do lodo emocional que talvez você

se encontre, ainda que num relacionamento


estável. afinal, não é porque casou que está
tudo 100% resolvido, certo?

Para começar, é preciso levar em


conta que muitos dos problemas
emocionais já aparecem na
adolescência, contudo, poucos dão
atenção a isto, talvez por ser uma
fase de formação e instabilidade,
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talvez porque os cuidadores achem que “vai passar”, ou seja lá qual for
a razão. Fato é que se você foi rejeitado quando criancinha, se chorava
e ninguém te atendia, se sofreu algum tipo de abandono, isto vai se
transformar em carência, insegurança e uma constante percepção
(ainda que errônea) de que não é digno de amor. Ter esta “certeza”
prejudica demais a sua vida e a de quem vier a conviver contigo que,
insistentemente declarará o seu amor, e você duvidará, com base das
sensações arraigadas no passado.

A maneira como você se vê, com enxerga quem está contigo ou


potencial candidato é profundamente influenciada pelas sensações
primarias. Dito isto é preciso dizer também com muita sinceridade que
mudar não é nada fácil. ah, não é mesmo! O que não significa,
entretanto, que é impossível. Afinal, o difícil só requer mais esforço.
Mas, sejamos bem sinceros aqui: está legal do jeito que está? Já não
está fazendo um esforço enorme para sobreviver neste lodo que virou
sua vida sentimental? Será mesmo que não vale o esforço da mudança?

Se achar que vale, segue aqui nossa


conversa que vai voltar uns 60 anos no
tempo, quando o psicanalista John Bowlby
começou a publicar suas ideias sobre os
sistemas de apego que a criança desenvolve
para sua sobrevivência. Hoje com um bebê
em casa, meu filho Theodoro, consigo ver
claramente as ideias dele no
comportamento diário do meu pequeno
que enxerga em mim e no pai o mundo
seguro dele. Cresci num ambiente onde se
dizia que crianças com muitos beijos e
abraços se tornam mimados, dengosos e
dependentes. Esta, aliás,
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era a ideia predominante de educação espalhada pelos quatro cantos o
que justificava uma mãe a deixar seu filho de 4 ou 5 anos aos berros na
porta de um colégio interno para ser criado e se tornar um “homem forte”
por outras cuidadoras sem o afeto maternal. Mas daí veio este psicanalista
e começou a jogar areia na vivência até então arraigada. Ele demonstrou
que as crianças que recebiam mais colo, atenção, que percebiam que seus
cuidadores estavam disponíveis física e emocionalmente para elas e que
eram atendidas rapidamente em suas necessidades, sem precisar ficar
horas chorando, se tornavam mais confiantes, seguras e propensas a uma
autoestima mais saudável. Parece tão óbvio para nós que lemos isto no
conforto de 2018, né?! Mas isto soou estranhíssimo para o público
naquela época e só duas décadas depois, com outros estudos e sobretudo
com o trabalho da pesquisadora Mary Ainsworth que começaram a levar a
sério as teorias de Bowlby.

“ quando criança e rejeitado quando adolescente, pelos


primeiros amores, que cria um mecanismo de
defesa você pode ter sido tantas vezes ignorado

Buscar o amor dos pais é instintivo e um quesito de sobrevivência para as


crianças, que mesmo ao crescer ainda têm isto como motor da vida. Aliás,
num funcionamento saudável de criação o pequeno busca os pais ao
menor sentimento de medo e insegurança e a partir do seu crescimento e
amadurecimento, transfere este apego para a figura romântica à qual vai
se associar. É desta resposta que o outro vai te dar ao você se aproximar
em busca de refúgio que você vai formando o seu estilo de apego,
segundo Bowlby, que os classifica de seguro ou inseguro. Se a resposta
não for o que você necessita, você pode entender (pois já

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o entendeu no passado) que não é digno de amor, que vai ser rejeitado
e isto causa tremenda ansiedade nos relacionamentos. Por outro lado,
você pode ter sito tantas vezes ignorado quando criança e rejeitado
quando adolescente, pelos primeiros amores, que cria um mecanismo
de defesa que ele chama de evasão, não se apegando de verdade,
como forma de autoproteção.
Vale dizer que ninguém é uma única coisa e embora um estilo de apego se
sobressaia ao outro, pode haver gotas dos outros três em você. Para
começar uma breve (e superficial) avaliação leve em conta os quatro tipos
de apego, segundo a teoria de John Bowlby:

Preocupado: alta ansiedade, baixa evasão


Temeroso: alta ansiedade, alta evasão
Indiferente: baixa ansiedade, alta evasão
Seguro: baixa ansiedade, baixa evasão

Numa escala de 0 a 10 onde 0 é “nada” e 10 é “totalmente”


como você classifica seu modo de sentir e se relacionar?

Ansiedade
relacionada ao apego
Ter uma total proximidade emocional com meu parceiro é tudo para mim,
mas as outras pessoas não querem estar tão próximas como gostaria e
meu desejo de tanta proximidade muitas vezes as assusta. Quando tenho
um parceiro, eu me questiono e me preocupo se não sou tão bom quanto
ele ou as outras pessoas. Estou sempre preocupado se ele não se importa
comigo tanto quanto eu me preocupo com ele. E também me preocupo o
tempo todo se meu parceiro me ama de verdade, se vai parar de me amar
ou se vai decidir me deixar. Preocupo-me especialmente se vai encontrar
alguém quando não estivermos juntos.
Avaliação:

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Evasão
relacionada ao apego
Sou uma pessoa independente e autossuficiente, então não preciso de um
relacionamento íntimo e comprometido. Quando estou em um
relacionamento assim, prefiro não depender de meu parceiro ou compartilhar
pensamentos e sentimentos profundamente pessoais. E isto me deixa pouco
à vontade quando meu parceiro quer depender de mim ou falar muito sobre
seus pensamentos e sentimentos. Quando tenho problemas, tendo a guardá-
los para mim mesmo e descobrir como resolvê-los por conta própria, e
preferiria que meu parceiro fizesse o mesmo.
Avaliação:

(fonte: Becker-Phelps 2014)

É hora de avaliar com sinceridade a sua relação de ansiedade e evasão nos


relacionamentos e, junto a isto, a dos seus parceiros anteriores e atuais.
Como funciona ou funcionava a dinâmica da relação? Você faz o tipo que quer
atenção exclusiva que sofre quando o outro não está o tempo todo em
contato contigo, que cria histórias e fantasia para justificar uma ligação
atrasada, uma mensagem não respondida, um encontro desmarcado? Já
reclamaram que você fica muito no pé, que é ciumento, que sufoca? Talvez
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o seu nível de ansiedade seja muito grande e a visão que tenha de si
mesma seja diminuta o que faz com que se esforce além da conta para
manter a pessoa perto, ainda que ela afirme e reafirme que te ame e que
não tem razões para neuroses.

Este comportamento pode levar a uma anulação do seu eu. Não é incomum
pessoas nesta categoria nunca dizerem a verdade sobre o que sentem com
medo de desagradar, de fazer sexo, por exemplo, como moeda de troca e não
por prazer e viver eternamente se sentindo em falta com o parceiro. O medo
da rejeição é um fantasma constante e a opinião dos outros (ainda que não
tenham de fato importância na sua vida) tem mais importância que sua
própria autoavaliação. Estas são características do Apego Preocupado.

Mas também tem a pessoa que nunca se apega a nada ou a ninguém.


Normalmente associados a animais que ciscam, estas pessoas mostram uma
autossuficiência na questão emocional, se irritando com a aproximação
insistente do outro. Prefere não se abrir muito nem expor suas fragilidades ou
sentimentos mais intensos e secretos, uma vez que tem medo de ser traído,
exposto ou rejeitado e daí começa um ciclo de distanciamento que gera no
outro mais insegurança ainda. Alguns nesta categoria preferem a
masturbação ao sexo de verdade e fogem de conversas que podem gerar
culpa. DR? Jamais! Estas características estão associadas ao Apego
Indiferente, que não parece não se interessar muito pelo amor.

Tem também o Apego Temeroso, rótulo associado às pessoas com um


medo crônico de serem rejeitadas ou excluídas. Com uma autoestima
violada, a pessoa desta categoria se considera sempre menos e embora
desesperada por amor e afeto, evita o contato com medo de ser repelido.
A angustia que sentem é tamanha que confundem o seu parceiro
romântico intercalando momentos de carinho e
aproximação com outros de distanciamento
repentino. O problema maior é que temerosas,
podem permanecer em relacionamentos abusivos
e violentos por considerar que a vida é mesmo
assim e que o outro faz um favor de estar com ela.
Toda e qualquer distância do outro é considerada
como mais uma confirmação de desinteresse,
ainda que não tenha nada a ver.
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Mas tem também o Apego Seguro, aquelas pessoas felizes no amor e
consigo mesmas. O que não significa, necessariamente que sejam perfeitas
e sem seus traumas, mas que lidam com seus parceiros e com a
autoimagem de uma maneira tranquila, sem cobranças excesso nem
neuras demasiadas. Conseguem manter uma distância equilibrada no
círculo social e emocional e dar espaço para o outro e sua individualidade.
São pessoas tranquilas quanto ao ciúme e sem grandes problemas na vida
sexual. O que faz com que este estilo seja o desejado por muitos, pode ser
o anseio deu uma vida amorosa normal e tranquila, mas o autor adverte
para o perigo de idealizar isto, uma vez que mesmo nos outros estilos de
apego é possível achar o equilíbrio. Uma pessoa que é insegura ano amor,
mas que encontra alguém que dá conforto, mimos e seguranças e os dois
são contentes assim é a combinação ideal.

Apesar de sintetizadas, releia as explicações para cada tipo de apego e pense


em qual você mais se encaixa para, a partir daí entender melhor a forma
como se relaciona, isto porque estamos sempre, desde crianças, buscando
refúgio em nossas figuras de apego. É normal que na primeira fase da vida
sejam nossos pais o nosso porto seguro, mas ao amadurecer este refúgio se
volta para nosso amor romântico que, eventualmente se torna nosso cônjuge.
É nesta figura que buscamos apoio para nossos sonhos e objetivos, que
desabafamos nossas dores e anseios e que ansiamos que esteja conosco nos
momentos felizes de euforia. Para a criança pequena isto é tangível, é
procurar o colo no menor sinal de perigo ou medo, como meu filho faz
comigo ao cair, ao ouvir um barulho muito forte que não pode distinguir e
como eu faço com meu marido em situações parecidas. Com a diferença de
que ao crescer, o simples pensar na nossa figura de apego já traz alivio e
conforto, enquanto com as crianças, isto precisa ser tangível.
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É curioso pensar em como os filhos do mesmo pai e da mesma mãe, criados
no mesmo lar podem ser tão diferentes. Para além das análises de
personalidade, leva-se muito em conta a maneira como os genitores lidaram
com os pequenos, uma vez que o primeiro tinha exclusividade e os sucessivos
filhos foram chegando num ambiente onde já tinha mais gente ocupando o
colo da mãe, por exemplo. Toda vez que penso nestas diferenças, hoje que
sou mãe, lembro da minha própria família e da diferença gritante entre eu e
meus irmãos no aspecto amoroso. Isto porque ao ser a primeira, por 4 anos
tive minha mãe à minha inteira disposição, não fui para creche e nem tive
outra cuidadora. Ao sair da roça na Bahia em direção à “vida melhor em São
Paulo” meus irmãos nasceram de uma mãe que precisava trabalhar fora o dia
todo, que nem sempre estava disponível para o colo do consolo, ainda que
quisesse, pois a panela no fogo não podia queimar, ou os patrões não teriam
almoço no tempo estabelecido e nem uma boa imagem da empregada.
Falando assim, só de raspão parece seco e cruel e, no fundo, para a emoção
dos meus pequenos irmãos, foi mesmo.

Obviamente, embora importante, à formação inicial se juntam as experiências


com os amigos na adolescência, o acolhimento de professores, pastores e
outros guias espirituais e, pasme, até a sua relação com Deus (ou Ser Superior
como alguns denominam). Sim, identificar a sua forma de apego, trazer para a
memória atual as lembranças do passado e perguntar aos familiares como era
nos seus primeiros anos de vida pode te ajudar a identificar o seu
comportamento atual, mas, é preciso enfatizar, isto não
é determinante. Saber de tudo isto é ferramenta na construção de uma
pessoa melhor e este aperfeiçoamento é você quem tem que fazer, sem
ficar eternamente culpando os outros pelos problemas de hoje.

“aperfeiçoamento
é você quem tem que fazer,
sem ficar eternamente
culpando os outros
Por exemplo: você soube ou se lembra que seus pais
não eram muito carinhosos, que caçula numa família
de 4 irmãos você ficava um tempão chorando no berço
até alguém aparecer para te pegar e consolar. Que
seus irmãos brincavam com seus medos e seus pais
nem notavam sua aflição. Você então se sentia
rejeitada, indigna de amor e cuidado e ao crescer foi se
tornando mais introspectiva e carente. talvez, somado
a isso, você ainda é tímida e não fez muitos amigos na
escola e na adolescência, enquanto todas as amigas
namoravam, sentia que ninguém te olhava ou se interessava por você. Seu
primeiro namorado, ainda moleque, não era o mais romântico do mundo,
como o da garota mais popular da escola e você foi reforçando a “verdade”
de que não era suficiente, que precisaria entregar tudo de si para alguém te
querer e mesmo ele dizendo que te amava, no fundo sentia que não era
verdade. Talvez ele tenha se cansado da sua insegurança e o namoro não
tenha ido pra frente, logo, reforçou mais uma vez que você não tinha muitos
méritos para ser amada. No próximo relacionamento, você já começa se
sentindo menor. Se ele se atrasava para um compromisso, na sua cabeça era
certa a ideia de que não se importava com o relacionamento de vocês, e nem
pensava na possibilidade de o trânsito estar mesmo ruim, do trabalho ter
segurado ele além da conta ou outra variável. Talvez esteja casada hoje e
sente que seu marido não a entende, não a valoriza e que você não é mesmo
a pessoa mais digna de amor. Para manter este relacionamento, se frustra,
não fala tanto dos seus sonhos para não ser rechaçada ou renegada, engole
seus medos e talvez o sufoque cobrando sempre por carinho e atenção que
nunca serão suficientes.

Este é só um quadro e, tal qual somos tão variados, os efeitos da nossa figura
de apego podem se modificar, mas só podemos nos “resolver” ao entender
quem somos, o que nos fizeram e o que podemos fazer com o que fizeram de
nós. Mas para isto, vamos conversar mais para a frente mostrando as
soluções possíveis para cada estilo de apego ser mais seguro no amor.

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