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r li 11111111111111111111111111111111111 111

Escola de Administração de Empresas

da
de são Paulo
)
Fundação Getúlio Varg,as

---- .~.

Lafayete de Paula Figueira

Weber e a Teoria das Organizações:

A Questão da Racionalidade

Fundação Getulio Varg~5


Escola de Adminisb"aç.ao
de Empresas de SAIo PiIII •• lo .
Bihliotef::a

1198301247
.-~,-~ -

Dis~ertaçãoapresentada ao CursO de
Pós~grad~ação da EAESP/FGV - Ãrea de
Concentração: Teori,~ e comportamento
Organizacional, comq requisito para
obtenção do título de mestre em Admi-
\ .
nistração.

orientadora: Profa. Yolanda Ferreira Balcão

são Paulo
·1982
,.
1 .

-: ;.

WEBER E A TEORIA DAS ORGANIZAÇÕES:


,
A QUESTÃO DA. RACIONALIDADE

Banca examinadora:

1?rof. orientador: Profa.·· Yolanda Ferreira Balcão

Prof. •
{
Prof.

\ \:
..
aos meus pais,

mestresdeàmor e arte

..
·' ..

~
Agradeço a

Aleta

Elvira

e Teca

os anjos daguar.da
,
.::<t
.:! ~\..i
do _-_
emocional; ,

.Ór-Ó:

jj'"

e à Yolanda

a orientação intelectual e
".
'; I'·
":

O apoio moral

as mulheres ainda vao dominar

o mundo ...
\" :;

. ,,~

t_

1-
o ~enho~ v~ pondo ~eu pe~ce~e~~ A gen-
te vive ~epetido, o ~epetido, e, e~co~
~eg~vel, num mim minuto, j~ e~t~ empu~
~ado noutno galho. Ace~ta~~e eu com o
que depo~~ ~abendo 6~que~, pana delâ
de tanto~ a~~ombno~ ... Um e~t~ ~empne
no e~cu~o, ,; no ~lt~mo de~Áadeino e
que cla~eiam a ~ala. Vigo: o neal nao
e~t~ na ~aZda nem na chegada: ele ~e
di~p~e pa~a a gente i no meio da tna-
ve~~ia .

o que vale,~ão outna~ coi~a~. A lembnan


ça da vida da gente ~e gua~da em tne.-
cho~ dive~~o~, cada um com ~eu ~igno e
~entimento, un4 com o~ outno~ acho que
nem não mi~tunam. Contan ~eguido, ali-
nhavado, ~; me~mo ~endo a~ co~~a~ de
~a4a impontancia. Ve cada vivimento que
eu ~eal tive, de aleg~ia 6o~te ou p~-
~a~, cada vez daquela hoje vejo que eu
e~a como ~e 6o~~e. d~6enente. pe4~oa. Su
cedido de~govennado. A~~~m eu acho, a~
~im i que eu conto.

Tudo o quej~ 6oi, é o começo do que


vai vi~, toda a ho~a a gente e~t~ num
cômp~to. Eu pen40 i a~~im, na pa~idade.
O demônio na nua ... Viven i muito pen~
go~o; e nao i não. Nem ~~i explican e~
ta4 coi4a~. Um ~enti~ i o do 4entente,
ma~ ouxno ê. o do 4ent~don. O que euqu~
~o, é na palma da m~nha mão.

Guima~ãe~ Ro~a - Gnande Se~tão:Veneda4


íNDICE

Introdução

Capitulo 1 Considerações teóricas: as organizações

* Alguns aspectos relevantes, 02

* Desdobramentos da análise da burocra -

cia, 05

Capitulo 2 - Weber, ciência e tipo ideal

* A atualidade da obra de Weber, 24

* Algumas considerações sobre ciência e

sociologia em Weber, 30

Capitulo 3 - A racionalização do comportamento

* O Capitulo I de "Economia e Sociedade,

46

* A racionalização da conduta, 56

Bibliografia, 73
JNTROVUÇÃO
II

lNTROVUÇÃO

A monografia apresentada enquadra-se na

Categoria "A" - das."normas para a apresentação da prQ

posta de dissertação" (Coordenadoria do C.M.A. - 05.04.

1974) :

Categoria "A" - Dissertação de Anilise

Teórica

Tipo I - Simples organização coerente

de idãias, originadas de bi-

bliografia de alto nível, em

torno de um tema específico .

A monografia ãe exatamente isto. O "tema específico"


..
e

a anilise da racionalidade em Weber.

Algumas considerações sobre o trabalho

devem ser feitas. Entre a intenção, o projeto, e a sua

concretização esti a "travessia" de Guimarãres Rosa.


111

o objeto original da dissertaçio era a

análise crítica da teoria das organizações, atravésda

li sociologia compreensiva" de Max Weber. Isso seria fei

to em quatro etapas:

1. Exposiçio brev~ da teoria weberiana, com

ênfase na metodologia e concepção de ciên-

cia, visando a recuperaçio da proposta .0

riginal do tipo ideal de burocracia.

2. Análise das apropriações sofridas pelo

conceito de vurocracia em algumas teor~

organizacionais de cunho estrutural-fun-

cionalista e sistêmicé.

3. Crítica dessas teorias à luz do tipo ideal


de burocracia.

4. Exame de possíveos alternativas teóricas

para os estudos organizacionais, com pri

vilégio ao problema da "reificação" na

teoria das organizações. A busca das al-

ternativas seria decisivamente influen -

ciada por Weber, óbvio, por Silverman

(1975) e por Berger e Luckman (1973).

Do projeto original pouco foi consegui

do. O objeto ficou restrito ao esboço do relacionamen


IV

to entre a burocracia e algumas teorias organizacio -

nais (estruturalistas e behavioristas), no Capítulo 1

da dissertação.

No Capítulo 2 é feita uma abordagem do

pensamento weberiano - ciência, metodologia, tipos

ideais. A questão central do capítulo é a concepção de


ciência de Weber.

o Capítulo 3 gira em torno da análise

weberiana da ação social e da racionalidade. O Capítu

lo é apoiado na parte introdutória e conceitual da

~'Economia e Sociedade" e na exposição das teses da .

"~tica Protestante e do Espírito do Capitalismo".

Em resumo, essa dissertação é uma ten-

tativa de penetrar uma pequena parte do universo in-

telectual de MaxWeber.

O que foi conseguido? Pouco. Muito po~

co, Mas já é um início.


~ .

.
' , .

", .. -.

,
CAPfTULO 1 - CONSIVERAÇé'JES.TEORICAS:ASORGANIZAÇé'JES

.'
2

(
1 - A!gun.6 CU> oeexos Jte.!e.va.n.te..6

A administração se concretiza quando e

xistem .pessoas que têm a sua atividade de trabalho

planejada, coordenada, organizada e controlada por ou

tras,isto i, quando pessoas se submetem e/ou são sub

metidas a urna disciplina.

Essa situação se instala, de forma per

manente, na esfera da produçã~, com o advento da manu

fatura (Marx, 1959; Marglin, 1978) na Europa dó sicu-

lo xv. A utilização da maquinaria na fábrica da Revo-

luçãolndustrial vai configurar, definitivamente, 'a

separação entre o trabalhador e as condições objeti

-vas/materiais do processo de trabalho, condição nece~

sária ao aparecimento da categoria social de adminis-

tradores e de um corpo de conhecimento administrativo.


3

Na unidade de produção (fábrica), o

trabalhador assalariado ("funcionário") confronta-se


,
com as condições materiais .de trabalho -- local de

trabalho, matéria-prima, instrumentos e máquinas, pr~

cessos produtivos (tecnologia), tempo (jornada de tra

balho), produto acabado (mercadoria) -- como proprie-

dade e/ou controle alheios.

Aqui nos deparamos com uma encruzilha-

da teórica. A análise do processo de trabalho, sob a

ótica da alienação, foi feita por Marx e Weber, além

de outros autores.

Para Marx (O Capital, Vol. I, 3a. e

4a. seções) o "processo genérico de trabalho" assume,

historicamente, a forma de "processo de, produção de

mercadorias", unidade dialética de "processo de·proa~·

ção" de valores de uso e "processo de valorização" do

capital. A "geração" da mais-valia na produção e sua

"realização" na circulação das mercadorias constituem

as fontes das relações sociais, características do Mo

do de Produção Capitalista. '

Para Weber (Ensaios de Sociologia, In-

trodução, Partes I e lI), a análise das sociedades

históricas, através da polarização "carisma-burocra

"
4

cia", configura o "processo de racionalização" das so

ciedades modernas, em que o "Estado" e o "Capita1is -

mo" seriam as expressões máximas deste processo. Como

instrumento de análise, o douto acadêmico cria o tipo

.ideal de burocracia, cujo conteGdo i a racionalidade.

Para Weber, a racionalização do mundo i·concomitante.

ao processo de alienação entre "funcionário" e pro-

priedade e o éontro1e dos meios de produção ou de·ge.§.

tão.

A açao do administrador toma corpo,tor

na-se real, quando uma dominação concreta sobre produ

tores dependentes, destituídos de propriedade e con -

ttole, torna-se "fato socià1", "aceita sem discussão",

em sociedades históricas. Já no início da teorização

sobre as organizações, Fayo1 (1970, p. 39) dizia que

_ "';:.::_, ê~, ·'a=:admin·is,tração


pr Lo.rf t.ertkament.e.
$e:: ;exerc:e'_
aoore- pes.tti:r"' __:;:· ;C,·c:::... !;;:).:.".

soas (recursos humanos). As· outras manifestações de

··!'recursosescassos" na· empresa .- -fí.rranced ro , .mate-- .

ria1 etc. - segundo Marx, constituem formas mortas

que somente são ativadas, "valorizadas", pelo toquef~

cundador do trabalho vivo.

A eficiência, a eficácia, a produtivi-

dade das organizações, propostas pela Teoria Geral da

Administração, como resultado da "ação científica" do


5

administrador, constituem manifestações da racionali~

dade funcional ou burocr~tica que, segundo Weber

(1971, p. 230-231 e257 a 260), se ap6ia na "separa -

çio entre cargo e ocupante". Esta caracterIstica do

tipo ideal de burocracia é que torna o aparelho buro-

cr~tico especificamente racional e define a burocra -

cia em relaç~o aos outros "aparelhos" tradicional e

carism~tico.

Para a monografia adotaremos, como pon

to de partida, o enfoque weberiano, j~ consagrado na

Teoria das Organizações.

A) O trabalho acadêmí.co para a cons t ru

"'1 ~ " -: • .,
:'. ; ~~p, .,fl:e:t ~~é!~tt-E?:o,r,i
a daa ~·;Or-;(::E~-R~?'
zaç,ões.tem , consç ient~n~n-~ .':
..::
'-,

te ou nio, como referência, o "modelo" da burocracia,

extraI do da metodologia e da sociologia da dominaç~o

de Max Weber.

O "tipo ideal" de burocracia é utiliza

do, por Weber, como instrumento de método para an~li-

se (e comparação) das estruturas de poder em socieda-

des hist6ricas, tendo como embasamento te6rico a defi

niçio e evolução do "significado da racionalidade".


6

Num esforço gigantesco e cuidadoso (vide como exemplo,

a construção dos tipos ideais de "capitalismo", "puri

tano" e "itica protestante", efetuado em A ttica Pro

testante e o Espírito do Capitalismo) Weber busca es-

tabelecer relaç6es, por exemplo, entre as esferas da

religião, da política e da economia, para o entendi -

mento da racionalidade e sua manifestação mais impor-

tante o capitalismo -,-, na sociedade ocidental con

temporânea.

A burocracia i util~zada como "modelo

prescritivo" para as organizaç6es, isto i, as organi-

zaçoes, para serem racionais, eficientes, devem ter

as características listadas por Weber - divisão do

trabalho, saber especializado, hierarquização, rotini

zação, formalização, impessoalidade, previsão e docu-

; ~'.:r-;':':r T rment.açâo de decis6es e 'at:ivi~datres = ::: ga::rantirrdo:


,:etd.~,-~ ".=:-::> "',-"

essas características estruturais a rapidez, a unifor

- m.Ld'ade , a estabilidade e a mí.namí.a açâo -de atritos na-

atuação do staff burocrãtico e a previsibilidade do

comportamento dos membros do aparelho, os funcionã

rios. k Teoria Organizacional desenvolve-se atravis

da anãlise, crítica, negação ou e'xparrsáodo "modelo"

de burocracia, de suas potencialidades e conseqüên

cias (disfuncionaisou não) para a vida das organiza-

çoes e para os padrões de liderança, motivação ou in-


7

tegração e adesão de seus membros.

Essa inflexão do tipo ideal de burocra

cia, de instrumento de método para modelo organizacio

nal, é analisada no artigo de Carlos Osmar Bertero -.

Influências Sociológicas e Teoria Organizacional (RAE

- 15(6), nov./dez., 1975) que nos fornecerá subsídios

interessantes para a evolução do trabalho. No artigo

o autor faz, entre outras, estas considerações:

1. Apesar de todas as críticas dirigi-

das ao modelo burocrático (princi -

palmente quanto à fundamentação em-

píri~a) "ele contém todas as variá-

veis que, a partir da década de 60,

passaram a ser pesquisadas pelos e~

truturalistas. Sob estes aspectos os

trabalhos de Hall, Haas e Johnson,

bem corno as pesquisas do grupo As-

ton ,foram concebidas pelo menos com

a intenção de refutar empiricamente

o modelo weberiano".* S~gundo o au-

tor do artigo, o modelo weberiano es

capa incólume destas investidas.

* Os textos ent~e aspas sao transcrições literais


do artigo citado.
8

2. "Os trabalhos gerados pelas teorias

de embas~ento fixaram-se claramen-

te nos estudos de estrutura ou for

mato organizacional tentando, esta-

tisticamente relacionar as várias ca

racterísticas das organizações." As

sim existe a opção pela análise co~

parativa das organizações, abando

nando-se a tradição do "estudo de

caso" na area.

3. O autor realiza urna listagem comen-

tada de estudos comparativos das or

ganizações, envolvendo variáveis de

processo, variáveis estruturais e

variáveis comuns (estrutura e pro-

cesso). A listagem é reproduzida a

seguir.
9

Quadro l-Variáveis e estudos organizacionais escolhidos

Hierarquia de autoridade x x x 3
Divisão do trabalho - es-
pecialização 2 X X x X X 5
Regras e regulamentos 3 X X 2
Procedimentos 4 X X 2
Impessoalidade 5 X 1
Diferenciação hierárquica ou
vertical 6 X x X 3
Dispersão espacial: localização 7 X X 2
Formalização (ênfase na
utilização da comunicação
escrita) 8 X x X 3
Autonomia organizacional 9 X X 2
Complexidade da estrutura de
tarefas 10
Diferenciação horizontal 11 x x X X 4
Tamanho 12 X X X X 4
Complexidade tecnológica 13 X X 2
Profissionalização 14 X X 2
Burocratização 15 X X X X X X X
Eficácia organizacional 16 X X X 3
Padronização 17 X X 2
Adaptação ao meio-ambiente
- f1exidade 18 X X X X 4
Formato organizacional 19 X X 2
Descentralização - delegação 20 X X X 3
Centralização 21 X X X 3
Propriedade e controle 22 X 1
Origem e história 23 X 1
Tecnologia 24 X X X 3
Recursos organizacionais 25 X 1
Interdependência - auto-
nomia - dependência 26 X X "";2:}w
Lucratividade 27 X 1
Produtividade 28 X 1
~oral 29 X 1
Posição de mercado 30 X 1

AI NaD. Rich ••.d H. T1w:ececept o(bureaccncy: I.D cmpirica1 •••••• ni.DI. A.",mc."J"",..,,]
cf Sociology. T. 69. e. 1. lu Ir 1%3.
DI RoD. R. H .. H.aas. V. E. &loM""D. N. Y. OrganiuriooaJ síze, compla:if! and
formalizatiOD. A.mtrica1lSociologicuJ R~i,..,. Y. 32. n. 6. Dec. 1967.
o H~.brand. Wolf. Hospisal bur"""CT4CY. N••• York. Dunelle N. Publi>hen. 1913.
DI Blau. Peter & Schoenherr. R. TIo, srn.a",.. of or,tl"u"UOlU. N•••· YOI'L Basic Booc..
1971.
El Dlau. Peter, TIo, o'l"ftWr'ioft of 4ald",u< ....,..t. N•••. Yort. lohn Wiky & Sons. 1913.
f1 Dois artigos tomad~ dentre os trabalhos do grupo de Aston: A eonceprual scbeme te.
organ1.z.anonal anatysis. A.dlPtinUtran:tI'r ScirPl~ Qw.attrrry. Y. 8. Dee. ]%3. e Dimensiom
aforpDiutio"al structcre. A.d",j.wrNlU~ Sei....,. a...• "n/y. T. 13. luo. 1%8.
10

Ane.xo 1

A) Va~iãve.i~ e.~t~utu~ai~

1. Hierarquia de autoridade

2. Divisão de trabalho - especialização

6. Diferenciação hier&rqu~ca ou vertical

7. Dispersão espacial - localização

8. Formalização

10. Complexidade da estrutura de tarefas

11. Diferenciação horizontal

12. Tamanho

13. Complexidade +ecno Lôç í ca

15. Burocratização

17. Padronização

19. Formato organizacional

23. Origem e história

B) Va~iãve.i~ de. p~oc.e.~~o (6unc.ioname.ntoJ

5. Impessoalidade

16. Efic&cia organizacional

27. Lucratividade

28. Produtividade

29. Moral

30. Posição de mercado


11

C) va~~ãve~~ eomun~ (e~t~utu~a e p~oee~~o)

3. Regras e regulamentos

4. Procedimentos

9. Autonomia organizacional
~
14. Profissionalização "

18. Adaptação ao meio ambiente - flexibilidade

20. Descentr~lização

21. Centralização

22. Propriedade e controle

24. Tecnologia

25. Recursos organizacionais

26. Dependência - autonomia - interdependência

Quadro 2 - Variáveis e sua classificação

Variáveis estruturais -(13) - 1,2,6,7,8. 10.11.12.13.15. 17,19,


23.
Variáveis de processo= (6) - 5, 16. 27. 28.29. 30.
Variáveis comuns - (11) - 3, 4.9. 14. 18. 20. 21. 22. 24, 25. 26.

Quadro 3 - Variáveis classificadas e distri~uição para cada

grupo de estudos

Grupos Estruturais Processo Comuns Total

A 4 1 2 7
B 5 o 2 7
C 5 1 4 10
o 9 1 3 13
E 5 o 4 9
F 9 5 7 21

(Extraído de: RAE - nov./dez., 1975, p. 32-33).


12

B) As tentativas de origem estrutural-

-funcionalista, para o estudo das organizações, mere-

cem mais algumas considerações. Alguns autores estru-

turalistas centram a análise no conflito e na aliena-

ção organizacional.

A alienação (apenas ausência de motiva

çao e criatividade devido ao caráter da divisão do

trabalho na produção) decorre sa separação entre ope-

rário e instrumento de trabalho. Neste ponto a análi-

se weberiana é recuperada, os membros da organização

estão separados dos meios de produção gestão, pes-

quisa, violência _. sejam eles operários, administra-

dores, cientistas ou oficiais militares. A organiza -

ção racional define os objetivos e os instrumentos a-

dequados à sua consecução. A alienação é vista como i

nevitávei:''<'pre'çO--'do
progresso na 'Sociedade das organi

zações?) e necessária ao controle e racionalidade or-

ganizacionais. O controle e a racionalidade, com base

na alienação, tornam a organização uma unidade de con

flitos (burocracia X individuo, formal X ~nformal, bu

rocratas X especialistas) como bem expressa a obra de

Etzioni (1974 e 1973) e Blau-Scott (1970) ou permitem

a objetivaçãó do "circulo vicioso da burocracia" ana-

lisado por Merton (1970), Gouldner (1954) e Selznick

(1949) integradas e também reduzidas-simplificadas co


13

mo "modelo de mãquina" da burocracia por March e

Simon (1970).

Os estruturalistas, no que toca ã teo-

ria burocrãtica, sofrem de uma limitação grave: ficam

apertas na crítica, situam-se .ao nível da alienação e

do conflito, mas não conseguem indicar alternativas.

A alienaçã6 i considerada necessãria ao controle e ra

cionalidade administrativos, mas a alienação "estrut~

ralista" i psico16gica, i a ausincia de motivação. O

O conflito e seus diversos níveis são estud~dos e ti-

dos como inevitãveis. Mas não devem ser escondidos. Co

mo bons escoteiros, os administratdores não devem ma-

nipular ou esconder as divergincias de interesses, de

metas entre administração e funcionãrios, patrões e

empregados, entre proprietãrios e não-proprietãrios •

Alim do mais, o conflito i tido como um fator de mu-

dança, de dinamismo da organização. t o mãximo que os

te6ricos estruturalistas concretizam·-- a crítica e

a configuração do conflito organizacional.

C) A presença dos psic6logos marcou. o

desenvolvimento da Teoria Organizacional, desde a Ex-

periincia de Hawthorne, com a equipe do Departamento

de Psicologia Social de Harvard e a abrangente (ou am

biciosa?) orientação de Elton Mayo.,Ainda' que acatan-


14

do as principais críticas à Teoria de Relações Huma-

nas, os psicólógos sociais ·mantêm o foco da análise

empírica no comportamento ("behavior") do indivíduo e

do grupo na organizaçio.

A análise empírica ganha maior sofisti

caça0, a noçao de influências ambientais é incorpora-

da,o conjunto de necessidades humanas como fonte de

comportamento (Mashlow, 1967) é expandido. Os estudos

behavioristas vão pesquisar não apenas a empresa, mas

também comportamentos de membros participantes de or-

ganizações genéricas na sociedade. Comportamentos de

liderança, comunicação, decisio, adesão e integração,

envolvimento psicológico com os objetivos da organiza

ção, constituem o escopo da "descrição" comportamenta

lista.

Os behavioristas herdam da tradição da

Relações Humanas a crença na pesquisa empírica e na

organização como útero acolhedor - habitat natural

dos seres humanos desenraizados pelo vendaval do de-

senvolvimento industrial que desfez os grupos primá-

.rios, famílias, comunidades de trabalho e religião

(Bertero, 1968) •.
15

As organizações sao encaradas corno a-

grupamentos de individuos, participantes, com.capaci-

dade·e possibilidades de decisio. Atravis do conceito

de papel, a organizaçio abrange o comportamento for-


~
mal e o informal. A ênfase-priviligio do informal e

mantida. As organizações informais sio etapas origi·-

nais das formais. Lidamos com um continuum informal-

-formal de organizações cooperativas, ou seja, siste-

mas administrativos participativos (Simon, Barnard,Li

kert). O conflito possivel i entre a descriçio-defini

çio do papel e a personalidade individual (Argyris)

Conflito evitivel e/ou solucionivel pela adequaçio

do papel (alteraçio, treinamento,motivaçio, comunica

çio) , pela expansio dos limites da racionalidade orga

nizacional (conhecimento, habilidade, valores), pela

progressiva substituiçio dos sistemas administrativos

autoritirios, pelo "participativo" ("one best way" foE.

mal e informal de Likert), pela utilizaçio dos press~

postos da Teoria Y ou pela simples decisio de nâo mais

participar da organizaçio, pois as contribuições exi-

gidas sio "avaliadas" corno maiores que os "incenti-

vos" prestados pela organiza:çio (Simon, . 1971). O torna-


dor racional de decisões decide, procura melhoralter

nativa em outra organizaçio. A crença na necessidade

e eficiência das organizações permite aos behavioris-

tas a elaboraçio de técnicas administrativas, inclusi


16

ve para a superaçao do pensamento estático, desumano,

anti-inovador do "modelo burocrático" por outras for-

mas organizacionais, temporárias, dinâmicas,. por isso'

menos formalizadas, permanentemente· em busca de ino-

vaçao.

o behaviorismo, se tomarmos como crité

rio de sucesso a ~plicação ã prática organizacional ,

teve êxito absoluto. ~ o conjunto teórico mais utili-

zado por consultores, gerentes e homens de treinamen-

to na viabilização da organização.

Na proposta behaviorista para a "mudan

ça organizacional" (intervenção na estrutura, interven

ção. no comportamento ou ambos), o privilégio é geral-

mente dado ã área comportamental, como foco da mudan~

ça ou como fase necessária.para atingir a mudança es-

trutural. Os métodos de intery~nção.("grade geren-

cial", treinamento de sensitividade, "desenvolvimento

de equipe", "grupos de confrontação", definição do

"contrato psicológico" etc.) parecem estar orientados

para a questão central do behaviorismo na administra-

çao, isto é, a identificação eritre metas individuais

e objetivos organizacionais. Isso é feito, ou pelo m~

nos tentado, com a fixação e imposição de significadc:s


17

da organização (objetivos, eficiência, racionalidade

etc.), ou melhor, da direção, ao quadro administrati-

vo. Por via de treinamento ou outras formas de inter-

venção educacional* (Bennis, 1972, p. 2 e 12), ossi~

nificados legítimos têm seus conteúdos explicados, di

fundidos, estabilizados univocamente para os "partici

pantes". E a realidade precãria da organização fica

protegida, torna-se "mais real" através de uma conti-

nuação da socialização secundãria específica à cada

instituição.

Comentando as influências da Psico10 -

gia Social na Teoria Organizacional, Bertero (1975)

ressalta alguns pontos:

à) o carãter prescritivo ou normativo

da abordagem psicológica;

*Warren Bennis define "desenvolvimento orga

nizaciona1" como "uma complexa estratégia educacional

que tem por finalidade mudar as crenças, as atitudes,

os valores e a estrutura de organizações de modo que

elas possam melhor se adaptar aos novos mercados, tec

nologiase desafios, e ao próprio ritmo vertiginoso de

mudança" •
18

b) "seu comprometimento com a consecu-

çio de objetivos organizacionais,

como definidos pelos ocupantes de

posições de comando nas organiza-

çõe s " ,(
p .33) ;

c) tentativa de validar cientificamen-

te a moral do trabalho;

d) buscar a adaptação dos indivíduos às

organizações, pela minimização e ad

ministração de conflitos.

Na análise de Bertero, o caráter norma

tivo do behaviorismo, expresso na herança de "Rela-

çoes Humanas", é exposto também por autores mais ,,-so-

fisticados, como Rensis Likert, nas obras Novos Pa-

drões de Administração e A.Organizaç.ão ,Humana.

No p~imeiro texto, Likert retoma a bus

ca de uma "ciência" para a administração, justificada

pela preocupaçao tayloriana da produtividade. Acentllan

do a importância das práticas dos administradores de

sucesso, a concorrência estrangeira e a'mudança nos

valores da sociedade americana (autoridade questiona-

.da no lar, na escola.e· na empresa}, esgrimindo com. o

aumento do nível de escolaridade da força de trabalho


19

e com o aumento da complexidade tecnológica, Likert

deduz que uma teoria administrativa inteiramente nova

esti surgindo, apoiada ria sofisticação metodológica

das Ciências Sociais. A citação seguinte é bastantees

clarecedora: "Há algumas décadas, Taylor (1911) apon":,,

tou o fato de que a variabilidade humana em desempenho

poderia ser usada para descobrir melhores maneiras de

reâlizar um trabalho. As Ciências Sociais e sua 'capa-

cidade de medir variáveis humanas e organizacionais e~

tão tornando possível a extensão desta idéia fundamen

tal, da organização do trabalho propriamente dito, ao

problema de criar a forma mais produtiva e satisfató-

ria de organização humana para levar a termo qualquer

empreendimento." (Likert, 1971, p. 15).

Dessa forma, o "one best way" tayloria

no aplicado à tarefa individual é- expandido para a to

tal idade da organização e identificado ao "Sistemade

Administração por Grupo",como a melhor forma de org~

nização de cooperação humana, cientificamente avalia-

da e controlada pelo "Perfil Organizacional de Likert"

(Likert, 1971 e 1980).

Uma impressionante manifestação, do ca-

ráter normativo da abordagem behaviorista encontra-se

na obra de Herzberg. Pesquisando as razões da motiva~


20

çao de !funcionários" em diversas empresas de Pitts-

burgh (USA), o autor propoe a sua conhecida classifi-

caça0 de "fatores de higiene" e "fatores de.motivação"

ligados, respectivamente, à "insatisfação" e "satisfa

ção" no trabalho. Comentando essa teoria de motivação,

Puqh , Hickson, Hinings (1971, p. 141) expressam-se des

ta forma: "Usando uma analogia bíblica, Herzberg rel~

ciona os fatores de higiene à concepção "Adão" da na~

tureza humana. Quando Adão é expulso do Jardim de~-

den ele se defronta imediatamente· com a tarefa de sa-

tisfazer as necessidades que derivam de. sua natureza

animal: a necessidade de alimento, abrigo, de evitar o

medo, de buscar segurança e participação etc." E con-

tinuando mais a frente:

"Em contraste, os fatores associados

com a satisfação no trabalho são aqueles derivados da

necessidade de o homem realizar seu potencial humano

para a perfeição. Em termos bíblicos, esta é a conce-

pçao "Abraão da natureza humana. Abraão foi criado a

imagem de Deus."

Silverman(1975, p. 101 e 102) apõs co

mentar a notável unidade das teorias behavioristas,re

laciona o que considera os elementos mais importantes

daquele enfoque:
21

1. Considera-se que os individuos sao

~ossuidores de "necessid~des da per

sonalidade" (motivos). Estas neces-

sidades podem ser ordenadas numa

hierarquia (McGregor, Mashlow).

2. Entende-se que estas necessidades e

motivos exercem uma influência dire

ta sobre o comportamento.

3. O comportamento fica explicado quan

do assinalamos a necessidade ou b

motivo que o originou.

4. Existe um conflito básico entre as

necessidades individuais e os obje-

tivos da organização. Isto é clara-

mente expresso nos trabalhos deTan

nembaum e Argyris a respeito· da in-

coerência entre personalidade dese~

volvida e requisitos dà organização.

5. A melhor maneira de resolver o con-

flito iridividuo-orgartização consis-


-"
te em mudar a estrutura e o compor-

tamento organizacional.

6. A melhor forma de organização é a-

quela que procura a satisfação das


22

necessidades individuais e organiza

cionais pelos seguintes meios:

- estimular a formação de grupos de

trabalhos estáveis e estimular a

participação dos trabalhadores nos

processos de decisão;

estabelecer linhas de comunicação

"abertas" e uma supervisão "ex-

pressivai

- criar estruturas que nao sejam bu

rocráticas e cujo funcionamento se

baseie em objetivos definidos e

nao em uma hierarquia.


'. ",

CAP!TULO 2WEBER, CIENCIA E rIPO IVEAL

. . .

., "' .
24

Itlvlax
Weber is a name to conjure with in

modern social thought. Bis work is used as a sour

ce of authoritative knowledge and insight, and

even those who have criticized him severely do

not question the value of his contributions. Ap-

preciation of his work, especially among American

social scientists, i~ reflected in the large num-

ber of translations that have appeared in recent

years, and others are in prospecto There is al-

50 a large and growing literature about his work.

Yet despite this widespread familiarity with some

of his ideas, and despit~ the general esteem iri-

which he is held, there is considerable evidence

that, as a comprehensive whole, his work remains

relatively unknown.1t (Bend~x, 1962, p. XIX).

:
-.'I
25

A atualidade de Weber e sua importân-

cia para a Sociologia americana, encarecida por Ben-

dix na citação anterior,podem ser visualizadas de ime

diato pela constante referência à problemática da bu-

rocracia nos estudos organizacionais. A teoria das or

ganizações é, quase inteiramente, uma criàção das

Ciências Sociais americanas do pós-guerra. Porém, além

da importância e atualidade da obra weberiana é impor

tante atentarmos para a observação de Bendix que, ape

sar da familiaridade adquirida por algumas idéias de

Max Weber, "•.• as a comprehensive whole, hiswork re

mains relatively unknown".

Raymond Aron nos dá outro testemunho

significativo sobre a atualidade do pensamento webe -

riano e de sua influência sobre as ciências sociais mo

dernasna busca da apreensão da realidade social. Em

sua obra Les :t:tapesde la pensée Sociologigue, Aron

nao hesita em denominá-lo "notre contemporain", valo-

rando assim a atualidade e o vigor do pensamento so-

ciológico de Weber.

Existe um consenso relativo entre os

cientistas sociais de que as "chaves" metodológicas pa

raos estudos da realidade social estão contidas, em-


26

brionariamente, em alguns textos clássicos: "As Re-

gras do Método Sociológico" de Durkheim; "Contribui -

çao à Crítica da Economia política" de Marx; e os tex

tos específicos de Webersobre o problema do "método

nas ciincias sociais"*, onde o autor esclarece a sua

concepção dos tipos ideais~

Este tripé "sócio-metodológico" pode consti

tuir, em princípio, umbalisamento da obra weberiana,

supondo-se um perma~ente d~álogo-crít~co entre a pos-

tura científica de Weber e uma possível versao "posi-

tivista" da sociedade (Durkheim) por um lado e, por

outro, a versão "dialética" do desenvolvimento da so-

ciedade.

* Da análise metodológica de Weber existem

editadas em portuguis pelo menos duas contribuições:

• A "objetividade" do conhecimento nas ciin

cias sociais, em Weber:Sociologia, Edito-

ra Âtica, são Paulo; antologia organizada

e comentada por Gabriel Cohn .

• Sobre a Teoria das Ciências Sociais, Edi-

torial Presença, Lisboa.


27

Ao nível do senso comum, o diálogo en-

tre Weber e Marx éo mais divulgado. Talvez por istoG~

briel Cohn, na sua excelente introdução ao ,livro Weber:

Sociologia, preocupa-se ~m contrapor os dois clãssicos

ressalvando, porém, que nao havia em Weber a intenção

de se opor politicamente ao marxismo; que, para Weber,

a oposição se colocava apenas ao nível da polêmica teó

rica, ao nível da ciência.

o que constitui a questão central da o

bra de Weber? O que garante a cont~nuidade e coerência

da sua obra, no' emaranhado complexo das "sociologias e~

peciais" - da religião, da economia, da política, da

arte, do direito, da técnica? O fio condutor, seu grag

de terna de estudos, é constituído pela análise do "prQ

cesso de racionalização da conduta da vida e da sua ex

pressão máxima, o capitalismo moderno".

Berlinck, na introdução ao texto Ciên-

cia e política: Duas Vocações (Weber, 1968, p. 10) con

sidera que a impressão provocada pelos estudos empíri-

cos de Weber é a de que "são tentativas de respostas a

perguntas, tais corno: quais as condições necessárias p~

ra o aparecimento da racionalidade?; qual a natureza da

racionalidade?; quais as conseqüências sócio-econômi-


28

cas da racionalidade?"

Uma advertência preliminar. Para Weber,


~
o processo de racionalização da conduta, específico a

Sociedade Ocidental, não adquire o status hegeliano do

passeio da "Razão" na História. E também não constitui

uma explicação finalista e única do desenvolvimento da

sociedade, fruto da crescente especialização e comple-

xidade da divisão do trabalho social, cristalizando u-

ma "variável tecnologia" como motor deste desenvolvi

mento.

Weber seleciona e propoe o "seu" obje-

to de pesquisa - a racionalização da ação humana - à

luz de "seus" valores. Constrói as diversas manifesta-

ções empíricas do fenômeno "racionalidade" nas suas so

ciologias especiais.* E, finalmente,para "compreender"

o fenômeno da racionalidade constrói uma relação cau-

sal provável ("tipo ideal"), selecionada entre uma plu

'-
* A sua introdução a A gtica Protestante e o

Espírito do Capitalismo constitui um exemplar-síntese

das manifestações da racionalidade na Sociedade Ociden

tal.
29

ralidade de outras, aberta i discussão e refutaçio na

prática da ciência.

Para Weber, a História nao contém um

'.'
sentido imanente", acima e além daquele que homens

reais, "agentes sociais" poriadores de vontade e de va

lores, imprimiram no passado e imprimem no presente is

suas ações concretas.

Na formulação de Gabriel Cohn -- -para

Weber, "no estudo dos fenômenos sociais não se pode pre

sumir a existência já dada de estruturas sociais dota-

das de um sentido intrínseco; vale dizer, em termos so

eiológicos, de um sentido independente daqueles que os

indivíduos imprimem is suas ações". (Weber,1979,p. 26).

As nossas considerações acima sobre a

teoria weberiana, se forem interpretações corretas, co

locam uma dúvida importante para algumas teorias orga-

nizacionais.

são reais as organizações? As organiza

çoes sao, constituem, algó mais do que indivíduos agru

pados em um sistema de interação? Esta dupla interroga

ção é colocada por Hall (1973, p. 9) e a resposta é a-

firmativa -- as organizações são reais - "são reais


30

até o ponto de que sempre fatores estritamente organi-

zacionais explicam parte da' conduta dos indivíduos ··na

organizaçio". O mesmo autor chega a afirmar que "em

algumas circunstâncias" pode atribuir-se toda a varia -

çâo da conduta aos -fatores organizacionais" (p.ll e 12) •

Afirmada a realidade das organizaç6es,

segue-se outra questio - Asorganizaç6es'agem? A

resposta é novamente afirmativa (Hall, 1973, p. 12).

"As organizaç6es t~m políticas, coones

tam ou nao a viol~ncia, e podem ou nio receb~-lo com

um sorriso .• Igualmente, fabricam mercadorias, definem

políticas ou protegem os cidadios. Essas sio aç6esor-

ganizacionais que implicam propriedades das organiza -

ç5es, nio de indivíduos." (Hall, 1973, p. 13). A luz

"dan~ociologia compreensiva" de Weberj-:;as"respostas"po-:· 1/'):."7·)"'1.1

sitivas a essas perguntas sobre as organizaç6es seriam,

no mínimo, avaliadas como questionáveis."

Al9uma~ con~ide~açõe~ ~ob~e ciência e ~ociologia em Webe~

"e possível uma ciência do homem, à se

melhança das ciências.da natureza? Isto é, pode-se con

ceber o processo histórico como um objeto,externo e in

dependente do sujeito que conhece, e regulado por leis


31

inerentes? É possível, em conseqüência, que fazer ciên

eia seja simplesmente descobrir as leis de transforma

çaoa que a sociedade está sujeita, de modo a produzir

um conhecimento válido ad eternum e indiscutível? Para

Weber, não." (Durand, J. C. G. - RAE, abr.jjun.,1970,

p. 200).

Essas questões nao sao específicas ape.

nas a Weber. Ele as herda de Dilthey, Simmel, Tõnnies

e de seu contemporâneo Rickert; elas constituem o cer-

ne de uma discussão acirrada na "Academia" alemã no fi

nal do Siculo XIX.

A polêmica pode ser resumida nas postu

lações do Neokantismo -- que as Ciências da Natureza

(Física, Biologia, Ma:te'mática) estariam apoiadas por

"juízos de fato", isto i, pass fve Ls de comp.rovaçâo iem-:.'

píricai enquanto que as Ciências do Espírito ("Ciên-

eia~ da Cultura" - Hist5ria, Filosofia, Ciências So-

ciais) estariam apoiadas em "juízos de 'Valor''', nao

comprovados empiricamente.

A disputa acadêmica concentrou-se em

duas alternativas principais:

- Uma alternativa em termos de "obje -

tos" de conhecimento diferentes a


32

realidade seria separada em áreas s~

jeitas a soberania daa ciincias natu

rais e das ciincias da cultura.

- Uma alternativa em termos de métodos

diferentes -- a realidade permanece-

ria "una e indivisivel" , porém have-

ria métodos específicos de aborda-

gem para as ciincias da natureza e

para as ciincias do espírito (ou con

seqüentemente a utilização dos juí-

zos de fato ou dos juízos de valor) •

(Tirnasheff, 1971; Freund, 1970).

~leber recusa as duas posições ep í.s t.emq

lógicas porque julga o corte na "realidade empírica"

(a separação ontológica da realidade) absurda e porque

julgava a realidade infinitamente complexa admitindo,

portanto, diversos métodos de abordagem do real.

"Fiel ao espírito da epistemologia kan

tiana, Weber nega que o conhecimento possa ser umare-

produção ou cópia integral da realidade, tanto no sen-

tido da extensão cono da compreensão. O real é infini-

to e inesgotável." (Freund, 1970, p. 34).


.33

Assim, a seleção e a utilização de de-

terminado método sujeitavam-se a competência do pesqui

sador e ao seu compromisso com a busca do conhecimento,

em suma, sujeitavam-se à adesão "vocacional" do cien-

tista ao seu "m~tier".

Sob a influência de Dilthey e Sirnrnel,

Weber procura situar o conhecimento em termos de com-

preensao (Verstehen) - o homem pode compreender suas

próprias intenções (motivos de ação) ou pode interpre-

tar os motivos da conduta de outros homens. Assim, os

"fatos humanos" possuem significados que o cientista

deve definir durante a construção do objeto. Ao contrá

rio, os "fatos naturais" nao possuem significados sub-

jetivos - a matéria nao pensa, não intenciona, nao

tem subjetividade - portanto, o cientista "descreve"

a seqüência de eventos no momento ma t.e'r í.a L, impondo - o

seu "significado" (à luz dos conhecimentos já acumula-

dos) ao comportamento da matéria.

Rickert, analisando os fundamentos da

ciência da História, propõe a que~tão da ,"referência

aos valores". Corno o historiador define o objeto da

pesquisa? Para ele nem todos os acontecimentos históri

cos têm interesse científico i somente aqueles eventos

que possuam um "significado particular" para a épocae~


34

tudada. Esse "signific~do particular" referido aos "va

lores da época".

A análise histórica, para Rickert, é u

ma continua "referincia aos valores"; o fato sócio-hi~

tórico que nio possua "valor"", que nio seja significa-

tivo é considerado irrelevante, é excluIdo da investi-

gaçao. Rickert entende o "procedimento de referincia a

valores como uma maneira de capturar a complexidade do

mundo sensIvel, criar uma realidade significativa e

sustentar a objetividade daciincia histórica". (We-

ber, 1971, p. XXI).

Weber mantém o procedimento de "refe-

rincia a valores", porém coloca a infase nps "valores

presentes", contemporâneos ao investigador - o passa-

do responde
\
as indagaçoes
- ,
do presente"-"sómos
-
nos que

formulamos as questões à História, com um significado

do presente. Este é o ponto de partida para a "seleção

dos valores".

Para enfrentarmos o problema dos valo-

res nas ciinciasda cultura, temos que considerar o

que Weber entendia por realidade emp Lr í.ca, Parece que

ele, nessa questão, usou os óculos de Kant. Vamos nos

socorrer de um dos comentaristas de Weber.


35

Segundo Freund (1970, p. 12), apesar

de Weber ter sistematicamente evitado

"reduzir suas ihterrogaçBese suas ex-

plicaçBes a um núcleo central, ou princípio

único, parte, entretanto, de uma intuição o-

riginária e fundamental, ada infinidade ex-

tensiva e intensiva da realidade empírica.I~

to significa primeiro que a realidade é in-

comerisurável ao poder de nosso entendimento,

de maneira que este nunca cessou de explorar

os acontecimentos e suas variaçBes no espaço

e no tempo ou de agir sobre elesi segundo,

que é impossível descrever integralmente até

a menor parcela do real, ou levar em conta

todos os dados, todos os elementos e todas as

conseqffências no momento de agir. O conheci-

.mento e a ação nunca se realizaram defini ti-

vamente, pois todo conhecimento requer ou...;

tros conhecimentos, e toda ação, outras a-

çBes".

Formulada dessa maneira, a "irituição" origi-

nal de Weber propBe a impossibilidade de qualquer ciên

cia, ou o conjunto das ciências poder atingir a essên-

cia das coisas. O "entendimento" não é capaz de repro-


36

duzir o real, no mãximo resta a ciincia organizar arbi

trariamente o real através de conceitos. Porém, entre

o real e o conceito, a distãnc~a é infinita.

o que é a seleçio pelos valores? n a

base das perguntas que o pesquisador faz à realidade.

De fato, quand,o o historiador ou o sociólogo justifica

seu objeto de estudo está sujeito -- conscientemente ou

nao -- a uma "seleçio de' valores" extracientífica.

nA relaçio com os valores constitui a

base das perguntas que formulamos à realidade. Se per-

guntássemos ao historiador porque se interessa, por

exemplo, pela Revoluçio Francesa ou pela filosofia de

Fichte; ou a um sociólogo por que estuda as relações so

ciais em uma cidade operária ou as condições atuais do

estudante, eles responderiam mais ou menos o seguinte:

porque é interessante, ou entio, porque é importante.

Max Weber nio se contenta com essa resposta vaga, e

formula outra pergunta pertinente: por que é importan-

te e em relaçio a qui? A resposta à primeira pergunta

.corno à segunda implica uma -referência a valores ."

(Freund, 1970, p. 44).

Aseleçio pelos valores expressa o mo-

mento arbitrário que faz a mediaçio entre a escolha do


37

objeto e o início da reflexão científica. Após este m~

mento, o cientista aplica os procedimentos e os instru

mentos inerentes à sua investi~ação. Na escolha do ob-

jeto - a "liberdade", a seleção entre e pelos valores;

depois na reflexão e explanação científica -- ~ disci-

plina e a neutralidade axiológica -- estamos sob a so-

berania da ci~ncia, onde o Gnico valor possível para o

cientista éo compromisso com a busca da verdade ou,

modestamente, com a "fecUndidade" do conhecimento cien

tífico.

A significação e o.papel da "relação

com os valores" parecem tornar-se mais claros. Suposta

a complexidade infinita da realidade empírica, aquela

relação surge como orientação para seleção. de "fatos r~

levantes" para o pesquisador, surge como condição de um

conhecimento parcial e temporário~_"Mais exatamente, e'

la é o momento subjetivo que torna possível um conheci

mento objetivo limitado, desde que a o sábio tenha cons

ci~ncia desta limitação inevitável." (Freund, 1970, p.

45) •

Continuando a "explicar" Weber, preci-

sando o papel da "relação com os valores" no trabalho'

científico, Freund considera o seguinte:


38

Se quisermos precisar o papel da rela-

çao com os valores, devemos considerar os seguintes po.!!

.toS! a) ela determina a seleção do tema a tratar, isto

é, permite destacar um objeto da realidade difusa; b)

uma vez escolhido o tema, ela orienta a triagem entre·

o essencial e o acessório, isto é, define a individua-

lidade h~stórica oua unidade do problema, vencendo a

~nfinidade dos detalhes, elementos e documentos; c) as

sim agindo, ela é a .razão do relacionamento entre os

diversos elementos e da significação que se lhes atri-

bui; d) indica .igualmente quais as relações de causali

dade a estabelecer e até que ponto é preciso levar a

regressao causal; e).enfim, pelo fato de não ser uma

avaliação e exigir um pensamento articulado, que permi

ta o controle e a verificação do acerto das proposi-

çoes, ela afasta o que é simplesmente vivido ou vaga-

mente sentido. (Freund, 1970, p. 46).

Me~odologia e ~ipo~ ideai~

Sem rigor conceitual, é impossível a

elaboraçio de qualquer ciinc~a.As ciincia~ da nature-

~ dispõem de conceitos unívocos, determinados numeri-

camente (potência, força, massa, como exemplos na físi

cal e com significados aceitos pela comunidade cientí-

fica. A natureza, exterior ao homem, nio foi ouvida p~


39

rã-a fixação desses conceitos. À natureza é imposta u-

ma ordem pelo homem. A complexidade dos fenômenos nat~

rais pode ser descrita por estes conceitos, apenas na

medida em que eles atendam aos desígnios do homem, na

sua prática científica ou na sua prática cotidiana.

Porém, no âmbito das ciências da cultu

ra, cujo objeto de análise é o próprio homem, a defini

çao de conceitos positivos, unívocos, universalmente a

ceitos, encontra de imediato duas dificuldades:

-a infinita complexidade do universo

sócio-histórico empírico;

-o stijeito-objeto das ciências da cul

turapensa, define intenç6es, atri-_

bui significados aos seus atos.

Como o historiador, o cientista social,

o teórico das organizaç6es vão conceituar as aç6es hu-

manas, estabelecendo relaç6es de causa e efeito, rela-

cionando meios e fins nas diversas esferas de vida, in

corporando este outro elemento -- o significado subje

tivo do agente?

A "relação com os-valores" coloca ou-

tras__quest6es importantes e correlacionadas à anterior:


40

- Como. assegurar a "veracidade" da ana

lise no nlvel da elaboração intelec-

tual propriamente dita?

Quais as relações cognoscitivas exis

tentes entre os conceitos usados na

investigação histórica e social e o

objeto da própria investigação?

Como essas relações cognoscitivas são

construídas pelo cientista?

Weber responde essas questões propondo

o "tipo ideal" como instrumento de metodologia cientí-

fica. A metodologia do "tipo ideal" é analisada em vá-

rios pontos da obra de Weber. A gigantesca sistematiza

ção da "sociologia compreensiva", constituída por "Eco

nomia e Sociedade" é construída através da utilização

deste instrumento. Talvez a mais conhecida e fecunda u

tilização do tipo ideal por Weber sejam as elaborações

dó tipo ideal de "capitalismo", uespírito do capitali~

mo", ."puritano" e "ética protestante", na sua famosa e

discutida obra A ~tica Protestante e o Espírito do Ca-

pitalismo.

Vamos utilizar aqui um texto seu sobre

a "objetividade" do conhecimento das ciências sociais

(Weber, 1979). Neste texto Weber refere-se inicialmen-


41

te, e combate, a afirmação de que a economia política-

pode e deve produzir juízos de valor a partir de uma

"visão de mundo de caráter econômico".* Seu esforço s~

rá no sentido de localizar o domínio da ciência empíri

ca na esfera dos meios e nao na esfera dos fins da a-

çao humana. Como Weber (1979, p. 21) formula:

" uma ciência empírica nao está ap-

ta a ensinar a ninguém aquilo que "deve",mas

sim, apenas aquilo que "pode" e - em certas

circunstâncias - aquilo que· "quer" fazer".

* Nessa questão das relações entre a econo-


mia e as "visões do mundo" (ideologia) e em outras
as relações entre economia e política e as relações en
tre.a religião e a gênese do capitalismo - Weber está
polemizando com Marx (ou com o fantasma de Marx). A P2
lêmica Weber-Marx não cabe aqui ..Porém, é interessante
.lembrar a exposição sintética·, feita por Marx, das re-
lações entre "estrutura" e "superestrutura" na totali-
dade do Modo de Produção, no conhecido Prefácio da Con
tribuição à Crítica da Economia política. Lá está:
" ••• a anatomia da sociedade deve ser buscada na econo
mia política".
42

Gabriel Cohn, na introdução ao texto

(A "objetividade" do conhecimento das ciências sociaisl

.explicita a questão domitodo. O objeto do conhecimen-

to social não se impõe já dado a análise, mas i consti

tuído nela própria pela metodologia empregada pelo pe~


,
quisador. A exigência de fidelidade do pesquisador a

realidade soc í.a L como um dado a ser meramente reprodu-

zido no trabalho científico, implica a suposição .de

que o todo social empírico tenha uma ordem interna ob-

jetiva dotada de leis gerais, o que Weber não aceita.

A postura do pesquisador i ativa, de "ordenação racio-

nal da realidade empírica"; de atribuir uma ordem a u-

ma parcela selecionada, por ele, na complexa e dinâmi-

ca realidade empírica.

Esta construção do .objeto .da ciência

social "na própria análise", este·"ordenamento racio-

nal da realidade", sao constituIdos pelo "tipo ideal".

Descrevendo o mitodo da ciência econo-

mica, Weber (1979, p. 105) esboça o tipo ideal:

"Este quadro do pensamentO (econômico)

reúne determinadas relações e acontecimentos da vida

histórica para formar um cosmos não contraditório de


43

relaç6es pensadas.Pelp seu cont~fido, essa construçio

reveste-se do caráter, de uma utopia, obtida mediante a

acentuaçio mental de determinados'elementos da reali-

dade. A sua relaçio com os fatos empiricamente dados

consiste apenas em que, onde quer·que se comprove ou

suspeite de que determinadas relaç6es do tipo das

representadas de modo abstrato na citadaconstruçio ...

-- chegaram a atuar em algum grau sobre a realidade,p2

demos representar e tornar compreensível pragmaticame~

te a natureza particular dessas relaç6es mediante um

tipo ideal."

o tipo ideal nao é urna hipótese a ser

testada na pesquisa, mas pode dar origem à formaçiode

hipóteses. Também nio é urna tentativa de representaçio

da realidade. Weber localiza claramente este conceito

ao nível do método e do discurso científico:

n a natureza discursiva do nosso co-

nhecimento, a circunstância de apenas captarmos a rea-

lidade através de uma cadeia de transformaç6es na or-

dem da representaçio, postula este tipo de taquigrafia

conceitual". (Weber,1979, p , 109). "

Desenvolvendo a construçio do tipo i-

deal Weber afirma:


44

"Obtém-se um tipo ideal mediante a

acentuação unilateral de um ou vários pontos de vista,

e mediante o encadeamento de grande quantidade de fenô

menos isoladamente dados, difusos e discretos, que se

podem dar em maior ou menor número ou mesmo faltar por

cpmpleto, e que se ordenam segundo os pontos de vista

unilateralmente acentuados, a fim de se formar um qua-

dro homogêneo de pensamento."

Resta-nos agora analisar a utilização,

por Weber, do tipo ideal. Isso será feito através da

discussão da "racionalização da conduta" no capítulo

seguinte.

,~
·" , .' """:"

.cAPfTULO 3 - A RACIONALIZAÇÃO VO COMPORTAMENTO·

/
i"

. ~ "
46

Na sua obra de maturidade, Economia e

Sociedade, Weber prop6e a sistematizaç~o da "sociolo-

gia compreensiva" (compreens~o/Verstehen), pela utili-

zaçao intensiva de conceitos tIpicos-ideais.

No Capítulo I da obra (Weber, 1971)

sao, inicialmente, definidos a Sociologia,· seu objeto


~
e suas bases metodológicas. A.Sociologia e definida

como:

"uma ciência que pretende compreender, inter

pretando-a, a aç~o social para, dessa manei-

ra, explicá-la em suas causas, em seu desen-

volvimento e efeitos. Por lIaç~olldeve ser en

tendido um comportamento humano ... sempre que

o sujeito ou os sujeitos da aç~o lhe agreguem

(enlacen a ella) um sentido objetivo. A

"ação social", .•. é uma ação na qual o sen-.


47

tido consciente (mentado) de seu sujeito, ou

sujeitos, está referido ao comportamento de

outros, orientando-se por este em seu desen-

volvimento".

o objeto da Sociologia é definido como

a explicação dos significados subjetivos da ação dos

indivíduos.

Gabriel Cohn (Weber, 1979) considera

que o conceito de motivo permite estabelecer uma ponte

entre sentido e compreensao - envolvendo o agente e o

observador da açao.

"Do ponto de vista do agente, o motivo

é o fundamento da ação; para o soéiólogo, cuja tarefa

é compreender a ação, a reconstrução do motivo é fun-

damental porque, da sua perspectiva, ele figura como

causa da ação." (p. 27).

A explicitação do motivo da açao, per-

mite ao observador (o cientist~, estabelecer a cadeia

de fases (de ações) que estruturam a "ação social". O

tipo ideal de ação racional ("vlertracional "), com rela

çao a valores, ou ("Zwecracional"), com relação a fins


48

i construido definindo-se o sentido da açao como meio

.(para alcançar determinado fim subjetivamente visado

pelo agente) e o motivo como causa da ação. O que é o

motivo?

Motivo: " conexao de sentido que para o

agente ou o observador aparece como

o "fundamento" com sentido de uma con

duta. Dizemos que uma conduta que se


~
desenvolva como um todo coerente e

"adequada pelo sentido" na medida em

que afirmamos que a relação entre

seus elementos constitui uma "cone -

xão de sentido tipica II (ou como cos-

tumamos dizer "correta") no estilo

dos hibitos mentais e afetivos mi-

dios". (Weber, 1971, p. 10) ..

Weber continua, em seqt1ência, analisan

do a conexao de sentido (motivo da ação), conceituando'

"adequação causal da sucessao de fatos" que permite a

análise da estrutura da ação.

Adequação causal - "Dizemos, peJo contrário,

que uma sucessão de fatos

i "adequada pelas causas"

na medida em que, segundo


49

regras da experiência, e-

xista essa probabilidade:

que (a sucessão de fatos)

transcorra sempre de i-

gual maneira."

Numa minuciosa exposição Weber define

as condições para, e o.queele entende por, "interpre-

tação causal correta de uma ação concreta":

" •.. significa: que o desenvolvimento exter-

no e o motivo foram conheci-

dos de um modo certo e ao

mesmo tempo compreendidos com

sentido em sua conexão".

e continua ainda:

"Uma interpretação causal: 'correta de uma a-

ção típica (tipo de ação compreensível) sig-

nifica: que o acontecer considerado típico se

oferece com adequação de sentido (em algum

grau) e pode também ser comprovado como cau-

salmente adequado (em algum grau)". (Weber,

1971, p , 11) G

Tentando resumir, o observador ao fa-

zer a interpretação causal da ação, por exemplo, da


50

açao "vocacional" do puritano ou da açao científica do

sábio, deve construir a "adequação de sentido do com-

portamento" (motivo) e a "adequação causal da sucessao

de fatos" (estrutura da ação) e, muito importante, i-

dentificar claramente "os agentes". Estas construções,

para Weber, devem necessariamente constituir "tipos i-

deais" .

A respeito do agente, Cohn pergunta o

por quê da ênfase de Weber na "ação" de agentes indivi.

duais. Cohn propõe duas respostas:"porque o agente in-

dividual ~ a Gnica entidade capaz de conferir sentido

às ações" (Weber, 1979, p. 29). A segunda resposta re-

laciona-se à preocupação de Weber com a "autonomia~n-

terna das diferentes esferas da existência humana"

esferas da religião, da política, da economia - e da

ação social or~entada por éignificados particulares

(ação . religiosa, ação política, .ação econômica) .

liA importância fundamental da :r:eferên-

cia ao agente individual, nesse ponto, consiste em que

ele ~ a Gnica entidade em que os sentidos específicos

dessas diferentes esferas· da ação estãosimultaneamen-

te presentes e podem entrar em contato. Ou seja, se as

diversas esferas da existência correm paralelas,· movi-

das p~las suas "legalidades pr6prias" e se está afasta

blBt..IOTE(~ A. BOEDECKER
51

da a idéia de alguma delas ser objetiva e efetivamente

determinante em relação as demais, a análise dasrela

ç6es entre elas (ou melhor, entreseus·sentidos) s6 e

possível com referência a essa entidade que as susten-

ta pela sua ação e é a por-t.ador


a simul tânea de múltiplas

delas: agente individual. Portanto, não existem víncu-

los "objetivos" entre esferas da açao; só. vínculos

"subjetivos", isto é, que'passam pelos sujeitos-agen -

t.es ,'" (Weber, 1979, p. 29).

Encarada dessa forma, a análise webe-

riana das "tens6es" e "afinidades" entre uma "ética re

ligiosa" (sentido da ação religiosa) e urna "ética" ou

"espírito capitalista" (sentido de ação econômica capi

talista) obriga que os agentes individuais (protestan-

tes, calvinistas, puritanos) sejam tornados com ponto de

referência, pois eles são os portadores de sentidos e-

conômicos e religiosos, simultaneamente.

A análise sociológica, para Weber, tra

balha apoiada na existência ~e certas "regularidades",

empiricamente verificáveis, na ação social. Isto signi

fica que certos processos de ação tornam-se rotina~e

incorporam-se ao cotidiano de inúmeros agentes.


52

A análise sociológica .exige, portanto,

a e1aboraçio de conceitos, "capazes de dar conta tanto

dessas regularidades de conduta, quanto do fato de que

elas t~m caráter coletivo, no s~ntido de que mfi1tip10s

indivíduos agem significativamente de maneira c:;tná10-

ga". (Weber, 1979, p. 30).

A passagem do nível "individual" da a-

nálise para o nível "coletivo" i feito atravis da defi

niçio (tipo ideal) de "relaçio social".

"Por re1açio social deve entender-se um com-

portamento plural ._.-de vários - que, pelo

sentido que emana, apresenta-se como recipro

camente referida, orientando-se por essa re-

ciprocidade. A relaçio social consiste, pois,

plena e exclusivamente, na' probabilidade· de

que se atuará socialmente de uma forma (com

sentido) indicável." (Weber, 1971, p. 21).

De forma mais sintitica, Cohn explica

o conceito, as relações entre açao social e relaçio so

eia1 e a mençio ã "probabilidade":

" ••• "relaçio social", ••• que se refe-

re à conduta de múltiplos agentes que se orientam reei


53

procamente em conformidade com um conteúdo especifico

do próprio sentido das suas ações. A diferença entre

"açio social" e "relaçio social" i importante: na pri-

meira a conduta do agente está orientada significativ~

mente pela conduta de outro (ou outros) ao passo que

na·segunda a conduta de cada qual entre múltiplos agen

tes .envolvidos.orienta-sepor um conteúdo de sentidore

ciprocamente compartilhado. Assim, um aperto de mio .é

urna açio social, porque a conduta de cada participante

é orientada significativamente pela conduta de outro i

já a amizade é uma relaçio social, porque envolve um

conteúdo de sentido capaz de orientar regularmente a

açâo de cada individuo em relaçio a múltiplos· outros

possIveis e que portanto se manifesta sempre que as

açoes correspondentes sâo realizadas (por isso mesmo po

demos designar esse conteúdo de sentido pelo termo ge-

nérico "amizade"). Claro que a amizade, corno qualquer

relaçio social, nio existe senio quando se traduz· em

condutas efetivas. E, corno nio há garantia prévia de

que isso se dê, a ocorrência de qualquer relaçio so-

cial só pode ser pensada em termos de probabilidade,

que será maior ou menor conforme o grau de aceitação

do conteúdo do sentido da açio pelos seus participan-

tes. li (Weber, 1979, p. 30).


54

Dessa forma, com base nas definições

ideais-tipicas, .de "ação social" e "relação social",em

graus cada vez mais complexos de desenvolvimento lógi-

co, passando pelos conceitos de "legitimidade", Weber

consegue estruturar os "tipos ideais" de referincia co

letiva - "ordem legitima, "comunidade e sociedade",

"poder e dominação" e "associação polltica".

Antes de continuarmos a exposição, al-

gumas considerações são necessárias. Para Weber, a ana

lise sociológica não está restrita apenas ao estudo da

"ação social", mas ressalta claramente que ..•

" nao obstante, (a ação social) constitui

(para a sociologia compreensiva) o dado cen-

tral, aquele que para ela, por assim dizer,

é essencial (constitutivo)". (Weber, 1971,

p. 20).

Weber estabelece tipos ideais de açao

social, com sentidos ("orientações") distintos; sao

eles:

a) açao afetiva - orientada ·por afetos ees-

·tados emocionais do momento;

b) açao tradicional - orientada por costumes

arraigados, por hábitos;


55

c) açao racional com relação a valores (Wer-

tracional) ~ orientada pela crença no va-

.lor -.
- ético, estético, religioso etc. -

pr6prio e absoluto de determinada conduta,

sem qualquer expectativa quanto ao resul-

tado, objetivo dela. Ou seja, o que inte-

ressa ao agente é o mérito, o valor in-

trinseco à pr6pria conduta.

d) açao racional com relação a fins (Zwecra

cional) - orientada pela expectativa do

comportamento de homens ou objetos "exte-

riores" e utilizando essas expectativas co

mo "condições" ou "meios" para o sucesso

na obtenção de fins racionalmente escolhi

dos pelo pr6prio agente.

Grande parte da obra de Weber está vol

tada para a análise da "tensão" entre as orientações

'''Zwecracional''e "Wertracional",da evolu.ção de uma o-

rientação para outra. Principalmente preocupada com a

análise da penetração e expansão da orientação "Zwecra

cional" na vida cotidiana da civilização· moderna, o

que constitui o cerne dos seus estudos sobre "raciona~

lidade".
56

Vamos t€ntar agora verificar a constru

çao e ouso de alguns tipos ideais, em uma das obras

de Weber, A :t:ticaProtestante e o Espirito do Capita-

lismo.

A nacionalizacio da conduta

A :t:ticaProtestante e o Espirito do Ca

pitalismo é, provavelmente, o livro mais conhecido de

Weber. O livro foi objeto de muitas discuss6es (nem to

das visando a fecundidade weberiana), deu origem a mui

tas pesquisas, é citaçio obrigat6ria na maioria dos

textos sobre organizaçio e administraçio e até é usado,

juntamente com o "empresário·schumpteriano", como jus-

tificaçio ideológica por alguns lideres industriais mo

dernos, o que deve fazer tremer no túmulo o iracundo e

polên'iicoalemão.

Do que trata o livro? Weber explicita,

claramente, o objeto da. sua. pesquisa. Ele afirma.que

estava investigando •••

" se, e em que medida, certas "afinidades'

eletivas" sao claramenteperceptI.veis «dis-

c~rnible) entre tipos particulares de crenças

religiosas e a ética do trabalho cotidiano


57

(ethics of work-a-day-life). Em virtude de

tais afinidades, os movimentos religiosos in

fluenciaram o desenvolvimento da cultura ma-

terial; e •.. (uma análise dessas afinidades)

esclarecerá, como for possível, o modo e a

direção geral (daquela influência) ...

Weber adianta ainda:

"Nós estamos interessados em averiguar aque-

les impulsos psicológicos que, tendo origem

na crença religiosa e na prática da religião,

orientaram o modo de vida cotidiano do indi-

víduo'e o induziram a aderir-lhe." (Bendix,

1962, p , 63-64).

Examinando a densa citação acima podembScónsiderar o

seguinte:

a) Weber está tratando das relações entre

duas esferas diferentes da existência: a

esfera da religião e a esfera da cultura

':',
:":material(do.trabalho co t.í.d
í.ano, da econo

mia). Assim deverá definir as relações ('a

finidades eletivas) entre elas. Na primei

ra parte desse capítulo da dissertação,vi


58

mos que, para Weber,o "agente individual"

é a única entidade em que os "sentidos"

das diferentes esferas estão presentes e

podem ser contratados. Portanto, Weber de

verã identificar os agentes "individuais"

da ação, ou uma "pluralidade de agentes",

qrientandoseu comportamento (conduta?)

por um sentido comum que, se identificado,

permita também a identificação das afini-

dades "eletivas" entre as esferas e a

demonstração lógica das influências da re

ligião sobre a esfera do trabalho cotidia

no.

b) Weber deverã identificar quais "crenças

religiosas" e quais "éticas de trabalho co

tidiano" portadas pelos agentes têm afini

dades entre si e quais são essas afinidades.

c) Weber deverã identificar também "o modo e

a direção geral~ da influência ética reli

giosa .sobre a esfera do trabalho.

d) Finalmente,Weber deve r â iden.tificar"aque

les impulsos psicológicos", os motivos,as

intenções subjetivas dos agentes.


59

Weber enfrentará essas exigências,con~

truindo, no decorrer da própria análise, os tipos

ideais de "capitalismo", "espírito docapitalismo","p~

ritano" e "ética protestante", fundados nos significa-

dos,nos motivos da conduta dos agentes. Entre os ..


tipos.

ideais de "espírito do capitalismo" e "ética protestan

te" serão estabelecidas as afinidades e as influências.

Mas .voltemos a Weber.

A "1!:ticaProtestante" é um livro denso,

difícil e fascinante. De imediato, na introdução, We-

ber indaga, como agente da ciência histórica, "filho

da moderna civilização européia", qual aespecificida-

de da sua própria cultura e história.O~presente inter-


roga o passado. A genese do presente tem suas raízes no

passado. O espetáculo do pass-ado é' comprEfe-rtdidopelo es

pectador no presente. Qual a peculiaridade da Civiliza

çé!l0Ocidental?

Weber responde que o caráter particu -

lar que distingue o Ocidente de6utras civ~lizaç6es e

um tipo específico de racionalismo • _

.Para apoiar esta afirmação Weber (1967

- Introdução) analisa e compara alguns fenômenos cultu


60

rais que, para ele, constituem manifestações da multi-

plicidade do processo de racionalização no Ocidente --

o desenvolvimento da astronomia, da. filosofia, das ma-

temáticas, do direito, da teologia dogmática, da admi-

nistração e do saber especializado no Estado, empresa

e'universidade, da formação de partidos políticos etc.

Weber aponta que todos estes fenômenos da cultura tam-

bém são encontrados em outras civilizações, principal-

mente no Oriente, porém, na Europa e na América, estes

fenômenos citados se manifestam dotados de um "signifi

cado" comum seu caráter sistemático, racional, de

emancipação da magia, de "desencant·amento do mundo" .Es

se é o caráter específico do Ocidente, em face de ou-

tras civilizações.

Weber afirmou que a "ética protestante"

--, e o "ascetismo" religioso que tem sua origem nela -

era somente um dos diversos fenômenos que apontavam na

direção do racionalismo crescente em várias esferas da

vida. O racionalismo, no Ocidente, teve um desenvolvi-

mento complexo e mais ou menos paralelo ao desenvolvi-

mento do capitalismo.

Parece mesmo que Weber considera a "a-

çao econômica capitalista", a contabilidade racional,


61

a organização racional do trabalho na manufatura e na

empresa, como "formas", cujo significado intrínseco se

ria a "racionalidade" específica ao Ocidente. Ouçamos

Weber:

"Racionalizaç6es tim existido em todas as

culturas, nos mais diversos setores e dos ti

pos mais diferentes. Para caracterizar sua

diferença do ponto de vista da história da

cultura, deve-se ver primeiro em que esfera

e direção elas ocorreram. Por isso, surge nQ

vamente o problema de reconhecer a peculiari

dade específica do racionalismo ocidental e,


/:
dentro deste moderno racionalismo ocidental,

ode esclarecer a sua origem. 11 (Weber, 1967,

p. 11).

A hipótese de uma possível relação en-

tre crenças religiosas e o desenvolvimento do capita-

lismo aparece para Weber, inicialmente, como a questão

empírica das relaç6es entre estratificação social e fi

.liação religiosa. Pesquisando e comparando as estatís--

ticas de filiação religiosa com outras estatísticas so

bre nível de renda, propriedade acumulada, carreira pro

fissional, nível e tipo de educação, nos países de ca-

pitalismo avançado (Alemanha, França, Suíça,Inglater-

ra, Holanda), Weber concluiu que os protestantes (cal-


62

vinistas) - proporcionalmente,
sao, o contingente reli -

gioso mais numeroso entre os possuidores de capital e

entre os administradores e operários qualificados na

indústria.

Como explicar esta relação quantitati-

va destacada da realidade empírica? Como determinar a·

sua qualidade? A hipótese desenvolvida por Weber pode

ser formulada da seguinte maneira: o ascetismo secular

do protestantismo constitui um dos elementos que influ


~
enciaram a genese do capitalismo. Weber de forma algu-

ma atribui i itica protestante, na s~a forma de asce.-

tismo secularizado, a categoria de causa única, ou mais

importante para a formação do capitalismo.

o capitalismo, como objeto da investi-

gação, i definido, precisa e univocamente, como tipo i

deal. O conce to i construído


í como empresa constituída

em baseí permanente~ e rentável comportando contabili-

dade sistemática e organização racional do trabalho,

que emprega trabalho livremente contratado e rege-sep~

lo mercado.

A integridade e coerência do tipo ideal

de capitalismo exclui outras formas de capitalismo em-


63

brionário - empresas com fins especulativos, empresas

de exploração colonial, de pirataria, monopólios do E.ê.

tado ou concedidos a "favoritos",~ndfistrias dom~sti -

cas.*·Weber exclui as manifestações de capitalismo a-

ventureiro, de guerra ou de proteção política. O que

interessa para ele ~ a identificação das origens do

"sóbrio capitalismo burguês" com sua organização racio

nal do trabalho.

O que se deve entender por "espiri to do

capitalismo"? Weberpropõe· que a resposta à pergunta se

jaconstruída no decorrer da análise ...

" corno uma individualidade histórica,isto

é, um complexo de elementos associados (pelo

cientista) na realidade histórica, que uni -

mos em um todo conceitual do ponto de vista

de um significado cultural". (Weber, 1967,

p. 28).

* Os empreendimentos econômicos excluídos por

l'leberna construção do tipo ideal, são enquadrados ,por

Marx, na fase de acumulação primitiva do Capital.


64

Dessa maneira, o conceito a ser elabo-


rado, referindo-se a um fenômeno "significativo e úni-

co" não pode ser construído I;>orcomparação, "segundo a

f6rmula genus maximum, differentia specífica", mas de-

.ve. ser gradualmente construído pela organização .de ele

mentos selecionados na realidade hist6rica que' o fund~

menta e a qual ele, o construto, deve ser referido. As

sim, o conceito acabado deve surgir ao fim da investi-

gaçao. Obviamente, Weber está falando sobre a metodolo

gia dos tipos ideais e .de forma indireta, afirmando que

o resultado mais importante esperado do estudo é o es-

clarecimento do conteúdo do Espírito do Capitalismo.

Como elemento componente e descrição

provis6ria do tipo ideal de ética capitalista, Weber

.utiliza as máximas de Benj amin Franklin. Tempo e dinhei

to ::~é dinheiro!
rO'!'''Crédi O dinheiro é- de natureza pro- -,':.'

lífica, procriativa ••• A leLtura superficial de Benja

min Franklin poderia provocar a impressão de que se

tratava de mera prova de avareza. Para Weber estas má-

ximas são índices de um novo estado de espírito diante

do trabalho e da riqueza,.demonstram a existência de

uma nova ética. Reflete a maturidade do puritanismo e

antecipa a fase adulta do capitalismo.


65

Para explicitar o Espírito do Capita -

lismo Weber desenha um "quase;'ideal-tipo de "tradicion~

lismo", oposto ao primeiro. O "tradicionalismo" existe

quando os trabalhadores preferem menos trabalho a maio

res salários; q~ando resistências generalizadas sao o-

postas à introdução de novas técnicas de trabalho;quan

do o trabalho ,é feito em ritmo e horário variáveis;quaIl

do os lucros são limitad6s às necessidades de uma vida

confortável; quando as relações entre empresários e

trabalhadores, clientes e competidores são diretas e

extremamente pessoais. Além disso, a avareza e uma Ca-

pacidade sem escrúpülossao fenômenos alheios ao Espí-

rito do Capitalismo. Os mandarins, os nobres na antiga

Rçma, os proxenetas, os choferes de táxis, os artesãos,

foram também vorazes perseguidores do lucro. Como deli

mitar o Espírito do Capitalismo? Para Weber, como con

ceitoideal-típico, o "espírito do capitalismo" é a

concepção de uma atividade dirigida para a obtenção do

lucro, encarada como uma vocaçao, para a qual o indiví

duo se sentisse com obrigações.

Para ele é esta idéia de vocação/de de

~ pessoal,que determinou 'O modo 'de vida-do novo' -em-

presário capitalista típico, sua fundamentação ética e

sua jurisdição.
66

o con~eito de vocaçao para a tese e

fundamental. Através dele, Weber rastreia as 'práticas

religiosas, sistemáticas e metódicas do ascetismo ,reli

gioso do protestantismo (calvinista) que, secularizad~

permite estabelecer as afinidades entre a "éfica calvi

nista" e o "espírito do capitalismo". Resta estabelecer

o "motivo", o "impulso irracional",que provocou a

transformação da prática religiosa pessoal e não-siste

mática, em "meí,o técnico" da salvação, disciplinada ,e

'metodicamente aplicado. Weber vai identificar o "moti-

vo" da açao em um dos dogmas da Reforma, a doutrina de

origem calvinisra da ~predestinação a salvação". Este

elemento racional vai orientar Weber na construção do

tipo ideal de "puritano", o agente da racionalização da

conduta.

No trabalho, Weber se apega à análise

comparativa das doutrinas teológicas de católicos e pro

testantese de textos pastorais, ,tentando definir uma'

lógica interna nestes documentos que apontasse para a

sistematização planejada da conduta na vida religiosa

e no trabalho. Um destes documentos, muito impressiona

te pela sua dureza, é o Catecismo de Westminster, em

que a doutrina da predestinação é exposta em sua forma


"pura". Por essa doutrina, o "eleito" de Deus para a

salvação o fora por desígnio insondável da vontade di


67

vina "sem 'qualquer previsão de fé ou boas obras, ou de

perseverança em ambas". Esta crença deixaca os crentes

entregues exclusivamente a si mesmos nUma "inacreditá-

vel solidão interna". A descrição de Weber é esclarece

dora:

"A graça de Deus, uma vez que seus

de sLqn Lo s nao podem mudar, é tão impossl.vel ser perdida

por aqueles a quem Ele a concedeu como é inatingível pa

ra aqueles aos 'quais Ele a negou.

Em sua patética desumanidade esse pen-

samento deve acima de tudo ter tido uma conseqüênciapa

ra a vida de uma geração que se rendeu à sua maqn Lfí.ca

consistência: o sentimento de uma inacreditável soli -

dão interna do indivíduo. No que era, para o homem da

época da Reforma, a coisa mais importante da vida

sua salvação eterna - ele foi forçado a, sozinho, se-

guir seu caminho ao encontro de um destino que lhe fo-

ra designado na eternidade. Ninguém poderia ajudá-lo.

Nenhum sacerdote, pois o escolhido só por seu próprio

coração podia entender a palavra de Deus. Nenhum sacra

mento,pois embora os sacramentos houvessem sido orde-

nados por Deus para aumentar Sua glória, devendo assim

ser escrupulosamente observados, não são meios de ob-

tenção de ,graça, mas apenas os externa subsidia objeti

vos da fé. Nenhuma Igreja, pois, embora se assegurasse


68

que extra ecclesiam nulla salus, no sentido de que a-

queles que se mantivessem 'fora da verdadeira Igreja .,

nunca poderiam integrar o grUpo de eleitos por Deus,

entretanto a Igreja externa incluIa os condenados en-

tre seus membros. Eles poderiam pertencera ela e sub

meter-se à sua disciplina, nao afim de obter a salva

çao, o que era impossIvel', mas porque, para a g16ria

de Deus também eles deviam ser forçados a obedecer

seus mandamentos. Finalmente, nenhum Deus. Porque mes

mo Cristo morrera apenas pelos eleitos. Isto -- a com

pleta eleiminação da sal~ação através da Igreja e dos

Sacramentos (que no Luteranismo não foi de modo algum

desenvolvido até suas conclusões finais) -- ,era o que

const~tuIa a diferença absolutamente decisiva, entre o

calvinismo e o catolicismo~

Aquele grande progresso histórico-reli

gioso,da eliminação da magia do mundo, que começara

com os velhos profetas hebreus e conjuntamente com o

pensamento cientIfico helenIstico, repudiou todos meios

mágicos de salvação como superstição e pecado, chega


"
aqui à sua conclusão 16gica. (Weber, 1967~ p. 71-72).

Weber vai mostrar como questão de sa-

ber se se devia considerar entre os escolhidos para a

salvação -- inexistente para o próprio Calvino iria


69

nao só se transformar na razao de existir dos conver-

tidos corno engendraria urna atitude inteiramente nova

diante do "curso de mundo". Existindo o mundo tão-so-

mente para glorificação de Deus, a conduta ditada pe-

la fé autêntica seria aquela que se aplicasse na rea-

lização de obras verdadeiras. Estas nao compram a sal

vaçao, mas são o meio técnico apto a revelar, pelo

sucesso que venham a alcançar, os eleitos de Deus.

Desta forma, o puritano e sua "ética"

particular engendram urna nova atitude perante o t r aba.

lho -'- o trabalho é urna vocação, um atendimento ao

chamado divino, urna forma de ordenar o mundo para

maior glória de Deus.

A relação entre a "ascese calvinista"

e a ascese secular do capitalismo é feita através dos

escri tos de Baxter, contemporâneo de Cromwell.* Para

o escritor puritano, a riqueza acumulada corno resulta

.*Cromwell foi o inspirador da conduta "ascé

tica" na guerra civil. A disciplina, a organização si~

temática militar dos "Round-Heads" , dos "homens san-

tos" liquidou o entusiasmo, a galanteria, o carisma

dos cavaleiros do rei em Naseby.


70

~
do do trabalho disciplinado do puritano em si nao e

um pecado. Ela é condenada apenas pelo perigo da.ido-

latria e ociosidade que encerra. Para Baxter a perda

de tempo é o maior de todos os pecados -- o repouso

dos santos, dos éleitos, encontra-se no outro mundo •

Nesta vida, o homem deve, para estar seguro do seu e~

tado de graça, trabalhar o dia todo "em favor do que

lhe foi destinado" por Deus, em favor de sua vocaçao.

Por essa via, "a conduta moral do ho -

mem médio foi despojada de seu caráter não planejado

e assistemático, e sujeito como um todo a um método

consistente". (Weber, 1967, p. 28).

As teses de Weber permitem compreender

os aspectos essenciais do ambiente em que se formaram,

na Inglaterra, tanto a física de Newton e o empirismo,

como as doutrinas do liberalismo político e econômico.

E o capitalismo exigia não apenas uma certa técnica de

produção -- tornada possível pela ciência· --, mas tam

bém um certo tipo de superestrutura jurídico-política;

em cuja formação a ética protestante par-eoe haver de-

sempenhado papel decisivo.

o final do texto é melancólico. Weber

propoe que a secularização da ética e doascetismo·re


71

ligioso, cujo resultado ~ a "conduta racional" nas di

versas esferas da vida moderna, esvaziou-as de contéú

do. A magia, conteúdo original da conduta do homem

do pré-capitalismo, ou a busca da salvação, conteúdo

original do ascetismo calvinista foi substituído por

quais significados?

Comentando este esvaziamento dos signi

ficados da vida e as opções ao desenvolvimento do de-

sencanto do mundo, Weber levanta a possibilidade de

uma petrificação mecanizada da vida e conclui:

"Neste caso, os "últimos homens" desse

desenvolvimento cultural poderiam ser designados como

"especialistas sem espírito, sensualistas sem coraçã~

nulidades que imaginam ter atingido um nível de civi-

lização nunca antes "alcançado". (Weber, 1967, p.13l).

Para encerrar estes comentários, seria

interessante citar uma avaliação crítica sobre a ~ti-

ca Protestante e o Espírito do Capitalismo.

"A história tem sentido, mas não ~ um

puro desenvolvimento da idéia: constrói seu sentidono

contato com a contingência, no momento em que a ini -

ciativa humana funda um sistema de vida retomando os


72

dados dispersos. E a compreensão histórica que revela

uma interioridade histórica deixa-nos, .errt re t an t.o , na

presença da história empirica com sua espessura e seus

acasos, nao a subordina a nenhuma razão escondida."

(Merleau-Ponty, 1980, p. 35). Essa é uma das

veis lições que pode ser extraída da obra de Weberpor

nós, seus contemporâneos.


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