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A contribuição de Alexander Wendt é contemporânea da contribuição dos dois

autores anteriormente citados e se estende do final da década de 1980 ao final da


década de 1990. Ao oposto de Kratochwil e de Onuf na época da publicação de suas
contribuições acadêmicas, ​Wendt era um novo e jovem acadêmico que sequer
havia defendido sua tese de doutorado quando publicou seu primeiro artigo,
em 1988. ​Ao discutir o debate agente-estrutura e ao adotar a teoria de estruturação
de Giddens, Wendt seguiu os mesmos passos que Onuf, embora de maneira
totalmente autônoma e sem consulta prévia entre os dois. No entanto, em seu artigo
de 1987, Wendt situa claramente sua contribuição no seio do debate das Relações
Internacionais, que era, então, dominado pelo debate em torno do livro do Waltz. Por
intermédio de Giddens, Wendt ​procurou questionar a posição de Waltz, que
privilegiava o nível da estrutura em detrimento do nível dos agentes, e passou
a falar de co-constituição de agentes e estrutura. A contribuição inicial de Wendt
se encaixava, então, perfeitamente no debate entre os neo-realistas e seus críticos,
e sua originalidade residia no uso do apoio da Teoria Social, algo não tão comum
naquele momento nos debates teóricos de RI.

O segundo artigo de Wendt, publicado em 1992, que certamente faz parte da lista
dos artigos mais citados na teoria de RI, é o já citado ​“Anarchy Is What States
Make Of It”. Nesse artigo, Wendt ​se afirmou como construtivista, criticou as teorias
tradicionais e dominantes na disciplina, questionou o conceito de anarquia e
apresentou uma visão alternativa das Relações Internacionais. ​No que pode ser
considerado sua principal contribuição no artigo, Wendt afirmou que a
anarquia não possui apenas uma lógica única de conflito e competição. ​Pelo
contrário, a anarquia pode reverter tanto lógicas de conflito quanto de cooperação,
dependendo do que os Estados querem fazer dela. ​Ao mesmo tempo em que
Wendt apresentou uma crítica forte e articulada contra o realismo — e, de certa
forma, contra o liberalismo também —, ele procurou estabelecer pontes com
aqueles que Keohane chamou, em seu artigo “Two Approaches”, de racionalistas.
Mais precisamente, ​mesmo negando antecedência ontológica aos agentes e à
estrutura, Wendt acabou reconhecendo um papel mais preponderante aos
Estados, já que, segundo ele, a anarquia — isto é, a estrutura — é o que os
Estados — isto é, os agentes — fazem dela. E com base nisso que muitos
críticos se referem ao construtivismo de Wendt como um construtivismo
centrado nos Estados.

Por fim, no artigo de 1994, Wendt criticou as teorias dominantes por considerarem
as identidades como predeterminadas e apresentou uma proposta para explicar, de
maneira endógena, o processo de construção de identidades coletivas. Discutindo a
formação dessas identidades coletivas, Wendt definiu-as como o produto de
processos relacionais,
sujeitas a mudanças. Com esse argumento, Wendt acabou fechando um ciclo:
processos relacionais podem levar a mudanças nas identidades coletivas, que,
por sua vez, podem modificar a lógica de funcionamento da anarquia. ​Com
isso, uma das premissas centrais do realismo — a ação dos Estados em prol da
defesa do interesse nacional — pôde ser modificada: antes de defender o interesse
nacional como algo previamente determinado, é preciso definir esse interesse
nacional e, para defini- lo, é preciso definir as identidades que estão em sua origem.

Nos meados da década de 1990, muito se falava do construtivismo, mas pouco se


falava de Onuf e Kratochwil. ​Acadêmicos como Emanuel Adler e John Gerard
Ruggie acabaram aderindo ao construtivismo pelo fato de representar uma via para
resolver os problemas impostos pelas limitações do realismo e do liberalismo, sem
que fosse preciso cair na crítica radical dos pós-modernos. No entanto, Onuf, que foi
o primeiro a usar o conceito de construtivismo e que elaborou sua versão sofisticada,
acabou sendo ignorado pela academia norte-americana. Foi nesse contexto que
Vendulka Kubalkova, uma estudiosa até então conhecida por seus trabalhos sobre a
contribuição marxista ao estudo das relações internacionais, criou um grupo de
estudo que passou a liderar junto com o próprio Onuf, com o objetivo explícito de
defender uma divulgação mais ampla da versão de Onuf do construtivismo. Foram,
então, os primeiros passos para a publicação de uma coleção de livros pela editora
M.E. Sharpe sobre visões construtivistas das relações internacionais, e que deu um
destaque à contribuição de Onuf em detrimento da de Wendt. [????? acho que não
é importante??????]

De fato, ​Wendt foi criticado por ignorar a virada lingüística e por insistir demais
em estabelecer pontes com as correntes dominantes e, principalmente, com
sua cientificidade. ​O estadocentrismo de Wendt também estava em xeque, já que
também se trata de uma concessão às correntes dominantes, de maneira a poder
ser incluído nos debates que definem e determinam a disciplina de Relações
Internacionais. ​No entanto, o estadocentrismo, que era considerado uma fraqueza
por parte dos críticos pós-positivistas, representava a força da contribuição de Wendt
para a teoria das Relações Internacionais, do ponto de vista das correntes
dominantes. A inclusão da vertente wendtiana de construtivismo no já mencionado
artigo de Katzenstein, Keohane e Krasner na IO em 1998 acabou confirmando a
postura de Wendt de construtor de pontes na disciplina: ​sua contribuição teórica
passou a ser considerada uma ponte entre positivistas e pós-positivistas. ​Pelo
fato de se identificar claramente como positivista, Wendt acabou sendo considerado
o autor que consegue lidar com a crítica pós-positivista, que a entende e pode
criticá-la, mas que não abre mão do caráter científico do saber a ser produzido. Ou
seja, Wendt fazia a concessão maior, a saber, a necessidade de produzir um
conhecimento científico, ao passo que providencia uma explicação endógena do
processo de formação de identidades coletivas. Foi nesse contexto que Wendt
preparou e publicou seu livro de 1999.

No livro, Wendt declara-se aberta e inequivocamente positivista e moderno. Situando


sua contribuição mais uma vez no centro dos estudos das relações internacionais,
ele afirma aceitar a contribuição de Kenneth Waltz, sem abrir mão de poder criticá-la
para poder ir além dela. Wendt situa claramente a produção do conhecimento dentro
de uma perspectiva científica. O único conhecimento que se pode comprovar de
maneira empírica é o conhecimento científico. ​Com isso, sem chegar a
desmerecer — como outros o fazem — qualquer outro tipo de conhecimento
não científico como mera literatura, ele não abre mão do caráter científico de
sua própria produção. Reside nisso a ponte que estabelece com as correntes
dominantes.

Wendt estabelece uma outra ponte com os pós-positivistas: sem negar o


mundo material, afirma a centralidade das idéias em sua teoria. Para ele, existe
um “mundo lá fora”, mas este mundo é socialmente construído e, por isso, é
produto das idéias e dos valores dos agentes que o constroem (para ele
qualquer teoria que ignore isso é uma teoria incompleta). ​Portanto, qualquer
teoria que ignore — ou que não incorpore de maneira endógena — instrumentos
para analisar os processos de construção das idéias e dos valores dos agentes é
uma teoria incompleta. Para Wendt, idéias e valores são centrais para qualquer
análise e deveriam ser explicadas endogenamente. Sendo as teorias tradicionais
incapazes de providenciar explicações endógenas para a formação dessas idéias e
desses valores, a teoria de Wendt vem completá-las e paliar suas deficiências.
Observamos, aqui, que o fato de Wendt dar um destaque central ao mundo das
idéias não significa que tenha “operado a virada lingüística”. ​Wendt insistiu em
manter-se distante de construtivistas como Kratochwil e Onuf ao não lidar com
o discurso como uma categoria central de sua análise. ​Maja Zehfuss afirma, a
este respeito, que, no caso de Wendt, os agentes permanecem mudos, e suas
comunicações são atos unilaterais de agentes que são seguidos por outros atos
unilaterais de outros agentes, sem que isso represente uma comunicação
intersubjetiva como apresentada por Habermas.

Uma outra ponte que Wendt procura estabelecer entre positivistas e


pós-positivistas é quando tenta responder à crítica segundo a qual seu
construtivismo é centrado no Estado. ​Por um lado, ele não apenas reafirmou a
negação da antecedência ontológica aos agentes e à estrutura e, com isso, a
co-constituição de ambos, mas também o fato de se tratar de um processo contínuo
e permanente. Com isso, Wendt garantiu suas credenciais críticas ao abrir a
possibilidade permanente de mudança nas relações internacionais. Por outro lado,
defendeu o conceito de agência como central ao entendimento dos fenômenos
sociais, de onde decorre a centralidade dos Estados nas relações internacionais.
Segundo Wendt, vivemos em um mundo de Estados, mesmo que isso não
signifique que os Estados sejam os únicos agentes das relações
internacionais. Wendt afirma, a esse respeito, que ​os Estados são atores reais aos
quais se podem atribuir qualidades antropomórficas reais. Ignorar esse fato central
seria produzir uma teoria sobre outra coisa, e não sobre as relações internacionais.
Com isso, ele garantiu poder debater com as teorias dominantes. Em seguida,
afirma Wendt que a definição das identidades precede a definição dos interesses,
antes de definir o interesse nacional, faz-se necessário definir a identidade que vai
informar a formação deste interesse. ​A partir do momento em que as identidades
não são previamente determinadas, os interesses também não podem ser
predeterminados. De qualquer maneira, com isso, Wendt oferece os instrumentos
de análise para entender a formação de identidades coletivas próprias à sua teoria.
Com isso, ele lida com a carência das teorias dominantes, que, segundo ele,
padecem de uma explicação endógena da construção de identidades.

Por fim, Wendt afirma a ​existência de três culturas de anarquia: ​a hobbesiana​, ​a


lockeana e ​a kantiana. ​A anarquia hobbesiana é caracterizada pela cultura da
inimizade. Os Estados estão embutidos de uma dinâmica de competição e
desconfiança permanentes, e a lógica que prevalece é a lógica da auto-ajuda. ​A
cultura lockeana é uma cultura de rivalidade. Os Estados competem uns com os
outros sobre recursos, posses e até poder, mas essa rivalidade não é uma dinâmica
marcada pelos imperativos de vida ou morte. A dinâmica da rivalidade é, então, uma
dinâmica caracterizada pela centralidade da soberania. ​A cultura kantiana é uma
cultura de amizade. Os Estados têm uma predisposição positiva em relação uns aos
outros. Disputas não são resolvidas mediante o recurso às armas, nem a ameaça ao
uso das armas, e ameaças contra um amigo de um Estado são consideradas por
esse Estado ameaças contra ele mesmo.

Cada uma dessas três culturas de anarquia pode ser internalizada em três
níveis diferentes. ​O primeiro nível de internalização é pela força​; ​o segundo é pelos
interesses​; e o ​terceiro é o resultado da legitimidade​. ​A internalização pela força
significa que os atores internos se conformam com a existência de uma cultura de
anarquia por existirem motivos de poder e sobrevivência para levar os atores a
aderirem a essa cultura de anarquia. ​A internalização por interesses significa que há
um preço a ser pago por aderir — ou não — a essa cultura de anarquia, e que um
cálculo de custos e benefícios levará à internalização — ou não — de uma cultura de
anarquia. ​A internalização por legitimidade demonstra um profundo convencimento
de que a cultura de anarquia não revela apenas uma questão de interesses, mas sim
de normalidade: sequer cogitam-se outras alternativas a não ser a amizade entre os
agentes. Wendt afirma que, nas três culturas de anarquia, os três níveis de
internalização são possíveis, e fala de uma matriz de três culturas por três níveis de
internalização. No entanto, é possível questionar a congruência de uma cultura
kantiana baseada na força, da mesma forma que é possível questionar — mesmo
que em grau menor — uma cultura hobbesiana baseada na legitimidade. O fato é
que Wendt considera todas as nove possibilidades plausíveis. De qualquer modo,
com a discussão sobre culturas de anarquia e sua internalização, Wendt deixa claro
que as relações internacionais revelam tanto a importância dos agentes quanto a
importância da estrutura na qual esses agentes estão embutidos.

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