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Arte e percepção Leon A natureza da luz Sir Isaac A visão empirista da O estereoscópio Charles
Alberti descreve o uso da Newton realiza seu experimento percepção Em sua New Wheatstone inventa o
perspectiva linear e outras com prismas, demonstrando que theory of vision, George estereoscópio e documenta o
deixas de profundidade para a luz branca é, de fato, Berkeley apresenta a visão papel da visão binocular na
criar a impressão de composta por uma mistura das empirista de que a percepção é percepção espacial.
profundidade na arte cores do espectro. aprendida por meio da
representacional. experiência com o mundo.
1860 1867 1907 1950 1961
Psicofísica Gustav Theodor Buscando os fundamentos Nascimento da escola da Sensação e cérebro Wilder Uma teoria da
Fechner publica Elemente der biológicos Hermann von Gestalt Os experimentos de Penfield e Theodore Rasmussen audição Georg von Békésy
psychophysik, estabelecendo os Helmholtz publica seu seminal Max Wertheimer com o publicam The cerebral cortex of recebe o prémio Nobel por sua
fundamentos da investigação Handbuch der physiologischen movimento Phi marcam o início man, descrevendo experimentos pesquisa sobre os mecanismos
sistemática dos processos optik integrando a física, a do movimento da Gestalt na de estimulação cortical, durante da audição. Sua teoria articula
sensoriais. fisiologia e a psicologia da psicologia perceptiva. neurocirurgias, que evocam como as ondas de som são
percepção visual. experiências sensoriais. transformadas em informação
neuronal.
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. '
m 28 de novembro de 1979, o vôo 901 da Air New Zealand caiu no Monte
1
Erebus, na ilha Ross, na Antártica, e todos os 257 passageiros e membros da
tripulação morreram. Vários fatores contribuíram para o desastre.
O computador de vôo da aeronave fora incorretamente programado, de modo que
o avião estava bastante fora do curso. Além disso, o piloto descera abaixo da
altitude mínima permitida para o vôo . Mas esses fatores não explicam por que a
tripulação do avião não percebeu o vulcão de mais de 3.600 metros de altura
surgindo diante deles até momentos antes do impacto.
Os psicólogos que testemunharam na comissão de inquérito ofereceram uma
explicação possível, apesar de surpreendente - os pilotos viram o que esperavam
ver. Um dos riscos exclusivos da aviação na Antártica é o "branco total", em que o
céu e o terreno coberto de neve parecem se fundir, e os pilotos não conseguem
distinguir o chão ou o horizonte. Os pilotos acreditavam estar a centenas de
quilômetros de distância, voando sobre a Ross Ice Shelf, de forma que não
esperavam que houvesse montanhas próximas à sua rota de vôo. Os psicólogos
argumentaram que as poucas deixas visuais disponíveis aos pilotos eram
suficientemente consistentes com o que eles esperavam ver para que suas
expectativas fossem confirmadas. Uma vez que não parecia haver perigo, os pilotos
decidiram - fatalmente - reduzir a altitude para dar aos passageiros uma visão
melhor da espetacular paisagem da Antártica. A combinação de um ambiente
visual incomumente escasso com as crenças dos pilotos conspirou para enganar
seus sistemas visuais para que vissem o que não estava lá - e deixassem de ver a
montanha que estava.
Para perceber o mundo, dependemos de informações fornecidas por nossos
órgãos dos sentidos - nossos olhos, ouvidos, pele, nariz e língua . Cada um desses
órgãos é sensível a diferentes estímulos físicos, e cada um contribui com
informações diferentes. No final das contas, a nossa representação perceptiva do
Como a informação dos estímulos
do mundo é transformada em
ambiente é limitada pelos estímulos aos quais somos sensíveis e pelos limites dos
atividade neural no cérebro? nossos sistemas sensoriais ao responder a esses estímulos. O estudo da sensação e
O que sabemos sobre a relação da percepção, o nosso foco neste capítulo, é o estudo desses sistemas e de como
entre a atividade neural do as informações que eles fornecem são utilizadas para criar uma representação
cérebro e nossas percepções do mental do mundo externo.
mundo?
Como conseguimos perceber o
espaço em três dimensões com
base em inputs bidimensionais da
retina? Os cientistas psicológicos geralmente dividem a maneira pela qual percebemos o mundo em duas
fases distintas: sensação e percepção. O estudo da sensação focaliza como os nossos órgãos dos
Como conhecemos as formas de
objetos que nunca vimos antes?
sentidos respondem a estímulos externos (luzes, sons, etc.) e como essas respostas são transmitidas
ao cérebro. Apercepção se refere ao processamento adicional dos sinais sensoriais no cérebro, que
Como a atenção influencia a
nossa maneira de perceber o
resulta em uma representação interna dos estímulos. Por exemplo, uma luz verde emite fótons que
mundo? são detectados nos olhos por neurônios especializados, que transmitem sinais para o cérebro (sensa-
ção). O cérebro processa esses sinais neurais, e o observador pensa, "Essa luz é verde" (percepção).

1962 1966 1982 1987


Explorando as bases Aspectos evolutivos da Nascimento da visão Teoria da integração dos
neuronais da visão David percepção James J. Gibson computacional David Marr aspectos Anne Treisman
Hubel e Torsten Wiesel apresenta sua teoria da publica sua monografia Vísion, investiga aspectos da percepçào
descrevem a anatomia funciona l percepçào direta, propondo que enfatizando a abordagem visual consciente e inconsciente.
do córtex visual primário dos os sistemas perceptivos precisam computacional ao estudo da Ela articula o papel da atenção
gatos. Eles recebem um prêmio ser compreendidos em termos percepçào visual. na percepçào dos objetos.
Nobel por seu trabalho, em dos problemas que eles
1981. evoluíram para resolver.
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 147

-ornmente, como vimos no Capítulo 1, existem muitos níveis de explicação para os processos psico-
sensação Como os órgãos dos
.ogicos. Alguns dos fenômenos de sensação e percepção são mais bem compreendidos no nível fisio- sentidos respondem aos
_Jgico. Outros fenômenos, especialmente de percepção, não podem ser explicados nesses termos estímulos externos e transmitem
-ecanicistas e precisam ser entendidos no nível psicológico - pelo menos por enquanto. as respostas ao cérebro.
Os cientistas psicológicos observam que a maneira pela qual percebemos um estímulo depende percepção O processamento, a
·e estarmos ou não prestando atenção a ele. O estudo da atenção focaliza como as expectativas organização e a interpretação
:odem influenciar a percepção e como os recursos perceptivos do cérebro são alocados para diferen- dos sinais sensoriais que resultam
em uma representação interna
-es aspectos do ambiente perceptivo.
do estímulo.
transdução Um processo pelo
qual os receptores sensoriais
QUAL É A MELHOR MANEIRA DE produzem impulsos neura is
quando recebem estimulação
E E A O A RCE ÇÃO? física ou qu ímica.
Asensação e a percepção ligam os mundos físico e psicológico. Apesquisa sobre esses processos se
riginou da necessidade filosófica de entender a natureza do conhecimento humano e foi a primeira
:orma de investigação psicológica sistemática. Oobjetivo era determinar como sabemos o que sabemos
sobre os vários estímulos de nosso ambiente. Apergunta-chave nesses anos todos tem sido: nós nasce-
:ios com conhecimento do mundo ou aprendemos o que sabemos por meio da experiência?
Os defensores do empirismo (do grego empeiria, "experiência") afirmam que todo o conheci-
:nento humano precisa ser adquirido por meio dos sentidos. O filósofo britânico do século XVII John
:.ncke concebia a mente como uma tábula rasa, um quadro em branco no qual o conhecimento é
=scrito em resultado da experiência.
Uma visão alternativa ao empirismo é o nativismo, segundo o qual pelo menos certo conheci-
::lento é inato - uma idéia que remonta a Platão, ou até mais antiga. O filósofo alemão do século
\VIII Immanuel Kant propôs que as nossas experiências fornecem input sensorial que é filtrado por
categorias mentais inatas preexistentes, como espaço e tempo, que organizam as informações.
Oestudo da percepção foi um campo de batalha para o debate entre o empirismo e o nativismo.
las infelizmente, para os defensores dos séculos XVII e XVIII dessas idéias, só no século XX foram
;x>ssíveis experimentos definitivos para tentar solucionar esse debate. Embora ainda existam per-
guntas sobre a extensão em que a percepção é aprendida ou inata, está claro que pelo menos certas
capacidades perceptivas estão presentes no nascimento, apesar de a experiência ser necessária para
que se desenvolva a percepção normal. Discutiremos mais detalhadamente o desenvolvimento dos
sistemas perceptivos no Capítulo 11.

Os estímulos precisam ser codificados para serem


compree,,n· s oPlo cP.rP ro
Como a informação sobre o mundo chega ao cérebro? Conforme você aprendeu no Capítulo 3,
o cérebro só compreende os impulsos elétricos das descargas neurais. Amaneira pela qual os nossos
órgãos sensoriais traduzem as propriedades físicas de um estímulo em impulsos neurais se chama
codificação sensorial. Diferentes aspectos do ambiente físico são codificados por diferentes impulsos
neurais. Assim, uma luz verde do semáforo será codificada pelos neurônios na retina do olho; quan- Como a informação dos estímulos
do mundo é transformada em
do a mão toca em uma frigideira quente, outros neurônios sinalizam dor. Lembre que os receptores atividade neural no cérebro?
são neurônios especializados nos órgãos dos sentidos, que passam impulsos para neurônios conecto-
res quando recebem algum tipo de estimulação física ou química. Esse processo é chamado de trans-
dução. Depois da transdução nos receptores, os neurônios conectores nos órgãos dos sentidos trans-
mitem informações para o cérebro na forma de impulsos neurais. Amaioria das informações sensoriais
vai primeiro para o tálamo, uma estrutura no meio do cérebro. Os neurônios conectores do tálamo
levam então a informação até o córtex, onde o cérebro interpreta os impulsos neurais que chegam
como visão, cheiro, som, toque ou sabor. Trataremos das questões de como o cérebro interpreta esses
impulsos quando discutirmos a percepção, mais adiante neste capítulo. ATabela 5.1 lista os estímu-
los, os receptores e os caminhos de cada órgão dos sentidos.
As sensações são compostas de pedaços de informação que são codificados quando os estímulos
são transduzidos em impulsos nervosos. Acodificação sensorial pode ser dividida em duas categorias:
quantitativa e qualitativa. A codificação de fatores quantitativos, como intensidade, brilho e altura,
geralmente é indicada pela freqüência da descarga neural. Quanto maior a freqüência da descarga,
148 GAZZANIGA e HEATHERTON
11 /

TABELA 5.1 Estímulos, receptores e cam inhos de cada se ntido

Audição Ondas de som Células auditivas ciliadas sensíveis à Nervo auditivo


pressão na cóclea do ouvido interno (oitavo nervo craniano)
Visão Ondas de luz Bastonetes e cones sensíveis Nervo óptico (segundo nervo craniano)
à luz na retina do olho
Tato Pressão sobre a pele Terminais sensíveis de Nervo trigêmeo (quinto nervo craniano)
neurônios do tato na pele do tato acima do pescoço. Nervos
espinhais do tato alhures.
Dor Grande variedade de estímulos Terminais sensíveis de neurônios Nervo trigêmeo (quinto nervo craniano)
potencialmente prejudiciais da dor na pele e em outros tecidos da dor acima do pescoço. Nervos espinhais
da dor alhures.
Paladar Moléculas Células do paladar em Porções de nervos facial,
dissolvidas em botões gustatórios glossofaríngeo e vago (sétimo,
fluido na língua na língua nono e décimo nervos cranianos)
Olfato Moléculas dissolvidas Terminais sensíveis de Nervo olfatório
em fluido nas membranas neurônios olfatórios (primeiro nervo craniano)
mucosas do nariz nas membranas mucosas

mais brilhante ou alto é o estímulo. O número de neurônios acionados pelo estímulo também contri-
bui para a codificação quantitativa, pois os estímulos mais intensos tendem a recrutar mais neurô-
nios.
Embora a codificação sensorial quantitativa seja útil para certas dimensões de uma sensação,
ela é menos útil para outras, como cor ou sabor. Para essas tarefas, o cérebro depende da codificação
sensorial qualitativa. A codificação qualitativa é possível porque diferentes receptores sensoriais
respondem a diferentes qualidades de um estímulo. A forma mais simples de codificação sensorial
qualitativa seria ter um tipo de receptor dedicado a cada estímulo possível. Assim, por exemplo,
poderia haver uma classe de receptores visuais que respondessem apenas à luz vermelha, outra
classe que respondesse apenas à luz roxa, e assim por diante. Obviamente, para que isso fosse estri-
tamente verdadeiro, teria de haver um número imenso de diferentes receptores para cada modalida-
de sensorial. Na maioria dos sistemas sensoriais - com a possível exceção da olfação (o sentido do
cheiro) -, os receptores fornecem o que é chamado de codificação grosseira, em que as qualidades
sensoriais são codificadas apenas por uns poucos receptores, cada um dos quais responde a uma
ampla gama de estímulos. O percepto final só pode ser computado comparando-se a atividade por
meio de toda a variedade de receptores.

Psicofísica: relacionando estímulos e respostas


O esforço científico para compreender a sensação e a percepção começou realmente na Alema-
nha do século XIX, levando a uma série de princípios cumulativos que orientam os pesquisadores até
os dias de hoje. Gustav Theodor Fechner (1801-1887), um físico, interessou-se pela relação entre os
estímulos físicos e as respostas de nossos sistemas perceptivos. Fechner tentou desenvolver equações
que relacionassem a experiência perceptiva à intensidade dos estímulos físicos. Ele cunhou o termo
psicofísica para descrever esse empreendimento e desenvolveu a maioria dos seus primeiros méto-
dos, muitos dos quais ainda são utilizados atualmente. Fechner começou a exploração da psicofísica
considerando os limiares, a mensuração física de quanta estimulação os órgãos sensoriais precisam
para que a estimulação seja detectável.

Limiares sensoriais Fechner definiu o limiar absoluto como a intensidade mínima de esti-
mulação que precisa ocorrer para que possamos experienciar uma sensação. Por exemplo, o limiar
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absoluto da audição é o som mais leve que uma pessoa consegue escutar. Quão alto uma pessoa que
limiar absoluto A intensidade
está na sala ao lado precisa sussurrar para que possamos ouvi-la? Nesse caso, o limiar absoluto dos mínima de estimulação que
estímulos auditivos seria o sussurro mais baixo que conseguimos escutar. Como você logo verá, os precisa ocorrer para que
limiares absolutos podem variar consideravelmente de pessoa para pessoa e até para a mesma pes- possamos experienciar uma
soa, dependendo das circunstâncias em que são medidos (a Tabela 5.2 lista alguns estímulos míni- sensação.
mos aproximados para vários sentidos). limiar de diferença A
O limiar de diferença (ou limiar diferencial) é a diferença apenas perceptível (DAP) entre quantidade mín ima de mudança
necessária para detectarmos uma
dois estímulos - a quantidade mínima de mudança necessária para detectarmos uma diferença. Se diferença entre intensidades de
um amigo está assistindo a um programa de televisão enquanto você está lendo, e o programa passa estímulos.
para um comercial que tem um volume mais alto, você talvez erga os olhos do livro, percebendo que
alguma coisa mudou. A mudança mínima de volume necessária para você conseguir perceber uma
diferença seria o limiar de diferença.
Grande parte do trabalho da psicofísica tem focalizado a mensuração de limiares de diferença
em condições experimentais diferentes. Vários psicofísicos propuseram "leis", ou equações, para
descrever a relação entre mudanças na intensidade do estímulo e as correspondentes mudanças na
experiência perceptual desses estímulos.

Lei de Weber Em 1834, o psicofísico alemão Ernst Weber fez a observação aparentemente
simples de que é mais fácil detectar uma pequena diferença entre dois pesos leves do que entre dois
?esos pesados. Pegue uma carta de 30 gramas e outra de 60 gramas, e você perceberá a diferença
:acilmente. Mas pegue um pacote de dois quilos e meio e outro pesando 30 gramas mais, e a diferen-
ça será difícil de discernir. Weber descobriu que o limiar de diferença para um estímulo é uma
proporção constante de sua intensidade. Alei de Weber se expressa na fórmula

~Ili= k

em que "k" é uma constante, conhecida como a fração de Weber; "!" é a intensidade do estímulo
padrão; e "~!" é a DAP para o estímulo. Para pesos, o limiar de diferença é tipicamente 2% do peso
do padrão. Você, provavelmente, é capaz de discriminar entre 100 gramas e 102 gramas (uma dife-
rença de 2%) e entre 1.000 gramas e 1.020 gramas. O importante na determinação do limiar de
diferença é a diferença em porcentagem entre os dois pesos, não o tamanho absoluto da diferença.
L"ma regra semelhante vale para outras sensações, tais como altura, tom e luminosidade, embora os
\·alores de porcentagem variem (veja a Tabela 5.3). Para a altura, é necessária uma diferença de
15%; para o tom, apenas 0,3%; e para a luminosidade, 1%.

Lei de Fechner Fechner estabeleceu uma relação mais ampla entre a sensação e a intensidade
de um estímulo ao combinar a lei de Weber com a ousada suposição de que cada DAP representa
uma etapa igual na magnitude psicológica de uma sensação. Alei de Fechner se expressa na fórmula

S = k log 1

em que "S" é a magnitude da experiência sensória, "k" é uma constante e "!" é a intensidade física do
estímulo. O que isso significa é que a força da experiência sensorial aumenta conforme o logaritmo

TABELA 5.2 Estímulo mínimo aproximado para cada sentido

Visão A chama de uma vela vista a 48 quilômetros em uma noite escura, sem nuvem

Audição O tique-taque de um relógio a seis metros em condições de silêncio


Paladar Uma colher de chá de açúcar em dois galões de água
Olfato Uma gota de perfume difundida no volume total de seis salas
Tato A asa de uma mosca caindo na sua bochecha de uma distância de um centímetro
150 GAZZANIGA e HEATHERTON

TABELA 5.3 As fra ções de da intensidade do estímulo. A lei de Fechner indica que, quando as intensidades do estímulo são
Weber pa ra os altas, grandes aumentos na intensidade física são registrados como mudanças muito menores nas
sentidos sensações experienciadas. Considere uma lâmpada com uma chave de três posições. Cada posição
da chave aumenta a watagem na mesma quantidade (digamos, 30-60-90 watts), mas a diferença
entre 30 e 60 watts parece muito maior do que entre 60 e 90. Embora a intensidade da luz física
aumente em duas medidas iguais, a maior luminosidade da sala após a primeira etapa faz com que
Freqüência de som 0,003 a segunda etapa pareça ter um impacto bem menor.
Intensidade de som 0,15 Lei da potência de Stevens A lei de Fechner é um constructo teórico. O próprio Fechner
Intensidade de luz 0,01 achava que ela não poderia ser testada diretamente, pois duvidava que as pessoas pudessem relatar
Concentração de odor 0,07
confiavelmente mudanças na magnitude de uma sensação. Foi só na década de 1950 que o psicofísico
americano S. Stevens desenvolveu uma técnica em que pedia a sujeitos que atribuíssem números às
Concentração de sabor 0,20 sensações de diferentes magnitudes. Ao fazer isso, ele descobriu que as pessoas eram notavelmente
Intensidade de pressão 0,14 consistentes nos números atribuídos e descobriu também que a lei de logaritmo de Fechner nem sempre
era válida. Em vez disso, ele propôs que uma função de potência descreve a relação entre a intensidade
do estímulo e a intensidade da sensação. Alei da potência de Stevens se expressa na fórmula

S = kJp

em que "S" é a magnitude relatada de uma experiência sensorial, "k" é uma constante,"!" é o estímu-
lo-padrão e "p" é um expoente que varia de acordo com a modalidade sensorial, de forma que
diferentes expoentes são obtidos para cada sentido. Hoje, a lei da potência de Stevens é a equação
aceita para descrever a relação entre a intensidade real e a intensidade percebida de um estímulo.

Teoria da detecção de sinal Imagine que você está no portão do aeroporto esperando uma
velha amiga que você não vê há anos. Conforme as pessoas saem pelo portão, você esquadrinha a
multidão esperando reconhecê-la. Apassagem do tempo complica a tarefa - sua amiga certamente
estará um pouco diferente da última vez em que você a viu. Levando isso em conta, você examina
cada pessoa cuidadosamente. A maioria das pessoas é facilmente descartada - são velhas demais,
do sexo errado, altas demais. Mas algumas pessoas compartilham com ela algumas características o
suficiente para poderem ser a sua amiga, pelo menos à primeira vista. A sua tarefa é concluir se
alguma delas é realmente a sua amiga ou se aquele sentimento inicial de reconhecimento é apenas
um alarme falso. Sua exatidão pode ser influenciada por inúmeros fatores, incluindo quanto tempo
faz que você não vê sua amiga, se você está cansada/ o, e quantas pessoas saíram daquele avião. Em
outras palavras, embora o estímulo (sua amiga) seja o mesmo, a eficiência com que você vai detectá-
lo pode mudar dependendo da situação.
Segundo a teoria da detecção de sinal, existem quatro variáveis críticas na detecção de um
estímulo: sina~ resposta, ruído e viés de resposta. Essas duas últimas variáveis refletem a ambigüidade
inerente da situação sinal-detecção. O conceito de ruído foi introduzido para explicar o efeito variá-
vel que um estímulo pode ter sobre os sistemas sensoriais. Os estímulos estão sempre competindo
com um fundo mutável de outros eventos perceptivos e psicológicos, de modo que sua saliência nem
sempre será a mesma. No nosso exemplo do aeroporto, você está tentando detectar um sinal - sua
amiga - em um ruído de fundo continuamente variável - centenas de passageiros desembarcando.
O viés de resposta varia de acordo com quantas evidências são necessárias para o observador antes
que ele dê a resposta. Em algumas circunstâncias, um observador terá um forte viés contra dar uma
resposta e precisará de muitas evidências de que o sinal está presente. Em outras condições, o mes-
mo observador precisará apenas de uma pequena quantidade de evidências. Por exemplo, se você
fosse um/ a radiologista examinando um scan CAT para sinais de um tumor cerebral, talvez fosse
extracauteloso/ a antes de aceitar alguma anormalidade como um sinal (i. é, tumor), pois sua respos-
ta poderia levar a uma neurocirurgia drástica e perigosa. Entretanto, se você estivesse examinando
uma imagem de raio Xem busca de sinais de um osso quebrado, talvez estivesse muito mais inclina-
do/ a a fazer um diagnóstico positivo, pois o tratamento - apesar de desconfortável - não põe em
risco a vida do paciente. AFigura 5.1 ilustra como o viés pode influenciar as respostas a um estímulo
ambíguo.
Na teoria da detecção de sinal, qualquer julgamento pode ter um de quatro resultados (um
julgamento é um evento em que um sinal pode - ou não - estar presente). Se o sinal estiver
presente e o observador detectá-lo, o resultado é um acerto. O fracasso em detectar um sinal verda-
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 151

(b) Respostas dos que ( c) Respostas dos que


(a) Resposta dada "votam sim" "votam não" adaptação sensorial Quando a
sensibilidade do observador a um
Sim Não Sim Não Sim Não
estímulo diminui com o passar do
tempo.
o 89% 11% 45%
:; Ligado Acerto Erro Ligado Ligado 55%
E
.;:;;;
"'
Q)

o
"-;;; Des- Alarme Rejeição Des- 41 % 59% Des- 8% 92%
i:::: ligado falso correta ligado ligado
V"l

GU 'A Matrizes de decisão para a teoria de detecção de sinal. Há quatro resultados possíveis
quando se pergunta a um participante se alguma coisa aconteceu durante um julgamento (matriz a). As
oessoas cujo viés é relatar o sinal tendem a dar as respostas da matriz b; quando o viés é o de negar a
ocorrência do sinal, a pessoa tende a responder de acordo com as percentagens da matriz e.

deiro se chama erro. Se o observador "detectar" erroneamente um estímulo que não estava lá, o
resultado é um alarme falso. Finalmente, se o estímulo não for apresentado e o observador negar tê-
lo visto, o resultado é uma rejeição correta. Os teóricos da detecção de sinal salientam que a sensibi-
lidade do observador ao estímulo só pode ser calculada comparando-se o índice de acertos com o
índice de alarmes falsos - corrigindo, assim, qualquer viés que o observador poderia trazer para a
situação de testagem.

Adaptação sensorial A sua resposta ao estímulo muda com o passar do tempo. Imagine que
você está estudando na biblioteca quando o trabalho começa subitamente em uma obra no terreno
ao lado. Quando o equipamento é ligado, o som parece especialmente alto e perturbador. Depois de
alguns minutos, todavia, você quase não nota o barulho; ele parece sumir em um segundo plano.
Esse é um exemplo do que os pesquisadores chamam de adaptação sensorial. Os pesquisadores
perceberam que a sensibilidade dos observadores diminui com o passar do tempo. Se um estímulo
for apresentado continuamente, as repostas dos sistemas sensoriais que o detectam tendem a dimi-
nuir no decorrer do tempo. Igualmente, se um estímulo for apresentado repetidamente, a resposta
sensorial tenderá a diminuir com exposições repetidas. Uma maneira de pensar sobre isso é conside-
rar que os sistemas sensoriais estão sintonizados para detectar mudanças no ambiente. Quando
algum aspecto do ambiente muda, é importante para nós sermos capazes de detectar isso; não é tão
importante continuar respondendo a um estímulo que não muda. Observe que quando um estímulo
contínuo pára, normalmente também existe uma grande resposta. Se o barulho da obra parar subita-
mente, você provavelmente perceberá o súbito silêncio. Como você verá mais adiante neste capítulo,
os pesquisadores muitas vezes tiram vantagem da adaptação sensorial para explorar a natureza dos
sistemas sensoriais.

Qual é a melhor maneira de compreender a sensação e a percepção?


O estudo da sensação focal iza como os nossos órgãos dos sentidos transduzem informações de estímulos ext ernos
em impulsos neurais. A codificação sensorial de fatores quantitativos, como intensidade, luminosidade e altura,
depende da freqüência da descarga neural e do número de células que descarregam, enquanto fatores qualitativos
como cor e tom são cod ificados de acordo com o padrão de ativação por meio de uma série de fibras. O
desenvolvimento de métodos psicofísicos no século XIX deu início às tentativas de quantificar de que maneira os
estímulos afetam as sensações e percepções. Psicofísicos clássicos como Weber, Fechner e St evens desenvolveram
fórmulas para medir a quantidade de mudança necessária no estímulo para criar mudança na percepção do
participante. Até o desenvolvimento da teoria da detecção de sinal, os psicofísicos só se preocupavam com
estímulos e respostas. Os teóricos da detecção de sinal reconheceram que variáveis humanas, como motivação e
estado de alerta, também contribuem para a percepção.
152 GAZZANIGA e HEATHERTON

retina A fina superfície interna da QUAIS SÃO OS PROCESSOS SENSORIAIS DOS


parte de trás do globo ocular. A NOSSOS SENTIDOS PRIMÁRIOS?
reti na conté m os fotorreceptores
que t ra nsduzem a luz em sinais
neura is. Perceber um estímulo se divide em três partes. Primeiro, um estímulo físico invade os recepto-
acomodação Um processo pelo res de um órgão dos sentidos. Segundo, uma resposta fisiológica no órgão do sentido transduz a
qual os múscu los mudam a form a energia do estímulo em um código elétrico - um impulso neural - que é carregado para o cérebro.
do cristalino, afinando-o para focar
o bjetos distantes ou engrossando-o Finalmente, esse código é processado no cérebro, resultando em uma experiência psicológica: a
para focar objetos próxi mos. percepção de imagem visual, som, gosto ou cheiro. Tradicionalmente, as primeiras duas partes são
consideradas sensação, enquanto a terceira é percepção. Para introduzir a sensação, nós primeiro
examinaremos os receptores, a transdução e a codificação de cada sentido.
Ao pesquisar a sensação, os investigadores geralmente se aprofundam na fisiologia dos siste-
mas visual, auditivo, olfatório, do paladar e do tato: olhos, ouvidos, nariz, língua, pele. Nesta
seção, nós revisaremos como os estímulos são detectados e enviados ao cérebro em cada um dos
cinco sentidos primários, que são freqüentemente subdivididos em duas categorias: sentidos de
distância e sentidos de proximidade. Os três sentidos de distância são a visão, a audição e o olfato.
Nós não precisamos estar em contato direto com os estímulos para vê-los, ouvi-los ou cheirá-los.
Os sentidos de proximidade, o tato e o paladar, requerem contato direto com os estímulos para
11 que ocorra a sensação.

1
Na visão, o olho detecta ondas de luz
Se o conhecimento é adquirido por meio dos sentidos, então a visão é, de longe, a nossa fonte
de conhecimento mais importante. Considere quanto do que sabemos vem daquilo que enxergamos.
Será que esse lugar é seguro ou perigoso? Essa pessoa parece amistosa ou hostil? Até as nossas
metáforas para o conhecimento e o entendimento geralmente são visuais: "estou vendo", "a resposta
está clara", "esse ponto está obscuro para mim". Não surpreende, então, que a maior parte dos
estudos científicos da sensação e da percepção focalize (por assim dizer) a visão. As várias maneiras
pelas quais os cientistas estudam a sensação e a percepção são discutidas em '~travessando os níveis
de análise: Evidências convergentes no estudo da percepção".
Os psicólogos se referem ao estímulo externo como estímulo distal e à energia do estímulo
que é transduzida pelos órgãos dos sentidos como estímulo proximal ("distal" e "proximal" signi-
ficam, respectivamente, "distante" e "próximo"). Na percepção, o cérebro utiliza a informação do
estímulo proximal para construir uma representação do estímulo distal. Na visão, o estímulo pro-
ximal são as ondas de luz. Alguns estímulos distais emitem luz (estrelas, lâmpadas, fogo), mas a
maioria dos objetos que vemos refletem luz (cadeiras, pessoas, grama, e assim por diante). O
processo visual começa quando a luz é transduzida em impulsos elétricos por fotor-
receptores nos olhos.
O olho humano trabalha como uma câmera, focalizando a luz para formar uma
imagem na retina (Figura 5.2). Aluz passa primeiro através da córnea, o revestimento
/Retina externo transparente do olho. Raios de luz entram e são dirigidos para o interior pelo
/Cristalino
cristalino, que focaliza a luz para formar uma imagem na retina, a superfície interna da
Pupila ,.( Fóvea~ parte posterior do globo ocular. A pupila, um pequeno orifício na frente do olho, se
contrai ou se dilata para alterar a quantidade de luz que entra no olho. Aíris, um mús-
culo opaco e circular, controla o tamanho da pupila e dá aos olhos a sua cor. Atrás da íris,
os músculos mudam a forma do cristalino - afinando-o para focar objetos distantes e
engrossando-o para focar objetos próximos. Isso é chamado de acomodação. Ocrista-
Córnea lino e a córnea trabalham juntos para coletar e focalizar os raios de luz refletidos pelos
objetos e juntam os raios para formar uma imagem invertida do objeto na retina.

Bastonetes e cones Aretina tem dois tipos de células receptoras: bastonetes e


O olho. A córnea é uma camada
protetora transparente que cobre o cristalino, que focaliza cones, assim chamados em virtude de suas formas distintivas. Os bastonetes respon-
imagens na superfície da retina. Como acontece em uma dem em níveis extremamente baixos de iluminação e são primariamente responsáveis
câmera, a imagem na retina fica de cabeça para baixo. Os pela visão noturna; eles não suportam a visão para cores e não são bons em resolver
receptores na retina enviam informações para o córtex detalhes finos. Os cones, em contraste, são menos sensíveis a baixos níveis de luz: eles
visual via nervo óptico. são primariamente responsáveis pela visão sob alta iluminação e para cor e detalhe.
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 153

Dentro dos bastonetes e dos cones, substâncias químicas sensíveis à luz, chamadas fotopigmentos,
fóvea O centro da retina onde os
iniciam a transdução das ondas de luz em impulsos neurais. cones estão densamente
Há aproximadamente 120 milhões de bastonetes e 6 milhões de cones em cada retina. Os cones comprimidos.
estão densamente comprimidos em uma pequena região próxima ao centro da retina chamada fó- células ganglionares Uma classe
vea. Embora existam cones espalhados pelo restante da retina (exceto na mancha cega, veja abai- de neurônios localizados na retina
xo), eles se tornam cada vez mais escassos perto da periferia (Figura 5.5). Os bastonetes estão todos que realizam uma série de cálculos
localizados na periferia da retina; nenhum está localizado na fóvea. sofisticados sobre os impulsos dos
bastonetes e dos cones. Os axônios
das células ganglionares formam o
Transmissão do olho para o cérebro A geração de sinais elétricos pelos fotorreceptores nervo óptico.
na retina é apenas o começo do processo visual. Imediatamente depois que a luz é transduzida em núcleo geniculado lateral
impulsos neurais pelos bastonetes e cones, outras células na retina realizam uma série de cálculos (NGL) Uma região do tálamo para
sofisticados sobre esses impulsos. A produção dessas células converge para 1 milhão de células onde a informação visual vai
ganglionares da retina. Axônios dessas células ganglionares se reúnem em um feixe chamado primeiro, que depois retransmite a
informação para o córtex visual.
nervo óptico, que existe no olho na parte posterior de cada retina. O ponto em que o nervo óptico sai
da retina não tem nenhum bastonete ou cone, resultando em uma pequena mancha cega em cada mistura subtrativa de cor Uma
maneira de produzir um dado
olho. Essa mancha cega pode ser identificada, conforme demonstrado na Figura 5.6, mas nós geral- padrão espectral em que a mistura
;nente não temos consciência disso. Cada nervo óptico carrega informações para o sistema nervoso ocorre dentro do próprio estímulo e
central. Antes de entrar no cérebro, o nervo óptico se divide em duas partes que se cruzam no é, na verdade, um processo físico,
quiasma óptico, fazendo com que toda a informação do lado esquerdo do espaço visual (i. é, à esquer- não um processo psicológico.
da do ponto do olhar) seja projetada para o hemisfério direito do cérebro e vice-versa, como mostra mistura aditiva de cor Uma
a Figura 5.7. Uma vez no cérebro, a informação viaja para uma região do tálamo chamada núcleo maneira de produzir um dado
padrão espectral em que diferentes
geniculado lateral (NGL) e é, então, retransmitida para o córtex visual no lobo occipital. comprimentos de onda de luz são
misturados. O percepto é
A cor da luz é determinada por seu comprimento de onda A luz visível consiste determinado pela interação desses
em ondas eletromagnéticas que variam de 400 a 700 nanômetros (nm) de comprimento. Acor da luz comprimentos de onda com
receptores no olho e é um processo
é determinada pelos comprimentos de onda das ondas eletromagnéticas que a constituem. Em ter- psicológico.
mos bem simples, cada comprimento de onda de luz corresponde a uma cor diferente. Como você
\·erá, a relação entre comprimento de onda e cor percebida é bastante complexa e só pode ser com-
preendida considerando-se a resposta do sistema visual a diferentes comprimentos de onda. A luz
branca, por exemplo, contém toda a gama de comprimentos de onda do espectro visível.
Os seres humanos conseguem distinguir milhões de tons de cores, que podem ser categorizados
em três dimensões: matiz, luminosidade e saturação. O matiz se refere às características distintivas
de uma cor que a situam no espectro; o matiz depende principalmente do comprimento de onda da
luz quando ela atinge o olho. Aluminosidade se relaciona à intensidade ou luminescência percebidas
em uma cor e é determinada principalmente pela quantidade total de luz ou sua intensidade. Deve-
mos ter cuidado para não confundir luminosidade - uma dimensão física - com claridade - uma
dimensão psicológica. Aclaridade de uma área é determinada por sua luminosidade relativa ao seu
entorno. Assim, dois cinzas com a mesma luminosidade podem diferir na claridade, dependendo dos
níveis circundantes de luminosidade. Embora a claridade seja uma variável mais importante do que
a luminosidade para descrever a aparência visual, ela não tem um correlato físico simples. Aterceira
dimensão, a saturação, refere-se à pureza de uma cor. Asaturação varia de acordo com a mistura de
comprimentos de onda presente em um estímulo. Cores espectrais puras têm apenas um compri-
mento de onda, ao passo que as cores pastel têm uma mistura de muitos comprimentos de onda.

Mistura subtrativa e aditiva de cor A cor é determinada não apenas pelo comprimento
de onda mas também pela mistura de comprimentos de onda (ou padrão espectral) de um estímulo.
Existem duas maneiras de produzir um certo padrão espectral: mistura subtrativa e aditiva de com-
primentos de onda. Ao misturar, digamos, tintas, a mistura ocorre dentro do próprio estímulo e é um
processo físico. Isso é chamado de mistura subtrativa de cor. Quando luzes de diferentes com-
primentos de onda são misturadas, o percepto é determinado pela interação desses comprimentos
de onda com receptores no olho e é um processo psicológico. Isso é chamado de mistura aditiva
de cor.
Amistura subtrativa de tintas ocorre porque as cores são determinadas por pigmentos - subs-
tâncias químicas na superfície dos objetos que absorvem (ou subtraem) diferentes comprimentos de
onda de luz e impedem que eles sejam refletidos para o olho. A cor dos pigmentos é determinada
pelos comprimentos de onda que são refletidos. Assim, a tinta azul contém pigmentos que só absor-
vem longos comprimentos de onda (amarelo e vermelho); a tinta parece azul porque ela reflete as
EVIDÊNCIAS CONVERGENTES NO ESTUDO DA PERCEPÇÃO
Embora o estudo da percepção seja fundamentalmente de Um dos principais problemas na pesquisa neuropsicológica é
natureza psicológica, os pesquisadores basearam-se em evidências que a lesão cerebral raramente se restringe a uma única área do
de muitos outros campos científicos para informar suas teorias. O cérebro, de modo que nem sempre é fácil estabelecer relações
esforço que começou há mais de um século com a psicofísica básica entre estrutura cerebral e função. Isso levou alguns pesquisadores
aproveita cada vez mais as inovações em outros campos para a criarem lesões em cérebros animais, restritas a uma única área
aprender como o cérebro processa a informação perceptual. cortical, para poderem observar os concomitantes déficits na
Uma das áreas mais influentes no estudo da percepção tem percepção.
sido a neurofisiologia. Os neurofisiologistas sensoriais basearam-se Um dos desenvolvimentos mais entusiasmantes dos últimos
principalmente em experimentos de registro de célula única com anos foi a introdução de aparelhos de imagem cerebral como a
gatos, ratos e macacos para descobrir como as informações dos PET e a IRM funcional que permitem aos cientistas observar o
sentidos são codificadas no cérebro. Como vocês viram no Capítulo cérebro humano em ação não-invasivamente (i. é, sem causar
2, microeletrodos inseridos no córtex de um animal podem qualquer dano). Essas técnicas permitem que os psicólogos
registrar atividade em neurônios próximos. É apresentada, então, perceptivos observem quais regiões do cérebro respondem a
ao animal uma série de estímulos como luzes ou formas que determinados estímulos e como essas respostas mudam conforme
aparecem rapidamente em uma tela. Os pesquisadores observam os parâmetros do estímulo são variados (Figura 5.3).
se esses estímulos fazem que os neurônios próximos ao Talvez os avanços mais compelidores na pesquisa perceptiva
microeletrodo mudem seu ritmo de descarga. É assim que os sejam o resultado de evidências convergentes de dois ou mais
pesquisadores descobriram que a codificação quantitativa campos de pesquisa. Essas evidências são particularmente
depende do ritmo da descarga neural; por exemplo, quanto maior convincentes porque não é provável que idiossincrasias ou falhas
a intensidade do estímulo, mais rápido o ritmo da descarga neural. metodológicas tenham o mesmo efeito sobre dois experimentos
Outro campo influente no estudo da percepção é a inteiramente independentes.
neuropsicologia. Os neuropsicólogos estudam a relação entre as Um exemplo de evidências convergentes na pesquisa
estruturas do cérebro e as funções psicológicas - por exemplo, perceptiva vem de estudos de regiões do cérebro envolvidas no
como as funções psicológicas são perturbadas quando as pessoas processamento da cor e do movimento. Conforme mostra a Figura
sofrem lesão cerebral. Vários fenômenos neuropsicológicos são de 5.3, o neurocientista visual Semir Zeki e seus colegas utilizaram
especial interesse para os pesquisadores da percepção. Por exemplo, imagens PET para mostrar que diferentes regiões do córtex visual
uma lesão em uma das áreas do cérebro que recebem input são ativadas quando os sujeitos processam informação de cor (em
sensorial dos receptores - as chamadas áreas sensoriais primárias - uma área chamada V4) e de movimento (na área MT ou V5) (Zeki,
resulta em uma disrupção daquela modalidade sensorial. Assim, 1993).
uma lesão na área visual primária no lobo occipital provoca uma Evidências neuropsicológicas confirmam esses achados.
mancha cega, ou escotoma, no campo visual do paciente. Pacientes com lesão cerebral que inclui a área V4 são
Evidências neuropsicológicas revelaram que inúmeras áreas freqüentemente incapazes de processar as cores. Eles relatam ver
corticais estão envolvidas no processo perceptivo, algumas das o mundo em preto e branco - uma condição chamada
quais realizam funções notavelmente específicas. Lesões em partes acromatopsia. Considere também o dramático caso de M. P., uma
dos lobos occipital, parietal e temporal podem causar déficits alemã que ficou cega para o movimento após sofrer uma lesão na
aparentemente bizarros na percepção visual. Por exemplo, lesões área V5. Ela via o mundo como uma série de instantâneos, em vez
em uma região na junção dos lobos occipital e temporal podem de como uma imagem em movimento (Zihl et ai., 1983) (Figura
resultar na incapacidade de reconhecer certos tipos de objetos. 5.4). Ao servir chá, M. P. via o líquido congelado no ar e ficava
Essa síndrome, chamada de agnosia de objeto, pode ser surpresa quando sua xícara derramava. Antes de atravessar a rua,
surpreendentemente seletiva; um paciente pode ser incapaz de ela via um carro lá longe, mas quando tentava atravessar, o carro
reconhecer animais, por exemplo, mas estar no intervalo normal já estava quase passando. O déficit raro de M. P. chama-se
para outros tipos de objetos (Caramazza e Shelton, 1998). Da acinetopsia - a incapacidade de perceber o movimento.
mesma forma, lesões no giro fusiforme, na superfície inferior do Um segundo exemplo de como evidências convergentes nos
lobo temporal, às vezes causam um déficit específico no ajudam a compreender a percepção vem dos neuropsicólogos
reconhecimento de rostos familiares, chamado prosopagnosia . Os Leslie Ungerleider e Mortimer Mishkin (1982), do National
pacientes com prosopagnosia geralmente reconhecem outros lnstitutes of Health dos Estados Unidos. Utilizando registros de
objetos sem dificuldade, mas não conseguem reconhecer membros célula única em macacos, eles descobriram que as saídas do córtex
da própria família, ou até a si próprios. visual primário seguem dois cursos de processamento paralelos -

ondas mais curtas. Os pigmentos amarelos absorvem comprimentos de onda mais curtos (azul) e
mais longos (vermelho), mas refletem comprimentos de onda na região amarela central do espectro
visível. Se misturarmos tinta azul e amarela, conseguiremos verde, porque o pigmento amarelo ab-
sorve os comprimentos de onda azuis e o pigmento azul absorve os comprimentos de onda vermelho
e amarelo. O que resta é o comprimento de onda correspondente ao verde. Então, os pigmentos se
misturam para formar o verde por subtração. O vermelho, o amarelo e o azul são as cores subtrativas
primárias. Misture-as, e você conseguirá o preto, porque, juntos, esses pigmentos absorvem quase
todas as cores do espectro visível.
A mistura aditiva de cor é uma técnica conhecida pelos iluminadores de palco. Para eles, o
vermelho, o amarelo e o azul não são as cores primárias porque eles podem mirar uma luz vermelha
FIGURA 5.4 Pacientes com cegueira para o movimento (acinetopsia)
vêem o mundo como uma série de instantâneos, em vez de movimentos
flwdos . Até servir chá em uma xícara passa a ser difícil, porque no
momento em que eles vêem que a xícara está cheia, ela já está
derramando.

U 5 Imagens de PET mostram como várias seções do cérebro


que o caminho dorsal parece ser especializado para a percepção
são ativadas por estímulos visuais específicos. espacial - determinando onde está o objeto e o relacionando a
outros objetos em uma cena . Esses dois G:lminhos são, portanto,
conhecidos como as áreas " o que " e "onde". Estudos
subseqüent es uti lizando scans PET e IRM funcional de humanos
um caminho ventral que inclui as regiões do lobo occipita l e confirmaram que regiões cerebrais no caminho dorsal são ativadas
t emporal e um cam inho dorsal envolvendo regiões do lobo por tarefas que requerem decisões sobre relações espaciais entre
occipital e parietal. O caminho ventral parece ser especializado objetos, enquanto reg iões no caminho ventral são ativadas por
para a percepção e para o reconhecimento dos objetos, ao passo ta refas que requerem identif icar objetos.

e uma luz verde para o mesmo ponto de um palco e criar uma luz amarela. De fato, quase qualquer
cor pode ser criada pela combinação de apenas três comprimentos de onda, na medida em que um
for da extremidade do espectro de comprimento de onda longo (vermelho), um for da metade do
espectro (verde-amarelo) e um for da extremidade curta do espectro (azul-violeta). Isso é chamado
de lei das três cores primárias. Observe que as cores exatas das três primárias na mistura
aditiva de cor são mais ou menos arbitrárias. Entretanto, por razões que logo se tornarão claras, a
maioria dos psicólogos considera o vermelho, o verde e o azul as cores primárias aditivas. lei das três cores
primárias Qua lquer cor pode ser
produzida misturando-se luz de
Explicando os fenômenos da visão das cores Quer a cor seja criada subtraindo-se mati- apenas três comprimentos de onda .
zes da luz branca ou misturando-se cores, o resultado é o mesmo: uma certa combinação de compri-
156 GAZZANIGA e HEATHERTON

11

U Um corte transversal esquemático da retina. A luz passa através da córnea e é focalizada na retina pelo cristalino. Ela passa através da
camada de células ganglionares antes de ser transduzida em impulsos neurais pelas células receptoras. Existem dois tipos de receptores na retina: bastonetes
e cones. As células na camada média transduzem os impulsos neurais, que formam uma sinapse com as células ganglionares. As células ganglionares, por
sua vez, transmitem impulsos neurais para o cérebro.

mentos de onda batendo na retina. Por mais complicado que seja esse padrão, ele freqüentemente pode
ser substituído por luz de um só comprimento de onda para produzir a mesma cor percebida.
Se cada comprimento de onda corresponde a uma cor, como a combinação de múltiplos com-
primentos de onda pode criar uma única cor? Isso acontece devido à
maneira pela qual a luz é transduzida em impulsos neurais na retina. A
visão para a cor começa nas células cônicas da retina, que transduzem a
luz em impulsos neurais. Existem atualmente três tipos diferentes de
• cones na retina, cada um dos quais corresponde a um comprimento de
onda diferente de luz. Um tipo de cone é mais sensível à luz azul (com-
primento de onda curto), outro é mais sensível à luz verde (comprimen-
to de onda médio), e a população restante é mais sensível à luz verme-
11 lha (comprimento de onda longo). Acor de um estímulo é determinada
GU O nervo óptico cria a mancha cega que todos nós
temos - um pequeno ponto na parte posterior da retina. Para encontrar o
por quanto de cada tipo de cone ela ativa. Assim, a luz amarela parece
seu ponto cego, segure este livro diante de você e olhe para o ponto, amarela porque ela estimula mais ou menos igualmente os cones "ver-
fechando seu olho esquerdo. Mexa o livro para perto e para longe de seu melho" e "verde" e praticamente não estimula os cones "azuis". Da mes-
rosto até o coelho desaparecer. Você pode repetir isso para o seu olho ma forma, podemos criar luz amarela de luz vermelha e verde porque
direito virando o livro de cabeça para baixo. cada uma estimula a população de cones correspondente. Para o cére-
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 157

bro, não existe nenhuma diferença entre luz


amarela e uma combinação das luzes vermelha
e verde. Apesquisa fisiológica mostra que os três
tipos de cones diferentes da retina contêm cada
um fotopigmentos que são extremamente sensí-
veis a diferentes comprimentos de onda do es-
pectro visível. As populações de três cones são
chamadas de cones "C", "M" e"!'.' porque corres-
pondem maximamente a comprimentos de onda
curtos, médios e longos, respectivamente (alguns
cientistas que estudam a visão os chamam de
cones a, pe y, respectivamente). Fundamental-
mente, a nossa percepção das diferentes cores é
determinada pela razão da atividade entre os três
receptores cônicos.
A codificação inicial da informação de cor
por apenas três tipos de células cônicas da reti-
na é uma das descobertas mais importantes no
estudo científico da percepção visual. Ela ilustra
como uma variedade essencialmente ilimitada
de cores pode ser codificada por um pequeno
número de receptores - um princípio ubíquo Calículo superior
na codificação neural. Existem aspectos da vi-
são de cor, todavia, que não são preditos pela
existência de três tipos de cones na retina. Por Radiação óptica
exemplo, algumas cores parecem ser "opostas",
em certo sentido (Hering, 1878/1964). Quando
olhamos para uma imagem vermelha por algum
primário
tempo, vemos uma pós-imagem verde por um
certo tempo depois que paramos de olhar (e vice-
\"ersa). Da mesma forma, quando ficamos olhan- Os caminhos ao longo dos quais a informação do campo visual esquerdo se
projeta para o córtex visual direito, e a informação do campo visual direito se projeta para o córtex
do para uma imagem azul por algum tempo,
visual esquerdo
\·emos uma pós-imagem amarela quando deixa-
mos de olhar (e vice-versa) (Figura 5.9). ós
também temos dificuldade para visualizar certas misturas de cores. Por exemplo, é mais fácil imagi-
nar um amarelo avermelhado ou um verde azulado do que um verde avermelhado ou um amarelo
azulado.
Esses fenômenos não podem ser explicados pelas respostas dos diferentes cones na retina. Para
explicá-los, precisamos examinar o próximo estágio do processamento visual, nas células gangliona-
res da retina. Como você viu, a informação dos cones converge para as células ganglionares na
retina, algumas das quais são sensíveis à cor de um estímulo e algumas das quais não são. Urna

O prisma separa os raios


de luz no espectro das cores: vermelho,
laranja, amarelo, verde, azul, índigo e
violeta (VLAVAIV).
158 GAZZANIGA e HEATHERTON

..
** ******* ** .................. .
FIGURA 5. 9 Olhe para o ponto no * * * * * *
centro da bandeira por pelo menos 30 ** ******* *
* .................. .
* * * * *
segundos. Depois olhe para o ponto no * * * * * . .................. .
* * * * * •
espaço em branco à direita. Como os seus * * * * * *
receptores se adaptaram ao verde e
amarelo da primeira imagem, a pós-
imagem aparece nas cores complementares
vermelho e azul.

classe de células ganglionares sensíveis à cor recebe input excitatório dos cones-L, mas é inibida por
cones-M (ou vice-versa). Essas células criam a percepção de que o vermelho e o verde são "opostos".
Outras células ganglionares são excitadas pelo input dos cones-e, mas inibidas pela atividade de
cones-L e cones-M (ou vice-versa). Elas criam a percepção de que o azul e o amarelo são opostos.
Padrões similares de excitação e inibição são repetidos no tálamo e novamente no córtex visual.

Inibição lateral, um processo da retina , também influencia a percepção


11 visual Talvez você conheça o fenômeno do contraste simultâneo, que faz com que um objeto
pareça mais claro contra um fundo escuro do que contra um fundo branco. Sabemos que esse efeito
é causado pela diferença de fundo. O mecanismo fisiológico que causa esse efeito se chama inibição
lateral (veja a Figura 5.1 O) .
Os experimentos de registro de célula única na retina de gatos indicam que as células de regiões
vizinhas da retina tendem a se inibir mutuamente. Se uma célula é estimulada, ela envia informa-
ções para o cérebro, mas também envia informações para os neurônios vizinhos inibindo sua ativida-
de. O efeito dessa inibição lateral é enfatizar mudanças nos estímulos visuais, o que
torna o sistema visual especialmente sensível a bordas e contornos. Isso é importante
porque as áreas de estimulação visual em modificação tendem a corresponder às bor-
das dos objetos no mundo físico. Desde um estágio muito inicial de processamento,
então, o circuito do sistema visual é "ativado" para facilitar a localização das fronteiras
dos objetos.

Na audição, o ouvido é um detector de ondas


sonoras
Aaudição é secundária apenas à visão como fonte de informação sobre o mundo.
Ela é não somente um mecanismo para determinar o que está acontecendo no ambien-
te, mas também fornece um meio para a linguagem falada. Como a visão, a audição é
um sentido de distância. O estímulo proximal da audição é o som, o deslocamento de
moléculas de ar causado por uma mudança na pressão do ar. O padrão das mudanças
na pressão do ar através do tempo é chamado de onda de som ou onda de pressão. A
onda de som mais simples de descrever é uma oscilação regular de onda seno que gera
compressões e expansões no ar. Esses sons simples são chamados tons puros. Aamplitu-
FIGUR 5.1 O A grade de Hermann é outra de da onda determina sua altura, com amplitudes maiores percebidas como mais altas.
demonstração de inibição lateral em ação. Olhe para a Afreqüência de uma onda sonora determina seu tom, com freqüências maiores percebi-
figura como um todo e você verá imediatamente pontos das como tendo um tom mais alto. A freqüência do som é medida em vibrações por
escurecidos nas intersecções das linhas brancas. segundo, chamadas Hertz (Hz). Os humanos conseguem detectar ondas sonoras com
Entretanto, se você olhar diretamente para as uma freqüência de 20 Hz a 20.000 Hz. Amaioria dos sons é muito mais complexa do
intersecções, ou cobrir todas as fileiras de quadrados que uma simples onda seno. Entretanto, uma vez que o padrão de compressão e expan-
menos uma, você verá que os pontos escuros são são que descreve qualquer som complexo pode ser representado por uma combinação
ilusórios. O que está acontecendo 7 Os receptores que
única de simples ondas seno com diferentes freqüências e amplitudes, nós normalmen-
codificam informações das linhas brancas são inibidos por
seus vizinhos dos dois lados. Mas os receptores que te podemos predizer a resposta do sistema auditivo a um som complexo a partir de
codificam informações das intersecções são inibidos dos como ele responde ao componente de tons puros.
quatro lados, de forma que eles respondem menos As Figuras 5.11 e 5.12 mostram as estruturas do ouvido e um corte ilustrando
vigorosamente. Isso faz parecer que as intersecções são como essas estruturas convertem ondas sonoras em sinais neurais. As mudanças na
mais escuras do que as linhas. pressão do ar que produzem ondas sonoras chegam no ouvido externo e viajam pelo
CIÊNCIA PSICOLÓG ICA 159

Ouvido externo Ouvido médio Ouvido interno onda de som O padrão de


mudanças na pressão do ar através
do tempo que resulta no percepto
de um som.
ouvido externo A estrutura do
Au rícula ouvido, onde chega a onda sonora.
tímpano (membrana
Nervo timpânica) Uma fina membrana,
auditivo que a onda sonora faz vibrar e que
marca o início do ouvido médio.
ossículos Três ossos minúsculos, o
incus (martelo), o malleus (bigorna)
Cóclea e o stapes (estribo).
cóclea (ouvido interno) Um
tubo cheio de fluido que se enrola
como uma serpente. A cóclea
contém a membrana basilar, que
por sua vez contém células auditivas
receptoras chamadas células
ciliadas. Essas células transduzem a
Janela
Tímpano energia mecânica da onda sonora
redonda
(membrana em impulsos neurais.
Canal
timpânica)
auditivo codificação temporal Um
mecanismo para codificar estímulos
Trompa de
auditivos de baixa freqüência, em
Eustáquio
que a freqüência do som é
codificada pela freqüência da
descarga das células ciliadas.
GURA 5 11 O ouvido humano. Ondas sonoras entram pelo canal auditivo, fazendo o tímpano
orar. Essas vibrações são transportadas como ondas pelo líquido do ouvido interno .

~anal auditivo até o tímpano, ou membrana timpânica. Essa membrana está firmemente esticada
através do canal que marca o início do ouvido médio. Mudanças na pressão do ar fazem o tímpano
'.ibrar. Essas vibrações são transferidas para três ossos minúsculos chamados ossículos - o incus
martelo), o malleus (a bigorna) e o stapes (o estribo). Os ossículos transferem as vibrações do tímpa-
no para a janela oval, uma membrana da cóclea. A cóclea, ou ouvido interno, é um tubo cheio de
;'Juido com a forma de uma serpente enrolada. Os ossículos, mecanicamente, amplificam as vibra-
~ões, de modo que, quando elas atingem a janela oval, vindas do tímpano, essas vibrações são cerca
de 30 vezes maiores em pressão.
Passando pelo centro da cóclea está a fina membrana basilar que divide a cóclea em três câma-
ras, dois <lutos externos e um <luto interno. As vibrações da janela oval criam ondas de pressão no
:luido do ouvido interno, e essas ondas estimulam as células ciliadas localizadas na superfície da
membrana basilar. Essas células ciliadas são receptores auditivos primários, como os bastonetes e os
cones no sistema visual. As oscilações da membrana basilar levam as células ciliadas a gerar poten-
ciais de ação; dessa forma, o sinal mecânico das oscilações é convertido num sinal neural que viaja
pelo nervo auditivo até o cérebro.

Codificação de tempo e lugar para o tom Como a descarga dos receptores auditivos
sinaliza diferentes freqüências de som? Em outras palavras, como o tom é codificado pelo sistema
auditivo? Dois mecanismos para codificar a freqüência de um estímulo auditivo operam em paralelo
na membrana basilar: a codificação temporal e a codificação de lugar.
Acodificação temporal é utilizada para codificar freqüências relativamente baixas. O ritmo
de descarga das células ciliadas da cóclea corresponde à freqüência da onda de pressão, de modo
que um tom de 1.000 Hz faz que as células descarreguem 1.000 vezes por segundo. A pesquisa
fisiológica mostra que essa correspondência estrita entre a freqüência da estimulação auditiva e o
ritmo de descarga das células ciliadas só pode ocorrer para freqüências relativamente baixas - até
4.000 Hz. Em freqüências mais altas, a codificação temporal só pode ser mantida se as células cilia-
das descarregarem em saraivada. Cada célula descarrega numa freqüência mais baixa que o som, mas
o padrão temporal global de descarga no nervo auditivo ainda corresponde à freqüência do som.
160 GAZZANIGA e HEATHERTON

.
'
Cóclea, O segundo mecanismo para codificar a freqüência é a codifica-
parcialmente ção de lugar. Hermann von Helmholtz (1821-1894) acreditava que
desenrolada
diferentes células na membrana basilar respondiam a diferentes fre-
qüências, de modo que baixas e altas freqüências ativariam conjuntos
inteiramente diferentes de receptores. Mais tarde, o psicólogo percepti-
vo Georg von Békésy (1899-1972) descobriu que a idéia de Helmholtz
Estribo
Duto estava teoricamente certa, mas errada nos detalhes. Békésy (1957) des-
cobriu que diferentes freqüências realmente ativam diferentes recepto-
res, mas sua única diferença é onde estão localizados na membrana
basilar. Essa membrana responde a ondas sonoras como uma flauta de
cana, vibrando em ressonância com o som. Uma vez que sua rigidez
Células diminui ao longo de seu comprimento, freqüências mais altas ressoam
ciliadas melhor na base da membrana, enquanto freqüências mais baixas vi-
bram mais para a sua extremidade. Assim, as células ciliadas na base da
Janela côdea são ativadas por sons de alta freqüência; as células na extremida-
redonda O som faz com que a de são ativadas por sons de baixa freqüência (Culler et ai., 1943). A
Duto membrana basilar oscile
externo Membrana para cima e para baixo
freqüência de uma onda sonora, portanto, é codificada pelos receptores
basilar na área da membrana basilar que mais vibra.
Tanto a codificação temporal quanto a de lugar estão envolvidas
RA 2 Caminho de transdução no ouvido interno. Quando as na nossa percepção do tom. A maioria dos sons que escutamos - de
ondas sonoras atingem o fluido no ouvido interno, o fluido faz com que a conversas a concertos - é constituída por muitas freqüências e ativa
membrana basilar suba e desça, ativando potenciais elétricos nas células
uma ampla variedade de células ciliadas. Células individuais forne-
ciliadas (as células receptoras da audição).
cem apenas uma codificação grosseira de freqüências, seja por seu
ritmo de descarga, seja por sua localização na membrana basilar. As-
sim como a cor é codificada pelas atividades combinadas de três tipos diferentes de receptores, a
nossa percepção do som depende das atividades integradas de muitos neurônios.

Processamento concorrente para localizar sons Localizar a origem de um som é ou-


tro problema significativo na percepção auditiva. Na audição, os receptores sensoriais não codificam
informações espaciais essenciais. Em vez disso, o cérebro integra as informações sensoriais que che-
gam dos dois ouvidos. Muito do nosso entendimento da localização auditiva se deve ao exame da
coruja-de-igreja, que emprega um sentido de audição finamente sintonizado para localizar suas
presas. Esse animal noturno consegue localizar um rato em um laboratório escuro utilizando apenas
o seu sentido de audição. Acoruja-de-igreja utiliza duas deixas para localizar um som: a diferença de
timing entre sua chegada em cada ouvido e a diferença de intensidade nos ouvidos. A menos que o
som esteja vindo de um ponto exatamente na frente ou atrás da coruja, ele atingirá um ouvido antes
do outro. Da mesma forma, se o som vem da direita, ele será mais baixo na esquerda, porque a
cabeça age como uma barreira. Essas diferenças de timing e magnitude são minúsculas - mas não
pequenas demais para serem detectadas pelo cérebro da coruja.
O neurobiólogo Mark Konishi (1993) descobriu que cada deixa é processada por caminhos
neurais separados. Quando os sinais do nervo auditivo atingem o núcleo coclear, que é composto por
duas partes, eles divergem em dois caminhos separados. Em um deles, os sinais da diferença de
tempo necessária para que um som atinja cada ouvido determinam a posição lateral do estímulo, ou
azimute, com relação à cabeça da coruja. Nos outros caminhos, as diferenças na intensidade de um
som calculam a elevação do estímulo. Não se sabe se existem mecanismos neurais simulares respon-
sáveis pela localização do som nos humanos, mas o conceito de que essas funções provavelmente são
separadas é uma chave para entendermos como e o que percebemos.

No tato, os estímulos são codificados para dor,


codificação de lugar Um tol"'lporatura e r~ssão
meca nismo para codificar estímulos
auditivos de alta freqüência, em A dor é um sistema de alerta que impede você de continuar atividades que possam infligir
que a freqüência do som é danos. Quer a mensagem seja para tirar a mão de um fogão quente, quer para parar de correr
codificada pela localização das
células ciliadas ao longo da quando você machucou um tendão, a dor sinaliza que você tem de parar de fazer o que quer que
membrana basilar. esteja fazendo. As crianças que nascem com um raro transtorno genético que as deixa insensíveis à
dor normalmente morrem jovens, por mais que sejam supervisionadas. Elas simplesmente não sa-
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 161

bem como evitar atividades que as machucam ou dizer quando não estão se sentindo bem (Melzak e
sentido háptico O sentido do
Wall, 1982).
tato.
Osentido háptico ou cutâneo, ou o sentido do taro, transmite sensações de dor, temperatura
substância cinzenta
e pressão. Mais uma vez, a pesquisa sobre como essas sensações são codificadas examina se diferen- periaqueductal (PAG) Uma
ces receptores ou sistemas cerebrais são responsáveis por diferentes sensações. Os receptores de região do mesencéfalo que tem
temperatura, toque e dor são neurônios sensórios que terminam na camada mais externa da pele, a neurônios capazes de impedir que as
epiderme. Seus longos axônios entram no sistema nervoso central pelos nervos espinhais ou crania- células receptoras da dor transmitam
seus sinais para o córtex.
nos. Alguns dos receptores para toque e pressão leve são fibras nervosas na base de folículos do
cabelo que respondem a movimentos no cabelo. Outros receptores são cápsulas na pele que respon- epitélio olfatório Uma fina
camada de tecido em que estão
dem à vibração continuada, movimentos súbitos e pressão regular. inseridos receptores olfatórios, em
torno dos quais os odores se
Dois tipos de fibras de dor Os neurônios da dor são mais finos do que os neurônios de dissolvem em solução e causam
temperatura e toque. Eles não terminam em estruturas especializadas. Eles são simplesmente termi- uma reação, que aciona receptores
químicos.
nações nervosas livres encontradas em todos os tecidos corporais que sentem dor: pele, músculos,
membranas em torno de ossos e articulações, órgãos, e assim por diante (veja a Figura 5.13). Foram bulbo olfatório O centro
cerebral do olfato, localizado
identificados dois tipos de fibra de dor: fibras A-delta, para a dor aguda, imediata, e fibras C, para a abaixo dos lobos frontais.
dor crônica, obtusa, constante. Cada tipo de fibra envia informações para uma parte diferente do
córtex (Jessell e Kelley, 1991).
As fibras A-delta são neurônios mielinizados, de condução rápida. As fibras C são neurônios
não-mielinizados, de condução lenta (veja o Capítulo 4). Pense em quando você toca em uma panela
quente. Você sente dois tipos de dor: uma dor aguda, rápida e localizada no ponto em que sua pele
roca na panela (conduzida pelas fibras A-delta), seguida por uma dor em queimadura, lenta, obtusa,
mais difusa (conduzida pelas fibras C). As fibras A-delta são ativadas por uma forte pressão física ou
temperaturas extremas. As fibras transmitem impulsos ao longo da medula espinal para o tálamo,
que envia informações para a área somatossensorial do córtex cerebral.
As fibras Csão ativadas por mudanças químicas no tecido quando a pele é danificada. Quando
as fibras C são ativadas, elas enviam informações ao longo da medula espinal para o tálamo, que
transmite para áreas cerebrais superiores, incluindo o lobo frontal.

Teoria do controle do portão O cérebro pode evitar que sintamos dor. Ateoria do controle
do portão, formulada por Ronald Melzack e Patrick Wall, afirma que, para experienciar dor, os recep-
rores de dor precisam ser ativados e o portão neural na medula espinal precisa permitir que esses
sinais cheguem ao cérebro. O portão pode ser fechado por sinais enviados do cérebro para a medula
espinal, bloqueando a recepção de sinais de dor. Isso explica a influência que os estados mentais
podem ter sobre a dor.
Várias observações comprovam a teoria do controle do portão. O portão neural envolve uma
região do mesencéfalo chamada de substância cinzenta periaqueductal (periaqueductal gray,
PAG), que tem neurônios capazes de impedir que as células receptoras de dor trans-
mitam seus sinais para o córtex. Analgésicos como a morfina estimulam a PAG, fa-
Superfície da pele
zendo o portão fechar e bloqueando a dor (Basbaum e Fields, 1984). Acredita-se que
as endorfinas, as substâncias químicas analgésicas produzidas naturalmente, ajam
sobre a PAG da mesma maneira. Com ratos, se a PAG for estimulada durante uma
cirurgia abdominal, eles não parecem sentir dor (Reynolds, 1969). Isso é chamado
de analgesia induzida por estimulação, o que ocorre na terapia com acupuntura.

Camada
No olfato, a cavidade nasal recolhe mais
profunda
eo r de pele

O sentido do olfato, ou olfação, tem a rota mais direta para o cérebro de todos
os sentidos, mas é o menos compreendido. Nós sabemos que as partículas de odor -
ou odorantes - passam pelo nariz e pelas porções superior e posterior da cavidade
nasal. Lá, elas entram em contato com o epitélio olfatório, uma fina camada de
tecido onde estão inseridos os receptores olfatórios; as partículas se dissolvem na
solução que cerca o epitélio e provocam uma reação que aciona receptores químicos. Os receptores de dor na pele acabam
Esses impulsos nervosos transmitem informações para o bulbo olfatório, o centro em terminações nervosas livres. As fibras C levam a dor
cerebral do olfato, logo abaixo dos lobos frontais. Diferentemente de outras informa- lenta, difusa; as fibras A-delta levam a dor rápida, aguda.
162 GAZZANIGA e HEATHERTON

ções sensoriais, a partir daqui os sinais do olfato vão diretamente para os centros olfatórios no córtex
feromônios Substâncias químicas
liberadas por an imais e humanos, as
cerebral, desviando-se do tálamo. Os pesquisadores identificaram milhares de receptores diferentes
quais desencadeiam reações no epitélio olfatório, cada um responsivo a um grupo químico diferente. Ainda não está claro como,
fisiológicas ou comportamenta is em exatamente, diferentes cheiros são codificados por esses receptores. Uma possibilidade é cada tipo
outros membros da mesma espécie. de receptor estar associado unicamente a um odor específico, de modo a existir um receptor que só
Os ferom ônios não el idam odores
detectáveis, mas são processados de
codifica, por exemplo, o perfume de uma rosa. Outra possibilidade é cada odor estimular vários
maneira semelhante aos estímulos receptores, e o padrão de ativação dos diferentes tipos de receptor determinar o percepto olfatório.
olfatórios, por receptores Os feromônios são substâncias químicas liberadas por animais - incluindo provavelmente
especializados na cavidade nasal, os humanos - que desencadeiam reações fisiológicas ou comportamentais. Essas substâncias quími-
chamados órgãos vomeronasais.
cas não eliciam "cheiros" dos quais estamos conscientes, mas são processadas de maneira semelhan-
botões de paladar Estruturas na te aos estímulos olfatórios. Receptores especializados na cavidade nasal, chamados órgãos vomero-
boca que contêm 50 células
receptoras . As células receptoras
nasais, respondem à presença dos feromônios. Os feromônios desempenham um papel importante
contêm estruturas chamadas na sinalização sexual em muitas espécies animais e podem afetar os humanos de maneira parecida.
microvilosidades que entram em Por exemplo, os feromônios podem explicar por que os ciclos menstruais das mulheres que moram
contato direto com a sal iva. juntas tendem a ser sincronizados (McClintock, 1971).
Quando estimuladas, elas enviam
impulsos elétricos que transmitem
informações para a medu la e
depois para o t álamo e o córtex. No paladar, os estímulos são codificados para doce,
~r'rlnt; 1 ad ~ amar o

Atarefa do nosso sentido do paladar, ou gustação, é manter os venenos fora do nosso sistema
digestivo e simultaneamente permitir a ingestão de bons alimentos. Você sabe, pois certamente já
ficou resfriado, que o paladar depende muito do sentido do olfato - se as suas passagens nasais
estão bloqueadas, a comida parece não ter gosto.
Os estímulos do paladar são substâncias que se dissolvem na saliva (freqüentemente chamadas
de tastants - de "taste", sabor), embora seja em grande parte um mistério como esses estímulos
funcionam. Os receptores do paladar são parte dos botões de paladar da língua e da boca. A
pessoa comum tem cerca de 10 mil botões de paladar, localizados principalmente na língua. Cada
botão de paladar tem aproximadamente 50 células receptoras. As microvilosidades, curtas estruturas
semelhantes a pêlos na ponta de cada receptor, entram em cantata direto com a saliva. Quando
estimuladas, elas enviam sinais elétricos a uma região do tronco cerebral chamada medula, e dali
para o tálamo e o córtex.
Há vários tipos diferentes de receptores de sabor. Esses botões de paladar codificam uma das
quatro sensações "primárias" de sabor: doce, ácido, salgado e amargo. Cada experiência de paladar
é composta de uma mistura dessas quatro qualidades. Isso é análogo à maneira pela qual uma
variedade quase infinita de cores pode ser codificada com apenas três tipos de receptor. As diferentes
variedades dos botões de paladar não estão uniformemente distribuídas, elas se agrupam em regiões.
Somos mais sensíveis às substâncias salgadas e doces na parte da frente da língua, às substâncias
ácidas nos lados da língua e ao amargo no céu da boca. Registros elétricos de células de ratos e
hamsters indicam que algumas fibras nos botões de paladar respondem a todas as quatro substâncias,
embora pareçam responder melhor a uma delas (Nowlis e Frank, 1981).
Além dos cinco sentidos discutidos nesta seção, o box especial "Utilizando a ciência psicológi-
ca: Existe um sexto sentido?" sugere sistemas sensoriais adicionais que poderiam ser explorados.

Quais são os processos sensoriais dos nossos sentidos primários?


Cada um dos nossos sistemas sensoriais tem receptores que respondem a diferentes estímulos físicos ou químicos os
transduzindo em algum padrão de impulsos neurais. A seletividade dos receptores em cada sistema sensorial
determina o tipo de estímulo f ísico que somos capazes de perceber. A maioria dos sistemas sensoriais emprega
alguma forma de codificação grosseira, que permite que um número relativamente pequeno de receptores
cod ifique uma ampla variedade de estímulos. Por exemplo, o sistema visual pode representar toda a variedade de
cores com apenas três tipos de cones. A exceção notável a essa regra é o sistema olfatório, que contém milhares de
receptores diferentes, cada um dos quais responde a diferentes grupos qu ímicos de odores. A natureza dotou cada
um de nossos sistemas sensoriais com mecan ismos intricados para transformar estímulos físicos em impulsos
elétricos que são enviados para o nosso cérebro. O que o nosso cérebro faz com esses impulsos e como eles resultam
nas nossas percepções é o assunto do restante do capítulo.
EXISTE UM SEXTO SENTIDO'?
"Sexto sentido" é uma expressão usada em referência ao sentido de equilíbrio. Isso explica porque as infecções do ouvido
sentimento "inexplicável" de que alguma coisa está para interno nos deixam tontos, e por que levantar rapidamente pode
acontecer. Na verdade, conforme salienta o psicólogo de nos dar uma "vertigem".
Dartmouth Howard Hughes, existem vários sistemas sensoriais Hughes identifica sistemas sensoriais mais exóticos que só
internos além dos cinco sistemas primários discutidos por nós recentemente foram estudados em animais como o "sétimo,
(Hughes, 2000). Sistemas sensoriais internos enviam mensagens oitavo, nono, etc." sentidos. Eles incluem os sentidos de sonar e
para o cérebro sobre coisas como nossa pressão sangüínea ou nível eletrorrecepção (sentidos baseados em campos elétricos). Podemos
de glicose no sangue. O sentido cinestésico, que alguns agrupam compreender sistemas sensoriais que utilizam sonar ou campos
com os sentidos do tato, refere-se a sensações que colhemos de elétricos para navegação estudando principalmente os sistemas
receptores em músculos, tendões e articulações que localizam com sonares de morcegos e golfinhos. (SONAR significa "sound
precisão a posição e os movimentos de nossos membros e corpo no navigation and ranging", algo como "navegação e varredura por
espaço. Isso nos ajuda a coordenar movimentos voluntários e é som" .) Esses animais produzem um chamado e então respondem
inestimável para evitar ferimentos. O sentido vestibular ou aos ecos desse chamado; o sistema é, na verdade, biosonar, porque
equilibratório utiliza dados de receptores nos canais semicircu lares as ondas sonoras emanam do animal. A eletrorrecepção funciona
do ouvido interno. Esses canais contêm um líquido que se move de maneira semelhante: alguns peixes emitem um campo elétrico
quando a cabeça se move, curvando células ciliadas nas e depois analisam perturbações nesse campo, para evitar
extremidades do canal. A curvatura cria impulsos nervosos que nos predadores ou encontrar a presa . Outros respondem aos campos
informam da rotação da cabeça e, portanto, é responsável por um elétricos emitidos por outros peixes.

QUAIS SÃO OS PROCESSOS PERCEPTIVOS


BÁSICO .,
As percepções são complexas. Acada minuto, o nosso cérebro faz cálculos - todos em milisse-
gundos - , a maioria dos quais está além da nossa percepção consciente. Por exemplo, quando olha
para uma tela de computador, você está consciente de uma imagem, não das milhares que dançam
através da sua retina para criar aquela imagem constante, estática. O que você percebe, então, é
imensamente diferente do padrão de estimulação que a sua retina está absorvendo. Como o cérebro
extrai uma representação estável do mundo a partir das informações fornecidas pelos sentidos? A
pesquisa da percepção é o estudo disso.
Se estivéssemos conscientes em todos os momentos do que o nosso cérebro está fazendo, fica-
ríamos paralisados pela sobrecarga de informações. A maioria dos cálculos que o cérebro realiza
jamais atinge a nossa consciência - só os resultados importantes. A psicologia perceptiva se valeu
de muitas disciplinas para compreender como nós representamos o nosso mundo. Os psicólogos
perceptivos fizeram muitos avanços ao observar como a percepção fica perturbada depois que o
cérebro sofre uma lesão, investigando retrospectivamente para inferir como o cérebro intacto pro-
cessa a informação. Além disso, os psicofísicos modernos desenvolveram técnicas engenhosas para
descrever as funções perceptivas do cérebro. Áreas tão diversas quanto a arte, ciência da computa-
ção, música, filosofia, anatomia e fisiologia também informaram o nosso entendimento da percep-
ção. Esse é verdadeiramente um estudo interdisciplinar que atravessa os níveis de análise.
O que sabemos sobre a relação
entre a atividade neural do
A percepção ocorre no cérebro cérebro e nossas percepções do
mundo?
Até agora, vimos como os estímulos sensoriais são transduzidos em impulsos elétricos e trans-
mitidos para o cérebro através dos nervos. Esses impulsos elétricos são tudo o que o cérebro tem para
trabalhar a fim de criar a nossa rica variedade de experiências perceptuais. Com exceção da olfação,
todas as informações sensórias são transmitidas para o cérebro pelo tálamo. Do tálamo, as informa-
ções de cada sentido são projetadas para regiões específicas do córtex cerebral, as chamadas áreas
Í :eas sensoriais
sensoriais primárias. É nessas áreas que o processo perceptivo começa realmente.
primárias Regiões localizadas do
córtex cerebral que recebem inputs
O processamento cortical da visão começa no lobo occipital Aessa altura, você já sensoriais do tálamo.
sabe que o córtex visual primário, também chamado de área V1 (por ser a primeira área visual), está
1
164 GAZZANIGA e HEATHERTON
11

no lobo occipital do cérebro. O caminho neuronal da retina até o lobo occipital


preserva relações espaciais, de modo que áreas adjacentes da retina corres-
pondem a áreas adjacentes na V1. Essa ordenação notavelmente siste-
mática é conhecida como organização retinotópica. A fóvea
3 de cada retina se projeta para uma área na parte posterior do
cérebro chamada de pólo occipital, com áreas visuais mais
periféricas representadas mais profundamente ao lon-
go da V1. Uma vez que a imagem retina! é inver-
tida, como você aprendeu anteriormente, o cór-
tex visual tem uma representação contralateral
e invertida (i. é, para trás e de cabeça para bai-
xo) do mundo visual (veja a Figura 5.14).
Na década de 1960, os neurofisiologistas
David Hubel e Torsten Wiesel (1962) começa-
ram a explorar as propriedades dos neurônios
na V1 utilizando técnicas de registro de célula
única - trabalho pelo qual receberam um prê-
mio Nobel. Eles descobriram que alguns neurô-
nios no córtex visual primário respondiam mais
Núcleo a linhas de determinadas orientações; por exem-
geniculado plo, alguns neurônios aumentam seu ritmo de
lateral
descarga quando um segmento de linha vertical
é apresentado em seu campo receptivo (a
região do espaço visual à qual eles são sensí-
veis). O ritmo de descarga dessas células - cha-
madas de células simples por Hubel e Wie-
sel - diminui conforme a orientação do
segmento de linha faz uma rotação e se desvia
da orientação preferida. Estudos adicionais de
Hubel e Wiesel e outros também descobriram
Visão esquemática do visual primário neurônios que se especializam em detectar as
sistema visual, ilustrando a representação
extremidades das linhas, cantos e cores, assim
topográfica contralateral invertida do
campo visual no córtex visual primário. A como aspectos visuais mais complexos.
imagem também é distorcida, de modo que Além da VI> a informação visual é processada em uma cascata de outras áreas visuais, muitas
a região correspondente à fóvea é das quais também estão organizadas retinotopicamente. Você já viu que muitas dessas áreas visuais
aumentada, e áreas progressivamente parecem processar aspectos específicos dos estímulos visuais, tais como cor ou movimento. Ainda
menores do córtex são dedicadas a áreas resta descobrir as funções de outras áreas visuais. A complexidade da percepção visual é sublinhada
mais periféricas do campo visual. pela quantidade de espaço cortical dedicado ao processamento da informação visual. Algumas esti-
mativas sugerem que até metade do córtex cerebral pode participar da percepção visual de alguma
maneira. Lesões nas áreas visuais podem resultar em fenômenos perceptivos interessantes, confor-

organização retinotópica
ordenação sistemática do caminho
A

neurona l desde a retina até o lobo


l me discutimos em "Estudando a mente: Déficits visuais após lesão cerebral".

O córtex auditivo primário está no lobo temporal Neurônios auditivos no tálamo


estendem seus axônios para o córtex auditivo primário (chamado A1) em uma região do lobo tempo-
occipital preserva relações espaciais, ral superior conhecido como giro de Heschl. Experimentos de registro de célula única mostraram que
de modo que áreas adjacentes da os neurônios na A1 codificam a freqüência (ou o tom) dos estímulos auditivos. Esses estudos também
retina correspondem a áreas
adjacentes no córtex visual primário. revelam que a A1 tem uma organização tonotópica. Isto é, neurônios na extremidade posterior do giro
de Heschl respondem melhor a freqüências mais baixas, enquanto neurônios na extremidade dian-
campo receptivo A reg ião de
espaço visual à qual os neurônios teira respondem melhor a freqüências mais altas. Portanto, a codificação de freqüência na A1 é
do córtex visual primário são principalmente por localização ao longo do giro de Heschl.
sensíveis. Comparada à riqueza de informações sobre a fisiologia do córtex visual, a organização dos
células simples No experimento córtices auditivos dos primatas é relativamente desconhecida - a maior parte das pesquisas foi
de Hubel e Weisel de década de realizada com pássaros e gatos. Não obstante, sabe-se que a A1 está cercada por várias áreas auditi-
1960 o termo é usado para os
neurônios que preferiam certas vas secundárias nos lobos temporal e parietal. Embora exista pouca informação sobre a organização
orientações de linhas em dessas áreas secundárias, parece que elas também estão organizadas tonotopicamente. E há evidên-
detrimento de outras. cias de que nessas áreas existem neurônios maximamente sensíveis a fonemas - os sons elementares
usados na fala.
DÉFICITS VISUAIS APÓS LESÃO CEREBRAL
O paciente C.L.T. tinha 49 anos quando sofreu um acidente função visual residual (Fendrich et ai., 1992). Essas várias
vascular na artéria cerebral posterior direita em março de 1987 explicações são consideradas com mais detalhes no Capítulo 8. O
(Fendrich et ai., 1992). Certa manhã, ele acordou desorientado, que é importante observar aqui é que a visão cega destaca um
incapaz de reconhecer lugares ou rostos. Com o tempo, sua fato essencial: a percepção, rotineiramente, ocorre fora da nossa
orientação e problemas de reconhecimento de rostos melhoraram, consciência.
mas ele nunca se recuperou completamente. O acidente vascular Outro exemplo de como a lesão cerebral nos ajuda a
cerebral também resultou em uma cegueira quase completa no compreender a sensação e a percepção é o caso de D.F. (Goodale e
campo visual esquerdo. O lobo occipital direito, localizado na área Milner, 1992). Quando estava com 34 anos, D.F. sofreu um
do acidente vascular de C.L.T., recebe informações do campo visual envenenamento com monóxido de carbono que resultou em lesão
esquerdo. De modo que a lesão no lobo occipital direito significava em seu sistema visual. Ela não conseguia mais reconhecer os rostos
que C.L.T. não conseguia mais enxergar nada de seu campo visual de seus amigos e familiares, objetos comuns, nem desenhar um
esquerdo. Ou conseguia? quadrado ou um círculo. Mas ela conseguia reconhecer as pessoas
C.L.T. não acreditava que seu campo visual esquerdo estava ouvindo suas vozes, e se você colocasse um objeto em sua mão ela
" completamente" cego. Ele freqüentemente comentava que conseguia dizer o que era.
conseguia "sentir" as coisas à sua esquerda, o que fazia com que Sua condição - agnosia para objetos, a incapacidade de
virasse a cabeça e visse o que estava acontecendo. Ao virar a reconhecer objetos - surpreende pelo que ela consegue e não
cabeça, as coisas entravam em seu campo visual direito, consegue fazer. Quando lhe mostram o desenho de uma maçã,
permitindo-lhe enxergar normalmente. De fato, ao ajustar-se digamos, ela não consegue identificar o que é ou reproduzi-lo.
dessa maneira, C.L.T. ainda enxergava bem - a capacidade de Mas se solicitada a "desenhar uma maçã", ela consegue fazer isso
sentir as coisas em seu campo visual esquerdo quando ele não de memória. Apesar de déficits importantes na percepção de
conseguia vê-las é uma característica da visão cega. A visão cega é objetos, ela consegue usar informações visuais sobre o tamanho,
um fenômeno identificado por Lawrence Weiskrantz na forma e orientação de objetos para controlar movimentos
Universidade de Oxford, em 1986. Quando um ponto de luz pisca visualmente orientados. Por exemplo, ela consegue caminhar
no campo visual cego de pacientes com visão cega, eles relatam através de uma sala e desviar-se habilmente das coisas. Ela
não enxergar nada, conforme o esperado. Mas se você pedir ao consegue estender a mão e apertar a sua. Nos testes de
paciente que aponte para o lugar onde a luz piscou, ele aponta na laboratório, de forma desorientadora, ela consegue estender a
direção certa. O que acontece é que ele enxerga a luz; ele mão e agarrar um bloco, com a distância certa exata entre os
simplesmente não está consciente de a estar enxergando. dedos, mesmo que não consiga lhe dizer o que vai agarrar ou
Quando esse fenômeno foi identificado pela primeira vez, quão grande aquilo é.
psicólogos, filósofos e neurocientistas ficaram fascinados. Como o Assim, sua percepção consciente dos objetos está prejudicada -
nosso cérebro podia enxergar algo, mas não saber disso? Os ela não tem consciência de estar absorvendo informações visuais
pesquisadores continuam a debater se a visão cega se deve a sobre os objetos que vê. Entretanto, outros aspectos do
estruturas subcorticais fora do córtex visual que processam processamento visual não estão afetados. As regiões intactas de seu
informações visuais sem o nosso conhecimento, ou se deve a córtex visual lhe permitem utilizar as informações sobre o tamanho
minúsculas áreas de córtex visual intacto que levam em conta uma e a localização dos objetos, apesar da falta de consciência.

O tato é processado primeiro no lobo parietal As informações do tato vindas do


tálamo são projetadas para o córtex somatossensorial primário (chamado de 51), no giro pós-central
no lobo parietal anterior. Em uma clássica série de estudos de pacientes submetidos a cirurgia cere-
bral, descritos no Capítulo 4, o neurocirurgião Wilder Penfield descobriu que a estimulação elétrica
de diferentes regiões do giro pós-central podia evocar a sensação de tato em diferentes regiões do
corpo. Penfield descobriu que partes corporais vizinhas tendiam a ser representadas próximas uma
da outra no córtex somatossensorial primário. Isto é, o 51 tem uma organização somatotópica - o
corpo está efetivamente mapeado ao longo do giro pós-central. Além disso, partes corporais mais
sensíveis têm quantidades relativamente maiores de 51 dedicadas a elas.

Os sentidos químicos O processamento dos sentidos químicos - paladar e olfato - no


cérebro permanece grandemente inexplorado. As informações do paladar vindas do tálamo se proje-
tam para três regiões diferentes do córtex. Duas dessas regiões estão na base do córtex somatossen-
sorial primário - perto da área onde as informações somatossensoriais da boca são representadas.
Isso levou alguns pesquisadores a sugerir que o sentido do paladar evoluiu do sentido do tato. A
terceira área que recebe informações do paladar é uma área do lobo frontal chamada de córtex
insular anterior, localizada embaixo da extremidade frontal do lobo temporal.
Nós já vimos que as informações olfatórias se desviam do tálamo a caminho do córtex. Algu-
mas informações do bulbo olfatório se projetam para uma região do lobo temporal que parece ser
o córtex olfatório primário. Outras informações olfatórias se projetam para os centros cerebrais
166 GAZZANIGA e HEATHERTON

inferiores no sistema límbico. As estruturas límbicas estão associadas à emoção e à memória, o que
deixas binoculares de
profundidade Deixas de
pode explicar em parte a facilidade com que os estímulos olfatórios podem evocar lembranças e
percepção de profundidade que sentimentos poderosos.
decorrem do fato de as pessoas
terem dois olhos.
deixas monoculares de A percepção é um problema malformulado
profundidade Deixas de
percepção de profundidade que
estão disponíveis para cada olho
O objetivo da pesquisa sobre a visão é compreender como nós sabemos quais objetos estão onde
separadamente. no campo visual. Um dos problemas mais persistentes na pesquisa psicológica é como conseguimos
disparidade binocular Uma
reconstruir uma representação mental tridimensional do mundo visual com base no input bidimensio-
deixa de percepção de nal da retina. Isso é o que os matemáticos chamam de um problema malformulado, isso é, um problema
profundidade causada pela com muitas soluções possíveis. Existe um número infinito de possíveis configurações tridimensionais
distância entre os dois olhos da que dariam origem ao mesmo padrão de estimulação na retina. Ofato de podermos enxergar profundi-
pessoa .
dade em uma fotografia ilustra esse ponto. Uma disposição tridimensional de objetos cria exatamente
a mesma imagem na retina que uma fotografia da disposição dos objetos. Apesar dessa ambigüidade
inerente, nós raramente temos dificuldade em compreender o arranjo dos objetos no mundo. Nós, na
verdade, fazemos uso da natureza ambígua da percepção de profundidade quando olhamos fotogra-
fias, filmes e imagens na televisão. Nós conseguimos perceber profundidade nesses padrões bidimen-
sionais porque o cérebro é capaz de aplicar as mesmas regras ou mecanismos que utiliza para calcular
as relações espaciais entre os objetos no mundo (tridimensional) .

A percepção de profundidade é importante


para local"zar objetos
Uma das tarefas mais importantes para o nosso sistema visual é localizar objetos no espaço.
Sem essa capacidade nós teríamos dificuldade em navegar no mundo e interagir com ele. É óbvio
que a nossa percepção é uma representação muito mais acurada do estímulo distal - o arranjo dos
objetos no espaço - do que poderíamos esperar com base apenas na estimulação proximal. Para
começar a compreender esse processo, vamos considerar as deixas que estão disponíveis para ajudar
o sistema visual a perceber a profundidade. Essas deixas podem ser divididas nas que decorrem do
fato de termos dois olhos, as deixas binoculares de profundidade, e nas que estão disponíveis
para cada olho isoladamente, as deixas monoculares de profundidade (ou pictóricas).

Percepção de profundidade binocular Uma das deixas mais importantes para a percep-
ção de profundidade é a disparidade binocular (ou disparidade retinaO causada pela distância
entre os dois olhos. Uma vez que cada olho tem uma visão levemente diferente do mundo, o nosso
cérebro tem acesso a duas imagens retinais diferentes, mas sobrepostas. O cérebro utiliza a dispari-
Como consegu imos perceber o dade entre essas duas imagens para calcular distâncias de objetos próximos (veja a Figura 5.15).
espaço em três dimensões com
base em inputs bid imensiona is da
Tente esta simples demonstração: ponha um dedo diante do rosto e feche primeiro um olho e
retina? depois o outro. Seu dedo parece mover-se porque cada olho, devido à sua posição relativa ao objeto
em questão, tem uma imagem retina! única.
A capacidade de determinar a profundidade de um objeto com base em suas diferentes proje-
ções para cada olho chama-se visão estereoscópica. Em 1838, o físico e inventor Charles Wheatstone
criou o estereoscópio, um aparelho que permite que um observador perceba a profundidade ao apre-
sentar um par de fotografias bidimensionais - cada uma tirada de uma perspectiva levemente
diferente. Wheatstone utilizou esse aparelho para demonstrar que a percepção de profundidade era
influenciada pela disparidade binocular e, portanto, que a visão estereoscópica era uma deixa im-
portante para a profundidade dos objetos. Em 1849, David Brewster, o físico escocês que inventou o
caleidoscópio, descobriu o auto-estereograma - uma ilusão ótica em que podemos transformar pa-
res de imagens bidimensionais especialmente planejados em imagens tridimensionais ao olhar para
elas sem focalizar (veja a Figura 5.16). Nos últimos anos, o auto-estereograma foi popularizado na
série literária Olho Mágico e em publicações relacionadas.

Percepção de profundidade monocular Embora a disparidade binocular seja uma deixa


importante para a percepção em profundidade, ela só é útil para objetos que estão relativamente
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 167

perto de nós. Além disso, ainda conseguimos perceber profundidade com um olho fe-
B
chado. As deixas monoculares de profundidade nos permitem fazer isso. Uma vez que os
artistas rotineiramente utilizam essas deixas para criar um senso de profundidade, elas
cambém são chamadas de deixas pictóricas de profundidade. Foi Leonardo da Vinci quem
primeiro identificou muitas dessas deixas, que incluem:

• oclusão: um objeto próximo oclui (bloqueia) um objeto que está mais longe;
• tamanho relativo: os objetos distantes projetam uma imagem retina! menor do
que os próximos;
• tamanho familiar: nós sabemos quão grandes são os objetos familiares, de modo que
podemos dizer quão longe eles estão a partir do tamanho de suas imagens retinais;
• perspectiva linear: linhas paralelas parecem convergir na distância;
• gradiente de textura: existe uma mudança contínua em superfícies com textura
uniforme. Conforme uma superfície recua, sua textura se toma mais densa, como
mostra a Figura 5.17;
• posição relativa ao horizonte: Tudo o mais sendo igual, os objetos abaixo do hori- a, bi
zonte que aparecem mais altos no campo visual são percebidos como estando 1- 65 mil ímetros - 1
mais longe. Os objetos acima do horizonte que aparecem mais baixos no campo
visual são percebidos como estando mais longe.
G Disparidade binocular. Os nossos
Deixas de movimento para a percepção de profundidade O movi- dois olhos nos fazem ver cada objeto de dois pontos de
;nento também é uma deixa de profundidade. Aparalaxe de movimento é o movimento vista distintos, resultando em duas imagens retinais
relativo dos objetos a distâncias variadas do observador (Helmholtz, 1866/ 1909). Ima- levemente diferentes. A distância entre as imagens dos
gine-se sentada/o em um carro em movimento e olhando a paisagem. Os objetos próxi- objetos A e B é diferente para cada olho. Essa disparidade
mos parecem passar rapidamente; os objetos distantes, mais lentamente (Figura 5.18). é uma deixa importante para a profundidade.
Se nós fixarmos um ponto distante, como a lua, ela parece acompanhar a nossa veloci-
dade. Se fixarmos um objeto a uma distância intermediária, qualquer coisa mais próxi-
;na se move em oposição à nossa direção relativa a esse objeto, enquanto qualquer coisa mais distan-
•e se move na nossa direção relativa ao objeto. Deixas de movimento como essas ajudam o cérebro a
calcular quais objetos estão mais próximos e quais estão mais distantes.
O psicólogo perceptivo James Gibson (1904-1979) propôs outra deixa de movimento para a
profundidade, o fluxo óptico, que é o padrão de movimento que vemos quando nos movemos pelo

G R Auto-estereograma. Segure a fig ura da esquerda perto dos olhos e olhe diretamente para a frente. Tente relaxar os olhos e deixe que
eles olhem através do livro para um ponto imaginário à distância. Afaste o livro lentamente de você, ainda fixando aquele ponto imaginário. Tente fazer com
que as imagens duplicadas se sobreponham e mantenha-as assim. O resultado de sobre por as imagens deverá ser um efeito tridimensional. A figura da
direita é a imagem inserida. Se você não enxergá-la em alguns minutos, pare e tente outra vez mais tarde.
168 GAZZANIGA e HEATHERTO N

ambiente (Gibson, 1950). Se olhannos na direção em que estamos nos


movendo, o fluxo óptico é o movimento de todos os objetos não exata-
mente à nossa frente se afastando para fora no nosso campo visual
conforme avançamos. Objetos mais próximos se afastam para fora mais
rapidamente do que os objetos mais distantes, de modo que o padrão
de fluxo indica distância.

A percepção do tamanho depende da


p,:iirr,:ii ão a di ân ia
O tamanho da imagem retina! de um objeto depende da distância
do objeto relativa ao observador: quanto mais distante estiver, menor é
a imagem retina!. Afim de detenninar o tamanho de um objeto, então,
o sistema visual precisa saber quão distante ele está. Na maior parte do
tempo, existe suficiente informação de profundidade disponível para o
sistema visual saber as distâncias dos objetos e, portanto, quão gran·
des eles são. Entretanto, há algumas circunstâncias em que a percep-
ção do tamanho fracassa e os objetos parecem maiores ou menores do
que realmente são. Essas ilusões ótipcas surgem quando os processos
perceptivos normais resultam em uma representação incorreta do estí·
mulo distal. As ilusões ópticas são alguns dos instrumentos preferidos
pelos cientistas perceptivos para compreender como o cérebro usa as
informações. Os pesquisadores dependem desses truques para revelar
sistemas perceptivos automáticos que, na maioria das circunstâncias,
resultam em uma percepção acurada. As ilusões ópticas aproveitam as
deixas de profundidade para nos enganar e nos fazer enxergar profun·
O gradiente de textura é outra deixa de profund idade didade onde ela realmente não existe. Há muitas ilusões desse tipo.
importante. Superfícies com texturas uniformes parecem mais densas Nós nos concentraremos em apenas três: as caixas de Ames (também
conforme os objetos recuam . Quando a textura desaparece, isso indica chamadas de salas de Ames), a ilusão de Ponzo e a ilusão da lua.
uma queda.
As caixas de Ames As caixas de Ames, criadas por Adelbert Ames,
um pintor transformado em psicólogo, são um poderoso exemplo de ilu-
são de óptica. Suas caixas baseavam-se no truque vitoriano em que uma
f~-:>
--- pessoa, olhando por um olho mágico, via uma sala mobiliada e depois
abria a porta e descobria que a sala estava vazia - com uma sala de casa
de boneca, uma miniatura, pregada na porta. Ele construiu salas que
brincavam com a perspectiva linear e outras deixas de distância. Uma
das ilusões de perspectiva era uma sala que fazia um canto mais distante
parecer estar na mesma distância de um canto mais próximo. Nonnal-
mente, uma criança próxima projeta uma imagem retina! maior do que
uma criança que está mais longe, mas não parece mais longe por que o
sistema perceptivo leva em conta a profundidade quando avalia o tama-
1 nho. Se as deixas de profundidade estiverem erradas, de maneira que a
criança pareça estar mais longe do que está, como na caixa de Ames, o
1
(, .. ' '' tamanho desproporcional da imagem em sua retina faz com que a crian·
ça pareça imensa (veja a Figura 5.19).
\.
A ilusão de Ponzo A ilusão de Ponzo, mostrada na Figura 5.20,
foi primeiramente descrita por Mario Ponzo em 1913 e é outro exem-
plo clássico de uma ilusão tamanho-distância. A explicação comum
para essa ilusão é que as deixas de profundidade monoculares fazem
- ~
-
Direção do seu movimento .
- . ,,,--.,--_ com que a figura bidimensional pareça tridimensional (Rock, 1984).
Conforme observamos antes, linhas paralelas parecem convergir na
Paralaxe de movimento. Objetos próximos parecem distância. Assim, as duas linhas desenhadas para parecerem um trilho
mover-se mais rapidamente na direção oposta ao nosso movimento. de estrada de ferro recuando à distância enganam o nosso cérebro e o
Objetos mais distantes parecem mover-se mais lentamente. fazem pensar que as linhas são paralelas. Portanto, percebemos as duas
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 169

~2,13m

Um exemplo da caixa de Ames. Ames brincava com deixas de profundidade para criar ilusões de tamanho. Ele fez com que uma sala
diagonalmente cortada parecesse retangular utilizando Janelas e laiotas tortas. Quando uma criança fica em pé em um canto próximo e outra (de altura
semelhante) fica em pé em um canto distante, a sala ena a ilusão de que ambas estão equidistantes do observador; conseqüentemente, a criança mais
próxima parece um gigante se comparada à criança mais distante.

linhas paralelas no centro como se elas estivessem em distâncias diferentes e tivessem tamanhos
diferentes, quando, na verdade, elas têm exatamente o mesmo tamanho. Isso mostra quanto depen-
demos da percepção de profundidade para avaliar o tamanho - o nosso cérebro utiliza deixas de
profundidade mesmo quando não há nenhuma profundidade presente.

A ilusão da lua Talvez você tenha notado que uma lua cheia parece muito maior quando está
perto do horizonte do que quando está no alto do céu (Figura 5.21). Essa é uma ilusão - a lua
(obviamente) continua do mesmo tamanho e à mesma distância da Terra, e a imagem da lua na sua
retina é do mesmo tamanho, quer esteja no horizonte quer no alto do céu. Aexplicação
mais comum para essa ilusão é que quando a lua está mais próxima do horizonte,
existem várias deixas de profundidade para indicar que ela está realmente muito lon-
ge. Quando a lua está no alto do céu não existem essas deixas, de modo que a lua
parece mais perto da Terra. A lógica dessa explicação é semelhante à oferecida para a
ilusão de Ponzo. A lua do horizonte parece mais distante do que a lua no alto do céu,
mas como estão realmente à mesma distância, elas criam imagens idênticas na retina.
Aúnica maneira de o cérebro conciliar essa discrepância é supor que a lua do horizonte
é maior do que a lua no alto do céu. Ainda se discute qual será o mecanismo responsá-
vel pela aparente diferença na distância entre a lua do horizonte e a lua no alto do céu,
mas todas as teorias atuais sobre a ilusão da lua concordam que a distância percebida
é a fonte.
Muitos psicólogos perceptivos acreditam que as ilusões revelam a operação dos
mecanismos que ajudam os nossos sistemas visuais a determinar os tamanhos e as
distâncias dos objetos no ambiente visual. Ao fazer isso, elas ilustram a interdependên-
cia da percepção de tamanho e distância na criação de representações acuradas do
mundo tridimensional.

A ilusão de Ponzo. Uma ilusão de


A percepção do movimento envolve deixas tamanho clássica provocada por deixas enganadoras de
in Prna~ e externa percepção de profundidade. As duas linhas paralelas
parecem ter tamanhos diferentes devido à lei de
Já sabemos como o movimento pode ser uma deixa para a percepção de profundi- perspectiva, que nos diz que linhas paralelas convergem
dade, mas como o nosso cérebro percebe o movimento? Uma resposta é que nós remos na distância. De fato, as duas linhas têm o mesmo
neurônios especializados para detectar movimento - eles descarregam quando ocorre tamanho.
170 GAZZANIGA e HEATHERTON

FIGURA 5.21 A ilusão da lua. A lua


parece maior quando está perto do
horizonte do que quando está no alto do
céu, devido a várias deixas visuais.

movimento. Mas como o cérebro sabe, então, o que está se movendo? Se você olhar por uma janela
e enxergar um carro passando por uma casa, como o seu cérebro sabe que é o carro que está se
movendo e não a casa? Desvendar esses mistérios é a meta dos pesquisadores que estudam a percep-
ção do movimento. Nós examinaremos três fenômenos que ajudam a mostrar como o sistema visual
percebe o movimento: os efeitos secundários do movimento, a compensação do movimento da cabe-
ça e dos olhos e a percepção do movimento estroboscópico.

Efeitos secundários do movimento Os efeitos secundários do movimento ocor-


rem quando você olha para uma imagem em movimento por um período prolongado e depois olha
para uma cena estacionária. Você experiencia uma ilusão momentânea de ver a nova cena movendo-
se na direção oposta à imagem em movimento. Isso também é chamado de efeito cascata, pois se você
olhar para uma cascata e depois virar o rosto, as pedras e árvores parecerão mover-se para cima por
um momento. Os efeitos secundários são uma forte evidência de que no cérebro existem neurônios
sensíveis ao movimento. A teoria por trás dessa ilusão combina o fenômeno da adaptação sensorial
com a especificidade neural. O córtex visual tem neurônios que respondem ao movimento numa
dada direção. Quando olhamos para um estímulo em movimento por tempo suficiente, esses neurô-
nios específicos para a direção começam a se adaptar ao movimento, tornando-se menos sensíveis,
ou fatigados. Se o estímulo for removido subitamente, os detectores de movimento que respondem a
efeitos secundários do todas as outras direções ficam mais ativos do que os fatigados detectores de movimento. Isso resulta
movimento Um efeito que
na impressão de que uma nova cena está se movendo na outra direção.
ocorre quando olhamos para uma
imagem em movimento por um
prolongado período de tempo e Fatores compensatórios O fato de termos neurônios sensíveis ao movimento não explica
depois mudamos para uma cena completamente a percepção do movimento. Como saber, por exemplo, se um objeto está se movendo
estacionária, causando uma
ou se é você, ou são os seus olhos que estão se movendo? As imagens se movem através da retina o
momentânea ilusão de ver a nova
cena movendo-se na direção oposta tempo todo, e você nem sempre as percebe como se movendo. Cada leve piscada ou movimento do
à da imagem anterior. olho cria uma nova imagem na retina. Por que as imagens que vemos não pulam cada vez que
movemos os olhos ou a cabeça?
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 171

Uma explicação é que o cérebro calcula o movimento percebido dos objetos moni-
rorando o movimento dos olhos ou da cabeça conforme eles seguem um objeto em ·----- ·----
movimento. Além disso, detecrores de movimento acompanham o movimento de uma
imagem através da retina, receptores na retina descarregando um após o outro (veja a
Figura 5.22).
\
Outra explicação para a percepção do movimento é o efeito da estrutura de referên-
cia: o sistema perceptivo estabelece uma estrutura de referência estável e a utiliza para
avaliar o movimento de outros objetos. Suponha que você está sentada/ o na biblioteca
\ \
lendo, e ao seu redor estão dezenas de outros alunos estudando. Enquanto você está
observando um aluno, ele se levanta e derruba duas cadeiras. Uma vez que estava
observando ele se mover, você mexeu a cabeça, ou pelo menos os olhos, desencadeando
uma série de imagens através de sua retina. Mas o seu cérebro sabe que foi o aluno que se
mexeu, e não a sala ao redor dele, porque estabeleceu uma estrutura de referência.
Mas quando essa estrutura de referência é a errada, você pode ser levado a pensar
que o objeto errado está se mexendo. Digamos que você está em um trem olhando pela
janela para outro trem parado. Esse trem começa a se movimentar e você pensa que Sistema do movimento Sistema do movimento
você está se movimentando. Essa ilusão de movimento induzido também acontece quando da imagem dos olhos
rncê está olhando para o céu em uma noite com nuvens - parece que a lua está se
movendo por entre as nuvens.
GU O sistema visual detecta o movimento
Movimento estroboscópico Os filmes consistem em imagens de fotografias, de duas maneiras: 1) se os olhos estão fixos, a imagem se
move através da retina; 2) se os olhos se movem para
apresentadas uma após a outra para criar a ilusão de uma "fotografia em movimento''.
seguir o objeto, a imagem retinal fica no lugar.
Esse fenômeno baseia-se em uma ilusão perceptiva chamada movimento estroboscópico,
quando duas ou mais imagens levemente diferentes são apresentadas em rápida suces-
são. O psicólogo perceptivo Max Wertheimer (1880-1943) realizou experimentos em
1912 projetando, a intervalos diferentes, duas linhas verticais que apareciam perto uma da outra.
Ele descobriu que quando o intervalo era menor do que 30 milissegundos, os sujeitos pensavam que
as duas linhas eram projetadas simultaneamente. Quando o intervalo era maior do que 200 milisse-
gundos, eles viam duas linhas sendo projetadas em diferentes momentos. Entre esses intervalos
ocorriam ilusões de movimento. Quando o intervalo era de aproximadamente 60 milissegundos, a
linha parecia pular de um lugar para outro; Wertheimer denominou isso de movimento ótimo. A
intervalos um pouco mais longos, a linha parecia mover-se continuamente, o que foi chamado de
movimento puro (ou movimento phi).

O reconhecimento dos objetos se baseia na forma


Na percepção visual, a forma de um objeto parece ser a deixa mais saliente para o cérebro
identificar. Um quadrado de qualquer cor sempre é um quadrado. Acapacidade de reconhecer obje-
ros por sua forma se desenvolve em uma idade muito iniciai. A psicóloga Barbara Landau estudou
crianças de 3 anos de idade e descobriu que quando cientistas mostravam a elas uma forma e lhes
diziam que era um "dax" as crianças aceitavam essa definição (Landau, 1994). Quando lhes mostra- Como conhecemos as formas de
objetos que nunca vimos antes?
ram outros objetos, alguns com a mesma forma do "dax", mas de diferentes materiais, tamanhos ou
cores, elas ainda identificavam cada objeto da mesma forma como "dax". Talvez não surpreenda,
então, que uma Granny Smith, uma Red Delicious ou uma Macintosh sejam todas reconhecidas
como "maçãs".
Embora esteja claro que a forma é a deixa mais importante para o reconhecimento dos objetos,
a maneira pela qual somos capazes de extrair a forma de um objeto a partir da imagem na nossa
retina ainda é algo um pouco misterioso. ós somos capazes de reconhecer objetos de diferentes
perspectivas e em orientações incomuns. Geralmente não temos dificuldade para dizer onde termina
um objeto e começa outro - considere como nós sabemos que um cavalo e seu cavaleiro são dois
seres distintos, e não algum estranho animai. Nós também raramente temos dificuldade para reco-
nhecer objetos que estão parcialmente escondidos atrás de outros objetos.

Características Os cálculos neurais necessários para a percepção da forma são extremamente


complexos e ainda não inteiramente compreendidos. Está claro, todavia, que o processo começa
muito cedo no processamento visual. Nós já vimos como a inibição lateral entre os neurônios na
172 GAZZANIGA e HEATHERTON

retina ajuda a acentuar áreas de estimulação variável - que provavelmente correspondem às fron-
tarefa de busca visual Um
experimento utilizado para estudar
teiras dos objetos. Além disso, o trabalho de Hubel e Wiesel sobre as propriedades dos neurônios no
a percepção da forma, em que um córtex visual primário sugere fortemente que um dos papéis mais importantes da V1 é extrair os
observador tenta detectar um contornos que definem as fronteiras dos objetos. Estudos adicionais revelaram que informações so-
estímulo-alvo entre uma série de bre cor, movimento e forma são processadas em caminhos separados - embora interconectados -
estímulos distrativos.
dentro do córtex visual. Assim, parece que um dos primeiros passos para processar a forma é codifi-
pop-out No trabalho de car as características que a compõem.
Treisman, quando foram
empregados estímulos simples, os
Apsicóloga Anne Treisman e seus colegas desenvolveram uma técnica inteligente para revelar
sujeitos levavam o mesmo tempo como esses detectores de características são utilizados (Treisman, 1988). Eles empregaram uma
para achá-los, independentemente tarefa de busca visual, em que um observador tenta detectar um estímulo-alvo entre uma série
de haver poucos ou muitos de estímulos distrativos idênticos. Por exemplo, a exibição poderia consistir em uma linha vertical
estímulos distrativos.
entre inúmeras linhas horizontais. A tarefa do observador era responder assim que visse o alvo.
Treisman e seus colegas descobriram que, para estímulos simples, os sujeitos não levavam mais
tempo para encontrar o alvo quando ele estava enterrado em um grande número de estímulos distra-
tivos do que quando ele aparecia entre apenas um ou dois. Eles denominaram esse fenômeno de
pop-out (saltar para fora). Os experimentadores concluíram que todos esses elementos simples da
cena são processados imediatamente, e tudo o que for excêntrico ou diferente se destaca imediata-
mente da multidão. Esses e outros estudos comportamentais sugerem que uma vasta quantidade de
informações visuais de baixo nível é automaticamente detectada ao mesmo tempo.

Princípios da Gestalt de organização perceptiva Bem, o que fazemos com as infor-


mações que absorvemos sobre as características de um objeto? Como organizamos a informação?
Nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, os psicólogos na Alemanha e nos Estados
Unidos começaram a teorizar que a percepção é mais do que o resultado de dados sensoriais acumu-
lados. Essa escola da Gestalt de psicologia perceptiva, fundada por Max Weithermer, juntamente com
os psicólogos experimentais Wolfgang Kohler e Kurt Koffka, contribuiu muito para o estudo da per-
cepção e de outros campos da psicologia. Os psicólogos da Gestalt acreditavam que as nossas percep-
ções são mais do que a soma de suas sensações constituintes. A palavra alemã Gestalt significa
"forma", mas conforme usada na psicologia ela significa um "todo orga-
nizado". A psicologia da Gestalt afirma que existem certos princípios
organizadores inatos que o nosso cérebro utiliza para organizar as in-
Proximidade formações sensoriais. Épor isso que percebemos, digamos, "carro" como
• •• oposto a "metal, pneus, vidro, maçanetas, calotas, pára-lamas". Os fun-

••• • • dadores da psicologia da Gestalt postularam uma série de leis para ex-
•• plicar como características percebidas de uma cena visual são agrupa-
das em todos organizados .

• •• Proximidade e similaridade Duas das leis mais importantes da


•• Gestalt são os princípios de proximidade e similaridade. O princípio da
proximidade afirma que quanto mais próximas duas figuras estão uma da
outra, mais provável que as agrupemos juntas e as vejamos como parte do
Similaridade mesmo objeto. O princípio da similaridade é ilustrado pela música/jogo
do programa Vila Sésamo "Uma dessas coisas não é como as outras". Nós
... tendemos a agrupar figuras de acordo com quanto elas se parecem umas
com as outras, quer na forma, na cor, quer na orientação (Figura 5.23).
=------
~
Ambos os princípios tendem a juntar elementos da cena visual em agru-
pamentos, permitindo-nos considerá-los como um todo em vez de em
suas partes individuais. Por exemplo, nós freqüentemente percebemos
.... um bando de pássaros como uma entidade, porque todos os elementos -
os pássaros - são similares e estão muito próximos.
:----
As "melhores" formas Outros princípios organizadores da psi-
~ ·--·- ·-·-·- cologia da Gestalt descrevem como nós percebemos as características
de uma forma. Aboa continuação é a tendência a interpretar linhas que
se intersecionam como sendo contínuas, em vez de como mudando ra-
GU 5.2 Proximidade e similaridade são dois princípios dicalmente de direção. Ofechamento se refere à tendência de completar
organizadores poderosos identificados pelos psicólogos da Gestalt. figuras que têm lacunas (Figura 5.24).
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 173

Um fenômeno que ilustra vários princípios da Gestalt é o de contornos ilusó-


rios, que nós percebemos mesmo que não existam. Os contornos ilusórios aparecem
quando as configurações do estímulo sugerem que algum contorno deveria estar pre-
sente - por exemplo, quando transições de profundidade estão implícitas ou são úteis
para interpretar um padrão (Figura 5.25).

Figura e fundo Finalmente, um de nossos princípios organizadores básicos é dis-


/\
tinguir entre figura e fundo. Uma ilustração clássica disso é a ilusão da.figura reversível,
da qual apresentamos um exemplo no Capítulo 1 (veja a Figura 1.12). Na figura, nós
vemos ou um rosto inteiro ou dois rostos olhando um para o outro - mas não ao

/ \
mesmo tempo. Essa ilusão mostra que o nosso sistema perceptual visual divide as cenas
em figura e fundo. Quando nós identificamos a figura, atribuímos o restante da cena ao
fundo. Em figuras reversíveis, a atribuição "correta" da figura e do fundo é ambígua, de
modo que periodicamente se alternam conforme o sistema visual tenta compreender a
estimulação. Isso ilustra a natureza dinâmica e contínua da percepção visual. Mesmo
diante de um estímulo imutável, o sistema visual está constantemente testando e atua-
lizando sua interpretação do input sensorial.
GU Fechamento. Nós tendemos a
completar figuras mesmo quando existem lacunas.

A oercepção é o processamento da informação


De que maneira nós juntamos as informações sobre as partes em uma percepção de um objeto contornos ilusórios Um
rotai? Amaioria dos modelos de reconhecimento de padrão é hierárquica, utilizando um processa- fenômeno em que os olhos
mento de baixo para cima. Isso significa que os dados são retransmitidos de níveis inferiores de percebem contornos que não
processamento para níveis superiores. Mas a percepção é, na verdade, uma combinação de proces- existem, o que serve como
evidência dos princípios da Gestalt.
samento de baixo para cima e de cima para baixo. Isso significa que a informação em níveis
mais elevados de processamento pode influenciar níveis mais baixos, "anteriores" na hierarquia de processamento de baixo para
cima Um modelo hierárquico de
processamento. Uma ilustração disso é o efeito do contexto sobre a percepção: o que nós esperamos reconhecimento de padrão em que
ver influencia o que nós percebemos. Considere, por exemplo, a letra incompleta na Figura 5.26: as os dados são retransm itidos de um
duas linhas no centro de cada palavra são percebidas como "H" ou ''!\', dependendo de qual interpre- níve l de processamento para o
ração faria sentido no contexto da palavra. próxi mo, sempre avançando para
um níve l ma is elevado de
Ahistória sobre o acidente de avião que abriu este capítulo sublinha a influência da expectativa processamento.
sobre a percepção. Embora esse seja um exemplo particularmente dramático, a expectativa e o con-
processamento de cima para
rexto indubitavelmente influenciam a nossa percepção o tempo todo. Muitos psicólogos perceptivos baixo Um modelo hierárquico de
pensam na percepção como um processo contínuo de testagem de hipótese em que as informações reconheci mento de padrão em que
sensoriais, o contexto e a expectativa se combinam para criar uma hipótese sobre os estímulos. Essa as informações em níveis mais
hipótese é constantemente atualizada conforme mais informações sensoriais se tomam disponíveis. elevados de processamento
também podem influenciar níveis
O processo de atualização faz uso da hipótese percpetiva corrente, de modo que os movimentos dos inferiores, " anteriores" na
olhos, por exemplo, tendem a ser dirigidos para as áreas do campo visual que transmitirão as infor- hierarquia de processamento.
mações mais úteis.

Contornos ilusórios.
Relacionados ao fechamento, nós
tendemos a ver contornos mesmo quando
eles não existem.
174 GAZZANIGA e HEATHERTON

As teorias sobre percepção visual podem ser testadas utilizando-se modelos de computadores
constância perceptiva As
pessoas percebem corretamente os
ou robôs. Pela mesma razão, os avanços na inteligência artificial informaram muitas teorias psicoló-
objetos como constantes em sua gicas de reconhecimento de padrão. Modelos computacionais são conhecidos como modelos de per-
forma, tamanho, cor e cepção de processamento da informação e são derivados comparando-se o cérebro com um compu-
luminosidade, apesar de dados tador. David Marr (1982) propôs talvez o modelo computacional mais influente da visão. Seu modelo
sensórios brutos que poderiam
enganar a percepção.
tem uma organização hierárquica - tarefas distintas são executadas em cada nível de processamen-
to, e a produção de cada nível serve de input para o próximo nível mais elevado. Marr concebeu o
sistema visual como uma série de algoritmos computacionais que seriam capazes de perceber as
formas dos objetos a partir de suas imagens retinais. Primeiro, ele mapearia certas características
visuais - linhas e seus pontos finais, por exemplo - para criar o que Marr chamou de um esboço
primai da cena. A partir disso, o sistema visual extrairia uma representação das superfícies e das
distâncias e orientações presentes na cena, o que Marr chamou de modelo dimensional dois e meio. A
partir disso, ele finalmente construiria uma representação tridimensional dos objetos.
É importante entender, contudo, que o processamento passo a passo proposto por Marr não
reflete acuradamente o processamento do cérebro. Em quase todos os estágios de processamento
neural, o que nós reconhecemos e o que esperamos exerce uma forte influência sobre o resultado.
No cérebro, cada nível influencia os níveis abaixo e acima dele. Os modelos computacionais foram
desenvolvidos para incorporar essefeedback, permitindo, por exemplo, que o estágio da superfície
recue e influencie os extratores do contorno. Entretanto, até agora nenhum modelo conseguiu
imitar o tremendo poder e versatilidade da visão humana Apesar disso, os modelos proporcionam
uma orientação conceituai útil para os pesquisadores, além de ilustrar a complexidade do proces-
so perceptivo.

As constâncias perceptivas se baseiam em relações


pro orc"on i
Conforme discutimos anteriormente, as ilusões são representações inadequadas de estímulos
distais. Asituação oposta chama-se constância perceptiva, em que percebemos corretamente os
objetos como constantes, apesar de dados sensoriais brutos que poderiam nos levar a pensar diferen-
temente. Como o cérebro sabe que uma pessoa tem lm80 de altura quando a imagem retina! daque-
la pessoa muda de tamanho dependendo de quão perto ou longe ela está? Como o cérebro sabe que
a neve é branca e o pneu é preto, mesmo quando a neve à noite ou um pneu em uma luz brilhante
poderiam enviar à retina as mesmas deixas de luminescência? De maneira geral, mudar o ângulo, a
distância ou a iluminação de um objeto não muda a nossa percepção do tamanho, forma, cor ou
luminosidade desse objeto. Mas para perceber qualquer uma dessas quatro constâncias, nós precisa-
mos compreender a relação entre pelo menos dois fatores. Por exemplo, para a constância de forma
nós precisamos saber quão longe está o objeto. Para a constância de cor, precisamos comparar os
comprimentos de onda da luz refletida pelo objeto com os de seu fundo. Igualmente, para a constân-
cia de luminosidade, nós precisamos saber quanta luz está sendo refletida pelo objeto e por seu
fundo. Em cada caso, o cérebro calcula uma proporção, em vez de confiar na magnitude absoluta de
cada sensação. O objetivo dessas proporções é permitir que o sistema visual faça um julgamento
relativo, em vez de absoluto, sobre o estímulo. O sistema perceptivo é capaz de fazer julgamentos
relativos que permitem que a constância seja mantida em diferentes contextos perceptivos. Embora
os mecanismos exatos das constâncias sejam desconhecidos, elas servem para ilustrar que os siste-
mas perceptivos estão sintonizados para detectar mudanças em relação a uma condição de linha
base, e não apenas para responder a inputs sensoriais.

Teoria de Gibson da percepção direta Amplamente falando, existem duas


abordagens ao estudo de como chegamos a essas relações proporcionais. A teoria
clássica da percepção, originada pelo trabalho de Hermann von Helmholtz no século

TJ-\E CJ-\ T XIX, supõe que a experiência perceptiva fornece as informações sobre as relações
proporcionais que determinam as constâncias. Assim, as sensações criam impulsos
para o cérebro, e o cérebro, então, interpreta-os de acordo com o que aprendeu no
passado. Nesse entendimento, a percepção visual sempre se baseou em inferências
FIGURA 5 6 O contexto desempenha um papel inconscientes, em cálculos matemáticos executados pelo cérebro sem que tenhamos
no reconhecimento dos objetos. ciência disso.
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 175

Começando na década de 1940, o psicólogo perceptivo James J. Gibson (1904-1979) propôs uma
percepção direta Uma teoria da
teoria diferente, a da percepção direta (1966) . Gibson abordou o estudo da percepção de uma percepçã o que afirma que o
perspectiva evolucionária. Ele acreditava que a pergunta mais importante a fazer para se compreender estímulo já deve ter sufi ci ente
a percepção visual é: Para que serve a visão? No sentido mais básico, a função da visão é identificar e informa çã o para ser percebido por
localizar predadores e presas, encontrar parceiros para acasalamento, evitar penhascos e assim por nós e, portanto, que o sistema
visual é constru ído não para nos
diante. Aidéia de que o nosso cérebro teria de depender da inferência, da aprendizagem e da memória, perm it ir ver uma cópia exata do
para formar conceitos básicos para a sobrevivência não fazia sentido para ele. Na opinião dele, o siste- mundo real, mas para interpretar
ma visual não foi construído para nos tomar capazes de enxergar uma cópia exata do mundo real; ele dei xas que ma xim izem sua fun ção.
foi construído para interpretar deixas que maximizem sua função. Sua teoria da percepção direta, atenção O estudo de como o
então, afirmava que os estímulos já têm suficiente informação para que os percebamos - nós não cérebro seleciona quais estímulos
precisamos de memórias ou cálculos adicionais para compreender os dados sensoriais. sensoria is descartar e quais
transmitir para níveis superiores de
Gibson, ele próprio, não estava muito interessado no cérebro, de modo que suas idéias freqüen- processamento.
remente são difíceis de interpretar de um ponto de vista neurocientífico, mas em termos práticos elas
rêm duas implicações principais. A primeira é que muito do processamento visual realizado pelo
cérebro é inato, em vez de aprendido, uma vez que tanto da visão depende apenas de necessidades
perceptivas universais como a distância dos obstáculos e a configuração do terreno. Esse tipo de
análise, em oposição ao reconhecimento de objetos úteis, não se beneficia da aprendizagem e prova-
,·elmente é pré-programada. A segunda implicação das idéias de Gibson é que esses programas
-isuais básicos ocorrem em paralelo com os programas que dependem mais da aprendizagem, de
modo que enquanto uma parte do cérebro pode estar reconhecendo uma maçã, outra parte está
analisando o fluxo óptico para nos manter fora do alcance dos galhos mais baixos.

Processos perceptivos inatos Uma das conseqüências do desenvolvimento da teoria da per-


cepção direta é a tentativa de identificar processos perceptivos inatos no cérebro. Estudando como as
ilusões funcionam, muitos psicólogos perceptivos passaram a acreditar que o cérebro tem suposições
inatas que influenciam as percepções. Avasta maioria das ilusões visuais parece estar além do nosso
controle consciente - nós não podemos nos obrigar a não enxergar ilusões. Como exemplo, olhe para
as duas mesas da Figura 5.27. Acredite ou não, os tampos das duas mesas são exatamente do mesmo
ramanho e forma, e não apenas a área da superfície. Entretanto, o nosso cérebro não vai nos permitir
aceitar esse fato. Mesmo se você desenhar um e colocá-lo sobre o outro, seu cérebro ainda não conse-
Esta inacreditável
guirá enxergar isso. A razão é que temos processos perceptivos automáticos que utilizam deixas de ilusão do tampo da mesa de Roger
perspectiva para nos dizer que o tamanho e a forma das mesas são diferentes. Shepherd demonstra os processos
No Capítulo 11, quando você aprender sobre desenvolvimento cognitivo, verá outras evidências perceptivos automáticos do cérebro.
de que as percepções são o resultado de mecanismos inatos que se desenvolvem, em vez de habilida- Mesmo sabendo que as duas superfícies
des que aprendemos. são iguais, não conseguimos "ver" isso.

Quais são os processos perceptivos básicos'?


A pesquisa perceptiva pode ser dividida em duas perguntas: Como sabemos qual é o arranjo dos objetos no mundo?

V Como reconhecemos objetos de pontos de vista variados? Ambas as perguntas são problemáticas porque o sistema
visual se defronta com um problema malformulado - como calcular uma representação tridimensional do mundo
com base em uma imagem retiniana bidimensional. Para resolver esse problema, o sistema visual depende de deixas
presentes no estímulo e de regu laridades no mundo que ajudem a interpretar as informações da retina . Além disso,
está cada vez mais claro que muitos processos perceptivos são inatamente determinados, mas que experiências
perceptivas normais são necessárias para que os mecanismos perceptivos se desenvolvam normalmente.

COMO A ATENÇÃO AJUDA O CÉREBRO A


AN J AS P rcp - .,
O cérebro está constantemente recebendo input de um número imenso de fontes. Como ele
combina todas essas informações em percepções coerentes, geralmente corretas? E como nós mane-
jamos todas as informações sensoriais que nos bombardeiam constantemente? O estudo da aten-
ção é o estudo de como o cérebro seleciona quais estímulos sensoriais descartar e quais transmitir
para níveis superiores de processamento.
T 176 GAZZANIGA e HEATHERTON
1

A atenção visual é seletiva e serial


Como você aprendeu antes, segundo a psicóloga Anne Treisman, nós identificamos automatica-
mente características "primitivas" (cor, forma, orientação, etc.) Sua teoria do reconhecimento auto-
mático dessas características foi um desenvolvimento importante no estudo da atenção. Treisman
propôs que diferentes características visuais dos objetos são analisadas por sistemas separados. Es-
ses sistemas processam informações em paralelo (ao mesmo tempo), e nós conseguimos prestar
atenção, seletivamente, a uma característica ao bloquear efetivamente o processamento adicional
das outras (Treisman e Gelade, 1980). Lembre que, nas tarefas de busca visual de Treisman (chama-
das de tarefas de busca de características), os participantes estavam procurando alvos que diferiam
em apenas uma característica e que esses alvos saltavam aos olhos imediatamente, não importando
o número de fatores distrativos.
Como a atenção influencia a
nossa maneira de perceber o Todavia, surge um quadro bem diferente se os participantes estiverem procurando um alvo
mundo? mais difícil de discriminar dos elementos distrativos. Nas tarefas de busca de conjunção, solicita-se
aos observadores que busquem um alvo com duas ou mais características. Na Figura 5.28, por exem-
plo, o participante pode ser solicitado a procurar um T verde em meio a Ts vermelhos e Xs verdes.
Nesse caso, o alvo só pode ser distinguido dos distratares pela conjunção das suas características -
ele compartilha a cor com metade dos distratares e a forma com a outra metade. Em contraste com
o destaque imediato (pop-out) encontrado na busca das características, os sujeitos que estão buscan-
do conjunções foram claramente afetados pela presença de distratares. O tempo necessário para
encontrar o alvo aumenta linearmente com o número de distratares - o que sugere que os sujeitos
examinam, laboriosamente, um distratar de cada vez.
Esses estudos levaram Treisman a propor a teoria de dois estágios do processamento da
imagem visual. Segundo essa teoria, o processamento visual começa com uma extração rápida,
paralela, de características elementares. Nesse estágio, o sistema visual está simplesmente mapean-
do a distribuição das características visuais. Mapas separados são criados para cada tipo de carac-
terística - um para a cor, um para a forma, e assim por diante. O segundo estágio de processa-
mento é mais lento e mais trabalhoso. Nesse estágio, as características dos vários mapas são
combinadas para formar objetos. Esse estágio não é automático - ele requer o emprego da aten-
ção. Devido a isso, só são colocadas juntas regiões selecionadas dos
mapas de características. Na busca de características, o tempo médio
que os observadores levam para responder aos alvos não é afetado
pelo número de distratares. Essa é a marca registrada da busca pré-
atenta (busca que não requer atenção): todo o arranjo é esquadrinha-
T T do em paralelo e a característica crítica é rapidamente registrada se
estiver presente. Abusca de conjunção, no entanto, requer atenção e
T X é processada serialmente, de modo que o tempo de busca fica mais
longo conforme mais distratares são incluídos.
X T
Segregação das funções visuais Outras evidências sugerem
que os processos visuais elementares prosseguem em paralelo e são
integrados relativamente tarde no processamento. Por exemplo, consi-
T X X X dere as versões da ilusão de Ponzo mostradas na Figura 5.29. Na versão
X T T T T à esquerda, de vermelho-sobre-verde, a ilusão permanece, mas na ver-
T são à direita a ilusão é muito menos efetiva. Isso porque, na versão à
X T T direita, o vermelho e o verde foram preparados para ter aproximada-
T X T T mente a mesma luminescência (são "equiluminescentes"), de modo que
T X a figura e o fundo só são distinguidos pela cor. Em contraste, a versão
X X X da esquerda tem diferenças de cor e de luminosidade. Cor e profundi-
dade são processadas em caminhos separados no córtex visual, de modo
que as informações de profundidade ficam perdidas na versão da direi-
ta. Sem informações de profundidade, as linhas paralelas parecem eqüi-
F GU A 28 Nas tarefas de busca visual, os sujeitos são solicitados
a encontrar o alvo - a coisa diferente das outras. Na busca de
distantes e, portanto, iguais em comprimento.
características, quando o alvo tem apenas uma característica (cor ou forma) Casos em que as pessoas sofrem déficits visuais em resultado de
que difere dos distratares, isso é simples. Quando o alvo tem mais de uma lesões cerebrais também apóiam a idéia de que existem sistemas per-
característica que difere (p. ex., o T vermelho, quando existem Ts e Xs ceptuais distintos para processar diferentes características visuais. Por
verdes e vermelhos), leva mais tempo. exemplo, pessoas cegas para a cor não têm problemas com a percepção
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 177

.:'. e profundidade e textura - elas ainda conseguem enxergar e reconhe-


::er objetos. Apaciente com acinetopsia descrita antes aparentemente tem
~ processamento normal da cor e da forma, apesar do profundo prejuí-
zo no processamento do movimento.

Ligação Se o cérebro processa as características automaticamente e sepa-


:adamente, como ele determina qual característica faz parte de qual obje-
:o? Isso é conhecido como o problema de ligação. Treisman pesquisou
a possibilidade de a atenção ajudar a integrar as características para perce-
c:>er corretamente os objetos. Quando um observador normal recebe deixas
demais às quais prestar atenção, ocorrem erros de ligação. Por exemplo,
Jos testes em que as pessoas observam por um breve período Xs vermelhos
:: Os azuis e são solicitadas a nomear um dígito apresentado ao mesmo
:empo, elas freqüentemente relatam ter visto um Xazul ou um Overmelho.
:.Ssas conjunções ilusórias acontecem porque a atenção do observadores-
:ava dividida e superestendida entre as letras coloridas e a tarefa de iden-
:iii.cação de dígitos. Conseqüentemente, as características dos objetos se
recombinam para formar um objeto que não existe. Osistema de reconhe-
cimento automático de características entra em colapso.

A ilusão de Ponzo é efetiva em todos, menos no


A atenção auditiva permite terceiro painel. Quando o fundo e as linhas têm a mesma luminosidade,
a profundidade não pode ser percebida. Isso indica que os
" ~ rlic;:io sPIP i !:li
processamentos visuais da lum1nos1dade e da profundidade são
Por causa da atenção, é difícil fazer duas tarefas ao mesmo tempo, separados.
::specialmente se elas dependem dos mesmos mecanismos. Nós podemos
facilmente ouvir música e dirigir ao mesmo tempo, mas temos dificulda-
de em ouvir duas conversas ao mesmo tempo. O psicólogo Steven Pinker salienta que mesmo dirigir
e ouvir rádio ao mesmo tempo pode ser arriscado - dependendo do que você está escutando. Um
;irograma de esportes pode levar o seu sistema visual a imaginar ojogo que está acontecendo, distrain-
do a atenção das deixas visuais da estrada à sua frente.
O fenômeno da festa de coquetel, assim chamado pelo psicólogo britânico E.C. Cherry
' 1953), refere-se à capacidade de focar uma única conversa em meio a uma caótica festa de coque-
rel. Embora a proximidade e a altura do som contribuam, a sua atenção seletiva também pode deter-
minar qual conversa você vai escutar. Imagine que você está jantando com uma amiga em um restau-
rante lotado. Subitamente, a conversa na mesa ao lado atrai o seu interesse. Se você realmente
quiser ouvir aquela conversa, pode focar sua atenção nela em vez de naquilo que sua amiga (mais
próxima e, portanto, mais barulhenta) está dizendo. Quando sua amiga nota o ar vago em seu rosto
e protesta: ''Você não está prestando atenção ao que eu estou dizendo!", as chances são de que você
não saberá dizer o que ela estava falando - , mas poderá relatar o drama na mesa ao lado. problema de ligação A
Cherry desenvolveu estudos sobre a audição seletiva para examinar esse aspecto da atenção. Ele pergunta que considera a questão:
usou uma técnica chamada de sombreamento, em que um sujeito escuta duas mensagens simultane- se o cérebro processa as
características automaticamente e
amente através de fones de ouvido, uma em cada ouvido. A pessoa é solicitada a prestar atenção a separadamente, como ele
uma mensagem e "fazer sua sombra", isto é, repeti-la em voz alta. Nessa situação, o sujeito geral- determina qual característica faz
mente nota o som ao qual não está prestando atenção (a mensagem transmitida no outro ouvido), parte de qual objeto?
mas não terá idéia do seu conteúdo (Figura 5.30). fenômeno da festa de
coquetel Um fenômeno de
atenção seletiva que se refere à
capacidade de focalizar uma única
A atenção .seletiva pode operar em múltiplos estágios de conversa em meio a uma caótica
prnr~cs" m~ntn festa de coquetel.
teoria do filtro Uma teoria de
O psicólogo Donald Broadbent (1958) desenvolveu a teoria do filtro para explicar os acha- que as pessoas têm uma capacidade
dos de audição seletiva. Para ele, nós temos uma capacidade limitada de informações sensoriais e, limitada para as informações
portanto, esquadrinhamos as informações que chegam, só deixando entrar as mais importantes. sensoriais e, portanto,
esquadrinham as informações que
Nesse modelo, a atenção é como um portão que abrimos para informações importantes e fechamos chegam, só deixando entrar as mais
para as informações que desejamos ignorar. Mas será que somos realmente capazes de fechar o importantes.
portão para informações irrelevantes? Quando e onde o portão fecha?
178 GAZZANIGA e HEATHERTON

Inputs ignorados A teoria do filtro de Broadbent é um exemplo da seleção ini-


Os cavalos galopavam cial, que é a teoria de que podemos escolher os estímulos aos quais
pelo campo .. prestaremos atenção antes mesmo de processar suas características bá-
sicas. No processamento visual, nós podemos escolher ignorar caracte-
rísticas como cor e forma e só processar aquelas que escolhemos como
importantes para a tarefa em questão. Correspondentemente, a aten-
ção filtra de modo efetivo certas características em um estágio inicial,
de modo que elas não chegam a ser processadas.
No entanto, alguns estudos revelaram que informações visuais "às
Produção falada quais não prestamos atenção" são processadas, pelo menos até certo
O presidente Lincoln ponto. As teorias da seleção tardia sobre a atenção visual foram
muitas vezes lia à luz
do fogo ...
propostas para explicar esses achados. Essas teorias supõem que nós
absorvemos informações sensoriais, as processamos e depois selecio-
namos os aspectos dos estímulos aos quais devemos prestar atenção. O
FIGURA 5.30 Nos experimentos de sombreamento, os sujeitos estágio da atenção ocorre quando ficamos conscientes do que estamos
recebem duas mensagens auditivas diferentes, uma em cada ouvido, mas percebendo. Vários estudos de audição seletiva descobriram que, em-
são solicitados a "sombrear" ou dizer em voz alta apenas uma delas. bora um sujeito não consiga repetir uma mensagem à qual não prestou
atenção, ele ainda pode ter processado seus conteúdos. Estudos fasci-
nantes do psicólogo Donald G. McKay mostraram que se a mensagem à
qual não se prestou atenção for relevante, nós automaticamente utilizamos as informações. Por
exemplo, sujeitos prestaram atenção à frase "eles atiraram pedras no banco, ontem", enquanto ao
mesmo tempo escutava no outro ouvido uma de duas palavras, "rio" ou "dinheiro". Mais tarde, os
sujeitos não foram capazes de relatar qual dessas duas palavras tinham escutado; no entanto, se
tivessem escutado "rio", interpretavam a frase como significando que alguém tinha atirado pedras
contra o banco de um rio. Se tivessem escutado a palavra "dinheiro", eles interpretavam a frase
teorias da seleção como significando que alguém tinha atirado pedras contra o prédio de uma instituição financeira.
inicial Teorias baseadas na noção Assim, eles extraíam significado da palavra mesmo que não tivessem consciência disso.
de que podemos escolher os
est ímulos aos quais presta remos
Agora parece claro que a seleção pela atenção não é um processo tudo-ou-nada que elimina
atenção, antes de processar suas estímulos aos quais não prestamos atenção, conforme argumentavam os proponentes das teorias da
características básicas. seleção inicial. Nem as informações ignoradas são inteiramente processadas antes que ocorra a sele-
teorias da seleção ção, como sugerem as teorias da seleção tardia. Melhor dizendo, a maioria das teorias modernas da
tardia Teorias que supõem que as atenção sugerem que a atenção seletiva pode operar em múltiplos estágios de processamento per-
pessoas absorvem informações ceptual. Vários estudos mostraram que o processamento dos estímulos aos quais prestamos atenção
sensoriais, processam-nas e
sel ecionam os aspectos dos
é maior se comparado ao dos estímulos "não-atendidos'', mas que os estímulos não-atendidos tam-
estímulos aos quais devem prestar bém são processados. Treisman propôs que as informações não-atendidas não são completamente
at enção depois do processamento. "barradas" no portão, mas simplesmente reduzidas. Broadbent, o mais importante proponente da
teoria do filtro, concordou e corrigiu sua opinião.

Como a atenção ajuda o cérebro a manejar as percepções?


A aten ção é o estudo de como o cérebro seleciona os estímulos sensórios que vai ignorar e aqueles que vai
transmitir para níveis superiores de processamento perceptual. As tarefas de busca visual indicam que processamos
informações visuais sobre características primitivas ao longo de caminhos paralelos. Para recombinar as informações
desses caminhos talvez seja preciso empregar a atenção. Um aspecto-chave da atenção é ela ser seletiva; nós temos
a capacidade de escolher os estímulos aos quais vamos prestar atenção (o fenômeno da festa de coquetel) . Apesar
dessa seletividade, nós ainda podemos processar algumas informações contidas nos estímulos sensoriais aos quais
não estamos conscientemente prestando atenção. Atualmente está claro que a atenção pode operar em múltiplos
estágios de processamento perceptivo e que os estímulos aos quais não prestamos atenção são reduzidos, em vez
de completamente eliminados de um processamento adicional.
CIÊNCIA PSICOLÓGICA 179

CONCLUSÃO
Os psicólogos perceptivos tentam compreender como as sensações elementares são traduzidas
em percepção consciente. Nessa tentativa, eles subdividiram sensação e percepção em seus proces-
sos elementares, a fim de entender como conseguimos criar representações acuradas do mundo.
Os nossos sistemas perceptivos enfrentam um problema desafiador - o de extrair uma repre-
sentação acurada do mundo externo com base em impulsos neurais dos receptores sensoriais. Mate-
maticamente, isso é um problema malformulado, pois existem muitos (infinitos) estímulos que po-
deriam ter gerado um dado padrão de estimulação. Apesar desse problema aparentemente insolúvel,
o cérebro faz um trabalho notavelmente bom de representar o mundo. Após mais de um século de
pesquisas, a ciência ainda não pode afirmar definitivamente como funciona a percepção. Nenhuma
teoria ou modelo conseguiu explicar satisfatoriamente mais do que uma fração dos fenômenos per-
ceptivos. O que aprendemos, a partir da acumulação de evidências de muitas áreas independentes
de pesquisa, é que o processo perceptivo é tremendamente complicado. Algumas estimativas, por
exemplo, sugerem que mais da metade do córtex do cérebro primata contribui para o processo da
percepção visual.
Apesar desse mistério, os mecanismos dos nossos sistemas perceptivos começaram a se render
aos esforços de psicólogos, neurofisiologistas e teóricos da computação trabalhando em muitos ní-
veis de análise. Com o advento de novas tecnologias para estudar o cérebro em ação, esses esforços
passaram a ser ainda mais urgentes. Talvez este novo século finalmente traga as respostas para uma
das perguntas mais persistentes da história: Como nós conhecemos o nosso mundo?

LEITURAS ADICIONAIS
Gazzaniga, M. S. (1998). The mind's pa.st. Berkeley, CA: University of California Press.
Gazzaniga, M. S.; Ivry, R. B.; Mangun, G. R. (2002). Cognitive neuroscience: The biology of the mind (2nd ed.).
New York: W W Norton.
Gibson, J. J. (1979). The ecological approach to visual perception. Boston: Houghton Mifflin.
Kandel, E. R.; Schwartz, J. H.; Jessell, T. M. (1995). Essential.s of neural science and behavior. New York:
Appleton & Lange.
~tarr, D. (1982) . Vision: A Computational investigation into the human representation and processing of visual infor-
mation. San Francisco: Freeman.
Pinker, S. (1997). How the mind works. New York: W W Norton.
Shephard, R. N. (1990). Mindsights. New York: W H. Freeman.
G291c Gazzaniga, Michael S.
Ciência psicológica : mente, cérebro e comportamento /
Michael S. Gazzaniga e Todd F. Heatherton; trad . Maria
Adriana Veríssimo Veronese. - 2. imp. rev. - Porto Alegre:
Artmed, 2005.

ISBN 978-85-363-0432-8

1. Psicologia - Ciência . 1. Heatherton, Todd F. li. Título

CDU 159.9.01/.98