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A influência das matrizes filosóficas

no desenvolvimento da Psicologia

Introdução

Antes de se estabelecer como uma ciência, como um conjunto de teorias e conceitos


concretos acerca da mente humana, os estudos do que se tornaria, em meados do séc. XIX, a
Psicologia, como a conhecemos hoje em dia, nutriram-se de diferentes e contraditórias
definições propostas por diferentes filósofos e pensadores, ora na tentativa de buscar meios
para solucionar dúvidas e métodos de compreensão da mente/alma humana, ora na criação de
sistemas filosóficos com o intuito de fornecer pressupostos sócio-ético-culturais. Para fugir à
obscuridade das crenças e ao misticismo, propondo que mente e corpo, embora de naturezas
distintas, ambos influenciavam um ao outro, Descartes procurou a luz na razão: investindo o
homem da razão e, portanto, da capacidade de conhecer racionalmente e somente por meio da
racionalidade o mundo de tal maneira que a única certeza seria de que o pensamento existe, e
nossa existência seria comprovada unicamente pelo fato e capacidade de pensarmos. Da
dedução à indução, proporcionando as bases do experimento científico, os empiristas
desconfiavam da razão pura, não mais considerando a mente como uma substância, mas como
um produto de nossas sensações e sede de nossa razão, buscando as repostas nas experiências
do indivíduo, desse modo, o mundo concreto não seria nada além de algo externo. Com Kant
e a tentativa de correlacionar os pressupostos do inatismo e do empirismo, a percepção do
mundo então seria a percepção dos fenômenos, ou seja, das sensações extraídas do mundo
através dos sentidos, entendidas por meio das noções subjetivas de tempo e espaço e finalmente
compreendidas por meio das categorias do pensamento. Por fim, Comte enaltece a ciência
como o meio e solução para o homem analisar o mundo e, de modo semelhante a Kant, critica
o caráter metafísico das psicologias introspectivas de suas épocas, sugerindo que se estudasse
o intelecto de modo não dissociado dos fenômenos fisiológicos.
Descartes

Certo dia, Descartes teria tido uma visão, uma revelação, que lhe teria expressado uma
imagem matemática do mundo e do funcionamento de todo o universo, desse modo, imaginou
um sistema que englobasse e unificasse o conhecimento, isento de preconceitos e hipóteses e
que, baseando-se na certeza, partiria de princípios básicos, evidentes por si mesmos, e se
desenvolveria a partir deles. Para tanto, seria necessário adotar um método adequado de
reflexão (posteriormente conhecido como o cartesianismo), composto por duas regras de
operação mental: a intuição e a dedução, definidas, respectivamente, como a concepção
inequívoca de um espírito formado exclusivamente pela luz da razão, e a dedução como a
inferência a partir de outros fatos tidos como certos (STRATHERN, 1997a). Conforme as
considerações de Massimi (2016), com a pretensão de reafirmar a confiança no homem e no
poder da razão como instrumento de busca da verdade, em um momento histórico marcado
tanto pelo entusiasmo pela ciência quanto pela incerteza e pelo desatino diante das
possibilidades de posicionamento da liberdade dos indivíduos, Descartes inauguraria a Idade
Moderna, em meio à crise da filosofia clássica e exigências de mudança, quando a evidência
da realidade e/ou a presença de verdade não seriam mais um dado adquirido, mas
problematizadas, desse modo, a dúvida metódica visa à afirmação de que os processos que se
passam na mente do homem são dotados de certeza própria e podem ser investigados, de modo
que o homem, e não a realidade, passa a ser a fonte da certeza.
A partir dessa época, a primazia do indivíduo e a análise da consciência humana
tornaram-se fundamentais para a filosofia e, de uma forma ou de outra, permaneceu assim até
tempos mais ou menos recentes. Iniciando um processo de dúvida metódica, nas palavras de
Santi (1998), Descartes teria se empenhado a refletir sobre cada coisa no mundo, a fim de saber
se seria possível fornecer-lhe uma verdade segura, em um método o mais semelhante o possível
com o da matemática e da geometria. Com a finalidade de partir dos fundamentos a fim de
estabelecer algo de firme e de constante nas ciências, Descartes, dispensando o uso de
numerosos preceitos da Lógica, considerou que lhe bastariam apenas quatro: a) jamais acolher
alguma coisa como verdadeira que não se reconhecesse como tal, evitando a precipitação e a
inclusão de juízos que não se apresentassem tão clara e distintamente; b) dividir cada uma das
dificuldades examinadas em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias; c) a
condução ordenada dos pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de
conhecer; d) fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais a fim de nada
omitir (STRATHERN, 1997a). Ocupando-se só com a pesquisa da verdade, seria necessário
rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida.
A primazia do pensamento, atenta Ferreira (2005b), também pode ser entendida como
a atitude de apenas afirmar que se pode pensar. No recurso à própria subjetividade encontra-se
a base para o estabelecimento de novas certezas indubitáveis: a derrota da dúvida se faz
nutrindo-se da própria dúvida cética, da certeza de que não há certezas. Uma vez que, para
Descartes, nossos sentidos nos enganam às vezes, e que há homens que se equivocam ao
raciocinar, estando sujeitos a falhar, enfim, considerando que todos os mesmos pensamentos
que temos quando despertos nos podem também ocorrer quando dormimos, o que impossibilita
saber se as coisas seriam mais verdadeiras que as ilusões dos sonhos, ao se pensar que tudo
seria falso, “cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, notando que
esta verdade: penso, logo existo, era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes
suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar, julguei que podia aceitá-la” (Discurso
do método, parte II). Na mais famosa observação feita na filosofia, Descartes conclui: “cogito,
ergo sum” (penso, logo existo); Para Anderson, sua metodologia da dúvida, embora as
conclusões a que chegou por meio de seu emprego sejam mais pertinentes à epistemologia,
demonstrando um uso crítico da introspeção, também seu cuidadoso exemplo do uso das
representações internas e conscientes e do questionamento delas no estabelecimento de uma
afirmação científica seriam um método central para as primeiras psicologias científicas.
Repousa em sua filosofia o empreendimento, e que seria um prenúncio para a criação
da ciência da psicologia, de solucionar (ou refletir sobre) a dicotomia espírito e matéria, questão
controversa durante séculos e, por milhares de anos, pensada nos termos de um dualismo pelos
intelectuais, ou seja, sob o argumento de que a mente (ou alma) e o corpo seriam de naturezas
distintas. Descartes parte do princípio de que o espírito seria inextenso e indivisível, separado
do mundo, e a matéria, extensa, divisível, que obedece às leis da física e opera de acordo com
os princípios mecânicos, porém, discordando da afirmação de que a interação entre corpo e
mente seria unilateral – em que aquele seria manipulado, como uma marionete, pela segunda,
ele propõe a teoria de que ambas as substâncias, a res cogitans e a res extensa, interagem não
em uma relação unilateral, mas mútua: a mente exerce uma influência sobre o corpo/matéria e,
portanto, o pensamento pode determinar o comportamento, da mesma forma, o corpo,
composto de matéria física e com características comuns a qualquer matéria, também
influenciaria a mente (ANDERSON). Isso significava que nosso espírito incorpóreo estaria
alojado em um corpo mecânico, porém, tal como o corpo responde à mente e executa um
movimento determinado por ela, o corpo recebe os estímulos sensoriais e os comunica à mente,
que os reconhece e interpreta, determinando uma resposta adequada. Além disso, seguindo essa
linha de raciocínio, atenta Schultz (2017), ele propôs a ideia da undulatio reflexa: movimento
não comandado ou não determinado pela vontade consciente de se mover, o que faria dele o
autor da teoria do ato de reflexo, precursora da moderna psicologia behaviorista de estímulo-
resposta (E-R), ao determinar que o comportamento reflexo não envolve pensamento nem
processo cognitivo e parece ser completamente mecânico ou automático.
Descartes poderia ser considerado um dos primeiros neurocientistas empírico. No início
do Renascimento, nota Anderson, a ciência procurava valorizar a demonstração em detrimento
da investigação, o empirismo, por sua vez, implica a observação, não, entretanto, da mesma
maneira que a experimentação, e Descartes se dedicou a um trabalho científico quando
primeiramente demonstrou como se dava a inversão da imagem na retina, cabendo ressaltar
que ele procurou unir seu dualismo filosófico ao conhecimento do sistema nervoso, além de
ter sido um estudioso dos reflexos do corpo humano (ANDERSON). Segundo Schultz (2017),
A doutrina das ideias de Descartes exerceu grande influência na psicologia moderna, uma vez
que ele afirmava ser a mente produtora tanto de ideias derivadas, resultantes e advindas das
experiências externas e dos estímulos provenientes das interações entre o mundo e nosso corpo,
quanto de ideias inatas, independentes das sensações e não produzidas por objetos do mundo
externo, possivelmente apercebidas na presença de certas experiências. O conceito de ideias
inatas e as teorias sobre o inatismo teriam influenciado a escola de psicologia da Gestalt.

Locke, Hume, Berkeley e o Empirismo

Quando Locke iniciou seus estudos, apesar da nova filosofia de Descartes e dos recentes
e amplos progressos da ciência e da matemática, Aristóteles e a escolástica reinavam absolutos,
o que o levou a procurar estímulo intelectual em outro lugar: o interesse pela química e
medicina, embora a última ainda tivesse seu conhecimento extensamente baseado nos tratados
antigos greco-romanos. As leituras sobre a ciência racional conduziram-no à filosofia racional
de Descartes, quem teria lhe proporcionado o gosto pelos estudos filosóficos. Desconfiado do
raciocínio dedutivo de Descartes, Locke pensa só ser possível chegar à verdade mediante a
indução: o método científico. Também, para Locke a origem dos problemas políticos seria a
natureza dos seres humanos, sendo necessário conhecê-la e, para tanto, descobrir como chegam
ao conhecimento do mundo que habitam, dessa forma, suas ideias sobre a democracia liberal
teriam efeito mais duradouro sobre a filosofia política que quaisquer outras (STRATHERN,
1997c).
A publicação do livro Ensaio sobre o entendimento humano o configura como um dos
importantes antecedentes escritos para o que se tornará a ciência da psicologia, embora seja o
estruturalismo o primeiro movimento teórico a influenciar a psicologia científica. A abordagem
empírica da mente por Locke argumentaria a favor de uma ciência da mente e enfatizaria as
sensações e imagens como os materiais-chave por meio dos quais a mente se forma. Segundo
Locke, podemos observar as coisas externas e internas: as primeiras, que podem ser
denominadas as sensações, encontram-se no mundo físico, já as últimas, consideradas como
sendo as reflexões, constituem nossos pensamentos e mente. Nossas mentes seriam produtos
de um processo de observação combinado com nossa capacidade de reflexão, além disso,
nossas ideias seriam de dois tipos: as simples e as complexas. Ao passo que, para Descartes
uma apreensão da psicologia humana se daria racionalmente, ou seja, nós, como seres
pensantes, poderíamos contar com nossas disposições naturais para deduzir os verdadeiros
estados quando à nossa vida mental, bem observou Anderson que Locke apresentaria o
empirismo como contraposto.
Massimi (2016) nota que o termo experiência em Locke se refere a duas atividades de
nossa mente: receber o mundo externo por meio dos sentidos e, através da reflexão, formar
ideias por meio das quais elaboramos nosso conhecimento, desse modo, a mente não deve ser
mais entendida como substância, ou alma, e sim como simples função mental, originariamente
vazia, e apenas preenchida por aquilo que é adquirido no exercício da capacidade cognitiva
humana de elaboração dos dados sensoriais e transformação deles em ideias. Não tão
profundamente original quanto a obra de Descartes, ou tão brilhante, porém, ao procurar
destronar a razão privilegiando a experiência, parecendo aos filósofos subsequentes estar mais
perto da verdade, Locke gerou sua principal linha de desenvolvimento — os empiristas
britânicos, que então provocaram Kant a produzir o maior de todos os sistemas filosóficos -,
postulando que o conhecimento humano deriva da experiência externa e da reflexão (a palavra
de Locke para introspecção), mas que o conhecimento empírico que recebemos dos sentidos
pode apenas ser provável: portanto, mediante o uso da intuição e da dedução, podemos avaliar
o grau de probabilidade (STRATHERN, 1997c).
David Hume, por sua vez, opondo-se a Descartes e às tradições filosóficas que
consideravam o espírito humano segundo um ponto de vista teológico ou metafísico, abriu
caminho à aplicação do método experimental ao estudo dos fenômenos mentais, diluindo a
conexão entre pensamento e experiência dos sentidos, substituída pelo mundo da
experimentação científica: o termo experiência passa a designar a concepção do real que o
homem elabora através dos métodos de conhecimento, sendo o mais fiel, confiável e científico
(MASSIMI, 2016). Enquanto para Berkeley, nas palavras de Anderson, não teríamos razão
para crer que o que percebemos, de fato, de acordo com as coisas reais é que “estão lá”, ou
seja, a única coisa real seria nossa percepção, Hume vai além ao negar que não podemos ter
certeza de nada: mesmo a lei de causa e efeito seria apenas uma inferência de nossa experiência,
logo, teríamos uma ênfase no processo de associação de ideias, semelhança e contiguidade.
Preconizando o nascimento de uma ciência do homem, semelhante às ciências da
natureza, comenta Massimi (2016), Hume questiona o tradicional conceito de natureza humana
e metafísica, e, partindo de um método que não decorresse da invenção, mas somente da
experiência, utilizando-se do espírito da exatidão e do raciocínio, coloca a hipótese da
experiência humana ser compreendida da mesma forma que o mundo natural, sendo a
experiência a única que poderia nos ensinar a natureza e os limites da causa e do efeito,
permitindo-nos inferir a existência de um objeto partindo de outro. Segundo Vidal (2005),
ligado à crítica da religião, empreendido na análise como paradigma do conhecimento e
esclarecimento dos mecanismos envolvidos no conhecer como condição da aquisição e crítica
do próprio conhecimento, de acordo com Hume, por exemplo, os princípios de associação -
semelhança, contiguidade no tempo ou no espaço e relação de causa e efeito, seriam
equivalentes ao princípio de atração universal de Newton. Já Schultz (2017) diz que, para
Berkey, todo o conhecimento estaria atrelado à experiência ou à percepção do indivíduo, sendo
a percepção a única realidade da qual se pode ter certeza, uma vez que não seria possível
conhecer precisamente a natureza dos objetos físicos dentro do universo gerado pela nossa
experiência: os objetos físicos, portanto, nada mais seriam do que acúmulos de sensações
experimentadas simultaneamente e associadas pela mente por meio do hábito e da repetição.
Kant: entre o Inatismo e o Empirismo

Kant concordava com Hume e com os empiristas quanto à inexistência de ideias inatas,
mas negava que todo o conhecimento fosse originado pela experiência, numa inversão da
fórmula original, transformando-a de ‘todo o conhecimento deve corresponder à experiência’
em ‘toda a experiência deve corresponder ao conhecimento’, assim, uma vez que nossa
percepção deve passar pelo crivo de nossas noções subjetivas de tempo e espaço, e a
experiência de nossos sentidos apenas pode ser concebida por meio de nosso entendimento,
com o uso das categorias mentais (tais como qualidade, quantidade e relação), apenas seríamos
capazes de observar os fenômenos do mundo e jamais a realidade que sustenta ou propicia o
aparecimento desses fenômenos que não têm nada a ver com a coisa em si: Hume havia negado
quaisquer entidades que transcendem a experiência, mas por razão pura Kant pretende designar
uma razão a priori, ou seja, anterior à experiência (STRATHERN, 1997b).
Em sua crítica da razão pura, atenta Teo (2005), Kant tentou investigar as possibilidades
de conhecimento, intituladas psicologias transcendentais, uma reconciliação entre o
racionalismo e o empirismo pela ênfase do papel da experiência na aquisição do conhecimento
(algo negado pelo racionalismo) e pela indicação de que o conhecimento humano começa com
a experiência. Contrário ao empirismo, Kant atenta para o fato de que nem todo conhecimento
provém da experiência. Desse modo, teríamos dois aspectos do conhecimento: a sensibilidade
derivada dos sentidos [Sinnlichkeit] e a compreensão [Verstand], e portanto as sensibilidades
a priori, o espaço e tempo (também denominados formas da intuição) e os princípios a priori
da compreensão, ou seja, as categorias da mente, pressupostas ou adquiridas por meio de nossa
experiência sensorial. Desse modo, a formulação “todos tem um pai” não será uma informação
advinda de nossa experiência sensorial, pois o uso da palavra “todos” implica o uso da categoria
de totalidade. Nesse processo de aplicar categorias às experiências sensoriais, a compreensão
e o conhecimento humano estariam restritos ao mundo do fenômeno (ou seja, o mundo das
aparências) e não da coisa-em-si (do nômeno). Se a compreensão [Verstand] transforma as
experiências sensoriais, a razão [Vernunft] transforma a compreensão na tentativa de abarcar o
absoluto e, desse modo, tenta transcender o mundo do fenômeno e agarrar a essência da
realidade. Para Kant, a auto-observação (ou introspecção) nos levaria a uma confusão, uma vez
que só descobriríamos o que temos em mente, sendo que os atos da imaginação só poderiam
ser observados se invocados deliberadamente (TEO, 2005).
De acordo com as observações de Sullins (2014), diferentemente dos empiristas, cujo
pressuposto seria de que os sujeitos nasçam tal como uma tabula rasa (uma página em branco),
os inatistas partem da pressuposição de que o sujeito nasce com todo ou algum conhecimento:
temos em Platão a teoria da anamnese, ou seja, de que todo o conhecimento é readquirido por
meio da rememoração, e, portanto, já estaria presente nos seres humanos desde o nascimento,
por outro lado, para Descartes o conhecimento seria tanto de natureza inata quanto adquirido
por meio da experiência. Ambos inatistas e empiristas concordam que uma ideia inata seria
essencialmente a mesma para todos, ou, em outras palavras, ideias universais; já no empirismo
certa ausência de uma uniformidade inexistente nas esferas do conhecimento seria
problemática quanto à moralidade. Locke rejeita a noção de que qualquer ideia seja inata,
argumentando que, se todas nossas ideias fossem inatas, seria dispensável o uso da razão para
descobri-las, uma vez que já estariam presentes de uma maneira ou outra na mente humana.
Locke não aceitava a ideia de que os humanos detêm uma capacidade de raciocínio, ou uma
habilidade para perceber uma ordenação de causa na experiência. Kant, afastado
temporalmente cem anos de Locke e em parte das asserções dele, discorda também de Platão
quanto ao pressuposto de que todo o conhecimento seria inato, porém, fica como que “no meio
termo”: para ele a aquisição do conhecimento se daria pela experiência, contudo, os seres
humanos seriam dotados de certos conhecimentos inatos, valendo-se dos termos a priori e a
posteriori para distinguir ambos os conhecimentos, respectivamente, prévios e
posteriores/adquiridos por meio dos sentidos e/ou da experiência, detendo-se em restringir os
limites do conhecimento a posteriori. A maioria dos princípios gerais da ciência natural não
seriam generalizações do que percebemos e/ou experienciamos, mas julgamentos a priori sobre
o que podemos experienciar, aos quais as categorias do conhecimento (divididas em quatro
categorias primárias: de quantidade, qualidade, relação e modalidade) forneceriam os meios
para possibilitar as conexões cruciais. Desse modo, ao fazermos um julgamento, recorreríamos
e empregaríamos essas categorias do conhecimento para levantar uma questão e, por
conseguinte, não apreenderíamos senão o que Kant denomina ser o fenômeno, contrário às
coisas em si: uma vez que qualquer experiência apreensível deve ser entendida nos termos das
categorias, estamos inclinados a projetar todo esse processo de pensamento para fora de nós
mesmos, como uma estrutura inevitável sem a qual nenhuma experiência seria possível. O
principal oponente intelectual do inatismo kantiano foi David Hume, quem articulou as bases
do empirismo moderno. Segundo ele, tudo o que podemos observar por meio da experiência
sensível é que duas coisas ocorrem, uma antes da outra, mas sem estabelecer os critérios de
causa e efeito: o motivo por causa do qual erroneamente inferimos que há uma causa que
produz um efeito seria devido às nossas experiências passadas e que nos habituaram a pensar
dessa forma, ou seja, a constante constatação de que B sempre vem depois de A, e nunca de
outra maneira, faria com que nossa mente associasse B a A, em relações de efeito e causa,
anterioridade e posterioridade no tempo-espaço dentre outras. Em suma, portanto, na visão de
Hume, todas nossas crenças na efetividade são fundamentalmente não-racionais, baseadas em
nossa convicção, embora acreditemos na relação causal devido às nossas observações passadas
(SULLINS, 2014).
Contra as críticas (vetos) de Kant aos métodos que impediam a Psicologia de se
posicionar como uma ciência e não ficar relegada à metafísica, em seus Princípios metafísicos
da ciência da natureza (1786/1989: 32-33), a psicologia empírica então para se provar como
ciência propriamente dita deveria superar três impedimentos. O primeiro deles seria: descobrir
seu elemento de modo similar à química, para com isso efetuar análises e sínteses, e que será
resolvido pela teoria das energias nervosas específicas de Johannes Müller, o qual conduziu
uma espécie de “kantismo fisiológico”, em que o mundo percebido seria uma mera propriedade
das nossas energias nervosas específicas, estimuladas sempre por um fator físico qualquer, não
importando a natureza e, portanto, a sensação representaria um elemento preciso. Já o segundo
deles seria o de facultar a esse elemento um estudo objetivo, em que sujeito e objeto não se
misturem como na introspecção, ou seja, superar o problema de que a mente como agente não
poderia observar a mente de modo passivo, uma vez que ela não estaria exposta de modo parado
e constante no ato de estar observando a si mesma. Para tanto, Hermann Von Helmholtz,
discípulo de Müller, elaborou o estudo das apercepções, propondo a Teoria das inferências
inconscientes (de cunho empirista) e o Método da introspecção experimental: segundo a teoria,
as nossas sensações seriam organizadas por experiências passadas aptas a ordenar de modo
inconsciente e rápido as premissas menores informadas pelos sentidos, produzindo como
conclusão as nossas representações psicológicas. Por fim, como último impedimento a ser
superado estava o de produzir uma matematização mais avançada que a geometria da linha
reta, apta a dar conta das sucessões temporais de nossa consciência. Fechner, em seu livro
Elementos da psicofísica, ofereceria uma resposta a isso e ao segundo veto kantiano,
estabelecendo a lei por ele batizada de Lei Weber-Fechner, aproveitando a equação de Ernst
Weber sobre a relação e proporcionalidade entre as diferenças apenas apercebidas entre dois
estímulos, e também iniciando a psicologia experimental, estabelecendo uma lei matemática
sobre a relação entre o domínio físico e o psicológico, os quais, para ele, não seriam duas
naturezas, mas uma única natureza composta de duas perspectivas (FERREIRA, 2005).
O Positivismo de Augusto Comte

Inspirado na Mecânica Analítica de Lagrange, Comte propôs a abordagem dos


princípios de cada ciência segundo uma perspectiva histórica: o núcleo de sua filosofia radica
na ideia de que a sociedade só poderia ser reorganizada através de uma reforma intelectual do
homem, por meio do fornecimento aos homens de novos hábitos de pensar de acordo com o
estado das ciências de seu tempo e, para tanto, o sistema comteano estruturou-se em três temas
básicos: uma filosofia da história, com o objetivo de mostrar as razões pelas quais certa maneira
de pensar imperaria sobre os homens, também uma fundamentação e classificação das ciências
baseadas na filosofia positiva, bem como uma sociologia que, determinando a estrutura e os
processos de modificação da sociedade, permitisse a reforma prática das instituições
(COMTE/GIANNOTI, 1983).
A atitude de Comte perante a psicologia se daria, em certa medida, semelhante a de
Kant, bem notou Bodenhafer (1923), por meio da denúncia do método da psicologia da época,
afirmando que a metodologia positivista seria profícua para todos que considerassem o estudo
do intelecto e das funções morais como inseparavelmente conectados com os demais
fenômenos fisiológicos e, portanto, os psicologistas metafísicos estariam excluídos do campo
científico, uma vez que, dentre os metafísicos alemães, o que se encontrava sob o nome de
psicologia seria uma pretensa ciência, completamente independente da fisiologia; contudo,
atentemos para as contribuições importantes de Comte, i.e., a definição do conceito de cérebro
como uma união de órgãos, cada um com sua determinada localização no cérebro, e também a
atitude de ter estabelecido que as funções mentais estariam atreladas a tais órgãos. No entanto,
para Comte, seria improcedente e estéril a tentativa de observação interior, uma vez que o
homem seria capaz apenas de analisar o que lhe é externo e, também, certas funções de seus
órgãos, sendo possível observar determinadas paixões e sentimentos causados pelos órgãos
cerebrais, porém, sendo evidentemente impossível alguém observar seus próprios atos
intelectuais, uma vez que o seriam os mesmos o observador e o observado, ou seja, o intelecto,
condenando, por conseguinte, quaisquer tipos de psicologismos que observem os processos
intelectuais sem estabelecer uma relação com os órgãos cerebrais envolvidos em cada ato.
Comte, tal como Kant, como que desestruturaram os alicerces e as estruturas teóricas
que sustentavam e possibilitavam, em suas épocas, a justificação e desenvolvimento de
psicologias introspectivas: para Comte, ou bem fazemos ciência ou bem estudamos a
experiência, uma vez que o estudo da realidade subjetiva estaria carregado de subjetivismo,
logo, as críticas dele ao método de introspecção, célebres e que produziram fortes efeitos no
campo da psicologia, como se observa no empreendimento behaviorista de estabelecer bases
concretas e científicas para a Psicologia, como medidas mais exatas, com a utilização de uma
unidade mínima de análise e uma terminologia precisa para se referir ao que se denominava
fenômenos psicológicos, tais como o estímulo, a resposta e o ambiente (KASTRUP, 2005).
Como observa Santi (1998), a possibilidade de se conhecer o mundo por meio da razão, para
Comte e também Kant, seria possível desde que o homem se mantivesse dentro dos objetos
tais como lhe são acessíveis, desse modo, o positivismo tem semelhante denominação para
enfatizar seu caráter de concreto, verdadeiro ou útil, oposto às abstrações metafísicas da
tradição filosófica: o homem teria alcançado o auge de seu desenvolvimento com a ciência, por
meio da qual somente poderia compreender o mundo.
A lei dos três estados para explicar a filosofia da história, no pensamento comteano,
identifica três fases da humanidade: o estado teológico, em que a imaginação desempenha o
papel principal na compreensão de um mundo, que pode ser entendido através da ideia de
deuses e espíritos, em um tipo de compreensão absoluta, quando o homem crê ter a total posse
do conhecimento, estado subdivido em períodos, como o fetichismo, o politeísmo e o
monoteísmo, este último que representaria um desenvolvimento para a segunda fase, o estado
metafísico, quando o abstrato substitui o concreto e a imaginação cede lugar à argumentação,
substituindo a vontade divina por ideias ou forças, trazendo luz às contradições inerentes, em
um processo de desenvolvimento para o estado positivo: a subordinação da imaginação e da
argumentação à observação, numa união entre teoria e prática sem que haja uma adesão cega
ao empirismo, mas que os métodos científicos sejam empregados para fugir ao metafísico
(COMTE/GIANNOTI, 1983).
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