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Marcos:

O Evangelho é Urgente!

Douglas Pescadinha Júnior

Rio de Janeiro, primeiro trimestre de 2018.

Pescadinha Jr, Douglas - “Marcos: O Evangelho é Urgente!” - Rio de Janeiro, 2018 – Edição eletrônica do autor.

Este texto é de livre utilização (não comercial), desde que citada a fonte. A licença de utilização está dada no link:

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Introdução:

1 – Para um habitante do Império Romano no século I de nossa era, alguém de

uma pequena cidade às margens do Mediterrâneo ou um pouco mais para o interior, uma cidade de cultura grega – ou melhor, helênica – soaria muito estranha a mensagem que alguns andarilhos que por lá passaram estavam divulgando.

Falava, essa mensagem, de um Deus novo, sui generis, porque assumiu a forma de homem, foi morto como um criminoso mas, contra toda a experiência, contra toda a lógica, contra toda a expectativa, ressuscitou. Com sua morte ele teria redimido todo pecado, toda culpa humana. Com sua ressurreição ele teria vencido a morte, trazendo esperança a esse mundo.

E esse mundo era, decididamente, sem esperança. O Império Romano governava- o à base de ferro: um poderosíssimo exército permanentemente disponível para inibir e sufocar em abundante sangue qualquer tentativa de protesto ou rebelião. E os administradores – governadores, procuradores, etc. – utilizavam amplamente seus cargos em proveito próprio, enriquecendo enormemente à custa de impostos e taxas cada vez mais opressivos que, se não pagos, podiam conduzir os devedores à escravidão ou à morte. Além do saque e pilhagem, pura e simplesmente.

Mas que Deus novo era esse, com essa mensagem estranha, mas tão atrativa, tão cálida? Os andarilhos falavam, apregoavam-no, ficavam algum tempo na cidade. Como saber mais dele?

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2 – Um homem, de nome Marcos (ou João Marcos), propôs-se a contar esta

história. Tenhamos em conta que antes dele não havia nenhum outro livro contando a história de Jesus de forma assim, estruturada. Certamente haviam coleções de ditos de Jesus e talvez até relatos isolados de fatos e atos, como a história da paixão (prisão, morte e ressurreição), ou narrativas de milagres.

Mas Marcos foi o primeiro – e nisso os comentaristas são concordes – a apresentar uma narrativa encadeada, consistente, mas, acima de tudo, anunciadora de uma boa nova (evangelho) de tão grande salvação. Um evangelho não é um livro de história, narrativa factual e cronológica, como o compreendemos hoje. Ele seleciona e agrupa episódios, pois quer passar uma mensagem importante (a mais importante) e vital.

Atente-se ao que diz Lutero:

“portanto, é preciso saber que existe um só evangelho, ainda que tenha sido descrito por muitos apóstolos. Cada uma das epístolas de Paulo e Pedro, além dos Atos dos Apóstolos de Lucas, é um evangelho, mesmo que não relatem todas as obras e palavras de Cristo, mas um livro que as contém de forma mais breve e em número mais reduzido que o outro. Nem sequer entre os quatro evangelhos maiores há algum que inclua todas as palavras e atos de Cristo. Isto tampouco é necessário. “Evangelho” não é nem pode ser outra coisa que um discurso ou um relato acerca de Cristo. O mesmo sucede

também entre os homens: quando alguém escreve um livro sobre um rei ou um príncipe, sobre o que a seu tempo fez, disse ou sofreu, pode fazê-lo de várias maneiras. Um o descreverá extensamente, outro em breves palavras. Do mesmo modo o evangelho não pode ser nem é outra coisa que crônica, relato ou legenda acerca de Cristo, descrevendo quem é, o que fez, disse e sofreu, o que um narrou de forma mais breve, outro de modo mais explícito, um deste modo e outro de maneira diferente. Posto que, em síntese, o evangelho é um discurso acerca de Cristo, anunciando que é o Filho de Deus e se fez homem por nós, morreu e ressuscitou e foi posto como Senhor sobre todas as coisas.”

O objetivo de Marcos, assim como o de todos os demais evangelistas, pode ser expresso com o que João disse em seu Evangelho: "Jesus realizou na presença de seus discípulos muitos outros sinais miraculosos, que não estão registrados neste livro. Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome" (João 20:20-21).

3 – Quem foi Marcos?

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Um judeu provavelmente de Jerusalém, onde sua mãe tinha uma casa (Atos 12:12); primo de Barnabé, o companheiro de Paulo (Colossenses 4:10); pivô da crise que separou os dois (Atos 15:37-39). Reconciliou-se posteriormente com Paulo (II Timóteo 4:11 e Colossenses 4:10-11). E foi acolhido como um filho por Pedro (I Pedro 5:13). Isso é o que a própria Escritura nos diz dele.

A tradição posterior o coloca como “secretário” de Pedro em Roma. Seu Evangelho seria, assim, a síntese das pregações e recordações do apóstolo, refletindo suas ênfases. De permeio, sua própria experiência e história também contribuíram na elaboração de seu livro (é muito provavelmente ele o jovem que fugiu nu, após a prisão de Jesus, detalhe que está somente em seu próprio livro).

Seu livro fez sucesso – não, é claro, nos termos de um best-seller atual – a ponto de ser copiado e divulgado entre os cristãos, entre as igrejas. Lembremos que todo o processo de cópia de textos, nessa época, era manual e, portanto, muito trabalhoso, não havendo nenhum tipo de imprensa. Como foi o mais antigo dos Evangelhos, serviu de fonte, não única nem exclusiva, para os trabalhos semelhantes de Mateus e Lucas.

– x – x –

4 – Não nos preocuparemos aqui com uma interpretação e um comentário exaustivos de Marcos. Outras pessoas já fizeram isso, e certamente melhor. E com mais recursos que os nossos parcos.

Nossa chave de leitura está dada pelo título que escolhemos, "O Evangelho é Urgente!". Procuraremos verificar aqui como Marcos se desincumbiu de sua tarefa, como ele montou seu texto para transmitir aquilo que lhe era vital comunicar.

Também não nos preocuparemos, absolutamente, com as controvérsias da crítica textual, embora possamos, em alguns momentos, ser informados por ela. O texto é o que

temos, sem mais nem menos, consignado nas versões NVI e ARA, nossas preferidas (no caso, o Texto Crítico).

Há que se fazer um esforço de leitura. Como nós já conhecemos o final, como nós já conhecemos os outros evangelhos – e como nós somos informados por uma sistematização teológica milenar – , podemos querer interpretar ou avaliar de um modo mais "completo". Mas temos que levar em conta que os leitores originais de Marcos não tinham as mesmas informações que temos. Nem em quantidade, nem em sistematização.

Um dos princípios a que se alerta, no curso de História, é o de se evitar a anacronicidade no relato e interpretação dos fatos, para tecer a narrativa histórica. Ou seja, não é por saber o que sabemos hoje que podemos julgar as decisões e atos do passado.

Faremos nossa leitura de Marcos tentando não referir as passagens paralelas dos outros evangelistas. A não ser quendo for absolutamente necessário para a compreensão do texto. Para tentarmos apreender um pouco, se possível, o impacto que este livro causou ao ser lido ao surgir, quando ainda não havia o Novo Testamento. Não nos preocuparemos com a harmonização dos relatos dos evangelistas, com a resolução de aparentes contradições entre os textos, etc. Tentaremos ler como se não houvessem outros evangelhos. Tentaremos nos ater ao texto em si, como imaginamos que Marcos o concebeu.

De passagem, observemos que João é o melhor comentarista de Marcos. Este citaremos bastante, pois é mais interpretativo e reflexivo que narrativo, aprofundando nossa compreensão de Jesus.

– x – x –

5 – Intertítulos, aquelas pequenas frases em negrito que delimitam pequenas seções do texto, são um recurso usado pelos editores das Bíblias atuais para tentar facilitar nossa compreensão do texto, pois não só delimitam um grupo de versículos pelo seu assunto, como também tornam mais rápida a localização de trechos específicos.

Mas não foi pensando neles, logicamente, que Marcos escreveu seu texto. O plano de escrita de Marcos compreende um agrupamento temático de passagens, entre ensinamentos, sinais e fatos, que se adequam a demonstrar coisas básicas a respeito de Jesus. É a história interpretada dEle, que Marcos está contando.

Os intertítulos, não custa lembrar, NÃO SÃO PALAVRAS DE DEUS, pois não fazem parte do texto bíblico. Há diferenças de opinião sobre o alcance de alguns temas; eles costumam variar de edição para edição, de versão para versão. Não só em seu tamanho (quantos versículos cada intertítulo abrange), mas também na compreensão/expressão do conteúdo da passagem. Utilizaremos aqui a versão NVI da Bíblia, juntamente com os seus intertítulos.

– x – x –

6 - Classificamos, arbitrariamente, as passagens delimitadas por intertítulos em cinco categorias que refletem, ao nosso ver, as intenções de Marcos, sua estruturação do

texto. São elas:

a) Estava escrito (3 trechos): [1:1-8], [1:9-13], [1:14-20].

b) Sinais (15 trechos):

[1:21-28], [1:29-34], [1:40-45], [2:1-12], [4:35-41], [5:1-20],

[5:21-43], [6:30-44], [6:45-56], [7:24-30], [7:31-37], [8:1-10], [8:22-26], [9:14-32], 10:46-52].

c) Ensino (22 trechos): [4:1-20], [4:21-25], [4:26-29], [4:30-34], [8:14-21], [8:31-9:1],

[9:33-37], [9:38-41], [9:42-50], [10:1-12], [10:13-16], [10:17-31], [10:32-34], [10:35-45], [11:20-26], [12:1-12], [12:18-27], [12:28-34], [12:35-40], [12:41-44], [13:1-31], [13:32-37].

d) Compreensão e auto-compreensão de Jesus (17 trechos): [1:35-39], [2:13-17],

[2:18-22], [2:23-3:6], [3:7-12], [3:13-19], [3:20-30], [3:31-35], [6:1-6], [6:7-13], [6:14-29],

[7:1-23], [8:11-13], [8:27-30], [9:2-13], [11:27-33], [12:13-17].

e) História (15 trechos): [11:1:11], [11:12-19], [14:1-10], [14:11-26], [14:27-31], [14:32-42], [14:43-52], [14:53-65], [14-66-72], [15:1-15], [15:16-20], [15:21-32], [15:33-41], [15:42-47], [16:1-20].

Talvez nem todos concordem com os critérios de nossa categorização, vendo outras ênfases em passagens que apontamos como "ensino" ou "sinais", por exemplo. Mas não nos interessa uma rigidez categórica. Interessa-nos delinearmos as ênfases de Jesus, como vistas e entendidas por Marcos (ou, pelo menos, como nós entendemos que ele entendeu).

O texto se apresenta estruturado claramente com um ponto de inflexão, situado aproximadamente no meio dele, que é a Confissão de Pedro. Ela é central, pois é a partir dela que Jesus "muda" o seu ministério.

Graficamente:

Início (1:1) =====> Confissão de Pedro (8:27-30) ====> Ressurreição (16)

Ele é conciso. Para Marcos, o que Jesus fez antes de seu ministério público parece não ter muita importância (a). Importa o que Ele fez (b), o que Ele ensinou (c), como ele se compreendeu (d), e como Ele nos salvou (e);

Rapidamente verificamos que:

vendo

a

distribuição

dos

trechos

pelas

nossas

categorias,

o ensino (c) se intensifica após o ponto de inflexão (8:27-30), que ocupa um lugar central na distribuição do texto;

a compreensão (d), após o mesmo ponto, já está muito bem estabelecida. A maior

concentração é antes. A auto-compreensão de Jesus é, também, centrada na compreensão dos discípulos. Eles são quem, afinal, têm que compreender quem é Jesus. E depois que eles compreendem (a inflexão), cabe a Jesus ensiná-los profundamente;

sinais (b) também tem mais intensidade antes. São a demonstração “prática” de

quem Jesus é. O ensino é para que eles o entendam corretamente. Pois os de fora não o entendem (seus adversários dizem que é por Belzebu – um demônio – que ele expulsa os demônios).

Marcos também usa o recurso do agrupamento de episódios, construindo verdadeiros arcos temáticos de história. Por exemplo, pela leitura que efetuamos, discernimos um arco, de 1:21 a 3:12, que poderíamos nomear como “Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”. Já outro arco começa em 3:13 e vai até 4:41: “O discipulado dos discípulos”. E assim outros, que referiremos oportunamente.

O Jesus que surge do retrato que Marcos traça é um Jesus consciente, determinado, objetivo, às vezes irado e até mesmo um tanto exasperado com a "patetice" humana. Mas amoroso, misericordioso, resoluto.

Se você se dispôs a ler nossas reflexões, fazemos uma sugestão. Antes de ler cada comentário sobre a seção demarcada pela divisão dos intertítulos, leia a própria seção na sua Bíblia. E não tenha pressa.

– x – x –

7 – Por fim, uma pequena nota sobre a bibliografia utilizada.

Como dissemos, outros escritores fizeram trabalhos mais completos, mais complexos e mais esclarecidos. O que apresentamos aqui é o fruto de nossa meditação sobre o texto, seguindo um viés interpretativo dado pela nossa chave de leitura, neste momento: O Evangelho é urgente! Certamente minha formação em História também interfere no tratamento do relato, enquanto fonte primária que representa.

Logicamente, não construimos no vazio. Ao longo dos anos li muita coisa que – por concordância ou discordância – ajudou a formar minha compreensão. Tentamos ser coerentes com um dos princípios de nossa fé: “sola Scriptura”.

É desnecessário e mesmo impossível ser exaustivo na declaração dos livros que nos esclareceram. Acredito que os mais versados reconhecerão as origens das ideias e conceitos aqui presentes. Mas os livros que foram consultados durante a elaboração de nosso texto ou citados expressamente nele, são:

- Vermès, Geza - "Jesus e o Mundo do Judaísmo" - Ed. Loyola, São Paulo, 1996;

- Mulholland, Dewey M. - "Marcos - Introdução e Comentário" - Série Cultura Bíblica, Ed. Vida Nova, São Paulo, 2005;

- Eusébio de Cesaréia - “História Eclesiástica” - Ed. Paulus, São Paulo, 2000;

- Lutero, Martinho - “O que se deve buscar nos Evangelhos”, in “Obras de Martin Lutero”, volume 6 - La Aurora, Buenos Aires, 1979;

- Sociedade Bíblica do Brasil - “Manual Bíblico SBB” - SBB, Barueri, 2010.

Por intertítulos:

I – 1:1-8 {João Batista prepara o caminho}

O evangelho é, para Marcos, urgente. Mais que urgente: vital.

Por isso ele não se preocupa com introduções, explanações históricas, genealogias. Mateus e Lucas o fazem, mas não por não considerarem a urgência da mensagem. A perspectiva deles é outra, os leitores em mente são outros; não nos cabe esmiuçar aqui.

Sua introdução é simples e direta: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo (o Filho de Deus)”. Conforme a nota da NVI, alguns manuscritos não trazem o conteúdo do parêntese por nós colocado, tornando esta frase ainda mais sucinta.

Antes de Jesus, houve João, o Batista. Os vv. 2-8 são esse relato. Que aqui está, também, porque é necessário explicar o evento logo em seguida, o batismo de Jesus, onde há a declaração solene de Deus sobre seu Filho. Mas não só por isso. É uma forma concisa de mostrar que Jesus se encaixa na tradição: estava escrito. E o ministério de João, o Batista, é um sinal/comprovação disso, como todos os evangelistas o destacam – João, o Evangelista, inclusive ligando João, o Batista, diretamente com o Verbo cósmico (João 1:6-9). Isso é coerente com as palavras de Jesus de que, entre os nascidos de mulher, não houve ninguém maior do que João, o Batista (Mateus 11:11, Lucas 7:28). E a influência de João foi grande. Isso é atestado pelo fato de Paulo encontrar em Éfeso (Atos 19:1-7), décadas depois, indivíduos que receberam apenas o batismo de João (não necessariamente pessoalmente, certamente através de algum discípulo dele que deu continuidade ao trabalho).

II – 1:9-13 {O batismo e a tentação de Jesus}

Em Marcos, o batismo de Jesus não é o início de seu ministério público (o que se dá no trecho seguinte, após a tentação no deserto). O batismo de Jesus é uma cena privada: “Jesus viu o céu se abrindo”. E a voz dos céus se dirige a Ele: “Tu és o meu Filho amado, em ti me agrado”.

Ou seja, é um evento para Jesus, o homem Jesus. Um equivalente ao Getsêmani, só que antes de tudo. Como os chamados proféticos. Vide Isaías 6:1-13, Jeremias 1:4-19, Ezequiel 2:1-3:15.

A brevíssima alusão à tentação no deserto também tem este caráter: uma cena privada, objetivando o homem Jesus. Que já mostra também seu caráter divino, a Segunda Pessoa da Trindade: anjos o serviam.

Aliás, há um equilíbrio e um paralelo entre as duas cenas, esta e a do Getsêmani. Aqui as tentações são externas: Satanás o tentava. Lá a tentação é interna: “Minha alma está profundamente triste”, ele começou a ficar aflito e angustiado.

III

– 1:14-20 {Jesus chama os primeiros discípulos}

Agora sim, após a prisão de João, Jesus se torna público. Não há deste modo, interpenetração de ministérios, de áreas de influência; não há qualquer tipo de coisa a que se possa, nem de longe, atribuir o nome de disputa. João, o Batista, havia dito:

“Depois de mim, vem alguém mais poderoso do que eu” (v.7). E Jesus somente vem, realmente, após o término do ministério público de João.

Jesus começa a proclamar as boas novas de Deus, pela Galiléia. E isso o faz ser conhecido, referido, noticiado: ao chamar seus primeiros discípulos, estes não o questionam – já ouviram, certamente, falar dEle – e o seguem.

Começar pela Galiléia é muito significativo. Começar pelo "Círculo dos Pagãos" (que é a tradução do nome Galiléia): um lugar que o Judaísmo oficial e estabelecido considerava de segunda, quiçá terceira categoria. Um lugar de marginalizados pela religião oficial.

Dos quatro primeiros discípulos chamados, Simão, André, Tiago e João, três se tornaram o “núcleo duro”, os mais achegados, que testemunham grandes coisas (a Transfiguração [9:2]) e de quem Ele espera mais apoio e suporte (o Getsêmani [14:32- 33]). Na lista completa dos doze (3:16-19), seus nomes vem em primeiro lugar: Simão (Pedro), Tiago e João. Sempre nesta ordem.

IV – 1:21-28 {Jesus expulsa um espírito imundo}

O primeiro dos sinais de Jesus, neste livro. Dentro da sinagoga, um lugar santo, onde não se esperaria uma manifestação de Satanás, justamente aí um espírito maligno se contrapõe a Jesus. Talvez haja uma sugestão implícita de que a religião judaica, como se efetivava naquele momento, estava vazia e fraca, pois justamente em uma ocasião solene (a reunião semanal do Sábado), no momento mesmo do ensino, o momento mais sagrado dentro de uma sinagoga, que era a leitura e explanação da Palavra de Deus, o espírito imundo ousa se manifestar.

Jesus não se abala e o expulsa, deixando todos admirados – o que comprova não só a autoridade de Jesus, mas também sua singularidade: o fato de que não era comum essa autoridade entre os responsáveis pela religião: mestres, líderes e demais membros do que muito impropriamente chamaríamos hoje de clero.

Mas outra coisa nos chama mais a atenção: o espírito imundo declara que Jesus é

o “Santo de Deus”. Mas isso não é “ouvido” pelos que testemunham o exorcismo. O exorcismo mesmo é que espanta e causa admiração. O conteúdo bombástico da

declaração do espírito imundo não é levado em conta. Ainda não era a hora (Jesus comanda: “Cale-se”), mas o caráter messiânico de Jesus já está presente desde o início:

a declaração de João, o Batista, a voz dos céus no batismo de Jesus e agora a

declaração do espírito imundo. Vários níveis, diversas e diferentes vozes: Jesus é o “Santo de Deus”, o Messias prometido, o Cristo. Já está na primeira frase do livro, “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo”.

V – 1:29-34 {O poder de Jesus sobre os demônios e as doenças}

Na

imediata

sequência

da

cena

anterior,

o

primeiro

sinal

(poder

sobre

os

demônios), Marcos relata o segundo sinal, poder sobre as doenças.

Jesus, sem nenhum estardalhaço, com um gesto simples – “Tomou-a pela mão e ajudou-a a levantar-se” – providencia a cura para aquela mulher. Que também, com isso, recebe um reforço em sua dignidade, pois pode então exercer aquilo que se esperava de uma mulher de sua condição, naquela sociedade e que estava, por sua doença, e para sua vergonha interior, impedida de fazer: “Ela começou a serví-los”.

E Marcos junta ambos os sinais, quantitativamente, mostrando a grandeza da misericórdia de Jesus: “Curou muitos que sofriam de várias doenças; também expulsou muitos demônios”.

Com a mesma cuidadosa observação anterior. Não é hora ainda de "acirrar as contradições”. Esta hora chegará, mas ainda não é o momento: “Não permitia que estes [os demônios] falassem, porque sabiam quem ele era”. Ainda há um percurso a ser cumprido. E lá chegaremos.

VI – 1:35-39 {Jesus ora num lugar deserto}

Jesus, que poderia dormir sobre os louros de suas vitórias, de seu poder sobre os espíritos imundos, de seu poder sobre as doenças, de sua crescente fama, não o faz. Ele não se orgulha, Ele não se ensoberbece. Contrariamente, sabe muito bem que precisa da comunhão com o Pai. De madrugada levanta-se, vai para um lugar deserto e fica orando.

Orar não é repetir rezas ou palavras, não é desfiar uma lista de pedidos a Deus. Orar é conversar com o Pai. É estar em comunhão com Ele. É falar e, principalmente, ouvir a voz de Deus. Por isso a necessidade de isolar-se dos demais homens – um lugar deserto – para que outras vozes não perturbem esse liame.

Estando em comunhão (constante) com o Pai, Jesus não tem dificuldades com sua identidade e missão. Sabe quem é e para o que veio. Não se confunde com as necessidades – legítimas mas também intermináveis – das pessoas que o procuram.

Pois o homem, por ser limitado (é criatura) sempre tem necessidade de algo. Se atendida essa necessidade, imediatamente surge outra, e mais outra: "Todos estão te procurando”. Quem tenta suprir essas necessidades sem a necessária comunhão com Deus (pois por vezes o trabalho é tanto que nos consome e exaure, não nos deixando tempo para cultivar nossa relação com Deus), acaba caindo num vórtice de angústia inútil, por si e pelos outros. Um poço sem fundo.

Jesus agiu sobre aqueles que lá estavam. Fez o que tinha a fazer ali, naquele momento. Agora é hora de ir a outras partes. Ele tem uma missão. E a discerne claramente.

VII – 1:40-45 {A cura de um leproso}

Um episódio dúbio. Mas não com relação a Jesus. anteriormente, sabia muito bem de si próprio e de sua missão.

Pois Ele, como vimos

O leproso é que é o dúbio nesta cena. O que ele queria? Ficar são? Sim. Mas não só. Queria também poder vangloriar-se de ter sido curado por Jesus, aquele Jesus que já estava famoso. Deste modo poderia "participar" da fama de Jesus, desfrutar olhares e comentários: "Está vendo aquele ali? Foi curado por Jesus!".

Ele se aproxima de Jesus com o que parece ser uma grande expressão de fé e de consciência de quem Jesus era, de seu caráter messiânico e mesmo de seu Senhorio:

"Se quiseres, podes purificar-me!".

Jesus, "cheio de compaixão", não caiu na armadilha. Armadilha de orgulho. O que fez a diferença foi Ele encher-se de compaixão. Compaixão comporta misericórdia. Ele foi misericordioso para com o leproso. Sem deixar de afirmar o seu Senhorio: "Quero". Pura

e simplesmente, curou-o.

advertiu-o, pois já havia discernido seu coração dúbio e enganoso: "não

conte isso a ninguém;

testemunho". Advertiu-o severamente. Se o leproso queria contar isso a alguém, que o

fizesse no local e com a pessoa adequada, conforme ordenara Moisés. Para que o testemunho fosse fiel e eficaz. O cumprimento da lei.

Mas

mas

mostrar-se

ao

sacerdote

(

)

para

que

sirva

de

Porém isso não servia para o ex-leproso, não era suficiente para ele. Faltava "glamour". Portanto, age contrariamente ao recomendado. Ousamos afirmar que não foi apresentar-se ao sacerdote, conforme ordenado por Jesus. Em nome de sua vaidade, desobedeceu ao Senhor.

Mas, apesar das pequenas dificuldades que ocasionou a Jesus, não perturbou sua missão, que continuou mesmo assim.

VIII – 2:1-12 {Jesus cura um paralítico}

Retornando a Cafarnaum, onde todos estavam procurando por Ele, por causa de suas necessidades e mazelas, Jesus prega a palavra. E que palavra é essa? Aquela lá do início: "O tempo é chegado; o Reino de Deus está próximo; arrependam-se e creiam nas boas novas!" (v. 1:15).

Neste momento, acontece algo de interpretação mais sutil. Os homens que trazem

o paralítico empenham-se deveras para chegar a Jesus, que vê a fé que eles, aqueles homens, tinham. Aí dirige-se ao paralítico.

A forma como está consignada esta narração deixa aberta a possibilidade de a fé dos homens ter servido para o paralítico. Certamente este também ansiava pela sua própria cura. Mas é a fé dos seus condutores que Jesus honra. O texto, como está, torna possível esta interpretação.

Em outras passagens de Marcos esta possibilidade é também indicada. Veremos isso nos episódios da ressurreição da filha de Jairo (5:21ss.), da mulher siro-fenícia (7:24ss.) e do menino endemoninhado (9:14ss.). Todos os beneficiários da intervenção de Jesus, nestas passagens, são de alguma forma incapacitados. É a fé dos que intercedem por eles que Jesus honra.

Jesus não se intimida com a oposição. Faz o que tem que fazer, publicamente. E, mais uma vez, causando espanto.

O importantíssimo, nesse caso, é a associação que Jesus faz, de sua ação com a misericórdia de Deus. Ele ainda não afronta diretamente as falsas convicções da época, da associação entre pecado e doença/incapacidade. Mas começa a transcendê-las.

Até o momento em que as derivações religiosas, legalistas e, digamos, moralistas da época serão postas abaixo.

IX – 2:13-17 {O chamado de Levi}

Apesar das palavras do intertítulo, o principal aí relatado não é o chamado de Levi, mas a afirmação de Jesus, no final da seção.

Levi, ou Mateus, um dos evangelistas, era um dos publicanos, ou seja, um coletor de impostos. Malvisto e até odiado pelo povo, mas também pelos mestres da lei e fariseus, que os associavam a procedimentos ímpios, segundo a sua interpretação da lei.

A NVI coloca entre aspas a palavra 'pecadores' (que juntamente com outros publicanos se reuniram na casa de Levi para uma refeição com Jesus), para denotar um sentido especial, de cunho religioso, ao uso que os fariseus e os mestres da lei faziam de tal termo – não simplesmente um uso de cunho moralista.

Ao ser questionado do porquê se assentava à mesa com eles, Jesus responde que não veio para chamar justos, mas pecadores. Este é o tema central desta seção.

Jesus parece ter tomado uma decisão. Ele não tem tempo a perder: o Evangelho é urgente. Simplesmente atender às mazelas dos que o procuravam, curando-os e/ou expulsando demônios Ele não deixará de fazer. Mas isto não basta. É preciso pregar, como também é preciso ensinar. Ele não é apenas um taumaturgo.

Na cena anterior, Ele assume como seu algo que os mestres da lei designavam como exclusividade de Deus; a saber, o perdão dos pecados. Mas nesta cena Ele afirma que os pecadores (sem aspas porque em seu sentido mais amplo) é que precisam ser chamados, não os justos que já se julgam salvos e seguros ao lado de Deus.

Ele, Jesus, está em progressão. Rumo à transcendência total da religiosidade judaica – legalista, moralista, implacável. Cada vez mais enfático, cada vez mais contundente. Isso desaguará na parábola dos lavradores, lá no capítulo 12, que será comentada a seu tempo.

X – 2:18-21 {Jesus é interrogado acerca do jejum}

Na sequência desta progressão, há a declaração explícita de Jesus: vinho novo em vasilha de couro nova. Ele não veio chamar os justos (que julgam não precisar de salvação, pois bastam-se a si mesmos), mas os pecadores. Ele não veio apenas para reafirmar algo que já foi dito. Ele não veio para adequar-se a uma religiosidade esclerosada. Ele veio para anunciar: "O tempo é chegado; o Reino de Deus está próximo; arrependam-se e creiam nas Boas Novas!".

E que novidade é esta? A novidade é que Deus é Amor! Que Deus ama a todos e

quer redimir os pecadores, não destruí-los. A novidade é que "Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a

vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele" (João 3:16-17).

Jesus jamais se adequará ao que os homens fizeram ou fizerem da palavra de Deus, em suas interpretações tacanhas, limitadas e excludentes de todos os dessemelhantes. Jesus sempre será vinho novo. E para o vinho novo, somente odres (vasilhas de couro) novos.

XI – 2:23-3:6 {O Senhor do Sábado}

Coroando o caminho escolhido, Jesus abala um dos pilares da religião de então, a observância do Sábado.

Primeiro, hierarquizando-o da maneira correta: "O Sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do Sábado".

Segundo, colocando-se a si mesmo, explicitamente (ainda que com a circunlocução "Filho do Homem"), como Senhor do Sábado. Portanto, semelhante a Deus

– o que reafirma aquilo que já havia feito antes, no episódio do paralítico, ao perdoar-lhe os pecados.

Terceiro, afrontando diretamente o falso moralismo e a falsa piedade daqueles que codificavam o que era lícito ou não fazer no Sábado, os fariseus: "O que é permitido fazer no Sábado: o bem ou o mal, salvar a vida ou matar?"

Irado e profundamente entristecido – nada a ver com as construções iconográficas

e

cinematográficas do "doce Jesus" – Ele age; intervém; cura.

E

os fariseus começam a conspirar a morte dEle.

XII – 3:7-12 {Jesus é procurado por uma multidão}

A humanidade de Jesus. Ele necessita retirar-se um pouco. Sua fama já está

estabelecida, mesmo apesar de seu confronto com a religião "oficial". Uma celebridade que todos querem tocar, em busca de cura, gerando até pequenos tumultos.

E Jesus controla ciosamente seu próprio ministério. Para que nada ocorra fora de

hora. Ele está, como vimos, cada vez mais se revelando, se afirmando. Mas não permite declarações extemporâneas: "Ele lhes dava [aos espíritos imundos] ordens para que não dissessem quem ele era".

O mesmo termo utilizado para adjetivar a ordem ao leproso: severo. O que confirma a atitude dúbia e inescrupulosa daquele leproso.

Ainda não é hora, para os homens, da declaração definitiva e definidora de si próprio: "Tu és o Filho de Deus". E o único momento em que Jesus o afirma categoricamente, com suas próprias palavras, é o momento em que é condenado perante o Sumo-sacerdote e o Sinédrio: "Sou" (14:62).

XIII – 3:13-19 {A escolha dos doze apóstolos}

Mais um ponto a demonstrar que quem está no controle é Jesus – e só Ele. Fora procurado por uma multidão. Todos queriam ficar perto dEle. Mas Ele "esquiva-se". Retira-se com seus discípulos para o mar.

Mas agora, subiu a um monte e "chamou a si aqueles que ele quis. Escolheu

doze".

E segue-se a lista, com pequenas observações para os três do "núcleo duro", aos quais dá novos nomes: Pedro, para Simão, e Boanerges, para Tiago e João. Assim como Deus fez no Antigo Testamento, ao mudar os nomes de Abrão, de Sarai e de Jacó. Transformando, com isso, seu caráter e personalidade.

A outra observação que há é para Judas Iscariotes, que o traiu.

XIV – 3:20-30 {A acusação contra Jesus}

Novamente a confusão, novamente o tumulto. Satanás, que já o havia tentado no deserto, volta a atacar. Jesus havia expulso demônios. Vários. Isso não iria ficar sem revide.

Por três maneiras Jesus é atacado:

1) Desconforto físico: "novamente reuniu-se ali uma multidão, de modo que ele e os seus discípulos não conseguiam nem comer";

2) Conflito familiar: "Quando seus familiares ouviram falar disso, saíram para trazê- lo à força, pois diziam: 'Ele está fora de si'";

3) Desqualificação pelas autoridades: "E os mestres da lei que haviam descido de Jerusalém diziam: 'Ele está com Belzebu! Pelo príncipe dos demônios é que ele expulsa demônios".

Os três ataques juntos, cerrados, concomitantes. Tanto que Marcos os relata sem pausa: vv. 20, 21 e 22. Esta estratégia Satanás usa ainda. Quando nos sobrevém as tentações e os problemas, eles nunca surjem sozinhos, isolados. A confusão e o barulho são tão grandes, que nos deixam perturbados. O objetivo é um só: a destruição.

Jesus enfrenta os ataques com uma lucidez enorme. Nem perde tempo com seu cansaço ou fome, e deixa a resposta à sua família para depois. Vai ao cerne do problema:

sua desqualificação pelos mestres da lei.

Ao fazer isto, ensina-nos a buscar a mesma lucidez, o mesmo discernimento. Ocuparmo-nos primeiro do que é realmente importante. Dom do Espírito (I Coríntios 12:10c). Do qual Jesus estava cheio. Por isso, não só Ele rebate a acusação, como ainda decreta que "quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão: é culpado de pecado eterno".

Assim, Ele contra-ataca com toda a sua autoridade. Satanás o ouve, os homens não (pois ainda não é chegada a hora dos homens): Eu sou um com o o Pai e o Espírito Santo, Eu sou o Deus Trino.

Anteriormente Ele já havia se identificado com o Pai, ao perdoar pecados, ao renomear os discípulos, etc. Agora emite, como o Pai, um decreto eterno e absoluto. E, como dissemos acima, põe todo o poder e autoridade da Trindade nisso: o Pai, Eu (o Filho) e o Espírito Santo somos um. Ao me desqualificarem dessa forma é ao Deus Trino que vocês desqualificam, na pessoa do Espírito Santo, e – portanto – blasfemam.

XV – 3:31-34 {A mãe e os irmãos de Jesus}

Aniquilado o ataque principal, Jesus trata do segundo ataque, no qual foi utilizada a sua própria família. As aparentemente muito duras palavras dEle têm que ser entendidas neste contexto. Acabara de ser questionado em sua identidade. E um pouco antes seus familiares queriam "trazê-lo à força", por duvidar mesmo de sua sanidade, "pois diziam:

'ele está fora de si'".

E não só isso. Também não tiveram nem a dignidade de chamá-lo pessoalmente – "ficando do lado de fora, mandaram alguém chamá-lo". E não foi por não conseguirem entrar, apesar de haver "muita gente assentada ao seu redor". Senão o mensageiro também não conseguiria entrar e transmitir a mensagem.

Estranharam Jesus. Tornaram-no um estranho. Um de sua própria família, assim discriminado, isolado, tornado um estranho.

É essa estranheza que Jesus rebate, desconhecendo-os: "Quem é minha mãe, e quem são os meus irmãos?". E colocando as coisas em seus devidos lugares: "Quem faz a vontade de Deus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe".

Ele não deixa barato: a obediência a Deus está acima de qualquer laço formal, seja grupal, social ou mesmo familiar. Nenhuma pertença, "automática" ou não (nasci no Brasil, logo, sou brasileiro; nasci em família evangélica, logo, "sou cristão") – pode se sobrepor a Deus: "Amarás o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças" (v. 12:30).

XVI – 4:1-20 {A parábola do semeador}

As multidões insistem em procurar Jesus, mas Ele não as quer sem discernimento.

Ele sara, Ele cura, Ele salva, Ele perdoa. Mas todos os que se aproximarem terão que ser instruídos, discipulados. E mais do que apenas o leite inicial: terá que ser comida sólida.

A citação da palavra duríssima de Isaías, no v. 12, está aí para isso. Não há tempo a perder, o Evangelho é urgente.

À Igreja compete não apenas anunciar o Evangelho. Mas fazer discípulos também. Ensinar e dar alimento sólido, pois crentes fracos, levados de cá para lá por qualquer vento de doutrina, Cristo não quer. Ele não quer multidões manobradas ou manobráveis. Ele não quer uma manada, Ele quer um rebanho. Alimentado, protegido, saudável.

Mas mesmo os discípulos tem dificuldade. E Jesus os repreende: "Vocês não entendem esta parábola? Como, então, compreenderão todas as outras?". Ele, didaticamente, a explica para eles (e para nós, dispensando maiores comentários). Os está preparando para algo maior, que eles ainda não tem a menor noção do que possa ser.

XVII – 4:21-25 {A candeia}

Coerentemente com a atitude e o método de Jesus, Marcos não explica esta parábola. A anterior, do semeador, ele explicou transcrevendo as palavras de Jesus aos seus discípulos (não só aos doze, cf. 4:10).

Mas nesta,

e nas demais em seqüência, deixa

a seus leitores somente a

advertência de Jesus: "Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça!".

Este intertítulo aglutina duas parábolas diferentes, a da candeia (21-23) e a da medida (24-25), complementares entre si. Atentando ao lugar do texto onde elas estão (após a do semeador e antes de duas outras sobre o Reino), considero que ambas referem-se ao próprio Jesus.

Na parábola da candeia, Ele afirma que acendeu uma luz e que não vai escondê- la. Que esta luz revelará tudo o que está oculto e escondido. e que não é bonito, pois "a luz veio ao mundo, mas os homens amaram as trevas, e não a luz, porque as suas obras eram más": "Este é o julgamento" (João 3:19).

Na parábola da medida ele adverte: conforme vocês me julgarem, serão julgados. "Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus" (João 3:17-18).

Duras, mas necessárias palavras. "Considerem atentamente o que vocês estão ouvindo".

XVIII – 4:26-29 {A parábola da semente}

Jesus já nos deu uma pista, na parábola do semeador, sobre o que ele simboliza por semente – por lançar a semente: a palavra (de Deus). Eco possível de Isaías 55:10- 11, que diz que a palavra que sai da boca de Deus não volta para Ele vazia. Antes, fará o que Ele deseja – a semente germina e cresce, produzindo o grão que será colhido.

Apesar do homem: "embora ele não saiba como".

Assim o Reino de Deus.

XIX – 4:30-34 {A parábola do grão de mostarda}

Por semelhante modo, a parábola do grão de mostarda aponta na mesma direção. Novamente a semente – a palavra – que parece fraca e insignificante, não volta para Deus vazia, sem ter feito aquilo para o que foi emitida.

Jesus ensinava a todos, "tanto quanto podiam receber". Mas concentrava-se, resolutamente, em seus discípulos, a quem urge esclarecer, ensinar. Neste ponto ainda:

anunciar, mais do que ensinar.

XX – 4:35-41 {Jesus acalma a tempestade}

O intertítulo deveria ser: Jesus provoca uma tempestade.

Os discípulos ainda não têm a noção clara de quem Jesus é. Eles o intuem ou percebem algo ainda vagamente. Na hora do problema, acordam Jesus, apelando para Ele: "Não te importas que morramos?".

Jesus acalma uma tempestade, mas provoca outra: "Por que vocês estão com tanto medo? Ainda não têm fé?". Eles estavam apavorados e perguntavam uns aos outros: "Quem é esse que até o vento e o mar lhe obedecem?".

Mais que

nunca, urge anunciar. Jesus o faz,

com este

e

outros sinais. A

compreensão virá, mas ainda é o tempo, para os discípulos, de confusão.

Marcos, aqui, fecha mais um ciclo, ao mesmo tempo que abre outro. O ciclo que demonstra a necessidade de os discípulos aprenderem – e logo! – sobre Jesus. Como havia feito com a progressão da auto-afirmação de Jesus (da Cura do Paralítico, no capítulo 2, até o episódio do Senhor do Sábado), ele agrupa os episódios para dar essa noção de urgência.

XXI – 5:1-20 {A cura de um endemoninhado}

Aparentemente, apenas mais um dos muitos episódios de expulsão de demônios, efetuado por Jesus. Nada demais.

Mas o que faz o diferencial nesta cena é a reação do povo do lugar a Jesus: "Então o povo começou a suplicar a Jesus que saísse do território deles". Isso combina com a tempestade que Jesus provocou nos discípulos, na cena anterior, quando eles ficaram apavorados.

Como lidar com Jesus? Como lidar com esse homem que vem mexer com as coisas com as quais, mesmo que ruins ou tristes, estávamos acostumados? Como lidar com essa pessoa incômoda que nos mostra que as coisas poderiam ser diferentes – e melhores – do que são, do que aceitávamos passivamente? Que nos mostra que mesmo numa situação complicadíssima de possessão demoníaca é possível exercer misericórdia

e salvar – e não só salvar, mas também recuperar a dignidade espezinhada daquele homem que havia sido abandonado pelos seus? Pois quando o povo chegou, encontraram-no "assentado, vestido e em perfeito juízo". Isso, que deveria ser uma benção, causou medo!

Saia daqui, Jesus!

Jesus calmamente retira-se. Mas ainda exerce mais um ato de misericórdia. Devolve aquele homem à sua família (e, de passagem, "casualmente", identificando-se como Deus: "anuncie-lhes quanto o Senhor [isto é, Eu] fez por você". E ele transborda de gratidão e alegria: "então, aquele homem se foi e começou a anunciar em Decápolis o quanto Jesus tinha feito por ele".

XXII – 5:21-43 {O poder Jesus sobre a doença e a morte}

Aqui temos dois episódios entrelaçados, tanto que na versão ARA há uma maior separação por intertítulos, estancando-os. A NVI os abarca conjuntamente. O tema é fé. Qualidade de fé e fé apesar das circunstâncias.

No caso da mulher que sofria de hemorragia, o que Jesus cobra dela é a qualidade de sua fé. Jesus não é um taumaturgo, um operador de milagres, muito menos um mago. A fé que nEle temos não deve ser pelo que Ele pode fazer por nós, seja prosperidade, sejam curas, sejam intervenções miraculosas. Muitas vezes ficamos esperando, como se fosse de nosso direito, uma intervenção mágica de Deus, para resolver os nossos problemas, de qualquer ordem que sejam.

O milagre ocorre, mas Jesus quer a plena consciência do que aconteceu. Não foi apenas por que Ele é bom, não foi apenas porque Ele é poderoso – tão poderoso que seu poder extravasa, transborda "automaticamente", como se fosse magia (é essa a concepção que muitos têm).

Ele escrutina em volta. A mulher contrange-se e, mesmo "tremendo de medo, contou-lhe toda a verdade". Aí sim, a misericórdia se manifesta plenamente: "Filha, a sua fé a curou! Vá em paz e fique livre do seu sofrimento". A cura do corpo, a cura do espírito.

Já no caso da filha de Jairo, o que é enfatizado é manter-se a fé, perseverar, apesar das circunstâncias.

Jairo implora a Jesus. Este vai com ele. Parece que tudo vai se resolver. No entrementes, a menina morre. Todos tentam dissuadir Jairo: “Não precisa mais incomodar o Mestre!".

Jesus é taxativo: "Não tenha medo; tão somente creia". Reforça a fé de Jairo. Acompanha-se apenas de seus três mais chegados, Pedro, Tiago e João. Com isso já sinaliza que algo importante vai acontecer.

Nova tentativa de dissuassão: ao chegar na casa e afirmar que a criança apenas dorme, os que estavam lá para as lamentações – falsas porque apenas formais, devidas a um homem importante do local, dirigente da sinagoga – os que estavam lá chorando começam a rir. É o deboche.

Jesus cerca-se de cuidados, pois não atirará pérolas aos porcos. Aquele ato que realizará em privado interessa apenas aos pais da criança e a ela própria, é claro.

A misericórdia, como no caso da mulher da hemorragia, é completa, revelando-se nos detalhes: "deu ordens expressas para que não dissessem nada a ninguém [preservando a garota de curiosos e mesmo de seus opositores – lemos em João 12:10 que houve planos de se matar Lázaro, outro ressuscitado por Jesus] e mandou que dessem a ela alguma coisa para comer".

Jesus está indicando um novo patamar em seu ministério. Não quer apenas ser reconhecido como operador de milagres. Pois Ele não é isso. Ele é o Filho do Deus Vivo.

XXIII – 6:1-6a {Um profeta sem honra}

Quem é Jesus? O coração humano quer classificá-lo, categorizá-lo, definí-lo com aquilo que já conhece, com aquilo a que já está acostumado. Havendo um fiapo de possibilidade de circunscrever Jesus àquilo que já sabemos ou que já conhecemos, nós o fazemos. "Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? Não estão aqui conosco as suas irmãs?"

Mas Jesus é radicalmente outro, radicalmente novo. Aquele que coloca vinho novo em odres novos. Há somente duas reações possíveis perante Jesus. Aceitá-lo ou rechaçá-lo. "E ficavam escandalizados por causa dele".

"Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus" (João 1:11-12).

Jesus está mostrando – e Marcos no-lo transmite neste arco – que Ele quer mais acurácia na compreensão dos homens de quem Ele seja. Não um operador de milagres, não um mágico, não um superstar religioso. Mas pura e simplesmente (se isso pode ser simples), o Filho de Deus.

XXIV – 6:6b-13 {Jesus envia os doze}

Continuando a "discipular os discípulos", Jesus dá mais um passo. Outorga-lhes autoridade para realizarem sinais semelhantes aos seus. Sua didática é atrativa; dá instruções rígidas, mas delega a eles o fazer. Com isso ele neutraliza aquele pavor – por não entendê-lo, lá no barco com a tempestade – expresso pelos seus discípulos.

Jesus os está preparando para o que eles ainda não sabem, nem perceberam

direito.

XXV – 6:14-29 {João Batista é decapitado}

Essa pequena digressão de Marcos parece isolada de qualquer linha expositiva ou interpretativa da história que ele está contando. Pois não é um ensino ou um sinal de Jesus, nem algo que lhe ocorreu.

Mas, na verdade, encaixa-se perfeitamente com o tema que Marcos vem tratando nesse arco: quem é Jesus?

O estudioso Geza Vermès nos alerta que na Galiléia, em torno do tempo de Jesus,

haviam muitos operadores de milagres e exorcistas. O que Marcos faz, neste arco, é proclamar: Jesus não é apenas mais um destes; Jesus não é Elias; Jesus não é um dos antigos profetas ressuscitado; Jesus não é João Batista, que está morto, bem morto (como esta seção o narra). Jesus é o Filho do Deus Vivo, o Cristo escolhido e enviado para a remissão dos pecados e salvação. Como já está na primeira linha do livro:

"Princípio do evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus".

Esta seção é mais uma afirmação indireta da singularidade e, portanto, da identidade de Jesus. Ao mesmo tempo, esta seção começa a preparar a declaração explícita e central, que ocorrerá na Confissão de Pedro, que veremos no momento adequado. O ponto de inflexão do ministério de Jesus.

XXVI – 6:30-44 {A primeira multiplicação dos pães}

Os apóstolos (primeira vez que assim são chamados – antes eram "os Doze") voltam e prestam relatório a Jesus. O que era para ser um encontro privado, torna-se impossível, pois "havia muita gente indo e vindo".

Jesus propõe retirarem-se para um lugar mais calmo, na verdade um lugar deserto. Onde eles poderiam conversar e descansar. Isso se mostra inexequível, mais uma vez, pois a multidão os acompanha. Jesus quer aprimorar o ensino a seus apóstolos, quer tornar mais clara a sua identidade perante todos.

Mas a compaixão predomina, "porque eram como ovelhas sem pastor". Sem cuidados, sem ninguém para cuidar deles, para orientá-los pelas sendas corretas.

A compaixão o move. Ministra-lhes o ensino, ministra-lhes também o pão (e os

peixes). A dádiva do céu providencia até mais do que o homem precisa, mesmo que ele não saiba disso: "e os discípulos recolheram doze cestos cheios de pedaçõs de pão e de peixe", que excederam a necessidade imediata dos que ali estavam, cinco mil homens.

XXVII – 6:45-56 {Jesus anda sobre as águas}

Novamente vemos Jesus querendo "um pouco de privacidade", ou seja, precisando estar a sós com o Pai. Tanto que não só despede a multidão, como também insiste que os discípulos vão adiante dEle.

Pois vemos que tanto os discípulos quanto as multidões são recalcitrantes em suas atitudes. Os discípulos ainda tinham o coração endurecido (v. 52) e as multidões o procuram "utilitariamente" (e, mesmo assim, Ele não se nega, por sua compaixão, a atendê-las). Mas Jesus quer mais, precisa de mais. Sobe a um monte para orar.

"Coragem! Sou eu! Não tenham medo!". Jesus vai centrar-se em seus discípulos. Está chegando a hora.

XXVIII – 7:1-23 {Jesus e a tradição judaica}

Jesus parte para o ataque – frontal – à religiosidade de sua época. Aos fardos impostos sobre todos, por aqueles que se consideravam mestres da lei, bem como à "seita" mais rigorosa de então, os fariseus: "Vocês anulam a palavra de Deus, por meio da tradição que vocês mesmos transmitiram".

E a dura palavra: "Hipócritas!". Ele não aceita ser tratado apenas como um judeu

marginal, alguém que veio da Galiléia, donde nada de bom pode vir. Ele mostra sua autoridade sobre os que se consideravam guardiães e promotores da verdadeira e pura religião, desmascarando-os.

E a seus discípulos, um tanto exasperado: "Será que vocês também não conseguem entender?" O coração deles, como vimos na cena anterior, estava endurecido. Jesus chama-os à responsabilidade, chama-os à ordem, quer ensiná-los – e o faz, com muita clareza – quer quebrantá-los.

XXIX – 7:24-30 {Uma mulher siro-fenícia demonstra fé}

Mais uma vez, o Jesus que Marcos nos transmite mostra seu lado humano. Aliás, verificamos que a cada vez que há um enfrentamento direto com os fariseus e os mestres da lei, como na cena anterior, Jesus fica meio alterado. Como Deus declara, em Isaías 1:10-17, trecho longo do qual destacamos: "Quando vocês vêm à minha presença, quem lhes pediu que puséssem os pés em meus átrios? Suas festas, não as suporto mais! Lavem-se! Limpem-se!". A mesma exasperação.

Ele isola-se para longe das multidões, saindo inclusive da Galiléia, indo para "os arredores de Tiro e Sidom", na Fenícia. "E não queria que ninguém o soubesse".

No entanto, uma mulher de lá, gentia, soube da presença de Jesus ali e não quis, de modo algum, deixar passar a oportunidade. Jesus a recebe e – mesmo com todo "azedume" – a atende, dando testemunho da firmeza da fé daquela mulher: "Por causa desta resposta (

Revigorado por essa fé, vinda de onde não se esperaria vir, Ele já pode voltar para o curso normal de seu ministério.

XXX – 7:31-37 {A cura de um surdo e gago}

Jesus é adequado a qualquer situação humana. Ou, de outra forma, Jesus adequa- se a qualquer situação humana, para a salvação, pois a iniciativa de buscar o pecador para salvá-lo é dEle. "Nós o amamos porque ele nos amou primeiro" (I João 4:19).

Jesus, aqui, demonstra sua misericórdia e compaixão não apenas pela cura em si. Mas por fazê-la de um modo que o surdo e gago compreendesse claramente o que Ele estava operando naquele momento. Não há nenhum gesto mágico aqui, muito menos qualquer palavra "poderosa" que tenha efeito por si própria.

Jesus toca os ouvidos e a língua do homem, como a dizer: "prepare-se, entenda o que vai acontecer agora, com seus ouvidos e língua – Eu o estou curando". E é uma relação pessoal. Ele, Jesus, não quer nenhuma publicidade, porque o que Ele quer, neste momento, é a compreensão, por parte de todos – especialmente dos seus discípulos – do que realmente estava acontecendo, de quem realmente Ele é.

Mas é quase impossível deter o burburinho.

XXXI – 8:1-10 {A segunda multiplicação dos pães}

Alguns comentaristas alegam que este episódio seria apenas uma duplicação do primeiro, no capítulo 6. Mas além de serem outros números – cinco mil homens lá, quatro mil aqui; cinco pães lá, sete aqui; etc. – Jesus, mais adiante refere, em sua argumentação, os dois episódios. O que não faria sentido, caso Marcos apenas tivesse

feito dois relatos da mesma coisa.

Mas o importante aqui, novamente, é o registro da compaixão de Jesus. Na primeira multiplicação, o momento em que a compaixão se expressa leva Jesus a ensinar às ovelhas sem pastor – o alimento físico vem depois. Aqui, o momento em que a compaixão se expressa leva Jesus a alimentar primeiramente a multidão com pães e peixes.

Se "nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Mateus 4:4), Jesus – neste momento – inverte a ordem: "nem só da palavra, mas também do pão". É necessário alimentar o homem com ambos. O que, muitas vezes, é esquecido.

XXXII – 8:11-13 {Os fariseus pedem um sinal}

Um suspiro profundo. O cerne do sentimento de Jesus. Como a dizer: "vocês têm olhos mas não vêem? Tem ouvidos mas não ouvem?". Os sinais, Jesus já os vem fazendo. O povo o via e "ficava simplesmente maravilhado e dizia: Ele faz tudo muito bem" (7:37).

Jesus não tem que comprovar para ninguém, especialmente para quem se acha uma autoridade religiosa, o seu poder, a sua origem. Ele não se coloca sob o jugo de ninguém, Pois Ele – e somente Ele – é o Senhor.

XXXIII – 8:14-21 {O fermento dos fariseus e de Herodes}

Refletindo sobre a situação, Jesus adverte seus discípulos: "Estejam atentos e tenham cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes".

A referência aos fariseus é clara e lógica. Ele acabara de se confrontar com eles, que subrepticiamente queriam cooptá-Lo: dê-nos um sinal e, com isso, mostre sua submissão a nós, à religião oficial que nós, os mais puros, representamos.

Os sinais de Jesus são fruto de sua compaixão, jamais fruto de uma exibição gratuita de poder.

Mas a referência a Herodes não é tão simples. Temos que lê-la melhor. Somente em dois trechos anteriores, neste mesmo texto, Herodes é mencionado. No primeiro, quando os fariseus conspiram com os herodianos sobre como matar Jesus (3:6). No segundo, o próprio Herodes é referido, como assassino de João Batista por motivo fútil, como seria enquadrado em nossas leis hoje (6:14-29). Ou seja, em ambas as citações Herodes está ligado à morte, ao assassínio.

Jesus adverte, assim, contra estes dois poderes que, frequentemente, se associam para tentar contê-Lo. Mas isso passa batido pelos discípulos que, apatetadamente, passam a discutir sobre não terem levado pão para a travessia.

É demais para Jesus: "Vocês ainda não entendem?". Ele repreende, adverte, puxa pela memória, força os discípulos: "Vocês ainda não entendem?". "Eu sou o pão da vida – vocês me viram, mas ainda não crêem" (João 6:35-36).

XXXIV – 8:22-25 {A cura de um cego em Betsaida}

agindo.

Um

episódio

que

Marcos

usa

para

demonstrar

como

Jesus

está

Aparentemente Jesus não tem sucesso na primeira tentativa, tendo que "reforçar" a ação para efetivar a cura.

Mas não é nada disso. Há um detalhe precioso que explica tudo: "algumas pessoas trouxeram um cego a Jesus, suplicando-lhe que tocasse nele". A aproximação a Jesus é a aproximação a um fazedor de milagres: "toque nele".

Vimos, com a mulher da hemorragia (5:25-34), que Jesus já não admite mais este tipo de aproximação simplória. Ele quer mais. Ele provoca as pessoas para que dêem mais de si. Assim como tem intimado a seus discípulos: "Vocês ainda não entendem?".

E também o texto, ao contrário do caso do paralítico levado a Jesus (2:1-12), não

deixa entrever que o próprio cego tenha solicitado algo. As pessoas que o levaram, a exemplo dos fariseus, também queriam um sinal.

Por isso, a primeira providência de Jesus, que não se recusa à misericórdia e à compaixão, é retirar o cego dali. Isolá-lo dos circunstantes que queriam apenas um show. Ele toma o cego pela mão. Se um toque apenas bastasse – um toque "mágico" – isso já seria o suficiente. Mas Jesus quer mais.

Primeiro Ele faz um gestual estranho, cuspindo nos olhos do cego e impondo-lhe as mãos: "é isso que voce quer? Eu quero que você queira mais. Minha relação é com você". Com isso, Ele completa a cura (Ele agiu de forma semelhante com o surdo e gago; adequou-se à situação daquela pessoa, mas quis mais).

E, novamente, mostra que não aceita o que as pessoas querem fazer dEle. Manda o ex-cego para casa, "dizendo: 'Não entre no povoado!'" – e nem conte nada a ninguém, conforme alguns manuscritos acrescentam.

Este episódio é uma maravilha de resumo de tudo quanto Marcos tem relatado até aqui. É um episódio de conexão com a segunda parte no ministério de Jesus, que será relatado adiante. O próximo episódio é o centro do Evangelho de Marcos. Aquilo que ele tem a dizer de urgente, de precioso, de vital.

XXXV – 8:27-30 {A confissão de Pedro}

Marcos é direto, simples, curto, essencial. "Quem vocês dizem que eu [Jesus] sou?". E Pedro responde: "Tu és o Cristo". Esse é o início, o centro e o final da preocupação de Marcos: Jesus é o ungido, o Messias, o Cristo. Não é um convencimento moral ou intelectual. É uma declaração de fé. Houve toda uma preparação para esse momento. Ensino e provocação de Jesus. "Cinjam os seus lombos! Aprumem-se!". O Evangelho é urgente!.

Jesus aqui atinge seu primeiro objetivo: os discípulos agora sabem claramente quem Ele é. Agora eles entendem e crêem. Mas precisam refinar melhor esse entendimento e crença.

Começa, então, a segunda parte do ministério de Jesus, na visão de Marcos.

XXXVI – 8:31-9:1 {Jesus prediz sua morte e ressurreição}

A partir de agora, Jesus passa a ensinar mais intensivamente aos seus discípulos.

E a falar claramente sobre sua morte e ressurreição. Na classificação de trechos/intertítulos que fizemos, verificamos que a grande concentração de passagens

dedicadas ao ensino se dá a partir daqui.

Não nos deve surpreender a intervenção de Pedro e a reação firme de Jesus (prova mais que suficiente, segundo praticamente todos os comentaristas, da historicidade e da autenticidade desta passagem). Pois justamente nos momentos em que nos julgamos mais espirituais (e imunes) Satanás está ali para nos perturbar.

O que deve nos impressionar é a lucidez de Jesus. Pois Ele discerne

cristalinamente o ponto do ataque: "Para trás de mim, Satanás! Você não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens".

Qual a preocupação de Pedro:? Ele acabou de dizer que crê que Jesus é o Cristo. Mas o que é, para ele, ser Jesus o Cristo? É ainda o Messias triunfante, aquele que "vai restaurar o reino a Israel" (Atos 1:6, após a ressurreição). O governante de todas as nações, que vai quebrá-las com vara de ferro, e despedaçá-las como a um vaso de oleiro (Salmo 2:9). Compreende isso literalmente, mas limitadamente: poder político.

Por isso Jesus chama a todos e ensina que o que Ele está fazendo vai além e acima de toda expectativa humana, imediata ou não. E que isso exige renúncia – renúncia de qualquer expectativa, de qualquer projeto, de qualquer "agenda secreta". Jesus exige submissão total. Ele – e somente Ele – é o Senhor.

XXXVII – 9:2-13 {A transfiguração}

A afirmação implícita de Jesus é confirmada por Deus, o Pai. A transfiguração de Jesus mostra, a seus discípulos mais chegados (Pedro, Tiago e João), sem sombra de dúvida, quem Jesus é. E se houvesse qualquer resquício de incompreensão, a voz que sai da nuvem a dissipa: Elias e Moisés vocês identificaram, mas "este é o meu Filho amado. Ouçam-no".

Ainda terão que compreender melhor como Jesus exercerá o final de seu ministério terreno, mas Ele mesmo está providenciando o aprofundamento de sua compreensão.

De uma forma semelhante à anterior: ensinando-os, provocando-os, instigando-os.

Jesus não quer dar tudo pronto para eles; quer mais deles. É o sentido da resposta oblíqua de Jesus à pergunta simples que eles fizeram: "O que Eu quis dizer com isso? Pensem, reflitam, creiam".

XXXVIII – 9:14-32 {A cura de um menino endemoninhado}

Jesus havia dito: "Para trás de mim, Satanás! Você não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens". E esta é a atuação mais comezinha de Satanás. Ele insere-se em nossos pensamentos, em nossa vontade natural – já pecaminosa – para nos desviar ainda mais de Deus.

A tentação de Eva não foi por nada escabroso, fantástico ou assustador. Foi por um oferecimento a seu ego: "Deus sabe que, no dia em que dele [do fruto] comerem, seus olhos se abrirão, e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal". Associado a uma mentira: "Certamente não morrerão!" (Gênesis 3:4-5).

O próprio Pedro acaba discernindo isso, demonstrando-o mais tarde, no episódio

de Ananias e Safira (Atos 5:1-10). Ele diz para Ananias: "Como você permitiu que

Satanás enchesse o seu coração ( Ananias não estava se retorcendo ou falando

)?".

com voz alterada. Ao contrário, estava levando uma "oferta" a Deus. Mas estava

endemoninhado "ao ponto de mentir ao Espírito Santo".

Mas aqui, para que não nos esqueçamos da maldade crua de Satanás, temos os sintomas claros de uma possessão, cujo objetivo é a destruição do possesso e a angústia (e consequente destruição) dos que dele em volta estão – familiares, vizinhos, conhecidos.

A angústia do pai do menino é tanta, que mesmo sabendo que é Jesus quem está

ali – aquele Jesus das notícias, do burburinho, do maravilhamento das pessoas – ele fraqueja.

Mas Jesus vai em seu auxílio, através de uma palavra aparentemente de repreensão, mas na verdade de estímulo. Ele o sacode, o põe em pé. É um equivalente a um "Não temas!" – novamente, adequado àquela situação. E a resposta daquele pai é pronta, e precisa: Sacudido por Jesus ele se reconhece, ele clama por sua incapacidade e por seu filho: "Creio, ajuda-me a vencer a minha incredulidade!".

Após a cura, ao responder a seus discípulos, Jesus continua advertindo: "Isso é muito sério, com isso não se brinca, isso não é um show". "Essa espécie só sai pela oração e pelo jejum".

E volta ao seu foco, do qual fora tentado a ser desviado por esse parêntese (aliás,

Ele também discerniu esta estratégia de perturbação – "Ó geração incrédula, até quando estarei com vocês? Até quando terei que suportá-los?"). E – anotemos também – este parêntese Ele transforma em um sinal de sua compaixão, em um sinal da glória de Deus. Não permite qualquer sombra de vitória de Satanás – nem na vida do menino, nem na vida de seu pai, nem na sua missão.

Ele volta a ensiná-los: "O Filho do homem está para ser entregue nas mãos dos homens. Eles o matarão, e três dias depois ele ressuscitará".

Foco.

XXXIX – 9:33-37 {Quem é o maior?}

Não só sobre a sua morte e ressurreição Jesus ensina. Agora passa a explicitar a ética do Reino dos Céus. Falando assim, fica parecendo ser Jesus apenas mais um mestre que passa ensinamentos edificantes a seus discípulos. Normas de conduta de vida. E muitos o querem ver assim.

Mas não é nada disso. A primeira diferença entre Jesus e os demais "mestres" é a sua radicalidade. Para Ele, nada é "mais ou menos". "Quem quiser ser o primeiro, será o último, e servo de todos". Essa radicalidade será mais desenvolvida adiante.

A segunda diferença é seu caráter de integração com o Pai. Seu ensino não vem

apenas de si próprio. Não é algo que Ele construiu por observação e meditação mística.

"Quem me vê, vê o Pai (

)

as palavras que eu lhes digo não são apenas minhas. Ao

contrário, o Pai, que vive em mim, está realizando a sua obra" (João 14:9-11). "Nada faço de mim mesmo, mas falo exatamente o que o Pai me ensinou" (João 8:28).

Uma terceira diferença do ensino de Jesus é que este requer compromisso. Não é como um discípulo de um filósofo, que escolhe ou não seguir seu mestre, à maneira de Aristóteles e Platão. "Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos". "Aquele que não me ama não obedece às minhas palavras. Estas palavras que vocês estão

ouvindo não são minhas; são de meu Pai, que me enviou" (João 14:15 e 24).

XL – 9:38-41 {Quem não é contra nós é por nós}

Outro aspecto da "ética" do Reino, que Jesus ensina, é o de não recusar a misericórdia e a compaixão, em nome de Jesus, venha ela de onde vier. "Quem não é contra nós, está a nosso favor".

O ensino de Jesus sobre tolerância é um ensino difícil de suportar, pois não se

adequa ao que o mundo declara que a tolerância é. Observemos os matizes: "vimos um homem expulsando demônios em teu nome". "Quem lhes der um copo de água em meu

nome, por vocês pertencerem a Cristo".

A tolerância, conforme o mundo prega, é aceitar tudo e todos de qualquer jeito, de qualquer maneira. É conviver "harmonicamente" e "em paz" com todos. Sem referencial ético, sem certo ou errado.

Paulo alerta: "Façam todo o possível para viver em paz com todos", "mas não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação de sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Romanos 12: 18 e 2).

) e

Interessante é que Jesus inverte a perspectiva. João diz "vimos um homem (

procuramos impedí-lo". Jesus replica: "Não o impeçam". Parece que tudo tem a ver com algo para fora, os discípulos (e a Igreja) controlando tudo. Mas a conclusão final de Jesus

é: "Quem lhes der ( recompensa".

A tolerância do mundo, para com a Igreja, não no sentido de "deixe eles fazerem o que querem", mas expressa em misericórdia ("um copo de água em meu nome"), em uma atitude, mesmo que vaga, de temor a Deus, essa é a que será recompensada.

Quem tem que ser tolerante é o perverso mundo, que persegue a Igreja. À Igreja, cabe evangelizá-lo, anunciar o Reino – se possível, tendo paz com todos. Mas sendo fiel a seu radical Senhor: "Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem

dele (

XLI – 9:42-50 {A indução ao pecado}

Jesus é radical. Ele não admite o mais ou menos – "porque você é morno, não é frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo de minha boca" (Apocalipse 3:16).

Se seus discípulos obedecerem-no – "Se alguém me ama, obedecerá à minha palavra. Meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos morada nele" (João 14:23) – serão salgados com fogo. Na continuação da passagem agora citada de João, Jesus promete o Conselheiro, o Espírito Santo. "Tenham sal em vocês mesmos e vivam em paz uns com os outros" – um dos frutos do Espírito é, justamente, a paz (Gálatas 5:22).

)

por vocês pertencerem a Cristo, de modo nenhum perderá a sua

)

O mundo os odeia" (João 15:19).

O processo de santificação, alentado e desejado pelo Pai, também depende da

decisão do homem.

XLII – 10:1-12 {A questão do divórcio}

Jesus realmente é radical. Em Marcos, mais ainda (Mateus registra algumas

palavras de Jesus que amenizam um pouco esta passagem, mas Marcos não as registra).

O que Jesus quer é que o casal respeite-se mutuamente, honre-se mutuamente, dialogue, perdoe-se, suporte-se mutuamente. Um relacionamento deste tipo não é algo leviano, que se barganhe. Pelo contrário, deve-se investir tudo o que se tem, deve-se insistir nele além da conta.

"O que Deus uniu, ninguém o separe" – nem os próprios cônjuges.

XLIII – 10:13-16 {Jesus e as crianças}

Essa passagem, ao contrário do que é a prática corrente de muitos no mundo (e cada vez mais na Igreja também), não significa deixar as crianças por si próprias, soltas, sem educação ou disciplina. O mundo lê educação (no sentido familiar, não escolar) e disciplina como repressão.

"Ensina a criança no caminho em que deve andar e, ainda quando for velho, não se desviará dele" (Provérbios 22:6). Isso compete aos pais. E, depois, compete à Igreja.

Jesus não está abonando atitudes de tolerância iníqua para com as crianças. Iníqua, porque a falta de disciplina as destrói. Jesus está ensinando que seus discípulos devem ser semelhantes a crianças: espontâneas, alegres, simples, confiantes.

XLIV – 10:17-31 {O jovem rico}

Neste episódio, Jesus primeiramente trata de uma questão de autoridade. Quando o homem o consulta, Jesus o interpela: "Somente Deus é bom; você me chamou de bom – isso significa que você me reconhece como o Filho de Deus?"

Depois, cita – com uma pequena alteração – os mandamentos da "segunda tábua", que tratam dos relacionamentos inter-humanos. A todos esses, o homem afirma que os atende. E foi sincero, pois "Jesus olhou para ele e o amou".

Mas sendo, efetivamente, o Filho de Deus e não aceitando em sua radicalidade, em sua santidade, o "mais ou menos", confronta-o também com a "primeira tábua": "Não terás outros deuses além de mim" (Deuteronômio 5:7), ou, conforme a shemá, "Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças" (Deuteronômio 6:5).

Implicitamente reconhecendo a autoridade reivindicada por Jesus, o homem não conseguiu responder positivamente a isso: "ficou abatido e afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas". E as colocou acima de Deus.

De passagem, Jesus ensina/corrige seus discípulos sobre a chamada teologia das retribuições. E, para os nossos dias, aproveitamos tal ensinamento para confrontarmos, também, a teologia da prosperidade: bençãos materiais não são, necessariamente, sinais de salvação e, sequer, sinais de aprovação de Deus. Colocá-las, as bençãos materiais, assim, como sinais necessários da aprovação de Deus e da salvação, é fazer como este homem: colocá-las acima de Deus. É não atender ao maior dos mandamentos.

Jesus reforça o que já havia dito, quando os Doze bobamente estavam discutindo sobre quem deles seria o maior: "muitos primeiros serão últimos, e os últimos serão primeiros".

XLV – 10:32-34 {Jesus prediz novamente sua morte e ressurreição}

Essa série de declarações prévias e ensinos de Jesus, mais um arco da história contada por Marcos e que vimos caracterizar-se por sua radicalidade são, no seu todo, como que um comentário e uma explanação de Levítico 11:44: "Pois eu sou o Senhor, o Deus de vocês; consagrem-se e sejam santos, porque eu sou santo". E: "sem santidade, ninguém verá o Senhor" (Hebreus 12:14).

Aliás, mais uma forma de Ele identificar-se como o Filho de Deus, o Cristo.

E, por conta disso, sabe muito bem que seu ministério não comporta apenas o ensino e o exemplo. Ele não é simplesmente um mestre. Por isso, volta a falar claramente de sua morte e ressurreição a seus discípulos.

Eles estão admirados e com medo. Pois Jesus está indo para Jerusalém ("Mestre, há pouco os judeus tentaram apedrejar-te, e assim mesmo vais voltar para lá?" – João 11:8). A hora do confronto se aproxima.

XLVI – 10:35-45 {O pedido de Tiago e João}

Apesar de duas vezes Jesus tê-los ensinado, os discípulos continuam em sua bobeira sobre primazia. E dois dos mais queridos.

Jesus encerra a discussão de vez, sendo o mais claro e contundente possível:

"Podem vocês beber o cálice que eu estou bebendo ou ser batizados com o batismo com que estou sendo batizado?". Acabara de referir-se ao seu martírio.

Diante da afirmativa de ambos, e tendo profetizado a eles, reafirma, finalizando tudo: "Nem mesmo o Filho do Homem veio ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos".

Sem considerações humanas, advindas de um coração enganoso e pecaminoso. O Messias – Eu sou – veio para cumprir a lei. "Embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a

humilhou-se a si mesmo e foi

obediente até a morte, e morte de cruz!" (Filipenses 2:6-8).

XLVII – 10:46-52 {O cego Bartimeu recupera a visão}

Neste episódio mais uma vez, como na casa de Jairo, vemos a atitude dúplice da multidão. Ao gritar por misericórdia, o cego foi repreendido. Mas a partir do momento em que Jesus lhe dá atenção, a atitude da multidão muda, passando a incentivá-lo. Mas Jesus pouco liga para a multidão, nesse sentido (já vimos Ele compadecer-se dela, em outras ocasiões). Ele sabe de seu comportamento dúbio e o experimentará na própria pele, depois.

Aqui, Ele é direto: "O que você quer que eu te faça?". Pergunta o que para nós parece óbvio, mas que é fundamental neste caso. O cego, igualmente, responde sem titubear – e sem duvidar: "Eu quero ver!". Ele mesmo sabia exatamente o que queria e a quem se dirigia. Não foi levado pela multidão, não precisou que ninguém o conduzisse. E clamou a Jesus diretamente, reconhecendo-o como o Messias ao mencionar um de seus títulos: "Filho de Davi".

Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. Marcos não deixa nunca de reafirmar isso.

ser servo, tornando-se semelhante aos homens (

)

XLVIII – 11:1-11 {A entrada triunfal}

Aqui começa a ser narrado o núcleo original da proclamação do Evangelho de Jesus Cristo. O que ficou conhecido como Querigma.

Pois Jesus agora parte para o ataque – frontal, direto, sem meias-palavras. E vigoroso. Pois tem um objetivo a alcançar, uma missão a cumprir.

A referência é clara: "Alegre-se muito, cidade de Sião! Exulte, Jerusalém! Eis que o

seu rei vem a você, justo e vitorioso, humilde e montado num jumento, um jumentinho, cria de jumenta" (Zacarias 9:9).

Jesus cumpre as escrituras em seu todo – lei e profetas. E para não haver possibilidade de dizerem que Ele apenas se adequou ao que estava escrito, mais um sinal é efetuado aqui: a busca do jumentinho. Jesus não encontrou um jumentinho por acaso e pensou: "Oba, posso aproveitar e 'cumprir' uma profecia!"; Ele manda buscar o animal que anteviu miraculosamente – e com detalhes.

O

povo exulta, como na profecia.

E

o ponto importante, aqui, está dado na frase que descreve o que fez, quando

chegou ao templo: "Observou tudo à sua volta". Com seu olhar mais que perspicaz, com seu olhar mais que escrutinador. Fez mais do que apenas tomar pé da situação – fez a crítica dela. A partir de sua posição francamente assumida ao montar no jumentinho: o Filho de Deus, o Ungido, o Senhor, o Santo.

XLIX – 11:12-19 {Jesus purifica o templo}

Jesus, o Filho de Deus, o Ungido, comporta-se como tal.

Como Senhor de tudo, achega-se à figueira, querendo seu fruto, mesmo fora de época – o que para Ele, Senhor do Universo, era irrelevante. Esta, que deveria provê-los para o seu Senhor – mesmo fora de época – não o faz. Por não fazê-lo, Jesus a interdita.

Como o Filho de Deus, o Ungido, expulsa aqueles que prostituíam o ambiente do templo.

Em ambos os episódios, aqui aglutinados, Ele proclama: "EU SOU O SENHOR. TEMAM-ME".

L – 11:20-26 {A figueira seca}

A figueira que não atendeu ao seu Senhor, o Senhor do universo, secou. Irremediavelmente, pois estava "seca desde as raízes".

E Jesus usa o episódio para mais um ensinamento. Sobre fé e oração.

Tomado em si, fica parecendo uma questão de intensidade de fé, quase uma consequência mágica da fé. Mas mais uma vez João (que já dissemos ser o melhor

intérprete de Marcos) vem nos ajudar: "O Pai, que vive em mim, está realizando a sua

obra. Creiam em mim quando digo que estou no Pai e que o Pai está em mim (

que crê em mim fará também as obras que tenho realizado. Fará coisas ainda maiores

E eu farei o que vocês pedirem em meu nome, para que o Pai seja glorificado no Filho" (João 14:10 ss).

(

) Aquele

)

A condição é crer e estar no Filho. E crer não é somente uma questão intelectual ou emocional; é também obediência: "Se alguém me ama, obedecerá à minha palavra. Meu Pai o amará, nós viremos e faremos morada nele" (João 10:23).

Não existe nenhum automatismo. Estando no Filho, quereremos e pediremos o que Deus quer que queiramos e peçamos, de acordo com a vontade dEle, não a nossa. Considerar a oração "em nome de Jesus" como algo a ser atendido automaticamente é vaidade humana, é vanglória. Jesus já havia recusado sinais aos fariseus e à multidão. Pois seriam demonstrações fúteis de poder. Para atender aos homens e não para a glória do Pai.

Por isso também a advertência para a santificação: "quando estiverem orando, se tiverem alguma coisa contra alguém, perdoem-no". A oração não é algo mágico ou – se feita de forma inadequada (com rancor no coração, por exemplo) – inconsequênte. "Sede santos como eu sou Santo", continua Jesus dizendo.

LI – 11:27-33 {A autoridade de Jesus é questionada}

Lúcido, Jesus, o Senhor, não faz concessões. Ciente e cioso de sua autoridade, não reconhece nenhum poder, que não seja o Pai, acima dEle. “Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (Filipenses 2:9-11).

Marcos vem, neste arco de história, afirmando, reafirmando e confirmando: Jesus Cristo é o Senhor.

LII – 12:1-12 (A parábola dos lavradores}

Como dissemos anteriormente, nesta parábola Jesus atinge o clímax de sua auto- afirmação perante mestres da lei, escribas, fariseus e sacerdotes. O público direto desta parábola é o mesmo que logo antes o havia questionado sobre sua autoridade.

E Jesus é tão claro que a parábola – diferentemente das demais, que tiveram que ser explicadas – é entendida imediatamente. Não houve nenhuma dificuldade. Eles tiveram olhos para ver e ouvidos para ouvir – mesmo assim, não se arrependeram:

“começaram a procurar um meio de prendê-lo, pois perceberam que era contra eles que ele havia contado aquela parábola”.

Daqui por diante haverá algumas tentativas de fazê-Lo tropeçar em suas palavras. Até que resolvam partir para o uso simples e brutal de força, em um momento propício, pois “tinham medo da multidão”.

LIII – 12:13-17 {O pagamento de imposto a César}

Essa tentativa de enredá-lo por suas palavras é precedida por uma adulação grotesca, totalmente hipócrita. Eles tentam indispô-lo primeiramente com o poder temporal – o dominador romano – e também com o povo comum, que nos impostos e seus cobradores, os publicanos, tinham um grande problema. Do que os fariseus se aproveitavam, pois também encaravam publicanos como agentes anti-Israel, a serviço dos gentios opressores e contra Deus.

Jesus, mais uma vez, elimina qualquer hipótese de confusão. Pedro e Paulo refletem esse ensinamento em suas cartas (I Pedro 2:13-17 e Romanos 13:1-6 – textos

que são pedra de tropeço para os teólogos da Libertação e seus derivados).

LIV – 12:18-27 {A realidade da ressurreição}

Nessa segunda tentativa de enlaçar Jesus por suas palavras, os saduceus propõem uma questão totalmente hipotética, bem ao gosto daqueles que se comprazem com discussões “acadêmicas”, julgando-se a si mesmos mestres e doutores, “voltando-se para discussões inúteis, querendo ser mestres da lei, quando não compreendem nem o que dizem nem as coisas das quais fazem afirmações tão categóricas” (I Timóteo 1:6-7).

Novamente o argutíssimo Jesus desfaz completamente o argumento, esvaziando-o pela simples confrontação com a Escritura. E mais, esvazia também, pela mesma Escritura, a autoridade dos saduceus, “que dizem que não há ressurreição”. Sua característica doutrinária é desfeita, como contrária às Escrituras. Portanto, eles não tem nenhuma autoridade para questionar Jesus.

LV – 12-28-34 {O maior mandamento}

A terceira tentativa de enredar Jesus. O mestre da lei que se aproximou ficou satisfeito com a resposta aos saduceus, seus “adversários”. E pergunta a Jesus algo especificamente religioso e profundo, não de condutas casuísticas hipotéticas relativas à observância de alguns mandamentos. Não há novidade neste tipo de pergunta, pois as escolas rabínicas constantemente discutiam entre si coisas similares.

Jesus faz uma condensação da lei, a partir da shemá (Deuteronômio 6:4-5), com uma pequena alteração: introduz também o termo “entendimento”, sinalizando que também a racionalidade humana deve prostrar-se ante Deus. Paulo, também, fala em “culto racional” (Romanos 12:1).

A diferença deste mestre da lei, em relação aos demais que estavam provocando Jesus, é que ele foi “tocado” pela resposta de Jesus, refletindo isso em seu elogio. Jesus aproveita este gancho: Eu te digo: “Você não está longe do Reino de Deus”; logo, Eu tenho a autoridade; não você, nem os outros. Eu sou o Senhor.

Tanto que, “daí por diante ninguém mais ousava lhe fazer perguntas”

LVI – 12:35-40 {O Cristo é Senhor de Davi}

Jesus, acima de toda e qualquer tradição humana, religiosa ou não, afirma-se de tal modo que inclusive questiona o título a Ele atribuido, de Filho de Davi.

Ele não fica apenas na defensiva, como poderia parecer dos episódios anteriores. Ele ataca o cerne do engano de seus adversários. Questiona a interpretação que os mestres da lei davam a tal título, mostrando o seu senhorio sobre, inclusive, a tradição. Ser Filho de Davi não significa qualquer dependência da tradição. Pois Ele, como ao longo de todo este arco está afirmando ineludivelmente, é o Senhor.

LVII – 12:41-44 {A oferta da viúva}

Jesus é o Senhor. Este arco conclui-se de forma magnífica. Ele é o Senhor do Universo, Nome sobre todo nome. Mas também atenta para os pequeninos. Ele – e só Ele – conhece e julga as intenções e os atos. Ele exalta os humildes e joga no pó os poderosos.

Pois Jesus não quer apenas o que sobeja ao homem. Ele quer tudo: “Ame o

todo o seu

Senhor, o seu Deus, de

entendimento e de todas as suas forças”.

LVIII – 13:1-28 {O sinal do fim dos tempos}

todo o seu coração, de

toda

a sua

alma, de

A escatologia provinda do próprio Senhor, em primeira mão.

Mais do que possa parecer aterrorizante – guerras, terremotos, fomes, enganos, traições, sinais nos céus – essa palavra de Jesus, na realidade, conforta-nos: “Eu os avisei de tudo antecipadamente”. E uma certeza nos traz, fonte de louvor e de esperança:

“Então se verá o Filho do Homem vindo nas nuvens com poder e glória”. E mais ainda:

“Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão”. “Amém! Vem, Senhor Jesus!” (Apocalipse 22:20).

Devemos ficar atentos, sim, aos sinais. Não para atemorizarmo-nos, nem para ficarmos como intérpretes desvairados querendo identificar neste ou naquele fato o que Jesus apontou. Importa-nos “perseverar até o fim”, para sermos salvos. “Pois aparecerão falsos cristos e falsos profetas que realizarão sinais e maravilhas para, se possível, enganar os eleitos”.

Não poderemos nem evitar, nem apressar o fim, como alguns equivocadamente (e perversamente, afinal) pensam estar fazendo. A símile (a “lição da figueira”) é um processo natural, que inevitavelmente acontece, em seu tempo próprio, sobre o qual não temos nenhuma ingerência.

LIX – 13:32-37 {O dia e a hora são desconhecidos}

Esse trecho é a complementação do anterior. O “intertitulista” teve a feliz ideia de destacá-lo, pois resume e confirma o que Jesus disse antes: “Fiquem atentos! Vigiem! Vocês não sabem quando virá esse tempo”. Pois “somente o Pai” o sabe: “nem os anjos no céu, nem o Filho”. Nem ninguém que especule a respeito.

“Vigiem!”

LX – 14:1-11 {Jesus é ungido em Betânia}

Aqui temos outra declaração de Jesus que é pedra de tropeço para teólogos da Libertação e outros ativistas: “os pobres vocês sempre terão com vocês, e poderão ajudá- los sempre que o desejarem”.

É uma declaração advinda de um profundo conhecimento do Homem. Ele, que é Deus, o Filho, conhece a sua criatura obliterada pelo pecado. Por isso que quaisquer utopias humanistas tropeçam neste ponto. O Homem não está marchando inexoravelmente para o bem, para a “superação de si mesmo”.

Observe-se que esta declaração não nos isenta, enquanto Igreja, de sermos sinal de Deus no mundo, também por este viés. Muito pelo contrário, como atestam apóstolos e profetas ao longo de toda a Bíblia. Mas há que se ter equilíbrio, há que se ter perspectiva:

nada – nem mesmo o trabalho de misericórdia – deve ocupar o lugar central do Senhor Jesus.

Esta pedra de tropeço também foi um catalizador para deflagrar a traição de Judas, que agora passa a procurar “uma oportunidade para entregá-lo”.

LXI – 14:12-26 {A Ceia do Senhor}

Aqui Jesus, mais uma vez, faz uso de seus atributos divinos – proclamando, assim, “Eu sou o Senhor” – ao descrever como acontecerá com seus discípulos ao buscarem um lugar para a ceia de Páscoa. Um episódio simples, pequeno, sem “glamour”. Mas que o proclama, em tudo, inclusive nas pequenas coias, como Senhor.

Assim como também o ritual da Ceia – simples, comezinho, sem “glamour”: vinho e pão. O alimento comum, a bebida comum. Mas revestidos de um significado “cósmico”, de tão profundo e terrificante: o corpo do Senhor, o sangue do Senhor. “Examine-se cada um a si mesmo, e então coma do pão e beba do cálice. Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe para sua própria condenação”. “Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo!” (I Coríntios 11:28-29 e Hebreus 10:31 – neste último trecho, ele acabou de citar os que profanaram o sangue da aliança).

Um episódio que começa com coisas simples e pequenas: o lugar para a ceia, o vinho, o pão. Que de repente fica abissalmente profundo: a Ceia do Senhor! E que termina de forma simples, pacífica e comum: “Depois de terem cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras”.

LXII – 14:27-31 {Jesus prediz que Pedro o negará}

Jesus continua reafirmando duas coisas, que apontam para a mesma: Ele é o Senhor.

Primeiro, reafirma seu absoluto conhecimento da criatura humana: “Vocês todos me abandonarão”. Ele sabe como o homem é. Especialmente em hora de provação.

Segundo, reafirma seus atributos divinos, prevendo que Pedro o negará por três vezes naquela mesma noite.

O homem, por sua força, acha que pode mais. Pedro diz: “Nunca te negarei. E todos os outros disseram o mesmo”.

LXIII – 14:32-42 {Jesus no Gestsêmani}

Se Marcos até agora havia insistentemente feito a proclamação “Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”, o Senhor, verdadeiro Deus, agora ele vai para o outro lado, para a encarnação, apresentando Jesus, verdadeiro homem (para usarmos os termos do Credo de Calcedônia).

Jesus, verdadeiro Deus, é também verdadeiro homem – mas perfeito. “E sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz!” (Filipenses 2:8).

LXIV – 14:43-51 {Jesus é preso}

Marcos começou a preparar, cenas atrás, o ambiente para descrever o dolorosíssimo sacrifício de Jesus. Tudo leva para a impressão de que as trevas prevalecerão. Tudo que os sacerdotes, mestres da lei, fariseus e herodianos adiaram, deságua aqui: Jesus é preso.

Mesmo neste momento, Jesus, o lúcido Verbo, desmascara seu oponentes: “Todos os dias eu estive com vocês, ensinando no templo, e vocês não me prenderam”.

Covardes! “Mas as Escrituras precisam ser cumpridas.

E cumpre-se também seu dito: “Então todos o abandonaram e fugiram”.

O detalhe do jovem que foge nu, assumido pela tradição como auto-referência do

próprio Marcos – seria ele este jovem – é perfeitamente plausível. Esta é uma cena noturna, talvez no começo da madrugada. Pedro, Tiago e João, já no Getsêmani, estavam exautos (e deprimidos, também). Sabemos, pelos costumes registrados pelos livros de História, que era comum dormir-se nu. Estar envolto apenas por um lençol denota alguém que estava dormindo, ali por perto, e que despertou com o alarido da prisão de Jesus. Alguém que o admirava/seguia, pois os soldados tentaram prendê-lo.

LXV – 14:53-65 {Jesus diante do Sinédrio}

Afora todas as discussões da literatura sobre esta reunião noturna do Sinédrio ser completamente irregular e – portanto – ilegítima, vemos que há um esforço acusatório contra Jesus que esbarra justamente na questão da legalidade.

Talvez até por terem consciência da ilegalidade da reunião, tenta-se uma acusação irrefutável contra Jesus: “procurando depoimentos contra Jesus (…) mas não encontraram nenhum. Muitos testemunhavam falsamente contra ele, mas as declarações não eram coerentes”. O Cordeiro, digno e imaculado, oferecido em sacrifício por todos.

Mais: auto-oferecido – “porque Deus nos amou primeiro” (I João 4:19). O sumo sacerdote pergunta à queima-roupa: “Você é o Cristo, o Filho do Deus bendito?” E Jesus não se esquiva, não dá nenhuma resposta oblíqua, é claro e transparente. Neste livro, pela primeira vez (como já anotamos), de sua boca mesmo sai a declaração: “Sou”.

Agora a maldade humana pode se consumar. Não há mais peias para ela. As trevas se regozijam.

LXVI – 14:66-72 {Pedro nega Jesus}

Um pequeno anticlimáx, aqui. Confirma-se como não poderia deixar de ser, a palavra de Jesus sobre Pedro negá-lo. Em todos os detalhes.

Pedro sente o golpe: “se pôs a chorar”.

LXVII – 15:1-15 {Jesus diante de Pilatos}

Pilatos julga Jesus politicamente. Sua pergunta, “Você é o rei dos judeus?”, o demonstra. Essa era a sua função, como preposto do império e administrador romano.

E, em sua função, não vê dolo algum em Jesus, mais uma vez confirmado como o

Cordeiro sem mácula. E ele percebe o jogo que os líderes judeus estavam fazendo e tenta até mesmo livrar Jesus, apelando para a multidão.

Mas esta, de coração doble e incitada em suas paixões pelos chefes dos sacerdotes – observe-se aqui como os principais líderes empenharam-se com toda a sua autoridade para condenar Jesus – só tem uma palavra, sem explicação: “Crucifica-o!”

LXVIII – 15:16-20 {Os soldados zombam de Jesus}

Satanás se regozija. Agrada-lhe moer Jesus. Mas Satanás nada cria – ele apenas imita, deturpando e pervertendo.

O Rei dos Judeus, como disse Pilatos. Vestido de púrpura e coroado de espinhos, conforme os soldados, ao escarnecê-lo, fizeram com Ele.

Mas a total submissão de Jesus ao Pai faz Satanás e seus agentes quererem chegar logo ao fim: “Então o levaram para fora, a fim de crucificá-lo”.

LXIX – 15:21-32 {A crucificação}

Marcos escreve como quem viu a crucificação de Jesus a uma certa distância. Talvez o receio de ser preso, como quase o foi ao fugir nu, tenha o impedido de se aproximar muito. Pois alguns detalhes que outros evangelistas relatam mais acuradamente não estão aqui. Mas, ao relatá-la, à sua memória e reflexão vêm imediatamente palavras da Escritura. Ele atesta: “cumpriu-se a Escritura”.

Mesmo que acatemos a tradição de Marcos apenas registrar as “memórias” de Pedro, este argumento não se perde, pois Pedro também estava acabrunhado com seu pífio desempenho ao negar Jesus. Deixamo-lo chorando, a última vez que o vimos. Isso também o impediria de aproximar-se mais do centro da cena da crucificação.

Quando Marcos escreve, anos após o acontecimento em si, e já impactado definitivamente pela ressurreição de Jesus – fato central de todo o Cristianismo – já teve tempo de refletir e elaborar um pensamento estruturado sobre o mesmo. Inda mais que conviveu com Paulo, o grande “teólogo”.

Mas é sintomática a introdução da frase “cumpriu-se a Escritura” nesta passagem. Ele não está elaborando um tratado. Ele escreve porque tem que escrever: “Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”. Como estava dito nas Sagradas Escrituras.

LXX – 15:33-41 {A morte de Jesus}

Linguagem figurada ou não, o acontecimento é cósmico, de tão importante: “E o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo.

a) O véu rasgou-se: toda separação entre Deus e os homens, trazida pelo pecado humano, foi vencida, sanada, resolvida, curada, consertada.

b) De alto a baixo: começou no alto e desceu. Deus nos amou primeiro. Foi iniciativa dEle, que “tanto amou o mundo que deu seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16).

Marcos aqui introduz as mulheres que seguiam a Jesus – testemunharam sua morte, Serão as primeiras a constatar a sua ressurreição (daqui a pouco).

LXXI – 15:42-47 {O sepultamento de Jesus}

Jesus sepultado. Em local conhecido, escavado na rocha, fechado com uma pedra grande. Marcos já antevê as objeções que haverão contra a ressurreição.

E continua atestando a confiabilidade das mulheres, testemunas fidedignas.

LXXII – 16:1-20 {A ressurreição}

As mulheres, cujo testemunho é confiável, constatam e atestam: Jesus Cristo ressuscitou!

Como a NVI anota, em alguns manuscritos antigos, de razoável importância, o texto termina no versículo 8. Há teorias interpretativas que afirmam que esta era, realmente, a intenção de Marcos. No entanto, tanto o textus receptus quanto o textus criticus mantém os versículos 9-20.

Podemos tentar harmonizar isso da seguinte forma: Marcos, coerentemente com Paulo e com o próprio Jesus, não achava ser necessário, para os crentes maduros, apresentar evidências físicas da ressurreição. Era uma questão de pura e desafiadora fé, que é “a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos”. Jesus mesmo afirmara, após a ressurreição: “Porque me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram” (João 20:29).

Mas inegavelmente, como atestam diversas outras testemunhas (vide I Coríntios 15:3-8) e os textos dos demais evangelistas, Jesus falou e agiu entre nós após sua ressurreição. Ou o próprio Marcos, posteriormente à “publicação” de seu livro, fez um adendo para relatar isso, ou outra pessoa ajuntou este complemento.

O fato é que, seja como for, o trecho dos vv. 9-20 está em harmonia geral com o que é dito pelos outros evangelistas. E mesmo há uma censura no v. 14 que reforça o “final original” do livro e meio que reconhece a fraqueza do homem: “censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração, porque não acreditaram nos que o tinham visto depois de ressurreto”.

E o “ide” de Jesus, aqui, no complemento, redunda toda a mensagem do livro: O Evangelho é urgente!