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Copyright © 2006 by Felipe Fernández-Armesto

Titulo original
Pathfinders: a global history of exploration

Capa
Mariana Newla nds

Foto de capa
© Stapleton CoUection/ Corbis/ Latinstock
© Bettmann/ Corbis/ Latinstock

Preparação
Célia Euvaldo

lndice remissivo
Luciano Marchiori

Revisão
Angela das Neves
Daniela Medeiros

Dados Internacionais de Ca1alogaçào na Publicação (c1P)


(Câmara Brasileira do Livro, s•, Brasil)

Fernández-Armeslo, Felipe
Os desbravadores : uma hisló ria mundial da exploração da
Terra I Felipe Fernández-Armesto ; tradução Donaldson M.
Garschagen . - São Paulo : Com panhia das Lc1ras, 2009.

Titulo original: Pathfinders : a global his1ory of exploralion


ISBN 978-85-359-1386-6

t. Descobertas geográficas 2. Exploradores - Histó ria


1.Titulo.

08pn818 CDD-910.9
lndice para ca1álogo sis1emá1ico:
1. Exploração da Terra: História 910.9

[2009]
Todos os direitos desta edição reservados à
EDITORA SC H WA RCZ LTDA.
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Sumário

PREFÁCIO . • • . • . . . . . • . • . . . . . • . . • . . . . . . . . • . • • • • . . . . . . . . . • . • • . • . • 11

1. A dispersão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
Os primeiros exploradores: das culturas coletoras aos grandes impérios
2. A expansão marítima. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
A exploração dos oceanos há cerca de mil anos
3. Os caminhantes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95
Explorações terrestres no fim da Antiguidade e na Idade Média
4. O impulso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 140
O avanço marítimo da Idade Média tardia e a penetração no Atlântico
5. O salto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 194
O grande salto avante na década de 1490
6. A circunavegação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 241
A ligação entre as rotas globais, c. 1500-c. 1620
7. A confluência ... . ........................... . ....... .. .. . ... 304
A "reconvergência" global, c. 1620-c. 1740
8. O avanço final. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 357
A busca da imagem completa do mundo, c. década de 1740-c. década
de 1840
9. A globalização ... . . . ...... . ....... . ..... . ....... . ............ 431
O horizonte se estreita, e. 1850-c. 2000

NOTAS .• ... • . •... . .•..•. . .. · .•. • •..••• · · • • · · •.•.•. • · •. · • .• • · • 497


CRÉDITOS DAS ILUSTRAÇÕES. . • • . . . • . • . . . . • • • . . . • • . . • . • • . • • . . . . • . . 515
ÍNDICE REMI SSIVO . • . . . . . . • . . . • . • • • . . • • . . . . . • • . . . . • • • . . . . . . . • . . . 517
A CIRCUNAVEGAÇÃO

Desenho de Francisco Rodrigues, que provavelmente representa a ilha de Adonara,


nas Sundas Menores, Indonésia.

escreveu o cronista da expedição, "nem à índia com Vasco da Gama, pois as


Malucas não são menos ricas que aqueles lugares, nem devem ser tidas em
menor estima."
A expedição retornou das ilhas Banda, antes de alcançar as Malucas -
satisfeita, talvez, com as amplas quantidades de cravo, noz-moscada e macis
que podiam ser obtidas sem avançar mais. Todavia, um dos capitães da frota,
Francisco Serrão, naufragou a caminho mas pôde alcançar, usando embarca-
ções locais, a ilha de Ternate, onde se concentrava a produção dessas especia-
rias. Ali negociou a base de um monopólio português, que perdurou quase sem
interrupção durante o resto do século. Além disso, Rodrigues levou de volta a
Portugal esplêndidos mapas e desenhos do perfil de ilhas situadas na rota -
presumivelmente copiadas de modelos javaneses - e dados sobre toda a via-
gem entre a baía de Bengala e a China.
A Espanha tinha de superar dois problemas para chegar às Molucas: pri-
meiro, as Américas se interpunham no caminho; segundo, se os cálculos tradi-
cionais que determinavam a dimensão do planeta tinham algum valor, adis-
tância a ser transposta era excessiva. Fernão de Magalhães afirmou ter os meios

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OS DESBRAVADORES

para resolver as duas dificuldades: Magalhães era um fidalgo aventureiro, um


cavaleiro andante já habituado a ousadas façanhas marítimas. Seus compatrio-
tas não lhe deram ouvidos quando ele insistiu que seria mais fácil chegar às
Ilhas das Especiarias através do Atlântico do que pelo f ndico: Portugal já dis-
punha de uma rota satisfatória para a Ásia. Em outubro de 1517, ele abando-
nou seus esforços na pátria e ofereceu seus serviços a Castela.
Magalhães concordava com a opinião de Colombo a respeito do tamanho
do planeta - seria menor do que se supunha - e acreditava que as riquezas da
Ásia estavam a pouca distância além da América. O fato de existir um conti-
nente de permeio não o incomodava. Se necessário, declarou, navegaria pela
latitude de 75 graus sul; e se mesmo assim não encontrasse uma passagem em
torno da América, viraria para leste, infringindo o Tratado de Tordesilhas, e
alcançaria as Ilhas das Especiarias "pela rota dos portugueses".
De acordo com as normas da coroa de Castela, a viagem teve de ser reali-
zada com recursos privados, e os financiadores - banqueiros de Sevilha -
receberam como garantia uma considerável participação nos resultados da
expedição: um quinto dos lucros obtidos em qualquer transação comercial,
por um prazo de dez anos, e o governo das terras conquistadas. Por conse-
guinte, Magalhães já zarpava com duras obrigações: tinha de encontrar terras
lucrativas e conquistá-las, por mais impraticável que isso fosse.
Magalhães partiu de Sanlúcar de Barrameda em 20 de setembro de 1519,
com cinco navios e 250 homens. Os tripulantes e os pilotos eram portugueses,
assim como as cartas náuticas e os tonéis de água: os castelhanos ainda tinham
pouca experiência em viagens longas por mar aberto no Atlântico sul. Mesmo
assim, as tripulações se amotinaram depois de suportar a travessia da zona de
calmarias e, novamente, quando Magalhães prudentemente decidiu passar o
inverno na costa da Patagônia antes de prosseguir em direção ao sul e penetrar
em águas desconhecidas, com climas ainda mais hostis. Quando finalmente
encontraram o tão esperado estreito que levava ao Pacífico e à costa oeste da
América do Sul, na verdade já haviam fracassado : o estreito situava-se numa
latitude demasiado alta, excessivamente ao sul, para ser um caminho conve-
niente para a Ásia. Além disso, era uma rede labiríntica de canais que torturou
os exploradores. A expedição levou sete semanas para transpor o estreito,
enfrentando os ventos gelados, a exigüidade de rações e as costas ameaçadoras.
As agruras daquele trecho provocaram mais um motim.

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A CIRCUNAVEGAÇÃO

Viagem de circunavegação de Magalhães, representada por BattistaAgnese em 1545.


Embora Magalhães tenha comprovado a vastidão do Pacífico,
Agnese foi um dos poucos cartógrafos a registrar o fato.

No entanto, os atrasos e as privações suportadas por Magalhães tiveram


um desfecho feliz: ele chegou ao Pacífico no momento preciso para tirar o
melhor proveito dos alísios de sudeste que o fariam atravessar o oceano. Usou a
corrente de Humboldt para subir rapidamente pela costa do Chile, buscando
latitudes menos frias, antes de guinar rumo a oeste e empreender a parte final da
viagem, que ele imaginava fácil: a travessia de um oceano estreito, po ntilhado de
ilhas e com ventos favo ráveis. Na realidade, esperavam -no 99 dias no mar.
Q uando finalmente avistaram a ilha de Guam , em 6 de março de 152 1, os explo-
radores nada mais tinham para m astigar senão os envoltó rios de couro das velas,
com as bocas inchadas pelo escorbuto. A água q ue tinham estava pútrida; os
biscoitos, estragados e cheios de vermes, "cheiravam a urina de rato".
No dia 9, Magalhães fez-se de novo ao mar, acreditando que havia passado
sem perceber pelas Ilhas das Especiarias e estava se aproximando da China. Sete

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OS DES BRAVADOR ES

dias depois, avistou Samar, nas Filipinas. Semanas depois, a tentação fatal de
aventureiro imperial custou-lhe a vida em combate, ao se pôr ao lado de um
rajá local que lutava contra outro numa ilha próxima, Mactan. A partir dali,
seguindo uma rota tortuosa, o restante da expedição alcançou as Ilhas das Espe-
ciarias, chegando ao sultanato de Tidore em 6 de novembro de 1521. A um
custo imensurável, haviam atingido o destino declarado da expedição.
Por penosa que tenha sido a viagem, de modo algum representou todo o
sofrimento que o estreito de Magalhães era capaz de infligir. Uma segunda
expedição, em 1525, levou quatro meses e meio para ser completada e reco-
mendou o abandono da rota. Os exploradores que a utilizaram, esporadica-
mente, durante o restante do século, viveram experiências igualmente desen-
corajadoras. Durante quase cem anos não se fez nenhuma tentativa séria para
achar outra rota pelo Atlântico sul para o Pacífico. E quando, em 1615, os
exploradores holandeses Jakob Le Maire e Willem van Schouten descobriram
o caminho pelo cabo Horn, não estavam na verdade procurando uma ligação
entre os oceanos, e sim o lendário continente austral que existiria além do
ponto a que as expedições anteriores haviam chegado.
Apesar de todo seu heroísmo, a viagem de Magalhães nada resolveu. Seus
sobreviventes chegaram de volta à Espanha depois de completar a primeira cir-
cunavegação do mundo de que se tem notícia. Mas, e daí? O feito teve uma
certa repercussão sensacionalista, mas a etapa da viagem que realmente cha-
mou a atenção foi a do Pacífico, pois tratava-se de uma coisa inteiramente
nova. Entretanto, a julgar pelos dados relatados pela expedição e pelos de uma
outra expedição, a rota não podia ser explorada. Era demasiado longa, dema-
siado lenta e tinha um defeito fatal: só permitia atravessar o oceano em um
sentido. Persistia assim o problema de encontrar uma rota viável para cruzar o
Pacífico nos dois sentidos

A DECODIFICAÇÃO DO REGIME DOS VENTOS: A VIAGEM DE


URDANETA E SEU CONTEXTO

Além disso, nem mesmo a viagem de Magalhães, que havia revelado a


extraordinária amplitude do Pacífico, foi capaz de convencer cartógrafos e
marinheiros da verdadeira dimensão do globo. Se os cálculos de longitude

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A CIRCUNAVEGAÇÃO

feitos por Magalhães e seus pilotos tivessem sido divulgados, teriam causado
um forte impacto. Entre as computações que chegaram a nós, um conjunto,
efetuado por Francesco d'Albo, é de notável exatidão, e outro conduz a uma
subestimativa, mas bastante elevada. O próprio Magalhães acreditava que um
grau na superfície da Terra representava 17,5 léguas - cerca de 112 quilôme-
tros. Nesse caso, se mantivesse registros minimamente precisos das longitudes,
é provável que acabasse superestimando em muito as dimensões da Terra.
Entretanto, ele morreu na viagem e, infelizmente, o conjunto de dados publi-
cados após a expedição foram os de Antonio Pigafetta, sempre subestimados,
talvez por motivos políticos.9
Por conseguinte, em 1524, Fernando Colombo pôde manter, sem altera-
ção, a opinião abraçada com ardor pelo pai: a circunferência da Terra era de
apenas 5100 léguas no equador. 10 E quase todos os mapas continuavam a repre-
sentar o Pacífico muito mais estreito do que ele realmente é. Durante as nego-
ciações entre Espanha e Portugal que se seguiram à viagem de Magalhães, as
duas partes pareceram tomar como certo que as Malucas se localizavam na
zona espanhola, definida pelo antimeridiano de Tordesilhas. 11 Isso implicava
um Pacífico estreito e um mundo menor que seu tamanho real.
Na década de 1560, quando a questão da localização do antimeridiano foi
novamente revista, alguns dos mais renomados cosmógrafos nessa área, como
Pedro de Medina (autor de um conhecido manual para navegantes), Alonso de
Santa Cruz (exímio cartógrafo) e Andrés de Urdaneta (o mais famoso piloto
do Pacífico em seu tempo), continuavam a acreditar que as Malucas se situa-
vam dentro da área atribuída à Espanha. 12 Isso é surpreendente, uma vez que
Santa Cruz também acreditava que um grau de longitude equivalia a 17,5
léguas, ao passo que Urdaneta tinha conhecimentos práticos inigualáveis.
Entretanto, a sinceridade deles não pode ser questionada, porquanto ambos
não hesitaram em declarar que pelo Tratado de Saragoça, de 1529, as Malucas
e até mesmo as Filipinas tinham sido reatribuídas a Portugal. 13 Os pilotos que
faziam a viagem da Nova Espanha às Filipinas calculavam a distância entre
1550 e 2260 léguas; o número real é da ordem de 2400 léguas. Na Espanha,
revisando os dados para o rei, o geógrafo Sancho Gutiérrez referiu-se àqueles
especialistas com desdém. Os pilotos profissionais, disse, eram desleixados,
ignorantes e careciam de conhecimentos científicos. Gutiérrez reduziu adis-
tância para 1750 léguas. 14 f provável que ele julgasse que os navegadores são

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