Você está na página 1de 51

Curso de Extensão Universitária

A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global


2014

Os companheiros, de Mario Monicelli (1963)


A Análise do Filme

Tema: Sindicalismo e luta de classes

O filme de Mario Monicelli, “Os companheiros” (1963) - Il compagni, no


titulo original em italiano - trata da luta de operários de uma fábrica da
indústria têxtil de Turim na Itália de fins do século XIX contra a exploração do
capital. Depois de um acidente de trabalho no chão-de-fábrica – um operário
estafado pelo excesso de trabalho tem o braço engolido pela máquina - os
operários decidem lutar pela redução da jornada de trabalho. Aconselhados por
um professor socialista – Professor Sinigaglia (interpretado pelo magnifico
Marcelo Mastroianni), os operários realizam uma greve por tempo
indeterminado.
“Os companheiros” é um filme sobre uma greve operária. Não são
muitos os filmes do cinema mundial que tem, como eixo temático principal, o

1
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
desenrolar de uma greve de trabalhadores assalariados. O tema da greve de
trabalhadores assalariados constitui eixo temático principal dos seguintes
filmes de cinema mundial: “A greve”, de Serguei Eisenstein (1926); “Os
companheiros” (1950) e o “O sal da terra” (1953). Nesses filmes clássicos, a
narrativa do filme desenvolve-se em torno do movimento da greve. A greve
aparece não apenas como pano de fundo da narrativa fílmica, mas como
macroestrutura que determina a ação dramática dos personagens do filme. A
idéia da greve percorre a narrativa fílmica compondo a estrutura da ação
dramática. Nesses filmes, a greve é o pathos do filme, isto é, o drama humano,
ou como diz Doc Comparato, “a vida, a ação, o conflito do dia-a-dia gerando
acontecimentos”; mas a greve é também o logos (a palavra, o discurso, a forma
dada e a organização verbal do roteiro do filme, sua estrutura geral); e o ethos (a
ética, a moral, o significado da estória, suas implicações morais, políticas, etc; o
conteúdo do trabalho, o que se quer dizer com ele).
Por outro lado, noutros filmes do cinema, como por exemplo, “Eles não
usam black-tie” (de Leon Hirszman); “Germinal” (de Claude Berri), “Daens” (de
François Chevallier); ou “Vinhas da Ira” e “Como era verde o meu vale” (ambos
de John Ford); ou ainda: “Billy Elliot” (de Stephen Daldry), “Tempos Modernos”
(de Charles Chaplin), “A classe operária vai ao Paraíso” (de Elio Petri),
“Metropólis” (de Fritz Lang), “Made in Dageham” (de Nigel Cole) ou ainda “Pão
e Rosas” (de Ken Loach) – e muitos outros - a greve aparece apenas como uma
das referências da macroestrutura da narrativa fílmica, e não como seu eixo
estruturantes. Enfim, a greve aparece como uma ação dramática entre outras (o
que os diferencia, por exemplo, dos filmes supracitados – “A greve”, “Os
companheiros” e o “O sal da terra” - onde a ação dramática da greve ocupa a
maior parte do tempo de duração do filme - no caso do filme “Os
companheiros”, a greve ocupa mais de 100 minutos do filme).
Por outro lado, alguns filmes tratam de temas correlatos a greves de
trabalhadores assalariados (constam no filme, por exemplo, greves de
estudantes ou greves de mulheres contra seus maridos e não greves de
trabalhadores assalariados contra o capital).
Nos filmes norte-americanos “Norma Rae” (de Martin Ritt, 1979) e “A
Terra Fria” (de Niki Caro, 2005), a ação dramática diz respeito a situação de

2
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
trabalhadores assalariados – operários têxteis – nos EUA, mas não há nenhuma
referencia a greve. Salienta-se nestes filmes, a luta pelos direitos à
sindicalização e a luta contra o assédio moral por via jurídica,
respectivamente. O que há de comum entre eles – incluindo “Made in
Dageham” (que trata de greve) - é a temática de gênero (todos tem como
personagem principal, mulheres trabalhadores).
Podemos ainda categorizar os filmes que fazem referencia a greve, pela
tipo de categoria de trabalhadores assalariados que o filme trata. Por exemplo,
no filme “Os companheiros” e no filme “Daens – Um grito de justiça”, a
categoria de trabalhadores assalariados que faz a greve são os operários da
indústria têxtil. Nos filmes “O sal da terra” e “Germinal”, temos a greve de
trabalhadores das minas; nos filmes “A greve”, “Eles não usam black-in-tie” e
“Made in Dageham”, temos a greve de trabalhadores metalúrgicos. Poucos
filmes abordam greves de trabalhadores dos serviços ou trabalhadores públicos
– a notável exceção é o filme “Pão e Rosas” (de Ken Louch), onde temos uma
greve de trabalhadores terceirizados da faxina.
Finalmente, podemos categorizar os filmes pela época histórica em que
se desenvolve a narrativa fílmica. Por exemplo, os mais importantes – e
conhecidos - filmes de cinema que tratam de greves – por exemplo, “Daens”,
“Germinal” e “Os companheiros” - situam as greves operárias, nas últimas
décadas do século XIX, quando ocorreu efetivamente o nascimento do
sindicalismo industrial de massa. Portanto, tais filmes fazem referência a greves
ocorridas nos primórdios da organização sindical, quando não existia o
reconhecimento do direito de greve (os trabalhadores assalariados não eram
reconhecidos como sujeitos de direito) e não existia a instituição da negociação
coletiva.
Entretanto, o tema da luta de trabalhadores assalariados pelo
reconhecimento como sujeito (coletivo) de direitos é um tema recorrente nos
filmes de greve no cinema, não se detendo apenas nos primórdios do
sindicalismo industrial em fins do século XIX. Na verdade, não importa a época
histórica, o capital em processo de valorização, insiste – e persiste – em não
reconhecer os trabalhadores assalariados como sujeitos de direitos. Enfim, a

3
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
luta entre capital e trabalho é uma luta perpetua no interior do modo de
produção capitalista, apesar das conquistas trabalhistas no século XX.
Por exemplo, seria interessante contrastar o filme “Os companheiros” (de
Mario Monicelli), que se passa na Turim de fins do século XIX, com o filme “Pão
e Rosas” (de Ken Loach), que se passa na Los Angeles de fins do século XX. No
filme “Pão e Rosas”, o diretor inglês retrata uma greve de trabalhadores
assalariados dos serviços de empresas terceirizadas (faxineiros) que reivindicam
o direito de negociação coletiva (não existem ideologias socialistas no filme mas
apenas a reivindicação de Justiça Social). No caso do filme “Os companheiros”
de Mario Monicelli, os operários têxteis não têm sindicato ou associações de
classe. O filme retrata a primeira experiencia de greve ocorrida na fábrica (trata-
se de uma greve de empresa).
A greve no cinema
(filmes que tem a greve como eixo narrativo)
Disponíveis em DVD no Brasil

Nome/Ano/Nacionalidade Natureza/Época da Greve

“A greve” (Stachka) - 1926 Greve operária


URSS (metalúrgico)
c. 1905

“O sal da terra” (Salto of Earth) – 1951 Greve operária


EUA (mineiros)
c. 1950

“Os companheiros” (Il compagni) – 1953 Greve operária


Itália (têxteis)
c. 1890

“Germinal” (Germinal) – 1992 Greve operária


Bélgica/Itália/França (mineiros)
c, 1890

4
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
“Daens” (1993) Greve operária
Bélgica/França/Holanda (texteis)
c. 1890

“Pão e Rosas” (2000) Greve de trabalhadores dos serviços


França, Reino Unido, Espanha/Alemanha e (faxinerios)
Suiça (c.2000)

“Eles não usam Black-tie” (1981) Greve de operários metalúrgicos


Brasil (c.1978)

“A classe operária vai ao paraíso” Greve operária


(1971) (metalúrgicos)
Itália (c. 1970)

No caso do filme “Os companheiros”, de Mario Monicelli, objeto fílmico


da nossa análise crítica, a ação operária como greve, é uma ação política de
maior envergadura conduzida por ideologias socialistas revolucionárias. Na
medida em que o capital não reconhece os trabalhadores assalariados como
“sujeito de direitos”, qualquer movimento reivindicativo do trabalho – mesmo
de natureza econômico-corporativa – adquire feição de subversão social. Era o
que acontecia com o proletariado industrial dos primórdios da Revolução
Industrial que se organizava para lutar contra a exploração capitalista. A classe
operária em movimento, personificava em-si, a ação social transformadora das
condições de existência da sociedade burguesa.
Na Europa Continental da década de 1840, época de crise social – a
primeira crise do capitalismo industrial – os jovens Karl Marx (e Friedrich
Engels) presenciaram o crescimento de greves operárias como lutas sociais e
politicas que contestavam o movimento do capital. Nos primórdios do
capitalismo industrial qualquer movimento reivindicativo do trabalho assumia a
forma de subversão social, sendo brutalmente reprimido pelas forças policiais

5
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
da ordem burguesa. Por exemplo, Marx, então com 26 anos, acompanhou em
junho de 1844, a greve dos operários tecelões da Silésia, importante região
histórica dividida entre a Polônia, a República Checa e a Alemanha (ainda hoje a
Silésia é uma importante zona industrial da Polônia e da República Checa). Esta
greve – que se transformou numa insurreição social – contribuiu para que Karl
Marx expusesse, pela primeira vez, sua concepção do proletariado, identificado
com a classe operária da grande indústria capitalista.
O proletariado, na percepção e entendimento de Marx, era a classe social
capaz de “superar o estado de coisas existentes”. Portanto, o proletariado era o
sujeito histórico da ação social transformadora capaz de instaurar o comunismo.
Marx e Engels diriam em 1847 n´A Ideologia Alemã que, “o comunismo não é
para nós um estado que deve ser estabelecido, um ideal para o qual a realidade
terá de se dirigir. Denominamos comunismo, o movimento real que supera o
estado de coisas atual. As condições desse movimento resultam de pressupostos
existentes” [o grifo é nosso].
Para o jovem Karl Marx, as manifestações operárias na Silésia tiveram
grande importância histórica, pois eram a demonstração concreta e violenta da
tendência potencialmente revolucionária da nova classe em constituição. A
insurreição dos tecelões da Silésia foi a primeira experiência concreta para
Marx, do movimento espontâneo e autônomo do proletariado, denominado por
ele de Selbsttätigkeit, isto é, a auto-atividade histórica do proletariado alemão
(Marx não se utilizou a palavra greve na medida em que o movimento de
reivindicação dos operários tecelões – que não eram reconhecidos como
“sujeitos de direitos” - assumiu uma dimensão insurrecional).
De certa forma, tal acontecimento histórico – a insurreição dos operários
tecelões da Silésia - foi para Marx a comprovação histórica de suas idéias,
expressas, meses antes, na “Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de
Hegel”, publicada nos Anais Franco-Alemães.
Marx publicou apenas a Introdução da sua Crítica da Filosofia do Direito
de Hegel — escrita por ele entre dezembro de 1843 e janeiro de 1844, portanto,
antes da insurreição dos tecelões na Silésia – sendo publicada nos Anais Franco-
Alemães nos dias 7 e 10 de fevereiro de 1844. A Crítica da Filosofia do Direito
de Hegel (em alemão: Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie) só foi

6
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
publicada de forma integral postumamente. Neste manuscrito da juventude,
Marx discorreu sobre o livro “Princípios da Filosofia do Direito” de Georg
Wilhelm Friedrich Hegel, de 1820, parágrafo por parágrafo. Uma das maiores
críticas de Marx a Hegel no documento é o fato de que muitos dos seus
argumentos dialéticos iniciam-se com abstrações.
Na “Introdução”, publicada nos Anais Franco-Alemães, Marx falou pela
primeira vez do proletariado (das Proletariat) como classe (Klasse), a base real
da revolução comunista. Marx concebeu o proletariado como a classe que
“anuncia a dissolução da ordem existente” e “exige a negação da propriedade
privada”. Marx pôs o proletariado como uma classe com “cadeias radicais”
(radikalen Ketten), incapaz de ser integrado à ordem burguesa em constituição:
“Quando o proletariado anuncia a dissolução [Auflosung] da ordem
existente, apenas declara o mistério da sua própria existência, porquanto é a
efetiva [faktische] dissolução dessa ordem. Quando o proletariado exige a
negação da propriedade privada, apenas estabelece como princípio da sociedade
[Prinzip der Gesellschaft] o que a sociedade já elevava a princípio do
proletariado e o que este já involuntariamente [ohne sein Zuthun] encarna
enquanto resultado negativo da sociedade”.
A impossibilidade histórica de uma revolução parcial, meramente
política, na Alemanha da década de 1840, fez Marx acreditar na possibilidade
positiva da revolução radical, a emancipação humana universal; e a
“possibilidade positiva” da revolução radical era posta pela existência do
proletariado, a classe com cadeias radicais; ou como observou Marx, “a classe
da sociedade civil burguesa [burgerlichen Gesellchaft], que não é nenhuma
classe da sociedade civil burguesa; um estamento [Stand] que é a dissolução de
todos os estamentos; uma esfera [Sphäre] que possui caráter universal, porque
os seus sofrimentos são universais [...]”. Para o jovem Marx, o proletariado é
uma esfera que não pode emancipar-se a si mesma, nem emancipar-se de todas
as outras esferas da sociedade, sem as emancipar a todas.
Portanto, o proletariado alemão era para o jovem Karl Marx, o exemplo
para os proletários de outros países. Entretanto, pode-se dizer que o
conhecimento que Marx tinha das lutas operárias na França, ainda era, de certa
forma, insuficiente (o contato direto que Marx teve com os comunistas franceses

7
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
e alemães só ocorreu a partir de abril de 1844, ou seja, cerca de quatro meses
após a publicação desse artigo no Deutsch-Französische Jahrbücher). Além
disso, não havia ocorrido nenhum movimento operário significativo na
Alemanha, como ocorreu em junho de 1844, com a rebelião dos tecelões da
Silésia.
De fato, o desenvolvimento da industrialização capitalista na Alemanha, a
partir da década de 1830, criou uma massa de proletários miseráveis e famintos,
ex-artesãos pauperizados pela vigência do modo de produção especificamente
capitalista. O proletariado, que trabalhava nas indústrias a domicílio, a serviço
do grande capitalista, habitava, principalmente, as regiões da Renânia-
Westfália, Saxonia e Silésia. Disse Marx:
“Na Alemanha o proletariado está ainda só a começar a formar-se, como
resultado do movimento industrial; pois o que constitui o proletariado não é a
pobreza naturalmente existente [naturwuchstag entstandne], mas a pobreza
produzida artificialmente [die kunstlich producirte Armuth]; não é a massa do
povo mecanicamente oprimida pelo peso da sociedade, mas a massa que
provém da desintegração aguda da sociedade e, acima de tudo, da desintegração
da classe média [Mittelstandes]. Desnecessário se torna dizer, contudo, que os
números do proletariado foram também engrossados pelas vítimas da pobreza
material e da servidão germano-cristão”.
Entretanto, a industrialização na Alemanha, apesar de significativa, era
bastante incipiente, comparada, por exemplo, com a da França e da Inglaterra.
A Alemanha continuava a ser um país de artesanato e indústria doméstica. A
classe trabalhadora alemã era formada por artesãos de ofício e semiproletários,
ainda não desvinculados da terra, e ex-artesãos da indústria doméstica
capitalista (tecelões, fiandeiros, ferreiros, etc.), muitos deles em franco processo
de proletarização. A industrialização capitalista causou um declínio considerável
no padrão de vida de toda a classe trabalhadora alemã, particularmente após
1840. O empobrecimento do povo alemão era um fato demonstrado pelos
inúmeros escritos sobre problemas sociais, que surgiram na época, onde eram
formuladas as mais variadas propostas de reformas e de definição de objetivos
políticos.

8
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
No início de junho de 1844 irrompeu na Silésia, distrito industrial da
Alemanha, uma sublevação de tecelões (weber, em alemão), uma massa de ex-
artesãos proletarizados, trabalhadores assalariados a domicílio, vinculados a
um grande capitalista. De imediato, os ex-artesãos, miseráveis e famintos,
protestavam contra a exploração e os baixos salários que lhes eram pagos. Uma
série de greves e motins operários passaram a ocorrer em outras partes da
Alemanha - da Baviera à Prússia Oriental - e na Áustria. Os tecelões silesianos
eram artesãos rurais, trabalhadores assalariados à domicílio, que forneciam
fiados de algodão aos grandes capitalistas.

Em 1844, os salários dos tecelões diminuíram, enquanto o preço dos


produtos alimentícios consumidos por eles, particularmente a farinha de trigo,
subiu. Os tecelões da Silésia comiam e vestiam-se pior do que os proletários
ingleses. A pobreza “normal” não tinha, até então, incitado eles a empreender
ações de revolta. Para que isso ocorresse foi preciso que o nível habitual de
miséria entre eles, subisse drasticamente. Foi o que ocorreu na primeira metade
de 1844, com a agudização da depressão industrial e comercial que atingiu a
indústria têxtil da Silésia. Um funcionário público de Berlim, capital da Prússia,
relatou que, “para mitigar a fome e com um pedaço de pão, os tecelões têm que
vender suas camas, vestidos, roupas e móveis.” Um jornal burguês disse: “Os
tecelões vagam como sombras pelas aldeias”. Os grandes capitalistas,
aproveitando o desemprego, reduziram os salários (os capitalistas mais odiados

9
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
pelos ex-artesãos, eram os irmãos Zwanziger, que tinham uma empresa têxtil
em Peterswaldau; e também, os irmãos Dierig em Langenbierlau).
Por exemplo, enquanto os ex-artesãos proletarizados passavam fome, os
irmaõs Zwanziger construiu um palácio, e os irmãos Dierig se enriqueceram
notavelmente. A fama dos irmãos Zwanziger era bastante conhecida entre os
próprios capitalistas silesianos, por sua avareza e crueldade. Eles eram os
primeiros a reduzir os salários e aplicavam freqüentemente multas sobre os
operários. Enquanto isso, os tecelões tinham consciência de que, à medida que
eles se empobreciam, os patrões se enriqueciam cada vez mais. Deste modo,
crescia a indignação entre os proletários de Peterswaldau.
No final de maio de 1844, a insatisfação entre os tecelões silesianos
chegou a seu apogeu. Em 3 de julho, os capatazes dos irmãos Zwanziger
agrediram um tecelão, que cantava uma canção de protesto diante da casa do
capitalista. No dia seguinte, um grupo de tecelões indignados foi à fábrica de
Zwanziger. Tentaram penetrar na oficina industrial, mas foram reprimidos.
Então os tecelões revoltados, irromperam no local e começaram a queimar
papéis, chegando a destruir os livros contábeis. Diante da sublevação dos
tecelões, Zwanziger e seus familiares fugiram.
Em 4 de Julho de 1844, pela manhã, uma multidão de tecelões de cidades
circunvizinhas – cerca de 5.000 tecelões! - chegou em Peterswaldau. Eles
invadiram a sede da empresa têxtil dos irmãos Zwanziger em Peterswaldau, e
destruíram tudo. Depois, utilizando armas improvisadas, os tecelões deixaram
Peterswaldau. Os insurretos se dirigiam às fábricas de outros capitalistas da
região. Atemorizados, tentaram acalmar os ânimos dos tecelões, dando-lhes
comida e dinheiro. No dia seguinte, 5 de junho, foram em direção a
Langenbielau, onde se localizava a empresa têxtil dos irmãos Dierig. Quando
eles chegaram, foram recebidos por um destacamento civil organizado
militarmente pelos irmãos Dierig. As tropas abriram fogo e mataram várias
pessoas presentes. Os tecelões, indignados com as mortes, conseguiram
expulsar os soldados e destruíram a oficina industrial e a residência dos irmãos
Dierig. Por fim, chegou um destacamento militar do governo da Prússia sob o
comando do Major Rosenberger e duas companhias de infantaria do exército
prussiano para reprimir a insurreição proletária. O choque violento deixou o

10
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
saldo de 35 tecelões mortos. Em 6 de junho de 1844 e nos dias seguintes, as
tropas governamentais se concentraram na região dos insurretos e procederam
a detenções generalizadas. Os acontecimentos da Silésia impulsionaram ações
operárias em outras partes da Alemanha e também na Áustria. (Apud B.
Ponomariov, EL Movimento Obrero Internacional, p.322)

Num artigo publicado no Vorwärts, em 27 de julho de 1844, sob o título


“O Rei da Prússia e a Reforma Social”, Arnold Ruge criticou a posição do jornal
republicano francês La Réforme, que considerava a irrupção da miséria operária
na Alemanha, cujo exemplo maior era a insurreição dos tecelões silesianos, o
sinal da revolução social exigida pela situação européia (Arnold Ruge era
jornalista e editor alemão condenado a seis anos de prisão por suas idéias
liberais. Ele colaborou com Marx nos Anais Franco-alemão – o Deutsch-
Französische Jahrbücher). Para Arnold Ruge, o La Réforme não conhecia toda
a realidade alemã. Segundo Ruge, não havia nenhuma disposição política para
uma reforma social na Alemanha: “Nem o Rei, nem a sociedade alemã têm
chegado a pressentir sua reforma, mesmo após a insurreição na Silésia e
Boêmia.” Assim, para Ruge, a miséria operária ainda era algo parcial e restrito
aos distritos fabris, não tendo se tornado na Alemanha, uma coisa geral,
pública, e muito menos era considerada como um mal de todo o mundo

11
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
civilizado. Além disso, Ruge não acreditava, naquele momento, numa iniciativa
consciente do proletariado alemão: “Os alemães pobres não são mais sensatos
que os pobres alemães, quer dizer, não enxergavam nada além do seu lar, da sua
fábrica, do seu distrito. Até hoje, o conjunto da questão carece dessa alma
política que penetra tudo”. E finalizou: “Todas as insurreições que ocorreram
nesse fatal isolamento dos homens diante da comunidade e de seus
pensamentos com respeito aos princípios sociais se transformarão em sangue e
irracionalidade (....) Uma revolução social sem alma política (quer dizer, sem a
compreensão que organiza segundo o ponto de vista do todo) é impossível.”
Portanto, Arnold Ruge considerava o movimento proletário na Silésia
apenas como uma aventura de “sangue e irracionalidade”, que não tinha
causado nenhum “susto” ao Rei e às autoridades, mesmo com suas demolições
de fábricas e máquinas. Inclusive, ele chegou a dizer que alguns soldados foram
suficientes para acabar com a insurreição dos pobres tecelões. Ele criticou o
isolamento político do movimento de sublevação dos proletários silesianos, seu
caráter de ação local, não vinculada com nenhuma bandeira política, como a
insurreição dos operários franceses em Lyon em 1834, ou movimento cartista
inglês.
Nas Glosas Críticas Marginais ao Artigo "O Rei da Prússia e a Reforma
Social. De um Prussiano" (no caso, Arnold Ruge), o jovem Karl Marx polemizou
com o jornalista alemão sobre o significado da insurreição dos tecelões da
Silésia. Marx chegou a uma nova conclusão: descobriu que as “excelentes
disposições sociais do proletariado alemão”, demonstrando não ser apenas o
“elemento passivo” da revolução, mas, pelo contrário, apresentando-se como o
próprio “elemento ativo”(thätige Element) da sua emancipação. A greve ou
insurreição dos tecelões da Silérsia foi o fato histórico que “clareou como uma
lanterna”, a percepção do jovem Marx sobre a função histórica da classe social
do proletariado na modernidade do capital (“clarear como uma lanterna” é uma
expressão utilizada pelo personagem Tom Joad, no filme “Vinhas da Ira”, de
John Ford, para se referir à autoconsciência provocada, no caso dele, pelos
ensinamentos do ex-pastor Casy como uma das lideranças da greve dos
trabalhadores rurais das plantações de fruta da Califórnia).

12
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014

Nas Glosas Críticas contra Ruge, Marx colocou que a miséria dos
operários nos distritos industriais não tinha apenas caráter local: as sublevações
dos tecelões da Silésia impulsionaram ações operárias em várias partes da
Alemanha e da Áustria. Além disso, a burguesia alemã não desconheceu
totalmente a importância geral desses acontecimentos. Disse Marx: “Todos os
jornais liberais, os órgãos da burguesia liberal estão repletos de organização do
trabalho, reforma da sociedade, crítica dos monopólios e da concorrência, etc”;
e destacou ele: “Tudo isso em conseqüência dos movimentos dos
trabalhadores”. A difusão de artigos em jornais alemães sobre questões sociais,
principalmente após a sublevação silesiana, demonstrou, segundo Marx, que a
insurreição dos tecelões não tinha sido apenas um drama de “sangue e
irracionalidade”, sem importância geral e distante de tornar-se do interesse
público, como pensava Ruge.
Nas Glosas Críticas, Marx procurou destacar, de forma muito clara, a
superioridade do proletariado alemão, em comparação com o proletariado da
França e da Inglaterra. Respondendo à colocação de Ruge sobre a insensatez
dos proletários alemães, Marx afirmou que o “Prussiano” (como Marx chamava
Ruge), não viu que “nenhuma sequer das revoltas dos operários franceses e
ingleses teve um caráter tão teórico e consciente [einen so theoretischen und
bewussten Charakter] como a revolta dos tecelões silesianos”. Para Marx, a
insurreição dos tecelões na Silésia tinha assumido o caráter de uma verdadeira

13
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
luta de classes: os pobres tecelões se sublevaram contra a burguesia e não
contra o Rei.
Era essa a valiosa particularidade do movimento do proletariado alemão,
comparado, por exemplo, com o movimento do cartismo inglês ou a insurreição
dos operários franceses em Lyon (em 1834): a revolta silesiana começa lá onde
terminam as revoltas dos trabalhadores franceses e ingleses, isto é, com a
consciência daquilo que é a essência do proletariado. Segundo Marx, a própria
ação do proletariado pobres da Silésia traz esse caráter superior. Não somente
foram destruídas as máquinas, “essas rivais do trabalhador”, segundo Marx,
mas também os livros comerciais, os títulos de propriedade; e enquanto todos
os outros movimentos se dirigiam contra o senhor da Indústria, o inimigo
visível, o movimento dos proletários da Silésia se dirigiu também contra o
banqueiro, o inimigo oculto. Enfim nenhuma revolta de operários ingleses foi
conduzida com tanta “coragem, reflexão e duração” [Tapferkeit, übertlegung
und Ausdauer].
É provável terem sido essas as primeiras observações de Marx sobre o
cartismo, o movimento político do proletariado inglês que reivindicava o
sufrágio universal. Marx parecia ter, naquela época, sérias restrições sobre o
caráter político do cartismo. Uma das suas fontes de informação sobre o
cartismo inglês parece ter sido os artigos sobre a situação política e social na
Inglaterra, publicada pelo jovem Friedrich Engels, desde dezembro de 1842, no
Rheinische Zeitung, Deutsch-Französische Jahrbücher e Vorwärts. Por outro
lado, Engels nutria grandes esperanças sobre o futuro do cartismo inglês, apesar
de ter sérias reservas sobre sua plataforma de “revolução por meios pacíficos”.
Arnold Ruge tinha dito que os operários alemães tinham um espírito
estreito, “não enxergavam nada além do seu lar, da sua fábrica, do seu distrito.”
Marx contestou essa afirmação de Ruge. Ele tomou como exemplo a canção dos
tecelões, “aquela ousada palavra de luta na qual lar, fábrica, distrito sequer são
mencionadas uma vez, pelo contrário, o proletariado proclama o seu
antagonismo com a sociedade da propriedade privada de modo claro, cortante e
poderoso. Ao tratar da capacidade cultural dos proletários alemães, Marx tomou
como exemplo maior os “geniais escritos” de Wilhelm Weitling, os quais,
segundo ele, “sob o aspecto teórico, muitas vezes ultrapassam o próprio

14
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
Proudhon. E disse: “Deve-se admitir que o proletariado alemão é o teórico do
proletariado europeu, assim como o proletariado inglês é o economista e o
proletariado francês é o político” (Wilhelm Weitling foi um alfaiate alemão,
figura de destaque entre trabalhadores socialistas e comunistas da primeira
metade do século XIX; e Pierre-Joseph Proudhon foi filosofo e economista
francês, do século XIX, autodidata cujas obras “criticando a propriedade
privada” marcaram época. Proudhon abandonou o socialismo e se tornou um
dos fundadores do anarquismo).

Esta longa digressão sobre a revolta dos tecelões na Silésia e a concepção


de proletariado em Marx contribuiu para salientar que, nos primórdios do
capitalismo industrial, a classe operária em movimento (ou o proletariado), de
fato, personificava em-si, a ação social transformadora das condições de
existência da sociedade burguesa. Embora a greve de operários têxteis no filme
“Os companheiros” não tenha assumido caráter insurrecional, percebe-se nela o
caráter da verdadeira luta de classes – os operários instigados pelo seu
“instinto de classe”, se insurgiram efetivamente contra a superexploração da
força de trabalho exercida pela burguesa industrial, classe dominante e classe
dirigente na cidade de Turim (na Itália).

O filme “Os companheiros”, dirigido por Mário Monicelli, foi lançado


em 1963 – o mesmo ano em que se lançou uma série de filmes clássicos do
cinema, alguns com temática social candente, como, por exemplo, “Céu e
Inferno”, de Akira Kurosawa (neste filme noir o mestre japonês mostra os
contrastes entre a burguesia e o proletariado); “O Leopardo”, de Luchino
Visconti (o mestre do neo-realismo italiano expõe a decadência da nobreza e
ascensão da burguesia no “Risorgimento” italiano); “Os Pássaros”, de Alfred
Hitchcock (uma fábula hitchcockiana da revolta da natureza contra o homem) ;
“Oito e Meio”, de Federico Felini (onde o mestre Fellini retrata a crise de
criatividade de um cineasta demonstrando o esgotamento do estilo de vida
burguês) – entre outros.
Mario Monicelli (1915-2010) foi um diretor do cinema italiano que
produziu comédias com fundo de crítica social. A comédia era o modo de

15
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
Monicelli tratar dos dramas humanos (como Chaplin). O filme “Os
companheiros” não é uma comédia, mas o tratamento narrativo do drama social
da greve possui a leveza humana difícil de encontrar noutros filmes de
engajamento social. Existe um ar de inocência nos operários têxteis que se
levantam contra o patrão aconselhados pelo professor Sinigaglia, agitador social
de inspiração socialista. Apesar de Sinigaglia aconselhar os operários, o filme
não se detêm na posição de vanguarda política de Sinigaglia, mas, pelo
contrário, expõe os dramas humanos dos operários que conduzem, pela
primeira vez, uma greve de longa duração contra seus patrões; e inclusive, o
drama humano de Sinigaglia, professor perseguido que abandonou a família
para se dedicar a causa socialista. Enfim, é a dimensão humana que cativa o
drama social do filme de Monicelli.

O filme “Os companheiros” começa com o letreiro nos informando o local


e temporalidade histórica do filme: “Turim – final do século XIX”.
Primeiro, Turim é uma cidade industrial do norte da Itália. Depois, a
temporalidade histórica do filme - fim do século XIX – foi a época histórica da
primeira Grande Depressão (1873 - 1896) do capitalismo industrial. Esta crise
capitalista fortaleceu as empresas pela centralização e concentração do capital.
Iniciou-se aí nova fase do capitalismo, a fase monopolista ou financeira, que se
desdobrou na exportação de capitais e no processo de colonização da África e da
Ásia.
A época histórica do filme “Os companheiros” é o começo da
industrialização italiana, país de capitalismo hipertardio – como a Alemanha.
No ano 1861, quando tornou-se a capital da Itália, Turim tinha 173 mil
habitantes. Após uma crise, devida à mudança da capital para Florença, Turim
desenvolveu uma economia industrial, tornando-se a segunda cidade industrial,
atrás apenas de Milão. Semelhante a Alemanha, a Itália na década de 1860 era
fragmentada territorialmente. Em 1870, ficou completado o processo de
unificação sob a liderança do Conde Cavour, primeiro-ministro de Piemonte. A
unificação política e aduaneira impulsionou a industrialização, que arrancou no
decênio de 1880-1890. A burguesia de Piemonte e da Lombardia tinha interesse
na unificação italiana, por isso investiram contra as forças conservadoras que

16
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
impediam o crescimento capitalista. Pelo fato de a Itália ser dividida em vários
reinos, possuía diversas leis e impostos que dificultavam a livre circulação de
mercadorias. A Itália atrasou seu avanço industrial mais do que a Alemanha,
visto que é pobre em matéria-prima, apresentava um mercado limitado e perdeu
a corrida colonial. Apesar dos obstáculos, o país conseguiu intensificar seus
processo industrial após a unificação política. Quando ocorreu o “milagre
italiano” (um rápido crescimento econômico), houve uma forte concentração
industrial no Norte da Itália (Vale do Pó) apesar da política de descentralização
industrial.
Por que a industrialização concentrou-se no Norte do país?
Durante muitos séculos (XII ao XVI) as cidades estados do Norte tinham
um forte comércio com o Oriente Médio e várias regiões da Europa. Veneza e
Gênova eram cidades que tinham um importante centro comercial. O comércio
permitiu o surgimento de cidades, nas quais com o tempo foi havendo uma
concentração de capitais nas mãos da burguesia e, uma aglomeração de
população, que, com a industrialização no século XIX, se tornou a mão-de-obra
e mercado consumidor. No Norte, com o crescimento comercial e urbano, o
feudalismo foi perdendo forças, e passou a disseminar uma mentalidade
burguesa. Ao mesmo tempo, o Sul ficou por muito tempo preso as estruturas do
feudalismo, que preservou uma agricultura atrasada realizada por uma
abundante mão-de-obra.
A principal indústria manufatureira da Itália é a indústria têxtil (a greve
operária no filme “Os companheiros” ocorre numa fábrica da indústria têxtil).
Mesmo hoje, a Itália é uma das maiores fabricantes de roupas e tecidos em geral
do mundo. Outras importantes indústrias de manufaturação na Itália são, em
ordem decrescente de importância, produtos alimentícios, derivados de petróleo
e gás natural, maquinário industrial, equipamentos de transporte, e produtos
químicos. As maiores empresas do país são a ENI, uma empresa petrolífera; a
Fiat, empresa automobilística; e a Parmalat, que lida com produtos
alimentícios. A indústria de manufatura responde por 23,25% do PIB italiano,
empregando 4,75 milhões de pessoas.

17
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
O filme “Os companheiros” inicia-se na época de inverno frio em Turim.
A primeira cena do filme, após os letreiros, é a cena da mãe despertando
Homero, o filho operário para o trabalho na fábrica: “Homero! Acorda. Já são 5
e meia”. As mulheres despertam primeiro. É a imagem primordial do lar
operário, onde a mãe exerce a função moral de organizadora do cotidiano
operário. Na familia operária, o papel da mulher progenitora é fundamental –
força de trabalho doméstico e organizadora do lar.
A mãe diz para Homero: “Lave-se bem! Não esqueça o pescoço e as
orelhas”. Homero, o filho mais velho – o primogênito - representa a
perpetuação da força de trabalho familiar. Monicelli inicia o filme expondo a
cotidianidade da familia proletária preparando-se para o trabalho na fábrica. É
a cena do alvorecer na manhã fria de inverno em Turim com os jovens operários
se levantando para a faina diária do trabalho na fábrica – 14 horas de trabalho.
Num primeiro plano, o jovem Homero evita banhar-se na água
congelada. A mãe exclama: “O carvão está molhado! Tem muita umidade na
casa!”. As condições de vida da familia operária no inverno, com a moradia
exposta às intempéries do frio congelante, comparam-se, por exemplo, às
condições de trabalho na fábrica. Talvez pior que acordar às cinco e meia da
manhã no inverno congelante de Turim, seja trabalhar 14 horas na fábrica
capitalista.
A seguir, Homero acorda o irmão caçula, aconselhando-o estudar. Ele
almeja ver o irmão estudar para que possa fugir do destino dos outros. Mas o
irmão não se aplica no estudo. Homero lamenta para a mãe a nota zero do
irmão. Pelo visto, o jovem Homero é um provedor da familia. A mãe pede-lhe
dinheiro para a comida.
É importante dizer que o filme “Os companheiros”, começa com o
despertar do jovem Homero e termina – como iremos verificar - com sua morte
nas manifestações dos operários em greve. O jovem Homero representa, por um
lado, a luta pela dignidade operária, na medida em que ele se torna apoio
importante da greve operária; mas representa também a luta pela dignidade
humana, incentivando o irmão a estudar para que ele possa fugir do destino
miserável de operário da fábrica. Trata-se da perspectiva de fuga individual pelo

18
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
estudo e ascensão social capaz de faze-lo emancipar-se do trabalho manual na
fábrica e inserir-se no trabalho intelectual no escritório ou repartição pública.

Depois da cena familiar, temos a cena matinal de entrada na fábrica. A


cena da massa de operários e operárias, homens, mulheres, crianças e
adolescentes, dirigindo-se na manhã fria para o local de trabalho é uma cena
magistral. Ela condensa o tempo cotidiano da vida operária. É a cotidianidade
das pessoas que trabalham. Cotidianidade que significa repetição monótono do
labor. Na verdade, a cotidianidade representa um atributo existencial da
laboralidade, condição sócio-ontológica do animal que se fez homem através do
trabalho. No caso da condição existencial de proletariedade – que é condição
existencial da laboralidade do homem proletário – a cotidianidade preserva o
traço de repetição monótono da luta pela existência material. O homem
proletário é um homem imerso na cotidianidade estranhada. Todo dia – menos
aos domingos - eles repetem o mesmo trajeto de deslocamento até a fábrica.
Nas suas reflexões sobre a vida cotidiana, a filósofa Agnes Heller
observou que a cotidianidade caracteriza-se por ser espontânea (no sentido de
que, nela, as ações se dão automática e irrefletidamente), econômica (uma vez
que, nela, pensamento e ação manifestam-se e funcionam somente na medida
em que são indispensáveis à continuação da cotidianidade); portanto, as idéias
necessárias à cotidianidade jamais se elevam ao nível da teoria, assim como a

19
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
ação cotidiana não é práxis. A cotidianidade baseia-se em juízos provisórios,
sendo, deste modo, probabilística; e recorrendo à ultrageneralização e à
imitação.
Os operários moram próximo da fábrica – por exemplo, Homero acordou
às cinco e meia e as seis horas entrou na fábrica. De imediato, temos o destaque
do relógio marcando 6 horas da manhã – hora de entrada dos operários e
operárias na fábrica. Na verdade, o local de moradia – a vila operária - é um
apêndice do organismo fabril. A proximidade do local de trabalho permite que o
capital se aproprie do tempo de vida disponível dos operários e operárias. Caso
morassem distante e tivessem ainda que trabalhar 14 horas, não teriam tempo
para descansar e repor as energias físicas e espirituais para o dia seguinte de
trabalho. Entretanto, a economia do tempo de trajeto é usufruída pelo capital e
não pelos trabalhadores e trabalhadoras. A expropriação do tempo disponível
pelo capital é um importante elemento da exploração do trabalho vivo.

A seguir, temos a cena do local de trabalho cotidiano – o chão de fábrica


permeado do sistema de máquinas automáticas. Trata-se de uma fábrica têxtil
onde a presença dos operários e operárias confunde-se com a presença
imperativa do sistema de maquinaria. Quase não conseguimos distinguir na
imagem do sistema de máquinas no plano geral do chão-de-fábrica, a presença
do trabalho vivo como força de trabalho capaz de dar vida à matéria-prima (os
fios de lã). Na grande indústria, os operários e as operárias são apenas

20
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
apêndices do sistema de máquina. Entretanto, sem a força de trabalho, as
máquinas não funcionariam – enfim, seriam inúteis. É o que observou Marx
nessa passagem do Livro I de “O capital”:
“Uma máquina que não serve no processo de trabalho é inútil. Além
disso, sucumbe à força destruidora do metabolismo natural. O ferro enferruja, a
madeira apodrece. Fio que não é usado para tecer ou fazer malha é algodão
estragado. O trabalho vivo deve apoderar-se dessas coisas, despertá-las dentre
os mortos, transformá-las de valores de uso apenas possíveis em valores de
uso reais e efetivos. Lambidas pelo fogo do trabalho, apropriadas por ele como
seus corpos, animadas a exercer as funções de sua concepção e vocação, é
verdade que serão também consumidas, porém de um modo orientado a um
fim, como elementos constitutivos de novos valores de uso, de novos produtos,
aptos a incorporar-se ao consumo individual como meios de subsistência ou a
um novo processo de trabalho como meios de produção”. [o grifo é nosso]
Portanto, é a força de trabalho viva que desperta as coisas – por exemplo,
maquinaria, fio de algodão, etc – “dentre os mortos”, transformando valores de
uso apenas possíveis em valores de uso reais e efetivos. É a força viva do
trabalho que opera o movimento de passagem daquilo que é apenas possível
(potência) para aquilo que tornou-se real e efetivo (ato)
Primeiro, o fogo do trabalho se apropria dos corpos das coisas –
“apropriadas por ele como seus corpos”; depois, anima o corpo das coisas “a
exercer as funções de sua concepção e vocação”. Ao descrever o processo de
trabalho como processo de valorização, a relação da força de trabalho viva com
as máquinas no processo de produção capitalista, Marx se utilizar da força das
imagem do intercurso sexual – apoderar-se de corpos, lambe-los pelo fogo –
poderíamos dizer, fecundá-los – animando-os a exercerem suas funções. Mais
adiante, veremos que, aquele que começa a “trabalhar” como se tivesse “amor
no corpo”, é, na verdade, o próprio capital como movimento de auto-valorização
do valor. É o capital que organizou as condições de produção de mercadorias,
concentrando os fatores do processo de trabalho no chão-de-fábrica, fazendo-os
“fecundar”:
“O capitalista, ao transformar dinheiro em mercadorias, que servem de
matérias constituintes de um novo produto ou de fatores do processo de

21
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
trabalho, ao incorporar força de trabalho viva à sua objetividade morta,
transforma valor, trabalho passado, objetivado, morto em capital, em valor
que se valoriza a si mesmo, um monstro animado que começa a “trabalhar”
como se tivesse amor no corpo”.
Deste modo, Marx caracteriza o movimento do capital como valor que se
valoriza a si mesmo, na medida em que incorpora força de trabalho viva à sua
objetividade morta – isto é, incorpora força de trabalho (como trabalho vivo) ao
sistema de máquinas (trabalho morto) – como um “..monstro animado que
começa a ‘trabalhar’ como se tivesse amor no corpo” (a frase "como se tivesse
amor no corpo" — als haett’es Lieb im Leibe — é uma citação modificada de
Goethe, no “Fausto”. Parte Primeira. “Adega de Auerbach, em Leipzig.”).
Os operários têxteis do filme “Os companheiros” são, não apenas força de
trabalho como mercadoria, mas sim, trabalho vivo que se contrapõe ao
trabalho morto, a objetividade morta das coisas (máquinas, matéria-prima,
insumos e instalações de produção). Enquanto trabalho vivo são capazes de se
contrapor ao capital e lutar pela emancipação social do trabalho.

Nas primeiras cenas do filme “Os companheiros”, temos o cotidiano do


processo de trabalho na fábrica – não apenas a operação das máquinas de tear
conduzidas pelos operários e operárias, e o serviço de apoio dos jovens
operários auxiliares no chão de fábrica (como Homero), mas também as
picuinhas cotidianas entre operários e o olhar vigilante do capataz observando
do alto, a produção. O relógio marca 10h 30min da manhã – a produção
prossegue. À 1h apita a sirene – intervalo para o almoço.
É interessante a cena da mãe – Rosita - carregando na paisagem gelada, o
bebe para que o pai possa vê-lo no portão da fábrica no intervalo do almoço.
Alguém exclama: “Mas que idéia, pedir para trazer o menino neste frio”. Mas o
pai retruca: “Quando eu saio, está dormindo. Quando volto, está dormindo.” E
afirma: “Tenho direito de vê-lo”. O pai acaricia o bebe, que chora indiferente à
presença do pai: “Olhe o seu pai!”, exclama o pai. Logo a seguir, lamenta: “Está
vendo? Nem me reconhece!”.
No filme “Os companheiros”, os operários e operárias tem jornada de
trabalho de 14 horas com breve intervalo para o almoço – os operários e

22
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
operárias comem, bebem e fumam – com rapidez. O relógio marca 1:30 h e a
sirene apita. O tempo é curto – 30 minutos para o almoço. “A gente não tem
tempo nem para comer em paz” – diz um operário.
Um detalhe: na hora do almoço, a presença do operário siciliano –
Salvatore Arró (apelidado de Negrus) – que não acompanha os demais na
refeição. Ele apenas observa impassível. A fala do Pautasso indica de imediato o
preconceito contra o operário imigrante siciliano: “Esses canibais engolem sem
mastigar”.
O filme mostra a hora do almoço e o cansaço no final da jornada. O
relógio indica 8 horas da noite. O processo de trabalho prossegue indiferente ao
cansaço da pessoa que trabalha. Mais de 12 horas de trabalho que começam a
abater mente e corpo dos operários e operárias. Torna-se visível no rosto das
mulheres que fiam a expressão de cansaço.
Foi o cansaço e estresse do final da jornada de trabalho que ocasionou o
acidente de trabalho. Alguém exclama: “Parem as máquinas! Parem a polia”. A
máquina prendeu o braço de um operário, esmagando-o. O acidente de trabalho
provoca efetivamente o início do filme. Como fato extraordinário, o acidente de
trabalho quebra a cotidianidade, causando um trauma no coletivo de operários e
operárias, indignados com o acontecimento trágico. O acidente de trabalho
rompe com a pseudoconcreticidade da vida cotidiana. O operário não morreu,
mas ficou lesionado para toda a vida.
Na verdade, a longa jornada de trabalho tornou-se responsável pelo
acidente de trabalho. A seqüência de imagens do relógio indicando a ditadura
do tempo, a velocidade do sistema de máquinas e o cansaço dos operários e
operárias expõem o campo de risco e periculosidade do homem proletário
exposto às intempéries da produção do capital. A luta pela redução da jornada
de trabalho no final do século XIX caracterizou o movimento ascendente de
lutas operárias em vários países capitalistas (EUA, Inglaterra, Alemanha,
França e Itália). Portanto, o filme “Os companheiros” expõe como elemento
impulsionador da greve operária, a reivindicação pela redução da jornada de
trabalho como movimento de apropriação progressiva do tempo de vida
disponível pela classe trabalhadora. Não se trata apenas da luta para se
trabalhar menos, mas sim, da luta para se apropriar das condições de produção

23
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
da vida social, reduzindo, deste modo, os riscos de acidentes de trabalho. O nexo
trabalhar menos para viver mais – no sentido da luta pela saúde do
trabalhador ou saúde do homem-que-trabalha – é um traço candente do filme
“Os companheiros”.
No filme “Os companheiros”, o acidente de trabalho vai provocar uma
inflexão narrativa, com a indignação de operários e operárias impulsionando
uma série de ações contra a situação trágica.
Não se trata apenas de indignar-se contra a sina do operário individual,
lesionado pela máquina do capital; mas indignar-se contra aquilo que eles
identificam como sendo a raiz da tragédia: a jornada extenuante de trabalho.
Naquele momento, não se contesta valor do salário ou condições de trabalho,
mas sim, a jornada laboral. Naquele meio-ambiente de trabalho caracterizado
pela intensificação do trabalho, dado pelo ritmo do sistema de máquinas, e a
longa jornada de trabalho (14 horas!), o risco de acidentes de trabalho –
lesionar-se ou morrer no local de trabalho – atinge a todos.
Nesse caso, a articulação perversa entre mais-valia absoluta
(alongamento da jornada de trabalho) e mais-valia relativa (intensificação do
trabalho) tornou-se fator de risco para a saúde do trabalhador – não apenas
pelo aumento da probabilidade de acidentes de trabalho, mas pela redução do
tempo de vida a tempo de trabalho (tempo de vida que se caracteriza, por
exemplo, pelo tempo disponível com a familia, tempo disponível para as
refeições e tempo disponível para o estudo). Na medida em que o tempo de vida
se reduz a tempo de trabalho, deprime-se o ser genérico do homem, ocorrendo,
deste modo, aquilo que denominamos “precarização do homem-que-trabalha”.

O filme “Os companheiros”, de Mário Monicelli pode ser dividido em 3


partes. Na primeira parte do filme, tivemos a apresentação do cotidiano
operário, o processo de trabalho capitalista no chão-de-fábrica e o cenário de
exploração/espoliação do capital – foi o que vimos até agora.
Na segunda parte, temos as articulações dos operários visando dar uma
resposta coletiva à degradação do trabalho – a construção da ação coletiva pela
redução da jornada de trabalho.

24
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
Finalmente, na terceira parte, temos a processualidade da greve (e seu
cotidiano) como resposta operária efetiva à exploração do capital. O epílogo do
filme ocorre com as conseqüências da repressão policial contra o movimento
grevista.
Após o acidente de trabalho, as lideranças operárias buscam meios para
reivindicar coletivamente a redução da jornada de trabalho. Trata-se de um
grupo de operários – entre eles, uma mulher - que organizam pela base, o
movimento operário. Num primeiro momento da ação operária, temos a coleta
no hospital para ajudar o operário lesionado no acidente de trabalho – segundo
dizem, ele vai ficar com a mão atrofiada. “Coleta para o companheiro!”, exclama
o jovem Homero. “Sempre coleta. É só o que as pessoas fazem”, diz outro
operário inconformado com a passividade da coleta. Na verdade, a coleta é o
gesto mínimo de solidariedade utilizado pelos operários. Como eles não têm
caixa de previdência, o auxílio aos acidentados vem da coleta e solidariedade de
classe. A caixa de auxílio e a previdência social nasceu como um gesto de
solidariedade de classe. Entretanto, a iniciativa da coleta tornou-se
insatisfatória para acolher a indignação operária que chegou no seu limite.
No hall do hospital discutem entre si. Poucos colaboram com a coleta
(“Não temos sequer para nós”, diz um operário). Uma operária observa que os
companheiros estão se tornando “animais”, isto é, incapazes de um gesto de
generosidade. Um operário – Martinetti - observa: “[somos animais, sim!]
Trabalhamos 14 horas seguidas e temos meia hora para o almoço! E depois
dessa desgraça, nem sequer protestamos. Não, nós não nos comprometemos.
Fazemos coleta e pronto!”. E exclama para Pautasso, uma das lideranças
operárias: “Nós somos cordeirinhos. Isso é o que somos! Cordeirinhos!”. Mais
tarde, como iremos ver, Martinetti, o operário que provocou Pautasso a
protestar contra os patrões, e conclamou os companheiros a deixarem de ser
cordeirinhos, será o primeiro a defender o encerramento da greve.
Naquele momento, no hall do hospital, Pautasso colocou a idéia de falar
com os patrões. Eles ainda não sabem o que dizer. A consciência contingente – a
consciência da indignação – encontra aquém da consciência de classe em-si.
Um operário coloca como pauta de conversação com os patrões que “14 horas de
trabalho é demais”. Encontram um eixo de reivindicação: a redução da jornada

25
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
de trabalho. Pautasso diz: “Isso! Que diminuam a jornada, ou então...”. Nada diz
– não está no horizonte deles a greve.
Portanto, a consciência coletiva da indignação – primeiro passo da ação
operária contingente - faz com que eles criem uma comitiva de operários (com a
presença de uma mulher operária) para ir conversar com o patrão. Primeiro,
dizem que a comitiva não vai ter chefe (um instinto de classe contra a divisão
hierárquica do trabalho). Depois, a presença de uma mulher na comitiva é
contestada por Pautasso (o machismo como traço cultural da sociedade
burguesa, presente inclusive entre operários). Entretanto, uma voz feminina se
insurge: “Nós trabalhamos, participamos na coleta, e não nos deixam
protestar?”.
No dia seguinte, dia chuvoso e frio, a comitiva composta por Pautasso,
Martinetti e a operária se dirigem ao escritório da fábrica. Querem falar com o
diretor da fábrica (tratado como Sr. Engenheiro). Demonstram insegurança,
afinal é a primeira vez que reivindicam diante do patrão – isto é, colocam-se
como ente coletivo que reivindica. Dizem: “Falamos em nome de todos”. O
gerente da direção da fábrica se coloca entre eles e o Sr. Engenheiro. Como
corpo burocrático intermediário, evita que a comitiva de operários se encontre
diretamente com o patrão imediato. O Poder possui seus fossos que impedem o
acesso do Inimigo ao interior do Castelo. Dizem para o gerente da fábrica: “É
sobre o horário. 14 horas é demais” – diz Martinetti, que assume a frente da
Comitiva. Os operários fazem um apelo à razão do capital. Mas como
personificação do capital, o capitalista e seu corpo burocrática não se curva à
razão humana. Nesse momento, os operários ainda não reconhecem que existe
interesses antagônicos de classe entre o capital e o trabalho. Enfim, não se põe
naquele momento, a dimensão do em-si da classe.
O gerente da fábrica procura dissuadi-los sobre a reivindicação da
redução da jornada de trabalho: “Ainda bem que não entraram. Se vocês
dissessem isso ao engenheiro, vocês iriam acabar mal.” E exclama: “Horário,
Horário! Todo mundo faz este horário em Turim!”. Martinetti pergunta: “E as
tragédias?”. O cinismo habitual das personificações do capital se manifesta
quando o gerente afirma: “Filho meu, as tragédias são tragédias. Acontecem”; e

26
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
exclama: “Tem que trabalhar com mais atenção para não acontecer nada. O que
o engenheiro tem a ver com isso?”.
O gerente da fábrica utiliza como recurso de argumentação típica das
personificações do capital, a culpabilização das vítimas. A culpa pelo acidente
de trabalho, segundo ele, foi do operário que não trabalhou com atenção. E
afirma depois: “Ouçam. Eu sou um assalariado como vocês. Estou com vocês e
lhes digo de coração. Tratem de ser realistas. O que pensavam fazer é absurdo.
Quem lhes colocou essa idéia na cabeça?”.
Mais uma vez, o gerente da fábrica apelou para a ideologia do capital,
buscando identificar-se com os próprios operários – “eu sou um assalariado
como vocês”. Na verdade, ele é e não é um assalariado. É verdade que ele é um
assalariado, na medida em que é empregado do capitalista, proprietário dos
meios de produção; entretanto, na medida em que possui um cargo de gerencia,
incorpora a função de controle, vigilância e administração do capital. Torna-se,
deste modo, uma personificação do capital, ocupando, como gerente, uma
posição contraditória na estrutura de classes.
Não se trata apenas do gerente da fábrica ser aquilo que denominamos
“proletário de classe média”, um assalariado cuja inserção na posição
contraditória de classe deriva da ideologia de status e prestigio dada pela
estratificação social, colocando obstáculos efetivos ao desenvolvimento da
consciência de classe. O gerente da fábrica, além de ser “proletário de classe
média”, tornou-se personificação do capital, tendo em vista que exerce uma
função social de comando na divisão hierárquica do trabalho.

Mecanismos ideológicos do Capital

culpabilização das vitimas

manipulação da identificação de classe

negação da autonomia intelectual-moral dos operários


(Selbsttätigkeit)

27
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
A fala do gerente da fábrica, ao perguntar “Quem lhes colocou essa idéia
na cabeça?”, expressou, no final, um desprezo pela capacidade dos operários
agirem por conta própria. Na verdade, o capital nega peremptoriamente aquilo
que Marx denominou Selbsttätigkeit (a auto-atividade do proletariado). Esta é
mais um pedaço da ideologia do capital contida na fala do gerente de fábrica.
Portanto, numa simples fala, conseguimos identificar “pérolas” da ideologia do
capital que permeiam o discurso hegemônico burguês (culpabilização das
vitimas, identificação de classe e falta de autonomia intelectual-moral dos
operários).
De imediato, o operário Martinetti replicou quando o gerente da fábrica
disse que era um absurdo reivindicar para o Sr. Engenheiro, a redução da
jornada de trabalho. Disse Martinetti: “Absurdo é explorar as pessoas. Estou
certo ou não?”. Pelo visto, percebe-se que Martinetti ainda acreditava na força
da razão, esperando que o gerente da fábrica, persona do capital, pudesse
concordar com ele (“Estou certo ou não?”). Trata-se de resquícios da ilusão de
classe que permeia a consciência contingente do proletariado.
A indiferença do dirigente da fábrica, impedindo a conversa da comitiva
dos operários com o Sr. Engenheiro, provocou nos operários, um pequeno
aprendizado: eles têm que agir por conta própria. É o que o jovem Marx
denominou Selbsttätigkeit (a auto-atividade) da classe operária, dando um
passo noutra direção: a paralisação da fábrica como protesto.
A paralisação de 1 hora ideada pelos operários buscou sensibilizar o
capitalista para a negociação sobre a redução da jornada de trabalho.
Entretanto, a paralisação dos operários fracassou porque apenas Pautasso, um
dos líderes operários, parou efetivamente de trabalhar. O fracasso do primeiro
movimento coletivo de protesto provocou uma ruptura no coletivo operário. O
fracasso da paralisação de 1 hora demonstrou dificuldades de organização e
direção política do coletivo operário.
Ao sair da fábrica, naquela noite gelada, os operários aguardam Pautasso.
Indignado e ressentido, ele sentiu-se traído pelos demais companheiros. “Que
amigos que vocês são! Fiquei sozinho!”, vociferou o furioso Domingo Pautasso.
Seus companheiros observam que o fracasso da paralisação decorreu do fato de

28
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
não estarem preparados. Eles não tinham sequer um comitê de greve. Pautasso
foi suspenso por duas semanas pelos patrões e os demais operários receberam
multas pela tentativa ousada de paralisação da fábrica. Os operários tentam
convencer Pautasso a voltar a integrar-se com o coletivo operário: “Nós lhe
daremos nosso salário. Temos que permanecer unidos”. Pautasso vocifera:
“Sim, como os testículos”. É no momento da briga de rua entre Pautasso e os
operários, que chega de trem em Turim, naquela noite fria, o professor
Sinigaglia. Exclama: “Com licença, que cidade é esta?”. Meio perdido, ele chega
no exato momento da troca de insultos e pedras entre o furioso Pautasso e os
demais operários. Pautasso retruca: “Uma cidade de merda!”. A filha de
Pautasso, que tenta conter o pai, diz: “Que forma de responder! É Porta Susa,
Turim”.
É o professor Sinigaglia que dará direção política ao movimento operário
nascente da fábrica têxtil em Porta Susa, Turim. A sua chegada no momento de
crise do coletivo operário tornou-se deveras providencial. Como intelectual
orgânico, Sinigaglia contribuirá para dar direção política ao instinto de classe
em-si do coletivo operário em movimento.
A cena seguinte, um professor ensina alguns poucos operários a
identificar o sujeito das frases: “A rosa é perfumada. O sujeito é...a rosa!”. É uma
cena significativa pois o filme “Os companheiros” é a própria narrativa de
identificação do sujeito da história: a classe operária capaz de organizar-se e
lutar pelos seus direitos. Mas os alunos operários estão apáticos e nada
respondem. É o professor que indica o sujeito das frases.
O professor é um profissional heróico que se dedica a alfabetizar os
operários para que eles possam votar nas eleições: “Nestes toscos bancos vocês
adquirem o direito de intervir no Parlamento”, diz o professor. E exclama com
verve idealista: “Esta aula deve ser o crisol de inteligências, de forças novas,
frescas, que alimentam uma fé cada vez mais vigorosa...”. Mas o professor se
desanima pois encontra diante de si, operários cansados e estafados na sala de
aula, tendo em vista a longa jornada de trabalho. Para que os operários possam
estudar e crescer intelectualmente, eles precisam de tempo de vida. Entretanto,
na medida em que o capital reduz o tempo de vida a tempo de trabalho, ele
castra as possibilidades de crescimento intelectual-moral dos operários. Como

29
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
disse Marx, “o tempo é o campo de desenvolvimento humano”. Eis a
importância fulcral da luta pela redução da jornada de trabalho.
Nesta cena da escola se põe outro modo de intervenção política da classe
operária: o voto nas eleições para o parlamento. Para que isso ocorra, eles têm
que se alfabetizar. Mas para que tenham ânimo para a alfabetização, precisam
lutar pela redução da jornada de trabalho, pois o excesso do labor impede que
eles usufruam o próprio direito do voto, onde estar alfabetizado é condição sine
qua non. Portanto, o filme expõe uma dialética histórica fundamental: a
conquista do tempo de vida por meio da luta social – a luta pela redução da
jornada de trabalho – como condição pressuposta da habilitação legal e
fortalecimento do movimento político como meio efetivo de emancipação
social do proletariado.
Portanto, neste momento do filme, percebemos dois modos de
intervenções sociais da classe operária na sociedade burguesa – a greve e o voto
É curioso que o professor pede para que o operário Barbero escreva uma fase no
quadro e ele escreve a frase anarquista: “Morte ao Rei” (o professor, intelectual
tradicional, contesta Barbero, dizendo que a cultura é uma questão de mesura,
de educação, de autodisciplina, sem perceber o sentido prático-sensível da frase
escrita de Barbero). Deste modo, a educação formal – a alfabetização – é um
meio instrumental para a habilitação moral-intelectual do proletariado que não
apenas se habilita para votar, mas que expressa por meio dela, pensamentos e
idéias revolucionárias.

Redução da jornada de trabalho Tempo de vida Voto socialista


(conscientização)

É na cena da escola que o professor Sinigaglia se apresenta como novo


professor da escola. Diz ser enviado pelo Dr. Pancani, de Gênova. Ele deve se
acomodar na escola. Sinigaglia é um professor socialista, agitador profissional
que foge da polícia de Gênova. Por isso, conseguiu uma carta de recomendação
do Dr. Pancani para esconder-se em Turim.

30
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
A escola dos operários torna-se o lar de Sinigaglia. Mas naquela noite, os
operários decidem fazer assembléia na escola para decidir os rumos do
movimento contra a jornada de 14 horas. Eles lotam a escola. Naquele
momento, Sinigaglia dorme na escola. Enquanto isso, os operários reunidos
com um comitê de greve, discutem os rumos do movimento. Na assembléia, um
dos operários fala num dialeto (de Bérgamo), demonstrando a clivagem cultural
do movimento operário (por exemplo, outro traço de clivagem cultural é a
presença de um operário do Sul – da Sicília, discriminado pelos operários do
Norte). O rude Pautasso decide retornar ao coletivo dirigente. O jovem operário
Raul Bertone diz: “Já não nos escarneceram depois de ontem? Só lhes digo uma
coisa. Pensem bem antes de...” Líder nato, Pautasso interrompe Bertone
chamando-o de retardado. Mas, de repente, pela primeira vez, o professor
Sinigaglia, aparece num canto e pede a palavra, dizendo que o jovem Raul
Bertone não está totalmente equivocado. Sinigaglia tenta fazer os operários
refletirem sobre determinadas percepções da luta operária que impõem
mudanças de táticas e modos de organização.
O professor Sinigaglia, cuidadoso ao intervir na assembléia de operários,
pergunta: “Posso lhes dar o meu ponto de vista?”; e fala o que pensa do
movimento dos operários têxteis de Porto Susa: “De fato, vocês deveriam pensar
duas vezes antes de promover uma agitação. Nisso ele tem razão.” Interrompido
por Pautasso, prossegue: “E sem dúvida que vocês conseguiram o mais
importante: uma unidade quase total entre vocês e eu sei como é difícil ver
tantos operários juntos fora de seus locais de trabalho. Mas eu me pergunto: não
é um pecado desperdiçar uma ocasião tão importante por uma hora de
abstenção? Pensem bem.” E salienta com vigor e força de oratória: “Não uma
hora, eu diria, mas um dia, uma semana? Até que seus patrões percebam que
estão lidando com homens e não com burros de carga!”. A assembléia levanta-
se em aplausos. “O que você propõe é uma greve?” – pergunta um líder
operário. Pautasso toma a palavra e diz: “Sim, é uma greve. Evidente”. Um dos
lideres operários, Martinetti exclama: “Amigos, façamos a greve. E maldito seja
aquele que se opor.”.
Entretanto, Sinigaglia quer restaurar o procedimento democrático
correto no processo decisório da greve. Diz: “Deixem que escolham livremente

31
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
entre si”. É deste modo que se deve agir democraticamente numa assembléia de
trabalhadores que decide uma greve. “Se o jovem tem medo, tem o direito de
dizer não.” – diz Sinigaglia dirigindo-se a Raul Bertone que retruca: “Eu não
tenho medo. A única coisa que temo é a facilidade com que vocês dão atenção a
um estranho. Quem é que o conhece?”. Sinigaglia diz que se ocupa destes
problemas operários há bastante tempo e que só deu um conselho.
O comitê operário encaminha de imediato a decisão da greve, pondo em
votação: “Os que aceitam a greve que levantem a mão”. Raul Bertone se abstém,
mas depois diz que aceita. Após a decisão da greve, os operários começam a se
retirar efusivamente, mas Sinagalia alerta: “Um momento, amigos. Eu, por
outro lado, lhes aconselharia um pouco mais de discrição. Não digam nada
enquanto não se abastecerem totalmente de alimentos, de carvão, de uma boa
quantidade de mantimentos. E a crédito! Sem pagar”. E prossegue: “Estou lhes
dizendo isto porque vocês têm que se preparar para resistir. A partir de amanhã,
quando souberem que estão fazendo greve, ninguém lhes dará mais crédito, lhes
darão com a porta na cara. É bom que saibam disto desde já.”
É da reunião do comitê e assembléia operária que – com intervenção do
professor – eles decidem não fazer mais apenas uma paralisação, mas sim, levar
a cabo uma greve por tempo indeterminado. Foi idéia do professor, que
interveio com muito tato e objetividade, buscando raciocinar com os operários,
que passaram a respeita-lo. De imediato, o professor Sinigaglia torna-se
consultor político do movimento dos operários da fábrica. Ele torna-se a
consciência exterior que desperta neles a consciência de classe necessária.
Ao lado da trama narrativa principal, temos elementos da vida cotidiana
operária: os namoros de Raul Bertone, as canções entoadas pelos operários e
operárias no cotidiano (a musicalidade perpassa o cotidiano da classe operária
caracterizado pelas lutas coletivas e utopias amorosas – das canções de
militância, como a canção-tema do filme; às canções dos amores perdidos..).
O professor Sinigaglia hospeda-se no apartamento com Raul Bertone. Diz
ele: “O comitê me alojou aqui. Eles me nomearam conselheiro e terei que ficar
aqui por uns dias.” Bertone revolta-se pois não quer dividir sua cama com
Sinigaglia. Num primeiro momento, ocorre uma hostilidade entre Raul e

32
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
Sinigaglia. Mas logo eles se entendem com a mediação do comitê (Pautasso,
Cesarina, Martinetti).
O professor Sinigaglia é um homem simples. É o professor socialista,
agitador idealista dos primórdios do movimento operário, homem errante
comprometido apenas com a organização e a luta. Renunciou a vida burguesa –
casamento e familia – e dedica-se ao ativismo socialista. Não possui nada, a não
ser seus ideais. Por exemplo, carrega dentro de seu nécessaire o mínimo
possível: um ovo, um sabonete, uma meia, uma pequena escova e um flautim
(instrumento do século XVII).
No filme “Os companheiros”, Salvatore Arró, o operário oriundo da
Sicília, pai de familia pobre, decide furar a greve. Diz ele para o comitê de greve
(Pautasso, Martinetti e Cesarina): “Estou comunicando com todo respeito que
amanhã eu me apresentarei para trabalhar”. Pautasso exclama: “Quem é você?”.
E o siciliano responde: “Um desesperado”. E prossegue: “Estou há 15 dias em
Turim. Tenho uma familia e ninguém me dá crédito.” Salvatore diz: “Vocês do
Norte não pensam como a gente”. O operário siciliano não quer desobedecer o
comitê. Veio pedir autorização para que possa furar a greve. Como ele disse: “Se
me dão autorização, não desobedeço”. Mas Pautasso é categórico: “Se você for
trabalhar, quebrará a união.” Entretanto, Savatore – “Negrus”, como disse
Bertoni, utilizando um apelido pejorativo - está inflexível: quer ir trabalhar de
qualquer modo. O comitê teme que, caso ele fure a greve, todos o seguirão. Raul
Bertoni propõe que seja dado uma surra no siciliano que assim ele aprenderia.
O professor Senigaglia está pensativo no que fazer diante do impasse do
fura-greve Salvatore. Lamenta: “Em que mundo vivemos!”. E pondera: “O pobre
desgraçado abandona o seu povo com uma familia morta de fome em busca de
trabalho. Ele consegue. E nós o que fazemos? Nós o tomamos dele. Tornamos a
afundá-lo na miséria mais uma vez.” E exclama: “Isto parece justo?”. Mas
decide: “Vamos dar uma lição nele! Amigos, infelizmente Raul tem razão. Ou
agimos com firmeza, sem sentimentos, ou tudo se desmorona...Sem piedade.
Temos que ser implacáveis!”.
O professor Sinigaglia percebeu a contradição viva da dialética da
história. Por isso ele exclama: “Em que mundo vivemos!”. Muitas vezes, o
progresso da história exige o sacrifício de individualidades pessoais, não

33
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
permitindo sentimentos de piedade. A contingencia histórica impõe o sacrifício
de indivíduos em nome do processo civilizatório. Por isso, os dirigentes da luta
social pelo progresso histórico não devem ser sentimentalistas. Enfim, a luta
contra a injustiça social deve ser firme e implacável ou, como disse Sinigaglia,
“tudo se desmorona”. Na medida em que a atitude do siciliano Salvatore
prejudicava o movimento coletivo deveria ser combatida. Existe uma questão
filosófica de fundo: devemos ser humanistas na luta contra o sistema anti-
humanista?
A luta contra o capital ocorre no interior da sociedade civil burguesa cuja
principal característica é a o conflito sensível entre o indivíduo e o gênero
humano, expressão do estranhamento-de-si. Por isso, a luta pela emancipação
social está impregnada também da contradição viva entre desenvolvimento do
indivíduo e desenvolvimento do gênero humano em sua expressão imediata
estranhada: a classe social. A contradição viva se aguça no capitalismo histórico,
tendo em vista que nele a cooperação e dependência social entre os homens
tornou-se mais universal, tornando-se maior a universalidade do
desenvolvimento das suas faculdades individuais, e, portanto, a transformação
de um indivíduo singular num indivíduo social. A atitude do siciliano Salvatore
expunha a contradição viva entre a singularidade de chefe de familia pobre
desesperado e a condição de indivíduo social vinculado à luta pelo progresso
histórico que ocorre no interior da sociedade civil burguesa.
O professor Sinigaglia não vacila, como liderança intelectual-moral do
movimento grevista, percebe o risco da atitude de fura-greve de Salvatore. O
comitê dirige-se à casa do operário siciliano para dar-lhe uma lição. Entretanto,
ao chegarem no pobre casebre da familia do operário siciliano deparam-se com
uma cena de pobreza extrema – o casal e quatro filhos no interior do casebre.
Pautasso pergunta: “Você vive aqui?”. Salvatore diz: “O que você achava? Que eu
vivia no Palácio Real?”. Perplexo com a condição de indigência do siciliano,
Pautaso diz: “Jure que sem a permissão não irá trabalhar”. E Salvatore diz: “Eu
juro mestre Pautasso.”.
O comitê de greve passou a compreender a situação de miséria da
consciência do imigrante siciliano. A presença do imigrante expõe o preconceito
entre o Norte e o Sul na Itália e a questão meridional presente. O siciliano

34
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
Salvatore Arró apesar de operário, possui a mentalidade do camponês do Sul da
Itália. Como observou Gramsci, “a mentalidade do camponês continuou a ser a
do servo da gleba, que se revolta violentamente contra os "senhores" em
determinadas ocasiões, mas é incapaz de pensar a si mesmo como membro de
uma coletividade (...) e de desenvolver uma ação sistemática e permanente no
sentido de mudar as relações econômicas e políticas de convivência social”.
Por exemplo, o diálogo entre os dois jovens – a menina, filha do siciliano
(Gesumina) e o jovem operário do Norte (Homero), mostra a diferença cultural
entre as duas partes do mundo do trabalho na Itália (o sul agrário e pobre e o
Norte industrializado e desenvolvido).Homero diz para a pequena Gesumina:
“Não sabe que o Piemonte está pior desde que vocês chegaram, os sicilianos?”.
Gesumina replica: “Meu pai, por outro lado, diz que a Sicilia está pior desde que
vocês chegaram, os piemonteses.”. Trata-se, desde modo, da Questão
Meridional que determina a Questão da Revolução Italiana. A Questão
Meridional entre o Norte e o Sul da Itália atravessa a própria classe
trabalhadora italiana, dividindo-a e prejudicando a unidade social e política da
classe na luta pelo socialismo.
O diretor e o gerente da fábrica observam pela janela os operários
parados. Eles não entraram naquele dia para trabalhar. É a greve. A cena da
fábrica parada – máquinas desligadas e chão de fábrica vazio é expressão da
greve vitoriosa e do poder operário. O capital treme. “Eles não estão brincando”,
diz o diretor. A mobilização pela greve demonstra ser vitoriosa. “Faz 12 anos que
estou aqui e nunca imaginei ver algo assim.”, afirma o gerente da fábrica. O
diretor, assustado com o movimento paredista, exclama: “Eu vou diminuir a
jornada deles”. Ao mesmo tempo, ele cobra do delegado de polícia alguma ação
contra os grevistas. Mas o chefe de polícia diz que, “se eles não impedem
ninguém de trabalhar”, nada pode fazer contra o movimento grevista0. Enfim, a
união e a unidade do movimento de greve tornou-se uma força social.
Entretanto, logo a seguir, eles observam pela janela, que um operário – o
siciliano Salvatore – decidiu furar a greve. Os outros operários ficam inquietos,
gritando para Salvatore: “Para onde você vai? Não sabe que estamos em greve?”.
Impávido, Salvadore caminha e entra na fábrica para trabalhar. O operário
siciliano diz que tem a permissão do comitê. Alguém grita: “Ei, beduíno, pare!”.

35
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
Salvatore entra na fábrica cujo nome é Manifaturi Tessile Buratti-Pavesio. Da
janela os donos do capital observam. Dizem: “Bem, se alguém entrar é um bom
sinal”. Os operários ficam inquietos e conclamam outros a entrar. Os elos mais
frágeis da união operária intencionam furar a greve e chamar os outros
operários.
Mas ao chegar na fábrica, Salvatore Arró diz para os patrões: “Liguem as
máquinas! Estou pronto para o trabalho”. O diretor da fábrica, com ar
arrogante, interroga Salvatore: “O que os outros querem? O que vão fazer?”.
Salvatore responde: “Isto é assunto dele”. O supervisor retruca: “Está
defendendo esses canalhas?”. Indignado, o operário siciliano responde: “Esses
canalhas deram-me a permissão para trabalhar aqui.”. Ao colocar a questão da
permissão para trabalhar – a questão do poder – Salvatore cometeu um ultraje
contra o capital. O diretor da fábrica indigna-se: “Então eles deram permissão?
Se é assim, suma daqui”. O diretor quer resgatar o poder de autorizar quem
trabalhar ou quem não trabalha no chão de fábrica. É uma prerrogativa
inalienável do capital. Por isso, para se contrapor à “permissão dos operários em
greve” para Salvatore trabalhar, ele não permite que Salvatore trabalhe.
Exclama: “Fora daqui”. Mas o operário siciliano, ingênuo e confuso sobre quem
responde pelo poder do capital no chão de fábrica, exclama: “Eu quero
trabalhar, não vou embora.”. O diretor da fábrica exclama: “Fora! Fora!”. O
gerente pega no braço de Salvatore para faze-lo sair. Mas ele reage dizendo:
“Ninguém toca em mim. Ouviu, seu pedaço de rufião!”. O diretor da fábrica
esbofeteia Salvatore que exclama: “Seu desgraçado!”.
Ao tocar na questão do poder – a prerrogativa de decidir quem
permanece ou não na fábrica – abre-se um espaço para a violência. Salvatore
torna-se vítima da violência do capital e reage de modo abrupto, ameaçando os
prepostos do poder do capital com seu canivete. O gerente da fábrica chama os
seguranças que expulsam Salvatore. Ao invés de arrefecer a greve, a prisão do
siciliano incentiva os demais operários a permanecerem em greve.
A atitude do siciliano foi uma atitude digna do trabalhador
comprometido não com patrões, mas com uma atividade vital que lhe garante a
sobrevivência do dia-a-dia. Por isso ele se recusou a fazer greve – tornou-se leal
diretamente com o trabalho naquilo que ele representa de atividade vital,

36
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
mesmo que seja trabalho estranhado. Interessa a relação dele com a fábrica
como atividade vital, não importando os patrões – desde que eles não
interferissem no trabalho. Como oriundo da Sicilia, Salvatore traz herança do
conservadorismo resignado e aceitação da condição de subalternidade.
A solidariedade dos grevistas com Salvatore Arró se expressa na pequena
ajuda – uma coleta em dinheiro - que fizeram para a familia Arró que vive uma
situação de miséria absoluta. Salvatore foi preso por enfrentar os patrões no
chão-de-fábrica.

O diretor da fábrica (Engenheiro) e o supervisor tem uma reunião com o


proprietário da manufatura têxtil. Ao invés da preocupação com a persistência
da greve, dizem para o velho capitalista que “os trabalhadores não devem
resistir muito.” Enfim, tentam tranqüiliza-lo. Mas o velho capitalista,
autoritário, exclama: “Os prejudicados somos nós, Com a fábrica fechada, todo o
trabalho está paralisado.” E diz mais: “Eles [os operários], por outro lado, se
arranjam com coletas. E com as ajudas de caridade.” Na verdade o capitalista
quer cortar as fontes de apoio ao movimento grevista, visando sufoca-lo. Diz:
“Nós também temos amigos, e muito influentes. Cortemos os mantimentos dele
e quando eles se derem conta de quem é que manda, eles irão ceder.”.
O capitalista possui percepção clara de que a questão crucial é a questão
do poder. A essência do capital é o poder. É o poder que permite a exploração da
força de trabalho e a extração de mais-valia. A greve é a paralisação do poder do
capital. Por isso, o objetivo do capitalista é afirmar quem é que manda,
buscando subjugar os operários grevistas, cortando seus mantimentos obtidos
com a coleta na sociedade civil. Nesse momento, a luta entre capital e trabalho
adquire o sentido da luta de posição, com os grevistas buscando mantimentos
que permitam prolongar a greve e dobrar a intransigência patronal e os patrões
buscando cortar mantimentos dos operários grevistas e faze-los voltar ao
trabalho na fábrica.
Num momento do filme “Os Companheiros” observamos os operários,
mulheres e crianças coletando carvão para seus mantimentos. É o momento do
filme que trata da sustentação da greve como fator de d3sgaste do poder do
capital. Para obtenção dos mantimentos, os operários buscam na sociedade

37
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
civil, apoio de outras categoriais sociais. O desafio da greve de longa duração é
os operários conseguirem resistir, pois o comércio não vende mais nada para
eles e eles tem dificuldades de comprar mantimentos e alimentos (por isso,
antes de decretarem a greve, o Professor Sinigaglia recomendou a eles que
procurassem se abastecer no comércio local, pois depois de decretada nenhum
comerciante venderia nada para eles). Lênin ressaltou os limites da greve
operárias sem fundo de greve. É necessária haver uma preparação para
enfrentar o confronto com o capital que mobiliza toda sua rede de poder,
utilizando todos os seus recursos de pressão para faze-los voltar a trabalhar.
Nesse momento, resta aos operários mobilizar a rede de solidariedade na
sociedade civil. Por isso, percebe-se os operários pegando carvão utilizado para
se aquecerem, com a solidariedade dos ferroviários.
É curiosa a cena em que o Professor Sinigaglia busca o apoio ativo dos
ferroviários à greve dos operários têxteis. Diz ele: “Por que não se juntam a nós?
Vocês, os ferroviários são uma categoria forte, unida, e se todos fizerem greve, a
solidariedade aumentará.” O operário ferroviária diz: “Você fala sem saber o que
diz”. E prossegue: “Os ferroviários não podem se rebelar. Eles são militarizados
e seriam condenados como desertores.” E Sinigaglia retruca: “Ficarão olhando
sem fazer nada?”. E o ferroviário afirma: “Nem sequer olhamos. Os seus
companheiros roubam carvão e eu não os vejo.”. Eis a forma possível de
solidariedade dos ferroviários à greve dos operários têxteis. O professor
Sinigaglia, líder socialista, imaginava, de forma idealista, o apoio dos
ferroviários por meio da adesão deles à greve. Por vezes, Sinigaglia tem sutrtos
de idealismo, desprezando as correlações de força social e política no mundo
real. Faltou-lhe a percepção da mediação concreta que impedia que os
ferroviários fizessem greve como os operários têxteis. Portanto, Sinigaglia caiu
numa atitude esquerdista que despreza as mediações concretas na afirmação da
luta de classes. O operários ferroviário deu-lhe uma lição de politica,
demonstrando que diante da impossibilidade concreta da greve de ferroviarios,
a forma de apoio possivel – um tipo de solidariedade passiva - era deixa-los
roubar o carvão necessário para seus mantimentos.
O filme “Os companheiros” expõe também outra forma de solidariedade
à greve dos operários têxteis. Por exemplo, alguns militares do quartel local

38
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
também demonstraram solidariedade à greve oferecendo aos grevistas um
sopão de caridade. Percebe-se que as patentes mais baixas – soldados e cabos –
têm sensibilidade popular, oferecendo o sopão de caridade. Na verdade, a
iniciativa do sopão foi do cabo do quartel militar, provavelmente um militar
socialista. As patentes mais altas, como sargentos, têm má vontade no
oferecimento de apoio aos operários grevistas (logo depois, é o sargento que
aparece gritando, proibindo o sopão: “Isto aqui não é um restaurante. Já basta,
cabo!”).
Dessa solidariedade entre soldados de baixa patente e operários grevistas
nasce um romance entre um soldado e a filha de um operário (Bianca, irmã de
Homero). A cena do jantar na casa da familia operária com a presença do jovem
militar – do Norte, napolitano - mostra que existe algo em comum entre
soldados e operários, imersos na mesma condição de proletariedade.
Entretanto, soldados não fazem greve, embora estejam também numa posição
de necessidade. Por exemplo, o soldado diz: “Sabiam que esta sopa aqui é
melhor do que a do quartel? Deve ser pelo prato ou pela casa”. E diz: “Minha
casa é quase como esta”. Noutro momento afirmou: “E pensar que no campo
dissemos sempre: ‘ Felizes são os da fábrica.”
Num certo momento, os patrões chamam os operários para conversar.
Eles avaliam que os patrões estão cedendo. Eles proclamam por antecipação a
vitória. Entretanto, o processo da luta de greve é mais complexo exigindo tempo
e resistência. De imediato, o comitê prepara-se para negociar, esclarecendo,
numa reunião, a pauta de reivindicações.
Sinigaglia dá orientação politica aos Comitê discriminando os pontos de
reivindicação. Novamente, o professor socialista empolga-se com a luta de
classes, Enumera ele a pauta de reivindicações: Primeiro, 13 hortas de trabalho
e 1 hora de pausa. Segundo: revogação da punição de Pautasso. Terceiro. Todas
as multas serão revogadas...etc. 4º, 5º. e 6º. , 5 minutos de tolerância na
entrada, greve remunerada e seguro contra acidentes. Sinigaglia está exaltado
com as reivindicações. Ele para antes de enumerar a sétima reivindicação, tendo
em vista a perplexidade dos operários do Comitê diante da sua exaltação
reivindicatória. Pautasso inclusive faz brincadeira dizendo: “Por que não
pedimos logo café com conhaque?”. A exaltação reivindicatória indica mais um

39
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
traço limitado da personalidade militante de Sinigaglia - seu entusiasmo
militante que exagera na capacidade reivindicatória. Pautasso diz: “Melhor não
exagerar”. Sinigaglia não acredita que as reivindicações sejam muito. Exclama:
“Parece muito?”. Os operários dizem: “Pouco não é”. A presença de outro
professor na reunião pondera que a greve é um acontecimento sem precedentes
na cidade de Turim, uma cidade conservadora. E afirma: “Eu digo: ‘ cuidado
com os vencidos’”. Enfim, pondere-se se os patrões estão cedendo ou não.
A discussão do comitê de greve discutindo as reivindicações dos
operários é interrompida por uma briga familiar – Niobe, a filha de um operário
vem visitar a mãe e discute o pai, membro do comite de greve. Ela se declara
prostituta de luxo. Diz ela: “Sim senhor, eu saio com aquele que me pagar. Os
que precisarem de mim podem me encontrar no Café Corsini...” Algumas
mulheres operárias de boa aparência diante da situação de necessidade material
tornam-se prostitutas de luxo. A prostituição torna-se um meio de vida para
enfrentar a proletariedade. Nesse momento, o professor Sinigaglia a conhece e
trocam olhares.
Mas tarde, Niobe o reconhece num restaurante de luxo (Sinigaglia
faminto, tentou conseguir alguns trocados, tocando sua flauta, mas é expulso
do local). Ela vai conversar com ele, dando-lhe 2 liras. Trocam palavras. Ele se
apresenta como professor de escola. De repente ela fala de si, dizendo que o pai
queria que ela continuasse na fábrica têxtil trabalhando 16 horas e adoecendo.
Mas ela diz que mudou de oficio. Diz: “Fiz mal? Prejudico a alguém?” Sinigaglia
diz: “Fez muito bem”. E prossegue: “Eu também mudei de oficio.” A prostituta
pergunta: “Por que se meteu em confusões?”. E ele diz: “Por interesse”. E
afirma: “Por que eu gosto. E quando você gosta de algo não é um sacrifício. E
também porque desejo que um dia garotas como você não se vejam obrigadas a
fazer o que fazem ”. Ao mesmo tempo, ela sente atraída por ele. Ele conta a
historia dele. Por meio dela, conhecemos a história de Sinigaglia.
Diante da resistência dos grevistas, os capitalistas chamam os operários
para negociar. É interessante a cena dos operários do comitê de greve esperando
na ante-sala para conversar com os patrões. Ao serem chamados para entrar na
sala da direção, um operário diz: “Por fim! Faz uma hora que esperamos”.

40
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
Na verdade, a cena da negociação é uma cena de desprezo pelas
reivindicações legítimas dos operários. É um modo de ser do capital desprezar a
Selbsttätigkeit, isto é, a auto-atividade histórica do proletariado, a sua
capacidade de autonomia reivindicativa, seja ridicularizando os operários ou
acusando-os de estarem sendo conduzidos (ou influenciados) por lideranças
estranhas à classe operária.
Primeiro, o diretor da fábrica procura ridiculariza-los chamando-os
subversivos: “Não estão com nenhuma bomba por aí, não?”. Tentam dissuadi-
los a voltar ao trabalho. Inclusive, procuram gracejar com os operários da
comissão de greve. Por exemplo, dirige-se a Cesarina, a mulher operária do
Comite de Greve: “Você se lembra quando começou na fábrica no 71? Eu lhe dei
um bom beliscão na época.” Nessa fala expõe-se o assédio sexual corriqueiro no
local de trabalho, onde o patrão abusa das operárias. Depois, o patrão dirige-se
a Pautasso, referindo a ele como aquele que vive sempre bebendo: “Por isso que
chamam vocês de vermelhos, não é?”.
De repente, o patrão começa a discursar sobre a importância da
satisfação no trabalho. É o momento da ideologia que visa confundir a
identificação de classe (o diretor da fábrica, persona do capital, se inclui entre
aqueles que trabalham). Exclama: “O homem é a única criatura que trabalha”.
Não lembro do filósofo que disse isso. E entre essas criaturas, eu estou
incluído.” (sic) E diz: “Mas vocês, por outro lado, acreditam que as coisas podem
melhorar”. O patrão sugere retirar as multas dos operários para faze-los
retornar ao trabalho. Propõe também retirar a suspensão de Pautasso. Cesarina
intervêm de forma categórica: “Nós não podemos nos contentar com esmolas”.
Os operários são pessoas simples, mas tem um nível de percepção do valor das
suas reivindicações salariais. O Sr. Engenheiro, diretor da fábrica, irrita-se com
os operários do comitê de greve: “Vocês se queixam, mas sabem quantos
desempregados existem? Todos eles especializados como vocês, prontos a
trabalhar imediatamente e em condições piores que as de vocês. Em Saluzzo, há
200 trabalhadores têxteis sem trabalho.” Deste modo, o patrão ameaça os
operários em greve, caso eles não retornem ao trabalho, com a importação de
trabalhadores têxteis desempregados de outra cidade para substitui-los.

41
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
Na cena imediata, Pautasso é chamado pois os “furões da greve” estão
chegando de trem na cidade. É a luta de operários contra operários, expondo a
concorrência no seio da própria classe trabalhadora. O capital utiliza-se da
própria dinâmica do exército industrial de reserva para enfraquecer o poder de
barganha dos trabalhadores assalariados empregados que reivindicam melhores
salários e condições de trabalho. Os operários da fábrica em greve ao saberem
que um trem está chegando com fura-greves vai espera-los para enxota-los.
Na cena da batalha à margem dos trilhos dos trens da cidade de Turim
(acostamento de Moncaliari), o professor Sinagalia tenta apelar para a
consciência de classes deles. Mas, mais uma vez, a ingenuidade de Sinigaglia
com o mundo real é flagrante. De certo modo, como intelectual socialista, ele
idealiza a classe operária. Diz ele: “Temos que falar com eles – convence-los.
São pessoas como nós.” Logo que chega o comboio com os desempregados de
Saluzzo, Sinigaglia dirige-se a eles: “Amigos, amigos! Companheiros de Saluzzo.
Não estamos contra vocês. Ouçam-nos! Escutem! Somos trabalhadores em
greve. Um momento. Por favor. Tivemos que fazer greve para nos defender.
Estas pessoas se sacrificam e passam fome” Sinigaglia é hostilizado pela massa
operária no trem. Os desempregados dizem: “Bem mais fome passamos nós.
Não trabalhamos há um mês.” E Sinigaglia retruca: “Eu sei, e os patrões se
aproveitam disso. Não os ajudem contra nós.” Começa a briga entre os
trabalhadores que trocam socos e ponta-pés.
O particularismo – uma dimensão da auto-alienação (alienação dos
outros) que o desemprego cria entre trabalhadores dificulta a manifestação da
consciência de classe. Não há solidariedade entre miseráveis que disputam um
posto de trabalho. O reino da escassez impede o reconhecimento. No confronto
entre trabalhadores, Pautasso morre ao ser colhido por um trem em
movimento. A cena do velório de Pautasso é uma cena de tristeza coletiva. De
repente no velório, de modo abrupto, o professor Sinigaglia chega,
desconcertando a todos: “Por que estão tristes? Não leram as notícias?”.
Sinigaglia é um homem militante que não se sensibiliza com os fatos da vida
pessoal. Não percebe que ali ocorre o velório de Pautasso. Interessa-lhe só a
história e não o cotidiano. É o perfil do militante heróico que se descola da vida
cotidiana. “O incidente rompeu o silêncio. O Engenheiro foi convoicado à

42
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
prefeitura. Para evitar outro acidente, o Prefeito expulsou os furões da greve. Os
patrões estão acabados.”. Mas Raul Bertone contesta Sinigaglia, dizendo-lhe que
ele tem responsabilidade pela morte de Pautassso. “Está feliz? Para você haveria
um morto por semana. Assim como há aos domingos.”
Uma das cenas interessantes do filme “Os companheiros” é o diálogo
entre o Professor Sinigaglia e Raul Bertone, o jovem operário que o acolhe no
apartamento e na sua cama, obrigado pelo comitê de greve. Aos poucos,
Sinigaglia converte-o para a causa socialista , isto é, converte-o num militante
da luta contra a exploração e a justiça social. Logo que retorna do velório de
Pautasso, Sinigaglia e Raul discutem. Num certo momento, Raul pergunta a
Sinigaglia: “Você acha que vamos conseguir o que queremos?”. Ele responde:
“Agora nós estamos divididos e desanimados. Isto é verdade. Eles estão certos
de si mesmo, se sentem protegidos. Vencer assim é difícil. Quase impossível.
Está claro?”. Raul retruca: “Você é um louco, um sem vergonha! Vai terminar
nos destruindo!”.
Raul imputa ao professor Sinigaglia a culpa pelos operários terem ido
além na greve, levando-os a situação de impasse (a morte de Pautasso abateu o
coletivo dirigente que não tem perspectivas de saída do conflito grevista).
Sinigaglia responde: “O que vocês querem? Ganhar já no primeiro encontro?
Seria fácil. Não foram vocês que iniciaram esta luta. Esta luta existe desde
Esparta.” E prossegue salientando que o importante é resistir. Diz: “É preciso
entender que a luta será cada vez mais dura. Isto já seria uma vitória!”.
Raul exclama: “Nós é que pagamos o preço. Você não é dos nossos.”
Sinigaglia, quase adormecido diz: “Sim, claro. Eu não sou como vocês. Não
tenho nem casa, nem familia, nem amigos. Nem ninguém à minha procura, a
não ser a policia. ”. Raul, interessado nesta última fala de Sinigaglia, pergunta a
ele: “Então por que você faz isto?”. Sinigaglia estranha a pergunta: “Por que
você faz isto?”. E responde: “Por que eu tenho idéias malucas. Na verdade, o
diálogo entre Sinigagalia e Raul expôs o idealismo de Sinigaglia, idealismo
necessário para a persistência da luta de classes nas condições adversas postas
pelo capital. O desanimo e desalento dos operários que fazem a greve pela
primeira vez, exige da liderança socialista que orienta o movimento operário,
força de vontade e fé capaz de preservar a capacidade de luta – luta histórica

43
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
secular – desde Esparta – entre explorados e exploradores. O que move
Sinigaglia, militante socialista que leva a cabo uma luta inglória, homem
sozinho mas não solitário, sem casa, familia ou amigos, são os ideais pela
emancipação social. Sinigaglia não pode ter casa ou familia pois seu
compromisso ético-moral é com a humanidade proletária. Ele tem um
compromisso sério com a causa socialista. Nas condições adversas dos
primórdios do movimento operário, persistir com as idéias de luta de classes
significa ter idéias malucas. Entretanto, a alternativa a elas seria a resignação
com a loucura da exploração capitalista. Sinigaglia é o herói militante que planta
sementes de socialismo – mais tarde, iremos ver que Raul Bertone, perseguido
pela policia, torna-se um militante socialista errante seguindo os passos do
Professor Sinigaglia.
Enquanto decorre a greve, verificamos a presença importante do tema da
solidariedade – verificamos isso no apoio dado por alguns militares e
ferroviários. Por outro lado, verificamos também a ameaça de fura-greves,
operários desempregados vindo de outra cidade. Portanto, percebe-se o conflito
entre forças de solidariedade, por um lado, e forças de inimizade e
dessolidariedade que visam abater o espirito de luta e quebrar o movimento
operário. Esta é outra dimensão de luta de classes que se dá no plano ético-
moral.
O desalento e a perda da esperança diante das dificuldades da luta é um
elemento de ofensiva do capital que visa abater os explorados que lutam contra
a exploração. O capital busca isolar e romper os pontos de apoio à luta grevista
dos operários. Trata-se de uma guerra de posição que exige capacidade contra-
hegemônica dos operários. Por exemplo, após o diálogo entre Raul e Sinigaglia
temos a cena da coleta feita na Escola por um professor socialista para ajudar os
grevistas. Ele encontra rejeição categórica da direção da Escola, conservadora e
contra o apoio aos grevistas. Como diz o Diretor da Escola que vetou a coleta de
ajuda aos grevistas, “uma pessoa pode ser humana sem ser socialista”. Ele se
opõe a coletas na escola para os grevistas. Quer devolver o dinheiro da coleta.
Diz ele: “Você tem que ensinar os garotos a serem bons cidadãos e pronto. Não a
fazerem subversão social.” O professor retruca: “Uma coisa é subversão! Isto é
um ato de solidariedade por um pobre trabalhador que morreu. Um gesto civil e

44
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
educativo para os meninos”. E exclama que a escola continua a ensinar que é
justo que continue a existir servos e tiranos.
Percebemos que, como no quartel da polícia, enquanto os operários em
greve têm a simpatia de alguns cabos e soldados - as baixas patentes, mais
próximas das camadas subalternas -, na escola, o professor socialista se
contrasta com a alta Direção simpática com os patrões. Mais tarde iremos saber
que o professor foi transferido para escola distante como punição por fazer
coleta para os grevistas. Na verdade, Turim era uma cidade conservadora com
hegemonia burguesa.
A cena do diálogo entre Homero e Pierino, seu irmão mais novo, na saída
da escola onde ele estuda, re-afirma a cena inicial quando Homero deixa claro
para o irmão pequeno – Pierino - que ele precisa estudar para não cair na
condição de operário. A educação como meio de mobilidade social está presente.
Homero não quer que o irmão seja operário como ele. Deve estudar. Mas o
pequeno irmão não se dedica ao estudo. Diz o professor: “Não é que ele seja um
menino estúpido, mas estuda muito pouco. Não está indo muito bem. Diga a sua
mãe que o faça estudar.” Logo depois, Homero adverte ao irmão: “Tem que
estudar! Tem que estudar”. Mas o pequeno Pierino exclama: “Não quero
estudar! Não quero ir para a escola. Quero ir para a fábrica como você.” E
Homero grita: “Tem que conseguir um diploma, entendeu?!”. E asseverou: “Se
você terminar como eu, eu mato você!”.
No final veremos que, apesar dos apelos do irmão – que morre no final –
o pequeno Pierino torna-se operário, indo trabalhar na fábrica. O destino de
proletariedade se impõe – tanto para operários que retornam ao trabalho,
quanto para o pequeno Pierino que ocupa o lugar do irmão na fábrica,
abandonando os estudos.
O velho capitalista proprietário da fábrica, Sr. Luigi – que é paraplégico,
andando numa cedeira de rodas - está inquieto com a greve e a resistência dos
operários (a invalidez do velho capitalista, caduco e autoritário, é uma metáfora
da obsolescência da persona do capitalista). Exclama: “Vagabundos!
Desgraçados!”. Ele descarrega sua frustração em cima dos subalternos
imediatos – exclama ele para o gerente da fábrica que chegou com atraso no
local de trabalho, aproveitando a greve dos operários: “Tenho que lhe mandar

45
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
uma carta para que respeite o horário? Você recebe o seu salário? Então respeite
o horário, com ou sem greve”. O velho capitalista reclama que em quatro
semanas de greve não faturaram sequer um centavo. Diz ele: “Os clientes
querem mais competência. Já é hora de se mexer, vocês me entenderam?”. O
velho Luigi possui a perspicácia do diabo. Ele disse: “Essa gente não cederá
enquanto este agitador estiver orientando. Eu sei disto. Vá à Prefeitura e exija
que a polícia aplique a lei. Esse professor tem antecedentes. Por que não o
prendem?”. E concluiu: “Ou eliminamos este professor ou será a nossa ruína!”.
Portanto, como ultimo recurso para quebrar o movimento operário, deve-
se perseguir o mentor intelectual do movimento: o professor Sinigaglia. Os
capitalistas recomendam a polícia local que prendam o intelectual orgânico da
categoria. Sinigaglia foge, sendo acolhido pela jovem prostituta. (Niobe) É
interessante o diálogo entre Sinigaglia e a jovem prostituta num barzinho. Ele
está fugindo da polícia e do frio e aceita o convite dela para conversarem num
café. Ela – preocupada com ele – diz que ele pode pegar um bronquite se
expondo assim neste frio. “É melhor uma bronquite que uma prisão”, diz ele. E
esclarece para ela: “Causamos um pouco de aborrecimentos e estão nos
perseguindo”. Ela pergunta a Sinigaglia: “Não tem uma familia?”. Ele diz:
“Tenho uma mulher e dois filhos. Mas nós não nos dávamos bem. Tudo culpa
minha, que fique claro. Levo uma vida bastante desordenada. Eles foram para a
casa do meu sogro. O velho é rico, mas é uma boa pessoa. Eu já me entediei de
ensinar.” Sinigaglia mostra para ela a fotografia dos dois filhos.
A prostituta convida o professor para dormir na casa dela esta noite.
Depois, Niobe conversando com a amiga, diz que Sinigaglia é um homem
extraordinário. Ela tem curiosidade sobre as atividades do professor. Pergunta a
ele porque o perseguem tanto: “Voce é acusado de resistir a prisão e agressão a
um oficial público em Genova.”. Sinigaglia diz: “Não podem me condenar. Foi
em legitima defesa”. Ela pergunta: “!O que foi que aconteceu por lá?”. Ele diz:
“Nada. Estava atravessando a praça e um policial nos deteve”. E diz que foi
detido por fazer manifestação pública. Mais tarde, conversando com a prostituta
de luxo, Sinigaglia sabe que os patrões estão desmoronando. “Eles estão a ponto
de ceder”, disse ela.

46
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
Mas não apenas os patrões estão desmorando. Na cena seguinte,
percebemos que uma liderança operária – Martinetti - está disposta a ceder. O
operário vai prestar serviço na casa do gerente da fábrica que lhe assedia com
proposta. Trata-se da corrupção de uma liderança operária. O prosseguimento
da greve descarta o ânimo moral dos operários, desalentados com as
dificuldades da resistência operária. Na verdade, o desgaste do ânimo moral
propicia a corrupção das lideranças operárias. O gerente da fábrica chama
Martinetti para fazer a limpeza de chaminés na sua casa. Ele prestara serviço na
casa do gerente e fora chamado, segundo o gerente, porque “trabalha com mais
seriedade”. Martinetti teme que seus amigos em greve possam ficar sabendo que
ele está prestando serviço para o adversário de classe. O gerente retruca: “Qual é
o problema? A greve é contra os patrões. Eu sou um assalariado como você”.
O gerente procura sondar a disposição de luta dos operários em greve.
“Entao, como está indo Martinetti? Depois de tantos dias de greve chegou o
momento de fazer um pouco as contas. ”. E Martinetti expõe suas dificuldades
familiares: “Eu vim porque preciso de um pouco de dinheiro para minha
esposa.” Diz que a esposa está grávida. Tem albumina, febre e outras coisas que
ele desconhece e que precisa ser internada. O gerente oferece ajuda a Martinetti.
Ele quer conquistar a confiança do operário. Diz que conhece uma clinica
ginecológica. E diz: “Eu sou amigo de vocês, você sabe.” Martinetti pede ao
gerente que intervenha junto aos patrões sobre a greve: “Não poderia nos ajudar
junto aos patrões convencendo-os a ceder em algo?”. E afirma: “Talvez eu faça
mal em dizer isto, mas nós não nos agüentamos mais.” O gerente diz:
“Infelizmente para vocês os patrões podem resistir por anos. O próprio Sr. Luigi
me disse ontem. Ele não cederá nunca. É uma questão de princípio. Vocês já
deram uma demonstração de força. Agora chegou o momento de serem
inteligentes e demonstrar que sabem ceder. Por serem os mais fortes. Os patrões
verão isto.”
Toda greve é uma disputa de força e resistência. Por um lado, o gerente
diz que “os patrões podem resistir por anos” (o que não é verdade – ele blefa
como num jogo de pôquer). O velho capitalista, Luigi, diante da queda do
faturamento da fábrica ponderou em atender as reivindicações dos operários.
Portanto, os patrões não têm essa capacidade de resistência que o gerente da

47
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
fábrica diz ter. Por outro lado, os operários também têm limite de resistência
por conta das dificuldades de obter alimentos e mantimentos para suas famílias.
Mas tarde, diante do comitê de greve, Martinetti, convencido pelo
gerente, diz: “31 dias de greve já é o bastante. Já demonstramos aos patrões que
somos os mais fortes e agora eles sabem disso. Cabe a nós dar o primeiro passo.
Sejamos inteligentes. Eles agora consideram isto uma questão de princípios e
podem resistir por anos.” Perguntam a ele: “Está dizendo que devemos ceder?”.
Martinetti afirma: “Ceder não, mas acredito que se continuamos juntos
podemos voltar para a fábrica e exigir...”. Enfim, decidem fazer uma reunião no
mercado para saber se voltam para a fábrica ou não.
Raul Bertone constata que isso é uma manobra do comitê de greve
hegemonizado por Martinetti que tomou uma decisão sem consultar o
professor. Martinetti expõe a posição que vai defender: a volta ao trabalho na
fábrica. Diz ele: “Os patrões não são animais. Eles também têm uma familia,
mulher e filhos.” Raul intervêm: “Eles lhe pagaram para que viesse aqui dizer
isto?”.
Homero vai avisar ao professor que se pretende fazer a assembléia no
mercado com a indicação de acabar a greve. O professor, desesperado, dirige-se
ao local da assembléia. A assembléia dos operários no mercado da cidade é a
cena dramática que marca o momento final do filme “Os companheiros”.
Aparecem logo de imediato mãos levantadas assinalando que a maioria quer
voltar ao trabalho. Este foi o encaminhamento dado pela maioria do comitê de
greve hegemonizado por Martinetti. Raul Bertone discorda. Quer protelar o
resultado final aguardando a chegado do professor Sinigaglia. Ele pede a
contagem dos votos. Logo chega o professor Sinigaglia e dirige-se à assembléia
de operários. Esqueceu os óculos. Diz: “No entanto, mesmo sem poder
identificar todos, sei perfeitamente quem votou pela continuação da luta.” E
exclama os nomes dos operários fieis à luta (Barbero, Gallesio, Bardella).
Uma mulher grita na multidão: “Vocês são um bando de cagões”. Não,
não é verdade. Não são um bando de cagões. São a maioria. E a maioria é a voz
da prudencia. Vocês são uns loucos. Você, Barbero, você. E todos os que
pretendem trabalhar só 13 horas diárias e ganhar mais e não terminar em um
hospício ou num hospital. A maioria, por outro lado, é sensata. Sabem que esse

48
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
salário é o suficiente. Tanto assim que até agora ninguém morreu de fome. Eles
sabem, segundo as estatísticas, que este horário provoca apenas 20% de
acidentes. Quantos são vocês? 500? Isso significa que apenas cem de todos
vocês ficarão inválidos. Bajetto, por exemplo. Ou você, Occhipinti. Ou a sua filha
Gasperina. Mondino, onde está você? É isto o quer a maioria.”
O professor Sinigaglia apela á razão, buscando explicar que a maioria é
sempre sensata. Mas é uma sensatez que não percebe os efeitos perversos da
exploração sobre uma parcela da classe trabalhadora. A discussão na assembléia
expõe diversos pontos de vista sobre a capacidade (ou não) de resistência
operária – Martinetti expondo que já perderam tudo e não podem mais resistir.
E Sinigaglia dizendo que não perderam e que é importante resistir pois os
patrões estão pior. Trata-se de uma luta pela informação veraz – “quem foi que
ice isso”.
Martinetti interrompe e diz: “Isto não é verdade. Faz um mês que
sofremos. Já perdemos tudo, você não vê?” Sinigaglia retruca: “Quem foi que
disse isso? Não é verdade. Não perdemos. É só um momento delicado. A batalha
é vencida por aquele que resistir uma hora a mais! Os patrões estão pior do que
nós. “. Martinetti discorda: “Quem foi que disse isso?”. Sinigaglia diz: “Eu
estudei essas coisas! Vocês têm que acreditar em mim.” Martinetti exclama:
“Não podemos mais!”. Outro operário na multidão grita: “Nós não agüentamos
mais”.
Sinigaglia exclama: “Vocês passarão mais fome. Vocês e os filhos de vocês
se abandonarem a luta! Os patrões sempre irão ganhar! E para vocês apenas
miséria e dor! Para eles riqueza e poder! “ E um operário pergunta no meio da
multidão: “Mas a fábrica não é nossa!”. Sinigaglia diz: “Como que não? Quem
trabalha lá 14 horas diárias durante toda a vida? Com sangue e suor!”. A
multidão exclama: “Nós”. E Sinigaglia exaltado, num momento de desespero,
apela para o instinto de classe, e dá a palavra de ordem que leva à situação de
conflito final do filme. Exclama ele: “Tomem-na! A fábrica é de vocês! Voltem,
mas para tomá-la. Que todos saibam que a querem mais do que a sua própria
casa. Os patrões, a cidade, o governo É a sua vida e sua morte! Avante!”.
O exército é convocado para defender a fábrica e posiciona-se diante dela.
Os operários em passeata dirigem-se para a fábrica entoando canções de luta e

49
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014
levando cartazes (um deles diz: “Não somos bestas! Dê-nos 13 horas”). O
esquadrão militar posiciona-se par atirar caso os operários avancem. Os
soldados não sabem o que estão fazendo lá. A multidão avança. Os soldados
atiram para cima para dispersar a multidão que responde atirando pedras. O
capitão exclama: “Voltem ou abriremos fogo!”. Ao abrirem fogo contra a
multidão e operário cai morto. É o jovem Homero. A irmã de Homero chorando
pela morte do irmão acusa Sinigaglia pela desgraça. O professor é preso.
O final do filme é a partida de Raul Bertone, foragido da policia. Ele se
despede da jovem. O professor está preso mas vai ser candidato às eleições e se
for eleito o soltarão. O professor enviou para Bertone o endereço de um amigo
dele em Lugano. Mais uma vez a rede de solidariedade tornou-se a força social
do proletariado que luta. Diz Bertone; “Ele não desiste nunca. Até na prisão ele
pensa em nós.”. No final, ele pega o trem. “Escreva para mim!”, grita a moça. E
ele diz: “Mas você não sabe ler”. “Escreva para mim assim mesmo.”
A última cena do filme “Os companheiros” são os operários entrando na
fábrica. O retorno da vida cotidiana. Na multidão de operários entra para
trabalhar o jovem Pierino, irmão de Homero. A classe operária se reproduz.

Reflexão

- O professor Sinigaglia poderia ser considerado um “intelectual


orgânico”, na acepção de Antonio Gramsci?
- Em que medida o personagem, Salvatore Arró representa o problema da
Questão Meridional italiana, de acordo com Antonio Gramsci?
- Como se manifesta no filme os alcances e os limites do sindicalismo?
- Como interpretar a atitude do pequeno Pierino em recusar-se a estudar
e querer ser operário como seu irmão mais velho – Homero?.

50
Curso de Extensão Universitária
A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global
2014

Giovanni Alves
(2014)

51