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Atividade minerária e reserva legal florestal:

ATIVIDADE MINERÁRIA E RESERVA LEGAL FLORESTAL:


entre exigibilidade e (in)compatibilidade
Revista dos Tribunais Nordeste | vol. 7/2014 | p. 13 - 34 | Set - Out / 2014
Revista dos Tribunais Nordeste | vol. 8/2014 | p. 13 - 34 | Nov - Dez / 2014
DTR\2014\21270

Daniel Tobias Athias


Pós-Graduado em Direito Econômico pela FGV. Advogado.

Área do Direito: Constitucional; Ambiental


Resumo: O Brasil demonstra uma preocupação crescente com seus recursos naturais e a
preservação da Amazônia. Exemplos disto são: a constitucionalização da proteção
ambiental e a instituição de Reserva Florestal Legal em até 80% em imóvel rural situado
na Amazônia Legal. Não obstante, nesta região encontram-se diversos empreendimentos
minerários em operação, além de várias reservas de recursos minerais ainda não
exploradas (algumas sequer encontradas), apresentando um aparente paradoxo entre
preservação e exploração. A exigência destes limites da forma rígida prevista na
legislação poderá inviabilizar alguns projetos nesta região. Considerando que esta
atividade (mineração) é essencial para a sociedade, os órgãos ambientais, em conjunto
com o setor privado, estão procurando soluções práticas para viabilizar o
desenvolvimento em conjunto com a proteção à floresta. Este trabalho visa expor esta
articulação entre o público e o privado, apontando os custos e benefícios desta solução e
apontar outras soluções para harmonizar a atividade minerária e a Reserva Florestal
Legal.

Palavras-chave: Reserva Florestal Legal - Mineração - Código Florestal - Recursos


minerais - Compatibilização.
Abstract: Brazil has shown growing concern with its natural resources and the
preservation of the Amazon Rain Forest. An example of this is the constitutionalization of
environmental protection and the establishment of a legal forestry reserve of up to 80%
(eighty percent) of any rural property situated in the Legal Amazonian region.
Nonetheless, this region has various mining projects in operation, as well as various
reserves of mineral resources not explored (some of which have yet to be found). One
perceives that the requirement of observing the limits of the legal forestry reserve in the
rigid terms laid out in the legislation could make some projects in this region unfeasible.
Considering the fact that mining activities are essential to society, environmental
protection agencies jointly with the private sector, are searching for practical solutions to
enable both the viability of a project and forest protection. This paper, aims to expose
this articulation by the public and private sectors, pointing out some of the costs and
benefits of these solutions and point out other solutions so that both the mining activity
and the compliance with legal forest reserve limits are observed.

Keywords: Legal forest reserve - Mining - Forestry Code - Mining resources -


Compatibility.
Sumário:

1.Introdução - 2.Meio ambiente e Reserva Florestal Legal – RFL - 3.Mineração e Reserva


Florestal Legal - 4.Articulação entre a Sema/PA e o setor privado na compatibilização de
normas - 5.Soluções legais - 6.Conclusão - 7.Referências bibliográficas

1. Introdução

A preocupação com o meio ambiente vem ganhando cada vez mais espaço na
atualidade, o que se percebe pela inclusão da questão ambiental em inúmeros diplomas
legais, tendo inclusive alcançado nível de proteção constitucional. O desenvolvimento
econômico, a partir de então, ganhou uma conotação de sustentabilidade, onde o
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Atividade minerária e reserva legal florestal:

empreendimento que causar impacto ambiental terá de compensar ou recuperar as


áreas afetadas por suas atividades.

Pela importância natural da floresta Amazônica, a proteção florestal ganha um status


emblemático no Brasil, procurando o Estado proteger sua flora mediante a instituição de
legislação específica para tanto e o estabelecimento de diversas áreas de proteção
ambiental especial, tais como a Reserva Florestal Legal, unidades de conservação e
áreas de preservação permanente.

Neste ponto, e visando proteger a floresta e a biodiversidade, no ano de 2012 foi


promulgado o novo Código Florestal, o qual consolidou a Reserva Florestal Legal de
imóvel rural na Amazônia Legal em 80%, o que poderia ser uma medida a ser festejada
por aqueles que visam maior preservação. Porém esta mudança também trouxe
implicações sérias sobre a compatibilização deste instituto com algumas atividades
econômicas, sendo que o próprio Código estabeleceu atividades em que ela não seria
aplicada.

Concomitantemente, e tão importante quanto, a sociedade e o Estado preocupam-se


com o desenvolvimento do país, o que implica, naturalmente, na implantação de
projetos e execução de atividades econômicas, sendo que uma das atividades principais
da economia brasileira – responsável inclusive pelo superávit primário na economia – é a
exploração de recursos minerais, atividade que possui diversas peculiaridades.

Parece ser indiscutível que a mineração é essencial para a sociedade e por mais que seja
uma atividade de considerável impacto ambiental, o seu desenvolvimento é necessário.
Contudo, com a imposição de obrigações florestais onerosas, ainda mais numa região
onde se encontram diversas reservas minerais, bem como uma vasta extensão de
floresta, deve-se achar modos de compatibilizar a mineração com estas obrigações
ambientais.

Considerando que nem o meio ambiente e nem o desenvolvimento estão sobrepostos


1
um ao outro – tendo em vista que a noção de um impacto ambiental zero é inexistente
e o desrespeito a padrões mínimos de preservação do meio ambiente colocará em xeque
a própria existência da sociedade – é imperativo que a regulação posta pelo legislador
análise esta ponderação de maneira equilibrada, para que o cumprimento das obrigações
legais não impossibilite uma atividade essencial para a sociedade, nem seja abandonada
a variável ambiental na decisão das autoridades ambientais, conforme dispõe o art. 170
2
da CF.

Partindo deste contexto, este artigo analisará a forma como os empreendimentos


minerários no Estado do Pará (região da Amazônia Legal) estão enfrentando o
cumprimento das porcentagens de Reserva Florestal Legal de seus imóveis, vez que
pelas características da atividade minerária, notadamente a rigidez locacional,
poder-se-ia alegar uma incompatibilidade entre atividade e obrigação legal, ou ao menos
uma discutível eficácia.

Além de uma análise teórica, será feita uma análise de caso de como os órgãos
ambientais do Estado do Pará e os agentes do setor privado com atuação naquele Estado
vem se articulando, mantendo um diálogo constante no sentido de construir mecanismos
de cumprimento deste requisito sem inviabilizar a atividade.

Inicialmente, será traçado um breve panorama sobre o Código Florestal e seus objetivos,
na tentativa de demonstrar que quando da sua discussão não foram levadas em
consideração as especificidades da mineração, além de uma pontual análise sobre a
Reserva Florestal Legal.

Em seguida analisar-se-á a atividade minerária e algumas de suas características


específicas, apontando razões pela qual a imposição de manter a RFL nos moldes rígidos
legais poderia tornar alguns empreendimentos inviáveis.
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Sucessivamente, entrar-se-á na parte central deste artigo: a articulação entre órgãos


ambientais e o setor privado, estabelecendo um diálogo para encontrar soluções, criando
estratégias regulatórias para o cumprimento da lei, na tentativa de compatibilizar
atividade econômica com interesses ambientais. Serão apontados, neste tópico, alguns
dos principais problemas com esta compatibilização.

Para além das soluções casuísticas que vêm sendo adotadas pelos órgãos ambientais,
serão expostas algumas das soluções legais que já existem no ordenamento jurídico, ou
que vem sendo adotadas por outros Estados.

Ao final, serão expostas algumas conclusões pontuais sobre esta articulação e como esta
poderá vir a aperfeiçoar as normas ambientais, possibilitando maior diálogo entre o
público e o privado na consecução de um fim comum: a construção de um país mais
desenvolvido sem a dizimação de seus recursos naturais. Além disso, o propósito basilar
deste trabalho, paralelamente à questão prática posta, é demonstrar um dos modos em
que vem sendo enfrentados alguns dos gargalos normativos existentes no nosso
ordenamento jurídico.
2. Meio ambiente e Reserva Florestal Legal – RFL

A preocupação com o meio ambiente e a sua proteção ganhou contornos constitucionais


em 1988, sendo imposto a todos a responsabilidade pela manutenção de um meio
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ambiente ecologicamente equilibrado, conforme dispõe o art. 225. Além de receber
capítulo próprio, a questão ambiental foi igualmente incluída como um dos princípios
gerais da atividade econômica, cabendo aos empreendedores mitigarem os impactos
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ambientais de sua atividade (art. 170, VI, da CF).

O propósito destes dispositivos é impossibilitar um desenvolvimento que busque


estritamente o crescimento econômico, incorporando-se diretamente as questões sociais
e ambientais no ato decisório dos órgãos governamentais ambientais licenciadores. Há
uma transição paradigmática em relação à mentalidade do Estado (e da sociedade civil)
e seus agentes responsáveis pelos rumos do desenvolvimento; diferentemente do que
foi observado no Brasil da década de 70, quando se optou por políticas de
desenvolvimento e integração do território brasileiro sem qualquer preocupação
ambiental. Os reflexos destas políticas confusas e mal elaboradas são sentidos até hoje
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nos problemas fundiários e ambientais no Pará (FONSECA, 2009, p. 231).

Além da previsão constitucional, o legislador vem no decorrer dos anos incorporando a


proteção ao meio ambiente de forma mais ampla, inclusive com a intensificação da
proteção aos recursos florestais, especialmente no Norte do país – área de especial
interesse pela Amazônia Legal. Esta floresta, uma das mais importantes do trópico
úmido com uma biodiversidade extremamente relevante, merece especial atenção e
proteção. Em decorrência da importância que esta área representa, algumas das
obrigações ambientais-florestais que vêm sendo instituídas focam numa proteção
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visando um impacto ambiental (quase) zero, sem ponderar as implicações práticas. A
luta para compatibilizar a exploração econômica com a proteção ambiental torna essa
questão, na Amazônia, a síntese da ideia de desenvolvimento sustentável.

Com esta visão é que foi promulgada a MedProv 2.166-67/2001 e o Código Florestal
vigente (Lei 12.651/2012), o qual a revogou, aumentando as obrigações impostas aos
proprietários de imóveis rurais na Amazônia Legal, onerando ainda mais as atividades
econômicas desenvolvidas numa das regiões menos favorecidas do país (tanto no que
tange o desenvolvimento econômico quanto na ausência do Estado na consecução de
direitos sociais).
7 8
Tanto o atual Código Florestal como seu predecessor, classificaram as florestas e
demais formas de vegetação nativa como bens de interesse comum. Assim, tanto a sua
exploração quanto a sua preservação deverá ser feita no interesse comum de todos os
cidadãos, observados requisitos legais rígidos.
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2.1 Objetivos e direcionamento do Código Florestal

A classificação da vegetação como bem de interesse comum a todos, a mudança da


mentalidade em relação ao meio ambiente e a previsão constitucional de sua proteção,
levou o Estado brasileiro a sistematicamente tentar minimizar os impactos ambientais às
suas florestas, o que é algo positivo.

Assim, a proteção às florestas passou a ser direcionada às atividades que utilizam


grande extensão de terra – as quais são apontadas de forma geral como as responsáveis
pela supressão excessiva e o desmatamento – tais como a agricultura, pecuária,
fruticultura.

O Código Florestal é voltado principalmente para estas atividades de uso extensivo de


solo e não de uso restrito-intensivo, comparativamente, pois os dispositivos contidos
neste diploma legal não estariam direcionados às atividades que ocupam, se comparadas
às atividades citadas acima, uma área ínfima de terra, tal como a mineração. Esta
questão é constada pelas diversas observações que serão feitas abaixo, as quais
demonstram um direcionamento da legislação florestal, não havendo, a priori, uma
preocupação (tão) direta com o desmatamento causado pela atividade minerária.

Em junho de 2013 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE divulgou


relatório acerca da ocupação do solo do Estado do Pará que corrobora esta alegação, vez
que, de acordo com o estudo realizado, a atividade minerária ocuparia apenas 0,975%
da área total do Estado, comparado a 7,5% de áreas urbanizadas, 15,2% de área de
pastagem e 19,08% de áreas agrícolas. As áreas florestais do Estado, por sua vez,
ocupam 72,9% do território (MINERAÇÃO, 2013). Tomando o estudo como correto em
suas conclusões, percebe-se que a Mineração contribuiu muito pouco para o
desmatamento no Estado.

Vale lembrar que as discussões legislativas acerca dos termos do novo Código Florestal e
a extensão da proteção que seria dada ao solo ocorreu entre a chamada bancada
ruralista, defensora dos interesses de proprietários rurais, notadamente aqueles que
exercem atividades rurais (agropecuária etc.) e uma bancada ambientalista, cujo
objetivo era defender principalmente os interesses ecológicos e garantir o mínimo de
degradação ambiental. Há, inclusive, alegações de que tanto o projeto original de lei do
novo código (PL 1,876/1999) quanto a sua posterior conversão para projeto de Lei da
Câmara 30/2011 foram propostos por membros da bancada ruralista do Congresso, os
deputados Sergio Carvalho e Aldo Rebelo.

Por estas razões, estaria explicada uma “despreocupação” da lei com a mineração, tendo
ela sido focada/direcionada para outras questões. Ressalta-se que na pesquisa realizada
não foi constatada uma presença forte do setor minerário nas discussões do novo Código
Florestal.

Partindo do embate entre os principais lados da discussão da legislação, os pontos


centrais de discórdia do novo código versaram justamente sobre propriedades que
utilizavam topos de morros, encostas e a margem de rios para plantio e pastoreio. No
próprio art. 1.º-A, II, do Código Florestal consta a “reafirmação da importação da função
estratégia da atividade agropecuária e do papel das florestas e demais formas de
vegetação nativa na sustentabilidade, no crescimento econômico, na melhoria da
qualidade de vida da população brasileira e na presença do País nos mercados nacional e
9
internacional de alimentos e bioenergia”. Percebe-se, claramente, que as preocupações
dos legisladores estavam voltadas às atividades ditas rurais.

Neste sentido, um dos pontos mais polêmicos do novo código – o qual provocou debates
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mais intenso entre as bancadas – era a questão da área rural consolidada, a qual foi
definida como aquela com edificações, benfeitorias ou atividades agrossilvipastoris;
sendo permitida exclusivamente a continuidade destas atividades econômicas (além do
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ecoturismo e turismo rural).
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Atividade minerária e reserva legal florestal:

Um exemplo simples acerca do direcionamento das preocupações do Código Florestal


poderá ser dado por uma análise literal de seu texto e algumas das palavras-chaves
utilizadas, pois no texto o termo agrossilvipastoril é mencionado 11 vezes, agrícola 7
vezes, agropecuária 4 vezes e agricultura 3 vezes. A mineração, por sua vez, é
mencionada apenas 2 vezes e somente para fins de definição de utilidade pública.

Na realidade, conforme expôs Guilherme José Purvin de Figueiredo (2013, p. 38), “O


novo Código florestal não é, portanto, um código de defesa da biodiversidade, mas de
uma simples lei que trata da utilização da vegetação sob a perspectiva agronegocial”,
servindo a crítica ao texto para sedimentar o direcionamento do código às atividades
rurais stricto sensu.

Não houve qualquer inovação ou novidade em relação à mineração no Código, e


tampouco foi esmiuçada qualquer especificidade dos institutos florestais e sua
harmonização com a mineração; fora a questão de normatizar a possibilidade de
mineração (supressão de vegetação) em áreas de preservação permanente, porém esta
possibilidade já era prevista anteriormente, sendo aplicado parecer vinculante do
Departamento Nacional de Mineração que defende a possibilidade Mineração em
Unidades de Conservação de Uso Sustentável e Zonas de Amortecimento
(PARECER/PROGE 145 CE JMO, de 2006).

A “despreocupação” com a atividade minerária quando do debate legislativo acarretou


alguns problemas posteriores, pois não foram analisadas de forma acurada as
obrigações florestais em conjunto com as especificidades da mineração e em quais
pontos haveria uma difícil compatibilidade, o que levaria o legislador a instituir alguns
instrumentos para harmonizar a atividade com as obrigações.

Feitas estas considerações iniciais e pontuais acerca do Código Florestal, os seus


dispositivos instituíram diversos instrumentos para tentar coibir um desmatamento
acelerado e contribuir para a proteção da vegetação nativa em face das atividades rurais
acima descritas. O foco deste artigo será um destes institutos de proteção, a Reserva
Florestal Legal.
2.2 Características da Reserva Florestal Legal

A Reserva Florestal Legal – RFL é uma porcentagem-parcela de determinado imóvel rural


cuja exploração econômica é vedada, salvo algumas atividades com baixo impacto
ambiental, cabendo ao proprietário/possuidor manter a composição original da
vegetação, sendo vedado o corte raso de madeira. A RFL é uma área a ser preservada
com objetivo de reabilitar processos ecológicos, conservar biodiversidade e abrigar e
proteger a fauna silvestre e flora nativa.

Não sendo permitido o corte raso nesta área, leia-se a possibilidade de dispor da
propriedade de forma irrestrita, explorando qualquer atividade econômica, só podem os
proprietários/possuidores exercerem atividade de manejo sustentável, em tese não
sendo possível minerar em áreas de reserva florestal e tampouco estabelecer a
infraestrutura de um empreendimento minerário nesta parcela.

A extensão da RFL varia de acordo com a região do país, sendo que na Amazônia Legal
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foi imposta uma reserva de 80% de determinada propriedade em área de floresta. Não
é necessária uma divagação muito ampla para que se chegue à conclusão de que esta
obrigação é extremamente onerosa aos proprietários de imóveis rurais nesta região,
13
sendo-lhes possível apenas explorar/utilizar 20% de seu imóvel de forma livre.

Além desta área de proteção, é habitual, na região da Amazônia Legal, um imóvel conter
diversas espécies de espaços territoriais especialmente protegidos, podendo coexistir de
forma harmoniosa a Reserva Florestal Legal, áreas de preservação permanente e
unidades de conservação (inclusive de proteção integral); além de comunidades
tradicionais etc.
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Atividade minerária e reserva legal florestal:

Teoricamente, seria possível que determinada propriedade fosse inexplorável em


decorrência de espaços de proteção especial. Restringe-se, de certa forma, a instalação
de diversos tipos de empreendimentos na região, vez que a depender de onde for
implantado, seria necessária a supressão de vegetação.

Na tentativa de amenizar as imposições florestais onerosas paras os


proprietários/possuidores de imóveis na Amazônia Legal, o legislador (novo Código
Florestal) previu alguns mecanismos para reduzir a extensão das protegidas,
possibilitando maior utilização de determinado imóvel: o computo no cálculo área da RFL
14
as Áreas de Preservação Permanente – APP e a possibilidade de o porcentual da RFL
ser reduzido para até 50% nas áreas da Amazônia Legal se estipulado Zoneamento
Ecológico-Econômico (arts. 12, §§ 4.º e 5.º, e 13).

Além disso, existe uma situação peculiar no Código Florestal que merece destaque. O
Legislador, tendo noção da incompatibilidade ou discutível eficácia da reserva florestal
em algumas situações, previu a sua exclusão de algumas atividades que não se
coadunariam com este instituto, tal como a exploração de energia hidráulica/elétrica,
15
abastecimento público de água, tratamento de esgoto, rodovias e ferrovias; não sendo
16
a mineração contemplada por esta exclusão.
3. Mineração e Reserva Florestal Legal

Igual à questão da proteção ambiental, a atividade minerária também possui status


constitucional, tanto pela sua importância econômica quanto por questões de soberania
nacional (BERCOVICI, 2011, p. 42-48 e 207-296), determinando a constituinte que a
exploração dos recursos minerais do país será sempre feita no interesse nacional (§ 1.º
do art. 176 da CF).

Considerando que esta atividade é essencial para a sociedade e para o país, é imperativo
que as obrigações florestais sejam compatibilizadas com ela, já que as especificidades da
mineração tornam o cumprimento de algumas obrigações dificultosas. Aqui, é necessário
17
analisar algumas das principais características desta atividade.
18
Parece que os recursos minerais (e sua exploração) são essenciais para a sociedade,
havendo uma dependência na exploração destes recursos para suprir as necessidades
19 20
presentes, a qual sempre será realizada em interesse nacional.

Além disso, as atividades minerárias utilizam uma baixa extensão de solo, ao contrário
das atividades tipicamente rurais (agrossilvipastoris), fato este corroborado pelo estudo
do IBGE acima citado. Contudo, é importante ter em mente que o uso desta parcela
menor é intensivo, com alto grau de impacto, vez que os minérios são parte integrante
da natureza, não sendo possível a sua extração sem interferência no ecossistema.

Em decorrência deste uso intensivo, o legislador impôs às mineradoras a necessidade de


21
apresentarem Plano de Recuperação de Área Degradada – PRAD visando “o retorno do
sítio degradado a uma forma de utilização, de acordo com um plano preestabelecido
22
para o uso do solo, visando à obtenção de uma estabilidade do meio ambiente”. Assim,
para além das compensações ambientais a serem pagas pelas empresas mineradoras e
as demais condicionantes ambientais impostas durante a fase de implantação e efetiva
exploração – além das obrigações sociais, tal como a construção de hospitais,
manutenção de linhas de transporte público etc. –, ao término da exploração minerária
(no caso, o esgotamento da mina), o sítio degradado pela atividade deverá ser
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recuperado conforme os padrões estabelecidos pelas autoridades ambientais.

Diferentemente de outras atividades que promovem a conversão da floresta para um uso


alternativo do solo, tais como a pecuária e agricultura, no caso da mineração há a
recuperação obrigatória, ou seja, o uso alternativo não é definitivo, mas sim temporário.

Por fim, e talvez a principal característica intrínseca da atividade minerária é a rigidez


locacional dos recursos minerais, logo os empreendimentos minerários não poderão
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Atividade minerária e reserva legal florestal:

escolher o local onde será exercida a atividade produtiva, pois as minas serão lavradas
onde a natureza as colocou. Não poderá ser escolhida a comunidade ou ambiente onde
será instalado um empreendimento minerário, tendo o agente privado de lidar com as
questões políticas, sociais, econômicas e jurídicas em que é localizada a jazida a ser
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explorada.

Assim, ao contrário das demais atividades econômicas, seja no setor de serviços,


comércio etc., que poderão deslocar suas unidades produtivas para outros locais,
buscando vantagens ou ambientes econômica e politicamente mais estáveis e vantajosos
para sua atividade, a rigidez locacional da mineração “aprisiona as empresas que
quiserem explorar os recursos naturais não renováveis a certa unidade federativa”
(SCAFF, 2013, p. 68).

Para além desta característica, outro fator que não pode ser desconsiderado é o fato de
que, a rigor, os grandes empreendimentos minerários não pretendem adquirir grandes
parcelas de terra, mas sim instituir servidões minerárias para a “utilização” de
determinada propriedade tida como essencial para o empreendimento (art. 59 do Código
de Mineração). Este instituto, partindo do interesse público (nacional) da atividade, em
sobreposição ao interesse privado de propriedade, impõe ao proprietário, mediante
indenização prévia, a obrigação de permitir a atividade em seu território.

A rigor, de tal forma, poder-se-ia arguir que sequer seria materialmente possível a
empresa mineradora instituir a reserva legal, por não possuir ingerência (administração)
sobre o imóvel. Além disso, cumpre registrar que quando do cálculo da reserva legal as
áreas de servidão administrativa serão excluídas do somatório da área total do imóvel
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rural, nos termos do art. 23 da IN MMA 002/2014.
3.1 Mineração na Amazônia

Tendo em vista esta rigidez locacional, logo se tornam perceptíveis as dificuldades em


explorar recursos naturais quando estes se situam numa área como a Amazônia, vista
como estratégica para a proteção ambiental e florestal.

Não obstante, o Ministério de Minas e Energia na elaboração do Plano Nacional de


Mineração 2030 afirmou que a Amazônia é a: “atual fronteira de expansão da mineração
no Brasil, o que desperta otimismo e, ao mesmo tempo, preocupações dada sua
extensão territorial, que representa 60% da área do Brasil, e os conflitos em relação ao
uso e ocupação do território. (…) Por suas especificidades geológicas, ambientais,
territoriais (difícil acessibilidade) e condição histórica, a Amazônia requer um tratamento
diferenciado” (MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA, 2010, p. 58).

Por se tratar da Amazônia, e do especial interesse do Estado e da sociedade na sua


proteção, para além das diversas regras de proteção especial em diversos diplomas
legais, no decorrer dos anos se percebem criações periódicas de novas Unidades de
Conservação e Áreas de Preservação Ambiental sem a realização de qualquer estudo
prévio ou consultas públicas necessárias.

Além disso, é importante ter em mente que há pouco conhecimento acerca das riquezas
minerais do país. A criação contínua de novas áreas de proteção tem implicações
contundentes na atividade minerária, sendo possível que áreas de proteção especial
sejam criadas em áreas onde possa haver reservas minerais estratégicas. A título de
exemplo, William Freire estimou que 80% de todas as reservas de minério de ferro do
mundo estão localizadas em regiões com as características de Área de Preservação
Permanente (FREIRE, 2014).
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Havendo rigidez locacional de minérios e o desconhecimento acerca do subsolo, a
criação paulatina de novas regras e áreas de proteção do solo impede maior
desenvolvimento de atividades de mineração na Amazônia.

A questão é paradoxal, pois em tese a maior reserva de minérios no país se encontra


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Atividade minerária e reserva legal florestal:

abaixo de área de floresta tropical úmida de proteção especial. A falta de conhecimento


e informações confiáveis leva a uma política ambiental em total dissonância com as
políticas econômicas do país.

Como os agentes deste setor, tendo de observar todas as regulações ambientais


presentes nesta região, conseguem viabilizar projetos e cumprir a lei? É justamente esta
a questão, em relação à Reserva Florestal Legal, que se pretende responder.
4. Articulação entre a Sema/PA e o setor privado na compatibilização de normas

De um lado houve previsão expressa de se permitir a atividade minerária em um espaço


territorial especialmente protegido (Áreas de Preservação Permanente), porém houve
silêncio quanto à questão da Reserva Florestal Legal, não foi instituído qualquer
excludente legal de sua aplicação e tampouco qualquer tratamento acerca da
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possibilidade de mineração na área de reserva.

Em decorrência da rigidez locacional dos recursos minerais, o desconhecimento do


subsolo brasileiro, a exploração destes recursos em nome do interesse nacional – tanto
do Estado e o superávit econômico, quanto da sociedade e de suas necessidades –, é
imprescindível compatibilizar as obrigações florestais deste instituto com as
especificidades da mineração.

Considerando que a atividade minerária parte de um uso intensivo do solo e não


extensivo, é necessária uma análise da legislação com este enfoque, pois, por exemplo,
se aplicada a legislação nos moldes rígidos literais: 1) um empreendimento será
inviabilizado se houver minérios em área de reserva; ou 2) será imposto aos
empreendedores a necessidade de adquirir parcelas de terra de proporções imensas,
onerando demasiadamente a atividade e inviabilizando outras.

A questão, portanto, passa de “por que deveria a legislação ser compatibilizada?” para “
como compatibilizar?”.

De forma geral, percebe-se que há uma divisão na doutrina – em relação àqueles que
abordaram o tema – acerca da possibilidade de minerar em áreas de RFL, sendo que
esta divisão geralmente se perfaz entre aqueles que tratam do Direito Ambiental,
opinando pela impossibilidade, e aqueles que tratam especificamente do Direito
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Minerário, defendendo a mineração nestas áreas.

O propósito deste artigo é apresentar uma abordagem de compatibilização da mineração


e as áreas de RFL, apresentando e discutindo duas propostas que vêm sendo adotadas
pelos órgãos ambientais estaduais do Estado do Pará e como elas se compatibilizam com
o ordenamento jurídico pátrio.

Ao analisar projetos minerários, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Pará


(Sema) “procura resolver os casos de reserva legal em comum acordo com as partes (…)
buscando soluções compatíveis com cada realidade empresarial”, buscando não apenas
soluções compatíveis com a atividade, mas também com o tipo de minério que é
explorado.

A primeira solução que vem sendo ponderada pelo Estado e o setor privado é a inserção
da necessidade de manter e averbar a RFL no Plano de Recuperação da Área Degradada
– Prad, postergando a exigência da RFL para após o exaurimento da exploração mineral.

Esta medida é provavelmente a mais adotada pela Sema/PA e a preferida pelos agentes
econômicos, vez que no caso não haveria a dupla necessidade de se manter área de
reserva durante a exploração e recompor toda a área mediante a execução do Prad. No
caso, o órgão ambiental não exigiria do empreendimento, no decorrer da exploração dos
recursos minerais a necessidade de averbar e de manter esta área, ou seja, estaria
sendo aplicada uma espécie de suspensão temporária do cumprimento das obrigações
ambientais e florestais desta natureza.
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Atividade minerária e reserva legal florestal:

A segunda solução que vem sendo discutida pelos agentes é a possibilidade de se


averbar e manter a Reserva Florestal de forma paulatina, de maneira incremental,
cumprindo as obrigações florestais aos poucos. O agente minerador, nestes casos,
separa a área a ser minerada de seu empreendimento em parcelas, minerando uma
parcela de cada vez. Assim, esgotados os recursos minerais em uma das parcelas,
passa-se para a outra e nesta se inicia o processo de reflorestamento e averbação até
que seja atingida a porcentagem prevista.

Ambas as alternativas possibilitam ao empreendedor preencher o requisito principal de


averbar e manter a área de reserva nas porcentagens previstas em lei mediante uma
compatibilização temporária, frise-se, possibilitando o cumprimento da lei em moldes
menos rígidos daqueles previstos mediante uma interpretação e aplicação literal da
legislação.
4.1 Problemas com a articulação/compatibilização

Apesar da consciência dos órgãos ambientais do Pará acerca da necessidade de


compatibilizar as regras florestais e a disposição em adotar soluções adequadas para
harmonizar as atividades com a proteção ao meio ambiente, o que é louvável e deveria
ser encorajado, estas soluções não estão livres de problemas e questionamentos sérios
que poderão acarretar consequências drásticas.

As soluções têm sido ad hoc pelas peculiaridades de cada empreendimento, estando


sempre presente uma discussão sobre a legalidade das imposições ou eventuais
flexibilizações. A ausência de expressa previsão legal, gera insegurança jurídica e
fragilidade. Apesar de ter respaldo institucional, com validade interna para o órgão que a
instituiu, não há uma validade plena.

Há, portanto, uma questão relevante de insegurança jurídica nos procedimentos


adotados.

Uma aplicação literal da legislação não atrai margem de dúvida acerca de quando será
exigida esta averbação, devendo ela ser feita imediatamente, não há previsão de
possibilidade de exercer atividade econômica qualquer, com corte raso da vegetação,
para que depois seja averbada e mantida a reserva, por exemplo. Sendo
adquirido/possuído determinado imóvel, a obrigação de manter reserva se faz de
imediato, não podendo haver sua postergação para momento posterior mais “oportuno”.

Por mais que ao final seja mantida e averbada a totalidade da área exigida a título de
reserva legal, o seu cumprimento se estenderá ao longo do tempo, não sendo cumprido
de pronto quando da aquisição de propriedade/posse de determinada área, como
determina a lei. Não haverá um cumprimento literal-imediato da legislação.

Em relação à inserção das obrigações da RFL no Prad, estas são exigências distintas e
que em tese não poderão ser confundidas, não havendo qualquer incompatibilidade
entre ambas – o que se está admitindo abstratamente vez que na realidade as
obrigações se confundirão, pois em ambas se trata de manter equilíbrio ecológico. O
ponto mais grave é o fato que esta recuperação (manutenção da RFL) só será realizada
após o término da exploração do minério, que poderá durar um lapso temporal extenso.

É perceptível que o posicionamento do Estado e dos órgãos ambientais é no sentido de


simplificar e trabalhar com a realidade, contudo, e como já mencionado acima, é preciso
que o legislador municie as partes com uma legislação adequada e atualizada para
afastar a insegurança atualmente existente.
5. Soluções legais

Esta insegurança nas medidas expostas não é ideal num país que possui déficits de
infraestrutura e muito menos num Estado que depende da atividade minerária para
manter um superávit econômico.
Página 9
Atividade minerária e reserva legal florestal:

Por mais que os esforços dos órgãos ambientais de compatibilizar as exigências legais
com a atividade sejam louváveis, estas soluções não possuem segurança. Há
necessidade, assim, de serem buscadas soluções normatizadas, aplicando instrumentos
com amparo legislativo.

Cientes dos problemas com a falta de segurança jurídica oriunda desta compatibilização,
este item visa (i) apresentar alguns dos esforços sendo adotados pelo setor privado na
tentativa de normatizar esta compatibilização, (ii) expor como o Estado de Minas Gerais
está enfrentando a questão, e, por fim, (iii) apresentar alternativa que poderia ser
adotada para questões desta natureza.
5.1 O GTAPLAM

No ano de 2012 foi criado o Grupo de Trabalho para Aperfeiçoamento do Processo de


Licenciamento Ambiental de Mineração – GTAPLAM no âmbito da Secretaria de Indústria,
Comércio e Mineração do Pará – Seicom, com objetivo de discutir diversos temas
relacionados à atividade minerária no Estado do Pará, buscando o aperfeiçoamento da
regulação com a atividade (PARÁ, 2014).

Este grupo de trabalho/estudo conta com representantes do Sindicato das Indústrias


Minerais do Pará (Simineral), DNPM, Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Ordem
dos Advogados do Brasil (OAB) – Seccional do Pará, Ministério Público Estadual, ONGs e
diversas empresas mineradoras com empreendimentos no Pará, tais como a Vale,
Votorantim e Mineração Rio do Norte.

As mineradoras e os representantes de seus interesses neste Grupo, além de participar


nas demais discussões, estão no presente momento discutindo proposta de Decreto
Estadual para regulamentar a Política Estadual Florestal, com fito de auxiliar o Estado,
que visa, dentre outras coisas, adaptar a exigência da RFL à atividade de mineração e
propor instrumentos razoáveis para o seu cumprimento.

O intuito deste grupo é propor legislação para legalizar as soluções adotadas de maneira
casuística de modo a regularizar as medidas que vêm sendo adotadas em face da
necessidade de o regulador harmonizar as obrigações florestais com a atividade
minerária.

Algumas das possibilidades de compatibilização cogitadas são: (i) admissão no computo


da área de RFL as áreas que serão futuramente recuperadas por meio do Prad,
gradualmente ou de uma vez só; (ii) o cadastramento de outra área equivalente e
excedente à RFL em imóvel da mesma titularidade ou adquirida em imóvel de terceiro, e
a (iii) realocação da RFL, caso entre em conflito com as áreas de incidência de
mineração.

Por mais que se trate de uma iniciativa predominantemente do setor privado, esta
proposta de Decreto, além das discussões regulares do Grupo, servem para aperfeiçoar
o diálogo entre o setor e o Estado, contribuindo para uma discussão mais transparente e
participativa; ao invés de uma imposição vertical de exigências legais. O Grupo
possibilita uma nivelação de interesses e a participação dos administrados nas regras
que lhe serão impostas, estes espaços para debate são essenciais para o alcance de um
objetivo comum, um desenvolvimento sustentável.

Fato é que não há uniformidade na condução deste assunto (reserva legal e mineração),
pelo que se louva a iniciativa do Estado do Pará e o Grupo de Trabalho formado. Não
obstante, frise-se que estas soluções ainda estão em fase de intensos debates e não
foram objeto de consenso e tampouco aceitas pelos órgãos ambientais, tratam-se
apenas de possíveis soluções.
5.2 O exemplo de Minas Gerais

A título de exemplo, é válido analisar a legislação implantada por Minas Gerais, por ser
Página 10
Atividade minerária e reserva legal florestal:

este, atualmente, o maior Estado minerador do país, podendo os demais


Estados-membros construir sua legislação a partir de seus erros e acertos.

Apesar de a área de reserva florestal prevista para o Estado de Minas Gerais ser
consideravelmente menor do que aquela prevista para a Amazônia Legal, apenas 20%,
suas lições são igualmente válidas.

Atualmente, esta questão é regulada pela Lei Estadual 20.922/2013, a qual dispõe
acerca da política florestal e da proteção à biodiversidade do Estado. No que concerne à
reserva legal, a legislação dispõe expressamente que a sua implantação deverá
29
compatibilizar a conservação dos recursos com o uso econômico da propriedade. De
pronto, é perceptível que este dispositivo é de suma importância, vez que balizará a
interpretação da legislação.

Uma das maiores inovações desta lei é a previsão, de forma expressa, da possibilidade
30
de realocar áreas de reserva após a sua averbação, sendo isto extremamente útil se
levarmos em consideração a rigidez locacional dos recursos minerais e o atual estado de
conhecimento do subsolo.

É perceptível, na legislação Mineira, uma preocupação direta com a atividade de


31
mineração, havendo previsão direta de compensações florestais a respeito de impactos
32
causados por esta atividade na legislação estatal. De outro lado, a legislação paraense
sequer cita a mineração em sua legislação estadual sobre política florestal, o que é
interessante, considerando que esta é a sua principal atividade econômica.

Este pequeno cotejo serve para demonstrar o abismo legislativo entre dois Estados em
que a mineração exerce papel central em sua economia.
5.3 A Lei do SNUC e o art. 36

Além das inovações jurídicas que vêm sendo aplicadas por alguns Estados, foi apontado
pela doutrina solução jurídica que poderia ser aplicada para harmonizar a mineração e as
33
suas obrigações ambientais: a ampliação da aplicação do art. 36 da Lei do Sistema
Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (9.985/2000).

Este artigo impõe aos empreendimentos que causam impacto ambiental significativo a
necessidade de apoiarem a implantação e manutenção de Unidades de Conservação de
proteção integral.

Ao contrário de requerer das empresas mineradoras a obrigação de manter reserva


florestal, poderia o legislador manter as obrigações da reserva restritas a este artigo,
“não se cuida, pois, de privilegiar, mas compatibilizar o tratamento da matéria a saber,
proteção ambiental com a atividade econômica” (ATHIAS, 2009, p. 213).

Apesar de concordar com as premissas desta solução, a qual merece destaque, pois
incluiria uma obrigação ambiental mais protetiva (pela criação de unidades de proteção
integral, tendo melhores efeitos no que respeita a manutenção de ecossistemas e
conservação da biodiversidade), esta medida também esbarra nos problemas
mencionados anteriormente, partindo da premissa de que a RFL não seria aplicável à
mineração; além do fato de que confundiria duas obrigações diferentes.

A compensação prevista neste dispositivo é adicional à RFL e não a exclui. No caso, mais
adequado seria instituir outra obrigação nos mesmos moldes, porém com fundamento
direto de que este instrumento seria uma alternativa a averbação e manutenção de RFL.
6. Conclusão

Apesar de tender a achar que as exigências da Reserva Florestal Legal na atividade


minerária são descabidas, não por uma despreocupação ambiental, mas sim por uma
incompatibilidade com as especificidades da atividade (principalmente a rigidez
Página 11
Atividade minerária e reserva legal florestal:

locacional), a legislação vigente impõe a necessidade de cumprir esta obrigação florestal.

Há, como visto, um conflito regulatório entre mineração e floresta, vez que o Código
Florestal foi promulgado visando regular atividades tipicamente rurais, que usam grande
extensão de terra. De tal modo, não se surpreende que a mineração enfrente de forma
cotidiana dificuldades para cumprir algumas das obrigações pela natureza de seu
empreendimento.

Deparando-se com este panorama, a Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará


vem discutindo e implantando formas alternativas de cumprimento da legislação em
formas que não levariam a uma inviabilização de um projeto ou de onerá-lo de forma
excessiva.

Apesar de louvável os esforços do órgão ambiental estadual de abrir a possibilidade de


discutir soluções eficientes com o setor privado para promover um desenvolvimento
sustentável, estas soluções casuísticas, apesar de ao final cumprir os objetivos da lei,
não cumprem a legislação nos termos em que ela foi instituída. Isto acarreta, portanto,
uma grave insegurança jurídica em empreendimentos que necessitam de investimentos
vultosos e com longo prazo de maturação.

Cientes desta insegurança, o setor minerário, em conjunto com alguns órgãos


governamentais no Pará, instituíram um grupo de trabalho para discutir a regulação do
setor mineral e como esta poderá vir a ser aperfeiçoada, inclusive com previsão de
propor diplomas legais para normatizar as soluções que vem sendo adotadas.

O que se depreende, deste quadro fático é que a legislação, em relação à mineração, é


defasada, não servindo para harmonizar esta atividade econômica com as obrigações
florestais. Os órgãos ambientais, por sua vez, avançam nesta questão, pois, cientes da
realidade do Estado, buscam soluções adequadas, não para conferir tratamento
preferencial, mas para amoldar as obrigações.

Resta apenas mais um passo a ser dado: disponibilizar instrumentos normativos


compatíveis com a ambição e a evolução do setor e de seus agentes, permitindo algum
grau de compatibilização ou uma evolução da legislação da RFL aplicada à mineração,
não podendo esta atividade ainda estar a mercê da insegurança jurídica. É fundamental
haver segurança e previsibilidade para a promoção da sustentabilidade dos
empreendimentos e assegurar investimentos.

Em que pese a utilização de exemplos diretos oriundos do Estado do Pará, é cediço que
esta questão vem sendo enfrentada diuturnamente por empresas do setor minerário em
qualquer região do país, podendo os argumentos servir para iniciar um debate nestas
outras regiões sobre a compatibilização da atividade com a proteção florestal.
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1996, e 11.428, de 22 de dezembro de 2006; revoga as Leis nos 4.771, de 15 de
setembro de 1965, e 7.754, de 14 de abril de 1989, e a Medida Provisória no 2.166-67,
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patrimony, and intergenerational equity. Tokyo: The United Nations University, 1989.

1 “Toda a atividade humana pode causar danos ao meio ambiente, não há ‘poluição
zero’, de forma que a ideia de natureza intocada é um mito moderno. Por outro lado, a
área em discussão sofre pressão populacional crescente, e a ocupação desordenada pode
ser ainda mais degradante ao meio ambiente. Dessa forma, não há necessidade de
paralisação das atividades, pois, no transcorrer da Ação Civil Pública, haverá meios para
que, com o auxílio de profissionais, chegue-se a uma solução menos degradadora do
meio ambiente. Essa orientação está em conformidade com a ideia de que as normas
constitucionais, nesse assunto, tem o objetivo de preservação de um mínimo de
‘ponderação ecológica’” (TRF- 4.ª Reg., Ag 16742 SC 1998.04.01.016742-3, 3.ª T., j.
20.08.1998, rel. Marga Inge Barth Tessler, DJU 02.09.1998).

2 “Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre


iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da
justiça social, observados os seguintes princípios:
(…)

VI – defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o


impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e
prestação;

VII – redução das desigualdades regionais e sociais.”

3 “Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de
uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público
e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras
gerações.”

4 “Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre


iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da
justiça social, observados os seguintes princípios:
(…)

VI – defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o


impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e
prestação.”

5 Um bom exemplo disto são os Provimentos 013/2006 e 002/2010 emitidos pela


Corregedoria de Justiça das Comarcas do Interior do Tribunal de Justiça do Estado do
Pará, e reforçadas pelo Conselho Nacional de Justiça, que bloquearam e cancelaram
inúmeras matrículas de imóveis rurais no Estado do Pará devido a latente falsificação de
títulos.

Página 14
Atividade minerária e reserva legal florestal:

6 “Lembrando o amplo quadro legal de proteção ao meio ambiente em vigor no Brasil,


não é demais salientar que, segundo suas disposições, o valor ecológico não é
considerado um valor absoluto, ao qual todos os demais devam se subordinar, uma vez
que a natureza não é tutelada apenas em si e por si, mas também para assegurar à
pessoa humana os meios essenciais de desenvolvimento de uma vida condigna.
Há necessidade, por conseguinte, de estabelecer horizontes dentro dos quais devemos
procurar alcançar o ‘valor ecológico equilibrado’, a que se refere expressamente nossa
legislação.

Nessa ordem de ideias, deverá sempre ser feito ‘um balanceamento de valores’, de tal
modo que o valor ecológico não se sobreponha ao valor da pessoa humana, valor-fonte
de todos os valores, como o demonstra o estudo imparcial dos fins últimos que guiam o
processo histórico.

(…)

Não há dúvida, por conseguinte, que tudo deve ser feito para preservar os valores
naturais, merecendo louvor a iniciativa de formar uma consciência pública para sua
constante defesa. Não devemos, todavia, exagerar até o ponto de nos perdermos no
‘fundamentalismo ecológico’, que acaba pondo em risco o bem-estar dos indivíduos e da
coletividade.

É preciso, antes de mais nada, repetir que não se protege a natureza apenas em si
mesma e por si mesma, mas sobretudo enquanto ela constitui o valor condicionante por
excelência da vida humana, o que quer dizer que a ecologia se subordina à antropologia,
ou seja, às exigências vitais do ser humano.

(…)

Tudo isso demonstra que novos critérios devem nortear as decisões do Ministério Público
e da Justiça, em se tratando de proteção do meio ambiente, evitando-se que elas
redundem em prejuízo para a coletividade nacional.

Não podemos esquecer que a poderosa economia, que logramos construir, importou
contínuo aproveitamento de bens naturais, à custa de outros de caráter instrumental.
Não há dúvida que em muitos casos houve abusos condenáveis, que não se devem
repetir, mas se prevalecessem as exageradas pregações de certos ambientalistas, o
Brasil teria permanecido contemplando as belezas do litoral, sem sequer dobrar as linhas
do Tratado de Tordesilhas” (REALE, 2014, destaque nosso).

7 “Art. 2.º As florestas existentes no território nacional e as demais formas de vegetação


nativa, reconhecidas de utilidade às terras que revestem, são bens de interesse comum
a todos os habitantes do País, exercendo-se os direitos de propriedade com as limitações
que a legislação em geral e especialmente esta Lei estabelecem.”

8 “Art. 1.º As florestas existentes no território nacional e as demais formas de


vegetação, reconhecidas de utilidade às terras que revestem, são bens de interesse
comum a todos os habitantes do País, exercendo-se os direitos de propriedade, com as
limitações que a legislação em geral e especialmente esta Lei estabelecem.”

9 “Art. 1.º-A. (…)


II – reafirmação da importância da função estratégica da atividade agropecuária e do
papel das florestas e demais formas de vegetação nativa na sustentabilidade, no
crescimento econômico, na melhoria da qualidade de vida da população brasileira e na
presença do País nos mercados nacional e internacional de alimentos e bioenergia.”

10 “Art. 3.º Para os efeitos desta Lei, entende-se por:

Página 15
Atividade minerária e reserva legal florestal:

(…)

IV – área rural consolidada: área de imóvel rural com ocupação antrópica preexistente a
22 de julho de 2008, com edificações, benfeitorias ou atividades agrossilvipastoris,
admitida, neste último caso, a adoção do regime de pousio.”

11 “Art. 61-A. Nas Áreas de Preservação Permanente, é autorizada, exclusivamente, a


continuidade das atividades agrossilvipastoris, de ecoturismo e de turismo rural em
áreas rurais consolidadas até 22 de julho de 2008.”

12 “Art. 12. Todo imóvel rural deve manter área com cobertura de vegetação nativa, a
título de Reserva Legal, sem prejuízo da aplicação das normas sobre as Áreas de
Preservação Permanente, observados os seguintes percentuais mínimos em relação à
área do imóvel, excetuados os casos previstos no art. 68 desta Lei:
I – localizado na Amazônia Legal:

a) 80% (oitenta por cento), no imóvel situado em área de florestas;

b) 35% (trinta e cinco por cento), no imóvel situado em área de cerrado;

c) 20% (vinte por cento), no imóvel situado em área de campos gerais;

II – localizado nas demais regiões do País: 20% (vinte por cento)”

13 Vale ainda citar o art. 68 do Código Florestal cujo teor determina que: “Art. 68. Os
proprietários ou possuidores de imóveis rurais que realizaram supressão de vegetação
nativa respeitando os percentuais de Reserva Legal previstos pela legislação em vigor à
época em que ocorreu a supressão são dispensados de promover a recomposição,
compensação ou regeneração para os percentuais exigidos nesta Lei.
§ 1.º Os proprietários ou possuidores de imóveis rurais poderão provar essas situações
consolidadas por documentos tais como a descrição de fatos históricos de ocupação da
região, registros de comercialização, dados agropecuários da atividade, contratos e
documentos bancários relativos à produção, e por todos os outros meios de prova em
direito admitidos.

§ 2.º Os proprietários ou possuidores de imóveis rurais, na Amazônia Legal, e seus


herdeiros necessários que possuam índice de Reserva Legal maior que 50% (cinquenta
por cento) de cobertura florestal e não realizaram a supressão da vegetação nos
percentuais previstos pela legislação em vigor à época poderão utilizar a área excedente
de Reserva Legal também para fins de constituição de servidão ambiental, Cota de
Reserva Ambiental – CRA e outros instrumentos congêneres previstos nesta Lei”.

14 “Art. 15. Será admitido o cômputo das Áreas de Preservação Permanente no cálculo
do percentual da Reserva Legal do imóvel, desde que:
I – o benefício previsto neste artigo não implique a conversão de novas áreas para o uso
alternativo do solo;

II – a área a ser computada esteja conservada ou em processo de recuperação,


conforme comprovação do proprietário ao órgão estadual integrante do Sisnama; e

III – o proprietário ou possuidor tenha requerido inclusão do imóvel no Cadastro


Ambiental Rural – CAR, nos termos desta Lei.”

15 “Art. 12 (…)
§ 6.º Os empreendimentos de abastecimento público de água e tratamento de esgoto
não estão sujeitos à constituição de Reserva Legal.
Página 16
Atividade minerária e reserva legal florestal:

§ 7.º Não será exigido Reserva Legal relativa às áreas adquiridas ou desapropriadas por
detentor de concessão, permissão ou autorização para exploração de potencial de
energia hidráulica, nas quais funcionem empreendimentos de geração de energia
elétrica, subestações ou sejam instaladas linhas de transmissão e de distribuição de
energia elétrica.

§ 8.º Não será exigido Reserva Legal relativa às áreas adquiridas ou desapropriadas com
o objetivo de implantação e ampliação de capacidade de rodovias e ferrovias.”

16 Vale ressaltar que este dispositivo está sub judice na ADIn 4.901, cujo relator é o
Min. Luiz Fux.

17 Outras características essenciais para compreender a atividade minerária e o


processo decisório empresarial por trás deste setor são (1) a necessidade de um
investimento elevado de alto risco e longo prazo de maturação; (2) número muito baixo
de jazidas cuja exploração seja economicamente viável; (3) o trabalho com fluxo
negativo durante a implantação de projeto (com algumas estimativas de 10-15 anos
para retornos financeiros. Para explorar mais estes pontos vide os artigos de Silvia
Helena Serra e José Mendo Mizael de Souza em (GANDARA et al, 2011).

18 “A Mineração, os minerais e os metais são importantes para o desenvolvimento


econômico e social de muitos países” e “os minerais são essenciais para a vida
moderna.” Declaração final da Rio +10, Johanesburgo, África do Sul, 2002.

19 Outra discussão importantíssima em relação aos recursos naturais é a questão da


intergeracionalidade de sua exploração, para aprofundar neste debate vide Weiss
(1989).

20 É interessante notar que de tão importante/essencial é esta sociedade que o


legislador previu expressamente a impossibilidade de as atividades de pesquisa e de
lavra serem interrompidas por medida judicial, nos termos dos arts. 57 e 87 do Código
de Mineração, os quais dispõem que:
“Art. 57. No curso de qualquer medida judicial não poderá haver embargo ou sequestro
que resulte em interrupção dos trabalhos de lavra”.

“Art. 87. Não se impedirá por ação judicial de quem quer que seja, o prosseguimento da
pesquisa ou lavra.”

21 Lei 6.938/1981: “Art. 2.º A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a
preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando
assegurar, no País, condições ao desenvolvimento socioeconômico, aos interesses da
segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana, atendidos os seguintes
princípios:
(…)

VIII – recuperação de áreas degradadas.”

Dec. 97.632/1989: “Art. 1.º Os empreendimentos que se destinam à exploração de


recursos minerais deverão, quando da apresentação do Estudo de Impacto Ambiental –
EIA e do Relatório do Impacto Ambiental – Rima, submeter à aprovação do órgão
ambiental competente, plano de recuperação de área degradada.”

22 Art. 3.º do Dec. 97.632/1989.

23 O equilíbrio ecológico é “parte integrante do bom projeto de mineração a


consideração de todos os impactos sobre o meio ambiente, físico e atrópico, a sua
Página 17
Atividade minerária e reserva legal florestal:

avaliação, a tomada de medidas para a sua minimização durante a vida do


empreendimento e a restauração das áreas lavradas ao fim da vida da mina. A
preservação ambiental é parte intrínseca da atividade de mineração” (SERRA; ESTEVES,
2012, p. 42).

24 Fernando Facury Scaff ao abordar o tema expõe que: “Só se extrai minério de onde
ele “brotou”. Quem quiser extraí-lo terá que se deslocar e implantar todo um sistema
mínero-extrativo-industrial a partir daquela localidade. Este é um diferencial enorme em
face de outro tipo de indústrias que podem ser desmontadas e remontadas em qualquer
lugar do globo. Certamente os paraense hão de se lembrar de uma fábrica de cigarros,
que num piscar de olhos foi desmontada em Belém e reinstalada no Caribe” (SINDICATO
DAS INDÚSTRIAS MINERAIS DO PARÁ, 2013).

25 “Art. 23. A localização e a delimitação sobre imagens georreferenciadas de áreas de


Reserva Legal, solicitadas no inciso III dos arts. 13 e 14, desta Instrução Normativa,
deverão observar, além do disposto nos arts. 14 e 18 da Lei 12.651, de 2012, os
seguintes critérios:
I – o cálculo da área de Reserva Legal dos imóveis que apresentem as áreas de servidão
administrativa, será o resultado da exclusão dessas do somatório da área total do imóvel
rural.”

26 Uma das principais dificuldades na mineração é o desconhecimento exacerbado dos


recursos minerais presentes no subsolo, ou o que Carlos Rydlewski, de forma mais
contundente, chamou de geoanalfabetismo, vez que não há conhecimento concreto
acerca do verdadeiro potencial mineral do país. De acordo com a reportagem deste
jornalista, “somente uma parcela de 10% do território foi esmiuçada em uma escala
definida como ideal pelos técnicos (o equivalente a 1:50.000)” (RYDLEWSKI, 2013).

27 Vale ressaltar que a doutrina já abordou a questão da mineração em áreas de


Unidade de Conservação, dentre outras, porém esta análise nunca foi estendida à RFL.
Vide Feigelson (2013), Corrêa (2011) Serra e Esteves (2012) e Pareceres/PROGE do
Departamento Nacional de Mineração 525/2010, 457/2010; 500/2009; 500/2008 e
145/2006.

28 A favor da mineração na área de RFL ver Freire (2005), Silvestre (2007). Contra, ver
Machado (2010).

29 “Art. 24. Considera-se Reserva Legal a área localizada no interior de uma propriedade
ou posse rural, delimitada nos termos desta Lei, com a função de assegurar o uso
econômico de modo sustentável dos recursos naturais do imóvel rural, auxiliar a
conservação e a reabilitação dos processos ecológicos e da biodiversidade, abrigar a
fauna silvestre e proteger a flora nativa.”

30 “Art. 27. O proprietário ou o possuidor do imóvel rural poderá alterar a localização da


área de Reserva Legal, mediante aprovação do órgão ambiental competente.”

31 “Art. 75. O empreendimento minerário que dependa de supressão de vegetação


nativa fica condicionado à adoção, pelo empreendedor, de medida compensatória
florestal que inclua a regularização fundiária e a implantação de Unidade de Conservação
de Proteção Integral, independentemente das demais compensações previstas em lei.”

32 Lei Estadual 6.462/2002.

33 “Art. 36. Nos casos de licenciamento ambiental de empreendimentos de significativo


impacto ambiental, assim considerado pelo órgão ambiental competente, com
fundamento em estudo de impacto ambiental e respectivo relatório – EIA/Rima, o
empreendedor é obrigado a apoiar a implantação e manutenção de unidade de
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Atividade minerária e reserva legal florestal:

conservação do Grupo de Proteção Integral, de acordo com o disposto neste artigo e no


regulamento desta Lei.”

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