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Não é à toa que este livro

foi dedicado~'a todos aqueles


que ousaram sonhar, ousaram
lutar, ousaram correr riscos,
ousaram dizer não".
Sua autora, Cecilia Coimbra,
era uma jovem professora de
II istória que estudava
Psicologia quando, em agosto
de 1970, no período mais duro GUARDIÃES DA ORDEM
(I() regime militar foi presa
pdo DOI-CODI!Rj. Sólidos
conhecimentos de História e
dl' Psicologia - em que mais
\:mll', depois de libertada,
Cecilia se graduou - são uma
111<1
n:a deste livro. Mas ele é,
1;llllb('I11,muito fortemente
1ll:lrcado pela vivência pessoal
e pda personalidade forte e
cor;ljosa de sua autora.
Cecilia é, antes de mais
11:lda,LIma cidadã sintonizada
('0111o seu tempo - no que ele
lelll de Illais rico e generoso. É
:llgu{'1ll com uma qualidade
que distingue os melhores
seres hUlllanos: sabe se
indign:lr diante das injustiças,
llleslllo q Ul' hoje esteja na
111od:1:1 conversa fiada de que
l'l:ls S;tO UIll pre\'o inevitável a
M' p;lg:11' pvla "modernidade".
Cecilia Maria Bouças Coimbra

CONSELHO DIRETOR GUARDIÃES DA ORDEM


Túlio Vagner dos Santos Vicente
Ronaldo Fonseca Paes de Lima
Luiz Ricardo Leitão
Jane Lucas Assunção
uma viagem pelas práticas psi no Brasil do "Milagre"

AsSESSORIA JURíDICA

Lia de Oliveira

CONSELHO EDITORIAL

Carlos Eduardo Falcão Uchôa


João Ramos Filho
José Novaes
Manoel de Carvalho Almeida
Manoel Ricardo Simões
Tamara Egler

Oficina do Autor
Rio de Janeiro - 1995

1
@ 1995 - Cecilia Maria Bouças Coim bra

SÉRIE CENA ABERTA


volume 2

SUPERVISAO EDITORIAL
Luiz Ricardo Leitâo

PROJETO GRÁFICO & EDITORAÇAo ELETRÔNICA


leme Lucc~,Assunçâo

PREPARAÇAo DE TEXTO E REVISAo


loâo Ramos Filbo
Manoel de Camalho Almeida
Ronaldo Fonseca Paes de Lima

CAPA A todos aqueles que ousaram sonhar, ousaram lutar,


Lui, Hem'ique Nascimellto
ousaram correr riscos, ousaram dizer nào. Àqueles que
FOTOS sonharam novos encontros, novos agenciamentos, novas
AgPttcialB
Ct~,tódio Coimbm formas de lJÍlJerneste mundo e que, por estes sonhos e lutas,
como a pesteforam marcados, mas,sacrados, extenninados.
[MPRESsAo E ENCADERNAÇAo
Marques-,<'ctraiuaGráficos e Editol'es A todos que, nos anos 60 e 70, apaixonadamente,
tentaram - e ainda hoje tentam - marcar suas uida..<;
nào
pela "mesmice", pelo instituído, pela naturalizaçào, mas,
ao contrário, pela denúncia, pela desmitificaçào, pela
criaçào de novos espaços.
A todos os que sohrelJÍveram a esta luta, a este mas-
sacre. emhora com projlmdas marcas e, em especial, aos
Reservados os dil'eÍtos de publicaçâo desta ediçâo pela que nào mais estâo entre nós - aos Mortos e Desapare-
OFICINA DO AlffOR cidos Políticos e a seus }ámiliares, em particular ao
Editam e DistrilJuidom de PulJlicaçàes Cultumis L!da. guerreiro Joào Luiz de Moraes - dedico este Trabalho.
Caixa Postal 25004 - GEP 20552-970 Te! (()21) 331-5001 - Rl
C017t?io Elefl'Ónico ARFMOBY@EMBRATEL.NETBR As minhas saudades. a minha indignaçâo, a minha
força para continuar lutarldo, de outra..<;
foroTas ejeitos, em
busca de norJ(lSalianças, enco11tros e caminhos.
Impresso no Brasil - Printed in Brazi/
Novembro cle 199')
AGRADECIMENTOS

A todos às que foram por mim entrevistados e que, efetivamente,


contribuíram para que esses fragmentos de histórias pudessem ser
costurados e contados.
A todos os amigos e companheiros que, direta ou indiretamente,
estiveram comigo nesta travessia. Em especial ao José Novaes, ao
Norberto de Abreu Silva Neto, e ao Eduardo Lociser. Ao João Ramos,
Angela da Silva Rodrigues, Maria Elisa Rodrigues Coimbra, Emidio Tadeu
B. Coimbra, Dora Cristina Rodrigues Coimbra, Esther Arantes, Lilia
Ferreira Lobo, Heliana de B.Conde Rodrigues, Ana Maria Mota Ribeiro,
Ana Paula Jesus de Melo, Fernanda Coelho, Suzana K. Lisboa e Mirtha
Ramirez.
Aos meus ftlhos José Ricardo e Sérgio Ricardo Novaes pela
paciência e cumplicidade.
Ao Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, em especial a Cléa Lopes de
Moraes.
A Ivan Cavalcante Proença que, por sua generosidade e cora-
gem, possibilitou que eu trilhasse muitos outros caminhos até escrever
este livro. Em 1º de abril de 1964, quando o CACO foi cercado por
grupos paramilitares, o tenente Ivan salvou a minha vida e a de cerca
de 200 outros companheiros universitários. Após isto foi preso e expulso
do Exército. A você, Ivan, os agradecimentos de todos nós que sobre-
vivemos.
lNDICE

APRESENTAÇÃO i
INTRODUÇÃO li

I -A Questão da Militância :\il'

CAPÍTULo I
Alguns processos de subjetivação nos anos 60, 70 e 80 no Brasil 1
I - Os Anos Instituintes 2
1 De 60 a 64: o engajamento populista 2
2 De 64 a 69: o engajamento consentido e seu rompimento 7
11 - Os Anos da Institucionalização 17
I O terrorismo de estado 19
2 E como nós, classe média, reagimos a isso 22
.-) O familiarismo como controle social )0
-1 A psicologização e os especialistas "pSi" ')4
') A produção subterrânea de algumas práticas instituintes 38
'i.1 Alguns movimentos sociais na grande São Paulo 4')
').2 As associações de moradores no Rio de Janeiro 48
').) O "Novo Sindicalismo" e seus efeitos ')3

CAPÍTIJI,O 11
As práticas psicanalíticas nos anos 70 no Brasil 60
I - A "venladcira" psicanálise ou o Santuário de Vesta 6)

n - A instituição fonuação analítica ou a pedagogia da submissão 69


m - Algumas situaçõcs analisadoras das práticas psicanalíticas 79
I O analisador Werner Kemper 80
2 () analisador Anna Katri.n Kemper ~ 84-
.-) O analisador Décio Soares de Souza &í
() analisador Regina Chnaiderman 89
::; O analisador Helena Besserman Vianna 94
() () analisador Amilcar Lobo 99
IV - A procura. da diferença I07
I O Instituto de Medicina Psicológica 107
2 O Círcub Psicanalítico do Rio de Janeiro 108 2 O grande happeninge a cisão do movimento psicodramático paulista .. 216
3 A Clínica Social de Psicanálise 112 2.1 As duas sociedades de psicodrama: ABPS e a SOPSP 221
3 Dalrniro Bustos e uma outra vertente do psicodrama argentino
V - O movimento dos psicólogos e o patemaHsmo dos
no Brasil 222
psicanalistas 115
4 A normatização das práticas psicodramáticas: a FEBRAP 224
1 A psicologia: seu boom e as faculdades particulares 115
2 Os psicólogos paulistas e a SBPSP 118 n - O Psicodramano Rio deJaneiro 228
3 O movimento dos psicólogos cariocas 124 1 O psicodrama triádico e a Sociedade Brasileira de
3.1 Instituto de Orientação Psicológica 125 Psicoterapia, Dinâmica de Grupo e Psicodrama 230
3.2 As comunidades terapêuticas e os "psi" cariocas 127 2 O psicodrama moreniano: a SOPERJ, a sociedade
3.3 Os psicólogos cariocas e a tutela dos psicanalistas 129 moreniana e o CPRJ 231
3.4 O "modismo" grupal entre os "psi" cariocas: a SPAG 137
m- Algumas situações analisadoras das práticas psicodramáticas 234
VI - A Ruptura com as sociedades ligadas à IPA 144 1 - O analisador poder médico 235
1 A segunda geração dos argentinos 145 2 - O analisador psicodrama pedagógico 239
2 Sampa e o movimento "psi" na segunda metade dos Anos 70 152
IV -Alguns efeitos das práticas psicodramáticas 243
2.1 O Grupo de Estudos de Psicologia Social Aplicada 152
2.2 O Instituto de Estudos e Orientação da Família 153
2.3 O Instituto Sedes Sapientiae 154 CAPÍIlJLo IV
2.4 O Núcleo de Estudos de Psicologia e Psiquiatria 160 Algumas práticas ligadas ao Movimento do Potencial Humano 247
2.5 A Casa e o CEPAI 161
I - O Movimento do Potencial Humano 247
3 Enquanto isso, no Rio de Janeiro 163
3.1 O Núcleo de Estudos de Formação Freudiana 163 n-As práticas de "aconselhamento rogerianas" 259
3.2 O Instituto Brasileiro de Psicanálise, Grupos e Instituições 164 1 Na Paulicéia 259
3.3 A Sociedade de Estudos Psicanalíticos Latino-Americanos 169 1.1 O Grupo de Abordagem Centrada na Pessoa 262
3.4 A Clínica Terra 170 1.2 O Sedes Sapientiae 262
4 O movimento lacaniano 171 2 E no Rio de Janeiro: o Centro de Psicologia da Pessoa 264
4.1 O lacanismo em solo carioca 171 m -As práticas da Gestalt-Terapia 267
4.2 O lacanismo em solo paulista 178 1 Na Paulicéia: o Sedes Sapientiae 269
5 As "crises" nas sociedades oficiais (Quebra-se o monopólio da IPA?) 184 2 No Rio de Janeiro 272
5.1 A Brasileira de São Paulo : 184
5.2 A Brasileira do Rio de Janeiro 186 IV - As Práticas "Neo-Reichianas" 275
5.3 A Psicanalítica do Rio de Janeiro 188 1 Em São Paulo: as duas gerações de "corporalistas" 279
1.1 No Sedes Sapientiae 280
vn -Um adendo às práticas psicanalíticas: a fumília e a Subversão 194
1.2 Outros estabelecimentos: Ágora e IPE 282
1 A pesquisa sobre O perfil psicológico do "terrorista" brasileiro 197
1.3 A somaterapia : 284
2 Outras participações "psi" 204 2 E, em solo carioca 288
2.1 Alguns "cotporalistas" 289
CAPÍIlJLom 2.2 Rádice e os simpósios altemativos 291
As práticas psicodramáticas 207 2.3 Alguns estabelecimentos: CIO, IOOR e outros 295

1- Sampa e o Psicodrama 211 V - Algwnas situações analisadoras das práticas ligadas ao


1 O GEPSP e o "sucesso" do psicodrama 211 Movimento do Potencial Humano 301
.•
1 O analisador especialista - perito 301 APRESENTAÇÃO
2 O analisador "a mágica ela salvação" 30Ce

VI - Algumas considerações :no

CAPÍ11JLOV
Os Anos 80 e a Análise Institucional no Brasil 316
I - Alguns processos de suhjetivação na segunda metade dos
anos 80 no Brasil 317

11 - O Movimento Institucionalio;ta Francês 323 É sempre animador encontrar psicólogos atentos à ciência que
1 () período da psicossociologia institucionaL 32.'1 praticam. Formados sobretudo como técnicos, esses profissionais
2 O período das intervenções socioanalíticas 329 geralmente não dispõem de instrumentos teóricos que lhes permitam
3 A análise institucional se institucionaliza 332 perceber que suas práticas não são politicamente neutras.
m - O Movimento Institucionalio;ta no eixo Rio-São Paulo 33'; Qual a natureza da atuação política que se esconde sob as chamadas
1 No Rio de Janeiro 338 "práticas psi"? Via de regra, uma prática que justifica a desigualdade
2 Na Paulicéia 341 social, a exclusão, o confinamento, o preconceito; via de regra, uma
IV - Algumas Considerações 343 prática que quer ajustar os desviantes, que arredonda as arestas de
respostas de resistência justas e saudáveis, patologizando-as em nome
CAPÍTUlO VI da ordem e do progresso. Discurso lacunar, suas concepções quase
Algumas conclusões' Ê necessário' 347 sempre omitem as questões da ideologia e das relações de poder e
explicam comportamentos reduzindo-os a uma dimensão psicológica
BmIJOGRAFIA
reificada.
I - Livros e artigos 3';2 Cecília Coimbra faz uma incursão pelo universo dos psicólogos
II - Revistas, jornais, boletins, etc 363 nos anos 70, período escuro da vida brasileira, à procura de convergên-
m - Documentos, prospectos. etc 367 cias entre as modalidades psicoterapêuticas então em vigor e os desíg-
IV - Anais de congressos : -)68 nios da ditadura militar. A tarefa é gigantesca e complexa, não só porque
as modas terapêuticas em vigor no país naquela época eram muitas, mas
DISCOGRAFIA 369 também porque eram diversas as suas extrações teóricas. Estavam
presentes mistificações fáceis de criticar, pois que não iam além do nível
ANEXOS raso do mais absoluto senso comum; chegaram também métodos de
I - Psicanalistas entrevisL1.dos -)70 intervenção que, embora em essência conservadqres, continham mo-
li - Outros profissionais e ex-presos políticos entreviSL1.dos 371 mentos de lucidez que é importante sublinhar; foram introduzidas tam-
m - Psicodramatistas entrevistados 371 bém propostas de intervenção atentas à dominação e à exploração
IV - Profissionais entrevistados ligados ao movimento do inerentes às sociedades capitalistas e que propunham a desmontagem
potencial humano 371 de práticas autoritárias nas instituições e nas relações sociais. Em relação
a essas últimas, Cecília adverte para o perigo da transformação de
originalmente críticas em automatismos que se conjugam com a ordem
que interessa aos poderosos.
Os Guardiães da Ordem é um mural, feito de largas pinceladas,
das práticas psicológicas no Brasil do milagre. Ponto de partida impres-
cindível, a análise que ele contém certamente é um convite a outras
análises mais profundas. O principal está feito; alertar os psicólogos para
a dimensão histórica e social de idéias e técnicas que aparecem como
isentas.
O texto de Cecília é indignado e radical, como devem ser, segundo
"Não serei o poeta de um mundo caduco
Agnes Heller, as idéias que querem denunciar a injustiça e a iniqüidade;
"as idéias tolerantes", diz Heller em O Cotidiano e a História, "são passivas Também não cantarei o mundo futuro ..
e por isso historicamente ineficazes. Uma idéia não pode se permitir ser Estou preso à vida e olho meus companheiros:
liberal. Deve ser enérgica, tenaz, fechada em si mesma, para cumprir o Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.
mandato divino de ser produtiva".
Entre eles, considero a enorme realidade.
Cecília Maria Bouças Coimbra é uma mulher corajosa e lúcida
Opresente é tão grande, não nos afastemos.
quando se trata de enfrentar trabalhos hercúleos. Este livro é mais uma
prova de que a militância por um mundo mais humano está no coração Nã,o nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
de sua vida de guerreira. Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
Não direi os suspiros ao anoitecer,
A paisagem vista da janela,
Não fugirei para as ilhas,
Nem serei raptado por serafins.
Maria Helena Souza Patto
O tempo é a minha matéria,
São Paulo, outubro de 1995.
O tempo presente,
Os homens presentes,
A vida presente!"
(Mãos Dadas -CarlosDmmmond de Andrade)

ií iií
IN1RODuçÃO

"... devemos interpelar todos aqueles que ocupam uma posição de


ensino nas ciências sociais epsicológicas, ou no campo do trabalho
social- todos aqueles, enfim, cuja profissão consiste em se interessar
pelo discurso do outro. Eles se encontram numa encruzilhada
política e micropolítica fundamental. Ou vão fazer o jogo dessa
reprodução de modelos que não nos permitem criar saídas para
os processos de singularização, ou, ao contrário, vão estar
trabalhando para o funcionamento desses processos na medida
de suas possibilidades e dos agenciamentos que consigam pôr para
funcionar Isso quer dizer que não há objetividade científica
alguma nesse campo, nem uma suposta neutralidade na relação ".
Félix Guattarl1

Este trabalho pretende ser um levantamento do que foram algumas


práticas "psi" na década de 70 no Brasil e um repensar sobre elas: a
que demandas atenderam e ao mesmo tempo produziram, e quais
foram algumas de suas gêneses históricas. Nele pretendo também pensar
a "encruzilhada" em que todos nós, "psi", nos encontramos. "Encru-
zilhada" em que estão também todos aqueles que ensinam e que, como
qualquer outro dispositivo social, são responsávei,> pela produção de
111liitas subjetividades.
Por isso, minha proposta é caminhar por alguns processos de
slIbjctivação nos anos 60, 70 e 80: como são produzidos hegemonica-
l11ente2, em que momentos conseguimos forjar processos de singula-

Guattari, F. e Rolnik, s. Micropolitica: Cartografias do Desejo. ~, Vozes, 1988, p. 29.


2 No conceito de subjetividade dominante ou hegemônica, Guattari mostra que "...a produção de
subjetividade constitui matéria-prima de toda e qualquer produção. As forças sociais que
administram o capitalismo hoje entendem que a produção de subjetividades talvez seja mais
importante que qualquer outro tipo de produção, mais essencial até que o petróleo e as energias,
visto produzirem esquemas dominantes de percepção do mundo". In: Guattari, F. e Rolnik, S.
(>p. cit., p. 40.

v
rizaçã03. tomo se tem dado essa luta ao longo de três décadas e como formação social capitalistica, como também no estudo da divisão social
se encontram, no miolo dissà tudo, as práticas "psi": criando e fortale- do trabalho através da abordagem feita por A. Gorz. Isto porque a crítica
cendo territórios singulares e reproduzindo/produzindo modelos. aos "especialismos" é um dos fios condutores deste trabalho.
Sendo produzidas por tais modelos e, ao mesmo tempo, Da mesma forma, também são utilizadas categorias pertinentes
fortalecendo essas subjetividades dominantes, as práticas "psi" têm aos pensamentos de F. Guattari - principalmente no que se refere às
também produzido outros espaços que não os hegemônicos? Em que produções de subjetividades - e de Michel Foucault - nas questões
momentos encontramos rupturas que nos permitam afirmar algo de relativas à genealogia das práticas "psi" e aos efeito~ de sua difusão.
novo, de criativo? Afirmar outras percepções, outros modos de ser e de Por último, beneficio-me do referencial Institucionalista de origem
estar no mundo? . francesa6 através de uma série de ferramentas que, no decorrer de todo
Estas questões e muitas outras aparecem nesta caminhada que este trabalho, vão sendo apresentadas ao leitor. Dentre elas há uma, a
me propus fazer. Caminhada que é uma viagem retrospectiva de uma de analisador, que percorre os três grandes grupos de práticas aqui
geração - a minha geração - com todas as implicações4 daí decorrentes. presentes (psicanálise, psicodrama e terapias ligadas ao Movimento do
Viagem que me produziu muitos encontros, alguns agenciamentos e Potencial Humano).
uma infindável vontade de entender melhor o que esta geração viveu, Estes caminhos correspondem à minha própria trajetória de vida,
por que lutou, por que morreu, por que se exilou e por que voltou e () percurso que tenho realizado até aqui: de lugares muito bem marcados,
continuou pretendendo produzir espaços mais flexíveis, abertos aos nJmo marxista e maoísta, para espaços não tão delimitados, mais abertos,
fluxos, aos encontros. Espaços onde se luta cotidianamente no sentido onde diferentes fluxos podem e devem se misturar. A utilização que
de se afmnarem caminhos diferentes dos modelados pela "mídia" e demais faço desses enfoques lembra em muito uma caixa de ferramentas, de
equipamentos coletivoss. Espaços, enftm, onde se façam presentes novas onde retiro o que me é útil em determinados momentos, aquilo que
alianças, ~ensibilidades, criações e paixões. lIIe serve, que funciona? Meu interesse está no caráter desnaturalizador
A análise aqui empreendida toma de empréstimo algumas de muitas dessas produções e pretendo lançar mão de todas essas
categorias do Marxismo, quando se faz necessária uma abordagem da lcrramentas, não de forma dogmática, mas como instrumentos de luta.
Nesta viagem pelos últimos 30 anos, muitos mergulhos aconte-
3 Processo de singularização é utilizado por Guattari para designar os processos disruptores no ceram, e esses referenciais funcionaram, portanto, como pontes, como
=po da produção do desejo; trata-se de movimentos de protesto do inconsciente contra a pequenas construções que me auxiliaram na travessia. Nada de ferro ou
subjetividade capitalística, através da afirmação de outras maneiras de ser, outras sensibilidades,
outra percepção, etc. In: Guattari, F. e Rolnik, S. Op. cir., pA5.
de concreto, nada muito seguro e estável, nada tipo terra firme, mas
4 A noção de implicação em análise institucional- que se origina do conceito de contratransferência, apoios e por vez.es pequenas barcaças que me ajudaram a percorrer e
opondo-se à posição neutro-positivista - vai nos falar do intelectual implicado, definido como entender melhor as paisagens que ia vislumbrando. Paisagens nas quais,
aquele que analisa as implicações de suas pertenças e referências institucionais, analisando também
o lugar que ocupa na divisão social do trabalbo, da qual éJegitirnador. Portanto, tal conceito leva lIIuitas vezes, estavam presentes sentimentos os mais diversos.
a uma análise do lugar que se ocupa nas relações sociais em geral e não apenas no âmbito da Durante esta viagem, além de pontes e barcaças, muitos embar-
intervenção que se está realizando.
5 Equipamentos coletivos seriam" ... os instrumentos de codificação, de incrustação, de fechamento,
cadouros foram visitados e encontros aconteceram, principalmente, com
de limitação e de exclusão da energia social livre ( ...). É o processo material e social através do qual os profissionais "psi" e ex-presos políticos do eixo Rio-São Paulo. Reali-
as forças materiais do inconsciente, fluidas e leves, vêm flXat-Sesobre o corpo social. onde funcionam
e funcionarão corno sistemas rígidos e fechados de relações de força, de relações de produção
codificadas e institucionalizadas ( ...). Portanto, o equipamento coletivo é o território não familiar (J Algumas das principais figuras desse movimento são Georges Lapas.sade, René Laurau, Rémi
onde se exerce diretamente a soberania do Estado". In: Fourquet, F. e Murard, L. Equipamentos lless, Pierre Evrard, Patrice Ville, Antoine Savoy, dentre outros.
dei Poder: Ciudades, Terrltorios Y Equipamentos Coletivos. Barcelona, Gustavo Gelli, 1978, Imagem utilizada por Gilles Deleuze em "Os intelectuais e o Poder." In: FoucauIt, M. Microfisica
pp. 70, 73 e 88. do Poder. R], Graal, 1988, p. 71.

vi vii
zei ao todo 173 entrevistas com psicanalistas, psicodramatistas, gestal- lecimentos "oficiais" de psicanálise: muitas exigências burocráticas foram
tistas, terapeutas corporais e ex-presos políticos que me falaram de suas feitas, como, por exemplo, para se conseguir os estatutos e regimentos.
trajetórias e, especialmente, dos anos 70 no Brasil: de suas experiências,
Além de todos esses materiais, foram também consultados muitos
aventuras, desventuras, sonhos, utopias, massacres, fraquezas, cumpli-
artigos e teses versando sobre a história do movimento psicanalítico no
cidades, omissões, conivências e alianças.
eixo Rio-São Paulo, assim como alguns dos referenciais teóricos dos
Em muitos desses encontros, agenciamentos se efetuaram, emoções movimentos psicodramáticos e do Potencial Humano. Estes, apesar de
e marcas se uniram, uma forte sensibilidade pairava no ar, ao não serem utilizados neste trabalho, foram importantes para que eu
compartilharmos histórias, comuns ou diferentes, mas que traziam a pudesse compreender muitos dos conceitos citados pelos entrevistados.
paixão, a vida, a luta, para o primeiro plano do palco. Em outros encon- Assim, algumas obras de J. L. Moreno, R. Bermudez, D. Bustos, C.
tros, o distanciamento se fazia presente; dores de cabeça e enjôos Rogers, W. Reich, A. Lowen, D. Boadella, G. Boyesen e de muitos
dominavam; predominava a morte, o lado obscuro da vida. De qualquer outros brasileiros foram consultadas. Foi realizada também pesquisa
modo, foram encontros de grande intensidade, vividos com emoção, em jornais da grande imprensa sobre os anos 70 e 80 no Brasil e em
ternura, amargura, ódio e mesmo desprezo. Neste sentido, este estudo alguns jornais e revistas "psi" da época. Todos esses materiais encontram-
não é uma pesquisa "neutra", onde a coleta "objetiva" de informações é se citados nas notas e na Bibliografia.
o mais importante, onde a paixão não está presente, onde nossas
Com esse instrumental, pretendo historicizar e mostrar a produ-
transversalidades8 não se atualizam, onde nossos prazeres e desprazeres
ção de algumas práticas psicoterapêuticas nos anos 70 no Brasil, fazen-
ficam de lado. Falar da vida, das lutas, das afirmações, de tudo que
do uma análise institucional das instituições9: psicanálise, psicodrama e
pode transformar o mundo e a nós mesmos, requer l.Jmapresença que
terapias corporais, apontando o que elas têm instrumentalizado, e que
não pode ser pensada como neutralidade.
outras instituições, dispositivos, modelos e subjetividades têm sido por
Essa viagem me mostrou isso. Nessa travessia vivi tudo isso.
elas fortalecidos e produzidos.
A leitura de todas as entrevistas e materiais fornecidos é
Enftm, busco mostrar como a formação "psi", em geral, traz certas
responsabilidade minha, apesar de terem sido fundamentais como
características modelares instituídas e tão bem marcadas; como, em
matéria-prima para o que exponho aqui. O contrato feito com todos os
nossa formação, predomina o viés positivista, onde se tornam hege-
entrevistados foi de que seus nomes seriam citados somente ao final
mônicos os conceitos de neutralidade, objetividade, cientificidade e
de cada Capítulo - foram colocados em Anexo - e suas opiniões não
tecnicismo; onde, nos diferentes discursos e práticas, o homem e a
seriam expostas. As identificações somente ocorreram quando os
sociedade são apresentados como "coisas em si", abstratos, naturais e
assuntos apontados já se haviam tomado públicos através de notícias na
não produzidos historicamente.
grande imprensa.
Um trabalho de Heliana Conde Rodrigues1o inspirou-me a ir
Os materiais consultados - regimentos, regulamentos, estatutos,
procurarem um texto de F. Châteletll o significado de "ser um historiador,
correspondências, artigos publicados, etc. - foram muitos deles
hoje", da historicidade do historiador, pois é este um dos caminhos que
gentilmente cedidos pelos entrevistados. Entretanto, se esta facilidade
ocorreu com os que entrevistei, isto não aconteceu com os estabe- 9 o conceito de instituição, para a análise institucional, difere do de otganização ou estabelecimento.
Instituição é o espaço onde as relações de produção estão instituídas de maneira aparentemente
natural e eterna e não onde o jurídico se manifesta.
8 O conceito de transversalidade, criado por F. Guattari e muito utilizado em análise institucional, 10 Rodrigues, H.B.C. Michel Foucault: Por uma História das Práticas. Traballio apresentado no
representa a clareza que se tem dos entrecruzamentos, das pertenças e referências de todos os Curso de Mestrado - UER], setembro/1989, mimeogr., p. 4
tipos (político, econômico, social, cultural, ideológico, sexual, libidinal, etc.) que atravessam 11 Châtelet, F. nA História".ln: Châtelet, F. (Org.). A FDosofta das Ciências Sociais, vol. 7. Coleção
nossas vidas. As relações transversais são, em geral, inconscientes, não sabidas e desconhecidas. História da FilosofIa: idéias, doutrinas. R], Zahar, 1974.

viii íx
percorro em relação às praticas psicoterapêuticas. Analisa o autor três A própria noção de acontecimento aqui é vista de outra forma:
principais linhas na historiografia atual: a da Filosofia da História, a da não como um fato compreensível, mas como ruptura, "... como produto
História Positivista e a da Nova História. que remete a outras redes de acontecimentos, em outros campos".
Na Filosofia da História estariam os marxistas contemporâneos, Quanto a este sentido de "acontecimento", a abordagem da Nova História
a história vista como um desenrolar contínuo de forma linear ou dialética, não difere em essência da marxista, a não ser no ponto em que esta
dentro de uma perspectiva totalizante, onde a origem e a finalidade última privilegia, como produtora, a "... profundidade econômica da
são aspectos fundamentais. última instância" 16.
Na História Positivista predominam fatos, datações, nomes e Esta Nova História, em que a inscrição histórica se toma funda-
cronologias encadeados, mental, voltada para o presente, para as diferentes práticas, abando-
"... uma espécie de 'jornalismo superior", um jornalismo nando as grandes datas, os grandes nomes e sínteses, segundo o próprio
retrospectivo que tenta reencontrar, no outrora e no antiga- Châtelet, pode cair na armadilha de - apesar de dar ênfase às rupturas
mente, o desenrolar dos fatos, a causalidade dos sentimentos e históricas - não se implicar politicamente com as lutas presentes. Esses
. dos acontecimentos materiais... "12 (grifas do autor).
trabalhos perigam em
Seria o que, dentro de uma perspectiva institucionalista, é co- "... não passar de instrumentos sem poder (...J que só servem
nhecido como a História do Instituído, onde a preocupação está em para o prazer (.00) daquele que os produz - o historiador -, da-
"00. construir imagens confortadoras e bem ligadas"13. quele que os etiqueta- o historiógrafo- e daquele que os descreve
- o estudante - caso não aceitem estar em situação ideológica'17
A Nova História, representada, dentre outros, por L.Fevre e M.
(grifas meus).
Blochl4, "00. recusa tanto o acontecimento como a lei, tanto a crônica
quanto a sociologia". Esses historiadores Ser historiador, hoje, é principalmente estar articulado, implicado
"... indicam que estão fora da triste problemática do com as lutas que se travam, é saber o lugar que se ocupa na própria
acontecimento ou do doloroso referencial cronológico; esfor- divisão social do trabalho, da qual se é um dos legitimadores. Nesse
çam-se -para esclarecer o presente - por restaurar a opaci-- ponto, Châtelet mostra a importância do Materialismo Histórico, não
dade das práticas passadas, em sua diversidade. Doravante, para se fazer uma Filosofia da História, mas para se ter claro que, no
impõe-se outra concepção das seqüências acontecimentais co-
mo inStrumento de inteligibilidade. Antes de tudo, importa de-
combate político/ideológico do cotidiano, os conhecimentos elaborados
terminar longamente em que horizonte real e imaginário os di- pelo historiador, intelectual, especialista, etc. (ou qualquer outro nome
versos agentes e pacientes históricos intervêm, como eles habi-- que se queira dar aos peritos no mundo capitalístico) estão presentes
tam, como andam, como navegam, como comem (...); em suma, no mundo, têm peso, não são neutros e estão produzindo - no dizer
como vivem realmente. Os atos do poder (dosdiversospoderes),
de Guattari - subjetividades hegemônicas e processos de singularização.
pormais atuantes que sejam, nilo poderão ser compreen-
didos, em suas conseqüências, sem refer€ndas a essas prd- São, em suma, forças sociais, quer se queira ou não.
ticas determinantes "15 (grifas meus). A tentativa de se caminhar por esta abordagem é um desafio, até
porque - e já ouvi isto muito, principalmente .de alguns colegas
psicanalistas - há o risco de este trabalho ter os rótulo de "relativismo
12 Châtelet, F. Op. cit., p. 211.
sociológico", "relativismo histórico" .
13 Idem, p. 211. Sobre o assunto, gostaria .de tecer alguns comentários e, nova-
14 Segundo Châtelet, equipe reunida em tomo dos "Anais, Econotnia, Sociedade, Civilização",
fundada pelos autores citados.
16 Rodrigues, H.B,C. Op. cit., p. 08.
15 Châtelet, F. Op. cit., p. 213.
17 Châtelet, F. Op. cit., p. 218.

x xi
mente, utilizando a "caixa de ferramentas" - já citada por Deleuze -, modificação de um mesmo objeto que brotasse sempre
de um mesmo lugar (. ..). Umfalso objeto natural, como a religião
retirar dela outros pensadores: Paul Veyne e Michel Foucault. Não quero
C ..) que agrega elementos muito diferentes C ..) que, em outras
relativizar nada, quero sim desnaturalizar! Isso porque não entendo os épocas, serão ventilados em práticas muito diferentes e objetivados
objetos como tendo existência em si, como naturais, mas sendo produ- por elas sob fisionomia muito lliferente"19 (grifos meus).
zidos historicamente por práticas que os objetivam e que são muito
Por sua vez, Foucault, ao montar uma história das práticas, ao
bem datadas. Relativizar algo de princípio mostra a existência dos objetos
invés de relativizar no tempo aquilo que é diferente, prefere apontar
em si, como algo dado; simplesmente vou relativizar meu olhar, minha
para a produçiio do real pela via da história. Apontar que nossas práticas
escuta, minha percepção, para poder apreender os diferentes aspectos
determin:.lm os sujeitos, os objetos considerados naturais e já dados. Da
desses objetos.
mesma forma, nega um pensar totalizado da história que remeteria à
Entretanto, se os entendo, assim como o sujeito, o real, como
busca de uma origem ou finalidade, pois
produções históricas, eles não são dados em si, não existem por si,
"..procurar uma tal origem é tentar reencontrar "oque imedia-
mas estão sendo sempre produzidos, como um trabalho jamais acabado,
tamente'; o "aquilo mesmo" de uma imagem exatamente ade-
terminado. quada a si; é tomar por acidentais todas as peripécias que pude-
"Mas cada prática, ela própria, com seus contornos inimitáveis, ram ter acontecido, todas as astúcias, todos os disfarces; é querer
de onde vem? Mas, das mudanças históricas, muito simplesmente, das tirar todas as mdscaras para desvelar, enfim, uma iden-
tidade primeira"]JJ (grifos meus).
mil transformações da realidade histórica, isto é, do resto da história,
como todas as coisas. Foucault não descobriu uma nova instância, Por isso, a história das práticas de Foucault e o "historiador hoje"
chamada "prática", que era, até então, desconhecida: ele se esforça de Châtelet trazem para o palco uma h.istória que "não apaga o que
para ver a prática tal qual é realmente; não fala de coisa diferente da pode revelar", que mostra "o lugar de onde olha", "o momento em que
qual fala todo historiador, a saber, do que fazem as pessoas: está", "o partido que toma", e a afrrmação da paixã021. Mostra o intelectual
simplesmente Foucault tenta falar sobre isso de uma maneira exata, implicado, como aquele que "... se define (...) pela vontade subjetiva
descrever seus contornos pontiagudos, em vez de usar termos vagos e de analisar até o fim as implicações de suas pertenças e referências
nobres"18. institucionais"22. Aquele que nunca é chamado de militante, visto este
Neste texto, Paul Veyne vai mostrando como as diferentes práticas termo ter tido, numa outra época, uma outra produção histórica.
vão engendrando no mundo objetos sempre diversos, diferentes Portanto, por não entender o objeto "militância" como natural e
"rostos"; daí não existirem "loucura através dos tempos", "religião ou a-histórico, por sabê-lo produzido por certas práticas e movimentos
medicina através dos tempos". Isto mostra como sociais num determinado momento da história da esquerda, não só
"... em uma certa época, o conjunto das práticas engendra, sobre brasileira, mas mundial, pretendo utilizá-lo a partir de outras práticas,
tal ponto material, um rosto histórico singular que acreditamos de outras produções.
reconhecer ou que chamamos, com uma palavra vaga, ciência
histórica ou, ainda, religião ; mas, em uma outra época, será
um rosto parlicular muito diferente que se formará no mesmo
ponto e, inversamente, sobre um novo ponto, seformará um rosto
vagamente semelhante ao precedente. Tal é o sentido da negação
19 Idem, p. 172.
dos objetos naturais; não bd, através do tempo, evolução ou
20 Foucault, M. Microfisica do Poder. Op. cit., p. 19.
21 Trechos contidos em um artigo de Foucault, M. Op. cit., p. 30.
18 Veyne, P.M. "Foucault Revoluciona a História". In: Como se Escreve a HIstória. Cadernos da 22 Lourau, R. "El Estado en e1 Análisis Institucional". In: EI Análisis Institucional Madrid, Campo
Universidade de Brasília. 1982, pp. 159 e 160. Abierto, 1977, p. 88.

xii xiii
I- A ·
QuEsTÃO DA MnrrÂNCIA ocultação, a mitificação e a naturalização das práticas e modelos ofici-
ais dominantes, onde as proposições - e não os dogmas científicos -
são extraídas das relações que estabelecemos entre as práticas sociais e
"Não põe corda no meu bloco as nossas próprias práticas cotidianas.
Não vem com teu carro chefe
Não dá ordem ao pessoal, Militância guerreira em que se fica ao lado da vida, da afirmação,
Não traz lema, nem divisa do instituinte, das implicações, da transversalidade, do processo de
Que a gente não precisa singularização e, portanto, rompe-se com o autoritarismo dos saberes
Que organizem nosso carnaval oficiais, englobantes e totalizantes. Rompe-se com o território fechado
Por um bloco
da falta, da carência, do instituído, da neutralidade e dos regimes de
Que derrube esse coreto
Com passistas à vontade verdade pré-estabelecidos, fechados e hierarquizados.
Que não dancem o minueto. Militância não vista como mais um esp ecialismo , pois até isto o
Por um bloco capitalismo produziu: o militante é mais um especialista! Mas militância
Sem bandeira ou fingimento
que nega os especialismos, desnaturalizando lugares sagrados do saber
Que balance e bagunce
O desfile e o julgamento. e do não-saber, e que aponta como certos saberes, considerados margi-
Por um bloco nais, desqualificados, "inferiores" e "menores", só o são porque a postura
Que aumente o movimento arbitrária e dogmática da "ciência" os produziu para serem percebidos
Que sacuda e arrebente
e aceitos assim. Enfim, militância que aponta para a desmitificação do
O cordão de isolamento ".
corporativismo, onde os papéis profissionais são mais alguns dos
(PÚltaformn - Aldír Blanc eJoão Bosco) modelos impostos e produzidos pelas diferentes práticas sociais.
Militância e não mais uma armadilha, onde se possa consignar
Fazer esta travessia é uma forma de resgatar um período de que a distinção feita - e como acontece isso em nossa fomação "psi" -
nossa história que muitos tentam esquecer. Não com o intuito de uma entre trabalho psicológico e trabalho político é mais um engodo dos
reconstrução, mas com uma proposta de desconstrução. Ou seja, não especialismos, da desqualificação de práticas vistas como "diferentes" e
pretendo fazer a reconstrução de uma "determinada" memória histórica, da manutenção e superioridade de algumas consideradas "científicas",
mas de uma "outra", sempre ocultada, sempre impedida de aparecer, "competentes". Militância que revela, ao mesmo tempo, o poder desses
sempre estigmatizada. Com isto, em realidade, proponho a descons- modelos, mas anuncia para a possibilidade de se escapar, de se quebrar
trução de uma história conhecida como "oficial", instituída, fazendo - mesmo que provisoriamente - os lugares marcados e determinados
surgir daí uma "outra" memória, uma "outra" história. pelas subjetividades dominantes que dicotomizam, excluem: ou se é
Desde o início desta viagem me propus a produzir um texto- "psi" ou se é militante; "se é isto, não se pode ser aquilo".
intervenção, e intervenções, efetivamente, ocorreram: em mim e em Militância que se refere aos diferentes, marginalizados e desqua-
muitos entrevistados. lificados saberes e a muitas e muitas práticas, que cotidianamente,
Em realidade, a produção deste texto-intervenção é uma forma silenciosamente, em seus microespaços, estão gestàndo, forjando novas
de militância. Não a militância dos anos 60170 e que ainda hoje perdura: formas de perceber o mundo, novas formas de se viver melhor neste
a militância como "lema", "divisa", "ordem", "organização", "carro-chefe". mundo. Referindo-se a inúmeros sujeitos que, em seu dia-a-dia, tentam,
Mas a militância enquanto produção de territórios singulares, novos, mesmo que provisoriamente, produzir outros tipos de relação, outras
onde se consegue apontar para as armadilhas do instituído, para a estratégias de vida que não as dominantes. Referindo-se também a

xiv xv
todo e qualquer intelectual que utilize seus saberes, suas práticas para
J
,
CAPÍTIJLO I
a produção de novos sujeitos, de novas alianças que afirmem a vida, a
paixão, a expansão. Militância que nega toda e qualquer ortodoxia e
fechamento, que tenta ampliar suas alianças, expandindo outras formas
de estar neste mundo. Militância que é uma construção cotidiana e que
percorre os mais variados caminhos.
Portanto, enquanto profissional psicóloga, militante e implicada
com a história, pretendo apontar para o político, para a produção de
subjetividades, para a mitificação e naturalização de algumas práticas
psicoterapêuticas dominantes na década de 70, e ainda hoje. ALGUNS PROCESSOS DE SUBjETIVAÇÃO NOS
Este texto-intervenção é, sem dúvida alguma, um texto indignado
e apaixonado. Indignação e paixão que vêm da minha implicação, da ANos 60, 70 E 80 NO BRASIL
minha história de vida. Indignação e paixão que são também produzi-
das pelo fato de mexer com questões tão naturalizadas e até mesmo
sagradas: a genealogia de algumas práticas psicoterapêuticas no Brasil
e da própria formação "psi".
Este trabalho tenta mostrar a singularidade de uma existência;
Entretanto, apesar da indignação, paixão, denúncia, desnatu-
procura apontar agenciamentos e encontros que foram se dando ao
ralização que estão presentes na maioria das páginas deste trabalho e
longo de uma história e, portanto, é a afirmação de uma percepção de
apesar da radicalidade de minhas percepções, desejo pensar na
mundo.
possibilidade de construir novos espaços e forjar novos aliados.
É uma leitura, embora outras existam. É uma forma de pensar os
Daí, este trabalho se propor a ser um trabalho militante, uma
diferentes encontros que tive ao longo das três últimas décadas. Trata-
intervenção. Pretensão em demasia? Talvez.
se, por conseguinte, de uma leitura que, pretendo, não pertença ao
território das identidades reconhecidas, da academia, do cientificismo.
Mas que, efetivamente, faça parte de outros espaços.
Para se falar sobre alguns processos de subjetivação nos anos
60, 70 e 80 no Brasil há, inicialmente, que pensar a que subjetividade
estou me referindo. Penso produção de subjetividades, segundo o
enfoque guattariano - não "como coisa em si, essência imutável", mas
como "... esta ou aquela subjetividade, dependendo de um agenciamento
de enunciação produzi-la ou não"!. Ou seja, formas de pensar, sentir,
perceber a si e ao mundOJProduzidas por diferentes dispositivos sociais,
culturais, políticos, etc, existentes no mundo capitalístic02• Pretendo

1 Sobre o assunto, consultar Guattari, F. e Rolnick, S. Op. cito


Z O termo capitalístico, utilizado por Guattari, "... designa não apenas as sociedades designadas
como capitalistas, mas também setores do 3" mundo ou do capitalismo periférico, assim como as
economias ditas soclalistas dos países do leste, que vivem numa espécie de dependência e

xvi 1
apontar para a chamada cultura de massas ou "cultura mercadoria'" crescente aumento das chamadas classes médias urbanas. É princi-
como um dos elementos principais na produção dessas subjetividades palmente nestas classes médias urbanas que pretendo identificar alguns
capitalisticas, especificamente no Brasil dos anos 70. processos de subjetivação que vão sendo produzidos no decorrer dos
anos 60, 70 e 80.
a Brasil de 61 a 64 caracteriza-se pelo projeto de reformas de
I - Os ANos mSTITUINTES: base e de desenvolvimento nacional, frente ao reordenamento mo-
nopolista do capitalismo internacional, o que gera uma política populista
dos governos deste período'.
1- DE 60 A 64: O ENGAJAMENTO POPUUSTA É neste quadro que se desenvolvem movimentos sociais que,
com o consentimento e apoio governamentais, voltam-se para a "cons-
"O Brasil é uma terra de amores cientização popular". Sem dúvida, esses anos estão marcados pelos
Ak;atifada de flores, debates em torno do "engajamento" e da "eficácia revolucionária", onde
Onde a brisa fala amores
a tônica é a formação de uma "vanguarda" e seu trabalho de "conscien-
Nas lindas tardes de abrir
Co1Tf!Í para as bandas do sul
.tizar as massas", para que possam participar do "processo revolucio-
Debaixo de um céu de anil nário". A efervescência política, o intenso clima de rhobilização e os
Encontrareis um gigante deitado àvanços na modernização, industrialízação e urbanização que confi-
Santa Cruz, hoje Brasil
guram esse período trazem, necessariamente, as preocupações com a
Mas um dia o gigante despertou
Deixou de ser gigante adormecido
panicipação popular".
E dele um anão se levantou Ressoam muito próximos de nós os ecos da vitoriosa Revolução
Era um país subdesenvolvido, Cubana, que passa, a partir de então, a embalar toda uma juventude
Subdesenvolm'do, subdesenvolvido ".
latino-americana, como o sonho que pode se tornar realidade. Daí a
intransigente defesa que se faz do princípio de não-intervenção em
(Cançilo do SubdesemJolvldo - CPCIUNE, Cmco de Ame Carlos Lyra)
Cuba.
Se os anos SOpassaram a ser conhecidos, pelo poder da núdia, Aqui no Brasil, os grupos dominantes aliados aos capitais estran-
como os "anos dourados", a década de 60 tem sido caracterizada como geiros mostram-se incapazes de formular uma política autônoma. Esta
os alegres e descontraídos anos onde se ouve a Bossa Nova, e ainda se situação gera não somente uma forte manipulação para com os setores
respiram os ares de uma democracia liberal burguesa. populares como também uma forte pressão destes mesmos setores. a
É a partir do Governo Juscelino Kubistcheck, o presidente "bossa pacto populista começa a se esfacelar, o que se torna mais claro após a
nova", o primeiro da década de 60', que se dão os grandes avanços na renúncia de Jânio Quadros, quando a política de alianças se fragiliza e
chamada modernização do Brasil. Ela está aliada à expansão do capita- se desagrega. Por outro lado, há grandes pressões dc grupos de esquer-
lismo monopolista, através do crescimento da industrialização dominada da, ainda fortalecidos e alimentados pelo próprio governo populista!
pelo capital estrangeiro. Verifica-se, então, a acelerada urbanização e o desenvolvimentista de João Goulart. .
Estas pressões surgem em diferentes áreas. Na cultura, o Centro
contradependéncia do capitalismo~. Tais sociedades, segundo Guattari, em nada se cüferenciam
do ponto de vista do modo de produção da subjetividade. In.:Guanari, F. e Rolnik, S. Op. cit., p.
Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes', com sede no Rio
15.
3 Termo utilizado por Felix Guattari para se referir à cultura de massas no mundo capitalístico. 5 jânioQuadros em 1961 e João Goulart de 1961 a 1964.
4 Seugovemovaide 19S6al96l. 6 Hollanda, H.B. hnpressões de Viagem. Tese de Doutorado - UFRJ, 1978.

2 3
de Janeiro, leva para diferentes estados brasileiros, através da chamada dos assalariados, provocado principaimente pela continua elevação do
UNE/Volante, vários shows, peças de teatro, esquetes, etc. Também são custo de vida.
lançados os Cadernos do Povo Brasileiro, pela Civilização Brasileira, A principal produção cultural da época, assim como alguns
vários livros de cordel, e são produzidos alguns filmes como Cinco movimentos sociais e sindicais estão, portanto, marcados pelo "enga-
Vezes Favela e o inacabado Cabra Marcado para Morrer'. A fmalídade jamento" e em mãos da esquerda, tendo como temas centrais os mitos
é "educar o povão" através da arte. No Nordeste, Francisco Julião e as do nacionalismo e do povo, a modernização e a democratização e os
Ligas Camponesas incendeiam com sonhos de liberdade e de reforma projetos de tomada do poder".
agrária os pequenos camponeses da Zona da Mata. Ali, como em geral Entretanto, o pacto populista entre o governo de João Goulart e
no campo brasileiro, as relações de produção capitalistas vão os setores populares, além de se fragilizar, começa a se tornar perigoso
gradativamente se tornando hegemônicas, apesar da resistência de alguns para a expansão monopolista do capital estrangeiro. Este sente no
pequenos arrendatários, posseiros e camponeses. modelo politico vigente no Brasil - e na América Latina - uma barreira
Diferentes experiências com alfabetização de adultos são reali- à sua expansão. Neste quadro dá-se o golpe militar de 64, quando as
zadas, como o Movimento de Cultura Popular (MCP), em Pernambuco, forças armadas ocupam o Estado para servir a tais interesses. Para isso,
órgão da Secretaria de Educação da Prefeitura de Recife' e, posteri- e como preparação de terreno, uma intensa campanha se desenvolve
ormente, Paulo Freire em Pernambuco e no Rio de JaneirolO A politi- desde os anos 50, por meio da qual constrói a figura do comunista
zação da Bossa Nova e sua aproximação com oS "sambistas de morro" como traidor da pátria. Essa subjetividade é cada vez maL, produzida
como Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Keti, e o irúcio da divisão do no decorrer desta década e na seguinte: o fantasma do comunismo
movimento bossa-novistall marcam esses primeiros quatro anos dos ameaça e ronda as famílias brasileiras; é necessário esconjurá-lo, estar
60, que são vividos de forma intensa c ardorosa por uma juventude sempre alerta para que a pátria, a familia e a propriedade sejam territórios
universitária de classe média. sagrados e intocáveis por tal peste. Como efeito disto, semanas antes e
Estamos em 1962. Um dos centros de debate é o lnstituto Superior depoL, do golpe de 31 de março de 1964, em muitas capitais do pais,
de Estudos Brasileiros (lSEB), cuja euforia nacionalista c reformista não sào organizadas as Marchas da Família com Deus e pela Propriedade.
deixa perceber que o impeto do processo de industrialização começa a Multidões de senhoras e suas famílias de classe média e média alta
diminuir e a economia passa por uma série de problemas, entre eles, desfilam pelas rua, do centro do Rio de Janeiro e Sào Paulo e, juntamente
crises de recessão. Percebe-se bem o crescente grau de combatividade com a cúpula da Igreja Católica, denunciam a "comunização" da socie-
dade brasileira e exigem um governo forte.
7 o CPC da UNE foi criado em abril de 1961 e tinha como fmaUdades promover atividades nos
setores teatrais, cinematográficos, musicais, chs artes plásticas e "... elevar o nível de conscientização
Se por um lado estes processos de subjetivação tornam-se
das massas populares". In; Peixoto, F. O Melhor Teatro do CPC da UNE. São Paulo, Global, dominantes, já nos quatro primeiros anos dos 60 havia sido irúciado o
1989, p. 3.
desenvolvimento de modos de subjetivação singulares 13, principalmente
8 Destes eventos vão surgir muitos artistas e poetas; alguns continuariam produzindo, como
GianfrancescoGuarnleri, Augusto Baal, ChiCo de Assis, Ferreira Gullar, Moacir Félix, Geir Campos, na juventu de universitária de classe média, através de todos esses
Affonso Romano de Sant'ArU1a, Paulo M. Campos, José Carlos Capinam, Torquato Neto, Marcos movimentos sociais. Conseqüentemente, surgem posturas e compor-
Farias, i\1iguel Borges, Carlos Diégues, Léon Hit?man,Joaquim Pedro de Andrade, Eduardo Coutinho,
tamentos que recusam as normas pré-estabelecidas e instituídas; "todos
Carlos Lyra, Sérgio Ricardo, Oduvaldo Víana Filllo, carlos Estevam, Armando Costa, Antonio Carlos
Fontoura e muitos outros esses modos de manipulaçào e de telecomando"!'.
9 O governador do Estado de Pernambuco é Miguel Arraes.
Apesar disso, não se percebe que as atuações do CPC e de uma
10 O chamado Programa Nacional de Alíabeti7aÇâo, endossa.do pejo MEC.
11 Sobre o assunto ver Castro, R. Chega de Saudades. São Paulo, (ia das Letras, 1990, p. 347, 12 Hollanda, H.B. Op. cito
quando afirma que ~... aquele flerte com o populismo iria acabar estragando a fX!esia da coisa", ao 13 Guattari chama a isso de "processo de singuIarizaçâo".
se referir a Nata Leão e Carlos Lyra. 14 Guattari, F. e Rolnik, S. Op. clt., p. 17.

4 5
série de outros movimentos sociai"i da época sào, Clll realidade, UllI Cdsamento formal cle nossos pais chegam a ser ridicularizados, como a
cng:lj:lmento populist:l, em que ptedominam muitos aspectos pater- imposição de valores burgueses. A religião é vista como o "ópio do
nalistas e vanguardistas, havendo, entretanto, uma clara consciência da povo" e o triângulo Deus, Pátria e Família denunciado como um princí-
distância "... entre o intelectual e o povo, o que tmnsp:lrece na poesia pio fiscista. Enfim, :I minissaia c o biqumi vão produzir processos de
populista através de um indLsfarçável sentimento de culpa"". Estas singularização que irão se cllOC:lr,principalmente no decorrer da década
posturas correspondem a uma produção colocada pela efelVescência seguinte, com as subjetividades hegemõnicas produzidas pelas práticas
política da época e conseguem um alto "... nível de mobilização das capit:llisticas e fortalecidas pela ditadura militar em nosso pais.
cam.adas nlai"}Jovens de artistas c intelectuais a ponto de seus efeitos
"Quedamos mudar o mundo, era a nossa questão hásica; mais:
serem sentidos até hoje''16.
tinbamos a certeza de que i.ssoia acontecer ( J Não nos passava
Trata-se d:l produção de territórios singulares, aind:l m:lrcados pela cabeça que o ser humano pudesse passar seu tempo de vida
pelo stalinismo e rigídez vigentes na época e que seráo r:ldic:llizados sobre a terra, alheio aos /Jroblemas sociais e polítú;os.- esta era
pela gerdção de 68. Provam-se e aprovam-se novos valores e padrões para nós a pior daç alienaçoes Foi assim que, nos ano." 60, pro-
duziu-se UtJUl arte politica, UnuJ cultura lX)ltada para a questâo
de comportamento, sobrctudo entre algumas parcclas da juventude social. Muitos da geração comprometeram suas uidas com a
universitária de classe média das grandes cidades. Ilá a valorLzação da política e seu modo especifico de encarar a realidade" 18.
participação das mulheres, não somente na sua protl"sionalizaçào llKL.,) J

principalmente no seu engajamento politico, apesar de todos os limites E, em contato com a participaçâo politica e a rnilitânci:l, es-
ainda impostos pelos próprios companheiros de militância. O Cdsamento pecialmente nos doL~grandes gru pamentos então exi~tentes - PCB e
deixa de ser para elas a única perspectiva honmela ele independência JlICI9~, descobre-se que :lquela geFdçào despertd par:l algo que alguntaS
familiar. Exploram-se canúnhos onde é fundamental a satisfaçào pessoal gerações anteriores já denunciavam. "Perceben10s, nos anos 60, que
nos relacionamentos COll1outras pessoas, desde a sexualidade até o nossa educação havia sido um.'l distorçào; nossa fOl1n:lç'ão,Ull1processo
trabalho. Este deix:l de ser uma mera ocupação provisória para tornar- mórbido, lI11la defortllaç:lo""o.
se ".. unta via legítima de realização pessoal e afirmação cb própria
independência. A reprodução torn:l-se, :lté certo ponto, uma opção ..."
com as dLscussões sobre o direito ao aborto e :lO uso da pílub :lnti- 2 -DE 64A 69:
concepcional. "A sexu:llid:lde exp:lmle-se p:lrd :llém dos limites do O ENGAJAMENTO CONSENTIDO E SEU ROMPIMENfO
c:ls:lmento ..." e a própria monog:lnú:I, tão defendida pelas muUleres de
classe médi:l, tem sua discussão iniciada por essa juventude universitária. "Caminhando e cantando e seguindo a canção
O tabu da virgindade é desqu:llitlmdo e gr:lcldtiv:lmente cai por terra. Somos todos iguaL,>,braços dados ou nào
l"as escolas, nas ruas, campos, constrnç6es.
":-.Iasrelações entre pais e ftlhos, :I nlliior :lspiração é se fazerem todos
Caminhando e cantando e seguindo a canção
govern:lr por um código igualitário"", a partir do qual a hiemrquia, o l"em, vamos embora,
poder do pai e a submissão da mãe e dos filllOSsão questionados no Que esperar nao e saber
próprio cotidiano dessa juventude. As relações entre homens e mulheres Quem .,>abe jàz a hora.
IVao espera acontecer"
são pensadas de forma mai~ igualitári:l, e a rigidez e o autorit:lrismo do
(Prd Nilo lHzer que Nilo Falei de Flores - r;era!do vandni)
I'; lfollancb., H.R op. cit., p. 24.
16 Idem, p. 29.
18 MacieL L C. Anos 60. Porto Akgn:', 1.& PM, 198"7,p. 7.
17 Santos, T. C. ~AMulher Uherada ~ a Difusão da PsicanálLo;e" In: Figueira, S. A. (Org.) O Efeito Psi.
19 PCB ( Partido Cornunim Brasil",·iro), clandestino Jesck os anos 10, e J UC (Juventude Universitária
Rio de Janeiro, Campus, 1988, 103-120, p. 107.
Católica), que, fXlsteriormenre, se or~ como AP IAção Popular), enmo!! doisgrancJcs territórios

7
Se antes de 64, com os CPCs fundados em várias faculdades de "Lembro-me de ter assistido várias vezes ao "show", de pé. arrepi-
ada de emoçàó cí/..-'ica,Era um rito coletivo, um programa festivo,
vários estados e uma série de outros movimentos, há uma intensa difusão
uma açdo entre amigos A platéia fechava com o palco Um
de toda essa "postura participante e conscientizadora", no período que encontro ritual ( .. ) sintonízados secretamente com ofracasso de
vai do golpe de 64 até o Ato Institucional nº S, em dezembro de 68, vê- 64, vilJido como um incidente passageiro, um erro inJormulado e
se um outro quadro. corrigíuel. uma falência ocasional cuja consciência o rito
supetava" lA.
A ditadura militar, então instaurada, caracteriza-se pela fórte con-
centração de poder no executivo federal, e é utilizada para resolver as Em I96S, em São Paulo, é a vez de Arena Canta Zumbi, com
contradições no plano econõmico que o impasse político tinha agravado. músicas de Edu Lobo e organizado por Gianfrancesco Guarnieri e
Os trabalhadores assalariados são sileociados e perdem o direito de Augusto Boal. A partir dos festivais de Música Popular Brasileira, iniciados
barganhar coletivamente aumento de salários; suas prerrogativas políticas em 6S e 66 pela TV Record, multiplicam-se os diferentes festivais e
são retiradas; seus sindicatos, sob intervenção, são colocados sob o shows em circuitos universitários". Os novos compositores que dai
controle ainda mais rígido do Ministério do Trabalho. As Ligas surgem trazem, de um modo geral,
Camponesas são dissolvidas e seus líderes perseguidos, presos, tortu- uma tendência participante, na esteira do engajamento
rados e, muitos, ass<L'5sinados. popular· a canção de protesto. Inclinada para uma temática
Um dos efeitos do golpe militar, não obstante as centenas de explicitamente de denuncia social, a canção de protesto procura
cassações, prisões e torturas - com relação à produção da época, num atuar como catalisadora polítíca de setores da classe média,
especialmente entre os estudante" ( ... ). Nos debates que se travam
primeiro momento -, nào é o impedinlento da Circulaçãoelasproduções sobre a música popular, o "engajamento" ainda dá o tom e seus
teóricas e culturais da esquerda'l Ao contrário", apesar da ditadura, há parâmetros são obviamente políticos. Discute~se a necessidade
uma hegemonia cultural da esquerda, que é o traço mai, visível deste de se presenJar a "autêntíca" musica popular brasileira, de man-
panoranu brasileiro de 64 a 69. Entretanto, a circulação de tai, idéias é tê~1aem sua ''Pureza'' popular, longe da invasão do imperialismo,
do "rock" e das guitarras elétricas'i'b.
totalmente bloqueada às classes populares. Passa a se realizar num
"... circuito nitidamente integrado ao sistema - teatro, cinema. Um dos representantes desta "autêntica" música popular brasileira
disco e a ser consumido por um público já "convertido" de int~ é o programa da TV Record O Fino da Bossa, com Eli, Regina e Jair
electuais e estudantes de classe média. Os espetáculos são verda~ Rodrigues, que lota os auditórios onde é apresentado.
deiros rneetings onde a "intelligentzia" renova entre seus pares
Apesar do consentimento, do controle que exi,te em todas as
suas inclinações populares, an/i~imperialistas, socialistas e
revolucionárias"n. produções musicai, e literárias da época, há o perigo de se produzirem
territórios singulares. Certas subjetividades podem se tornar singulares,
É o circuito do espetáculo que passa a funcionar: o show Opinião pela negação aos instituídos, pelos novos encontros que podem
- estreado em dezembro de 64 com Nara Leão, João do Vale e Zé Keti propiciar, tendo em vista, principalmente, os talentos que começam a
-leva, até agosto de 6S no Rio de Janeiro, mais de 100 mil pessoas a se surgir na música popular brasileira. Em 1967, é lançado o programa A
emocionar com o ainda ideário nacionalista-populista. Jovem Guarda, com Erasmo e Roberto Carlos, cuja pretensão é a
produção de outras subjetividades. O engajamento político é eliminado
de militância entre os universitários na época.
2IJ Maciel, L.c. Op. cit., p. 9. 24 Idem. p. W-
21 Hollanda, H.B. Op. clt- 2'5 Toda uma geração de músicos, poetas e cantores revela~se nestes festivais, como Chico Buarque
.22 Schwarz, R. Cultura e Política, 1964-1969. In: O Pai de Familia e Outros Estudos. Rio de de Hollanda, Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto. G-alCosta, Maria Bethânia,
Janeiro, Paz e Terra, 1978. EUsRegina, Milton Nascimento, Geraldo Vandré, GonzaguinI1n.. Ivan lins e muitos outros.
23 Hollanda, H.B. Op. clt., p. 33. 2fJ Hollanda, H.B Op. dL, pp. 4'5 e 46.

8 9
c ignorado. O rock, as guitarras elétricas e o w-íê-íêsão potencializados se convencionou chamar a "esquerda festiva" ou "geração Paissandu". É
JO lado das famosa..')versões norte-americanas. quase quc um rito assi'tir-se aos filmes de Goddard, Truffaut, Bufiuel e
"A burguesia busca novos padrõés, adequados ã modernização desvendar-se nos bares o hermeli,mo de tai, obras.
em processo, e a produção que tenta responder a essa nl?Ces-
"Ainda que pareça ambígua a nomeação de uma esquerda fes-
sidade dá margem a toda sorte de "cafonices" O pai..•está tomado
tiva ~ num momento em que a grat't' derrota política anterior
pelo proIJincianismo e pela modernização A indústria cultural
não poderia ser motivo para festas - ou, ainda, o fato des.sa es-
passa a ocupar um lugar importante, definindo novos costumes
querda deslocar-se para porta.r:;de cinema da moda (Paíssandu),
e padrões de comporlamento"ZI.
e importante uer que essa ambigüidade traduz a própria novi-
E efetivamente isso ocorre, pai') a "Jovem Guarda" ganha espaços dade dessa nova geraçdo que irá marcar o período: a festa é a
marca de uma crítica ao tom grave e nobre da prática e do
na mídia e repercute, como até hoje, principalmente, entre a juventude
dir:;cursoque caracterizava e definia a ação cultural da geração
não-universitária de classe popular e as donas-de-casa-de-c1asse-média. anterior. () principio da festa, e sua identificação como subver-
"A mídia está sendo palco de uma lJerdadeira guerra civil· o são, provavelmente não estava sendo percebido quando a "velha
teatro, o cinema, a televi'ião, a imprensa, as cançoes, os ensaios esquerda" ortodoxa Julgava de forma pljorativa a prática da
C.') expõem seus argumentos como quem desembainha suas "nova esquerda" que seformava. A jà/ta de acuidade em perceber
armas na iminência de um duelo" 28, o conteUdo de ambigüidade que une os termos esquerda + festi-
va éfatal, poir:;o dir:;cursocritico produzido poressa nova geração
Nesta segunda metade da década de 60, fortalece-se o chamado irá constituir-se e.'t;atamente sob o signo da ambigüidade. Trata-
Cinema Novo, dentro ainda do mito do nacionali,mo-populista. se de uma esquerda que passará a criticar o discurso reformista
e nacionali.çta do PC, absorvendo informações do processo de
Muitos cineastas que introduzem uma nova linguagem no cine- guerrilha revolucionária latino-americana e dos nwvimentos
ma brasileiro tinham vindo do CPC, como Cacá Dieg-ues, Arnaldo Jabor, jovens que marcam as inquietações política.r:;em diversos paíseç
Joaquim Pedro de Andrade. A eles se junta, dentre outros, Glauber do ocidente e do leste na segunda metade dos anos 60" ~1
Rocha, que - apesar das marcas elo período anterior - consegue fazer
Está se formando a geração de 68 que terá, por um lado, uma
verdadeiras obras de arte com seus Illmes: Deus e o Diabo na Terra
forte influência das chamadas teorias foquistas sobre a revolução e,
do Sol, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, Terra em
por outro, do tnovimento contracultural.
Transe e outros. Uma das principais características deste "cinema novo"
"É nesse clima que um novo grupo de jovens artistas começa a
é a palavra passar a ser tematizada como questão central e o grande
expressar sua inquietação_ Desconfiando dos mitos nacionalísta.ç
número de adaptações de obras literárias29 Substituindo as chancha- e do discurso müitante do popultsmo, percebendo os impasses do
das da Atlântida, com Oscarito e Grande Otelo, tão ao gosto da classe processo cultural hrasileiro e recebendo informações dos
média dos anos 50, o Cinema Novo vem na esteira de O Pagador de movimentos culturais e políticos da juventude que explodem nos
Promessas;o, com sua preocupação por temas sociais, inaugurando EUA e na Europa - os hippies, o cinema de C'raddard, os Beatles,
a canção de Bob Dy/an - esse grupo passa a desempenhar um
uma nova linguagem na cinematografia brasileira.
papel fundamental não só para a mUstca popular, mas para
O público de todos esses espetáculos, uma juventude de classe toda a produção da época, com conseqüências que vêm até n05-
média, principalmente da Zona Sul elo Rio de Janeiro, faz parte do que .msdias"32. .

É o movimento tropicalista, que marca uma ruptura com o di,curso


27 Idem, p. 46.
28 Rolnik, S. Cartografia Sentimental. São Paulo, Estação liberdade, 1989) p, 183. do engajamento, que recupera a festa e a alegria da esquerda contra a
2f) Hollanda, H.R Op. cito
30 O Pagado!' de Promessa'i, dirigido por Anselmo Duarte e adaptacL:l de uma peça de Dias Gomes, ~l Hollanda, H.B. Op_ dt, p, 37
ganhou em 1961 a Palma de Ouro no Festival de Cannes, :52 Idem, p. 46.

10 11
sisudez dos "ortodoxos" e dá o pulo do gato em relação ao rock, ao iê- o movimento tropicalista, conlO atitude, expande-se para () teatro,
iê-tê, às guitarras elétricas e à mídia, Mostram os "novos baianos" que as artes plásticas e o cinema. Em 1967, há o lançamento de O Rei da
tudo isso pode ser politizado, pode produzir também singularidades e Vela (Oswald de Andrade/José Celso Martinez Correa) pelo grupo
não somente subjetividades dominantes. Para muitos, o tropicali,mo, Of1cina. I'\as artes plásticas, I lélio Oiticica, com o Happening Tropica-
herdeiro de Oswald de Andrade e do movin1ento antropofágico e lista, e no cinema Glauber Rodla, com sua Terra em Transe, desenham
modernista de 1922, trava com as canções de protesto uma verdadeira o perftl de uma inteleetualidade não assumida pelo discurso oficial, pelas
guerra de interpretações, tendo como pano de fundo as duas visões de subjetividades dominantes.
Brasil e de mundo presentes na esquerda: Ainda em principios de 1968, há o lançamento, no Rio de Janeiro,
"... de um lado, a visão trágíca dos antropofágíco~tropicalistas e de Roda Viva (Chico Buarque/José Celso Martinez Correa) trazendo
suas linha.<;misturadas de história e geografia e, do outro, a a proposta de um teatro corrosivo decidido a enfrentar precon-
visão épico-dramática e nacional-popular dos revolucionários e ceitos e a retirar o espectador de seu papel passivo e consulnidor" 36.
sua linha da história"3'3.
Nunca se leu tanto como nesses anos. Há, em I968, um verdadeiro
o tropicalismo irrompe em cena, dessacralizando tanto as can- lJoom editorial, e tanto Marx. Mao, Guevara, DebraYJ Lukács, C,ramsci,
ções de protesto como o iê-iê-tê da "jovem guarda" c, com seu conte- como Marcuse e Norman Mailer são devorados. Uma das manias do
údo ao mesmo tempo alegre e agressivo, descobre o poder dos impul- ano é "... a leitura dinâmica, um revolucionário método que, dizia a
sos festivos e eróticos. propaganda, ensina a decuplicar a velocidade da leitura"". A revista
1'\0 entanto, apesar de o tropicalismo ser uma novidade em rela-
Civilização Brasileira de 6'; a 69 é o pólo de concentração (la inteleetua-
,ão ao modo tradicional de a esquerda fazer politica, e a geração de lidade de esquerda e ali se travam debates entre o que se convenciona
68, embora ambiguamente, tentar romper com esta forma "ortodoxa", chamar de esquerda rcformL,ta (]'CB) e a esquerda revolucionária (as
tlluitos estudantes não conseguenl, na época, perceber a ruptura que o primeiras dissidências então criadas). Dai seu grande sucesso. Figllfas
u'opicali..":iffio traz. como Walter Benjamim, LouL,Althusser, Eric Hobsbawm, Ferreira Guliar,
Paulo FrancL5, Fernando Henrique Cardoso, Carlos Nelson Coutinho,
"Recusando o discurso populista, desconfiando dos projetos de
Leandro Konder, 1\ elson Werneck Sodré e Illuitos outros autores
tomada de poder, valorizando a ocupação dos canai.~ de massa,
a construçào literária das letras, a técnica, o fragmentárúJ. o nacionais e estrangeiros desfilam por suas páginas.
alegórico e a critica de comportamento, o tropkalismo é a expres- Todos esses fatos vão engrossar o caldo de cultura que irá explo-
são de uma crLw (.,.l, uma opçiio estética onde o comportamento dir em 6il.
passa a ser elemento crítico, suhvenendo a ordem mesma do
cotidiano":)4 .
A geração de 6il, que é produzida junto com o movimento
tropicali'5ta, traz, portanto, a marca dos movimentos contraculturai.o;;,
Por isso, tem um claro sentido de combate, não xenófobo, com quando há a possibilidade de se fazer uma série de sincretismos e de
uma linguagem marginal, não oficial, o que se torna extremamente mi'5turas. Abandonam-se 0$ antigos modos de vestir, de falar, de morar,
polêmico dentro da esquerda. de comer. Cabelos longos, roupas coloridas, a recusa de padrões de
"É uma linguagem de margem porque se expõe às critica." tanto bom comportamento c, adicionada a tudo l..'5S0,
da direita quanto da esquerda, propondo um choque que vai muito
alêm do modismo ou da menoridade de roupas e comportamento "35.
:3') Bueno, A.l.i. Pá"lsaro de Fogo no Ten:clro Mundo. Tese de Doutorado - UFRJ, 19fi:, p. n
36 ReiS Filho, DA 1968: A lItopla de uma Paixão. Rio de Janeiro, Espaço e Tempo, 19&3,p. 20,
:33 Rolnik, S. Op. cit., p. 110. dtandoJosé Celso Martine7. Correa.
54 Hollancla, H. B. Op. cit., p.)2. 37 Ventura, Z, 1968: o Ano que Não Tenninuu. Rio de JJ.neiro, Nova Fron~ira, 1988, p. SS.

12
" uma juventude que se acredi/a política e acha que tudo deve tendem até o final de 68, quando há a decretação do AI-'í e a invasào da
se submeter ao político' o amor, o sexo, a cultura, o compor- lJniversidade pelo Exército.
tamento (,,). É difícil ser indiferente nesses tempos apaixona-
dos. Também bá mui/o o que diKldir, DL"cuf(>-senas UnilX!r-
En1todos esses movimentos, vê-se a divisJ.o dos professores: de
sidades; nas Assembléias, nas passeatas, nos hares, nas praias: a um lado aqueles que apóiam os estudantes. de outro os que os repu-
altura das saias, o caráter socialLçta da n>voluçào hrasileira, o dian1, achando uma petulância, uma ousadia, Ulll horror os dehates em
tamanho dos cabelos, os ~feitos da pl1ula anticoncepcional, as termos de igualdade sobre problemas curriculares, pedagógicos, etc''.
teorias inouadora .• de Marcuse, as idéias de Lukâcs. o revi.oo-
Abre-se, em 68, o que antes do Golpe a juventude universitária ainda
ni.çmo de Althusser, Os temas sao infindáveis, tanto quanto a
duração dos dehates Mai..•do que dÍS(;utir, torce-se.-/Jela l1tória nào havia conseguido: o questionan1ento elas relaçôes verticais e
dos IJietcongs, a fallOr ou contra a" gutlarras elétricas na MPB, autoritárias entre professores e alunos.
por Chico ou Caetano, pela participaçâo poli/ica dos padres e, No Rio de janeiro, a policia invade uma assembléia na lJFRj,
claro, contra a diJadura" 38
quando os estudantes revidam com paus e pedras em meio a nuvens
Os estudantes, en1 sua 1l1aioriauniversitários, nos anos 66, 67 e de gás lacrimogêneo, tiros c bombas de efeito moral. Também a T Ini-
início de 68, reivindicam mais verbas para as escolas e universidades, versidade de Brasilia é invadida pela policia. Manifestaçôes se realizam
maior participaçào nos órgàos de decisào, lutas que vinham desde o em Fortaleza, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife c C;oiânia. Estào
início dos 60 e que o golpe de 64 fez arrefecer um pouco. Em 1966, sendo criadas as condiçôes para a Passeata dos Cem Mil, realizada no
inicia-se, nas universidades públicas, o movimento dos "excedentes". Rio de janeiro, no mesmo junho de 68, ocasião em que é formada uma
Os estudantes, inconformados com a falta de vagas. que os deixa de cOlnissàopara dialogar C0111 o Governo Costa e Silva,reunindo represen-
fora, apesar de aprovados, em 1968 começam a ocupar alguns espaços tantes dos estudantes, dos profissionais liberais. dos professores, dos
universitários. religiosos e das màes dos estudantes. A principal reivindicação, a libe-
O assassinato do secundarista Edson Luiz, no Calabouço, no Rio raçJ.o dos presos eU1passeatas anteriores é- recusada pelo governo e as
de janeiro, em março de 68, é a faisca que laltava a um monte de palha conversaçôes são rOlnpidas,
seca. Seu enterro e as mL~sasde sétimo dia transfonnam-se en1 verda- Em outubro, há o célebre congresso clandestino da lJNE em
deiros atos cívicos contí.! a ditadura, e registram-se os priIneiros choques Ibiúna, Sào Paulo, "estourado" pela policia, quando cerca de 700 lideres
violentos com a policia. Ficam célebres a.s fotos da cavalaria da policia estudantis são presos. O movimento entra em refluxo, pois qualquer
militar atacando as pessoa.s que saem da missa de sétimo dia de Edson, manifestaçào de protesto organizada é respondida a bala pela polícia.
na Igreja da Candelária, no Rio de janeiro. que não hesita em invadir igrejas c hospitais, Estas açôes provocan1
N,js meses seguintes, alastram-se, nas principais cidades do país, desânimo e medo em vez de indignaçào.
as manifestaçôes estudantis. De junho a agosto, a reitoria da USP, a "A insistência em ri?Sponder na" ruas a cada desafio conduz
Faculdade de Filosofia, a Clinica de Psicologia e o CRlISPsào ocupados apenas ao isolamento de algumas centena, de estudantes qu('já
pelos estudantes. Se antes de 64 o movirnemo estudantil reivindica a não são acompanhados m...,n tne:,'"1nO pelos próprios colegas. ()
reflt4"<oconsolida-se. O mouimento mais amplo perde o lolego. É
participaçào de 1/3 dos estudantes nos órgàos de decisão das Univer-
necessário inventar nova<;fonnas de luta e organizaçào" 4Q.
sidades, 1968 radicaliza tal reivindicaçào, sendo marcado pela partiei-
paçào paritária ('í0% de alunos e 'í0% de professores l. Discute-se a Polarizam-se as diferentes posiçôes das esquerd'Ls, de um lado
re!c)rmulaçào dos curriculos nas Assembléias paritárias. Na USP, onde 19 Sobre o assunto, ver alguns depoimentos comidos em Botelho, E.Z.F. Os Fios da História:
muitos espaços são ocupados pelos estudantes, os discussões se es- Reconstroção da IUstórla da Psicologia Clinlca da Universidade de São Paulo Tese de
Doutorado - USP, 1989.
38 Idem, p. 7'). 40 Reis Fi1ho,D.A. Op. dt.. pp. 18 lO' 19.

t4 IS
uma linha propondo o enfrentamento; de outro, o PC pregando a
acumulação de forças. A derrota de 64 mostra que não há, agora, muito
tempo a perder, e os textos de Mao, os exemplos de Ho Chi Min,
I Ministro da Aeronáutica desmente, mas vanos oficiais do PARA-SAR
confirmam, sendo presos e afastados de sllas funções.
Está armada a cena para o golpe de misericórdia, o golpe dentro
Guevara e Régis Debray apontam para a luta armada. do golpe, o Ato Institucional nº 'i, de I3 de dezembro ele 1968, que
"Por outro lado, além da critica ao popu/i.'itnO e ao PC r€forçada fecha a década de 60, trazendo para o palco os terríveis e inesquecíveis
pelo surgimento de alternativas como a cubana, a conjuntura anos 70.
política ajuda a acender a imagfnaçdo revolucionária: o desgaste O Governo Militar,ao contrário do que muitos afirmam, não está
do governo milüar e crescente, não aparecera ainda o "milagre
acuado, mas mantém-se na ofensiva e precisa elo AI-'i para levar até às
brasileiro",- é a recessão e uma grande descrença toma conta da
juventude em relaçiio aos partidos políticos legais: o MDB e a últimas conseqüências seu modelo de desenvolvilnento econômico e
ARENA, chamados de partidos do Sim e do Sim Senhor"41, sociaL "Suportamos seus efeitos até hoje. E as suas conseqüências se
prolongarão mais ainda"". A partir elaí, o regime mílitar consolida a sua
As próprias greves operárias de 1968,em Contagem e em Osasco,
forma mais brutal de atuação através ele uma série ele medidas como o
com a ocupação de algumas empresas pelos trabalhadores, apontam,
fortalecimento do aparato repressivo, com base na Doutrina de
segundo muitas leituras da época, para o enfrentamento com o regime.
Segurança NacionaL Desta forma, está garantido o elesenvolvimento
É desse período o surgimento de várias organizações clandestinas que,
econômico com a crescente internacionalização da economia brasileira
de diferentes formas, pregam do entrentamento até a luta armada con-
e a devida elinúnação elas "oposições internas". Silencia-se e massacra-
tra a ditadura: o PCBR, a ALN,o MR-8 e a VPR", dentre outras, Muitas
se toda e qualquer pessoa que ousa levantar a voz.
já começam a estruturar seus próprios grupos armado,,;; e out.Ia.-o;;;
deslocam
alguns de seus quadros para o campo (na preparação da guerrilha
rural) e para as fábricas. 11 - Os ANos DA INSrrruOONAllZAÇÃO
Ao lado disso, a repressão age em 1968 de forma cada vez mais
violenta, sendo um dos seus aspectos rnais agressivos os grupos para- "Aqui o terceiro mundo
Pede a hençdo e vai dormir
militares. "Bombas em teatros do Rio c São Paulo, em editoras, jornais,
Entre cascatas, palmeiras,
espaços culturais, faculdades (...); seqüestros e espancamentos de artistas Araçá.~ e bananeiras
e estudantes"". A peça Roda Viva é proibida em todo o território Ao canto do juriti
nacional pela Polícia Federal como um show depravado. É denunciado Aqui meu pânico e glória
no próprio Parlalnento o envolvitnento e utilizaçào de uma tropa de Aqui meu laço e cadeia
Conheço bem minha história
elite da Aeronáutica (o PARA-SAR)na prática ele missões criminosas. O
C01neça na lua cheia
E termina antes do fim
4.1 Ventura, Z. Op. cit., p. 66. Aqui é o fim do mundo
42 O Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), dissidência do PeS, surgiu em abril de Aqui é o fim do mundo
1968, com Mário Alves, Apolônio de Carvalho, Jacob Gorender e outro.<;.A Ação Libertadora Ou lá"
Nacional (ALNl lambem nasceu de uma dissicIencia do peR, em 1968, com Carlos M:uighella. O
Movimenro Revolucioniria R de Outubro (MR-8) originou--se da chanuch Dissidência da Guanabara CJfargirrAlia 11 - Torquato Neto e Gilberto Gil)
do peB, em 1960. sendo muito forlo;> entre os estudantes cb. época A Vanguarda Popular
Revolucionária (VPR) foi criada <-'m1967,-, mai,s tarde teve' a adesão de Carlo.<'Lam:uc:l. Sobre as
A geração de 68 no Brasil,que recebeu as inspirações de diferentes
diferentes organizaçóes ciandestinas de esquerda existentes no Brasil nos fin.sde 60 e início de 70
ver: Arquidiocese de São Paulo. Perfil dos Atingidos. Rio de Janeiro, Vozes, 1988 e Reis Filho, acontecimentos internacionais, entra nos anos 70 mantendo sua resis-
D.A. A Revolução Faltou ao Encontro. São Paulo, l-irasilieme, 1990.
15 Reis Filho, D.A. 1')6S: A Utopia de nma Paixão, Op. cit., p. 30. 44 Idem, p. 32,

16 t7
tência sob duas lemnas: de um lado, as I"rtes mensagens ,las vitórias elas
guerrilhas vietnamitas, e mesmo a derrota de Che G uevara na Bolívia,
ll11pulsionam muitos no Brasil a "criar um, dois, três, muitos Vietnãs".
I de singularizaçào vão sendo gestados subterraneamente,
primeiros anos da década ele 70.
ainda nos

Por outro lado, a inlluência hljJjJlé, seus costumes e atitudes (cabelos e


1 - O TERRORISMO DE ESTADO
barbas cOlnpriclos, roupas coloridas e a itnagem de selvagens), expe-
riências com drogas, contesLa~'ão do consumisnlo, da tradicional orga-
"Pai, ajàsta de mim es..<;e
cálice,
nização fanilliar e sexual, fascinanl muitos jovens.
Pai. afasta de mim esse cálice,
A resistência no início da década de 70, no Brasil, navew.l por Pai, afa.<;tade mim esse cálice,
esses dois fenômenos: a luta armada contra a ditadura c os movimentos De pinho tinto de .winKue
de contracultura. Todavia, para a sociedade brasileira ctn geral há um
Como heher dessa behida amarga,
desinteresse pelas diferentes [onnas de pal1icipaçào e questionamento
Tragar a d01; engolir a lahuta,
social. Diferentclnenle da década anterior - na qual os movimentos Mesmo calada a boca, resta ()peito,
sociais com patticipaçào I1lassiva colocaram cm evidência o instituinte Sik"J-nciona cidade não se escuta
- o início dos anos 70, no Brasil e em todo mundo. mostra um ref'luxo
De que me sen.y' ser filho da ..•anta,
dos lemas antes tão inllamadamcnte debatidos.
.~1elbor."(-'11a s(7fil/)o da outra,
Os acontecimentos de 68 no B"L,il não lóram pontuais ou L,olados: Outra realidade lYU'110S1rI00ta,
em todo o mundo, na etapa sob () signo pós-6R, () Estado aprende a se Tanta lYU'11tíra, tanta força bruta·
f"rw1cccr graças às debilidades dessas lulas anti-institucionaL,.
rCdtice - (,iII)(>r/o (aI e Chim HlItlrque)
G. Lapassade propô c uma interpretaç1o; esta cri..~cdo capitalL'imo
alcan~a agora as instituiçôcs clJlturaL~,c a fase vivida na década de 70
é a da ins(itucionaliza~~à()_Tal momento é situado no contexto hi'itórico Cobre-se a América Latina dc pesada, nuvens. Em 197:\, hã os
da vitória eSlnag3c1oL'3cio capitalL'imo monopolista, em que tudo tende golpcs no Chile c no I iruguai; em 76 é a vez ela Argentina. Sangrentas
a ser institucionalizado. c cruéis ditadura") militares se impôem, aniquil3ndo, Cl11 nome da "segu-
Em 197:\, R. LOUfOU fala do "efeito MülJ.mann", que consL'te em rança nacion~d" e do "desenvolvimento econc)Jnico"J qualquer força,
fazer possível a institucionalizaçào de movimentos instituintes, a cap- popular ou nào, organizada ou não, Instal3-se no continente a Doutrina
tur3 de processos de singulari'l.ação. As forças sociais, até então mar- ele Seguran"" Nacional, que estabelece que, para a 'segurança do regi-
ginai'i ou minoritárias, passam a ser reconhecidas pelo conjunto elas me", não se podem tolerar os '·a.ntagonL'imos internos". 'roda c qualquer
for~:as sociaL') instituídas. As forças dominantes aceitam o instituinte, a oposi,'ão que possa abalar a "segurança do Estado" é considerada Cfj-
singuiariza,'ão, para poder integrá-los, tornã-Ios equivalentes às formas me e, como tal, é punida. Tal doutrina prevalece sobre todas as leis, até
já existentes: anulá-los ao reconhecê-los, sobre a Constituiçào Federal, alcan\-'ando os diferentes campos da vida
Este é o grande risco que, na primeira metade dos anos 70, se social, política. econômica, trabalhista, criminal, ed~lcaci()nal. etc.
coloca para os movimentos de resistência no Brasil. Os militantes liga- Em 1968, é a ditadura sem c1L,farecs.O AI-~ coloca o Congresso
dos à luta armada s~10aniquilados, massacrados e o movimento COI1- em recesso e.
trJ.cultural, gradativamente, vai sendo integrJdo, anulado, E novas subje-
'_._em seguida, ocon'e o mesmo com as AssemlJtéias l.egislativas da
tividades hegcmônicas V:l.O sendo produzidas. Guanabara, Seio Pau/o, Goiás, Rio dejaneiro, Pernamhuco e com
Entretanto, apesar de tudo isso, nOV~l<';
resistências, outros processos inum.eras Câmaras de Vereadore.s em todo o país Cw.saçoes de

18
19
mandatos parlamentares ceifam mais 69 membros do Congresso
rante (OBAN). No começo dos anos 70, a OBA]\' se institucionaliza como
Nacional, e é também cassado Carlos Lacerda, um dos pn'ncípais
artffices do golpe müitar (., J A resultante de todo esse caudal ( .. j DOI/CODI-SP (Destacamento de Operações e Informaçôes/Centro de
e a paralíçaçdo quase completa da atividade fxJpular de denúncia, Operaçôes de Defesa Interna), ficando sob a jurL~dição do Comando
resiçfência e reiuindicaçôes, restando quase que uma unica forma Regional do Exército. Em cada região nulitar elo país, estruturam-se os
de atuaçdo: a clandestina e/ou armada. Isso por sua vez e apon- DOI/COm s, o que significa uma integração maior entre 0s organismos
tado pelos círculos mais extremados das Forças Armadas, inti-
mamente vinculados aos órgàos que se ooltam para as prisões,
repressivos já exL~lenles,ligados às três armas, ã Polícia federal, às Polícias
interrogatórios e torturas, como justificativa para que permane- Estaduais, ao DOPS, às Polícias Militares, aos Corpos de Bombeiros, no
cessem em vigência (. ..) todas as medidas coibídoras daç liber- sentielo ele "meU1orar" a eficiência ela repressào. Os DOI-CODI's pa$sam
dades democráticas" 4~. a dispor do comando efetivo sobre todos os órgãos de segurança
A repressão se soflStica. No Brasil, desele junho ele 64 (três meses existentes numa determinada região militar. Tais são seus poderes e
após o golpe), é criaelo o Serviço Nacional de Informações, conectando- força que, no início dos anos 70, chega-se a falar da exL~tência ele um
se com os governos dos estados, empresas privadas e aclininistrações verdadeiro Estado dentro do Estado.
municipais. É no transcorrer elo Governo Médici" que as funções e Acrescentem-se a toelo este aparato repressivo olkiaI os grupos
prerrogativas do SNI aumentam significativamente e se elá sua milita- paramilitares, também alimentados com financiamentos privados e
rização. De 1968 em eliante, cresce, ao ponto de se transformar na pliblicos e o fortalecimento dos chamados Esquadrôes ela Morte. Estes,
quarta força armaela, embora não uniformizada". É o órgão da repressão surgidos no Rio de Janeiro c em São Paulo, elesele os anos ~O, fortalecem-
mais importante elentro e fora elo Brasil, tendo uma agência em cada se graebtivamente durante todo o períoelo ditatorial. Principalinente
MinL~tério, empresa estatal e Universidade. nos anos 70, os Esquadrões ela Morte são utilizados como in..,trumentos
- segundo as infoflnaçôes veicul3das pela mídia - para "diminuír os
"O SN! brasileiro alcançou um grau extraordinário de prerroga-
tivas legalmente sancionadas e de autonomia burocrática, sem indices de criminal idade" entre as populaçôes marginalizadas das
paralelo (nas demais dt/aduras militares latino-amencanas),,(B, periferias das grandes cidades. Ligam-se também à polícia política,
Jazendo parte do chamado "sL~tctnade segurança". Tanto no Rio quanto
tanto que todos os generais presidentes, antes de assumirem o
em São Paulo, os "líderes" dos Esquadrões da Morte, ao fazerem parte
executivo, estiveram de alguma forma ligados a este Órgão.
do aparelho repressivo, como OBAN, DOI-CODI/SP e DOI-CODI!R),
De 1967 a 1972, criam-se inúmeros outros aparellios repressivos. transtnutam-se em heróis nacionais, intocáveis pela Justiça. Os que se
Em 67, é organizado o Centro de Informaç,ões elo Exército (elE), que dL"pôem a apontar os violentos crimes por eles cometidos passanl a
responde diretamente ao Ministério do Exército. Em 1970, a Aeronáutica ser identificados con10 "inimigos do regime" c tratados como tal. São
estrutura seu serviço ele inteligência, criando o CISA,com funcionamento esses ES'luadrôes da Morte que inspi,drn nos anos 80 e 90 os famosos
similar ao ClE. E, por fim, a Marinha organiza o CENIMAR. "grupos de extermínio", que continuam atuando impunemente contra as
Em São Paulo, emerge em 1968 uma força unificada antiguerrilha parcelas maL.••pobres da população, pregando ostensivamente a
que recebe financiamentos privados e públicos: a Operaçào Banelei- institucionalizaçào da pena de 1l1orte9.
45 Arquidiocese de São Paulo. Projeto BrasD Nunca Mais - O Regime Milltar, tomo I. São Paulo, "Qualquer denuncia sobre esses crimes é pronta"u~te desttu"11U-
1985,p.32 da. censurada na imprensa e. muitas vezes, acarreta problemas
46 O terceiro governo militar, do general Emilio Garrastazu Médici, foi de 1969 até 1974. para os denunciantes A ação dos organismos repre..'isil.'Os
conta
47 Para um estudo sobre os aparatos de repressão no Brasil, nos anos 70, consultar: Stephan, A. Os
Militares: Da Abertura à Nova RepúbUca. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986 e Arquidiocese de 49 Sohre o assunto, ver: Bicudo, H_P.Meu DepOimento sobre o Esqua.dião da Morte. São Paulo,
São Paulo. Brasil Nunca Mais. Rio de Janeiro. Vozes, 1985. Comissão clt:Justiça e Paz, 1076. Princípios de Justiça c paz: Pena de Morte. São Paulo,
48 Stephan, A. Op. cit., p. 36. Comissão de Justiça e Paz, lQt)j

20
com total impunidade e acobertamento ate tnesmo de detenninados Jj,'udeuia estar aJegt'e e satif/eito
di..positivo.." legai~ "';ú. Por morar em lpanema
IJepoL, de ter passado fome por dois anos
:'oJestecampo fértil, a tortura passa a ser prática "COll1U1l1"
e oncial, Aqui na Cidade Marat.'Ílhosa
e este terrOrislTIOde Estado dissemina o terror en1 toda a sociedade nu de/'Ía estar sorrindo I! orgulhoso
brasileira. Além de obter informações, fragilizar e pulverizar os opositores Por' te,' fil1abru71te uencido na "ida
do regul1e, a tortura cumpre, como dispositivo social, uma função: Ma., eu acbo i.çto uma grande piada
produz subjetividades. Pelo medo, cala a sociedade, leva a um torpor E um tanto ou quanto perigosa

social, a uma cumplicidade. Por" que foi tão fácil conçeguir


E agom eu me pergU11lo e dai .~
A ditadura mj)jtar brasileira exporta krlOw-how de tortura para as
Eu tenbo uma porçào dl' coisas grandes
demais ditaduras latino-americanas. A partir de 1972, tais técnicas são Pn1 conquistar, eu nào posso.ficar ai parado
cada vez mais sofisticadas e surge a instituição do "desaparecido político",
produzida pela repressão no Brasil. Instituição macabra, pois é uma ()uro de Tolo _Rutl/Seí.xa."t1.
forma de continuar a tortura sobre os familiares que até hoje procuram
seus "desaparecidos". Em 1990, em toda a América Latina, chega-se ã A "ilha de tranqüilidade" é um lugar extremamente atraente para
cifra de 90.000 desaparecidos políticos. o capi131monopolisl3 internacional. Com isso, o Brasil passa a participar
ele [()rma mai." intensa no comércio lllundial, graças 3. conquista de
Não é por acaso que esta época em que mais se tortura, mais se
uma nova posição na divi,ào internacional do tr,l1Jalho: a de exportador
perseguem opositores, nlais se seqüestra, n1ais se a..'iSassina,é talnbém
de produtos industrializados, ou seja, há ..... UIl1.:l crescente interna-
a época do "miIagrc brasileiro", quando se vende a imagem da "ilha de
cionalizarão da economia br:::tsileira"~2.Vive-se unl clima de ufani.c;mo,
tranqüilidade", de "progresso", de "bem-estar", de "euforia", tanto interna
com a constru\'3.0 de obr.ls f:1ra6nicas, enquanto a classe média,
como externamente. Há uma produção massiva de subjetividades
aproveitando-se das sobras econôtnicas do "milagre", vai alegremente
coletivas, o que mostra as dificuldades, neste período. de se recusar ou
consumindo todo tipo de coisas, de bens. A Zuna Sul du RlO de Janeiro
mesmo questionar a ordem social que está sendo produzida. fortalecida
passa" ser o local preferido para se morar, nàu pelas facilidades e
e imposta.
comodidades que uferece, mas pelu status, aspectu importante nos
projetos de ascensão desta classe Illédia urbana"3. Ao sonI do pregão
2 - E COMO NÓS, ClASSE MÉDIA, REAGIMOS A ISSO ••. das Bolsas de Valores e do slogarl "Brasil: ame-o ou deixe-o", a
ascendente classe média vive momentos inesquecíveis ele consumismo
"Eu devia estar contente com a "lnodernização", levada ao ritnIo de "Brasil Grande".
Porque tenho um emprego A censura torna -se feroz e violentíssil1la, dificultando e inIpec1inclo
Sou o dito cidadão respeitado qualquer circulação e manifestação de c:::tráterunI pouco nlai,;;;crítico.
E ganho quatro mil cruzeiros por" mês
Eu devia agradecer ao Senhor
"A televisão passa a alcançar um nível de eficiência internacional,
Por ter tido sucesso na uida como artista
Eu devia estar feliz porque ')1 Música W:lv:J.chem 1973 quando ainda S~ sentem os cfêmero~ deitas do "milagre brasileiro" sobre
Consegui comprar um Corcel 73 as camad:t-'_medias urbana.,~.
')2 Si.oger, P. ~AInterpretação do B'J.sil: lJou Experiência Histórica de Desenvolvimemo".ln: Fausto,
B. (Urg.) O Brasil Republkano. Sia Paulo, Difd, [<)8'),vo1. 4, capo IV, 210-24')
')5 Sobre illllO, ver o e:studo de Velho, l1. Utupia limaria: 1JmEstudo de AntropologiaSocla1. Rio
9) Arquidiocese de São Paulo. Projeto Brasil Nunca Mais. Op. cit., p. 34. ele'jaoeiro,jorge Zahar, j()89.

22 23
fornecendo valores e padrôes para um país que uaí prá frente'''. A TV cotidiano, onde as pessoas trabalham. cumprem suas obrigações,
passa a ser um dos bens mai, estimados não somente pela classe média: sohem na l'ida, lido para Copacabana. compram e assistem
expande-se também como valor fundamental para as classes mai, te/ep/silo, uào á mis.sa ou ao cinema, adquirem mais prestigio,
tornam-se "melhores"; de outro lado. há uma esfera onde
empobrecidas da populaçào. Nos horários de novela, de programns acontecem coisas que sào importantes, mas distantes e
tipo Chacrinha, assiste-se a um verdadeiro ritual: todos à volta do inacessíveis por sua própria natureza - a política Há duas
aparelho. É o reinado da Redc C;lobo, da aJdeia global que se fortalece possihüidades de poder.- uma qUl' se traduz na possihilidade de
gradativamente nesses anos 70 e chega ao apogeu nos 80 e 90. A mudar-se para Copacabana, 'panema, etc, consumir mais e mais
roupas, "divertimentos '; bens de um modo geral, a outra nào
Inoderniza~ào tecnológica da área de tclccon1unicações é um fato, o
jaz parle da nossa experiência e..risteneial ( .. ) e é remetida para
que traz profundas mudanças em toda a sociedade brasileira. as categorias "política" e "gol-'f?rno"s-'.
A criatividade é estancada, mas muitos artistas a utilizam para
ludibriar a censura, através de I1UCCtCS c metáforas. Acredita-se no "Brasil Grande", no "progresso", no "crescimento",
na "modernizaçào", na "grande potência" que será este país. Ao lado
"Os agenciamentos estào interceptados: joram grampeados E'
disso, um profundo conformismo político, em que a defesa da ordem,
terminantemi?11te jJroihido fazer uso da Hngua a .fim de cunhar
matéria de e'qJressiio para as intensidades atuais: o gestn criador da hierarquiJ., da disciplina, (h submi"ào sào enfatizados, e onde o
.loi desauton'zado e quem ou";a eshoça-lo nao s6 será tachado de medo às autoridades domina a todos, desde questôes mais amplas até
traidor, o que li /J;or, estará co"endo jJerigo de lida ( ..). É proi- problemas os mai~ aparentemente triviais do coticliano58.
bido o gesto C71ador,este debilüa-çe. transmuta-.ç(' e e substituido
.belo medo e o medo aumenta ainda mais a timidez do gesto
Contudo! há res~<;tênciasa essas subjetividades coletiva.,,;há, com
criador Desencad(.>ia~seum circulo I.>iciosono qual o dew40 /'ai todas as dificuldades da época, tentativas de se forjarem e produzirem
enfraquecendo cada vez maLç a sua potência de (:fetuaçdo"~s. territórios singulares.
Tai, processos de subjetivação traduzem-se pela importância quc A imprensa "alternativa" ou "nanica", como Pasquim, Flor do
é dada ao consumismo, à necessidade de :')e ascender socialmente; Mal, Bondinho, A Pomba e outros, tenta romper com os padrões
"subir" na vielatorna-se uma palavra de ordcm. Acredita-se na excelência jornali'ticos impostos pela grande imprensa, deixando o tom "objetivo"
do sLc;;temae as pessoas crêem que "subir" depende de suas virtudes e supostanlente "neutro" para abertalncnte exprintir suas opiniões. É
pessoais, de seus méritos. Há unla aceitação quase unânin1e das regras no Pasquim, na coluna "Underground", produzida por Luiz Cnrlos
do sistema; o "povão" c. em especial. a classe média aceitam passi- Maciel, que o Inovimento contracultural é mostrado através de
vamente que compete ao governo a resoluçào dos problema..'5.A nós informaçôes dos poetas beaL, norte-americanos dos anos 60, como
compete traballlar c/ou estudar c não nos imiscuir em política. Allan Guinsberg e autores como Mc Luhan, Marcuse e Norman Mailer.
Também o jornal Opinião traz debates sobre a atuaçào cultural subor-
"filafaculdade não me meto em confu.çúo Política é para os dinada ao Estado e críticas ã tendência nacionalista-populi~ta no campo
polílicos Estudante tem mesmo é que estudar r. .. J. Eu quero suhir da cuJtura. Abre espaços para questôes como drogas, homossexuali~mo,
na vida e nao tenho medo de tmbalho. O importante ritnelhorar
sempre"S6 loucura, etc, divulgando as importantes contribuiçôes de M. Foucault.
O movimento pós-tropicali,ta, influenciado' pela contracultura,
'Parece halJer uma ditriw'JOem "dois mundos" de um lado, o
continua mesmo após o exiJio de Caetano e Gil - com Torquato Neto,
S4 Hollanda, H.B.Op_cit.,p. 12S. WallySailormoon, Rogério Duprat. Dudn Machado e Hélio Oiticica,dentre
S'; Rolnilc S. OI'. cit., 1'1'. 194, 19S t; 196
S6 FrJ.scsde entrevistas feitas, em 1970, na Zona Sul do Rio ck Janeiro }X)r Gilberto VeU1o. OI'. cil., P
S7 Velho, G. Op. cit., 1'1'.91 e 92.
lOS. E interessantc a análise dos difert'ntt',s discurso." captados nesta pesquisa, o que nos permite
SS Ve1ho,G. Individualismo e Cultura: Nota •• para uma Antropologia da Sociedade
avaliar as subjetividadcs domimnt.es nas camadas médias urbanas no inicio dos anos 70 no Brasil.
Contemporânea. Rio de Janeiro, Jorge Zalur, 1987.

24 25
outros, apesar de se constituírenl em guetos. T\~oinício desses anos 70, De tal produçáo independente surgem poetas como Chacal, C~=o,
publiclIn a Navilouca com textos de poeta.<;;,músicos, cineasta.c;;e artic;;ta!-i Chico Alvim e outros.
plásticos. Ao lado deles, eS1~ooS "concretc>tas" Décio Pignatari, Augusto As artes plásticas apoiadas pelo Estado
c 1 {aroldo de Campos, sC!,fremum "hoom" df? mercado com os leiJóes e a hoL,a de
que embarcam na na/le em nonw do saher moderno e de arte determinando uma produção que, ao transformar-se
al1t.stascorno L)igia Clark.l)or(~,<emplo, queajJarenti'mente pouco pnponderantemente em rentável neRôcio, IJerde em muito sua
se identificariam com os temas do n01'Og!'U/Jo, mas que, como l'italidade crítica e praticamente dd"'a de interessar aos setores
diz Wal(v, estwJam "transando a m.esma loucura" ( J. Um tipO da Juventude unil'ersitdrla" 61.
de trahalho coleti/!() e múltiplo, emjJenhado fimd{.mu>ntalmente
na e."tperimentaçdo radical de linguagens inol'adoras como
Fora. deste circuito oficial, surgem porém alguns trabalhos pro-
"'estmtêgia de "ida "(,. l, P preciso muda,. a linguauem e a !!ida, duzidos por arti."tas plásticos envolvidos com o cOlupromisso de retratar
recusar as relações dadas como jJronta,ç. I'ia/ar; tornar-se o cotidiano. CiJdo Meirelles inicia desde os 60 um trabaUlo que se
mutante" w. prolonga por todos os 70, chegando aos 1>0, as "inser~ões em circuitos
o que predomina no teatro é o aspecto empresarial que encontra ideológicos". Confecção artesanal de garrafas de coca-coia, a partir de
um solo fértil para suas superproduções. 1"\0 entanto. aparecem grupos modelos originai.'5,onde são escritas mensagens diversas: li."tas de pes-
"nào-enlpresariai.c;;'· C0l110 o chamado teatro de invenção de Paulo soas presas, listas de pessoas mortas, receitas para confecção de coque-
Affonso Grisolli e Amir Ilacldad, dentre outros, que lnarcam movimentos téis mo/nUJlI, cédulas de zero cruzeiro, moedas de zero centavo, ctc.tll
de resistência. Apesar de tai, resistências, das tenwtivas de se forjar singulari-
O cinetna, dominado pelas supcrprocluçtk's holly\voodianas - dades, as subjetividades hegemônicas - através náo só do clima de medo
epmo Xica da Silva, Dona Flor e seus Dois Maridos. Tenda dos imperante, mas tatnbém da.o;;; promessas de ascensão social muito fortes
Milagres - é () setor que mais adere às exigências do novo mercado e na época - cooptaIl1 muitos artistas c intelectuais. Esses passam a se
à política cultuml elo ESl.a.do_Entretanto, há () chamado cinema "marginal" ligar às agências estatais vinculadas à área da cultura e que sáo
que, com filmes de Rogério Sganzerla, Júlio Bressanc e Ozualclo dinamizadas ou, mesmo, criadas nesse período.
Candeias, dentre outros - emhora para a grande maioria passem Vão ser, sem dúvida, os movimentos ele resistência, por muitos
despercebidos -, tenta algo de novo, assim como algumas produçôes chamados de "alternativos", que conseguirão, por catllinhos diferentes
em Super 8. dos da luta armada, se opor à "ilha de tranqüilidade e progresso", ao
J'\a literatura a geração t1liIrlCÓf~rafoaparcce e. como as dcmai.c;; Brasil elo "milagre" imposto pela ditadura. Vão ser estes movimentos
l

Illanifestaçôcs de poctas, cria seu próprio circuito: nào depende do que continuarão - de outra forma - as contestaçàes oriundas da década
apoio ojkial, seja do Estado seja das empresas privadas. de 6o, e que fortalecerão as llludanl,,~asque efetivamente ocorrem nas
rclaçôes familiares, sexuais, nos costumes e comportaInentos que a
"t.'nfatizam o cârater di' gmpo e artesanal de suas experi(>ncias
década ele HO em muito irá ahsonlt'r.
( .) (' cmru!çam, entao. a pro/ijérar os lil'rinl1os que sao passados
de mão em mâo, lJf!11didosem portas de cinema, mu,euç e teatros As formas de I'l'sLc;;tênciaproduzidas nesse período s:l.o: de um
( .. ) A marginalidade des..w' Urupo nào e mat..•literária, mas (.J lado ;) gera~~ào que entra na clandestinidade e/ou' na luta armada; de
uma marginalidade l'Ílúla e sentida de maneira imediata frente outro, os hl{Jpies ligados, n1uitos deles. às produçtles "altetnativas" acitna
ã ordem do cotidiano'~~.

61 Idem, p. 125.
'fJ Holbnda, [!. B. op. clt , p.l){), cllando, por último. José Cebo M:trtjn~z COrrL'3. 62 SobrL' a resistência cultural n(>.~ano.<;:'() ver: Mello, M. A, lOr~.) 20 Anos de Resistência:
(i) Ickm, pp. 1.
.••
4, l~~ L' lil Alternativa. ••da Cultura no RcWme Militar. Rio dt' Jan(;'jru, Espaço L' Tempo. 198().


citadas e embalados pelos movimentos contraculturais que haviam nlistas, anti-industriais, antifamjliari~tas c nêHnacles ..... inst'llam-se nUOla
sacudido os Estados Unidos e a Europa nos anos 60 e 70. marginalidade crônica""", cmbora houvesse todo um suporte coletivo
A luta armada leva muitos para a clandestinidade, sobretudo entre que os ancorasse: os movunentos c()ntraculturaL~. Sua resistência "é feita
os joven.~ de classe lllédia (' média alta que, após o Al-:;' não encontram de um não querer" vivendo em bandos, eln comunidades, usando drogas,
I

outras formas de fazer oposição ao regime militar. Ações armadas se "viajando", apregoando as práticas grupaLs, experimentando scus corpos,
sucedem nas cidades e no campo, apesar da total apatia e indiferença .. vivendo da esperança de um dia conqulstar a terra prometida"". É
da maioria da população. No campo, a mais violenta e sangrenta como afirma Hélio Oiticica em carta dc 1970 para Caetano e Gil, então
repressão dá-se contra a Guerrilha do Araguaia, iniciada no sul do Pará exilados em Londres o ambiente aqui está, con10 já esperava,
h •.

pelo Panido Comunista do Brasil (J'C do B), e que, por cerca de quatro ultradepressivo (...) todos têm planos, mas ninguém realiza nada""".
anos, mobiliza milhares de soldados do Exército para combater os Duas categorias são produzida-c;;e muito dic;;seminada-"inos anos 70
guerrilheiros, que não chegam a 100. Desres guerrilheiros, os que morrem, no Brasil: a do subversivo e a do drog'"do, ligadas à juventude da época''.
num total de 59, são todos desaparecidos políticos até hoje"'. A prinJeira é apresentada com conota~ões de grande periculosidade e
Os militantes, apesar de sua resistência no seu cotidiano, em muitos violência, vio;;toser uma ameaça política à ordem vigente; eleve ser
momentos - ou em quase todos - reproduzem o autoritarismo, o identificada e controlada. Tal categoria vem acompanhada de outros
sectarismo que querem combater. Cheios de messianismo, vanguardismo adjetivos como: criminoso, traidor, ateu, etc, o que traz fortes implicações
e palavras de ordem totalmente dissociados das "massas" que querem morais. O subversivo não está somente contra o regime político, luas
"libenar", os militantes dos anos 70, comoventes em sua coragem, em contra a religião, a fanu1ia, a pátria, a moral e a civilização, tomando-se,
sua resistência, conseguem produzir poucas subjetividades singulares, a.e;sitn,UI11anti-social. Está contalninado por "ideologias exóticas", por
poucos territórios onde não sejam capturados. O que na Europa o Maio mandatários de fora
de 68 mostrou, somente tempos depois põde começar a ser pensado no "Por sua vez, o subversivo tem tanto possibilídade.ç de conta-
Brasil, somente depois do total aniquilamento da luta armada: que as minar, como de enfeitiçar. Ele está contaminado e pode passar
lUlas contra os Estados capitalísticos necessariamente ligam-se ao a doença, e ao ser en.ti?itiçado adquin'u a capacidade de en-
questionamento dos micropoderes, da micropolitica, do autoritarismo feüiçar"6B.

imperante no nosso dia-a-dia, no cotidiano das nossas relações. No drogado, o aspecto de doença já está dado, é um ser moral-
Pretendemos transformar o mundo e nào percebemos a reproduçào mente nocivo, poie; tem hábitos e costumes desviantes. Na época, as
autoritária em que caímos con1 nossos companheiros, filhos) etc. drogas são associadas a um plano extcrno par" minar a juventude,
Sonhamos com a revolução como um acontecimento que libertaria tornando-a presa fácil das ideologias "subversivas". Aí, juntam-se drogado
a humanidade das opressões, em todos os sentidos. Todavia, ao mesmo c subversivo, o que se torna perigosíssin1o, poio:; ..... encarna todos os
tempo em que os inimigos "de fora" nos vencem, come~amos também males e é um agente consciente de contesta~ão à sociedade""'
a ser vencidos por nós nlesmos. O inimigo tanlbénl está ao nosso lado Para as subjetividades hegemônicas da época. tanto o subversivo
e dentro de nós, quando aceitamos e naturalizamos diferentes ins- quanto o drogado apresentam problemas psicológi~os graves e sérios,
tituições: a organiza~o, a dureza e a inflexibilidade nossa e de nossos
companheiros. l\ão se consegue reinventar novas formas de pensar a 64 Rotnik, S. Op,cit., p. 112. Sobre o assunto esta obra é fundamental.
transforma~o. 6'; Idem, p.114.
t6 Oiticica, H. "O Ano das Drogas e da Repressão" [n:JBiCademo ldéias, OS/IO/89, p. O';.
Por outro lado, os hippies, com seus aspectos lúdicos, anticonsu- 67 Estudo feito por Velho. G. ln: Individualismo e cuhura. Op. cit.
éS [dem, p. 60.
63 Sobre o assunto ver Portela, F. Guerra de Guerrilhas no Brasil. São Pauto, Global, 1979. (j) Idem, p, 60.

28 29
principalmente por suas atitudes em relação ao trabalho e ã família. São lJeú.:emos de coi."a
H cuidemos da I'ida
pessoas que fogem às suas obriga,·ões e questionam os planos e projetos
Senão chega ti malte
de ascensão social de suas familias; com i~sosão consideradas doentes, Ou coisa parccítia.
poi", E nos arrasta moço,
Sem ter l-'1s./o a l'ída_
ao questionar os dominios e criticá-los, poem em dUl'Ída uma
ordem e uma concepçào de mundo que devem set' pistas com.o Ou coLça parecida.
naturaL" e indi..,.cutil'ei.s"~ Ou caLça par'ecída,
Ou coiça pmw:tda..
"1panxida'

3 - O FAMILIARISMO COMO CONlROLE SOCIAL (]/orfl do Almoço - Belcbior)

o que está suhjaccme a estas duas categorias c, porwntn, o


"/'v'o centro da sala,
dispositivo produzido no sentido de enfraquecer todo c qualquer movi-
/Jiante da mesa,
/',,'o.fundo do prato mento de resistência que possa forjar processos de singulariza'r.-':loé a
(,'amido e tristeza produ't::1o de uma outra suhjetividade: a "crise" da f:1nülia, a sua "descs-
A gente se olha, trLlturaçào '.. Se seus J1lhos, lündamcntahnente os de classe média e
S'etoca e se cala.
média alta, estào se tornando "subversivos" ou '·bipjJit?-:', algo está errado.
E se desentrnde no instante ('m que {ala
I li, neste momento, grande preocup:W30 com a família: fala-se da sua
_.\fedo, medo, medo,
importância como mantcnedor:l de uma sociedade s:lud:'ivcl, em que o
},.fedo, medo, medo
Cada um guarda maL'i
controle e a dL"iciplina estão presentes c ela, a família, deve cooperar
O seu segt'edo ni.sto. Principallnentc nas Gllna(bs médias urbanas vem sendo vendida
A sua mao jf.'('bada, desde há muito a importância dos projetos de ascens:lo social, o que
A sua boca arn'rla, se torna um valor Ixisico para elas. Assim, esses filhos "desviantes" e
O .'il'U J)eito dese110,
'·diferentes" s:1o produzidos pelos prohlemas por que essas bmílias
A sua mào parada,
lAcrada e selada, passam. Se algum militante é seqüestrado, torturado e J.ss~L<;sinaclo. se
E molbada d(' medo algum hífJfJie após experiências com drogas não reton1a ela "viagem··,
Pai na caheceira
eles c suas famílias s:10 os responsáveis c nà() () estado ele terror que
J? bom do almoço, grassa e111toda a sociedade'" As famílias aceitam tal discurso. culpa-
Jlinha mile me chama bilizando seus filhos e culpabilizando-se, acreditando plenamente que
E hora do almoço. algo estj errado.
Minha irma mab, nOI'Cl,
Negra calJeleira, ":4 ameaça é ri1'Ída como ,'inda cI(' dl{iciéncias psicolôRicas l'
Minha W'Ó reclama morai,> do..",-filhos Isso nao significa qw.' nào ('.'\~i<,tmnacusarDes
t: hora do almoço contra o "mundo (',,\1('1'ior··Este e /'il'irio comn /)l'1·manentemente
(Jerigoso e !)()luiâor. ma"~("a/x' ao,\ indil'iduos que comfJOem a
Pu ainda estou I)em moço, família a responsalJilidade de enfrenta-lo" âejénder-"e (,(,Pitar tai"
Prá tanta t1t.•teza, Jx'rlgos" -,

'70 luem, p. 64 ~1 Idem, p_ '"4

30 31
Esse modelo de família que compra, investe, viaja, ascende social- somos urna "comunicl1dc" de seres iguais. o mundo nos frustra e, portanto.
mente é o modelo que se fortalece com o "milagre brasileiro". com ele nada queremos; nossa vida nos ba.<ita.Tenl0s tentado .....tomar o
fato de estarmos Cln privacidade, a sós ou (0111 a fan1l1iae antigos íntllllos,
"Esseprocesso se dá dentro de uma conjuntura hi.'itóricaque reforça
o projeto individualizante de família I. .. J com a ampla veicula- Uln fim em si meslno"7'i.
ção de uma propaganda que enfatiza o consumo e o sucesso Esta visão intimista da sociedade7b, na qual as pessoas se preo-
material, frito diretamente por parte do Estado, ou por grandes cupam apenas com as histórias de suas próprias vidas c COOl suas
empresas. "72
cllloçôes partkul::Lres, em que o mundo exterior parece nos decepcio-
A ênfase dada i responsabilidade individual de cada membro da nar, parece vazio c sem atrativos, fort::l1ece,deste modo, a privacidade
família mostra o fechan1ento dela sobre si mesma, sinais gritantes de familiar e a interioriz~u,.::lo d;]s pessoas.
uma vida pessoal desmedida e de uma vida pública esvaziada. A inlpor- No capitalismo, o intirnLo;;mo penetr.l obsessivamente nas rela-
tância da privacidade é apregoada intensamente: o que acontece fora ~'ões humanas e torna-se natural sempre se estar perguntando o que
não nos interessa; uma pessoa ou um acontecimcnto significanl, A intimizaçào passa a ser
".,. com uizinho a gente só pergunta se está pred"ando de alguma uma preocupação const;]nte, particularmente nos anos 70, nas cbsses
coisa (.,.) mas botar meu pezinho no apartamento dele, eu niio médias urbanas brasileiras, criando a ilusào de que uma vez que se
ponho não"73 tenha um sentimento ele precisa ser tnanifcstado; afinal, o "interior" é
o privado, o fantiliar, torna-se o refúgio contra os terrores da percebido cotno uma realidade absoluta.
sociedade, nega-se o que acontece fora c volta-se par.l o que acontece "Se o ato de tentar contar aos outros a n'Sfx1to di! si mesmo rJ
dentro de si, de sua fanu1ia. sentido de modo intenso e real, cntao a falta di! ,'esjJostados ou~
tms significa que hd algo e""ado cmn eles, a jJes,soa está sendo
Sâo interessantes os grupos que se formam nos anos 70, seja de auténtica, .'Idodi'.'>que nao estilo entendendo; sao eles que estao
militantes ou de hippies em suas 'comunidades". Apesar das críticas sendo jàlhos para com ela; eles não sdo adequados iAs necessi-
feitas ao familiarismo então vigente, estes grupos - verdadeiros guetos dades dela. Assim sendo, fica reforçada a uença df!que os impul-
- reproduzem em seus espaços o mesmo esquema familiar que tentam sos pr6prios ã pessoa selo a imica realidade na qual ela pode
wnfiar"T',
anular.
"A idéia de comunidade que está envoluida aqui ti a crença de I fã, por conseguinte, um interesse Glda vez maior pelos proble-
que quando as pessoas se abrem umas com as outra.>;cria-se um mas da personalidade (' a procura de uma autenticidade quc exige :.l
tecido que a.'i mantem unida.'i. Se nàa há abet1ura psicológica, todo custo que o sujeito sej;] transparente, "autêntico" ;]través de todos
não pode haver laço sociaL "/4,
os seus atos.
Criam-se linguagens, dialetos e ritos próprios, e ao mesmo tempo As exigências dessa "personalidade intimi",ta" estão diretamente
enl que as pessoas devem ser clnociona1tnentc abertas umas com as Iigacbs às relações que o sujeito lem com o seu cCIrpo, com os outros
outras, há uma extrema vigilância entre elas para quc tais "papéis" sejam c COHl a sociedade em geral. () que predomina é o "reino elo eu", Ulll
desempenhados. Estamos, com i,so - vivendo nesses "grupos" ou cu sempre insatisfeito, exigente. tirânico e cheio de- veleidades, O inti-
"comunidades" ~/dizenclo para o mundo que este não nos interessa: n-UStll0 está, portanto, fundamentalmente ligado a uma cultura psico-
lógica - onde tudo é rcduzido 00 psiquismo - e a uma cultura da
72 Idem, p. 70.
73 Trecho de entrevista feit:1 por Gilberco Velho em 1970, In: "A Utopia Urhana~ Op. cit" p. 105. 'S Idem, p. 409
74 Sennett, R. O Declínio do Homem Público: As Tirania ••do lntimismo. São Paulo, Cia. das ....6 Expressão utilizada Pllf Richard Senett in Op. Gil.
Letras, 1988, pp. 274 e 27';. Idem, p. 409.
interioridade ~ onde tudo é reduzido ao privado. urbanas, nos anos 70, no Brasil - mostra cOlno a dimensão privada mais
intim~')[aé incorporada ao cotidiano. "O sujeito psicológico passa. de
tato, a ser medida de todas as cO~"ias
..."7').
4 - A PSICOLOGIZAÇÃO E OS ESPECIALISTAS "PSI" Produz-se uma oposi\,-'ão,uma incompatibilidade entre os domí-
nios público e privado.
"Eu quero uma casa no campo,
Onde eu /)Qssa com/x),. muitos rocks rurais ':4 sU/)QstaI'alorizaçao do trabalho ou da política aparece como
E tenha somente a certeza (, .) pouco ca.<;oou indife"ença pelos emcantos da intimidade
Dos amigos do peito e nada mai~ familiar amorosa ( J. Parece /Jauer. implicita nesta verlente
psicologizante, a idéia de qUi' o indir'íduo dispoe de uma quan~
Eu quero uma caVA no campo,
tidade de energia limitada que corre o riKO de S(trdesperdiçada,
Onde eu pos,saficar do tamanbo da paz,
ou até voltar-se contra de, se>nao Jor imoestida no domínio ade-
E tenba som(-'nte a cerleza
quado do privado, A politização do cotidiano pode ter como
Dos limítes do cm1xJ e nada mai .•
contraparlida a desafetirmçào da vid(1 privada "!le,(grifos
Hu quero uma ca~a no campo, meus),
1)0tanumho ideal, pau a píC/ue e .VA!)(";
Onde eu possa plantar Im"us amigos, A militância politica, principalmente nas classes médias urbanas,
Meu'õ discos e Urros e nada mais.'''
na década de 70, é vi'ta de forma extremamente ncgativa; é rejeitada.
(Casa no Campo - Zé Rodn>: c .,imlo) Ilá uma atitude cética em termos de politica, sobretudo pela crença de
que os interesses pessoais, familiares estão acima de qua~squer outros
Atltnentam a prcocupa<,:ào c o investimento com as questões
e que não se pode e não se deve ahrir mão deles. O que interessa são
relativas ao "interior" e o conhecimento de si mesmo torna-se uma
os projetos de ;L'icen'iàosocial: o maior sucesso profi'isional, a ampliação
IInalidadc, em vez de um meio para se conhecer o mundo, Esta vi..;;;ào
e/ou consolidaçào do patrimônio, a melhoria nas rela\~ões familiares,
intitni')ta é extremamente valorizada nos anos 70. quando a realidade
afetivas, a preocupação com os casamentos, os filhos, etc. Investe-se
social, o donlÍnjo público são esvaziados e desprovidos de sentido. O
permanentemente no domínio do privado, do familiar e o psicologis-
único sentido está no privado. tno fornece uma legitimação "científica" :l tecnologia do ajustamento.
"Numa sociedade intima todos os fenômenos .wciais (. ) são Ilá um imperiali,mo psicológico, no qual tudo se torna psicologiLável:
convertidos em questões de pt"fSOnalidade, com a finalidade de há uma sociologia psicológica, uma antropologia psicológica, etc.
adquirirem um sentido Os conflitos políticos são interpretados
em termos do jogo das personalidades politicas"7lI. Para esta família em "cri,e" há quc se ter especialistas:
Acredita~se que a aproxitnaçào, a descoberta de si IneStno, a .. é preciso cuidar do casal, dos filhos, do se:m, do corpo, etn
liberação das repressôes, a busca da autenticidade e do calor humano suma, da sua adaptação social .. ,.,tultiplicam~..•e os conselheiros e
são os fatores essenciai..;;;
para o bom andanlento de uma sociedade. As psicólogos, sempre em nurnero suJi'ciente para atender à de-
manda dos PU!"desarmados, dos filbos despíados, dos casa!" infe-
categorias políticas são transformadas em categori:ls psicológicas; o lizes, dos incompreendidos. daqudes a quem não .fbi ensinado
itnportante não é o que se faz, mas o que se sente. Ou seja, há Ulll es- viver (. .. ); é prec!"o jazer algo e os conselheiros e os "psí" são
vaziatl1ento político, há urna psicologizaçào elo cotidiano e da vielasocial. justamente aqueles que a isso se dedicam, na medida do possíliel,

O discurso psicologizante - caracterLstico das camadas médias


79 Figueira, S. A. O Contexto Social da PskanálJse. Rio de janeiro, Francisco Alves, 1981, p. 9.
00 VeUlo, G. Subjetividade e Sociedade: Uma Experiência de Creração. Rh;ide janeiro, jorge
78 ldem, p, 271. Zahar, 1989,p.42.

34 3S
e com o ma."dmo de honestidade e neutralidade, lVão existe mais \idade, simplesmeme "verifica o desejo do seu clieme""A lamilia torna-
neles, a niw ser numa jorrf/i2 residual. qualquer morali.wllJ ou
se consumidora ávida de tudo o que pode ajudá-la a "realizar-se""'.
dogmatisnw /vao desixnam ninguem autoritariamente para a
vida jiunüiar, como tamlJem nào assumem o objetit'O de destrui- ''Proibido inquíetar ofilho, dizem os psicólogos Nao o deLw ficar
la Simplesmente querem aludar as pl>.ç,'iOas a r'iuerem SlJa'"Íttta- sem jazer nada, replicam os professores. Ele fi ansioso, portanto
çao n~ma conjuntura imtdvel, onde as rtierências fiTas desa- estuda mal, observa o psiquiatra. Os pais se cunJam diante disso·
/Jareceram e onde o indil.'íduo sente a nC!Ceç,'iidade
de ser apoiado. se o filho fica ansioso, a culpa é deles. Ele nào e~1á motivado.
mas mio dirigido" g[. descobrem os sociólogos. lJesmotil1ado (.,. j os pai" se inquietam·
tinham jracaç,o;;ado Hm·'Cra tempo para corrigir'? Nao lhe meta
o choque entre as diferentes subietividades produzidas e medo. dizem uns. Faça-o compreender qtw a I.>idal' uma luta,
fortalecid:l'i no decorrer dos anos 60 c 70 - muitas delas, como o intuni')- dizem outros. Protegei-o, ordenam. Deixe-o expor-se, se nao se
mo, c o fechamento da fatuília sobre si lnesma~ produções típica..'ido tornará um jmrapo Proibido traumatizá-lo, pmjelar nele os
práprios sonhos superados. Proibido renunciar e tomar
capitali'imo monopolista, de um país que se "moderniza", se "desen-
iniciativa " ~.
volvc", c "vai pra frente" - é lido COlHO a "desestabiliza(,,~ã()" da fanúlia,
como necessidade de procurar ajuda "competente" par3 os males que a Tais di.'3cursosque se afirmam "científicos" e "neutros" produzem,
"lligcl11. na familia e na sociedade em geral, "verdades" dotadas de efeitos
Com essa "tirania da intimidade", qualquer angústia elo cotidiano, poderosL'5imos. "Essas múltiplas falas dos especialistas "competentes"
qualquer sentimento de mal-estar existencial, são imediatamente renle- geram o sentitnento individual e coletivo de incompetência, poderosa
tidos para o território "da IOlta",onde os cspeciali,tas "psi" estão vigilantes arma de dominaçào"". Desta forma, no chamado "di,curso da compe-
e atentos para resgatar suas vítimas. tência"36os técnicos e os especialistas aparecenl como os que enten-
dem do assunto, possuem o saber, vcrebdeiros i1ulllinados, detentores
"Há sem/H'c um "a mais" a corriRir, um "a menos" a tratar ( .. ).
do conheciJncnto "científico", "rigoroso", "objetivo" e "neutro". O surgi-
atraves da tutela terapêutica o como, o se.'\:oe as relaçóes afetivas
entre os memhros da família ( .. ) jJ(Js\-ama ser usados, de modo mento de tais especialistas e seu fortalecimento no mundo capitalL'itico
sistemático l! calculado, como trIPio de manutençao e reprodu- nào se dá pela necessidade elc modernizaçào C' desenvolvimento da
çdo da ordem social (.. ) Todar'ia. a açiio deste tijJo de tuteia I-'ai sociedade, mas pela sua funçào de melhor controlar, disciplinar,
mais atem. Recrt!Jera os c:fdtos imprcuL<;;tos de<;;tamanipuJaçao.
nonnatizar (' naturalizar a divisão social do trabalho estruturada sobre a
ocultando-lhes (Jongem e n caraler politico-_'i"OciaI"H".
dominação e a submissão8i.
De um lado, as subjetividades dominantes afinnando tais temas; Nào é por acaso que os anos 70, no Brasil. são marcados pela
por outro, alguns territórios singulares que não poderiam, a "bem da preocupa\'ào com a técnica, C0111 a emergência de especiali'5tas em
moral e dos bons costulnes", ser tolerados. A lilJenbdc sexual, o contro- diferentes setores e a ênfase no "discurso da competência". DoL"gran-
le da natalidade, "a dissolução" dos Gls:unentos, a instituição do divór-
cio, "o sexo sem freios", a emancipação intelectual, proli"sional e sexual 83 Dom.L'lol, J. 0p_ dt, p, 20 l
8-1 llesst'l, V, tes Temps des Parents. Volio, 1<)76, citJ.do por Donzdut,J. Op cit., pr. 201 e 202.
da 111ulher,o "crepúsculo do macho", a socializaçào dos selviços domés-
8'5 Sobre o assunto yt'r Coimbra, C.M.H. "A Di\'ü'!3o Soôal do Trabalho t.' os Especialismos Têcníco-
ticos necessitam Se-f di<;cipLinados,nornlatizados. É enl cima de tais Científicos"_ Revi..~t.acU) DefXlrtamento de PsicoloRU. Rio ck: Janeiro, UFF', Ano li - n!12, l!1Semestre;
questões que o especialista "psi" entra. e detém seu monopólio, poL~, lQQO,m-j'j .
.'16 Termo usado por MarilelU Cluui em algun" c:k s•••.
us artigos e livros como: "U que é Ser Educador
diferentemente do padre e do médico, ele, com sua providencial neutfa- Hoje? Da Arte i Ciência: A i\lorte do Educador" In: Brandão, CR I()rg-.J Educador Vida e Morte
Rio de Janeiro, Graal, 1982 •••.Cultura e Democracia. São Paulo. C()rtez, 148Q
87 Tese defendida por Stephen Marglin em Origem e Funçúcs do Pareclamcnto de Tarefas. In:
81 Don7.clol, J. A Polida da."liFamilia"li. Rio dl' Janeiro, (~raal, 1986, pr, l% e 197 GOfZ, A. Criticada Divisâo do Trabalho. São Paulo, \1artins Fontes, I lJ8U,--I7-"78
e apre,"-Cmada
82 Costa,).F. Ordem Médica e Nonna Familiar, Rio de jJ.nciro, C,raJ.i, pp l,) e ló em Coimbra, CM.H. Op_ ciL
des vetores são aqui utilizados c, em função deles, tais temas são produzi- forjarem outras 1'or1113sde luta, outros territórios singulares, atingindo,
dos e fortalecidos: a modernização e o desenvoivimentismo, de um lado sobretudo, outros segrnentos sociais.
c a segurança nacional, de outro. Embora este Capítulo se atenha ã produ\,'ão de subjetividades e
de alguns processos de singulariza\,'ão nas camadas médias urbanas,
por serem elas as principals consumidoras das práticas "psi", não poderia
5 - A PRODUÇÃO SUBTERRÂNEA DE ALGUMAS deixar de assinalar o nascimento ele outras jormas de resio;;tênciaocorri-
PRÁTICAS INSTITIJINTES das ainda nos anos 70.
Se estas novas maneira.s de resL"tir são forjadas, principalmente,
"Quando um muro sf!{>am
nos bairros de periferia das grandes cidades, fiun1 prilnciro 11lO1nento
Uma ponte une
Se a uingança encara não tendo ressonância na:;;;chsscs médi~." a não ser por parte de algu ns
O remorso pune poucos militantes de esquerda, no início dos anos 80 o panorama
Você uem me agarra l1ludará.
Alguêm vem me solta.
As práticas "psi" durante os anos 70 - tanto no Rio de Janeiro
Você vai na marra
r:Ja um dia volJa quanto em São Paulo - estão nastantc marcadas pela ênfase no
E se a/orça e tua familiarismo, no privado em detrimento do público, e no poder dos
Ela um dia é n05,',a cspeciali<:)tasCOffiSCUS di')(ursos "competentes", "científicos" e "neutros".
Olha o muro, olha a ponte,
Olha o dia de ontem chegando
Poucos são os grupos "psi" que, tnesll10 na segunda metade cios
Que medo r."ocêtem de nós anos 70, articulam-se com as novas subjetividades então produzidas
Olha aí.' pelos diferentes 1110vimentos sociai<:)que se fortalecCll1, especia1111ente
Você corla um verso a partir de 1974/197~, Somente nos anos 80 é que tal implicação se
Eu escrl."1JO outro dad de forma tnais dara, mais explícita, quando uma série de mo-
Você me prende uivo vimentos nascidos nas periferias das grandes cidades brasileiras atingem
Eu escapo mario. as camadas médias urbanas.
De repente. olha eu de nom
Perturbando a paz Ao contrário do que nllJitos afirman1, dentro de um enfóquc
fl-'-igindo o troco tipicamente de classe média urbana, de que é somente na década de
ltamos por aí, eu e meu cachorro 80 - após a "distensão 1cnta, gradual e segura" de Geisel e a "abertura"
Olha o Vfff'SO. olha o outro
de Figueiredo - que os diferentes movi.tnentos sociaL" e populares se
Olha o velho, olha o moço c/Jegando
Que medo l'Oâ tem de nós
reorganizam e se fortalecem, quero apontar para Ullla outra vertente: a
Olha aí.' de que é no periodo mal' repressivo da ditadura militar, ainda na
prinleira n1ctade dos anos 70, que novas práticas vão se gestando. Prática.."
[Pesadelo - MaurtCfo TapaJÔSe Paulo César Pínheiro)
que reeha\.·am os movimentos trac!icionai.mente instit:uíc1os,que politizam
Se, nos primeiros anos da década de 70, as classes médias urbanas o cotidiano dos lugares de trabalho e moradia, que inventam novas
brasileiras respiram e vivem o clima ufanista do "milagre", do país que formas de fazer política88
"vai pra frente", orientando-se pelas subjetividades hegemônicas então
88 Esl'l vertente está presente nos trabalhos de:
fortalecidas, apesar das resl'tências que acontecem (luta armada e ecos
Te11es, V. S. AExperlêncla do Autoritarismo e Prática." lnstituintes: Os Movimentos Social",
dos movimentos contraeulturais), há neste período tentativas ele se em São Paulo nos Anos 70. Dissertação de Mestr3do - r TSP,1981, princiralmeme um de .seus

38
Pretendo, ainda que de maneira sucinta, assinalar a emergência Os "novos sujeitos" reinventam em seu cotidiano novas formas
de "novos sujeitos políticos", primeiramente entre as camadas mais pobres de fazer política e em seus movimentos enfrentam a "velha política"
da população e posteriormente - no inicio dos anos 80 - pelo próprio ainda dominante. Ou seja, esse processo de forjar singularidades de-
processo recessivo por que passa o pais, entre algunus parcelas de fronta-se cotidianamente com as subjetividades dominantes encontradas
classe mêdia. Estes segmentos despertos do sonho do "milagreeconômico" entre as esquerdas, OS sindicalistas, dentro da própria Igreja e dos
vão paulatinamente tomando-se aliados nas lutas por melhores condições chamados movimentos comunitários.
de vida, trabalho, salário, moradia, alimentação, educação e saúde e Mais do que isto, chocam-se e lutam contra as subjetividades
pela democratização da sociedade em todos os seus níveis. hegemônicas fortalecidas pela ditadura militar. Assim, a partir de 1964 e
A famosa "crise das instituições" que se explícita nos diferentes mais notadamente 1%8, com o AI-S,cresce a propaganda anticomunista
movimentos de 1968 começa na prática a ser repensada no Brasil. Em em todos os espaços sociais, como mostram as palavras de um militante
cima, prineipalmente, das crises da Igreja, das esquerdas e do operário:
sindicalismo - que a ditadura militar brasileira aprofunda e acirra - ·'Falaram prd mim uma epoca: você é I01J(;o,vai cuidar da
surge uma série de movimentos sociais_procurando novos caIninhos. sua vida, da sua famllia, deixa issoprá Já, qualquer hora
Cuninhos que produzem práticas ligadas à "teologia da libertação", desaparecem com vocO "92 (grifos meus).
que repensam o marxismo, a luta armada e o movimento sindical.
Estas poucas linhas mostram com grande riqueza a tirania do
"Os antigos centros organizadores flgreja, partidos políticos de intimismo, a força do privado em detrimento do público, a certeza de
esquerda e sindicatos) em crise, sao desfeitos e rejeitos sob a que lutar não vale a pena, não só porque a repressão é muito mais
açào simultânea de novos discursos e práticas que informam os
forte (jogo desaparecem com você!), como também a importância de
movimentos sociais populares, seus sujeitos" 89.
se cuidar da família e a desqualifica,ão que pesa sobre a atuação políti-
Estes movimentos cOlneçam a existir com os próprios "estilha- ca. Todos os espa,os passam a estar subordinados aos imperativos da
çOS"90 advindos das derrotas impostas por ocasião do golpe de 1964 e "segurança" e do "desenvolvimento", o que reduz as antigas e instituídas
do Al-S em 1968. Seus "sobreviventes", ao resgatarem criticamente as formas de militância à impotência.
várias experiências dos anos 60 e início dos 70, além dos acontecimen- Esta exclusão política faz dos bairros lugares com perspectiva de
tos de 1968 em torno da Oposição Sindical Metalúrgica", dão origem - abrigar alguma forma de resistência, quando se iniciam as primeiras
nos bairros e, logo a seguir, nas fábricas - a novas políticas que subs- articulações de diferentes experiências partindo de "... ativistas operários,
tituem as até entáo conhecidas e tradicionalmente utilizadas. ntilitantes da esquerda, padres e freiras progressistas, moradores ligados
capítulos "Anos 70: Experiências e Práticas Cotidianas", publicado in Krischkl2, r.J e Mainwaring aos núcleos comunitários das paróquias locais"9'. Pequenos atos e
S. (Orgs.) A Igreja nas Bases em Tempo de Transição. Porto Alegre, L& PM: CEDEC ]986,47- experiências que se nunifestam com aparente timidez, por muitos
fi!
Silveira, M.LS Reinventando a Participação e o Poder Popular: O ABM - Federação de
considerados insigrúficantes, começam a romper com o silêncio imposto
Bairros de São João de Mcriti. A Constnlçào de Uma Hegemonia. Dissertaçâo de Mestrado e são gestados nos bairros de periferia, ainda na primeira metade dos
- mSAEIFGV-Rj, 1987 anos 70. Em realidade, são expressões de resist.êneia, autonomia,
Sader, E. Quando Novos Personagens Entraram em Cena. Rio de Janeiro, Paz e Terí.l, 1988
&;l d'lauL, M. Prefácio in Sader, E. Op. dr., p. I J
criatividade e singularidade que irão forjando algumas práticas instituintes
90 Termo utlli?:l.do por Vera Silva Telles em Anos 70: Experiências e Prática.'i Cotidiana.'i. Op. cie e através de suas experiências concretas podem ser percebidas como
91 Nas greve.~ de 1968, em Osasco, ao mesmo tem(Xl em que se organizam as Comis,-'''õeSde Fábricas.
pequenas revoluções moleculares, segundo expressão de F. Guattari"'.
articula-se a Oposição Sindical Metalúrgica de Sâo Paulo, que pas..<;3a se destacar ao longo da
segunda metade dos ano.~70, como uma das forças organizadas, difundindo, para outros estados, 92 Citado por Telles, V.S, Op. cit.) p. 55.
uma outra concepção de opo.<;ição sindical, questionando e combatendo o sindicalismo oficial 93 Idem, p, 56,
fortalecido pela ditadura militar. 94 Segundo F. Guattari, a ordem molecular ~ " é a dos fluxos, do.'l devires, das tran~içôes de fases,

40 41
A Igreja tem um papel fundamental em grande parte destas novas ele diferentes estados, desde o illlCIO cios 70, destacam-se na luta em
fonnas de resistência. De sua crLse,surgem as Comunidades EclesiaLs de prol dos Direitos Humanos, denuncianelo as tortura~, presões arbitrárias,
Base (CEBs), por intermédio da organização de grupos de jovens, da assassinatos e desaparecimentos de centenas de presos politicos. As
educação popular, de clubes de mães, de creches, de grupos de noivos Pastorais Operárias, que tanlhénl surgem logo no início dos anos 70,
ou de casais, todos trazendo "a marca ele Medellin"9). "... viabilizam nos bairros de periferia um trabalho ele aglutinação operária
Durante os anos de maior repressão, "s CEBs, que tloreseem desde que havía se tornado, nas fábricas, uma tarefa extremamente elifkil"98
o início dos anos 70, são as únicas organizações que resistcnl no dia-a- Mesmo não sendo hegemônica no interior ela Igreja, a "teologia
dia a toda sorte de violências institucionalizadas. Tanto que, no período ela libertação", com sua "opção preferencial pelos pobres", converte-se
de 69 a 73, assiste-se a uma s6rie de perseguições e prisões de padres, numa força expressiva e poderosa em termos de unir e articular
lreiras, agentes pastorais e leigos comprometidos com diferentes traballJos dilerentes agentes, diferentes experiências e de forjar novas militâncias,
"comunitários". O aparato de repressão liga-os a algumas organizações Sabemos como os processos de subjetivação são também proelu-
clandestinas ainda em atividade na épDca"'- Em 1969, pDr exemplo, é zielos pelos fenômenos religiosos. No caso da "teologia ela libertação",
assassinado com requintes de crueldade e barbarisnlo o padre Antonio é importante pensarmos COlno esses
Henrique Pereira Neto, um auxiliar de D. Helder Câmara no Recife e até "..fenômenos são reapropriados pelo próprio let.:idosocial (e até
hoje os culpados não foram punidos. como há uma reinvençào da religÜJ-,,"1'dade por esse ten'doJ. o
que repre.senta uma forte contribuição de energia de luta no
Das CEBs provém um considerável número de "novos" militantes
campo sacia!""".
que aluam nos bairros, nas fábricas e nos mais variados espaços.
Significativanlcnte a..c;;associaçôes de bairros e diferentes movinlcntos As CEBs vão propiciar que seus núcleos nos bairros tornem-se
sociais tornam-se, em geral. mais fortes onde há a criação de CEJ3s. pontos de convergência e cmzanlento de experiências vividas em lugares
Vários grupos ligados ã Igreja da "teologia da libertação" trans- distintos: é o ca..'iO dos migrantes - tanto no Rio quanto enl São Paulo -
formam-se em iJnportantes trincheiras de luta c denúncia contra as que habitam as peril'erias; é o caso de militantes de esquerda, muitos
violências cometidas e a itnpunidade vigente. Surgindo no início dos ligados à luta armada e ã clandestinidade, dispersos após o aniqui-
anos 70, até os 90 continuam mostrando sua disposição em resistir. O lamento de suas organizações; é o caso, também, de militantes operários,
Conselho lndigenista Missilmário (CIMI), criaelo em 1972, até hoje nlUilos deles moradores nesses bairros periféricos. que não encontranl
denuncia e luta contra as arbitrariedades cometidas contra as nações espaços em seus sindicatos e fábricas. () ponto de encontro destes
indígenas. A ContL"ão Pastoral ela Terra (CPT), criada em 1975, hoje dilerentes agentes pa."a a ser a Igreja, através da.s iniciativas de orga-
espalhada por quase toelos os estados brasileiros, resi"e denuncianelo nização e mobilização popular em torno das reivindicaçôes especificas
dos hairros.
os milhares de crimes ocorridos no campo contra, principalmente, as
liderJ.nÇ:lsrumis"'. As Corni"ões de Justiça e Paz, ligadas às Arquiclioceses Sem dúvida, começa-se a quebrar, através de ações concretas e
cotidianas, a tirania do intimismo, em que o público é desqualificado,
das intensidades". In; Guattari, F_ e Rolnik,S. 0r. ciL, p. 321. A revolução molecular, uma desvalorizado, e o político é rejeitado. Entretanto, por força do próprio
espécie "... de mutação entre a.~pessoas {...), é o conjunto das po.~sibi1idadesde práticas específica."
de mudanças de modo de vida, com seu potencial criador..." In: Op. cit., p. ]87.
Q7 Segundo levantamento feito pelas CPTs, de 1964 a ]989, foram assassinados 1'5n trabalhadores
9'5 Em 1968, há em Medellin, na Colômbia, a 2~ Conferencia dos Bispos Latino-Americanos, que se
compromete lU luta contn as causas sociais da miséria, traduzindo os en~irumento..~ do Concilio
°
rurais brasileira!, [o Pre.<;sburger,M. e Araújo, M.T. 'Tribunal Nacional dos Crimes Contr.l Lltifúndio:
Vaticano [l para a realidack.· do Terceiro ,r...fundo. Uma Resposta da Sociedade Civil à Violência do Estado". In: Proposta - FASE, Rio de Janeiro,
nº 49. ano À'V, junho/199], OQ-15
96 Caso, por exemplo, ocorrido no Rio de Janeiro, no subúrbio de Osvaldo Cruz, em 1971, quando
l)R Telles., V-S. Op_ cit .. p '57
um padre e vários jovens que amam no "Grupo de Jovens de Osvaldo Cruz" são presos e
l)9 Guattari, F- e Rolnik. S. op. dt ,p. 154.
barbarameme torturack.À'< por supostamente participarem da organização VAR-Palmares.

42 43
contexto brasileiro de desemprego, de salários indignos e, sobretudo, ani"tia penetra, tanlbénl, em alguns movinlentos sociais de periferia,
nas periferias das grandes cidades, pelo alto indice de mortalidade em especial naqueles que têm uma maior influência das CEBs.Tanto o
infantil, pela falta de saneamento básico, pela existência de valas negras Movimento Feminino pela Anistia criado no Rio de Janeiro quanto os
que correm a céu aberto, pela falta d'água, pelo lixo amontoado, pela Comitês Brasileiros pela Anistia (CBAs) surgidos em vários estados
falta de transportes, moradias e serviços de saúde decentes, muitos brasileiros trazem nlaciçalncnte a presença das nlulheres que, nas nlas,
principiam a sair dc dentro de suas intimidades. Principalmente aqueles nos parlamentos. e em diferentes atos, lutam e buscam seus fIlhos,
que mais sotrem com as péssimas e precárias condições de vida - maridos e companheiros presos, mortos (' desaparecidos.
provocadas pela própria expansão do capitalismo - começam a "colocar É justamente a partir da fragmentação e diversidade de lodos
o pé para fora das soleiras de suas portas" e. irrompendo na cena esses movunentos surgidos na ccna política elos anos 70 que emergenl
pública, reinventam novas formas de reivindicar seus direitos, ",.. a formas singufares de expressão, vinculadas às diferentes condições em
começar pelo primeiro, pelo direito de reivindicar direitos"l"". que são produzida.s103.
Constituindo-se como sujeitos politicos, lutam para conquistar o próprio Não pretendo aqui fazer U11l estudo detalhado sobre estes
direito à cidadania. movimentos sociais no eixo Rio-..."ãoPaulo. Todavia. acredito que, para
As Comunidades Eclesiais de Base multiplicam-se, não apenas mostrar o distanciamento e a não-inlplicação e articulação dos diferentes
na zona rural, como também nas periferias das grandes cidades. Em gntpos "psi" que se organizam nos anos 70 com tais processos de
1984 calcula-se em 80 mil para todo o pais. mas os números são ainda singularização, torna-se necessário comentar algo sobre alguns
imprecisos101. movimentos surgidos na periferia da Grande São Paulo e sobre as
Nas eleições de 1974 o MDB tem quase quatro vezes mais votos Associa"ôes de Bairros e Moradores no Rio de Janeiro.
que os dados à AREl'A. Estes resultados,
,( ao e.-qJre.'"Suremtdo forlemente a e."Cistência de uma opinitio
5.1 - Alguns Movimentos Sociais na Grande São Paulo
pt1Míca de oposiçào, abrem um campo de referência e legi-
timaçdo para comportamentos de rebeldia, resistência e
contestaçào "102. Já em 1970 D. Paulo Evaristo Arns - que desempenhará ao longo
das duas décadas seguintes importante papel na aglutinação e fortaleci-
Novos espaços públicos eSL'lO sendo conslrUidos, onde o cotidiano
mento de numerosos nlovimentos sociais -, ao ser nomeado Arcehispo
- com toda a sua ambigüidade - ocupa, em muitos momentos, o lugar
de São Paulo, condena publicamente as torturas que ocorrem nas prisões
de resistência, ele produção singular, de algo novo e criativo. É nas paulistas.
próprias lutas c enlrentamentos do dia-a-dia que irão emergir esses
Logo são organizadas as Comunidades Eclesiais de Base que
novos significados, operando fi"uras nos discursos dominantes, produ-
irão proliferar por toda a metrópole.
zindo algumas revoluções moleculares.
Delas, nasce e se desenvolve unu série de nl0vunentos ConlOo
A partir de 197~ a luta pela anistia ampla, geral e irrestrita começa
Clube de Mães da periferia sul, o Movimento do Custo de Vida, o
a ganllar corpo em vários setores da sociedade brasileira. Embora fique
Movinlento de Saúde e Educação da Zona Leste, dentre outros. Se. a
mai.:;restrito aos setores de classe tnédia urbana, o 1110vimento pela
princípio, estão estreitamente vinculados às Comunidades de Base e à
Igreja da "teologia da libertação", esses movimentos, à medida que se
100 Sader E, Op. cit.. p. 26.
LOl Cava, R.D. "A Igreja e a A Abertura: 1974-198')". In: Krischke, PJ. ~ Mainwaring, S. (Orgs.l A
IgreJa nas Bases em Tempo de Transição. Op. dL, 13-4"), P 13. 103 Aspecto ressaltado por Sackr, E. Op. dt" qU:l.ndo coment:l. {) livro São Paulo: O Povo em
102 Sader, E. Op. cit., p. 118. Movimento ck P, S~er e V. C. Brandt, puhlicado pela Vozes, em 1980.

44 4)
iOltalecem e se expandem pelas rq(loes de periferia e pela própria dos artigos básicos consumidos por suas bmilias. Em cima elos daclos
cidade de São Paulo, vão transbordar e ultrapa.'Ssar en1 l1lUito seus litnitcs obtidos, é feito um abaixo-assinado ao Presidente da República com
iniciai'S. C:ontinuam a ter o apuio claro c explícito da Igreja progressi.sta, cerca ele 16.:;00 assinaturas. No ano seguinte, nova pesquisa e novo
que lhes fornece grande parte de sua infra-estrutura, como locais para abaixo-assinado com 18.';00 assinaturas. dando origem em 1976 a uma
rcuniôcs, enlpréstinlo de materiais e, principal1ncntc, 1II11:lIcgiti11lidadc asselnbléia C0l114 mil pessoas. A expansão e organização do Movimento
que incentiva <L'i "ba.scs" católicas a participarCl11. :"Jo entanto, não podem do Custo de Vida levam, em I97H, ';.000 pessoas a uma Assembléia em
ser vistos como movimentos única e cxclusiv:llnentc vinculados às CEB.'S, Vila Mariana, que lança a campanha
pois torn:1nl-5e progressivamente movimentos populares, englobando
"... IJisando ã coleta de J milbão de a."'.-inaturas reiuindicando o
grande parte da população não-católica. congelamento dos preços dos gênems de pn'meira necessidade.
Os Clubes de Mães, particularmente na perüeria sul de São Paulo, aumento de salát'ios acima do custo de {lida (' um abono de
ocupam um lugar de dcsGlque, segunclo Édcr Sader, pois, se já desde o emergência. Conseguem 1.250000 a'i...\1·naturasl"IC6.

final dos anos '::;0cxi."lli~lIn.nos 70 vão se revestir de uma grJnde mudança Os Clubes de Màes e o Movimento do Custo de Vida não só
e de noviclade e, especialmente, vão se expandir na própria hase da politizam as lutas cotidianas dos moradores das periferias. tuas, princi-
população. A grande novidade é que os Clubes de Mães passam a estar palmente, trazem para muitas muUleres que deles participam modifi-
nas mãos das próprias llmlhercs, responsáveis por sua direção. Confornlc cações nas relações em bmilia, o que vai implicar a contestaçào dos
relatos colhidos, o referido autor aponta três aspectos, o que lhe permite próprios valores vigentes. Ocupando outros espa,'os e descobrindo a
blar de um força de sua organização, muitas tnulheres começatn não só a ::d"irmar
"novo começo" na bistôria dos cluhes de mães.- 1 ~ a seus direitos politicos enqualllo cidadãs como também - o que é uma
organizaçdo por elas memu:l..~,.J - a constituiçdo de uma cnor- extensão - seus direitos enquanto màes, esposas c companheiras.
denação de clubes de mae3: 3 - a I'alorizaçào da luta contra a
injustiça no lugar do assistencialismo caritatim" 104.
O Movimento de Saúde e Educação da Zona Leste surge em
197') de um núcleo da Pastoral Operária na Igreia ele S. Maleus, com a
Através de reivindica~-,õc.s específicas ligadas aos diferentes criação de uma Pastoral de Saúde. Alguns médicos sanitari,tas ligam-se
problemas dos bairros, os Clubes de Mães politizam-se na medida em ao 111oVllnento e, por t11eiOdc palestras. visitas. pesquisas, cursos,
'1ue as lutas cio dia-a-clia passam a ser um aprendizado ele cidadania, conseguclll Cln 1977 organizar as pritnciras comissões de saúde na
lPlllaprendizado no qual os silenciados se organiZ;lll1 e lutam por seus região. No ano seguinte, o movimento consegue que, oficialInente.
direitos. Assim, na Figueira Ci-randc, ".._a primeira mohilizar.,:ào dá-se sejam constituidos os Conselhos ele Saúde, eleitos pelos moraelores, e
em torno da coleta do lixo"; no Jardim Alfredo c no Alto Riviera - que participam nas gestões dos centros de saúde .
.. onde Inna Passoni é professora" - em cima da ...._questào da preca-
''A e."períência dos conselhos se estende dejJoi'i a outros bairros
riedade da educação"; na Vila Hemo, discute-se a questão da verminose
da zona 1e:.1e, Através da prdtica do contmle popular sobre os
e ,.... a precariedade dos serviços públicos necessários à prescrva\'ão centros de saUde, o mouimento de saude da zona le.s/(>ensaia a
da salide da população""". pas.'iagem da pura lula reüJÍndicatíva para uma açdo política, de
() Movim.ento do Custo de Vida surge como um desdohramen- participação na gestão dos senJi{os púbJicos··w.
to das vári;L' atividades cios Clubes de Mães. Em 197,), é feita uma
Na esteira cla expansão c fortalecimento cio Movimento de Saúcle
pes,!u,,", realizada pelas próprias mulheres da perileria sul, sobre a alta

!(}1 Sader, E. Op. cit., p. 202. 106 Idem, p 220


10') Idem, pro 210 l' 2lJ lO' Idem, p. 227.

47
na Zona Leste, surgem, no final dos anos 70, trabalhos ligados ã educação seu surgimento e fortalecimento.
popular, que trazem como preocupação constante a questão da Até 1974, há pouca difusão dos movimentos existentes em Nova
alfabetização, fato já verificado na periferia sul desde o mcio da década. [guaçu. O ch<llnado Movimento de Integração Comunitária, por exemplo,
Todos esses movimentos vão - como já afmnei - construindo que propunha
novas subjetividades no sentido de se assumir, nas lutas cotidianas, não ,I organizar os católicos para a ohtençâo de melhores semiços
somente noções como solidariedade, mas o próprio direito ã cidadania urbanos, fOi di."-5oluidoem meados de 1970, pelo aparato repres-
c, gradativamente, vão mostrando às "autoridades" o crescente forta- 5Í1XJ_ O m01Jimento de bairros fica reduzido a iniciativas isoladas
lecimento das organizações populares que proliferam na época. Nos (.. ) sem que houves.se alguma atticulação entre bairros e alguma
tentativa de [-'incutar estas lutas a qUl"Stoes mai.<;gerais "lr:J:l.
microespaços realizam-se pressões canti.:! prefeituras, exigindo-se o
atendimento a certos direitos básicos. Em 197'i, tem início, com alguns médicos sanitari'tas, um trabalho
Em 197~, quando do assassinato do jornalista Wladimir Herzog sobre saúde que se propaga pelos grupos bíblicos, clubes de mães e
nas dependências do DOI-COm/Sp, o ato ecumênico realizado, dentre grupos de jovens e preocupa-se, principalmente, em di,cutir todos os
outros, por D. Paulo Evaristo Arns, na Catedral da Sé, mostra a força problemas que at1igem a população. Em 1978, com sua expansão,
desses diferentes movimentos populares organizados. Milhares de representantes de 18 bairros de Nova Iguaçu lórmam o Movimento de
pessoas cerram meiras - passando por cima das diferenças de partido, Amigos do Bairro (MAB) que, ao longo dos anos seguintes, assumirá
classe, religião, raça e credo - em defesa dos direitos humanos e contra importante papel na coordenação e articulação elas diferentes associações
qualquer tipo de violência; constitui-se numa extraordinária manifestação de bairros de Nova Iguaçu, chegando a se constituir num movimento
contra o reginle militar. Meses depois, em idênticas circunstãncias, é de massas. Em 1981, ".. dele participam quase 100 associa~ões de
morto o metalúrgico Manuel Fiel Filho, e as fortes pressões que sofre o bairros" 109.
governo militar fazem com que Geisel afaste o comandante do II Exército, Também em São João de Merili, desde 197~, começa a crescer o
comprometido com a chamada "linha dura". movimento de associações quando é criada a AMB (Amigos de Bairro
de Meriti), que, posteriormente, torna-se Federação das Associações
de Moradores de São João de Meriti' "'. Da mesma I"onna, em Caxias,
5.2 -As Associações de Moradores no Rio de Janei1"o organiza-se o Movimento União de Bairros (MUB) com o apoio de
D. Mauro MoreUi. bispo de Caxias.
Como em São Paulo, também no Rio de Janeiro a Igreja "pro-
Através das lutas concret:l.-":l,e&'5esnlovimentos vão POllCO a pouco
gressista" desempenha um inlportante papel no surgimento de várias
ampliando as conquistas de relevantes espaços politlcos. Não é por
associações de bairros. Notadamente onde as Comunidades Eclesiais
aca..')o que Ulna série de aten1.J.dos terrorL'itas são efetivados contra a
de Base se expandem, principalmente nas regiões de periferia e onde
tlgllra de D. Adriano llipôlito. Em 1976, ele é seqüestrado e torturado
bispos progressitas assumem em suas ações concretas a "opção pre-
por grupos paramilitares c, em 1978. há um atCnlado a bomba contra a
ferencial pelos pobres", há um notável fortalecimento do movimento
catedral de "ova [glla\:u. "ada é apurado, nada é es.c1arecido.
popular.
A amplia~ão dos movimentos elaBaixada Fluminense dá-se quando
A Baixada Fluminense, região na qual o Esquadrão da Morte
no tlnal dos 70 e início dos 130os três agrupamentos (MAB, AMB e MUll)
mais "atua" impunemente, é também o cenário onde inicialmente vão
se desenvolver. logo no início da década de 70, as primeiras CEBs. A 108 Mainwaring, S. "A Igreja CatOlica e o Movimento Popular: Nova [~aç'u 1974-198'5", In: Kir3chke,
PJ. e flb.inw3.ring, S IOrg:-;.l Op. cit., '.1-100, p. 77
tlgura de D. Adriano Hipólito, bi'po de Nova Iguaçu, e as de vários 1(1) Idem, p. 8;;.
outros padres ligados ã "teologia da libertação" são importantes para o 110 Sobre o dc&nvolvimento do trabalho em São João de .\1eriti, ver: Silvl;'ira, I\LLS. Op_ dto

48 19
articulam-se não só em cima de pequenas lutas do dia-a-dia, ligadas a preSid~ a :e'nodelação metropolitana (nos anos 70) expressa a
prefxJ.tencla e o ,desprezo com que a tecnocracia dirigente trata a
problemas conlUns dos mOf'".ldores da Baixada, conlO tatnbém para
qualidade de mda dos que não têm uutomó1!e1 e nuo uivem nas
eTÚrentalnentos l11ais massivos. zonas nobres da cidade"l]>.
A politização, feita em cima de ações específicas do cotidiano
dos habitantes dos bairros, ultrapassa aqueles espaços c prenuncia lu- Segundo pesqui,a do IABOnstituto dos Ar'luitet'" do Brasil) sobre
tas tnai.'i gerais con10: a organização dos trabalhadore:; en1 sindicatos ~ produção arquitetônica do Rio de janeiro nas duas últimas décadas,
livres; o direito de greve; o não ao Fundo Monetário Internacional; a lund~ll-se que' nos anos 70 há um :1utnento do número de intervenções
na paIsagem urlJana.
reforma agrária; o fim do arrocho salarial; a abertura de frentes de
trabalho nas áreas urbana e rural; o fim da Lei dc Segurança Nacional; "Grandes obras de infra-estrutura lfIân"a dilaceram a cidade
desarticulando os espaços dos bairros ( ) Prevalece ~
elc.lll.
pensamento de remoçdo de faoela.\~ que caracterizou os anos
Fora os I11ovimcntos ele bairros da Baixada Flunlinense, que se 60, como soluçào para o fJ1"OblemahabitacionaU.)116,
organizam ainda na pritneira metade dos anos 70, vanlaS assistir, no
nnal da década, ao surgunento dc algum:!s Associações de MOf:!dores Já nos anos RO, a pesqu isa revela que, pelo bto de a sociedade
em bairros tipicamente de classe média que, em L978, originam a CO~ltcs,~arestas intervcnçôes na paisagem quando os espigôes passam
FAMERJ(Federação de Associações de Moradores do Estado do ,1 ser ... condenados pelos movimentos soci~ü'5 L ..), as edificações
Rio de Janeiro). C()~lSC~temtraduzir melhor as preocupações quanto à escala da ciclacle
l' a paisagem urbana''11-" lambém como efeito dos movinlentos de
"/vucJeando 17 A'5ociaçoes de Moradores ou entidades similares, prese.rvaçào dos valores ela cidade e do meio ambiente, ocorre a defesa
não se pode dizer que a FAMERj tenha nascido de um amplo
mmdmento de bases. Pelo contran"o, um de seu" objetivos e
dast.avelas, que passam a ser preservadas, ('xigindo~sC' nlelhorcs
e:'<atamente o de formUlar a criaçao de noms Assoctaçoe." de c()n.d](t·ô~ssanitár~as e de v!d.a em geraL e nào são mal') percebidas por
'1,;foratiores,nao so na capital. ,na" em todo o estado ..112. mUitos COIUO qUL<)losSOC1a15que devem ser extirpados, conlO nas
decadas ele 60 e 70.
É justamente em cima da luta contr:! a desenfreada especulação
,.,_ Em sua trajetó.ria 'por melhores condir,x}es de vida para a popu-
imobiliária, a qual vai "... desmatando e poluindo a Zona Sul e grilando
1,1:,~O,f(:rd~ d~a.,: pnnclpalmente, a.' grandes frentes de luta da FAMERJ:
terras e fonnando loteamentos clandestinos na Zona Oesle"ll3, que a
p~l~ saude publIca e em defesa dos mutuários. A primeira. através
fAMERj se organiza. A especulação imobiliária traz o que Guattari chama
",llClalmentc de um Encontro Popular de Saúde, realizado em 1980, na
de "alisamento da paisagem""': a destruição fisica de espaços cultur:!l-
(:"~(~~" ele Deus, zon,a norte do Rio de janeiro, a partir da questão
mente importantes como resultado do ritmo ava."alador da remodelação
l spl'ufJca. da saude publICa, articulando-a com as condi\-'ões sanitárias.
urbana. A,,,sinl,praç'3.-'i,parqucs. quatteirõcs inteiros clesaparecenl,
de moraelta, de transporte, de desemprego, ele baixos salários, ele falt:!
.' dissolvertdo e,'paços de conl'ü0ncia fonnados pelos mcontros de escolas, de fazer. Apontam, inclusive, a., prioridades de um plano de
cotídianos na cidade ( ) A própria concepção urbani.\1ica que ,'aude para o estado do Rio de janeiro1l3.

111 Pontos rctir::J.c1oscUs Tcse.~ do l'! Congresso da Federação d.a.~Associaçoes de l\-loraclores de São
A luta dos mutuários do Banco Nacional de Habitação (BNH) por
João de Meriti. outubro ili' 198). In: Silveir.1, M_L S. ()p. cit, 1'1'. 132 e I.B.
112 Alencar, f'.R. A.••Associações de Morado-res Vinculados à FAMERJ e A Comrtroção de Uma Il)8'5
Educação para a CidadaniaAtravt$ da Politizaçào de Base. Disserta~o de Mestrado - IESAl~; li" Satkr,LOp.cit..p.JI9
FGV-Rj, 19CJO,p. 48 1I(1
1,-' Branco,
Ickm. A_C."A arquitetura dos Anos 70 ê BO"
. In: JB/ Cad
. erno Cidade - 0."l,/08/91, p. 06.
113 Akncar,F.R.()p,ciL,p.48
114 Guattari, F "Espaço e Poder: A Criação de Territórlos na Cidade~. In Espaço e Debates, n~ 16. 111) Sobre esse I Encontro de Saúdt..'Popular e as prioridack'.~ apontadas, consultar: Saúde: DI-reitodc

';0 'il
uma "nova" política habitacional, no início dos anos 80, faz com que a como "salvação" de todos os male..<;
sociais, o discurso populista
FAMERJcresça e defmitivamente se enraíze no seio da classe média tem efeIto desmobüizador, em muitas áreas. Portador de uma
inegável sensibilidade para o social (_.) e conhecedor das propos-
urbana carioca.
tas das esquerdas, Leonel Bn'zoJa consegue criar a ilusão de que
"Esse movimento pela hahitaçào tem inicio nos conjuntos inaugura, no seu governo, a era da partidpação, sucessora
habitacionais de áreas pobres. onde os índices de inadimplência da etapa reivindicatória do Movimento Comunitário. Isso leva à
são crescentes. liJgo também os mutuários de classe média são paralisação e burocratizaçiio de muitos movimentos associaUvos
atingidos, como efeito de uma nova política salaTÚlI que corrói (.J Urna frase de Brizola, em rna1fo de 1983, num encontro
os ganhos do trabalho r..J Nessa luta pela habitação, a FAMERj com milhares de lideranças comunítárias, no Ginásio do Olaria,
ganha dimensão nacional e passa a ser uma referência para os Zona None do Rio, é reveladora: "as Associações de Mora-
três milhoes e 400 mil mutuarios do BNH em todo o Rrastl"119. dores são afluentes de um rio importante. que é o partido
politko" 121 Cgr:ifosdo próprio autor).
Assim como os movimentos de bairros da Baixada Fluminense,
também a FAMERJ participa da luta por melhores condições de É O risco de cooptação que cotidianamente correm os movimentos
abastecimento através do projeto "Feirinha Comunitária". Entretanto, é sociais dispostos a criar não somente espaços de resistência, mas
na área da cultura - pela própria inserção majoritária da classe média sobretudo, territórios singulares por meio de dispositivos que sinalizam
nas Associações de Moradores das Zonas Norte e Sul -, através de em direção a práticas instituintes.
campanhas por espaços de lazer, que a FAMERJobterá suas maiores
vitórias. Consegue-se a construção de diversas praças. quadras de esporte
e fortalecem-se diferentes grupos culturais que, em sua maioria, mostram 5.3 - O "Novo Sindicalismo" e Seus Efeitos
produções voltadas para as questões do cotidiano.
O fato de colocar em item à parte o chamado "novo sindicalismo"
Em todas essas ações coletivas, novos espaços, novas linguagens,
que se manifesta junto com os demais movimentos sociais nos anos 70,
novos agentes e novas militâncias vão sendo forjados. Muitos, de simples
realça a importância que as greves de 1978, 1979 e 1980 têm para o
espedadores, passam efetivamente a sujeitos políticos; por conta disso,
conjunto da sociedade brasileira.
afJfma Chico Alencar que o movimento das Associações de Moradores
no Rio de Janeiro tem se constituído numa" ... espécie de "escola básica" A Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, que se fonna em
de politização"'2lJ 1%7/68, é uma das responsáveis pelas greves em 1968, ocorridas em
Osasco, quando, questionando a própria estrutura sindical vigente,
Contudo, os maiores desafios enfrentados pela FAMERJ e
apresenta a alternativa das Comissões de Fábtica·n
Associações de Moradores cariocas, principalmente as das Zonas Oeste
e Norte, no início dos anos 80, são as tentativas de cooptação e de No Correr dos anos 70, Osasco permanece como referência quase
obrigatória nas discussões da militância operária, e as Comissões de
atrelamento do movimento ãs forças instituídas. Após 1982, com o
Fábrica convertem-se em símbolo da organização pautada na fábrica.
novo governo fluminense eleito, tem início urna política populi')ta que
coopta muita.s lideranças "comunitárias" e atrela paulatinamente o mo- Se nos primeiros anos da década de 70 toda e qualquer resistência
vimento de muitas Associações de Moradores ao governo do Estado. dentro das fábricas é quase impossível pelas perseguições que ali ocorrem,

"Apelando quase sempre para os "humildes': os 'pohres" em geral, 12] Idem, pp. ]13 e 114.
e colocando o governo e a própria figura carismática do líder 122 Sobre a assunto - as Comissões de Fábrica como ruptura com a ordem capitalista e como base
para a oposição ao sindicato - além dos livros citados de Sader, E. e Silveira, M.L.S. ver também:
Todos.. Rio deJaneiro, Centro de Qualidade de Vida, 1982 Marani, A. A Estratégia da Recusa:: Análise das Greves de 1978. São Paulo, Brasiliense, 1982
119 A1cncar, F.R. op. cit., pp. 53 e IH. e Athayde, R.c. Processo Produtivo. Espaço Educativo: Um Campo de Lutas. Dissertação
120 [demo p. 144. de Mestrado - UFPB, 1988.

52 53
nos próprios sindicatos a situação não é diferente. Além de se tornarem fortalecida e sua proposta de Comissões de Fábricas se materializa em
alheios às lutas operárias, os sindicatos transfornum-se em espaços várias empresas.
perigosos de delação. "()êxito nas greves de maio-junho cria uma disposíçdo de luta na
Também no operariado, tendo à frente os próprios sindicaIL,tas, categoria que permite à Oposição ocupar virtualmente o Sindicato
os sonhos de ascensão social, fomentados pelo "milagre econômico", na conduçao da greve em novembro de J 978 e, depois, em
novembro de 1979" n,.
fortalecem-se. Não é por acaso que aBpoliticas sindicais instituidaB na
época são claramente assistenciais, preocu pando~seprioritariamente conl Por ocasião deste último tllovimento, é assassinado friamente
as chamadas realizações materiais: compra de grandes prédios para suas pela PM paulista o operário metalúrgico Santo Dias da Silva - membro
sedes, colônias de férias e unu série de outras aquisições que demonstram da Pastoral Operária e da Oposição Metalúrgica de São Paulo - quando
como as subjetividades hegemônicas, então fortalecidas pela ditadura comandava um piquete de greve.
militar,ai estão fortemente enlranludas. Aplaudindo e scguindo as linhas As greves do ABC.além de fortalecerem a Oposição Metalúrgica,
preconizadas pelo governo, de "desenvolvimento" e "seguranp" que expande sua proposta de questionamento à organização sindical
nacionais, os principaL5 sindicatos brasileiros, através também de obras vigente em outros estados, produzem também efeitos sociais podero-
faraônicas, acreditam na "grande potência" que será este pais c que síssi.mos. Um deles, o enfrentamento direto com o Estado autoritário,
ascender socialmente depende do eslórço de cada um, desde que se leva diferentes categorias de diversos estados a também utilizarem o
dedique ao trabalho, à família e não desperdice tempo com politica. instrumento de greve. São os metalúrgicos de São Paulo, Rio de Janeiro
No limiardos anos 70, a resistência é organizada fundamentalmente e Minas Gerais e os professores elo Rio ele Janeiro que priorizam a
nos bairros, por intermédio das Pastorais Operárias e dos diferentes organização pela base. De um moelo geral, os diferentes movimentos
nlovimentos a..~sociativos que surgenl e, gradativatnentc, se fortalecem. sociais e associativos respaldatll e assumem posturas de solidariedade
Entretanto, pequenas lutas, pequenos atos, pequenas conquistas em real aos trabalhadores grevistas.
diferentes fábricas continuam sendo realizados. Em 1980, nova onda de greves ocorre, poi ... inicia-se um claro
"Essarevalorizaçao daquüo que. em outro contexto. seria apenas processo recessivo, anele não só as percbs salariais crescem assusta-
mostra de fraqueza ou desorganizaçào, só fi inteligível quando
doramente, conlO tanlbém aumentaln as delnissões. As lutas não se
inserida num conjunto depequenas ações que evidenciam a
resistblcia operdrla. Dispersa. silenctO.fUI. muitas vezes restringenl somente aos amnentos salariais, mas, principalmente, à
sufocada, mas real e presente em todas as partes" 173 (grifos questão da estabilidade no emprego.
meus). A chamada politica de "descompressão" iniciada por Geisel e a
Neste quadro, as lutas cotidianas dos operários nos seus locais resistência operária no interior das fábricas fazcnl com que "aberturas"
de trabalho - em muito fortalecidas pelas CBEs, Pastorais Operárias e sejan1produzidas no sentido de acolher algumas reivinclica,ões nascidas
Movimentos de Bairros - vão provendo novas ondas de resi<;tência, novos na sociedade civil. O Sinelicato dos Metalúrgicos em São Bemarelo elo
sujeitos politicos. Campo" ... sabe-se fazer portador - e sabe potenciar - algumas dessas
pressôes, que vênl de suas IXLo;;es
... "I.!s.
Em 1977, a campanl1J pela reposição salarial iniciada pelos
metalúrgicos do ABC é um marco de retomada das lutas massivas que EUl lodo esse processo, no seio do qual o "novo sindicalismo
culminam com as greves de 197H. Nelas, a Oposição Sindical - forjada irrompe, criando novas ações, novas táticas de luta, novas linguagens,
nessas pequenas ações no espaço fabril e nos espaços dos bairros - é
124 Idem, p. 2'51.

123 Sader, E. Op. cit., p_ 243. lô Idem,p. 288


g'dllha força o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, Ani~tia, do Movimento Feminino pela Ani~tia, da Ordem dos Advogados
que será o nascedouro do Partido dos Trabalhadores, em 1980. do Brasil e da Associação Brasileira de Imprensa, dentre outros.
A partir de 1979, com o governo Figueiredo, o último elo ciclo Também é extinto o bipartidari~mo com a dissolução da ARENA
militar, há a implantação ele linhas politicas que tentam efetivar o projeto e do MDB, abrindo-se um plano destinado a prolongar a permanência
de restauração política de "abertura"12b. Até porque, neste momento, o do poder militar.
sistema fInanceiro internacional já se prepara para nos apresentar as A censura à imprensa, cautelosamente, começa a ser suspensa) e
pesadas contas do "milagre econômico". É, no dizer de Maria da Conceição a sociedade em geral e as universidades, em particular, principiam a
Tavares, a época da "administra,'ào do caos": receber seus primeiros exilados e professores anistiados.
,. na fase do primeiro "milagre ", Delfim Neto pode comparar-se No entanto, os "boL~õesradicais" ligados à extrema direita, bastante
ao mestre de navegaçao que orientou as pelaspara colber a melhor insatisfeitos com seu afastamento dos centros de poder, não aceitam as
}Orça dos ~Jf?1'ttos internacionais, assim deixando impelir o harco medidas que levam o país a uma democratização. Se, no final dos 70,
da economia com força má.uma. (Agora) pretende criar o pró- atacam os movimentos sociai~ da periferia - caso do Bispo de Nova
prio lJento (. ..); um fracasso completo no que .~erejere â situaçao
19uaç..1J-, no início dos anos 80 voltam-se contra a classe média. Passamos
externa do país e à inflaçao" 127.
por fases de susto, senão tCfilor com os inúmeros atentados à bomba
Esta chega ao patamar acima elos 100% e as atividades econômicas contra bancas de jornais em vários estados brasileiros130, contra a OAB/
sofrem uma queda sem precedentes. Rj1", culminando com o do Rioccntro'''. "A impunidade caminha ao
Ao lado deste caos econômico, que leva, em 1983, o governo a ia'do da insegurança. Nenhum culpado é punido"133.
capitular diante do Fundo Monetário Internacionall28, uma série de Com a~ eleições de 1982, o governo militar perde fragorosamente
medidas políticas visando à "abertura" são tomaela~. Ainda em 1979, é enl onze estados brasileiros, apesar dos recursos e casuísmos
sancionada a Lei da Anistia, bastante restrita, pois, dentre uma série de empregados pela ditadura. A oposição ganha os governos dos três
exceções, cria os chamados "crimes conexos", fIgura juridica pela qual mai~ importantes estados: Rio de Janeiro, com o PDT; São Paulo e
os torturadores são anistiados. No dizer ele Hélio Silva, é uma "anistia Minas Gerai~, com o PMDB.
fardada"l29 que, entretanto é uma resposta necessária da ditadura ao O caos econômico agrdva-se e ao pai~ é imposto um forte programa
fortalecimento da sociedade civil através dos Comitês Brasileiros pela de recessão, associado a um arrocho salarial que traz eleitos deva~tadores
sobre a..'iclasses luédia e trahalhadora. Cria-se um "...CÍrculo vicioso de
126 Este trecho que se segue é uma síntese de um item contido no traballio de Coimbra, C.M.S.
pau perizaçào, no curso do qual se recorre a mais recessão para se
"Análise Institucional no Rio de janeiJo: Subversão ou Modi.smo?~. ln: Repe:tl5alldo Algwwa."l
Práticas em Pskologia Escolar Numa Visão lnstitucionallsta. Cadernos do ICHF. n~ 06, cOlllbaler a própria recessJ.o"134.
Universidade Federal Fluminensel1nstituto de Ciência.~ Humanas e Filosofia, julho/1989, O 1~17.
127 Tavares, M.C. e Assis,].C O Grande Salto para o Caos. Rio deJaneiro,Jorge Za~r, 198'5, p. ?~.
128 A submissão ao FMI é indispensável para que o governo brasileiro, diante da comurudade bancana 1:'\0 A.sbancas de jornais quc vt'·ockm so.::minários~altt.'rnati\if)."~como o Pa."lquim e Movimento.
internacional, tenha condições de fazer rolar a dívida exrema. Representa a capitulação e su1xJrdlnaçã.o dentre outros, recehem cartas ameaçadora;; e, St: não suspendem as venrla..<;ck.<;sessemanários,
toral dos interesses nacionais aos desígnios. externos. "Trata-se do coroamento formal de um s3.0 "-'xplodicbs.
processo cujas origens remotas se encontram no Golpe de 1964 e no regime por ele instau~a~, l:'l! O :lLentadocontra:l OAB/R) mata com uma carta-bomba suasecretiriã, D. Lyda Monteiro da Silva,
que, ao longo do tempo, fol deslocando o eixo da dependência econômica do campo tecnologtco ~m2"7/08/80.
e industrial para o campo financeiJo~. In: Tavares, M.C. e Assis,].C. Op. ciL, p. í9. . )il O aLenLado do Riocenlro ocor~ em _~Oi04iRl - () último dos atos terroristas cks.<;eperíodo - t;'
129 Bastante restrita, pois veta expressamente qualquer recurso ao }udiciário e deixa de re~~ os pretende explodir o local onde .~crealir.J.o ~-howoo 1'1de Maio com cerca de 1'; mil pessoas. NeSl:e
salários, proíbe o pagamento dos atrasados e a discussão da causa da suposta punição. Alem dis~, "aciclt.'me clt.'Lrabalho" morre um sargemo e fica gravemente ferido um tenente, ambos do Ser.·iço
discrimina cerca de '5.'500ofidais, sargentos e praças que não são anistiados e não podem voltar as Secreto do Exercito t' pertt'ocemes ao DOI-O >Dl/R).
flleiras. Anistia os torturadores antes de irem a qualquer julgamento. In: Silva, H. 1%4: VInte 133 Silva, H. Op. cit" p. 90.
Anos de Golpe Militar. Porto Alegre, l & P M, 198'5, p. 93. 1">4 Tavares, ,\-1.e e Assis,J-C. Oro cit., p. 80
A configuração deste quadro, com os "novos personagens que a partidos políticos cf ou diferentes movimentos sociais do penodo, esses
entram em cena" por intermédio dos vários movimentos sociais, faz "psi" têm uma expressiva participação, inclusive por meio de denúncias
com que a ilegitimidade e o repúdio ao governo militar cresçam. que fazem na grande imprensa, quando há "permi'8ão" da censura para
"A combinação, no governo Figueiredo, de uma recessão cada l':iSO.Porém, parece haver um "corte" entre suas atuações enquanto
lX'Z mais intolerável, com uma notória condescendência em relação cidadãos e aquelas enquanto profIssionais. Em seus espaços "psi", em
aos escân4alos financeiros. envolvendo somas gigantescas e altas seu cotidiano como trabalhadores "psi", não há implicação politica com
personalidades do regime, priva o governo e o que restava do sis-
os diferentes movimentos sociais. B a força e o poder que têm algumas
tema inietado em 1964 de qualquer apoio significativo, em todos
os estratos da população" 13S. subjetividades hegemõnieas, já vistas anteriormente, quando acionadas
e fortalecidas por alguns dL'positivos e instituições como a "verdadeira"
Compreende-se, assim, o grande êxito que, ao longo de 1983 e psicanálise e a formação analítica, conforme veremos a seguir.
1984, consegue a campanha das Diretas Já! em todo o pais. Mais de SO
milhões de brasileiros saem às ruas, comparecendo aos cooúcios da
oposição, exigindo eleições diretas para presidente e a democratização
da sociedade em todos os nivel,.
Todavia, apesar da extraordinária mobilização popular, a ditadura
ainda possui seus trunfos e, por força do pacto com as elites dirigentes,
incluindo alguns partidos que se dizem de oposição - da mesma forma
como havia ocorrido com a Lei da Anistia -, consegue barrar a Emenda
Dante de Oliveira, em 1984, e manter as eleições indiretas para presidente
da República através do Colégio EleitoraL
B, portanto, nesse clima de grande mobilização popular, repúdio
e indignação ao ciclo autoritário, que se inicia a década ele 80. Mo-
bilização que começa a atingir as classes médias urbanas brasileiras
que, refeitas do sonho do "milagre", ligam-se ãs Associações de
Moradores, às campanhas pela Anistia, contra o Custo de Vida e às
Diretas Já!, participando de uma série de movimentos de "minorias"
con10 dos negros, das mulheres, etc.
Entretanto, se o início dos anos 80 traz para a cena política todos
esses novos sujeitos, poucos serão os grupos "psl", no eixo Rio---..'ião
Paulo, que se implicarão efetivamente em tais movimentos.
Interessante notar que alguns psicólogos e psicanalistas - estes
últimos ligados às Sociedades vinculada, à IPA- desempenham, durante
toda a década de 70 e mesmo na seguinte, importantes papéis nas lutas
de resistência pela democratização da sociedade brasileira. Ligando-se

135 Jaguaribe, H. Sociedade e Política. Rio de janeiro,jorge Zahar, 193'5,p. 36.

S8 S9
CAPÍTIJLO II Analisando CrItlcamente esses gmpos, seus funcionamentos,
organizações, estatutos, burocracias, currículos, crises e rachas, não
pretendo entrar em mera descrição instituída desses estabelecimentos.
Não quero privilegiar o "movimento interno" desses gmpos, mas. ao
contrário, atualizar sua hi'tória com as práticas então produzidas. É um
desafio!
O espaço "psi", que se eslmtura no Brasil nos anos 30,40 e 50, é
feito em cima da "carência",da "falta"das crianças "problema", da, crianças
com "dificuldades" de aprendizagem e/nu emocionais.
As PRÁTICAS PSlCANALÍIlCAS NOS Os saberes sobre a infância - não somente no Brasil mas
principalmente nos Estados Unidos e Europa - ampliam-sei, sur~indo
ANos 70 NO BRASIL preocupações com a chamada infância "desadaptada", com as crianças
··difíceis". Não se enfatiza ainda a questão da prevenção, que irá
predominar nos meios psicoterápicos e escolares brasileiros a partir da
década de 60. O que se marca é a necessidade de atendimento a essas
crianças.
Proponho çaminharmos um pouco mais e adent.!".umosno território
"psi" propriamente dito. Território este que, como já vimos, vai se Nas entrevistas feitas - notadamente com psicanalistas mulheres,
fortalecendo - fundamentalmente nos anos 70 - em cima da produção de formação médica ou psicológica - foi registrada a atuação de algumas
da "crise da fanúlia moderna", em cima da carência, da falta. em órgãos governamentais (federais, estaduais e/ou municipais) nas
O objetivo de analisar algumas práticas psicoterapêuticas nos anos décadas de 40, 50 e 60 - tanto em São Paulo quanto no Rio de janeiro-
70, agora neste Capítulo ligadas à psicanálise, conduziu-me também a em Serviços de Higiene Mental, Centros de Orientação Infantil e juvenil,
tentar uma abordagem instituída. Instituída no sentido de mostrar um Setores de Psicologia Clínica, etc. Nestes órgãos, inicialmente é dada
pouco a hi'tória de cada um dos gmpos "psi" que se formam ao longo assi<;tência à "criança-problema" e, se necessário, orientação aos pai') e
desta década, fazendo uma análise do interior do próprio movimento. professores'. De início,estes serviços são de cunho puramente diagnóstico
Se,por um lado, a utilização deste enfoque corre o risco de capturar (aplicação de testes), com algum acnmpanhamenro psicopedagógico aos
- e portanto trair - o objetivo inicial, por outro traz maiores informações pais e professores'. Gradativamente, muitos deles passam para o
sobre os diferentes gmpamentos que se estabelecem e que práticas por atendimento clínico dessas crianças "problema". Da desaclaptação infantil,
eles sào disseminadas. Acredito, também, que esta hi'tória instituída, caminha-se para a intervenção na vida sexual e familiar,prática bastante
pelas próprias informações contidas, possibilite outras leituras e desenvolvida no Bra,il nos anos 70 Ao lado di."o, cresce a importância
percepções. dada à prevenção e o circuito escola-lanúlia se fecha.
Ao históriar os principai, grupos '·psi" no Rio de janeiro e em São
Paulo, quero, ao lado di'5o, sobretudo, cotejar suas práticas, as Sobre o assunto, ver: DOl17..etot,]. Op. cÍt
subjetividades dominantes, os movimentos sociai, e alguns processos de 2 Sobre o assunto, ver Bicudo, V.L "Memória e fatos". In: Revista [di. São Paulo, 1990.
singularização, no sentido de entender essas práticas e os saberes por 3 .D~sde os anos 20 e 30, 0$ higienistas ntl Brasil vão privilegiar propostas de intervenção junto ilB
cflanças c, paralelamente, ~osseu,~resp:msíveis. Sobre o assumo, ver: Cost::t,j.F. Ordem Médica
elas produzidos e fortalecidos. e NonnaFarnDlar. Op. cie e Nunes, S.A. "Da Medicina Social à Psicanálise". In: Rirmo,). (Ofg.).
Percursos na História da Psicanálise. Rio de ):meiro, Taurus, [988,6[-122.

60 61
"Partindo da escola, dos problemas de desadaptação escolar, ,.
passou-se para os problemas da procriação, da vidafamiliar e da
/
I- A "VERDADEIRA" PSICANÁIJSE ou O
harmonia conjugal, para, finalmente, voltar à escola com a
SANTIJÁRIo DE VESTA
instauração da educação sexual. Nesse circuito escola-família, o
operador de cada etapa Jbi a psicanálise. É ela quem autoriza o
deslocamento dos problemas de aproveitamento escolar para os No eixo Rio-São Paulo, são três os estabelecimentos de formação
de harmonia familiar. Ê ainda ela quem instrui uma educação
psicanalítica ligados à International Psychoanalitical Association (IPA),
sexual não mais centrada nas doenças venéreas, mas na questão
do equilíbrio mental e afetivo. Face ao desdobramento dos fundada por Freud e seus discípulos em 1910: a Sociedade Brasileira de
psicólogos, dos conselheiros e dos educadores que se satelizam em Psicanálcse de São Paulo (SBPSP), a Sociedade Psicanalitica do Rio de
torno da relaçdo escola-jamüia não basta dizer que ai passou a janeiro (SPRJ) e a Sociedade Brasileira de Psicanálise elo Rio de janeiro
psicanálise. Seria mais exalo dizer. embora jogando um pouco (SBPRJ)
com a." palavras, que é por ai através desse ativismo familiar-
escolar que ela pôde passar "4(grifo do autor). A SBPSP é a primeira a ser reconhecida como Sociedade miada ã
IPA, em 1951, no XVIICongresso Psicanalítico Internacional, em Amsterclã.
Em decorrência dessa, a questão familiar se torna a grande loco- Desde 1937, funciona como Grupo de Psicanálise de São Paulo, ligado ã
motiva pela qual a psicanálise avança a toda velocidade no Brasil dos Ora. Adelheid Koch, membro da Sociedade PSicanalitiC'dde Berlim, que
anos 60 e 70. vem dar formação analitica em São Paulo depois de insistentes soli-
Não almejo aqui fazer uma história da psicanálise, do psicodrama citações feitas pelo Dr. DUNal Marcondes.
ou das terapias corporaL, no Brasil na década de 70. Pretendo, sim, A SPR] é reconhecida como Sociedade miada à IPA em 1955, no
apontar como essas práticas vão proliferar em determinados momentos XIX Congresso Psicanalitico Internacional, em Genebra. Desde 1947, já
históricos; COlnose dá sua expansão, o "boonz psi", c que instituições e existe, no Rio de janeiro, fundado por um grupo de médicos, o Instituto
dispositivos serão instrumentalizados e fortalecidos por elas. Brasileiro de Psicanálise; no ano seguinte, chega Mark Burke, membro
Para tal, é necessário comentar algo sobre a história dessas práticas, associado da Sociedade Britânica de Psicanálise, e inicia a formação
seus estabelecimentos, equipamentos, dispositivos e instituições. analítica nesta cidade. Em 1948, chega Werner Kemper, da Sociedade
Muitas das informações que me guiaram partiram de dois traba- Psicanalítica de Berlim, que divide a ]{,rmação com Burke. Em 1949,
lhos que mostram a expansão da psicanálise em São Paulo e no Rio de retorna de Buenos Aires, já com sua formação analitica concluida pela
janeiro. Em São Paulo, Roberto Yutaka Sagawa' realiza um aprofundado Associação Psicanalítica Argentina, o casal Perestrello; pouco depois
estudo da psicanálise "oficial" desde os anos 20 até os 80. No Rio de chegam outros analistas brasileiros também ali formados. Em 1951, há
janeiro, Ana Cristina Costa de Figueiredo' fala da difusão do movimento uma crise no Instituto Brasileiro de Psicanálise, e W. Kemper, com seu
psicanalítico de 1970 a 1983. Estas leituras me forneceram as pistas para grupo de analisandos, sai e funda () Centro de Estudos Psicanalíticos. É
definir o universo de minha pesquisa, a quem procurar, a quem entre- este grupo que, em 1955, é aceito pela IPA como SPRf.
vistar o qu e ler.
l
A SBPRJ apenas é reconhecida como Sociedade ligada ã IPA em
1959, no XXI Congresso Psicanalítico Internacional, em Copenhague. A
SBPRj é oriunda do grupo de M. Burke que ficara no'lnstituto Brasileiro
de Psicanálise, do grupo argentino que havia fundado, em 1951, a
4 Donzelot,).Op.cit.,pp. 177 e 178.
Sociedade de Psicanálise cio Rio de janeiro e de outros analistas brasileiros
" Sagawa, R Y. Os Inconscientes no Divâ da História. Dissertação de Mestrado - UNlCAM:P,
1989,2 vols.
chegados ao Rio Com formação analítica feita em Londres'.
6 Figueiredo, A.CC Estratégias de Dlfmão do Movimento Psicanalítico no Rio de Janeiro- Sobre o assunto, ver Perestrello, M. H:istória da Socledade BrasDelra de Psicanálise: Suas
1970/1983. Dissertação de Meffi:rado- PUGIR], 1984. Origens e Fundação. Rio de)aneiro, lmago, 1987.

62 63
Gradativamente as Sociedades latino-americanas vinculadas à IPA Destas, somente a de São Paulo (SBPSP1,desde os seus primeiros
procuram se aproximar e, em 1960, é fundado o COPAL (Comitê Estatutos em 1949, abre a possibilidade de. além dos médicos. também
Coordenador das Organizações Psicanalíticas da América Latina) psicólogos e proti'5sionais de outros cursos superiores se inscreverem
no li! Congresso Latino-Americano, realizado em Santiago, no Chile. para a formação analítica. No caso de outros cursos. fica a critério da
Comi"sào de Ensino a aceitação ou não do candidatoll.
Desde 1956, realizam-se congress,k' latino-americanos, a cada dois anos,
i Apesar de a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo ter

f
das Sociedades Psicanalíticas ligadas à IPA. Os principaL, objeüvos do
COPAL são o de expandir a psicanálise na América Latina, conseguir esta postura e as duas do Rio de Janeiro, ao contrário, só permitirem
maior representação dessas Sociedades peranle os órgãos psicanalíticos médicos em sua fonnação, io;;;so não vai significar maior abertura, menor
internacionais, estabelecer alguns padrões e regras comuns na formação rigidez". É evidente que, no Rio de Janeiro, esta posição nos anos 70 vai
analítica dos países latino-americanos e apoiar oS grupos latino-ameri- impliGlr uma aglutinação. uma união maior dos psicólogos que desejam
canos que ainda não tenham sido reconhecidos como Sociedades pela ter o status de psicanalistas. Por isto. o movimento dos psicólogos no
IPA'- Posteriormente, o COPAL passa a ser conhecido como FEPAL. Rio de Janeiro, no final da década de 60 e início da de 70, é bcm mais
A Associação Brasileira de psicanálise (ABP), entidade que corporativo e apresenta caracterL,ticas diferentes do de São Paulo.
tem por objetivo congregar as Sociedades de Psicanálise do Brasil filiadas A SBPRJ, em seu primeiro Estatuto de 1959 - talvez por influência
à IPA, somente é fundada em 1967. Passa a se constiluir em órgão da de São Paulo -, coloca a questão da entrada de psicólogos e outros
federativo dessas Sociedades, respeitando as suas autonomias. Também profL%ionais na formação analítica de forma bastante ambígua. Não se
na ABP como nas Sociedades do Rio e de São Paulo, os membros defme claramente contra a entrada, subordinando-a" ... à aprovação
associados não têm direito a voto LO, prévia de uma legislação que permita o exercício terapêutico da
Pelo período de fundação do COPAL e da ABP, percebe-se que o psicanálise por leigos no pa[,"".
movimento latino-americano - considere-se aqui, principaimente, o Entretanto, em 1971. quando se manifesta, no Rio de Janeiro, a
argentino - está bem maL, desenvolvido que o brasileiro. Só quando as pressão dos psicólogos par.! terem acesso à formação analítica, são votados
Sociedades "oficiais" sentem-se mais fortes no Bra."iil, ou seja. quando se aditivos aos Estatutos de 1959, que enunciam claramente, como os da
inicia o desenvolvimento da psicanálise e sua aceitação pela sociedade SPRJl', que "... todos os componentes da Sociedade, sejam membros
em geral - entenda-se classes média e média alta - é que se dispõem a Titulares, Associados, Candidatos e Aspirantes deverão estar inscritos no
fonnar uma a''isociação nacional. Entidade que. por sua vez. irá favorecer Conselho Regional de Medicina"l'. Desde o ano anterior, no Regulamento
mais ainda a divulgação da psicanálise no Brasil. para a Formação de Psicanalistas, isso é requ[,ito para aquele que deseja
Por esta organização, que, a meu ver, não é unicamente buro- fazer formação, a"sim como é exigida experiência psiquiátrica de pelo
crática, mas de controle c, em especial, de apoio corporativo, temos - menos um anal'. Ou seja. diante da pressão dos psicólogos. a SBPIU
no caso do Brasil - no alto da pirâmide a IPA (o nivel internacional); acaba com a ambigüidade: é explícita cm sua exclusão.
logo abaixo, o COPAL (o nívellatino-americanol; depoL, a ABP (o nível
nacional) e, finalmente. as quatro Sociedades "oficiais" (São Paulo, Porto 11 Sobre o assunto, ver Sagawa, R.v' Op. cit., 2'i!vo1. e Bicudo, V.L "Memória e Fatos". In: Op. cit., p.
% .
Alegre e as duas do Rio de Janeiro l, fornlando uma rede de apoio e 12 A admissão de leigos na formação analítica em São Paulo vem desde o inído do Grupo Psicanalítico
controle mútuos. de São Paulo formado em torno de Ourval Marcondes e Adelheid Koch. Sobre isto, ver Sagawa.
R.Y. Op. clt, 1" voI.
8 lo±m. 13 Estatutos daSBPlU. 1959. mimeogr., p. 11.
9 Sobre () assunto, ver: Ra.''Covsky, A. e Grinberg, L. "P:1ssaoo, Presente e Futuro do COPAL". In: 14 A SPRJ,por seus estatutos, aceita para foanação estudantes de Medicina a partir do 3º ano.
Revista Bra."illeit'a de Psicanálise - vol. VI, nl>! 3 t' 4. 1972, 369-376. 11 Estatutos daSBPlU. Op. clt., p. 37.
10 Sobre o assunto, ver: Estatutos da Associação Bra."illei1'3de Pslca:oálise, 1967, mimeogr. t6 "Regulamemo para a formação de Psicanalistas", 1970_In: Estatutos SBPlU. Op. cit., pp.42 e 47.

64 65
Pode parecer estranho que a psicanálise, nas décadas de 40 e 50 A instituição "verdadeira" psicanáli,e vai permear todos os itens
tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo -, denunciada por seguintes relativos às práticas analiticas. Entretanto, algo da produção
médicos psiqui.atras e neurologistas como prática charlatã, como polui- desta instituição será aqui mencionado. não só através dos Estatutos das
dora do meio n1édico17, ao se organizar en1 Sociedades - com exceção Sociedades, suas organiza~'ões internas e suas burocracias, mas, princi-
da de São Paulo - exclua qualquer outro profbsional de sua formação paln1ente, pela.')práticas que ela dissemina. São inreressantes os escritos
que não seja médico. Porém, é perfeita111ente c0111preensíveJ, que, de alguns analistas ligados às Sociedades "oficiais"quando da difusão da
sobretudo no Rio de janeiro, vários estudos" tenham assínalado a adoção psicanáli')e entre os psicólogos cariocas, notadamente entre os que vão
dos príncipios da psicanálise pela comuniclade médica nos anos 20 e 30. se dedicar à chamada psicologia clínica. Leão Cabemite, presidente no
Tais princípios inscreven1-sc no caD1po da medicina, c11Iboraem suas iniciodos anos 70 da SPRj,é um dos guardi.1csch "vef(hdeirJ."psicanálise.
origens a psicanáli.se fosse apenas uma modalidade terapêutica, acres- Seus artigos sobre a "poluição" da psicanálise feita por um bando de
centada às fomlas já exi.stentes. "invasores" -Iei.a-se os psicólogos e a segunda geração de argentinos-
No entanto. não é a exclusão de outros profL')sionai') que vai tornam-se os bastiões da prática mais reacionária e fascista.
caracterizar o fechamento destas Sociedades a tudo que possa ser cria- Mas o que é a "vercladeirJ."psicanálise? Aprodução de uma prática,
tivo, novo ou transformador. Este t,no - muito explorado pelos psicólo- de um território onde a "verdade" está presente, onde os que não fazem
gos no Rio de janeiro, nos anos 70 - é irrelevante se pudermos parte de uma formação especitlca - a realizada nas Sociedades "oficiais"
compreender algumas instituições que são instrumentalizadas pela - não podem a ela ter acesso, nem dizer q~,e a exercem.
psicanálise, que equipamentos e dispositivos são utilizados por ela e Esta ínstituição produz fortes subjetividades, poi.s, como veremos
que práticas são ai produzidas. ao longo deste trabalho, não são apenas os psicanalistas mais "à direita"
Nota-se quc a cada novo Estatuto votado nos anos 60 e 70 a que d,sseminam este tipo de pensar a prática psicanalítica. Ela está
hierarquia aumenta, novas categorias de sócios, membros, etc, são criadas. presente nos anali.stas considerados "progressi.stas", com a tutela que
Por exemplo, em 1960 na SBPSP exercem sobre o movimento dos psicólogos no Rio de janeiro e a postura
que, em São Paulo, Loman1com relação aos acontecin1entos de 68 na
".. ,silOformadas mai.', duas catL"goria.,anteriores à de "membtv-
aderente': que foram as de ''sócio aspirante" e "sócio aderente" 1 rsp, por exemplo. Pior, ela está presente nos próprios psicólogos tanto
(. _.) autrwntando a distância hierárquica de "candidato" a cariocas quanto paulistas que, para exercerem a prática clinica, têm que
"membro aderente" ( ) de tal 1naneira que se fonna uma pirâ- se submeter à formação analítica nas Sociedades ligadas à IPA. Ela está
midf? onde os escalOes superiores sao ocupados por um pequeno
presente e difundida como crença nas classes média e lnédia alta, que
núnwro de membtvs e, os inferiores, por um número maior - e
sempre crescente- (, .). Os altos escalões ocupam todas as posiçoes
são os clientes e consumidores dessa psicanálise.
de poder nos d~lerentes órgilos da sociedade Os mesmos sete Num contexto político onde grassa a censura, o terror nos lnais
ana/Nas didatas e..),.:istentes(..,) sdo sempre os mesmos elementos a variaclosespaços, o medo e o "desbunde", em que os projetos de ascensão
ocupar a presidência da Sociedade, a diretoria do lm/üuto e a
social tomam-se prioritários, no qual o inrintismo predomina em
Comissão de Ensino" N.
detrimento do público e o familiari.smo é a tônica, esta forma de pensar
uma prática clínica é hegemônica. lima clínica que nada tem a ver com
17 Sobre isso, ver os episódios de agressão sofridos por Adelheid Koch em São Paulo e a prisão no o mundo. filas C0111uma assepsia fastigiosa, com uma total desvincu-
Rio de Janeitode Werner Kemper. Ln:Sagawa R.Y. Op. cit., 2º vo1. e Perestrello. M. Hi..'ltóriada lação de qualquer tipo de implicação, de transversalidade.
SBPIU: Suas Origens e Fundação, Op. cil
18 Sobre O assunto ver os trabalhos de Nunes, S. A. "Da Medicina Sodal à Psicanálise". Op, cit. e
É o falso objeto natural de que nos fala Paul Veyne, na Introdução
Birman,). ~Retomando à I-listória". In: Birman,J. (Org.). Op. cit., 07-L 2. deste trabalho, como algo não produzido hi.storicamente: a prática
19 Sagawa, R.Y. Op. cit., 2º vo1., pp. 18'; e 188, ao se referir à década de 60.

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psicanalítica é este objeto que é assim, sempre foi e será, como um dado Entrementes, na primeira metade da década de 70, a hegemonia
em si, que tem existência própria e que é, portanto, natural. Para os está com a instituição "verdadeira" psicanálise que naturaliza uma
psicanalistas "oficiais", a lPA representada pelos herdeiros diretos do determinada prática clínica. Através desta, facilita e fortalece a produção
Grande Pai - aqueles que detêm os conhecimentos por ele ensinados- de certas subjetividades que se entranham profundamente em todos os
é o Olimpo de onde advêm todas essas "verdades". Este religioso respeito poros da..')camadas nlédias urbanas brasileiras.
e submissão que todas as Sociedades "oficiais" demonstram em relação Para a "verdadeira" psicanálise, a fortnação deve merecer todos
à grande instância, personificada pela IPA, é meramente a forma de os cuidados, deve ser "especial", pois a iniciação em seus "mistérios" é
garantir sua vinculação a ela, o que lhes permite usufruir tantos prestí- coisa delicada e pode se tomar perigosa se não houver unJa "preparação"
gios e privilégios políticos e sociais. Para a sociedade em geral, somente adequada. É necessário exercer um hom controle sobre aqueles que um
elas - como efeito da produção de suas próprias práticas - são as dia irão representá-la, sobre aqueles que no futuro serão seus guardiães.
detentoras da "verdadeira" psicanálise. Por isso, para os analL,tas em geral, a psicanálise não pode ser
Como templos sagrados, estas Sociedades devem se resguardar uma formação dada em Universidades, poL, necessita de todo um pro-
das misturas, impurezas e poluições que estão ao seu redor, que circulam cesso e formação próprios e diferentes dos utilizados academicamente.
pelo mundo. Como vestais, sacerdotisas e guardiães do Santuário de Suas supervi"àes clínicas, cursos, análi')cs didáticas, enfim, o treinan1ento
Vesta (a deusa da Vida entre os romanos) - inacessível aos leigos -, psicanalítico deve ser função exclusiva dos Institutos das Sociedades e
devem manEersua virgindade, enquanto estiverem a serviço do culto'O não de qualquer analista individualmente, afirmam sem exceção todos
Assim, os psicanalistas "oficiais" resguardam a pureza da "verdadeira" os psicanalistas ligados às Sociedades conhecidas como "oneiais".
psicanálise e por isso poucos são os privilegiados que têm acesso a
esses templos sagrados, poucos os que podem funcionar como vestaL>;
antes, devem ser "purificados", evitando toda e qualquer mistura. fi - A INSTITUIÇÃO FORMAÇÃO ANAIirICA ou
Não são apenas os analistas maL, "conservadores" os que defen- A PEDAGOGIA DA SUBMISSÃO
dem esses lugares santos; estes, sem dúvida, são os que maL,alardeiam
com seus discursos/práticas tal religiosidade. Entretanto, muitos con-
Outra. instituiçào que é instrU111cntalizada dentro da..-"Sociedades
siderados "progressistas", que, em suas falas até podem questionar esses
"oficiais" é a da l()nna~ào. t\aturalizam-sc o domínio dos didatas, seu
templos sagrados, em suas práticas só fazem reafirmá-los e reforçá-los.
poder c os ritos de inicia\-~ão, que cada vez se tornam lnais conlplexos.
Os jovens psicólogos querem - e muito - ser "iniciados"em tais "mistérios"
() dicima, coll1mai, prestigio que qualquer médico, padre ou professor,
inacessíveis aos simples mortais e, para isso, de início aceitam e até
possui um enorme controle na avaliação do aluno; suas infoffilações sào
pedem a tutela dos que já estão dentro desses santuários e os podem
fundamentais para que se possa saber do "real :lproveitamento" dos
"iniciar". Posteriormente, organizam seus próprios templos - é verdade
candidatos a analistas. E com 1I1na agravante: são oS responsáveL,;;;pela
que em cinJa de uma série de críticas a todas essas mitificações -,
análise terapêutica pessoal desses candidatos c devenl informar sobre
terminando por criar outras religiosidades, outras "verdades", outros
oS seus "progressos" nas sessôcs analíticas. São .os representantes
eleitos, outros "iniciados", outros sacerdotes.
plenipotenciários dessa fonnaçào COIl1 U1l1 sumo poder, Untl SUIlla razão
c uma suma verdade. Esta relação produz e fortalece por um lado :I
2J) Prática religiosa entre os romanos antigos. No apogeu do chamado "mundo romano", as antigas onipotência, a força, a dominação dos anali'itasj por outro, a in1potência,
práticas religiosas, antes realizadas pelas famílias, tornam-se públicas e formais e passam a ser a tr:lqueza e a .>ubmi"ão d,,, candidatos.
Controladas pelo Estado, que organiza um corpo hierarquizado de sacerdotes, etc. In: Bloch, R. e
Cousin, J. Roma e seu Destino - Coleção Rumos do Mundo. Ilsboa, Cosmos, 1964. De um modo geral, os dicbtas se comportam como se este lugar

68 69
fosse vitalício e cotno se tivessem adquirido, por herança, a..c;suas Os preços cobrados por esses cspeciJ.ljstas repercutem na socie-
atribuições. Embora os Estatutos dessas Sociedades prevejam a possi- dade em geral como uma valorização desse trahalho, o que vai tomá-lo
bilidade de afastamento de tal função, não se tem notícia de nenhum extrenlarnente lucrativo pela pouca concorrência. Tal fato determina o
caso em que isto tenha ocorrido,H. pequeno número de didatas e de psicanali,tas fonnados dentro da ótica
"Os didatas são considerados os "maL" dotados", os "melhores':
da "verdadeira" psicanálise. Esse saber venl satisfazer c fOlnentar as
etc e, portanto, constituem um ideal a ser atingido por todo demandas então produzidas e, por ser ainda reduzido o número de
psicanalista dentro da sociedade (.,.) e OJ mecanismos íns~ profissionais, seus serviços são oferecidos dentro de altos padrões
titucionaís passam a ser manipulados por esses detentores como Ilnanceiros. Statw' de psic.malista é tão atraente. tão ambicionado pelos
um grnpo especializado de conhecimento
jovens profissionai'i "psi" Esse elitismo em muito <1wli a classe média
,,!~

Assim, a análise didática é considerada o aspecto mais importante dos anos 70 no Brasil com seus projetos de ascensão sociai. Esta sim
na formação de um analista. Este tato, muito enfatizado nos anos 70, poeleria pagar '" altos preços exigidos pelas Sociedades "otkiais" para a
corresponde ao que já apontamos como a psico!ogização da vida fonnar;flo analítica.
cotidiana, a produção de subjetividades voltadas para o privado, para o Tal situação é naturali7~~daem cima da produção oficiai da época
interior do sujeito, para o seu autoconllecimento. Por sua vez, tal atlnnação sobre a quest30 do público e do privado. A subietividadc que vai sendo
alimenta em muito o poder dos dielatas e, elo ponto de vista elo "discurso constmída é a de que os estabelecimentos privados - aqueles que melhor
da competência", empobrece a formação. Segundo infoffiuções obtidas atendem, em todos os setores - devem cobr..lr alto pelos seus serviços,
por Sagawa em São Paulo "". a formação psicanalítica no Instituto de visto que os oferecidos pela rede pública são de péssima qualidade. Vai
Psicanálise restringiu-se a Freud, Klein e Bion a partir de 1970"". No Rio se produz.indo, em grande parcela ,la população, principalmente na classe
de Janeiro o "kJeinianismo" domina n'"s duas Sociedades. São centros de lnédia, o apoio :l privatizaçào, que chegaria <1 seu auge nos anos 90. Por
formação que importanl continuamente uma psicanálise estrangeira e os l,)SO,não L:lUSasurpresa alguns entrevistados pertencentes à.., Sociedades
psicanalistas locais são meralnente reprodutores dessa psicanálise "oficiais" afirmarem categoricamente que a discussão sobre os altos pre-
importada (sobretuclo da Inglaterra). I'\ão há, portanto, uma produção ços - cobrados pela tOTIna\,'ãoanalítica e pelos própri<)s psicanali"tas em
que se possa chanur cle origirlal; estuda-se e aplica-se a teoria e a témica seus COn<iu!lorios- ê uma clcmagogia, Vl<itoas Sociedades serem estabe-
dos "mestres" estrangeiros de forma mecânica e totalmente acrítica. Jecinlentos privados e terem, de:-;t:1ronna, o direito de cobrJ.r alto.
Isto é facilmente corroborado não só pela pobreza da formação Esse número restrito de dicbta..r.;, reconhecido por muitos psicma-
analítica - dentro do que a própria psicanálic;e considera como um listas, é t:lInbém uma fonna de "... sustentar o controle interno no que
profissional "competente" -, como pelo poder dos didatas. Seu número se refere J. possibilidade de ocorrer ou não uma fl'isào {na Sociedade r~4.
é tão reduzido para atender à crescente demanda dc candidatos à ToLlos e quai.")quer conllitos que ocorrem dentro (tessas Sodedades são
formação, que seu trabalho se reSUlne ao tncro atcnditnento a esses psicologizados, vi,')tos como conflitos pessoais, movimento passional,
"aspirantes" a psicanaIL'itas, ~través das análises didáticas e supervl'iÕeS faha de análise ou meS1110 a cOlnprovacio ele uma análise lnal feita. Em
de casos. Pouc,>, di,iatas têm uma clientela fora deste universo e a pouca outros G.l •..,os, são considerados como desavenças de ordeln teárica,
produção teórica realizada na época limita-se à reprodução pobre de trai\'ão ao espírito da psicanálise, tentativa de denegri-ia ou heresia.
Ulna psicanálise estrangeira. Estes últimos rótulos são colocados p:ua os grupos que fazem

21 Há somente um exemplo na SRPSP que comentarei à parte como uma situação analisadora da 21 Sapwa, R_Y 0r. cil., p_ 2'50, Sagawa referc'-sc a islo qUJ.nJo rah que, para .~eformar um Stud)'
"verdadeira» psican.ilisç e formaçào atulitica. (~rotlprl'conhecido pela LPA,~ llec<;,sS<Írio
qw hajJ. pelo menos um didau_ 1Jm Study Groupé o
22 Sagawa, R.Y. op. cie, 2q ;:01,p. 201_ primeiw reconhecimenlo !Cito pela !1','\ qUe: (!.:trá posteriormente, origem a unu Sociedade
23 Idem, p_ 203. l',<;ic:rna!ílicL

70 71
oposição interna dentro das Sociedades "oficiais", e também para os Pai, um Mestre, um Modelo - a caminhar e a ';crescer"27. Por isso, em
psicólogos - os do Rio de Janeiro ~ que, por não terem formação nessas todas as três Sociedades ligada.s à IPA, os membros a.>soeiados (o
Sociedades, não podem se dizer psicanalLsta8.Ao se denominarem ,"ssim, psicanalLs1.:1já formado) es1.:1tutariamente até os anos 80 não têm o di-
traem o espirito da psicanálise, denegrindo-a. As lu1.:18internas pelo reito de participar nas Assembléias Gerais e muito menos vo1.:lr. A
poder dentro das Sociedades "oficiair;;" e mcsnlO as características auto- "criança", que é o analisando. não pode, assim, dispor de sua criati-
ritárias, ditatoriais, que 1l1arCam a formação analítica são vistas por mui- vidade, originalidade. A liberdade, a criação, a CritiCA,enfinl, a singulari-
tos como diferenças ele ordem teórica. Em S;io Paulo. o "bionianistno", dade está terminantemente proibida neste espaço. A obediência e a
dominante nos anos 70 na SBPSP,principalmente em sua cúpula dirigentc. servidão são as nonnas vigentes. A inslituição-fonnação, desta maneira,
é considerado C0010 responsável pela rigidez, pelo autoritaristno que produz, naturaliza e tenta eternizar as relações tipo senhor - escravo,
caracteriza esta Sociedade". Da mesma forma, vários psicanalistas, no dominador - dominado, explorador - explorado. O candidato submetido,
Rio de Janeiro, afirmam que o "kleinianismo", dominante na década de dominado e explorado faz da sua capitulação o preço que paga para se
70 nas Sociedades "oficiais" nesta cidade, é o responsável, de um lado, tornar um dia senhor, dominador e explorador. A submLssão e a
pela leitura esquemática e pobre da realidade social e psiquica - insignificância de hoje serão o poder e a onipotência de amanhã.
privilegiando a realidade interna em detrimento da externa - e, por A psicanálLse, ensinada como uma teoria abstrata praticada por
outro, pela postura rígida e autoritária dos psicanalLstas dominante da especialistas abstratos - "... o psicanalLsta não é médico ou não-médico,
época. é psicanalista"" -, produz um espaço protegido, asséptico, onde a
O que está embutido nessas situaçôes nio são posturas teóricas realidade cotidiana não entra, onde a neutralidade impera. Predominam
diferentes; são posturas que corrcspondem às práticas c às suhjetivi- o intimie;;lno, o ptivado, o "destino c1a..'c;
puL<;ões" e os mecanic;n10S e proces-
dades dominantes produzidas no periodo em que a rigidez, o dis~mcia- sos psiquicos. Há uma produção ativa de invalidaç:ão do sócio-político",
mcnto e a neutralidade são sinônimos de cientificicbde, e a psicologi- o que, em realidade, faz com que a psicanálLse e sua fOfilaç:ão se tornem
zaçào, o mundo interno e o domínio do privado são enfatizados e fortale- cúmpHces do Sl'5tenla sócio-econônuco em que se inscrevem.
cidos. São crenças tatnbém presentes nos próprios dispositivos de A fOIll1:lçãoanalítica e a.spráticas daí decorrentes têm efeitos sociais
fOllllaçào analítica. e coerentes com todo o funcionamento da...~instituições poderosíssimos, poi, naturalizam um gru po particular de especialistas
que necessitam de Ut11 Mestre, um Pai, lIt1la Burocracia, em SUlna, de um que têm o monopólio da "escuta" e são vL,tos, pela sociedade em geral,
modelo qualquer para excomungar as diferen,'as, a.' diversidades. como tlgura.s poderosa.s, respeitadas e idealizadas, transformando-se em
Estas prática..'i, ao apontarem os "desvios", as "fon11asdegrad.adas", modelos de referência. Naturalizam uma postura "asséptica", "neutra" e,
g'd,dntem a justeza de sua.s linhas. "O Supremo Tribunal do in,conSClente portanto, considerada "objetiva" e "cientifica". Fomlecem as subjetivi-
dLstribui absolvições e condenações"'b A questão do poder é sempre clades hegemônicas produzidas nesses anos, ao aflfll1:lrema necessiclade
escamoteada, sempre afastada em nome da l Inião Societária fortemente do crescimento pessoal, do voltar-se para dentro de si mesmo, de sua
instituída. O que vigoram são os deveres disciplinares estabelecidos nos fan1ília, ao enfatizarem a importância e a construção de um clima
eS1.:1tutos,sentimentos que devem ser comuns e de solidariedade doutrínal. carregado de afeto.
Ma~c; do que ~c;;so, os fatos apontados produzen1 a infantilizaçào, a Há, na sociedade em geral, a produçáo de demandas que
desqualificação do analL,ando. Este é tratado e percebido como um bebê, necessitam do "apoio" e do recurso psicanalitico: as relações familiares
pOle;; sua vida mental eSQ nas màos do analista que o ajudará - con10 um
27 Tal comparação foi feita por muitos entrevistados ligados às Sociedades "ofidais".
28 Cabernite, L "Regulamentação da ProftsSio de Psica.nalista~.In: Revista Brasileira de Psicanálise,
2') Sobr~ isso, ver al~n.<, depoimemos coktados por S:Lg3.wa,R.Y ()p. cit., 2" 1101. vaI. VI, nQ,1 1 e 2, 1972, p. 33.
1h Ca.<,tel,R. O Pskanali ••mo. Rio <1.'Jandro, Gr;l;l!, 197$, (1_ 17. :!'J C.-asteI, R Op. cito

72 73
(a famosa "crise" a que já me referi), os ideais de feminilidade e mas- práticas psicanaliticas e o poder das Sociedades "oficiais" que se julgam
culinidade"', a exploração das potencialidades emocionaL" a "orienta- donas da formação analítica, detendo o monopólio da psicanálise.
ção" para os processos decisórios pessoais, etc31. Estas demandas são O que pretendi apontar até aqui é que as práticas dominantes
produzidas e fortalecidas, principalmente, entre os profissionaLs lilJerais dentro das Sociedades "ot1ciais", com seus dispositivos e instituições,
(psicólogos, professores, artistas, intelcctuais, etc.) e estudantes univer- favorecem em muito as subjetividades hegemônicas produzidas e a
sitários que desejam se autoconhecer, psicanálio;e só tem passageln. só se toma um hoorn, porque há esses
.. "melhorar" a "qualidade" de seus uínculos erotico..", afetil'o.." e processos de subjetivaç::lo típicos elo capitalismo monopolista. No caso
familiares, "ampliar" sua criatiuídade, iniciativa ou eficiência do Brasil, trata-se ele uma ditadura militar - o que agrava mais ainda a
profissionais ( ..). Há, enfim. uma "ampliação" da detnanda r. ..) situa~ào - e, ao lado de tais produções, há outras; uma forte repressão,
a queixa tomando-se cada vez mais inespeciflea ",1 (as aspas são uma violência extremada, uma ferrenha censura e um enorme poderío
minha responsabilidade),
ela núdia no sentido de impedir toda e qualquer resistência, toda e
Ou não seria, em vez de ampliação da demanda, uma naturAli- qualquer construção singular, toelo e qualquer agenciamento. É nesse
zação desta demanda? Naturalização no sentido de que ela não é perce- contexto de terror nos diferentes microespaços, de lnedo, imobilismo e
bida como produção dessas próprias práticas "psi", mas como um objeto apatia de quase todos os setores da sociedade que as práticas psicana-
já dado e, portanto, natural. líticas se expandem e ganham características bem mais autorítárias. Um
Duas reações ocorrem nestc penado entre os próprios psicanalistas exemplo é a realização, em 1970, elo Vlll Congresso Psicanalítico Latino-
"oficiais". De um lado, os mais "progressi,tas" acreditam que se está Americano, em Porto Alegre. O tema original "Violência e Agressão" foi
iniciando um processo de "democratização" da psicanálise, visto que alterado, por decisão da maioria elas sociedades participantes, para
seu consumo torna-se cada vez fi1aior. Por outro, as reações são de "Correntes AtuaL, do Pensamento Psicanalítico", com o voto contra da
medo e perplexidade, uma vez que a psicanálise está se transformando Associação Psicanalítica Argentina. Relata um representante da Ar A:
numa "mercadoria de consumo". No Rio de Janeiro, quando se iniciam "As cúpulas das A.~ciações hrasileiras, de cuja inkiarn'tl partira
as pressões dos psicólogos para terem acesso ã formação analitica, esses a mudança do tema, Unham cargos oficiais que poderiam perder,
psicanalL,tas defendem suas práticas atacando tais movimentos e e seu medo expressava seu grau de cmnpromi.r;s()com o regime de
terror polkial do paíç"-"4,
procurando "resguardar" a psicanálise de ser conspurcada. Entretanto,
alguns entrevistados - tanto no Rio quanto em São Paulo - admitem que A primeira metade dos anos 70 - que, como já mostrei, é o período
foi esse o periodo em que mais prosperaram fmanceiramente. As filas de hegemonia da psicanálise e da formação vinculadas à IPA - é repre-
em seus consultórios são c'ada vez mais numerosa,', e a psicoterapia de sentada, no Brasil, pelos anos mais terríveL' de perseguições, tortura.s,
grupo passa a ser utilizada como forma de dar vazão ã demanda então seqüestros, assassinatos, desaparecinlentos dos que se opunham aos
recrudescida ou para atender a alguns segmentos de classe média que modelos então vigentes, desele os modelos ligados ao sistema em geral
não podem pagar os altos preços de uma análLse individual. até aqueles como os de tanulia, o sexual, o de estudante, o de jovem,
A única voz crítica e que, na época, mostra tal produção é Katz, etc. Tanto os chamados militantes como os h ippies são, nestes primeiros
que, em uma de suas obras", questiona e denuncia a utilização das anos dos 70, aIÚquilados e/ou cooptados. .

30 Sobre o assunto, ver o texto de Santos, T.C "Representações do Masculino nas Revistas Femininas~.
Yí Bra.slavsky, M.B. e Bertoldo, C "Anotações para uma História Atual do Movimento Psicanalítico
[n: Birman,J. (Org.). Op. cit., 253-263.
Argentino: Interpretaçào Crítica da Ideologia e da Ação Política de UmSetor de Pequena Burguesia".
31 Figueiredo, A.C.C Op. cit;, pp. 12 e 13·
In: Langer, M. (Org.). Questionamos 2. Belo Horiwme, lnterlivros, 1977, 2S-48, p. 33. Sobre este
32 Idem, p. 13.
assunto, ver também: Castel, R ()p. cit., pp. 14 e 44.
33 Katz, C.S. Psicaná1ise e Instftuição. Rio de Janeiro, Documentário, 1977.

74 75
o terrorismo de Estado está presente - não como simples re- apontar para a produção deste "outro" sujeito que está sendo construido
produção de um poder maior, mas como de uma série de práticas so- no cotidiano de tais práticas.
ciais - no cotidiano, não só desses grupos de jovens, mas nas populações Este "determinado" sujeito vai sendo criado e estimulado à medida
periféricas das grandes cidades e na sociedade em geral. que a psicanálise nos grandes centros urbanos brasileiros invade a midia
Sobre esta questão é importante a vL,ão que Foucault nos traz, - a grande imprensa, as revistas feminl.nas", a TV - produzindo a chamada
não somente sobre as práticas sociais, mas, em especial, sobre o que cultura psicanalítica", sob cuja ótica a vida cotidiana das classes média
chama de microfisica do poder, que seriam os processos de constituição e média alta passa a ser tetuatizada e vivida.
de práticas, discursos e modos de subjetivação. Para ele, o nivel do "Cresce a publicaçào de UI/m.sacessÍlri'i aos "leigos'; de re1lfsta..'i
Estado e o das práticas não podem ser" ... confrontados como realidades especializadas, de reutsta..'ifemininas com seções de aconselha-
pré-existentes e sim articulados, pois é ao nivel do próprio corpo social mento psicológico assinadas por psicanalistas e psicólogos r...).
Mais recentemente doiç diários cariocas publicam colunas as-
que o poder toma corpo"" (grifos meus). Onde há o poder, ele se exerce.
sinadas por psicanalistas que respondem âs cartas dos leitores
"Ninguém é, propriamente falando, seu titular; e, no entanto, ele Também a telel)iSdo oferece espaço para uma pedagogia de
sempre ,çe exerce em determinada direção (. __). Cada luta se inspiração psicanalítica em programas femininos e debates
desenvolve em torno de um foco parlicular do poder f.. J E se variados, ('ISO sem mencionar a..'i norlf!lase programas bumoTÍ'iticos
desigtUlr os focos, denuncid-los, falar deles publicamente ':ll4as is.to não é psicanálise!'~ diriam alguns puri.çtas Tatuez
é UIIUlluta, não é porque ninguem ainda tenha tído consciên- possamos retmcar: "Istotambém li psicanálise'>::I9 (grifo do autor).
cia disto, mas porque falar a esse respeito - forçar a rede de infor-
maçâo institucional, nomear, dizer quem fez, o que fez, Diferentes setores da vida social brasileira sofrem esses efeitos:
denunciar o alvo - é a primeira inversão do poder, é mn são psicologizados. Toda e qualquer crise é vivida como necessidade
prinreiro passo para outras lutas contra o poder "c\6 (grifas terapêutica, pois os especialistas "psi" estio ai para aconselhar, esclarecer,
meus),
instruir e acalmar pais, mães, maridos, mulheres'" e para propor modelos
l'\O Brasil desse período, vigoram diferentes práticas sociai, como - condizentes com os dominantes - de criança, adolescente, família,
a do exterminio (não só dos opositores aos modelos vigentes, mas de casamento, esposa, etc.41, produzidos pelas suas próprias práticas.
segmentos empobrecidos da população), o que gera um enorme medo Absorve-se o "modo" psicanalitico de compreender os mais variados
e progressiva apatia; as práticas eufóricas ligadas aos projetos de ascen- fenômenos do cotidiano, através da utilização crescente de palavras,
são social (principalmente nas classes médias urbanas), que geram expressões e concepçôes próprias da psicanáli,e, onde tudo passa a ser
"ufanismo" e intimismo; as da núdia (justificando e valorizando tanto o explicado a partir de esquemas interpretativos já dados.
extermínio quanto a ascensão social). Todas elas produzem e/ou forta- Mesmo os psicanalistas "progressistas" encontram-se marcados por
lecem determinados modos de subjetivação, todas elas mostram como tais modos de se perceber - enquanto psicanalL,tas - e perceher o mundo
os micropoderes se exercem em diferentes partes do corpo social.
As práticas decorrentes da psicanáli,e, aliadas a todas as demai, 37 Sobre o assunto, ver o artigo de Santos, 1'.C. "A MuUler liberacb. c a Difusào cb. Psicanáli,se"_ In:
nessa fase, geram também uma série de efeitos que, em realidade. vão Figueird., S.A. (Org.). O Efeito Psi. Op. cit., 103-120.
38 Sobre () assunto. ver Figueira, SoA-(Org.l. Cultura da ~icanálise."São Paulo, Bra,silien,s~,198S.
constimindo um "determinado" sujeito, úpico da, camada, médias urbanas.
39 Figueiredo, A.CC. Op. cit., pp. 14 e 1'5.
Muitos autores apresentam a difusão dessas práticas "psf' sem, no entanto, 40 Russo,j."A Difusão da Psicanilise nos Anos 70: Indicações Para Uma Análise" In: Ribeiro, I.
(Org.). Sociedade Contemporânea Brasileira: Familla e valores. São Paulo, Loyola, 1987,
189-205.
35 Rodrigues, H.B.C As "Novas Análises". Projeto de Dissertação de Mestrado - UER) , Institulo de 4] Sobre a questão do casameruo, ver Ru..~so,J.e Saruos, T.C "Psicanálise e Casamento". In: Velho, G.
Medicina Social, 1991, p. 32. e Figueira, S. A. (Org-s.J. FamiHa, Psicologia e Sociedade. Rio de janeiro, Campus, 198L, 277-
36 Foucault, M. Microfisicado Poder. Op. cit., pp. 7'; c 76. .W'5.

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"psi" c (} mundo que os cerca. Basta ver seus discursos/práticas no m- ALGUMAS SITUAÇÕES ANALISADORAS D~
instante em que pretendem explicitar um projeto politico em nome da
psicanálise". Exemplos disso temos quando, no inicio dos 80, nas três PRÃTIC~ PSICANALÍTICAS43
Sociedades "oficiai.~", instalan1-se scrÍssirnas crises, que n10stram ()
l1lomento histórico que o Brasil atravessa: revigoramento dos movul1enlos Como exemplos do que foi apontado sobre as instituições forma-
populares e SOCiaL',processo de "abertura", embora lento e gradual. ção analitica e "verdadeira" psicanáIL~e, utilizarei alguns acontecimentos
Os movimentos dos psicólogos - maL' no Rio de Janeiro do que como analisadores de tais institui\,'Ões. Minha intenção, ao descrever
em São Paulo - em sua luta pelo status de psicanalista, apesar de todas estas situações anali,adoras. é colocar no cotidiano alguns fatos que nos
as críticas que fazen1 às Sociedades "oficiai<' e à sua fonl1açào, ao orga- mostrem como efetivamente funcionam, como a..c; prática. e os dispositivos o;;;

nizarem seus estabelecimentos. reproduzem quase integrdIJnente as colocados a seus serviços di~ciplinam, normatizam, moralizam, cerceiam,
instituições formação analítica (nascida da lPA) e a ·verdadeira" psica- acusarn, expulsam e se tornam cútnplices de UOlverdadeiro terrorismo.
nálise. Também eles estão marcados pelas vL,ões intimistas dc psicana- Citarei os casos Werner e Katrin Ken1pcr, o caSo Décio Soares de Souza,
lista e de mundo geradas pelas práticas "psí" e pelas subjetividades o caso Regina Chnaideffiun, o caso Helena Besserman Vianna e o caso
hegemõnicas da época. Amilcar Lobo.
A ·verdadeira" psicanálise, de início através da criação da IPA e Estes acontecimentos se impuseram a mim na qualidade de
dos diferentes Institutos de Formação, tem a pretensão de ser a "pura" analisadores espontâneos. Ao fazer muitas das cntrevist<L":i,eles vieratn
psicanálise, e estes dispositivos são alguns dos principaL' fatores para
f inesperadamente ao l1leu encontro, considerando uma série de forças
que se possa assegurar esta "pureza", pelos cuidados no sentido de até então dL'persas; eles próprios reali2aram "por si mesmos" a análise,
evitar poluições, ntisturas, Se tais equipatncntos são criados para cuidar sem a necessidade de "peritos" para esclarecê-los. São, portanto, formas
da transmissão, instituetll, por isso, unla detenninada escuta. de intervenção
Essa escuta ''verdadeira'' C' um certo discurso psicanalítico são a nfveJ do L'Ívido (resgatando) acontecimentos rj'etil'amente
pedagogicamente ensinados, transmitidos nas Sociedades "oficiais" como ! uilJidos(..,) que podem serfontes autênticas de conhecirnento e de
os únicos que, realmente, representam a psicanálise; ganham foro de transformações sociais. Ou melhor dizendo, rel'alorizam a
verdade única, absoluta e inquestionáveL Isto não é privilégio da formação e"periêncta direta, o "saber das pessoas'~ como pos..",ílJeiscami-
nhos para a análise política, para o inconsciente político, para o
ligada ã IPA, POL'as diferentes filiações vão determinar diferentes tipos acesso ao que foi Cce) ativanwnte reprimido e para os rnecanL",mos
de escuta e dL,cursos. Cada estabelecimento criado vai instrumentalizar sociais etIuoltos nesta repressão'''".
a instituição da fOffiução de modo que fique encarcerada num deter-
Estas situações analL~adoras trazem "por si mesmas" "problemas"
minado território, onde estão presentes o dognutismo. a escuta "verda-
analiticos fundamentaL': "... poderão os clientes dos psicanalistas analisar
deira", a ortodoxia, a estrita observância a determinadas regrds do pensar/
a instituição psicanalitica e suas implicações' Poderemos saber com quem
fazer, o impedin1cnto da CTiaçlO,a pennanência da "mesnucc". Em suma,
(com que agentes, com quai, implicaçües) nos analisamos'''''.
01esmo aqueles que criticam a fonnação "oficial" vão, em muitos
momentos - ou ctn quase todos - cair no dogma, na ortodoxia, no
43 Este item, com algumas modificações em sua parte inicial, foi publicado in: leitâo, H.S., Rodrigues,
enclausuramento. H.B,C. e Barros, R.D.R (Org-s.l. Gropos e lnsthuIçõe~ em Análise. Rio clt' Janeiro, Rosa dos
Tempos,1992, 19~41, sob o título "A (de} Formação "psi": Alguns Analisadores", pp, 19-41.
44 Rodrigues, H.H,C. "Psicoanálisis Y AnálisLsInstitucional". In: Boletln del Centro International
de lnvestlgadone~ eu Psicologia Social Y (:rntpal, Rio de Janeiro, nº 10. julho/1987, 78-100,
p.93.
42 Castel, R. Op. dt., pr. 20 e 21 45 Idem, p. 88.

78 79
1 - O ANALISADOR WERNER KEMPER "As opiniões se dividem sobre essa qu~1ão. Alguns acbam que é
mais digno a Sociedade, em sinal de proÜ!sto, se di.<.soliter, como
fizeram os colegas holandeses numa ocasiào semelhante_ Atas
Werner Kcmper, membro da Sociedade Psicanalítica Alemà, dlega naquele momento, ainda bd um resto de esperança de poder
ao Brasil em 1948, dividindo a fOrn1açào analítica no Rio dc janeiro com salvar alguma coisa "4: (grifos meus).
Mark Burke (vindo de Londres um ano antes J. Em 19~I, separa-se de
Boehm relata que" ... os poucos judeus que ficaram na AlemanJla
Burke e, eom seu grupo de analisandos, funda o Centro de Estudos
tOlnam a decisào ele se demitir da Sociedade", Os "poucos" judeus são
Psicanalíticos do Rio de janeiro que, em 19~~, foi reconhecido pela IPA
IRmemhros,
como Socíedade Psicanalítica do Rio de janeiro.
".__simplesmente a 11U1ade de lado.s os associndos da éjxJCu. () relato
que pretendo mostrar aqui,em hipótese alguma, liga-se às
O
de Boehm pretende dar a impressão de que osjudeu", têm naquele
acusações que muitos psicanalistas, nestes Últinl0S anos - alguns da momento a possibilidade de escolha de se demitirem
SBPRJ-,têm feito a Werner Kemper de ter participaclo do regime nazista. e.\pontaneamente ou fiearUgados Cl.mciedade cientifíea. () relato
Pretendo, sinl, assinalar como sua permanência na Alemanha, após 1933 se torna, jJ01'ém, totalmente questionà1lC1 s(' til'cnrlOS em mente

- por ocasião da subida de Hítler ao poder -, em realidade, mostra a ( ) que, na mesma reunião, o analista alemdo fJr Kamn, ndo
judeu.. df:?nite-se em P1Vtesto â demÍ';sao dos colegas judeus, e. como
onussào e a conivência da prática e da instituição psicanalíticas com o eles, emigra "<\t>.

nazismo.
Necessário se faz refletir um poueo sobre a história da psicanálise No ano seguinte, ctn 19.16,os nazistas confi"clm a quase totali-
na Alemanha de 1933 a 194~ e as responsabilidades da IPA, de Ernest dade das propriedades, livros c reviSlas da Editora Psicanalítica
Jones e do próprio Freud com relação aos compromissos que vào sendo Internacional, em Lcipzig, e gr'Jdativamentc vê-se a í.TCSCCJlle
arian.i7...ação
firnlados com o regime nazi.,ta. da Sociedade Psicanalítica Alemã. Ainda em 1936, Boehm é infonl1ado
pelo governo nazista de que não seria concedida pennissào a um instituto
Em 1933, logo que Hitler sobe ao poder, há um decreto proibindo
psicanalítico para ensinar c fomlar candidatos. Por pressão dos nazi')tas,
que judeus assumam a presiclência de estabelecimentos cientificos. É
a Sociedade Alemã desliga-se da li' A e ingressa no Instituto Goring
quando - por insistência de Freud- Eitingon (entào um dos presidentes
(1nstituto Alemão de Pesquisa Psicológica e Psicoterapia, dirigido por M.
da Sociedade Psicanalítica Alemã) deixa scu cargo. Freud e ErnestJones,
H. l~oring), estabelecimemo psicoterapêutíco onde estavam todas as
assim como a IPA, consideram a proibição da psicanálise na Alemanha
, correntes <;psi"alemãs. "Na cspcran~:a de sobreviver como departamento
inevitável, luas aconselham que não se deve fornecer pretextos às
autônomo (..,) os psicanali<;tas aí trabalham c oficialmente continuam
autoridades alemãs"'. Ficanl como presidentes da Sociedade os não-judeus
com seus consultórios particulares"49.
Drs. Felix Boehm e Carl Müller - B',lUnschweig. Dois anos depois, com
A Sociedade Psicanalítica Alemã faz parte do Instituto (;oring so"
a entrada em vigor das leis raciais, as pressões do Partido Nazista
recrudesceul, exigindo a exclusão de todos os membros judeus da o nome "Grupo de Trabalho A", sem que seus membros possml1 se
intitular analistas, sendo o vocabulário psicanálitico omitido e mesmo
Sociedade Psicanalítica Alemà e, na presença de ErnestJones, a metade
ele seus membros - que eram judeus - decide sair. Jones a respeito proibido, e apenas os chamados "tratamentos didáticos" realízac!os. Neste
escreve: rnstituto, as obras de Freud são trancadas e os e::mclidatos só podenl
consultá-las através ele pedido assinaelo'ifJ.

4"' Idem, p. 11.


46 Infornuçôes retiradas do artigo de Drager, K. ~Obser\'ações sobre a Conjuntura e o Destino da 48 Brainin, E. e K.1miner, 1.]. "Psicanálise e t'oía:dsmo" In: I0[Z, CS. Op., dI. 23-46, pr. l'5 e 26
Psicanálise e da Psicoterapiaru Alemanha entre [9.j3 e lQ49" In: Katz, C.S. Pslcanáll'ie e Nazismo 49 Drager, K. Op. cit., p. 16.
Rio de Janeiro, Taurus,IQ8'5, ('.4-21. ')() Lohnunn, H.M. e Rosenrotter, L "Psicanilise tu Alemanha Hitlerista: Conlu Foi Realmente?" [n:

30 81
Em 1938, o governo nazí,ta dL"olvc o que resta da Sociedade aqueles que pemunecerarn foranl, no nlÚ1irno, omissos e outros, coni-
Psicanalítica Alemã, enquanto socic,bde oncL~lmente regi,trada. C. Müller ventes, em troca de vantagens, favores profissionai" e pessoai".
-Br,wnschweig é proibido de ensinar e ser publicado: Bochm, de realizar A própria p"ssividade de rreud, "submissão de Ernest Jones - na
análises didáticas. Reuniões científicas nas residências dos analistas são época presidente da II'A - e a crenp 113neutralidade da psican:ílise são
proibidas; só são pennitidas no Instituto (J-oring. Todos os compronlissos fatores, a meu ver, que tnuito contribuem para que-os psicanali.,tas alemães
e submissões ao nazí,mo não impedem a dL"olução da Sociedade Alemã. tenham essas postura') de omi'ssào, conivência e mesmo adesão ao regime
nazista,
"Como ;ustificatil'a para o com/Jottanu-7lto dos analista\' alerndes
duranie o nazIsmo, sempre se u.sa a ··sal(.'açào" da Psicanálise O estudo feito por Katz" sobre as publicações oficiais da 11'A, no
/'vao se trata, no entanto, unicamente da Psicanálise a prôpna período de 1933 a Ii'i, mostra como, sob a capa da neutralidade, os
segurança e a posiçdo sodal ligadas a ela têm que s(!r sallJas a tema.')tratados são sempre "al)stra.tos","desenl-amados", estando ausentes
qualquer preço ,,';1.
"a política e a hi"tória concretas".
O Instituto (~oring funciona com lO seções, sendo que quatro ·'É verdade que não fica bem ã lPA relembrar certas queslõf?s
delas são dirigidas por psicanalis13so Wcrner Kemper dirige a Policlinica; Afinal, neutralidade e o que se c:\.'igepara a e:ds((,~cia de uma
13oehm. o Setor de Estatí'tica c Avaliação: Müller - Braunschweig, o de boa Psicanálise, Por exemplo, se a leitm' ~aminar qualquer numero
do IJP da época. mesmo que k-1a atentamen/(' os relatót'ios da
Material e Planejamento de Ensino e, finalmeote, a Sra. Kalan Von !lofL',
Socú?dade Psicanalítica Hindu, jamai<; saberã que a india em
o de Psiquiatria Forense. L-7ltaocolonizada pelos ingleses. Se um pesquL"adot' estudasse a
,,()'nstituto Ganng eMá entrelaçado como F.stadof\,"azistu, apesar Índia pelos infor'mesda JjP, ou jJe/os at1igos troricos ali publicados,
de apena~ 5% dos seus associados sen>m membros do l..•~5DAP nunca saber'ia que seus psícanali.sta'i eram memhros de uma
(Partido Nazista) ( j A ainica ,S.,citll- dinRida, por KemlJer- Sociedade>psicanalitica de um pais colonizado Qual a bistória
exerce importante papel nl' Instituto, n'Cehendo o nome de dos sujeitos que ali se ,.euniram~ Como eles pensaram as temtas
lnstitutçao para os Com/Janheiros do POI!() de Poucos Recursos psicanalistas? Do m.esmo mod.o que os colonizadores?"'>'.
( ). Segundo Kemper, o traIJalbo na Clínica não é
influenciado pelos n<lzisttlS atlr'istas do Instttuto CT'orlng(., )
Qoando, em 19ljH, W. Kell1pcr chega ao Brasil. enviado pelo
A mulher de Goring, que inicialmente e tida como nazista próprio EmestJones, nenhum elos médicos que, na época, fazem fOl1na,'ào
'Jerrenba", submete-se a uma analise didática com Kem{Jer, (' analítica, pergunta por que somente após a derrota do nazismo este
se tljJroxinw consider<welmente da forma de jJensar . psicanalista resolve emigrar. Nenhuma pergunta, nem mesmo curiosidade
frelulitlU<l "'i? (glifos meus).
em se saher como viveu por 12 anos este diretor de 1I1naPoliclmica
O que se pode depreender desta breve história ,b psicanilise sob ligada ao ES13do Nazista.
o 111Reich! Que aqueles que não emigram c têm postos de chefia Os fatos aí estão, cabe a cadJ um meditar sobre eles e avaliar ()
considerados importantes na época, em realidade, estão em sua grande quanto a "verdadeira" psicanilí,e que se implanta nos anos 'i0. no Brasil.
maioria dispostos a Ulna adapta~·à(), e por que não dizer, a uma adesão tem de alienaçào, pseudodespolitizaçào e, principalmente, de COItl-
3. nova ordem? Do que pudemos ler, não há apenas subrnissào adnli- pronlisso com os regimes ditatoriais, o que veremos melhor nas duas
nislrativa, mas também no conteúdo, pela aproxinlaçào com o bioio- últimas situações analisadoras.
gi~n1o nazista, llá uma enorme resistência em aceitar e admitir que a Em 1967, W. Kemper volta para a Alemanha, deixando no Brasil
prática psicanalítica foi integrada ao .sistema nacional-socialista c que sua mulher, K. Kemper, e seus fiUlOS.Morre em 1976.
Katz, c.::;. Op. ciL, 4{)-"':'').
')1 Brainin, F..•.•Kamin<.er,l.J. Ur. cit., p_ ,Yt
53 Katz, C.S. "N3.zismo e Psicanálise: Outras Rdações" In: Oro cil.
Si Idem, r· 198.
')2 Lohmann, 11.M.e Roscnrotter, L, ()p. cit., p. 66

82
2 _ O ANAIlSADOR ANNA KATIRIN KEMPER de psicanálise, de sua ternura pessoal e liderança.
Em 1968, diante das pressões da SPR], Anna Kattrin Kemper retira-
Mesmo antes da SPR] ser reconhecida oficia~nente pela lPA, W se, após Unta séria crise institucional, acompanhada de sete de seus
Kemper já coloca como didata sua mulher, Kattrin Kemper, no Centro analisandos e, em 1969, funda, com sua equipe de supervisionandos, o
de Estudos Psicanalíticos. Nenhun1a contesla~'ão ocorre, InesnlodepolS Instituto Brasileiro de Psicanálise, com o apoio de 19or Camso, psicanalista
da fundação da SPR]. Anteriormente, o grupo argentino, o de M. Burke do Círculo de Viena que, na época, estava em viagem ao Brasil. Em
c o dos anali,tas formados em Londres que vêm dar na SBPR] já haviam J 971, este e"stabelecirnento passa a chantar-se Círculo Psicanalítico da
levantado tal questão, pois Guanabara.
",., o [)r, KemfJr!f estimula e protege o trabalho da Sra Kemper Alguns entrevistados atribuem a saída de Kattrin Kemper da SPR]
como psicanalísta e anali.'1ta didata Nilo /)()ssui ela, entre.tant~~ às diferenças teóricas, visto que, inicialmente, a prinuzia era do grupo
qualquer titulo de medica, psicóloga ou de psicanalista -',a alemão e, com a volta de Werner para a Alemanha, o grupo britânico
qualificada pela rIJA,e hal}ia sido apresentada, ao chegar ao Bm.'iÜ,
passa a dominar, o que gera a crise na SPR]. Discordo de tal enfoque,
simplestnente como grqfóloga "5).
pois é o mesmo já assinalado anteriormente: tenta-se, através de dife-
Quando W. Kemper, em 1967, retoma à Alemanha, imediatamente renças teóricas, mascarar e n1esmo escamotear diferenças muito maiores,
a direção da SPR] faz uma denúncia à IPA contra a didata Katnn Kemper. diferenças que se localiZam em outros niveis - o nível das práticas de
Alguns psicanalistas da SPR], entrcvistados, afirmam que a poder, de prestígio, de produção de subjetividades, do que é ser um
pennanência de Kattrin nessa Socicebde era indeseiad~ e ~)S argumentos psicanalista, que lugar ele ocupa e, portanto, que posturas deve assumir
utilizados são os mesnlOS acitna defendidos por Manalzlra Pcrestrel1o: em sua prática profJSsional e mesmo em seu cotidiano. Não se trata de
diferenças teóricas, ntaS de transgressões, de práticas diferentes e

I
nào é médica, nem psicanalista. nem ao menos psicóloga; em suma, nào
lenl condi\-~õesde ser uma didata. Por que flca por nlais ele 10anoS nesta divergentes que não são pennitidas pela "verdadeira" psicanálise.
condição' Por que ninguém da SI'H], antes ela partiela de W. Kemper, Alguns de seus ex-analisandos, apesar da importância que llie
ousara levantar taL<i questões? dão, aceitam as subjetividades dominantes no meio "psr' e reconhecem
Outros psicanali'~s da SPR] colocam que sua postura, enquanto que Kattrin é "parcial", tendo um estilo próprio de trabalho que permite
anali"itJ., muito incômoda ü ortodoxia klciniana vigente nessa SOCiedade, algumas críticas como a quebra da neutralidade do setting, embora tal
poL<;Kattrin n30 tem compromissos com modelos. é de uma grande quebra, em algumas situações, os tenha em muito ajudado.
vcrsJ.tiliclade c n3.o aceita () selli1lg st::Uldartizado, o que se toma um Anna Kattrin Kemper, já antes da fundação do Círculo Psicanalítico
escândalo paíJ. os klcinianos da épOC1. Ao contrapor-se a c.sta tecno- e da Clinica Social de Psicanálise em 1972 , possui Unta vasta clientela
logia klciniana, Kattrin rornpe corn o que há de mais .sagrado p~ra os em seu consultório, sendo unta profissional reconhecida no meio "psi"
adeptos da "verdadeira" psicanálise e traz más inlluências para a (orma- carioca nos anos 70. Como exemplo de sua flexibilidade e abertura com
çào analítica tão cuidadosamente normatizada por esL.'1 ortoc1oxta e. por relação à psicanálise, há o caso das supervisões que dá na Clínica Social
seus dispositivos. Aproxitna-se de seus pacientes, cerC:l-se de artlstas de Psicanálise aos coordenadores de grupos de crianças. Dentre estes,
(muitos ligados à Bossa Nova) c intelectuais. está o cartunista]uarez Macltado que não é "psi", mas, por sua criatividade
Todos os seus cx-anali<;andos são unânirnes em afirmar que, com e interesse por crianças, coordena um grupo.
tais posturas, ela não poderia llear muito tempo na SPRJ, c enfatizanl sua Para a "verdadeira" psicanálise e para a forntação analítica então
importância enquanto terapeuL1, !alando da segurança que tem em termos instituídas, onde somente alguns "eleitos" têm o monopólio da psica-
nálise, é um crme, unta heresia a postura de Kattrin, que só passa a ser
)) Perestrello, M. História da SBPIU= Sua.'l Origens e l\mdação. ()p. cit., p. ·18.

84 85
questionada após a partida do "Mestre" para a Alemanha. aiguns, levou-o a cometer certas atitudes "indL.cretas" - e sua vitalidade
Kattrin Kemper morre no Rio de Janeiro, em 1978. fazem sombra a muitos didatas da SBPRJ.
Em 29 de março de 1965, em reunião do Conselbo Diretor, são

3 - O ANAliSADOR DÉCIO SOARES DE SOUZA "... arroladas as infrações cometidas pelo Sr. Pro! Décio Soares de
Souza, que levaram o Conselho a decidir, em sessão de 07 de abril
de 1965, a aplicar àquele colega a penalidade de EHmirMção,
o Dr. Décio Soares de Souza, formado em Medicina pelo Rio nos termos do artigo 21 dos Estatutos da Sociedade'J59 (grifo contido
Grande do Sul, em 1929, exerce até 1950 o cargo de catedrático em no próprio documento).
Psiquiatria, quando vai para Londres lazer formação analítica na Sociedade
Com vocabulário típico de um processo criminal, o Conselbo
Britânica de Psicanálise. Em 1955, recebe o título de psicanalista de
Diretor da SBPRJ não explica aos cinco analL.andos do Dr. Décio que
adultos e crianças e fIXa residência no Rio de Janeiro, iniciando suas
"infrações" cometidas levam à expulsão de um dos fundadores da
atividades analiticas'" Além do consultório, trabalha na Cünica de
Sociedade.
Orientação da Infância (COI), ligada ao Instituto de Psiquiatria da antiga
Nas entrevistas feitas com dez psicanaiistas ligados à SBPRJ nota-
Universidade do Brasil, formando psicanalistas de crianças. Orienta
se que o "caso Décio" aÚ1da Ú1comoda a muitos deles. É tratado como
também vários colegas no Rio de Janeiro, assim como psicólogos em
tabu e poucas infol1llilções são passadas, sendo que alguns dos
seus trabalhos de consultório com crianças.
entrevistados enfatizam que este fato deve ser esquecido e solicitam que

I
Como membro associado da Sociedade Britânica de Psicanálise
não seja divulgado"'.
em 1957, toma-se didata da SBPSP. Sob o patrocÚ1io desta Sociedade ~
QuaL. as "Infrações" cometidas pelo Dr. Décio que, em realídade,
junto com Walderedo Ismael de Oliveira (que também se tomara didata
encobrem a disputa de poder e prestígio que ocorre na época dentro da
da SBPSP, pois era membro associado da Associação Psicanalítica
SBPR]?O Dr. Décio é acusado de beber em demasia, atender a clientes
Argentina, onde fizera sua fOl1llilção) e outros colegas, funda um Study
alcoolizado e ter tido um romance com uma ex-cliente, na época "aspi-
Group reconhecido pela IPA em 1957'7 Este Study Group transforma-se
rante" a anaiista na SBPR]. Esta candidata, inclusive, é chamada para
na SBPRJ, em 1959, ao ser reconhecida oficialmente pela IPA.
prestar "esclarecimentos" ao Conselbo Diretor sobre seu envolvimento -
Por sua fOl1llilção em Londres; Décio traz grande influência de
ocorrido fora do Brasil- com o Dr. Décio.
Melanie Klein, e, na SBPRJ, torna-se uma das figuras mais lmPortantes
O próprio contexto politico da época, segundo alguns entrevistados,
na divulgação e expansão do "kleinianismo" nos anos 60. Em 1961,
contribui para a expulsão de Décio, pois é um liberal, com posições
millistra, na PUC/RJ, um curso de extensão sobre a "Escola Inglesa", que
politicas bem diferentes das da maioria da cúpula da SBPR].
é considerado o primeiro trabalho de sistematização teórica na prática
da psicoterapia Infantil". Vários psicanalistas cariocas entrevistados "Nestemomento, no Brastl, vive-se sob a ameaça de '~tosInsti-
aftrmam que Décio vai se transformando em figura central do grupo tucionais" estabelecidos peJo poder militar, que sumarla1tUmte
demitem de suas atividades professores, cientistas, militares e
kleiniano no Rio de Janeiro e dentro da própria SBPRJ, possuindo uma expulsam estudantes das escolas e universidades"61.
grande clientela em seu consultório particular. Seu sucesso - que, para
Mera reprodução de um contexto autoritário ou algo mais' Ou
56 Dados colet:ados na BiografIa e Currieu1umVitae dos fundadores da SBPRj. In: Perestrello, M.
Hlst6riada SBPl\I. Op. cit., pp. 83 e 84.
57 Neste Study Group estavam o grupo de M. Burke, que ficara no Instituto Brasileiro de Psicanálise, 59 'frecho de carta enviada aoS analisandos do Dr. Décio, em'09/04/1965, mimeogr.
o grupo argentino que fundara a Sociedade de Psicanálise do Rio de Janeiro e analistas com 6') Explica-se, assim, a não vinculação de qualquer nome. Todavia, a meu ver, o fato merece registro.
formação em Londres (o caso do próprio Décio). 61 Vianna, H.S. PsychanalyseundPolilikinBrasmen. In: Psyche. Stuttgart, K1ett-Cotta,cf- 11,
58 Citado por Figueiredo, A.C.C. Op. dI. vaI. 42, november88, 997-1015, p. ]003.

86 87
algo a ver com os dispositivos normatizadores, disciplinares, morais e questão moral embutida neste acontecimento, que é a mais enfatizada
sexuais produzidos e fortalecidos pela prática psicanalítica e pelas por todos os entrevL~tados, mas - e os fatos narrados falam por si sós -
instituições que ela instrumentalizai os dL~positivos de coerção presentes na formação e na prática psi-
Somente com um voto contra, Décio Soares de Souza é expulso canaliticas. Apontar como essas práticas de submissão, violência, ocul-
da Sociedade que ajudara a fundar. Alguns rótulos, à guisa de expli- tamento, silenciamento, sprit de corps, estão presentes em tal ocorrência;
cações, são apresentados por alguns entrevistados: o Dr. Décio não tem que visões de homem, de mundo e de ética são produzidas, enfatizadas
uma atitude humilde diante das acusações que lhe são feitas; ao contrário, e alinlentadas por tais instituições.
de réu tenta colocar-se no lugar de acusador. Não aceita a possibilidade O Dr. Décio Soares de Souza, apesar de sua expulsão da SBPRj,
de se reanalisarj ao contrário, mostra-se extremamente agressivo. Diante permanece até sua morte - ocorrida em 1970 - como didata da SBPSP.
disso, af=, ele próprio não deixa outra altemativa ao Con~elho Diretor Somente em 1986, sua fotografia é colocada na galeria de retratos dos
da SBPRj a não ser sua expulsão. Ele "saiu fora" da psicanálise, cometeu ex-presidentes da SBPRj"'.
infrações contra ela e, com isso, está denegrindo-a, completam alguns
entrevistados.
Este caso é espinhoso e até hoje continua escondido, não havendo 4 - O ANAliSADOR REGINA CHNAIDERMAN
sobre ele nada oficial na SBPR).Tanto que na biografla de seus fundadores,
Regina Chnaiderrnan, nascida na Bessarábia, brasileira desde
apresentada por Marialzira Perestrello", não há referências sobre a
criança, faz sua primeira graduação na Escola de Química da USP, for-
expulsão de Décio Soares de Souza. Oficialmente, na hL~tória desta
mando-se em 1944. Traballla no Instituto Adolpho Lutz, no Instituto
Sociedade, isto não ocorreu.
Butantã e em várias escolas particulares de São Paulo, como o Roosevelt,
Os cinco analisandos de Décio, ao serem comunicados da expuL~ão
o Bandeirantes e o Dante Alighieri. Sempre cercada pelos alunos - Betty
dele, em maio de 1965, encaminham carta ã Diretoria do Instituto,
Milan é uma delas - nesses tradicionais colégios paulistas - já nos anos
estranhando: 1 - não terem sido convocados para o irúcio do ano letivo
50 - tem posturas disruptivas com relação ao tradicional sistema
de 1965, estando, até aquele momento, impedidos de comparecer aos
educacional. "Muitos dos alunos dessa época ainda lembram daquela
cursos regulares do Instituto; 2 - a forma como são eliminados do corpo
figura matriarcal entrando nos laboratórios de Química"".
discente do Instituto, sem qualquer justificativa; 3 - a comunicação de
Casada com BorL, Clmaiderman - engenheiro agrônomo que
que a análise pessoal feita com o Dr. Décio não é mais reconhecida pela
abandona a profIssão para ser expertem literatura russa, chegando a ser
SBPRj". Diante da não-resposta a esta carta e da violência cometida, os
um conhecido professor da IJSP -, tem dois filhos: Miriam e Carlos.
cinco analisandos de Décio, que já se encontram no 2º ano de formação,
saem da SBPR). Até porque o Dr. Décio, após ser comunicado de sua Apesar de gostar muito de Química, tem um "encantamento espe-
exclusão, entra com recurso e, em 21 de maio de 1965, a Assembléia cial" pelas pessoas, o que a leva, em 1961, a fazer o Curso de Psicologia
Geral Extraordinária da Sociedade - onde somente os membros titulares na LJSP.Desde os anos 50, também interessada por Filosofla, participa,
podem comparecer e votar - mantém a penalidade. Alguns desses durante anos, de um grupo de estudos com Anatol Rosenfeld"". Em
analisandos continuam a análise pessoal, com ele, fora da SBPR).
64 J"" ocone poc pre"ão de alguns pSicanali"",. Ve, sob,e " ",sumo carta da an. 00," Beal"z
Ao relatar o "caso Décio" como um analisador das instituições Pontes de Miranda Ferreira ao presidente da SBPRJ, Dr, Paulo Roberto Saubermao, de 09 de
dezembro de 198'5, mimeogr.
formação analítica e "verdadeira" psicanálise, não pretendo salientar a
6'; Lando,V. "Regina Uniu Cabeças e Corações~. In: Folha de S. PaulolDustr:ada, 30/01/198'5, p. 39.
th Professor de FilosofIa, alemão e judeu perseguido pelo nazismo. Estudou na Universidade de
62 Perestrello,M.Op. dto Berlim e quando chegou ao Brasil teve várias ocupações: desde trabalha.r na enxada numa fazenda
6:3 Carta à Exma. Diretora do Instituto e Secretária da SBPR], maio/ 1965, mimeogr " pp. 1, 2 e 3. de café perto de Campinas até ser caixeiro viajante, colaborando em revistas estrangeiras de Iingua

88 89
periódicas reuniões, ali tudo é discutido, desde os rumos das artes e da lugar, pela elitização a que, em sua opinião, tais regras condUr
cultura até assuntos f1!osóficos específicos. ziam. Em segundo lugar - e acima de tutÚJ- peJa perda do
potencial criador e transformador que uma leitura limitada de
Simpatizantes dos movimentos de esquerda desde o pós-guerra, Freud pode determinar,<68.
Regina e Boris, muito próximos ao Partido Comunista, tornam-se inte-
lectuais brilllantes, pois têm uma incrível voracidade de conbecimentos, Apesar de sua posição singular e bastante diferente daquela
através dos livros, cinema, teatro artes plásticas ou música.
I praticada pelos analistas da SBPSP no que respeita aos rituais e dogmas
Ainda no 3° ou 4° ano do curso de Psicologia, Regina é convidada analíticos presentes na formação, e com relação aos preços cobrados
para lecionar Psicologia Social na USP, o que faz de 1964 a 1966. Durante (tanto na terapia, quanto na supervisão), Regina sente profundamente
sua graduação, é aluna de vários psicanalistas da SBPSP, professores no esta segunda exclusão. A força e o poder da formação instituída nas
Curso de Psicologia da USP como: Durval Marcondes, Lígia Alcântara, Sociedades "oficiais" é um fato e, mesmo para uma pessoa como Regina,
Judith Andreucci, Ferrari, Ferrâo e outros, todos eles didatas. Torna-se isso pesa, e muito. Por alguns anos, mesmo já tendo um consultório
muito amiga de [saias Melsohn, que, posteriormente, será didata dessa concorrido e numerosos grupos de estudo e supervisão, receia auto-
Sociedade. nomear-se analista.
Quando, em 1%5, abre seu consultório - por influência do próprio A partir dessa segunda negativa, Regina resolve lançar-se profun-
Melsohn -, solicita entrada na SBPSP para fazer formação. Pelos Estatutos, damente nos estudos sobre a obra de Freud e percorre todas as principais
para o profissional nâo-médico ou psicólogo - na época Regina ainda linhas existentes, da escola inglesa (Melanie Klein) à francesa (Lacan), o
nâo está formada em Psicologia - que pretenda fazer formaçâo analitica que resulta num "estilo próprio" de fazer psicanálise. Desde meados dos
fica a critério da Comissâo de Ensino a aceitação ou não do candidato. 60, reúne, em sua casa, dezenas de estudantes de Psicologia e psicólogos
Regina não é aceita e não há explicações do porquê. em sentinários abertos. Cria o famoso "grupo dos sábados", no qual
Em 1966, já formada, passa a lecionar Psicologia no Sedes Sapi- estáo presentes Betty Milan, Flávio Herrmann, Marilena Carone, Marisa
entiae e no Curso de Psicologia de Mogi das Cruzes. E novamente solicita Tafarel e toda uma geração de psicanalistas que têm em Regina sua
"primeira mestra"fj).
ingresso na SBPSP. De novo seu pedido é negado, sem qualquer
explicação. Sua filha, Mirian Chnaiderman67, relata que Regina fica muito Não por coíncidência, muitos de seus pacientes, principalmente
deprimida e que, posteriormente, elas são informadas de que nesta nos anos 60, são pessoas não-gratas ao regime militar, perseguidos,
segunda vez em que é recusada pela Sociedade "oficial" é feita a seguinte exilados, ex-presos políticos. "Regina proporciona (a eles) um apoio
pergunta por algum didata do Conselho de Ensino, quando se discute a além e albeio ao perimetro psicanalítico"?O
sua entrada: "quem poderia ser analista de Regina Chnaiderman'" Em 1968, tanto ela como seu marido e filhos - na época militantes
Além de ser uma pessoa declaradamente de esquerda e ter tido secundaristas - participam das passeatas estudantis. Seu fJ1ho, mais tar-
vínculos com o Partido Comunista nos anos 40 e 50, Regina sempre teve de, entra na clandestinidade e luta armada, tendo vivido exilado em
um pensamento muito próprio, tentando juntar Freud com a Filosofta e Cuba até a anistia em 1979. Boris Chnaiderman, professor da USP, em
não isolando a leitura do inconsciente do contexto histórico e social. 1969, é preso algumas vezes quando o Exército invade a Universidade,
após o AI-S.
"Afinal, os ditames (. _.) ortodoxos da Sociedade representavam
exatamente tudo aquilo que ela sempre combateu. Em primeiro Ainda em 1968, Regina faz formação psicodramática com a equipe
de Bermudcz e participa ativamente do Congresso Internacional de
alemã. Critico literário e grande amigo de Regina Omaidennan. Morto em 1974. Sobre o assunto,
ver: Omaiderman, R. "Pensando em AtutoI Rosenfeld". In: Folha de S. PaulolFolhetim, 15/011 E8 Lando, v. Op. dt.
1984, pp. 3 e 4. (f) Relato de Marilene Carone in Lando, V. Op. dt.
67 Em duas entrevistas dadas a mim. iO Lando, V. Op. dt.

90 91
Psicodrama e Sociodrama realizado no MASP. em 1970, durante o perío- lnstituto de Formação de Terapeutas. Desta idéia, inicialmente arroja-
do mais terrível da repressão militar. Faz parte do Grupo de Estudos de da, cria-se, em 1976, o Curso ele Psicoterapia Psicanalítica. Os aconteci-
Psicodrama de São Paulo até 1971. Todavia, permanece com sua base mentos deste curso no Sedes, a pressão da SBPSP por consíderá-lo uma
teórica psicanalítica aberta a novas técnicas, criando um estilo próprio. formação paralela e a sua divi~ão em dois cursos serão relatados adiante,
Em 1972, inicia os grupos de estudos sobre Lacan, com o apoio da no item VT deste Capítulo.
mósofa Marilena ChauÍ. É de Regina e Miriam Chnaiderman a primeira Em 1976, com o golpe militar na Argentina, muitos psicanalistas
tradução de Lacan para o português nesta época. argentinos vêm exilados para o Brasil. Em São Paulo, Regina foi uma daB
Quando Miriam se fonna em Psicologia, no ano de 1973, aluga, figuras mais importantes no sentido de auxiliá-los. Por seus depoimentos,
com alguns dos que estudam com Regina, várias salas no mesmo prédio percebe-se o apoio que lhes deu e muitos passam a dar aulas no Curso
em que sua mãe tem consultório. Inicia-se, então, um trabalho tipo do Sedes, como Ana Maria Segal, Mário Pablo e Lúcia Fucs, Silvia Alonso
"cooperativa": clientes que não podem pagar são aceitos, colegas que Espósito e outros. Todos são unânimes em afinnar e enfatizar que, acima
estão em dificuldades são ajudados através da distribuição de clientes, da indiscutível inteligência, sabedoria e informação, Regina foi
etc. Nas reuniões das terças-feiras com Regina, além das supervisões,
um arsenal de generosidade, ao qual todos, nos piores e
são feitos estudos de caso, em que se debatem desde os preços a serem
melbores momentos, puderam recorrer e foram recebidos,
cobrados a determinados clientes, até os enfoques teóricos utilizados literalmente, de braços abertos. Mais do que qua!quer atuação ou
em cada caso. Segundo Miriam, discutem-se as regras analíticas insti- ideologia, será o carinho sempro atento, a lacuna aberla no centro
tuídas, pois já é claro para Regina e seu grupo que estão contra o modelo das centenas de pensamentos epensadores controvertidos que Regi-
da "verdadeira" psicanálíse. na conseguiu reunir em tomo de si "h.

Esse chamado "estilo próprio" de fazer psicanálise traduz-se na Regina Chaiderman morre c1e câncer em 1985, depoi~ de uma
crença de que "a análise é um processo de desalíenação", pois enfermidade de dois anos. Faz cirurgia, vai ã Europa para tratamento e
. os pacientes não são materiais de análi.'Ie a explorar como quando volta - já em cadeira de rodas, pois está com metástase na
fontes de teon'zaçiio ou a transformar em indüJíduos normai.'i_Os coluna - continua trabalhando no Sedes e em seu consultório.
pacientes têm que sejazer, se auto-a1ertar, e pelo processo analítico,
criar um novo segmento de sua história e, no caso mais geral, "ARegina já não está. Sempre atenta ao sofrimento alheio, gene-
aceder peta primeira vez explicitamente a uma bistorieidade ao rosa no consolo, fez pouco da doença que a afetava ensinando a
mesmo tempo singular e coletiva. !s/o fi criação (.__J É neste se tirar o má..'drnoda fugacidade da vida
jazer que o analista coopera - é este o fazer do analista" Ninguem cultivou como ela a amizade, aproximou tantas pes-
soas. lndkou-me o pn°meiro analista. didata da SBPSP, efoi na
Da mesma forma, para Regina, o ensino da Psicanálíse sua casa que pnomeiro ouvi falar de Lacan - ela então recebia um
.. é um ato psicatullftico e é um projeto de desalienação membro da Escola rnudiana de Paris, Aberta a todos e às várias
DesaJíenaçiio desta vez não do sujeito analisando, mas desa- correntes, promoveu a P.skanáJtse atmais do encontro. Quem viesse
lietulção do discurso que se tem sobre o saber psicatullf- de fora da cidade, cedo ou tarde, chegava nela, que sabia acolher
tú;o ••71 (grifas meus). e apresentar; era uma anfitnoâ nata. Valorizando o l!.rasi1,penni-
tiu-nos conhecer o que se fazia na França e também nos outros
Em 1975, Roberto Azevedo e Regina Clmaidennan são chamados países latino~americanos (., ,)
por Madre Cristina, do Instituto Sedes Sapientiae, para organizar um (... ) Não trilhou o seu caminho facilmente: pela sua indepen~
dência, viveu uma dura exclusão no início da carreira. A SBPSP
71 Clmaiderman, R. ~Política de For.maçâo em Psicanálise: Alinhavando Algumas Anotaçôes de leitura", recusou-lhe a entrada Mas era feita de muitos fi51egos e foi em
In: Pen:urso- Revlsta de Pskanálise. São Paulo, Sedes, Ano 1, nº 1, 2" semestre de 1988, 11-

I
1'5,pp.12e 13.
72 Lando, v. Op. cito

92 93
.frente, dedicando-se ininterruptamente à transmissão da Psica- "somente pessoal" e "oralmente as explicações serão dadas". Após várias
nálise. Antes de dirigir o curso no Sedes sa.pientiae, formou meio cartas nas quais a Dra. Helena não aceita as referidas "explicações
mundo na própria casa, insistindo numa leitura rigorosa de Freud.
orais" - mas admite que o assunto tratado deverá ficar registrado em
C..) A sua vida passou decisivamente por muüas outras, que
ela alentava nos momentos de crise. Várias eram as cantigas de
Ata -, uma reunião., em que ela somente poderá ouvir, é marcada para
ninar que a mãe grande conhecia. e podia cantar. Daí os tantos 24 de jLlnho de 197~. Assin1 a descreve a Dra. Helena:
filhos "Bati na porta da Biblioteca efui recebida por um dos membros
Regina jazia tudo à sua moda" era única e vai faltar. Nin- do Conselho, que, após os cumprimentos de pr{4w, informou-me
guêm pode ser como ela,. pode, no entanto, se valer do exemplo, que, por decisão do Conselho, eu deveria sentar à mesa sem minha
cultivar a diferença e a tolerância Quem foi ao enterro viu que bol,a e minha pasta, que deveriam ser deixadas em cima do
ela reunia amigos "dí<;jJares".Os gregos e os troianos, por assim arquivo situado ao lado da porta {,..J Entreguei minha bolsa e
diZer, foram se despedir dela, Ali estavam intelectuais, analistas minha pasta e encaminhei-me para a mesa. Ainda sem sentar-se,
de todos os grupos e de diversas na<:ionalidades. Ali estavam disse que me seria muito dificü ali permanecer sem cigarros e sem
congregados os membros de uma tribo nascida do amor ã tribo óculos. Acompanhada pelo mesmo membro do Conselho, retomei
da Regina"'!>. até o arquivo, onde abri minha bolsa e, sempre observada, retirei
dela cigarros, isqueiro. óculos e uma caneta (. ..). Um dos membros
A diferença, a multiplicidade de facetas, o constante questio- do Conselho, sentado diante de mim, revoltJia acintosamente r. ..)
namento, o desafio que era Regina Chnaiderman não cabiam na SBPR]. uma pasta grampeada, que tinha em seu frtmtispkio utntl
"Quem iria analisar Regina Chnaiderman?" lista verde-amareÚl e as conhecidas iniciais ( ..)DOPS C_.)
Eu era acusada de denunciar um torturador ..75 (grifos
meus).

5 - O ANALISADOR HELENA BESSERMAN VIANNA Além desta acusação - a de ter denLlnciado o candidato a psica-
nalista da SPR],Amilcar Lobo, como membro dos órgàos de repressão,
A Dra. Helena Besserman Vianna é membro associado da SBPR] atuando no DOI-COD1/R] - a Dra. Helena é acusada de plágios num
desde 1970. Em 197~, requer inscrição como Membro Titular, solicitando I'
anigo publicado no IJP(Jornal Internacional de Psicanálise) e num resumo
marcação de data para apresentação de seu trabalho (conforme o previsto feito sobre um psicanalista uruguaio. Por ocasião. da visita de Bion ao
nos Estatutos). Seu pedido é negado por unanimidade pela direção da Rio de Janeiro, em 1974, numa conferência pública, é criticada por ter
Sociedade, tendo em vL,ta () artigo 13: feito, "numa posturd politica já conhecida", uma pergunta sobre a
"Ao considerar a admissão de Membro em qualquer categoria, o aceitação para analista de uma pessoa comprometida com atrocidades
Conselho deverá ter em mente se o mesmo preenche as condições a seres humanos. E, finalmente, ter a referida psicanalista uma "...
exigidas quanto ã integridade de cardter, os padrões éticos posição politiea conhecida e ser devidamente registrada no DOPS,
e têcnicos"74 (grifos meus).
desviando-se dos padrões éticos exigidos de "neutralidade" no
Solicita, ainda, o ConseU10 Diretor da SBPR]que o assunto fique exercicio proflSsio.nal"" (grifos meus).
em total sigilo. Sem compreender, a Dra. Helena responde que se encontra A famosa denúncia, feita em 1973 à revista Questionamos nº 2,
apta a prestar quaLsquer esclarecimentos sobre sua pessoa. A psicanalista coordenada pela psicanalista argentina Marie Langer, co.ntra o médico
é, então, convidada a comparecer a uma reunião reservada com o Conse-
llio Diretor, pois, tendo em vista a natureza confidencial do assunto, 7) Vianna, H.B. Op. cit., p. 1010.Sohre o assunto, ver também: Vianna H.B. Carta aMeusCulegas
Psicanalistas, 1986, mimeogr.; Cerqueira, G. (Org.J. Crlsena Psicanáli'le. Rio de Janeiro, Graal,
1982 e Vianna, H.S. Não Conte a Ninguém. .• Contribuição à História das Sociedades
73 My1an, B. "Uma Grande Mãe e Anfitrià Nata" In: FolhadeS. Pau1o!llusttada. Op. cit., p. 39. PsicanaIiticas 00 Rio deJanelro. Rio de Janeiro, lmago, 1994.
74 EstatutosdaSBPRJ,p.10. 76 Vianna, H.R "Psychoanalyse and Politik In Brasilien" Op. cit. Rio de Janeiro, 1994. p. 10[3.

94 9,
Amilcar Lobo, chegara através do jornal do peB VOZ Operária, na qual repressão como candidato a analL'ta, e não o fato de este "aspirante" ser
havia algumas linhas manuscritas. As duas Sociedades cariocas, através efetivamente elemento de confiança da repressão. Isso não é tão
de exames grafológicos, concluem que a autora é a Dm. Helena B. Vianna. importante quanto a atitude da Dra. Helena; esta, sim, com suas acusa-
"Claro que, entre todas estas descahida.ç acusações, até muito pouco ções, macu[a a psicanálise.
habilmente anuladas para encobrir a questao pn'ncipal, ressalta Ainda em 1975, após retornar de Londres, é proposto a Helena
a acusação de ter havido uma "denúncia calunio.'>a" contra um
que todas as cartas e Atas reservadas sejam queimadas e que o incidente
membro de outra sociedade. Um anali.çta didata defende seu
paciente acusado de ser torturador com a tese de que estas calúnias seja esquecido. Com isso, ela poderia apresentar seu trabalho e ficar
sao provententes de forças ocultas que desejam destru'ir a como membro titular, o que ocorreu em 1976.
Psicanálise Contrata um perito em grajàJogia pe1tencente a órgdo Aftrma Helena que:
governamental para analisar a grafia de todos os analistas das
duas Sociedades e este conclui (..,) a autonOa da letra que fizera a "Quanto à incineração das cartas trocadas com o Conselho, conro
denuncia. Em seguida, decidem, em âmbito restrito e sigiloso, ser em 1975, (,.) vivíamos sob uma das mais sanguinárias fases da
necessário 'salvar" a Psicanálise e suas instituiç6es a/raués de repressào promouida pela ditadura, mantive as carlas originais
punições contra o denunciador O cnOminoso ndo ma!" seria o guardadas no mais "meticuloso sigilo" e pemumeci polüicamente
autor do crime, mas o r...) acusador do c1ime e do cn'minoso" 77 engajada na luta pela redemocratizaçào do Brasil"7$,
(grifo meu).
A proposta feita pela cúpula da SBPRj e a posterior admissão
No mesmo ano, Helena vai a Londres conversar com a direção da dessa pSicana[L'ta como membro titular é uma forma não somente de
IPA e muito depois fica sabendo que, desde a publicação da denúncia apaziguar os ânimos cÀ'temamentc, mas, também, internamente. Dentro
na Argentina, em [973, há toda uma correspondência da IPA com as da SBPRj, na época, ocorrem pressões contra a indicação de Paulo
duas Sociedades cariocas sobre o caso Amilcar Loho. Apesar de uma Grimaldi como didata pelo Conselho Diretor. Estatutariamente, não se
série de denúncias feitas, como a de René Major, na imprensa francesa, poderia transformar um membro convidado em didatan. Alguns comen-
a da Universidade de São Frand,co, nos EEUU, e de virios psicanalistas tam que é feita uma barganha: fica Helena como titular e Grimaldi como
espanhóis e canadenses ã IPA, esta prefere "aceitar" a palavra do então didata, para que os ânimos serenem dentro da SBPR]. Só que a entrada
presidente da SPR], Leão Cabernite, de que taL, acusações não passam de He[ena para titular é um direito garantido pelos próprios Estatutos c
de interesses ocultos para denegrir a psicanáIL,e. Seu paciente é inocen- que, embora sejam as cúpulo., do., Sociedades "oficiais" as maiores defen-
tado das acusações feitas e a acusadora do crime torna-se a criminosa. soras do instituido, quando lhes interessa há a quebra dessas normas ~
Alguns dos envolvidos nos acontecimentos, ao serenl entrevi..c;- tanto no caso de Helena como no de Grimaldi. Há aqui uma agravante:
tados, utilizam, à guisa de explicações, alguns argumentos como: Leão a indicação de Grimaldi para didata vem junto com a de doi, outros
C~hernite gamntiu para a SBPR] que Lobo mo era torturador; ou: Helena membros do Conselho Diretor, envolvidos nos acontecinlentos do caso
Vianna tinha um gravador dentro de sua bolsa, por isso não lhe foi Helena. Isso gera, desde 1974, uma pequena crise na Direção do Con-
permitido portá-Ia durante a reunião. Ou ainda que Helena levou o co.,o selho, que se avoluma, no ano seguinte, com a negação feita a Helena e
para o lado político e ele não tinlla esta conotação; ou que He[ena tem os episódios já narrados. _
dificuldades de convivio humano, ela é muito exaltada politicamente e Em 1986, após uma série de mudanças estatutárias, volta às
suas declarações criaram um mal-estar entre as duas Sociedades do Rio manchetes dos principaL. jornais o Caso Amilcar Lobo. Helena Vianna
de janeiro. Ou seja, a questão é a Dra. Helena Besserman Vianna, que, pubHcamente narra para toda a SBPR] os acontecimentos de onze anos
nUll1ato corajoso, denuncia a cxi..<;tênciade um membro dos órgãos de
78 ldem,pp, l013e 1014.
-:-- Vianna, H_B.Op. cit., p. ]Olj.
-,:) Grimaldi era gaúcho e tinha feito formação lU APA. Estava na SBPRj como membro convidado.

96 97
atrás e, em Assembléia, é votada uma retrataçào pública da Sociedade, o de subjetividade, são produções políticas, e não psiquicamente construí-
que é feito em nota na grande imprensa. Datam dessa época depoi- dos em abstrato. Daí os relatos distorcidos, contraclitórios, que induzem
mentos dados por alguns dos componentes da Comissão Diretora da ao esquecimento, pois "revolver o passado" incomoda a muitos. É mais
SBI'R], em 1975, publicados em Circular Interna da Sociedade de fácil aceitar como naturais e até saudávei~ as estruturas burocráticas e
circulação estritamente confidencial. Alguns declaram: hierárquicas das Sociedades de Formaçào, a sua "escolarizaçào", domes-
'Julgo ser uma lástima qu.e de novo se esteja revolvendo o passado ticaçào, a falta de criatividade, originalidade, seu afastamento com relação
e de uma forma bastante escandalosa e de rmra forma que a ao tnundo, seu conformismo e, sob um manto de ortodoxia, a idea-
Sociedade, a PsicatuUise e seus altos dirigentes estejam lização das imagens de Freud e da psicanálise.
sendo denegridos (.,). /sto não tinha, nem teve qualquer conc-
O anali,ador Helena Besserman Viana propicia-nos a rara oportu-
xâo com a vida política do Pais, nem com o estado de exceção em
que vivemos por 15 anos _A Sociedade não parou de funcionar nidade de focalizar tudo isto.
livremente porque existia ditadura no Brasil, nem havia qualquer
vincu/açao fi'M:aJizadora governamental sobre nôs. Esta estória
falada e decantada pela Dra. Helena não passa de um engodo e 6 - O ANAllSADOR AMILCAR LOB()'3
mistificação"&:) (grifas meus),

O hoje ex-médico Amilcar Lobo Moreira da Silva, em novembro


Outros, apesar do peso do espirito societário, afirmam:
de 1968, inscreve-se como candidato à formação analítica na SI'R], tendo
"Alguns membros da Comissao não a desejavam como Membro
como didata o Dr. Antonio Dutra Júnior. Em fms de 1969, forma-se em
Titular. Além das acusações que lhe eram fritas, havia - penso eu
- em alguns poucos uma atitude de "nào desejarem comunistas" Medicina, presta serviço militar no Exército e, no início de 1970, passa a
na Sociedade. Ora, Dra_Helena, muüos anos antes, demonstrara servir no DOI-CODURj. Seu "trabalho" até 1974 é "atender" os presos
publicamente sua posição esquerdista, coisa que nunca negou e- políticos antes, durante e depois das sessões de torturas. Com o codinome
penso eu - por esse motivo não era persona grala para alguns de Dr. Carneiro, Amilcar Lobo "acompanha" o terror que se abate sobre
membros do Conselho ,oBJ (as aspas e OS grifas são do próprio autor).
o país fazendo parte eficaz de sua engrenagem.
Leão Cabernite, presidente da SPR] na época do "tribunal" contrd Antes, durante e depois! Antes das torturas, executa um "trabalho
Helena, assim se refere ao caso: preventivo", no sentido de torná-las mais eficazes, procurando saber se
., Minha participação nesse episódio teve tão-somente a há alguma doença, se o preso é cardíaco, etc. (a primeira "entrevista"
firullid6de de obter informações sobre o assunto que nos antes das torturas de muitos que são conduzidos para o DOI-COm/R] é
preocupava a todos. O assunto era debatido e comentado e creio feita com o Dr. Carneiro, que vai ãs celas dos recém-chegados). Durante,
quenada ocorreria à Dra. Viannn se ela também o tivesse
executa também um "trabalho de prevenção", no sentido de testar a
ventilado no ambiente psicanaltlico do Rio "!J!(grifos meus).
resistência do torturado, e avaliar até que ponto ele pode agüentar.
Apesar de passados tantos anos, a hi'tória da psicanáli,e, durante Depois das torturas, faz "curativos" quando "cuida" dos farrapos huma-
o período da dítadura militar no Brasil, ainda não foi escrita. Os próprios nos em que o terror converte as pessoas para que, se necessário, voltem
psicanali~tas não têm nenhum interesse em relembrar ou esclarecer muitos a ser torturadas. Ele "freqüenta" também a "Casa da Morte", em Petró-
acontecimentos ocorridos durante este período. Há o recalque e a recusa, polis, aparelho clandestino da repressão, de onde somente uma presa
segundo o vocabulário psicanalítico, e tais mecanismos sào produções
83 Sobre o assunto, além dos livros já cita.dos, ver também: Kupennann, D.lllitóriada Transferência
80 Boletim de Noticias ol! 08 - SBPRJ, novembro de 1986, pp. B e 17. na Institudon;;diz:;u;ão da Psicanálise. Dissertação de Mestrado - PUe/R], 1993 e Franco,j.L.
81 Idem, p. 10. de A. A Con.stntção do SDêncio: o Caso Amilcar Lobo e a Psicanálise. Dissertação de
82 JB/C~oBEspecia1-16/09/1989. Mestrado - UNB, 1994.

98 99
política escapa com vida". Ainda em 1974, Leão Cabemite consegue cópia do manuscrito do
O Dr. Carneiro é "aspirante" a psicanalista um ano antes da prisão jornal Voz Operária e, junto com a direção da SBPR), faz exames
de Hélio Pellegrino, membro associado da SPR) que, em 1969, é enqua- gmfológicos para saber quem é o denunciante.
drado na Lei de Segurança Nacional e preso por 'iO dias. Na época, Apesar da declaração do então poderoso general Sílvio Frota. os
Hélio solicita à SPR) um documento em que ficasse dito - sem mais nada rumores dentro da SPRj crescem e, em 1974 e 197'i, Amilcar Lobo vo-
- que a sua prisão poderia causar ansiedade aos seus pacientes. O docu- luntariamente se atasta da Sociedade.
mento lhe é negado, sob o pretexto de que a Sociedade não pode jj por esta época que, ao se encontrar com Helena Vianna, numa
imiscuir-se em assuntos políticos. conferência de Bion, realizada no Rio de Janeiro sob os auspicios das
Em 1970, o didata de Amilcar Lobo passa a ser Leão Cabernitc, Sociedades "oficiais", sussurra-ll,e que tome cuidado, pois pode se dar
então presidente da SPR). mal, algo pode lhe acontecer.
Em 1973, há, na Argentina, a primeim denúncia pública mostrando Após o "tribunal" feito contra Helena na SBPR], quando esta já se
o "trabalho" feito no COI-CODl/R) por Amilcar Lobo. No mesmo ano, havia tomado titular, em 1976, Amilcar Lobo volta a ser membro-candidato
ainda grAças à coragem da Dm. Helena Besserman Vianna, outras denún- da SPR), sem, no entanto, fazer análise didática, comparecendo aos cur-
cias são feitas na França, nos Estados Unidos, no Canadá, na Espanha e sos e seminários clínicos. Toda a Sociedade sabe do "trabalho" que havia
chegam ao conhecimento do então presidente da IPA, Serge Lebovici. executado no DOI-CODI/R) de 1970 a 1974 e, além de continuar na
Este prefere acreditar na "versão" do didata de Lobo, Leão Cabemite, SPR), tem seu consultório particular ao lado do de Leão Cabernlte.
que afirma tratar-se de calúnia. Lebovlci declara ao então presidente da Em final de 1980, numa mesa redonda promovida pela Clínica
SPR): "Posso utilizar seu testemunho para responder aos colegas que se Social da Psicanálise, na PUC/R), sob o título "Psicanálise e Fascismo",
dirigirem a mim que o Dr. Amilcar Lobo foi caluniado"". surge o tema das torturas praticadas contra presos políticos durante os
Em 1974, pouco depois de uma paciente do grupo coordenado anos 70 no Brasil. Nos debates, RôqlUlo Noronha de Albuquerque declara
por Amilcar Lobo ter levantado seu envolvimento com a tortum, o caso ser ex-preso polItico e, além de relatar as torturas sofridas, denuncia
é levado a Ernesto La Porta, diretor do Instituto de Ensino. Este consegue Amilcar Lobo como tendo feito parte da equipe de torturadores do 001-
do Comandante do I Exército, General Silvio Frota, a seguinte decla- CODI/R). Dias depois, em 02/10/80, Hélio Pellegrino, que fazia parte da
ração endereçada ã direção da SPR): referida mesa redonda, envia carta à direção da SPR), lembrando a
"Na qualuiade de Comandante do I Exercito e responsável pela publicação feita em 1973 na Revista Questionamos e solicitando
Defesa Interna na área do Estado da Guanabara, Rio dejaneiro, providências a respeito. A Comissão de Ensino se reúne às pressas e
Minas Gerais, &pírito Santo, declaro, a fim de desfazer intrl· exclui o nome de Amilcar Lobo do quadro de candidatos da Socledade.
gas e aleivoSÚlS assacadas proposital e maldosamente
No dia seguinte, Hélio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas são
por inimigos do regime e seus patronas contra o Dr. Amilcar
Lobo Moreira da Silva, que o referido cidadão sempre teve proce- convocados pelo Conselho Consultivo da SPR] e comunicados por seu
dimento digno e humano, compatíwl com a sua situação de Oficíal presidente que estavam expulsos da Sociedade. Esta situação transpira
da Reseroa do B:ército convocado e de médico müitante, nada para a imprensa e há uma forte pressão e protestos por parte de muitos
podendo contra ele ser argüido, justamente que afete sua honra, membros da Socledade. A Diretoria, pressionada, convoca, para o dia
pundonor e decoro} quer militar quer profissional. Rio dejaneiro,
04 de março de 1974"fb (grifos meus).
21/10/80, uma Reunião Plenária que, por unanimidade, recomenda o
arquivamento do processo de exclusão dos dois psicanalistas. Esta deci-
84 Esta presa política é Inês Etienne Romeu, que denunciou a presença de Amilcar Lobo na "Casa da
são é acatada de forma distorcida pela direção da SPR] que, em circular
Morte", em Petrópolis.
85 JB/Cademo B Especial- 14109/1986, p. 08. 86 JB/Cadern.o BIE.peclal- 16/09/1986.

100 101
de 01/12/80, retira as expulsões, mas atribui a Hélio e a Mascarenhas "Desde que, em 1973, surgiram os primeiros rnmores sobre /íga-
çôes do Dr. Amilcar Lobo com supostas tm1uras praticadas a
uma retratação que não houve, além de acusá-los pesadamente.
presos polítk:os, a mtão diretoria do lnstüuto tentou averiguar a
Em 14101/81, os dois psicanalistas respondem, repelindo a retra- veracidade dos fà/os, sem tp4e nalÚJ de concreto fosse apu~
tação e as demais acusações. Em função desta defesa, são expulsos em rodo ( ..). Trabalhava-se, apenas, com nmwres _Portanto, as
27/01/81. Iniciam-se ai vários movimentos de solidariedade a eles e de ínuestigaç6es de então, de cujos pormenores somente ontem lJÍm a
tomar conhecimento, lUUÚl apuraram de concreto que incri-
repúdio ã direção da SPR]; documentos são publicados na grande miruzsse o referido candidato. Ndo obstante 'Isto, pela.•pecu-
imprensa, exigindo a convocação de uma Assembléia Geral Extraor- liaridades intrin.wcasno processo de/ortnaçào psicanalítica, criou-
dinária que somente em abril será realizada. Antes, a direçào da Sociedade se um impasse em sua análise pessoal, a qual foi interrompida,
ameaça punir os que, em nota pública, se solidarizam com Hélio Pellegrino fato este que írnplicou, conseqüentemente. a susfX>rlsàode sua
e Eduardo Mascarenhas. formaçdo "39 (grifos meus),

Em 06 e 07/02 de 1981, em manchetes de primeira página dos Naturalmente estamos em 1981, no Governo Figueiredo e, cautelosa
principais jornais cariocas, a ex-presa política Inês Etienne Romeu e seis c oportunisticamente, após as declarações dos Mini~troSMilitares, a SPR]
outros ex-presos políticos (Cid Benjamin Queiroz, Vânia Abrantes, não diz que acarreratl1 torturas a presos políticos no Brasil e nem que
Ge= Figueiredo, Abigail Paranhos, Dulce Pando]fi e Cecilia Coimbra) Amilcar Lobo era membro do DOI-CODlIR]. Esta circular tem também o
denunciam Amilcar Lobo como o médico que os atendeu em 1970 e 71 objetivo de tentar diminuir a pressão pelas várias notícias da "crise" por
no DOI - CODIIR] e na "Casa da Morte", em Petrópolis"'. que passa a Sociedade, notícias publicadas nos principais jornais cariocas.
Imediatamente os três Ministros Militares repudiam tais denúncias, Em resposta, Hélio e Masc'arenhas, em longa carta ã direçào da Sociedade,
afirmando que não irão permitir, no processo de "redemocrati7..açâo" e historiam os "casos" Amilcar Lobo e Helena B. Vianna"".
"abertura" que o p'aís atravessa, estas posturas revanchistas. Afmal, a Lei As Assembléias Gerais Extraordinárias, de 14/04 e OSlO'; de 1981,
de Anistia de 1979 havia proposto o esquecinlento e o perdão mútuos: compostas ,.... por cinqüenta e duas pessoas c decididas apenas por
os "terrorist<L," estavam anistiados, assim como aqueles que, do outro dez"'\ - somente os membros titulares podem votar -, resolvem pela
lado, haviam praticado oS chamados crimes "conexos". expulsão dos dois psicanalistas. Duas semanas após, no dia 27 de maio,
O ConselllO Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro, cria-se o Fónun de Debates, que aprofundará a crL,e na SPR].
então sob intervenção federal, afIrma que" ... no caso do atendimento a TaL, episódios pressionam Amilcar Lobo a sair de seu consultório
Inês Etienne, vê-se apenas a prestação de serviços profissionais e não ao lado do de Leão Cabernite e o número de pacientes baixa sensi-
propriamente um crime"B8- e nada faz. Entretanto, a OAB/R], sob a velmente. Apesar dLsso, continua a clinicar em consultório emprestado
presidência de Eduardo Seabra Fagundes, toma o depoimento desses por Paulo Tavares da Silva, tan~)ém membro da SPR].
ex-presos políticos. O "caso Lobo" fica esquecido até 1986 e, em todos esses anos,
Em 12 de fevereiro, no calor desses acontecimentos, a Direção da nenhuma nota da SPR] é emitida, nenhum psicanalista vem a público
SPR] envia uma Circular a todos os seus membros e nada comenta sobre para lembrar o fato, a não ser o Fórum de Debates que, em seus
a expulsão, em janeiro, de Hélio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas. No documentos, afmna que toda a Sociedade é responsável.
documento, o desligamento de Amilcar Lobo se dá peja interrupção de Em 1986, Amilcar Lobo "espontaneamente""' procura a grande
sua análise didática. Sobre a questão de sua atuação junto ao aparelllo
de repressão o que se coloca é o seguinte: fJ) Cerqueira, G. (Org,). Op. cit., p. II Ci.
(X) Toda essa correspondência encomra-se in Cerqueira, G. (ürg.). ()p. dto
CJ] B3.fft..'to,C.A. "Forum de Debates, Pl.lça Política da Psican;Ílíse~. In: Cerqueil.l, G. (Org.). Or· cit.,
87 JB-05e 07/02/1981. p.I69.
88 Declarações do Dr. Silvio Sertã, interventor do CREMER)ao JB - 07!02/1Çl81 . Çl,2 () termo "espomaneamente" refere-se ao fato de que, i época, as hipóte&s levantadas pelos vários

102 103
imprensa e afIrma ter visto Rubens Paiva93 vivo no DOI-CODJlR] e que Essesrumores tomaram Imito de tal magnitude que a análise, que
lá o havia atendido. Refere-se, também, a outros desaparecidos polí- a cada dia se tomava mais dificü, acabou sendo inviabilizada,
tão contaminada foi petaintromissàQ da realidade extertUl "
ticos. Novamente, em primeira página dos principais jornais nacionais, o
(os grifas são meus).
"caso Lobo" envolve a SPR] e a SBPR] com depoimentos de vários
psicanalistas. Sobre os seus objetivos enquanto presidente da SPR] - o foi em
Ainda em 1986, o Conselho Regional de Medicina do Estado do três mandatos durante a década de 70 - observa:
Rio de Janeiro - não mais sob intervenção federal -, de posse dos "... assumi a presidência da SPR] e uma das minhas metas foi
depoimentos feitos pelos ex-presos políticos, em 1981, na OABIR], abre defender a psicatUtlise de ataques diversos vindas sob as
um processo contra Amilcar Lobo. Neste mesmo ano, a oposição interna formas mais variadas. Meu propósito.foi o.de manter a Psicanálise
à SPR], conbecida como Fórum, leva para uma Assembléia Geral da dentro dos padróes que impeçam sua descaracten:zaçào. lsso me
tornou extremamente impopular entre aqueles que queriam ser
Sociedade alguns desses ex-presos políticos que falam de suas torturas,
psicanalistas sem se submeter ao processo dejDrmação preconizada
da participação de Amilcar Lobo nelas e da conivência e mesmo cumpli- por Freud e instituída pela !PA "95 (os grifas são meus).
cidade dos estabelecimentos psicanalíticos com o terrorismo do Estado
que se instalou no Brasij94.A partir daí, por força de múltiplas pressões, Sobre sua ideologia, enfaticamente confmna: "...jamais fui polí-
notas ofIciais dessas duas Sociedades são publicadas, nos jornaL. de tico. Minha ideologia é a psicanálise!". Sobre os psicanalistas ar-
grande circulação do Rio, abominando a tortura e o estado de terror gentinos Marie Langer e Armando Bauleo, que publícaram na Revista
que se abateram sobre o pais, principaimente nos anos 70. Tentam, Questionamos a denúncia contra Lobo, diz ainda: "... são órgãos es-
com isso, após treze anos da primeira denúncia feita contra Amilcar trangeiros, hostis à psicanálise!"
Lobo, lavar sua honra e esquecer sua covardia e cumplicidade. Em 1988, o CREMER]cassa de Amilcar Lobo o direito de exercer
Algumas entrevistas, dadas por Leão Cabernite ã época, a meu a medicina, o que é ratificado um ano depois pelo Conselho Federal de
ver, merecem destaque, pelo retrato que fazem da "verdadeira" psica- Medicina. É o primeiro caso, na América Latina, de punição a médico
nálise. Sobre o témaino da análise didática de Amilcar Lobo, ele afirma: que tenha partieipado de torturas. Apesar de estarmos em 1988 - um
ano antes da primeira eleição direta para Presidente da República desde
"... tempos depois, começaram a correr rumores no Rio dejaneiro,
de que o Dr. Amilcar Lobo participan·a de equipe de torturadores,
1964 - 0.Df. Laerte Vaz, então presidente do CREMER],na semana do
julgamento, recebe várias ameaças. Por unanimidade, Amilcar Lobo é
Movimentos de Direitos Humanos do Rio e São Paulo eram de que Amilcar Lobo estaria sendo
cassado, tanto no Conselho Regional como no Federal. No mesmo
instrumento de uma facçâo militar - a denominada "linha dura" - que havia sido deixada de lado julgamento, é aberta pelo primeiro ConseUlO uma Sindicãncia contra a
na briga de sucessão do General Figueite9ü. A facção que havia se imposto, representada pelo SPR] nas pessoas de Leão Cabernite e Ernesto La Porta. Posteriormente,
General Leônidas Pites Gonçalves, defendia a "abertura" lenta e gradual.
Estas hipóteses foram confinuadas mais tarde, quando, em 1989, Amilcar Lobo lança seu livro A é transformada em processo que, em julho de 1992, é julgado e, por
Hora do Lobo. A Hora do Cordeiro (Rio de Janeiro, Vozes), em que elogia os Generais Silvio unanimidade, o CREMER]cassa os dois médicos por omissão, conivência
Frota e Fiúza de Castro, representantes da "linha dura" e que haviam se indisposto com a facção do
General Leônidas. A leitura desse livro mostra claramente sua ligação com aquela facçâo.
e cumplicidade no "Caso Amilcar Lobo". Em 1994, covardemente, o
93 Desaparecido político, preso em 20/0]/71, em sua casa na Zona Sul do Rlode Janeiro. Nunca mais ConseU10 Federal de Medicina não ratifica a decisão do Regional: Leão
foI visto. A versão oficial, divulgada pela imprensa, afirma que Rubens Paiva teria sido resgatado Cabernite é suspenso por 30 dias e Ernesto La Porta será novamente
por seus companheiros ''terroristas'' ao ser transportado por agentes do DOI-CODIIRJ, em 28/011
71 julgado pelo CREMER]. Alegam que, apesar de serem culpados, não
94 Para cerca de 300 psicanalistas, 5 ex-presos políticos (Arlete de Freitas, Abigail Paranhos, Cid
Queiroz Benjamim, Cecilia Coimbra e Regina Toscano) deram seus depoimentos num clima temo
e silencioso por parte de todo o plenárIo. 9'5 Trechos de uma entrevista de Leão Cabemite aoJ81 CademoB Especlal- 16/09/1986.

104 10<;
podem ter a mesma pena que Lobo''. e cúmplices.
À guisa de explicações, oS psicanali~tas das duas Sociedades 7vâo houve torluras no Brasil, nenhum pskanaJista foi preso ou
"oficiais" do Rio de Janeiro, entrevi~tados, referem-se de maneira contra- maltratado, os didatas não se constituíam num grupo direitista
que aumentou imensamente seu poder com a ideologia da
ditória ao "Caso Lobo": uns afIrmam - são poucos - que toda a Sociedade
neutralidade e seu pretenso apoJittcismo. E jamais houve um
sabia desde a primeira denúncia que Amilcar pertencia aos quadros de psicanalista torturador, que estivesse abertamente na .repressão.
repressão; outros - a grande maioria - que nada sabiam, pois sÓ tomaran1 Isso é o que se deduz da leitura das Tf!1..Jlstas oflciars da ABP
conhecimento ou na época do Fórum de Debates ou quando de sua (Associação Brasileira de Psicanálise). Aqui como na Europa
cassação pelo CREMER].Ou seja, apesar de serem assíduos membros da (durante o nazismo), o silêncio e o esquecimento parecem .ser a
regra geral"97.
SPRJ, somente depois de oito e quinze anos, respectivamente, é que
souberam quem era Amilcar Lobo. Alguns tentam justificá-lo, ao afmnarem
que todo ser humano, em sua natureza, é um torturador e, através da
teoria dos instintos, teorizam sobre o caso. Outros, psicologizando, IV - A PROCURA DA DIFERENÇA
colocam que Lobo foi seduzido pelo poder, pelas facilidades que os
militares lhe deram, que é produto daquela época e que tinha que ter Os anos 60 no Rio de Janeiro,assistem ao aparecimento de dois
resolvido aquele "problema" em sua análise. outros estabelec~entos de formação analitica que tentam - até hoje -
Sobre a SPRJ, uns comentam, ironicamente, que o grande erro foi marcar posições diferentes da "verdadeira" psicanálise e instrumen~
não ter retirado logo o nome de Amilcar Lobo do Roster. Alguns uma outra fOfilação, sem no entanto atingir a mesma fama, presuglo,
consideram que o "Caso Lobo", até hoje, não foi digerido pela Sociedade: poder e procura que as Sociedades ligadas à IPA.
"foi uma fatalidade", "um choque", especialmente para os analistas mais
novos e para os candidatos, poi~ sempre há uma idealização da função
do analista. AfuTIlam que este "caso" levou à quebra dessa idealização 1 - O INs11TUTO DE MEDICINA PSICOLóGICA
do ser analista, visto que a psicanálise tem fortes vínculos transferenciai~
com a Sociedade, o que é dil'erente nas demais profl~sões. Outros - O IMP é fundado oficialmente pela médica psiquiatra Iracy Doyle,
somente dois - enfatizam que o clÍllla da época era de medo, havia uma em 1953, após sua formação psicanalítica realizada nos E~tados_Unidos,
perseguição grande a todos que criticavam o regime e que, por isso, na William A1onson White Psychoanalitic Society, de onentaçao cultu-
nada se podia fazer. Corria, inclusive, o boato de que, se a direção da ralista no final da década ele 40. Antes, Iracy já contesta a "ortodoxia" e
SPRJ tomasse alguma atitude contra Amilcar, o Exército poderia preju-
, . .
a "rigidez" do grupo de psiquiatras que, no RIOde Janerro, ten:am u~
dicar o funcionamento da Sociedade. Para uns psicanalistas, essa situação formação analítica9'. Quando volta como didata, funda um Insututo nao
nada diz contra a Sociedade, pois foi um fato isolado; entretanto, outros vincul~do à IPA e que se pretende diferente da "verdadeira" psicanálise,
até pensaram em sair da SPRJ ou da SBPRJ, mas não o fizeram.
propondo uma outra formação. ,
A expressão tão freqüentemente usada, em quase todas as entre- O IMP, em seu Boletin1 nO 01, esclarece que, medtante o seu
vistas realizadas, é a de que "eu não sabia de nada". Muitos alegam Departamento de Ensino, "... oferece a psiquiatras, médicos e estudantes
desconhecimento do que aconteceu, recalcam, recusam - utilizando o
próprio vocabulário psicanalítico - e, em realidade, tomam-se coniventes cp KatZ C S Psic~ e Nazismo. Op. cit., p. 223.
Ç6 Esse'~~ no início dos anos 40 -antes da chegada de M. Burke e W. Kemper- é formado por
alguns jovens psiquiatras como o casal Perestrello, Walderedo Ismael de Oliveira, Oswaldo
96 Sobreo assunto, consultar 0>1mbra, eM.8. Omissão, Conivência e Cumplicidade: AnalIsadores
Domingues de Moraes, EIsa Arruda e outros.
de AIgumas Práticas PslcanaIitkas no BrasD Hoje. Mimeogr., 1994.

107
106
ele lneelicina, professores e assistentes sociais, os conhecimentos 1969,por Katrin Kemper e seus discípulos, após sua saída da SPR). Passa
dinânticos, necessários a sua profi'5sào"99. O psicólogo não é mencio- a fazer parte do Círculo Brasileiro de PsicanáIL,e101, poL" no ano anterior,
nado, pois no Brasil, na época, não é ainda uma protlssão regulamentada, Igor Caruso, da Federação Internacional dos Círculos de Psicologia
procurada e de sucesso, como será duas décadas depoL'. Profunda, de visita ao Brasil, faz contatos com K. Kemper para que, no
Ao morrer prematuramente em 19,6, Iracy Doyle não tem ainda Rio de Janeiro, seja criado um núcleo de fOfilação analítica.
uma primeira turma formada no IMplOO e isso provoca uma diáspora: Os primeiros quatro anos são de "fortalecimento e organização
para terminar a fornlação, alguns viajam para os Estados IInidos, outros interna", quando há a fomaação dos próprios discípulos de Katrin. Somente
entram para as duas Sociedades "oficiais" já reconhecida., ou em processo em 1971 o Circulo Psicanalítico é considerado uma "unidade completa"
de reconhecimento pela IPA. do Círculo Brasileiro de Psicanálise, com autonomia administrativa'02 e,
Somente em 1960, quando Hórus Vital Brasil retoma de sua for- cm 1972, já sob a presidência de K. Kemper, abre sua primeira turma de
mação na mesma WAWPS, é que o IMP se reestrutura e, em 1967, abre formação. Desde seu início, aceita médicos e psicólogos e faz parte da
a fornlação para psicólogos. 1\esta época, já está começando a ser pro- lFPS, a outra Internacional Psicanalítica.
duzida a demanda de um "mercado psicológico" e, justamente, para Tanto o IMP quanto o Círculo Psicanalítico procuram Unia prática
nlarcar Unia posiçào diferente das "oficiais" no Rio de Janeiro, o IMP não psicanalítica e Unia fOfilação diferentes das marcadas pelo dogmatismo
pode desprezar esta parcela cada vez nlais numerosa de profi'5ionais e rigidez da IPA. Todavia, suas hL'tórias burocráticas, organizacionais e
"psi". Entretanto, desde a sua reestruturação, o IMP exige do candidato institucionais e suas práticas instrunlentalizam os mesmos dispositivos
ã formaçào curso de especialização ou pós-graduação em Clinica, o que presentes na "verdadeira" psicanálL,e e na formação por ela instituída.
limjta a entrada de muitos interessados e demonstra um profundo Ao consultar os respectivos Estatutos e Regirnent(JSInternos, chm
academicismo e elitismo. atenção a presença de um forte academicismo, tão criticado como
Pretendendo fortalecer as diferen\--:Jscom as Sociedades da lPA, o privilégio das Sociedades "oficiais". Por exemplo, tanto no IMP quanto
IMP, em 1969, fUia-seà InternationaJ Federation of PsvchoanaJitic Societies no Círculo, há a instituição "membros honorários" e "beneméritos". 1\0
([FPS), fornlada, em I<:XXí,
pelas Sociechdes Psicanalítica., "independentes" IMP, os "cursistas", e no Círculo. os nlelnbros associados nào têm o
- não vinculadas à lPA - como a Alemã, a Mexicana, a William A1onson direito de participar e votar nas Assembléias Gerais; no IMP, têm o
White e o Grupo Austríaco de 19or Caruso. Ou seja, uma outra "direito" de eleger representantes junto ao Conselho Diretor. 1\este
Internacional, embora os entrevL,tados - como veremos logo adiante _ estabelecimento, é instituído, desde o início de seu funcionamento, o
tentem mostrar as cnormes diferença., existentes entre a IPA e a lFPS. Conselho de PsicanalL,!aS fOfilado pelo Conselho Diretor"" e nlais cinco
psicanalistas didatas que tomam as decisões nlais importantes. O tão
criticado poder dos didatas continua intacto. No Círculo, os membros
2 - O CÍRCULO PSICANALÍTICO DO RIO DE JANEIRO a.'5ociados (os que estão cursando a forn1ação) podem ser excluídos
através de "... simples julgamento da Diretoria, sem direito a quaL'quer
O outro estabelecinJento que tenta marcar sua diferença com a
"verdadeira" psicanálise e a formação por ela instituída é criado, em
HJl Inicialmente chamado Círculo Brasileiro de ]Jsjeologia Profunda, tem atividades em Belo Horizonte
e Porto Alegre e ligações com o Grupo Austríaco de 19or Caruso.
QC) Burlamaqui, N. Boletim lntemo [MP: ~ero HIstórico Comemorativo dos 30 Anos de 102 Funciona como um Sludy Groupaos moldes dos da IPA, e, após quatro anos, é reconhecido como
Fundação do IMP. Rio de Janeiro, outubro/82, mimeogr., p. 19. "sociedade" pelo Círculo Br3Sileiro de Psicanálise, uma ~spéde de AS?
100 Dessa primeira turma fazem parte: Hórus Vital Brasil. Hélio Pellegrino. Ewald Mourão, Jayme lO3 "O Conselho Diretor é constituído por quatro Membros Psicanalistas Docentes Supervisores ou
Pereira, Rosita Mendonça, Jorge de SOUZl Santos, Sergio Pereira, Claudino Borges Neves, Urano de Didatas do IM? e um representante dos Membro.."Cursistas". In: Regimento !MP, 1974, mimeogr.,
OUveira Alves e Maria Magdalena de Menezes Pimentel. In: Burlamaqui, N. <Jp_ cit., p. ] 3. p.5.

108 109
esclarecimentos; aos demai~- os menlbros efetivos - caberá recurso à Sociedades "oficiais" e que têm também como efeito mudanças em seus
Assembléia Geral"l"'. Estatutos.
Sobre a força da burocracia e a atenção dada a ela no interior Em entrevistas realizadas, alguns anaIisra.sdos dois estabelecimentos
desses estabelecimentos, temos um exemplo: após a flliação ã IFPS, em argumentam que negam a ortodoxia, o dognutismo, a rigidez, a foona-
1969, o IMP, segundo seus próprios documentos, fica numa situação ção academicista, a medicalização da.s Sociedades "oficiais", pois suas
anômala, pois é um Instituto de Formação de uma Sociedade que não formações são mais abertas, mais flexíveis, visto - entre outras coisas -
existe. Assim, em 1974, é fundada a Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle sua base teórica ser diversificada. Se a ba.se é "sullivaniana" ou "freudiana",
(SPlDl, em que há a formação analítica e os "cursistas" não pertencem ã há também estudos os mais variados, chegando até Lacan. Principal-
Sociedade, pois somente quando terminam a fomução têm a opção de mente na SPID (ex-IMP), por influência de Hórus Vital Brasil- introdutor
fazer parte dela ou não. Sob uma roupagem liberal, já que é "uma opção" no Rio de janeiro dos estudos sobre Lacan -, há uma forte tendência
tomar-se membro da SPID, percebe-se toda a organização e burocracia lacaniana.
presentes na IPA, que são copiadas pela IFPS e pelas Sociedades Em realidade, isso ocorre diferentemente das Sociedades "oficiais"
"independentes" a ela vinculadas. que, somente em meados dos 80, começam a diversificar seus estudos e
Também no Círculo Psicanalítico do Rio de janeiro, ocorrem, em leituras com a introdução da Linha francesa. Contudo, a meu ver, apre-
sua própria história interna, algumas situações que mostram como se senta-se o mesmo argumento utilizado pelas cúpulas das Sociedades
está impregnado da ortodoxia e da intolerância reinantes nas Sociedades ligadas ã IPA quando se referem às oposições internas, cisões ou expul-
"oficiais". Por exemplo, em 1978, num Congresso dos Círculos Psicana- sões: a questão está nas diferenças teóricas. A rigidez, dogmatismo e
líticos Brasileiros (há unidades em Minas Gerais, Porto Alegre, Salvador, ortodoxia ta.rubém estão presentes em outros tipos de discursos, "escutas"
Recife e Rio de janeiro), é proposta a criação de mais um núcleo no Rio, e práticas psicológicas: eles estão sendo estinlUlados quando as insti-
em 1991, funcionando em Nova Friburgo. Em realidade, é um grupo tuições que permeiam e se anlalizam nos vários dispositivos sociais forta-
dissidente do Círculo do Rio que pretende se desligar e organizar outro lecem os diferentes instituídos: o saber de deternlinado grupo e, em
núcleo. A reação da direção do Círculo Psicanalítico carioca é a de conseqüência, a desqualificação de outros, a disciplina, a hierarquia,
criticar e imediatamente desligar-se do Círculo Brasileiro, o que representa etc. Ou seja, as práticas "psi" desses dois grupos pouco se diferenciam
a saida da IFPS, pois não são os núcleos que ai estão representados. No da.s que são produzidas e fortalecic!as pelas Sociedades "oficiais".
entanto, o prestígio internacional é inlportante e, apesar de se afastar do A própria ftIiaÇão a uma Internacional - a IFPS - que, segundo
Círculo Brasileiro, o CPR solicita sua permanência na IFPS, o que é declarações dos entrevistados, é bem diferente da IPA, visto não haver o
confJrnudo em 1980. A exemplo das Sociedades "oficiais", as oposições "patrulhamento" sobre seus membros e sim uma cooperação "cientí-
e dissidências não são toleradas, sendo vistas como traições ao grupo fica", demonstra a necessidade de prestigio e reconhecimento interna-
que, por ter sido o fundador do estabelecimento, considera ter direito ao cionais, tão presentes no mundo "psi" e na sociedade em geral. A
seu monopólio. Federação não possui ftIiação individual e Sinl as Sociedades é que são
Em meados dos anos 80, tanto a SPID quanto o Círculo reformam seus membros. Apesar dessas explicações, constatar-se que a organi-
seus Estatutos e Regimentos, num momento em que a sociedade civil zação burocrática dominante na lPA é reproduzida' nessa outra Inter-
brasileira já se encontra bastante fortalecida e clamando com mais força nacional, concebida como "alternativa" - a própria criação deste fórum
por uma maior democratização em todos os sentidos e setores. Inclusi- é uma demonstração desta reprodução.
ve, taie;reformas são realizadas após as "cri<;es"que ocorrem nas :'-Jãoobstante todos os esforços da SPID e do Círculo para serem
diferentes da "verdadeira" psicanálise, eles não têm, nos anos 70 e nos
104 Estatutos doCfrculo Psicanalitico do Rio deJaodro - novembro/1978, mimeogr., p. 02.

110 ttt
seguintes, o prestígio e o poder que as Sociedades "oliciais" possuem no anistas, jornalistaS, filósofos, etc
sentido de atrair os jovens profissionai5 'psi" cariocas para sua formação. A própria criação da C..línicaSocial inscreve-se no quadro já desaito
São, inclusive, acusados pelos "verdadeiros" psicanalistas de não do boomdas terapêuticas "psi" cuja demanda é fomentada pela produção
oferecerem uma formação analítica, não fazerem psicanálL5e, mas uma da "crise da farnilia", que atinge seu auge na década de 70. A idéia para
psicoterapia de base analítica e, por isso, não muito profunda, argumentos essa criação surge quando, um ano antes, Katrin e alguns de seus colabo-
que, COllIO já vimos, são os usuais e cotidianamente utilizados contra os radores, Hélio Pellegrino e Qlaim S. Katz, fazem um trabalho na Faculdade
inimigos da "verdadeira" psicanálise, aqueles que querem denegri-la, Cândido Mendes com pais, os chamados "encontros psicodinâmicos".
aqueles que se dizem psicanalistas, mas que estão fora da IPA. São grupos em que se debatem questões relativas à educação dos filhos,
Gostaria de registrar e apontar que, apesar das análi5es feitas aci- SU3Sdificuldades - questões, como já vimos, bastante preocupantes nos
ma, algumas diferenças existem entre esses doLs estabelecimentos e as anos 60 e 70 para as farnilias de classe média - e que lotam o salão ond'e
Sociedades "oficiais". A facilidade com que tive acesso aos seus Estatutos, são realizados. Não obstante toda a clientela ser de cl3sse média da
Regimentos e outros artigos, prontamente fornecidos pelas suas Zona Sul carioca, fortalece-se a idéia de uma clinica que possa atender
Secretarias, senlsentitnento."i persecutórios e/ou anleaçadores, não ocorreu à população de baixa renda com a implementação de trabalhos grupais.
com as Sociedades "oficiaLs", nas quais me foi muito difkil conseguir Esta é uma das razões que levam alguns profJSsionais "psi" "progressistas",
qualquer documento of1cial. Estes me foram fornecidos por alguns muitos chegados do exilio, a se incorporarem à Clínica Social. Sua proposta
psicanalistas isoladamente. Neste ponto, bá "diferenças" com os guardiães atrai a muitos e a ilusão de se fazer um traballlO por meio do qual se
do "Santuário de Vesta", que, de um modo geral, não permitem aos possa atender às pessoas sem condições de pagar um tratamento
leigos a leitura de seus documentos "sagrados", que são de circulação psicológico privado está presente em toda a sua história. Em realidade,
interna e, alguns, confidenciais. o atendimento que se faz a populações marginalizadas é ínfimo!06 e a
grande demanda de sua clientela provém de estudantes e intelectuai5 da
Zona Sul do Rio de janeiro.
3 - A CLÍNICA SOCIAL DE PSICANÁLISE Apesar disso, e justamente por isso, à medida que a Oínica Social
de Psicanálise expande seus atendimentos e um número cada vez maior
Embora não reconhecida pelos analistns do Círculo como fazendo de psicólogos a ela se liga, as Sociedades "oficiais" se inquietam. Assim,
parte de seu estnbelecimento, a Clínica Social de Psicanálise, fundada em 1975/76, a direção da SPRj chama Hélio Pellegrino e sugere que o
por Katrin Kemper e seu grupo em 1972, será explanada um pouco nome seja substituído para Clínica Social de Psicoterapia. A psicanálise
aqui. Penso que, se não fosse o empenho de Katrin e do pessoal do não pode ser conspurcada pelas propostas contidas no projeto que se
Circulo, talvez este projeto não tivesse saído do papeL Outras Socíedades tenta desenvolver na Qínica Social, ainda que tais propostas ficassem
de fonnação, no Rio de janeiro, são chamadas, nlaS somente um somente nas intenções e discursos de seus integrantes.
representante do 1MPe Hélio Pellegrino - que já é da SPRj - participam Há outras grandes ilusões contidas neste trabalho e muito presentes
efetivamente do projeto. É verdade que, com o decorrer dos anos, a
105 Almeida, KM. (Coord.). Reflexão Teórico-ClínicaSobre a Inserção da PsicanáHse no Social:
Clítúca Social ultrapassa os muros do Círculo Psicanalítico, englobando A HIstória da Clí:nka Social de Psicanálise Anna Katrln Kemper e Suas Perspectlvas
diferentes profJSsionais "psi", de diferentes formações e abordagens, sendo Futuras- Relatório Técnico Ill, Módulo N - Rio de Janeito, FINEP, novembro/1989, mIrneogr., p.
seu quadro clínico formado por analistas em formação e profissionais 26.
106 Sobre o assunto, ver o trabalho desenvolvido no Morro dos Cabritos (Rio de Janeiro) por João
que pretendem ser psicanalistas. "Desta feita, foí mediadora e inter- Batista Ferreira, psicanalista do CLtcul.oPsicanalítico do Rio deJaneico. In: Ferreira,]. B. "Clinique
locutora do movimento expansionista da psicanáli,e"lOs nos anos 70, Sociale de Psychanalyse et la Favela dos ('.-abritas". In: Macedo, H.O. Le PsychanaJyste Sous la
Terreur. Vigneux, Ed. Matrice, s/data, 61-84.
congregando diversos segmentos interessados na psicanálise, como
113
112
durante a gestão de Hélio Pellegrino de 1978 a 1982107. Lma delas é a de cai o AI-5 e há mudanças na Lei de Segurança Nacional, mudando as
que a psicanálise poderia ser mais um veículo da chamada pcnas a que estão condenados muitos presos políticos. Condenada ã
"con..''iCientização'', "... facilitando as VL.1.S de expressão num mOlnento o prisão perpétua, Inês começa a ver a possn)ilidade de sair e isso faz com
regime ditatorial exige n1utL~moe alienaçào·'. Outra é a "postura assis- que se sinta ameaçada; por isso solicita "paio psicológico e discute com
tenciaJista" que se tr.lduz no discurso de Ilélio PeUegrino pela "... fórmula o tempeuta tais questões e seu cotidiano na pri'iào. O profc'5ional enviado
onde os "possuidores doanl aos despossuídos", fórmula que encontra pela Clínica Social de Psicanáli,e dumnte cerca de SeL' meses visita Inês
perfeita ressonância no caráter religioso, cristão, deste fundador" lOS. no Presídio de Bangu semanalmente, e apresenta-se ãs autoridades como
A questão assi,tencialista "dos possuidores doarem aos des- um amigo, inscrevendo-se até mesmo no DESIPE para obter autorização.
possuidos" liga-se também ao bto de que os que promovem a Clinica Mesmo antes, na prinleira metade da década de 70, alguns atendimentos
Social de Psicanálise são alguns dos psicanalL,tas mais procurados no " pessoas que estão n" clandestinidade são realizados. Em função da
Rio de Janeiro, aqueles que, em seus consultórios p"rticulares, têm uma perseguição política que paira sobre esses militantes, muitos são atendidos
extensa clientela, aqueles que - como todos os outros, à época - bene- sob nomes falsos.
ilcialn-se com as sobras do "lnilagre econômico", Compreende-se, assim, A própria gestão de Hélio Peilegrino em muito veste o slogan da
a ambigüidade presente na atuação desses psicanalistas. anLstia anlpla, geral e irrestrita e, num dos Sitl1pósios protnovidos na
':.1.CSPAKK que abriga não sô ~ mas sobretudo - intelectualç de
ruc pela Clinica Social de PsicanáIL<e,em fins de 1980, novamente vem
esquerda, conforme nos mostram as refert>ncias da.ç entm·'Í.çta.çe à lOna o caso Amilcar Lobo e se desencadeia a crise da SPRj.
outras Jantes pesquisadas, (.. ,J nutre-se das sobras do "milagre Apesar de todas as ilusões e ambigüidades assinaladas, é impor-
econômico" que permite que doaçõés (,. ) ocorram, que anali.\tas tante que se resgate esse lado comjoso de muitos analistas da Clinica
tenbam bora.\-e."dra.çpara doar. a.'Osimcomo tapetes, geladeiras,
Social: um" faceta bonita, de despreendimento, de solidariedade "u-
enfim, é o milagre, ou pelo menos ainda uiRoram aí as reper-
cussões do mesmo "UI). mam que, em muito, ajudou a algumas pessoas marcadas a ferro c fógo
pelo regime militar como portador"s da peste.
É durante a gestão de Ilélio Pellegrino que" Clínic" Social maL, se
amplia com a proposta do Núcleo de Atendimento Terapêutico"
Psicóticos, a organização de concorridos Sinlpósios sobre "Psicanálise e v - O MOVIMENTO DOS PsICÓLOGOS E O
Política" e "PsicanáIL,e e Instituição" na rue, o lan\-':lmento do livro
"PsicanáILc;ee Política" e muitas outr3.."iatividades. PATERNAiISMO DOS PSICANALISTAS
Data desta época, tanllJém, o atendirnento a ex-presos políticos,
perigosos "terroristL';" então cumprindo pena. Um exemplo é o caso de 1 - A PSICOLOGIA: SEU BOOM E AS FACUlDADES PARTICUIARES
Inês Etienne Romeu 110 que, em 1978, estando presa em B;mgu, cumprindo
pena de prL,ão perpétua, solicita a uma ;mug" "poio psicológico. Segundo Quando ocon'e o golpe de 1964, há no Rio de Janeiro somente
a própria Inês, em final de 78,lIt com a intensifica\;:ào dos movinlentos uma universidade que mini,tra, desde 19)7, o Curso de Psicologia: a
de anistia e o início do processo de "distensão lenta, segura e gradual", l'uc. Em São Paulo, três universidades o fazem: a llSP, cujo curso é
iniciado em 19)8, a PIIC, em 1962 e o Sedes Sapientiae' ". Ainda em
107 o
inicio da gestào de Hélio coincide com o adoecimento de K. K(,mper. seu afastamento ck
muitas atividades e sua morte ",m 197b.
J08 Almeida, K.M. (Coord.l 0r. cit., p. 31.
lU \b. época, o Curso de Psicologia da PUC ~ o da Faculdade de Filosofia "St'des Sapientbe", que
]m Idem, p. ;-5
havia sido criam em 1933, como a primeira Faculdade de Filosofia, Ciências (' Letras do Brasil. O
110 Em emrevista concedicLa. Inês :lulori7Du-me a citar seu caso (' seu nome.
"Sedes" esteve vinculado à rue até 19i4, quando, então, surge como Instituto Sl'dcs Sapientiae.
1]1 Final de governo do Gener.:tI Ernesto GeiseL

114 11';
1964, é criado, no Rio de Janeiro, o ouso de Psicologia na UFRJ e, em da Refonna de Ensino Superior mas UIna série de outros atos, como a
1965, o da UEG (atual UERJ). Ou seja. no eixo Rio-São Paulo, em 1965, nova Lei do Ensino de Iº e 2º graus''', o jubilamento e o decreto-lei 477,
funcionam seis cursos de Psicologia: três em universidades privadas e que tem o poder de desligar e suspender por três anos alunos e
três em universidades públicas. Este panorama mudará a partir dp final professores envolvidos em atividades consideradas "subversivas".
de 1960 de forma bastante brusca. Entrementes, estas refornms, que objetivanl dilninuir o acesso à.o:;
É no bojo dos movimentos contestatórios de 1968 que o governo Iniversidades públicas, não conseguem seu intento. Asslste-se, no final
militar apela, através da Reforma Universitária u" para o setor privado da década de 60 e no inicio da de 70, a um aumento do número de
como forma de resolver a chamada "crise universitária". Já na Cons- candidatos aos vestibulares, os chamados "excedentes", como efeito da
tituição de 1967, encontram-se alguns di'positivos que irão nortear as galopante ascensão social da claBse méelia. Não sendo possível conter
futuras reformas educacionais, como o fortalecimento do ensino particular tal pressão, o impasse é solucionado lançando-se mão do setor privado.
através da ajuda técnico-financeira do governo. A partir dai, expande-se Entram em cena maciçamente as faculdades particulares, pois o governo
o setor privado, principalmente, em três áreas educacionai"}: nos cursinhos autoriza a criação de cursos superiores a um nllmero cada vez maior de
pré-vestibulares (que antes existiam em número limitado), nos ensinos antigos colégios ele Iº e 2º graus e cursos pré-vestibulares. !lá um
supletivo e no superior de graduação e pós-graduação'H crescimento explosivo de faculdades privadas para atender àqueles que,
A Reforma Universitária é feita de forma autoritária, impositiva e tendo sido rejeitados pela rede o[kial, desejam obter um titulo univer-
antidemocrática, sem nenbuma participação da chamada "comunidade" sitário.
universitária. Na midia, assiste-se a constantes apelos ele que a educação é o
"Foi assunto de gabinete. primeiro do própn'o Presidente, melbor investimento de uma sociedade, fator fundamental para a
decretando o inicio dos trabalhos; depois de uma comi.çsilo mista mobilidade .social (' 1110la propulsora do desenvolvimento econômicolF;
(MEC-USAID), jazendo uma análise cu/as recomendaçóes não são
produzem-se subjetividades voltadas para a ascensão social via educação,
conhecidas e,finalmente, de um grupo de trahalho de dez pessoas
nomeado pelo Presidente"]]'
via Universidade. Com isso,
"o..ç estabelecimentos de ensino particular />a."sam a jazer da
Seu principal objetivo é diminuir e mesmo impedir a pressão mucaçao um negócio Este negocio Jloria tanto mais quanto
exercida pela classe média para ascender socialmente via Universidade. aumenJa o congestionamento diante das porta.~da." unil1(!rsídades
Tal fato, caracterizado como "crise universitária", agrava-se ainda malS oficiais ( ..), A maior parte desses estabeú>cí,wmtos parliculares
pela pressão estudantil que atinge seu auge em 1968. Estas pressões funciona à noite, para poder atender à demanda da população
atilla. Cobram taxas bastante elevadas, ( .) e ministram cursos de
instituintes se tornam perigosas, pois significam, acima de tudo, uma
baixa produtividade e qualidade "Ilfl
ameaça à "segurança nacional", visto que o descontentamento estudantil
está sendo canalizado para atividades - como a clandestinidade e/ou a
luta armada - sobre as quais o governo militar não tem, de início, controle. 116 Que pregam, principalmente, a proflssionaliZl.ção do ensino medio, como forma de se encaminhar
Para administrar melhor a situação, utiliza-se não somente a Lei o aluno, antes de chegar à Universidade, para o ml~rcado de traballlO. Dai a ênfase dada, no
período, às proflSSôes tecnicas. Sobre o assunto ver além da Op .•dt. de Freitag, Cunha, L.A.
Política Educacional DO Bra.'iU:A Profi."lsionalização do Ensino Médio. Rio de Janeiro,
Ainda no fInal dos anos 60, uma outra faculdade vinculada à pue oferece o l;UrS()de Psicologia: FJdorado, 1977
a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras São Bento. 117 É a l'eoria do Capital Humano. Sobre o assunto ver Frigotro, G. A Produtividade da Escola
113 Trata-se da Lei da Refonna nQ '5'540/68. Sobre o assunto ver Freitag, B. Escola, Estado e Sociedade. Improdutiva. São Paulo, Correz, 1986: Souza, M.J.S. Os Empresários e a Educação. Rio de
São Paul0,.Moraes, 1980. Janeiro, Vozes, 1981 e Coimbra, CM.R ~A..", Teoria.s Educacionais Hegemônicas nos Anos 70 no
114 Freitag, B. Op. ciL, p. 81. Brasil'", In: Cademos do [eHF, n" 23- UFF, Rio de Janeiro, 1992.
115 Idem, p. 86. Na época era o Marechal Artur da Costa e Silva. 118 Freitag,B.Op.cit.,p.113.

tt6 117
Os cursos de Psicologia - atendendo a essas demandas produ- Psicologia como professores. Principalmente na l :SP, desde 1958, quando
zidas - florescem assustadoramente neste período c, já em 1973, a rede é criado o curso de Especializa,'ão em Psicologia Clínica, participam
privada participa em 66% das suas matrículasll9 Concomitantemente a muitas figuras dessa Sociedade, C0I11()Durval Marcondes, Lygia de
este crescimento do "mercado psicológico", os cursos de História, Filosofia Alcântara do Amaral c Juclith Andreucci. Posteriormente, no curso de
e Sociologia vão gradativamente sendo diminuídos e mesmo esvaziados; graduação de Psicologia e no estágio de Clinica outros psicanalistas,
alguns são extintos. além desses tanlbém estarào presentes, COlno Virgínia Leone Bicudo,
l

:"ia graduação de Psicologia, produz-se uma "certa" Psicologia. Armando Ferrari, Laerte Ferrào, elcu.!.
Desde seu início, está impressa a marca cb tradição positivista; exempJos Desdc os primórdios dos cursos de Psicologia em São Paulo, os
são a hegemonia do Behaviorismo e de uma Psicologia Social que psicanalistas apóianl e respaldam teoriC3mente esta formação.
reproduz lllecanicamente conceitos e técnicas de estudo de inspiração São os médicos-psiquiatr:Ls e neurologist'1s - os que desde a década
norte-americana. É o domínio da psicologia experimental positivista com de 30 lutam contra a implantação da psicanálise como uma nova
suas características de cientificidade, neutralidadc, objetividade e metodologia terapêutica - que nos tlnais dos anos 50 e início dos 60
tecnicisnlo. A própria psicanálise ensinada - e, em certos cursos, hege- fazem grande pressão contra as atividades dos psicólogos. Tentam,
nlônica - nesses cursos de graduação também está marcada por este inclusive, suspender o Curso de Especializaç'io em Psicologia Clínica da
positivismo e pela "psicologização" da vicia social e politica, seguindo os IISP''', uma vez que alguns psicólogos desse curso e do que há no
JJlodelos produzidos na época e já citados'''. (ima certa clinica torna-se Sedes1"õ4 já atuam como terapeutas.
a grande demanda dos estudantes de psicologia que sonham com seus
''!-Iama algum Jíclere,çdesse mot'Ímento medico contra os psícôlogos
consultórios privados; os psicanallstas, seus modelos de referência. O Um deles era o Parti0 Fralettí, que era um psiquiatra de ceria
atendimento privado é o que predomina em detrimento do trabalho em fama. Mais tarde foi diretor do Manicômio ju4iciârio r. . i Achava
outros setores, o que atende às subjetividades donlinantes então criadas que terapia era um tratamento e por isso det't"7ia estar na alçada
e alimentadas ao longo dos últimos anos. dos médicos,- o psicólogo nâo tinha nada a fl("- com isso (. _), Dai
se iniciou um proces,so delechamento do Curso de Especialização
Desde a sua regulamentação, em 1962, a prol1ssão de psicólogo de Psicologia Clinica da u.sp "12, (Wifo meu).

marca este profi'ssional como aquele que "abranda c resolve os pro-


blemas de desajustamentos""', bem aos moldes do que lili assinalado A transcrição do texto acilua prende-se ao fato de que () per-
anteriormente. sonagem citado estará ligado ao aparato repressivo brasileiro nos anos
70. Paulo Fraletti, além de diretor do Instituto Médico Legal de São
Paulo, em 1970 - período em que vários legistas fornecem laudos falsos
2 - OS PSICÓLOGOS PAUUSTAS E A SBPSP a presos políticos Inortos sob torturas, pois não se rCferC1TIàs torturas
sofridas, simples111cntc corroboram a versão oficial da repressãollb -,
Em São Paulo, diferentemente cio Rio de Janeiro, os psicanalLstas
122 Sobr..::o assunto, ver, RoreUlo, E.Z.F, ()p. cito
da SBPSP estão presentes massivamente nos cursos de graduação de 123 Idem
124 O Curso <k Especb.UZlção em PsicoloJ':ia Clínica do Sede,~ toi iniciado um ano antes do da USP,
119 Dados apresentados por Freitag, B. Op. cit. em 19';7
120 Sobre a influência dt psicanálisL: nos cursos de graduação, notadamente na PUe/RI e L:SP ver os 12') BotclllO, r:.Z.F, Op. cit., p, 171 ])epoimento dado à autora.
trabalhoS de Figueiredo, A.C.C. Op. cit.; Silva, P,S.!.. 110nnação do Psicólogo. Disserução de 126 Sobn;: o assunto ver Arquidioce$c do:.:cSão Paulo. Projetf) Brasil Nunca Mais- 0'" Funcionários,
Mestrado - PUC/SP, 198-; e Botelho, E.Z_F. Op. dt. tomo 11,voi. 3. São Paulo, IW1'í,p. 127 Paulo FreJetti consta lU lisu de medicos legistas 1igado..~i
121 Ver sobre isto o próprio decreto-lei que regulam<.'nta a profi,<;sàode psicólogo nº 4119162 e o rl'-pres.~ào.() Proieto Bra.~nNunca Mai~ compreende ]2 volumes, dos ({tiais existem somente 2';
Parecer n\1403/62 de Valnir ehaga.~ que fixa o curriculo mínimo c a duração do Curso de Psico]ogi::t exemplares doados pela Arquicliocese de São Paulo a entidaws de Direitos Humanos no Brasil e
no exterior. Este Projdo, í.ksenv()!vid() sigilosamentç por cinco anos, ,:,a tran~crição de todo,~ os
AmJ)OScitados em Psicologia leJ;islação. Brasília, CFP, Série A. n" 1, 1976, pp. 7, [7,31 e 3'5.

118 119
também é, como apontado acima, psiquiatra e diretor do Manicômio discutir por alguns meses - até a decretação do A].s, no fmal do ano -
judiciário do juqueri, onde, no início da década de 70, estiveram questões curriculares, pedagógicas, etc. em assembléia.~ paritárias. Na
"internados" alguns presos politicos127. Faculdade de Filosotla da USP, são ocupados o Bloco 10 (que sedia a
Este é um dos que fazem pressão contra a nascente profissão dos Psicologia Social e Experimental) e a Clinica (onde os alunos do 4º e ~º
psicólogos. Entretanto, adotar enfoques maniqueistas e corporativos nesta anos estagiam). Nesta última, a ocupação atinge proporções tai, que
análise pode nos levar à armadilha de afrnnar que o movimento dos culmina com a saída de vários professores, dentre eles os psicanalista.~
psicólogos, que conta com o apoio e o respaldo teórico dos psicanali~tas que lá estavam desde o inicio do curso de Psicologia.
da SBPSP, é progressista para a época - anos 60 e 70 -, visto ser Com a Clinica de Psicologia ocupada praticamente durante todo o
pressionado por figura tão retrógrada, obscurantista e fascista. segundo semestre, oS atendimentos são paraHsados, porque muitos
Todavia, quero mostrar que essas pressões não vão significar estagiários e n1esmo professores consideram não haver condições para
necessariamente que um grupo é "retrógrado", e o outro progressista. i'5o. É interessante ler sobre o assunto alguns depoimentos como:
Como afirmei anteriormente, não é o fato da SBPSP aceitar psicólogos ':4gente fez muita questão defalar da posstbiJidade de atendimento
em sua formação que irá caracterizá· la como mais aberta, mai, flexível e teve um grupinho que se colocou contra, k:>tnhroque dizia assim:
que as outras duas Sociedades "oficiais" do Rio de janeiro. Pela análise 'n gente nilo tem condições de atender cem, essa pressão
que fiz das instituições instrumentalizadas por essas Sociedades, fica da ocupação de vm;l!s" E era uma coisa que a gente discutia
muito, "que ndo tinha por que não atender .. Ou. "Não foi
claro que, apesar da aceitação do psicólogo e de outros profissionais, do
nada simbólica fi invasiio, os c/u'ntes com hordrio marcado nao
respaldo teórico dado ao curso de Psicologia da USP - o que não ocorre puderam ser atendido..ç, ninguêm foi trahalhm~ bloquearam tudo
no Rio de janeiro'" -, tanto a SBPSP quanto o movinlento dos psicó· Acho que os alI-1tros não elltendiam. acho que os invasores
lagos paulistas estão coerentes com os modelos de subjetividades pro, não eram alunos nossos, eram os alunos dos primeiros anos,
mns eles MO Unham noção nenhuma di.) que era lima
duzidos naquele momento, aceitando e fortalecendo demandas também
aínica, eles não tinham feito ainda estagio mn Clínica. Não
produzidas. Por sua vez - como já foi demonstrado - estimulam essas ti"batn "('filo de éticnJ NenbtnnaJ Nenblmul! P./esimwiram
demandas e geram outras também coerentes com as modelizaçôes da e pronto.' " Ou: "._.Heles acharam que n6s podíamos continuar
época, instrumentalizando as instituições "verdadeira" psicanálise e atendendo os pacientes com aquela IJalbúrdia, se bem que eles
formação analítica. Um exemplo das práticas que são fortalecidas por "ilo tinham acesso ao que era um atendimento
psicólogico. Os alunos eram bem primitillOs, bem no comecinho,
estas instituições é quando em 1968 - já caracterizado como um dos o pe.'~soalse formava em ;:3,em 68 del'ía estar no F, 29 ano "IN
momentos instituintes da sociedade brasileira e mesmo mundial - (grifas meus).
analisam,se as postuf'JS desses psicanali,ta., ligados ao curso de Psicologia
e de alguns de seus alunos. já foi dito que o movimento estudantil em o modelo "psi" de atendimento já está marcado nos alunos de
1968, em São Paulo, além de ocupar alguns espaços da USP, consegue final de CllrsO; os c1ernais,que estào nos primeiros anos, nào são "enten-
didos" no assunto, ainda não estão "contaminados" pela neutralidade,
pela assepsia que deve comandar a reiacào terapeuta/paciente. I\s
depoimentos feitos por ex-presos politicos nas Auditorias Militares e de toda a documentação
constante nos processos do Superior Tribuna] Militar. Universidades e o tnovimemo estudantil em 19(i.Hfervilham, mas os
127 Sobre o assunto, o ~tratamento~ dispensado a esses presos políticos c a responsabilidade do atendimentos na Clínica da IISP devem ser mantidos longe de tudo isto;
referido psiquiatra, ver: ]I.! Relatório da Comissão Andmarncomial da Prefeitura de São
Paulo -1991, mimeogr. e reportagem de Silva, A. V. uDitadura Militar: Loucura Armada". In: Isto
.são espaços onde a vicb e o mundo não podem penetrar. A trans-
f/Senhor- 29/05/1991. versalidade é terminantemente pl'Oibicla!Há alguma diferenç'a da fonna·
128 Como veremos mais amante, no Rio de Janeiro, no início dos cursos de graduação em Psicologia,
há muito poucos psicanalistas das Sociedades "oficiais" presentes nas Universidades. O respaldo
teórico aos psicólogos será dado de outras formas em caráter privado. Izt) Trechos de depoimentos cb.df)s a Botelho, E.z.-F. Op. cir. pp, 202, 204 c 20,.

t20 121
ção analítica que foi descrita em outro item? Acredito que não: é a mesma se") Discordo deste último depoimento, pois suas práticas - como já
postura que deve ser :Jdotacia por todo terapeuta "sério" c "conlpetente". demon.strei no decorrer de todo este Capítulo - são coerentes com suas
A intluência da psicanálise na Clínica da 1lSP é um tito e a reprodu,'ào opções políticas, pois produzem/reproduzem c fortalecem os modelos e
de sua fomJaçào se dá sem grandes diferenças. as subjetividades ilegemônicos da época. 1Im claro exemplo disto é
Apesar di,"o, alguns psicanalístas da SRPSP e professores da llSp quando, ainda em 1968, dentro do movimento estudantil e, em especial,
mostram a "fragilidade analítica" do curso. Afimlam: "... como se aquele na tISP, questionam a tentativa de romper a verticalidade da relaçào
curso lá fosse [onnar alguém eonl experiência nesse sentido .,."; ou: professor/aluno, a participaçào paritária dos estudantes em questôes
estou jJondo mais a orimtaçào que (., 1 tinba no inido, era ligadas à reformuiaçào dos currículos e outros aspectos pedagógicos.
mai, de jOrmar técnicos, Imrque jJn'Cisat'a dar a'>.tisténciapam o :'-lumadas assembléia.;;;cuja pauta é a reestnltura~'ào do curso de Psicologia,
pe.'>.'ioalpoht'e'· há a noticia da prisão de Iara lavelbergl31 Alunos e professores fazem
um abaixo-assinado solicitando providências ao reitor da USP. Assim
Ou ainda: "... era toda uma idealização ( .. ) um negócio psicológico
...) formar analista ...". Ou mesmo: que o assunto é levantado, um psicanalista da SBPSP c professor desde
o início ela graduaçào de Psicologia, apoiado por grande parte do pessoal
eles tinham encaminhamento tambem, assim para análüe da Clínica, reage da seguinte forma: "Quc tinha vindo à assembléia para
Quem quise.s..'(!Jàzer análi..";epuderia ir à Sociedade de Psicandli'if'
discl.ltir currículos e não política"13Z.
ou entrm' naquele tipo df? trabalho de atendimento dos próp,ios
alunos da Sociedade Acho que e.vistia uma proposta deste tipo, A instituição formação analítica está presente, da mcsn1a forma
não urna obrigatoriedade, mas uma proposta para quem quiçesse que a acadêmica, com todas as suas caracterí.'ôjticas de arrogância,
iniciar análi,e"
autoritarismo e itnposiçào de subrni'ôjsào, obediência irrestrita ao saber
Alguns dos alunos, i época, COlllcntam: instituído e à hierarquia, em um significativo pronunciamento dos
prclrcssores-psicanalistas:
"Eles(os psicanalLçtasl tinham um papel imponante (XJrque, nesça
época, eú's eram usdefensores da Psicandlise mais barata, '7odos os professores da Clinica assinamos uma declaração, acho
de alguma entrada da Pdcandlise /Hlr(l a pU/llúação mais qURfoi o único grupo da Faculdade que se opôs, nao sei se bouve
carente Eles eram muito curiosos /JOrque Imliticamente eles mai..çalgum, mas acho quefomos só "ós que nos opusemos
tinbam opçàes de direita, mas a prática deles não era uma prática a aceitar essa paridade ( ..l. Os alunos esta/.!am conseguindo
direitista, f.,,) Sempre .fizeram parle de.'>.çe movimento de libe- que a própria ràculdade cedesse muito do que eles queriam e
ração da PsicaruUise, instalar a Psicanáli.,e nas prefeituras, justamente o no.'>.wgrupo foi um que se opôs, tanto que, naquela
em crecbes, etc, o tempo todo elesficaram em cima di.<iso,deltma ocasião, muitos professores safram do curso (. l. Muitos profes~
lJOpuJarização da Psicandlise "liO (grifas meus). sores saíram porque se opuseram a essa paridade que os alunos
queriam; de fato, eles achavam um absurdo que alunos sem
Quen1 ainda não possui uma fOffilaçào psicanalítica feita - é óbvio nenbtmulfonnoç(10 em Psicologia Clínica, porque ndo tinham
- na SBPSP, nlas apenas U1l1Curso de graduação de base analítica, no tido Psicologia Glínica, quisessem dizer como e que se atende um
minimo, torna-se UHl técnico, não um psicanalista! E são estes técnicos cliente, como e que se organiza uma Clinica, eles achavam que
de jeito nenhum tinham possibilidade de querer interferir; então
que deverão "popularizar" a psicanáli..<;catravés do atendimento à
foi um NÃO assim redondo, o nosso grupo nem i{ueria dis·
população "carente". Para os pobres e para os serviços públicos, os Clltir o assunto. "113 (grifas meus)
técnicos, os psicólogos; para as classes média e média alta, os consul~
tórios privados dos psicanalistas. Seriam estes, portanto, os defensores L3] Ex-aluna do Curso de Psicologia da trSP, em 68 já profes.sora. Vai posteriormente para a
ele uma "psicanálise mai, barata", de "uma popularização ela psicanáli- clandestinidade e luta armada. Suicida-se, ao se ver cerClda pelos órgãos de repressão, em 20/08/
7], em Salvador. Sobre sua vida, comultar Patarra,j. Yara. Rio de Janeiro, Ro~ cbs Tempos, ]992.
rm Idem. pr- 14~, 11'i, H'), 146, 214 tO' 2]') L32 Botelho. ELE Op. cit., p. 18').

122
:\0 início de 69, a maioria dos psicanalistas da SBPSP sai do curso para a Formaçào de PsicanalLstas de Crianças que, em seu artigo Iº, diz:
de Psicologia da USP. Aos poucos, entram outros mais jovens e alguns "Poderão ser aceito ..s como aspirantes ( ...) menibros titulares e a.')sociad()s
também ligados a esta Sociedade, mas nenhum do grupo anterior, do da Sociedade Br.lsileira de PsicanálLse do Rio de Janeiro""'. É tarde, pois
grupo dos didatas. já há uma legitimidade dessa parcela do mercado para os psicólogos.
Todos estes aconteciInentos. ocorridos principalmente durante a Em 1970, Fábio Leite Lobo, diretor do Instituto de Ensino da SPR).
ocupaçào da Faculdade de Filosofia da lJSP, em 1968, são também convida alguns psicanalistas argentinos como Eduardo Kalina c Amlineb
situações analLsadoras da SBPSP, da "verdadew.l" psicanálise e da for- Aberastury - especialLstas em terapia de crianças e adolescentes - para
maçào analítica presentes no curso de Psicologia. 1%8 [oi um dos grandes que dêelTIseminários no Rio de Janeiro. Alguns entrevi·;;tados obscrvatn
analisadores a nivcl Ilumdia) e, no Br.Jsil, dentre DuteIs coi<;;as, os acontc- que esse convite da SPRJ prende-se ao fato de que os psicanalistas, na
citnentos na USP revelanl "por si mesmos" c desnaturalizam as práticas naquela ocasião, por não terem interesse na terapia infantil, dela pouco
psicanalíticas entào hegemônicas. sabem; por i<;so, () convite feilo aos argentinos, Tanlo que, de início,
esses selllinários seriam aberlos a oulros profissionais) o que é vetado
pela Sociedade, elnbora i.•••lo baraleasse os custos,
3 - O MOVIMENTO DOS PSICÓLOGOS CARIOCAS

:'\0 Rio de Janeiro, difercntcIl1cIlle de São Paulo, o lllOVU11etllo 3.1 - O Instituto de Orientação Psicológica
dos psicólogos não conta com o apoio das Sociedades "oJJciai.•• ", mas ao
contrário, sofre sua oposição. F:íbio Leite Lobo, na época com vanos gnlpos de superVlsao,
"Os psicólogos cariocas na dilJisdo do "mercado clinico" (".) se fom~dos em sua maioria por psicólogos que trabalham com atenditnento
ocupam definitiuamente da área infamíl_ Em sua grande maian·a, infantil, sofre forte pressão de SClLSsupervisionandos c forma um lllrso
sao mulberes que conse{:uem projissionalizar uma fun,ção paralelo ao da SPRJ, dado pelos mesmos psicanalL,tas argentinos. É a
marcadamente jeminina que tia de "cuidar" das cn"ançaseexpra1.- origem do Instituto de Orientação Psicológica (IOP), que funciona
la com a k~ttimidade que os psicanalistas e u." institttiç6es do estado
até 1974. C0111lItl1:1 freqüência de cerca de cem pessoas. Realizan1-sc
lbes outorgam Ma.<> elas próprias se ana/içam com os psicanalista.<>-
médicos das Sociedades o/leia L" que teriam a "competência" seminários, estudos de casos clínicos e grupos de supervL.;;ão. A única
necessária f]ara tratar de adultos" 1'\4. cxigência é a experiência pessoal em análL.;;c,cmbora fique claro que
isto não se trata de Ullla fOflnação, que este curso não autoriza ninguém
No Rio de Janeiro, o atendimento psicoterapêutico infantil é
a ser psicanaIL,ta. Tal exclusào é enfatizada por Fábio Leite Lobo e pelos
desqualilkado pelas Sociedades "oficiaLs".Além de ser considerado, na
próprios psicanalistas argentinos convidados, ligados à APA.
época, como prática que exigia menos qualificaçào, esse tipo de aten-
dilncnto é também menosprezado no mercado de trabalho, pois "vale" Desde 196~, Anninda Aberastury, mensalmente, a convite da
praticamente a metade do que é cobrado pelos psicanali..,tas para uma SBPSP, vai a São Paulo dar scnlÍn:írios no Curso ele Formaçào de Psi-
terapia de adulto. canalistas de Crianças. No Rio de Janeiro, é a primeira vez que isto
ocorre. Outros argentinos também participam, COlno Maurício Knohcl-
Quando, em meados de 70, o mercado terapêutico inJantil já é
que substitui Anllinda Aber.lstury após sua 1110rtCcm 1972 -. Eduardo
monopólio dos psicólogos, a SBPR) institui, em 197~, o Regulamento
RoJlas, Leon (;rinberg, Maric Langer, David LilJcnnan e Amaldo Rascovsky.
É a conhecida prilneira gcraçào dos argentinos que, apesar do seu
l~j Idem, p_ ]il6.
1:l'Í Figueiredo, A_c_e Op. cit., p . .'16. Sobre () assunlo, consuJt:u também Silva, M.A.C.R.L. Analisa-se
Uma Criança, DissL'rklÇ;lO dt; I"leslrac!() - PI1C/SP, 198'5.
1:"\') E.~lalulosJaSBPRJ,Up.cit ,p_()1

124
que provisoriamente - ao hegemônico, ao que está dado, ao que é
otkialisnlo, em muito "ajuda" o movimento do~ p~icólog:os no Rio de
produzido e percebido como natural. Acreditam que a prJtica psicanalítica
Janeiro. Não somente pelas inovações técnicas que apresentam - como
pode ir tl1udando em seu próprio interior para formas nlaL" t1cx.íveis,
as terapias breves, os trabalhos institucionais e grupaLs - mas aíncla pelo
mais "abertas", com L11)) ll}(win)cnto próprio interno a ela, sem se artIcular
próprio estilo de atendimento privado quc configuram:
com o que está no mundo, sem se Lran~versa1izar.
a qUf'bra de certasjotma/idadl'.'" nas S('."soes terapêutica.,>, no
Enl realidade, é mn fOltalecin1cnto dos modelos vigentes, sob outídS
numero de sessOéssemanais, a discussão da neutralidade. not'a.ç
abordagens para crianças e adolescentes. (. ) pouco considera- roupagens. outras maquiagens.
dos como jJadentes pam a IJsicanãU\'e" 1,;(,.

Emhora a APA também não permitisse a entrada de psiccSlogos 3.2 - As Comunidades Terapêuticas e os "Psi" Cariocas
para a fonnaçào analítica, esses psicanalistas argentinos trazem, no iní-
cio dos anos 70, para o BrasiL outras contribuk'ôes para os psicólogos Fora essa experiência eleatendimento inbntil privado - cujo registro
no Rio de janeiro c para a própria prática psicanalítica "oficial" aqui remonta ao final dos anos 60, ampliando-se gradativamente pelos 70 -,
dominante. surge neste mesmo período, no Rio de Janeiro, o trabalho ele Comu-
Entretanto, esta.s contribui\:ôes c a "ajue13" dada ao movimento nidade Terapêutica. quc traz outras implicaçües para (l movimento

I
dos psicólogos ligJm-se a um momento de feroz repressão no Brasil. dos psicólogos. Em São Paulo - elikrentemente do Rio - a experiência
Impôe-se o terrorismo de Estado; a ascendente cla.sse média, anestesiada da Comunidade Terapêutica Enfance. iniciada na segunda metade da
pelos efeitos do "milagre do Delllm", aposta CIll seus projetos de ascensão década de 60 por Di Loretto. vai trilhar oS caminhos que levam ao

,
.social; os diferentes movimentos sociais e .sindicai'~~ de um modo geral psicodrama. o que abordarei no Capitulo seguinte.
~ encontram-se amordaçados e silenciados. O medo ilnpera, não só Não pretendo aqui fazer 111l1aanálise do Illovimento de Cornu-
entre os jovens ntilitantcs ligados à luta armada, mas entre as populaçôes
marginalizac1:ls das perilerias elas grandes cidades, pela atuação impune
(' cada vez mais violenta dos Esquadrôes da Morte l:''-;' ,
t' nidade Terapêutica no Rio de janeiro, mas simplesmente apontar alguns
de seus efeitos sobre os "psi" cariocas,
Na cidade de São Scbasti~o, essa experiência tem início por volta
Neste clima ~ elTIque .subterraneamente continuam a se gestar de 1967, no IIospil:1I do Engenho de Dentro, com dois psiqui~tras de
outros moviment()s ele resi.'itência ~ as prática.c;;;
trJ.zid:.k"l
por essa primeira formação analitica: Oswaldo dos Santos c Wilson Simplicio. E essen-
geraçào cle argentinos, em realidade) favorecem o modelo "psi" não cialmente um trabalho grupal que visa questionar o próprio sistema
muito distante da "verdadeira" psicanálise. Se, por um lado, fazem cTÍticas asilar. Muito inJluenciados, a principio, por Maxwelljones e pela Teoria
à ortodoxia dominante, por outro, não produzem rupturas com este da ConlUnicação, há tambénl as figuras de (loffman ThOlnas Szasz e R.
J

1110delo. Reformam-no, utilizam-no sob outras roupagens_ E disto Laing e a experiência, já em andamento no Rio (~íJ.nde do Sul, de Marcelo
necessitam os psicanalistas e os psicólogos cariocas. Blaya.
As contribuiçücs dos argentinos el1. APAme fazcrn recordar práticas ( No Engenho de Dentro, os grupos de psicóticos - para os quaLs
que nào dcsnaturalizanl os modelos dorninantes. que não constituem gradativamente V:10 sendo suspensas a';;mediC'dçôes~~ conlC çatn a discu-
novas estratégias e táticas de ação que possibilitem escapar - lllc.smo tir alguns aspectos da adnlinistra,ão hospitalar: a comida, os banheiros,
a coloca,ão de espelhos, etc. Este trabalho, pioneiro na época, passa a
r~6 Figueiredo, A.C.C. Op. cit., p_ 4'5.
Iji Em pesquisa realizada pelo Grupo Tortur.l NuncJ. ,l\fJls/l~l,desde fms clt' maio ele 1991 até agosto se tornar conhecido e muitos psicólogos vão p'lra lá estagiar, tornando-
de 1992. no Instituto Médico Legal do Rio de Jan,,-'iro, verificou-&.'. entre 1970 e ]Q74, cerca de se um foco imp011ante de questionamento do próprio regime asilar, da
'5.000 pessoas enterradas, como indigente~. tendo como "causa mortis" violêndJ.S dos ma.i.~variados
tipos
loucura, etc. A proposta é que, paralelo ao trabalho com grupos de

127
12.6
psicóticos, haja supervisões, estudos de caso e gmpos terapêuticos para Em seu Projeto de Dissertaçào de Mestrado, Heliana B. Conde Rodrigues
os próprios coordenadores de grupo. Cerca de 1aoa estagiários passam refuta esta tese afirmando que uma das forças presentes nesse trabalho
até 197'; pelo Engenho de Dentro, quando o trabalho é desarticulado é a critica à Psiquiatria Asilar e Org'dnicista em cinla de "... bases huma-
pelo governo federal. Muitos desses estagiários são "psi" de esq ucrda, nistas, marxi':nas, psicanalíticas e até mesnlO antipsiquiátricas, sem que
alguns perseguidos pelo regime militar, que encontram no tabalho de estes conflitos ele tendências resulten1 em hegenlonias definidas"'.39.
Comunidade Terapêutica uma forma de resistência e atuação politica. Concordo. To(bvia, se por um lado as Comunidades Terapêuticas trazem,
em seus m..icroespaços. outras prática..<;que não são hegemonizadas pela
Em 1968/69, um gmpo de psicólogos, junto com Oswaldo dos
psicanálise, por outro, a demanda dos psicólogos na época é dada peta
Santos, tenta organizar uma Comunidade Terapêutica numa clínica
psicanálise. A subjetividade massiva então produzida entre os jovens
particular, a Bela Vista. Hoje, alguns entrevistados mostram-se críticos
"psi" de classe média é atingir o status de analista; justificam-se, assim,
em relação a essa experiência que, sendo feita num hospital privado,
os caminhos que alguns deles vão empreender. não obstante suas
em realidade, servia para "promover o capital dos donos da clínica",
influências marxistas c antipsiquiátricas.
para "não criar mna situação conflitiva que denunciasse o regime asilar".
Um ano depois, o Hospital Pinel inicia também uma experiência
de Comunidade Terapêutica sob a coordenação dos psicanalistas da 3.3 - Os Psicólogos Cariocas e a Tutela dos Psicanalistas
SPR) e SBPR),Eustácl1io Portella Nunes FiUlOe Roberto Quilelli, de dUf'dção
efêmera. Seguindo em alguns aspectos o que é feito no Engenho de Apesar de serem pacientes dos psicanalL'tas das Sociedades
Dentro não engloba a comunidade à volta. É mais uma experiência de "oficiais" e de terem com eles supervisões e gmpos de estudo, os psicó-
classe média de Zona Sul - pela própria localização do 110spital - e de logos não são autorizados a se autonomearem analistas; são "psico-
uma elite intelectual acadêmica, pois está vinculada ao Instituto de tcrapeutas de base analitica". Esses "benfeitores" - todos da Sl'RJ -,
Psiquiatria da UFRJ. Apesar dLsto, alguns que lá traball1am dizem que, diante de uma categoria mha do "milagre econômico", como a dos psicó-
para a Universidade e o curso de Psicologia, é uma experiência pio- logos, têm seu mercado de trabalho ampliado. Esse "mercado psicológico",
neira e importante. No Engenho de Dentro. o trabalho de Comunidade gerado no fmal dos anos 60, além das denlandas criadas entre (k' c1lanlados
é lnal<) radical, poLe;; é uma experiência com a miséria, não só dos leigos de classe média e média alta, comporta também a demanda dos
pacientes, mas do próprio local onde se inscreve esse hospital - subúr- próprios psicólogos em sua ânsia de se tomarem psicanalistas, em seus
bio da Zona Norte do Rio de Janeiro. sonhos de ascensão social fomentados pela subjetividades massivas
Entretanto, apesar da grande atração que exerce sobre muitos lórtalecidas na época.
"psi" maLsà esquerda e pelas limitações do próprio momento histórico Exemplos dessa rutela e de sua aceitação pelos próprios psicólogos
em que é realizado - em plena vigência dos maLs terríveis anos ela estão presentes na fOffilaçãOele alguns eSL~belecimentos que congregam
ditadura nlilitar -, muitos profissinais saem desse trabalho com seus psicólogos e psicanalistas - no período de 1970 a 1976 - como: a Sl'C, o
sonhos de ser psicanalistas ainda mais revigorados. Esta tesc, a meu CESAC e a ArPIA.
ver, é corroborada pelas posições que tOlllam: alguns - os nlédicos - Como jâ afirrnei anteriomlente, nào almejo faz,r aqui uma história
vão fazer formação analítica na SPRJ; outros v;io engrossar o movimen- desses estabelecimentos; isto já te)ifeito em outros trabalhos. Meu interesse
to dos psicólogos, paternalizado por alguns psicanaILstas. é mostrar a tutela psicanalitica e a reprodução, em muitos aspectos, das
Há discordâncias sobre as Comunidades Terapêuticas serem instituições "verdadeira" psicanálise e formação analítica. No entanto,
sinlplesmente "tranqüilos campos de difusão da Psicanálise", 133 na época. algo sobre sua hL't6ria deve ser mencionado.

]~R Tese defendida por Figueiredo. A.C.C 0r. cito 1.39 Rodrigues, H.S.e. As "Novas AnálIses". Op. cie " p. 3').

128 129
A .)ociedade de Psico!op,ia Clínica oito. Este grupo é fOfluaclo por psicólogos ligados ao Curso de
Especia1iza,'ào em Psicologia Clinica da PlIClRj que, em 1970, após
A Sociedade de Psicologia Clioica. a SPC, é fundada cm 1971.
serem "cortados" nUllla tLllllultuada seleção, procuram a psicanalista da
no auge da repressão política no Bmsil c na efervescência do lnovi~
SPRj, Inês Besouchet'''.
111cntodos psicólogos cariocas com a vinda dos pritneiros psicanalistas
De um traballlD realizadD por quatro integrantes desse grupo retiro
argentinDs. Seus fundadores, um gnLpO de psicólogos que fazem terapia
alguns trechos cuja análise considero imprescindível. Logo no início
e/ou grupos de estudo com Fábio Leite Lobo e Gerson Borsoy - psica-
lT)ll1entaJl1:
nalistas da SPRj -, têm larga cxperiência cm clinica. Entretanto, pela
própria tutela desses psicanalistas que dão aulas c supcrvLo;;õesna SPC, 'Parlimos em hu..:;cada aceitação por pane de profissionais que
simbolizavam para R()S a identidade do psicólogo clinico
C111scu currículo - total111cntehaRcaclo na obra de r'reud-
Inés Besoucbet (. _) SIm fonrul de "indefiniçilo~ foi a mola
a psicandli.<;eaparc'Ce "oficialmente", de modo /!(!/ado, como prop,dsora do grupo, pois nao pronu'tia nada, colocando-se
uma das técnicas ind('pensr11'C1..O:;â psicotenA[>ia( ). h' permitido sempre em disponilJilidade (. ) Antes do no,~soprimeiro encon-
jazer jJsü.:otera/Jiade IJuseanalilica. mas nao psicanáli.w-', ainda tro, já em idealizada tanto pelos qUi' a conheciam como pelos que
qUI! mio baja impedimento legal algum, já que a /:61canali.senunca não a conhecíanr Representava tl próprúl Psicologia atni·
foi regulamentada. Quem imIJedl'-?A. lPA? Nao nl.-'Cessariam'(-'nte co assu",ida, uitotlosa eaceita até -mesmo callto didat(l por
Seu regulamento permite a jormaçâo de Sociedades mistas de ,mIO sociedade psicanaJltíca que não (lcelta p.dcólogos
medicos i' psicologos. A intl'rdiçáo surge muita..:;rezes atrás dos /)ara formação Sabiamosjd, como já foi dito, o que nilo queri~
divas na figura dos fJrofJrios anali.'\ta.\' com suas inte,prelaçóe.~ amos, ma."nossas amhiçói's eram as mais conjúsas Não saMamos
que tl-'ntamdesconhec('7' e invalidar a d('Ci.'l{10
de seus analisandos os limites (' as tii/(;r(-'nças entre.- ser'/JsicóloMOclinico. teralJCuta e
de huscar uma formaçao prã{Jn·a"140. psicanali<;ta Por isso me.Hno, /nés (-7a a síntese e o sf",boio
ainda indefinido fIe nossas (u'pirações "14, (grifos meus),
Con1precnde-se, poL<;,seu paternalismo (' tutela no sentido não só
de manter cativa essa delnanda. mas, tarnbém) através dessa "ajuda" _ Esta indefinit,,·ão, tanto de lnê,o;;quanto dos pr6prios componentes
que facilita uma formaçào de base analitica - ter seu prestígio c poder do grupo, Jaz partc ela ambigüidadc que caracteriza esse estahelecimento.
garantido junto a essa parcela "psi". Desejando um reconhecimento ofkial por partc da I'(;C, este grupo
A SPC se estrutura à imagem e scmelhança das Sociedades "ofi- inicial c o posterior fica" ... entre a Universidade c a Associação Psica-
sendo UHl estabelecimento de f()nna~:io exchJsiva paf'.l psicólogos.
ciai..;;", nalítica, L.) sem entrar em conflito com nenl1uJll.:l'JI43. Concordo com
Reproduz) portanto, a mesma exclusão que as ligadas i IPA; a mesma Katz11\ quando afinna que a indeflnição também se encontra no próprio
exclusão contra a qual diz lutar o movimento dos psicólogos, E maLo;;, modelo inicia! de estudos: témicas psicodranriticas (Inês Besouchet indica
oficialmente não faz forma(".'30analítica, Illas de "base analítica". C01110Ul11dos coordenadores do grupo a pSicodramati')t:l paulL"t3 Norma
jato"á), temas filosóticos gerais. Rogers. a "pessoa humana". a no,ào de
A SPC, em !990, torna-se a Sociedade ele Psicanálise ela Cidade do
encontro, assuntos psicanalíticos gerai..,,_
Rio de Janeiro, não restringindo mais a entrada SOIllcnte a psicólogos.
Segundo a visão produzida e tão enfatizada, na época e ainda

() Centro de Antro/x)/og!a Clírzica 1i I Inês Besouchet é uma das duas p~icatulistas dichta<; não médica da SPRJ; e psicóloga. A outra e
I0trin Kemper, a quem já me referi anteriormente
o Centro de Estudos de Antropologia Clioica (CESAC), 142. Fernandes, l.C, b.nari, M.C., S::mto,'>,N.L. (.' Drummond, V.C O (-.upo dos 8: A Pré-lfistória do
CESAC Curso de Espechliza\'ào em Psicologia CliniCJ. - PIle/RJ, novt~mbro/1976, pr- 2 (' 11_
fundado oficialmente em 1972, tem sua origem no chamado gnLpO dos 14) Baremblit, l; _lnfonne Diag1UJm.ico }' lndicación ReorganJzativa dei Cl.'1Itro de Estudios
de Antropologia Clinica. Rio de Janeiro, 1977, mimeogr. p. 04_
140 Figueiredo, A.C.C. Op. cit., p. 47. IH Katz, c.s. f.tica e Psicanálise_ Ri" de Janeiro, C,rJ.J.I, 19S4, p. 292

t30 UI
hoje, de que a prática psicanalitica é superior à da psicologia clínica, mesma técnica,!lla..':Io trabalho é nlenof, é menos profundo, é psicotera-
assinala Katz que: pia de base analítica.
''Ao mesmo tempo em que se promete a Psicanálise, ela é esca~ Em 1971, esse grupo dos oito se amplia e é reconhecido pela
mo/eada como saber para o aprendizado, e substituida por um PUC, o que dá origem em 1972 ao CESAc' conveniado com esta Uni-
saber "inferior", mais fraco" institucionalmente, a psicologia versidade. Como no IOP, uma das exigências para se miar a este esta-
clínica, ao qual os alunos (não pertencentes à SPkJ) poderiam ter
belecimento é estar em análise pessoal. embora não se trate de uma
aceS5o"[4~ (as aspas são minhas).
formação analitica, o que mostra a ambigüidade e sua aceitação por
A preocupação com a "identidade" profissional do psicólogo é um aqueles que procuram um reconhecimento institucional para seu traba-
tema básico no movimento dos psicólogos cariocas, e nesse trabalho UlOclínico: os psicólogos.
sobre a pré-história do CESACisso é bastante enfatiz.ado; é um tema que Quando, em 1976, o grupo do CESAC conclui o Curso de Espe-
muito preocupa esse gnlpO. A identificaçào vai se dando vai sendo I
cialização em Psicologia Clínica na Pl:C, para o qual vigora o convênio,
produzida "... através de uma identificação sempre carente, daquilo que este é encerrado. É, então, aberta uma clínica e dois anos depoL> um
lhes faltaria para serem psicanali,tas"l46 E vão just,unente procurar essa outro grupo de sete psicólogos tenta fundar um Curso de Especialização
"identidade" C0111 os psicanalistas, conl os "pais" e as "màes·'. Parece que em Psicoterapia Psicanalitica no CESAc' A direção aceita, o curso tem
só é possível o reconhecimento enquanto profissional psicana1L>tase ele início com seis professores psicanalistas que não fazem parte dela e, em
for feito pelos anali'tas que detêm a "verdadeira" psicanálise. Só que dezembro, o CESAC retira sua aprovação, afrrmando textualmente que
estes fazem questão de mostrar que as diferenças entre psicanálL,e e naquele estabelecimento "... não há lugar para forrtJação em nenhuma
psicologia clínica é que podem guiar a "identidade" dos psicólogos. Estes especialidade""" Este grupo, com cerca de mais de seis anos de
devem procurar ser "competentes" clínicos, pois ".. todo analista expetiência no CESAC, dele se retira. Logo depois, a nova diretoria
reconhece quando um psicólogo é idôneo"l", declara um outro psica- reafirma que esse estabelecimento é um centro de estudos e não de
nalista da SPH], também coordenador desse grupo inicial do CESAC. formação.
I\a época, uma das diferenças apontadas entre o psicólogo clinico Alguns entrevistados observam, o que é corroborado por Katz,
e o psicanalista é que o primeiro faz diagnósticos "antes" do tratamento; que, na época, a SPR] proibe explicitamente que seus membros efetivos
utiliza testes, anamnese, etc., o que os psicanalistas não fizemo Estes não dêem supervisão a psicólogos ou membros não-autorizados!", fato que
di,cutem essas técnicas diagnósticaB e até as aceitam. Minai, é precL", atínge também a SPc'
que os psicólogos clínicos continuem sendo psicólogos clínicos. E a Tanto o CESAC quanto a SPC cumprem "... sua função de linha
psicanálise, ao não se iIni.~cuirnesse assunto. anro1a seu caráter "liber- auxIliar da SPR], seduzíndo institucionaimente seus membros ..."!5l.Para
tário", pois não diagnostica, não rotuia. a "verdadeira" psicanálise, somente é válida e pemJ..itida a "sua" forrtJa-
A questão da "identidade" profissional do psicólogo clínico é ção, seguíndo seus cãnones e rituais.
(rabaUIada no grupo pela uruguaia Marta Nieto que vai, paulatinamente, No mundo capitalistico, as grifes, as "marcas registradas" são funda-
mostrando as diferenças entre psicanáli>e e psicoterapia!43. Em sunla, é mentais na "livre competição" do mercado. Elas "g~rantem" o valor da
unia clara tutela: o trabalho psicanalitico para os psicólogos estã fora de mercadoria e, ao imporem o "seu" valor, desqualificam os demais produtos
questão. As subjetividades constntídas são essa.,: pode-se até utilizar a que não têm uma "marca registrada". Por exemplo, a Coca-Cola é uma
l-i') Katz, c.s. 0r. cit., p. 292.
146 lerem, p_ 293. 149 Figueiredo, A.C.C. Op. tiL, p. 53.
14i Fernandes. r.C ~t alli. Op. tiL, p. 22. 150 Sobre o assunto ver Katz, C.S. Op. dL, p. 294 e Figueiredo, A.C.C. Op. tit., p. 57.
148 Idem, pr. 201 e 204. 151 Katz, C.S. Op. ciL, p. 294.

13l t33
trade 11Ulrk,Sua fómmla deve ser produzida da mesma fomla nos maL, mensalmente, ao Brasil.
diferentes países, no sentido de garantir a sua "nlarca registrada", Da (:'1APPIA passa a ser um centro de refcn-;"cía dos psicologos, dos
nleSllla fOffila, no mundo capitalístico, a "verdadeira" psicanáli<;e e a psú::analísta,'i; (_., ) interessados em amp/im' seu mercado de trabalho
fOffilação amlítica instituida pela IPA têm uma trade mark. passam a ser (,.). Cumpre r ) a função de congregarO.'i profissional' •.de saude
mental, osp.\"icólogos carentes de vinculaçào a uma
lnercadoria", cOfilprdcias nos con<.;ultórios dos "representantes autorizados" eSjJeCiaimente
instituição, que pudesse reconhecê-los e jornecer-lbe5 uma
a usar a grife de Freud. Estes "representantes" estão, sem dúvida, noS fonnaçdo clínica (..,). Daí, a gnmde tniÚon'a dos psicólogos que
anos 70 no Brasil, lig'.ldos às Soeiedades "oficiais", Os demais, os "reles trabalham na área clínica sefiliar a APP1A "1'4.
mortais", estão no mercado psicológico desqualificado, pois nào têm a
Em 1972 c 1976, esta entidade promove elo,' grandes congressos,
"marca registrada" sancionada pela IPA.
c é este o período de sua maior efervescência, quando a rnídia se ocupa
dos projetos ele uma psicologia psic'analitica para a int:lncia, a adolescência
A Associaçào de Psiquiatria e Psicologia da Inf/hlcl'a e da Adolescência c suas fanlílias1'\", bcrn aos moldes das subjetividades hegemônicJ.s então
produzidas: cuidar das fimilias em "crLsc" e, dentro ela linguagcm dos
A Associação de Psiquiatria e Psicologia da Infància e da argentinos, "prevenir os diferentes momentos de crbe por que passa o
Adolescência (APPIA) é fundada, no Rio ele Janeiro, em 1972. Sua ser humano", A preven\;'ão ou psicoprolllaxia como forma de promoçào
origem liga-se à ASAP1'IA(Associação Argentina de Psiquiatria e Psico- da saúde mental passa a scr a peelra de loquc elc muitos psicólogos, os
logia ela lntância e da Adolescência), fundaela, em Buenos Aires, em maís progressistas, por sinal.
1970, por psiquiatras e psicanali'tas da A1'A- vinculados à linha "oficial" Após o grande sucesso do I Congresso, o psicanallsta da SPRJ,
- que nlantêm contato com a American Society for Adolescent Psychiatry. Carlos César Castellar, emào presidente ela A1'1'IA,é chamado
Esta Sociedade" ,.. tem um programa de higiene e psicoprofilaxia da "". para prestar esclarecimentos ao diretm' do Instituto de Enr.ino
intancia e da adolescência com granelc penetraçào na América Latina" 1\2 da SPRj .mhre o !>urgime,-'nto de uma Saciedaâe deformação paralela
O objetivo da ASAPPIA, que será também o da AP1'IA, é o ele fomentada por seu.~própn'os memlm)s A·la.~ a APPIA não tinha
compromisso jormal algum em formar p.,.icanali.~tas, os própn'os
promover uma ampla discussdo entre proft<;sionais de estatutos confirmam i..•..
W) "I'i>.
psiquiatria, psicologia e psicanáli..<;ea nível internacional através
de congressos, publicações e palestras. Foi desse grupo que vieram Após o li Congresso, nlais grandioso que o prinleiro, quando a
ao Rio de janeiro os primeiros argentinos para mini'>trar cursos mfdia dá uma cobettura nacional, a..o;; pressões dos psic6logos - que já
na SPlij e no IOP a conuite de Fábio Leite Lobo "1"3.
vinham, clescle 1973, qucrendo que a APPIA se tornasse um cstabe-
Suas principais figuras, como já relatei, sào: Eduardo Kalina, Armin- lecimento de fonllaçào sistenlática - aumentam. Castellar, por não aceiUr
da Aberastury, Maurício Knobel, Leon Grinberg e Arnaldo Rascovsky. essa orientação, demite-se, em 1977, c abrc-sc uma crise na APrIA. Esta,
A APPIA, por ser uma entidade interdisciplinar, congrega nào dirigida entào por psicólogos, continua indefinida com relaçào à questão
somente médicos, psicólogos, psiquiatras e pSicanaIL,ra.s, mas também da formação e, pouco a pouco~ vai se esvaziando,
assistentes sociais. Contudo, o maior número é de psicólogos, elnbora a "Sem duvida, o declínio da APPIA e proporcional aõ surgimento
direção, de um modo geral, esteja nas màos dos psicanalisra.s, Estes sào de novas formas de organização dos psicólogos em torno da
todos ligados à SPRJ, ela linha considerada "progressista", justamente os psicanálise ( .. ) e em dezembro de 1982 a APPIA suspende
difinitillamente suas atividades"l~-'.
que tinham se ligaelo nlaL, ao grupo argentino que de 70 a 74 vêm,
1.,4 Idem, p. 69.
152 Figueiredo, A.C.C. Op. cit., p. 66. I')')Idem, p. 70.
153 Idem, p. 67. 1'56 Entrevista de Carlos César Castellar cilada por Figueiredo, ALe. Op. dt., p. n.

134
Isto ocorre após tentativas de constituição de gru pos de supervisão 3.4 - O "Modismo" Grupal entre os "Psi" Cariocas: a SPAG
em diferentes áreas (infantil, adolescência, familia, grupos e instituições)
e a organização de um curso de fOlmaçào de psicoterapeutas de crianças Neste item, como o título mostra, tratarei do atendimento grupal
e adolescentes, que não chega a se realizar. em solo carioca. Não ignoro que, no mesmo período, também na Paulicéia
A APPIA, que havia contado no seu período de maior efervescência começa a se expandir no meio "psi" o enfoque grupalista. Entrementes,
- entre as realizações de seus dois Congressos, de 1972 a 1976 - com por absoluta falta de tempo, não será aqui abordado o movimento paulista.
cerca de 1000 filiados, apesar da tutela e, portanto, da não disponibilidade A história das práticas grupais no Brasil ainda não foi escrita e toma-se
dos psicanalistas da SPRJpara oficializar uma formação, repercute sobre necessário fazer tal levantamento, o que não é objetivo deste trabalho.
o movimento dos psicólogos. Se, por um lado, a tutela é mantida, por No Rio de Janeiro, essas práticas, principaimente com adolescentes,
outro, diferentemente das restritas experiências da SPC e do CESAC, a muito se disseminam, no irúcio da década de 70, entre os profISsionais
APPIA, por sua grandiosidade em termos quantitativos, difunde para "psi". Essa demanda produzida, como já vimos, pelo próprio momento
grande parcela dos psicólogos cariocas outras formas de pensar a prática histórico, vai ter o embasamento da primeira geração de psicanalistas
psicanálitica. argentinos. Eis porque o grande sucesso que fazem no meio "psi" carioca.
Embora esteja vinculado à APA, essa primeira geração de argen- Não é por acaso que muitos entrevistados - tanto psicanalistas ligados à
tinos contribui decisivamente para que as experiências ocorridas na APPIA SPRJ, quanto psicólogos - enfatizam a importància desse grupo de
não se confundam com aquelas da SPC e do CESAC. A APPIA orienta argentinos. Eles vêm, justamente, estimular e dar um referencial teórico/
grande parte do movimento dos psicólogos cariocas no sentido de pensar técnico à demanda grupal então produzida.
uma "outra" psicanálise, talvez um pouco mais aberta, um pouco mais Desde os anos 60, com a difusão do livro Psicoterapia del Grupo,
flexlVel e um pouco menos ortodoxa que a dominante nas Sociedades de Marie Langer, Emilio Rodriguéz e Leon Grinberg, surge a tese "... de
"oficiais". Prepara, pois, muitos psicólogos para começar a tentar uma que esta forma de abordagem terapêutica seria o melhor caminho para
formação autônoma, sem reconhecimentos institucionais vinculados aos paiscs em desenvolvimento"'''. Diante da reação negativa da IPA - que
psicanalistas "oficiais". Junte-se a isso o contexto brasileiro da segunda argumenta que grupoterapia é uma psicoterapia menor e não psicaná-
metade dos anos 70, fortalecimento dos movimentos sociais produzidos lise - as Sociedades "oficiais" cariocas acautelam-se. Todavia, por força,
nas periferias das grandes cidades cujos ecos começam a chegar a alguns das próprias subjetividades hegemônicas então produzidas -a necessidade
segmentos das camadas médias urbanas. de uma ajuda "PSf' para a fantilia "desestruturada" e, principalmente,
A APPIA é, portanto, a última e grande tutela - em termos de para seus filhos adolescentes (os filhos do "milagre econômico") - há
estabelecimento - dos psicanalistas ligados à "verdadeira" psicanálise uma grande demanda. Os psicanalistas mais conservadores recusam o
sobre os psicólogos cariocas. A partir da segunda metade dos anos 70, trabalho grupal e são os considerados "progressistas" que se lançam às
iniciam-se outros movimentos "psi" no Rio de Janeiro que, embora não primeiras experiências com grupos'59, por meio das quais, quase sem
marcados pelo paternalismo direto de alguns psicanalistas, continuam 1')8 Câmara, M. "História da Psicoterapia de Grupos", In: Py, L. A. (Org.). Gmpo Sobre Gnlpo. Rio de
de um modo geral reproduzindo, apesar das críticas feitas, as instituíções Janeiro, Rocco, 1987,21·35, p. 33. Ainda sobre o assunto, consultar Barros, R.O.B. Gropo: A
Aflnnação de Um Sbnulacro. Tese de Doutorado, PUClSP, 1994 .•
formação analítica e "verdadeira" psicanálise.
159 Segundo Castellar ~._.a história da formação de terapeutas de grupo no Rio de Janeiro data do
início dos anos 60, quando Valcleredo e um grupo de profissionais do Instituto de Psiquiatria
(IPUB da UFRJ), ligados à SBPR] e à SPRJ, fundam a primeira sociedade de grupo. Naquele
instituto, para o indivíduo se tomar terapeuta de grupo, precisava estar no término de sua formação
analítica ou tê~1aterminado; caso se interessasse pela grupoterapia, passava a freqüentar a sodedade
de grupo; tornava-se sócio, e, a partir daí, adquiria o cUreito de ser observador de um grupo". Ver
157 Figueiredo, A.C.e. Op. cit., pp. 76 e 77. "Co-Terapia". Cf. Py,L. A. (OrgJ. Op. cit., 127-142, p. 128.

136 137
respaldo teórico, aprendem as novas técnica:'!. Psicoterapia Analítica de Grupo do Rio deJaneiro (SPAG/RJl não
'TÍl'CmOS uma noção rudimentar hásica, aprendida geralmente somcnte como uma lórll1a de respos13 à APPIA ~ que congrega outros
de algum colega maL.•e."1Jeriente,e a partir daí começamos a tra- profissionais, alénl dos psicanaliç;ta..;;~ nue;, sobrerud(), para ter acesso a
halhar Durante nossa atü'idade, a e:tperiéncia nos lenou à ot]?a- tào promissor "mercado gnrpal psi". Seu objetivo, segundo os Es13tutos,
nizaçao, com modificações na fonna de lidar com grupos '1<>0. . é a djfusào e a aplicaçào dos conhecimentos psiClnaliticos aos grupos
Há um enorme mercado que não pode ser ignorado, e os psica- humanos, especialmente o grupo terapêutico"lbl.
nalistas ditos "progressitas" sabem di"o. Em tudo, a SPAG/Rj reproduz as Sociedades "otlciais". Filia-se à
As eontribuil:ôes dos argentinos, a partir de 1970, são fund3ll1en13is Associação Brasileira de Psicoterapia Analítica de Grupo, à Federação
no sentido de reorganizar e reorientar essas experiência.", grupais. Da Lalino-Alnericana de Psicoterapia Analítica de Grupo e à American Group
mesnla fOffila que esses profissionai';; atendem e realimcntanl unla I'sychotherapy Association, de Nova York.
demanda então produzida, suas presenças sistcmáticas no Rio eleJanei- Além da btLSGl desse reconhecimento externo, internamente o
fC\ por sua vez, produzem novas demandas. As técnicas grupai'i ex- autoritarismo c a exclusão estão presentes. Pelos seus Estatutos, somente
pandem-se entre os prollssionai"i "psi" e tornam-se "modismo". podem ser membros da SPAG/RJ "... os psicanali."itas filiados a ulna das
Além desse grupo de psicanalistas argentinos, no Rio de Janeiro, Sociedades da Associa~'ão Brasileira de Psicanálise,qb". As categorias de
há 13mbém a influência de outras técnicas gnl]xlis, trazidas por psicólogas membros asselnelham-sc às das Sociedades "ofkiais", acrescidas de
argentinas como Carmen tent, Susana Pravaz e Estela Troya. A prinlcira, membros honorários e benfeitores, como no IMP e no Círculo Psica-
desde 1971, na PlIClRj, convida sistematicamente as outras duas, assim nalítico. Também os membros associados estão impedidos de votar nas
como Rodolfo Bohoslavsky que aqui permanece Assembléias Gerai, da entidade, sendo que todos os ex-presidentes fazem
Essas psicólogas, di,cípu!as de Bleger e 1'ichon-Rívicre, em 1969, parte do Cone;elho Científico (' ConsuiLivo, como membros-natos, que é,
fundanl, em Buenos Aires, o Centro de Investigação e Assessoramento na Sociedade, o poder executivo, escolhendo, inclusive, os dida13s.
em Psicologia (eIA1') que se abre os mais "ariadas técnicas grup:ris A partir de !977I7R fase de esvaziamento da A1'1'IA, oS psica-
influenciadas pelo Movimcnto do Potencial I1umano, dif1JOdidodesde o nalistas - muitos que participaram de sua fundação - saem e, gra-
início dos anos 60, nos Estados Unidos. À técnica do "grupo operativo" dativamente, vão para a S1'i\(;/Rj"".
acrescentam outrd..":i,de orientação psicociram{ltica e gestáltica. Propag'.JIll- Pcla sua própria prcsença dentro deste grupo, pelo contexto
se, na Argentina, os laboratórios de s{!llsitiui~y trttillill/!" os wnrk,',;ho/Jping , brasileiro da época ~ Governo Geisel e sua "di,;;tensào" - e pelo avanço
as maratonas que, na segunda metade dos anos 70, se e.o;;;palhampelo do movimento dos psicólogos - notadanlCnte pelos trabalhos que já
Brasil. As maratonas são aqui iniciadas p(')os próprios psicanalista.') que desenvolvem no âmbito da psicoterapia de gnlpo, embasados pela
já Elziam trabalhos grupais com adolescentes c adultos. primeira geração de argentinos ~, a S1'AG/Rj abre sua formaçào aos
Quando da forma,'ào da A1'I'IA, há o fortalecimento de todo esse psicólogos. Em final de 1977, bá a mudança dos Estatutos e Regimentos;
[rabaUlO de grupo com profundas influências dos argentinos. assi.m, pelo artigo fíº, seu:,!membros
Diante desse "mercado psicológico" tão prOlnL<;sor,os psiG:mali"i- sdo medicos e psic6logos que tenbam seU"diplom(b registrado ..•
tas mais conservadores da SBPRj e SPRj nào podem continuar indi- nos n...
"'Pectimsconselhos regionaLç, mantendo-se ,wmpre a propor-
çao de do(\,' terços de medico..>:para um terço de>psicõlogoS'·IM.
ferentes, apesar da rigida oposi,ào da 11'.11 ao trabaUlO grupal. Em 197,j
~ no pcriodo dc maior apogeu da APPIA ~ é fundada a Sociedade de lül Artigo 2° cios Estatutos daSPAG/R,J. In: Ata da l<u.lIdação daSPAG/R,J - 197·1,mimeogr., p. OL
1()2. Anigo ,i\! do parágrafol" d(),~Estatutos da SPAC'/R}. In: ()p. cit., P 2..
165 Sobre algum trabalho.~ rt'a!iF.l.dos, n;t época, por ('.~segrupo de psicanalist:1s, Vér os diferentes
160 Py, LA. (()rg.l. Op_ cjt., pr- 19 t; 20. artigos contidos in Py, L.A. (UrR,!. Op. dt
A "abertura" ou transição é feita dentro dos mesmos moldes que a licas no final dos anos 60, tanto no Engenho de Dentro quanto no Pinel,
do Governo Geisel: lenta, gradual e segura. É importante que os psicólogos esses profissionais experimentam não sotuente a coordenação de grupos
possam participar da fonnação na SPAGiR] - afmal, muitos já têm uma com pacientes e funcionários, conlO supervisões e grupos terapêuticos,
experiência em trabalhos grupai, há anos -, entretanto, desde que se tudo dentro do modelo recém-conhecido dos "grupos operativos" de
possa manter o controle. Assim é que, por esses Estatutos de 1977, Pichon-Rivierc.
somente os membros titulares continuam tendo direito "... a voz c voto Posteriormente, no início dos anos 70, Carmen Lent, Susana Pravaz
nas Assembléias, bem como o de votar e serem votados para os cargos e Estela Troya promovem laboratórios de vivências, empregando
eletivos da Sociedade"'''. diferentes técnicas grupais, no sentido de traballlar o tema da "identi-
Quase um ano depois, novos Estatutos e Regimentos são votados, dade" proflSsional do psicólogo, tema, na época, extremamente preo-
oportunidade em que é ampliada a entrada na SPAG. Pelo artigo 4º, cupante pam esta categoria, que continua a tentar encontrar modelos de
seus membros "... são médicos e pessoas diplomadas em curso superior referência.
vinculadas às ciências humanas e sociais com diploma legalmente Também na Argentina, desde o final da década de 50, os psicó-
regi,trado""". Cai o antigo parágrafo 6º que prevê dois terços para médicos logos, que já começam a se tornar numerosos, não têm acesso à fonna-
e um terço para psicólogos, lUas é incluído um outro, () parágrafo 4º, ,ão analítica na APA. Em seus cursos de graduação, têm como proles-
que aponta para um outro tipo de controle, tão corporativo quanto o sares os psicanalistas - muitos deles didatas da Sociedade - e, depois de
anterior. Desta forma, os membros da SPAG/R] não médicos (leia-se os formados, fazem com eles suas tempias, supervisões e grupos de estudo;
psicólogos), a quem o exercicio da Psicoterapia é autorizada pela entretanto, não são autorizados, nem reconhecidos como anali,tas. Como
legislação em vigor, "... terão seus pacientes assistidos por médicos no no B,dsil, sua grande preocupação é a questão ela"identielade" proflSsional.
caso de carecerenl de interven~ão clínica que só a médico compete Só que com uma diferença: o movimento dos psicólogos argentinos, ao
desempenhar"'''. Bastante ambiguo, pois o que se entende por invés de se aliar aos pSicanali'ta' "oficiai," e por eles ser tutelado, organiza-
"intervenção clínica"? se em entielades sindicai, e profIssionais. !lá toela uma tentativa de capturar
A partir de 1980/81, muitos dos que haviam fundado a SPAGiR) esse movimento, quando Bleger e outros didatas da APA mostram que a
vão se afastando graelativamente de sua direção e de uma série de outras "identidadc" proflSsional do psicólogo, diferentemente da do psicanalista,
atividades; em 1982 assume sua presidência - em eleição concorridis- é sair dos estreitos limites de seus consultórios privados e tornar-se um
sima, já que duas chapas se apresentam, o que não ocorre desde sua elemento de "mudança social". Mudan,a no sentido de realizar, através
fundação - Carlos C. Castellar, que tinha anteriormente sido presidente de atuações grupais, trabalhos institucionais e comunitáriosl6S. Essa
da APPIA. tentativa é dcnunciada pelos próprios psicólogos que percebem na
Somente em 1985, a presidência da SPAG/R] é ocupada por uma chamada atuação preventiva ou psicoprofilática uma forma de exclui-los
psicóloga: Márcia Câmara. Nesta época, também os chamados "progres- da formação analitica. Não percebem, porém, o que o trabaUlo pre-
sistas" estão se afastando e lri toda uma nova geração de psicólogos e ventivo produz, assumindo tais tarefas de forma mai, ou menos acrítica.
psicanalistas participando da vida societária. Na questâo ela "identidade" profissional, esses temas estão presentes
Como já apontei, entre os psicólogos, o trabalho gn'pal é também entre eles de maneira muito forte.
muito difundido. Desde as experiências com as Comunidades Terapêu- No Brasil - com um movimento muito menos organizado, frágil e
tcndo como modelo único e exclusívo de referência os psicanalistas - os
164 "Estatutos da SPAGIR]" In: Uvro de Atas das Assembléias Gerais, p. 34.
165 [clem, p. 31.
166 Idem, p. 64. 168 Sobre o assunto, ver o Uvro de Blegtlr, J. Pskohigiene Y Psicologia ln••titudonal Buenos
16'7 Idem, p_ 65. ,\ires, Paidôs, sidata.

t40 14 t
argentinos encontram U111 tnerc.ado extrem~tlnente propício e fatlllnto à anos antes tinhanl nos psicanali')tas '·oficiais" brasileiros,
di')cussào de tais tetnas. Esses modelos ainda marcados pelo dkialismo dos psicaI13listas
Principabnentc entre os psicólogos, há uma grande curiosidade argentinos - apesar de serem considerados unI avanço pam a época -,
em rdação às técnicas trazidas pelos argrntinos. Desenvolvem-se as CtHrealidade servem, e muito bem, a utn período em que a luta artnada
terapias de casal. terapias breves, interven\'ôes em crise, atendi.Inentos contra J. ditadura militar no Brasil csti quase que totalJnente debelada e
pré-cirúrgicos. acompanhamento a gestantes ()rienta,-~à()vocacional (que
l
() "tnilagre econtnnico" começa a ruir. Apesar da força que o governo
dentro da VL')àode Rodolfo Bohoslavsky torna-se uma terapia foca1)169 e militar ainda possui, ji se percebem os ptinleiros sinaL'i cio avanço político
outros. Tais técnicas - como já aHrmei anteriormente - respondem muito (le Ull1aoposição ainda tÍ1nida e d() fc)rtalecimento cle muitos movimentos
bem à demanda produzida nos anos 70 no Brasil. populares, sociais e sindicais, É neste momento que essas concepções
Também por inlluência dos argentinos, surgcln outras concep- ganham tantos adeplos entre '" psicólogm l11aisprogressistas. Concepçc,es
ções sobre saúde c doença, não tão aferradas - como antes - à psico- cujas limitaçôcs só mais tarde serio percchiclL<;:seus aspectos de controle
patologia. Gradativanlente os psicólogos vão se afastando do modelo -- no caso da prevel1\-';1o-, em que a palavra política ainda é proibida-
médico propugnado peh, Socie(L~des"olkiais", à medida que a inl1uência no caso do psicólogo institucional e seus lirnites de atlla~.'jo - c suas
argentina se amplia, tnas - como já afinnei - não criam nOV~L') estratégias aspiraçôes técnico-científicas - o psicólogo como o "técnico da.".;rela\-'cJcs
c táticas de açiio; reproduzem. sob outras roupagens, os antigos modelos. interpeSS(Kli'i"1"711.
E, na segunda metade elos ancl..')70. a.o;;;sistc-sc
ao que é conhecido Não é por aC1SOqllC ocorre o hoom dos "gntpos operativos" no
conlO o "rnodismo" da Psicologia Institucional e dos ".~rupos operativos", Brasil, que passam a ser muito utilizados na.c;;
escolas, hospitaL')e empresas
Ao contrário do que nesta época já ocorre na Argentina, os psicólogos como forma de controle. Valendo-se de um discurso modernizante,
[)rasileiros, mesmo os mais J. esquerda, 'üo conscgLlem ainda questionar tentando mostrar, à época, que se emprega lima prática "avançada",
as subjetividades que produzem o "lnercado psi" dos anos 70, Perguntas pois (lá L1l11a
participação de grande parcela dos envolvidos nos diferentes
já comuns entre os argentinos - "quc formac,:.'ãosocial, que práticas c setores do estabelecimento, exerce-se. em última instância, um maior
subjetividades cstamos produzindo e fortalecendo?" - somente puderanl controle sobre esses grupos. Vendc-se ~ todos a i1usào da participa\-~ào
ser pensadas posteriormente, no início dos anos RO, :10 cnfatizar o caráter igualitârio c democr~itico desses grupos. Como as

Importa-se de forma mcc3nica c acrítica o modelo argentino da dinâmicas de grupo - tjo em tll,oda nos anos ')0 e 60 - bzcm funcionar
Psicologia Institucional de Blegcr com sua linha prevcntiva e os traba- no vazio algumas forças que podem se tomar if1o;;;tituintes e, portanto,
lhos de grupo, principalmente, os "grupos operativos" de Pichon-Rivierc. pet;gosas.
Neste momento, não se con.segue refletir sobre os pressupostos de tais "Criam-se essa.<;l'á!t"ula.<;de segurança, esses dL"posiHl'Os que
modelos que, mesmo marcados por influências marxl"itas - c no caso de canaliZam os descontentes efazem funcionar asjàrça.<;ínstituin-
muitos psicólogos, é o que os atrai - nào saem dos estreitos limites das tes em círcuito fi'Chado. ()fiu. .•.n ( ... ) é cmtado, j)(lssado /)or alto ('
dciya dr! otJr!rar( .. ) Tal é o sentido dil.." uleologias nào cliretirras,
instituições vlstas como estabelecimentos abstratos, como "coisas em si",
da reitlcaçio do trahalho gnlpal. Não nos esquC'\-'amos de que esses
I""U Todos <ósse."J.srectü~ sio çnfali7ados pur Blt:~l2r,J. Or, cit. Critica..'>.
ao trabalhD prevçntivo, ao
referenciais estão presentes na APPIA e em seus exuberantes Congressos, psicologo como "((·cnico da,s rl'J:lçü,,-'Slnh .•rpt'~<,cl:lis"e :l PSICologia InstitucioJl:l1, ·vl'r: Coimbra.
nos quais os psicólogos reverentemente acompanham as exposiçôes de eM.R Psicologia Institucional: Ilitkuldadcs e limites. Dissertação de Mestrado - lESA}>
seus "mestres·' argentinos e neles têm seus modelos de referência. conlO FGViRJ, 1080; Coimbr3., C.\'l.B, l.obo, L.F. (' Barros, RD.B. "Os DL'S:lfios Sociais é a Prática do
Psicólogo 1~~co1ar~In; Anais UI (Â)flfcri-ncia 8-ra.~i1cira de Educação. Rio de Janeiro, 1<)84:
Coimbr3., C."~1.B.,Lobo LF l' Ihrros, R.D,R "A lnstiluiçào ili Supervisão: AniiisL' de Implicarbes"
lU) Sobre o :lSSllnto, ve[ Bo!losla\'sky. R Orleoladón Vocaciollal: la Estratcgia Clínica. Bueno." In: Sa.idón, (). ({)rg.), A Análi.~e llL"iUtudonal no Urasil Rio d.. Janeiro. Espa~'(l ç Tempo. 198"7,
Airt's, NllL'V:lVi."ilin, 197'7 .:r7~SS.

142 14:\
parttcipacionistas, sus/entadas pela ideologia grupis/a que
No Rio de Janeiro, tomam-se cada vez mais fortes as pressões
funciona como verdadeira polícia cultural e estatal e por tras
dela, toda a psicologia contemporânet. na qual ogrnpismo repousa
J
dos psicólogos por uma formação analitica. Também eles - como os
alegremente"'7J . seus modelos psicanalistas - querem participar de tão promissor "mer-
cada", não se contentando mais com o atendimento infantil já aceito e
Muitos afirmam que a utilização dos "grupos operativos" prende-
instituído. Exercem, entre pressões, tanto no CESACquanto na APPlA-
se a questões teóricas, pois há uma confusão reinante em nosso meio
como já vimos, em 1977 e 1978 -, cujos projetos não vingam. Desse
quanto ao uso desta técnica, que é utilizada sem um "aprofundamento
modo, é necessário partir para formações autônomas.
adequado de suas bases teóricas""'. Concordo em parte, pois, em rea-
lidade, com o "modismo" pouco se estuda o referencial teórico dos
"grupos operativos". No entanto, não é só o que ocorre, já que o momento 1- A SEGUNDA GERAÇÃO DOS ARGENTINOS
hL~tórico da época nos mostra o devido uso de tais práticas e os efeitos
que provocaJl1. São utilizadas meramente como técnicas abstratas e A primeira geração de psicanalistas argentinos, considerada
neutras, sem nenhum grau de implicação com a realidade social concreta, "ollcial", apesar de trazer uma série de contribuiçôes um pouco mais
e funcionando como práticas de controle e assujeitamento. Sem a "flexívei~" que a dos brasileiros ligados ãs Sociedades "oficiais", defende
preocupação em saber para quê e porquê utiliza-se o enfoque grupal, a "verdadeira" psicanálise e a formação analítica nos moldes da IPA,
eIn especial os "grupos operativos"~ cai-se num mero "modismo" e numa reproduzindo as mesmas práticas e modelos. Aqui seus interlocutores
reificação de tal prática, vi,ta como simplesmente mais uma técnica a ser são os psicólogos - carentes de modelos para uma "identidade" proflS-
empregada. A questão de se pensar o grupo como um efetivador de sional- e, sobretudo, alguns psicanalistas da SPRJ e da SBPSP.
forças e que forças seriam estas"" que sàbcres, que objetos, que sujeitos, A segunda geração, que chega a partir de 1976, em sua maioria
no dizer de M. Foucaull, estariam sendo produzidos por essa prática, exilada, irá gradativamente romper com as irlStituições analisadas
está muito longe de ser pensada nos anos 70 no Brasil. Seu aspecto anteriormente, demonstrando uma expressiva vinculação político-social
técnico é que predomina, uma vez que estamos na era dos peritos c da em suas práticas, além de introduzir novas estratégias e táticas de ação.
tecnologia'
Se a primeira geração traz contribuições de uma prática psica-
nalitica, sem no entanto provocar rupturas, esta segunda ajuda a quebrar
os m1tos da formação vinculada ã IPA e da "verdadeira" psicanálise.
VI - A RUPTURA COM AS SOCIEDADES LIGADAS À IPA
Fornece, com suas experiências e formações exteriores à APA, o
"empurrão" que falta. Posteriormente, os lacanianos completarão este
Na segunda metade da década de 70, começa a ser delimitado um
rompimento.
novo perfil nos movimentos "psi" carioca e paulista. Surgem outros grupos
de formação psicanalítica; chega a segunda geração de psicanalistas Entretanto, esta segunda geração de psicanali,tas não pode ser
argentinos - em sua maioria exilados, após o golpe militar de 1976 -; entendida como um grupo monolítico. A própria denominação "os
emerge o !acani,mo e fortalece-se a sociedade civil brasileira. argentinos" uniformiza as diferenças que há entre eles, pois existem os
que vêm exilados, por questões de militância política; os que vêm por
questões de mercado, após a implantação da ditadura militar na Argentina,
171 Benurcl, M. "La.'l Concllciones deI Grupo de Acdôn". In: Lourau, R. (Oeg.). Analisl" Inortltudonal
Y Socioanálisis. México, Nuev:l Imagem, [973, pp. 41 e 42.
que muito vai "incomodar" os "psi" sem implicações politicas e há, ainda,
172 Saidón, o. Guia Tennlnológlco da Teoria e Técnica do Grupo Operativo. Rio de Janeiro, os que, mesmo por questões de exílio, encontram no Brasil um excelente
Cadernos do lBRAPSI, secembro/l',179, mimeogr., p. 06 "mercado psi". O próprio Gregório Baremblit nega a existência de uma
lT, Sobre o assunto, consultar Barros R.D.S. Compo: A Afirmação de Um Simulacro, Op. cit.
"Escola Argentina" ou a existência de "... argentinos agrupáveis em redor
144 145
de um pensamento unifonnenlente marcado ...''17-''. Trá, sim, algumas 4) das relações entre psicanálise e instituiçüesl79.
social dos psicanalistas;
alianças entre n1uitos que vêm exilados, contudo lnuitos caminhos e Est:í lórmado o Gmpo Plataronna Intcrnacional que, em 1971, cm
posturas diferentes. Vicm, no Jov'XvllConwesso Intemacional da lPA,reconhece public-amente
É óbvio que, como já mencionei na Introdução deste trabalho, que sua luta "... não passa fi.mdanlentalmentc pelas revolt::L'iinstitucionai .••
,
alguns acontecimentos são c serão por tninl destacados em cletrirncnto mas pelo comprOlui'iso dos psicanalistas com os povos empenhados e111
de outros. Não quero nem espero que este trabalho seja visto como uma suas lutas de libert"ção"'&'. Meses depois o gmpo Plataforma Argentina
neutra e linear história das práticas "psi" nos anos 70, no Brasil. A minha s"i cl" A1'Ac - desde 69 - particip" da Federação Argentina de Psiquia-
implicação com esta segunda geração de argentinos é clara e sei que tras (]'AI') junto com o gn,po Documento, o 'lU"!. dias depois da saída
alguns acontecimentos - ou pelo menos este - enconlrar-se-ão real~:ados do pessoal ligado ao Plataform", também se deslig" d" A1'A.11 formado
neste relato. por UIll grupo de didala..••
os quais, reunidos enl torno de um documento.
Desde o início de sua história, a Associação Psicanalitica Argen- solicitam o direito de voto aos lncmbros associados c () direito de serem
tina (A1'A)- reconhecida pela [1'Aem 19/,2'7; - apresenta grande ativi- cOl1..sidcrados automaticamente,
J diclatas, dentre outras col"as.
dade em termos de publicações, as quais começam a transpor suas A FAP pouco a pouco vai se identificando com o pcronislllo
fronteiras, e na formação de alguns psicanalistas brasileiros"6 revolucionário e há vários grupos que di.'iputam sua hegell1onia. Difun-
Nos anos 60, toda uma geração de jovens psiquiatras de fonnação dc-se por várias cidades do interior a formação analítica - ainda que só
marxista entra na AJ'A. Segundo depoimento de Marie Langer para médicos -, cOlno eo) Mendoza, Rosário, elC.
esta geração de '.'filhos"ensinou muita coisIJ a nós, os cínco Os dois gnlpos, PbtafornlJ. e Documento, apresentam muitos
didatas que saímos da APA. A mim, pessoalmente, me ajudou a posicionanlentos em comum, havendo pesso;:L') que oscilam entre um
acahar com a dissociaçào (! a unificar, dentro de minha prática, grupo e outro. Tod~lvia.o Platafonna tem posi\·ôes lnais radicaLs politica-
o enfOque psicanalítico com minhas conuicções polítk:a.<;"IT'.
mente, C0111111uita influência da teoria marxii;)ta-fóquista. tão em vOg'".l na
Em J 968, após o "Corelobazo" - manifestações populares em América Latina, na época.
Córdoba -, as agitações em Rosário e Buenos Aires, a APA adere ã !\'um prirneÍfo tllomento após a ruptura, prOCUra111dar Cursos de
greve geral 'lu c é declarada contra a violenta repressão feita aos pós-gradua~'ão na FAP, mas esta, por ser uma federação 111édica, exclui
estudantes e aos trabalhadores. outros profissionais, (01110 os psicólogos. Funda~seJ então, a
No ano seguinte, no XXVI Congresso 1ntern"cional da IPA, em Coordenadoria dos Trabalhadores em Saúde Mcmal (STM) junto com a
Roma, o grupo argentino e outros organizam um paracongressol78 no Associação de Psicólogos e a dos Psicopedagogos. Ligado ao STM,cria-
qual se propõem as discussões: I) da formação do psican"lista; 2) do se o Centro de Docência e Investigação (CDI), onde lr"balllal11junlos os
signifkado, função e estmtma das sociedades psicanalíticas; 3) do papel grupos Plataforma e Documento além de diversos outros gntpamentos
politicos pertencentes "OS diferentes partidos ele esquerela.
174 Baremblit. G_ Ato Psicanaüt1co e Ato Politico. BH, Segrae, 1987, p. ')3.
17') Eram seis os fundadores da APA:Marie Langer, Angel Ganna, Cirsamü, Ferrari Harc!oy, E.Pichon- ''A experiência do CfJ{ e cer1ame.-"11te única em sua tentativa de
Riviere e Arnaldo Rascovsky. apagar as diji.:.rença<; entre os (>.~pecialistasda saude.mental e de
176 Perestrello, M. Op. dt.
J77 Langer, M., Palacio, J.D- e Guinsberg, F. Memória. Hl..-rória e Diálogo Psicanalftico_ São L79 sd)re o :L.~.sunto,
ver Kes~lnun, H. "Plataforma lntenucionaJ: Psicanálise e Anti-lmperiali~mo". In;
Paulo. Traço, L986, pp. 96 c 97. Marie Langer, uma cb.s fundadoras da A.PA,oriunda de famOla tanger M. fOrg.) Questionamos 1_ Rio de Janeiro, Vozes. 1973, 246-250 e outros artigos de&~
judia da Viena Imperial, ligada ao PC, participou na Espanha das Brigadas Imernacionais, exilou- me.sma revista, assim como Lmger, M. ()rg ..l Questionamos 2. BH, Lmerlivros, 1977 e !.anger, M.
se na Argemina \;l, posteriormente, no Mexlco. "Vidsitu<.L2sdeI Movimiento Psicanalítico Argentino" In: Suarez, A. (Org.) Ra2.ón, Locura y
178 () Congresso realiu-se no Cavallieri Hilton, um dos mais caros e sofisticados hotéis de Roma; o Sociedad, M~xico, Siglo Veintiuno, i()8(i.
paracongresso numa cervelaria popular da vizinhança. 180 Kesseiman, 11_Op. dt. In Langer,M. ()rg.lQuestiooamos 2. Up. cit., p. 218

t46 147
oferecer a todos a mesma oportunidade de formação ( .. ,) o que que permitem pensar a psicanálise extramuros do consultório, voltadas
traz algumas verijicaçóes valiosas: 1) a possibilidade de romper a para a saúde pública.
estratificação e a fragm.entação dos diferentes grupos de trabaha-
dores de saúde mental ao tntegrarern-se num só movimento gremial Alguns dos psicanalistas ligados ao Plataforma, à STM e ao cm
(._.);2) a demonstração de que se pode dar e adquirir uma fazem trabalhos de assessoria institucional com os mais diversos sindi-
formação séria e de alto nível fora das instituiç6es psicanalíticas catos e partidos políticos, nas situações de greve, etc. A partir 1974 a
oficiais epor uma contribuição econômica mínima que sin'a para 1976, aproximadamente -, pela leitura que fazem de Guattari, Deleuze e
manter o local C.); 3) o avanço, deste modo, de alguns passos
concretos no tão debatido terrrmo da inter-relação entre marxismo
da Análise Institucional -, começam a introduzir muitos desses conceitos
e psicanálise, outorgando à prática o privilégio que lhe davam em suas atuações grupais e institucionais. No entanto ainda não rompem
Marx, Gramsci e Mao "181. com os "grupos operativos" de Pichon e a Psicologia Institucional de
Blcger; mas agregam-lhes estes novos modos de pensar os grupos e as
Ao lado dessa formação no CDI, ocorre, desde a segunda metade
instituições. Para alguns argentinos, apesar das posições políticas distintas
dos anos 60 e nos 70, em muitos hospitais públicos, a atuação de
c até diferentes entre si, Bleger e Pichon continuam como os grandes
psiquiatras e psicólogos que, em suas práticas, desenvolvem a formação
modelos. Assim, por exemplo, a transversalidade - conceito guattariano
analítica, valendo-se como espaço de preparação da própria prática
c básico na Análise Institucional - é mais uma dimensào somada às de
hospitalar. Nos serviços, têm supervisões e grupos de estudo - quando
horizontalidade e verticalidade nos trabalhos grupaisl&.
não os fazem fora. Nada recebem nesses hospitais: dão o trabalho em
troca da formação. Evidencia-se, assim, uma grande preocupação com a Em 1974, alguns desses profissionais, como Gregório Baremblit,
fundam a EPSO (Escola Psicanalítica Freudiana e Socioanálise), que
formação pois, à medida que a oposição cresce dentro da APA, essa
envolve uma mistura de pSIcanálise, análise institucional e militância
formação paralela se fortalece e toda uma geração de psicanalistas se
política. As aulas são trabalhadas por intermédio de "grupos operativos"
surge à margem da Sociedade "oficial".
e Juan Carlo Di Brasi coordena o de epistemologia. Uma vez por mês
Dentre esses hospitais, destacam-se o de Lanús, Avellaneda, Bor-
ocorre o Ateneu Clinico, em que se pensa e se debate como a psicanálise
da e das Clírúcas, que passam a ser centros de formação. Em Lanús, por
se articula com o marxismo. Durou pouco pois duas bombas são
exemplo, em 1964, Maurício Goldenberg introduz um Serviço de
colocadas na EPSO a qual é fechada pela polícia antes do golpe de 76.
Psiquiatria em que se realizam atendimentos a pacientes internos e
O cm também é fechado logo que há o golpe, porém, desde 74
externos, sendo o trabalho eminentemente grupal com crianças, adoles-
há uma série de provocações da direita: revistas sistemáticas da polícia,
centes e alcoólatras. Goldenberg chama, para esse Serviço, psicanalistas,
bombas, etc.
psicodramatistas e uma série de outros proflSsionais. Promovem-se
palestras com MaxwellJones sobre Comun.ldade Terapêutica, irúciandoc Alguns desses psicanalistas, por suas ligações com as organizações
se o questionamento da tradicional visão manicomial. Alguns dos psi- então clandestinas, dão apoio psicológico a muitos militantes de esquerda
canalistas daAPA estão nesses trabalhos, supervisionando, coordenando c, por isso, quando chega o golpe em 1976, são violentamente per-
grupos de estudo, etc. Sirn.Ilares a esse modelo de Lanús, em 1976, há seguidos. No final de 1974, devido às ameaças da tríplice "A" (poderoso
cerca de dezenove hospitais gerais só em Buenos Aires. Com o golpe grupo paramilitar que se denomina Associação Anticomunista Argentina),
militar, esses trabalhos e as formações nos hospitais públicos tenrunam, Marie Langer se exila no México e inicia-se a "diáspora argentina".
pois, essencialmente, são atuações claramente implicadas com a política O manifesto do grupo Plataforma dizia:

181 Langer, M., Palacio,j.D. e Guinsberg, E. Op. cit., pp. 111 e 112. Maiores detalhes, ver Braslavsky, 182 Sobre o assunto ver Rodrigues, H.B.C. "(luta Abena do Departamento de Investigações Institucionais
M.B. e Bertoldo, C. "Anotações pata Uma História do Movimento Psicanalítico A1'gentino~. In: do Brasil a Annando Bauleo". In: Boletln dei Centro Internacional de Investigaciones co
Langer, M.{Org.) Questionamos 2. Op. dto PskologiaSocial y Gropal. Rio de Janeiro, n\! la, 1987, 16-21.

148 t49
"Para nós, doravante, a Psicanálfse não é a Instituição Psicana- msL~temem dizer que a influência dessa segunda geração de argentinos
lítica Ojk;ial. A Psicanálise é o lugar onde os psicanalistas estiverem, para a prática psicanalítica é quase nenhuma. São unânimes em afrrmar
entendendo ser como uma definição clara que não passa pelo
que a mais importante contribuição vem dos "ofrciais'"do inicio dos anos
campo de uma Ciência isolada e isolante, mas sim por aquele de
uma Ciência comprometida com as múltiplas realidades que 70. Estes, sim, possibilitaram grandes mudanças nas práticas grupais. O
pretende estudar e transjormar"IB:'>. trabalho institucional não é citado. Somente os psicólogos a ele se referem,
sem, no entanto, argüir seus pressupostos. Eles, por sinal, em sua grande
Estes compromissos são reafrrmados no Brasil - particularmente
maioria, louvam muito mais a primeira geração que esta. Para alguns
Rio e São Paulo -, para onde vem a segunda geração de psicanalistas
"psi", a contribuição desses argentinos linlita-se apenas a quebrar - através
aIgentinos, pertencentes ou não ao Platafonna, do qual sofrem, sem
das experiências que trazem - a hegemonia da" Sociedades "ofrciais" na
dúvida, considerável intluência, acentuada ainda mais pelo exílio que se
formação dos psicanalistas. Ainda marcados - e até hoje é uma forte
inicia.
crença - pelo corporativismo da primeira metade dos anos 70, os
Contudo, não obstante tais enfoques, poucos são os psicólogos psicólogos cariocas, de um modo geral enquanto movimento, não sentem,
cariocas e paulistas que se deixam efetivamente agenciar pela implicação
não conseguem perceber, não 'se afetam com a proposta política que
política e militante que trazem os argentinos.
esses argentinos apresentam. Estes são, sem dúvida, procurados - e
Apesar de estarmos vivendo na época a "distensão lenta, gradual muito - pela sua competência teórica, pelas cDntribuições técnicas que
e segura" de Geisel, na qual uma série de movimentos sociais que, em oferecem, pela ,sua maior abertura e tlexibilidade e, por que não dizer,
seus microespaços, vinha, desde o início da década de 70, subter- pela sua "estrangeiridade'".
raneamente se gestando e resistindo aos horrores do terrorismo vigente,
Os argentinos se espantam, pois, ao chegarem aqui, vindos de um
as propostas políticas dos argentinos não fazem muito eco. Esses
inlplacável e violento terrorismo de Estado - e ainda se sentindo extre-
movimentos sociais, nesse período, ligam-se ainda ãs periferias das
mamente perseguidos -, quase nenhum "psi" carioca ou paulista lhes
gTarldes cidades e ao movimento sindical; não atingem a classe média, o
pergunta sobre a situação política argentina e suas vinculações com ela.
que ocorrerá mais efetivamente na década seguinte.
Será que sabem que havia ocorrido um golpe militar num pais vizinho
Os "psf' - tanto no Rio quanto em São Paulo -, que fazem parte ao nosso? Será que sabem que lá muitos "psi" - por suas implicações
desta classe média, de sua parcela intelectualizada, ftlhos do "milagre" e políticas - estão sendo perseguidos, presos, torturados e assassinados?
representantes da geração Al-S -, não têm e nem tiveram implicações Será que sabem que o Brasy ainda vive sob o terrorrismo de Estado e
militantes. É como se, paIa eles, os argentinos trouxessem a peste, não sob a vigência da Lei de Segurança Nacional? Será que sabem que aqui
no sentido político, mas no sentido de sua profISsionalização enquanto muitos foram e continuam sendo torturados, seqüestrados, assassinados
psicarlalistas. Pertencentes à pequena burguesia ela Zona Sul carioca, e desaparecidos? São os efeitos da produção massiva das subjetividades
por exemplo, produzidas nos anos 70 que levam esses "psi" a ignorar todo esse conte,,1:o.
"... oscilam entre a revolta e o ressentimento por seus mentorts Profundas e inlportantes retlexões nos trazem os argentinos, não
(oficiais) pstcanalíticos C ..) e o desejo de chegar a integrar-se nos somente para uma melhor compreensão do exilio político, mas, sobretudo,
borlas vedados da psicanálise local ou de formar seus próprlos"l84.
para o estudo do que chamam de "cumplícidade civil"IS'\ isto é, como
Por sua vez, os psicanalistas das Sociedades "oftciais" - não só as vai sendo elaborado o chamado "colaborador" nas ditaduras, "... aquele
do Rio como a de São Paulo -, inclusive os considerados "progressistas", que está ao nosso lado e nem sabe que pode chegar a colaborar, inclusive
até a denunciar"11l6 Sem dúvida, esta "cumplicidade civil", representada
183 Langer, M., Palácio,J.R. e Guinsberg, E. Op. cit., p. 129.
184 Baremblit, G. Ato P:ricanalitk:o e Ato Polítlco. Op. ciL, p. 49. 18" Termo utilizado por Eduardo Pavlovsky, psicanalista e psicodramatista argentino.

150 151
por grandes parcelas da população, é um dos fatores que mantém todo americano de técnicas gru pais, fundado pelos discípulos de K. Lewin no
e qualquer governo fascista e que sustentou intensamente as ditaduras llnal dos anos 40. Este centro, durante as duas décadas seguintes, oferece
latino-americanas. lima série de atividades baseadas, principalmente, na técnica do T. Group.
No Brasil, muitos são aqueles que ajudam a esses argentinos Tal técnica, que havia se originado da dinâmica de grupo lewiniana,
exilados, mas poucos os que se emiscuem com suas propostas e im- cnfatiza a Sociologia dos Grupos e não a sua psicologia; os papéis e
plicações políticas. Além de um pequeno grupo no Rio, incluindo Hélio funções do líder e dos membros e não suas personalidades individuais e
Pellegrino e Chaim Samuel Katz, há em São Paulo os grupos do NEPP, desenvolvimentos pessoais.
do Sedes Sapientiae, de Regina Chnaíderman e alguns da SBPSP. Nesses training-groups, por meio do treinamento das capacidades
Entretanto, quem mais claramente "entende" esses compromissos polí- nas relações humanas, ensinam-se os indivíduos a observar a natureza
ticos são os psicanalistas "oficiais", os conservadores da SBPRj e da de suas interações recíprocas e do processo grupal. Pensa-se que, a
SPR]. Estes, ao contrário da SBPSP,a qual simplesmente os ignora, abrem partir daí, serão capazes de melhor compreender sua própria maneira
furiosos ataques aos "subversivos" e "terroristas" argentinos. Veremos de funcionar num grupo e no trabalho. Sua pedagogia é uma mescla de
isso melhor, ao apresentar a formação do IBRAPSI no Rio de janeiro, não-diretivismo e método ativo, com alguma influência também da
no item seguinte, pois essas acusações envolvem também a questão de orientação rogeriana.
mercado.
Em São Paulo esse grupo tem pouca representatividade, pres-
tando serviços de assessoria a algumas empresas privadas. Dele, poste-
2 - SAMPA E O MOVIMENTO "PSr' NA SEGUNDA METADE DOS riormente, sairão muitos profISsionais que se ligarão às chamadas terapias
ANOS 70 "alternativas" .

Comentarei alguns estabelecimentos organizados em São Paulo


que correm "por fora" da Sociedade "oficial" e que contam com as 2.2 - Instituto de Estudos e Orientação da Família
contribuições dos psicanalistas argentinos da segunda geração que lá se
instalam. Sobre o Iacanismo haverá um item à parte. Também no início dos anos 70, mais precisamente em 1972, é
fundado o INEF (Instituto de Estudos e Orientação da Família),
Diferentemente do Rio de janeiro - onde na primeira metade da
ligado a pesquisas e estudos sobre a farnilia e oferecendo orientação e
década de 70 aparecem alguns grupos de psicólogos tutelados pelos
atendimento neste setor. Organizado por médicos e psicólogos, é uma
psicanalistas "oficiais" -, em São Paulo, até 1976, há uma total hegemonia
formação a nível de especializaçãoH17. Tem também pouca expressão no
da SBPSP no que se refere à prática psicanalítica.
movimento "psi" paulista.
Tanto em São Paulo quanto no Rio de janeiro, há um outro grupo
2.1 - O Grupo de Estudos de Psicologia Social Aplicada que também corre "por fora" das Sociedades "oficiais": os junguianos.
Não entrarei em detallies sobre suas histórias nos dois espaços geográficos,
Assim é que, antes da chegada dos argentinos - os da segunda apesar de se colocarem como "diferentes" da formaÇão criada pela IPA,
geração. - há a criação no inicio dos anos 70 do GEPSA (Grupo de única e exclusivamente por absoluta falta de tempo. Há, sem dúvida, um
Estudos de Psicologia Social Aplicada) por psicólogos com grande assunto que merece ser estudado, pois pouco se tem escrito sobre os
influência do National Training Laboratories, centro de treinamento norte- junguianos brasileiros, embora tenham sido jung e seus seguidores os
186 Pavlovsky, E. -'La Vigenda ele Un Compromisso~. In: Territórios - Pubücacion deI Movimiento
Solidário de Salud Mental. Buenos Aires, n!!03,1986,6-9, p. 09. 1&7 Sobre o assunto, ver Rocha, E.B. Op. cit., p. 51

152 153
ptimeiros a quebrarem com a "sagrada" utilização do divã e a introduzirem em "outras" linhas de atuação.
trabalhos com argila e outros materiais durante as sessões terapêuticas. Em 1974, quando se desvincula da PUC, o Curso de Psicologia
Justamente na década de 70. em solo paulista. organiza-se a Clínica transforma-se no Instituto Sedes Sapientiae, organizado como
primeira Sociedade de l"rmação junguiana. Posteriormente, há vários um centro de "ensino livre", tentando se colocar à margem dos modelos
"rachas" e hoje coexistem pelo menos quatro centros paulistas para e critérios burocráticos regulamentados pelo MEC. Sua proposta é ser:
formação dentro dessa abordagem teórica. No Rio de Janeiro, dentre , um espaço aberto aos que querem se comprometer com a
outros, tem-se a bela figura de NLseda Silveira a qual, desde os anos 40, busca de um projeto alternativo à sociedade brasileira,
procurando manter uma ideologia de trabalho que liga as Unhas
no Hospital Psiquiátrico Pedro 11, no subúrbio do Engenho de Dentro,
fundamentais que consagram o homem como princípio, a
desenvolve trabalhos com psicóticos. realidade social brasileira como campo de trabalho, o exercício
Da abordagem junguiana, muitos "corporaIL,tas" brasileiros, da defesa dos direitos humanos como método, e a libertação
sobretudo os dos anos 90. em sua maioria, mais adiante, irão 'herdar" a como ftm"llP.
visão mistica já implícita em toda a obra do 'mestre" e que marcará inspirado na Teología da Libertação, o novo Instituto é
profundamente alguns pioneiros das terapias "neo-reicl1ianas" no Brasil, reconhecido pela sua participação nos movimentos populares e no
como mostrarei no Capítulo IV, item V. compromisso com suas lutas. A figura de Madre Cristina é fundamental,
Enfim, percebe-se que todas essas iniciativas, fora da SBPSP no uma vez que, desde o movimento de 1968, passando pela decretação
início da década de 70, prendem-se não ã luta dos psicólogos para do AI-5 e pelos terríveis anos de perseguições e torturas, o Sedes torna-
obterem o status de psicanalista, como no Rio, mas a atividades e enfo- se o abrigo de muitos perseguidos!". A partir de 1975, novas áreas são
ques diferentes dos desenvolvidos pela Sociedade 'oficial", alguns {"ra criadas no Instituto, como o Centro de Educação Popular (CEDlS), o
do âmbito psicanalítico de atendimento privado. Procura-se uma Centro de Filosofia e outros; posteriormente abrigará, dentre outras
especialização em técnicas grupais ou em atendimento familiar ou em organizações populares, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra.
uma outrd abordagem teórica, que não são priorizado., pela SBPSP.Porém, Esta orientação política é clara, não somente em sua Carta de
esses "outros" enfoques não entusiasmam os "psi" pauli,!J.' nem os "leigo.'" Princípios, mas pelo que o jornal O Contexto, do Departamento de
como clientes, poL, a hegemonia está com a prática psicanalítica privada,
Psicodrama, publica:
que cria e estimula as demanclas dominantes.
"OInstituto Sedes Sapienttae é um instrnmento político que visa
No movimento "psi" de São Paulo, os estabelecimentos que vão atuar na estrutura sócio-econômica brasüeira. Como meios para
competir com a Sociedade "oficial" a nível de formação analítica são, atingir esse objetivo (...) lança mão de cursos, grupos de estudo,
sem dúvida, o Instituto Sedes Sapientiae e, em escala menor, o NEPP. trabalhos com operários, sindicatos, periferia e outros" 191 •

Em 1975, Madre Cristina convida Roberto Azevedo, recém-


2.3 - O Instituto Sedes Sapientiae chegado de Londres e psicanalista da SBPSP, para organizar tim curso
de formação psicanalítica no Sedes o qual somente tem Início no ano
Desde o inicio dos anos 70, o curso de Psicologia Clinica da seguinte, com o nome de Psicoterapia de Orientação Analítica, já
Faculdade Sedes Sapientiae, aindà vinculado à PUC/SP, começa a se
189 Instituto Sedes Sapientiae. Carta de Princípios. São Paulo, mimeogr., pp. 1, 7 e 8.
tornar um dos centros psicoterápicos mais importantesl88. Coordenado
190 Ver duas entrevistas de Madre Cristina publicadas em: Percurso - Revista de Psicanálise. São
por Célia Sodré Dória, a Madre CrL'tina, reúne muitos "psi" interessados Paulo, Instituto Sedes Sapientiae, Ano lI, n2 semestre de 1990, ')4-')8 e Teoria e Debate- Revista
do Partido dos Trabalhadores. São Paulo, n~ 03, fevereiro/1989. 70-74,
191 O Contexto _ órgão oficial de inf. e div. do DPS. São Paulo, Sedes, n9- 1, 1981.
188 Sagawa, R.\', Op. cit., p. 2'52

1,4 I»
que a formação analítica é considerada por todos um privilégio e exclusivi- ficaram conhecidas. Tal fato concorre para a formação de dois cursos
dade das Sociedades ligadas à IPA. Na época, não se quer entrar em de Psicanálise no Sedes, que se mantêm até 1992.
choques com a SBPSP, por isso a coordenação e orientação do curso Antes da oficialização, já começam a ficar claras as diferenças de
ficarem com Roberto Azevedo. Ele chama Regina Chnaiderman _ que já concepção sobre a formação analitica proposta por cada grupo. Roberto
ministra aulas no Sedes - e mais oito psicanalista< da SBPSP. É o primeiro Azevedo, apoiado por alguns professores, defende a existência de
curso "paralelo" - como se diz na época - de psicanálise, fundado em provas, de uma formação em paralelo para os candidatos a monitores,
São Paulo. Tem a duração de três anos e apresenta um currículo prévio uma maior hierarquia, não permitindo a participação de todos os alunos
que inclui aulas, seminários e supervisões, todavia a análise de cada nas decisões sobre o curso. Por seu lado, Regina Cbnaiderman e outros
aluno fica por sua própria conta e iniciativa In apostam no contrário: maior participação dos alunos e professores, não
Nesse mesmo ano - três meses depois - a SBPSP pressiona os dogmatismo teórico/prático. Os atritos se sucedem nos anos anteriores à
seus oito membros e professores do Sedes - através de circular cL<ão,havendo acusações mútuas de ambos os lados. O primeiro acusa
telefonemas, telegramas e visitas pessoais - para que se afastem dess~ Regina e seu grupo de serem populistas, democratistas e mesmo
formação "paralela". Aos membros das Sociedades "oficiais" é vetado demagógicos, de estarem preocupados com uma psicanálise aplicada
dar formação analítica fora de seus estabelecimentos de origem. aos estabelecimentos sociais e, por conseguinte, assistencialista.
Dos oito professores somente doi< permanecem no curso do Especialmente os argentinos da segunda geração ligados a Roberto
Sedes: Roberto Azevedo e Fábio Herrmann. Os demais rapidamente Azevedo são contra a transformação do Sedes em um centro de formação
passam a didatas e têm uma rápida ascensão na SociedadeI93. Entende- teórico/prático, como funcionavam os hospitais públicos na Argentina
se tal ataque da SBPSP, pois, na época, não há em São Paulo nenhum antes do golpe de 1976. Alegam defender uma formação psicanalitica
grupo de estudo sobre Psicanálise a não ser os coordenados por Regina consistente e não somente aplicada aos estabelecimentos sociais. Por
Chnaiderman. Após a formação do curso do Sedes, começam a surgir sua vez, o grupo ligado à Regina considera que os outros querem a
outros grupos de estudos sobre o assunto. Por ser O precursor de uma rcprodução da hierarquia que há na SBPSP, seu elitismo, autoritarismo e
formação fora da Sociedade "oficial", ele propicia, assim, a quebra desse dogmatismo, e que representam a psicanáli<e ritualistica de divã no seus
monopólio. cnquadres clássicos, desqua1ificando o trabalho nos estabelecimentos e
A proibição da SBPSP gera uma séria crise no Sedes, o que valorizando o atendimento privado. Defendem uma formação não-
compromete a continuidade e a existência do curso. Ainda em 76, para dogmática, sem as "verdades" absolutas de certas linhas de trabalho,
que se pudesse concluir o ano, é convidada, dentre outras pessoas, Ana aberta e cngajada no contexto político-social brasileiro; "uma psicanálise
Maria Segal, a primeira exilada argentina a chegar a São Paulo, após o que nào esteja no Olimpo, mas sendo produzida segundo uma realidade
golpe militar no pais portenho. concreta", afirma um dos entrevistados.
No ano seguinte, outros argentinos, ligados à Coordenadoria de Em suma, as divergências vão desde pontos de vista teóricos e
Trabalhadores em Saúde Mental e ao Centro de Docência e Investigação, politicos até questões pessoaL<. Os próprios argentinos envolvem-se nesta
passam a fazer parte do curso, como Mário e Luzia Fucs, Guillermo e crise, atualizando-a com os diferentes implicações políticas trazidas da
Léa Bigliani, também exilados. Argentina.
Em 1980, OCorre uma cisão dentro do curso, dividindo-o em duas A gota d'água que desencadeia a divisão é a contrataçào de alguns
"facções", a de Roberto Azevedo e a de Regina Chnaiderman _ como ex-alunos - como Miriam Chnaiderman - para a função de professor.
Roberto Azevedo, como responsável pelo curso, não aceita. Advém uma
192 Sagawa, R,Y. Op. cit.) p. 269. crise que resultará na criaçào de dois cursos: o de Espe<ialização em
193 Depoimentos dados a Sagawa, R,y' Op. cito

156 157
Psicopatologiae Psicoterapia Analítica, que fica conhecido como o Em 1981, acontece dentro desse grupo uma nova divisão que
grupo de Roberto Azevedo, destinado a psicólogos e médicos; e o de força a saída de Fábio Herrmann, Marilena Carone e Marisa Tafarel.
Psicoterapia de Orientação Analítica, conhecido como o grupo de Ne~se momento, Fernando Ulloa é chamado para fazer um traba1l1o de
Regina Chnaiderman, que em 1981 muda o nome para Cluso de intervenção institucional, o que melhora muito a situação. Há, por parte
Psicanálise e destina-se a quaisquer "... proftssionais universitários que do gmpo argentino e dos três que se retiram, fortes competições que se
já tenham um percurso em sua análise pessoal, estudo teórico psicanalitico aguçam ainda mais pela postura de Regina Chnaiderman.
e prática clinica"194. Enfim, o curso, hoje chamado Psicanálise, vai, malgrado todos os
Com esta divisão em dois cursos, surge a necessidade de con- percalços, impondo-se como uma formação analitica alternativa à da
tratação de novos professores para que possam se reestruturar. :"lo curso SBPSP. Em 1985, convênios com a Coordenadoria de Saúde Mental do
dirigido por Roberto Azevedo, entram oS argentinos Oscar e Nora Estado de São Paulo são criados; em 1988, funda-se o Departamento de
Miguellez, dentre outros. No de Regina Chnaidern1a1l, além de Miriam, a Psicanálise e publica-se a Revista Percurso.
argentina Silvia Alonso Espósito e, mais tarde, Renato Mezan. Em 1990, Roberto Azevedo se afasta do curso que dirigia por ter
Alguns entreviBtados vinculados a este segundo grupo aftrmam ocorrido há uma crise. Alguns argentinos que nele continuam, em 1991,
que a cisão se torna inevitável, pois a perspectiva de Roberto Azevedo é declaram que suas permanências neste grupo estão sendo repensadas,
lr'dnsformar o curso do Sedes num 51udy Group para que, como tal, pois se aproximam muito mais da proposta de formação feita pelo curso
fosse reconhecido pela IPA. Logo depois, quando há a crise na SBPSP, de Regina Chnaiderman do que da feita pelo de Roberto. Aceitam as
isso fica claro. Confirma-se, deste modo, a percepção de que, na verda- colocações de autoritarL,mo: segundo suas palavras: "em nome de uma
de, Roberto quer fazer do curso uma reprodução da formação ligada à fOffilação acadêmica e rigorosa, produz-se uma estrutura rígida e vertical".
IPA e da "verdadeira" psicanálise; fortalecendo-se externamente, talvez :"Iuma análise micropolítica, há grupos - como mostrei com os militantes
conseguisse ter mais poder dentro da "oficial" que tanto criticava. Dizem c hippiesdos anos 70 - que, apesar da dinlensão da luta contra a opressão
que isso mostra a força que a Sociedade "oficial" possui junto aos grupos e alienação de toda espécie, num nivel molecular, estão produzindo
que estão fora dela e como são poderosas as subjetividades produzidas processos microfascistas. O interessante é que esses dois cursos do Sedes,
pelas instituições que ela instrumentaliza. por suas diferenças e antagonismos, nlostram: de um lado, como <4')
O curso de Roberto Azevedo patrocina e reproduz, sem dúvida, instituições instrumentalizadas pelas Sociedades "oficiais" são facilmente
essas instituições e seu "afastamento" da SBPSP não significa questi- reproduzidas em grupos que pretendem negá-las; de outro, a constante
onamento a esses rituais instituidos. Talvez expresse - conforme alguns busca por uma formação não tão institu ida, não tão arrogante e elitista,
entrevistados assinalam - a busca de prestígio e poder. O de Regina mai, inlplicada politicamente, mais transversalizada e os desafios a que
Chnaiderman, por suas implicações políticas e pelas contribuições dos essa proposta conduz, as perplexidades que produz. Sabemos que, tanto
argentinos que lá estão, debate-se na ambigüidade de ser uma formação de um lado como de outro, subjetividades estão sendo produzidas: umas
que pretende ficar comprometida socialmente e de estar contraposta à servindo aos sistemas de modelização, outras tentando criar processos
sua própria institucionalização. Entretanto, algumas entrevistas assinalam de singularização e novos agenciamentos. Entretanto, o paradoxo está
que a riqueza desse curso do Sedes reside justamente nesse fator: a colocado, uma vez que o criativo e o novo poélem ser facilmente
constante permanente que fazem enquanto profissionaL' "é uma forma recuperados ou se tornarem modelos tão opressivos quanto os que
de viver esse paradoxo aguda e permanentemente". pretendem criticar e transf"r~.

194 Sedes Sapientiae. Cursos de Espedall7..ação e Aperfeiçoamento. São Paulo, 1990, mimeogr.,
p.28.

))8 1';9
2.4 - O Núcleo de Estudos de Psicologia e Psiquiatria Em 1978, organizam junto com Gregório Baremblit e Chaim Samuel
Katz o I Congresso Paulista de Psicoterapia Interpretativa, em São Ber-
Além do Sedes, um outro estabelecimento surge a partir de 1976, nardo do Campo, no qual aparecem as mais diferentes práticas: desde a
quando um grupo de psiquiatras de formação psicanalítica independente psicanãlise "oficial", passando pelo iacanismo, até as terapias corporais'9'.
funda junto com um analista da SBPSP o NEPP (Núcleo de Estudos de Em 1980, três de seus fundadores, Jorge Forbes, Carlos Briganti e
Psicologia e Psiquiatria). Todos eles obtiveram sua formação através Sócrates Nasser saem do NEPP. O primeiro, já com toda uma leitura
dos membros dessa Sociedade, mas não fazem parte dela, porque a lacaniana, vai para outro grupo. Briganti liga-se aos "corporalistas" e
formação analítica é carissima e, segundo alguns, acima de seu poder Sócrates vai cuidar de seus negócios. Permanecem até 1992 Carlos
aquisitivo. Os quatro que haviam feito cursos com Madre Cristina, no Aticó c Oduvaldo Peloso, c assim, paulatinamente, o NEPP vai se
inicio dos anos 70, no Sedes, e participado de grupos de estudo com esvaziando. Por dificuldades de administração, sua Oínica Social é fechada
Sócrates Nasser - o analista que com eles funda o ;\lEPP - começam seus c, em 1991, é pequeno o número de pessoas que se inscrevem no Curso
atendimentos privados já em 1976 e resolvem abrir grupos de estudo de Psicanálise, comparado com a procura ocorrida nos anos de 76 a 79.
sobre psicanãlise. Com o sucesso que fazem, criam um estabelecimento
que, de inicio, tem como objetivo não uma formação analítica mas cursos
sobre uma série de assuntos relacionados às áreas da psicologia e 2.5-A CASA e o CEPA!
psiquiatria'''. Esses grupos de estudo interdisciplinares atraem algum
Fechando os anos 70 em São Paulo, existem dois outros estabeleci-
público e, a partir de 1977, passam a oferecer um curso de formação
analitica com duração, inicialmente, de três anos. Em seguida, mudam o mentos fundados por argentinos: a CASA e o CEPA! - este último de
curta duração. O primeiro, fundado em 1979, tendo à frente Beatriz
nome do grupo para Núcleo de Estudos de Psicologia e Psicanálise
Aguirre, também exilada, que chega ao Brasil em 1977, origina-se de um
por influência dos argentioos que ali chegam. Entre eles estão Gregório
Baremblit e Oswaldo Saidón - depois radicados no Rio de Janeiro _, grupo formado no mesmo ano por pessoas interessadas em abrir um
J rospital Dia para psicóticos. Este grupo discute, por dois anos, dentre
Isabel Marazina, Antonio Lancell~ Nelly SimmoneUi e Sérgio Maída, dentre
outros. outras col,a.>, a forma pela qual a psicanálise pode ser utilizada no
atcndinlento a psicóticos, fora dos moldes clássicos empregados para
Segundo os depoimentos de três dos fundadores, Gregório
os chamados neuróticos. Em 1979, este grupo, reduzido a 8 pessoas,
Baremblit e sua equipe chegam como "uma bomba", trazendo uma
organiza um Hospital Dia: a Casa, que, aí, além do atendimento ambu-
nova leitura da psicanálise, de Althusser, Lacan, Guattari e Deleuze.
latorial a psicóticos em grupos ou individualmente, cria um sistema de
"Ele nos mostra que somos bionianos, que não temos leituras marxis-
acompanhantes terapêuticos. São dadas supervisões institucionais para
tas e vira o NEPP de cabeça para baixo. Os argentinos para nós foram
diferentes órgãos da rede pública e há um Curso de Terapeutas de
um vírus, uma peste, graças a Deus", observam alguns entrevistados.
Grupo, aberto a quaisquer profe,sionaL" com a duração dc três anos.
Desde 1976, quando o NEPP é fundado, há uma grande procura
O CEPA! (Centro de Estudos em Psicanálise e Análise
por parte de pessoas interessadas e, em pouco tempo, uma platéia
assídua de cerca de cem pessoas circula nos cursos então oferecidos. Institucional), fundado em 1980, pelos também' exilados Isabel
Marazina, Sérgio Maída e Nelly SinlOnelli, é inaugurado por Armando
Quando chegam os argentinos, cria-se o Curso de Especialização em
Psicanálise; logo é fundada uma Clinica Social. Bauleo. Organiza, até mais ou menos 1985, vários cursos breves, um
Seminário sobre grupo, um curso para fonnação de coordenadores de

195 Ver sobre esse momento inidal do :'tEpp seus primeiros Boletins de maioflUflho e agosto/setembro/ L96 Sobre o assunto ver o programa deste Congresso, que tem como tema oficial, "Doença Mental e
1976. linguagem"

160 161
grupo e realiza muitas intervenções institucionais em diferentes estabe- 3 - ENQUANTO ISSO, NO RIO DE JANEIRO •..
lecimentos públicos e privados. Oferece, também, supervisões institu-
cionais para equipes de trabalho nesses e em outros estabelecimentos. Segundo Ana Cristina Figueiredo, a partir de 1977, surgiram no
Além de uma outra leitura da psicanálise, os argentinos inauguram Rio de Janeiro vários grupos com diferentes propostas, mas com um
o que Manuel Berlinck chama de a "instituição virtual" em contraposição objetivo geral comum a todos: o de organizar fOffi1ações psicanalíticas
à "instituiçào formal" da psicanálise, representada peJas Sociedades ligadas que não passem pelos crítérios de legitin1ação e reconhecimento da
à IPA, que é IrA. Um outro ponto comum é que muitos dos psicólogos engajados
nesses grupos foram anteriormente ligados ao CESAC e à APPIA199Em
" uma organização corporatíua que avoca para si um poder alguns, há uma forte influência dessa segunda geração de psicanalistas
que não tem. Ressaltando uma relativa autonomia da instituição
argentinos. Os grupos lacaníanos que surgem neste período serão
vittual sobre a formal (. ..J os psicanalistas argentinos propor-
cionam, em São Paulo, a possibilidade de uma fl/iação que não é tratados no próximo item.
intermediada tão exclUSivamente peja organizaçào formal, mas
que se dá pela ínstüuição virtual, inaugurando, dessa fonna, (. _,)
uma outra psicanálise"19'. 3.1- O Núcleo de Estudos e Formação Freudiana

Configura-se un1a outra psicanálise para aqueles que, por estarem Sem dúvida, o inlcio da organização desses grupos que surgem
fora das Sociedades "olkíais", não haviam sido autorizados até então a após 1977, de um modo geral, está ligado às figuras de Chaim Samuel
serem psicanalistas. Ainda, segundo M. Berlinck, esses "novos" psi- Katz e de alguns argentinos, princípalmente Gregório Baremblit, que em
canalistas se caracterizam pelo seu "pluralismo", também muíto influen- 1977 particípam do chamado "grupão" com cerca de 40 pessoas: alguns
ciados por essa segunda gera,do de argentinos. Esse pluralismo está "psicanal1stas" da SPR], como Eduardo Mascarenhas, muitos psicólogos
presente na c em geral os que haviam participado, na primeira metade da década de
sustentação de controles com profissionais de diversas 70, de alguns dos grupos já citados. É deste "grupão" - que se reúne
orientações (...) não se tratando de um fenômeno de ecletismo durante meses, às vezes de forma caótica - que muitos psicólogos saem
(..J Assim, por exemplo, há uma saudável inapetência por aquikJ com a determinação de que é possível ser psicanalista, ainda que
que pode ser chamado de "psicologia do aleitamento" que alguns
identificam como uma certa psicanálise kleíniana (.. J Há,
contrapondo-se às Sociedades "oficiais".
também, crescente desconfiança por aqueles que macaqueiam Este "grupão", progressivamente, vai se reduzindo e os que ficam,
o patuá lacaníano de forma obsessiva sem, no entanto, se cerca de catorze pessoas, fundam o NEFF (Núcleo de Estudos e
desqualifícar o estudo da obra de Lacan. "1'>6
Formação Freudiana), ainda em 1977200• De inicio, Chaim S. Katz e
Por isso, os argentinos são também responsáveis - na c1inica - Gregório Baremblit ali dão aulas corno professores, mas em 1978 saem
por uma determinada "escuta" que não se filia a nenhuma instituição para fundar o IBRAPSI. Gradativamente o NEFF acaba se esfacelando, já
fOffi1aLa "escuta pluralista" ou "escuta contemporânea", como a chama que há doi~ grupos di~tintos que não conseguem conciliar seus projetos:
Berlinck e que eu chamaria de "escuta bastarda", por estar ligada a um apóia o dos argentinos, de fazer uma formação voltada para os
espaços considerados "bastardos" pelas subjetividades ·'psi" hegemõnicas. traball1adores em saúde mental (proposta de Gregório ainda por ocasião

197 Berlinck, M.T. "Difusão e Construção". In: Birman,j. (Org.) Freud50 Anos Depois. Op. cit., p.
72. 199 Figueiredo, A.C.C. Op. cit., p. 83
200 Sobre a história do NEFF, ver Pas",>os, M.D O Processo de Legitimação do Psicana1Ista= Uma
198 Berlinck, M. T. "Prefácio". In: Psicanálise da CJínJcaCotldlana. São Paulo, Escuta, 1988, p. 9.
Análise do Núcleo de Estudos e Fonnação Freudiana. Dissertação de Mestrado - PUeiR],
Sobre o assunto de uma "escuta pluralista~, ver na mesma obra o artigo ~O que é Um Psicanalista
Argentino?", 65-73. 1984.

162 163
~ da existência do "grupão"); o outro, já bastante influenciado pelo lacanismo Não é por acaso que muitos dos psicólogos - que vinham se
(há no NEFF professores que demonstram tal orientação, como SOfÚa formando ao longo de todo esse processo e, na época, com alguma
Nassim e Isidoro Americano do Brasil), funda em 1979 o 1FP (Instituto ditleuldade, é verdade, já se credenciam como psicanalistas, sendo
Freudiano de Psicanálise). reconhecidos como tais em seus consultórios - pouco ou quase nada
participam do projeto do IBRAPSLAqueles, que foram num passado
recente tutelados pela psicanálise "oficial", ou permanecem em seus
3.2 - O Instituto Brasileiro de Psicanálise, GnIpos e Instituições201 antigos grupos - como SPC e CESAC-, ou vão para a recém-fundada
SEPLAou são atraidos pelo movimento hcaniano que irrompe no Rto de
O projeto do mRAPSI, na época, é muito maL, radical do que o Janeiro, nesse periodo, As implicações politicas propostas pelo IBRAPSI,
dos demais: tenrativa de trazer para o Brasil a formação de trabalhadores coerentes com a produção das periferias das grartdes cidades e do
em saúde mental dentro de uma visão marxisra e não a de fOrnlaf psi- movimento sindical brasileiro, não fazem muito sentido para a classe
canalistas "puros". Só que a grande demanda então produzida e mesmo média "psi" carioca. O movimento corporativo anterior deixa profundas
fortalecida é a de uma certa ctinica analítica privada. Talvez esse projeto marcas. É uma outra geração de psicólogos cariocas que se sente sedUZIda
estivesse somente na cabeça de alguns dos argentinos que iriam fundar pelo projeto do IBRAPSI, não pela ênfase dada ã formação de traba-
o Instituto Brasileiro de Psicanálise, Gmpos e Instituições, com o U,adores em saúde mental ou pelo enfoque institucionalisra, mas por
intuito de difundir no Brasil as proposras do cO! e da EPSO. uma cerra formação ctinica em psicanálise de caráter privado. Tanto que
Em outubro de 1978, o IBRAPSIé lançado publicamente através o chamado Departamento de Análise Institucional criado, em 1982, no
do I Congresso Internacional de Psicanálise, Grupos e Instituições, oportu- lBRAPSI- aberto a qualquer profissional- é muito pouco procurado.
nidade na qual mais de mil pessoas nos salões do Copacabana Palace Todavia, ninguém passa impunemente por uma formação que,
assistem a conferências, palestras e mesas redondas "... de vários dos não obsrante todas as contradições, ambivalências e paradoxos, busca
mais controvertidos personagens nas áreas das ciências sociaL"psicanálise mostrar a prática psicanalitica implicada e transversalizada. Muitos dos
e psiquiatria"20', muitos deles vindos pela primeira vez ao Brasil, como que vão fazer fonnação clinica em psicanálise saem, pelo menos, sem os
Thomaz Szasz, Félix Guauari, Erving Goffman, Shere Hite, Robert Castel, antolhos e as limitações que os demais grupos tao reltglosamente
Franco Basaglia. Presentes também, dentre outros, Armando Bauleo, reproduziram e continuam reproduzindo. Alguns vão se interessar pela
Peter Fry, Célio Garcia e o grupo lacaniano brasileiro representado por Análise Institucional, por Deleuze, Guattari, Foucault e, ao lado de suas
Betty Milan. atuações clinicas privadas, realizam hoje diferentes trabalhos de inter-
"O IBRAPS!l)Uí organizar seu programa com base em quatro venções institucionais.
propósitos fundamentais: 1) cri/k;a epistemológica da psicanálise;
Dos três fundadores e diretores do IBRAPSI- Chaim Samuel Katz,
2) interdisciplínaridade - os TSMarticulando as diferentes ciên-
cias humanas; 3) atendimento maciço tanto para os TSMquanto Gregório Barcmblit e Luiz Fernando de Mello Campos -, somente os
para o maior número possível de setores populares; 4) trabalho doi, últinlOS continuam. Chaim, logo após o I Congresso, sal por
em associação com sindfcatos, partidos políticos, comunidades de dl,cordâneias de "ordem téenico-politiea": é contra a organização de
base e parlícípação nos planos de saúde do fulado através de grandes turmas para a formação, "pois após o Congresso chove gente
pesquisas, etc "!f:R,.
para se inscrever no IBRAPSI" (as primeiras turmas têm cerca de 80
alunos, assinalam alguns entrevistados).
Moraes, L.O. InstitucionaUsmoCarioca.
201 Sobre a história do IBRAPSI, consultar Dissertação de
No seu periodo de maior apogeu - de 1978 a 1982 - há cerca de
Mestrado-IMSIUER),1994.
202 Figueiredo, A.C.C. Op. cit., p. 88. 180 alunos inscritos e, em sua Ctinica Social, perto de 75 terapeuras
203 Idem, p. 87.

164 t6S
trabalham atendendo a uma média de 500 pacientes por ano. Segundo 1984 e Gregório permanece até 1990 somente com seu consultório.
um de seus diretores, Eduardo Lociser, não é uma Clínica Social, com . De 1978 a 1984, o IBRAPSItem uma intensa produção. Além do I
"uma ideologia humanista e assistencialista", mas um espaço onde OS Congresso Internacional, organiza o 11em 1982, com a vinda de René
profissionais "psi" trabalham, muitos deles recém-formados e se Lourau, Robert Mendel, Eduardo Pavlovsky e outros. Cinco livros são
formando no próprio IBRAPSI e que têm naquele local não apenas um publicados no Brasil e um na Argentina, sob seu patrocínio; criam-se
aprendizado, mas também um trabalho efetivo. De irúcio, organizada uma revista e um jornal: O Sigmund Organizam-se outros Congressos,
como uma cooperativa, a Clínica amplia-se por intetmédio de vários como o de "Psicanálise e Pedagogia" e o de "PsicanálL.e e Comunicação
convênios com empresas estataL. e sindicatos. Ela cresce tanto que se de Massas". Tenta-se a fundação de uma "federação brasileira de grupos
torna a principal fonte de renda e de manutenção do IBRAPSI, uma veZ psicanalíticos independentes", ma. L'to não foi conseguido.
que os cursos não são muito lucrativos. Aqueles que mais atacam e criticam a formação dada no IBRAPSI
A primeira grande crise interna neste grupo ocorre justamente e suas realizações são os psicanalistas "oficiais", sobretudo os da SPR].
com relação à Clinica, pois oS terapeutas que recebem 50% dos honorá- Além de violentos ataques feitos por meio da grande imprensa, regis-
rios sobre os atendimentos que realizam - muitos deles ainda alunos -, tram-se inclusive ameaça, de morte, particularmente a Gregório Baremblit,
necessitam desse trabalho. A direção diJninui este percentual; Eduardo que, em 1981, ao publicar um artigo contra a visita ao Brasil do então
Lociser sai e Luiz Fernando passa a administrar a Clinica. ditador argentino Videla, é obrigado a se mudar cinco vezes de residên-
Os descontentamentos explodem nas numerosas e intermináveis cia. Desde 1978, ano de organização do I Congresso, Chaim S.Katz é
assembléias. Alguns professores e alunos querem implantar Conselhos seguido acintosamente pela Polícia Federal. Gregório recebe, neste final
para que possam fazer frente ao exagerado centralismo dos doL. dire- de década e início dos 80, inúmeras ameaças. É o periodo - que já
tores e "donos" do IBRAPSI. Há propostas de se fazer uma Cooperativa. a'i.5inalei- dos vários atentados a bomba, que culmina com o do Riocentro.
porém os ânimos exaltados fazem com que, em 1983 - um pouco depois Os chamados "boisões radicais", ligados à extrema direita que domina
da saída de Eduardo Lociser -, Oswaldo Saidón e Vida Kankhagi também os aparatos de repressão, bastante insatisfeitos pela gradativa perda de
saiam. Como a proposta da cooperativa não traz a dL.cussão da autogestão, posições no governo Figueiredo e pelo recrudescimento dos diferentes
logo a seguir cerca de 40 pessoas se desligam do IBRAPSI formando o movimentos sociais, apelam para violências de todos os tipos.
Núcleo: Psicanálise e Análise Institucional. Sobre as posturas assumidas pelos psicanalistas "oficiais", Gregório
No ano seguinte, o IBRAPSI reestrutura-se e cria uma Sociedade Baremblit assim as descreve:
sob o regime de cotas, todavia, a importància que assumira entre oS consiste numa risonha e única combinação de táticas de
proflSsionais "psi" cariocas vai decrescendo gradativamente. amável indiferença, de hábil recuperação, de isolamento e
É impossível a aplicação das ferramentas da Análi.e Institucional indiferença, assim como de algumas agressões encobertas ou
diretas (...). Em 1981 o IBRAPSI encontra~se em uma situação
em uma intervençào socioanalitica dentro do próprio grupo que se pro-
simultaneamente exitosa e grave. As organizações psicanalíticas
pugna a isso. A criaçào de algo novo, talvez autogestionário, refutando reacionárias lançam uma verdadeira ofensiva contra ele. Além
os modelos instituídos, não pode se realizar. Entretanto, deste periodo de uma sistemática campanha de calúnias (arma típica da "rede
de intensa crise ficam, para muitos que a viveram, ensinamentos e expe- de divãs" da Zona Sul do Rio dejaner."ro), são publicados artigos
riências fundamentais no sentido de melhor entender algumas ferra- insultantes num fomallocal ( ..). Esse ataque culmina com uma
série de agressões telefônicas aos diretores do IBRAPSI que incluem
mentas institucionalistas; elas são, naquele momento, evidenciada. pro-
advertências políticas, ameaças de morte e outras delicadezas'r,,:)j.
funda e intensamente em suas práticas.
Outras crises ocorrem. Luiz Fernando de Melo Campos sai em
204 Baremblit, G. Ato psicanalitlcoe Ato Politlco Op. cit., pp. 50, 51 e 52.

166 167
Junto com o problema do mercado - pois o IBRAPSIefetivamente 3.3 - A Sociedade de Estudns Psicanalíticos Latino-Americanos
o está inflacionando com a formação que realiza -, para os psicanali~tas
"oficiais" a questão politica caminha lado a lado: não podem tolerar a A Sociedade de Estudos Psicanalíticos Latino-Americanos
quebra dos mitos da "verdadeira" psicanálise e da formação ligada à IPA (SEPLA) é criada, em 1978, por Luiz Paiva de Castro (ex-CESAC) e
como únicos e universais. Não podem tolerar que, na "prãtica, se tenha Lourival Coimbra (ex-SBPRJ, analisando de Décio Soares de Souza,
feito tremer o altar e o trono" 20' dessa psicanálise tão religiosamente expulso ela SBPRJ em 1965). Vários psicólogos do CESAC e clientes de
defendida por eles. Tudo o que Foucault. Castel. Deleuze, Guattari, tourau Coimbra vão juntos com Luiz Paiva.
ou tapassade haviam dito há muito sobre psicanálise c politica, de fom1a A proposta inicial - muito parecida com a do CESAC - é uma
contundente"I6, os profissionai~ "psi" começam a avaliar ainda de forma formação psicanalitica articulada com a antropologia, ftlosofia, mitolo-
frágil e muito lenta. E, sem dúvida, a segunda geração de argentinos, gia, etc. Três turmas inicialmente são criadas: duas de alunos novos e
notadamente os ligados ao IBRAPSI,em boa parte, são responsáveis por uma "especial" com profIssionais "psi" sem maior formação, mas que
isso. Aqueles autores - na época conhecidos por pouquissimos dentro têm prática clinica há mais tempo'''.
do movimento "psi" brasileiro - paBsam a ser difundidos e lidos por um Além do IBRAPSI e dos grupos lacanianos, existe ainda, no Rio,
maior número de pessoas, notadamente pelos que transitam pelo IBRAPSI uma grande clientela de psleólogos à procura de formação. Como na
ou sofrem sua influência no Rio. época corresse o boato de que sairia uma lei, proibindo o psicólogo de
Malgrado as virulentas e ácidas críticas, que chegam à desquali- clinicar"l9, a SEPLA - apesar elas críticas que faz ao academicismo das
ficação, feitas por alguns argentinos ao movimento "psi" carioca, em Sociedades vinculadas à IrA - organiza seu currleulo e uma série de
muitos aspectos - ou em quase todos - eles não deixam de ter razão. normas burocráticas (nota, freqüência, diploma), com o propósito de
Quando, por exemplo, Gregório Baremblit se refere aos mai~ variados oferecer uma formação de quatro anos, extremamente acadêmicos e
grupos que se formam a partir dos anos 80, no Rio de Janeiro, mostra rigidos.
que, em realidade, são: De 1981 a 1983, várias crises ali se sucedem. O argentino Eduardo
minúsculos núcleos. endogâmicos, sem qualquer contato Vidal, professor convidado, que prepara grupos de estudo sobre tacan,
entre st, sem produção tedrica sôlida. sem preocupaçôes sociair; desentende-se com tuiz Paiva e, pouco a pouco, afasta-se com vários
e cu/tivadores de um absurdo "narcisismo das {Jequenas dife- alunos da SEPLA- alguns da chamada turma "especial"-, criando, mais
renças ", que undem a cnar reservas de mercado. migalhas de
tarde, a tetra Freudiana. Coin1bra retira-se, ainda em 1981, e, já ligado à
poder universitário e uma ridícula auréola de prestígio haseada
em traços unificadores degradantes. tais como o mistério, a Clínica Terra, nela permanece. No ano segu.inte, Narciso Teixeira e José
diftculdadedeingresso, o "charmedoshierarcas'; etc. (.). Éclaro Inácio Parente - também da turma "especial" -, já formados, compõem
que existem pessoas, algumas pessoas, ou melhor, 'fragmentos" de uma nova diretoria, com novo currlculo que privilegia a leitura de Freud
pessoas, amiúde rechaçada~ e desacreditadas que fazem suas dentro da escola francesa. Joel Birman é um dos idealizadores dessa
tentativas de investigaçao e militância (. _,) em geral sem o menor
nova orientação. Em 1983, Luiz Paiva afasta-se e acusa a diretoria de
estímulo, fama ou apoio_ E não é de se estranhar que muitas delas
não sejam propriamente psícanalistas"1fJ7. "esquerdista", aludindo à preocupação da SEPLA com as lutas pela
democratização da sociedade brasileira em gerA!. .
Além do :"lEFFe do lBRAPSI, no final da década de 70, no Rio de
Vivenciam-se intensamente os movin1entos pelas Diretas Já!,
Janeiro, ainda são fundados dois outros grupos: a SEPtA e a Clinica
propagando esta idéia por muitas capitais do pais.
Terra.
2fJ8 Sobre o desenrolar da história da SEPLA,ver Figueiredo, A.C.C. Op. cito
2JJ5 Idem, p. 58. 2fJ9 Parecer Alcântara-Cahemite emitido pelo Conselho Nacional de Saúde, visando retirar dos psicólogos
2D6 Idem, p. 80. o direito de exercer a psicoterapia. Este Parecer não chegou ao Congresso.
2fJ7 Idem, p. 74.

t68 t69
Nesta época, Os exemplos da SEPLA(em seu segundo período) e da CIÚlíca
Terra mostram como - apesar das boas Últenções dos envolvidos nestes
"." as principais diretrizes traçadas pela SEPlA poderiam ser
resumidas assim: gestâo democráti<:a da sociedade - voz e voto dois projetos, pessoas Úlclusive identificarias com posições nitidamente
para todos -; ausência de uma figura centralizadora de poder progrcssi'tas - as práticas "psi" então dOmÚlantes são verdadeiras cami-
(. ..) .. ausência de didatas na instituiçào - estar em análise é pre- sas-de-força. Evídenciam que, embora Últeressados em veicular algo de
requisito para a formação, mas o critério é escolha pessoal -; novo, de criativo, de diferente da "verdadeira" psicanálise e da formação
ausência de diplomas para o psicanalista - qualquer cet1ificado
é expedido somente para os cursos "210.
instituída pela IPA, esses estabelecimentos não conseguem fugir das
malhas do instituido, da formação meramente acadêmica. Produzem prá-
Também como o Curso de Psicanálise do Sedes e o IBRAPSI,a ticas em muito semelhantes às que pretendem criticar, continuando
SEPLA- com muito menos intensidade - .vive uma série de contradi- confinados no estreito território "psi", ainda encharcados pelo corpora-
ções e paradoxos pela sua própria proposta de formação, colocada em tivismo dos psicólogos e, em realidade, fortalecendo-o.
prática a partir de 1982. Contudo, fica a pergunta: será que mudanças
burocráticas no funcionamento do estabelecimento - como algumas
apontadas acima - conseguem a produção de novas práticas, novos 4 - O MOVIMENTO LACANIANO
saberes, novos sujeitos?
Aos poucos, a SEPLAvai se esvaziando, pois, segundo alguns A segunda metade dos anos 70, ao lado de todos esses grupos
entrevistados, terminada a formação, não há mais o que fazer, não há "ps;", que surgem tanto no Rio quanto em São Paulo, marca também o
outras atividades. aparecitnento do tnovimento lacaniano no Brasil.
Da mesma forma que os demais grupos "psi", o movimento laca-
niano vai, dentre outras coisas, caracterizar-se pelas críticas que faz à
3.4 - A Clínica Terra "verdadeira" psicanálise c, sobretudo, ã formação instituída pela IPA.
Trazendo para o Brasil uma série de questões sobre a formação analítica
O último estabelecimento surgido neste final de década é a Clínica enunciadas por Lacan, a partir da décacla de 50, o chamado lacanismo
Terra, fundada oficialmente em 1979. Origina-se de um grupo de oferece para muitos "psi" o respaldo teórico para a definitiva quebra do
psicólogos da UFRJ que, desde 1975, reúne-se para estudar psicanálise monopólio da psicanálise mantido pelas Sociedades "oficiais'.
e, posteriormente, para trabalhos de orientação vocacional dentro da O movimento lacaníano apresenta diferentes articulações no Rio
abordagem clinica do argentino R. Bohoslavsky. Em 1977, estudam de Janeiro e em São Paulo. Tentarei, por isso, descrever, ainda que
sistematicamente psicanálise sob a coordenação de Lourival Coimbra e sucintamente, um pouco de sua história nesses dois espaços.
organizam o Centro de Estudos em Psicologia Clínica. Dois anos depois,
quando iniciam os atendimentos terapêuticos, fundam a Terra-ClÚlica
Escola. 4.1 - O Lacanismo em Solo Carioca
Além de Bohoslavsky, valem-se dos "grupos operativos" de Pichon
Riviêre. Quando inauguram a C1Úlica, pensando numa formação No Rio de Janeiro, a leitura das obras de Lacan começa a ser
psicanalítica "não hierarquizada" e "mais dinâmica", utilizam-se dessa introduzida, ainda no início da clécada de 70, por Hórus Vital Brasil -
técnica na aprendizagem. A base teórica é a escola inglesa, principal- ligado ao IMP, depo., SPID - e Magno Machado Dias, o M. D. Magno-
mente M. Klein e Bion, embora estudem também Bleger e Coopero ligado inicialmente ã PCC/R] e, posteriormente, ãs Faculdades Integra-
das Estácio de Sá.
210 Figueiredo, A.C.C. Op. dt., p. 95.

170 171
o Colégio Freudiano do Rio de janeiro minada posição existencial no campo social (artista, intelectual,
elemento de alguma minoria ou maioria, cientista, operário, etc.)
(., ,). A função é colocar,fora da situação analttictl, os analis-
o primeiro estabelecimento lacaniano fundado, em 1975, por M. tas e estudiosos da psicanálise interessados na posição de recebe-
D. Magno e Betty Milan, é o Colégio Freudiano do Rio deJaneiro rem, do convidado, o relato de sua uisão a respeüo de sua própria
que, de início, não se propõe a fazer formação, mas congregar os posição diante da cultura. Não se trata, de modo algum, (. ..) de
interessados na "... reflexão sobre os textos de Freud e Lacan e, uma redução (queseria indevida) do convidado ao lugarde anali-
conseqüentemente, no campo pen,ante que se abre a partir dL'to"211.Em sando, mar; sim uma oportunidade, para os participantes, de
receber atransmissão do discurso de um Outro que bem poderá
1977, assodado ao Colégio Freudiano, crLa-seo Departamento do Cam- contribuir para sua reflexão no campo da psicanálise"213 (grifas
po Freudiano, nas Faculdades Integradas Estácio de Sá, um curso "aberto" do autor).
e "livre" de formação em psicanálise que funciona somente um semestre.
A partir de 1979, quando se desvincula da Faculdade Estádo de Sá o
o primeiro convidado a ser chamado para o Sarau é Caetano
Colégio FreudLano passa a oferecer os mais varLados cursos, seminários Veloso.
e grupos de estu do. Explica-se esta citação sobre os saraus lacanianos pelo fato de
que pode parecer à primeira vL'ta abertura e Uexibilidade de psicana-
É em 1979 que se organiza o Centro de Estudos, encarregado da
formação em psieanálise, oportunidade em que os laeanistaB fazem mais listas que, até então, enclausurados em seus grupos, querem abrir-se
explidtamente a distinção entre fonnação em psicanálise e formação para o mundo, para os diferentes movimentos socLais que, na época,
psicanalítica. A primeira é uma transmissão claramente pedagógiea e crescem e se fortalecem no Brasil. Entretanto, minha leitura vai por
condição para a segunda, mas não só isso, pois é também destinada outro caminho: por que é necessário, em algumas ocasiões, a abertura
para o mundo? Justamente porque não é permitido no cotidiano desta.s
",.. a todo e qualquer que reconheça na psicanálise um campo de práticas que este indice de transversalidade se atualize, se efetive; há
sabercentraJ em nossa época e, por isso, do interesse de todos (.. J
A formação psicanalítica que envolve aprática segundo um OUtro necessidade de algumas oeasiões, alguns momentos, para que isso ocorra.
discurso resta vinculada ao prâprio Colégio enquanto Colegiado '~12. Ao contrário, suas práticas não estão implicadas com os diferentes
movimentos. )lo cotidLano, em realidade, existem dois territórios bem
Este processo compreende a análise (feita com um membro do delimitados: de um lado, a formação, em que há os seminários, os eartéi"
Colégio), a garantia (após apresentação de trabalhos teóricos, a partir etc; de outro, os saraus, nos quais, por uma fresta, pode-se acompanhar
da qual o candidato passa a ter com o estabelecimento o vinculo de o que se passa no mundo. Assim, esta fresta que é um espaço "fora da
psicanalista) e o passe (quando se torna psicanalista do Colégio). situação analítica" tem o objetivo de "transmitir o discurso do outro que
Em 1981, com a modificação dos Estatutos, é crLado, vinculado ao pode contribuir para o campo da psicanálise". Esta - a psicanálise - é,
Colégio FreudLano, o Instituto Jacques Lacan, responsável pelos dois por eonseguinte, o território mais importante; os movimentos socLais e o
tipos de formação que são coloeados eomo níveis de pós-graduação. No que passa pelo mundo simplesmente servem como complemento para
ano seguinte, organiza-se o chamado Sarau, que . ela.
"."é um encontro, constituído por uma única sessão, em que Em 1983, com as novas refoffilUlações dos Estatutos, o Colégio
um convidado é entrevistado por um cartel especialmente cons- FreudLano e o Instituto Jacques Lacan
tituído (. _.). O convidado é sempre alguém que represente deter-
;1.reorganizam e ampliam o Curso de Formação em Psicanálise
_.

eo dividem em quatro etapas sucessivas: Curso Básico, Curso Suple-


211 Dias, A.I.C. "Colégio Freudiano do Rio de Janeiro: 10 Anos de PsicanáIise~.In: Revirão 2- Revista mentar, Mestrado em Psicanálise e Doutorado em Psicanálise "2]4.
da Prática PsicanaJ1tica. Rio de Janeiro, a outra, 198'5, 200~216,p. 201.
212 Idem, p. 203. 2]3 Idem, p. 207.

172 173
o Instituto Jacques Lacan que, desde 1981, tem sua estrutura Esse "imperialismo" da psicanálise e essa sua superioridade
claramente baseada no ensino de 3º grau, já que apresenta a figura de convergem para práticas que privilegiam a erudição, o elitismo c o
um reitor e de diretores para diferentes áreas, a partir dessa reforma de academicismo.
83 toma-se ainda mais academicista. "Apsu;análise enquanto "arle" se elitiza de outro modo. E passa,
Por este Estatuto, M. D. Magno é designado como o mestre do como não pocierit1 deixar de ser, a e...'I(ciuir um grande número
Colégio Freudiano, de membms das novas profissões (na sua maioria os psicólogos)
que, de algUffUl forma, não adquiriram (.,) a "competência"
"... o que significa que a leitura de Freud e lAcan éfeita através requerida pelo exercício da psicanálise lacaniana "216 (as aspas
da versão de Magno, cujos textos são a base do currículo são minhas),
obrigatório do Instituto jacques lAcan. Magno, assim, se outorga
definitivamente ser o representante de Laca" no Brasil" 215 Estas práticas eruditas e elitistas mostram como - apesar dos
(grifas meus). recursos que utilizam advindos da literatura, música, artes, etc. - estão
°
Tanto que na "História dos 1 Anos do Colégio Freudiano do Rio distantes de uma efetiva transversalidade, ele uma efetiva implicação
com os movimentos que se espalham por todo o Brasil, tanto no campo
de Janeiro", numa publicação de O Revirão, editada pelo próprio gru-
p021', nota-se perfeitamente que sua história é a trajetória de M. D. Magno, quanto nas cidades e periferias. Assim sendo, o sarau é um dispositivo
através de seus cursos, seminários, grupos de estudo, entrevistas dadas, produzido para servir a tais práticas.
artigos escritos, etc. Após os novos Estatutos de 1991, M. D. Magno O elitismo e a erudição atraem a muitos - da mesma maneira que
afastou-se das atividades administrativas do Colégio, fkando somente a formação analítica "oficial", pela própria produção de subjetividades
com a parte de ensino, tendo a função de "Zelador da doutrina"21'. dominantes. havia seduzido os jovens "psi" no início da década - e, nos
Segundo Magno e seus "seguidores" do Colégio Freudiano, há um 80, um grande número de pessoas transita por uma série de atividades
estatuto específico para a Psicanálise no campo da cultura. Por i'5o, elo Colégio, abertas ao público. como os Mutirões (encontros sobre um
buscam produzir o que chamam de "Clínica Geral", que é a "intervenção" determinado tema apresentado por um membro do grupo), as Cirandas
leita na cultura pela pSlCanálise que, por ter um discurso especifico, tpequeno Congresso em que. diferentemente do Mutirão. há a apre-
pode operar com os diferentes campos culturais, propiciando diferentes sentação de trabalhos de não-membros), os Saraus e os difercntes cursos
cruzamentos. Por conseguinte, a Antropologia, a Politica, a Sociologia, apresentados.
etc., são campos auxiliares da psicanálise; pretende-se através dela chegar- Ainda em 1983, é formada a Causa Freudiana do Brasil, espaço
se a uma explicação da cultura brasileira. congressual, da qual fazem parte os Colégios Freudianos do Rio de Janeiro,
Esta proposição, muito mais complexa do que aqui é exposta - de Brasília e de Vitória que almejam reunir as associações brasileiras de
especifica deste grupo lacaniano -, vê a psicanálise como uma prática inspiração lacaniana para manter uma psicanálise com autonomia nacio-
discursiva, dando pouca ênfase ã chamada clínica, em muito aniculando- nal sem se submeter a colonialismos estrangeiros. Extingue-se, em 1988,
se com o autoritarismo e a hierarquia dominantes no Colégio Freudiano. por não atingir o objetivo a que se propunha por ocasião de sua fundação,
segundo alguns membros do Colégio. Nestc mesmo ano, ocorre uma
grande divisão: saem cerca de 100 pessoas, que posteriomentc fundam
2J4 Idem, p. 20R
215 Figueiredo, A.C.C. Op. cit., p. 104. outros grupos lacanianos. É grande a luta contra a figura controvertida

,
216 Obra já citada, de onde foram retiradas várias informações sobre sua história. de M. D. Magno.
217 Ver 05 artigos }'t - "A Doutrina" do Regimento Interno do Instituto jacques Lacan; "A Doutrina
Psicanalítica do Colégio é aquela definida pelo Zelador ..." e 12º dos Estatutos do Colégio Freudiano 218 Russo, J. o Corpo Contra a Palavra: Algumas Reflexões sobre a Evolução do Movimento
do Rio de Janeiro.·ln: Regimento Interno Rio de Janeiro, março/1991, mimeogr., p. 01 e "Psr Brasileiro. Trabalho apresentado no Curso de Doutorado. Rio de Janeiro, Museu Nacional,
Estatutos - março/1991, p. 06. 1989, mimeogr., p 18.

1'4 i 175

I
o lnstituto Freudiano de Psicanálise Continua-se prisioneiro de um território "psi" isolado e bem defendido
por todos esses ideais.
o segundo grupo lacaniano a se formar no Rio de janeiro após
o Colégio é o Instituto Freudiano de Psicanálise (IFP), oriundo da
cisão que vimos ocorrer no NEFF em 1979. De início, participam Isidoro A lRtra Freudiana
Americano do Brasil. Chaim Samuel Katz e a argentina Stella Gimenez
(que traz as contribuições do argentino Oscar Masotta). O último grupo é fundado no Rio de Janeiro em 1981. a Letra
Freudiana, pelo argentino Eduardo Vidal, após sua saída da SEPLA.
Inicialmente, conforme depoimentos de alguns de seus fundadores,
Também influenciada pela leitura que Oscar Masotta faz das obras de
este gnipoJ embora pretendesse ser autogestivo, em muito vai reproduzir
Freud, na década de 60 na Argentina, a Letra Freudiana inicialmente não
o modelo unlversitàrio de formação vinculado à IPA e ao próprio Colégio
se propõe a fazer formação, mas a organizar grupos ele estudo, segundo
Freudiano. Diferentemente das Sociedades "oficiais", não há a análise
esta leitura, que funciomllll por meio de canéis.
didática obrigatória, e, nas assembléias gerais, todos os membros têm
direito a voz e voto, bU'icando estabelecer-se uma rotatividade nos cargos A partir de 1983, organiza a chamada" formação permanente" em
de direção. psicanálise através de:
Contra a ortodoxia e o autoritarismo da IPA e do Colégio Freu- "1- uma transmissdo e um ensino textuaís,- 2 - um compromi.'>So
diano, este pequeno grupo enfrenta uma série de dificuldades, pois com aproduçào escrita: 3 - o exercício de UIIUl clittica
sustentada no questionamento rlf!.oroso da direçào da cura e do
não exerce a atração que os anteriormente citados conseguem com
final de análise Amm, a Escota estabeJ.ece um laço sodal que,
relação aos "psi" cariocas. marcado pela ética do di.çcurso do analista, difere do grupo
Em 1983, há um grande racha: sai Isidoro Americano do Brasil, concebido peja pia imaginaria da hierarquia, do ideal e dfJ
cbejin. ,,219 (grifos meus).
acompanhado de um número razoável de pessoas. Mais tarde, Stella
Gimenez também se afasta. Chaim já havia saído antes. O grupo, agora Aqui, há uma clara alusão ao Colégio Freudiano e, pela preo-
ainda mais reduzido, tenta desmontar a organização naquilo que tem de cupação que a Letra demonstra com a questão ela prática clínica, perce-
"especular" da IPA: acaba com a obrigatoriedade da supervisão e passa be-se que as diferenças entre ambos são muitas.
a dar seminários e grupos de estudo, utilizando os cartéis. Diferentemente dos dois grupos lacanianos mencionados, este não
Novamente em 8S/86, outra saída de pessoas que vão fazer sua se mantém distante de outros estabelecimentos não-lacanianos no Rio
formação nas "oficiais", já então abertas aos psicólogos. O grupo que de janeiro. Mantém vinculações com a SPAG, a SPlD, a SBPRj e o Cír-
fica continua insistindo na questão de uma formação psicanalítica sem culo Psicanalítico, servindo-se de palestras, grupos ele estuelo, seminá-
os vícios c mitos presentes nas demais formações, tentando pensar a rios, etc.
proposta de Lacan, o que, de acordo com muitos depoimentos, tem sido Contudo, até por priorizar uma certa clinica, encerra-se e isola-se
extremamente difícil.
num espaço eminentemente "psi".
Ingenuidade' Acredito que sim, mas não só isso. Principalmente a
idéia - não muito diferente da instituição formação analítica presente
nas Sociedades "oficiais" - de uma formação estritamente "psi" acadê-
mica (embora lutem contra isso), desvinculada de outras práticas. A
crença na assepsia, na neutralidade, nos dogmas ainda se faz presente.
O mundo, a transvcrsalidade, os movimentos sociais não são·pensados. 219 "Ata de 1987", In: Documentos Para uma Escola. Letra Freudiana: Escola. Psicanálise e

I
Transmissão. Rio de Janeiro, Ano 1, n2 O, p. 1 I .

176 t77
4.2 - O Lacanismo em Solo Paulista "Quando se pensam as origens do (''hr~surge a indagação sobre o
que representa o peso da berança religiosa, em geral, e em
particular, a jesuitica, para o destino dos paulistas. Questão
Ao contrário do Rio de Janeiro, que, na segunda metade dos anos subjacente de grande importância, nunca su.!kientemente
70 e início dos 80, apresenta uma nitida aglutinação de grupos lacania- esclarPefda. Pois, numa cidade de marcada tradição católica como
nos. em São Paulo o nlOVlllento não é tão forte, congregando menos São Paulo. nào se pode desconhecer esta paternidade. Que dizer,
pessoas, sendo muito disperso e os grupos ai fundados têm duração então, do surgimento do lacanismo numa esfera ligada à Ignja?"
efêmera. Todavia, afmnam que:
oi,. ,o CEF, na sua expressa0 paulista, tinha um projeto ambicioso
o Centro de Estudos Freudianos
(. mas teve um mérito "inaugural", Deleparticiparam membros
J,
da Escola Freudiana de Pario;, A pue de Campinas, ou melhor, o
seu curso de pó.<;~graduaçàoem Psicologia Clínka, foi a proveta
Desde 1973, Luiz Carlos Nogueira - professor da USP a partir de onde se deu a concepção "220.
1969, à epoca da saída dos didatas da SBPSP- interessa-se pelos estudos
Justamente em 1978, quando se criam os Estatutos, explodem as
de Lacan e, em 197';, junto com Jacques Laberge, do Recife, e Durval
lutas pclo poder dentro do CEF; impõe-se uma maior institucionalização,
Checchinato, de Campinas, fundam o Centro de Estudos Freudianos
que gera a criação de normas, de critérios para determinar quem deve
(CEF), considerado o primeíro grupo lacaniano no Brasil. Começam a
entrar, quem dcve dar os grupos de estudo. quem, em suma, ol1lpará os
trabalhar, sobretudo, em cima de encontros bi anuais (um no Sul, outro
lugares de prestígio e mando.
no Nordeste) e, progressivamente. vão se constituindo outros núcleos
O CEF paulL'ta continua funcionando até a primeira metade dos
regionais do CEF como os do Recife, Brasília, Salvador, Campinas, Curitiba,
anos 80, período em que, pouco a pouco, abandonam a instituição oS
!\'atal e maL, tarde Porto Alegre.
seus fundadores: Joana Helena C. Ferraz e depol' o próprio Luiz Carlos
Em 1978 no VII Encontro Nacional do CEF, são estabelecidos os
Nogueira. Os demais núcleos regionais permanecem atuando, embora
estatutos nacionais com a proposta de que os centros regionais tenham
bastante [ragilizados peías diversas cis<Íes ocorrídas.
seus próprios Estatutos.
Neste mesmo ano, ocorre um racha. Sai do CEF um grupo de
doze pessoas, dentre elas Márcio Peter de Souza Leite, o argentino Oscar A &cola Freudiana de São Paulo
Angel Cezarotto e Alduisio Moreira de Souza. Os doL, primeiros. chega-
dos no ano anterior da Argentina, tinham pertencido à Escola Freudiana Um outro grupo que se institucionaliza logo depois, fonnado pelos
de Buenos Aires, fundada por Oscar Masotta e o terceiro, vindo de Paris, que em 1978 deixam o CEF. é a Escola Freu<Uana de São Paulo que
participara da Escola dc Lacan. também realiza grupos de estudo e seminários. "Nos primeiros anos de
O CEF não oferece cursos seqüenciaL, com um l1lrri11l10prévio, existência, a Escola Freudiana reúne cerca de 30 membros, incluindo os
mas grupos de estudo, seminários, etc. A saída destes membros tem 12 "dissidentes" do CEF"ul
como principais motivos as queixas referentes ao autoritarL,mo impe- Alguns de seus fundadores aftrmam que:
rante no CEF e as influências jesuíticas ali presentes; alguns entrevistados " a EFSP foi uma precipitação temporal, uma '1aculaçào precoce
declaram que Jacques Laberge, Jesuíta da Companhia de Jesus, teria que poderia ter uingado não fossem as querelas intestinaL ••e, por
vindo ao Brasil com a incumbência de criar um movimento lacaniano.
Os que saem em 1978 perguntam: 220 Ferreira Neto, G.A., Leite, M.P.S. e Cesarotto, O. "Paulieéia Desbravada". In: Revista Clinica
Freudiana - Série Psicanálise, São Paulo, s/data, 4:,\~48,p. 4'i.
22] Sagawa, R. Y. Op. cit., p. 272

178 179
sorte, a coincidência da di.'tso/ução da Escola de Lacan em 1980, das formações, e todos os membros da SPSPsão vinculados à Biblioteca,
que quebraram a especularídade e a ilusão mega16truma. Foi
mas nem todos da Biblioteca são vinculados à Sociedade.
ejemera sua trajetória Fica a pontuação de que a escolba do
nome~ &cola rreudfana ~ representava uma tentativa de identift~ No entanto, este grupo não consegue aglutinar os lacanianos
cação imaginária com a instüuição de 1L.lcan(...). Pode-se concluir paulistas; alguns caracterizam-no como uma "organização empresarial",
que a iniciativa ~ava abrir um e.\paço de liberdade fora da preocupada com a questão de direitos autorais, de prestigio e levando a
hierarquia que religiosamente congregava os integrantes'do CEF
um consurnlsmo do pret-à-porteroficioso'''.
Pai, porem, sair de uma para entrar em outra ... "m..
Muitos lacanianos seguem dispersos ou em pequenos grupos não-
Em 1980, extingue-se a Escola Freudiana de São Paulo num clima institucionalizados quando, em 1985, Betty Milan e outros pensam em
de conflitos e lutas internas. um espaço no qual seja possível congregar todos os que, em São Paulo,
tcnham alguma vinculação com Lacan. Chama-se O Ponto e, siste-
maticamente, se reúne no MASP para apresentação e discussão de
A Biblíoteca Fwudiana de Sào Paulo
trabalhos. É um espaço pontual, cujas iniciativas e atividades começam e
acabam ali mesmo. Ele não dura muito tempo e logo se esvazia.
o terceiro e último gnlPO lacaniano, surgido no início dos anos
80, é a Biblioteca Freudiana de São Paulo, organizada em 1982 por "Um pontilbado de boas intenções acompanhava a oferta.
Solidários e não mais separados, o esforço compensaria: uma
Jorge Forbes, que tinha sido um dos fundadores do NEPP, em 1976.Para eUL (Central Onica Lacaníana) canalizaria e muttiplicaria os
este estabelecimento, mais tarde, vai Luiz Carlos :'<ogueira, que ai efeitos de transmissão. Por melhor que fosse a pontaria, o alvo se
permanece até 1990.Diferentemente das demais, a Biblioteca, organiza, perdeu de t/fsta"ai.
aos poucos, além do oferecimento de grupos de estudo, uma formação
Assim, de forma bem distinta daquela do Rio de Janeiro, os
analítica. Esta é feita em módulos, "uma rcleitura da proposta de cartéis
lacanianos paulistas não conseguem organizar estabelecimentos consi-
fcita por Lacan", com duração de um semestre ao fim do qual cada
derados "fortes", que os aglutinem, que consigam reuni-los de forma
participante produz um trabaUlOescrito sobre o tema estudado. Há ainda
si'ternática. É o que muitos consideram ser a efetivação da "política do
as sessões clínicas. as jornadas (reuniôes selnestrais aberta"», o curso
grão de areia", proposta feita pelo próprio Lacan após 1980,logo depois
fundamental (criado em 198'5, composto de 6 semestres e realizado após
da dissolução de sua Escola.
os módulos), o Colégio (cursos sobre temas especificos, aberto a qualquer
um), os Seminários (conferências), a Ciranda (estudo específico da criança "Os analistas, ao sabor dos ventos, se reunem quando um objetivo
comum os aproxima, e se separam quando aquilo já deu tudo o
no "dL,curso analítico") e as reuniões mensais (encontros abertos sob
que podia dar"2Z7
forma de conferências)"".
Em 1988,dezessete membros da BibliotecaFreudiana de São Paulo, Duerentemente também do Rio de Janeiro, onde os grupos laca-
por iniciativa de Jorge Forbes, fundam a Sociedade Psicanalítica de níanos ínstituidos tendem a um isolamento, em São Paulo, no fmal dos
São Paulo, como ".. um instrumento para a discussão da garantia do 70 e início dos 80, ocorre uma série de rearticulaçõcs no Sedes (nos clois
analísta e do passe""". I\esta Sociedade, a formação da Biblioteca é wna cursos de Psicanáli,e), no NEPP, no CEF e na Escola Freudiana. Os
quatro grupos possuem professores comuns; outros'são chamados para
seminários ou grupos de estu do.
222 Ferreira Neto, G-A., Leite, M. P. S. e Cesarotto, o. Op. cit., p. 46.
223 Maiores informaçóes sobre o que charrum de "transmissio oral" e 'l.ran.'mti",'ilioe.'lCrita" ver Kolrai
C. "A Biblioteca Freudiana de PsicanáLise". [n: Capítulos de PsicanálIse. Sio Paulo: Bibliotec~ 1.2'5 Sobre tais questionamentos, ver I1erreira NetO,G.A., I.cite, M_P.S,e Cesarolto, O. Op_ dto
rreucliaru de Psicanálise, nQ 14, julho/19s<l, 04~28. 226 ldem, p. 47.
224 Idem, p. 42. 227 Idem, p. 46.

180 18t

I
Entretanto, a exemplo do Rio - ã exceção do grupo de Magno -, burocratizados e neles a formação passa por diferentes graus e níveis,
OS lacanianos paulLstas também.revelam a preocupação específica com como o Colégío Freudiano no Rio de janeiro e a Biblioteca Freudiana
a prática clÚlica, como articular Lacan a seus atendimentos privados. Hrasileira em São Paulo; todavia, se fom10s pensar em lermos de produ-
Quando assinalo a similaridade elaspráticas lacanianas cariocas e çio de práticas, não há grandes diferenças.
paulistas, o que pode parecer estranho pela dispersão que há em São O que produzem tais prátiC:1S'Algo diferente do que as Sociedades
Paulo, quero mostrar - como já apontei no Rio - o fechamento, o "ofleiais"e outros grupos "psi" instrumentalizam? Algo "novo" em relação
isolamento que produzem. Rcstringem-se pura e especiflcamente ao i "vcrdadeira" psicanálise e i formação analítica?
territôrio "psi". As' articulações com o mundo não são feitas e suaS Em realidade, estas práticas produzem "outras" instituições: uma
implicações não são pensadas; da mesma forma que a produção dessas "outra" ';verdadeira" psic31lálise - a freudiana lacaniana - e uma "outra"
práticas "psi" não são vistas como produzindo objetos, sujeitos, saberes formação analítica - a transmissão -, tão poderosas, autoritárias, hierar-
e subjetividades. quizadas e disciplinadoras como as produzidas pela IPA. Utilizam-se
As querelas internas, tanto em São Paulo quanto no Río de janeiro, de discursos tão "verdadeiros' como os anteriores: 'científicos", "lógi-
são explicadas do interior do próprio movimento: ora como lutas de cos" e "racionais". Em lugar dos clidatas, criam-se outros profetas e
poder (daí as várias rupturas existentes), ora como reprodução do que sacerdotes que, da mesma forma que as vestaLs,devem manter "puro" e
ocorre a nível internacional. Principalmente após a dissolução da Escola sem misturas o santuário lacaniano. É distante e inacessível aos leigos, já
de Lacan e depois de sua morte, a aproximação ou não ajacques Allan que somente os "iniciados" têm permissão para penetrar nesses templos.
Miller provoca acirradas brígas no movin1ento lacaniano brasileiro. Há Seantes os "iniciados"eram escolhidos por categoria profissional, somente
aqueles que a ele se associam - filiam-se ao Campo Freudiano228 -, médicos ou psicólogos, agora é uma seleção muito mais sutil: a seleção
mas, apesar di.')so, afirmam fazerem críticas ao "mercantilismo" e ao da "competência", porque não é qualquer um que pode entender a
"aspecto comercial" embutidos na proposta de MilIcr. Outros, como abstração de um dLscursológico-matemática-fIlosóficoe, por conseguinte,
Magno, repudiam o "colonialismo", levantando acirradas críticas a MilIer "racional" e "científico". Poucos são os escolhidos; poucos os que têm
e seus seguidores, sem integrar o Campo Freudiano. "capacidade intelectual" e "recursos culturais" para entender tão dilkil e
No entanto, apesar de tais interpretações - que a meu ver são 'complexo" discurso. Daí, as mesmas práticas de exclusão, de ,prit de
instituídas, pois partem do interíor do próprio movimento "psi" - corps, embora as portas estejam abertas a quem desejar ingressar nesse
mostrarem muitas diferenças entre estes grupos lacaníanos, não espaço. Se nele não permanecem é por sua própria "incompetência" e
compartilho de tal entendlmento. Por não considerar o Iacanismo como "inferioridade" cultural e intelectual.
um objeto em si mas como coisa natural, percebo que é produção e que É a mesma produção que vemos surgir no campo da educação
institui práticas, saberes e sujeitos, não sendo tão diferentes assim. nos anos 60, nos Estados Unidos, dentro da teoria do "capital humano",
Conforme já mencione~ são similares. e que é exportada para o Brasil na década seguinte: a elacarência cultural
Mesmo se considerarmos as diversas formas de organiZação destes das crianças que não conseguem aprender. A escola é demoerática. Se
grupos, o que pode artificialmente levar ã constatação de que são uns conseguem e outros não, o problema é deles, de suas "dificulelades".
diferentes, isso não acontece. Alguns grupos são pequenos, pouco Da mesma forma, a sociedade é democrática: UU"'l triunfam e outroS não,
institucionalizados, e a questão da formação não é muito enfatizada, a questão é de mérito pessoal, de esforço individual.
pela própria precariedade organizativa; outros são extremamente Ratifica-se no meio "psi" o que já está naturalizado na sociedade
em geral e entre os educadores brasileiros: o lacanismo é extremamente
228 o I Encontro do Campo Freudiano realizou-se em Caracas, na Venezuela, quando lá estiveram, em "complexo" e exige "bagagem" cultural e intelectual "superior"; em
1980, lacan eJ.A. Miller.

182 183
decorrência disso, não é qualquer um que pode a ele ter acesso. Produz- dar sempre a última palavra na qualificação dos novos analista$ c dos
se, assim, a subjetividade do incompetente, do desqualificado "psi", sem novos didatas. Uma série de manobra$ políticas, descritas por alguns
dúvida alguma. poderosa arma de dominação, e que por isso mesmo entrevi,tados231 , é feita pela Comissão de Ensino da SBPSP quando
atrai a muitos. pretende vetar ou aprovar algum membro a analista ou a didata.
Sobre a questão dos altos pre,'os cobrados - já por mim assinalada
em referência à instituição "verdadeira" psicanáli,e - configura-se uma
5 - As "CRISES" NAS SOCIEDADES OFICIAIS reação em cadeia, já que os candidatos "têm" de cobrar também altos
preços para poderem pagar a sua fomuçào, afmm alguns entrevistados,
(QUEBRA-SE O MONOPóUO DA IPA ?)
em oposição a outros que defendem os altos preços por se tratar de uma
formação privada de "qualidade".
Nos anos 80: ocorrem violentas crises internas nas Sociedades
O último ponto prende-se ã ênfase dada à análi,e didática. Para
"oficiais". tanto nas do Rio de Janeiro quanto na de São Paulo, as quais
a cúpula ela SBPSP dominante nos anos 60170, este é () nui, importante
"balançam", dizem alguns, os pressupostos autoritários em que se baseiam
fator pa.", a fornução analítica, o que é compartilhado por suas irmãs
esses grupos. Por outro lado, afrrmam outros, estas "cri<;es"ocorrenl
cariocas e que já foi também por mim registrado em relação à instituição
justamente pelo advento do movinlento lacaniano que, colocando por
formação analitica. ~ este item, é sublinhada por vários entrevistados a
terra a hegemonia destas Sociedades com relação à formação analítica,
mediocre e pobre produção científica dos analistas da SBPSP durante a
quebra seu monopólio. Tai, cri,es seriam, desta forma, uma espécie de
década de 70. Para eles isto se deve à ênfase que dão à análi,e didática,
rearrumação das Sociedades "oficiai,q", uma resposta ao movimento
o que faz eom que os didatas não tenham tempo disponível para outras
"psi", em suma, "... unu tentativa de atualização da psicanálise""9 diante
atividades.
da difusão e das transfol11uções sofridas por ela nos anos 70.
Todas estas críticas partem de um grupo que Sagawa chama de
Como não percebo desta maneira. vamos à história instituícla para
"oposição democrática" e que, em 1982. consegue organizar uma "frente
maiores informações e. posteriomente. a algumas questões que per-
ampla". vencedora nas eleições para os principais cargos da Sociedade
correm outros caminhos que não os apontados acima.
paulista: presidente, diretor do Instituto e didatas da Comi"ão de Ensino.
'~4cada dois anos ocorre esta e!dçiio, mas segundo os prôprios
5.1 - A Brasileira de São Paulo "analistas" da "oposiçiio", esta foi a /}rimeira eleiçao desde a
tomada do poder pelo 'establisbment hioniano ", que venceu
Na SBPSP, a crise, que vai se avoluoundo desde o final da década uma chapa apoiada peja "ojxJsição" Defato, não foi considerada
uma chapa de "oposição ", (,.) mas constituiu uma espeeie de
de 70, prende-se principalmente a três pontos: "PMDB" t.,) contra o 'establishment bioniano "Z'll,
"1) a decisão monopolizadora do "didata" na qualYicação do
candidato à "imalista" e do "analista" ã "didata ':.,2) o alto preço o grupo chamado por Sagawa de "estahlishmentbioniano", que
cobrado pelos "didatas". 3) a ênfase exagerada na "análi.',e detém todos os principais cargos na SRPSP durante os anos 70 com
didática'; em detrimento da produção cientiftea original"l3O. plen", poderes, de fomla extremamente autoritária; é representado por
Laerte Ferrão e Frank Phillips, principalmente.
() primeiro dos pontos refere-se ao poder que os didatas têm de

229 Orientação seguida por Figueiredo, A.C.C. Op. cit., quando se refere à crise na SPRj, a partir da 2..~I Sobre isto, ver também Sa.gawa, R,Y. Op. cir , onde al~n.s pontos por ele apomados coincidem
p. 11 S. com os que levantei em minhas entrevistas.
230 Sagawa, R.Y. Op. cit., p. 232. 2..,2 Sagawa, R.Y. Op. ciL, p. 226.

184 181
o grupo denominado de "oposiçào democrática", que o próprio deflagrando-se uma crise que só terminará em 1982, ano da votaçào dos
Sagawa afirma não poder ser visto como monolítico, reúne-se em tomo novos Estatutos. Em maio de 1979, em Assembléia Geral Ordinária, há a
de Isaias Melsohn e dele fazem parte Fábio Herrmann, Sonia e Deodato designaçào de 12 didatas em caráter extraordinário, o que fere os
Azambuja, além dentre outros. Fstatutosl34. É a gota d'água para que uma série de questionamentos
Há um terceiro grupo, liderado por Iloberto Azevedo, que, desde ,"lurjam e. a partir daí, numerosas e acaloradas assenlbléias se sucedem
o início de 1980, vem tentando aglutinar os insatisfeitos com relaçào à durante todo o ano de 1980. Em novembro, devido às fortes pressóes, é
situaçào interna da SBPSP. Seu objetivo é organizar um 5tudy Group em concedido o voto ao associado, o que CF.! lima luta de anos por parte de
São Paulo que, posteriormente, viria a ser uma Sociedade vincLllada à um grande grupo da SBPR) - nào só de associados, mas também de
IPA, :Lspeeto já abordado na ocasiào em que me referi ao Sedes Sapicntiae. alguns titulares.
:\'os primeiros meses após a posse da nova chapa de "frente Em 198I, quando assume a presidência Rosa Beatriz Pontes de
ampla", a situaçào é tensa, pois, além da perda das posiçóes de poder Miranda Ferreira, o clima é ainda tenso, pois a questào relativa ao poder
do antigo grupo, não estão ainda garantidas para a "oposiçào" as mudan- dos didatas é ponto sagrado e intocável. Muitas assembléias sào realiza-
ças pretendidas e a questào da formaçào de um 5tudy Group. Diante das e, finalmente em 1982, consegue-se votar 0$ novos Estatutos, em
disso, Isaias Melshon e seu grupo enCAminham à IPA uma denúncia que desaparecem as diferenças entre membros. Hoje, "... nào há mais a
sobre o número crescente de candidatos nào atendídos pela SBPSP e a divLsào em Membros Associados. Titulares ou Efetivos e Candidatos.
existência de um pequeno número de didatas. Em 1983, a IPA envia Todos são Efetivos e têm direito de V()to"4~~.Sendo todos os C0l11ponentes
representantes a São Paulo e, após avaliações, resolve colocar a Socie- cOI1..'5iclcrados titulares, ticanl con10 membros provisórios os candidatos a
dade sob observaçào. Em 1986, suspende por alguns anos a entrada analistas que participam das Assembléias Gerais, através de represen-
de novos candidatos, até que todos os inscritos possam ,o;;er atendidos tantes'" No Consdho Diretor, há um representante geral destes membros
pelos didatas que, gradualmente, têm seu número aumentado. Somente provi.c.;óri<Js.lY7•
em 1991 a IPA permite a inscriçào de novos candidatos na SBPSP233. Ainda pelos Estatutos de 1982. o Departamento de Formaçào de
PsicanalLstas organiza, elege e coordena duas Comissóes: a de Seleçào
e a de Acompanhamento e Qualificaçào, que recebem informaçóes de
5.2 -A Brasileira do Rio deJanclro
todos os professores e su pcrvL'mrcs e fazem uma avaliação do candi-
dato238. Não há mal." as informa~'ôes prestadas pelos didatas já que estes
Na SBPRJ, a chamada crise inicia-se desde os acontecimentos
seràu quaisquer membros titulares que assim o desejarcrll e que tenharll
narrados 110 Analisador Helena Besserman Vianna cm 197';, embora
no tnínimo '5 anos de efetivo exercício clínico.
lIque latente até o inicio dos anos 80. Ao lado disso, soma-se uma série
Ao final de 1990, a IPA envia praticamente uma intimaçào à SBPR):
de criticas muito semelhantes às feitas na SBPSP eom relaçào, sobretudo,
será excluída ela Internacional se não in.•••
tituir novamente 3."i três categorias
ao poder dos didatas e às manobras políticas utilizadas também pela
de membros (associado. titular e didata). Em 1991, após uma série de
Comissào de Ensino para a "escolha" de certos analistas e didatas de sua
assembléias para a discussão do assunto, a SBPRj institui de novo ;1..':; três
preferência.
caLegoria...... .
Em 1979, na presidência de Inaura Vaz Carneiro Leão, vem à tona
violentamente uma série de críticas ao funcionamento interno da SBPRJ, lVí Sobre o assunto, ver Ferreira, R.B.P.M. "Independente da IPA Você Acha Que e Preciso Refórmar
a Rcforn13?". In: Tn1mna- SBPRj, abril/l1)90, n!! O I 0'1-08
2,""0; Jclt:m, p. OS, e lambém 0$ artigos 'j!!, {)\1,7\1e 8\1 dos Estatutos daSBPRJ - 1982, pr- 2. e i,
2.13 Sobre o Study Group, Sagawa informa que a IrA não autoriza seu reconhecimento, visto neste 236 Artigo 0º dos Estatutos da SBPRj. 0r- ciL, p_ i ('Pari,grafo IÍnico do artigo 12", p_ 04.
terceiro grupo nào haver um único (ijelata.ln: Sagawa, RY. Op_ dL p. 2')0. 237 A,.rtigo4Qº 0r- cit., r 'I{J.
2i8 Artigo 60" ()p_ dt., p 16

186 [87
/
5.3 -A PsicanaIítica do Rio deJanciro "verdadeira" psicanálLse e a formação analitica são discutidas pela gran-
de imprensa, pelos "leigos", situaçào que sempre foi impedida e mesmo
A crise da SPR], a primeira deflagrada no InICIOdos anos 80, temida por seus guardiães.
prende-se, numa primeira leitura, em especial, às figuras de Amilcar
A própria plataforma politica elo Fórum de Debates - "I) direito
Lobo, Hélio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas, à constituiçào do Fórum
elo voto ao memhro associado; 2) refomu dos atuais Estatutos e 3) ftm
de Debates em maio de 198\ - cm parte apontados por mim no Anali-
das punições"''" - em quase nada difere elaspropostas elasBrasileiras de
sador Amilcar Lobo - e às criticas feitas à Sociedade, em muito similares
São Paulo e do Rio de janeiro, com cxceção da questão das punições.
às considerddas pelas suas irmãs "oficiais", ou seja, a questão do poder
Entrementes, a expul'ião de dois conhecidos psicanalistas, envolvendo a
e autoritarismo dos didatas, do voto aos associados, a mediocridade e o
denúncia de um participante dos órgãos de repressão, faz com que o
tecnicismo reinantes na formação analítica. Sob o titulo "Baronato Da
movimento cresça e - apesar de não constar elesua plataforma - passam
Psicanálise", a grande imprensa sintetiza esta.') principai<; críticas:
a ser questionados puhlicamente o poderio dos didatas, a hierarquia e o
",-- os altos custos de tratamento, a gerontocracia nas instituições autoritarLsmo vigentes nas Sociedades "oficiais" e a mediocridade e a
psicanalíticas, as discriminações ideolôgicas contra candidatos ã pohreza de suas produções teórico-práticas. Questôes, sem dúvida,
formação, o falso "a/X>/iticismo ", e até mesmo a ignorância das
obras de Freud (.. ,J. A Psicanálise está dominada por um baronato
C01nuns às outras Sociedades irn1às, filas que scnlpre conseguiram ser
Suas instituições são marcadas por cargos vítaHcios. nelas o clima mantidas em seus estreitos e fechados espaços. Na SPRj essas questões
é feudal. O poder e a gerontocracia, prevalecem os padrões do ganham a praça pública.
mandarinato. Ivoventa ,por cento dos psicanalistas não leram a Entretanto, este movimento, que poderia ter se tomado instituinte,
obra de Freud, contentando-se com uma introduçao a obra de
Me/anie Klein, de Hanna Sega! Nâo sabem distinguir uma epis-
rapidamente é levado para os nurcos instituielos. É verdade que t1guras
temologia idealista de uma materialista, nem sabem o que e como Gregório Baremblil e outras são convidadas pelo Fcímm para
epistemologia. Não conhecem Kant, Hegel, não oUlJiramfalar de falar de suas práticas. No entanto, o peso do instituielo é grande, pois
,1.1arx. Mas neles predomina a pretensdo de tudo dominar apenas se denuncia o tecnicismo kleiniano vigente nos anos 70, em
monopolisticamente"JjQ,
nenhum momento são levantadas questões que permitam aprofundar
São interessantes algumas comparações entre essas três "crises". taL"críticas, que pennitam fazê-las sair do território "psi" proprianlente
Se as Sociedades "oficiais" do Rio de janeiro trazem enfaticamente em dito. Questões relativas à postura neutra dos psicanalLstas, ao lugar de
suas plataformas o voto aos associados, isto não é enfatizado na co-1m", poder por eles ocupado socialmente, à superioridade de seu saber, não
paulista, para a qual a questão maL, iruportante é o poder dos didatas. são ventiladas.!41. Em nenl1un) 111011lento questiona-se cOIno as práticas
Este tema - o dos didatas - é, portanto, comum às três Sociedades. "psi"continuam engedrando dominios de saber, constituindo sujeitos,
Se as Brasileiras - tanto a de São Paulo quanto a do Rio de janeiro demandas, etc.
- ficam especificamente em seus marcos institucional'), não saindo da..'i A própria plataforma politica elo Fórum mostra bem isto, pois
argüições ao funcionamento dc suas organizações, a SPRj consegue pensar tai" questões é, em SU1na, pensar a sua própria destruição en-
escapar desse estreito território. A própria criação do Fórum de Debates, quanto especialísta "psi". Ou - de fomu menos radical - é pensar na
funcionando em praça pública e, maL, tarde, no Sindicato dos Médicos quebra, na iruplosão da SPRj enquanto estabelecinÍento de formação e
alénl das notícias, que saelll na grande inlprensa sobre a "c..Tise", mostram por isso colocar-se contra a "verdadeira" psicanálLsee a formação instituída
o quanto este movimento ultrapassa os muros de sua Sociedade. A pela lPA. Nenhuma das duas questões pode ser pensada pelos psicana-
240 Barreto, C.A.(Jp. cit.,p. 170.
239 Artigo do jornalista Roberto Mello que, sob o título Os Barões da Pskanállse relata a crise da
241 Sobre isto, ver 0$ diferentes artig~ de psicmali<;ta.<;c!o Fórum contidos in Cerqueira, G. (Org.) OI'.
SPR] e as reivindicações do Fórum de Debates. In:JB _ 23/0911980. '
cit. Nenhuma destas questões é ali abor<bili

188 189
listas, mesmo os mai') progressistas. Tanto que quando representantes As "crises" que então ocorrenl nas Sociedades "oficiais") efil reali-
da IPA, em 1981, fazem uma "sindicância" na SPRJe, no ano seguinte, dade, significam rearrumaçôes diante de todos esses acontecimentos. As
"orientam" a reestrutura,"~ào adnlinistrativa e acadênlica da Sociedade, novas política..l;)sociais. que surgem dos diferentes movimentos de resis-
todos os psicanali,1.J.',inclusive os do Fórum, aceitam as deliberaçiíes da tência espalhados por toda a sociedade brasileira, forçam as Sociedades
IPA, É quando inclusive Hélio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas são vinculadas à IrA a nlostrarel11 uma "outra cara", a fazerem uma ';outra
readmitidos na SPRJ. maquiageln"_ Seus antigos pressupostos notadamente autoritários tra-
Não somente teme-se o desligamento da IPA.e com isso a perda vestem-se de "outras roupagens" e demonstram mais "igualdade" entre
de prestígio e até uma subseqüente desqualificação social, como também seus membros, mais "den10crJ.cia" interna. Entretanto, a "verdadeira"
não há interesse em se questionar o lugar ocupado pelo especialista psicanáli,e e a formação analítica permanecem intocadas.
"psi", assim como os saberes por ele produzidos. Nos anos 80.ltá espaço para diferentes e variadas "verdadeiras"
Se por um lado as "crises" das Brasileiras - tanto a pauli,ta quanto psicanálises, para variadas e diferentes "escutas" psicológicas, para
a carioca -são interpretadas como "bem-comportadas", se comparadas variados e diferentes templos sagrados de formação "ps(.
com a da SPHJ, por outro esta não produz territórios singulares, não O lacanismo, que mais explícita e enfaticamente apresenta a
provoca rupturas. Está dentro elo que é conhecido C01110'"reformismo produção de outras práticas "psi", baseadas em outra "verdadeira"
institucional", quando se pretende, dentro do próprio marco institucio- psicanálise, outra "verdadeird" "escuta", outra "verdadeira" "transmissão"
nal, implantar mudança.') que irão gradativamente avolumando-se e toman- e outro templo sagrado, traz o embasamento teórico que, principalmente
do, asSlnl, o estabelecimento mai.')"aberto", l11ai..."democrático", afirmam ao longo da segunda metade dos anos 70, vai desgastando o monopólio
muitos cios entrevistad()s. das Sociedades "oliciais".Para este desgaste, são funclamentai, as práticas
As "crises" aqui apresentadas estão dentro de tais marcos instituídos. trazidas pela segunda geração de argentínos e, sem dúvida, o que o
Em que contexto hi ...tórico se vcrificarn essas "crises"? No início IBRAPSIrepresentou para uma nova geração de psicólogos cariocas.
dos a110S 80, com o governo Figueiredo - o líltinl0 do ciclo nlilitar - Todavia, as práticas psicanalíticas, de um modo geral, entranJ nos
bastante fragilizado pelos movimentos sociais que, a partir da segunda anos 80 naturalizando e estimulando os especialismos e a demanda "psi".
metade dos anos 70. se intensificam nas cidades e no campo. Nessa Estas práticas contínuam engendrando e fortalecendo saberes, conceitos
época, as camadas l11édias urbanas, já sentindo os efeitos da recessão e técnicas então hegemônicos, e forjando continuanlente sujeitos de
econômica que se avizinha. descobrem estupefatas que o "milagre" havia conhecimento. Portanto, é como afirma Foucault:
acabado, que não passara ele uma grande ilusão e que o país: que "ia pra ".,. o próprio sujeito tem uma hist6ria, a relação do sujeito com
frente" corre o risco de "descer ladeira abaixo". "'este momento. em que o objeto ou, mais claramente, a própria verdade tem unul
signitlcativos segmentos elasOCie(~ldeclamam por lillerdade c democracia hist6ria "242 (grifas meus).

em todo..'ios ruvcis, os psicanali. ...L'1S talnbém estão atraves..'iados por todos Foi isto que tentei mostrar ao acompanhar a história instituida dos
esses l11ovimentos, c levam para os seus espa(,:os tais atravessamentos. diferentes grupos "ps( surgidos ao longo da década de 70 e inicio da de
O ;:wtoritari.O:;nlo
vigente nas Sociedades '·oficiais" está ern des- 80, no eixo Hio-São Paulo. Por entender suas práticas e saberes como
compasso com o momento político que () país atravessa. Em 1979, a Lei acontecimentos e dispOSItivos.vejo neles as marcas aa divisão social do
da Anistia, enlbora bastante "capenga". erJ votada. Aos poucos a censura traballlO ao enfatizarem os especialismos, o saber neutro e descom-
vai sendo suspensa. Multiplicam-se as Comunidades Eclesiais de Base e promi'Sado. a valorização do instituído,
as Associaçôes de Mor.ldores. O movimento sindical mostra-se revigomdo,
e as FonnasJuridicas. da rue, n" 16, junho/
apôs as vitoriosas greves no ABC,em 78 e 79. 242 Foucault, M. A Venlade Rio de Janeiro, Cadernos
1974, p. 05.

190 t91
Recorrendo ainda a Foucault, sabelnos que não há saber neutro e vocês quc1t!m entronizm· para separá-la de todas as numerosas,
que sua análise impliea neeessariamente a análise do poder. Por outro circulantes e de<;continuas formas de saber? ".:-w.
lado, não há relação de poder sem a eonstituiçáo de um campo de saber Estes di,",cursos/pciticas considerados "competentes" c "verda-
e que, da mesma forma, todo saber constitui novas relações de poder,
deiros" tênl seu apogeu nos anos 70 no Brasil, produzindo poderosos
pois, onde se exercita o poder. ao mesmo tempo, formam-se saberes e efeitos, como já assinalei no decorrer de todo este Capítulo. Um desses
estes, em contrapartida, asseguram o exercício de novos poderes243. efeitos, que é a n:lturalizJ.(,;ào do instituído, pode ser bem notado ao se
O exercício desses poderes e saberes "psi" evidencia-se nas prática.s pesquisar alg1I1TIaS ata" de reuniôes e assemhléias desses estahelecimen-
"psi" que "melhor" vão se organizando na segunda metade dos anos 70. tos "psi" que se formam no decorrer da década de 70. É apenas um
Se ficasse somente na história instituída desses grupos, cairia numa ardi- aspecto desta naturalizaçào do instituído, por meio elo qual se inelida o
losa armadilha ... Com a quebra do monopólio e\as Sociedades "oficiais", csfórço que muitos "psi" produzem em seus grlllX)Sno sentido de '·melhor"
vislumbraria somente uma maior variedade de práticas psicanalíticas, ou organizá-los, burocratizá-los. É impressionante a participa~~i()desses "psi"
seja, restringir-me-ia à expansão e difusão eia psicanálise pelo movimento em inWffilinávcis discussôes sobre mfimos detalhes do luncionamento
dos psicólogos, responsável- segundo muitos - pela "democratização" dessas burocmclas. ebs normas e regras que sio criadas e/ou .C)ubstituíc1as,
das práticas analíticas. scrn as quai') é itnpossivel um bom funcion::unent() do estabelecimento.
1\'0 entanto, impõe-se uma importante questão: o que tudo isso A chamada "vida institucional" tOllla grande parte de seu tempo c, com
traz de novo, de singular, de diferentes estratégias e táticas de ação? isto, encontram-se restritos a esses aspectos meramente instituídos,
Pequeno ainda é o número de profissionais "psi" que tentam exaus- enclausurados enl guetos assépticos.
tivamente em seu cotidiano compreender que práticas, subjetividades e Enquanto isso. a vida lá fora fervilha: movimentos sociais c
modelos estão gerando e patrocinando. Poucos, muito poucos, são as ,",indicaisnascem, organizam-se, fortalecem-se e nada disso é percebido;
que tentam articular suas práticas e saberes com os diferentes movimentos ;lO contrário, é desqualificado. 1\':10 é por acaso que, nos poucos grupos
que estão espalhados neste mundo e, com isso, aumentar o índice de que tentam se articular COTna vida, com a transversalidade, como num
transversalidade em seu cotidiano. dos Cursos d" Psicancílise do Sedes Sapientiae, no IBllAPSI e na SEPLA,
Foucault tem exaustivamente mostrado que, ao não se estabe- as situ:lt;,:ôcsde crise sio intensa (' profundamente viviLbs. Há, inclusive,
lecerem relações entre os diferentes saberes, em realidade, desqualificam- algun" depoinlcntos ele entrevi.,tados que julgam impossível a altiL·'ula\~ào
se os não-competentes, sobrepondo-se os considerados "verdadeiros", desses dois mundos: () da fonnaçào ~l1lalíticae () da implica<,,'àopolítica,
"científicos" e "neutros". Os primeiros - os "saberes dominados" - são considerados como excludentes c opostos.
vistos como estando abaixo do nível requerido pela "cientificidade", e É o grande desafio que se coloca, nos anos HO c 9(L para todos
por isto são não-qualificados, locais, descon(muos e não legitimados nós "psi" que pretendemos pensar nossas práticas L' sal )('rC'sem cirna de
pela tirania dos discursos/práticas englobantes, hierarquizantes e nossas itnplicações históricas, em cima de nossas transversalidadc.s~ da
totalizantes. A certa altura, sobre o assunto, Foucault faz as seguintes nio-dicotomização. l~este, também, um dos desafios a que 111C propus
perguntas: ao percorrer os diversos estabelecitnentos "psi" nos anos 70, desde as
"Que tipo de saber vocês querem desqualificar no momento em práticas disseminadas pelas Sociedades "oficiaLs" até as dos grupos
que vocês dizem "é uma ciência "? Que sujeito falante, que suJeito considerados por muitos COIno"alternativos". "C01l10um pensar a hi<;tória
de experiência ou de saber vocês querem "menorizar" quando
L..) não C0010 narrativa do superado, e sim na qualidade de anna nos
dizem: "Eu que formulo este discurso. enuncio um discurso
cientifico e sou um cien.ffsta?" Qual vanguarda teórico-política combates do presente"";.
243 Foucault, M. Mlcrofislca do Poder. Op. cit
244 Idem, p_ 172.

t92 19'1
VII - UM ADENDO ÀS PRÁTICAS PSlCANAIinCAS: A mentação da proflSSão em 1962, todos os miJitares que fizeram o "Curso
de Classificação de Pessoal" - que, na maioria dos casos, não chegava a
FAMÍIlA E A SUBVERSÃO U111 ano de dura.ção - foram reconhecidos ofkialmente como psicólogos.

Nos anos 70, IllUitoSdeles, trabaUlando no Centro de Estudos de


Um aspecto das práticas "psi" que não poderia deixar de abordar Pessoal do Exército, ofereceul Cursos de Especializaçào em Psicologia
neste trabalbo refere-se à participação direta de alguns ele seus profis- para o pessoal das Forças Armadas e chamam psicólogos e estagiários
sionais no aparato repressivo da ditadura militar brasileira. civis para atuarenl no Forte cio LenlC em uma série de atividades.
Esta participa<.,'io assenlelha-se àquela que vários médicos tive- A "contribuição" técnica de muitos desses profissional') ao apa-
[an1 - como o AnalL'iador Atnilcar Lobo ii delTIOnstrou -, ou seja, um rato de repressão durante os anos de terrorismo ele Estado foi
trabalho, não só no treinamento a torturadores como também no levan- incontestável, daí a maioria se negar a falar sobre o a.'iSlInto nos dias de
tamento de perfis psicológicos de presos politicos. hoje,
;\Jào pretendo aqui fazer uma hLo:;;tôriado envolvimento direto de Sobre o treinanlento a torturadores. no que se refere aos aspectos
alguns profLo:;;sionais"psi" com a repressão. Esta hi~tôria e a de diversos psicológicos dos presos políticos, nada se tem documentado. Todavia,
outros profissionaio:;; como médicos legistas. advogados, etc., que em muitas declarações e depoimentos de ex-presos políticos, "salta aos
respaldaran1 teórica e tecnicamente o terroriSlTIOde Estado no Brasil olhos" que llluitos torturadores foram orientados e treinados por
com suas práticas e saberes, estão para ser escritas. profissionaL, "psi". Em 1970, o major da PM RL,cala Corbaje, conhecido
Entretanto, acredito que, como umJ. forma de resgate de uma como Dr. Nagib, dizia no D01-CODURJ para alguns presos políticos que
parcela ela história brasileira, algo deva ser assinalado, sobretudo o as- havia feito cursos de Psicologia para poder aprender a lidar "melhor"
pecto concernente a lima pesquisa sobre o perfil psicológico dos rnili- com os "terrori.stas"~47.
tantes políticos presos, no Rio de Janeiro, no início dos anos 70, que O próprio ex-comandante do DOI-COD1/SP, Brilhante Ulstrd, em
contou com a participação direta ele alguns psicólogos que trabalhavam, seu livro Rompendo o Silêncio, no capitulo "Os J oveflS e a Subversão",
na época, no Centro ele Estudos de Pessoal do Exército, localizado no comenta:
Forte cio Leme, no Rio de Janeiro.
"Enquanto os dias se pa.<;sal'am,o.ficUlis do Exército, alguns
Sobre este ponto. são importantes alguns' comentários iniciaL" De em» curso de Psú;o/.Qgia, iam entrel'i~tando esses rapazes e
um moelo geral, os psicólogos que faziam parte do Centro de Estudos de tnoças. Discutiam com eles os problemas bra.."íleiros,a su/Jversao,
Pessoal do Exército cran1 - en1 muitos casos - nulitares que. nos anos o terrorismo e suas conseqüências. OS 1i/!1VS e arligos /Jara leitura

';0, haviam feito nas Forças Armadas o "Curso de dassil1caç,'ão de Pessoal" deveriam indUZi-los a uma profunda meditaçào e a olhar a lida
sob outro ângulo,,24l) (grifos meus).
o qual, a partir de disposição leg'dlposterior, outorgou a todos o diploma
de psicólogo, Em 1949, por portaria do Sr. Ministro da Guerra, foi É pensamento corrente na época, dentro dos organL'mos de
autorizado o funcionamento do referido Curso, no qual se incluiam Noções repressão, que existiam dua.-"icategorias de presos políticos: os "recupe-
de Psicologia 1'\ormal e Patológica, incursionando-se pelos campos da ráveis" e os "irrecuperáveis". Na Vila Militar, no Rio de Janeiro - onde
memória, raciocinio, inlaginação, volição até a Psicologia dos Chefes muitos estão presos no início dos anos 70 -, evidencia-se esta distinção,
Militares'''''. Aos "recuperáveis" são atribuídas algumas tarefas; além disso, eles dispõem
MaL, tarde, a partir da criação do cargo de psicólogo e a regula-
247 Riscala Corbaje, um dos mais terríveis torturadores do DOI-CODJlRj, onde atuou até 197'5. Foi
24'5 Rodrigues, H.S.e. As "Nova"i Análi8es", Op cit" p. 07. pela primeira vez denunciado publicamente, em 198'5, pelo Grupo Tortura Nunca MaislR).
246 Dados retirados de Psicologia, Ciência e Profissão. CFP, Brasilia, s/data, p. 2'5. 248 illstra, B. Rompendo o Sllêncio. Brasília, Editerra, 1987, p. 273,

t94 19';
de tnaterial de leitura e podeln~ inclusive, travar muitas conversas. Esta não há presos políticos, lTIaS crullinosos terrori<;ta..c;
presos" c, ainda Cln
postura prende-se à tese de que quanto "melhor" se tratar Ull1preso 1969, faz a primeira de urna série de pesquisas entre presos políticos.
político, menor será sua resi<;tência e maior será seu "amolecimento".
Dela divergem alguns comandantes de ourros quartéis da própria Vila
Militar, que defendem posiçlo conlrária, gerando por isso, por parte do 1 - A PESQIDSA SOBRE O PERFll. PSICOLÓGICO DO
grupo de familiares desses presos políticos - já em vias de organização "TERRORISTA" BRASll.EIRO
na época -, forte pressão contra tais comandantes.
A primeira tese -" do preso "recuperável" - muito difundida pela A primeira pesquisa é realizada em 1969, no Rio de Janeiro, a
núdia e por setores militares, no início dos anos 70. vincula~se à figura pedido do próprio chefe do Estado Maior do Exército, cujo objetivo é
do jovem estudante ele esquerda como "inocente útil" elo "terrorL<;tllO levantar, dentre o pessoal preso na época, o nível de escolaridade e as
internacional". lJnu das autoridades que mais defende L'itO,na época, é CJusas quc os Levaratn para a luta política.
o chefe do Estado Maior do Exército, General Antonio Carlos da Silva de 260 estudantes inten'Ogados no Rio, 80% pertenciam ao
MuricFl'). Este personagem, em várbs entrevistas à grande itnprensa, pn11U!iroano universitário, I S% ao segundo e 5% aos demais
destaca que: Uma análise do fenômeno, feita pelo mesmo órgão (um õrgão de
segurança não ret.-'elado), apontou como causa,. essencwis do
"o terrorismo se abastece nos nu-ios escolares do pa~~' a tônica é aliciamento: 1) desajllstes; 2) d.escaso dos pais pelos pro-
arn-gimentarjovens a partir do curso secundádo,- um sistema de blenuls thl mocidade.- .3) poJitização no meio escolar realizada
COetraogarante a lealdade inicial do militante: a cland~1inidade por estudantes profissionais que despertam e exploram o ódio
e Dromiscua t' tirânica. os rapazes Su1Jnersil'Ossdo instruido.~ a nos jovens, com ofito de impor-lhes um idealivno político, mestno
desl'iarem as moça., do la,: a res/xmsabilidade ridos {Jai.'l ( ): a temporário, 4) o trabalho de alguns maus professores, hábeis em
segurarlça conU'ça petu noçuo dos (Ü-'I.'lH·es
indil'iduuis e se'llr'lna utilizar a cátedra para fazer proselíJismo poJftico. "lSl (grifos
nos I-'atore.,moraL, e esjJirttuaü"!;)ü meus).
MuilO convencido dt, que a "mel1lt' vence a guerra revolu- Uma segunda pesqui,a realizada entre cerca de ';00 presos políticos
cionária"';"i', Murici - um dos porta-vozes do reginlC'nillitar - afirn1a que - detidos em diferentes dependência., do Exército -, no inícío de 1970,
também por solicitaçào do C;eneral Murici, investiga seus níveis social e
2q{) () General rvlurici,anticumunislJ. ferrL'nllo, participou ativamente de alguns L'pisódio~ da hhtór!:l de escolaridade. Declara o próprio general:
hrasikira, s<-·mpre,~ecolocando ao 1J.c1.) do cOn'ief':adorismo e da repressão. Em 1961, quando da
renúncia de )ánio ()uaJn "",L'rachdé J.:) 1'.<.Li<-b Maior do 1IIExército, em Porto Alegre '-rXJsiciomnuo- ':.4grand(! maioria, a quase totalidade, l.'ra de elementos ligado"
S'--' u)ntra a posse de J03.c>l ,oulo1rt,l),,-'sde 1()6;i,li n(l Rio de Janeiro, fez pa.rtt: do moviment() pam
às organizaçdes terroristas (., J fvaquela ocasião o número de
depor t-,ouwrt, J.trJ.h;S lte (;<101:110,<'
com varios milít;lre,~golpL~l:lSque atu:lVJ.m \:'01<:'stn.:itaJiga<-'jo presos (no Exercito) subia a um pouco mais de ')00 A análisf?jeita
com u general d:l r(·:'';'rvJ.C,olhery do (:outo e SiJvJ.,<.'nti'k,à i'n'nte do IPES (lostitu({: Clo.~ i\':.quisJ.
permitiu a seguinle observação: 1) 56% eram e31udantesou {Jf?SSOaS
e t:,\tudo.." Socuis) que de<;t:'nv,)lviail11en.sJ.cam(XLOlu;mlicomunisla tunto ;lOSClrCU1(l" ('mpresdri:lis
que há pouco tempo havfam deixado a área estudantil. Sua
mnoc:ls e paulistas. l\lunci particlpou ativalllCniL'-do golpe militar doc'1%4 0.:, o.:st(Cm.:sm() ano, já
como general, :ls...sumiu() comando da 7~ Região Milit:Lrem Recife, deslac:ando-se na luta contra as proporçâo era de 33% e 23% respectil!tlmente; 2) a "nédia das
Ligas l:amponesas. Em J9()f),ch.:~ou a chefe do Estado Maior do F.x~rdt(), qUillldo teve seu nome idades dos presos atrás referidos era de 23 anos; 3) desses detidos,
na lis\J. tríplice par.1 pr('sidenk da Repúhlica, junto com o de Emilin Carr.lstazu I','lédici, que foi o .20% eram de mulheres, ( ... ) sendo intere.ssante obseTJ!tlrque no
e,~(ulhido. Permaneceu até novembro de l()7Q à frente do Estado !\hior elo [x .... ;rcito, quando foi Rio de Janeiro o numero delas atingia 26%, enquanto que no
para a reset\'a e escoUJido par:! a presidência dt ADESG (Assoda(io dos Diplomados da Escola Nordeste seu numero chegava a 11% e, no Sul, quase não batia
Superior de (~uerrat fJn 1{)7I, Murici J.ssumiu d presidénciJ. do holdirl{!, Nova 1.ag,;:',Dados contidos mulheres envolvidas na trama tetTOris/a- seu número não chegava
in J3eloch, I. e Abreu, AA Dicionário Hist6rico - Biográfico BrAsileiro 1930-1983 - 32 vol.,
a 2%. Esses dados mostram como realmente é grande o esforço
FGViR], Forense. IQ:t-1,L:'o'iO-Ll";2.
2'50 Reportagem intitulada "Murici AponLi Alid:1mento de Jovcns para o Terror'. In:JlJ - 19/0711970.
2";I Titulo de uma outra entrevista de Murici, puhlic:1d:t em OJomal- 08/11/1969 252 Reportagem intitulada "Murici Aponta Aliciamento de Jovens para o Terror". Op. de

196 197
subversivo terrorista na área estudantil brasileira, particularmente Selllestrc de 1970 é realizada, exclusiv3.tnente no Rio de Janeiro, unla
nos grandes centros, De outro lado, que o numero de mulheres
terceira pesquL,o entre 44 presos políticos Visanelo estabelecer o perfil
alidadas ê maior nas áreas mai.'ipolitizadas do Brasil do ponto
de uista ideológico. psicológico desses lnilitantes politicos, esta. pesqui"a consta de duas par-
Outros dados interessantes levantados mostram que, naquela tes. Na primeira, um extenso questionário COHl cerca de :; folhas datilo-
ocasião, apenas 3% eram militare'i refonnados ou cassados e 4 a grafadas apresenta pcrguntas disserLativ:1s sobre a infância, a adoles-
5% de operários nao-especializados, de nÍlJeJprimário. Subversivos cência c o rebcionanlento fantiljar. Uma verdadeira anan1l1ese, na qual,
presos naquela ocasido e provindos de atividades rurats eram dentre outras coisas, se pergunta: nome, idade, sexo, filiação, grau de
apenas 4%, quase todos detidos no Parand. Camponês do Nordeste
havia apenas um. Os demai.'i 32% dos presos eram constituídos instruçào; como foi feita a escolha da profissão; como se envolveu em
por pessoas de condições sociais diversas, nunca, porém, de política (por algum namorado, na faculdade, etc); se teve muitos namo-
analfabetos ou mal-alfabetizados, nem de pessoas de condição rados; se teve experiências hOl1l0SseÀ"llaL., na In.fincia e adolescência; se
miserável ou de poucos recursos. Isso demonstra que a maioria alguma vez utilizou algum lipo de droga, como a maconha; como é seu
dos que ingressam no terrorismo ou na subversão ideológica é
tcmperaluento; COlHO é :1 situação Janüliar (seus paL'i111oral11 juntos, por
constituída por pessoas pertencentes às classes A e B, '111elbordota-
das financeiramente "253 que se separaram, se dão bem ou brígam na frente elos mhos, qual a
pessoa de sua família maL" importmtc, etc.); qual a relação com os
Estas eluas pesquisas, que demonstram a preocupação elos gover- iJIl1.1.oS c se há algmll envolvido em política; se mora com os pai", ou por
nos militares em conhecer melhor os "inimigos ela PátrLa" c retratar a que saiu de cosa; se é casado, se tem mhos; o que pensa fazer após a
juventude ele classe média que entra para a clanelestinidade e/ou luta libcrtaç'ão, etc.
annada, servem de base para a terceira pesquisa - a que nos interessa
Sobre esta primeira parte, a análise feita pelos oficLais c "psi"
maL, diretamente - sobre o perfil psicológico do "terrorLsta" brasileiro,
envolvidos mostt:l a seguinte tahuhçào a quatro pcrgunt3.s contida.') nesse
Nesta, haverá colaboração elireta elos psicólogos militares e civis ligaelos
(lU cstic)n:írio';"":
ao Centro ele Estudos ele Pessoal elo Exército no Rio de Janeiro, que
ainda hoje funciona no Forte do Leme.
As grandes questões que se colocam - elentro das subjetividaeles Quadro 1
hegcmônicas na época - são: por que os filhos da classe média, ela
pequena burguesLa, que têm tudo para ascender socíaimente e se Situa9ão da família:
tornarem, inclusive, ieleólogos elo capitalismo, estão indo para o cami-
Pais separados "'''''''''''''''''''''''''''''''''''''' """",.,," 06
nho da contestaçlo a este sistema' Por que se tornam "terroristas", neganelo
Carência de afeto na família 04
suas origens de classe? As causas não estariam vinculadas à "crise" da
Problemas de familia ., ,.,.." ,,""""" ",.",."",., ..,..' 03
familia moderna? Não seriam esses terroristas jovens "elesajustados
Família normal """,."""".""",,.,,"",, .., ...,,""""""""""" 01
emocionalmente", com famílLas "elesestruturaelas'"
Não responderam , ,.,..,.,."""""", ,..,,"""" 30
Para poder provar essas hipóteses, que os altos escalões de
repressão há muito vinham anunciando através ela míelLa,no segundo

253 Reportagem intitulada "Murici: Recuperar Jovens que se Desviaram ê a Grande Tarefa". [o: O
GLOBO - 12./11/1971. Esta extensa reportagem (uma página e meia) traz m integra o
pronunciamento do general Murici, feito a convite da Associação Brasileira de Educação do Rio de
Janeiro, sobre o tema "O F~qtuchnte e o Terrorismo" Sobre () mesmo pronunciamento ver "Murici 2';4 Dados contidos na feporta,R:L'fi ".Murici: Rt'cup('rar ./owns que se Desviaram ~ :1 G'..lnde l'arda".
analisa Pesquisa com Subversivos Presos" ln:JB - 12/1] /1971, Op dt

t98 199
'Telas respostas obtidas uerificu-se logo a importllHeia do hlr
Quadro 2
na vida do~ jovens e o apoio que ele lbe~ proporciona.
Foi grande a falta de respostas ao item do Quadro J, mar; sequase
Ocasião em que ingressaram na subversão:
um terço d<Jsconsultatros não estavam ajustados ISIClil
Após sua formatura 02 vida familiar, o resultado é por demai., sign~ficati1JO para ser
Na Faculdade 24 desprezado. Nilo há dituida que é IK) lar que ~e encontra a
Na entrada da Faculdade 05 melhor trincheira contra os desvio~ da nwral e da conduta
soc:ial"/,')5 (gtifos meus).
Durante o 2° ciclo secundário 09
Após o curso secundário 02 Utilizando os dados obtidos na primeira pesquisa em 1969 -
Não responderam 02 levantamento do nível de escolarídade entre os presos políticos no Rio
de Janeiro -. os órgios de repressão e os "psi" que com eles trabalham
chegam à "brilhante" conclusão de que:
Quadro 3 e nos períodos que imediatamente antecedem e sucedem a
entrada na Universidade que se verifica a maioria dos
Forma ou razão por que foram aliciados: aliciamentos. ()final do curso secundário, o período de pnparo
para o vestIbular, o inicio do curso UniV(;7'sitário,talvez por
Por envolvímento progressívo 26
atíngirem um perfudo em que ojovem procura .firmar sua
Por ligações afetuosas com elementos personalidade. deseja mostrar que jd é adulto em ~lUls
da esquerda (todas moças) 04 idéias e capaz de decidir por si mesmo, é a fase em que
Por estudos e reflexões pessoais 08 mai.r;jàcilmente se deixa conduzir, embora julgue, muitas vezes,
Por necessidade de prestígio 01 que estâ conduzindo "Z% (grifas meus),
Induzido por colegas 01 Psicologiza-se, enfatiza-se o privaelo em detrímento do público,
Não responderam 04 fortalece-sc a crença na "crise- ela famma, sua rcsponsabílidade e
culpabilidade pela situação elos flUlas.
A scgunda partc elesta pesquisa sobre o perlil psicológíco do
Quadro 4 "terrorista" brdsileiro é a aplicaçào de uma bateria eletestes: de aptidões,
dc ínteresscs, de nível mental (Raven) c ele pcrsonalidade IRoscnzweig
Que pensam 'azer após a liberta9ão: e Rorschach), Um verdadeiro psicodiagnóstico é, pottlnto, construído.
Voltar á Faculdade 03 Todo este processo é reali7~do por "... olkíal com curso ele especialização
Voltar á vída normal 14 no Ccntro de Estuelos de Pessoal elo Exército Ie) os resultados foram
Retomar á família (moças) 02 examínados por psicólogos clv", observa o General Muricí,que logo
Não vêem como possível sua reintegração 02 a seguir relata os resultados:
Ir para fora do país 01
':-"dos 41 examinados, 32 f73%i fomm considerados como
Continuar a luta revolucionária 03
indit'íduos com dificuldades de relacionamento, ou escasso
Não responderam 19 interesse humano e social, ou ainda de dJjkil comunicação
humana, em suína como pessoaç "d~ficeis".-- como imatura .••
foram assim considerados 23, dos quais cega da metade estavam
Ainda na mesma reportagem, Murici, "analisando" as respostas 2'5'5 Idem.
dadas a estes quatro itens do questionário, declara que: 2'íú Idem.

200 20t
incluídos IS/C! no grupo de d[ficil relacionamento humano,- - 18 políticos "voluntariamente" se sublnctcram aos testes c ao questionário
foram íncluidos no grupo dedesajustados. sendo que 3/4 dos propostos.
mesmos pertenciam ao grupo dos "di{u:eis",- praticamente todos
osinseguros (8) e osinstdveis (7j estauam no primeiro grupo.
:'Ja entrevista realizada antes da área de testes. alguns "entre-
Isso mostra que especial atenção e tratamento der'em ser dados vistadores" dizem para os cx-presos políticos que se trata de tentar
aos /ovens que apresentam um relacionamento d~(fCÍl com seus estabelecer sua "curva da vida". De fomla tria, impessoal e distante,
companheiros. Tudo indica que sof''l?mde comple:ws que os lelJam, todos iniciam a enlrevi."ta afirnlando que não trabalham ali, que tudo o
por esse ou aquele motÍll(),a atitudes de luta contra a sociedade e que o preso político disser será mantido em sigilo e que não será
o meio em que vivem ( ... ),-serào sempn! desajllstados c, assim,
criaturas infelizes" 2'i' (grifas e aspas presentes na própria
divulgado. Além disso, procuram saber como haviam se sentido durante
reportagem). a tortura, como tinham rcagido, se aquelas punições tinham valído para
alguma coisa esc cstão arrependidos pelo que fizeram.
Patologiza-se, assim, aqueles que se lançam na resLstência contra
No momcnto da referida pesquisa, alguns presos políticos, que a
a ditadura militar: são doentes e é precL,,) tratá-los. Tanto que o deputado
ela foralll submetidos. concluem que se trata de um levantamento psico-
Cardoso de Menezes, naquele período, elogia o trabaU10feito pelo General
lógico. justamente por serem fillJOsda pequena burguesia, muitos tortu-
Murici e diz:
radorcs não hesitam em dizer a eles quc não cntendcm por que tinham
.. (é necessán'aJ uma psicoterapia ocupacional, pai .• urge dar se tornado "terroristas". Esta preocupação, segundo alguns, talvez viesse
trabalho à Juventude desocupada, que se dei.xa erwol/!er pelos
após o Congresso da tiNE, em Ibiúna, em 1968: dos estudantes presos,
agentes profissionaiç da subversao: incentivar inicíatil'as: como
o admirável Projeto Rondon, a Operaçào--:Mauá, os trahalhos do cerca de 99% eram de classe média muJOs de senadores, advogados,
Crutac da Universidade do Rio Grande do Norte, e outro ..• médicos c altos oficiais das Forças Armadas). Confonne já mencionamos,
semelhantes f., ) Isso porque é curioso que os chefes da subversào somente no ano seguinte é que se verifica a primeira pesquisa sohre o
trahalhem maís entre os que mw necessitam lutar pela uida,-
tema, quando se faz, no Rio cle Janeiro. um levantamento sobre o nível
entre os filhos de hurgueses, num tidos geralmente pelas mesadas
paternas .,~ de escolaridade dos presos políticos.
Estas pesquisas mostranl nào apenas uma necessidade por parte
A aplicação dos testes é precedida por uma entrevista individual,
da rcpressão de conhecer melhor os militantcs políticos e traçar o perfil
em que são feita..<;;
perguntas muito semelhantes às do questioná.rio
daqueles que estão sendo combatidos, mas, também - bem de acorelo
anteriormente respondido. Isto em alguns ca..C;;OSj
em outros, os testes
com as subjetividades hegemôniGl$ na época - difundir na sociedade
aplicados não contam com a presença de entrevistadores. Nestes casos,
em geral e nas famílias ele classe média, cm espcciaL a crença de que
posteriom1ente, as pessoas são chamadas para explicar algumas respostas
seus t1Ihossão "desajustados", "desequilibrados" emocional e socia~nente
dadas, especialmente no teste de Rorschach.
e, portanto, "doentes", precisando de tratamento. Em suma, elas - as
Pelo levantamento que fiz, esta pesquisa é realizada em vários fanúlias - são as principaL') responsávei..:;; pelos transtornos que esses
quartéis da Vila Militar,no DOI-CODI/Rj e no IICE, onde estão recolhidos jovens trazenl para a nação que quer "se desenvolver enl ordeln c em
algum presos politicos. Muitos se negam a respondcr ao questionário e paz".
são novamente transferidos para o DOI-CODl/Rj, como forma cle
Esta posição é explicitamente enunciada por álguns comandantes
intimidação, ou vão diretamcnte para a tortura. Isto é confirmado pelos
de quartéL, onde estão os presos politicos. Afirmam que fulana é
ex-presos políticos entrevistados, embora o Gcnetal Murici, em pronun-
"subversiva" porque seus paL, são separados; beltrana, porquc não havia
ciamento ã grande imprensa, naquela ocasião, afinne quc os 44 presos
conhecido sua mãe e tem uma madrdsta da qual não gosta, etc. A
"7 Idem. impressão que têm algum desses presos políticos é a de que os resultados
258 Reportagem intitulada "Deputado elogia entrevista de Murici".In:]H de 26/07/1970,

202 203
do "perfil psicológico" tinham sido levados ao conhecimento dos res- damente - eal alguns casos - 3S violentas marcas psíquicas que as tor-
ponsaveis pelas unidades onde estio detidos, para que estes possam turas deixaram em presos políticos. Neles, 0,'-1 psiquiatras das Forças
nlclhor "conhecer" c "lidar" com os presos políticos sob SU3$ guardas. Arnladas registratll estas marcas c alguns, de 1'01'1naaté honesta, fazem
Tal fato é apresentado para o grande público como uma preo- referência às torturas sofridas pelos luililantes. Em outros casos, rclat3.111-
cupa\.~ão paternal com relação aos jovens que estão sendo conduzidos se os estados psíquicos "con1'usionais" c/ou "paranóides", "'reaçücs
para o caminho do "mal" e ela "pcrdiçio". Compreende-se, assim, porque primitivas de regressào e conversào histérica". etc de alguns presos
is vésperas da liberaçio de algum prcso politico (demonstra,'io políticos, SC111haver qualquer nlen~~io às torturas intligidas a eles. A
inequívoca de que ele é Ull1 ser "recuperável", vL<;;;to
que não pem1at1CCeU omissào c a conivência são totais.
preso) seja comum a realização de uma entrevista COIl1 alguém que, Poderiam muitos argumentar - c isto tem ocorrido uitinlal11ellte,
dizendo-se psicólogo, paternalmente aconselha o jovem a se "reinlegrar" quando algumas entidades de Direitos Ilumanos denunciam os pro-
na sociedade, afirmando a boa vontade dos militares. Jl,sionah5 que colaboraram com o aparato de repressão ~ que estes "psi"
estavam apenas cUll1prindo ordens ou desenvolvendo um trabalho COll10
qualquer outro. Muitos, inclusive, eram otkiais das FOI\,~asAnnadas aos
2 - OUTRAS PARTICIPAÇÕES "PSI"
quais eranl encJ.nlinl1ac1os os presos político.s para que fizessem uma
avaliaçào psiquiátrica. Estavam, POltllllo, apenas executando seu trabalho_
Além da participação nesta pesquL,a sobre o perm psicológico
Entrementes. sabemos que, se n;lOhouvesse prot1ssionah'"- qlla~.•• -
do "terrorista" brasileiro, há numerosos outros casos de atuação "psi"
quer que sejam eles. em qualqucr área - aptos a prestar, voluntariatnente.
que respaldaram o reginle de terror que se irnplantoll no país. Todavia,
seu respaldo teórico/técnico ao 3paralo de repressão, este nào leria
por fugirem um pouco ao tema deste trabalho, serio superficial e
funcionado t:lo bcm quanto funcionou Em todas 35 ditaduras ialino-
panoramicalnente aqui abordados.
americanas e durante () nazismo, o regime de força só conseguiu se
Os principais casos referem-se aos laudos psiquiátricos fornecidos
sustentar por tanto tempo porque exh.•• tiram profissionais que, empre-
a inúmeros presos políticos.
gando seus saberes, deram apoio ao terrorismo de Estado em diferentes
Há, por exemplo, casos conlO () de Ivan A. Seixas - preso C01l116 setores c áreas. Por isto. a máquina perversa ptlde se manter a:zeitada e
anos em Sio Paulo, em 1971 - e César de Q. Bcnjamin - preso com 1') funcionando. Corno nào acredito no mito da neutralidade científica e no
anos enl Salvador, em 1971 --' que, justanlente por serem nlenores, são de qualquer outro tipo de neulrdlidac!e, assinale-se quc tal' prolissionaL,
encaminhados a psiquiatras para avaliações e exames de sanidade foram cCinlplices com o regu11Cde terror ou no núninlo, coniventes com
menta]'''. Ilá, ainda, o caso de Regina Maria Toseano Pereira, cujo laudo a máquina mortífera que se abateu sobre o país, sobretudo após 1968.
psiquiátrico, enlitido quando ela é posta em liberdade condicional, em
E por que coloquei to(h .••essas inronna~'()eS como um último item
197:), rcconlenda lIlll tratanlento de base analítica.
dentro das práticas psicanalíticas? Porque principallllente a pesquh'ia so-
Muitos outros casos ocorreram: ver, por exemplo, os vários laudos bre o pernI psicológico do "terrorista" brasileiro - apesar de todo o
psiquiátricos citados no livro Brasil Nunca Mais"", que mostram nili-
referencial psicométrico dominante na época - utiliza alguns conceitos c
2'59 Sohre o.'; dois casos, consultar, respectivamente: aI Relatório Lrimino16gico nº CCIT~D-67/74, cxplicaçôcs psicanalíticos. Vide os testes projctivós de personalidade
reJerente ao internado Ivan Akselrud de Seixas, do DepMtamento dos Institutos PenaL~do Estado aplicados: Rosenzweig e Rorsehach. Estes testes nasceram em solo leórico
- Ca.'lade Cu.<;tôdiae Tratamento de Taubaté _Documento qw apf('scnu IHpagilLlS datílogr.llacb.s,
contendo .-hdos da anamnese feita e dos resultado.~ dos testes realizados b) J.audo de Sankltde ,;;apitulos 16 "Cofl.<equências da Tortura" L' (l )- '·/vbrGl_'.(1.' Tortura" das pa,ginas 2)':; a 22q
:\fcntal, realizado em César Q. Benlamin, em 10/11/"71, no Instimto Médico Legal do Rio de Principaln1L'ntL'no CapJlulr! )6, lu varios "xemplo$ ck laudos psiqui;i.lricos fornecidos na C;pOCJ
janeiro, de nO;>()()4'79B3'5 a(l.~ PI1.:sospouticos. "Beli:';.simos·exemplrl.<'de como a Psi(lUlJITiJClissica ratolr)W:t...:l,
rnargiruU:ta,
2f:/! Arquldiocese cL.:Sao Paulo_ Hra.••U Nunca Mais. Rio de Janeiro, VOZL'S,198'3. ~spL'cialmcntt' os c~xc1l1i,rolula ('serve L(lm dkacLl:1n termrismo de tstOl.do

204 20C;
~ ,

:~
da psicanáli'ie, e as interpretações de seus resultados baseianl-sc CAPín rrD III
amplamente em idéias e tcori3...-'i psicanalíticas. O teste de Rosenzweig
procura levantar COl110 as pessoas reagem a situa't'ôes de frustraçio, para
onde dirigem sua agressividade, .se a reação é "adequada" ou não - se
está orientada no sentido da resolução do problema colocado -, etc O
teste de Rorschach é Ut11 exame estmtural eia personalidade, oferecendo
Ull1 amplo panorama em seus resultados. desde uma visão do nível e da

capacidade intelectuais. até os ~l'ipect()Safetivos, em seus relacionamentos


no contexto da personalidade. É um dos testes mais empregados na área
dÚ1ica, especialmente para psicodiagnóstico e outras Hnalidades. Todos
estão dentro de uma abordagem psicanalítica positivL,ta.
As PRÁTICAS PSICODRAMÁTICAS
Não desejo entrar aqui em detalhes sobre oS testes utilizados na
pesquisa lnencionada. tampouco analisar criticamente o seu uso em ge-
raL embora os considere como poderosL'isimos instrumentos de poder
no sentido de marginalizar, rotular, estigmatizar c normatizar, porque Adentrando ainda maL, no terntoflo "psi", vamos acompanhar
Jügiria ao assunto deste trabalho. Alguns aspectos, contucio, merecem nos anos 70, no Brasil, o nascimento e expansão de outras práticas
maior atenção. que, paulatinamente, irão competir com a psicanilL,e pelo mercado
O principal diz respeito à situação em que a referida bateria de "psi". Todavia, apesar da competi\:ào e das críticas feitas às priticas
testes c os laudos de "sanidade mental" foram realizados: pessoas pre- psicanalíticas, elas continuam detendo a hegemonia nesse mercado.
sas, algunlas i..,oladas em celas solitárias. outras sofrendo grotescas e As primeiras que se colocan1 como "alternativas" ao mercado
constantes torturas físicas c psicológicas, sendo, em suma, violentadas monopolizado pela psicanilL,e são as práticas surgidas da instituiçào
no cotidiano da prisão. E ainda se esperavam peifbnnances - C01no se psicodramitica.
diz no vocablurário psicométrico - e respostas "estnlturacL1..c;;",
"orienL.'1das'· No Brasil o psicodrama tem, no início dos anos 70, a funçào
e "equilibradas". E profissionais "psi" colaborando com este quadro pioneira de se colocar como "alternativo" à psicanáli.':le e, sem dúvida,
dantesco, fornecendo seu aval teórico/técnico par'.l justifil"4rque aqueles abre caminho pora que, na segunda metade dessa década, outras práticas
que resistiam à sanha assassina de um Estado de terror eranl desequi- psicoterapêuticas tentem romper com o monopólio psicanalítico.
librados, desestruturados, doentes .. Embora não fazendo parte do amplo movinlento que, nos anos
Estas são, portanto, situações anali.o:;adorasc exemplos extremos 60, sacode principalmente os Estados Unidos - o chamado Movimento
de como algumas priticas "psi" nos anos 70 colaboraram, efetivamente, do Potencial Humano' -, o psicodrama tem com ele pontos comuns: o
para a manutenção e o recrudescitncnto das subjetividades hegemônicas rechaço à psicanilise e a ênfase no enfoque grupali'ta. Dentre os qucs-
que sustentaranl em muitos aspectos o estado de terror que se abateu ~. tionan1entos feitos, à época, por este movimento e çom o qual o psico-
sobre o país. Entretanto, algumas outras priticas "psi", de outras formas, i, drama, em seu início, em São Paulo, concorda, estão: a resistência à
continuaram produzindo e fortalecendo estas mesmas subjetividades,
, terapia centrada exclusivamente na fala e a crítica aos especialL,mos -
modelos e dispositívos) como tentarei mostrar no decorrer deste trabalho,

f o Movimento do Potencial Humano, em seu ruL.<;ecdouronos Estados I Inic!o,';,sua expansão por


alguns paises europeus e, posteriormente. sua vinda para I> Brasil, sera melhor estudado no
Capítulo [V sobre as práticas surgichs Uesst;'movimt:nto_

206 207
estes encarnados no lugar ocupado pelo analista, representados por que explodem, em 1968, em diferentes partes do globo.
rigidez, autoritarismo e onipotência presentes em sua postura, sobretudo,
O movimento contracultural é considerado por muitos como:
pelo poder de sua "escuta" e o monopólio que faz do saber "psi"
uma utopia (_,) l'ü'Ída por minorias sociais, normabnente
Tanlbém são questionados os altos preços cobrados, não só na formação
jOOerlS, f?tnjx'11hados em práticas. num efêmero e /m?Cá"io aqui
analítica COIDO nas sessões terapêuticas. e agora, num cotidiano dzjerente da rotina caDitalista de
Segundo Annc ..Ancelin Schutzenberger, o psicodrama traz o trabalho/lazer, com todos os seus corolários ~xploração,
. _direito de cidadania ao corpo humano", quando o sujeito sai do divã com.petiçào, morali.ymo, neuro.'\L-"', paranóias, poluição, etc ':4(grifos
do autor)
e pa,';;.';;a
a atuar, a utilizar seu corpo para mover-se c interatuar com o
outro.'" /\ contracultura nasce nos Estados Unidos nos anos ':;0e atraves-
Dentro de um momento hL.,tórico - já apontado - em que a S:l a década de 60, Ll$cinando boa parte da juventude de classe média
denlanda "psi" se difunde cada vez mais, a ascendente classe média se européia e latin(Hlmericana, No Brasil, seu ápice é o ano de 1968, que
alimenta d~., subjetividades hcgemônicas voltadas para o privado, para tenta inaugurar um novo tipo de militância política.
o intimismo com relação a toda (' qualquer difkukbde por que passa, e (/I/OS Rstado.'· Unidos), os Pioneiros desta reh(4ião íwxmil"áo
no qual a ênfase maior recai sohre a "terapelltiza~~ào", outras, práticas os mu.)fcos, jJoetas, arli.<;ta..<;,'drop-out<;"
r ) que pa..';,sam/Jara a
"psí" comcçun também a ser 1(,rjad'l,',apesar ck)monopólio ch psicanálise. bi.<;t6riasob o rotulo de "Bem Generution" "[)rop-ou'-,,'~porque
decidem desahitar o ,üstema. assumIr uma not'a prática
'() psicodrama, até .f)or suas pmpo5.içoes metodolõgicas, pode e:'Cistenc{al,arli.r;tú..-:a
(' poluica "',
atl'nder a estas e.'\igéncia..<;; ei.tge o trahalbo gmpal, /)ressupõe
menor numero de sessoes, o informalismo, critica a abordagem Esta fonna de viver, no aqui e agora, uma vida diferente, a..c;;sumicla
pSicanalitica, l-'ia1Jiliz-uuma formaç'ao mai." rápida e neces-
pelos chamados hi!Jpies- como regcstrado no Capitulo 1- é um caminho
san'amente menos onerosa Pode-w:, afirmar, inclusil.te, que o
j).)fcodrama se di."punha. em suas or'lRens (no Brasil), a romper
de resistência, na época, à produção de subjetividades heg-emônicas,
('om o acc,••.m eUti.r.'taã p,>ícanáliile,a ahrir e viabilizar um espaço tcntativas de forj:lr singularidades, que, a partir do inicio dos anos 70,
de clientela - profi~wionais e pacientes - para as "camadas vão sendo capturadas, assimiladas pelos dispositivos e pelo "sistelna."
medias", criando um e•.paço/auo1"iwel a sua uiahilizaçilO"", que tão radicalmcnte conlhateram.
C01l10 já foi assinalado, essas "Gtllladas m~dias" expandem-se, Não somente no Brasil mas em termos mundiais, 1968 é o clímax
desde os anos ':;0, com :1 industrializa\.'áo c a crescente urbanização, do movinlcnto contracultural-a utopia é vivida por quase meio nlilhão
cultninanclo nos 70 com () "milagre brasileiro", que produz novas de jovens no Festival de Woodstoek, o último grande eco da conlr,lcultura.
demandas de consumo - dentre elas, a das terapias_ () amplo tncrcado Os vários questionamentos apresentados - desde a sociedade
psicotcrapêutico, monopolizado pela psicanálise, começa efetivamente de consumo até as tradicionais organizações familiar e sexual - ecoam
a ser disputado pelo psicodr:J.ma.. pelos quatro cantos do planeta. Outras conccp\:ôes sobre a vida, a
Se as práticas psicodralllática ..~ não se inscrevem diretamente no sociedade, () hODlem, a família, os diferentes relacionanlentos humanos
chamado Movimento do Potencial Humano. elas certalnentc se in.se- e sexuais ganhanl muitos adeptos. Algumas forl11:ls, também, de se
rem no grande m(wimento de contcstaçào mundial conhecido COlno pensar as terapias começam a aparecer no rasrro de todos esses
contracultura, que ir3 engrossar as diversas manifestat;;ôes contestltória ..'i questionamentos; formas "alternativas" que possam fugir da hegcmo ..
nia psieanalitiea, de sua totalização, hierarquização, espeeialismos e
2 SChut7.L"nbérf:ér, A.A. Nuevas Tcrapia.~ de Grupo_ Madrid Pirâmide, 1986
Alvc.~. L.!L Instltlúçào Psicodramática: G-ênt'.'ic d(" lima Escola_ 1)i.s."crtaç:iode M<:,slrado- Bueno, A.L.L Contracultura: As Utopias em Marcha_ Dissen:ação de Mestrado - pue/R),
\lSI', I L)dR,p. lk 1978, p. 101
'; Idem, p. 02.

2.0R
209

-
autoritarismo, Assim como se tenta criar outros modos "alternativos" É cm São Paulo, a partir de 1965 - auge dos movimentos estudantil
de viver a vida no planeta Terra, escapando à dominação capitalista, c contraculturAl no Brasil -, que o psicodrama começará, gradativa-
busca-se também conceber novas terapias "alternativas" que fujam da lllente, a ser implantado de 111odo tnais efetivo, Por ter uma hist()ria
dominação psicanalitiea. bastante diversa. enl São Paulo e no Rio de Janeiro, discorrerei
É isto que as práticas psicodramáticas no final dos anos 60 e separadamente sobre esses doi') espaços,
início dos 70 e, posteriormente, as chamadas "alternativa..c;" tentam
produzir no Brasil.
Apesar de pretender realçar a produção das práticas psico- I- SAMPA E O PSICODRAMA
dratnáticas no eixo Rio-São Paulo e as instituições, os dispositivos e os
saberes que vão sendo instnllnentalizados e forjados por elas, não Em 1967, por oca.,ião do V Congresso Latino-Americano de
posso me furtar a levantar alguns clados da história instituida do Psicoterapia de Grupo, realizado em São Paulo. alguns médicos
psicourama no Brasil, Da mesma fonna que fiz conl as práticas psiquiatras assistem no TUCA a um psicodrama público, dirigido por
pskanalíticas, tatubém aqui exporei brevemente - à guL"iade maiores Jaime Rojas BemJUdez'. Na mesma ocasião, Bermudez é convidado pelo
informaçôes e, quem sabe, novas releituras - a história de algumas das Serviço de Psiquiatria e Psicologia MédiGl do Hospital do Servidor Público
Sociedades psicodramáticas instituidas nos anos 70 no Brasil. Estadual pam dirigir ali outro psicodrama público.
Dentro da história do psicodf'dIna no Brasil,se o seu avanço se localiza "Essesdois trabalhos (, _)proo(Jcam grande impacto na ocasião
na déGlclade 70, não se podem ignor.1falguma, de suas intelVençôes pontuai, (. _),pois pela pn'meim vez sefaz realizar um psicodrama pú-
- desde os anos 306 No entanto, foram experiência, totalmente esporádica" blico em Sdo Paulo, e, pela p,"úneira vez, se /lê alguém ser tra-
tado psicoterupieamente em .!Júblico Nesta epoca ( ) estâo
fC'.ilizada,pela, pessoas em seus IOGli,de n'lbalho e que pouco acrescentaram
começando a ganhar imjJuLm no pais e em Sao Paul.o as te,'apias
à sua expansão, Mesmo 3.."iexperiências desenvolvida.'.;por Pierre Weil, em de grn/XJ ..t,

19'í'í, com psicodrama apliGlcloao treinamento, no SENACdo Rio dc Janeiro,


e o trabalho clínico, iniciado por Norma Jatobi em 196ü, em seu consultório
na ciclade de São Paulo, foranl interven~iSes isoladas. 1 - O GEPSP E O ·SUCESSO" DO PSICODRAMA
Ainda nos anos 60 há algumas tentativas de se levar, de forma
aleatória a alguns estabelecimentos, a proposta psicodrAmática, como, Os Doutores Osvaldo Dante, Milton Di Loreto e Michael
em 1961, Célio Garcia, no Centro Médico Pedagógico de Minas Gerai,; Schwarzschilcl, ligados ao Hospital do Servidor, convidam Bermudez
em 1962, Flávio D'Andrea, no Departamento de Psicologia Médica e para um curso de duas semanas com vivências, seminários e discussões
Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USPl; em 1 96'í, sobre psicoclrama em sua clínica particular ele psiquiatria infantil, a
Pierre Weil, na área de Recursos Humanos do Banco da Lavoura de Enfancel". Em fevereiro de 1968, realiza-se o curso, que tcm uma grande
Minas Gerai,; em 1962, Iris Soares de Azevedo em sua clínica privada
em São Paulo, quando reúne algum'L' pessoas para o estudo do psi- 8 J. Roias Bcrmudez foi o primeiro latino-americano - era colomtliano <:' rarucac1) na Argentina,
de.'lde 194'5- a ler o títuJo de Diretor de Psicodratn:l conu'dido, em 1963, pelo Instituto Moreno
codram.3., .'.., figurantes, todos, dos acontecin)entos posteriores que vão
de treinamento em psicodrama, hmcbdo em lC)."6,por Jacob L Moreno, em 8eacon, no estado de
marc.ar a institucionalização do movunento psicodramático no Bra..')il""7. NoY3.York. Ao voltar à Argentina, funda, no mesmo ano, a Associação Argcntina de Psicodrama
e Psico1erapia de Crrn.po, a primeira na América Latina.
6 Citacbs por l'ierre Weil in Psicodr.una. Rio de Janelro, CEPA, 1978. 9 Navarro, M.P. OI' cit., I'. 248.
7 L. H. Op. cil., p. 81. Todos t.'S5eS acontecimentos sao citados também por Navarro, M.P.
A.1vc.'>, 10 A Clínica Enfance, além de propiciar g-rupos de estudo sobre o psicodra.ma. inicia também uma
"Caminhos e Descaminhos do Pockr no Psicodrama no Brasil", In: Aruds do VI Congresso experiência em Comunidade Terapêutica que percorre, podo menos, a primeira metade dos anos
Brasileiro de Pslcodrama. São P:l.ulo, FEBRI\P, :-/ebt:l, 248--2')6, p. 248. 70.

210 211
procura (sào organizadas três turmas). Devido ao número de do novo, a curiosidade, o desejo de ampliar horizontes, de enri-
interessados e o desejo de continuar o trabalho iniciado por Bcrmudez, quecimento na formação dos profissionais de saúde mental atrai
muitos terapeutas para o psicodrama, como a "grande
decide-se organizar um tLlrSo de formaçào cnl psicodrarna. Cria-se uma alternativa" 13•
comLssàoJ1 que tem a finalidade de congregar pessoas interessadas
nesta formaçào e, assim, constitui-se o Grupo de Estudos de Além das fIlas que se formam às portas da SBPSP - fato motivado
Psicodrama de São Paulo (GEPSP), que funciona de ]968 a 1970. pelo pequeno número de didatas, conforme já se assinalou no Capitulo
A repcrcussào da proposw de um curso s,stcmático de psicodrama 11- e os preços inacessíveis para muitos jovens "psi" de então, há, sem
é grande, pois em São Paulo. nesse período: dúvida, o desejo por uma outra forma ele psicoterapia, mais flexível,
mais democrática nas questões flnanceiras, burocráticas, organizacionais,
a demanda de cu.rsos de e!JjJecwlizaçüo em psicoterapta ('
morais, sexuais e que utilize o enfoque grupal. O psicodrama, em seu
imensa, ( ) apesar defd existirem dOl'ioutros cursos de (ormaçao
f ..) fora o da SBPSP o doSeder; e o da 'lociedade de Psicoterapia inicio, em São Paulo, vem preencher Wis aspirações; elaí, seu grande
de Grupo. ( ) o que re1.'ela o anseio de um grande numero de sucesso.
profissionai'i por uma especialidade e que ndo encontram E, tão logo o GEPSP se impõe como uma "alternativa" para a
respostas nas i/1...'ltiJlliçõesjormadora~'I'ígc"11t('5··'Ji.
formação "psi", a SBPSP - principalmente após o Congresso no MASP,
Entretanto, os cursos do Sedes e da Sociedade de Psicoterapia de em 1970 - exerce algumas "pressões": Antonio Carlos Cesarino, há
Crupo de São Paulo nào conseguem compelir no tnercado ··psi" paulista tempos esperando ser chamado para a formação nesw Sociedade
com a hegcmonia da SBPSP na formação em psicoterapia. Somente em "oflcial", tem uma acolhida pronw e inesperada e Deoc1eciano Alves -
1975 - como já toi mostrado no Capítulo 11, itcnl V1 - o curso de que participou da comissão organizadora do GEPSP -, mais tarde,
Psicoterapia de Orientação Analitica do Sedes (com Robcrto Azevcdo c abandona o movimento psicodramático para tornar-se presidente da
Regina Chnaidermanl fará alguma sombra à forma"ão analítica "oficia!" SBPSP, em 198714.
~a época, portanto, a grandc procura pela formação cm psico- O GEPSP emprega como estratégia ele formação o mesmo tripé
drama associa-sc, indubiwve]mente, à busca de "outras" fOfius de terapia, que as Sociedades "oflciais": terapia, seminários e supervisões. Esw é a
fornlas "alternativas" à psicanálise, o que mostra U1113 oposil,;ào à proposta da Associação Argentina de Psicodrama e Psicoterapia
formação da SBPSP por parte de uma parcela de profissionais "psi" de Grupo, fundada por). Rojas Bermudez. Textualrnente, ele afirma:
paulistas. ..... organizei o Instituto de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo,
Já vimos no Capitulo anterior, na segunda metade dos anos 70, dentro da Associação Argentina, seguindo o modelo da
que, em São Paulo, surgc unu série de outros grupos "psi" que começam Associação PskanilJJtka Argentina. De acordo com ele, os
titulas de Psicodramatistas dependerão do Instituto como
a romper com o monopólio da SBPSP. Todavia, na década dc 60 c na
organismo docente da A."5ociaçâo,,15(grifas meus).
primeira metade da de 70 sua hegemonia é absoluta. Desse modo, o
psicodratna, naquele nlomento, é um precursor desta nJptura, ajudando, Tanto que o GEPSP é filiado à Associação Argentina de Psico-
também, a preparar o terreno para que mais tarde ela viesse a ocorrer. drama e Psicoterapia ele Grupo e só poderá se constituir em Sociedade
ou associação quando tiver um diretor brasileiro formado em psico-
(Em 1 968), não e.tistem alternativas de formação de
terapeu.tas que não seja a Sociedade de Psicanálise A perspectiva drama. É o mesmo esquema utilizado para que um Study Group seja
reconhecido pela IPA: haver um didaw.
11 Esta comissão é formaru por Laéroo de Almeida Lopes, Antônio Carlos M, Cesarino, Pedro Paulo
Uzeda Moreira, Jose .Manoel D'Ale.'lsand.ro.lri<; SO:lfesde Azevedo, Alfredo Correia Soeiro .•\1ichael 13 Cesarino, A.C. et alll. HIstória Geral do Psicodrama. São Paulo, 1974, mimeogr., p. 03.
SchwarzschOde Deocleciano Alves. In: ~avarro, M.P. Op. cit., p. 249 14 Dados fornecidos em entrevista por A.C. Cesarlno a Ui. Alves, In: Op. cit., p. 111.
12 Alves, l.H. Op. ciL p. lOÇ 1'5 Bermudez,).G.R.lnt:roduçãoao Pslcodrama. São Paulo, Mestre)ou. 1977, p. 142.

212 2t3
Ainda que Bermudez copie o modelo ele forma,ão da APA, para " ..adquirindo PriuiJegios no aprendizado e na conduçao do
a Associaçào Psicodramática Argentina acorrem muitos profIssionaL" m01timento Ri'Cebem de Bermudez uma carga horária dupla em
interessados em outras práticas, maL"aberl~l<), maL')flexíveis, que possam supentísilo e terapia que os lel-'Cl,segundo reconhca:,m, a lazer
com qUl' se ,\"intam mai., enfronbados com o P,icl)drama e. ,bor
enriquecer suas alua~ües gnlpai<;/institucionais. Enlbora não rompam
essa especie de direito, continuarem l'm wa !imçao de coor-
com a prática psicanalítica, muitos elesses profissionais a partir de 1968- denaçao cada vez maL, contestada "i ,
como já comentado no Capítulo anterior - passam a fazer parte do que
ficou conhecido COlUO a segunda geração ele argentinos. E iniciam um Com L~so, desta comissão/coordenação saem professores e
movitnento de contesta\'ão a alguns aspectos elas práticas analític..'18 c às sllpervi~ores de seus próprios colega,"jde turma, assün como se designam
sua..c;;instituições. Dentre eles, destaca-se E. Pavlovsky. companheiro de diJl'torcs de grupos de estudo c de role-jJ/ayings para os iniciantes. O
BemJudez na Associação Psicodramática Argentina que, também bzendo Boletim Informativo n" ()~do (;EPSP coloca que:
parte do Gmpo I'btal')flna - dissociado, desde 1971, da AI'A-, empenha- "Uma 1JeZ aceito pela coordenaçdo, o candidato que des!!jar se
se pela politização do movitnento psicodramático argentino c latU1()- on'entar' /Jara /ónnaçao como niretor ou Ego-Au:~:iliar de
Psicodrama del'f"'á !Jarlicipar de Reunioes de Estudo e Grupos
anlcricano. Contudo, esta vertente do psicotirama pouco ou qua.<;cnada
de "Note-plav/n!!,':este.Oipagos, cmn diretores indicados pela
irá influir na form:H,,';lOdos psicodramatistas brasileiros, especialmente Coordendçào atêle/.'emiropro.'\.:imo, ocasiüo em quepoderáfazer
oS paulistas e cariocas. A vertente que se impõe, imediatamente em São Seminários e (;'rupos Tel'al)(~ticos com o f)r Rojas Rermudez"'s
Paulo, é a de J. Rojas Bermudez. (grifos meus)

"() mol'imenfo /Jsicodramático L .. ) em Sao Paulo, alraf'(!s do o Boletim Informativo nº 04 comunica quem .são os Diretores
GHPS1~ nasce agregado a um mOl'Ímento mundial de dL••.. w:'mi- designados para estes grupos, todos membros ela Coordcnaçào do
naçàó do /Jsicodrama qUl', centralfzado parI L Mort~o alma!."
da instituiçao formadora o "Instituto ,Horeno" e de uma
CFPSpl,) A participJ\-'ào nesses grupos é condit:,.:àonecessária para 1J.zef
instituição nomUltizadora o "lFodd Center'; implanta SutL, hases pane do próximo Cllrso. iníciaclo em 1969, cotn a equipe de Bcnnudez.
hrasileiras atra/y:,s da escola arp,cntina Fato é qu(;' o pn5prio Os conflitos se avnlum~lIn entre a c()Ordcn:H,.'ãoc os representan-
Bermudez. assumindo as (unçóes de líderança elo m01.'im(~to tes elas cinco lurmas em formaçào, os quais ck'nuncianl a realiz'Jl".'ãode
psicodramatico na América Latina com que ;Wore-nolh(;'imoestira,
propoe a organizaçào di' um curso regular de lJsicodrama no
luannbras que se valem até mesmo elo emprego de técnicas
Rrasil"lú, p.sicoelramáticas para transformá-los em representllltes da Coordenaçào
junto aos alunos em f()rma~-';lo,tir:ll1do-lhes o cargo ele representantes
o lTlercadolatino-americano psicodr.:ull..'Ítico,
por intennéclio do Bra..<;;il,
dos alunos junto J. Coordenal,,-,~10,funçào para a CJual tinham sido
abre-sc a p:utir de 1968 P"',l Bennuelez, blo que, posterionnente, contribuirá escolhidos 2!l,

para que ocorram glJ.odcs rachas no movimento psicodramático mundb.l,


N;lo obstante todos esses conflitos. cresce em muito a demanda
entre o próprio Bennuclez e seu mestre J. L.Moreno, espalhando hrp:J" par,l
por Limaformaçào "alternativa" fi psicanálise e, em 1969. já se tem onze
o movimento psicodram3.tico brJ..<;ileiro, em especial o paulista.
grupos em forrnaçào de psicodr:una terapêutico (' quatro em psicodratna
Este "coloniaIL"no·' argentino, na figura cle J. Rojas BemJudez, pedagógico, OLlsej.::t,quinze lUrm.::tsem torma\-';icL .
gera - iá durante a existência do (;EPSP - Ireqüel1les con!lit,,, que ir.l0
Isto faz com qLle haja Limagrande participa~'ào de brasileiros no
explodir no Congresso de 1970, hzendo desaparecer o (;mpo de Estudos.
[V Congresso lnternaciona! de Psicodrama, realizado em 1969, em
A comissão escolhida, em 1968, pelo próprio Bcrmudez é erigida
em coordenação do (;EPSP, 1-' kkm, citando depuinkllto de' A..C. CeS:lrinu, p_ 112
IH Uoletim Infonnativo do (;HlSP Il~()~, 0')'08--196H,cit;.luO por Al,'es, 1..1I. ()p, dto p, lij.
19 Boletim Informativo do GEPSP, nUt J 2.fI18/j9(Y)
16 Alves, LH.Op.ciL,pp. 111e 112.
2.0 Touos ~'stcs conJ1it()sL"Sti() !Urr:lru)s in NJ.varm, M.P, ()p. dt" pp. 2')(1 C 2') I

2t';
Buenos Aires, com a presença de Moreno e sua mulher Zerka. Conta-se que Georges Lapassade - "fiel" às práticas instituintes
Tanto para Bermudez quanto para o próprio Moreno é importante apregoadas pela Análise Institucional, à época - tenta fazer uma inter-
que o mercado psicodramático !atino-americano, recém-conqui,tado, seja venção socioanalítica através de pequenos colfÚcios durante todo o
ampliado e conquistado definitivamente. Os congressos internacionais Congresso, atitude esta que gera inquietação por parte dos organizadores
desde 1964 eram feitos de 2 em 2 anos em países europeus; em 1969, é paulistas. Isso porque estamos em 1970- penado mai, feroz da ditadura
realizado na Argentina - sede da expansão desse mercado latino- militar - e, antes do inicio do Congresso, agentes da Polícia Federal
americano - e, em 1970, no Brasil- um dos pólos mais importantes para retiram do MASP uma série de cartazes considerados "subversivos":
tal expansão. continham frases de J. L. Moreno!
Segundo alguns de seus organizadores entrevi'tados, o Congresso
de 1970 apresenta, primordialmente, duas caracteristicas: é um contra-
2 - O GRANDE HAPPENING E A CISÃODO MOVIMENTO ponto à ditadura militar e à prática hegemônica da psicanáli,e.
PSICODRAMÁTICOPAUllSTA "O arbítrio da ditadura militar cala as manifestações cuiJurais,
artísticas, sindicais - o império do silêncio. a proibição do en-
Em agosto de 1970, realiza-se no MASP(Museu de Arte de São contro entre as pessoas. Afinal, se a ditadura decreta o isolamento,
Paulo) o V éongresso Internacional de Psicodrama e Sociodrama e o I alise organIza um encontro, se o poder impede manifestações,
Congresso Internacional de Comunidade Terapêutica, organizados pelo a nova proposta, insurgente, se reconhece e estimula; ao poder
que impõe o fracionamento e a conspiração, o movimento psi~
GEPSP e sob o patrocinio da Associação Argentina de Psicodrama e codramático propóe ( ..) o encontro-confronto direto entre os
Psicoterapia de Grupo e do World Center for Psychodrama, homens, Assim, o contexto social torna-se texto grupal, a.<;con-
Sociometry and Group Psychotherapy, tendo como presidentes tradições de uma sociedade silenciada ganham luz atraves do
honorários, respectivamente, J. L. Moreno e Maxwell-Jones. esforço empreendido pelo congresso e ele próprio se constilui em
grito pela liherdade e democrada "22
Embora, na última hora, Moreno e Zerka se recusem a vir, figuras
internacionais ligadas ao psicodrama, à comunidade terapêutica e a Justillca-se, "--,sim,o grande suces~o obticlos pelos psicodramas
outras áreas "psi" estão presentes, como: Anne-Ancelin Schutzenberger, públicos, que lotam os espaços onde são apresentados.
os argentinos E. Pavlowsky, C. Quintana, E. Bogliano, G. Maziers e D. Como contraponto à prática hegemônica da psicanálise, o Con-
Bustos, dentre outros; os norte-americanos Maxwell-Jones, Breu Stuart e gresso é a oficialização de uma alternativa prol1ssional para muitos
A. KnepIer; o japonês K. Matsumura; representantes de comunidades que, por diversas razões, estão afastados dela, seja por questões fman-
terapêuticas argentinas e da uruguaia Del Sur, o francês Georges ceiras, seja por falta de vagas na SBPSPou mesmo por questões ideoló-
Lapassade, o grupo de teatro inglês living 1heatre e muitos brasileiros. gicas.
Segundo as avaliaçôes feitas, participam entre 1500 a 3500 pessoas,
"O Congresso de Pskodrama de 1970 semiu, sem duvida, como
que, de segunda a sábado, lotam os amplos espaços do MASP. uma espêcie de cunha no monopólio da psicoterapia exercido na
Várias atividades são programadas, como teatros permanentes, época pela p!>1canálise"!...'.
relatos oficiais, ateliês permanentes e de expressão, grupos de discus- Não é por acaso que surgem, sobretudo na grande imprensa,
são dramatizada, fIlmes e diapositivos. São, oficiaimente, 143 egos- ferozes críticas ao referido Congresso, proferidas pelos psicanalL'tas
auxiliares, em sua maioria alunos das onze turmas de formação em paulistas ligados à SBPSP.Eles denunciam que foi um venudeiro show,
psicodrama terapêutico do GEPSP21.
22 Alves, UI. OP. dt.. pp. 11C) e 120
21 Maiores detalhes, consultar o programa do Congresso, composto de 39 páginas datilografadas,
2~ [dem,p.121.
redigido em português e inglês.

216 21'
UlTIavez que os psicodralnas públicos expunham excessivamente as eXl<;tcncial,os psicodramas realizados tornaram-se espaços abe!tos para
pessoa.'i, havendo a quebra da privacidade necessária ao tratamento o glupal e para uma verdadeira Gltarse por parte de muitos participantes,
psicoterápico. Foi, sem dúvida, um Congresso anti-ético - afirmanl -. em que o emocional aJlorava de qualquer forma.
poL')atentava contra a moraL os bons costun1CS,propagandeando o uso Apesar de todas as discord1l1cias, fica claro que o V Congresso
de drogas, a dissoluçào da fanúlia, do casamento. Além disso, privilegiou- de Psicodrama c Sociodrama c o r Congresso de Con1unidade Tera-
se a atuaçào prática, já que oS aspectos teóricos ficavaln relegados a un1 pêutica marcaram época e é a partir deles que. nào SOlnente o psico-
segundo plano. drama, l11a8un1a série de outras abordagens p.sicoterápica." chan1aclas
I lá alguns pontos a serem aqui levantados: a questão anti-ética "alternativas" começatn a ser comentadas e lIm pouco maL.••conhecida.')
prende-se, fundamentalmente, ã quebra do setting, território tão bem no eixo Rio-São Paulo.
protegido, resguardado e demarcado pelos guardiães da "verdadeira" Um outro efeito do Congresso, para o movimento psicodramático
psicanálLse. É um sacrilégio que isto ocorra em espaços públicos, abertos, mundial, é a manifestação explícita e pública dos conflitos entre Ber-
uma vez que as subjetividades hegemônicas da época pregam a tirania mudez e Moreno pela posse: do mercado latino-americano, o que lança
do privado e o repúdio ao público. farpa..'i no na.')cente tl10\..-itncnlopsicodramdtico pauIL'ita.
Os argunlentos de atentado à moral e aos bons costumes revejam, No Congresso. manifestam-se de i()rma maL.••violenta esse.;;conflitos,
claramente, a visão conservadora e as subjetividades dotninantes no com a ausência de Moreno, atingimlu scu auge em 1973. quando
meio psicanalítico, nun1 momento efi1 que mundialmente - nos rastroS Bcrmudez e a Associaçãu por ele fundada na Argentina são desligados
do movimento contracultural - se questionam oS valores capitalisticos du World Center, de Moreno. Este retira, também, de Bermudez, o título
instituídos. de Diretor em Psicodrama, conferido pelo Instituto Moreno, em 1965".
O privilégio às atua\.·ões práticas é um argumento - pleno do Em 1969, Moreno havia deilo Bermudez e01llO seu herdeiro,
positivLsmo-cientifidsta qúe domina a prática psicanalitica da época. Basta particularmente para a América Latina - isto gerou atritos com outros
ver o programa do Congresso para que se verifique que isto não ocorreu. psicodramatL"itas de diferentes nacionalidades - e. durante o Congres-
Entretanto, aquilo que chaluan1 de "atuações práticas" são OS so de 1970 em São Paulo, Bermudez, já se sentindo fortalecido a nível
psicodramas públicos e oS diferentes ateliês organizados. Para a latino-americano. rompe com Moreno. Oficialtncnte, logo após o
"verdadeira" psieanálise tais propostas distanciam-se do caráter "cien- Congresso, Moreno ··deserda" Ber1lludez.
títlco" que a prática psicoterápica deve ter. São, por conseguinte, atuações Estes conflitos e cL'iôes se acentuam intcmacionahnente e. em
menores, marginalizadas, desqualificadas e inferiorizadas pelo discurso 1971 - durante o VI Congresso Internacional de Psicodrama e Soeio-
totalizante da '"verdadeira" psicanálise. O psicodrama, de um modo drama, em Amsterdã -, E. Pavlovsky e outros membros da Associação
geral, é classificado pelos psicanalLstas até hoje como uma terapia Argentina de Psicodrama2<' rompeu1 C0111Rcrmuclez, lançando o Mani-
superficial e, portanto, inferior, menor. festo do Gnlpo Experinlcntal Psicodramático Latino-aluericano. Alegam
Sem dúvida. o Congresso de 1970 - na fala de alguns de seuS que as técnicas psicodramáticas elevem ser utilizadas não como un1
organizadores - foi marcado pela "atuaçào", pelo caos, pela confusão e meio de adaptação ao sistema, mas como instrun~entos de mudança,
muitas vezes pela iInprovisação, tendo em vista a inexperiência elos tendo os seguintes objetivos:
profissionais "psi" paulLstaS em organizar tão grandioso evento. É
verdade, concordam, que houve exposição de pessoas durante alguns 2'i Maiore.c;detalhes sohre <:sta "c:l.ssaÇ'io", c()n~ullJ.r Cusdmir, L. "Mesa Redonda do..~meus Objetos
Que Têm a Ver Com Moreno". In: A"..iar, M. (Ur~.) O Psicodramaturgo. São Paulo, Casa cIo
psicoclramas públicos; mas, fundamentalmente. c1eve~seconsiderar que Psicólogo, 1990,j6-6I,p. SO.
numa época de extrema repressão social, política, cultural, artística e 2') Como Carloi! Martinez Bouquet, Fidel Mncio, Raimundo DiJJello e M:1Iia Alicia Romana, dentre
outros.

118 219
"1) pôr em evidência os sistemas repressivos e as condutas que portanto, que já vigoravam ao longo desses dois anos, explodem
estes fomentem; 2) detectar e enfrentar situaçÕes de injustiça
violentamente, fazendo implodir o Grupo de Estudos.
social e outras relacionadas com as diferenças sociais; 3)
investigar as conduta'i autoritárias dentro efora das instituiçÕes;
4) revisar e analisar os papéis sociai.s e detectar os "emissores de
normas': os que em defesa de seus proprios interesses impõem 2.1 - As Duas Sociedades de Psicodrama: a ABPSe a SOPSP
papéis não relacionados com o interesse da comunidade"lh.
No final de 1970 há dois grupamentos claros no GEPSP: os que
E. Pavlovsky faz parte da segunda geração de argentinos
querem continuar a formação anterior sob a coordenação de Bermudez
analisada no Capítulo 11- e traz uma clara implicação política para o
- minoria dentro do Grupo de Estudos - e os que questionam os
psicodrama. Bermudez discorda frontalmente dessa diretriz.
métodos e a postura de Bermudez, rompendo com ele por completo.
O cisma no movimento psicodrarnático mundial se acirra e, em
O primeiro grupo, liderado por lris Soares Azevedo, José Manoel
1972, no VII Congresso Internacional, em Tóquio, com Anne-An~elin
D'Allesandro e Alfredo Soeiro, ainda em 1970, funda a Associação
Schutzenberger, Antônio Correia Soeiro, J. Rojas Bermudez, e outros
Brasileira de Psicodrama e Sociodrama (ABPS), vinculada ã
mais, é con..c;tituídoum comitê para organizar uma Federação Inter-
Associação Argentina de Bermudez.
nacional de Psicodrama e Sociodrama, o qual não sai do papel. Entre-
O segundo, onde estão presentes a outra metade da antiga
tanto, em 1973, funda-se a Federação Latino-Americana de Psicodrama
coordenação do GEPSP (Laércio Lopes, Paulo Uzeda e Antonio Carlos
(FLAS), tendo como sede a Associação Argentina de Psicodrama e
Cesarino), todos os 11 representantes das turmas em formação em
Psicoterapia de Grupo e como Secretário Geral, Roias Bermudez. Busca-
psicodrama terapêutico e a maioria dos alunos do GEPSP, funda a Socie-
se, assim, com o apoio de uma Sociedade de Psicodrama de São Paulo
dade de Psicodrama de São Paulo (SOPSP) sem quaisquer ligações
- a ABPS - mantcr o monopólio do mercado psicodrarnático !atino-
com Bermudez. Todavia, mantém contatos com alguns psicodrama-
americano com Bermudez. Isto começará a mudar em 1975 com a
tistas argentinos da antiga equipe de Bermudez que com ele já haviam
vinda sistemática de Dalmiro Bustos para o Brasil.
rompido,
"Esse nwuimento de conflitos se acentua e pro:ssegue até a nwrte
Logo depois, sai o grupo da SOPSP,que representa o Psicoclrama
de Moreno em 1974. A partir de entdo o psicodrama, a nivel
internacional, perde uma unidade mais orgânica e até hoje Pedagógico, liderado por Marisa Nogueira Greeb. A este ponto voltarei
permanece acéfalo "27. mais adiante, no item m, no momento de esclarecer algumas situações
analisadoras das práticas psicodramáticas.
No Brasil, o clima de cc.ão é intensificado ao fmal do Congresso
Nos anos seguintes, as duas Sociedades paulistas expandem por
quando os oito componentes da cooordenação do CEPSP são diplo-
algumas cidades do interior de São Paulo e por vários estados brasileiros
tnados conlO Diretores em Psicodranl::l por Bermudez. causando sérios
a formação psicodramática. Assim, a ABPS forma núcleos em Campo
conflitos C001 os demai.,;;alunos em fornlaçào23. Várias críticas passam a
Grande, Manaus, Fortaleza, Curitiba, Campinas e Ribeirão Preto. A SOPSP
ser feitas, como por exemplo, ao exibicionismo e autoritarismo de
também amplia a formação psicodrarnática para Curitiba, Porto Alegre,
Bermudez, ã questão do pagamento, etc. Cria-se uma divc.ão dentro
Florianópolis, Bahia e Rio de Janeiro (caso que será visto adiante no
da coordenação do GEPSP e da própria equipe de Bermudez. Questões,
item m.
2f:J 8ouquet, C.M., Moeçja, F. e Pavlov~ky, E. Psicodrama:: Cuândo Y Porquê Dra.matlzar? BA, Em 1975 no Instituto Sedes Sapientiae é iniciado um Curso de
Proteo, 1971, pp. Oi e 08.
Formação Psicodramática do qual participam professores das duas
27 Alves, LH. Op. cit., p. 121.
2B Maiores detalhes sobre o movimento dos representantes elas turmas diante da CCXJrdenação do Sociedades paulistas.
GEPSP e do próprio Bermudez, consultar Navarro, M_P.Op_ cit., pp_ 2')3, 2'54 c 2'5'5.

220 221
No início dos anos 90 há, em São Paulo, oito Cursos ligados à Para l11U itos psicodramatl'itas paulistas cntrcvi<;:tados, Bustos traz
formação em psicodrama: II da ABPS, o da SOPSP, o da Campineira, o tambénl tecnicamente lima formaçào mais "delnocrática", pois seu
de Ribeirão Preto, o do Vale do Paraíba (SOVAP), o do Sedes, o do trabalho gru paJ é cemrado no protagonista e não no diretor: o gru po é
Instituto Brasileiro de Psicodrama (1131') e o da Escola Paulista de que escolhe o assunto a ser tratado e () protagonista é ml1 membro
indicado pelo próprio grupo. É o chamado "grupo autodirigido·'.
Psicodratna.
Afinnatn que Bermudez. apesar de possuir um excelente lllanejo de
gnlpo, é bastante diretivo, uma veLoque "pinça" determinado assunto
3 - DALMIRO BUSTOS E UMA OUTRA VERTENTE DO no gnlpo e () leva para a clr;lJnatiLoa~ão,C01n protagonistas escolhidos
PSICODRAMA ARGENTINO NO BRASIL por ele, enquanto diretor.
Desta forma, na segunda metade dos anos 70, em São Paulo,
Apesar de Rojas Hennudez ter tentado manter seu nl<mopólio começanl a ser mostradas mais cbran1ente algumas diferentes vi.e;;()cse
sobre o mercado psicodramático brasileiro através da AEPS c da criação postura.e.;com re1a\-':J.oà prática terapêutica psicodramitica~4: uma mais
do FLAS,em ]973, outros argentinos continuam vindll ao Brasil, sllbre- médica, enfatizando oS aspectos neurológicos e sofrendo influência de
tudo por intermédio da SOPSP Bernluclez e outra, nl:lis psicanalítica, sob influência de Bustos. Porém,
Entretanto, até 197~, é Bermudez, sem dúvida, o "mestre" do seria extremamente grosseira e simplista a alusào somente a esta.') duas
psicodrama no Brasil, quadro que irá se modificar com a vinda de vertentes, se assiIn podem ser chamadas. Embora não seja objetivo
Dalmiro Bustos, seu antigo colaborador, que rompera com a Associa\;-'ão deste trabalbo lima análi .•• e dos diferentes enfoques teóricos dentro do
Argentina e fundara, cm 1972 - após sua formação em Beacon, com mOVlll1ento psicodramático brasileiro, acredito que algo maie;;deva ser
Morenll -, o Instituto de Formação em Psicodrama)acob L. Moreno. mencionado, mesmo que de forma um tanto superficial. Dentro desses
Com o surgimento das duas Sociedades - ARPS e SOPSP - e com doie.;grandes gnlpos há numerosas varia.;,:ôes:desde as correntes mais
as vínd~l<;sisten1átícas ao Brasil de Bermudez c Bustos. a..,)sL.'ite-se,
na 1110reniana.oe;
senl grandes inJluências méciic;]s ou psicanalíticas, passando
segunda metade dos anos 70. em São Paulo. ~l atualização das pelas que enfatizam o a,"'pectu intrapsíquico-relacional (o psicoc1rama
divergência..'i e COll1petiçôes do movimento psicodrantitico argentino. cOlno um processo na esfera intrapsíquica), até a vi'ião de Fonseca
Em dezembro de 1974, em uma de Sl""S vindas ao Brasil, chamado sobre a Matriz de Identidade, quando faz uma aproximação ela relação
pelo Departamento de Medicina do Hospital das Clínicas (tlSP)' Dalmiro dialógica de Buber com a tIlosofia existencial. Segundo Sérgio Perazzo,
Bustos é convidado por um grupo de psicodr::unatic;;ta.<) e pela SOPSP Fonseca é protagonie;;ta de unllllomento no mOVU11entopsicodíJJ11itico
para dar supervLsôes, grupos de estudo c fazer terapias. Assim. a partir brasileiro - final dos anos 70 e início cios lJO - em CJuehá inseguran,a
de 197~, Bustos passa a vir sistematicamente a São Paulo c, por ter entre estes profissionais que procuratn o respaldo de uma teoria do
grande influência da psicanálLse em sua formação - havia articulado e desenvolvin1ento ela personalidade. Aspecto a que Bermudez já havia
imbricado muitos conceitos psicanalíticos aos morcnianos -, transmite sc referido, ao elaborar uma psicopatologia do psicodralna dissociada -
tal visão aos psicodramatistas paulistas. como já assinalei - do referencial morcniano.
l~ a partir de então que, paulatinamente, as críticas e a grande Uma nova abordagem, no final da década de !'lO, vem se consubs-
reação à psicanálise - presentes no olOvimento psicodramático paulista tanciando nos trabalhos de Alfreelo Naffah Neto: o psicodrama segundo
em scu início - começam a se desfazer. A [()fInação dada por DaLmiro lima leitura nietzschiana30.
Bustos quebra a profunda "medicaJização" existente na formação 2() Segundo Anne-Ancelin Schutzenberger, internacionaimenttl, há rrê,~ e;:;cola~clássicas de psico-
berrnudeana, trazendo uma série de conceitos psicanalíticos para a drama: o psicodranu moreniano, o psicodranu analítico francês e () psicodrama trj:ídjco. In: Op
ciL, pp. ';7, ';8 te' S9.
prãtica do psicodrama.
22.2
Sem dúvida, tem sido grande a produção na área das práticas Em 1976 é fundada a Federação Brasileira de Psicodrama
psicodramáticas, especialmente a partir dos anos 80, quando uma série (FEBRA?)que, segundo muitos entrevL,tados, "tenta superar os conflitos
de livros sobre o assunto é lançada por psicodramatistas paulistas, do MASP, oriundos do rompimento com Bermudez". Em realidade,
dentre outros. Segundo levantamento feito por Sérgio Perazzo, até 1991, graças ã criação de um Conselho Normativo e Fiscal (CNF), a FEBRA?
cerca de 34 livros de psicodrama foram apresentados no Brasil (alguns organiza e unillca para todo o país os critérios para a adrnL'5ão e seleção
com tradução no exterior) e cerca de ~01 artigos foram mostrados nos de candidatos ã formação psicodramática e os critérios de escalonamento
diferentes Congressos Nacionais de Psicodrama. das equipes formativas. Assim, "... os candidatos ã admissão dos Cursos
Em 1979, Dalrrúro Bustos, que hoje forma a quarta geração de de Formação de Psicodramatista devem ser, básica e preliminannente,
psicodramatL,tas brasileiros, funda em São Paulo seu próprio Instituto graduados em Medicina ou Psicologia"" (grifos meus).
de formação: o Instituto Moreno. Além disso, são estabelecidos os critérios para a execução da
Pelo que foi exposto, pode-se atlrmar que o psicodrama no Brasil terapia e da supervisão dos alunos e criadas cinco categorias hierár-
_ pelo menos em São Paulo - sofreu grande influência da escola argen- quicas dentro da formação, ou seja:
tina: inicialmente, com uma proposta extremamente medicalizante; pos- "A}Psicodramatista -formado por Entidade Federada ou con-
teriormente, com uma proposta maL,psicanalitica. Todavia, não se pode gênere, dentro das exigências estatutárias e regimentais da
negar que, não obstante tais influências, os psicodramatistas brasileiros FEBRAP e do CNF, especialmente no relacionado a seus módulos
de formaçáo e a seus gabaritos curriculares; B) Professor de
têm desenvolvido novas formas de pensar a prática do psicodrama
Aluno - B.1 - Professor Colaborador - para matCrias afins,
terapêutico, inclusive fugindo aos padrões vigentes nas clássicas escolas simplesmente convidado. segundo critérios especiais e neces-
identificadas por Anne-Ancelin Schutzenberger (ver nota nº 29). sidades particulares, pela própria Entidade Federada; B.2-
Professor Regular - de técnica pstcodramática, sendo basi-
camente, psicodramatista formado e que esteja em exercício
4 - A NORMATIZAÇÃO DAS PRÁTICAS PSICODRAMÁTICAS: profi'sional espeçífko; C) T"t'apeuta de Aluno - jimmldo por
Entídade Federada à FEBRAp, ou reconhecida pela FEBRAJ~
AFEBRAP
possuindo experiência em terapia psicodramátíca, possuindo
grupos em disponibilidade para esta tarefa e, tendo feito Supervi-
Na mesma época em que Bustos começa seu trabalho de formação são posterior à sua conclusdo de curso - por um período mínimo
no Brasil, tem início, também, uma preocupação, por parte qe alguns de 160 hs C ..); D)Supervisor - será exigido o preenchimento
psicodramatistas paulistas: a de aglutinar as várias Sociedades de das condições gerais expressas para o Professor Regular e para o
Terapeuta de A/uno, e mais, em acréscimo, possua três anos de
psicodrama espalhadas pelo pais. Partindo da SOPSP, executa-se um
trabalho fJS'kodramático efetivo, após a obtençâo do título de Psico-
árduo trabalho de levantamento das diferentes Sociedades, incluindo dramatísta, e tenha apresentado, em Congresso de Psícodrama,
dados referentes ao número de pessoas formadas ou em formação, ao menos um trabalho científico correlato à matéria , _"31
tipos de currículos, tempo de funcionamento, etc.
Hoje, o psicodrarnatista faz uma formação de aproximadamente
quatro anos, seguindo o mesmo tripé analítico: curso, supervisões e
30 Alfredo Naffah Neto, de início, nos anos 70. fu:r: unu leitura do psicoc1rama a partir do materialismo
diaJético, atraves princip:l.lmente de três de suas obras: Pskodrama: Descolonizando o
terapia. O terapeuta de alunos, após sua formação; faz mais dois anos
Imaginário. São Paulo, BrasiJiense, 1979; Pskodramatizar. São Paulo, Agora, 1900 e Poder. de supervisão, deve ter experiência com grupos terapêuticos e apresentar
Vida e Morte na Situação de Tortura: Esboço de I [ma Fenomenologia do Terror. São urna monografta teórico-prática. O supervisor é hoje chamado usual-
Paulo, Huciteç 1983. Nos :mos HO,,' início 00.'190, por influência de Spinoza, Nid7sche. Dt'1euze e
(,uattari, ek vem desenvolvendo uma nova leitura do psicodranu, atmv~s daS seguintes obras; O 31 "Conselho Estabelece Normas para Funcionamento de Cursos~.ln: Revista Febnp. São Paulo,
Inco1L'iCiente. São Paulo, Atica, 198'i e Paixões e Questões de 11m Terapeuta. São Paulo, IvaIdGranatolMassao Ohno, Ano 1, nº 1, 1977, 2'5-26, p. 2'5.
A.Rma, ]989