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COPYRIGHT © Martha Abreu, Rachei Soihet e Rebeca Gontijo (orgs.

CAPA
Euelyn Grumach

PROJETO GRÁFICO
Eve/yn Grumach e João de Souza Leite

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SI DICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.
C974 Cultura política e leituras do passado: historiografia e ensino de
história / Manha Abreu, Rachei Soihet e Rebeca Gontijo (orgs.). - Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-200-0695-5

1. História - Estudo e ensino. 2 Ciência política - Estudo e ensino.


3. Política e cultura. 4. Cultura política. 5. Pesquisa histórica. I. Abreu,
Martha. 11. Soihet, Rachei, 1938- . III. Gontijo, Rebeca.

CDD - 907
06-4642 CDU - 930(072)

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Impresso no Brasil
2007
Colônia de povoamento e colônia
de exploração. Reflexões e
questionamentos sobre um mito
Mary Anne Junqueira*

essora de História da América Independente nos cursos de História e Relações Interna-


da Universidade de São Paulo (USP).
Os historiadores concordam que muitas vezes navegamos entre algumas
visões consolidadas e mitos da nossa história, dentro e fora da academia.
Tal constatação nos leva a considerar a necessidade de o conhecimento
estar permanentemente se refazendo, a fim de reavaliarmos o conheci-
mento sobre o nosso passado.
Escolhi aqui refletir sobre a explicação ainda presente e sempre repetida
entre nós, de que o Brasile os demais países da América Latina foram colônias
de exploração - o que explicaria o nosso "atraso e subdesenvolvimento" no
presente; enquanto os Estados Unidos surgiram como potência econômica e
apresentam solidez nas suas instituições políticas devido a sua origem como
colônia de povoamento. Tal formulação não estava - e não está - relacio-
nada ao entendimento do passado, o período colonial, ou sua vinculação com
o presente; mas procurava constituir um diagnóstico para as mazelas do país.
A partir da verificação da nossa condição - "economia estagnada, politica-
mente atrasados, subdesenvolvidos, dependentes" -, procurou-se o "mal"
nas nossas origens, mais precisamente no período colonial. Nós, latino-ame-
ricanos, não teríamos alcançado o "nível de excelência" dos países "desen-
volvidos ou centrais", fosse em termos econômicos, políticos, institucionais,
fosse nas dimensões próprias da cidadania. Não é preciso lembrar que os re-
médios propostos foram muitos e variados: revolução burguesa, revolução
proletária, industrialização, substituição de importações, localização diferen-
te do Brasil na divisão internacional do trabalho.
Note-se que apenas a circunstância de colonizados não se mostrava
suficiente para determinar o nosso "atraso, subdesenvolvimento e depen-
dência", devido ao fato de que no Novo Mundo despontou, no século
XX, a maior potência econômica e militar do planeta - os Estados Uni-

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CULTURA POL(TICA E LEITURAS DO PASSADO

dos da América. Assim, não era o fato de estarmos plantados no Novo


Mundo, termos passado por dois séculos (Estados Unidos) ou três (Amé-
rica Latina) de colonização européia que explicaria o nosso "incômodo
atraso", uma vez que a existência de uma potência econômica nas Améri-
cas jogava por terra a explicação de que a condição mesma de coloniza-
dos determinaria o nosso lugar no mundo como periferia.
A título de exemplo, vejamos a explicação apresentada por um pro-
fessor universitário, publicada no caderno Fovest do jornal Folha de S.
Paulo, dirigido ao público que presta vestibulares:

A conquista dos territórios do Novo Mundo pelas metrópoles européias deu


origem a formas específicas de colonização. Os tipos principais foram as
colônias de povoamento e as de exploração. As de povoamento surgiram,
basicamente, por causa das perseguições religiosas ocorridas na Inglaterra
durante o reinado de Carlos I (1625-1649). Grupos puritanos (calvinistas)
fugiram em direção ao norte da América para construir um lar e viver em
paz. Organizaram pequenas propriedades e trabalharam em grupos familia-
res. Sua produção era voltada para suas necessidades e, por isso, era
diversificada. Já as colônias de exploração tinham de satisfazer as necessi-
dades de acumulação de capitais de suas respectivas metrópoles, o que as
tornava alvo de uma ação essencialmente predatória. No caso do Brasil, essa
característica se manifestou desde os momentos iniciais da colonização[ ...]

Após buscar as causas do "nosso atraso", no passado colonial, o autor des-


taca as mazelas do presente:

Entretanto, ao fim de três séculos de colonização, restavam florestas do


litoral devastadas, terras exauridas, milhões de vidas consumidas como
carvão e cidades como que varridas por uma tempestade. A ação predató-
ria do conquistador deitou fundas raízes na nossa formação. Hoje, como
nação independente, até que ponto podemos afirmar que estam os livres
dessa prática e da mentalidade que lhe corresponde?'

Com relação à devastação ambiental, podemos afirmar que a proposição


do autor não procede. A conquista do Oeste nos Estados Unidos - pro-

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o ANTIGO REGIME E A COLONIZAÇÃO EM QUESTÃO

cesso que se estendeu do período colonial até metade do século XIX, e no


qual o território da região se multiplicou 11 vezes - foi eminentemente
predatória. A devastação corria acelerada na segunda metade do século
XIX, e grupos religiosos - como os transcendentalistas, que viam a na-
tureza como expressão do divino - se preocupavam bastante, pois a na-
tureza do país desaparecia rapidamente. A partir das críticas e apreensões
desse grupo e também de outros ambientalistas criou-se nos Estados Uni-
dos o primeiro parque nacional, em 1872, com o nome de Yellowsrone,"
onde a natureza primitiva deveria permanecer preservada.'
Voltando ao excerto, é claro no texto o pessimismo do autor em rela-
ção ao nosso presente e, conseqüentemente, ao nosso futuro, pois a explo-
ração desmedida devastará o continente. Como escapar de tão determinado
destino?
Os termos "colônia de exploração" e "colônia de povoamento" são
ainda amplamente utilizados nos livros didáticos de história do Brasil e
de história da América e repetidos nas apostilas de cursinhos preparatórios
para os vestibulares, fazendo com que a explicação seja constantemente
reforçada, sobretudo entre os adolescentes. No entanto, destacamos que
nem sempre os manuais tratam da divisão entre Estados Unidos e Améri-
ca Latina como uma linha divisória fixa, como fez o autor que escreveu
para a Folha de S. Paulo. Algumas vezes, a explicação vem marcada por
um determinismo climático. Vejamos, por exemplo, o que diz o manual
de história da América sobre a colonização no Novo Mundo.

As variações climáticas principalmente vão dar origem a dois tipos de co-


lônia na costa americana. No Norte e no Centro as colônias de povoa-
mento e, no Sul, as colônias de exploração. As colônias de povoamento
formaram-se com base na pequena e média propriedade agrícola e numa
produção voltada apenas para o mercado interno [...] Nas colônias do Sul,
•• colocou-se em prática a economia de plantation isto é, da grande pro-
priedade agrícola quase auto-suficiente, baseada no escravismo, na mono-
cultura e na produção voltada para o mercado externo [... ] Era uma
economia rotineira predatória e com tecnologia simples que esgotava a
fertilidade da terra. Por isso são chamadas de colônia de exploração."

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CULTURA POLiTICA E LEITURAS DO PASSADO

As questões climáticas são consideradas determinantes para o desenvolvi-


mento dos dois tipos de colonização: a de povoamento, em climas tempe-
rados, e a de exploração, nas regiões tropicais. O determinismo climático
atravessa a interpretação de forma rígida, tanto quanto a dupla tipologia
da colonização.
O autor trata dos Estados Unidos, afirmando que as colônias do Nor-
deste eram diferentes das do Sul, onde predominava a escravidão. Essa
perspectiva climática coloca o Sul dos Estados Unidos como colônia de
exploração. Veremos adiante que, certamente, o autor do manual se in -
pirou no famoso livro de Caio Prado Júnior, Formação do Brasil contem-
porâneo. Aliás, a influência de Prado Júnior nos livros didáticos parece-n
considerável, uma vez que, geralmente, os manuais tratam do te
explicitando o sentido da colonização, expressão amplamente utilizada pe
historiador e título do segundo capítulo do seu famoso livro. O man
não é diferente:

Nas zonas temperadas da América do Norte e em algumas áreas da Amé-


rica do Sul, predominou a colonização de povoamento, caracterizada
uma organização econômico-social que conservava muita semelhan
com suas origens européias. A colonização de exploração foi caracte .
tica das zonas tropicais da América, nas quais predominou a grande a
cultura tropical escravista e monocultura produtora de açúcar, taba
algodão. Nesse modelo de colonização predominou também a socie -
de rural, na qual o trabalho escravo foi sempre abundante, seja pela
lização de nativos, seja pela importação dos negros africanos [grifo
autor].'

Os livros didáticos, nós sabemos, são um poderoso instrumento de


vulgação de variadas concepções sobre a história. Embora essas ob"
de referência sejam centrais para a veiculação dessas idéias, acre -
que a análise particular dos manuais escolares não é suficiente para
tendermos a força com que determinadas visões consolidadas se a ~
sentam, pois os exemplos se repetem, e não apenas nos livros didáti
Pode-se encontrar o binômio colônia de exploração e colônia de

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o ANTIGO REGIME E A COLONIZAÇÃO EM QUESTÃO

voamento sendo divulgado ainda na academia, apesar das críticas já


realizadas aos modelos generalizantes, e também é possível notar o uso
dessa dicotomia entre um público que estou chamando aqui de "cul-
to", como jornalistas, economistas, advogados, muitos deles formado-
res de opinião.

SOBRE AS ORIGENS DO TERMO

Não é fácil rastrear as origens da dicotomia colônia de povoamento e colô-


nia de exploração no Brasil, mas é possível identificar os usos do termo em
clássicos da historiografia brasileira. Um dos precursores é exatamente o já
citado Formação do Brasil contemporâneo, de Caio Prado Júnior, publica-
do em 1942. Não é meu objetivo analisar o autor ou entender o contexto
no qual escreve. Sabemos que os "intérpretes do Brasil" - especialmente
Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Hollanda e Gilberto Freyre - de-
senvolveram as suas análises a partir do país que surgiu após a revolução de
1930, ligados ao "sopro de radicalismo intelectual e análise social" que não
havia sido, apesar de tudo, "abafado pelo Estado Novo", como já disse
Antonio Candido." O que pretendo aqui é procurar entender o porquê da
longa utilização e permanência dessa explicação.
Como já identificamos, a proposição de Prado é atravessada por uma
espécie de determinismo climático. Para ele, não era apenas a distinção
entre a colonização ibérica e a colonização anglo-saxã que nutriu as socie-
dades de perspectivas e ritmos diferentes; segundo o autor, a chave para o
entendimento das diferenças dos processos econômicos estava no tipo de
colonização que se desenvolveu nas zonas tropicais e nas temperadas das
Américas. Dessa forma, Prado incluía a região de plantation do Sul dos
Estados Unidos entre as colônias de terras tropicais, aproximando-as das
de colonização ibérica. Para o autor, além de haver apenas dois tipos de
colonização no Novo Mundo, marcadas por dois aspectos econômicos
distintos, também a Europa era pensada de forma homogênea e única. As
análises baseadas nas estruturas econômicas fizeram com que as diversi-
dades e conflitos próprios da conquista e colonização das Américas fos-

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CULTURA POLITICA E LEITURAS DO PASSADO

sem obscurecidos. O Novo Mundo foi alvo de disputa entre Espanha,


Portugal, Inglaterra, França e Holanda, culturas que certamente trouxe-
ram para cá formas diferenciadas de ver o mundo e considerar de manei-
ras distintas o estabelecimento de autoridades e poderes."
No entanto, embora apresentasse a zona tropical sulista das colôni
britânicas como colônia de exploração, o autor via a modernização acele-
rada, característica central dos Estados Unidos, tomar conta até mesmo
dessa região escravocrata após a Independência do país, em 1776.

[...] apesar da descoberta de Whitney, a saw-gin que é de 1792 e logo


difundiu largamente por toda a região algodoeira dos Estados Unidos,
Brasil continuava a empregar o velho princípio do descaroçador de o -
gem imemorial, a chukra do Oriente ... 8

Embora o Sul escravocrata dos Estados Unidos fosse considerado colô


de exploração, a modernização caminhava acelerada por aquela regiã
anglo-saxônica, ao contrário do que aconecia no Brasil. Além disso, ne
perspectiva, a Guerra Civil de 1861-5 é considerada um marco na des-
truição do modelo de plantation, permitindo que a modernização, legad
das colônias do Nordeste do país, se difundisse por todos os Estados Uni-
dos. O Brasil e os outros países da América Latina, por sua vez, não havi
ainda destruído seu legado colonial- a colônia de exploração -, com
fizeram os norte-americanos.
Se Caio Prado Júnior foi um dos precursores na utilização dos term
aqui estudados, penso que se deve aos desenuoluimentistas e aos de-
pendentistas" a sua ampla utilização, e também o reforço do tema, devid
aos termos binários amplamente utilizados por esses analistas, tais como·
"centro e periferia", "desenvolvimento e subdesenvolvimento", "arcai
e moderno". Entre eles, merece destaque Celso Furtado e o seu não me-
nos influente Formação econômica do Brasil, de 1959. Embora Furtad
não se detenha no viés climático como Prado, também para ele havia dis-
tinções radicais entre as colonizações no Novo Mundo. Ressaltava a
racterística de as colônias de Espanha e Portugal - apesar de na ép
mais integradas ao mercado europeu - se tornarem "subdesen o

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o ANTIGO REGIME E A COLONIZAÇÃO EM QUESTÃO

das e periféricas". Para ele, as "colônias de povoamento" privilegiaram


o mercado interno em detrimento do externo, permitindo o surgimento
de pequenos proprietários e outros grupos menos dependentes da
metrópole."
Celso Furtado continua nos dias de hoje influenciando economistas e
políticos. Veja por exemplo o que escreveu, também no jornal Folha de S.
Paulo, um economista sobre a XXVII Reunião do Conselho de Mercado
Comum e Cúpula do Mercosul, que se realizou entre 15 e 17 de dezem-
bro de 2004, nas cidades de Belo Horizonte e Ouro Preto:

Os esforços de integração no século XXI entre os países em desenvolvi-


mento enfrentam a herança (esta sim maldita) das antigas colônias de ex-
ploração em contraste com as colônias de povoamento, nos termos que
Celso Furtado usou na Formação econômica do Brasil. Trata-se de econo-
mias historicamente heterogêneas e desarticuladas entre si. Integrá-Ias é
uma tarefa ainda mais difícil do que foi o mais de meio século de forma-
ção da União Européia a partir dos escombros da Segunda Guerra.!'

O analista vê com reservas a possibilidade de integração dos países do


Mercosul, e seu pessimismo está centrado na nossa "maldita herança"
colonial. Note-se que tal pressuposto faz com que o autor não tenha muitas
esperanças com relação à integração, pois parte de uma idéia preconcebi-
da - o nosso "legado colonial".
Mas se Prado e Furtado, marcos fundadores de uma historiografia do
Brasil no século XX, podem ser considerados os precursores de tal pers-
pectiva, sua origem está no século XIX, mais precisamente nos trabalhos
do economista liberal francês Paul Leroy-Beaulieu (1834-1916), que in-
fluenciou consideravelmente franceses e estrangeiros. O autor escreveu
no período em que se discutia a construção e legitimação dos impérios
europeus e destacou-se com o seu De Ia colonisation cbez les peuples
modernes, de 1882, no qual procurava entender as colonizações moder-
nas e os seus legados. Caio Prado remeteu-se ao especialista francês no
corpo do seu texto:

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CULTURA POLITICA E LEITURAS DO PASSADO

[... ] Como se vê, as colônias tropicais tomaram um rumo inteiramente


diverso do de suas irmãs da zona temperada. Enquanto nestas se consti-
tuirão colônias propriamente de povoamento (o nome ficou consagrado
depois do trabalho clássico de Leroy-Beaulieu, De Ia colonisation cbez les
peuples modernesi."

o objetivo de Caio Prado e Celso Furtado era entender o presente. No


entanto, os dois autores partiram do passado, do período colonial. Ade-
mais, partiram da comparação para em seguida analisar mais detalhada-
mente o Brasil. A questão da comparação em história vem sendo já bastante
analisada, e merece destaque aqui o fato de que esse método, em Prado e
Furtado, estabelece uma hierarquia na qual os Estados Unidos são vistos
como centro e dominantes e o Brasil, e os outros países da Améri-ca Lati-
na, como periferia e dominados.'!
Embora nossos dois autores, em seus trabalhos, tratem da questão
colônia de povoamento e colônia de exploração de forma mais elaborada
e matizada que o "senso comum", eles pensaram a colonização do Novo
Mundo dividida em duas partes completamente distintas e radicalmente
separadas. Conforme essa perspectiva, enquanto as colônias inglesas da
América, sobretudo as do Nordeste, haviam estabelecido um vínculo com
a terra, desenvolvendo o mercado interno, na América Latina, espanhói
e portugueses, ávidos por metais preciosos e outras possibilidades da re-
gião, voltaram-se exclusivamente para a Europa.

SOBRE OS MODELOS GENERALlZANTES

Sabe-se que tal explicação de base estrutural e econômica, além


generalizante e reducionista, não resiste à menor investigação por parte
dos estudiosos que se debruçam sobre os documentos da época, nem a
olhos do turista mais atento.
Em primeiro lugar, vimos que, diferentemente das questões geográfi-
cas colocadas por Caio Prado, o autor do excerto que utilizei da Folha
s. Paulo afirma que Estados Unidos - o país como um todo - for -

18 o
o ANTIGO REGIME E A COLONIZAÇÃO EM QUESTÃO

uma colônia de povoamento. Essa é uma versão da história norte-ameri-


cana que circulou por aqui: a de que os Estados Unidos foram formados
a partir da colonização dos peregrinos puritanos, os famosos pais peregri-
nos, deixando de lado as colônias sulistas que foram o modelo de coloni-
zação inglesa do período. Sabe-se hoje que as pequenas colônias formadas
ao Nordeste do país por seit~adicais eram exceção e não a norma da
coloniza ão inglesa. H Essa idéia encontra-se introjetada na cultura daquele
país e se transformou, ao longo do tempo, numa verdadeira mitologia da
nação."
Devemos nos perguntar por qual motivo uma enorme extensão de terra
do Novo Mundo - do Brasil, passando por inúmeras ilhas do Caribe
(várias delas de colonização inglesa) e chegando à colônia de Maryland,
onde hoje está localizada a capital do país, Washington, DC - foi coloni-
zada a partir do sistema de plantation. Pode-se sugerir que assim foi por-
que esse era o projeto mais viável e lucrativo para a colonização européia
nas Américas. Os ingleses instalaram no Caribe e ao Sul da América do
Norte o sistema que vinha sendo bem-sucedido entre espanhóis e portu-
gueses nos séculos XVI e XVII.
As evidências são notórias também na cultura material que herda-
mos. Basta dar uma volta pela cidade de Cuzco, no Peru, caminhar pela
praça das Armas e observar a catedral de três naves construída sobre o
antigo Wajayapata, ponto de reuniões e decisões político-religiosas e
militares incas. Impressiona também a Igreja de Santo Domingo, fincada
sobre o Qoricancha, o templo do Sol incaico. Sabemos que no México
não foi diferente: os espanhóis instalaram-se sobre as cidades político-
administrativas e sobre os templos religiosos astecas. Tais aspectos mos-
tram claramente a intenção de domínio e a violência utilizada para
subjugar os nativos. No entanto, também revelam que os espanhóis vie-
ram para ficar, estabelecer-se, apropriar-se do território que haviam
"descoberto" .16
É fato que os modelos generalizantes e simplistas foram já amplamen-
te criticados, todavia a questão que nos move a enfocar esse tema é me-
nos "desconstruir o mito", mas, como já disse, procurar entender por qual
motivo ele permanece entre nós e é tão recorrentemente repetido.

18 1
CULTURA POLITICA E LEITURAS DO PASSADO

Penso que a dicotomia colônia de povoamento e colônia de explora-


ção é muito consolidada como explicação para a nossa condição, uma vez
que, de uma maneira ou de outra, está fortemente plantada no imaginário
social brasileiro. Segundo Bronislaw Baczko,

o imaginário social informa acerca da realidade, ao mesmo tempo que


constitui um apelo à ação, um apelo a comportar-se de determinada ma-
neira. Esquema de interpretações, mas também de valorização, o disposi-
tivo imaginário suscita a adesão a um sistema de valores e intervém
eficazmente nos processos da sua interiorização pelos indivíduos, mode-
lando os comportamentos, capturando as energias e, em caso de necessi-
dade, arrastando os indivíduos para uma ação comum."

Partindo das proposições desse autor, é possível sugerir que o nosso olhar
sempre voltado para fora das nossas fronteiras, em direção aos países di-
tos desenvolvidos, faz parte do nosso imaginário, o qual carrega um siste-
ma de valores a partir do qual olhamos com admiração os países chamados
centrais, nos caracterizando, por contraste, de forma deficiente, carente e
incompleta com relação a um modelo difícil de alcançar.

o BRASIL E OS ESTADOS UNIDOS COMO REFERÊNCIA EXTERNA

Penso que as reflexões publicadas recentemente por autores que preten-


dem discutir a centralidade da Europa, tanto em termos econômicos como
na elaboração da sua autoridade quanto à construção do conhecimento,
nos oferece subsídios para refletir sobre o tema e, mais precisamente, so-
bre o lugar em que nos colocamos com relação aos Estados Unidos.
Parto da idéia de que as proposições mais claramente apresentadas por
Caio Prado e Celso Furtado vieram "revestir de cientificidade" uma for-
ma que já tínhamos de pensar o Brasil com relação aos países mais ricos.
Em outras palavras, são proposições que caíram sobre um imaginário no
qual sobressaem as imagens positivas dos países considerados desenvolvi-
dos, ao mesmo tempo que a nossa própria imagem é subestimada. Se no

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o ANTIGO REGIME E A COLONIZAÇÃO EM QUESTÃO

século XIX e início do XX os brasileiros tinham a Europa, especialmente


a França, como referência e modelo cultural," já na segunda metade do
século XX o nosso olhar voltou-se para os Estados Unidos e o que aquele
país representa em termos das dimensões da modernidade. Além disso,
são evidentes o interesse e a admiração de determinados setores brasilei-
ros pelos Estados Unidos. Não preciso lembrar o quanto a cultura norte-
americana encontrou ressonância entre os brasileiros; basta uma volta nos
shoppings para identificarmos que a quase totalidade das lojas não mais
utiliza a palavra liquidação, mas estampa em suas vitrines termos como
"off" ou "sale", ou ainda como determinados setores da classe média se
esforçam para comprar um automóvel off-road. .
Para intelectuais como Edward Said e Mary Louise Pratt, o discurso
colonizador foi bastante competente, pois penetrou nas "sociedades do-
minadas", emoldurando posições intelectuais, políticas e econômicas,
atravessando as várias dimensões da cultura e atingindo até mesmo as con-
cepções estéticas. Tal qual a economia, o conhecimento foi organizado em
centros de poder, sendo que esse mesmo centro impôs sua autoridade, por
meio dos mais variados tipos de discurso, colocando-se como o produtor
exclusivo do saber. Dessa forma, o discurso colonizador é visto por esses
autores como um instrumento eficiente do processo de colonização, uma
vez que se encontra incorporado/introjetado pelas sociedades que passa-
ram pelos processos de domínio e ainda têm na Europa ou nos Estados
Unidos a sua referência do que é ser moderno." Pratt mostra que as dis-
tinções binárias e as separações radicais devem ser revistas, uma vez que
os encontros entre metropolitanos e locais se caracterizam por interações
de ordens diversas, embora a metrópole marcasse sua centralidade com
relação ao "resto do mundo". Para a autora, o processo não deve ser en-
tendido como binário, mas sim compreendido através das trocas, apro-
priações e transculturações que se estabeleceram nas zonas colonizadas.
Para o antropólogo Stuart Hall, interessa entender o lugar que o dis-
curso colonizador propõe para os vários países considerados atrasados e
a relação que essas sociedades desenvolveram com o chamado centro.
Note-se que em vários casos, quando o discurso da metrópole se refere
ao Ocidente, muitas vezes o faz reduzindo este à Inglaterra, à França e

1 83
CULTURA POLITICA E LEITURAS DO PASSADO

aos Estados Unidos. Para Hall, não é possível estabelecer separações, pois
a colonização está presente de forma indelével tanto na metrópole quan-
to nos países que foram colonizados, sendo assim histórias que se forma-
ram como transnacionais e transversais."
Com relação à escrita da história, vale lembrar o que propõe Dispesh
Chakrabarty. Para ele é necessário pensarmos sobre a "descolonização do
conhecimento", uma vez que partes do mundo com perspectivas históri-
cas diferentes, temporalidades diversas e concepções próprias do mundo
não devem ser medidas pelo metro europeu, nem ser analisadas a partir
do instrumental e das categorias europeus. Para o autor, o adjetivo mo-
derno - visto como universal e originariamente europeu, já que preten-
de reunir as noções de racionalismo, as várias concepções da ciência e os
significados de progresso - não pode ser entendido como exclusividade
européia, uma vez que foi construído com a participação do mundo con-
siderado não-ocidental. Segundo Chakrabarty, é necessário rever as nar-
rativas das histórias européias e o seu viés nacionalista, uma vez que as
histórias foram construídas de forma transnacional - e estão profunda-
mente entrelaçadas -, embora tenham sido narradas como separadas e
distintas."
A partir da reflexão desses autores é possível sugerir que a formulação
colônia de povoamento e colônia de exploração encontrou a ressonância
que conhecemos devido ao fato de já nos colocarmos em determinada
posição com relação ao centro desenvolvido, sendo que em muitos mo-
mentos essa relação se configurou - e se configura - como de subordina-
ção ou subalternidade, para utilizar um termo mais veiculado recentemente.
Tal dicotomia encontrou um campo fértil, pois caiu sobre uma sociedade
que em muitos momentos olhou para a Europa - e agora para os Esta-
dos Unidos - com admiração e como meta ou modelo a ser alcançado.
Ademais, a dicoto mia colônia de povoamento e colônia de explora-
ção sugere que reavaliemos a escrita da nossa história nacional, que ainda
hoje, muitas vezes dentro da própria academia, vem repetindo o "lugar
de destaque" do Brasil com relação aos outros países da América Latina"
e, por outro lado, indicando a nossa "posição subordinada" com relação
aos Estados Unidos.

1 84
o ANTIGO REGIME E A COLONIZAÇÃO EM QUESTÃO

Notas

1. Cf. Roberson Oliveira, "Economia colonial e ação predatória", Folha de S. Paulo,


18/7/2002.
2. Ver Roderick Nash, Wilderness and american mind, New Haven/Londres, Yale
University Press, 1967.
3. Ver Mary A. Junqueira, "A conquista do Oeste: do Atlântico ao Pacífico", em Esta-
dos Unidos. A consolidação da nação, São Paulo, Contexto, 2001, p. 39-63.
4. Florival Cáceres, História da América, São Paulo, Moderna, 1993, p. 77.
5. Francisco Teixeira, História da América, São Paulo, Ática, 1991, p. 11.
6. Cf. Antonio Candido, "O significado de Raizes do Brasil", em Sérgio Buarque de
Hollanda, Raizes do Brasil, Rio de Janeiro, José Olympio, 1983, p. XI.
7. Ver, por exemplo, o trabalho de Patrícia Seed, Cerimônias de posse na conquista
européia do Novo Mundo (1492-1640), São Paulo, Ed. Unesp, 1997.
8. Conferir Caio Prado Júnior, Formação do Brasil contemporâneo, 21 a ed., São Paulo,
Brasiliense, 1989, p. 138.
9. Chamo de dependentistas o grupo que se reuniu em torno da Cepal (Comissão Eco-
nômica para a América Latina e o Caribe), fundada em 1948, uma das comissões
regionais da ONU que tinha como objetivo pensar e propor políticas para o desen-
volvimento da América Latina, considerada como "região periférica" em relação ao
"centro desenvolvido". Ver Ricardo Bielschowsky, "Cinqüenta anos de pensamento
na Cepal - Uma resenha", em Cinqüenta anos de pensamento na CepaI, Rio de
Janeiro, Record, 2000, p. 14-68.
10. Ver Bernardo Ricúpero, "Celso Furtado e o pensamento social brasileiro", Estudos
Avançados, São Paulo, IENUSP, v. 19, n. 53, 2005.
11. Cf. Gesner Oliveira, "Cuzco, Ouro Preto e o mal da altura", Folha de S. Paulo, 11/
12/2004.
12. Cf. Prado Júnior, op. cit., p. 30.
13. Ver Maria Ligia Prado, "Repensando a história comparada da América Latina", Re-
..!'ista de História, n. 152, 1° semestre de 2005, p. 11-33.
14. Ver Jack P. Greene, Pursuits of happiness. The social deuelopment of early modern
British colonies and the [ormation of American culture, Chapel Hill, The University
of North Carolina Press, 1988.
15. Sobre os puritanos e a ampla utilização de uma retórica religiosa na cultura norte-
americana, ver Cecília Azevedo, ''A santificação pelas obras: experiências do protes-
tantismo nos EUA", Tempo, Rio de Janeiro, Departamento de História, UFF, n. 11,
2001, p. 111-29.
16. Ver Leandro Karnal, Estados Unidos. Da colônia à independência, São Paulo, Con-
texto, 1998.

1 85
CULTURA POLITICA E LEITURAS DO PASSADO

17. Ver Bronislaw Baczko, "Imaginação social", em Enciclopédia Einaudi, Lisboa, Im-
prensa Nacional Casa da Moeda, 1985, p. 311-2.
18. Ver Denis Rolland, A crise do modelo francês. A França e a América Latina. Cultura,
política e identidade, Brasília, UnB, 2005.
19. Cf. Edward Said, Orientalismo. O Oriente como invenção do Ocidente, São Paulo,
Companhia das Letras, 1994; idem, Imperialismo e cultura, São Paulo, Companhia
das Letras, 1990; e Mary Louise Pratt, Imperial eyes. Travei writing and transcultu-
ration, Londres/Nova York, Routledge, 1995.
20. Cf. Stuart Hall, "Quando foi o pós-colonial? Pensando no limite", em Da diâspora.
Identidades e mediações culturais, Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2003, p. 101-28.
21. Dispesh Chakrabarty, Prouincializing Europe: Postcolonial thought and historical
difference, Princeton, Princeton University Press, 2000.
22. Sobre a visão construída no Brasil com relação aos outros países da América Latina,
ver Rafael Baitz, Um continente em foco: a imagem fotográfica da América Latina
nas revistas semanais brasileiras (1954-1964), São Paulo, Humanitas/FFLCH-USp'
2003. Kátia Gerab Baggio, A "outra" América. A América Latina na visão de intelec-
tuais brasileiros nas primeiras décadas republicanas, tese de doutorado, FFLCHIUSP,
São Paulo, 1999, mimeo.

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