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O DESENHO COMO ESTRATÉGIA PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO

INFANTIL

SANTOS, Adriana Souza1 - UFAM

SILVA, Maria Rita Santos da2 - UFAM

Grupo de Trabalho - Didática: Teorias, Metodologias e Práticas


Agência Financiadora: não contou com financiamento

Resumo

O presente Artigo é fruto de uma pesquisa bibliográfica realizada no período de 2011 a 2012
através do Programa de Iniciação Cientifica – PIBIC, da Universidade Federal do Amazonas,
com o tema “A criança e o desenho: atuação docente na educação infantil”, vinculada ao
Grupo de Estudos Teoria Histórico-Cultural, Infância e Pedagogia com predomínio na área de
Ciências Humanas/Educação. A escolha do tema surgiu da necessidade de ampliar
conhecimento sobre o universo infantil e de como a prática docente influencia no
desenvolvimento da criança a partir da inserção do desenho como estratégia pedagógica.
Assim, o estudo bibliográfico tratou sobre as concepções de criança, de desenho e sobre a
relevância da atuação docente na Educação Infantil ao propiciar espaço de criação,
significação e ressignificação do conhecimento infantil, respeitando as representações da
produção da criança, concebendo-a como sujeito histórico-cultural, tendo em vista que, no
processo de construção do conhecimento, as crianças se utilizam das diferentes linguagens
com ideias e hipóteses que as identificam como únicas em suas individualidades e diferenças.
O resultado da pesquisa aponta a necessidade de o docente estudar sobre os vários aspectos
que destacam sobre a importância da utilização do desenho como atividade pedagógica,
ajudando-o a desvendar o potencial intelectual, emocional, social e perceptivo da criança,
contribuindo para o atendimento das suas necessidades ou melhoria quanto às dificuldades
apresentadas no processo educativo. Nesse sentido, é relevante destacar que a prática docente
tem papel fundamental para ajudar a diminuir as dificuldades de aprendizagem da criança,
projetando a inserção do desenho como produção que intencione favorecer o desenvolvimento
das áreas vitais e culturais, podendo ser um instrumento de investigação e exploração dos
vários aspectos que se fazem presentes no cotidiano da criança.

1
Graduanda do Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Amazonas. Pesquisadora vinculada ao Grupo de
Estudos Teoria Histórico-Cultural, Infância e Pedagogia. E-mail: adrianasouza.ss@gmail.com.
2
Mestre em Educação: pela Universidade Federal do Amazonas - Brasil. Professora Assistente do curso de
Pedagogia, da Faculdade de Educação (UFAM). Pesquisadora, vinculada ao Grupo de Estudos Teoria Histórico-
Cultural, Infância e Pedagogia. Coordenadora do Curso de Pós-Graduação Lato Sensu/EaD em “Coordenação
Pedagógica” com estudos voltados para a atuação docente na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino
Fundamental. E-mail: mariarita.dmt@gmail.com.
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Palavras-chave: A criança e o desenho. Atuação docente. Educação infantil.

Introdução

Este Artigo é fruto da pesquisa realizada por meio do Programa Institucional de


Iniciação Científica – PIBIC, no período de 2011 a 2012, com estudos sobre o tema “A
criança e o desenho: atuação docente na educação infantil”. A escolha do tema surgiu da
necessidade de ampliar conhecimento sobre o universo infantil e de como a prática docente
influencia no desenvolvimento da criança a partir da inserção do desenho como estratégia
pedagógica. Para responder aos objetivos propostos, três questionamentos deram suporte aos
estudos, quais sejam: Qual a importância do desenho no processo de aprendizagem e de
desenvolvimento da criança? Que práticas pedagógicas devem ser aplicadas a partir da
inserção do desenho? O que a literatura aborda sobre a atuação docente e sua intervenção
didático-pedagógica, tendo o desenho como elemento estratégico para o desenvolvimento da
criança na Educação Infantil?
A pesquisa realizada foi de cunho bibliográfico, de caráter qualitativo com base na
consulta a livros, artigos e material disponível, online, na busca de conhecer e analisar as
contribuições literárias existentes sobre o tema supracitado. Esse tipo de pesquisa é muito
utilizada no meio acadêmico, na área das Ciências Humanas com objetivo de fundamentar o
desenvolvimento de um trabalho científico, pois, “utiliza-se de dados ou de categorias já
trabalhados por outros pesquisadores”. (SEVERINO, 2007, p. 122).
Diante do exposto, apresentamos a pesquisa sobre a criança, o desenho e a atuação
docente no processo educativo. Esse conhecimento traduz-se em expectativas quanto à
produção infantil, haja vista o diálogo que o docente pode estabelecer com a criança sobre
seus desenhos, interação que pode ser marcada pelo incentivo, pela advertência ou pela
indiferença.
A ênfase do estudo tratou sobre a compreensão do desenho infantil que precisa ser
mais conhecido, compreendido e valorizado por parte dos docentes e pais, que muitas vezes
vêem esta produção como um mero passatempo ou como uma atividade mecânica, de puro
entretenimento. Vários são os autores que discorrem sobre o desenho infantil, bem como
desenvolvem estudos em relação ao grafismo infantil, destacando que o desenho é a primeira
manifestação da criança no processo da escrita. A evolução do grafismo infantil passou a ser
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estudado e analisado há pouco tempo, mas aos poucos está sendo inserido na escola e,
lentamente se inclui de maneira interdisciplinar nas práticas pedagógicas.
Assim, apresentamos este artigo estruturado em três tópicos conforme segue. No
primeiro, apresentamos uma revisão literária sobre os conceitos de criança, infância e desenho
infantil. O segundo aborda sobre a criança, as representações e o significado do desenho. Por
sua vez, o terceiro, trata sobre a atuação do professor de Educação Infantil ao inserir o
desenho como estratégia pedagógica, prática que poderá ajudar a criança no desenvolvimento
da linguagem oral, escrita e visual.
Nas considerações finais apresentamos aspectos sobre a importância da inserção do
desenho na sala de aula como estratégia pedagógica e algumas questões que necessitam de
maior aprofundamento teórico.

Criança, infância e desenho infantil

A criança, quando desenha, expressa seu modo de ser, sentir, ver e se exercitar no
mundo e com o mundo, atribuindo-lhe significados, fazendo representações com sua
experiência pessoal, além de refletir sentimentos e capacidade intelectual e, ainda, ser possível
constatar sua própria evolução social na infância, como indivíduo, ser sócio-histórico. O
desenho também se constitui em linguagem e, portanto, uma das mais antigas formas de
expressão e de comunicação humana, produto da relação do ser humano com o mundo. Para
melhor compreender sobre o assunto, questionamos: Qual a importância do desenho no
processo de aprendizagem e de desenvolvimento da criança?
Como ressalta Machado (2007), o desenho representa para a criança sua visão de
mundo e a consciência de si mesma. Para que isso aconteça o docente precisa ter um olhar
aguçado sobre o desenho feito pela criança e analisar sobre a estrutura mental e o nível de
desenvolvimento cognitivo, emocional, social e perceptivo, podendo ser um diferencial no
contexto educacional infantil.
Nesse sentido, a atuação docente adquire grande relevância ao propiciar espaço de
criação, significação e ressignificação do conhecimento infantil, tendo como suporte as
representações e os significados do desenho da criança. Entretanto, o desenho não deve ser
concebido como um simples instrumento mecânico, projetando a ação de desenhar ou um
momento de entretenimento, mas como uma produção que favorece o desenvolvimento das
áreas vitais e culturais, podendo ser um instrumento de investigação, exploração dos vários
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aspectos que se fazem presentes no cotidiano da criança. Daí a importância de iniciar este
estudo buscando conhecer as concepções de criança e infância, bem como o desenho como
estratégia pedagógica no processo de aprendizagem e de desenvolvimento da criança.
Diversos campos teóricos buscam compreender a categoria infância e a definição do
ser criança e seu desenvolvimento com estudos e pesquisa tradicional, predominantemente,
pelo campo da Medicina, da Psicologia Desenvolvimentista e, mais recentemente, introduz-se
a Sociologia e a Antropologia em uma abordagem teórica mais contemporânea. As
concepções contemporâneas de infância e de criança, contrárias as concepções tradicionais
vem se caracterizando por meio de um movimento científico-acadêmico, a construção de uma
perspectiva composta por contribuições advindas da Sociologia da Infância, Pedagogia da
Infância, Psicologia, Antropologia da Criança e Filosofia, dando corpus a um paradigma
específico no interesse de conhecer as múltiplas facetas das diversas infâncias, referenciando
as crianças como seres concretos e contextualizados.
Vigotsky (1996), crítico da cultura e do desenvolvimento naturalista, insere a criança
no contexto histórico-cultural nos instigando a estudar as peculiaridades e diferenças entre
adultos e crianças. Sua abordagem histórico-cultural desconstrói a ideia abstrata, homogênea e
neutra de infância, situando a criança como sujeito ativo na cultura e nos processos de
socialização por meio das interações sociais, considera que a criança, ao mesmo tempo em
que recebe e se forma, cria e transforma. Nessa abordagem, o autor enfatiza, sobretudo, que:

[...] as qualidades humanas são um complexo que se desenvolvem de maneira


histórica, social e culturalmente. Portanto, a situação social do desenvolvimento é o
sistema de relações da criança de uma dada idade com a realidade social. Sendo que
o essencial para o ser humano não é o simples fato de perceber o mundo, mas de
compreendê-lo (VIGOTSKY, 1996, p.365).

Nesse sentido, para a criança compreender o mundo social e cultural, faz-se necessário
que os adultos considerem as relações sociais como uma dimensão fundamental de conexão
entre ela e as significações que a mesma elabora em uma interação ativa com a cultura. Diante
desse panorama, na Educação Infantil, origina-se um novo perfil de educador, que precisa se
apropriar dos pressupostos pedagógicos necessários para o desenvolvimento de uma prática
docente de qualidade. Isto diz respeito à construção de uma prática docente que tenha em
vista o desenvolvimento integral da criança.
As leituras realizadas apontam diferentes significados e concepções sobre criança e
infância, correlacionadas, também aos aspectos econômicos, culturais, políticos e ao contexto
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social em que ela se encontra. Em meio a tantas inquietações sobre o tempo de ser criança,
surge como primeiro desafio nesta pesquisa analisar o conceito de infância e para
compreendê-lo, precisamos refletir sobre o que é ser criança e de que maneira a visão da
infância foi construída ao longo da história.
O estudo da infância difundiu-se nos diversos campos de investigação devido às
contribuições teóricas que começaram a surgir no intuito de ampliar as discussões e reflexões
sobre o papel social e histórico da criança. Com base em suas pesquisas, Ariès (1978) chegou
à seguinte conclusão sobre o que caracterizavam o ser criança e a infância:

O primeiro sentimento da infância começa a existir no seio da família, e era


reservado à criancinha em seus primeiros anos de vida, enquanto ela era uma
coisinha engraçadinha, assim chamado de “paparicação”. O sentimento denuncia o
tratamento superficial dedicado à criança, enquanto ainda era pequenina e
engraçadinha, ela poderia ser comparada certamente ao animal de estimação.
(ARIÈS, 1978, p.22).

Historicamente, a infância pode ser considerada um objeto de estudo a ser analisada,


pois não existia essa figura social e cultural. Assim, a dificuldade de analisar a infância ocorre
não pela falta de documentos históricos no que diz respeito às crianças, mas sim pelo fato de
serem ignoradas em seu contexto social. Observamos que a história da infância é
compreendida pela concepção dos adultos já que a voz e o testemunho da criança encontram-
se ausentes na elaboração da própria trajetória social e construção da sua história.
Kramer (2003, p.22,), dá ênfase “a crítica à naturalização infantil e consolidou a
análise de caráter histórico, ideológico e cultural”. Ela partilha a ideia de que na relação
adulto/criança, a criança não é dependente pelo fator natural, e sim por uma questão social.
Para ela, a construção da concepção da infância é construída socialmente através de uma
perspectiva histórica, ou seja, sofre modificações de acordo com a estrutura de cada
sociedade. Salienta, ainda que, ao longo do século XX, diversas áreas do conhecimento:
Psicologia, Sociologia, Antropologia, Pedagogia, Psicanálise, Linguística e outras surgiram
com o objetivo de estudar as especificidades da infância.
Atualmente, há uma grande preocupação de estudiosos e cientistas sociais em elucidar
os caminhos traçados pela criança ao longo da sua história na humanidade com destaque de
que a criança apresenta especificidades próprias de sua idade e compreender isso é um grande
passo para o reconhecimento da infância.
Os conceitos e concepções de criança e infância foram, historicamente, construídos
passando por várias transformações ligadas ao momento sócio-histórico e cultural. O
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Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil - RCNEI (1998, p. 21), enfatiza que
“as crianças possuem uma natureza singular, que as caracteriza como seres que sentem e
pensam o mundo de um jeito muito próprio.” Expõe também que:

A criança como todo ser humano, é um sujeito social e histórico e faz parte de uma
organização familiar que está inserida em uma sociedade, com uma determinada
cultura, em um determinado momento histórico. É profundamente marcada pelo
meio social em que se desenvolve, mas também o marca. (BRASIL, 1998, p. 21)

Ao estudar os documentos elaborados pelo Ministério de Educação, no caso do


RCNEI, é possível constatar o avanço concernente a concepção de criança e as indicações
quanto ao binômio cuidar e educar, visto que ao analisando a história é perceptível que não
havia preocupação quanto à importância e a necessidade da criança no que se refere ao ato de
educar. O assistencialismo era uma forma de cuidar das crianças em risco de vida.
As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil – DCNEI (2009)
concebem a criança como sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e
práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva. Para responder a
esta concepção de criança, a prática docente tem papel relevante ao articular as experiências e
os saberes das crianças com o conhecimento educativo, promovendo o desenvolvimento
integral da criança.
Quinteiro (2005 p.42), ao discorrer sobre a criança destaca: “portanto, a criança, sendo
um ser humano de pouca idade, é capaz de representar o mundo e a si mesma”. Isso significa
que, assim como o adulto, a criança é capaz de fazer escolhas e de dar opiniões. Não podemos
negar que as crianças precisam de cuidados, de atenção, mas precisam também ser ouvidas e
entendidas.
Desse modo, a infância é uma etapa essencial para o desenvolvimento integral do ser
humano. Ao levar em conta essa fase da vida, retratando como etapa distinta do mundo do
adulto. Assim, concordamos com autora Sônia Kramer (2003, p.46), quando afirma que:

Ao contrário dos animais, o homem tem infância, não foi sempre falante, e precisa,
para falar, constituir-se em sujeito da linguagem. Se há uma história, se o homem é
um ser histórico, é só porque existe uma infância do homem, é porque ele deve se
apropriar da linguagem.

A partir da contribuição desta autora, é possível entender a importância da infância na


vida humana. Entretanto, é necessário tratar a criança do jeito que ela é e respeitá-la enquanto
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sujeito que constrói as suas relações no meio social em que vive, pois é um ser capaz de
descobrir-se no mundo, marcado por múltiplas linguagens.
Por certo, todas as mudanças ocorridas fazem parte da história, pois o homem quanto
mais amplia seu conhecimento mais constrói e muda o seu ambiente segundo os seus
interesses e necessidades. O RCNEI discorre sobre a criança e o processo de construção do
conhecimento, expondo que:

No processo de construção do conhecimento, as crianças se utilizam das mais


diferentes linguagens e exercem a capacidade que possuem de terem idéias e
hipóteses originais sobre aquilo que buscam desvendar. Nessa perspectiva as
crianças constroem o conhecimento a partir das interações que estabelecem com as
outras pessoas e com o meio em que vivem. O conhecimento não se constitui em
cópia da realidade, mas sim, fruto de um intenso trabalho de criação, significação e
ressignificação. (BRASIL, 1998, p. 21-22).

Podemos considerar que existe um fenômeno comum a todas as culturas, desde as


civilizações mais primitivas que se concretizaram na história da humanidade. A arte
demonstra, já na pré-história, a necessidade e a capacidade do homem de criar formas para se
comunicar a partir daquilo que ele conhece e constrói.
O desenho infantil também possui e traz consigo aspectos que melhor definem sua
trajetória e sua importância no desenvolvimento do ser humano, a partir do momento em que
foi apresentado como parte integrante deste. Portanto, “desenho é a arte de representar formas
por meio de linhas ou traços sobre uma superfície”. (MACHADO, 2007, p.17). Nesse
contexto, o desenho é definido como uma criação humana, um meio encontrado pelo homem
para se expressar e se comunicar.
A interação que a criança estabelece no meio onde está inserida é de fundamental
importância para o seu desenvolvimento e construção do conhecimento, havendo aí, uma
interação do homem com o meio. Como ressalta Machado (2007, p.30):

Ao apresentar, graficamente, imagens mentais daquilo que era visto, o homem das
cavernas representou, e criou sons, símbolos, para se comunicar, e conforme o
tempo foi se ajustando à realidade e se superando de modo cada vez mais eficaz,
tendo a arte, incluindo o desenho, como recurso no seu processo de crescimento e
registro do mundo.

Com isso, o autor discorre que a arte se constitui em um processo no qual a criança
reúne diversos elementos de sua experiência para se expressar, tendo como um dos recursos o
desenho. Ressalta também que, a criança não nasce sabendo desenhar, mas vai construindo
seu conhecimento acerca do desenho através da sua relação com este objeto de conhecimento.
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A criança, portanto, é um sujeito deste processo construindo hipóteses, produzindo e


interpretando a realidade. Ou seja, o desenho da criança, assim como aborda Machado (2007,
p.31) “está em um processo contínuo de aprendizagem e é uma construção individual”.
Ressalta que o desenho passa por diferentes evoluções para aquisição.
Entendendo a criança neste processo, destacamos que ela deve explorar e vivenciar
diferentes experiências para um melhor desenvolvimento, sendo respeitado, assim, o seu
próprio tempo de aprendizagem. Bédard (2010, p.8), afirma que “sem perceber, a criança
transporta seu estado anímico ao papel. Não é conveniente obrigá-la a desenhar se ela não
sente a necessidade de fazê-lo. Deve desenhar por prazer e não por obrigação”.
Não é bom que a criança se sinta pressionada, pois é recomendável deixá-la livre para
que sua imaginação se manifeste com toda liberdade. Pedagogicamente, o desenho livre deve
propiciar o diálogo entre o docente e a criança a respeito da produção realizada, valorizando,
desta forma a atividade desenvolvida pela criança e o conhecimento a respeito do que a
criança apresenta como veiculo de expressão emocional ou simplesmente a representação de
algum objeto que lhe chamou a atenção.
Machado (2007 p.33) ainda afirma que “o ato de desenhar impulsiona outras
manifestações que acontecem juntas, numa atividade indissolúvel, possibilitando uma grande
caminhada pelo mundo imaginário”. Contudo, o desenho constitui a expressão da visão de
mundo que cada criança possui, pois através do desenho ela manifesta suas reflexões acerca
desta visão.
Portanto, entender a criança como um ser diferente do adulto é pensar em todo o
processo do homem em sua história, perceber as transformações ocorridas também nas
práticas educativas para responder as necessidades de melhoria no processo de aprendizagem
e de desenvolvimento da criança.
Para a Teoria Histórico-Cultural, o bom ensino incide no que Vigotsky (1988) chamou
zona de desenvolvimento proximal e que se expressa pelo que a criança não é ainda capaz de
fazer de forma independente, mas pode fazer com ajuda do outro. Dessa forma, ao realizar,
com ajuda de um parceiro mais experiente, uma tarefa que extrapola suas possibilidades de
realização independente, a criança se prepara para, num futuro próximo, realizá-la de forma
independente. Desse ponto de vista, o ensino deve promover novas aprendizagens e
desenvolvimento. Ele situa o desenho como sendo o registro constituindo a passagem do
gesto à imagem. Essa característica refere-se à:
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A percepção do objeto, no desenho, corresponde à atribuição de sentido dado pela


criança, constituindo-se em realidade conceituada, e não material. Inicialmente o
objeto representado é reconhecido após a realização do desenho, quando a criança
expressa verbalmente o resultado da ação gráfica, identificada ao objeto pela sua
similaridade. Momento fundamental de sua evolução se constitui na antecipação do
ato gráfico, manifestada pela verbalização, indicando a intenção prévia e o
planejamento da ação (VIGOTSKY, 1988, p. 127).

Os esquemas que caracterizam os primeiros desenhos infantis lembram conceitos


verbais que comunicam os aspectos essenciais vividos pela criança. Em relação ao
desenvolvimento da linguagem escrita, o autor propõe que a brincadeira de faz-de-conta, o
desenho e a escrita devem ser elementos importantes para estabelecer a interação entre os
sujeitos.
A literatura que trata da importância do desenho no processo de aprendizagem e de
desenvolvimento da criança destaca a crítica sobre a atuação docente, tendo em vista que esta
precisa ter um novo olhar sobre a práxis educativa ao considerar esse novo contexto que se
apresenta na realidade contemporânea, como ressalta Garcia (2001) é que a infância vem
sendo encurtada por fatores históricos: “seja pela mídia, seja pela miséria e pela
contravenção” e por diversos fatores que levam as crianças a destinos diversos, uns já
trabalham, outros são escravos da televisão, do computador e do videogame.
Assim, o docente comprometido com a infância, que luta em prol de uma Educação
Infantil que valorize a criança, pondera que apesar dos percalços da história, todos são
crianças, diferentes sim, mas sujeitos que possuem saberes inerentes ao seu universo infantil.
Saberes esses que não podem ser desconsiderados dentro da escola, pois é a partir desses
saberes que a construção da aprendizagem se torna significativa e o desenho é um elemento
que poderá ajudar a desvendar quais são os saberes ou as vivências que a criança apresenta no
contexto da sala de aula, bem como ajudá-la no seu processo de aprendizagem e de
desenvolvimento dos múltiplos aspectos que a envolve.

A criança, as representações e o significado do desenho

A criança, impulsionada pela alegria e pelo prazer dos movimentos de suas mãos,
descobre paulatinamente nas pontas dos dedos que pode exibir nas folhas de papéis
emaranhados de traços. São simples traços, estes se revelam como fonte rica de alegria e
tornam-se um verdadeiro fascínio para a criança.
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No início, ao emitir os seus traços, a criança rabisca no papel e sente prazer em deixar
uma marca impressa em qualquer superfície, seja “as marcas na areia da praia, o risco do caco
de tijolo no muro e na calçada, os furinhos feitos com o dedo na massinha, a impressão da
mão cheia de tinta no papel, a marca da ponta do dedo no vidro embaçado” (DERDYK, 1993,
p. 56). É brincando e fantasiando que a criança vai deixando o seu rastro, o seu registro, a sua
expressão, e gradativamente vai contando do seu jeito a sua história.
É a fase em que a criança se aventura no mundo mágico dos desenhos e através deles
revela seus desejos, suas conquistas, evoca novas descobertas, demonstra suas alegrias, seus
medos, suas angústias e, acima de tudo, retrata a beleza de sua infância. Ao experimentar o
prazer de rabiscar, a criança “[...] num piscar de olhos descobre uma “gente”, uma “semente”
(DERDYK, 1993, p. 10). Semente esta que pode ser redonda, quadrada, comprida, pequena,
grande, vazia, cheia, ou carregada de um horizonte de significados.
A cada desenho novo, a criança encontra diversas possibilidades de idealizar e criar
um mundo de sensações. É nessa aventura idealizada entre os seus desenhos e as
representações que a criança se autodescobre, reconhece as cores e suas diferenças,
experimenta as variadas formas, manipula as mais variadas texturas, explora os espaços do
papel, encontra as diferentes maneiras para interpretar e apresentar significados aos seus
desenhos.
Gradativamente, a criança vai elaborando e dando significado ao seu desenho. Para o
adulto, o desenho infantil pode não ter significado algum, daí a importância da interação, do
questionamento, da relevância de abrir espaço para a socialização da criança sobre sua
produção, só assim ela é capaz de desvendar o mundo que verdadeiramente é só seu, sua
imaginação, a qual ela busca traduzir e representar em suas atividades gráficas.
Importante destacar que, para adentrar no mundo imaginário do desenho da criança,
que parece estranho, às vezes incompreensível, e ao mesmo tempo desconhecido, discorre
Derdyk (1993, p. 49) “precisamos primeiramente arranjar um passaporte. Este passaporte
seria a nossa própria vivência da linguagem: o ato de desenhar”. Assim, como revela a autora,
não dá para nos tornarmos íntimos e conhecedores de uma criança, se não compreendermos a
essência da sua linguagem gráfica, o desenho.
Ao estudar sobre as práticas pedagógicas, percebe-se que ainda há um distanciamento
do docente com relação a inserção do desenho como prática pedagógica para além do aspecto
mecanicista, pois é preciso vivenciar esta linguagem tão presente no universo infantil e
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adquirir um novo olhar sobre a sua experiência gráfica, pois são muitas as inquietações que
afloram o pensamento sobre o desenho infantil, mas uma pergunta em especial: Que práticas
pedagógicas devem ser aplicadas a partir da inserção do desenho?
Derdyk (1993, p. 49) salienta que:

Quando pensamos no desenho infantil, precisamos ter em mente que, para a criança,
o desenho é um meio de expressão. Nele a criança comunica os seus gostos, desejos,
vontades, dúvidas e também apresenta sua própria maneira de compreender e
interpretar o mundo ao seu redor.

Desta forma, ao desenhar, a criança revela parte de si própria, como pensa, como sente
e como vê a sua realidade e a si mesma. Como descreve a autora, a cada experiência gráfica, a
criança revela quem ela é, o que está pensando e também expressa a sua subjetividade e a
maneira de como se sente existir.
Entre outras coisas, a criança desenha para se satisfazer, se realizar, sentir prazer e se
divertir. Desse modo, o ato de desenhar é:

[...] um jogo que não exige companheiros, onde a criança é dona de suas próprias
regras. Nesse jogo solitário, ela vai aprender a estar só, “aprender a ser só”. O
desenho é o palco de suas encenações, a construção de seu universo particular
(DERDYK, 1993, p.50)

No universo infantil apontado pela autora, o desenho da criança é particular e muito


subjetivo, pois cada uma tem o seu jeito de transpor para o papel algo que tenha significado e
relevância para ela. Por isso, neste grande palco de representações, ela percebe que pode
inventar e nomear as suas próprias regras, reinventar os seus personagens, e mesmo sozinha,
descobre que tem a capacidade de criar e se expressar à sua maneira.
O ato de desenhar faz parte da vida de qualquer criança, pois “o desenho manifesta o
desejo de representar, mas também é, antes de qualquer coisa, um despertar da curiosidade, é
afirmação, é negação. Ao desenhar, a criança passa por um longo processo vivencial e
existencial” (DERDYK, 1993, p.51). A partir dessa reflexão salientamos que o desenho revela
muito daquele que o produziu e que este se modifica a cada vontade de representar da criança.
Assim, ela desenha para falar de si, dos outros, das suas brincadeiras, dos seus gostos, de seus
medos, para contar e externalizar as suas descobertas e as suas vivências.
Para a criança, não existe somente o desenho no papel, também faz parte do seu
desenho “a maneira como organiza as pedras e as folhas ao redor do castelo de areia ou como
organiza as panelinhas, os pratos, as colheres na brincadeira da casinha” (MOREIRA, 2009,
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p.16). Notadamente, a partir das palavras da autora, compreendemos que o desenho de uma
criança quando observados como ela desenha e organiza o seu espaço, ao brincar, fica mais
fácil planejar atividades de intervenção didático-pedagógicas que propicie a leitura e a
socialização da produção da criança.
O prazer de inventar, de criar e recriar, a atividade gráfica é movida, essencialmente,
pela vontade e pelo desejo da criança em se expressar. Nesse prazeroso movimento gráfico de
“ir, vir, nomear, desenhar, olhar, rabiscar, narrar, colorir, cantar, mexer que faz com que o
sujeito recrie, a todo instante, o significado do mundo em que se insere” (LEITE, 2003,
p.141). Conforme descreve a autora, a criança revela o seu mundo para o desenho, e através
desta linguagem, ela tem a possibilidade de criar uma nova realidade a cada instante.
O desenho para o adulto, pode até ser uma atividade indecifrável, mas “[...]
provavelmente para a criança, naquele instante, qualquer gesto, qualquer rabisco, além de ser
uma conduta sensório-motora, vem carregado de conteúdos e de significações simbólicas”
(DERDYK, 1993, p.57). Em outras palavras, o desenho configura-se como um campo de
possibilidades e significações para a criança, que confronta o real com o imaginário. Neste
movimento interno vão brotando as representações e um repertório de significados que irão se
modificar e se transformar em grandes realizações.
Ao observar uma criança desenhando aprendemos muito sobre ela, pois o desenho
revela o seu desenvolvimento e, também, as proezas do seu coração. Por isso, o desenho
significa, para a criança, “o seu próprio canal expressivo” (MOREIRA, 2009, p. 96). A
criança desenha expressando sobre as suas histórias de vida, as aventuras vivenciadas; ela
recria seu espaço lúdico e se afirma como ser humano. O desenho da criança tem significado
para ela, quando realmente vivencia esta linguagem, explora os seus limites, as suas
dificuldades, enfrenta os seus medos e vive a sua infância.

A criança e o desenho: atuação docente na educação infantil

Ao desenhar, a criança conta sua história, seus pensamentos, fantasias, medos, alegrias
e tristezas. Enquanto desenha interage com o meio, seu corpo inteiro se envolve na ação,
traduzida em marca que a mesma produz, transportando para o desenho, modificando e se
modificando. O valor do desenho é perceptível porque emerge da necessidade da criança em
deixar fluir essa linguagem tão expressiva de suas vivências, havendo uma interrelação nos
vários aspectos de seu desenvolvimento motor, afetivo e cognitivo. Com isso surge a seguinte
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inquietação: o que a literatura aborda sobre a atuação docente e sua intervenção didático-
pedagógica, tendo o desenho como elemento estratégico para o desenvolvimento da criança
na Educação Infantil?
Pillar (1996) salienta que o docente, ao observar o desenho de uma criança, pode
aprender muito sobre o seu modo de pensar, suas atitudes e comportamento. A autora destaca,
ainda que, quando, em um desenho, os braços de uma figura humana saem da cabeça e não do
tronco, por exemplo, significa que a criança ainda não tem construído interiormente em seu
pensamento o esquema corporal de uma figura humana, e, isso ajudará nas inferências
docentes e, consequentemente, a melhorar a prática pedagógica.
O docente que atua na Educação Infantil, ao trabalhar com as crianças, lança mão de
vários conhecimentos dos quais se apropriou no seu curso de formação, saberes oriundos da
Psicologia, da Sociologia, da Didática, da sua experiência no Estágio Curricular. Há também,
os saberes adquiridos na prática, que este profissional constrói quando se depara com as
problemáticas do cotidiano com as crianças.
Para melhor realizar a prática pedagógica na Educação Infantil, os docentes precisam
acompanhar o processo do desenvolvimento infantil, conhecer as propostas metodológicas
que mais possam auxiliar nesse processo. A organização do espaço e do tempo é outro fator
que influencia no desenvolvimento das atividades, de modo que, tudo precisa ser equilibrado:
atividades lúdicas, educativas, de higiene, sono, alimentação.
As artes, o teatro, a música, a dança, o desenho, são essenciais para que a criança
aprenda a explorar o mundo à sua volta. Por meio de distintos materiais, ela aprende a
expressar-se, compreendendo a si mesma e aos demais. A atuação do educador é fundamental
no apoio ao processo, zelando, pela condição de liberdade fundamental na preservação do
espaço do desenho infantil importante não só para o desenvolvimento cognitivo, como a
criatividade e expressão pessoal.
O desenho é uma linguagem, consta no currículo, na área de Artes, mas pode ser
desenvolvida de forma transversal, considerando todas as áreas do conhecimento. Na
estrutura curricular do Curso de Pedagogia há uma disciplina chamada “A Criança e as
Artes”. Esta disciplina contribui para a formação dos acadêmicos que poderão fazer a
diferença, quando de suas atuações enquanto docentes inserindo o desenho com uma
estratégia pedagógica, ação esta que envolve aspectos cognitivos e afetivos que passam pela
relação entre os sujeitos envolvidos no processo de ensino e de aprendizagem.
16257

Ao compreender sobre a relevância da formação profissional, tendo em vista o


desenvolvimento das atividades acadêmicas que se constituem na compreensão para a
ressignificação das práticas pedagógicas, ressalta Oliveira-Formosinho (2002) que o educador
da criança necessita de um saber fazer que incorpore, ao mesmo tempo, a globalidade e a
vulnerabilidade social das crianças presentes na contemporaneidade. Assim, torna-se
imprescindível uma rede de relações alargadas com os pais, os auxiliares da ação educativa e
com outros profissionais que atuam no atendimento das necessidades da criança. O autor
destaca, ainda que: “... a educação da infância requer dos profissionais uma integração dos
serviços para as crianças e suas famílias que alarga o âmbito das interações profissionais”.
(OLIVEIRA-FORMOSINHO, 2002, p. 49).
Na docência, a prática pedagógica contribui para o processo de aprendizagem quando
desenvolvida com vistas a sensibilidade de observação sobre a produção infantil e a qualidade
do vínculo de cada uma das crianças no que concerne ao interesse e a curiosidade individual e
não por pressão externa. Um docente que entra em sintonia com as formas de vinculação de
cada estudante, torna-se mais apto a fazer as intervenções didático-pedagógicas, tendo o
desenho como estratégia deste trabalho.
Daí a enorme responsabilidade do docente, quando a criança fala, escreve ou faz seus
trabalhos de desenho porque geralmente é ele quem faz as observações das produções,
atribuindo-lhes qualidades na orientação, incentivando os esforços nos processos de
construção de saberes cognitivos, estéticos, afetivos e nas combinações desses tipos de
saberes. O interesse para com os desenhos infantis é uma resposta direta, pois eles possuem
um encontro de novidades, simplicidade, podem ser vistos como expressão de ordem ou
desordem em um mundo complexo, sendo sem dúvida, mais naturais que imitativos, pois
emergem da criatividade da criança que externaliza sentimentos, deixa transparecer o seu
mundo interior.
Estudos têm apontado que os desenhos infantis contam muito, considerados
indicativos dos aspectos gerais do desenvolvimento e habilidade humana. Verifica-se que os
desenhos podem nos dar informações não só sobre as crianças, mas também sobre a natureza
do pensamento e a resolução de problemas entre crianças e adultos. Compete aos centros de
formação de professores investirem em projetos de pesquisa continuada, para que os
professores sejam os protagonistas de práticas que envolvem a inserção do desenho como
uma estratégia pedagógica em sala de aula.
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Os autores da Teoria Histórico-Cultural valorizam o emprego do desenho como


recurso pedagógico para ser utilizado com crianças da educação infantil. O educador, segundo
Elkonin (1998), aborda que “para exercer o papel de mediador na educação da criança,
necessita conhecer as forças que impulsionam o desenvolvimento psíquico”. Conhecendo a
periodização do desenvolvimento psíquico, o educador poderá organizar seu planejamento de
modo a ser capaz de intervir positivamente na sucessão dos diferentes períodos.
A confluência da periodização do desenvolvimento psíquico com a periodização
pedagógica é que vai possibilitar uma ação educativa eficaz e intencional. O professor precisa
estimular a criança, levando-a a alcançar um nível de compreensão que ainda não domina
completamente, fazendo inferências para o avanço no processo de aprendizagem e
desenvolvimento.
O ato de entregar a criança um modelo de desenho não a beneficia para que seu
conhecimento de mundo seja construído, levando em conta o seu papel criador. Materiais
mimeografados, desenhos prontos para as crianças apenas colorirem, utilização de matrizes
para reprodução de desenhos e formas são práticas que impedem a construção por parte da
criança, pois a produção já está pronta e a criança simplesmente reproduz, sem a necessidade
de pensar no que vai fazer e como fazer, o que propicia o comodismo mental, gerando a
dificuldade de raciocínio lógico.
Além disso, há as práticas educacionais que além de utilizarem a forma estereotipada,
exigem do desenho infantil toda a sua perfeição e características das produções adultas
adotadas como modelos, assumindo assim posturas avaliativas sobre elas. Aprendendo a
gostar do estereótipo, a criança começa a exigir de si mesma cada vez mais, esta visão
direcionada pelo adulto, inibindo suas capacidades próprias, não encontrando estímulos para
criações individuais e vendo-se no papel de seguir concretamente o que lhe é imposto perante
as definições abordadas do desenho.
Como afirma Machado (2007, p.46):

Os desenhos estereotipados empobrecem a percepção e a imaginação da criança,


inibem sua necessidade expressiva, embotam seus processos mentais, não permitem
que desenvolvam naturalmente suas potencialidades. Estereotipar que dizer
simplificar, esquematizar, reduzir à expressão mais simples.

Com este quadro comum na Educação Infantil, pensamos na grande necessidade dos
profissionais compreenderem o que as crianças perdem com esse tipo de prática, e como há
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possibilidades de se iniciar uma mudança sobre o olhar para com o desenho e as produções
infantis deixando a imaginação e a criação direcionarem o fazer criativo da criança.
Sabemos que este é um longo processo pelo qual os educadores precisarão passar para
enxergar no desenho infantil mais do que uma cópia de um modelo, conforme ressalta
Machado (2007 p.47), “a criança é conduzida pelo processo entre a fantasia e a criação para
criar”. Portanto, o papel do docente de educação infantil é muito importante neste processo.
Ele não é apenas um facilitador, é alguém que deverá desafiar, incentivar a curiosidade e
procurar ampliar as experiências e os conhecimentos da criança. Nesta concepção, não se
deve impor os próprios padrões estéticos e seus valores e, sim, criar oportunidades para que
os desenhos sejam construídos pela criança.
Por certo, o desenho infantil depende de outros fatores como também do meio em que
se vive e das oportunidades de acesso a materiais e atividades que permitam e incentivem a
expressão dessa linguagem. Há uma necessidade de respeito contínuo do ritmo de cada
criança, a maneira como sua obra esta evoluindo, porque cada uma tem um tempo e uma
maneira de internalizar suas experiências e vivências.

Considerações Finais

A pesquisa foi de grande relevância acadêmica, pois, contribuiu para ampliar o


conhecimento sobre o desenho, que até então era, na minha concepção, uma simples
atividade, sem muitas nuances.
O trabalho buscou compreender os conceitos de criança, infância e desenho, a sua
função como estratégia pedagógica na educação infantil e a atuação docente com vistas a
utilização do desenho da própria criança para desenvolver o processo de intervenção
pedagógica em sala de aula, na perspectiva de conhecer melhor a criança e contribuir na
diminuição das dificuldades de aprendizagem e em outros aspectos que afloram a partir da
produção de um desenho infantil.
Desenhando, a criança aprende a se relacionar com o outro e vai desenvolvendo suas
habilidades. Neste sentido, o desenho é uma necessidade e um fator determinante no
desenvolvimento integral do sujeito, em todos os seus aspectos, na constituição de sua
personalidade, como fator de relação e comunicação com outros sujeitos e consigo mesmo.
A criança, através do desenho pode apreender vários conhecimentos, assim como
expressar sentimentos e situações de seu cotidiano. Na relação com o outro a criança constrói
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conhecimentos, apropriando-se de um saber já acumulado, mas também ampliando os seus


próprios.
É oportuno destacar que temos um bom caminho a percorrer no intuito de elucidar
lacunas que ainda estão em abertas e que necessitam de aprofundamento teórico, de
planejamento para uma prática docente que responda as necessidades das crianças. Dentre as
questões que estão pendentes, podemos citar: Por que em determinada faixa etária a criança se
interessa mais por um tipo de desenho? Os desenhos estereotipados interferem na expressão
criativa das crianças? Os desenhos possuem os mesmos significados para todas as culturas?
Por que, em geral, o desenho é considerado irrelevante para pais e professores no processo de
aprendizagem?
Temos ciência de que algumas das questões acima levantadas talvez sejam possíveis
de serem respondidas na continuidade da pesquisa, outras, possivelmente permanecerão em
aberto. No entanto, não faltará esforço da nossa parte para aprimorar o conhecimento sobre o
tema porque entendemos que esta linguagem é um meio eficaz de interação com a criança, na
perspectiva de conhecê-la melhor e, a partir daí, organizar práticas pedagógicas com a
inserção do desenho, intencionando contribuir para o desenvolvimento integral da criança.

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