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Vida impecável: É possível o

cristão viver sem pecar?


Wilson Paroschi
Para responder a essa pergunta, é necessário saber que existem dois tipos de
pecados: intencional e involuntário. O pecado intencional é deliberado, resultado
da escolha consciente de contrariar a vontade de Deus e seguir os ditames da
própria inclinação pecaminosa. Trata-se do pecado da rebelião, muito bem descrito
no hebraico como o pecado “da mão levantada” (Nm 15:30). A ideia talvez seja a
do braço levantado e pulso cerrado em atitude de total desafio e afronta a Deus.
Em português, a tradução ficou assim: “A pessoa que fizer alguma coisa
atrevidamente”.
Já o pecado involuntário, ou acidental, é aquele que resulta da fraqueza da nossa
natureza pecaminosa, e não de uma vontade deliberada de se opor a Deus. Aqui
entra a questão mais fundamental quanto ao pecado: todos nós temos uma
natureza pecaminosa, descrita por Paulo como a habitação interior do pecado (Rm
7:14, 17, 18, 20, 21), ou como a “lei do pecado” que existe em nós (Rm 7:23, 25;
8:2). Essa natureza é inteiramente oposta a Deus (Rm 8:7; Gl 5:17). Hereditária
(Rm 5:12, 19; Ef 2:3), é como se, no momento em que Adão pecou, sua corrente
sanguínea se tornasse envenenada, e nós sofremos desse envenenamento de
sangue desde o momento em que nascemos.
Outra característica da natureza pecaminosa é sua universalidade. Nenhum dos
descendentes de Adão, excetuando-se Cristo (Rm 8:3; 1 Co 15:45-49), está isento
dela, o que explica o fato de que todos, novamente à exceção de Cristo (Jo 8:46;
Hb 4:15; 1Pe 2:22), “pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3:23; cf. v. 10-
12).
Essa natureza tem um caráter definitivo nesta vida. Paulo é claro ao afirmar que é
somente por ocasião da segunda vinda de Cristo que os justos serão
transformados, que a natureza pecaminosa será erradicada e o corpo finalmente
redimido do cativeiro da corrupção (Rm 8:19-23; 1Co 15:20-23, 50-58).
Por ser tão contrária à vontade de Deus, a natureza pecaminosa impede perfeita
obediência à lei divina. Talvez a passagem bíblica mais clara a esse respeito seja
Romanos 7:14-25. Lendo-a com atenção, percebemos por que Paulo – ou o cristão
convertido – é incapaz de satisfazer plenamente a justiça da lei. O tipo de pecado
ali descrito não é o pecado intencional, mas o pecado que não queremos cometer
e que acabamos cometendo por causa do pecado que habita em nós.
Outros textos bíblicos que falam do pecado involuntário são 1 João 5:17, 18 e 3:9.
Sobre pecados intencionais, veja também Hebreus 10:26, 27 e 1 João 5:16, 17.
Em 1 João 1:6-9, o apóstolo fala dos dois tipos de pecados, intencionais e
involuntários.
Voltando à pergunta inicial, é possível viver sem pecado? A resposta é sim e não.
Depende de qual pecado estamos falando. Se for do pecado intencional, a
resposta é sim. Se for do pecado involuntário, a resposta é não. Pelo poder de
Cristo, a pessoa pode ter sua vontade santificada ao ponto de que o pecado não
mais será uma escolha, uma atitude deliberada de se opor à vontade de Deus, de
se rebelar contra Ele.
Naturalmente, isso é um processo. Ninguém da noite para o dia será forte o
bastante para nunca mais escolher pecar. É por isso que precisamos de
arrependimento e confissão (1 Jo 1:9), bem como da intercessão de Cristo no
santuário celestial (1 Jo 2:1). Porém, pela operação santificadora do Espírito
Santo, podemos escolher não pecar mais, ou não permitir que nossa vontade nos
leve a contrariar deliberadamente a vontade de Deus. Quando se encerrar o tempo
de graça, os justos terão feito sua escolha definitiva ao lado de Deus e não vão
mais mudá-la. O mesmo acontecerá com os ímpios: sua rejeição da oferta salvífica
de Deus será definitiva e irrevogável (Ap 22:11).
Quanto aos pecados involuntários, que não são resultado da escolha, mas sim da
natureza pecaminosa, a vitória completa só será obtida por ocasião da glorificação.
Há poder em Jesus para sermos transformados, e santificação não é outra coisa
senão o processo de regeneração do caráter operado pelo Espírito Santo, a
transformação da natureza interior para que ela volte a refletir a imagem perfeita
de Deus com a qual fomos criados (Rm 8:11). Tal transformação não se completa
nesta vida, nem é inevitável. Mesmo que tenhamos nascidos de novo, ela pode ser
comprometida por nossa negligência em manter comunhão com Deus e permitir
que Ele continue operando em nós (Rm 6:12, 13; 8:13; 1Co 9:27; Gl 5:16).
Um dia, felizmente, o pecado será eliminado em todas as suas dimensões.

WILSON PAROSCHI, doutor em Teologia, com especialização em Novo


Testamento, é professor no Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP).

http://www.revistaadventista.com.br/blog/2017/06/09/vida-impecavel/