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ANÁLISE CRÍTICA DO FILME: UM ESTRANHO NO NINHO E DO

DOCUMENTÁRIO: CERSAMI - UMA CLÍNICA FEITA POR MUITOS1

De acordo com o texto "o normal e o patológico" lido para a disciplina


PSICOPATOLOGIA II assista ao filme UM ESTRANHO NO NINHO e o
documentário CERSAMI: UMA CLÍNICA FEITA POR MUITOS. Em seguida:

1) DESCREVA quais as concepções de normal e o patológico (ou ainda saúde e


doença), em que as instituições se baseavam para exercer os cuidados com os seus
pacientes. Cite ao menos um exemplo de cada instituição que ilustre sua resposta.

O conumdrum saúde-doença ou normal-patológico tem sido fonte de debate entre


diversos especialistas e campos epistemológicos, especialmente na área médica. A
etimologia da palavra “normal” deriva de “norma”, isto é, o regular, aquilo que se
repete, o constante. Isso significa que o normal é, basicamente, o que é comum. A
norma é ditada de acordo com padrões estatísticos paramétricos, a denominada
distribuição normal e curva de normalidade. Do ponto de vista biológico e médico, a
normalidade é caracterizada pelo reestabelecimento do funcionamento dos órgãos
internos. No entanto, há o questionamento: Essa máxima é considerada normal porque
é a finalidade almejada pela terapêutica ou esta tem esse objetivo porque é
considerada a normal? Na perspectiva dominante, o patológico é colocado no outro
extremo – nos desvios, na anormalidade. O patológico é o que contraria a norma.
Entretanto, o autor do texto defende que “diversidade não é doença”. Por exemplo,
um indivíduo que tenha uma saúde perfeita e contínua contraria os dados estatísticos,
isto é, uma pessoa que nunca adoece é um desvio em relação à curva de normalidade.
A doença faz parte da experiência de estar vivo. A partir disso, há a contradição: a
saúde contínua é uma norma, mas essa norma não existe.
Apesar dos pressupostos elucidados anteriormente, a tradição médica tem um
histórico de estigmatizar os indivíduos cujo funcionamento fisiológico, psicológico
e/ou social contrapõe a norma. Isso é ainda mais claro em instituições psiquiátricas.
No filme “Um Estranho no Ninho” é possível identificar algumas características
marcantes relacionados à patologização dos indivíduos que não se encaixam na norma
socialmente aceita. O hospital psiquiátrico não apenas se ocupava de pessoas
portadoras de doenças mentais graves, mas também indivíduos de grupos sociais
marginalizados, como gays, índios, adictos, dentre outros – mesmo que estes não
apresentassem sinais de doenças mentais. Ou seja, qualquer pessoa que não seguisse o
modelo “normal” de ser humano, estipulado pela sociedade e pela tradição médica,
poderia se tornar um usuário de manicômio. A estrutura regida pelo modelo médico
se baseava na hierarquia vertical existente entre médico e paciente, na qual aquele é
figura de autoridade máxima e inquestionável. É possível observar em uma cena do
filme, quando Jack pede à enfermeira Ratched permissão para trocar a programação
de TV para um jogo de beisebol, esta se recusa a ceder um pedido razoável do
paciente para reafirmar sua posição de poder.
Naquele mesmo hospital psiquiátrico, apesar de grande parte dos
institucionalizados poderem ir para casa a qualquer momento, outros permaneciam no
regime de internação. Ademais, as figuras que representavam a instituição médica

1 Mínimo duas laudas (páginas)


utilizavam métodos de coerção e punição com os indivíduos que se comportassem
inadequadamente como método de “cuidado”. Essa estratégia, inclusive, levou um
paciente a cometer suicídio. Este, aterrorizado pela ameaça de Ratched (a enfermeira
queria contar à mãe dele sobre o episódio em que ele fez sexo com uma mulher dentro
do hospital psiquiátrico, sabendo que aquilo o amedrontaria), cravou um caco de
vidro no pescoço, o que provocou sua morte. Por fim, é clara a cultura de
medicalização desenfreada, de controle de corpos, presentes no manicômio retratado
no filme. Embora a história do filme seja fictícia, é possível conceber o modelo
estrutural da instituição psiquiátrica como ambiente adoecedor.
Já no documentário “Cersami: Uma clínica feita por muitos” é notável a frase
“diversidade não é doença” descrita pelo autor do texto. Nesse modelo, considerado
humanizado, não há estigmatização de pessoas diagnosticadas com transtornos
mentais. É uma clínica em que não há uma hierarquia verticalizada e não há
internações. O próprio indivíduo tem protagonismo referente a sua terapêutica. São
oferecidas atividades culturais e de lazer aos usuários, diferentemente do hospital
psiquiátrico retratado no filme “Um Estranho no Ninho”, onde não havia tal oferta. As
atividades incluem aulas de culinária, lazer no parque, arte, cultura. Além disso, os
próprios usuários poderiam sugerir atividades novas. Os funcionários dessa clínica e
os usuários trabalham em equipe, formam vínculos e não há figura de autoridade,
portanto, é possível um trabalho mais humanizado. Os doentes não são vistos apenas
em função de sua doença, mas também de suas potencialidades. O modelo
humanizado traz menos sofrimento psíquico que o modelo médico, portanto, mais
saúde.
Comparando os dois modelos, o próprio pronome de tratamento dos
indivíduos que utilizam os serviços é diferente; enquanto no filme as pessoas são
tratadas como “pacientes”, no documentário as pessoas são “usuárias”. Os pacientes
do filme seguem o modelo médico: são medicados, recebem terapia de eletrochoque,
são sedados, internados, têm de se reportar perante uma autoridade – a um médico ou
a uma enfermeira, por exemplo. Já no documentário, os usuários utilizam o serviço da
clínica de forma voluntária, isto é, não são internados, não são medicados, a
terapêutica parte do próprio paciente. Enquanto o modelo médico é mais totalitário, o
modelo da clínica do documentário é mais humanizado.