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LIVRE MANIFESTAÇÃO DE PENSAMENTO

FREE MANIFESTATION OF THOUGHT

ARAÚJO. Lara Medeiros de1.

RESUMO

A liberdade de pensamento, como corolário da liberdade de expressão esteve sempre presente


nas Constituições brasileiras como um direito intrínseco a natureza humana. Claro que em
alguns momentos, tais direitos encontraram-se, tolhidos e até mesmo censurados pelo Estado,
num gesto de apenas manter seus representantes no poder, no entanto estiveram sempre lá, e
nos momentos em que pareceram rechaçados, ressurgiram cada vez mais fortes, afinal é
através da liberdade de pensamento e sua exteriorização, que direitos são criados, ratificados e
garantidos. Tanto o é que em 1919 através de um habeas corpus, o celebre jurista Rui Barbosa
juntamente com seus correligionários se vira no pleno direito de reunir-se em praça pública e
manifestar acerca de suas crenças e seus juízos de valores. No entanto foi na Constituição de
1988 que tais direitos ganharam o status de direitos fundamentais, e por assim ser, ficando a
cargo do Judiciário a intervenção para que mesmo se mantenha em seu status, e seu respeito.
Palavras-chave: Direitos fundamentais. Liberdade de expressão. Liberdade de pensamento.
Garantia constitucional. Democracia.

ABSTRACT

Freedom of thought as a corollary of freedom of expression was always present in the


Brazilian Constitutions as an intrinsic right to human nature. Of course, at times these rights
were met, stunned and even censored by the state, in a gesture of just keeping their
representatives in power, but they were always there, and in moments when they seemed
rejected, they resurfaced stronger and stronger, after all it is through freedom of thought and
its externalization that rights are created, ratified and guaranteed. So much so that in 1919
through a habeas corpus, the celebrated jurist Rui Barbosa along with his coreligionists turns
in full right to meet in a public square and to express about their beliefs and their values
judgments. However, it was in the Constitution of 1988 that these rights were granted the
status of fundamental rights, and so to be, leaving the intervention of the Judiciary to remain in
its status and respect.

Keywords: Fundamental rights. Freedom of expression. Freedom of thought. Constitutional


guarantee. Democracy.

1
Graduanda do Curso de Direito – Universidade Minas Gerais – UEMG – Diamantina/MG
1 INTRODUÇÃO

A liberdade de pensamento e de expressão é sem dúvida a porta de entrada para a plenitude do


Estado Democrático de Direito, pois é através dela que o homem manifesta suas mais íntimas
intenções e expões seus verdadeiros ideais transformadores.

Assim, não de forma exaustiva devido à amplitude do tema posto, o presente artigo procura
demonstrar a importância deste direito, tido como essencial a construção de uma sociedade
mais justa igualitária.

Para tanto, a partir do célebre julgamento do caso Rui Barbosa e a liberdade da manifestação
do pensamento em 1919, que neste ato se presta ao referencial teórico, necessário se faz a
exposição deste direito fundamental nas constituições brasileiras, sua importância para a
democracia e o importante papel do judiciário para a sua garantia.

Assim, através da pesquisa de livros e artigos, o que se busca na abordagem do tema é a


demonstração de que sem a liberdade do pensamento e de expressão nunca poderemos
alcançar a verdadeira democracia.

2 UM HOMEM, UM PEQUENO RECORTE DA HISTÓRIA E UMA DECISÃO A


FAVOR DA LIBERDADE.

Nascido em Salvador-BA, no ano de 1849, Rui Barbosa de Oliveira tornou-se um dos maiores
homens da história, chegando inclusive a tornar sua vida a própria vida do Estado Brasileiro.
Com sua brilhante inteligência, tornou-se um polímata, enveredando-se na advocacia, na
política, na diplomacia, na filologia, na literatura e no jornalismo. Jurista e orador aguerrido,
lutou incansavelmente pela reforma do Estado Brasileiro, sobretudo, contra os desmandos da
ordem constituída à época.

Pois bem, na campanha eleitoral de 1919 ao qual teve sua participação como candidato da
oposição da Presidência da Republica. Proferiu diversos discursos, aos quais apontava a
situação calamitosa a qual estava inserida a sociedade e a política do Brasil. Nestes seus
discursos, elencava a corrupção política e o descaso como um entrave à modernização da
sociedade brasileira, além de denunciar a exploração a que o povo estava submetido e as
péssimas condições de trabalho e a vida nas fábricas brasileira.

Na ótica de Barbosa, o povo só alcançaria melhorias significativas a partir do necessário


combate a corrupção existente no país e com a eleição de políticos comprometidos com o
povo. Com isto, seu discurso inflamado atraiu diversos inimigos políticos contrário aos seus
ideais. E neste contexto várias foram às ações impostas objetivando barrar o grande jurista.

Uma dessas ações ocorreu no dia 25 de março de 1919, quando a polícia local, através de
soldados a paisana, dispersou a tiros, um comício que seus correligionários pretendiam realizar
na Praça Rio Branco, a favor de sua candidatura ao cargo de Presidente da República.

Em decorrência deste fato o Dr. Artur Pinto da Rocha impetrara um Habeas Corpus
preventivo junto ao Supremo Tribunal Federal, em favor do senador Rui Barbosa e de seus
correligionários, no sentido de manter o seu direito de reunião e livre manifestação do
pensamento, no que foi unanimemente concedida à segurança, sob a orientação da seguinte
ementa:

O Supremo Tribunal Federal é competente para conceder, originariamente, a ordem


de “habeas corpus”, no caso de imminente perigo de consumar-se a violência antes
de outro Tribunal ou juiz poder tomar conhecimento da especie em primeira
instancia .O “habeas-corpus” é competente para proteger o direito de livre reunião.
Policia não póde, de modo algum, desde que se não trate do ajuntamento ilicito,
proibir “meetings” ou comicios e nem tão pouco localizal-os, isto é, determinar que
só se possam effectuar em logares por ella designados. (STF, 1922, p. 288)

Nota-se, que, já nesta época, o direito ao livre pensamento e a liberdade de expressão,


consistia num atributo inerente ao indivíduo em seu direito de interação com seus pares e por
isto, garantido constitucionalmente. A propósito, como se verá, o direito a liberdade de
pensamento e de expressão sempre esteve presente nas constituições brasileiras, ainda que não
de forma plena, em alguns momentos, mas, sempre esteve presente excetuando o período
correspondente a 1937 à 1946, onde vigeu os desmandos do Estado na roupagem da ditadura.
3 A LIBERDADE DE PENSAMENTO SOB A AMPLA ÓTICA DA LIBERDADE DE
EXPRESSÃO.

A Liberdade de pensamento, sendo uma das espécies inerentes à liberdade de expressão,


consiste na faculdade do ser humano agir e pensar de acordo com sua própria determinação,
baseando-se apenas em seu juízo pessoal de valor.

Nesse sentido, assevera Clever Vasconcelos:

Define-se a liberdade de pensamento como o direito de exteriorização do


pensamento. Mas não só. Mencionado conceito é restrito perto de sua real amplitude,
eis que compreende também o direito ao pensamento íntimo, fruto da consciência
humana, e o direito ao silêncio, o direito de não manifestar o pensamento. Dentro da
primeira perspectiva (o direito de exteriorização), o pensamento engloba a
manifestação verbal, corporal e simbólica. (VASCONCELOS, 2015)

Dessa maneira, é correto dizer que, conexos e intrínsecos à liberdade de expressão, encontram-
se também outros direitos, como o direito de informar e de ser informado, o direito de
resposta, o direito de réplica política, a liberdade de reunião, a liberdade religiosa etc. Por
conseguinte, a concepção de liberdade de expressão deve ser a mais ampla possível, desde que
resguardada a operacionalidade do direito.

Assim também é o entendimento de José Afonso da Silva (2000, p. 247)

A liberdade de comunicação consiste num conjunto de direitos, formas, processos e


veículos, que possibilitam a coordenação desembaraçada da criação, expressão e
difusão do pensamento e da informação. É o que se extrai dos incisos IV, V, IX, XII,
e XIV do art. 5º combinados com os arts. 220 a 224 da Constituição. Compreende ela
as formas de criação, expressão e manifestação do pensamento e de informação, e a
organização dos meios de comunicação, esta sujeita a regime jurídico especial.

Nota-se, assim, a amplitude da liberdade de pensamento e de expressão, e o quanto ela é


essencial às mudanças da realidade em que o homem encontra-se inserido. Pode se dizer que
ela é o motor transformador da realidade, pois, tudo se transforma à medida em que estamos
diante de opiniões diversas.
Todavia, como se verá, em determinados períodos na política brasileira, essa liberdade foi
tolhida como garantia assecuratória da manutenção do Poder e da manutenção de uma ditadura
desmedida e diabólica.

4 A LIBERDADE DE EXPRESSÃO AO LONGO DO REGIME CONSTITUCIONAL


BRASILEIRO.

A proteção da liberdade de expressão sempre esteve presente no ordenamento jurídico


brasileiro, isto é claro, com suas variações históricas, relativas a cada período e valores sociais,
inclusive, sendo restringidos em alguns momentos na vida do país.

4.1 Da Constituição Política do Império do Brasil de 1824 à Constituição da República


dos Estados Unidos do Brasil 1891

Outorgada pelo imperador Dom Pedro I, sob a influência das Constituições Francesa e
Espanhola, a Constituição do Império de 1824, em seu art. 179, IV, assegurava a livre
manifestação do pensamento por qualquer meio e sem censura:

Todos podem comunicar os seus pensamentos, por palavras, escritos, e publicá-los


pela Imprensa, sem dependência de censura; com tanto que hajam de responder
pelos abusos, que cometerem no exercício deste Direito, nos casos, e pela forma,
que a Lei determinar. (BRASIL, 1824)

No entanto, a existência do Poder Moderador que se sobrepunha em relação aos demais


poderes, tal liberdade era tolhida, a ponto de dizer que a liberdade não era plena.

Também, a Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1891, mais


especificamente o seu art. 72, §12, garantia a liberdade de expressão nos mesmos moldes da
anterior, inovando, no entanto, a expressa vedação ao anonimato.

Em qualquer assunto é livre a manifestação de pensamento pela imprensa ou pela


tribuna, sem dependência de censura, respondendo cada um pelos abusos que co-
meter nos casos e pela forma que a lei determinar. Não é permitido o anonimato.
(BRASIL, 1891)
Registra-se, que neste período houve a queda da monarquia e a extinção do poder moderador
em detrimento da Proclamação da República.

4.2 Da Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1934 à Constituição dos Estados
Unidos do Brasil de 1937.

Com a deposição do então Presidente da República Washigton Luis e a nomeação de Getúlio


Vargas a Chefe do Governo provisório, a Assembleia Constituinte de 1933, sob a inspiração
da Constituição de Weimar de 1919 e da Constituição Espanhola de 1931, manteve o mesmo
perfil da Constituição anterior, no entanto, permitindo a censura de espetáculos e diversões
públicas, nos seguintes termos:

Em qualquer assunto é livre a manifestação do pensamento, sem de- pendência de


censura, salvo quanto a espetáculos e diversões públicas, respondendo cada um pelos
abusos que cometer, nos casos e pela forma que a lei determinar. Não é permitido
anonimato. É segurado o direito de resposta. A publicação de livros e periódicos
independe de licença do Poder Público. Não será, porém, tolerada propaganda, de
guerra ou de processos violentos, para subverter a ordem política ou social.
(BRASIL, 1934)

Observa-se, que o texto se mantém na mesma linha do anterior, apenas acrescentando alguns
direitos, como o de resposta e a não necessidade de licença para publicação de livros e
periódicos.

Contudo, é em 1937, que antidemocracia paira no ordenamento brasileiro, sobretudo através


do golpe de estado, maquinado por Getúlio Vargas, objetivando sua permanência no poder do
Estado.

A Constituição de 37 rechaçou sobremaneira os direitos anteriormente garantidos. Dispunha a


nova Constituição, em seu art. 122:

Todo cidadão tem o direito de manifestar o seu pensamento, oral- mente, ou por escrito,
impresso ou por imagens, mediante as condições e nos limites prescritos em lei.
A lei pode prescrever:
a) com o fim de garantir a paz, a ordem e a segurança pública, a censura pré- via da imprensa, do
teatro, do cinematógrafo, da radiodifusão, facultando à autoridade competente proibir a circulação, a
difusão ou a representação;
b) medidas para impedir as manifestações contrárias à moralidade pú- blica e aos bons
costumes, assim como as especialmente destinadas à proteção da infância e da juventude;
c) providências destinadas à proteção do interesse público, bem-estar do povo e segurança
do Estado. Grifei (BRASIL, 1937).

Nota-se a rigorosidade imposta por esta Constituição notoriamente antidemocrática.


Sobretudo, com a criação do Departamento de Imprensa e Propaganda que se incumbiu pela
fiscalização de todas as atividades de imprensa e propaganda em todo o território nacional.

Todavia, este período marcado pela censura, subsistiu até o ano de 1946, quando que, com a
nova Constituição fez ressurgir toda a garantia da Constituição de 34 e suprimida pela de
1937.

4.3 Da Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 1946 à Constituição da República


Federativa do Brasil de 1967.

Como dito alhures, a Constituição de 1946 promulgada pela Assembleia Nacional


Constituinte, trouxe novamente a garantia da liberdade de expressão, assim dispondo:

Art. 141 - A Constituição assegura aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade dos direitos concernentes à vida, à liberdade, a segurança individual e à
propriedade, nos termos seguintes:
§ 5º - É livre a manifestação do pensamento, sem que dependa de censu- ra, salvo quanto a
espetáculos e diversões públicas, respondendo cada um, nos casos e na forma que a lei preceituar
pelos abusos que cometer. Não é permitido o anonimato. É assegurado o direito de resposta. A
publicação de livros e periódicos não dependerá de licença do Poder Público. Não será, porém,
tolerada propaganda de guerra, de processos violentos para subver- ter a ordem política e social, ou
de preconceitos de raça ou de classe.
§ 7º - É inviolável a liberdade de consciência e de crença e assegurado o livre exercício dos
cultos religiosos, salvo o dos que contrariem a ordem pública ou os bons costumes. As
associações religiosas adquirirão per- sonalidade jurídica na forma da lei civil.
§ 8º - Por motivo de convicção religiosa, filosófica ou política, ninguém será privado de
nenhum dos seus direitos, salvo se a invocar para se eximir de obrigação, encargo ou serviço
impostos pela lei aos brasileiros em geral, ou recusar os que ela estabelecer em substituição
daqueles deveres, a fim de atender escusa de consciência.
Art. 173 - As ciências, as letras e as artes são livres. (BRASIL, 1946)

No entanto, logo revogada pelo golpe de 1964, sobretudo pelos chamados Atos Institucionais,
que extinguiram os Partidos Políticos existentes, e concederam ao Chefe do Executivo o poder
de cassar mandatos e direitos políticos.
Sob a égide deste novo poder imposto, diga-se o poder dos militares, novos Atos institucionais
foram impostos, a exemplo do AI-5, que representou à época o ápice do controle ditatorial,
manteve, pelo menos no papel, as mesmas garantias aplicadas na Constituição de 1946, no
entanto, é cediço que na prática, este período representou a era negra do ordenamento jurídico
brasileiro, isto porque, os poderes outorgados ao Chefe do Executivo, concedia a ele intervir
nos Estados e Municípios sem quaisquer restrições, suspendendo direitos políticos, caçando
mandatos eletivos, inclusive suspender as garantias dos habeas corpus em casos de crimes
políticos e contra a segurança nacional.

Art. 150, § 8º. É livre a manifestação de pensamento, de convicção política ou


filosófica e a prestação de informação sem sujeição à censura, salvo quanto a
espetáculos de diversões públicas, respondendo cada um, nos termos da lei, pelos
abusos que cometer. É assegurado o direito de resposta. A publicação de livros,
jornais e periódicos independe de licença da autoridade. Não será, porém, tolerada a
propaganda de guerra, de subversão da ordem ou de preconceitos de raça ou de
classe. (BRASIL, 1967)

Assim sendo, os efeitos da Emenda Constitucional de 1969 e do AI-5 que as liberdades, e


consequentemente, a liberdade de pensamento e expressão sofreram suas maiores represálias
na história brasileira.

4.4 A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988

Com o fim do período ditatorial e o processo de redemocratização do Estado brasileiro, que


culminou na promulgação da Constituição Cidadã, isto é, a Constituição de 1988, trouxe ao
ordenamento jurídico brasileiro a maior proteção a direitos fundamentais antes vistos na
história.

A referida Constituição, considerada um marco sem precedentes para o sistema


democrático brasileiro, reconheceu sem qualquer tipo de distinção a todo e qualquer
indivíduo o direito de formar opiniões através de seu juízo pessoal de valores e manifestar
suas opiniões seja de forma escrita, falada ou pelos meios de comunicação.
No que tange à liberdade de expressão na atual Carta Constitucional brasileira, ela encontra-
se elencada no rol dos direitos fundamentais e é protegida pelo instituto jurídico das
cláusulas pétreas, ou seja, não pode ser abolida da Constituição.

Acerca do tema, dispões Meyer-Pflug:

A liberdade de pensamento, de expressão, ideológica e de reunião passam a ter


destaque, igualmente, como a vedação a toda e qualquer espécie de censura ou
licença. A liberdade de imprensa é valorizada como um elemento necessário à
democracia e a promoção do debate público. (2009, p. 65)

Isto porque, trouxe a consciência de que a liberdade de expressão é fundamental para a


democracia, e para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Por isto, tem-se
aí a importância da garantia da liberdade de pensamento e de expressão.

5 A DEFESA DA LIBERDADE DE PENSAMENTO COMO ATRIBUTO


FUNDAMENTAL DA EXISTÊNCIA DA DEMOCRACIA

O conceito de democracia não é algo perfeito, estático e acabado, ao contrário, é algo


dinâmico, em constante aperfeiçoamento, visto que sua construção e aprimoramento ocorrem
a partir dos acontecimentos históricos continuados.

Para tanto, basta um giro pela história para se perceber o quanto a democracia tomou novas
formas no decurso da historia da humanidade, ou seja, o que na Grécia era uma prerrogativa
apenas dos homens livres e iguais, nos dias de hoje, busca-se, ao máximo, atingir a todos os
homens, isto porque parte-se do pressuposto de que todos são livres e iguais. E ai está o cerne
da democracia, qual seja a liberdade e a igualdade.

Já dizia Aristóteles "Se a liberdade e a igualdade são essenciais à democracia só podem existir
em sua plenitude se todos os cidadãos gozarem da mais perfeita igualdade política."
(ARISTOTELES, 2002, p. 45)
Lado outro, Willian Kerby, citado por Kildare Gonçalves de Carvalho, vai dizer que a
democracia está atrelada à forma de vida do homem social e só em seguida à política em que
está inserido.

A democracia é primariamente social, moral e espiritual e secundariamente política.


É uma filosofia de vida, tanto como uma teoria de governo. É inspirada por um duplo
conceito do indivíduo, da dignidade de sua pessoa, da santidade de seus direitos, da
exigência de suas potencialidades em direção a um movimento normal. (KERBY
apud CARVALHO, 2004, p. 127)

Ou seja, “mais do que uma forma de governo, é um modo de viver associados, de conjunta
experiência comunicada”. (CARVALHO, 2004, p. 127)

Observa-se, que, entre uma corrente e outra, algo que se é inegável é que a democracia se faz
no espírito de liberdade. A propósito, o fundamento da constituição democrática é a liberdade.

A esse propósito, afirmava Aristóteles, citado por Paulo Fernando Silveira:

A base do Estado democrático é a liberdade, a qual, de acordo com a opinião comum


dos homens, só nele pode ser desfrutada. (...) o homem deve viver como gostar (...),
pois, de outra forma, não viver como gostar é a marca do escravo (...) de onde o
homem tem levantado o clamor dos homens no sentido de não serem governados por
ninguém, se possível, ou, se impossível, governarem e serem governados em turnos;
assim, isso contribui para a liberdade baseada na igualdade. (ARISTOTELES apud
SILVEIRA, 1999, p. 35)

Nesse diapasão, a democracia foi proclamada como um dos direitos universais e fundamentais
do homem, baseado, como dito, na liberdade e na igualdade.

A propósito, liberdade, outro conceito amplo e com uma definição complexa, pode assim ser
definida, nas palavras de De Placido e Silva:

No conceito jurídico, a faculdade ou o poder outorgado à pessoa para que possa agir
segundo sua própria determinação, respeitadas, no entanto, as regras legais
instituídas (...), pois, exprime a faculdade de se fazer ou não fazer o que se quer, de
pensar como se entende, de ir e vir a qualquer atividade, tudo conforme a livre
determinação da pessoa, quando não haja regra proibitiva para a prática do ato ou
não se institua princípio restritivo ao exercício da atividade. (SILVA, 2014, p.1284)
Registra-se, através de uma simples inferência, que a liberdade se dá nas mais variadas
atuações do homem cidadão, político. Ela se externa no direito de ir e vir, no agir consciente,
no fazer e não fazer, no pensar e etc., por isto considerado um direito fundamental.

A liberdade de pensamento, enquanto direito fundamental, encontra guarida na Constituição


Federal de 1988, sobretudo, na conjugação dos seus artigos 5º, inciso IV, com o dispositivo
220, que assim prescreve:

Art. 5.º, IV – É livre a manifestação de pensamento, sendo vedado o anonimato;


(...)
Art. 220 - A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob
qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o
disposto nessa Constituição. (BRASIL, 1988)

Isto porque, faz parte da natureza do ser humano a comunicação com seus semelhantes, como
forma de sociabilidade, ou seja, nada mais normal que as pessoas exponham suas ideias em
rodas de amigos, ou mesmo em assuntos profissionais, etc. Quando a pessoa expressa os seus
pensamentos está, na verdade, mencionando suas opiniões, convicções sobre qualquer assunto,
seja este assunto de importância ou de valor, ou sem nenhum valor relevante. Trata-se, pois,
da liberdade de expressão do pensamento, que, na verdade nada mais é do que um juízo de
valor,um externar de uma reflexão interna de quem está pensando. E nada mais democrático
são as opiniões contrarias.

Acerca da liberdade de expressão enquanto garantidora da democracia, a senhora ministra


Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, assim manifestou na abertura do
seminário sobre os 30 anos sem censura: a Constituição de 1988 e a liberdade de imprensa,
promovida pelo CNJ na sede do STF, em Brasília.

Sem imprensa livre, o Poder Judiciário e o Estado não funcionam bem (...).
Assegurar a liberdade de expressão é requisito para a garantia das demais liberdades
fundamentais. Isto, pois, quem não tem direito à liberdade de expressão não tem
garantia de qualquer outro direito porque a palavra é a expressão da alma, do
pensamento. (CNJ, 2018)

Assim, a liberdade de pensamento e de imprensa, torna-se uma das manifestações mais


importantes da liberdade de expressão, pois é fundamental para a cidadania. Precisamos de um
país onde cada cidadão possa exercer a sua liberdade de maneira crítica e bem informada. Por
isso precisamos da mídia, da imprensa livre e de todas as formas de comunicação cidadã. No
entanto, a própria liberdade de expressão e de imprensa parte do primeiro pressuposto, que é o
pensamento livre.

A possibilidade de pensar livremente está contida em todas as pessoas que gozam de saúde
mental e possuem o mínimo de discernimento, portanto cabe a cada pessoa controlar aquilo
que pretende exteriorizar, visto que mesmo gozando de liberdade não está imune às suas
consequências.

6 A LIVRE MANIFESTAÇÃO PENSAMENTO NOS LIMITES DA LEI POSTA E O


JUDICIÁRIO COMO SEU GARANTIDOR

A liberdade de pensamento, como demonstrado, está intimamente ligada à natureza do homem


e por isto defesa em lei como um direito fundamental. Todavia, nenhum direito é em todo
absoluto, assim sendo, o exercício desta liberdade não está imune a regras e consequências em
caso de abuso, ou seja, o dano indevido à imagem, à vida privada, à intimidade e à honra pode
gerar a responsabilidade de quem o tenha causado.

O artigo 5º da Constituição Federal assim dispõe:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade
do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes: (...)
IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização
por dano material, moral ou à imagem; (...)
X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas,
assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua
violação. (grifo nosso). (BRASIL, 1988)

No entanto, nota-se, que, como se trata de uma responsabilidade pelo dano causado, ela deve
ser sempre avaliada posteriormente a externação do direito, e nunca antes, sob pena de
censura. É o que defende Sergio Gardenghi Suiama e Luis Gustavo Grandinetti de Carvalho,
citados por Camila Cardoso de Andrade.
Não pode o Estado impedir uma informação ou idéia de circular, ainda que essa
informação ou idéia afronte direitos fundamentais. A pessoa ou órgão que, no
exercício de seu direito de expressão ou informação, violar direitos de terceiros
deverá responder civil, penal e mesmo administrativamente pelo abuso, nos termos
da legislação infraconstitucional em vigor. A indenização expressamente prevista no
art. 5o, V e X, da Constituição terá nessa hipótese uma dupla função: a satisfação
material e moral do ofendido e a punição do infrator pelo fato de haver ofendido um
bem jurídico da vítima. (SUIAMA apud ANDRADE, 2017)

Qualquer restrição deve ser determinada por ordem judicial, mediante o devido
processo legal. E, mesmo o Poder Judiciário só deve impor qualquer restrição à
liberdade de expressão quando for imprescindível para salvaguardar outros direitos
que não possam ser protegidos ou compostos de outro modo menos gravoso.
Especialmente, a concessão de liminares só deve ocorrer em casos muitíssimos
excepcionais. Na maioria das vezes, o direito invocado pode ser perfeitamente
composto com a indenização por dano moral, o que é melhor solução do que impedir
a livre expressão. (CARVALHO apud ANDRADE, 2017)

E a definição destas consequências cabe ao Poder Judiciário definir. Essas foram as palavras
do excelentíssimo senhor ministro do STF, Celso de Mello, no voto da ADPF 130/DF, que
julgou a incompatibilidade da Lei de imprensa com a Constituição Federal.

Disse o ministro:

A mesma Constituição que garante a liberdade de expressão, frisou Celso de Mello,


garante também outros direitos fundamentais, como os direitos à inviolabilidade, à
privacidade, à honra e à dignidade humana. Para Celso de Mello, esses direitos são
limitações constitucionais à liberdade de imprensa. E sempre que essas garantias, de
mesma estatura, estiverem em conflito, o Poder Judiciário deverá definir qual dos
direitos deverá prevalecer, em cada caso, com base no princípio da
proporcionalidade. (BRASIL, 2009)

Em sentido contrário, entendendo ser possível a atuação do Poder Judiciário anterior a


divulgação da informação está Luis Guilherme Marinoni e José Henrique Rodrigues Torres,
citados por Camila Cardoso de Andrade:

Os direitos de personalidade não podem ser garantidos adequadamente por uma


espécie de tutela que atue somente após a lesão do direito. Admitir que tais direitos
apenas podem ser tutelados por meio da técnica ressarcitória é o mesmo que dizer
que é possível a expropriação destes direitos, transformando-se o direito ao bem em
direito à indenização. Não é preciso lembrar que uma tal espécie de expropriação
seria absurda quando em jogo direitos invioláveis do homem, assegurados
constitucionalmente. (MARINONI apud ANDRADE, 2017)

O Poder Judiciário pode intervir previamente, de modo cautelar na liberdade de


informação jornalística, sem que tal atuação se confunda com a censura prévia. O
cidadão não pode ser obrigado a aguardar a efetivação do dano nem pode ficar
inerme diante de uma ameaça a um direito, ainda que essa ameaça provenha do
exercício da liberdade de informação jornalística. Assim, o controle jurisdicional
prévio dos abusos da liberdade de imprensa, exercido sempre e exclusivamente pelo
Poder Judiciário, é cabível e admissível pela ordem constitucional democrática
vigente. (TORRES apud ANDRADE, 2017)

Nota-se, que o direito a liberdade de pensamento e expressão no todo, goza de uma liberdade
essencial à democracia, que só encontra limites nos próprios direitos fundamentais, sobretudo
no tocante ao direito à honra, à intimidade e a imagem. E a essas consequências ou
previsibilidades cabe apenas ao Judiciário decidir sobre qual o direito a ser aplicado no caso
concreto, conforme prevê a Constituição Federal, em seu art. 5º inciso XXXV, que dispõe “a
lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito.” E ainda assim,
embasado na proporcionalidade, advertiu Faúndes Lederna, citado por Maxwell:

As autoridades incumbidas de solucionar o conflito devem exercer a ponderação de


forma equilibrada e prudente não apenas quanto à necessidade de se promover a
restrição à liberdade de expressão, mas também quanto ao meio mais apropriado de
restrição, tudo isso para que não se destrua a essência da liberdade de expressão.
(LEDERNA apud MAXWUELL, 2007, p. 38)

Nesse sentido, o Judiciário assume um papel de suma importância na tênue linha que separa a
liberdade que exige esse direito fundamental das consequências por ele atribuída à outros
direitos fundamentais não menos importantes.

7 CONCLUSÃO

Por todo o exposto, tem-se que a liberdade de manifestação do pensamento e de expressão


constitui a base fundamental para uma sociedade mais justa e igualitária, motivo este que
levou a atual Constituição Federal opor-se a ordem anterior, repudiando quaisquer formas de
censura a este direito fundamental e mais, estabelecendo-o como a expressão essencial aos
alicerces do Estado Democrático de Direito.

Possível ainda é vislumbrar que mesmo gozando de liberdade, o dito direito fundamental a
liberdade de pensamento e expressão encontram seus limites nos próprios direitos
fundamentais, no sentido de garantir que o seu exercício não seja abusivo e atinja outros
direitos e valores consagrados constitucionalmente. E por último o importante papel do
Judiciário no controle da garantia entre a efetividade do direito fundamental aplicado como
um todo, o que justificou a súplica de Rui Barbosa na impetração do Habeas Corpus
objetivando o seu direito de pensamento e reunião.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Camila Cardoso. Regime Constitucional da Liberdade de Expressão.


Disponível em: < https://jus.com.br/artigos/55276/regime-constitucional-da-liberdade-de-
expressao/1 >. Acesso em 19/07/2018.

ARISTOTELES. A política. Traduzido por Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martins Fontes,
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