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1931 S71
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Livros de Flora Rheta Schreiber FLORA RHETA SCHREIBER
THE SHOEMAKER
SYBIL •

o
SAPATEIRO
A Anatomia de um Psicótico

Schreiber, Flora Rheta


S411s
O Sapateiro: a anatomia de um psicótico / Flora
Rheta Schreiber: — tradução de Vera Ribeiro J —
Rio de Janeiro: Imago, 1985.
Coleção Romance e Psicanálise
(Coleção Romance e pslcanállsei
Direção de JAYME SALOMÃO
Tradução de: The shoemaker

1. Kallinger, Joseph, 1930 2. Crimes e crimino-


sos — Estados Unidos — Biografia 3. Criminosos
loucos — Estados Unidos — Biografia I. Ribeiro,
Vera II. Titulo III. Série
85-0497
CDD — 384.15230924
IMAGO EDITORA LTDA.
Rio de Janeiro

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A ANATOMIA DE UM F-111C, 0 ' ...
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. rios em 'decorrência de sua confiança na autora. Ela, por sua Vez,:
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• horrores dos demônios inconscientes que nos: perseguem &todos";

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Flora Mista Schreiber é autor* de Sybil, o bemumeasilar cho•
mulher
posa a explosivo que explorou a mente de
cante
por personalidades múltiplas. Seu novo livro. há
multo esperado, é • histeria verldlca de um homem possul•
do por demônios. de um homem colos impulsos humanos
decentes e comuns foram distorcidos e desviados, transigir.
mendo-se numa esmagadora compulsas de matar e destruir. O SAPATEIRO: A ANATOMIA DE UM PSICOTICO
Tel como os estudos clássicos sobre o ato criminal. ia
como In Cold Blood. Heitor Similar e lhe ExecutIoner
Song, O Sapateiro é, num determinado nivel, uma recria- -
clio brilhante e aterrorizador, de um crime que chegou as
rrrrr história de um homem que embarcou
bizarra
Há menos de uma década, os habitantes dos Estados e Pen rie
disnzhatcs:
numa onda a de roubos. eetupros e. finalmente. aaaaaa Inato.
Contudo. além desse dolorosa e comovente reconatruglo dos silvânia, Maryland e Nova Jérsei ficaram estarrecidos com u a sé
monteclmentos. a Professora Schreiber conduvnos nume e seu filho adolescente invadia casas,
viegem extraordinária para o Interior da mente • de alma
de crimes eme que um
roubavam os moradores e, por vezes, g iam-nos
de Raramente
um psicótico. um livro iluminou com tal clareza e paixlio
amarravam
sexualmente. A onda de crimes c g ao ápice com livro
o assass
abs nato de
mente que é. e um só tempo, sasuatedor e
um terreno is Joseph KallInger é tento poeta quanto Neste rvente,
ecoo •
fascinante
homicida. — tento pel amoroso quento assassino de um de uma enfermeira em Leonia, Nova Iérsel
seus premies filhos, tanto marido dedicado quanto estuprar Schreiber, a autora de Sybil, conta a história dos criminosos, concen-
sonhador quanto um homem obcecado
dor maligno, tento trando-se primordialmente em 1oseph Kallinger, um sapa eiro da
per pesadelos de horror e destrutflo.
O Que loa de Sybil um bifas asilar tio extraordinário
fel e singular combinação de sensibilidade. habilidade •
vo de 38 anos, que conduziu essas expedições. Kallin , filho
COmOreensto com que Flora Ilheta Schrelber desvendou es adotivo de pais imigrantes que eram distantes e frios, salvo quando
camadas ocultas de uma personalidade múltipla. Em O Se-
peleiro. ela mergulhou com igual hebilldade no mundo eram despertados para a raiva e o brutalizavam selvagem nte, foi
adoti
complexo de Joseph KallInger. A partir de milhares da
horas de entrevistei, a Professora Sehrelber oe contatos
obteve de mantido isolado das outras criançasassou a sentir-se to almente
Kallinger e história de urna vida em que todo*
humanos pareciam destinados e seu paroxismo final da
inadequado e profundamente indesejado. Seu primeiro casam rato ter-
terror — que, visto retrospectivamente. era MIO *pensa• minou em fracasso, e o segundo se deu com uma mulher singular-
orevislvel. como também pessIvel de prevençáo. A tecle
dada — professores, policiais.doença
Mime ee ate psiquiatras
deixou —
de aludá-lo
mente passiva. Sua psicose cresceu até irromper, finalmente, em
sue
ignorou ou interpretou mal
mesmo quando ele Implorou aluda. Repetidamente, os sl• três assassinatos, inclusive o de um de seus próprios filhos Com-
nela de advertência de ume pertionelidede em processo des pieensiva demais para com Kallinger, Schreiber chega quase a su-
desIntegraçáo forem Ignorado'. tal como se necessidade
de KallInger tinham eido ignoradas em sua Infanda. Aban- gerir que o filho Michael, de 13 anos, foi a força motora; por trás
donada pela meie, maltratada e perseguida
~Doada,pelos palaseus
tendo ado-
foi
tivos,
sonhos aquele criança
pervertidos anelai alucinatórios de pesadelo
no imagens dos atos de violência do pai.
o homem adulto.
queEm O Sapateiro, Flora 'Ilheta Schteibm nilo apenas re-
OtleeeSTIM Publishers Weekly, 5 de junho ; de 1983
velou a vida • • mente escrete. de um homem consumido
pelo mel, • despeito de si ~MO. como também chanca
que • logrou
êxito em descobrir o exato momento em
aenalvel MI trarstorMada nume criatura cuias fantasias
cada vez mele abetume e compulsivas dirigirem-se des-
finalmente,Mexe
as vieses violentes antes.
nweinsente per.
truirem • ela e a sues vitimes InOcentes.
reveleglo de que a doença de Kel-
descoberta •-- a
Unger
ElaImprimiu-se em seu subconsciente num único a ter.
erre
rival momento de castigo pelos pela adotivos, que agirem
por tombeis e em função de sua OrdMrles floceos
nem sobre a crisflo de filhos — está no cerne de um
livro que I, II um tempo, um marco em nona compreen.
rUE SHOEMAKER
Cppyright hl) 1983, 1984 by Flora Rheta Schreiber

Agradecimentos
EDITORAÇÃO
Coordenação: Márcia Salomão Pech e lia Marques da Silva
Tradução: Vera Ribeiro
Revisão: Edson de Oliveira Rodrigues

Cabe-me agradecer às pessoas que me tornaram possível trabalhar


1985 com Joseph Kallinger. O Dr. Samuel S. Klein apresentou-me a
Malcolm W. Berkowitz, advogado de Kallinger na Filadélfia, que,
juntamente com Arthur .F. Abelman, qué me representava, redigiu
meu contrato com Joseph e.Elizabeth Kallinger. Berkowitz também
me apresentou a Paul J. Giblin, o advogado que consta nos autos do
Direitos adquiridos por IMAGO EDITORA LTDA. julgamento de Kallinger por homicídio, em 1976, no Condado de
Bergen, Nova Jérsei.
Rua Visconde de Pirajá, 550 — loja 324
Giblin garantiu-me acesso a Joseph Kallinger através da obten-
Riô de Janeiro — RJ
ção de •uma ordem da Divisão de Apelações do•Tribunal Superior de
Teis.: 274.8297 — 294-9391 Nova Jérsei e da manutenção dessa ordem pela Suprema Corte de
Nova Jérsei. Entretanto, devido à solicitação da promotoria à Divi-
são de Apelações 'para que eu fosse citada por desacato a urna de-
disãO legal, o acesso so'se tornou possível depois que uma junta de
juizes, encabeçada por Robert A. Matthews, recusou-sé a fazer a
Todos os direitos de reprodução, divulgação e tradução são citação.
reservados. Nenhuma pane desta obra poderá ser reproduzi- No Condado de Bergen, quero também agradecer ao juiz Tho-
dapor fotocópia, microfilme ou outro processo fotomecánico. mas A. Dalton; aos membros do Departamento de Polícia de Leonia,
especialmente o chefe de Polícia Manfred Ayres, o tenente Paul
Dittmar, o detetive Mashiriskf; ct, sargento Robert MacDougall e o
sargento.Chase (aposentado)j . a Alden Todd e ao prof. Joseph Mu-
iio, chefe do Comitê de Polícia do Conselho Municipal de Leonia;
Impresso no Brasil a Katina Colornhotos e outros amigos de Maria Fasching; aos profes-
Printed in Brazil sores Donal E. J. MacNamaia e Raythond Pitt, da Faculdade de Jus-

7
empregado de Joseph Kallinger; Edward P. Aleszczyk, pel0s regis-
tiça Criminal John Jay, e ainda a Dorothy Guyot (anteriormebte da tros dos incêndios (o incêndio do reboque e também os proWocados

Renner,
John Jay), que residem em Leonia. por Kallinger); pelos pais adotivos de Michael; por Judith
Em Camden, Nova Jérsei, quero agradecer ao juiz I. V. Di Mar- mãe de Joe, e por Mudei Gotshalk, sua meio-irmã.
possível minhas entrevista K com
tino por assinar a ordem que tornou s allin- Pelas longas entrevistas comigo, desejo agradecer a Joan te Harry-
Joseph Kallinger; ao falecido Bruce Robboy, advogado de Bogin, Ethel Fisher Cohen e AnnapearhFranks
ger; a Doris C. Guetherman, do Departamento de Sursis do Condado Carty, Helen e Henry
ton, cujas experiências são recontadas nestas páginas.
de Camden; e, por suas muitas gentilezas cotidianas, ao diretor subs- Agradeço ao reverendo Erick Hayden por seu trabalho sobre o
tituto do Presídio, Eugene Salerno. cântico do Kristorah; a Frank Reichl, irmão de Anna Kallin er (e a
No Condado de Dauphin, na Pensilvânia, cabe-me agradecer por seu filho), que mora no Canadá; ao já falecido Stuart Long; , Emma
. Do ewling, ao
muitas horas de entrevistas intensivas ao juiz John C rm p o- Long; ao professor Ben Termine; a Lucy Freeman; a Bernice e Irving
juiz William W. Lipsitt, ao promotor LeRoy Zimmean ao r Statman; a Helen e John Vogel; ao falecido John Schreiber; a vários
motor substituto Richard Guide. advogados; a Deborah Glass, uma promotora assistente no Itilgamen-
Na Instituição Correcional do Estado em Huntingdon, Pensil-
ao diretor de to de Kallinger por maus-tratos aos filhos; ao advogado-absistente
vânia, desejo agradecer ao superintendente Lowitt; Federal de Defesa David Ruhnke; a Charles Swigart; a Phillib Kahn;
Tratamento, Dennis Erhard; ao Dr. Frederick Warwrose, psiquiatra; e a Steven Maury Greenberg, da agência Morrill Cole, em Rochelle
ao oficial Dell, e ao diretor de Educação, Stephen Polte. Park, Nova Jérsei; ao juiz Glancey, do Tribunal Municipal da Fila-
O Hospital Estadual de Farview, em Waymart, na Pensilvânia, délfia; e aos jornalistas Thomas Gibbons (na época pertenc-nte ao
forneceu-me uma cooperação maravilhosa durante mais de quatro dhia lnquirer),
aos superintendentes Ro- Philadelphia Bullctin, e agora trabalhando no Philaelp tes do
desejo expressar minha gratidão
anos, J.eHammel, Jay; Ken Shuttleworth (do Camden Courier-Post), Ron Avery (an
Toei H. Hersh, Dele E. Newhart e David W. ; Camden Courier-Post e agora trabalhando como freelance),{ e Steve
bert Auxiliares Psiquiátricos de Segurança, John Baldno
ao diretor dos Kel- Jackson (antes pertencente ao Huntingdon Daily News).
is secretárias dos superintendentes, Sandra Thorpe e Barbara O mérito pela publicação deste livro cabe a minha agente, Pa-
Dr. Ralph Davis, Dra. Marcella Shields, Dr. Ro-
logg; aos terapeutas Anthony tricia S. Myrer, da McIntosh and Otis, e o mérito por mantê-lo em
nald Refine e Thomas Brennan; aos Drs. Norman Wenger, circulação cabe a Michael Korda e John Ilerman, da Sinion and
Falvo, Gerald Stanvich, Thomas Warnson e John e Joan Gorei,
bem como a Jerry Lewis, superintendente adjunto; e a uma multi- Schuster, e a Catherine Shaw, ex-funcionária da Simon and Schuster.
de supervisores e auxiliares psiquiátricos de segurança. Mas há que render homenagem a minha própria equipe. John
plicidade este livro as descobertas de psiquiatras como Shapiro não apenas datilografou o manuscrito como também, en-
Foram cruciais para
falecido Dr. Silvano Arieti e o Dr. Lewis Robbins,mencionados leitor, foi um critico incisivo e imaginativo e um auxiliar lite-
o Dominick Barbara, que analisou quantoindispensável. James McLain fez o primeiro contato com Hilda
nestas páginas, e também do Dr. rário e
alguns dos sonhos de Joe Kallinger. Igualmente cruciais foram os Bishop Kallinger, a primeira mulher de Joe, e realizoutbe a squa
exames do neurologista Dr. Howard Hurtig e do Dr. Edward Bird, representou- numa
jornalística sobre José Collazo. Curtiss Sayblack
juiz Dalton. O falecido Brian Kiernan com-
especialista em coréia de Huntington. importante consulta ao
Uma dívida especial de gratidão é a que tenho para com o Sr. plementou meu trabalho com os pais adotivos de Michael. Paul Guz-
seu hercúleo esforço detetivesco de encontrar man ampanhou-me rularmente
eg a Camden e Farview e esteve
Arthur L. Gutkin, por co e entrevista com o vizinho que descreveu o
a mãe e a meio-irmã de Joe, assim como descobrir fatos relacionados presente a uma important
L. outras brutalidades infligidas a Joe, quando
com o nascimento de Joe e sua criação adotiva. ações de
observações incidente do zoológico e
Este livro adquire maior significado graças às criança. Linda Frenchessetti não apenas esteve presente nessa entre-
conheceram Joe na infância e durante seu primeiro e a providenciou. Flossie Simmons foi gerente do
L vizinhos que vista, como também.
segundo casamentos. Importantes contribuições foram também tra- escritório e auxiliar de Joe Kallinger.
• ririas por Carol Dwyer, professora de Joseph Jr.; Richard Kimmel, 9

8
• A familia Kallinger — Elizabetbi Mary Jo; Stephen, 'Bonnie e
James — trouxe uma ajuda indispensável, Ao relatar conversas que
teve com urna vizinha, James forneceu-me a primeira pista do fato
de que seu pai fora uma criança submetida a maus-tratés. Em es;
pecial, quero agradecer ao próprio Jue, não 5 por sua ajuda -factual
na localização de pessoas e por -
seus esforços ho'sentido de garantir
meu acesso a ele em Camden, porém, mais 'ainda, por muitos milha,
res de bons de profunda e dolorosa' revelação.

A John Shapiro, meu alter ego nesta


obscura odisséia.
MUDANÇA DE NOMES

Usei nomes reais nestas páginas sempre que tais nomes apareceram
nos meios de comunicação — jornais, revistas, rádio e televisão —
ou durante algum julgamento e, posteriormente, nos registros do
testemunho. Assim sendo, os seguintes nomes diferem do que são na
realidade: Judith Renner Scurti, ;ames Scurti, Muriti Gotshalk,
Kallin-
Deve Gotshalk, Tony Patelli, Lillian Rogers, Hilda Bishop
ger, Hilda Bishop (Srta.), Hans Ibler, Freddy Prime, Thomas Bleck,
Bobby Vane, e johnny, Willie c Susan Strong, Medir: Slocum, Da'a
fi ). Com
acho
vid, Irving e Sarah Renner, e Willie (o menino do riodi
finalidade de dificultar ainda mais a identificação, mquei
de faera rua onde
bém nomes de lugares: Masher Street não foi nem to a Pelethorpe
moraram Joe Kallinger e sua primeira esposa,
Street o lugar Hilda morava antes de casar-se com Toe.
Sumário

Prólogo
17
Livro Um — Infância
1 — O Demônio do Passarinho
2 — A Criança Descartada 23
3 — Dois Contra Um 31
4 — A Criança Enraivecida 42
51
Livro Dois — O Sonho da Família
5 — O Mundo Secreto
6 — Amor, Minha Hora e Minha Vez 71
7 — Sem Saída 100
117
Livro Três — A Descida ao Inferno
8 — O Castelo do Sapateiro
9 — O Motim no Castelo 135
10 — O Rei Despido 150
11 — Os Deuses Totais 174
12 — A Prova da Força 193
13 — A Última Canção 213
14 — Caso Número 4003-74 223
15 — Beco sem Saída 251
16 — Retaliação 259
269
Livro Quatro — O Massacre da Humanidade
17 — Um Presente para Bonnie
18 — Reuniões Domésticas 281
19 — A Faca de Caça 299
314
Lino Cinco — Fora do Mundo Para Sempre
339
20 — O Senhor é um Homem Ruim 352
21 — Sem Liberdade para Morrer 364
376
Prólogo
22 — O Defensor Algemado
23 — Prisioneiro K-2719 3934
24 — As Colinas Intermináveis 41
Apêndice 1 — Poemas de Joseph Kallinger 426
Apêndice 2 — Notas da Autora 433
Indice Geral 439
Indico Psicológico
Ao escrever Sybil, fiz uma surpreendente viagem com uma mulher
possuída por dezesseis personalidades separadas. Aos três anos e
meio, ela deixara de ser uma pessoa; aos quarenta e dois, voltou a
. " ocê nu nca
sê-lo. Isso só ocorreu após onze anos de psicanáliseacoV r dar de ma-
saberá", disse-me a Sybil integrada, "o que significa .
nhã e saber que dispõe de um dia inteiro como você mesma!"
t. Com Joseph Kallinger, objeto deste livro, fiz outra viagerrn psi-
cológica — uma viagem de seis anos para o interior de sua vida, sua
mente e seus crimes. Embora não sendo uma personalidade mútipla,
também ele estava possuído. da Filadélfia, t seu
Quando Kallinger, um sapateiro de 38 anos em 17 de emelt() de
filho Michael, então com 13 anos, foram presos
1975, houve choque e consternação diante da sociedade paigilho.
Houve também terror diante do fato de que, em sete semanas, a
contar de 22 de novembro de 1974, a dupla invadiu cinco casas de
bairros elegantes da Pensilvânia, Nova Jérsei e Maryland; e houve
ainda horror pelo que aconteceu na última invasão.
Nessa invasão final, numa pequenina cidade de Nova Jérsei, pai
e filho mantiveram oito pessoas como reféns e Kallinger assassinou
uma mulher. O assassinato foi pavoroso, brutal e sanguinário, Masa
não foi cometido, como se acreditou em geral, por ter-se a vítim ente
recusado a manter relações sexuais com Kallinger. O que realm
aconteceu será narrado nestas páginas. homicídio d iziam:
As manchetes durante o julgamento pelo
17
Kallinger descrito como esquisito; Kallinger legalmente são, atestam
dois psiquiatras; dois psiquiatras dizem ao Júri do homicídio ras de cada vez, cara a cara, tenho certeza de que vou conse-
que
Kallinger é louco; promotor designa Kallinger como assassino que guir lembrar-me com mais clareza e sinto que esse julgamento
finge insanidade; Kallinger era obcecado pelo sexo, diz psiquiatra; do Condado de Camden será justo e correto".
Kallinger tenta suicídio; Kallinger culpado de assassinato; Kallinger
na prisão até 2021.
Em Camden, onde, dois meses depois de receber a carta, co-
Encontrei Kallinger pela primeira vez em 19 de julho de 1976. mecei a manter longas conversações diárias com Kallinger, os mur-
Ele estava na Cadeia do Condado de Bergen aguardando julgamento múrios desdobraram-se numa torrente de recordações. Ali, nosso
por homicídio. Ali, durante 84 horas de visitas de contato, ouvi o relacionamento cresceu e sua confiança aprofundou-se. Ele começou a
murmdrio de fantasmas invisíveis e obtive minhas primeiras pistas lembrar o que até então estivera enterrado em seu subconsciente; e,
quanto à natureza de sua possessão. Em 14 de outubro de 1976, ele relembrando, fez-me terríveis revelações. Essas revelações também
loi condenado à prisão perpétua pelo assassinato e, em seguida, trans- serão encontradas neste livro.
ferido para 9 Cadeia do Condado de Camden para aguardar julga- Kallinger fascinou-me. Era falante e analítico, encantador, inte-
mento pela primeira das invasões domiciliares conhecidas. Numa ligente e poético. Extraordinariamente sensível, era também um assas-
carta que me escreveu de Camden em 17 de abril de 1977, ele voltou sino incapaz de saber a diferença entre suas visões e a realidade,
a chamar-me a atenção para um terror que já me havia expressado entre os fantasmas que o assombravam e as pessoas que pensava es-
em Bergen. Estava aterrorizado porque perdia e recuperava o contato tarem tentando destruí-lo. Era repleto de paradoxos.
com a realizade; após o período de irrealidade, tinha consciência de À medida que fui vasculhando a mente de Joe, percebi estar
que algo assustador lhe havia acontecido. Sua carta, endereçada a percorrendo parte do mesmo terreno por onde viajara com Sybil. Com
mim na Faculdade de Justiça Criminal John Jay Cidade de Nova Joe, tal como com Sybil, eu estava explorando a psicologia normal
Iorque' dizia: e um padrão de desenvolvimento extraordinário. Ambos eram víti-
mas de maus-tratos infantis e de atitudes parentais destrutivas em
"Por favor, venha ajudar-me aqui na Cadeia do Condado relação a eles. A ambos fora negado o direito da criança' à auto-rea-
de Camden. Preciso de ajuda para encontrar a mim mesmo e r lização. Sybil defendeu-se desses problemas transformando-se numa
só me sinto à vontade quando converso com você frente a personalidade múltipla, com cada um de seus eus a protegê-la de
frente, como fizemos durante tanto tempo na Cadeia do Con- um trauma específico. Um desses eus, Peggy Lou, lidava com a raiva
dado de 13ergen. Confio em você e sempre me sinto melhor de Sybil. Joe não teve tal tipo de mecanismo de defesa. Seu ódio in-
depois de nossas conversas. flamou-se, e depois explodiu. Tornou-se louco, e o ódio era um dos
Se pudermos esclarecer meus pensamentos, posso discri- elementos de onde proveio a loucura.
minar as visões e a vida vivida, logo, isso é importante não só Este livro versa sobre o crime, mas é essencialmente uma ex-
para mim, mas é muito importante para eu dizer ao tribu- ploração da loucura.. E o primeiro olhar interior — isto é, interno —
nal aqui.
para um assassino psicótico; um homem cuja .psicose o leva a matar.
A confiança é importante para mim. E preciso saber a Õassassilio— psicótico_ -é _muito diferente de um assassino sico-
verdade, senão a vida não vale a pena, e s6 confio em você. pata. Este último mata por dinheiro ou pelo. prazer. de malar, enquan-
Sei que você não é médica, mas tem a experiência de uma to O– primeiro o faz por causa de *sun psicose. Joseph Kallinger nunca
vida inteira trabalhando com a vida e fazendo pesquisas em se teria transformado num matador sem sua psicose. Com ela, não lhe
muitos campos de textos psiquiátricos. restou alternativa. Isso não significa que todos os psicóticos sejam
Assim, se você puder vir todas as semanas, por várias ho- assassinos, mas sim que o assassinato foi o efeito inevitável da psi-
cose de Kallinger.
Rastreei com Kallinger, ao longo de muitos milhares de horas
• Em John Jay, além de professora, sou diretora de Relações lzhiblIcas e
assistente do presidente. de conversa durante um período de seis anos, a origem e o desen-
volvimento de sua psicose e de seus crimes. Esse rastreamento, essa
18
19
reconstrução, foi .adicionalmente interpretada por um psiquiatra de
renome mundial, que examinou Kallinger como paciente particular.
Além disso, houve também, é claro, muitas outras vias de pesquisa.
áinas que se seguem contem_uma história e investigam a

-
Aspa
loucura. Mas fornecem também uma explicação documentada do com-
portamento criminal de um homem. O caso de Joseph Kallinger já
Livro Um
se transformou num marco na psiquiatria. Por essa razão, a Acarte-
mia Norte-Americana de Psicanálise, em sua conferência de maio de
1982 em Toronto, convidou-me a apresentar um trabalho sobre
Kallinger.
O trabalho foi surpreendente e de excepcional interesse científico
porque, nele, estreei a gênese do assassinato aos maus-tratos infli-
Infância
gidos na infância, a partir de um incidente infantil específico, que que
se converteu na origem tanto de uma psicose quantoente dossintomáticos
crimes
eram Inseparáveis dela. Os crimes foram tão claram sintoma de
da psicose quanto uma dada erupção cutânea é
ou um tipo especial de tosse é sintoma de coqueluche. Do vasse
os crimes decorreram da psicose, três pessoas estariam vivas se tive
havido uma intervenção psiquiátrica no momento adeq o uado. havia trans-
O próprio Joe desafiou-me a buscar aquilo que
formado num assassino. E o fez numa noite abrasadoramente quente
de agos de 977. Estávamos
á sntados
e frente a frente, separados por
1 na enfermaria deserta da Cadeia do
uma pequena mesa de madeira
Condado de Camden. Transpirávamos profusamente. Ele me olhou
com "Flora,
intensidade
o quee disse:
é que faz um homem? Essa é a pergunta a fazer.
Bom, aparentemente, alguma coisa dentro de mim perguntou e fico
imaginando: até que ponto sou sadio? Sim. Sim. Falo como sadio,
às vezes, mas, sem nenhum aviso, alguma outra coisa emerge como
, só ue mais escondida e mortífera. Qualéo gatilho? E,
uma sombra q terá apanhado
ao pergunta é essa, Flora; descubra essa resposta, e você
homem, e vai poder fazê-lo caminhar no papeltão desde o sapateiro
mortalmente es-
- relógio viva ,
amistoso da vizinhança até a bomba ma is sofisticado conse-
condida que nem o dispositivo de detecção
gue descobrir".
gue no caso de Sybil, encontrei o gatilho na infância. Foi uma
infância de extrema privação emocional; e, desde os primórdios, hou-
ve destruição. Flora Rheta Schreiber
Cidade de Nova Iorque
4 de julho de 1982

20
'SR

1 O Demonio do Passarinfio

1° de setembro de 1943. Freiras em trajes negros e irmãs enfermeiras


percorriam o corredor do hospital. Tinham rostos pálidos e sorrisos
gentis. Observando-as, Joe, que contava seis anos e nove meses,
mantinha-se de pé na entrada aberta de seu quarto de hospital e, em
sua memória, ouvia as vozes de seus pais adotivos:
"Dummkopf! • Vamos mandá-lo de volta!" dissera sua mãe ado-
tiva, Anna Kallinger. Seu pai adotivo, Stephen Kallinger, um sapa-
teiro, ergueu os olhos de seu trabalho. Segurando numa das mãos a
faca de cabo verde, assentiu com a cabeça e murmurou, "Ja, Joseph!"
Tal como seu quarto e suas roupas e os odores da comida de
sua
mãe adotiva, a ameaça de enviá-lo de volta ao orfanato era uma
parte regular da vida de Joe com os Kallingers. Arma e Stephen o ha-
viam levado para sua casa, haviam-no adotado — sim! haviam-no
resgatado, como freqüentemente diziam; mas, com igual freqüência,
ii-meaahm mandá-lo de volta.
Dejré-na "Irligh do quarto do hospital, Joe pensou no orfa-
nato. Por sobre os lados de seu berço, olhos o haviam espiado
através dos capuzes negros das freiras ou sob chapéus engraçados
com flores e fitas. Como num vago sonho, Joe recordava-se dos ín-
gremes e altos degraus que conduziam às portas de vaivém e, por trás
delas, aos longos e ensombrecidos saguões onde as freiras, como
deslizantes pássaros escuros, andavam silenciosamente de um lado
para outro. Um dia, Stephen Kallinger e sua .esposa, Anna, haviam-se
debruçado sobre o berço e o haviam escolhido para que lhes per-
tencesse.

• N. T. — Cabeça dura!

23
1 O Demonio do Passarinho

1* de setembro de 1943. Freiras em trajes negros e irmãs enfermeiras


f
percorriam o corredor do hospital. Tinham rostos pálidos e sorrisos
gentis. Observando-as, Joe, que contava seis anos e nove meses,
mantinha-se de pé na entrada aberta de seu quarto de hospital e, em
sua memória, ouvia as vozes de seus pais adotivos;
"Dummkopf! * Vamos mandá-lo de volta!" dissera sua mãe ado-
tiva, Anna Kallinger. Seu pai adotivo, Stephen Kallinger, um sapa-
teiro, ergueu os olhos de seu trabalho. Segurando numa das mãos a
faca de cabo verde, assentiu com a cabeça e murmurou, Ia, Joseph!"
Tal como seu quarto e suas roupas e os odores da comida de
sua mãe adotiva, a ameaça de enviá-lo de volta ao orfanato era uma
t parte regular da vida de Joe com os Kallingers. Anna e Stephen o ha-
i. viam levado para sua casa, haviam-no adotado — sim! haviam-no
reastgado, como freqüentemente diziam; mas, com igual freqüência,
ameaça am mandá-lo de volta.
- De—pr -Efitia-á do quarto do hospital, Joe pensou no orfa-
nato. Por sobre os lados de seu berço, olhos o haviam espiado
através dos capuzes negros das freiras ou sob chapéus engraçados
com flores e fitas. Como num vago sonho, Joe recordava-se dos ín-
gremes e altos degraus que conduziam às portas de vaivdm e, por trás
delas, aos longos e ensombrecidos saguões onde as freiras, como
deslizantes pássaros escuros, andavam silenciosamente de um lado
para outro. Um dia, Stephen Kallinger e sua esposa, Anna, haviam-se
,1/4).‘ • debruçado sobre o berço e o haviam escolhido para que lhes per-
tencesse.
\lu
• N. T. — Cabeça dura!

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um pé de sapato e uma faca de ponta recurvada nas mãos muscu-
losas e manchadas. Essa era a faca de cabo verde que havia apa- mas foi detido por Anna. "Fique aqui embaixo", ordenou ela. "Seu
recido nas lembranças de Joe no hospital. Tanto o cabo quanto a pai e eu temos uma coisa que queremos dizer-lhe". E acrescentou,
lâmina tinham 10 centímetros de comprimento. A lâmina, que era "Você não deve correr. Vai abrir sua operação, e aí terá que ir para
usada para cortar saltos e solas, tinha uma curva na extremidade, o hospital outra vez. Achl Was ein Kindl""
com formato semelhante a um lábio humano. Ao pé da escada, Joe se deteve ao lado de reproduções de
Embora tivesse apenas 1.58 m de altura e fosse atarracado pinturas de Jesus e da Virgem Maria, penduradas lado a lado na
(Anna era 2,5 cm mais alta), seus movimentos eram ágeis e vigo- parede. Anna passou por ele com um leve esbarrão. Ele observou-
rosos. Sob os cabelos negros, seus olhos eram cinzentos, e os lábios, lhe o forte corpo reto no vestido estampado que ia até os tornozelos,
grandes, finos e secos. enquanto ela subia até seu quarto com o suéter, a jaqueta e a mala
1
Anna fez uma careta para Joe e piscou para o marido. de Joe. Suas pernas grossas moviam-se com energia, os pés nos sa-
"Então é agora que vamos fazê-lo", disse Stephen. Balançou a patos pretos e baixos batendo ruidosamente nos degraus.
faca na direção deles num gesto nervoso e disse, "Vou entrar num Ouvindo outros passos atrás de si, compassados, Joe voltou-se e
minuto". viu seu pai adotivo caminhar em sua direção Stephen tinha deixa-
Stephen olhou para Joe enquanto Anna, apertando-o pelo bra- do um empregado, Caesar, cuidando da loja. Mastigando um charuto
ço com uma das mãos e segurando sua maleta com a outra, condu- Philly, Stephen carregava uma cadeirinha de criança feita de ma-
ziu-o pela porta que levava à sala de estar. O rosto de Stephen tor- deira. O que ele está fazendo com minha cadeira? perguntou-se Joe.
nou-se rígido, inflexível, Tinha de ser feito hoje — agora! Stephen gritou para o alto da escada, "Ahnie! Estou aqui. Você vai
Joe franziu o cenho, procurando livrar-se de Anna, que abria a descer?"
porta envidraçada protegida por uma tela. Ela prosseguiu sem Joe, "la. Já vou". Ela apareceu no topo da escada. Descendo lepi-
indo diretamente para a sala de estar e os aposentos dos Kallingers, damente, soltou um risinho curto e duro que assustou Joe.
que Anna e Stephen chamavam "lá atrás". Stephen Kallinger pressionou um interruptor e o candelabro se
Stephen estava cortando solas de sapatos com a faca de cabo acendeu. Bem embaixo dele, colocou a cadeirinha de Joe. "Sente-se,
verde. Joe olhava para a lâmina enquanto Stephen a movia com Joseph", disse.
agilidade através do couro. "Você quer cortar solas como papai Joe sentou-se em sua cadeirinha e ergueu os olhos temerosos
está fazendo, Joseph?" perguntou Stephen. "Logo vou começar a para seus pais adotivos. Anna e Stephen erguiam-se sobre ele, olhan-
ensinar-lhe. Se você for um bom menino e, depois, um bom homem, do-o fixamente através das lentes imaculadas de seus Óculos.
aprenderá. Se não, ..." Olhou fixamente para Joe por sobre os "Joseph, você precisa escutar-nos", disse Stephen. "Temos algo
aros dos óculos e voltou-se novamente para sua bancada, rindo so- importante para lhe dizer".
zinho suavemente. Joe observava os fragmentos de couro caírem da Anna disse, "O Dr. Daly fez uma coisa com você no hospital,
lâmina cortante até 'o chão. Imaginou se sua pele teria caído daquela ele..."
maneira quando o Dr. Daly fez o longo corte em seu corpo. Na loja, "Ele consertou sua hérnia", interrompeu Stephen, "mas tam-
a faca do pai adotivo era tão ameaçadora, na realidade, quanto o bém consertou..." Fez uma pausa. Inclinando-se, disse em voz bai-
fora no hospital, na fantasia. Gente grande usava facas, percebeu Joe xa, com a boca junto à orelha de Joe, " ... seu passarinho".
pela primeira vez, não s6 para cortar couro, mas também para cor- Na casa dos Kallingers, "passarinho" era o eufemismo de pênis.
tar a carne dos meninos.
"O que há de errado com meu passarinho?" perguntou Joe.
"Venha para dentro, Joseph! Selma!" •
"Havia um demônio que morava em seu passarinho antes de o
Joe dirigiu-se, encurvado, para a sala de estar. Anna retirou- Dr. Daly consertá-lo", retrucou Anna.
lhe rapidamente a jaqueta e o suéter. Joe correu para a escada, "O que é um demônio?"
• N. T. — Depressa!
• N. T. — Ohl Que Maneai
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27
nem quando for homem". Anna sentou-se no sofá e recostou Es-
"Um espirito maligno", disse Stephen. tava transpirando.
Stephen voltou-se para a mulher e disse, "Não vamos tã ne-
"Ele trabalha para o Diabo, e não para Jesus", disse Anna quee a ou tras' pes-
nhum problema com ele agora. Não como os " acresce ntou
em tom sombrio. J
"E estava no meu passarinho? O que ele estava fazendo ali?" soas têm com os filhos delas. E assim,não é,
Joe pôs a mão entre as pernas, mas Anna a afastou com um Stephen, virando-se abruptamente para Joe.
"Posso ir agora?" Joe perguntou.
tapa. "Pode", respondeu Anna. Secando levemente o rosto com um
"0 demônio faz com que seu passarinho fique duro", explicou lencinho, ela se levantou do sofá e andou lentamente para a coiinha.
1. Stephen. "Faz com que ele fique duro e espichado para fora, e aí "Vá para seu quarto, Joseph", disse Stephen. "Você está do-
você tem que fazer coisas ruins com ele. E aí sua alma vai para o ente. Tem que ter cuidado agora, por algum tempo. Sua mãe chama
Diabo quando você morrer". i
"O pr. Daly expulsou o demônio, Joseph", acrescentou Anna. quando o almoço estiver pronto".
Subindo a escadaria, Joe parou diante do espelho retaugular
"Ele consertou seu passarinho, de modo que ele nunca vai crescer, que pendia da parede acima da escada. Como sempre fazia, correu9 / •
Os demônios não conseguem viver nos passarinhos que não cres- as pontas dos dedos sobre o vidro frio e imaginou como pckliaraPt" '
cem, de modo que seu passarinho não vai ficar duro, você entende?" mão no espelho seguir sua mão, mexer-se quando ele a mexia,1 para
"Mas... que foi que o Dr. Daly fez com meu passarinho?" quando ele parava. Era o outro mundo, silencioso e claro, e p nsou: '.
"Isso é segredo, Joseph", respondeu Stephen, sorrindo. Pegou Posso entrar no espelho e eles nunca vão me encontrar. Assu lado, .„
alguns fios do cabelo de Joe e puxou-os. I quis correr, porém, atônito, recuou até o corrimão. Flutuano no
"Jal" exclamou Anna. "E segredo Mas você não vai ter ne- mslo_da-sala-de-estar. refletida no espelho, ele viu uma enorme faca /
nhum demônio no seu passarinho, porque seu passarinho será sem- - e o cabo em pOsição
' dem ponta em forma de lábio, com a lâmina
pre pequeno, pequeno, pequeno, pequeno, pequenol" \ virdes' e; pendendo da curva na extremidade da lâmina, seu lpênis.
Para acalmá-la, Stephen colocou a mão levemente sobre seu Aterro-azado, levou a mão à braguilha e a imagem no espet de-
ombro. Ela respirava pesadamente e seus olhos estavam vitrificados. sapareceu. Uma pontada dolorosa na área da incisão troux I -o de
Joe achou que ela estava doente, talvez fosse morrer. Indagou-se se volta da fantasiaipara -a realidade presente.
a alma dela iria para o Diabo. Em seU quarto, sentout-selmáVél na cama. Queria ser um bor-
"Os passarinhos de vocês não cresceram?" perguntou Joe. boleta e poder voar para longe, para sua família de borbole as no
Stephen zangou-se. "Perguntas! Sempre as perguntas!" E pros- campo. Embora fosse cedo, ajoelhou-se ao lado da cama e entoo
1. seguiu num tom baixo e duro, "Agora, escute aqui! Lá no velho fazer suas preces em alemão, como fora ensinado a fazer por nna e
país, o padre libertou sua mãe e eu do domônio. Mas neste país — Stephen. Mas as orações haviam desaparecido. Ele não conlseguia gua
a línque
ja, neste país", repetiu com desdém, "tivemos que pedir ao Dr. Daly recordar uma s6 palavra. Foi como se tivesse rejeitado am dr
para fazer isso com você. O Dr. Daly libertou-o do mal". nativa de seus pais adotivos, em vista das palavras sem
"Mãe, o seu passarinho se parece com o do Papai?" acabado de pronunciar em inglês na sala de itstar.
s eles haviam he I d isse-
Erguendo os olhos, Joe voltou a ver nas lentes imaculde Vê-lo novamente em sua casa os deixara zanga tos; eles lm ara
adasluzdoe ram coisas estranhas sobre seu "passarinho" nas e oborbolems.
mandara Po
óculos de Anna duas pequeninas poças d'água reluzindo
raiva, as pupilas como discos de gelo a trancafiá-lo no medo. quarto. Joe olhou pela janela c tornou a pensar
"Os passarinhos das meninas são diferentes dos dos meninos", Nos anos que se seguiram, Ice lembrou-se de apenas cinCo pa-
rosnou. Pôs-se de cócoras e aproximou o rosto do de Joe. "Preste lavras do vocabulário que lhe fora ensinado por Stephen Anna
atenção", disse. "Seu passarinho não fai ficar duro porque o deukó- Kallinger. Duas delas eram o neutro Danke schoen. * A terceira era
nio foi embora. Você vai ser sempre mole aí. E assim, vai ser u
L. • menino, um bom homem. Nunca se meterá em complicaçõe • N. T. — Muito obrigado!
bom ca vai criar nenhum problema para moça nenhuma. Nem agora
29
t._ Nun

28
Coloffel, uma palavra particular de Anna para designar uma gran-
de colher de pau, um dos instrumentos de punição. A quarta pala-
vra era Quatsch, que significava porcaria, tolice, besteira. A quinta
era Wanderlust, que expressava o desejo de Joe de voar para longe.
Stephen e Anna sabiam, é claro, que o Dr. Daly não tinha •
feito nada com o pênis de Joe. Mas, tendo reagido exageradamente
1. curiosidade sexual normal que ele manifestara aos cinco anos e a
um outro episódio, duas semanas antes da operação, que eles ha- •
2 A. Criança Descartada
viam erroneamente interpretado como sexual, queriam que ele crer- /
cesse impotente. Para chegar a esse fim, tinham fabricado sua his-
r tória grotesca. As conseqüências da cena que representaram viriam
•„ a ser sombrias, hediondas e trágicas.

No dia em que Joe voltou do Hospital St, Mary's, seus pais


adotivos, através de uma castração simbólica, destruíram sua_cana-
da_sl
lmente. Falando freqüentemente dam Joe,
durante...sua p e dade•ado c nela sobre o demónio e sobre
-In—mates lithoce
distoree-r-lhe. os Kallingers continuaram a
o instinto_sexuaLeinbora _na° o extirpassem, comq
haviam esperado,. A cena do "passarinho"nriaTi
terminável jilu___ de estar e o in-
itxc.joais à sexualidade de Joe "foram as origens de
sua loucura posterior.
E raro poder-se apontar um episódio isolado do qual resulte
uma psicose. No caso de Joe Kallinger, porém, esse episódio foi
claramente sua castração simbólica na sala de estar, fortalecida pelo
processo de destruição que a havia precedido e que se seguiu a ela.
O processo que tornou Joe mais vulnerável ao que os Kallingers lhe
fizeram começou quanoo ele ainda estava no útero.

A mãe natural de Joe, Judith Renner, nascera em Montreal, no


Canadá. Seus pais eram judeus de classe média de origem austríaca
e inglesa. Em 1918, quando tinha três anos, ela fora trazida para
ot Estados Unidos.
Durante a epidemia de pólio de 1916, Judith adoeceu com uma
poliomielite anterior. A deficiência de uma queda nítida em seu pé
esquerdo não foi suficientemente grave para que ela usasse muletas,
mas ela mancava ligeiramente ao andar. Enquanto ainda pequena,
seus pais se divorciaram e ela e os irmãos foram colocados numa
30
31
Em 11 de dezembro de 1936, no Hospital Northem Libetities,
em Filadélfia, Judith, que completaria 21 anos dentro de cinco dias,
casa de criação. Aos doze anos, ela fugiu da família de criação deu à luz um menino sadio de 4,5 kg. Ela tinha tido um a r t o
essa segunda criança,
para um hospital, para que seu pé fosse corrigido. Sendo menor de difícil com Mune!, mas tudo foi fácil
idade, não pôde assinar os papéis para sua admissão, de modo que da a quem chamou Joseph. No hospital, ele era conhecido co o o
telefonou para a mãe, que foi até lá e assinou por ela. Depois Menino Renner, mas sua certidão de nascimento dizia que el era
operação, tendo-se recusado a voltar para a casa de criação, passoua Joseph Scurti, filho de James Scurti e Judith Renner Scurti.
a morar com a mãe. Mas a recordação de su a fuga infantil nãoestava Quando Joseph estava com seis dias de idade, Judith e viou
• as ue sabia da existência dele,
impediu de buscar uma família de criação para a criança Lillian Rogers, a unica
à Agência Católica, para informar sobre o nascimento. Dois dias
em seu ventre.
Ruiva, com 1.60 m de altura e atraente, apesar de gordinha, depois, contudo, quando um representante da agência foi ao hos-
fosse
Judith Renner Scurti sentiu vergonha porque seu filho, era mbooraano de pital combinar as providências para a adoção de Joseph, judit re-
fruto do amor, era ilegítimo. As atitudes da época — e cusou-se a desistir dele. "Ele é um bebê e tanto", disse. "D testo
1936 — perante os filhos ilegítimos e as mães que os traziam à luz separar-me
eram esnobes e cheias de censura. Ela sentia medo, também, pelo Saindodele".
do hospital no dia seguinte, Judith levou seu filho para
casada, mas não com o pai de seu filho por nascer, cujo a casa de Lillian Rogers. Qurante Ires_semanas _ na casa dosi Ro-
fato de ser • gers, judith amamentouJoseph, sussurrou-lhe palavras amotiosas,e
nome era Tony nfânurna m
aindaPatelli.
não completara 19 anos quando, em agosto de cantou para ele e tocou-o com amor. Fazendo tudo o que Eão
judia, e católico roman o e ela,
ser tr elba amorosa deve fazer, ela lhe deu a bênção da primeira icia
1934, casou-se com James Scurti. Por le o e Judith,
num juiz de paz. Ealhava pouc fez porque sabia que ele não teria isso por muito t•mpo•
judia, casaram-se O perários da indústria Ao término das três semanas, Judith voltou ao trabalho
como membro do Sindicato Internacional de operadora de
, tinha um emprego de locou Joseph numa creche particular e ia vê-lo uma vez p r se-
de
de Roupas
costuraFemininas
numa fábrica, A filha dos Scurtis, Mudei, nasceu em menu, quando pagava cinco dólares por sua internação seman 1.A
setembro de 1935. Três meses depois, após ter vivido com Saurá bênção da primeira infância transformou-se em angústia de s para-
m s.
ese Judith o deixou. ção, que foi ainda maior devido às três semanas de extrema roxi-
por apenas
Judith 16
e Muáel moravam com a mãe de ludith, Sarah Renner, midade e à permanência da separação. Dessa angústia viria a met-
e com os irmãos de ludith, David e Irving, quando ela conheceu git o ódio, intenso e cumulativo.
Tony Patelli. Tal. como James Scurti, Tony era católico romano, nas- O trabalho de Judith tornou-se irregular. Ela não pôde anter a
ias. Diversamente de Scurti, os pagamentos à creche. Pensou brevemente em levar Joseph p rada
cido nos EstadoS Unidos, filho deitalianodivertia. Era decorador de casa de sua mãe, mas depois mudou de idéia. Ainda sentia
Tony era alguém com quem Judith de perder Mudel se reconhecesse Joseph. Disse a si mesma qu não
interiores e tinha talento artístico. Ambos amavam o teatro e ama-
vam um ao outro. ludith tinha esperança de divorciar-se de Scurti poderia levar Joseph pata casa porque sua mãe já estava to ando
e casar-se com Tony, mas Tony deixou de encontrar-se com ela conta de Mudei. Os meninos eram mais difíceis de criar d que
quando ela lhe disse que estava grávida. judith temeu então que, s menns, e su mãea era crdíaca;
a não seria justo com Mamãe.
por último nas considerações dai mãe.
se conservasse e reconhecesse o filho que estava por nascer, Scurti intso, vinha ainda eph' se o
obteria a custódia de Muriti. Desejando livrar-se do intruso que joseph,i oa ru tizar
ju- Judith voltou-se para um padre. Prometeu b a ti[ . V incen
Jos t's, um
ameaçava a segurança de sua filha legítima, Judith, apesar de padre conseguisse um lugar para ele no Hospit
dia, fez uma visita a uma Agência de Crianças Católicas um mês orfanato católico. Toe já passara pelo brith, o ritual judaico tra-
ue o novo bebé era esperado e pediu à agência ino. Ae conyersão
dicional de iniciação das crianças de sexo mascul confusão da l insta-
antes da data em q a adoção da criança por nascer. Disseram-lhe
que providenciasse a confus
do Judaísmo para o Catolicismo foi parte d
bilidade que cercaram a primeira infância de joe.
cgr:. Noltasse após o nascimento.
33
* * *
1

32
Aos três meses e nove dias de idade, Joseph sai k da creche
para o lugar de portas de vaivém e degraus altos de due se lem- Stephen e Anna Kallinger — a "família muito boa" — tinham
brou vividamente durante sua permanência no Hospital St. Mary's escolhido Joseph logo na primeira vez em que o viram em seu berço
para a operação de hérnia. Uma freira de negro, vendo-o naquele em St. Vincent's. Seus cabelos negros não poderiam ser mais pare-
primeiro dia em St. Vincent's, observou que ele era "uma criança cidos com os de Stephen se fossem pai e filho; Stephen o quis por
viva, de aspecto sadio, com aparência bastante judaica e que parece vaidade. A criança atendia também às especificações de Anna: es-
ter bom temperamento". taira—
fremado a controlar seus esfíncteres, andava e falava e, se-
gundo St. Vincent's, estava com boa saúde.—
A princípio, Judith recusou-se a deixar que a Agência de Cri-
anças Católicas colocasse Joseph em sua Lista de Possíveis Adoções. Originalmente, Anna quisera adotar uma menina e, mais tarde,
Ela queria divorciar-se de Scurti, encontrar um novo marido e dar iria dizer a Joseph que, por não ser uma menina, ele fora uma
um lar a seu filho. Tinha retomado o relacionamento com Tony, decepção para ela desde o início. Entretanto, apesar de ser habi-
o pai de Joseph, enquanto este se achava na creche, e nutria espe- tualmente mais dominadora do que o marido, ela havia acedido a
ranças de que Tony fosse o novo marido. Entretanto, ao pressio- seu desejo de um filho. Percebeu a sabedoria de Stephen em que-
ná-lo com o casamento, Tony lhe disse o que ela nunca soubera: rer adotar uma criança do sexo masculino, a quem ele poderia en-
que era casado e tinha filhos. sinar o ofício de consertar sapatos e que acabaria por herdar o ne-
gócio que Stephen — e Anna também — tinha feito tanto esforço
Por volta de dezembro de 1937, Judith não via nenhuma pers- por construir.
pectiva de um casamento imediato e perdeu a esperança de construir
um lar para seu filho. Pediu à Agência de Crianças Católicas que
colocasse Joseph, então com um ano de idade, na Lista de Possíveis Os Kallingers conheceram-se na Filadélfia, mas eram emigran-
Adoções. O Hospital St. Vincent's informou à agência que ele era tes do Império Austro-Húngaro. Anna viera da cidade de Bocksdorf,
"uma criança muito atraente, gordinha, de rosto rechonchudo, ca- na província de Burgenlan, nas planícies da Áustria; Stephen viera
belos e olhos escuros; está em boas condições e parece adequado de Unter-Petersdorf Bezirk, Oedenburg, Hungria. Ele chegara aos
para adoção". Estados Unidos em 1921, aos 23 anos de idade, e Anna em 1925,
Judith faltava freqüentemente com o pagamento da taxa se- quando contava 28 anos. Ambos se naturalizaram norte-americanos,
manal de três dólares e meio pela internação de Joseph. Quando Stephen em 17 de agosto de 1928 e Anna em 2 de dezembro de
ele estava cnm 14 meses, ela finalmente notificou o orfanato de 1930.
que não poderia pagar e informou que iria submeter uma petição Tinham vindo por motivos diferentes. Anna emigrou em decor-
para esse fim. Para que a petição tivesse validade, ela teria de rência de dificuldades e infortúnios familiares. Seu pai, Michael
fornecer o nome e endereço do pai de Joseph. Quando se recusou a Reichl, trabalhava no negócio de construções e, no decorrer de seu
fazê-lo, disseram-lhe que levasse Joseph para casa. Ela concordou, trabalho, caiu de uma construção. Morreu de lesões cranianas re-
mas mudou de idéia alguns dias depois. Os velhos medos sobre ex- sultantes do acidente. Após sua morte, a mãe de Anna foi trabalhar
por Joseph à luz do dia haviam-se reafirmado. Além disso, a laãe numa fazenda, colocando seu filho de dois anos aos cuidados de
achou que, já que o menino era agora católico, os católicoS deve- uma família de criação. Sua filha de 12 anos — a futura Anna
riam cuidar dele. Judith começou a pagar uma pequena soma pela Kallinger — roi trabalhar numa fábrica.
hospedagem de Joseph e ele permaneceu no St. Vincent's por pouco Para Anna, que mal sabia ler ou escrever, a vida na Áustria
menos de dez meses depois que seu nome apareceu na Lista de Pos- era dura e sem esperanças. Pensava nos Estados Unidos como a
síveis Adoções. terra do leite e do mel. Até seu casamento, um ano e meio após
Em 15 de outubro de 1938, Judith sentiu-se grandemente alivia- sua chegada, ela trabalhou na Filadélfia na cozinha de um res-
taurante e como garçonete.
da ao ser informada de que "uma família muito boa" havia esco-
lhido Joseph, e o problema da hospedagem estava solucionado. Stephen veio para os Estados Unidos porque seu primo, Henry
Kallinger, havia-lhe oferecido um lar e um emprego. Em seu depoi-
34
35
moradores orgulh va-se em
industrial da Filadélfia. A maioria dos
ser de Kensington. eram emigrantes de língua alemã e católi-
mento autenticado de 10 de junho de 1921, Flenry Kallinger de- Os Kallingers, que eram
clarou que ficava freqüentemente incapacitado em função de sua -se em casa. Como lojistas altamente respeita os, avam
cos, sentiam
asma e queria que Stephen, "um sapateiro experiente, totalmente mais prósperos do que aqueles dentre seus vizinhos que tr talh
seguro e digno de confiança", o ajudasse em seu negócio. nas fábricas. Stephen e Anna poderiam ter arcado com uma mu-
Os Kallingers, que se casaram em 2 de outubro de 1926 na dança para uma área mais elegante da Filadélfia, ou par: um dos
igreja Católica Rotnana de São Pedro, na Filadélfia, tinham com- bairros afastados. No entanto, Kensington era o lugar .nde Ste-
pletado seu décimo segundo aniversário de casamento 23 dias antes phen, um sapateiro de mão cheia que havia recebido pr mios por
de levarem Joseph para casa. dos seu trabalho, consituíra seu negócio e tinha decidido per anecer.
A esterilidade de Stephen era um fato conhecido apenas édio
Kallingers e do médico da família, o Dr. Joseph Daly. O mc A casa de tijolos vermelhos que os Kallingers possuíam e onde
(o mesmo que iria fazer a operação de hérnia em Joe) havia insis-
cupa- tinham sua loja de conserto de calçados era um lugar . olitário e
tido com eles para que adotassem uma criança. Entretanto, oo
dos em construir o negócio de conserto de calçados que era eixo austero. Nenhuma criança vivera ali antes de Joseph; dep is da che-
gada dele, nenhuma criança jamais teve permissão para entrar e
de sua existência, eles haviam adiado a providência. O medo de té sáb ado à
Stephen de envelhecer sem um herdeiro e o medo de Anna de brincar com o menino. De segunda-feira pela manhãdeixr a s a patos
ce aca- saíam da loja para
não ter uma pessoa mais jovem em quem se apoiar na velhi Anna tinha noite, muitas pessoas
ou buscá-los, mas ninguém jamais entrou nos aposento resid oa
baram por levá-los ao St. Vincent's. Agora, quando p eq ueno lera-
quarenta nos e meio e Stephen estava a dois meses de seu qua- ciais, nem mesmo aos domingos. Anna, Stephen e o elas sempre
ragésimoa aniversário, eles finalmente se tornavam pais. retirados mundo, com as psianas
er das jan
viviam
abaixadas e a porta dos aposentos domésticos sempre fechada.
d Northern Libertis, Joe havia
Desde seu nascimento no Hospital
O novo lar de Joseph era uma casa de tijolos vermelhos de passado três semanas com sua mãe natural, ludith Ren r Scurti,
dois andares, enfileirada junto a outras, na esquina das ruas North na casa de uma amiga dela; dois meses e nove dias nu a creche
Front e East Sterner, no bairro de Kensington, na Filadélfia. Em particular, e 19 meses em St. Vincent's. Fora retirado d orfanato
1938, Kensington, que era mais antigo do que a própria Filadélfia, pelos Kallingers aos 22 meses e 14 dias de idade. Ago , através
tendo constado do mapa desde 1655, era uma área mista de resi- dos aposentos de sua quarta moradia desde a saída do hos ital onde
déncias e indústrias. Tinha alguns prédios de apartamentos, po- nascera, Joe perambulava dia após dia, explorando seu q arto e, lá
_
rém, em sua maioria, havia edifícios pequenos que, como o dos embaixo, a sala de estar e a cozinha.
Kallingers, combinavam lojas e residências. Os valores dos imó- Na parede junto à escada havia um espelho retangular de três
Grande e-
veis e aluguéis tinham caído drasticamente durante Dd, faces. Joe divertia-se, muitas vezes, olhando para ele. Achava que
pressão, mas estavam em alta em 1938. O trem elevadoade Frankfor o menino a quem via no espelho tinha vindo brincar, pois hão sabia,
inaugurado em 1921, e o surgimento do automóvel tinham contri- até ficar mais velho, que o que via era seu próprio reflexo Freqüen-
temente, fingia trocar de lugar com seu companheiro de ibrincadei-
buído para um sólido crescimento.
t. A vizinhança era limpa e bem cuidada. Quase não havia po- ras refletido e acreditava estar ele no espelho, enquanto lo
ri amigui-
u outroos
poucosm nas ruas. Em- nho estava de pé diante dele. Esse foi o mesmo espelho e que Joe,
breza e quase nenhuma violência cries
j udeus, o Catoli-
aos seis anos e nove meses, depois de ser informado de ue o Dr.
bora houvesse alguns protestantes e uns seu "passarinho", teve sua primeira ex-
L. cismo era a religião dominante. Os moradores, principalmente
te-americanosporde imi-
ri- Daly havia "consertado" ver seu pénis flutuando em stcçu,
grantes
alemães, italianos e irlandeses, ou norde pequeno te p ou periência alucinatória, ao
ponta em forma de lábio. Quando Joe che-
meira geração, tinham seus próprios negócios preso a uma faca com
trabalhavam nas fábricas e moinhos da região. Em certa época, 37
t
Kensington fora uma das áreas mais ricas do mundo e o centro

36
gou originalmente à casa dos Kallingers, porém, o espelho era ape- damente dedicada ao trabalho árduo e à abnegação pessoal. Ju-
nas parte ck, sua vida de fantasia em rica evolução. A necessidade dith era instável e cheia de joie de vivre. Anna era disciplinada e
da fantasia era ainda mais forte em vista da falta de companhia, e morosa.
a tensão e as incertezas dos primeiros 22 meses de vida já haviam Joseph não estava na loja. Quando soube que Judith estava
levado Joe a retrair-se. a caminho, Anna o levara "lá para trás". Mas falou com Judith so-
No entanto, Joe continuou a dar a impressão, como acontecera bre ele. O menino tinha que usar sapatos ortopédicos, disse Anna.
no St. Vincent's, de que tudo ia bem em seu pequeno mundo. Uma E disse também "Ele é malicioso!" A malícia normal de urna cri-
assistente social foi enviada pela Agência Católica de Crianças à ança de três anos levara Anna a essa conclusão.
casa dos Kallingers. "Joseph", escreveu ela num relatório de 20 de Judith pediu para vê-lo. Anna o trouxe de volta à loja. Joseph
janeiro de 1939, "é um belo menino moreno, de cabelos encaraco- não conhecia a moça de cabelos castanho-avermelhados, nem li-
f
lados e brilhantes olhos castanhos. Engordou um pouco e parece gou-a, é claro, ao seio, aos sussurros e ao toque de que Judith o
muito feliz e satisfeito nessa casa. O Sr. e a Sra. Kallinger gostam havia privado quando ele tinha três semanas.
muito de Joseph. Deram-lhe muitos brinquedos bonitos e armaram Quando ela o beijou e afagou-lhe o cabelo, Stephen gritou,
também para ele uma adorável árvore de Natal. Foram bem recom- "Ahnie, agora chega".
pensados quando Joseph desceu na manhã do dia de Natal... pelo Depois de apresentar-se, Stephen indagou abruptamente, "Para
lindo olhar de felicidade em seu rostinho. Isso os deixou muito con- que é que a Sra. está aqui, Sra. ... ou será Srta. Renner7"
tentes". A assistente social registrou também que Joe tinha seu Judith enrubesceu, mas não deu nenhuma resposta. Em segui-
próprio quarto e um seguro de mil dólares. da, disse, "Quero ver a casa onde meu filho irá morar".
Tendo sido aprovados com boas notas no período condicional, "Você não tem direito de estar aqui", disse Anna. "Mas, já
es Kallingers quiseram adotar Joseph em definitivo. A audiência de que está, vou mostrá-la. É melhor do que a que você pode dar a
adoção foi marcada para 19 de dezembro de 1939 no Tribunal Mu- ele".
nicipal, mas não se deu naquele dia. Fizeram uma inspeção da casa. Joseph foi com elas, e Anna
Na véspera, Stephen e Anna estavam trabalhando na loja. Joe, segurava-lhe a mão com firmeza. Quando voltaram à loja, Judith
com três anos, sentado em sua cadeirinha de madeira, brincava com disse, "É um lugar agradável. Vou deixar que vocês fiquem com Jo-
uma caixa de charutos Philly. O telefone tocou e Gerald A. Gleeson, seph, se vocês me derem quinhentos dólares".
advogado dos Kallingers, disse a Stephen que Judith Renner, a mãe "Chantagem!", bradou Stephen. "Saia da minha loja!"
natural de Joseph, estava a caminho da loja de Kallinger. O advo-
Ignorando a observação, Judith perguntou, "O Sr. se importa
gado disse rue Judith Renner estava pronta a concordar com a
adoção, mas, primeiramente, queria ver a casa onde seu filho seria se eu usar seu telefone?" Stephen não respondeu. Judith telefonou
para a Agência Católica de Crianças. Disse a um funcionário da
colocado. Gleeson tinha dado a Judith Renner o endereço e o nú- agência, "Eu mesma quero levar Joseph".
mero de telefone dos Kallingers.
Furioso, Stephen desligou. Num esforço de impedir a visita Quando ela desligou o telefone, Stephen ligou para Gerald
de Judith Renner, telefonou para a Agência Católica de Crianças. Gleeson, seu advogado. Disse-lhe, "Não queremos prosseguir com
Foi informado de que, já que seu próprio advogado fornecera a a adoção". Em seguida, voltando-se para Judith, disse- lhe novamen-
Judith o endereço, não havia nada a fazer te que saísse.
Judith chegou e apresentou-se a Anna, que estava no balcão "Quero levar Joseph hoje", insistiu Judith. "O Sr. quer ter a
da loja. Stephen não ergueu os olhos de sua bancada de trabalho.
bondade de empacotar as coisas dele?"
As duas muTheres, uma na casa dos 20 anos, outra na dos 40, eram O telefone soou. Era uma representante da Agência de Crianças.
um verdadeiro estudo sobre contrastes. Judith era vibrante, sen- Disse que Gerald Gleeson acabara de informá-la de que, em vista
sual e, apesar de suas dificuldades, alegre. Anna tinha um corpo do acontecido, iria conseguir do tribunal um adiamento da audiên-
atarracado e feições corriqueiras. Era desprovida de alegria e rigi- cia de adoção para uma data posterior.

38 39
cumentos, inclusive o formulário de cessão, afirmavam que ele era
"Não vamos prosseguir com a adoção", retrucou Stephen. "Ju- Joseph Renner. Assim, a petição de adoção foi emendada, pass ndo
dith Renner ainda está aqui. Ela quer levar Joseph hoje". a dizer, "Adoção de Joseph Scurti, também conhecido por Joseph
Stephen foi informado de que sob nenhuma hipótese deveria Renner". ❑
deixar que Judith levasse Joseph. O menino estava sob os cuidados
_ fato", declarou que "a c ian-
O juiz, em suas constataç
da Agência de Crianças e, se Judith o queria, s6 poderia tê-lo atra- ça, Joseph Scurti, também conhecido por Joseph Renner,Re é ilho
ner
vés da agência. ilegítimo, nascido fora dos laços do matrimônio de Judith pr sse-
"Vamos ficar com Joseph", concordou Stephen, "até depois Scurti e um suposto pai desconhecido". O meritíssimo juizé suo-
das festas de Natal. Mas, depois disso, vamos devolvê-lo a vocês. nome do suposto pai é ignorado e seu paradeiro d
guiu: "O
nhecido; da mesma forma, não se sabe se ele reco.Theceu a cria ça".
Mesmo que Judith Renner mude de idéia e consinta na adoção,
agora que ela sabe onde moramos, poderá sempre voltar e incomo- Foi uma audiência fechada. No saguão do lado de, fora um
ele ante
dar-nos. Poderia acabar levando Joseph. Minha mulher e eu acha- homem de estatura mediana, moreno, de maneirass gentisaudiê cia.
mos muito melhor para todos desistirmos de Joseph". e bem trajado, aguardava. Ele havia tentado edizia-se que o ara-
Stephen explicou a Judith por que não podia deixá-la levar do tribunal,
Joseph naquele dia, e ela se foi. Dez dias depois, passados os fe- mas não o conseguira. No interior que
doiro do suposto pai de Joseph era ignorado. Mas o homem
riados de Natal, os Kallingers — como tinham dito que fariam — aguardava do lado de fora era_to Patellb esse pai. Ele queri dar
levaram Joseph ao escritório da Agência de Crianças. Mas não para prodiado.
devolvê-lo. Estavam lá para dizer que ainda queriam adotá-lo. uma espiada no menino a quem -ha gora
Chegou o momento do término da audiência. Joseph,
Judith havia prometido aos Kallingers que, se eles adotassem Joseph Michael Kallinger, caminhava entre Stephen e Anna K u: Sin-
se-
Joseph, ela se afastaria da vida dele e deles. "Nunca mais voltarei a nome Joseph, mas deram-lhe
incomodá-los", disse muito solenemente numa conversa telefônica ger. Eles haviam conservado o
gundo nome em memória do pai de Anna, Michael Reichl. In nino
após sua visita. Fora mais uma reprise de seu comportamento cho-
Tony Patelli manteve o olhar em Joseph até perder o
ve-não-molha enquanto Joseph estava no St. Vincent's, ou mesmo de vista. "Um garotinho maravilhoso", disse depois a Judit .A
quando era bebê, no Hospital Northern Liberties. t rapo
Os Kallingers não gostaram de Judith. Diriam a Joseph, quan- seguir, Tony caminhou em direção h rua e chegou lá bem a
de ver Joseph e seus pais adotivos afastarem-se no carro. Est vara
do ficou alguns anos mais velho, que ela havia tentado chantageá- indo em direção a casa de tijolos vermelhos que foi a prisão e u
los para que pagassem quinhentos dólares por ele. Assinalaram que, na infância, a mesma que, na idade adulta, ele transfor aria
na época, Joseph nem sequer lhe pertencia legalmente "para que seph 17 de janeiro de 975,
ela o vendesse". Apesar disso, querendo conservar seu futuro sapa- numa prisão para sua família, e da qual, em
teiro, os Kallingers acreditaram em Judith quando ela disse que os seria levado para a prisão, para nunca mais voltar.
deixaria em paz. E ela os deixoul
A audiência de adoção ocorreu no Tribunal Municipal, do Con-
dado da Filadélfia em 9 de janeiro de 1940. Os Kallingers, tendo
sido instruidos a levar "o menor em questão, Joseph Renner Scurti",
traziam-no com eles. Contando agora três anos e um mês de idade,
ele entrou num tribunal pela primeira vez.
Judith não estava presente, mas tinha assinado um formulário
de cessão, afirmando que não (lucila Joseph como seu filho e que o
cedia para fins de adoção. Havia assinado o documento como Sra.
Judith Renner. Depois, riscara com três traços o Sra.
O juiz Joseph G. Tumolillo assinalou que a criança, segundo
sua certidão de nascimento, era Joseph Scurti, mas que outros do- 41
,
40
zoes de Stephen querer adotar Joe. Os cabelos, no entanto, eram a
única semelhança. O rosto de Stephen era quadrado, com ossos sa-
lientes e disciplinado; o de Joe estava cheio de sentimentos e tinha
uma estrutura óssea delicada.

3 Dois Contra Um
Joe queria esquecer que as pessoas nas cadeiras de praia es-
tavam ali. Chamava-as Mamãe e Papai, mas não se sentia filho de-
las. Então não diziam a ele e a todas as outras pessoas que ele era
adotado, que o haviam resgatado de um orfanato e lhe tinham dado
um lar? Não diziam que Joe era a boa ação deles, e não estavam
sempre a lembrar-lhe o que estavam fazendo por ele e como ele
teria de retribuir?
Os Kallingers pareciam tão inseparáveis a Joe como se fossem
colados. Eram uma equipe, pensava, e ele era o forasteiro. "Faltava-
me o sentimento", ele iria dizer-me mais tarde, "de ser parte de qual-
quer pessoa, ou de que qualquer pessoa fosse parte de mim!"
Os Kallingers tinham um chalé de dois cômodos em Neshaminy, no . Para os Kallingers, porém, Joe era alguém "de dentro". Para a
Condado de Bucks, na Pensilvânia, que usavam nos fins de semana. realização de suas próprias necessidades e objetivos, estavam vincu-
Era feito de ripas pintadas de branco e sustentado por blocos de lando essa criança a eles mesmos. A vinculação nada tinha a ver
concreto. Não havia água encanada, mas apenas um pequeno ba- com as necessidades do menino (e, mais tarde, com suas potencialida-
nheiro anexo. , cies). Nada tinha a ver com afeto ou proximidade emocional. Os
O chalé ficava a duas milhas de distância da estação acro- Kallingers não beijavam Joe, nem o afagavam, mimavam ou brin-
naval de Willowgrove. A uns cinqüenta metros dele havia uma cavam com ele. Tocavam-no apenas para bater nele ou para pegar-
casinhola construída sobre uma fonte, recoberta de galhos quebrados lhe a mão a caminho do jardim-de-infância. (Até os 13 anos de
e capim, que poderia passar despercebida se o passante não sou- idade, Anna o levava e buscava na escola). Mesmo quando crianci-
besse de siri existência. nha, eles o mantinham na loja a maior parte do tempo. Sentado em
O menino Joe sabia. A casinhola do campo, tal como o espe- sua cadeirinha de madeira, ele freqüentemente recolhia dinheiro para
lho na cidade, fazia parte de seu mundo secreto, Deitado na relva I os bônus de guerra. Colocava o dinheiro numa das caixas de cha-
ao lado dela, Joe, aos três, quatro, cinco e até seis anos, brincava ruto Philly pertencentes a Stephen. Sempre que havia 18 dólares e
com os galhos e o capim. Tecia fantasias sobre os espíritos que havia cinqüenta centavos na caixa, os Kallingers compravam um bônus
criado para si mesmo e cuja casa, segundo imaginava, ficava no / de guerra no nome de Joe. Estavam ensinando a Joe o valor da pou-
poço; e também sobre as borboletas que o fascinavam e deleita- pança e também dizendo o quanto faziam por ele.
vam, esvoaçando a seu redor em meio à grama alta. Alguns vizinhos o chamavam Joey, mas, para os Kallingers, ele
Só com suas fantasias, Joe raramente olhava para a frente da era sempre Joseph. Só passaram a tratá-lo por Joe na idade adulta.
casa, onde seus pais adotivos cochilavam em suas cadeiras de praia Quando o menino os aborrecia, chamavam-no Dummkopf. Ele não
de madeira. Um duplo hiato de gerações (eles quase poderiam ser podia deixar de pensar que Dummkopf era seu único apelido cari-
seus avós) os separava. E havia também a poderosa separação do nhoso.
temperamento. "Seremos rigorosos com ele", disse Anna às pessoas quando
Joe era imaginativo e volátil. Seus pais adotivos eram gélidos, Joe chegou. "Como no nosso antigo país. Ele será um bom menino,
depressivos, e só exibiam emoção quando se zangavam. As diferen- Vai respeitar minha casa limpa, nada de jogar as coisas dele por ar.
ças de temperamento transpareciam nos rostos de Stephen e Joe. "Ja, ele vai ser um cavalheiro!" dizia Stephen aos vizinhos.
Ambos tinham cabelos pretos, o que havia constituído uma das ra- "Cedo vai aprender os negócios. Nada de ficar à toa. Nada de brin-
42 43
flash back
car com outras crianças e meter-se em confusões. Vou fazer dele the waiting darkness holds things:
um sapateiro de mão cheia, como eu, seu pai". the occasional tinkering of a cow bell,
Como me disse Joe muitos anos depois, "Não havia como co- little yellow windows that are like eyes
municar-me com minha mãe. Ela simplesmente não entendia os sen- peering into the depths of a darkness;
timentos. Stephen também não. Salvo quando ficavam• com raiva,
insect sounds all around,
eram como dois pedaços de gelo". and from the distante the ~uniu' sounds
Joe não se sentia próximo dos Kallingers mesmo quando os of baying hounds; the sound of running
ajudava a varrer, juntos, as folhas mortas de outono. Contudo, water, and memories flashing back
excitava-se com o que acontecia. Observava Stephen ajoelhar-se di- to childhood days in the country,
ante da grande e frouxa pilha de folhas e atear-lhe fogo, cuidadosa- with the shallow crick in the back
mente, com um fósforo ao redor da base. Como num transe, Joe of the old bungalow, the cagar thrill
observava as chamas crescerem e se espalharem, enrolando as bor-
das das folhas, retorcendo-as em formas queimadas e frágeis, com as of fishing in the night by the glow
of a lantern as I sat quiet In the darkness
centelhas quentes e vermelhas a se alçarem na fumaça. O som cre- waiting for a bite and my first fish by night."
pitante das chamas amarelas, coruscando e saltitando ao vento, ara-
lha encantador. O fogo tornou-se parte de seu mundo secreto, onde es-
ele vivia com visões, sons e objetos , todos tomando o lugar das Joe pensava nos espíritos da casinhola da fonte comoardb nsrn
u a
pessoas. protegeriam da maneira como seu anjo da gu e le.
Na casinhola da fonte e nos bosques ao redor, Joe encontrou píritos, que o asas, velava
figura feminina de seios pequenos e com du as pia. cas o
minhocas na terra. Nos fundos da casa do sítio, à margem de um conhecia
riacho onde seu pai adotivo o levava para pescar, Joe observava E, comunicando-se com eles, Joe mortos. Mas ele er mfeli z,
assustavam, porque eram os espíritos dos se pareciam c an-
Stephen enfiar um gancho no corpo contorcido das minhocas. Joe
recusava-se a colocar minhocas conto isca em seu anzol, pois acredi- v ivendo em fantasia com as borboletas. Elas asas. Recos-
pensava, pois, à semelhança deles, tinham duas a gra-
tava que as minhocas eram espíritos de pessoas mortas. Imaginava jos,
tando-se indolentemente na casinhola da fonte, atravessando s mais
ndo
que, se fizesse uma minhoca sofrer, uma pessoa morta, seguracabo ndo alta ou pescando no riacho, ele decidiu que asécois
com mão ossuda a faca de Stephen com ponta de lábio ge ra pert ncer a
ma
belas da vida eram as borboletas e, sentindo que ser
verde, sairia de sua sepultura para matá-lo.
Quando menino, aos quatro, cinco ou seis anos, Joe não queria alguém, via-se como pertencendo a elas. recordou-me Jo . "Eu
ser destruído. A força de vida era intensa nele, e ele não sabia que "Todo o mundo tem gente, não é?" min ha
costumava pensar, quando criança, que as borboletas eram
eu ra uns
sombrias forças de destruição trabalhavam a seu redor; que, em 16
de setembro de 1943, dia de sua alta do Hospital St. Mary's, elas gente. Não sabia onde elas moravam, mas pensava
se agitariam ainda mais implacavelmente para subjugá-lo.
Temendo ser destruído pelas minhocas, Joe só pescava carpas Retrospectiva / A escuridão da espera contém coisas: / o tilin ar oca-
miúdas, que conseguia apanhar com uma rede e, às vezes, com as • sional de urna sineta dc gado, / janelinhas amarelas que são co o olhos
mãos; ou então colocava no anzol uma bolinha de mingau de aveia / espreitando nas profundezas da escuridão; / sons de Ins tos por
• s sons fúnebres / de cães a ladra • os
o som
dias
misturado com miolo de pão e aguardava, sentado junto ao riacho, toda parte, / e, a •
e à noite, da água corrente, / e as lembracas Tetornando em amp o ban-
liha na mão, em geral durantemas a sàvzes da infância no campo, / com o riacho raso nos tundosde/ do ve anterna,
com a n ou ent ão, nadando ao à luz uma
enquanto os peixes beliscavam a isca crua, gaio, a excitação ansiosa / de pescar à noite,uma fisgada e de eu pri-
largo, ignoravam-na. sentado quieto na escuridão, / à espera de
Já adulto, Joe tornou idílicas suas recordações do riacho, dan- melro peixe noturno. (Trad. livre, N. da T ).
do voz à sensibilidade poética que já tinha quando criança: 45

44
espírito que morava com elas, que talvez pudesse penetrá-las, assim • Hmeiro incidente ocorreu numa tarde de outono em 1941.
como as outras crianças acham que podem voar até a lua em cabos At I. ,ava Joe, então com cinco anos, de volta para casa, vindo
de vassoura. Eu achava que tinha vivido na terra antes e morrido; dc um de infância. Deixou que ele dirigisse seu velocípede pela
que, enquanto esperava por um corpo em que retornar, eu tinha rua Last Sterner. Ele entreouviu uns meninos mais velhos dizerem
sido um espírito que ia livremente de uma borboleta para outra". "foda" — urna palavra nova para seus ouvidos. Ao pedalar o velo-
"Mas eu achava", acrescentou, "que não tinha nenhum lar, até cípede de volta para a loja dos Kallingers, viu Stephen pela janela
Anna e Stephen aparecerem e quererem aquele menininho. E achava aberta.
que tinha nascido através de outra mãe, e que meu espírito, que "Papai", gritou lá para dentro, "o que quer dizer 'foda'?"
tinha entrado e saído das borboletas, penetrara no corpo daquele Stephen correu para fora da loja, arrancou Joe do velocípede
bebé, e então Anna e Stephen tinham sido enviados para buscar-me". e arrastou-o para a loja e depois "lá para trás", onde o açoitou
Sentiado-se sem raízes, o menino Joe reconfortava-se com essa com um pedaço de couro. Depois, Anna bateu nele com a colher
fantasia. Na fantasia, sua mãe, que era meramente acidental no de pau. A criança foi "mantida dentro de casa" por uma semana.
esquema divino das coisas, não o havia abandonado. Ela o dera à Durante a semana, os Kallingers repetiram suas punições, disse-
luz para a finalidade expressa — a finalidade divina — de que os ram-lhe que ele era "ruim, ruim", que só tinham lugar em casa para
Kallingers o convertessem em algo deles. um bom menino, e que, se ele continuasse a ser ruim, teriam de
mandá-lo de volta. Mas nunca lhe disseram em que sentido ele fora
A fantasia crescia a cada vez que os Kallingers diziam sentir
ruim, nem tampouco o que significava "foda".
orgulho de Joe. E, naqueles primeiros anos, eles ficavam orgulhosos
Três semanas depois, ocorreu a segunda crise. Anna levou Joe
quando as freiras do jardim de infância St. Boniface maravilhavam-
do jardim de infância para casa e serviu-lhe um copo de leite. Após
se com o fato de Joseph saber recitar suas orações em alemão;
terminar o leite, ele se encaminhou para a porta da rua. Agarrando-o
com o fato de ele ter "uma memória excelente" e de ser "esperto".
pelos ombros, ela o repreendeu: — Você não vai sair, Joseph. Não
Joe sabia que os Kallingers ficavam particularmente satisfeitos por-
depois do que fez no beco ontem.
que St. Boniface era uma paróquia alemã onde eles faziam a maior
parte da propaganda de sua loja. — Que foi que eu fiz? perguntou Joe.
— Você sabe perfeitamente bem, respondeu Anna.
Mas a fantasia vacilava a cada vez que os Kallingers ameaça- — Você tentou tirar as calcinhas de uma menina. Ela não dei-
vam: "Vamos mandá-lo de volta para o lugar onde o achamos". xou, e você fugiu. A vizinha do lado me contou. Anna pegou sua
Esse era o bicho-papão dos Kallingers, seu meio de aterrorizar a colher de pau. Joe pôs os braços para cima para proteger-se do
criança com sua própria insegurança. Ele nunca sabia quando viria golpe. Mas ele veio. Joe chorou e Anna vociferou: -- Pare com
a ameaça. Vinha quando ele não comia o espinafre ou quando es- essas lágrimas! Chore, que eu lhe dou um bom motivo para chorar.
quecia de tirar as galochas antes de entrar em casa. Quando chora- Desta vez, nós vamos mandá-lo de volta mesmoi
va porque Anna lhe batia na cabeça com uma colher de pau, por Anna agarrou sua vassoura e saiu, batendo a porta atrás de
não ter tirado as galochas, ela repetia a ameaça e o golpeava outra si. Pela janela, Joe observou-a a sacudir a vassoura para dois me-
vez. E Stephen! Joe sempre se lembraria de como Stephen agitava ninos adolescentes e ouviu-a gritar: — Vocês sujaram minha cal-
a faca de cabo verde apontada para ele e ordenava, "Faça o que çada limpai Façam Isso de novo que eu chamo os guardas! Perse-
estou mandando, senão vamos mandá-lo de volta". guiu os meninos com a vassoura e, depois de perdê-los de vista, var-
Desde a época em que Joe estava com cinco anos até pouco reu, com movimentos amplos e furiosos, os dois copinhos de plás-
antes da operação de hérnia, quando tinha seis anos e nove meses, tico que os meninos haviam jogado em sua calçada limpa.
ocorreram três incidentes que ampliaram a distância que o separava Enquanto observava, Joe desejou que ela varresse a ele para
dos Kallingers. Esses incidentes também ameaçaram pôr um fim longe. Estava apavorado com a idéia de que ela o mandasse de vol-
definitivo a sua fantasia de ter sido especialmente feito para os ta, mas igualmente apavorado com a idéia de não conseguir liber-
Kallingers. tar-se dela. Pois não podia escapar do fato central de sua existência:

46 47
presença, Toe as vezes passava horas diante do espelho, pelo rbenos
o de que, não tendo nascido dos Kallingers, morava com eles de até Anna arrastá-lo para longe. Anna ficava irritada com o tato de
favor, corno se tivesse entrado em suas vidas como uma criança Joe ficar-se olhando no espelho. Mas não naquela noite. Dess vez,
trocada e. feia, e tivesse de suportar a dor e os sofrimentos de uma sem sair do estômago de Joe e sem fazer nenhum som, T mmy ficar
simplesmente ficou dizendo, "Você vai ficar bom, Joe, vai
criança trocada.
Só duas semanas antes da operação de hérnia, porém, é que bom".
a fantasia de Joe de ter sido especialmente feito para os Kallingers Na manhã seguinte, Joe não estava bem e, em vez de "mandá-lo
morreu realmente. Joe abriu parcialmente a porta da loja de Kallin- de volta", os Kallingers o levaram ao Dr. Daly. Muito em ora o
diagnóstico fosse "hérnia indireta esquerda (congênita)", Anna tinha
ger e se deteve, congelado pelo medo. certeza de que o pontapé desferido pela menina ruiva em Joe ha-
— Feche essa porta, vituperou Anna do lado de dentro,
Joe fechou a porta e viu-se de pé junto a Anna, que tinha saído via causado a hérnia.
Durante os 16 dias que Joe ficou no St. Mary's, os Kal ingers
do balcão para ir ao encontro dele. provavelmente se prepararam para encenar a cena da castração sim-
O que aconteceu com você? indagou ela raivosamente. —
— bólica na sala de estar. E muito provável que o tenham feito por
Você está todo cheio de lama. Parece pálido. Está com um cheiro . .. ' cidentes quando To tinha
horrível. terem entendido mal o signi c
Eu estava trepando numa cerca, explicou loc. — Urna ga- cinco anos — o fato de ele perguntar o que queria dizer a alavra
— "Coda" e o fato de ter tentado puxar a calcinha de uma men na —
rota ruiva me deu um pontapé. Fiquei enjoado e vomitei.
Chutou você? perguntou Anna.— Que é que você fez com e o episódio recente com a menina ruiva, que era vários ano mais

ela? velha do que Toe.
Os Kallingers não se deram conta de que apenas o p xar a
— Nada, disse Toe. calcinha da menina tivera algum significado sexual. Joe tio a per-
Você é um mentiroso! Ela chutou você porque você fez al-
— guntado o que significava "foda" por pura curiosidade ace ca de
guma coisa ruim com ela, como com a menina do beco. Você tinha a menina ruiva, fora a
cinco anos naquela época. Agora está com mais de seis. O que você uma palavra que era nova para ele. Com
fez agora tem que ter sido pior. Eu sei muito bem. vítima passiva de agressão dela, uma agressão que nada t nha a
Eu nem vi a garota antes de ela me chutar, protestou Toe, ver com sexo. Mesmo aquele único incidente çue de fato e volvia
— sexo refletira a curiosidade perfeitamente normal de um men <r no.um
Se
— De verdade, nem vi.
Vá para o seu quarto, ordenou Anna. — Você não vai jan- os Kallingers tivessem sabido alguma coisa sobre como cri a
— filho, teriam reconhecido a curiosidade normal — até m smo
tar hoje. De manhã, vamos mandá-lo de volta. vissem A sua manei a pou-
Naquela noite, deitado na escuridão de seu quarto, sozinho e curiosidade sexual normal €1 d
infeliz, Joe sufocou as lágrimas enquanto a dor atravessava sua co esclarecida, viram sexo onde ele não existia. Num níve cons-
do "passarinho ' para
virilha do lado esquerdo. Murmurava para si mesmo: "Odeio as ciente, talvez tenham represem,"
meninas. Odeio os Kallingers. Odeio todo o mundo, menos Tommy". salvar o pequeno Joe da maldição sexual para a qual, po causa
supunham que ele se estava
Tommy, o companheiro imaginário de Toe, permaneceu com ele dos três episódios
encaminhando.
não relacionados,
No nível inconsciente, talvez tenham quer' o des-
a noite inteira. truf-lo por representar sua própria incapacidade de ter urr: filho.
Tommy morava no estômago de Joe, safa por sua garganta e
" e se" gritavam-lhe repetidamente. Agora, tranifOr Davam
sua boca, segurava Joe pelo pulso e segurava o dedo indicador es-
querdo de Joe no espelho. Por vezes, Toe imaginava porque conse- seus comandos verbais numa ação grotesca.
guia ver seu próprio dedo no espelho, mas não a mão de Tommy Depois que Joe voltou do hospital, os Kallingers aumen aram a
em seu pulso. Não tinha importância. Joe sabia que Tommy estava segurança de sua casa-presidio. lá não lhe era permitido brit car do
a
nições infligidas a ele tornram-se mai cruéis
lá. Na verdade, não ouvia a voz de Tommy, mas sabia que Tommy la do d fora. As pu a de que os Kallin-
estava falando com ele. Quando Toe se sentia 56, como Tendo abandonado sua fantasi
ia e maise
na maior parte do tempo, Tommy era seu amigo. Sentindo-lhe 49
na

48
gers tinham sido enviados para buscá-lo, o próprio Joe tornou-:
menos dócil e mais rebelde. Na maior parte do tempo, era ainda L.
robô obediente dos Kallingers. Mas também havia lapsos.
E foi assim que a a infância de Joe com os Kallingers dividiu-se
em duas partes: antes e depois da operação de hérnia.
Antes, houvera um tempo de compensar, através da fantasia,
o sentimento de não ser "parte de ninguém". Depois, veio o tempo
4 A Criança Enraivecida .
de expressar, através de uma raiva doentia, dirigida principalmente
contra si mesmo, suas reações à privação emocional e aos traumas
que os Kallingers haviam infligido e continuariam a infligir.

Joe estava de pé junto a uma pequena mesa, nos fundos de sua sala
da primeira série em St. Boniface. Sobre a mesa, próximo a um
abajur desligado, havia um missal, um minúsculo livro de orações e
práticas religiosas. Encadernado em papel negro, o missal tinha fo-
lhas de bordas douradas e, na capa, letras douradas. Joe o consi-
derava "uma linda Bíblia preta e dourada".
Ergueu a "Bíblia", fechou os dedos sobre ela e segurou-a com
firmeza. Colocou-a de volta na mesa e saiu com o restante da turma
para o saguão, para o recreio matinal.
Ficou pensando no missal, que não apenas queria ter para
si, mas sentia-se também fortemente compelido a possuir. Havia fica-
do para trás em seus trabalhos escolares por causa da operação
de hérnia e da longa convalescença que se seguiu. De volta à escola
já há três semanas, sentia que as freiras que lhe davam aulas já
Lião o consideravam "esperto". Sentia-se estúpido, humilhado e sem
valor.
O missal começou a assumir poderes mágicos e Joe achou que,
rezando por ele, poderia voltar a ser "esperto".
Ao voltarem para a sala de aulas, Joe perguntou à professora
onde poderia comprar o missal. Quando ela lhe disse que as lojas
não vendiam livros de orações em miniatura, ficou arrasado. En-
tretanto, sabendo que tinha que ter o missal, tentou fazer com que
Anna, a caminho de casa para o almoço, parasse na loja Sacra, uma
loja de Front Street que vendia artigos religiosos.
51
50
Durante uma hora por noite, na semana seguinte, os allin-
— Para que você quer ir lá? perguntou Anna, apertando-lhe gers fizeram Joe ajoelhar-se, com os joelhos descobertos, numa tira
a mão com mais força. de lixa grossa usada para lixar couro e borracha. Terminada a hora,
— Quero ver se eles têm uma Bibliazinha que eu quero, ex- Joe ia refugiar-se no banheiro. Depois de colocar vaselina no joe-
plicou Joe. Apesar do que dissera a professora, ele ia tentar com- lhos doloridos, retirava-se para seu próprio quarto. Quase se ipre,
prá-la. apanhava sua "Bíblia". Ficava de pé numa cadeira e apanhava o
— Ah, você quer ver? retrucou Anna. — Você sabe - que te- minúsculo livro da prateleira superior do armário, onde ela per-
nho que levá-lo em casa e de volta à escola. Olhe só paia você. manecere sem ser descoberto quando os Kallingers vasculharam o
Está com a camisa suja. Tenho que trocar sua roupa. quarto à sua procura. Por vezes, Joe sentava-se com o missal • berto
— 5 só um minuto, implorou Joe à medida que se aproxima- no colo, sem ler realmente, mas fingindo fazê-lo. Outras veze•, an-
vam da Loja Sacra. — Deixa eu ver se eles têm. dava de um lado para o outro, apertando firmemente a "Bíblia" na
— Loja? Parar? Eu lhe mostro o que é loja e parar, vociferou mão. E havia ocasiões em que usava o missal para fazer, come pre-
Anna, enquanto beliscava a carne de Joe logo abaixo do cotovelo, tendera fazer originalmente, para que conseguisse ficar em di- com
fazendo-o seguir adiante. seus trabalhos escolares. Mas nunca se ajoelhava. A sensaç o de
Durante o recreio da manhã seguinte, Joe pegou o pequenino pontadas nos joelhos tornava doloroso o ajoelhar-se, e ele sabi que,
missal da mesinha e segurou-o nas mãos. Abriu-o, virou as páginas na noite seguinte, teria de ajoelhar na lixa outra vez.
de bordas douradas e voltou a fechá-lo. Enfiou-o no bolso das cal- Tal como as borboletas do campo e Tommy, seu campa heiro
ças e- acompanhou as outras crianças para fora da sala de aulas. imaginário, o missal era amigo de Joe. Não obstante, Joe sabia
t._
Uma vez tendo apanhado o missal, Joe pensava nele como sendo que ele era um amigo perigoso. Antes de apanhar o missal, sua pro-
seu. Sentia que ele lhe pertencia, de uma maneira que a boa comi- e era
fessoras e consideravam um bom menino, mas agora diziam qt
da, as boas roupas, e até mesmo os bons brinquedos que os Kallin- um menino ruim: um ladrão.
gers lhe davam nunca tinham pertencido. Então os Kallingers não Durante semanas, Joe debateu-se entre os desejos de conservar o
estavam sempre dizendo, "Veja o que estamos fazendo por você — missal e de jogá-lo fora. Finalmente, jogou-o num bueiro a cami-
quando crescer, você vai ter de retribuir"? -r nho da escola. Mas jogar fora o missal não modificou nada.
Joe agira não apenas pelo intenso desejo de possuir o livri-
nho, mas também por raiva, imediata e cumulativa. A raiva ime-
diata por sentir-se _imprestável, por não conseguir acompanhar suas Joe era agora presa de uma interminável síndrome de ca tura-
lições, tinha-se acrescentado a raiva que começara na primeira in- ,-s de
controle-aprisionamento, fechando-se uma após outra as por
fância com a angústia de separação, e que fora reacendida e in- fuga da crueldade. Não era tratado como uma criança, ma sim
tensificada pela castração simbóliCa na sala de estar, riirdirde— sua como um robô de sapateiro que, devidamente programado, t rnar-
alta do hospital, em 16 de setembro de 1943. Qualquer criança, con- se-ia um sapateiro. Enquanto as outras crianças brincavam loa,
duzida da maneira como Joe era conduzido, poderia fazer a mesma desde os sete anos de idade, fazia consertos de sapatos dep•is da
coisa. Mas ninguém se importou em saber por que Joe o fizera. escola e durante meio dia ou o dia inteiro aos sábados. Arrancava
No dia seguinte, quando a professora deu por falta do missal, saltos de sapatos e enchia cestas e cestas de palmilhas para altos.
acusou Joe de tê-lo tirado. E isso porque ele havia falado com ela Também tinha que fazer serviços externos e executar outras :are-
sobre o livro. ias para a loja Kallinger. Depois do almoço, da vam-lhe uma hora
— Você é um ladrão, disse a professora. para fazer os deveres de casa e, em geral, seu eia de trabal o só
— Um ladrão, disse Anna, que foi chamada à escola. acabava tis nove horas da noite.
— Um ladrão, ecoou Stephen quando Anna levou Joe para Joe não tinha permissão para ir a festas na vizinhança para
casa. ficar sob rima mangueira d'água com as outras crianças no calar, ou
Naquela noite, Joe entreouviu Stephen dizer a Anna, "Man- para jogar bolas de neve com elas no frio. Não tinha pe 'ssão
tenha o dinheiro trancado. Estamos com um ladrão em casa". .
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para patinar, andar de bicicleta ou usar uma fantasia de Iíanween. de um aposento para outro, batendo com a cabeça primeiro na
' mesa da cozinha, depois nas paredes da cozinha e da sala de es-
Não tinha permissão para ir à casa de outras crianças (n, trazer
tar. Anna, que deixara a loja para ver o que Joe estava fazendo,
quem quer que fosse à casa dos Kallingers. No entanto, rft. dia
correu atrás dele com uma vassoura.
em que a turma de Joe em St. Boniface preparava-se para ir ao
— Você nunca vai conseguir fugir de mim, berrava atrás dele.
zoológico no horário escolar da tarde, o menino, então com oito
Joe correu escada acima. Anna correu no seu encalço. Conseguindo
anos, achou que dessa vez os Kallingers lhe permitiriam, como es-
alcançá-lo, ela viu o sangue em seus dedos pela primeira vez. •
creveu num poema, "marchar ao som dos tambores".
Puxou-o até o banheiro, apanhou iodo no armário de remé-
Joe não mencionou o zoológico a Anna no caminho de casa,
dios e colocou-o no corte no couro cabeludo. Joe esperneava e gri-
de volta da escola. Mas, ao entrarem na loja, contou a Stephen e tava.
pediu-lhe um quarto de dólar para o passeio. Stephen mandou que
— Achl Sempre os acessos de raiva! queixou-se Anna. Tão
Anna, que estava atrás do balcão, desse a Joe 25 centavos da caixa.
logo o sangrameato parou, ela caiu do banheiro.
Mas Anna correu até o marido, sacudiu a cabeça raivosamente, e
Joe sentou-se na borda da banheira, lutando contra as lágri-
disse: — Streef, bist du whol verrückt • Quando é que ele vai
mas ao pensar não s6 nos golpes de martelo, mas também nas
fazer o trabalho dele? outras punições. Eram vívidas as surras freqüentes que Stephen lhe
— Mas é no horário escolar, disse Stephen.
dava com um chicote de fabricação doméstica, que ele mesmo fizera
— Não, insistiu Anna. — O zoológico vai demorar mais do em couro e cordões de couro cru.
que a aula. Ele tem que trabalhar agora. Segurando numa das mãos duas solas grossas e duras, Stephen
Anna ordenou então que Joe fosse "lá atrás" e almoçasse. —
perseguia Joe, que corria para seu quarto e escondia-se embaixo da
Sua turma vai ao zoológico, disse-lhe, mas você vai trabalhar! Você
cama. Stephen, bem atrás dele, levantava o colchão e o estrado e ia
não está aqui para brincar. Você está aqui para consertar sapatos. alcançá-lo, encolhido no chão junto ao canto da armação da cama
Nada de ficar à toa por aí. Nada de perder tempo. Um dia, você
mais próximo à parede. Stephen o atingia nas costas, nos braços,
será dono desse negócio. Você tem que aprender. na cabeça, em toda parte.
— Papai disse que eu podia ir ao zoológico, e eu vou! res- 4 Naquela noite, na cama, com a cabeça ainda doendo, Joe quis
pondeu Joe. ir ao quarto de Stephen e Anna para ficar com eles, para tentar
Enfurecida pelo primeiro ato de desafio de Joe, um ato de falar com eles. Queria dizer-lhes que sua cabeça ainda estava doen-
franca rebeldia, Anna agarrou-o pelo braço e, com sua mão livre, do. Talvez, se ele fosse um bom menino e trabalhasse muito na loja,
apanhou um martelo. Era um instrumento pequeno, porém pesado, eles :o deixassem ir ao zoológico na próxima vez em que sua turma
usado para bater pregos através de várias camadas de couro. — fosse. Mas ele sabia que isso de nada adiantava. Desde quando po-
Zoológico? gritou Anna na presença de uma freguesa e vizinha, dia lembrar-se, nunca tivera permissão para entrar no quarto deles
que iria lembrar-se do incidente pelo resto da vida. E bateu quatro à noite. Durante o dia, eles não se importavam que ele enfiasse a
vezes na cabeça de Joe com o pesado instrumento de aço. — cabeça pela porta aberta do quarto, ou que entrasse e olhasse em
Você ouer o zoológico? Eu lhe dou o zoológico! volta — desde que não mexesse em nada. À noite, era-lhe proibido
Após o quarto golpe seco e duro, Joe conseguiu finalmente es- entrar. Uma ou duas vezes, ele havia tentado entrar depois que
capulir. Gritando e- esfregando a cabeça para diminuir a dor, cor- eles lhe disseram que o quarto do casal era verboten .• Haviam-no
reu "lá para trás". Sentou-se na mesa da cozinha, esfregando a ca- expulsado de lá, de volta para seu próprio quarto, de volta para a
beça e olhando para as gotas de sangue em seus dedos. Tudo pare- escuridão. Mantinham-no fora de seu quarto da mesma forma que
cia girar a seu redor. O teto parecia prestes a cair. Então, vol- o faziam sentar-se no banco traseiro do Plymouth, sozinho, nas via-
tando seu ódio contra si mesmo, saltou às cegas da cadeira e correu

" Proibido (N. da T.).


• <Você ficou louco?» (N. da T.).
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Durante muitos anos, Toe lembrou-se desse sonho; falo -me so-
sonho
Bens de ida e volta do chalé em Neshaminy, quando Joe queria bre ele 35 anos depois. Era uma lembrança
sentar-se na frente com eles. Deitado em sua cama, ele se perguntou fora uma representação da dor psíquica. Expressara sua con•ciência
lusão da intimidade dos Kallingers na própria casa deles,
o que eles fariam lá, que coisas mágicas aconteceriam durante a de sua exc
à qual, por não ter qualquer outra, ele chamava lar. Os e remeci-
noite, que eles não queriam que ele visse. mentos e cisões dos telhados fundidos expressavam a ince tcza da
E então Joe adormeceu. Sonhou que havia entrado no quarto
dos Kallingers. Eles estavam deitados em suas camas, com os rostos criança sobre sua identidade. De uma forma. bastante lit ral, ele
i e étnica
voltados na direção oposta a ele, de óculos. Eles o castigariam se não sabia quem era, pois a nacionalidade,
o achassem ali. Através das lentes imaculadas de seus óculos viria a de seus pais naturais lhe eram desconhecidas. Isso o inco odava,
pois ele e todas as outras pessoas sabiam que ele fora adot do.
chispa quente de raiva para queimá-lo. "O quarto vazio" do sonho representara sua ânsia de t r o que
Joe estava descalço. Saindo silenciosamente do quarto, desceu
pelo longo corredor até a porta que abria para o que os Kallin- lhe era negado na vida de vigília. A parede elo armário que desapa-
gers chamavam "o quarto vazio", porque ninguém dormia nele. recia representara seu desejo de romper as paredes aprision ntes da
O quarto estava repleto, no entanto, dos materiais de consertos de casa dos Kallingers. As barras da janela em forma de meias luas, ali
sapatos de Stephen e dos potes de conservas de frutas e legumes de onde antes houvera uma parede, relacionavam-se com a mãe natural
Anna. Joe soltou a presilha do trinco e a porta se abriu. Visto de Joe e com os Kallingers. A forma, representando o pçrfil dos
crianç a de sua
que "o quarto vazio" estivera sempre fora dos limites permitidos a seios de uma mulher, expressava a separação da ~ a. risiona-
Joe, ele entrou como um intruso triunfante. mãe real. Em si mesmas, as barras eram sim as pes-
Abriu a porta do armário. Ali onde estivera a parede, havia mento na residência dos Kallingers. Os telhados fundidos inclu-
uma janela com grades que tinham o formato de meias-luas. Ele soas que ali estavam representavam seu desejo de liberdade
se voltou para colocar-se de frente para a porta do armário, que são, seu desejo de ter amigos e ser como todas as outras p- ssoas.
se fechara depois de sua entrada. Empurrou a porta com o corpo, O homem grande e peludo talvez fosse uma transform ção oní-
mas "o quarto vazio" tinha desaparecido. Em seu lugar havia um rica de seus pais adotivos numa figura que representava senti-
telhado banhado de sol. O telhado fundia-se com os telhados vizi- mentos ambivalentes de Joe em relação a eles. Muito e bora ti-
nhos, formando um único e amplo terraço. vesse implorado ao homem cabeludo para não saltar, o edo e o
homen
Nesse amplo terraço havia pessoas em piscinas e em grupos, ódio que Joe sentia pelos Kallingers haviam também feito
conversando e 'rindo à luz do sol. Pela primeira vez em oito anos, desaparecer. Entretanto, a casa a que Joe tentava retornar .ertencia
Joe fez amizades, mas sabia que nunca poderia levá-los à casa de a seus pais adotivos, e era o único lar que ele tinha. Port•nto, pre-
cisava advertir os Kallingers sobre o perigo, embora os tiv sse des-
seus pais adotivos. truído, simbolicamente, no desaparecimento do homem p udo, re-
De repente, o sol desapareceu. Os telhados fundidos começa-
ram a vergar-se e oscilar, surgindo rachaduras na superfície. Ten- presentação transformada deles.
tando passar por uma janela da casa dos Kallingers havia um ho-
mem grande e cabeludo. Duas semanas depois, o menino Joe, com oito anos, saíra para
— Não pule! gritou Joe. — Não pule! a, pa rou
Mas o homem grande e peludo saltou pela janela aberta e foi fazer um serviço para os Kallingers. Antes de voltar
dando cambalhotas repetidas no ar, ficando cada vez menor, até num terreno na esquina das ruas B e Cambria, a quatro q arteirões
da casa dos Kallingers. No terreno, havia três grandes tanq es redon-
desaparecer. dos de petróleo abandonados, que eram para ice, na cidad , o equi-
E então as pessoas, os novos amigos de Joe, desapareceram.
Joe ficou desolado. Os telhados fundidos se sacudiam e partiam-se valente da casinhola da fonte no campo. Ele ia freqüente ente aos
violentamente. Ele tentou entrar novamente em casa para avisar tanques, a que chamava buracos, quando o mandavam sai para fa-
a seus pais adotivos que o mundo se estava despedaçando. Nesse zer algum serviço. Para ele, os "buracos" representavam a fuga e a
momento, Joe acordou. segurança. 57

56
Ele ..ubia uma escada vertical de 75 metros até o alto do tan- costas. Então, o rapazola que arrastara Joe pelo tanque ajoelhou-se
que, passando então para outra escada vertical que descia até o ao lado dele e cobriu-lhe o pênis com a boca. Seus dois amigos fi-
fundo. Sentado no piso do tanque, olhava para o céu e observava caram de pé, cada qual com uma faca numa das mãos, masturban-
o movimento das nuvens, ou acompanhava algum passarinho su- do-se com a outra enquanto observavam.
bindo e descendo nas correntes de ar, voando até o limite da visão
de Joe, que era marcado pelo topo do tanque. Ele conversava com
os espíritos que acreditava morarem no tanque, e sentia-se em paz. * * *
Nessa tarde de verão de 1944, enquanto o mundo estava em
guerra, a paz do santuário do tanque também chegou ao fim. A
medida que o menino de oito anos desceu da escada para o piso
do tanque. descobriu que não estava sozinho. Havia deparado com Do tanque, Joe foi para a loja de conserto de sapatos. Enquanto
três meninos a quem conhecia de vista, mas não pelo nome. Eram arrancava saltos dos sapatos e enchia cestos de palmilhas para sal-
bem mais velhos do que ele, o que o fez sentir-se fraco e peque- tos, sentia-se sujo e enjoado por causa do que lhe fora feito no
nino. Joe queria que os meninos fossem embora, pois sentia que sua tanque. Mas também ficou pensando no que tinha visto os rapa-
zes do tanque fazerem uns com os outros. Ficou imaginando se o
privacidade fora violada e que os espíritos se ressentiriam da in-
que as mães e pais faziam uns com os outros se parecia com aquilo.
tromissão dos estranhos.
Eles estavam fazendo movimentos estranhos com os corpos, Joe nunca recebera nenhuma instrução sexual além de ser in-
movimeldos que Joe nunca vira ninguém fazer antes. Sem ter ja- formado de que o sexo era ruim, sujo e pecaminoso! O sexo, disse-
mais tido qualquer experiência sexual e nada sabendo a esse res- ram-lhe, estava ligado a um demônio, e quando se faz com que o de-
peito, ele não sabia que um dos rapazes estava praticando falação mônio vá embora, ninguém jamais se mete em confusão. Joe estava
e que o terceiro, que os observava, estava-se masturbando. Joe muito confuso.
observou que o menino cuja mão ia rapidamente para a frente e O sexo é uma encrenca, ponderou. Meti-me numa encrenca no
para trás na frente de suas calças abertas estava sorrindo estranha- tanque. Mas o Dr. Daly fez o demônio sair do meu passarinho. Já
mente; que o menino de pé em frente de seu companheiro ajoelha- que o demônio foi-se embora, não é possível que eu me meta em
do movimentava a parte inferior do corpo em movimentos lentos encrencas. Mas me meti. Tudo isso é muito misterioso. As mães e
de impulsão. Sua camiseta estava enrolada acima do alto das calças. o. pais fazem alguma coisa uns com os outros. Será que isso é en-
O rapazola que se masturbava voltou a cabeça na direção de crenca?
Joe e, subitamente, parou. — Ei, disse ele, olha af aquele garoto No tanque, Joe fora, pela primeira vez, uma testemunha silen-
dc sapateiro, ali em pé. O garoto ajoelhado recuou a cabeça, enxu- ciosa da experiência sexual de outrem, e foi no tanque que, com
gou a boca com o dorso da mão e virou-se, agachado, para olhar o uma faca encostada na garganta, ele próprio foi iniciado no sexo.
menininho de pé junto à escada, do outro lado do tanque. A se- Naquela noite, sem saber o que esperar, ele trepou numa ca-
guir, levantou-se, correu até Joe e agarrou-o pela camisa. Arrastou deira e espiou o quarto dos pais adotivos pela janelinha acima da
Joe pelo tanque até junto de seus amigos. porta. Não ouviu nada, mas pôde ver os Kallingers, cada um sozi-
O menino que se tinha estado masturbando retirou do bolso nho em sua cama. Estavam deitados em silêncio e ele não soube
uma faca fina. Agarrou o cabelo de Joe com a outra mão e encos- dizer se estariam dormindo.
tou a parte plana da lamina na garganta de Joe. Disse: — Não grite, Quando olhou pela janelinha alguns dias depois, novamente
senão você se corta, entendeu? Pressionando a lâmina com mais viu os Kallingers em suas próprias camas. Dessa vez, porém, estavam
força na carne de Joe, prosseguiu, — N6s vamos tirar as suas cal- conversando sobre os negócios do dia que acabara e do que ainda
ças e esse cara aqui vai lhe dar uma chupada. Se fizer algum ba- não havia começado. Depois, começaram a falar sobre todo o di-
rulho, você está morto, sacou? Puxaram as calças de Joe para baixo nheiro que estavam gastando com ele e de como esperavam que
e empurraram-no para o chão do tanque, onde ficou deitado de esse dinheiro não fosse desperdiçado. Joe não gostou de que pen-

58 59
Naquela manhã, andando com Anna para a Igreja e Escola St.
sassem nele como um desperdício de dinheiro. Voltou para seu Boniface, Joe cantarolava baixinho, "Feliz aniversário para mim,
quarto e para a cama. feliz aniversário, querido Joe".
está resmungando? perguntou
— Que toliCe é essa que você
Anna ao saírem da Avenida Lehigh e entrarem na Rua Mascher.
Qualquer criança — ou qualquer adulto — ficaria aterrorizada
— E meu aniversário, respondeu Joe timidamente. Parou de
sc lhe fosse encostada uma faca na garganta. Para Joe, o terror nor- andar.
mal foi complicado pelas facas de seu passado: a faca de cabo Anna sacudiu-lhe a mão com rudeza e disse; — Nie com essa
verde na loja Kallinger, que cortava couro; a faca que o Dr. Daly bobaem! Escute. Tenho uma coisa para lhedizr. e Voce não obe-
g ar aquela coisa suja
tinha usado para cortar a carne de um garotinho e, supostamente, dece a rua mãe. Eu lhe disse para não pendur
para expulsar o demónio do "passarinho"; a faca com o pênis de em minha janela.
Joe no espelho, depois da castração simbólica na sala de estar. Mas — Não é suja. E uma árvore linda de Natal. Eu mesmo é que
enquanto essas facas faziam parte da vida de fantasia de Joe, a fiz. E papier-mãché, a irmã disse.
faca encostada em sua garganta no tanque fora uma realidade hor- a tirei de lá, retrucou
— Bem, não está mais na janela. Eu
renda. Era uma realidade que iria fazer parte de sua vida de fan- Anna.
tasia, e as realidades posteriores seriam influenciadas pela fantasia. -se de um
— Onde ela está? perguntou Joe, tenso, mexendo
Tal como a castração simbólica na sala de estar, a cena do lado para outro e sacudindo a mão de Anna para cima e para baixo.
tanque foi fundamental no desenvolvimento de Joe. Os rapazolas — As outras crianças têm coisas nas janelas delas.
do tanque, assim como o Dr. Daly, eram os gigantes que o contro- — Ande logol
lavam. Por conseguinte, ele vinculou o sexo com a violência, espe- Joe parou novamente de andar. Anna puxou-lhe a mão, mas
cialmente com as facas, e ligou sexo e violência ao poder. ele não se mexeu. — Onde está? perguntou outra vez, agora numa
Outras crianças tiveram experiências similares sem sofrerem voz esganiçada e estridente.
graves danos psicológicos. No caso de Joe, o estupro oral no tan- lá, mas se você continuar assim, vou queimá-la
— Eu a tirei de
que foi complicado pelas experiências passadas. Na época, ele já Ande, venha! Comporte-se!
havia sofrido o violento trauma subjacente que decorrera de sua a ca-
— Você não pode, implorou Joe, ainda se recusando
castração simbólica e que se tornou a matriz de sua psicose adulta. minhar. — Ela é minha! E minha!
Ao episódio do tanque e ao trauma violento Joe associou sua entende, Dutnmkopf? E você
— Eu faço o que eu quiser, você
preocupação com as facas que vira na loja de conserto de sapatos vai fazer o que eu quero. Ande, Joseph, senão vou queimar você
dos Kallingers, sua alienação forçada das pessoas e o senso oscilante também!
de sua própria identidade, tal como revelado pelo sonho em que o — Eu vou para casa e vou salvar minha árvore, gritou loe,
terraço era sacudido. Associou também a esterilidade emocional e enquanto tentava livrar-se do aperto da mão de Anna.
cultural de sua infância na casa dos Kallingers, bem como o sen- disse Anna, ofegan-
— Você trate de não ler um ataque aqui,
timento de vergonha ligado ao sexo — que, à parte as exorcizações te. — Um vagabundo, um ladrão. Isso é o que você é! E um
repetidas do demônio do "passarinho", os Kallingers haviam ins- menino maluco. Oxalá nunca o tivesse levado para minha casa!
tilado. Eu também gostaria que você não tivesse, respondeu Joe

com voz tensa. de Anna, toe viu seus
Através das lentes imaculadas dos óculos
Terça-feira, i 1 de dezembro de 1945, foi o nono aniversá- olhos
ficarem endurecidos de raiva. — Ach sol disse ela. — Pois
rio de Joe. Sendo alto para sua idade e esguio, ele era um bonito vamos mandá-lo embora, e passe bem!
menino. Já não tinha o rosto redondo e rechonchudo, e sim um — E meu aniversário, prosseguiu ele, e você não me deu ne-
rosto longo e estreito. Os olhos eram tristes, e o rosto, às ‘,
nhum presente. Nunca me deu!
petulante ou carrancudo. 61
60
— Todo dia é dia de seu aniversário. Seu pai e eu lhe danos rasgado em pedaços. E essas crianças aqui em St. Bonifacel Joe
presentes o tempo todo: um bom quarto para dormir, roupas me- olhou ao redor pela sala e odiou todas as pessoas que viu. Elas
lhores do que as das outras crianças — as irmãs nos pediram para riam dele porque, segundo diziam, ele era um filhinho protegido da
dar a clãs as roupas que você não usa mais, para as crianças pobres. mamãe; limpo demais, urrumado demais, vestido como um pequeno
No e também aos domingos, no campo, você viaja como um Lorde Fauntleroy, mas ainda usando calças curtas, quando os ou-
príncipe no Plymouth. E quando era pequeno, nós lhe demos mui- tros meninos de sua idade usavam calças compridas.
tos presentes, pode acreditar! E então, essas coisas não são reais Esses pensamentos percorriam a mente de Joe em alta veloci-
para você? Um presente? Você é um menino ruim, um menino ga- dade quando ele ouviu seu nome ser chamado. Isso significava que
nancioso. Vou-lhe dizer uma coisa, pela primeira e última vez: era sua vez de levar a redação que havia escrito à escrivaninha da
aniversário ou não, nada de presente! Entendeu? Vamos! Andel freira. Estava contente pelo fato de o tremor ter passado, mas
ainda sentia algo a corroer-lhe as entranhas.
Enquanto a irmã lia e corrigia sua redação, Joe permaneceu
Terminada a missa matinal, as crianças, levadas pelas freiras, de pé junto à escrivaninha dela, olhando para a chave do guarda-
saíram da igreja, em fila, por uma porta lateral, atravessaram o jar- roupa das crianças junto ao mata-borrão. Sabendo que a freira es-
dim que conduzia à escola e, depois, separaram-se aos poucos como tava prestando atenção a seu trabalho e não a ele, esticou a mão
um leque, turma por turma, indo para suas salas de aula. até a chave do armário e colocou-a no bolso.
Na igreja, Joe havia rezado a Deus, mas mantivera os olhos no Depois da aula de inglês, a freira disse às crianças que elas
rosto de uma estátua da Virgem Maria. Tinha certeza de que Ela iriam passar o período seguinte decorando a biblioteca da escola
nunca teria retirado sua árvore-de-natal de papier-rache da janela para o Natal. À medida que as crianças foram saindo da sala, Joe
onde ele a havia pendurado na véspera, depois de voltar da escola. certificou-se de ser o último da fila,
Mas o rosto pétreo dela não lhe dizia nada, e suas vestes pétreas Começou a andar com os outros em direção à escada, depois
— o manto longo e, sob ele, o vestido que ia, como o de Anna, até escapuliu da fila e voltou para a sala vazia. Retirou a chave dó
os tornozelos — eram rígidos; Toe tinha quase esperado que Ela guarda-roupa que estava em seu bolso, abriu a porta do armário
descesse de seu altar e lhe dissesse que Anna recolocaria a árvore- embutido e entrou.
de-natal na janela, e que ele não seria levado de volta para o St. Inspecionou com ódio os casacos pendurados nos ganchos. Os
Vincent's. casacos pertenciam a crianças que tinham permissão de pendurar o
Dirigiu-se diretamente para seu assento, que ficava aos fun- que elas faziam em suas janelas, que recebiam presentes de aniver-
dos da sala de aula. Sentou-se com os olhos baixos e as mãos nos sário e que não tinham de cantar "Parabéns pra Você" para elas
mesmas. Também podiam ir ao zoológico com a turma. Não fica-
bolsos. Com a não direita, apertou o canivete que encontrara numa
lata de lixo. Como de hábito, não iria receber nenhum presente de vam engaioladas atrás de paredes o tempo todo — paredes que se
aniversário; sua árvore-de-natal seria queimada; e ele seria manda- erguiam nos sonhos.
do de volta para o St. Vincent's. Furioso, não conseguia entender Os casacos, tal como as crianças que os possuíam, faziam parte
nada do que a freira estava explicando à turma, e achou que esta de famílias amorosas e não eram jogados fora como os objetos en-
seria sua última manhã em St. Boniface. Estava trêmulo de raiva e contrados nas latas de lixo. Joe sentia-se próximo das coisas das
não queria que ninguém lhe perguntasse o que estava acontecendo. latas de lixo, porque elas e ele tinham sido jogados fora. Quando as
Que é que ele poderia dizer? Não poderia falar mal de sua mãe. apanhava, estava buscando uma identidade e via-se desempenhan-
Nenhum bom menino fazia isso! Quantas vezes as freiras tinham do o papel de pai adotivo junto aos tesouros encontrados. Ele
repisado isso em sua cabeça? Ele tinha tentado honrar os Kallingers, nunca iria causar danos a esses tesouros! Nunca!
tinha querido ser leal a eles, mas de que adiantava? Seus dedos Mas, os casacos! Puxou do bolso o canivete e retalhou os bol-
apertavam com força o canivete no bolso enquanto a raiva o con- sos de dois casacos, cortando os botões de três outros. Trancou o
sumia, devorava suas entranhas e o fazia sentir que estava sendo armário, repôs a chave na escrivaninha dá professora e disparou
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Mas o trabalho com as palmilhas só dava para pagar sua pr pria
para fora da sala. Já era o último da fila, de volta a seu lugar, entrada. Percebendo isso, Joe teve pela terceira vez a "consciência
quando sua turma entrou enfileirada na biblioteca. Tendo dado va-
zão a seu ódio em seu primeiro ato destrutivo, sentia-se calmo. de fazer algo errado".
Com o corte dos casacos e o furto do missal, antes disso, Joe Numa manhã de sábado, enquanto os Kallingers estava na
havia tomado contato com o que me descreveu, mais tarde, como loja e antes de ele próprio descer, Joe entrou no quarto deles e briu
'ta consciência de fazer algo errado". Em ambas as ocasiões, tinha o armário onde eles guardavam pilhas de moedas de cinco, dez 25
agido por ódio. No caso do missal, era o ódio por sentir-se impres- centavos. Pagando uma das pilhas de 25 centavos, devolve as
tável. O corte dos Casacos foi o ódio de uma pessoa de fora contra outras à prateleira. Pagando para que um dos meninos da vizi-
as de dentro; de uma criança a quem o amor era negado contra nhança fosse ao cinema, Joe foi o maioral naquele dia. Depoi do
crianças que o tinham. O ódio, em ambos os casos, fora imediato e primeiro sucesso, continuou a "subornar" os garotos para qu- lhe
cumulativo: à compulsão imediata de fazer algo errado acrescenta- fizessem companhia no cinema. Começou a retirar do armário ais
ra-se o ódio que havia começado com a angústia de separação, na dinheiro do que precisava para a saída do dia, colocando o "s Ido"
primeira infância, e que fora despertado e intensificado pela cas- sob um tijolo solto da calçada, cercado de grama alta, perto
.. de uma
cerca do outro lado da rua East Sterner. Colocava tijolo e as
tração simbólica depois da operação de hérnia.
Joe só veio a ter essa "consciência de fazer algo errado" nova- moedas no chão e sentia-se seguro acerca do dinheiro em seu ' ban-
mente aos 11 anos. Nessa época, já havia aprendido bem as peque- co" improvisado. O que quer que os Kallingers fizessem ao d sco.
nas tarefas da loja dos Kallingers e passado às mais complexas. brir a falta das moedas era sentido por Joe como valendo o pre-
Sentava-se numa cadeira com uma cesta a seu lado e um bloco de ço de não ficar solitário nas tardes de sábado.
madeira à sua frente, onde colocava um pedaço grande de couro de Numa manhã de quarta-feira, logo no início de janeir de
animal. Punha então um molde de aço sobre o couro e batia nele com 1947, Joe soube, no momento em que entrou na cozinha pa a o
uma marreta de madeira, assim cortando palmilhas para o calcanhar café da manhã, que tinha sido apanhado. Anna estava fritando tou-
dos calçados masculinos. Depois, tinha de encher toda a cesta com cinho e Stephen, tendo conseguido melhorar seu inglês, lia o bitu-
essas palmilhas. A única remuneração que recebia por esse traba- delphia Inquirer. Quando os Kallingers viram Joe, Stephen fr nziu
lho era o dinheiro do cinema que conseguia ao encher o cestão. o cenho e Anna, segurando a frigideira sobre a chama, rosna., —
E isso porque, nas tardes de sábado, Joe, que em geral conti- Ladrão!
nuava a só poder sair sozinho a serviço dos Kallingers, tinha per- — Você nos envergonha novamente, Joseph, disse Stephen, abai-
missão para ir ao cinema sozinho. Sem dispor de qualquer mesada, xando o jornal.
podia ir desde que ganhasse o dinheiro do cinema trabalhando com Desajeitadamente parado entre Anna, ao fogão. e Stephe , na
as palmilhas para salto na loja dos Kallingers nas manhãs de sábado. mesa, Joe não disse nada.
Costumava sentar-se na cadeira e trabalhar furiosamente para cum- — N6s lhe damos tudo, disse Anna. — Mas você roub do
prir o prazo do cinema. nosso armário. Tira nosso dinheiro suado.
Às vezes, quando a manhã estava quase no fim e a cesta ainda Lá estou eu contando o dinheiro no armário antes de des-
não estava cheia, Joe a enchia de jornais no fundo e colocava as cer para o café, explicou Stephen, quando vejo que algumas ilhas
palmilhas para salto sobre os jornais. Sabendo que Stephen estava estão faltando. Como é que me sinto? Envergonhado! E por uê?
ocupado demais para reparar nisso, Joe ia ao cinema sem ser mo- Porque tenho um ladrão em minha casa. Sinto que não é segur ter
lestado. Durante a semana, levava a cesta para o porão e despejava nada de valor por aqui. Quando você roubou o mi sal de St. B nifa-
as palmilhas na arca onde eram guardadas. O ardil nunca foi des-
ce, eu disse a sua mãe que trancasse tudo. Ela não me deu ou idos,
coberto, mas, com o tempo, Joe começou a ficar insatisfeito em ir ao
cinema sozinho, enquanto as outras crianças iam em grupos. Somente e é isso que nos acontece agora.
pagando a entrada dos outros meninos é que Joe, a quem não fora — Há quatro anos, Joseph, disse Anna, trouxemos você do hos-
permitido ter amigos, conseguiria convencê-los a ir ao cinema com ele. pital para nossa casa. Dissemos que você ia ser um bom menin ...
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Quando Stephen terminou de castigar Joe, Anna aoagou o fogo
— Tínhamos medo de que você fosse fazer coisas ruins com com um movimento rápido de satisfação. — Você fe muito bem,
seu passarinho quando ficasse mais velho, disse Stephen. — Pedi- Steef, disse com o rosto iluminado de admirão.
mos ao Dr. Daly para expulsar o demônio dele. E ele fez isso, mas...
Stephen soltou Joe. Com os dedos latejando e ardendo, Joe cor-
— Mas, emendou Anna, não pensamos em pedir ao médico
reu para a porta que levava à sala de estar
para expulsar essa maldade, de modo que agora...
— Onde você pensa que vai? indagou Anna.
— Estávamos errados, Joseph, disse Stephen. — Devíamos ter — A lugar nenhum, respondeu Joe, com a voz entrecortada de
feito isso também. Mas como poderíamos sonhar que você faria isso, soluços. Cerrou os dentes para lutar conta a dor e manteve as mãos
roubar nosso dinheiro? Primeiro o missal, e agora, isso! Mein Gottl longe do corpo, com as palmas voltada, para cima e os dedos do-
Que é que você vai fazer depois? O Dr. Daly expulsou o demônio do brados. Não conseguia parar de tremer. Ficou ali de pé, olhando
seu passarinho. Mas ainda há um demônio em você. Um demônio para Anna, e aguardou instruções.
que faz de você um ladrão! Que é que você tem a dizer em sua de- — Você aprendeu sua lição? perguntou Anna.
fesa, 'seu' modelo de criancinha? — Meus dedos doem terrivelmeite, disse Joe baixinho.
Rigidamente parado, Joe continuou sem dizer nada. — É claro. Você tem que sofre- pelo seu grave pecado, disse
Anna afastou-se do fogão e colocou-se junto a Stephen. — Steef, Anna.
segredou no ouvido dele, precisamos expulsar o demônio dos dedos. Joe andou até a pia. Abriu a água fria, mas Anna o afastou
— Ja, Ahnie, isso é o que devemos fazer, retrucou Stephen. com um empurrão e fechou a torneira,
Tendo entreouvido o que Anna segredara a Stephen e pressen- — Você não vai usar água nem pomada nenhuma. Tem que sen-
tindo o perigo, Joe começou a encaminhar-se para a porta. Adtes tir a dor com o corpo e a alma. Ertão, pode ser que Deus o perdoe.
que conseguisse chegar até ela, Stephen o agarrou pelos ombros e o Você deve pedir à Virgem Santa qte interceda por você, disse Anna.
fez voltar-se; então, segurando-lhe o braço com firmeza e puxando, Muito mais poderoso do que a dor do exorcismo do "demônio
fez Joe andar até o fogão. ladrão", no entanto, era o intenso desejo de Joe de não ficar só nas
Anna, que estava esperando, havia retirado a frigideira de tou- tardes de sábado. Sempre que o suprimento de moedas em seu banco
cinho frito, mas não apagara o fogo. Ao contrário, havia aumentado improvisado se reduzia, Joe voltava ao armário dos Kallingers. Con-
' tinuou a furtar as moedas e a suportar a dor de ter os dedos quei-
a chama até o máximo.
mados, tal era a solidão que os Kallingers haviam criado para ele.
— Está pronto, disse a Stephen, como se fosse uma enfermeira Os Kallingers queimaram ;oe seis vezes. Em algumas delas,
entregando a .um médico um instrumento cirúrgico. Anna colocou as pontas dos dedos do menino na chama, porém, na
— Ja, muito bem, Ahnie, respondeu Stephen. maioria das ocasiões, era Stepten quem e' fazia. A boca do fogão
Com a mão esquerda, Stephen agarrou o pulso esquerdo de era pequena e os dedos eram colocados nii chama brevemente. Na-
Joe; com a direita, agarrou-lhe o pulso direito. Colocando-se de quele queimador, porém, juntamente com outros castigos e indigni-
pé bem atrás de Joe e com os punhos em torno dos pulsos do me- dades impostos pelos Kallingers, um ser humano de grandes poten-
nino a espremer-lhe os ossos, Stephen levou lentamente as pontas dos cialidades estava sendo destruído.
dedos da mão direita de Joe até a boca do fogão e empurrou-os para Ao chegar aos 12 anos, Joe havia perdido o interesse em su-
ao Ciiie
a chama. Joe gritou, enquanto Stephen entoava, — Isso queimará o bornar as crianças da vizinhança para que fossem com eie
demônio ladrão, expulsando-o dos dedos que roubam. Howard aos sábados, com dinheiro roubado dos Kallingers.
Stephen empurrou as pontas dos dedos da mão esquerda de Ao furtar as moedas, Joe estava tentando, por meios desespera-
Joe para dentro da chama e os retirou. A dor foi intensa. Depois, dos, aliviar sua solidão. Mas estava também punindo os Kallingers,
colocou as pontas dos dedos da mão direita no fogo. Joe tornou a dando vazão ao ódio nascido das indignidades a qu'e o submetiam.
gritar e sacudiu-se. Mais uma vez, Stephen entoou: — Isso queimará Eles haviam criado as transgressões de Joe, ao negar-lhe o direito de
o demônio ladrão, expulsando para fora dos dedos que roubam. encontrar e ser ele mesmo, de brincar e desfrutar do fato de estar vivo.
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Livro Dois

O Sonho
da Família
5 O Mundo Secreto

Certa noite, já tarde, com apenas a luz da escrivaninha acesa, Joe


aos 12 anos, ajoelhou-se em sua cama. Estava de pijama. Na mão
esquerda, segurava a faca de cabo verde. Pressionou a ponta no
papel de parede florido de seu quarto e girou silenciosamente a faca
para a direita e para a esquerda, vez após outra. Seus olhos escuros
observavam os pedacinhos de papel e de reboco caírem sobre a cama.
A intervalos, parava e ouvia. Tudo estava calmo. Girando a lâmina
cada vez mais fundo na parede e fazendo pressão sobre ela, sentia
um poder estranho e maravilhoso percorrer-lhe todo o corpo.
Joe imaginou se o poder viria da faca de cabo verde ou de sua
mão esquerda. A faca o havia assustado na loja de consertos de
calçados, quando Stephen a usava para cortar couro. Mas agora, à
noite, com a loja fechada, já não o amedrontava. Ele a retirara da
loja para fazer o furo na parede de seu quarto e a devolveria pela
manhã, de modo que nada havia a temer nesse sentido. Quanto ao
poder, decidiu que provinha tanto da faca de cabo verde quanto de
sua mão esquerda. Não tinha nenhuma idéia de que a mão esquerda
iria ser a mão esfaqueadora, a mão da destruição.
O buraco cavado por Toe na parede, tal como a casinhola da
fonte em Neshaminy e o tanque em Kensington, fazia parte de seu
mundo secreto. Diversamente deles, porém, o buraco não seria usa-
do para comunicar-se com os espíritos ou tecer fantasias sobre as
borboletas. Joe o havia criado para o prazer da masturbação e,
simbolicamente, para esconder seu pênis, do qual tinha vergonha .
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"Na época em que deviam ter acontecido coisas normais' , ex-
Joe retirou a lâmina da faca do buraco. Para certificar-se de que plicou-me Joe anos depois, "surgiu essa outra coisa". Essa utra
o furo tinha o tamanho certo, colocou nele o polegar. Desligou a coisa foi uma adolescência em que o uso de facas ficou lig do à
lâmpada da escrivaninha e deitou-se na cama. Pela abertura da sexualidade; Isso porque, à medida que Joe foi ficando mais elho,
calça do pijama, colocou os dedos da mão esquerda ao redor do passou a não se satisfazer apenas en tecer fantasias sobre acas.
pênis entumescido e masturbou-se. Ao sentir-se excitado, pôs-se de Para intensificar o prazer da masturbação, colocava uma fac real
joelhos e colocou o pênis no buraco da parede. Dando impulso com na cama, perto do buraco na parede Também levava para o uarto
os quadris, algumas vezes, chegou ao orgasmo. fotografias de homens e mulheres parcialmente despidos, enc ntra-
Por algum tempo, Joe permaneceu deitado na cama, sentindo-se das nas revistas pornográficas que ele apanhava nas latas d lixo.
calmo e em paz. Mas foi então tomado pela tristeza, culpa e vergo- Na vida real, as mulheres viçosas ao mesmo tempo o xcita-
nha, pois como sua criação católica lhe havia ensinado, ele se "tocara vam sexualmente e o amedrontavam. Certa vez, quando uma moça
de maneira impura". de seios grandes flertou com ele no cinema, ,Joe literalmente fugiu.
Ficou atordoado e confuso. Lá estava ele, deitado ao lado do Sem sentir-se "macho", não ousou competir pelos favores deli com
buraco onde seu pênis ereto lhe tinha dado tanto prazer, quando, os machões. Achou que a moça, como todas as outras passo s, es-
supostamente, um pênis pequenino e livre do demônio deveria ter tava rindo à custa dele. Mas as mulheres nuas e de seios fart s das
feito dele um bom menino. Joe tinha gostado da dureza do pênis se- fotografias o excitavam sexualmente sem .atervridt-lo.
guida pela explosão do orgasmo. Sabia que o demônio supostamente Com o tempo, contudo, a faca e as ft;los deixaram mera ente
expulso de seu pênis ainda estava lá. de aumentar o prazer da masturbação; tornaram-se essencial . Joe
O buraco na parede não permaneceu secreto. Stephen o desco- já não conseguia chegar ao clímax sem primeiro fazer furos om a
briu, deu uma surra em Joe e tornou a pôr reboco na parede. Joe faca nos seios ou no estômago das mulheres fotografadas . Q ando
voltou a fazer um buraco, foi novamente espancado e, mais uma vez, esfaqueava um seio ou um estômago, sentia-se muito potente. faca
Stephen cobriu o buraco com reboco. Isso aconteceu repetidamente, lhe havia devolvido o poder_ que a faca do Dr. Daly suposta ente
mas Stephen não sabia que o buraco era uma indicação de que ha-
via falhado seu plano de impedir o "passarinho" de Joe de ficar
duro. -Nos momentos de raiva, e não para chegar ao clímax -
Joe esfaqueava os pênis das fotografias de homens. Mais um exual,
Joe acreditava e desacreditava do que Stephen e Anna lhe ti- retaliava o dano causado pela faca usada pelo cirurgião.
nham dito sobre o "passarinho" seis anos antes, e que haviam repe- O que Joe estava fazendo, como ele bem sabia, poderia man-
tido com freqüência desde então, especialmente nos últimos tempos. dar um menino para o inferno. Ele não pensava no inferno como
De acordo com a previsão, porém, seu pênis de fato permanecera pe-
um lugar situado na Terra, e sim como um estado mental, e bora,
queno. naquela época, não conseguisse expressar essa distinção. Entr tanto,
Na verdade, o pênis de Joe não era anormalmente pequeno. apesar de não achar que o inferno fosse um lugar, Joe tinh , com
Mas era suficientemente pequeno, quando comparado aos dos me- sua rica imaginação, muitas imagens pictóricas dele.
ninos mais velhos que ele vira nos banheiros da escola, para reali- O inferno era um grande buraco (o buraco tornara-se °ui a vez
mentar a ilusão do pênis pequeno que Stephen e Anna haviam plan- importante na vida imaginativa de Joe) na terra, onde todos s pe-
tado. cadores eram atirados depois de morrer, e onde os espírit s (os
Vez por outra, Joe olhava sonhadoramente para o buraco na espíritos não tinham a forma de seres humanos) os torturava . Os
parede e tecia fantasias. Muitas diziam respeito a facas: a faca de pecadores menores, pensava Joe, ficavam perto do topo do uraco,
cabo verde, a faca não vista usada para "consertar" seu "passari- enquanto os grandes pecadores ficavam perto do fundo. Havi cha-
nho", a faca com o pênis pendurado que havia aparecido no espelho mas no inferno, e essas chamas, emitindo luz como os incêncl'os na
da sala de estar, e a faca no tanque — a sinistra realidade que mar- terra, queimavam os pecadores, mas não os consumiam.
cara sua primeira experiência sexual.
73
72 .
O inferno era também uma montanha, tão alta que podia ser de bonde ou ônibus da casa dos Kallingers. Entretanto, fantasian-
vista acima da linha do horizonte. A montanha era feita de homens do sem razão nenhuma que ela morava na esquina das avenidas Gi-
e mulheres, com seus membros, cabeças e troncos entrelaçados e rard e Montgomery, foi até lá numa tarde de sábado em que os
retorcidos em formas que expressavam a agonia da mente e do cor- Kallingers pensavam que ele estivesse no cinema.
po. Tinham morrido enquanto praticavam o sexo ou enquanto se De pé na esquina, pensou primeiro não em sua mãe, mas nos
masturbavam; depois da morte, seus pênis Ou . seios tinham sido cor- Kallingers. Lembrou-se de que tinha tentado aproximar-se deles fa-
tados com :'acas flamejantes por demônios invisíveis que voavam zendo pequenas coisas para agradá-los. Passara muitas horas no
acima e ao redor da montanha, numa patrulha eterna, apenas com porão, onde tinha construído com caixotes velhos um gaveteiro onde
as facas flamejantes à mostra, e que, de tempos em tempos, mergu- Stephen pudesse guardar pequenos objetos. No último Dia das Mães,
lhavam para cortar o pênis ou os seios de algum recém-chegado; e a Joe dera a Anna uma planta florida num vasinho. Tinha guardado
montanha ia crescendo a cada novo pecador que lhe era acrescen- o dinheiro do cinema para isso. Mas ela comentou, irritada, "Ora,
tado. As mulheres tinham buracos abertos e sangrentos no estô- por que é que você foi gastar dinheiro com isso? Vai morrer, de
mago. E essa imensa montanha, feita daqueles que, em vida, tinham qualquer maneira".
pecado pelo sexo, emitia gemidos, lamentações e gritos de dor, to- A distancia que Joe sentira em relação aos Kallingers quando
dos os quais continuariam para sempre.
tecia fantasias na casinhola da fonte, enquanto eles cochilavam em
O inferno era também um lugar onde pequenos diabos atarra- suas cadeiras de praia, nunca fora diminuída. Ele sempre tivera de
cados, de sexo masculino e feminino, que falavam uma língua es- procurar companhia em outro lugar. Encontrou-a nas borboletas. En-
tranha, parecida com a de seus pais adotivos, perseguiam os meninos controu-a também nos bilhetes de baldeação dos bondes e nos mo-
e meninas que tinham sido apanhados tendo relações sexuais entre tores inutilizados de relógios elétricos, aspiradores de p6, lavado-
si ou masturbando-se sozinhos em suas camas. Nesse inferno esta- res de pratos e outros aparelhos. Pensava em si próprio, consciente-
vam os menininhos de cinco anos que haviam tirado a calcinha das mente, como tendo sido jogado fora por seus pais naturais. Os bi-
meninas, e meninos de 12 anos que se haviam masturbado en- lhetes e motores também tinham sido postos no lixo. Joe sentia que
quanto rasgavam buracos nas fotografias de corpos de mulheres. ele e essas coisas eram parecidos. Sempre que Anna o apanhava com
Acreditando que tanto as pessoas das ilustrações quanto ele pró-
bilhetes de bonde, ela os rasgava.
prio pertenciam ao inferno, Joe imaginava gila os diabinhos baixos
e atarracados, falando sua língua gutural e incompreensível, iriam Joe catava bilhetes dos postes telefônicos de madeira, de buei-
ros e fendas diversas, pois queria ter tantos quanto um condutor.
castigar Joe Kallinger não só por suas ações pecaminosas, mas tam-
bém por seus pensamentos pecaminosos. Queria inclusive ser condutor, para que as pessoas tivessem que ir
Corroído pela culpa, Joe sentia mais do que nunca que não onde ele as levasse e para que pudesse dirigir as coisas.
era "parte de ninguém". Entretanto, buscando consolo, dizia a si Pensava em seus pais reais como sendo dele, muito embora o
próprio que era "filho de Deus", que era "melhor do que qualquer tivessem condenado ao abandono pelo crime de ter nascido. Não
outra pessoa" e que estava "adiante de seu tempo". O mecanismo conseguia perdoá-los, mas chorava sua perda e sentia pertencer a
de defesa era claro: ele se acreditava adiante de seu tempo porque eles. Queria que o chamassem filho e que o amassem.
não era deste tempo, e estar adiante explicava sua alienação e soli- Nos poemas que Joe escreveu quando adulto, explicou seu sen-
dão. Pensava freqüentemente no anjo da guarda de sua infância, uma timento sobre esses pais inatingíveis. Lamentou que "não houvesse
figura feminina de seios pequenos, que ele esperava que ainda o pro- ninguém para mostrar-me como ver e ouvir"; assemelhou-se à "neve,
tegesse. Rezava para que ela o salvasse da maldição. Rezava para 1 bonita de se olhar, mas indesejada e atirada com a pá de um lado
que o ajudasse a encontrar os pais que nunca havia conhecido. para outro". Expressou seu desejo de uma irmã e um irmão e, sob
Joe tinha visto sua mãe na loja de consertos de calçados dos esse desejo, o anseio mais abrangente "de sentir-me vivo, de sentir-
Kallingers antes da adoção, mas não sabia disso. Tampouco sabia me necessário, de sentir-me querido, de pertencer a uma família
que ela morava — e sempre morou — a uma pequena distância amorosa".
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Naquele verão, Joe sentiu o velho anseio de fugir dos frios Kal-
lingers, ainda que por pouco tempo. Nunca fugira de casa e não Envergonhado e revoltado, Joe aliviou-se, porém, tio descobrir •ue
o estava fazendo agora, mas tinha convencido os pais adotivos a seu supervisor não era o mesmo rapaz.
mandá-lo para um acampamento por algumas semanas. Assim, na Nas primeiras horas da manhã, quando todos dormiam, Joe ëaía
manhã de um dia quente e ensolarado no início de julho de 1949, de sua barraca e andava sozinho pelas trilhas do bosque. Começou
carregando uma mochila, Joe andou até o Farol, um centro de re- a recolher tartarugas das bases das árvores e escondidas sob pedras.
creação da vizinhança que dirigia o Acampamento Downington, nos Pôs-se a imaginar o que seria melhor; voar para longe com as bo-bo-
subúrbios da Filadélfia. letas, como tinha pensado ser possível fazer quando era menor, ou
Durante anos Joe havia implorado a seus pais adotivos que se esconder-se numa casca como as tartarugas.
mudassem-para os bairros afastados, e deleitava-se com o fato de que O supervisor de Joe insistiu com ele para que praticasse tiro
o acampamento fosse lá. Ele era infeliz em Kensington e tinha a ao alvo na linha de tiro dos rifles, mas Joe nunca havia segurado um
idéia fixa de que seria feliz nos subúrbios distantes. Esses bairros, revólver e sempre se recusava. Na manhã de segunda-feira da se-
tinha certeza, poriam fim a sua solidão e às implicâncias ocasionais gunda semana no acampamento, porém, concordou. Segurando • ri-
de crianças que ele nem sequer conhecia. Ele se entregava a uma fle, deu duas séries de tiros. Não deu a terceira, mas, deitado de
espécie de pensamento mágico, uma forma de pensamento caracte- bruços, com o rifle apoiado no braço direito, retirou a mira teles-
rizada pela falta de qualquer relação realista entre causa e efeito. cópica com a mão esquerda, a mão cujo poder sentira ao c var
Caminhando para o Farol, Joe voltou a experimentar esse sen- pela primeira vez um buraco na parede de seu quarto. Coloco a
timento acerca dos subúrbios, ao recordar um incidente de impli- mira telescópica no bolso e puxou a camisa sobre ele para esto der
cância que tinha ocorrido no Parque Diamond quando ele tinha o visor. Quando as outras crianças deixaram a linha de tiro ara
dez anos: os alunos tinham obtido permissão para sair num dia voltar a suas barracas, Joe não foi com elas, mas sim para o ni til-
quente de primavera, e Joe, de calças curtas (quando os outros me- gal perto dali.
ninos de sua idade já usavam calças compridas), esperava por Anna Protegido pelo mato alto, retirou a mira telescópica do bo 50.
na entrada do parque. Três adolescentes tinham zombado dele por Segurou-a ternamente na mão, da mesma forma que, já há m ito
causa das calças curtas. Haviam-no derrubado e chamado "filhinho tempo, segurara o missal. Em seguida, desmontou-a. Os motores jo-
da Mamãe" Ifin dos adolcaeeles pulou sobre seis estômago. Deitu- gados fora eram urna paixão em sua vida. Agora, ao estudar e e
till 101 I kW, Hg Inibi, jia: vira Aunu aproximar-se.
minar as peças da mira, achou esse novo mecanismo ainda ni is
fascinante. Isso se aplicava especialmente à lente de aumento. oc
AMNIIII que Anna chegou, us três adolescentes fugiram. Joe não
conservou a lente, mas jogou as outras peças no matagal.
teria lutado com eles; nunca tinha reagido ao ser atacado. "Os
Focalizou a lente em sua mão, e a ampliação deu-lhe uma s n-
bons meninos não brigam", Anna sempre lhe dissera. Entretanto, no
sação de poder. Retirando a lente, voltou a sentir-se fraco te in e-
passado, ela também o havia chamado "frouxo e medroso" por não
Peso. Mas, quando colocava a mão sob a lente, tornava a senti se
reagir. Ele se sentia numa armadilha. Essa era sua vida. Com os
poderoso. Sua mão esquerda parecia particularmente grande. le
pais, não podia vencer!
queria ficar ali para sempre, oculto pelo matagal e olhando a m-
O ônibus de aluguel estava esperando quando Joe chegou ao
pliação de sua mão esquerda. Quando soou o primeiro gongo par o
Farol. Joe foi para a parte traseira e sentou-se. Foi o último a sal-,
almoço, Joe guardou a lente no bolso e dirigiu-se em passadas á-
tar quando o ónibus chegou ao Acampamento Downington.
Enquanto os supervisores organizavam os grupos nas barracas, pidas até o refeitório.
Durante as atividades da tarde, Joe, como de hábito, ficou (te
Joe manteve-se na orla da pequena multidão. A distância, procurou
fora. A lente estava no bolso esquerdo da calça. Acariciou-a c
rostos familiares. Havia alguns de Kensington. Havia também um o polegar até a superfície lisa e ligeiramente recurvada ficar Um da
— o rosto de um supervisor — que Joe não conseguia situar, mas com o suor de sua mão. O poder percorria seu corpo, tal co o
que o fazia sentir-se inquieto. Reconheceu-o então como o rosto do
acon ceara na noite em que tinha cavado pela primeira vez o u-
garoto que, quatro anos antes, dera-lhe uma "chupada" no tanque.
rato na parede do quarto. Sentia-se superior às outras crianças do
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acampamento; o ódio, a inveja e a solidão com que sempre as ob- levou o supervisor e o diretor até o matagal, onde apontou as peças
servara brincar foram substituídos pelo desprezo.,.Perto dele, os gru- espalhadas da mira telescópica desmontada.
pos de duas barracas jogavam beisebol; mais adiante, perto das ár- Os Kallingers tinham pago por duas semanas no acampamen-
vores, outras crianças jogavam vôlei. Estavam perdendo tempo. Ele to, mas tinham dito a Joe que, se ele quisesse, poderia ficar por
sabia de coisas, afirmou para si mesmo, que seus companheiros de mais duas semanas. Agora, não havia escolha. O diretor do acampa-
acampamento — e os supervisores, e talvez o mundo inteiro — mento disse a Joe que ele teria de partir quando terminassem suas
não sabiam. Apertando a lente com o polegar, o indicador e o dedo duas semanas.
médio da mão esquerda — os dedos da masturbação — acreditou Joe tinha destruído a mira telescópica, e a destruição era agora
ter encontrado uma fonte de poder mágico que poderia torná-lo in- para ele urna necessidade compulsiva, A tortura que havia supor-
superável: colocando a lente sobre a mão esquerda, podia transfor- tado no tanque, quando uma faca real foi encostada em sua gar-
mar-se num gigante. ganta, continuava a persegui-lo e reclamar retaliação. Ele já sen-
Naquela noite, ao jantar, foi feita a comunicação de que uma tira poder em sua mão esquerda, e a ampliação dela intensificara a
das miras telescópicas havia sumido. O acampamento foi revistado, sensação de poder. Más tarde, a mão esquerda, a mão do poder,
mas o visor desaparecido não foi encontrado. iria tornar-se sua mão esfaqueadora. Mas o impulso de esfaquear,
Na manhã seguinte, Joe contou até cem enquanto andava pela de torturar com uma faca, decorrera de um incidente simples: sua
trilha suja que ia de sua barraca até a piscina. Não tendo jamais castração simbólica após a operação de hérnia. Sua vida de fanta-
estado numa piscina antes de vir para o acampamento, não sabia sia, a fonte dos impulsos assassinos, havia começado com esse inci-
nadar. Tinha-se recusado a receber aulas de natação no acampamen- dente. Ele tinha de restituir-se o poder — sexual e de outro tipo —
to e ficou sozinho na parte rasa da piscina, enquanto as outras crian- que acreditava ter sido retirado pela faca do cirurgião .
ças chapinhavam na água e nadavam. Sem chapéu, sob o sol de ve-
rão, queria vestir-se e ir para a sombra. Ao lado da piscina, retirou
o calção molhado e enfiou apressadamente as bermudas de linho Dez dias depois de voltar do Acampamento Downington, Joe,
branco. Enquanto despia o calção, ouviu a lente da mira telescópica com uma faca de ponta curva no bolso de suas calças, entrou num
bater no chão e. logo em seguida, a voz de seu supervisor, pergun- ônibus numa tarde de sábado. Tinha ouvido o que acreditava ser a
tando severamente, "Onde você arranjou isso?" "voz do demônio", ordenando-lhe que saísse e cortasse alguém.
Supostamente, o demônio já não deveria estar nele, mas parecia es-
"B minha", disse Joe suavemente. Baixou os olhos até a lente.
tar. Joe estava atuando com a faca a fantasia de restituir-se o poder
Lá estava ela no chão, molhada, com os ralos de sol reluzindo nas
que acreditava ter sido arrancado dele pela faca do Dr. Daly.
gotas que cobriam sua superfície. Joe tinha esquecido que a passa-
Procurou uma vítima pela janela do ônibus. A uma milha do
ra das calças curtas para o calção de banho, Continuou protestando
chalé dos Kallingers em Neshaminy, viu um menino aproximada-
"E minha" enquanto o supervisor o bombardeava com perguntas.
mente de sua idade andando por uma estrada suja, paralela 'à rodo-
Em seu deltrio, Joe ultrapassava as fronteiras da realidade e tor-
via em que seguia o ônibus. Joe desceu do ônibus, encostou-se num
nava seu qualquer objeto que tivesse um significado especial para
velho carvalho e esperou sua presa.
ele. Assim como o missal na escola, a lente de aumento que retirara •
Deteve o menino com um "Oi!" animado e conversou com ele ami-
do rifle tinha-se tornado sua. Joe acreditava que a lente de aumento
gavelmente, atraindo-o então para o riacho, a pretexto de irem pescar.
lhe conferia poderes que o colocavam acima das outras pessoas do
Os dois meninos atravessaram a rodovia e chegaram a um ater-
acampamento. fazendo-o sentir-se forte e seguro.
ro. Caminharam por ele, com os sapatos chutando pequenos galhos
Com um olhar vago que, como o casco da tartaruga, era uma de árvore e folhas secas espalhadas.
forma de proteção, Joe andou docilmente ao lado do supervisor até — Onde estão o caniço e o molinete? perguntou Willie ao
o escritório do diretor. Ali, admitiu ter furtado a lente, dizendo que chegarem ao riacho. Joe tinha-lhe dito que seu equipamento de pes-
a queria porque "ela faz as coisas ficarem grandes". Em seguida, ca estava junto ao ribeirão. — A gente bem que podia começar a

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LA
1
.%),
tia-se como uma "marionete saltitante", pois uma força exterr a a
ele parecia controlá-lo, da maneira como um titereiro manipula as
pescar. Não recebendo nenhuma resposta, o garoto continuou a ta-
cordas de um títere. Era o mesmo sentimento que Joe viria a exPeri-
garelar: — Anda, vamos pegar sua vara e as outras coisas e co- j
mentar na idade adulta, apanhado no laço dos delírios destrui vos.
meçar a pescar! Joe ainda assim não respondeu. O único som audí-
Agora, estava repleto de um sentimento de ruína. Seu f Luro
vel era o do tráfego na rodovia. — Não está aqui, disse Willie, sei
estava fora. de seu controle, de suas próprias determinações. Na-
que não está. Que é que está acontecendo?
Os dois meninos se olharam e Joe apertou a faca em seu bolso. quale instante, Joe Kallinger, a cinco meses de seu décimo ter eiro
Depois, disse friamente, movendo a faca com lentidão na direção do aniversário, percebeu sua vida como destruição e desgraça. Seu mun-
do infantil de borboletas, peixinhos miúdos e do poço raso n ca-
menino. — Tire as calças, Willie. sinhola da fonte havia desaparecido. Levantou-se, andou lenta ente
— Ei, Joe, você está brincando! disse Willie com voz tensa. os
olhos na ponta da faca. — A gente veio aqui para pescar. até a casinhola e jogou a faca no poço.
Joe havia praticado seu primeiro ato de terror; na adole cen-
— Pescar? Você quer pescar? arengou Joe. — Eu lhe mostro cia, "quando deviam ter acontecido coisas normais", segund sua
o que é pescar! Estava inconscientemente imitando a fala de Anna
Kallinger: — Zoológico? Você quer ir ao zoológico? Eu lhe mostro afirmação, "surgiu essa outra coisa". Ele tinha ligado o uso da faca
o que é zoológico! aos sentimentos de agressão.
Mas Joe não procurou as válvulas de escape usuais da •gres-
Joe ergueu mais a ponta da faca e Willie, aterrorizado, deixou l
são da adolescência: os murros, os tapas e as brigas que os me
cair as calças. Sob elas, estava usando um short.
do Parque Diamond tinham usado contra ele. Aterrando p =sinas
— Tire isso também, ordenou Joe, aproximando mais a faca com uma faca, voltara-se para uma forma de agressão que avia
de Willie. 1, emergido de seus temores infantSs das facas e de sua convicç o de
— Pelo amor de Deus, Joe, que é que você está fazendo? 1 que, através de uma faca, obteria o poder. O uso da faca n ria-
Ach, sempre com as perguntas! retrucou Joe, enraivecido.
Falava como Stephen Kallinger, que sempre havia arrasado as pergun- cho restittiiu-lhe o poder que a faca do Dr. Daly supostament- rei-
' rara dele. Aterrorizar pessoas com uma faca também possibilit ,:a a
tas de Joe. - Joe vingar-se dos meninos do tanque, que, ao seduzi-lo com uma
Mais uma vez, ordenou que Willie tirasse o short.
Willie, que estava tremendo e assustado demais para correr, faca, haviam-no tornado impotente. Aterrorizando o menino ju to ao
deixou cair a roupa de baixo. Joe sentiu-se poderoso por ter conse- riacho, aliviou-se momentaneamente da angústia que as faca• lhe
transfor
guido obediência e, olhando para o pênis do menino, que pendia tinham causado. E, fazendo um outro menino sofrer, hu ilha-
amolecido, transbordou de alegria por estar prestes a fazer com de vítima em algoz, vingando-se do mundo que o tinha
se de
sua vítima o que o Dr. Daly fizera com ele. - do e torturado.
Nos meses seguintes, Joe usou seu poder de retaliação e três
Entretanto, em vez de mergulhar a faca na virilha de Willie,
Joe a recolocou lio bolso e saiu correndo pelo campo, e depois, pelo outras vítimas. Em todas as vezes, continuou a pensar em si 1 esmo
bosque. Na mente de Joe, o pênis do outro menino e o seu tinham-se como uma marionete, mas agora sabia que o titereiro era um emô-
tornado um só: uni objeto não de ódio e castração, mas de amor pró- nio a quem nunca vira, mas cuja voz já tinha escutado. Em todas
prio e preservação. O pênis pertencia à humanidade inteira e destruí-, as ocasiões, segurou a arma com a mão esquerda, a mão esf quea-
dora. Nos três encontros, aterrorizou suas vítimas, porém, tal como
lo era destruir todos os homens, inclusive Joe Kallinger.
acontecera com o menino no riacho, fugiu antes de infligir qualquer
Joe só parou de correr quando caiu, exausto, no jardim da fren-
te do chalé dos Kallingers, que ficava a uma milha da cena de terror. dano corporal.
A segunda vítima foi uma menina a quem Joe seguiu apó uma
E se eu tivesse matado aquele garoto? pensou, ali deitado. Ele segunda viagem de ónibus aos bairros afastados. Dessa vez, a arma
não me fez nada. Nunca vou fazer isso de novo. Nunca! forre to de
não foi uma faca, mas sim um pedaço de vidro com o
E então pensou: Isso me controla. Eu não o controlo.
Joe não sabia quem era "Isso ", e não sabia que, pela primeira uma faca e servindo-lhe de símbolo.
vez, seu uso da faca estivera ligado a sentimentos de agressão. Sen- 81

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tia-se como uma "marionete saltitante", pois uma força externa a
pescar. Não recebendo nenhuma resposta, o garoto continuou a ta- ele parecia controlá-lo, da maneira como um titereiro manipula as
garelar: — Anda, vamos pegar sua vara e as outras coisas e co- cordas de um títere. Era o mesmo sentimento que Joe viria a experi-
meçar a pescar! Joe ainda assim não respondeu. O único som audí- mentar na idade adulta, apanhado no laço dos delírios destrutivos .
vel era o do tráfego na rodovia. — Não está aqui, disse Willie, sei Agora, estava repleto de um sentimento de ruína, Seu futuro
que não está. Que é que está acontecendo? estava fora de seu controle, de suas próprias determinações. Na-
Os dois meninos se olharam e Joe apertou a faca em seu bolso. quale instante, Joe Kallinger, a cinco meses de seu décimo terceiro
Depois, disse friamente, movendo a faca com lentidão na direção do aniversário, percebeu sua vida como destruição e desgraça. Seu mon-
menino. — Tire as calças, Willie. do infantil de borboletas, peixinhos miúdos e do poço raso na ca-
— Ei, Joe, você está brincando! disse Willie com voz tensa, os sinhola da fonte havia desaparecido. Levantou-se, andou lentamente
olhos na ponta da faca. — A gente veio aqui para pescar. até a casinhola e jogou a faca no poço.
— Pescar? Você quer pescar? arengou Joe. — Eu lhe mostro Joe havia praticado seu primeiro ato de terror; na adolescên-
o que é pescar! Estava inconscientemente imitando a fala de Anna cia, "quando deviam ter acontecido coisas normais", segundo sua
Kallinger: — Zoológico? Você quer ir ao zoológico? Eu lhe mostro afirmação, "surgiu essa outra coisa". Ele tinha ligado o uso da faca
o que é zoológico! aos sentimentos de agressão.
Joe ergueu mais a ponta da faca e Willie, aterrorizado, deixou Mas Joe não procurou as válvulas de escape usuais da agres-
cair as calças. Sob elas, estava usando um short.
são da adolescência: os murros, os tapas e as brigas que os meninos
— Tire isso também, ordenou Joe, aproximando mais a faca do Parque Diamond tinham usado contra ele. Aterrando pessoas
de Willie. com uma faca, voltara-se para uma forma de agressão que havia
— Pelo amor de Deus, Joe, que é que você está fazendo? emergido de seus temores infantis das facas e de sua convicção de
— Ach, sempre com as perguntas! retrucou joe, enraivecido. que, através de uma faca, obteria o poder. O uso da faca no ria-
1
Falava como Stephen Kallinger, que sempre havia arrasado as pergun- cho restituiu-lhe o poder que a faca do Dr. Daly supostamente Rui-
tas de Joe. ' rara dele. Aterrorizar pessoas com uma faca também possibilitava a
Mais uma vez, ordenou que Willie tirasse o short. Joe vingar-se dos meninos do tanque, que, ao seduzi-lo com urna
Willie, que estava tremendo e assustado demais para correr, faca, haviam-no tornado impotente. Aterrorizando o menino junto ao
c_ deixou cair a roupa de baixo. Joe sentiu-st poderoso por ter conse-
guido obediência e, olhando para o pênis do menino, que pendia
amolecido, transbordou de alegria por estar prestes a fazer com
riacho, aliviou-se momentaneamente da angústia que as facas lhe
tinham causado. E, fazendo um outro menino sofrer, transformava-
se de vítima em algoz, vingando-se do mundo que o tinha humilha-
sua vítima o que o Dr. Daly fizera com ele.
- do e torturado.
Cr Entretanto, em vez de mergulhar a faca na virilha de Willie, Nos meses seguintes, Toe usou seu poder de retaliação em três
L
Joe a recolocou no bolso e saiu correndo pelo campo, e depois, pelo outras vítimas. Em todas as vezes, continuou a pensar em si mesmo
bosque. Na mente de Joe, o pênis do outro menino e o seu tinham-se como uma marionete, mas agora sabia que o titereiro era um demô-
tornado um só: uni objeto não de ódio e castração, mas de amor pró- nio a quem nunca vira, mas cuja voz já tinha escutado. Em todas
prio e preservação. O pênis pertencia à humanidade inteira e destruí-, as ocasiões, segurou a arma com a mão esquerda, a mão esitiquta-
lo era destruir todos os homens, inclusive Joe Kallinger. dora. Nos três encontros, aterrorizou suas vítimas, porém, tal como
L. Joe só parou de correr quando caiu, exausto, no jardim da fren- acontecera com o menino no riacho, fugiu antes de infligir qualquer
te do chalé dos Kallingers, que ficava a uma milha da cena de terror.
dano corporal.
E se eu tivesse matado aquele garoto? pensou, ali deitado. Ele A segunda vítima foi uma menina a quem Joe seguiu após uma
não me lu nada. Nunca vou fazer isso de novo. Nunca! segunda viagem de ônibus aos bairros afastados. Dessa vez, a arma
E então pensou: Isso me controla. Eu não o controlo. não foi uma faca, mas sim um pedaço de vidro com o formato de
t,_ Joe não sabia quem era "Isso ", e não sabia que, pela primeira
uma faca e servindo-lhe de símbolo.
vez, seu uso da faca estivera ligado a sentimentos de agressão. Sen-
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serviços deles e ir ao cinema nas tardes de sábado. Agora, entre-
As outras duas vítimas foram meninos a quem Joe aterrorizou tanto, ia aos ensaios na ACM quase todas as noites.
com urna faca de ponta recurvada sob a Ponte Silver, a uma curta No palco, ele não era Joe Kallinger, mas sim Ebenezer Scrooge.
distância da casa dos Kallingers em Kensington. Com um desses me; Gostava de trabalhar para conseguir o tom exato de aspereza e irrita-
ninos, Joe repetiu o que fizera com o menino junto ao riacho. Com ção que o papel exigia. Deleitando-se em decorar o texto de Dickens
a segunda das vítimas da Ponte Silver, porém, Joe reencenou parci- e com uma capacidade instintiva de torná-lo próprio, repetia-o
almente aquilo que, como vítima, ele próprio tinha experimentado silenciosamente para si mesmo não apenas em seu quarto, mas tam-
no tanque, quase cinco anos antes. bém a caminho da escola nos dias de inspeção e à noite, na ACM,
Joe havia ligado as fantasias sobre facas à agressão e à sexuali- na esquina de Second e Allegheny.
dade. Mas não era cm sexo que estava interessado quando, segurando No palco, Joe se deleitava em ter seu rosto maquilado — uma
máscara que lhe dava uma sensação de calma e de uma nova per-
uma faca, colocou o pénis do menino em sua boca, como que para
dar-lhe urna "chupada". Ouvindo o demônio dizer "Arranque-o com sona, liberando emoções que, de outro modo, não era capaz de ex-
uma dentada", Joe mordeu o pénis do menino. Depois, entrou em pressar. Seus trajes, inclusive um velho casacão, levavam-no de volta
pânico e correu para casa. A mordida fora parte do desejo de Joe para meados do século XIX e tornavam remoto o doloroso pre-
de castrar sua vítima, mas também a expressão de seus medos so- sente. Ser outra pessoa, num mundo de ilusão, punha fim aos delí-
bre sua própria "castração". O que ele fez com o segundo menino rios e medos da vida cotidiana de Joe.
sob a Ponte Silver foi também o primeiro lampejo de um complexo No dia da apresentação, perto do dia de Natal, Joe percorreu
canibalesco que iria desempenhar um papel importante e trágico em o palco com uma tranqüilidade que jamais conhecera fora dele.
sua vida posterior. Era uma transformação tão real quanto a que havia ocorrido no
Joe havia praticado quatro atos agressivos com intenção crimi- dia em que ele aterrorizou o menino à beira do riacho. Mas essa
nosa entre os 12 e os 13 anos. No entanto, nos vinte anos que se se- t transformação não estava do lado da loucura e do crime, e sim da
guiram, jamais voltou ao crime. Foi como se o aspecto criminoso de integridade e da beleza estética.
sua psicose incipiente, gerada pela castração simbólica, tivesse en- A cada passo do caminho no palco, Joe sabia que tinha a pla-
trado em hibernação.
téia na palma da mão. A platéia estava com ele quando, após o cho-
estrondoso de uma porta de
Após o segundo confronto sob a Ponte Silver, Joe desejou de- calhar de pesadas correntes e o som
sesperadamente confiar em alguém. Mas não havia ninguém — nem porão que se escancarava, ele berrou, "É tudo uma farsa!" Joe, como
mesmo o espelho da sala de estar, que Anna havia retirado para cas- Scrooge, pensando em si mesmo como a criança solitária, soluçou
tigá-lo. "É ficar completamente sozinho que leva à loucura", rabis- com as lágrimas que, desde a mais tenra infância, não ousara derra-
mar. Foi então que ouviu uma mulher na primei-a tila sussurrar para
cou Joe numa palmilha.
o homem que estava a seu lado, "Esse menino é muito bom!"
Depois que a cortina desceu, a platéia de trezentas pessoas cha-
No dia de seu décimo terceiro aniversário, 11 de dezembro de mou "Scrooge" de volta ao palco inúmeras vezes. Pela primeira
1949, Joe teve um alívio temporário da solidão que leva à loucura. vez em sua vida, Joe conheceu a excitação do aplauso e da aprova-
A diretora da peça teatral da ACM para o Natal, uma mulher que ção. Tinha sido adotado para tornar-se um sapateiro, mas sentia
era freguesa dos Kallingers, tinha pedido a Stephen que deixasse Joe agora que havia encontrado seu próprio métier.
fazer um teste para a peça. Stephen concordou. "Vai ser bom para Os Kallingers não assistiram à peça. Stephen escrevera um bi-
os negócios", disse a Anna. lhete para a diretora, explicando que muito embora Anna e ele
Joe nunca estivera numa peça e nem sequer assistira a alguma. quisessem comparecer, não poderiam fazê-lo porque, nos sábados,
Mas fez o teste para A Christmas Carol, de Dickens, e conseguiu o como em todos os outros dias, salvo o domingo, a loja só fechava
papel de Scrooge, o papel principal. Antes disso, nunca tivera per- depois do horário de descerem as cortinas no palco.
missão para sair da loja dos Kallingers sozinho, salvo para fazer
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O menino esqueceu o verso seguinte. Ficou enregelado e de-
No desjejum da manhã seguinte, um domingo, um Joe eufó- samparado sobre o caixote. Desejou ser urna tartaruga.
rico contou aos Kallingers que a diretora da peça o havia incentiva-
— Um ator, hein? zombou Anna. — Você não é ator nenhum.
do a estudar artes cênicas e tornar-se ator. — É isso que eu quero
— É melhor você descer da terra do faz-de-conta. Isso é para
ser! disse Joe. os atores, disse Stephen.
— Absurdo! disse Stephen. Bateu com a colher de café na — Desça do caixote! ordenou Anna. Joseph desceu.
mesa. — Com a ajuda de Deus e dos seus pais, disse Stephen, er-
— Ele está maluco! exclamou Anna. • guendo-se da cadeira da mesa da cozinha, você vai ser sapateiro!
Ela se voltou para Joe e disse — Ator? Você quer ser ator'? Estalou os dedos em direção a Joe e olhou-o ameaçadoramente.
Eu lhe mostro... Stephen, por que eles não nos disseram em St. Mas, se não quer ser sapateiro, então vai ser vagabundo, entendeu.
Vincent's que o nosso pequeno Joe era um ator?
Anna deu uma piscadela para Stephen e disse a Joe em voz dc — Mas eu sou bom nisso, respondeu Joe. — A diretora da peç
disse que eu poderia ser um bc:n ator. Posso entrar para o cinema
comando, — Vamos, represente! Aqui! Agora mesmo! Seu pai e eu Posso ganhar muito dinheiro.
vamos assistir, Vamos, Joseph, representei Algumas semanas depois, a diretora foi procurar os Kallingers
Joe ergueu-se de sua cadeira e apanhou um caixote de madeira,
que colocou no chão a uns dois metros da mesa onde os pais ado- e pedir-lhes que deixassem Joe participar da produção da primavera.
Fez também grandes recomendações de que o mandassem para a
tivos estavam sentados. Pôs-se de pé no caixote e encarou sua pla- escola de arte dramática depois que se formasse no curso médio.
téia. Não experimentava a tranqüilidade e o poder que havia sentido
— Uma vez basta, retrucou Anna asperamente.
no palco na noite de sábado. A diretora da peça, como recompensa
— A senhora é uma mulher maravilhosa e apreciamos seu in
pelo belo desempenho, tinha-lhe dado uma cópia de Hamlet, e ele tecesse em nosso filho, intercalou Stephen, mas nosso pequeno lo•
havia decorado um dos monólogos de Hamlet. está ocupado com a escola e a loja. Talvez no ano que vem. Ma •
— "Ah, que embusteiro e roceiro escravo sou eu", disse Joe, agora, não. A senhora entende, não é?
observando os rostos de Anna e Stephen enquanto as palavras lhe A diretora tentou diversas vezes nos dois anos seguintes, ma
fluíam da boca. Parou. foi sempre polidamente rejeitada.
Anna disse, — Deus do céu, é só isso? Por,que você parou? Joe era brilhante e completo no palco. Fora dele, porém, era
— Que Quatshe é essa, perguntou Stephen, sobre roceiros e uma confusão. Sentia-se perseguido pela premonição de que sua vid
escravos? Você inventou esse negócio, Joseph? terminaria em desgraça. Vivia com sentimentos de desvalia prove
— Não, foi. , . Joe tentou explicar. nientes do modo como os Kallingers o diminuíam, e também com
— Steef, você não deve interromper. Continue, Joseph, o mun- dúvidas corrosivas. sobre sua masculinidade. Representar acabou po
do inteiro está esperando para ouvi-lo. diluir-se no mundo de anseios de Joe, ao lado de uma multiplici-
Joe começou novamente. — "Ah, que embusteiro e roceiro es-
dade de outras aspirações abandonadas, desde condutor de bond
cravo sou..." até detetive, desde escritor até advogado e monge em algum mosteir .
— Outra vez os roceiros... resmungou Stephen. distante.
— Psiu, Steef. Anna piscou novamente para o marido. Joe estava agora a caminho de tornar-se sapateiro. Fora o meni
— Não será monstruoso... prosseguiu Joe. no de recados da loja desde os sete anos. Agora, aos treze, tornou-s :
Ste-
— Aha! Ele é um professor da universidade! exclamou aprendiz de sapateiro, começando a cumprir a finalidade para a qual
phen. — Não um ator. Bah! Sempre com essas palavras importantes,
os Kallingers o haviam adotado.
agora. O que quer dizer monstruoso? Stephen olhava de Joe para O Cinema Howard nas tardes de sábado tornara-se parte do
Anna, com olhos arregalados de fingida admiração e espanto. mundo secreto de Joe — o mundo de sua frustração a respeito de
Anna riu. — Talvez nosso Joseph seja um ator culto, não é? representar, que ele não compartilhava com ninguém. Olhava os
Ia, Joseph? Pôs o dedo num copo com água e borrifou algumas atores na tela e sabia que o que eles tinham nunca lhe pertenceria.
gotas em Joe.
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O menino esqueceu o verso seguinte. Ficou enregelado e de-
No desjejum da manhã seguinte, um domingo, um Joe eufó- samparado sobre o caixote. Desejou ser uma tartaruga.
rico contou aos Kallingers que a diretora da peça o havia incentiva- — Um ator, hein? zombou Anna. — Você não é ator nenhum.
do a estudar artes cênicas e tornar-se ator. — E isso que eu quero
— E melhor você descer da terra do faz-de-conta. Isso é para
ser! disse Joe. os atores, disse Stephen.
— Absurdo! disse Stephen. Bateu com a colher de café na — Desça do caixote! ordenou Anna. Joseph desceu.
mesa. — Com a ajuda de Deus e dos seus pais, disse Stephen, er -
— Ele está maluco! exclamou Anna. • guendo-se da cadeira da mesa da cozinha, você vai ser sapateiro!
Ela se voltou para Joe e disse — Ator? Você quer ser ator? Estalou os dedos em direção a Joe e olhou-o ameaçadoramente. —
Eu Lhe mostro... Stephen, por que eles não nos disseram em St. Mas, se não quer ser sapateiro, então vai ser vagabundo, entendeu ?
Vincent's que o nosso pequeno Joe era um ator? — Mas eu sou bom nisso, respondeu Joe. — A diretora da peç a
Anna deu uma piscadela para Stephen e disse a Joe em voz de disse que eu poderia ser um bem ator. Posso entrar para o cinema
comando, — Vamos, represente! Aqui! Agora mesmo! Seu pai e eu Posso ganhar muito dinheiro.
vamos assistir. Vamos, Joseph, representei Algumas semanas depois, a diretora foi procurar os Kallingers
Joe ergueu-se de sua cadeira e apanhou um caixote de madeira, e pedir-lhes que deixassem Joe participar da produção da primavera.
que colocou no chão a uns dois metros da mesa onde os pais ado- Fez também grandes recomendações de que o mandassem para a
tivos estavam sentados. Pôs-se de pé no caixote e encarou sua pla- escola de arte dramática depois que se formasse no curso médio.
téia. Não experimentava a tranqüilidade e o poder que havia sentido
no palco na noite de sábado. A diretora da peça, como recompensa — Uma vez basta, retrucou Anna asperamente.
— A senhora é uma mulher maravilhosa e apreciamos seu in
pelo belo desempenho, tinha-lhe dado uma cópia de Hamlet, e ele teresse em nosso filho, intercalou Stephen, mas nosso pequeno jo •
havia decorado um dos monólogos de Hamlet. está ocupado com a escola e a loja. Talvez no ano que vem. Ma•
— "Ah, que embusteiro e roceiro escravo sou eu", disse Joe, agora, não. A senhora entende, não é?
observando os rostos de Anna e Stephen enquanto as palavras lhe A diretora tentou diversas vezes nos dois anos seguintes, mas
fluíam da boca. Parou. foi sempre polidamente rejeitada.
Anna disse, — Deus do céu, é só isso? Porque você parou? Joe era brilhante e completo no palco. Fora dele, porém, era
— Que Quatshc é essa, perguntou Stephen, sobre roceiros e uma confusão. Sentia-se perseguido pela premonição de que sua vid
escravos? Você inventou esse negócio, Joseph? terminaria em desgraça. Vivia com sentimentos de desvalia prove
— Não, foi... Joe tentou explicar. nientes do modo como os Kallingcrs o diminuíam, e também com
— Steef, você não deve interromper. Continue, Joseph, o mun- dúvidas corrosivas_ sobre sua masculinidade. Representar acabou po
do inteiro está esperando para ouvi-lo. diluir-se no mundo de anseios de Joe, ao lado de uma multiplici-
Joe começou novamente. — "Ah, que embusteiro e roceiro es- dade de outras aspirações abandonadas, desde condutor de bonde
cravo sou..." até detetive, desde escritor até advogado e monge em algum mosteir.
— Outra vez os roceiros.. resmungou Stephen. distante.
— Psiu, Steef. Anna piscou novamente para o marido. Joe estava agora a caminho de tornar-se sapateiro. Fora o meni
— Não será monstruoso... prosseguiu Joe. no de recados da loja desde os sete anos. Agora, aos treze, tornou-s
— Aha! Ele é um professor da universidade! exclamou Ste- aprendiz de sapateiro, começando a cumprir a finalidade para a qual
phen. — Não um ator. Bah! Sempre com essas palavras importantes, os Kallingers o haviam adotado.
agora. O que quer dizer monstruoso? Stephen olhava de Joe para O Cinema Howard nas tardes de sábado tornara-se parte do
Anna, com olhos arregalados de fingida admiração e espanto. mundo secreto de Joe — o mundo de sua frustração a respeito de
Anna riu. — Talvez nosso Joseph seja um ator culto, não é? representar, que ele não compartilhava com ninguém. Olhava os
Ia, Joseph? Pôs o dedo num copo com água e borrifou algumas atores na tela e sabia que o que eles tinham nunca lhe pertenceria.
gotas em Joe.
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A multidão das tardes de sábado, composta principalmente de não é calmo lá onde eu moro: tem sempre alguém batendo boca por
adolescentes, começava a encher as mesas e cabinas do restaurante isso ou por aquilo, e o rádio fica ligado o tempo todo.
ruidoso quando Joe e Hilda se encaminharam para uma das cabinas. — Você não tem irmãos nem irmãs? Perguntou Joe.
Joe nunca tinha levado uma moça a um restaurante. Não fora difícil — Não. Sou filha única.
dizer "olá" no cinema, mas agora tudo era diferente. Sentia a ca- — Eu também, retrucou Joe.
beça oca e seus dedos formigavam; estava preocupado com a idéia Joe observou uma mosca que andava pelo anel de açúcar ao
de que Hilda risse dele, se fosse desajeitado ou dissesse algo errado. redor da borda de um açucareiro aberto. Pensou no tanaue e no
Sorriu para ela. A jovem o estava observando, com a cabeça uni que os meninos grandes lhe tinham feito lá.
pouco inclinada para o lado. Os dois comeram depressa. Hilda, de pernas cruzadas, balan-
Hilda tinha cabelos castanhos. Sua pele era esticada sobre o çava o dedo mínimo no ar ao levar grandes garfadas à boca. Depois
maxilar e, sob os ossos da face, havia manchas escuras, como se de terminarem e enquanto esperavam pelo sorvete e mais Coca-
uma mão forte se houvesse fechado sobre seu rosto. Os lábios eram Colas, Joe perguntou, — Sua mãe é sua mãe de verdade?
finos; ela os repuxava sobre os dentes cariados e descoloridos sem- — É claro! A sua mãe rão é sua mãe de verdade?
— Não. Sou adotado. Nuncr meus pais verdadeiros. Não sei
pre que sorria. Sentado a seu lado na mesa, Joe sentia um odor de
decomposição, misturado com algum produto para adoçar o hálito, nada sobre eles.
Os braços de Hilda eram compridos e finos e, quando ela se in- — E uma pena. M.tus pais se separaram. Muito tempo atrás.
clinou para prender o fecho de sua sandália, Joe viu que seus de- Não me lembro dele. Eu era muito pequena quando, uma manhã,
dos eram ossudos e as unhas, malfeitas e roídas. ele se levantou, saiu de casa e nunca mais voltou.
— Pelo menos você tem sua mãe, disse Joe melancolicamente .
— O que vão querer, crianças? O garçom entregou-lhes o Hilda pôs a mão suavemente sobre a dc Joe. • — Lamento pui
cardápio. você, Joe, que você não tenha seus pais verdadeiros.
Joe viu o contorno dos ossos pouco acima do decote profun- — Acho que não seria tão ruim se os velhos que tenho nau
do da blusa de Hilda, de modo que disse ao garçom: — Minha ami- ficassem estourando comigo o tempo todo, sempre me batendo, e
ga vai comer um filé bem passado com purê de batatas. E cebolas eles nunca ouvem nada do que eu digo. Unia vez, Hilda, eu queria
fritas também. Er... eu quero um hambúrguer bem passado. E, por ser ator, mas eles não deixaram.
favor, traga duas Cocas grandes. — Ator? Puxa, é mesmo? Hilda olhou inquisitivamente par
— Estou faminta, disse Hilda, depois que o garçom se foi. Joe. Levou à boca uma grande colherada de sorvete e tornou a
— Eu também. Mas não posso comer muito, porque tenho olhá-lo, com os olhos arregalados.
que estar em casa para jantar. Vou "entrar pelo cano" se chegar — Foi numa peça de Natal na ACM, e a diretora me disse
atrasado. que eu era bom mesmo, que devia estudar arte dramática, entrar
— Seus pais parecem severos à beça, disse Hilda. para o cinema ou coisa assim, e também ganhar muito dinheiro, Foi
— A maior parte do tempo, é pior do que isso! Além de ir divertido. Mas meus velhos... bom, eles riram disso e me disseram
ao cinema sozinho uma vez por semana, eles não me deixavam que eu tinha que ser sapateiro como meu pai.
fazer nada até os doze anos. E também não conversamos muito/E Joe nunca tinha falado dessa maneira sobre seus pais adotivos
terrivelmente calmo lá em casa, exceto quando eles estão gritando Tinha ainda o delírio de que Anna e Stephen podiam permanecer na
comigo. loja enquanto espionavam o que ele fazia em outro lugar. Tinha
— Não tenho esse tipo de problema, respondeu Hilda. — certeza de que eles eram dotados de ouvidos especiais, capazes dc
Posso sair ou ficar em casa sem que ninguém interfira. Mamãe ge- ouvi-lo conversar com essa moça no restaurante. Agora, sentia-se as-
ralmente está bebendo em algum bar, ou então leva algum "cara" sustado; a coragem que sentira na rua uma hora antes o havia
para casa; e vovó e vovô.. bom, ele trabalha o dia inteiro na abandonado. Imaginou Anna a dizer-lhe, "Duminkopf"! Você vai ser
Agência de Veículos, e ela não se importa com o que eu faço. Mas castigado no inferno!" E viu a montanha de pessoas que tinham

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Instituto Franklin iam
Aos sábados, eles iam a exposições no
sido amaldiçoadas e, depois da morte, enviadas para sentir a dor ao cinema e até faziam compras juntos. Nas noites durante a se-
de casa. oferece do-se
das facas flamejantes que eram carregadas por demônios invisíveis. mana, após o trabalho, Joe conseguia sair
para dar uma volta com Sporty, o fox terrier dos Kallingers. Hilda
— Que escola você freqüenta? perguntou Joe. degraus
Hilda hesitou e disse, — Carroll. E uma espécie de escola onde esperava por Joe do outro lado de Front a Street, nos usin . um a
ensinam à gente um ofício, como ser mecânico ou costureira. Que pequena passagem entre a rua e a port de urna antigaPo
S orty saltitando a seu redor. Mas,
escola você freqüenta? vezes, davam uma volta com P
— A Escola Elementar da Visitação, respondeu Joe. quando achavam intrusiva até mesmo a presença de um fox errier, vol-
— Você se sai bem lá? deixavam-no preso a um poste pela guia e, depois do passei , rosto
— E, às vezes. As vezes, não. As professoras dizem que meu ara buscá-lo. Andavam de mãos dadas, beijavam-se urante
tavam p tiveram relações sexuais
trabalho é irregular. Sabe como é, eu sou "de lua". ou nos lábios, levemente, mas não
— Isso não é ruim, ser "de lua", disse Hilda. — Minha mãe pouco mais de um ano. entretanto, Joe su-
é "de lua". Ou está rindo e se divertindo, ou está bêbada e que- Numa noite morna de setembro de 1951, garem
brando as coisas. até o moinho da Avenida Lehigh. Ao ch
Joe pensou em seu quarto e nas coisas ruins que queria fazer geriu que andassem já amos be n longe
lá, ele disse com um sorriso, — Bem, acho que naestca o ilu-
com as mulheres quando seu "passarinho" ficava duro e ele o co- passos da rua,calçada
de casal Ficaram então a três além
locava no buraco da parede. Podia ver seu canivete cortando e o minada que levava até a porta do moinho. Sobre eles, nad
sangue brotando. A imagem desfez-se lentamente e ele voltou a do céu. Joe tornou Hilda nos braços e abraçou-a estreitame te. Ela
Acariciaram-se e o 'passa-
ter consciência de Hilda. tirou a calcinha e ele abriu a braguilha.
Na Rua Palethorpe, em frente a casa de tijolos vermelhos em rinho" ficou duro. Tiveram relações completas, ambos chega do ao
que morava Hilda, os dois deram-se as mãos e planejaram seu próxi- orgasmo, e Joe deleitou-se com os seios minúsculos de Hilda.
mo encontro. Ele pensou em beijá-la, mas, contido por antigos me- de sangue
Não houve sangue, e Joe ficou contente.sua A visão
determin ção de
dos, não o fez. Disse a si mesmo que, pelo fato de terem acabado de
de conhecer-se, ela o consideraria grosseiro. Quando estava prestes real o teria feito sentir-se culpado. cor-
manter os pensamentos limpos, ele sabia que era a fantasia de
a deixá-la, ela disse, — Você fez com que eu me sentisse alguém. e rasgar as mulheres das fotografias que ele usava perto do bu-
tar soube
Ninguém fez isso antes. raco na parede do quarto que o fizera potente com Hilda. El ondo .
Joe e Hilda vinham-se encontrando há vários meses quando uma apenas que ele tinha sido um amante terno, ardente e apai
freguesa contou aos Kallingers que Joe estava namorando uma
"Valeu a pena esperar", ela lhe disse. to, des-
garota irlandesa, Hilda Bishop. Os Kallingers obtiveram informa-
ções sobre Hilda. — Ela vem de uma família desfeita, disse Anna Tendo alcançado êxito com Hilda, Joe também teve êxi o quan-
vez, na loja dos Kallingers. Tendo sido um aluno habilido
a Joe. — A família é pobre. A mãe dela vive pelos bares. Não va- ta Joe agora fazia efetiva-
mos deixá-lo ver essa moça novamente. Stephen começou a ensinar-lhe o ofício, sio Tones ior em
do
Erguendo-se da mesa, Joe começou a encaminhar-se para a mente consertos de calçados. Estudava no anás me o expe-
porta. Stephen o seguiu. — Olhe, Joseph, disse Stephen, desista des- horário integral, mas tinha uma licença parrabalhar
diente e era remunerado por seu trabalho. Alicnça e torna
sa garota. Afinal, para que é que você precisa de uma garota? Lem- pagassem. Sendo m ait legal-
o prá-
bre-se do que lhe dissemos sobre o seu "passarinho". Já lhe dissemos mente necessário que os Kallingers lhe qu apren-
ticos, eles ficaram satisfeitos em fazê-lo, pois acreditavam
do treinament de Joe
muitas vezes.
Joe não respondeu. Queria dizer a Stephen que o Dr. Daly fi- der a usar o dinheiro era uma parte essencial
zera o "passarinho" ficar pequeno, e nada mais; que o "passarinho" Além disso, uma das maneiras como ele empregava seu dinh iro con-
ficava duro e que o demônio ainda estava nele e em Joe Kallingerl sistia em pagar o aluguel e a alimentação, o que seus pais adotivos
lário.
Sem ousar dizê-lo a Stephen, Joe voltou para a mesa, terminou o passaram a exigir depois que começaram a pagar-lhe um s
café da manhã e continuou a encontrar-se com Hilda. 9

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Joe tinha duas noites livres por semana, que passava com Hil- riso colocando a mão na boca, mas o riso continuava. Essa risada,
da. Freqüentemente, iam à passagem do moinho da Avenida Lehigh. Joe percebeu, tinha vontade e personalidade próprias. Assim como
Depois que Joe ingressou no Ginásio Northeast, porém, fizeram se havia considerado a marionete do "demônio" numa das viagens
do pátio da escola o local de seus encontros. Geralmente, sentavam- de ônibus e sob a ponte Silver, era agora a marionete da risada.
se num banco, apenas para conversas. Depois, iam até os fundos do Ficava a imaginar se o riso seria parte do "demônio" e se o "de-
pátio, onde ficavam estacionados os carros usados durante o dia pe- mônio" estaria transformando a ele, Joseph Kallinger, numa outra
los alunos que cursavam mecânica de automóveis. Por trás das fi- pessoa. Se assim fosse, será que o "eu" que ele pensava conhecer, tal
leiras de carros e escondidos de quem quer que entrasse no pátio, como o Sombra no programa de rádio, reapareceria?
Joe continuou a ser o amante terno e apaixonado de Hilda. E seu O que restava de sólido era o trabalho de consertos de sapatos.
afrodisíaco continuou a constituir-se dos pensamentos selvagens, tão Joe era um perfeccionista, e os fregueses procuravam por ele, pois
diferentes de seu comportamento, que estimulavam sua potência. o acabamento que dava tais sapatos ..:almente durava. Aos 15 anos,
Para restituir a si mesmo a potência que a faca do Dr. Daly era tAmbém um especial•.!a em trnbalhos ortopédicos.
supostamente retirara, Joe tinha de visualizar-se cortando com uma Certa tarde, de pé em sua bancada de trabalho, Joe ergueu os
faca, tal como o cirurgião supostamente o cortara durante a operação. Olhos e viu uma luz brilhante. No centro da luz havia uma grande
Os "maus pensamentos", como ele os chamava, excitavam Joe, figura, que o fez sentir ri estava na presença de Deus. Ouviu
mas não diziam respeito à Hilda. Ele não queria feri-la e ela não uma voz de comando prol ...da e ressonante:
aparecia nas fantasias. No entanto, quando ele as impedia de sur- — Joe Kallinger, vet.,: é uma pessoa especial e deve cumprir
gir, como às vezes tentava fazer, seu pênis permanecia mole e uma missão especial. Com seu trabalho ortopédico, você já vem di-
sem vida. Para ser apaixonado e potente, ele precisava reacender as minuindo as dores nos pés. -pe-sSãO também a chave do cérebro. ,
fantasias de restituição. Sua missão é controlar o cérebro através dos pés. E isso o que eu,
Aos 15 anos — época do sucesso de Joe na loja e com Hilda o Deus—ab" Universo, lhe ordeno que faça. Você isará esse método
— havia novos terrores. Ele começou a associar O Sombra, seu para curar a si mesmo e para curar a humanidade. Você deve curar e
programa favorito de rádio, com o que lhe estava de fato aconte-
salvar!
cendo. No programa, O Sombra desaparecia e reaparecia, e Joe A luz clara desapareceu e, com ela. a figura que era de Deus,
tinha a impressão de que o Joe Kallinger a quem conhecia também
mas o sentimento de elação que se apossara de Joe na presença de
estava desaparecendo, pois via no espelho que sua aparência e suas Deus persistiu mesmo depois de ele ter voltado a consertar sapatos
expressões faciais já não eram as mesmas.
Outra coisa importante estava acontecendo. Na idade adulta, ele Joe ficou perturbado com a ordem de curar a si mesmo. Estava
seria atormentado por contorções e volteios do corpo em movimentos perturbado por aqueles movimentos estranhos e pelo riso estranho,
ondulantes. Esses movimentos estavam agora ocorrendo pela primei- mas não gostava de admitir que houvesse algo errado nele que de-
ra vez. Ocasionalmente, sua cabeça se agitava de um lado para outro, vesse corrigir. Não obstante, a ordem de corrigir-se era um desafio.
especialmente quando ria. E havia também um outro riso, completa- Talvez, pensou ele, pudesse fazer com que os movimentos e a risada
mente diferente daquele que reconhecia como seu. desaparecessem. Joe não sabia que estava mentalmente enfermo.
Esse outro riso vibrava, rugia e sibilava. Jorrava sem provoca- Igualmente tocante era a ordem de salvar a humanidade. Ele
ção externa e era acompanhado de sensações convulsivas no estô- começaria pelos norte-americanos, mas acabaria por curar todos
mago. Quando esse riso tomava conta dele, Joe sentia uni amplo sor- os homens, mulheres e crianças da Terra. "1-1á uni destino que mol-
riso dominando sua expressão facial e espalhando-se por seu rosto. da nossos propósitos", recordou de sua leitura de Hamlet. Depois,
As vezes, quando se olhava no espelho, via o sorriso transformar-se pensou com ironia, mas não com amargura: nunca fui parte de
num esgar. E o silvo do riso parecia irromper do esgar. ninguém. Mas agora, vou salvar todo o mundo.
Joe tentava desligar essa gargalhada, mas o riso cavernoso que Sob o encanto desses delírios e da alucinação de ter visto Deus,
vinha de suas profundezas continuava a rugir. Ele tentava parar o Joe passou :mediatamente a trabalhar no primeiro dos mais de

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campo de tiro no Acampamento Downington. E, de qualquer modo,
sabiam das idéias de cortar e ele
40.000 experimentos ortopédicos que iria fazer entre 1951 e 1972, tudo isso era passado. Será que
dos 15 aos 36 anos. • tinha durante as relações sexuais? Não poderiam saber. J.e não
Em seus primeiros experimentos, Joe usava uma faca pontiagu- conseguia entender por que os Kallingers estavam com medo Nele.
da ou de ponta recurvada para modelar calços para saltos em couro Quando lhes perguntou por que haviam erguido uma ba ricada
ou borracha. Os calços iam de 1/16 a 1/4 de polegada de altura. tinha
contra ele, os Kallingers s6 lhe disseram o que ele mesmo j•
Usando a si próprio como cobaia, ele colocava os calços sobre o observado.
salto dentro do sapato. Apesar de alto no lado externo do salto, o — Você tem expressões estranhas no rosto, disse Step en. —
calço se reduzia a quase nada na parte interna. Erguendo o lado Você se contorce e parece uma cobra.
externo, ele conseguia inclinar o pé para dentro. Ao fazê+lo, tinha — Você espalha batom nas janelas e no espelho, disse Anna.
uma sensação de relaxamento nas pernas e na coluna. A partir dis- Você se tranca no banheiro ou em seu quarto, e fala cozi ho ou
so, desenvolveu sua teoria de que o calço podia modificar ti posição —
ri tão incrivelmente alto que parece que a casa vai cair.
do corpo; de que as mudanças no corpo produziam alterações quími- Você não é como ninguém que conheçamos, disse S ephen.

cas no cérebro; de que essas alterações químicas levariam à cura Você é frio. É como se não o conhecêssemos mais. E depois, ex-

mental e emocional que Deus o havia instruído a realizar. plicando mais diretamente a fechadura e o taco de beisebol acres-
Joe trabalhava nos experimentos em seus horários livres na loja centou com um sorriso torto de mau agouro, — NU) sabemo o que
e, por vezes, antes de ela abrir e depois de fechar. Mas não falava você irá fazer.
com ninguém sobre eles. Colocou-os em seu mundo secreto, para Os Kallingers tinham erguido uma barricada contra e por-
substituir Tommy e as borboletas. que,
obviamente, consideravam-no perigoso. Não obstante, o com-
O que ocorria no mundo secreto, contudo, não silenciava o ru- portamento que os assustava não era um sinal de perigo, as sim
gido do riso ventral de Joe. Com medo do riso, Joe temia também a de doença mental. Esse era o momento de buscar ajuda psi•iátrica
si mesmo. Os Kallingers também tinham observado as expressões; idade em •ue essa
para Joe. Ele estava entre os 15 e os 16 anos, EMIR
faciais de Joe, as contorções e volteios de seu corpo, e os trejeitosii ajuda poderia ter-se revelado eficaz.
de sua cabeça. Tinham ouvido seu riso ventral e viram também ou-, Alguns dias depois da conversa com Anna e Stephen, oe mu-
tros sinais novos e inquietantes em Joe. Havia ainda nele uma frie- para um amplo quarto mobiliado no segundo andar •e uma
dou-se
za que o fazia diferente do que fora antes. casa de três andares na esquina das ruas Sexta e Somerset. O alu-
Certa noite, no corredor superior da casa dos Kallingers, Joe guel era de doze dólares por semana — exatamente o qu , desde
descobriu que eles haviam instalado uma tranca Yale de tamanho que começara a receber um salário, vinha pagando por seu quarto
padrão na porta do quarto. A tranca só podia ser controlada do in- na casa dos Kallingers. O novo quarto ficava apenas a algumas
terior da quarto. portas de distância de onde moravam Hilda e a lamina •ela. O
Os Kallingers, pensou Joe a princípio, haviam colocado a tran- ainda
quarto distava seis quarteirões da loja dos Kallingers, onde J•e
ca para afastar os ladrões. Ficou menos seguro sobre os ladrões ao
trabalhava.
observar que eles só a usavam quando estavam dentro do quarto. Stephen sabia que Joe era um excelente sapateiro, q e tinha
Quando, através da porta aberta, Joe viu que eles agora mantinham sua própria freguesia, e não quis perdê-lo. Assim, embora nna se
um taco de beisebol junto dela, sentiu gotas de suor na testa, pois queixasse com os vizinhos, dizendo — Toe foi-se embora. Fu iu. Está
soube que a tranca e o taco de beisebol estavam ali porque seus tra-
ganhando dinheiro de nós e pagando a estranhos, Joe contin ou
pais adotivos estavam com medo dele! balhando na loja que fora adotado para herdar.
Joe não sabia por quê. Nunca batera neles, nem sequer chegara Quando não estava na loja ou no Ginásio Northeast, estava com
a levantar a mão contra eles, mesmo quando o espancavam ou quei- Hilda. Nunca tivera permissão para dirigir bicicletas ou patinar,
mavam — nem mesmo quando ficava louco de raiva. Eles não mas, cm ns
o Hilda, passou a andar de pati. Eles tinham relações
babá, já que oe não
tinham nenhum conhecimento das viagens de ônibus nem do que na casa onde ela trabalhava como
sexuais
acontecera embaixo da ponte. Nem sequer tinham conhecimento do
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"Os registros da Vara de Família", afirmou o investigador, "re-
queria levá-la a seu quarto por causa do que os vizinhos iriam pen- velam que os pais do indivíduo em questão (Joseph Kallinger) eram
sar. Era um visitante freqüente da animada casa dos Bishops e tinha incapazes de fornecer-lhe a supervisão, orientação e disciplina, cons-
amigos pela primeira vez, Aprendeu a jogar sinuca e pôquer, a apos- trutivas e criteriosas de que ele precisava".
tar e a beber. A bebida, a principio, deixava-o embotado, taciturno Os Kallingers, como a maioria das pessoas, confundiram doença
e enjoado, mas, finalmente, ele fazia parte de um grupo. Em nenhu- mental, ou pelo menos seus sintomas, com perigo. Estavam tratando
ma ocasião anterior, salvo ao representar o papel de Scrooge, ele um rapaz doente como um rapaz ruim. Essa foi uma falha de per-
se sentira parte de alguém ou de alguma coisa. cepção e compreensão que iria repetir-se com outras figuras de
Sete dias depois de seu décimo sexto aniversário, Joe abando- autoridade para Joe e que iria atormentá-lo por toda a vida.
nou o Ginásio Northeast. Segundo os registros escolares, isso se Joe chegara à casa dos Kallingers como um bebé sadio de 22
deveu ao fato de ele "ter conseguido um emprego em horário inte- meses. As sementes de sua esquizofrenia adulta foram plantadas ali.
gral". Seu empregador era Stephen Kallinger, que não sabia que Quando saiu, aos 15 anos, as sementes já começavam ,a desabrochar
Joe queria trabalhar em horário integral para casar-se com Hilda. e ele estava a caminho da grave esquizofrenia paranaide que o afe-
Mas Stephen e Anna ouviram falar sobre a nova vida de Joe com a tou quando adulto. Tinha sido rr..;s vulnerável aos maus-tratos dos
família de Hilda e, em abril de 1953, souberam pelos boatos de pais adotivos em decorrência da iósegurança e do ódio, nascidos do
Kensington que Joe planejava casar-se. abandono, que levara para a casa deles. Mas não foram os primeiros
Provavelmente por sentirem medo dele, os Kallingers o haviam 22 meses de vida, nem qualquer dei, ür, genético, que criaram a psi-
deixado mudar-se de sua casa sem protestar. Mas esse ato mais re- cose de Joe. Mesmo que a insegura a e o ódio daqueles 22 meses
cente de desafio eles não podiam tolerar. Joe havia desafiado não ou de um defeito genético o iive..,ern inclinado para a psicose, ela
apenas a ordem de não mais se encontrar com aquela garota, Hilda teria sido "uma esquizolviiiii branda", na opinião do Dr. Silvano
Bishop, corno também, e mais fundamentalmente, a determinação dos Arieti, o incomparável psicanalista, pensador criativo e autor no
Kallingers de fazer dele "um bom menino e um bom homem". O campo da esquizofrenia que examinou Joe Kallinger em 1980 e
mito Kallinger sobre o "passarinho" havia fracassado e o filho ado- 1981. O que determinou a gravidade da doença e a forma especifi-
tivo estava agindo como se eles não tivessem tido o trabalho de ca por ela assumida foi o que os pois adotivos fizeram com Joe. Como
inventá-lo. Por causa do comportamento estranho de Joe, que viam disse o Dr. Arieti, que, além de seus exames de Joe, estudou este
não como uma doença mental, e sim como maldade, eles haviam livro e os registros médicos de Kallinger:
posto a tranca na porta do quarto. Agora, dada a decisão dele dc
casar-se, Anna Kallinger, em 18 de abril de 1953, apresentou uma
queixa de incorrigibilidade contra Joe. Ele estava com 16 anos e qua- "O caso de Joseph Kallinger é incomum porque os sin-
tro meses. tomas esquizofrénicos levaram diretamente a terríveis crimes
A queixa dizia que Joe era indisciplinado e teimoso, que tinha sádicos e porque um incidente específico da infância tornou-se
pouco senso de responsabilidade para com os pais ou a comuni- a origem tanto da reduzida auto-estima que conduz à esquizo-
dade, e que se ligava a pessoas de conduta duvidosa. E de se supor frenia quanto da natureza dos atos de sadismo, O paciente es-
que tivesse pouco senso de responsabilidade para com os pais porque tava cheio de hostilidade, ódio e sentimentos de vingança por
os havia desafiado ao planejar casar-se. As pessoas de conduta duvi- causa do que seus pais adotivos alegaram ter sido feito a seu
dosa eram, sem dúvida, Hilda, sua família e os amigos da família. órgão sexual ('o passarinho')" •
A queixa foi arquivada, porém, porque Anna Kallinger não
pôde indicar nenhuma situação de violência ou males feitos por par-
te de Joseph. Em 1972, William Iezzi, um investigador do Tribu- * Transcrito dos laudos do Dr. Arieti escritos após seus dois exames
nal de Apelações Comuns da Filadélfia, referindo-se a outro assunto, de Josepli Kallinger e reafirmado num artigo escrito em co-autoria
conligo, pubikacid no Journal of the American Academy of Psychoana-
fez uma observação que nos leva a especular sobre uma outra pos- lysis, Vol. 9, n° 2 (1981).
sível causa de a queixa ter sido rejeitada:
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mais ainda para a psicci se que
lhe negado o palco, ele se retraiu
A esquizofrenia caracteriza-se por delírios, alucinações e com- havia precedido a experiência no teatro.
portamentos instigados por esses sintomas. Quando adolescente, Joe
era claramente delirante sobre a suposta "castração" — seu trauma Sem a bênçãodos Kallingers ou da Sra. Hilda Bishop, Joe e
básico e violento. Delirava, por exemplo, ao fugir das mulheres de Hilda entraram num ônibus e foram para Elkton, Maryland. Ali, ca-
seios grandes e dos "machões", quando esfaqueava fotografias de seios saram-se no escritório de um juiz de paz, tendo estranhos p r teste-
e pênis e quando planejou castrar o menino do riacho. Tinha tam- munhas. Voltaram para Filadélfia e mudaram-se para um equeno
bém um delírio sobre o fato de os Kallingers o espionarem e serem
capazes de ver o que ele fazia onde quer que estivesse, não importa a apartamento que alugaram em Kensington. a caminho e ter o
Joe, sempre forasteiro, pensava estar agora
que distância deles. que mais queria: "uma família grande e amorosa a que per neer"
Seu plano grandioso de salvar a humanidade através dos expe-
rimentos ortopédicos era um delírio de grandeza, uma idéia exagera-
da de sua importância para compensar seus sentimentos de desva-
lie. O plano fazia parte de sua psicose em evolução: a esquizofrenia
paranóide. Essa psicose envolve, caracteristicamente, entre outras coi-
sas, um retraimento da realidade, com a formação de delírios e alu-
cinações, como vimos acima.
Joe também teve experiências alucinatórias, embora não aluci-
nações inteiramente estruturadas, quando viu e ouviu Deus falar com
ele e quando ouviu a voz do demônio. Também alucinatória foi a
imagem que Joe teve, na infância, do pênis pendurado numa faca e
refletido no espelho da sala de estar. As fantasias de Joe, especial-
mente as fantasias de restauração a respeito de facas, que faziam par-
te do trauma violento causado pelo incidente do "passarinho", tam-
bém pressagiavam a esquizofrenia. O. mesmo ocorreu com o primeiro
vislumbre de sentimentos canibalescos — a primeira experiência de
ser controlado por uma força externa, por um "isso" que o manipula-
va e ditava seu comportamento, como se ele fosse uma marionete
numa corda, e pelo riso ventral que tinha personalidade e vontade
próprias. Mas as caretas e as contorções e trejeitos do corpo, embora
Indicassem que Joe estava mentalmente doente, não eram sintomas
de esquizofrenia.
Costumava ser moda afirmar que os doentes mentais e os cri-
minosos são o que são por terem herdado uma "semente ruim". Cla-
ramente, a "semente ruim", no caso de Joe, pode ser encontrada não
na natureza, mas antes na criação. Joe foi física e emocionalmente
espancado. Foi privado de sua dignidade humana e levado a sentir-se
inútil. Para ele, não havia saída normal. Enquanto criança e adoles-
cente, desempenhou o papel da vítima num, drama interminável de
crueldade. Por um momento, encontrou um refúgio sadio na ilusão
das fantasias da infância e, mais tarde, no palco. Mas, tendo ultra-
passado o mundo fantasioso dos companheiros imaginários e sendo- 99

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Seus dedos se entrelaçaram, os joelhos e coxas se tocaram, e os
dois sentaram-se no sofá. Joe serviu drinques de uma garrafa de VO
que tinham levado para o apartamento na noite anterior. Hilda ligou
o rádio. Música para dançar. Levantou-se e dar;ou, fazendo passos
e girando, e olhando para Joe com os olhos brilhantes de recatado

6 Amor, Minha Hora convite.


Sentou-se no colo dele e mordiscou-lhe a orelha. — Joe, vamos
fazer amor, sussurrou enquanto se aninhava nele.
e Minha Vez Joe manteve os olhos fechados durante o coito. Quando tudo
estava terminado, abriu os olhos e olhou para o corpo nu de Hilda.
Nunca o vira antes, e teve uma sensação de alívio ao ver sua
completude — ao ver que suas fantasias de mutilação não ha‘,. iam
transbordado para a realidade e ferido sua mulher. Ele tinha de-
sejado desesperadamente reprimir aquelas fantasias, pelo menos na-
quela noité, mas, como no passado, 15 estavam elas; uma maldição,
pensou ele, que o mantinha prisioneiro.
Apesar das fantasias, Joe estava determinado a deixar para trás
as recordações de 16 imos de tortura c desfrutar da vida. Mas, no
dia seguinte, ao voltar do trabalho, encontrou I Nicht deitada no sola.
— Aqui estamos! disse Hilda, quando o ônibus dc Elktun, Maryland,
Em suas mãos havia um copo de cisque e ela estava assistindo à te-
estacionou no terminal de Filadélfia. levisão. Joe sentiu um calafrio de apreensão percorrer-lhe o corpo, le-
— Hilda, disse Joe, olhando pela janela do táxi que tomaram vando-o a estremecer. A casa estava exatamente como quando Joe a
para levá-los a seu apartamento, sinto-me como se a cidade inteira ti-
deixara naquela manhã. Os pratos sujos do jantar da véspera ainda
vesse mudado. Parecendo limpas e cheias de esperanças, as ruas bri- estavam na pia por lavar; a cama não fora feita e as roupas de Hilda
lhavam como se um temporal houvesse lavado a cidade com água pu-
estavam espalhadas aqui e ali, na cadeira, no sofá, numa mesinha
rificadora. A mudança estava dentro dele próprio, na lavagem das
de canto.
lembranças dolorosas. Joe inalou profundamente o ar que soprava pela
Hilda levantou-se, beijou-o e disse, "Vamos jantar fora". Joe não
janela aberta do táxi. Murmurou para si mesmo, "Amor, amor, minha
falou nada sobre o apartamento estar todo desarrumado. Mas seu so•
hora e minha vez".
nho de unia casa em perfeita ordem nos subúrbios — janelas relu-
Tudo tinha para Joe um toque de sonho quando ele e Hilda
zentes, cozinha imaculada, pisos onde se poderia comer —, onde ele
atravessaram o corredor do apartamento em direção à sala de estar.
Antes do casamento, Joe sentira apenas em sonhos estar de bem com e Hilda viveriam cercados de muitos filhos, com roupas impecáveis
o resto da humanidade e ser como todas as outras pessoas. Agora, o e cabelos brilhando de limpos, vacilou por uni instante.
O apartamento tornou-se pequeno demais para acomodar o so-
sonho transformara-se em realidade.
nho crescente de Joe e, três meses depois de se terem mudado para
Com água da torneira da cozinha, Hilda encheu o vaso dc
lá, os jovens Kallingers mudaram-se para uma casa. A casa tinha dois
cristal, um dos presentes de casamento que Joe lhe tinha dado. Arru-
andares, três quartos, e ficava na Rua Masher, em Kensington. Ste-
mou as flores — nove Beldades Americanas recebidas de Joe. Ele
phen e Anna Kallinger tinham-na comprado no nome deles. Joe fa-
beijou a esposa no rosto, — Adorável, disse, admirando sua mu-
zia os pagamentos mensais da hipoteca a seus pais adotivos. Mas sentia
lher e as rosas ao mesmo tempo. — Não sei quem é mais bonita, você
que a casa era dele — um castelo onde era rei aos 17 anos — pois
ou as flores.
— Sou eu, respondeu ela prontamente, sorrindo. sabia que seus pais adotivos já não tinham nenhum poder sobre ele.

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e amor. Se tivesse que discipliná-lob, ele o
filhos com compreensão eles.
Joe ficou estarrecido pelo modo como os Kallingers trataram sua faria. Mas nunca chegaria sequer a levantar a mão contra
Ansioso por progredir, Joe espalhou pelos círculos de confecção
mulher e ele próprio. Saíra da casa dos pais depois que eles cons- de calçados a noticia de que estava à procura de um novo emprego.
truíram uma barricada contra ele por causa de suas caretas estra- Quando um agente de empregos lhe disse que havia uma vaga na
nhas, seus movimentos de cobra e seu riso ventral. Tinham tomado Frank Grandee, na Avenida Girard, -
medidas extraordinárias para fazer com que o filho adotivo ficasse Loja de Consertos de Calçados
foi até lá numa hora de almoço. Grandee ofereceu-lhe um sal rio mais
impotente. Após descobrirem que ele estava namorando Hilda, ti- alto do que recebia de Stephen Kallinger. Stephen recusou-se a cobrir
la. Mas, agora, davam-lhes as boas- vindas em
nham- no proibido de vê- a oferta de Grandee e Joe aceitou o emprego. — Vá para (miro lu-
sua casa, onde nenhuma outra visita era recebida.
Relembrando seus sentimentos ao mudar-se para a casa da Rua gar, dissera Stephen, e ganhe mais experiênsia. Mas prometahme que
não vai abrir sua própria loja nesta área. Não quero que vcê con-
Masher, Joe me disse, "Eu fora abençoado. Na casa de Stephen e corra comigo. Lembre-se, minha loja será sua. É sua herança.
Anna, eu fora um menino solitário, mas a minha casa eu podia levar Para Joe, a loja Grandee era apenas um pequeno passo em di-
um mundo de visitas", reção ao tempo em que ele teria dinheiro suficiente para augurar
"Eu sentia", disse-me Joe, "que já não era o menino que fora
sua própria cadeia de lojas. Queria também ascender no me o cultu-
lançado na escuridão. Tinha 17 anos e um novo sol nascera para ral. Para isso, sentia que precisava obter um diploma de curso médio
brilhar sobre mim: eu tinha certeza de que nunca mais praticaria ne- e, se possível, ir para a universidade. Como primeira providência, ma-
nhum ato de imprudência. já não havia o rugido de um riso saindo triculou-se num curso de literatura norte-americana na Standard Even-
de minha barriga. Nem meu corpo se contorcia e volteava como uma ning High. Melville, Whitman, Dickinson e especialmente 1Poe en-
serpente. É., você pode dizer que eu tinha sido abençoado, porque o cantavam-no. Sentiu que a qualidade sombria de Poe estava eM nitido
passado era uma sombra tênue. Eu acreditava ter escapado do destino contraste com sua realidade atual, mas trazia ecos do passbdo que
que antevira ao pensar que minha vida terminaria em desgraça".
Saindo da vasta escuridão do passado, Joe assumiu seu lugar ele havia deixado para trás.
no luminoso presente. Estava mantendo Hilda e ele próprio decente- Joe não estava pensando no passado no dia 9 de agosto fie 1955,
quando Hilda deu à luz uma menina. Tampouco percebeu a ironia
mente. Tinha comprado boas roupas para ela e fizera com que seus
dentes fossem tratados. Sua mulher e ele acrescentaram novos mó- de que sua filha tivesse nascido no mesmo hospital onde, segundo
os Kallingers lhe disseram, haviam-no tornado impotente. Olhando
veis aos que haviam trazido do apartamento. Divertiam-se andando de para o bebê em seu berço no pavilhão de obstetrícia, sentimse ocea-
patins e indo aos museus. Ele ouvia pacientemente quando ela re-
' o como se pudesse criar novos mundos e tomar o lugar Ide Deus
clamava de ele não saber dançar. Chegou até a tentar tomar aulas de no universo. Mas, quando Hilda e a neném (eles a chamara Anna,
dança, mas logo concluiu que o ritmo da música simplesmente não em homenagem à mãe adotiva de Joe) foram paia casa, h uve mo.
estava em seus pés. mentos•em que Joe começou a sentir que a jovem magricel que ele
Joe acreditava ser um sapateiro melhor do que seu pai adotivo, supunha tê-10 libertado da escuridão do passado o estava ag ra pren-
embora Stephen fosse conhecido em toda a Filadélfia como um exce- dendo numa nova escuridão.
lente artesão. Joe tinha sua própria freguesia entre os clientes que
levavam sapatos para a loja Kallinger. Eles gostavam de seu sorriso Joe observava com desânimo o que lhe parecia ser a falta de
mulher. Recorda-se de que Hilda recusou-se
caloroso e amável, assim como de sua admirável destreza com o instinto materno de sua
a amamentar o bebê. Quando Joe chegava em casa à noa , muitas
couro e a borracha. Joe sonhava abrir uma cadeia de lojas de con- vezes encontrava o bebê sem fraldas, com o corpo e a doupa de
em Nova Iorque e em
sertos de calçados no Center City de Filadélfia, cama molhados, e sujo de excrementos. A casa estava ainda. mais de-
outras grandes áreas urbanas. Teria então a casa nos subúrbios ele- de Annie, e Hilda, da mais
gantes que sempre desejara. Dirigiria um Cadillac e talvez até man- sarrumada do que antes da chegada
sarrumada
que ela precis va estar
dasse seus filhos para escolas particulares. Hilda e as crianças vive- inquieta do que antes de dar à luz: Joe relata babá e
sempre saindo. Algumas vezes, Joe e Hilda conseguiam um
riam em grande estilo e se orgulhariam do marido e do pai. Quando
criança, ele fora maltratado, mas estava determinado a criar seus 103

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petida por ele. Essa frase lhe fora dirigida na infância. Ele a usava
saíam juntos. Com maior freqüência, Hilda safa sozinha e Joe era a com Hilda e voltaria a usá-la repetidamente nos anos posteriores).
babá. Ele st recorda de que, em geral, ela dizia que ia à casa da mãe — Você é maluco, retrucou Hilda. — Você não tem nada que
ou que iria com ela a algum bar.
ser pai. Eu não sabia disso quando me casei com você. Mas, diabos,
No passado, desejando preservar seu sonho de um casamento agora eu sei, certo? agora eu sei.
perfeito, Joe tinha basicamente reprimido sua irritação com Hilda. Maluco? Joe não se considerava um doente mental, embora, aos 13
Mas, devido à raiva que sentia pelo modo como a mulher tratava o anos, tivesse achado que sua vida terminaria em desgraça e, aos 15,
bebê, a velha irritação se reacendeu. houvesse observado mudanças alarmantes em si próprio. Perguntou-se
Desde o início do casamento, Joe ficara exasperado como des- se Hilda se sentiria agora a seu respeito do mesmo modo que seus
leixo de Hilda nos cuidados com a casa, com sua culinária precária pais adotivos se haviam sentido quando puseram a tranca na porta
e com sua indiferença em servir-lhe uma refeição decente quando ele do quarto e lhe disseram que já não o conheciam, por causa de suas
voltava para casa após um dia de trabalho. Frustrara-se também com a caretas estranhas, seus gestos estranhos e seus movimentos de serpente.
mãe de Hilda. Quando namorava Hilda, a Sra. Bishop o aceitava em Hilda nunca o chamara de maluco. Dissera-lhe, no entanto, que
sua casa de maneira francamente amistosa, mas, depois do casamen- ele tinha duas personalidades. Uma era o sujeito que era maravilhoso
to, fizera com que ele se sentisse indesejado. Ela também gostava de com ela e que lhe dava tudo. A outra, ela havia descrito como um
levar Hilda aos bares enquanto Joe permanecia em casa. Ele não ti- tirano que queria dominá-la e que a assustava com raivas furiosas e
nha censurado Hilda por isso, pois sabia que ela gostava dos bares e expressões faciais esquisitas.
que os dois eram jovens demais para entrarem sozinhos num bar sem Joe indagou a si mesmo por que, se era tác. esquisito, Hilda se
que houvesse um adulto a seu lado. havia casado com ele. Mas tentou assegurar-se de que não era maluco
Joe e Hilda discutiam sobre religião. Logo depois do casamento nem esquisito; de que, para Hilda, esses eram apenas modos de fa
civil, um padre os casou sob a condição de que Hilda, que não era lar; de que ela havia usado as palavras descuidadamente. Suas faina.
católica, buscasse orientação para converter-se. Ela não o fez e, quan- sias destrutivas durante as relações sexuais, ele admitia para si pró-
do Joe reclamou, sua resposta foi "Foda-sel" prio, eram esquisitas, talvez até malucas. Mas Hilda não tinha ne-
Em maio de 1955, Hilda engravidou novamente e Joe esperou nhum conhecimento delas. O que teria querido dizer com maluco?
que o filho salvasse o casamento. Ficou chocado quando Hilda lhe As fantasias não tinham interferido nem em seu amor por ela, nem
pediu dinheiro para fazer um aborto. O aborto ameaçava seu so- no fato de ele ser (em sua própria opinião) um bom amante. Mas,
nho da família. O aborto, tal como ele o via, era assassinato. Embora durante a cena do aborto, Hilda disse em tom sibilante: — O sexo
suas fantasias durante o coito fossem destrutivas, ele encarava a des- com você não tem nada de bom! Seu pênis é pequeno demais!
truição da vida, mesmo da vida fetal, como um mal, Para ser poten- — Como é que você não me disse isso há uma porção de
te, ele precisava ter uma faca por perto enquanto mantinha relações. tempo? Retrucou Joe em tom enraivecido.
Os pensamentos e a faca, no entanto, faziam parte de sua vida de — Eu não queria magoá-lo.
fantasia, e sua vida de fantasia era bem separada de seus valores mo- Os velhos Kallingers lhe tinham dito que seu pênis não cresce-
nível
rais, entre os quais o respeito pela vida tinha alta prioridade. A com- ria. Agora, Hilda estava dizendo que não tinha crescido. No
pulsão de matar que iria emergir das fantasias, bem como a psicose racional, Joe achou que a zombaria dela sobre seu pênis pequeno,
pela primeira vez, após todos esses anos, era absurda. Mas, no nível
de que se tornaram parte, ainda não tinham surgido.
emocional, acreditou nela e sentiu que ela sempre achara seu pênis
Joe olhou friamente para Hilda e disse, — Você nunca receberá
pequeno demais, porém não lhe dissera isso. Hilda havia despertado
dinheiro de mim para assassinar nosso filho. os medos que o mito sobre "o passarinho" tinha gerado. Mais uma
— Se eu tivesse o dinheiro, faria o aborto sem seu consenti-
vez, Joe caia na armadilha da ilusão de que lhe faltava potência
mento, respondeu ela. sexual. Sentia-se também imprestável. A escuridão do passado come-
— Comporte-se e tenha esse bebê, disse Joe com ar de deter- çava a mesclar-se com a nova escuridão do presente.
minaminação. ("Comporte-se!" era uma ordem freqüentemente re-
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encontrar você numa ruela escura quando estivesse relampejando".
Todas as noites, quando ia para a cama, Joe esperava não ser um cobertor e saiu do quarto. joe
castigado por ter um pênis pequeno. Ao zombar de seu pênis, Hilda Hilda apanhou seu travesseiro e
vestira a máscara e tornara-se a persona de Anna Kallinger, que lhe não tentou detê-la. Mary's, Hilda deu à
dissera que seu pênis não cresceria e que freqüentemente lhe infligira Em 12 de janeiro de 1956, no Hospital St.
Stephen, em homenagem ao pai dotivo
muitos castigos humilhantes e fisicamente dolorosos. Joe tinha sen- luz um filho. Chamaram-no
icamente, como fizera ao ter a not cia da •
tido medo de sua mãe adotiva; agora, tinha medo de sua mulher, no • ue loa. rcubAudo mag bebê que ela nao quis ra
papel de mãe punitiva. Embora Hilda não se transformasse em Anna gravidez de Hilda, Joe fantasiou que o
restituir a felicidade do casamento. Joe só havia conhecido felici-
no mundo delirante de Joe, ele quase chegava a esperar, nos momen-
dade duas vezes: quando desempenhou o papel de Scrooge e no pri-
tos de ansiedade, que ela falasse inglês com um sotaque alemão e
que terminasse (ou começasse) suas degradações por Dummkopfl meiro ano de casamento com Hilda.
Em setembro de 1955, o casamento que Joe pensava ter sido Anna Kallinger ia à casa de Joe e Hilda de vez em quando,
preparado no paraíso passou a ser proliferado no inferno, Sempre para ver seus dois netos. Contava a Joe que Hilda freqüentemente
que Hilda lhe dizia, "Vá se foder, Joe", ele imaginava estar-se de- dormia até meio-dia, deixando os bebês sem comida e com as fral-
vizinhos também tinham reparado nas fraldas
batendo e urrando na montanha dos amaldiçoados, com o corpo re- das encharcadas. Os
encharcadas e na falta de alimento. Segundo Joe, Anna também lhe
torcido de angústia e horror.
— Eu tinha certeza de ter derrotado o passado, de te-lo derruba- disse que Hilda só dava às crianças emendoim e soda gaso a. Não
do no chão, disse-me Joe. — Mas, quando meu casamento começou havia leite em casa, nem quaisquer outros alimentos oacriti os.
Joe chegou em casa, na noite seguinte à conversa com Anna, ar-
o se deteriorar, passei a ouvir, de vez em quando, o riso vindo da m, ati-
barriga, e a sentir meu corpo mexendo-se como uma cobra. Tentei es- doara travar uma batalha com sua mu. Eles gritar Explo-
conder essas coisas de Hilda, mas não sei se consegui. Havia tam- raram objetos, embebedaram-se e gritaram um pouco
bém uma outra coisa: passei não só a duvidar de minha potência diram um com o outro em muitas outras noites. A vida de a bos se
sexual, como também comecei a ver o corpo nu de Hilda da mesma transformara num acesso de raiva mútuo. Muitos dos vizi hos da
maneira que havia olhado para as fotografias de mulheres nuas, Rua Masher lamentavam pelos bebês Kallinger, mas a maio ia deles
quando costumava masturbar-me no buraco da parede de meu quar- tinha pouca simpatia por Hilda e Joe.
to, na casa de meus pais adotivos. Na verdade, não queria machucar Joe acreditava ter-se tornado igual a todo o mundo, ma os ho-
mens da Rua Masher não gostavam dele, porque "ele não se dava
Hilda, e certamente não nosso filho por nascer, Mas, felizmente, as uisi to".
coisas que eu imaginava desapareciam quase tão depressa quanto com ninguém". Consideravam-no "um sujeito fechado e es
apareciam. E eu estava atento aos sinais ruins em mim. Na loja, As mulheres da Rua Masher não suportavam Hilda, porque os be-
e ela era "namoradeira". As
continuava a trabalhar em meus experimentos ortopédicos — minha bês dela eram "sujos e malcuidados" do Hil-
missão de salvar a humanidade. E trabalhava também, agora, nos sobrancelhas se erguiam e as línguas eram espichadas quan
da ia a uma fábrica próxima, como freqüentemente faz a, para
experimentos para corrigir a mim mesmo.
Joe começou a dar ordens a Hilda para que se aprimorasse flertar com os operários que almoçavam do lado de fora.
como mãe e dona-de-casa. Ela respondia rindo-se dele. Disse-lhe para Numa noite do final de setembro de 1956, joe chego do tra-
brincando sozinha
e encontrou a pequena Annie,de dois anos,
onde ele poderia ir e o que podia fazer consigo mesmo e com seu pê- balho de armar na sala, e Stevie, de oito meses, o andar
nis pequeno. Além disso, ele era maluco, não tinha nada que ser com seus cubos
pai, e ela simplesmente não estava disposta a receber ordens dele! superior, no quarto das crianças, agachado no berço, des ssistido.
Salvo pelo barulho dos cubos de Annie, a casa estava em silêncio.
Certa noite, eles estavam na cama, após uma discussão aos
gritos, quando Hilda levantou-se de repente e disse a Joe que não Joe percorreu todos os cómodos, mas Hilda se fora.
podia suportar dormir perto dele. Disse que ele se parecia com al- Por alguns minutos, Joe ficou na frente da casa, chama do pela
guma coisa que ela vira num filme de terror, com seu rosto "ama- esposa. Nenhum sinal dela. Tornou a entrar. Quem sabe pensou
com amargura, ela foi ao armazém comprar mais soda e a endoim.
lucado e desfigurado". Portanto, fada-se, Joe. Eu não gostaria de
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Soube pelos amigos dela que Hilda estava com um namorado,
A noite foi passando. Andando de um lado para outro em seu Hans Ibler, e que os dois estavam vivendo juntos no carro de Ibler .
quarto, perguntando-se por quanto tempo ainda teria de esperar por Todos os dias, depois do trabalho, tendo obtido o número da placa,
Hilda, Joe lembrou-se também das muitas noites em que, às duas ou Joe vasculhava a cidade de Filadélfia à procura do carro em que
três horas da manhã, ouvira um carro parar em frente a casa e a Hilda c Ibler supostamente estariam morando. Ficava pensando que
porta do carro bater. Depois, como disse Joe, "Hilda entrava caiu- talvez os amigos de Hilda se estivessem simplesmente divertindo a
baleante, fechando a porta da frente com estrondo, com as roupas obscrvá-lo, sabendo que ele estava percorrendo a cidade em busca
amarfanhadas, sem nem sequer tentar ficar um pouco mais sóbria de um carro em que ninguém morava .
para dar uma olhada nas crianças". Após duas semanas de busca exaustiva, loe finalrnente encon-
Estava ficando tarde, e Hilda não tinha voltado. Joe não tinha trou o carro de Ibler. Estava estacionado num lugar afastado, perto
curteza do que fazer. Foi até o armazém, comprou leite, pão fresco de um cemitério. Joe olhou para as placas de pedra e as sepulturas
e queijo, e correu para casa. Alimentou Annie e Stevie e colocou-os por sobre o muro, e depois voltou os olhos novamente para o carro
na cama. Ainda não havia nenhum sinal de Hilda. de Ibler. Não conseguia compreender. Assegurou a si mesmo que
Pela manhã, visto que Hilda ainda não tinha voltado, Joe falou não poderia ter sido tão mau marido e pai a ponto de sua mulher
com alguns de seus vizinhos. Depois de se queixarem da barulheira desertá-lo e abandonar os filhos por um homem sem casa, que nada
que ele e a mulher constantemente faziam, os vizinhos lhe disseram tinha de melhor a oferecer a Hilda do que a vida num automóvel.
que, na tarde anterior, Hilda havia partido com um homem. Joe Espalhados em volta do carro e largados pela grama alta esta-
agradeceu-lhes e, cheio de auto-recriminação, voltou para casa. "Eu vam pratos de papel, garrafas de cerveja, fragmentos de comida, uten-
tinha razão para me ressentir do modo como minha mulher fazia as sílios de plástico e outros sinais da administração doméstica de Hil-
coisas", disse-me Joe mais de vinte anos depois, "mas não se podem da. Olhando para o lixo, loe viu que ela não mudara nem um pouco .
olhar as coisas de um lado só. Minha mulher deixou de me amar e Silenciosamente, andou até o carro e olhou pela janela lateral tra-
creio que isso se deveu, principalmente, ao fato de ter encontrado seira, que estava fechada. Hilda estava estirada no banco de trás.
alguém com mais potência sexual do que eu podia oferecer". Usava uma saia estampada e uma blusa que Joe se lembrava de ter
Dois dias depois da partida de Hilda, Joe observou que a bar- lhe comprado. O banco da frente estava vazio. Ibler não estava ali.
riga de Stevie estava inchada e que seu peito parecia afundado. O mé- Hilda, num susto, sentou-se. — Deus do céu, Joe, gritou pela
janela fechada, saia daqui! Cai fora! Como é que você soube crida
dico disse que ele estava sofrendo de desnutrição. Joe nunca ouvira eu estava? Pela janela fechada, Joe respondeu, também gritando, que
essa palavra, mas percebeu, após a explicação do médico, que isso
Annie chorava pedindo sua mãe e que Stevie estava doente. Prome-
acontecera porque Stevie fora alimentado com soda, em vez de leite. teu a ela que não haveria mais brigas. Tudo, garantiu-lhe, seria tão
O médico receitou uma fórmula, deu injeções em Stevie e ia vê-lo perfeito quanto fora quando ele lhe deu o ramo de Beldades Ameri-
periodicamente. canas. Hilda sacudiu a cabeça. Disse em' voz alta: — Nunca volta-
Na noite em que Joe descobriu que Hilda se fora, planejou au- rei para você, entendeu, Joe? Não amo você. Você Lhe assusta, porque
sentar-se do trabalho por alguns dias e ficar em casa, até decidir o é maluco. Agora, vá embora!
-
que fazer com as crianças. Uma vizinha, porém, ofereceu se para Joe só tinha uma explicação para o fracasso de seu casamento:
cuidar delas enquanto ele estivesse trabalhando. Cerca de uma se- Hilda o abandonara por ter encontrado um homem com mais po-
mana após a partida de Hilda, Joe colocou Annie e Stevie com unia tência sexual do que ele tinha a oferecer. Não tinha nenhuma idéia,
família que hospedava crianças nos subúrbios, perto de Norristown, é claro, da potência sexual de Ibler. Mas a zombaria de Hilda sobre
na Pensilvánia. Da adorável casa colonial em que estavam morando, seu "passarinho" e o fato de ela ter ido embora despertaram o delí-
Joe levava Annie e Stevie para casa nos fins de samena, cuidava de- rio do pênis pequeno de Joe, e ele estava repleto de sentimentos do-
les e dava continuidade ao tratamento médico de Stevie. Hilda não lorosos de desvalia e baixa auto-estima. Vinte anos depois de Hilda
tinha voltado, e Joe decidiu tentar encontrá-la. havê-lo rejeitado no carro, naquela noite de outono, ele disse ao Dr.

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a um
cia regularmente à missa e se confessava, solicitou o divorcia
Robert Sadoff, um dos psiquiatras que depuseram em sua defesa: com a
tribunal civil. O tribunal informou-o de que, embora ficasse ver os
"Minha operação de hérnia provavelmente levou, de fato, à perda de eito d
custódia de Anna e Stephen, Hilda Kallinger
. tinha c dir
minha mulher". Esse delírio, tal como comprovado pelos atos agres- e J oe t azia as
dois filhos duas vezes por semana. Isso stg ele os
sivos da infância de Joe, seria também a matriz de seus crimes. crianças dos subúrbios perto de Norristown para passar co s, para ,
Por ora, Joe era um homem abatido, humilde o bastante para fins de semana, e ia buscá-las em dois dias, todas as semana
ter esperanças de salvar seu sonho da família, conseguindo ainda
que vissem a mãe. l
convencer Hilda a voltar para ele. Joe era frio nos breves encontros com Hilda, quando levava as
No carro, Hilda o havia rejeitado de modo hostil e definitivo. Já crianças para vê-la. Não continuou frio, no entanto, quando soube
que ela se fora definitivamente, Joe achou que sua esperança de ter pela pequena Annie que, durante as visitas, Hilda ensinava fn acrian-
uma família grande fora feita em pedaços, pois não conseguia ver-se ças a chamar Hans Ibler de "Papai". Hilda e Ibler estava com-
enfrentando novamente um mundo que tinha tantas mulheres do- prometidos e estava claro para Joe que ela iria tentar obter custó-
minadoras, de seios grandes, e tão poucas mulheres dóceis de seios dia dos filhos a quem havia abandonado.
pequenos. Tinha que ter Hilda a seu lado, embora não soubesse o ape-
Profundamente agitado Joe não conseguia dormir, perde
.
como trazê-la de volta. Sem ela, seu sonho da família estaria perdido tite e parou de fumar. Ainda não chegara a seu vigésimo primeiro
para sempre. aniversário, mas sentia-se tão depauperado quanto um velho Sentia
Certa manhã, Hilda veio à porta de Joe. Ele tinha certeza de nas têmporas, especialmente quando estava trabalhando.
que ela voltara para casa, mas ela lhe disse que era melhor achar dores intensas
A princípio, a medicação surtiu efeito, porem, em agosto de 957, os
outra coisa. Viera apenas buscar Annie e Stevie. As crianças estavam remédios revelaram-se inúteis, mes?ho quando administrados em do-
na casa onde eram hospedadas, mas Joe fingiu que estavam lá dentro. ses mais altas. — O médico — o mesmo Dr. Daly que havia fetuado
"Não vou deixar que você se aproxime delas", disse, fechando a a operação de hérnia de Joe — suspeitou de uma lesão ce ebral e
porta à sua mulher, hospitalizou-o no St. Mary's, em 4 de setembro de 1957.
Do interior da casa, Joe observou-a quebrar as janelinhas da por- O hospital eliminou a hipótese de lesão cerebral como c usa das
ta. Estava tentando entrar, mas não conseguiu. O que de fato con- dores de cabeça e, passados onze dias, deu alta a Toe, com m diag-
seguiu, sem saber que o fazia, é claro, foi estilhaçar as esperanças de nóstico de "distúrbio nervoso psicopatológico e estado de ans edade".
reunião de Toe. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais
Fihda a esperança, Joe cedeu prontamente ao desejo dos Kal- da Associação Norte-Americana de Psiquiatria, os distürbi s psico-
lingers de vender a casa da rua Masher. Eles o fizeram rapidamente patalógicos são "distúrbios físicos de origem presumivelm ate psí-
e ordenaram a Joe que se mudasse outra vez para a casa deles. Com quica". Isso significa que as dores de cabeça de Joe eram intomas
o sonho da família despedaçado e o espírito abatido, ele obedeceu do- físicos resultantes de causas emocionais, e que os médico do St.
cilmente à ordem e voltou para a casa que fora sua prisão na infân- Mary's consideraram a angústia psicológica de Toe como efei o direto
cia, e da qual tinha escapado para ficar com Hilda. de sua crise familiar e da perda da mulher.
Joe estava de volta ao quarto onde havia cavado o buraco na Na ocasião, era impossível aos médicos preverem os feitos a
parede, que seu pai adotivo não se dera o trabalho de emassar des- longo prazo da perda da mulher para Toe. Essa perda, contudo, mes-
de sua partida aos 15 anos. Não sentiu nenhuma tentação de usá-lo, clada aos abandonos que ele sofrera no passado, intensifi ou seus
mas apenas unia recordação das fantasias de retalhar que haviam delírios e tornou-se um fator psicológico importante no deSenvolvi-
acompanhado sua masturbação no buraco e que tinham começado ali.
mento de sua psicose: a esquizofrenia.
Aquelas eram as fantasias que Toc levara consigo para o casamento Um psiquiatra do Hospital St. Mary's explicou a Joe que ele
com Hilda e que nunca o haviam abandonado. precisava reduzir as tensões de sua vida e que, portanto, e a-lhe es-
Joe tentou concentrar o pensamento em questões práticas, tais sencial parar de arcar com a responsabilidade integral pelo dois fi-
como fazer com que a Igreja anulasse seu casamento com Hilda. De- lhos. Joe admitiu que ser pai sozinho era difícil, mas quetiia deses-
pois que isso lhe foi recusado pela Igreja da Visitação, onde compare-
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com Annie e Stevie em sua nova casa e em cada uma das casas
peradamente manter Annie e Stevie a seu lado. Entretanto, o psi- para onde a Agência Católica de Crianças os transferia. Não conse-
quiatra deixou claro que isso seria um convite a problemas psicoló-
guia suportar separar-se deles, pois eram extensões de si próprio e a
gicos adicionais. Temendo que, se perdesse o controle, Hilda conse- única parte remanescente de seu sonho perdido de ter uma família
guisse obter a custódia, Joe continuou a hesitar, Não queria confiar
grande.
seus filhos a Hilda, que os havia abandonado, nem a lbler, que fu- O divórcio de Joe e Hilda tornou-se definitivo em 3 de janeiro
gira com a mulher de outro homem. Joe se considerava o genitor mais de 1958. Algum tempo depois, numa manhã de domingo, ele ficou
competente, porque, salvo pelas viagens de ônibus e pela ponte no deitado em sua cama, no quarto da infância e da adolescência, revi-
passado, tinha levado uma vida limpa. vendo os infortúnios que o haviam atingido. Seus pais adotivos es-
A advertência do psiquiatra, no entanto, convenceu-o de que, tavam na igreja, mas Joe se recusara a ir com eles: o Vaticano o ha-
mesmo preservando seus filhos, tinha que fazer algumas mudanças im-
via excomungado por causa do divórcio civil. Ninguém, é claro,
em prol de sua saúde. Tentou reduzir a sobrecarga em si mesmo co- pediria Joe de entrar na igreja de sua paróquia, mas ele se manteve
locando Annie e Stevie aos cuidados da Agência Católica de Crian- afastado, enraivecido pela excomunhão. Ela o atingira com o impac-
ças. Nesse novo arranjo, as crianças foram colocadas num internato to de um quarto abandono: primeiro, sua mãe natural, e depois a mãe
particular selecionado pela agência. Os custos foram reduzidos, pois adotiva, haviam-no feito sentir-se imprestável e desamado; depois,
Joe tinha que pagar apenas pela metade da internação, cabendo à Hilda, sua mulh, em suas
er que se transformara nua mãe punitiva
organização pagar a outra metade. A responsabilidade também di- a Igreja Católica. Joe ntia-se
sentia-se desolado.
fantasias; e agora,
minuiu, pois Joe não tinha permissão de levar as crianças para casa Deitado na cama, virou-se para o lado eemelancólicos.
olhou pela janela. Os
Joe pen-
nos fins de semana ou de levá-las para visitar a mãe. domingos em Kensington eram silenciosos
As antigas tensões tinham sido eliminadas, mas havia outras a sou em Elizabeth (Betty) Baumgard, a quem conhecera na estação
tomar-lhes o lugar. Joe não conseguia suportar a solidão aflitiva de de trem de Norristown, na rua Dekalb, numa tarde de sexta-feira de
não ter os filhos a seu lado nos fins de semana e o vazio de não ter esperavam pelo trem de
junho de 1957, quando ele e as crianças
nada que fazer em suas horas de folga. Já não se sentia como todas Filadélfia que os levaria para o fim de semana em casa, saindo da
as outras pessoas e não tinha nenhuma intenção de sair — ou se- casa de criação particular onde ele as havia colocado depois da parti-
quer de aproximar-se — das mulheres de seios grandes, que o ater- da de Hilda. Estava sentado num banco, e as crianças, em frente a
rorizavam e a quem ele via como dominando o mundo. Em seu es- ele, brincavam com uma grande bola vermelha. Annie jogou a bola
tado delirante, tinha certeza de que elas o-destruidMtQnm seus-seios para Betty, uma mulher alta, vestindo calças de brim e uma blusa,
esmagadores, de que o sufocariam e afundariam em camada após ca- que estava sentada com sua irmã, Patsy, num banco em frente a Joe.
mada de carne, até que ele ficasse aprisionado — imobilizado como Betty jogou a bola de volta para Annie. Joe sorriu e disse "Obrigado".
para Betty. Ela tornou a de-
um inseto no âmbar. Ao término de seus pesadelos, gritando e agi- Stevie pegou a bola de Annie e jogou- a
tando os braços, Joe emergia de um emaranhado de lençóis que, no volvê-la. Joe sorriu e disse, "Obrigado, novamente". Ambos riram
sonho, eram exércitos de mulheres parecidas com Mae West; elas e começaram a conversar.
atacavam seu corpo nu e prostrado, com os seios como bastões imen- e sua irmã. Annie e Stevic
No trem, Joe sentou-se atrás de Betty baixo. Então, agarrando a
sos a pulverizá - lo e os mamilos a cortar-lhe a carne. corriam pelo corredor, para cima e para
As mulheres de seios pequenos eram demasiadamente pouco nu- bola, Annie subiu no colo de Betty e Joe ouviu-a dizer, "Você é
merosas, no mundo delirante de Joe, para fazer com que valesse a minha bola". Joe obser-
uma moça boazinha. Vou deixar que segure
pena o esforço de sair com elas. Além disso, ele ainda tinha espe- vou Betty, que segurava a bola com uma das mãos e Annie com a
ranças de que, de algum modo, conseguiria trazer Hilda de volta. outra.
Joe dissera ao psiquiatra do Hospital St. Mary's que fora "quei- Essa moça, refletiu Joe, seria uma boa mãe. Mas, esqueça, Joe.
mado" de modo tão doloroso que não mais olharia para as mulhe- Você já se queimou uma vez.
res. Cedo, para preencher as longas horas vazias, começou a passar Quase a mesma cena se repetiu em muitos outros fins de sema-
pelo menos um dia, e freqüentemente dois, em cada fim de semana,
113
112
na. Durante o tempo em que os filhos de Joe moraram perto de Nor- posto de capitão. O oficial do serviço de pessoal do Exército disse-
ristown, ele se encontrava com Betty na estação de trem todas as lhe que ele estava habilitado para o posto e que seria aceito, sob a
tardes de sexta-feira. Ela ia de sua casa, em Royersford, para Manay- condição de permitir que seus filhos fossem adotados e de não mais
unk, sua cidade natal, passar os fins de semana na casa de uma tia. responsabilizar-se por eles. Isso, ele se recusou a fazer. stava inten-
Da estação de Norristown até Manayunk a corrida durava apenas 15 samente investido em criar um lar para Annie e Stevie.
minutos, mas, durante a semana, Joe descobriu-se esperando por aque- Agora que o divórcio de Joe era definitivo, ele se se tia contente
les 15 minutos. E, quando levava as crianças de volta para Norris- pelo fato de, numa das visitas a Manayunk, já ter con ado a Betty
town aos domingos, ficava muito feliz quando, em Manayunk, Betty que a mãe de seus filhos não estava morta. Ficou sati feito porque
às vezes entrava no trem e ele passava mais 15 minutos com ela. Betty, em vez de zangar-se com ele por ter-lhe mentid , expressou
Numa tarde de sexta-feira na estação de trem, percebendo que sua admiração pelo tempo e dinheiro que ele gastava c m as crian-
nunca tinha estado a sós com Betty, Joe pediu à irmã dela que lhe ças. Agora, quando disse a ela que era um homem divo ciado e que
fizesse o favor de levar as crianças ao toalete. Sozinha com Joe pela queria namorá-la, Betty exultou de alegria.
primeira vez, Betty perguntou-lhe sobre a mãe de Annie e Stevie. No primeiro encontro, foram ver um espetáculo de atinação no
Sem querer entrar em detalhes sobre o fracasso de seu casamento e gelo e, a partir daí, saíram juntos quase todas as noites Entretanto,
sobre o divórcio pendente. Joe respondeu de estalo, "Ela morreu". cinco semanas se passaram antes que ele chegasse sequ r a beijá-la
Perturbada pelo fato de aquelas crianças tão pequenas terem perdido no rosto. Mas, quando a pediu em casamento, ela resp ndeu pron-
a mãe, Betty começou a chorar. Mas, naquela ocasião, Joe não modi- tamente que sim. Joe deu-lhe um "anel da amizade" de diamante,
ficou sua história. que custou 80 dólares, e depois deu-lhe um anel de noivado mais
Joe lembrou-se dolorosamente de como as viagens de trem com caro.
Betty haviam cessado depois que Annie e Stevie saíram de Norris- Joe estava apaixonado por Betty e sabia que ela estava apaixo-
town para morar num internato sob os auspícios da Agência Cató- nada por ele. Ficavam juntos sempre que ele não estava na loja ou
lica de Crianças. Numa carta a Betty, explicou que as circunstâncias' com os filhos. Mas, à parte os beijos, não havia sexo. Joe sentia-se
não mais os aproximariam, mas disse ter esperanças de que conti- fortemente atraído por essa mulher, que tinha 1.83m de altura e
nuassem a ver-se. Depois de Betty responder que ficaria contente se era maior do que ele. Era magra, angulosa e de seios pequenos. Ele
ele a visitasse na casa da tia, em Manayunk, Joe começou a ir lá fre- admirava suas pernas magníficas e sentia-se feliz por la ter seios
qüentemente. Ele e Betty também se correspondiam. As cartas de pequenos.
Betty eram escritas por sua irmã Patsy, pois esta escrevia cartas me- Tivesse ela seios fartos, Joe a teria temido. Após a experiência
lhor do que Betty, e Betty queria mandar a Joe as melhores cartas com Hilda, porém, ele achava que algumas mulheres de busto chato
possíveis. eram más e outras, boas. Ainda tinha dúvidas quanto a ua 'potência
Inconscientemente, é possível que Joe estivesse cortejando Betty sexual, mas, acreditando, através de seu pensamento má ico caracte-
desde a primeira vez em que ficou a sós com ela e, não querendo rístico, que a perspectiva de renovar o sonho da fana lhe devol-
causar má impressão com a história de seu casamento fracassado, veria a potência, queria manter relações sexuais. Quayado, porém,
disse-lhe que a mãe das crianças estava morta. Joe sentia haver algo Betty recusou-se recatadamente a ter sexo antes do casamento, ele
de profético no modo como a bola de uma criança o havia aproxi- respeitou-lhe os desejos.
mado de Betty. Mais urna vez, começou a ver-se numa casa nos bair- Em 20 de abril de 1958 — três meses depois do ivórcio de-
ros afastados, rodeado por uma esposa, por Annie e Stevie, e por finitivo de Joe — Betty e ele casaram-se em Elkton, M ryland. Ele
muitas outras crianças. ficou embaraçado quando foi solicitado a declarar sua idade, pois
Joe percebeu também que nunca aceitara a idéia de viver se- Betty era dois anos mais velha e ele lhe tinha dito que a bos tinham
parado de Annie e Stevie como algo parmanente. Pouco depois de a mesma idade. — Betty, disse, vá ali para trás enquanto eu dou essa
Hilda ir bater em. sua porta para tirar as crianças dele, Joe tinha-se informação. Betty não se mexeu e ouviu que Joe era doi- anos mais
candidato a ingressar no Exército como especialista em ortopedia, no moço que ela. — Eu sabia, explicou-lhe Joe ao saírem 'o tribunal,

114 115
que você não gostava de pessoas mais jovens que você, por isso fiquei
mais velho. Estava então com 21 anos e quatro meses.
Dessa vez, Joe não fez nenhuma tentativa no sentido de que
o casamento civil fosse acompanhado de uma cerimônia religiosa.
Betty era protestante e ele fora excomungado da Igreja Católica. No
segundo casamento de Joe, tal como no primeiro, houve desaprova-
7 Sem Saída
ção parental de ambas as famílias. Os pais de Betty fizeram objeção
ao fato de ela começar com uma família já feita. Os Kallingers de-
saprovaram porque, tendo levado Joe de volta para casa e pago por
seu divórcio, haviam esperado poder finalmente conservá-lo para
eles próprios. Seu exorcismo do demônio do "passarinho" havia fa-
lhado. Mas eles tinham tido esperanças de que, como homem sol-
teiro, Joe cuidasse deles na velhice, o que tinha sido uma das finali-
dades de adotá-lo.
O tribunal, convencido de que Joe podia proporcionar um lar
a seus filhos, entregou Annie e Stevie a Joe e Betty. O sonho da fa-
mília fora restaurado para Joe, pois, com Betty, ele planejava ter mui-
tos filhos. Mas os traumas do primeiro casamento tornaram-lhe im- Joe estava desolado e atormentado. Ele e Betty tinham acabado de ca-
possível reviver a ilusão de saúde que tivera nos primeiros dias do sar-se. Estavam no ônibus, voltando para Filadélfia, quando dois ma-
primeiro casamento. Em termos psicológicos, ele partiu para o segun- rinheiros sensuais e "machões" sorriram para Betty. Ela retribuiu o
do casamento externamente sereno e otimista, mas internamente con- sorriso e em seguida olhou para Joe, que estava sentado junto à
turbado e apreensivo. janela. Do outro lado do ônibus, os olhos duros e masculinos dos ma-
rinheiros o desafiavam. Ele desviou o olhar e pôs-se a observar o ce-
nário que corria enquanto o ônibus se aproximava de Filadélfia. As
lembranças ruins foram despertadas: a humilhação e a tortura de 16
anos nas mãos dos pais adotivos, cujos olhos, como os dos mari-
nheiros, zombavam de sua desvalia. O primeiro casamento e o so-
nho da família haviam ruído. Agora, Joe sentia dúvidas em relação
a Betty: será que ela lhe seria fiel ou iria embora com outro? E tinha
dúvidas quanto a seu sonho familiar poder renovar-se no segundo
casamento.
As dúvidas a respeito de si mesmo acumulavam-se em Joe. Ele
não tinha mantido relações sexuais desde que Hilda saíra do quarto
do casal na casa da rua Masher. Na casa vazia, deitado sozinho na
cama larga, Joe tivera ereções provocadas por suas fantasias de re-
talhar e cortar. As ereções, produzidas pelas fantasias, tinham-no
convencido há muito tempo — bem antes do casamento com Hilda
— de que o demônio havia permanecido em seu "passarinho". Mas,
indagava Joe, poderia ainda esse demônio que lhe dera as fantasias,
e com elas as ereções, quando ele estava só na cama da casa da rua
Masher, torná-lo potente com uma mulher deitada a seu lado? Po-

117
116
Joe era também um marido excêntrico e exigente. Preci ava da
deria ainda trazer-lhe as fantasias sem as quais ele não conseguia sensação de poder não apenas durante as relações sexuais, as tam-
início
ter uma ereção? Joe não sabia. bém em outros momentos. Vira a si mesmo como um rei n
Do ônibus, ele e Betty foram diretamente para a casa que ha- do 'melro casamento, mas Hilda o dominara e destronara. ua fuga
viam alugado na rua Janney, em Kensington. Ela preparou um bom com outro homem também havia acentuado o trauma da a olescên-
jantar, sorriu e contou piadas. Joe comeu fartamente, elogiou o tem- cia de Joe sobre sua inferioridade em relação aos "machões", e Betty
pero de Betty e falou sobre política e amor. Eles se abraçaram e despertara suas suspeitas ao retribuir o sorriso dos marinh iros no '
ônibus. Ele jurou que não deixaria Betty afastar-se dele. Nesse se-
beijaram. Depois, Betty lavou a louça e limpou a mesa da cozinha. esposa
Quando subiram para o quarto, Joe certificou-se de que o canivete gundo casamento, pretendia ser um monarca absoluto cuja
não fugiria. Via a si próprio como um regente que governaria seu
ainda estava em seu bolso.
pequeno reino com benevolência e firmeza.
Desde a época da masturbação no buraco aberto na parede de Betty teria tudo aquilo de que precisasse e que deseja se, mas
seu quarto, Joe havia descoberto a ligação entre as fantasias que o
demônio lhe dava e as facas. Precisava das fantasias para poder ter Joe a encerraria dentro das paredes de casa e não lhe p rmitiria
sair sozinha. Assim, não permitia que ela fosse a parte a g ma sem
uma ereção. Mas, quando segurava uma faca na mão esquerda, des- nas-
ele, exceto a seu trabalho numa fábrica de suéteres, antes '
cobriu que esta prolongava as fantasias que sustentavam o desejo. ,a algum
cimento das crianças, ou à loja. Quando Betty precisava ir '
Alegremente, descobriu também que as fantasias prolongadas davam- arou de
lugar, ele ia junto. Joe não sabia dançar, de modo que ela rf
lhe múltiplas ereções. E quando seu demônio — o epíteto dado por dançar. Quanto ao carro que ela possuía antes de casar- e, ele o
seus pais adotivos à energia sexual abominável — se cansava, de- vendeu. Não podia permitir que ela dirigisse porque ele ão
sabia
pois de Joe ter tido múltiplos orgasmos, as fantasias cessavam e como acontecia com a dança, não conseguia apre der. Joe
ele experimentava a detumescência, seguida pela serenidade pós-cot- dirigire,
tinha medo - de que, enquanto estava trabalhando, Betty aisseesta- de
tal ou pós-masturbatória. carro e nunca mais voltasse. E mais uma vez, Annie e Stevie
Enquanto Betty estava no banheiro, Joe colocou o canivete numa
riam esperando por ele numa casa deserta.
pequena estante de portas corrediças embutida na cabeceira da cama. Joe tinha uma imagem grandiosa de si mesmo. Porén as mes-
Mais tarde, deitado sobre o lado esquerdo junto a Betty, ele a acari- suspeitas que o levavam a querer ser um monarca abs luto tor-
ciou com a mão direita, enquanto mexia a mão esquerda acima da mas tímido e retraído. Isso se tor-
navam-no também freqüentemente,
cabeça da esposa. Com muita delicadeza, abriu a porta corrediça nava particularmente visível quando ele, as crianças e Betty iam
alguns centímetros e, sem retirá-lo da estante, apertou o canivete quarto
visitar os pais dela nos fins de semana. Joe raramente saía do
fechado. =Mares.
e chegava até a recusar-se a fazê-lo nas grandes
As fantasias vieram e, quando não desapareceram após seu pri- Durante uma reunião, gritou para Betty do alto de uma das janelas,
biu, Joe
meiro orgasmo, Joe soube que a faca e o demônio haviam exercido "Por que você não sobe para ficar comigo?" Quando ela su
seu poder mágico. Uma faca pequena, fosse ela um canivete ou uma o ora iper
m
lhe agradeceu, pois seu chamadonã nao
faca comum, estaria sempre na estante da cabeceira quando Joe e vo, e sim o de um menino assustado pelo abandono.
Betty fizessem amor.. Ela nunca saberia de sua existência, pois feri-la Joe não tinha tido nenhuma alucinação desde os
15 aros, quan-
ou assustá-la não era o objetivo de Joe. tomou por Deus apareceu de e e orde-
do uma figura que ele
Os temores de Joe desapareceram. Tanto na cama quanto fora nou-lhe que realizasse suas experiências ortopédicas para orrigir a
dela, era caloroso e amoroso com Betty, o mesmo acontecendo com Agora, aos 22 anos e meio, quando as coisas
si mesmo e ao mundo.
ela em relação a ele. Betty orgulhava-se em ser esposa de um ho- corriam bem, pelo menos externamente, ele teve uma se4inda alu-
mem a quem considerava um sapateiro bonito e inteligente, que lhe ch&o. chapéu
dava tudo o que ela' queria. Gostava de preparar-lhe boas refeições, LDisse-me Joe: "Uma figura com um manto negro e u tr las bran-
mantendo a casa em ordem e sendo mãe para Annie e Stevie, que de feiticeira, também negro e recoberto de meias-luas e es
foram morar na rua Janney depois do casamento. 119

118
cas, apareceu diante de mim quando eu estava de pé junto a minha do rosto de Joe era beatífica; seus olhos me olhavam como se ele
bancada de trabalho. Apontou para outras figuras a seu lado e me estivesse vivendo uma experiência transcendental). "Eu vejo as cha-
disse que as observasse cuidadosamente. mas, e o fogo já não é mais só um devaneio. E a realidade do paraí-
'E eu as observei. Para minha surpresa, essas outras figuras so na terral Adoro a excitação do poder que o fogo me dá, de quei-
eram de meus pais adotivos e de mim mesmo quando garoto. Está- mar tudo o que tenho. Essa imagem mental é maior do que o sexo.
vamos em Neshaminy. Eu estava ajudando os dois a reunir com as Ah, Flora, que alívio, que bênção, que amor, que...!" (Nesse mo-
vassouras as folhas secas do outono. Meu pai acendeu um monte de mento, de pé, Joe teve um orgasmo; um rubor tingiu-lhe o rosto e
folhas pela base, com um fósforo. As chamas cresceram e se espalha- ' ele se sentou numa cadeira, transpirando e com a respiração arfante).
ram. Centelhas quentes e vermelhas subiram na fumaça. Ao obser- j Após alguns momentos de silêncio, Joe suspirou e sorriu, como
var aquelas chamas de que me recordava dos tempos da infância, uma criança que, na sua inocência, é apanhada fazendo alguma coi-
senti uma excitação. R taP1,0 sa "feia" e ainda quer ser amada, apesar de sua "maldade". Joe
"Acabou-se a cena. Surgiu outra. A segunda era na cozinha de prosseguiu num tom suave: "Fui para casa na hora do almoço. A
nossa casa de Front Street. Meu pai — eu era menino — estava de casa estava vazia, muito silenciosa. Nenhum ruído, exceto pelo fato
pé bem atrás de mim. Agarrou meus pulsos e colocou as pontas dos de eu poder ouvir meu coração batendo de expectativa e excitação.
dedos de minha mão direita sobre o queimador do fogão, empurran- Betty estava no trabalho. Annie e Stevie estavam no centro diurno
do-os para dentro da chama. Gritei, e meu pai disse, 'Isso vai quei- onde os deixávamos enquanto Betty e eu íamos trabalhar. Ela os apa-
mar o demônio-ladrão e expulsá-lo dos dedos que roubam'. nhava ao voltar do trabalho.
"Como adulto, senti-me zangado por meu pai estar-me quei- "Sozinho na casa, vi novamente a figura de negro. As chamas
mando enquanto garoto. Mas a chama, em si, alegrou meu coração. de sua boca eram lindas e realmente me excitavam. Outro demônio
"E então, Flora, a segunda cena sumiu tão depressa como havia estava em minha mão, mas não aquele de que meu pai falou quando
chegado. Fiquei sozinho com a criatura de negro, que tinha cha- queimou meus dedos. Esse demônio queria queimar, destruir minha
mas saindo de sua boca. Não conseguia determinar se ela era o de- casa, como uma criança num acesso de raiva. Ele não dava a me-
mônio ou um dos espíritos do demônio. Talvez fosse, pensei, o nor importância a nada.
demônio que morava em meu 'passarinho', ou então o demônio que "Andei até nosso galpão, que era ligado aos fundos da casa. No
meu pai disse, ao queimar meus dedos, estar expulsando de minha galpão, costumávamos guardar roupas pertencentes a todos os mem-
mão. Não sei. Eu nunca tinha visto demônios, nem o que morava em bros da família. Tínhamos malas, instrumentos, latas de tinta e de
meu 'passarinho', nem o da minha mão, que me fizera roubar os tu- solvente. Tirei uma caixa de fósforos do bolso, acendi a caixa inteira
bos de moedas do armário dos meus pais quando garoto. e atirei-a na lata de solvente, que eu havia aberto. Puí! As chamas
"Antes que a figura de preto desaparecesse, fosse ela quem subiram. Adorei-as e fiquei lá olhando para elas, deixando-me ficar
fosse, disse-me uma coisa muito estranha e, tenho que admitir, Flo- excitado, você sabe. Mas sabia que não podia ficar uli, de modo que
ra, também muito emocionante e excitante. -Ela me disse que fosse saí correndo da casa.
para casa na hora do almoço e incendiasse minha casa da rua "Parei numa cabina de alarma de incêndio e comuniquei o fogo.
Janney". Depois, voltei para a loja.
"Obedeci. Não sei por quê. Queimar minha própria casa! Coi- "O galpão queimou completamente. A casa foi parcialmente
sa de louco! Mas, como eu disse, era emocionante, e as chamas me destruída, embora não chegasse a queimar até ruir. Algumas roupas
davam muita alegria. O fogo me dava o mesmo tipo de sensação e móveis foram destruídos. Naquela noite e durante diversas sema-
sexual que eu tinha ao segurar uma faca na mão esquerda". nas, ficamos — Betty, as crianças e eu — na e.2sa da avó de Betty
"Ah, que êxtase, Floral" prosseguiu ele, "traz a meu corpo atear em Manayunk. Depois disso, mudamo-nos para uma casa alugada na
fogo! Que poder eu sinto ao pensar no fogo — todos os meus te- rua Opal, em Kensington.
souros em completa ruína! Ah, que imagens mentais o fogo traz! "O incêndio da rua Janney foi meu primeiro incêndio. Recebi
Ah, que prazer, que prazer paradisíaco!" (Nesse ponto, a expressão mil e novecentos dólares do seguro, porque ninguém, nem mesmo

120
— Vou contar a ela quais foram as primeiras palavra S que
i tinha
Betty, soube como o fogo começou. O dinheiro não pôde pagar pela brincou Joe. E, quando Mary Jo
vieram à cabeça da mãe dela,
angústia que senti depois do incêndio. Não sou mais Joe Kallinger", seis anos e era uma bela menina, ele fez exatamente isso, num Al-
de seu
disse-me ele numa expressão distorcida, mas patética. "Sou um piro- ma de brincadeira. Ao olhar para essa filha, o primeiro fruto
maníaco. Mas tenho de admitir que amo o fogo! Mas fiz isso porque segundo casamento, Joe teve a mesma sensação oceânica que havia
fui ordenado a fazê-lo por uma força — talvez o diabo — fora de experimentado no nascimento de Annie. Brincou com Man )o e
mim mesmo". afagou-a. Como se recordaria ela um dia, "Papai me mimava a ponto
de me estragar quando eu era pequena".
passado para longe. Apesar do incêndio
Joe tentou empurrar o
que havia provocado na rua
Janney, achou que tudo estava c11ronha
A casa n° 2039 de East Fletcher Street, em Kensington, ainda
bem.
bem. Entretanto, em 25 de julho de 1959, quando Mary J
não era a casa dos sonhos de Toe nos subúrbios elegantes. Mas, ao quatro meses, a ilusão da saúde cessou, Mais uma vez, Joe se tiu as
mudar-se para lá, deixando a casa da rua Opal, ao final do primeiro no
dores intensas nas têmporas que o tinham levado a hospitalizar-se Dr.
ano do casamento, ele achou que essa casa de dois andares, de St. Mary's 22 meses antes. Disse a Betty que iria consultar o
tijolos vermelhos, aproximava-se do sonho. Era a casa mais atraente
em que já havia morado. Tinha seis aposentos, um porão, um quin- Daly, mas nunca chegou a fazê-lo. que i,1
Em vez disso, acabou aparecendo em Hazleton, Pensilvânia,
tal, um pátio e um jardim. estava
fica setenta milhas a noroeste de Filadélfia, sem saber que ---)
Os velhos Kallingers haviam-na comprado e mantido em seu
nome, como fizeram com a casa do primeiro casamento de Joe. Ele como chegara até lá.
lá ouTonto parou
e com a cabeça vaga, perdido e desorganizado, Joe
fazia os pagamentos mensais aos pais adotivos. No entanto, agora, oming 121, em
nos degraus da Igreja de São Gabri el, na rua W. da
como naquela época, sentia que a casa era dele. Hazleton. Tentou afastar sua confusão, mas a igreja, as casas tor-
Tendo progredido do trabalho na Loja de Consertos de Cal- rua e as pessoas que passavam em frente aos degraus da igreja
çados Frank Grandee, passando depois pela Lavanderia e Restau- -se figuras que se fundiam de modo incompreensível. de tijo- /,'
radora de Calçados Kent, em Feasterville, um subúrbio de Fila- na Joe encolheu-se nos degraus da imponente igreja gótica as por-
L-
délfia, Joe trabalhava, nessa época, numa das melhores lojas de los castanho-avermelhados, com uma rosácea flamejante acima o para
consertos de calçados da cidade de Filadélfia. Nessa loja, que per- estranho para si mesmo, bem co
'tas frontais. Sentindo-se um, ligeiras
tencia a James Mahoney e era dirigida por ele, na galeria subterrânea -4Ue o olliaWiffebfii 'indiferença, con cará-lo.:j
outrem, viu os trilásaffiféí definhará
de Center City, Joe era um dos sapateiros mais bem remunerados da Momentaneamente para e
Filadélfia e havia recebido prêmios por seu trabalho. Chegara tão olha-delas oblíquas:mu se- dirigiu-lhe então a palavra jeveu-o
longe quanto era possível, salvo por não ter ainda sua própria loja e u er. Um da
ao Hospital Estadual de Hazleton, que ficava a poucas qu dras
rts sem
cadeia de lojas. igreja. As 22:20 hs. de 25 de julho de 1959, o hospital o aditiu
A noite, quando voltava da galeria subterrânea para casa, brin- era mnésia.
nenhum nome nos registros. O diagnóstico presumível
cava com Annie e Stevie antes de eles irem dormir. Aos sábados e os médicos e enfermeiras chamavam-no nonima-
domingos, ao vê-los no jardim de sua nova casa, experimentava um No hospital , de ter
mente de johnny. Certa noite, porém, durante o sono, depo srou um
sentimento de júbilo pelo fato de a família destruída ter sido res-
taurada., Esse sentimento de restauração tornou-se ainda mais forte estado no pavilhão psiquiátrico por vários dias, ele murm!I ' rrNPrei e
telefone. Uma enfermeira ligou para aquele
número de do paciente. Stephen
depois que Betty, que estava grávida quando eles se mudaram para falou com Stephen Kallinger, que disse ser pai
East Fletcher Street, deu à luz uma menina no Hospital St. Mary's à enfermeira que iria buscar seu filho no dia da alta h spitalar.
em 16 de março de 1959. Chamaram-na Mary Jo — Mary em ho- disse noite em que Toe,
Antes de ocorrer essa alta, porém ,
menagem à avó materna, e Jo em homenagem a Joe. já fora do estado amnésico, levantou-se da cama, subiu uma escadaria
Joe estava com Betty quando uma enfermeira trouxe o bebê para e encontrou um armário embutido num andar não utilizado. Tran-
ela. — Ela é tão feia! exclamou Betty ao ver a filha. 123

122
zes para a casa dos pais nos quatro meses decorridos desde o nas-
cafiando-se dentro dele, sentou-se no chão, esperando morrer sufo- cimento de Mary Jo.
cado. Mas uma enfermeira que encontrara sua cama vazia conse- A mãe de Betty reconhecia que Joe era um bom homem no que
guiu chegar até ele antes que ele conseguisse realizar seu desejo de tangia ao sustento, mas isso era tudo o que via de bom nele. Ela
morrer. Essa foi a primeira tentativa de suicídio de Joe, atuada por se opusera ao casamento desde o início e ficara enfurecida com a
/motivações inconscientes e totalmente sem relação com os fatos de venda do carro de Betty por Joe, com o comportamento bizarro dele
sua existência exterior atual. Frustrado em sua tentativa e recolocado

7
nas reuniões familiares e com sua recusa em permitir que Betty saís-
na cama, Joe ali permaneceu, preso por faixas que o impediam de se de casa a menos que ele a acompanhasse. Ainda assim, nas duas
sair da cama, até o dia da alta. ocasiões em que Betty o deixou, Joe conseguiu trazê-la de volta numa
Recebeu alta nove dias depois da internação, com um diagnós- semana com um simples telefonema. Na segunda ocasião, ele con-
tico final, feito pelos psiquiatras do hospital, dehisteria_com_reação seguiu isso dizendo a Betty que Hilda, que fora visitar os filhos, es-
conversiva. A neurose histérica de tipo conversivo, como é hoje cha- tava com ele em casa. Sentindo ciúme de Hilda, Betty voltara cor-
tilado esse estado, envolve um processo de liberação, através de sin- rendo. No incidente de Hazleton, entretanto, Betty, que estava grá-
tomas físicos, de eventos psíquicos, idéias, lembranças, sentimentos e vida de um segundo filho, não havia abandonado Joe. Simplesmente
impulsos reprimidos. O Dr. Irwin N. Perr, um dos psiquiatras da fugira para o único lugar onde, na ausência dele, sentia-se segura.
defesa de Joe, revendo os registros do Hospital de Hazleton 17 anos Quando ele lhe telefonou, ela voltou prontamente para casa.
depois, considerou que o diagnóstico de Hazleton foi incorreto. Se- Os psiquiatras do Hospital Estadual de Hazleton enviaram um
gundo o Dr. Perr, Joe estava sofrendo de histeria dissociativa, e não relatório ao Dr. Daly, recomendando que Joe tivesse acompanhamen-
de histeria conversiva. A neurose histérica de tipo diSãoelativo, como to psiquiátrico, mas nenhuma providência foi tomada. Os velhos
é hoje chamada essa condição, envolve freqüentemente alterações no Kallingers, que haviam encarado Joe como um menino ruim, e não
estado de consciência ou na identidade do paciente, produzindo sin- como um menino doente, não tinham reconhecido que ele sofria de
tomas como a amnésia de que Joe sofreu em Hazleton. O Dr. Perr problemas emocionais. Betty o considerava sadio e nem mesmo os
afirmou que o episódio de Hazleton foi um tipo de reação dissocia- psiquiatras de Hazleton fizeram-na mudar de idéia. Ela ficara furio-
tiva de um adulto jovem que reagia mal à tensão — uma reação sa quando, antes do casamento, Hilda a advertira no sentido de que
preditiva de problemas futuros. não se casasse com Joe porque ele era "maluco". A única providência
Quando o atendente conduziu Joe ao saguão principal do Hos- tomada pelo próprio Joe foi intensificar seus experimentos ortopédi-
pital Estadual de Hazleton, Stephen Kallinger estava à espera dele. cos para "corrigir-se". Estava convencido de que o que quer que es-
Mas, em casa, Betty não o estava esperando. tivesse errado com ele poderia ser "corrigido" por um calço no salto
Betty não teve nenhuma informação sobre a amnésia de Joe ou de seu sapato, que ajustaria a inclinação de seu pé de modo a har-
sua hospitalização. Sabia apenas que, no dia em que saiu de casa, monizá-lo com o funcionamento de seu cérebro. Seus próprios pro-
ele estava com dor de cabeça e disse que iria consultar o Dr. Daly. blemas — bem como os do mundo — poderiam ser resolvidos em se
Como Joe não voltou, ela telefonou para o consultório do Dr. Daly. calçando sapatos que tivessem sido dotados dos calços apropriados.
Foi informada de que Joe não estivera lá. Tenso após o incidente de Hazleton, Joe voltou-se para o boli-
Na manhã seguinte, como Joe ainda não tivesse voltado, Betty che em busca de relaxamento. Todas as manhãs, antes de ir para o
apanhou Mary Jo, então com quatro meses, e foi para a casa dos trabalho, e também durante o horário de almoço, ele ia à pista de
pais num dos subúrbios elegantes. boliche. jogar boliche tornou-se uma compulsão: doe levou para
Betty achou que Joe a havia abandonado. Joe, ao ver que ela sua casa de East Fletcher Street uma pista de boliche de 3.65 m de
não estava, achou que ela o havia abandonado. Essa insegurança que comprimento por 1.20 m de largura, uma bola de boliche e um
ambos sentiam estava ligada a uma relação que, apesar de eles ainda jogo de pinos. Instalou-os no quarto do casal, indo a "pista" desde a
se amarem, havia-se tornado tensa. Betty, que era passiva, infantil e parede-meia que separava sua casa da do vizinho, paralelamente à
de boa índole, submetia-se na maior parte do tempo à dominação de cama, até a parede do lado oposto.
Joe. Entretanto, sob a influência da mãe, já havia voltado duas ve-
125
124
pel, às vezes desmontava um aparelho de televisão e recuperava o
Nos anos em que morou em East Fletcher Street, ele jogou bo- tubo de imagem, ou desmontava uma máquina de lavar e salvava o
liche quase todos os dias da semana, das quatro horas da manhã até motor. Exibia suas aptidões metódicas de organização, rotulando cui-
o momento de ir para o trabalho, e na maioria dos sábados e do- dadosamente cada item da "sucata" doméstica.
mingos. Betty não se importava com o barulho surdo e constante da "Eu tinha uma certa estima pela sucata", disse-me Joe. " ueria
bola de boliche rolando pela "pista", nem com a explosão quando estar perto dela. Chegava a explodir por causa de algumas dessas
ela se chocava com os pinos. Algumas vezes, achava Joe um tanto coisas. Mas a sucata me dava um sentimento de proximida e e de
estranho, mas era tolerante com as "excentricidades" dele e nunca se apego que eu não conseguia ter com as pessoas".
queixou ou ameaçou deixá-lo depois de uma das sessões de Joe com
a bola de boliche e os pinos.
Mas os vizinhos se queixavam, batiam na parede divisória e Numa noite de 1963, Joe chegou em casa com um artigo ainda
chamavam Joe de "biruta", "pateta" e "maluco", Ele era insensível eendente do que os motores quebrados e a pista de boli-
mais surpr ixe-m tirá-la
às admoestações dos vizinhos e jogou serenamente seu boliche no
che. Descreveu-me a situação da seguinte maneira: " De
quarto de dormir por um período de aproximadamente seis anos. dessa cadeira onde está sentada e colocá-la num mundo di erente.
Joe tornou-se presa também de sua compulsão infantil de re- Vou colocá-la no lugar de Betty. Certo?" Joe balançou os bra s num
colher objetos jogados fora. "Na infância, os bilhetes de bonde e os gesto teatral e apontou para mim. "Então, você é minha mulh r. Não,
motores quebrados e estragados tinham sido uma fascinação em mi- . não me bata." Deu uma risada e andou de um lado par outro.
nha vida", disse-me. "Eu fazia o papel de pai adotivo com os te- "Você teria todo o direito de fazê-lol Acabei de colocá-la o lugar
souros encontrados. Estava procurando uma identidade". Ao con- de Betty. Se você soubesse o que ela já tinha passado, ter a todo
sertar os motores que retirava do lixo e fazê-los funcionar, ele os o direito de me dar um murro. Seria um .instinto feminino n rmal".
. aten-
tornava seus. Riu novamente e, em seguida, sentou-se e
Agora, em East Fletcher Street, onde tinha uma casa que lhe aneira
tamente. "Pois bem, você é Betty e arruma a casa da melhor
pertencia e onde estava supostamente realizando sua identidade, atra- possível, com toda aquela tralha que eu espalhei por toda parte.
vés da realização do sonho da família, Joe continuava em busca do Betty é uma arrumadeira excelente, portanto, Flora, lá está jocê no
que as outras pessoas jogavam fora. Antes de os caminhões de lixo seu doce mundo, onde até mesmo cada peça de sucata tem um lugar
recolherem o entulho alinhado no meio-fio em frente às casas dos próprio. Logo, você está toda contente.
vizinhos, Joe catava dos montes de lixo os "tesouros" que colocava "Na semana seguinte, eu chego do trabalho uma noite Com um
num pequeno carrinho de mão vermelho, levando-os para casa. acabador pesado, usado para consertar sapatos. O acabador tem
Ele chamava a casa de East Fletcher n° 2039 "a casa dos expe- uns 6 m de comprimento por 1,60 m de largura. Ele tem escovas
• d g,
rimentos", enchendo-a do porão até o pavimento superior com seus giratórias de polir calçados, lixas giratórias e
tesouros: aparelhos de televisão, alto-falantes, armários de arquivo, riosque modelam o couro usado nos saltos. E tem gigante cos mo-
vitrolas, máquinas de lavar, camas de campanha dobráveis, motores tores para eles. Aí, eu ponho essa coisa na sua sala de e tar. Eu
elétricos; tubos de aspirador, molduras de quadros, artigos de jar- .
desmontei o aparelho e pretendo fazer um acabador a jato om ele
dinagem, e até um cabeçote de cilindro de automóvel. Acumulava A peça tem agora uns 3 m a 3,70 m de comprimento.O. .? Eu
também vários objetos que atraíam sua imaginação nas lojas de também trouxe um pespontador que tem duas rodas gigantescas dos
objetos de segunda mão e em leilões. Havia até mesmo um aparelho equipamento mais pesado da loja de consertos cie calça-
couro.
de raios X que ele comprara da viúva de um dentista por 175 dos. E trago uma máquina de ceifar onde a gente corta
dólares. Todas as outras peças que entram numa loja de consertar sapatos
Esgueirando-se grandiosamente por entre os dejetos acumulados,
estão ali.
Joe pensava em si mesmo como um cientista engenhoso que pode- "Pois bem, você está com esse equipamento na sua sal de es-
ria usar a máquina de raios X em seus experimentos ortopédicos. tar. Subitamente, eu destruí você, Betty — estou chamando você de
Também se considerava um "supertécnico de consertos" e, nesse pa-
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nou para o policial, que morava mais adiante na mesma rua. Quando
Betty. Destruí seu senso interno de beleza. Aí, você se queixa um pou- ele desceu ao porão, estava preparado para prender o intruso que
quinho comigo, de modo que eu lhe compro cortinas e coisas assim. estava roubando a casa dos Kallingers.
E deixo apenas espaço suficiente para uma passagem, de modo que, Essa cena tornou-se uma fábula da família, que Joe e Betty
entrando pela porta da frente, você possa continuar a andar até a gostavam de contar. No entanto, a cena tinha algumas graves cor-
cozinha. Mas, Betty, lá está você com esse grande e monstruoso equi- rentes subjacentes que provinham da infância de Joe. Tendo-lhe sido
pamento no meio de sua sala. Todas as noites, ao chegar em casa, já negadas as brincadeiras na infância, Joe pregava agora uma peça
não fico com você. Vou diretamente para essa pequena oficina e em sua esposa, jocosamente e de modo travesso. Trazendo em si a
desenvolvo meu trabalho de ajuste de saltos ortopédicos. Não acho frustração e o ódio da infância, dava vazão a esses sentimentos ati-
justo fazer isso enquanto estou trabalhando para o Mahoney. Mas, rando o carvão no teto. Mas houve também nessa cena um toque do
voltando a você no papel de Betty, você está de pés e mãos atados. crescente sadismo de Joe, que o levaria a comprazer-se em aterrorizar
Sua linda casa! Ela é sua, e é bonita até mesmo com todos os sua mulher.
meus trastes dentro. E agora, seu marido a está destruindo. Sempre
que eu tinha uma casa normal, eu a destruía. De algum modo, Flora,
as coisas que são normais para todas as outras pessoas são anor- Joe entregou-se cada vez mais ao que, retrospectivamente, cha-
mais para mim". mava "minha destrutividade da Rua Fletcher". Na cozinha, cavou
Fiquei comovida com a cena que ele havia pintado, com o retrato um buraco a ser supostamente usado como abrigo antiaéreo, mas
que fizera da mulher e dele próprio, cercados pela sucata absurda onde passou a armazenar o excesso de sucata. Para escavar o buraco,
numa casa atraente e bem mobiliada. Senti-me momentaneamente arrancou toda uma parede do cozinha que ligava o cômodo com as
como se estivesse no lugar de Betty. Meus dedos estavam com cãibra fundações da casa. O buraco tinha 2,5 m de circunferência e es-
e os lados de meus pés doíam de tanto dar topadas nos refugos de tendia-se por 2,5 m para além de onde estivera a parede. "Enquan-
Joe ao tentar locomover-me em "minha" casa, tal como a imaginava to arrebentava a parede", disse-me ele, "eu me sentia como se esti-
ao escutá-lo. Mas pus-me também no lugar de Joe, sentindo a força vesse rasgando a terra inteira. Quando a gente fica ligado, não con-
de sua compaixão por Betty, incapaz de agir normalmente para pôr segue desligar. Depois que acaba, a gente sente vontade de dormir".
essa compaixão em ação. Senti os paradoxos de sua natureza, a cisão A sensação era semelhante à ocasionalmente experimentada após a
de sua personalidade, que colocava o sonho da família numa gaveta e relação sexual.
o sentimento de ser imprestável e jogado fora em outra, sem nenhum
vínculo que as ligasse.
Mais tarde, fiquei sabendo, de alguma forma, de uma cena No final de abril de 1963, Joe tornou a ver cenas da alucinação
absurda que Joe efetivamente representara. Voltara da loja de Maho- que tivera no dia em que provocou o incêndio da rua Janney. As
ney mais cedo do que de hábito. Betty não o vira entrar. e ele re- duas cenas da infância lhe apareciam freqüentemente: o pai adotivo
solveu fazer uma brincadeira com ela, Desceu até o porão, apanhou acendendo um monte de folhas em Neshaminy e, na outra cena, colo-
alguns pedaços grandes de carvão e atirou-os no teto, um por uni. cando os dedos do pequeno Joe na chama do queimador do fogão.
Continuou a fazer isso até ouvir passos na escada e a voz de alguém Mas a figura com uni chapéu de bruxa adornado por meias-luas e
dizendo, — Ponha as mãos para cima. Você está preso. estrelas brancas, usando um manto negro, não aparecia.
— Não atire, pediu Joe ao voltar-se e ver um policial que lhe Ardendo no espaço, contudo, havia chamas semelhantes às que
apontava um revolver. — Sou eu, Joe Kallinger. tinham emergido da boca do personagem de negro quatro anos antes.
— Fiquei assustado, Flora, contou-me Joe, e o policial ficou Havia também uma voz. Por vezes, ela estava apenas na mente de
embaraçado. Ele era meu vizinho e nós nos conhecíamos. Subimos Joe; em outros momentos, ele achava que ela provinha de fora. A
juntos e rimos do mal-entendido. voz emitia um único comando: "Incendeie sua casa" — a mesma
Joe não soube, naquele momento, quão bem funcionara sua ordem que lhe fora dada pela figura de capa negra.
brincadeira. Betty pensou que tivesse havido uma invasão. Telefo-

128
Livro Três

A Descida
ao Inferno
Mas Joe hesitou. Orgulhava-se de sua casa, no n° 2039 de East "A partir desse ponto", disse-me Joe, "o julgam: .22
Fletcher Street. Nos últimos seis meses ela se tornara legalmente sua, com que as coisas se estagnassem para mim, porc: mio
pois Stephen Kallinger transferira a hipoteca para Joe em outubro de eu ir adiante, Eu estava cortado. O futuro Ft;
de 1962. Embora, mais tarde, viesse a sentir satisfação ao ver seus queria construir urna cadeia de lojas, mas is tio. A
"tesouros em total ruína", relutou — a princípio — em destruí-los. partir dali, tive até de usar o nome de mi' .ieu pai
Ao aproximar-se o final de maio de 1963, porém, a relutância desa- para comprar uma casa. Qualquer coisa qu cria ter
pareceu e ele não mais pôde resistir à ordem da voz ou a seu pró- a hipoteca executada".
prio desejo da gratificação que sentiria ao ver as chamas consumi- No hospital de Hazleton, pela pi úr ida, Joe
rem seus "tesouros". desejara suicidar-se. Agora, o desejo .,u voltou e
Joe contou-me que ateou fogo a sua casa de East Fletcher Street tornou-se muito forte. O julgame ..ie havia exa-
quatro vezes. Duas delas ocorreram a quatro dias de intervalo entre cerbado sua psicose já crescente
si, em maio de 1963, e a terceira em 1965. A quarta se deu em ou-
tubro de 1967, depois que ele e a família tinham-se mudado. Joe
disse que o único incêndio que provocou em propriedade que não
lhe pertencesse foi o da loja de Mahoney.
Joe nunca foi publicamente ligado ao incêndio da loja, mas Ri-
chard Kimmel, um amigo de Mahoney que foi posteriormente patrão
de Joe, contou-me que Mahoney havia comentado que, na época do
incêndio, o comportamento de Joe tinha-se tornado estranho. Ma-
honey passara a pensar em Joe como sendo "um caso mental" e sus-
peitou de que ele houvesse provocado o incêndio.
Os três primeiros incêndios que Joe provocou em sua casa de
East Fletcher Street foram classificados como "acidentais", sendo o
de outubro de 1967 o único pelo qual ele foi acusado e julgado. Foi
absolvido, porque, na ocasião desse incêndio, e somente desse, não
tinha nenhum seguro da casa. Não poderia ser acusado de trapacear
contra a companhia de seguros. Gerald Gleeson, que, quando advo-
gado, tratara da adoção de Joe, e era agora juiz, juntamente com Harry
Comer, um deputado estadual, prestaram testemunho quanto ao ca-
ráter de Joe.
O incêndio de agosto de 1965, entretanto, teve realmente con-
seqüências graves. Joe havia assinado contratos com construtores para
restaurarem a casa, devendo eles, em troca, receber toda a indeniza-
ção da companhia de seguros. Joe entregou-lhes os quinze mil dó-
lares que recebeu da seguradora. Eles pediram mais quinze mil dóla-
res, pois haviam substituído a metade posterior da casa, anterior-
mente construída em madeira, por blocos de concreto. Quando Joe
faltou com o pagamento, os construtores o levaram aos tribunais. Joe
fez sua própria defesa e perdeu; os construtores obtiveram uma de-
cisão judicial favorável no valor de quinze mil dólares, acrescidos
de juros.

130 131
8 O Castelo do Sapateiro

Quando Joe era criança, a casa de seus pais adotivos fora sua risão.
Ele tinha 30 anos quando, em fevereiro de 1967, voltou c rn sua
família a morar lá. As lembranças ruins espreitavam em cada canto.
Suas mãos tremiam quando ele passava pela cozinha: com lareza
fotográfica, recordava-se de seus dedos sendo queimados no fo ão. In-
ternamente, encolhia-se de medo e frustração, pois, com os o hos da
mente, via seus pais adotivos sentados à mesa da cozinha e zo bando
dele por querer ser ator, e via a mãe adotiva salpicar-lhe gotas d'água
com o polegar e o indicador. Na sala de estar, via a si mesm quan-
do criança, sentado na cadeirinha de madeira; intimidado curio-
so, ouvira os pais adotivos lhes contarem pela primeira vez omo o
demônio fora expulso de seu "passarinho". Joe chegou até a pro-
curar o espelho acima da escada — embora soubesse que le fora
retirado muito tempo antes — onde tinha visto seu pênis pe durado
numa faca. Aquela fora sua primeira alucinação. Enquanto orasse
nessa casa, para onde fora levado quando bebê de 22 mesá e 14
dias, seria perseguido por essas e outras recordações.
Externamente, Joe estava triunfante naquele dia de f vereiro
de 1967, quando ele e sua família, tendo tido mais de uma esiden-
eia desde o incêndio de East Fletcher Street em 1965, tomar m pos-
se do n° 2723 da North Front Street (também conhecido p r East
Kallingr
e tinha-se aposentad e Joe,
Sterner Street n° 100). Steph en
era
, e agora proprietário de am s. Ex-
herdeiro da loja e da casa
ternamente, ele tinha tudo: sua loja e casa próprias, mulher e seis à humanidade. Depois de alucinar a figura do diabo, pouco antes
filhos. Mary Jo tinha agora oito anos. Joseph Jr., de quem Betty es- do incêndio da rua Janney e depois de provocá-lo, Joe havia sentido
tivera grávida durante a hospitalização de Joe em Hazleton, tinha uma nova premência em descobrir o experimento certo para sal-
sete. Michael Noel, agora com cinco anos e dois meses, nascera no var-se. Agora que se mudara para a casa de suas torturas infantis,
dia de Natal em 1961. James John, que chegara em 8 de dezembro para o próprio ambiente que engendrara sua psicose, ele estava ob-
de 1963, tinha três anos e dois meses. Stevie, o filho de Joe com cecado com a idéia de fazer rapidamente os ajustes nos sapatos.
Hilda, sua primeira mulher, tinha onze anos e ainda fazia parte da "Através dos experimentos", disse-me, "eu estava tentando domi-
família. Mas Annie, a irmã de Stevie, não estava presente. nar a coisa que me estava dominando".
Quando Annie tinha dez anos, Joe a perdeu para Hilda numa Ao andar de um lado para outro no corredor do andar de
batalha no tribunal. Muito depois da partida dela, Joe mantinha cima, Joe estudava seus movimentos cola cuidado e precisão. Vol-
sua cama preparada, fingindo que ela iria voltar. Comprava-lhe pre- tando ao escritório, fazia no sapato os ajustes que a caminhada havia
sentes mesmo quando ela não estava com ele. Joe os guardava e os indicado ser necessários, Se a palmilha colocada no sapato estivesse
dava a Annie quando ela ia visitá-lo nos aniversários ou no Natal. ligeiramente grossa num dos lados, ele a ajustava, às vezes, com
Mas. aos doze anos, ela foi visitá-lo pela última vez. Tinha passado uma diminuta diferença de 1/16 a 1/8 de polegada de altura,
a chamar Hans Ibler de "Papai" e era apresentada a todos, inclusive para mudar o ângulo de apoio do pé no sapato. Quando a palmilha
aos filhos de Hilda e Hans, como a primeira filha dos Iblers. inclinava seu joelho numa direção incômoda, ele fazia um ajuste
Abatido pela perda de Annie, Joe ficara também inquieto com para colocar o joelho numa posição melhor. Pedia que lhe trouxessem
os dois abortos espontâneos de Betty entre Joseph Jr, e Michael, pois, lá de baixo o vidro de cola, palmilhas, um pedaço de couro e uma
em seu estado normal, ele abominava a destruição da vida até mes- faca. Betty levava-lhe o que ele queria, dizendo, ocasionalmente, "Eu
mo pela natureza. gostaria de ser uni sapato, para que você prestasse atenção a mim".
Voltar "para casa" — retornar à casa de sua infância — en- Minuciosamente, delicadamente, como perfeccionista que era,
cheu-lhe a mente de pensamentos destrutivos. As fantasias que, no Joe desbastava a parte frontal ou lateral da palmilha com a faca.
passado, haviam acompanhado o sexo, tornavam-se agora pensamen- No meio da noite, acordava e começava a fazer experiências. Fui
tos indesejados, intermitentemente e a qualquer momento. Acossado algumas noites, vestia-se e saía. As caminhadas longas transforma-
por esses pensamentos e pelas torturas a ele infligidas no passado, ram-se no teste de como o ajuste que ele acabara de fazer o afe-
mal podia esperar para sair da casa e entrar na loja, pois, invaria- taria quando estivesse cansado e com baixa resistência. Joe esperava
velmente, o zumbido familiar do motor de três cavalos do acabador que a "maratona" noturna demonstrasse que o ajuste era capaz de
exercia sobre ele um efeito apaziguador e tranqüilizante. superar o cansaço, que um dia cansativo poderia ser seguido por
Em algumas manhãs, contudo, Joe sentia dificuldade em descer uma noite cansativa, c uma noite cansativa, por outro dia cansativo.
para a loja. Enquanto Betty e as crianças tomavam o desjejum na Sua meta era atingir um poder de suportar que fosse muito além
cozinha aos fundos da loja, ele permanecia no andar superior, an- do que então se considerava normal.
dando de um lado para outro, tentando decidir com que experimento Joe sentia-se só nessas caminhadas. Para aliviar a solidão, de-
ortopédico iria começar o dia. Assim como as outras pessoas precisa- cidiu levar os filhos com ele. Entre os anos de 1967 e 1972, cada
vam de café para começarem a funcionar, Joe tinha de fazer suas um deles, e depois todos, acabaram por ser acordados numa ou
experiências. Disse-me muitas vezes que, para ele, suas experiências noutra noite para sair com Joe.
eram mais importantes do que a manhã. As crianças cansavam-se depressa demais para serem usadas
Andar de um lado para outro fazia parte do experimento. To- como parte de um programa de testes, de modo que foi preciso
das as mudanças ortopédicas, segundo acreditava, tinham de resul- descobrir outras maneiras de mantê-las interessadas. O lixo foi a
tar não da teoria, mas da prática. Joe havia teorizado e praticado resposta, o lixo que intrigara Joe desde a infância. Agora, enquanto
durante os quinze anos transcorridos desde que a figura alucina- ele testava sua capacidade de suportar, seus filhos transformaram-se
tória que ele pensou ser Deus ordenou-lhe que salvasse a si mesmo e em vasculhadores das latas de lixo, procurandr, à noite, aquilo que,

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dominado na infância. Ser forte e onipotente era sua man ira de
durante o dia, as outras pessoas haviam jogado fora. Quando as compensar os sentimentos de desvalia que os pais adotivos aviam
crianças encontravam alguma coisa boa, levavam-na para casa no instilado nele.
carrinho de mão em que Joe levara a pista de boliche para a casa de Quando criança, Joe tivera de trabalhar na loja em hor rio in-
East Fletcher Street. Ao observar seus filhos na tarefa de esquadri- tegral. Agora, fazia com que seus filhos trabalhassem meio xpedi-
nhamento, eles eram para ele "o pequeno Joe" — encarnações de ente para ele. Quando criança, não tivera permissão para sair e
sua criança interna do passado. A ilusão era ainda mais forte por- brincar ou para levar amigos a sua casa. Agora, já adulto, eixava
que as crianças, especialmente Mary Jo, pareciam-se muito com o pai. que seus filhos brincassem do lado de fora, mas eles não odiara ,/
Joe também usava a noite para planejar as corridas de cavalo trazer amigos para casa. Nesses aspectos, o tratamento que J e dava '
do dia seguinte, pois estas haviam substituído o boliche como seu aos filhos tinha mais coisas em comum com as lembranças n gativas
passatempo compulsivo. Ele mandava Stevie à esquina das ruas de sua infância do que com seu sonho da família. Estava que-
Treze e do Mercado para comprar os formulários de aposta. Com bradas algumas das promessas sobre a paternidade que ele fizera a
os formulários na mão, acordava Mary Ni, cuja tarefa era escolher si mesmo ao casar-se pela primeira vez.
os cavalos para as corridas do dia seguinte. Dos onze aos treze anos, Em outros aspectos, porém, Joe era um bom pai, um pai in-
Mary Jo, com um formulário de apostas a sua frente, sentava-se em teressado. No lar dos Kallingers, era a figura parental dor inania,
sua mesinha na sala de estar e escolhia cavalos. enquanto Betty era uma figura periférica. Como o membro do casal
Mas Joe não confiava apenas nas escolhas de Mary Jo. Antes parental que inventava brincadeiras para as crianças, co ersava
de sair 'para as corridas, fazia ajustes ortopédicos nos sapatos. "Quan- com as professoras e os orientadores escolares dos filhos e puidava
do você consegue ir lá", explicou-me em tom abalizado, "com o cor-. deles quando adoeciam, Toe era também uma boa mãe.
po perfeitamente relaxado, você consegue comunicar-se com os cava- Mas, acima de tudo, Joe era um pai que, através dos filhos,
los. Vocês ficaram no mesmo nível. Você sente que os cavalos pensam revivia sua própria infância. A cada ano, passado um minuto de zero
e que você pensa. E ganha, porque está em perfeita harmonia com
hora do dia 11 de dezembro, início de seu aniversário, ele a' ordava
eles". a família inteira para participar de uma festa que oferecia a si mes-
Para financiar as corridas, Joe também transformou seus fi- os anos, o
lhos em vendedores de vários produtos para confecção de calçados. mo. Joe vinha fazendo essas festas desde 1962. Todos
ritual era o mesmo. Ele pastoreava suas ovelhas até a sala e estar,
Alguns deles eram marcas padronizadas, como a Tinta para Calça- chap uzinhos
que decorara previamente com papel crepom. Distribuía
dos Cavalier e a Tinta Esquire no vaporizador. Outros, ele próprio
de papel, cometas e cartões com instruções sobre a festa. Ha ia bolo,
os desenvolvia. Em certa ocasião, comprou vários carregamentos de sorvete, docinhos e pratos para todos. Depois de dizer, "Se eu não
garrafas de plástico e encheu algumas delas de produtos químicos a der uma festa, vocês não pensarão em mim", cantava " arabéns
serem usados para alargar sapatos. A um dólar por garrafa, as crian- para mim" (mas eles sempre tinham presentes para ele).
ças iam de porta em porta vender o líquido alargador de calçados. e trágica em suas implicações, essa ;ena
As vendas de porta em porta, as corridas de cavalos e as pe- Cômica na superfície
era uma reminiscência de uma privação infantii constante e, em
regrinações noturnas em busca de sucata: havia ocasiões em que Joe especial, da reação de Joe a ela em seu nono aniversário, quando,
achava estar forçando as crianças demais. "Qual é o pai", per- dirigindo-se com Anna Kallinger para a Igreja e Escola St. Boni-
guntou-me ele retoricamente, em retrospectiva, "que manda seus fi- face, cantara baixinho. "Parabéns para mim; parabéns, caro Toe",
lhos batérem de porta em porta, carregando uma mochila, para pedir Os pais adotivos nunca lhe deram um presente de aniveritlario ou
sapatos velhos? Eu fiz isso. Qual é o pai que financia seu próprio
passatempo com o trabalho dos filhos? Eu não conseguia parar. Era valorizaram o dia de seu nascimento. "Todo dia é dia de seu ani-
versário", ralhara Anna ao enumerar uma a uma todas a coisas
aquela coisa de novo — isso me controla, eu não o controlo". materiais que ela e o marido davam ao filho adotivo. Como arido e
Joe não estava falando sobre os controles alucinatórios que já pai, Joe lutava infantilmente por obter de sua família o reconheci-
tinham sido exercidos nele e que se tornariam ainda mais fortes. mento que lhe fora negado enquanto criança.
O "isso", nesse caso, era a compulsão de dominar, tal como ele fora
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do éramos menores", recorda-se Mary Jo. "Papai fazia umas coisi-
Por vezes, as lembranças da infância eram, tão esmagadoras para
nhas engraçadas, que eram meio estranhas. Mas, à medida que fo-
Joe que ele acordava Mary Jo durante a noite para falar sobre elas. mos crescendo, ele passou a fazer coisas mais estranhas ainda e já
Sem desencavar as lembranças mais dolorosas e desumanizantes, fa- não tinha graça nenhuma",
lava com a filha sobre ter tido que permanecer dentro de casa o As coisinhas engraçadas, como acordar as crianças por ter in-
tempo todo quando criança, porque Vovó e Vovô Kallinger não acha- ventado uma nova brincadeira para elas, cederam gradativamente lu-
vam bom deixá-lo sair para brincar. Contava à filha que, em vez de gar a coisas que não eram tão engraçadas, corno acordá-las à meia-
brincar ou divertir-se, ele tinha que estar sempre fazendo alguma noite, às duas, três ou quatro horas da manhã, por ter decidido que
coisa construtiva. Tinha de ficar na loja quando era pequeno. Quan- a porão da loja precisava ser limpo. As crianças tinham de tirar o
do teve idade bastante para aprender a consertar sapatos, tinha que pó dos saltos e também das vitrinas do balcão. Tinham de fazer le-
ir direto para a loja ao chegar da escola e ficar lá, para que o avô vantamentos do estoque. Como filho de sapateiro, Joe fora um saté-
de Mary Jo lhe ensinasse o negócio. Joe também contava a Mary Jo lite que executava as ordens do sapateiro. Agora, era ele o sapa-
que os avós dela não valorizavam a afeição, nunca tinham mos- teiro, impondo sua vontade a seus satélites.
trado a ele que o amavam, e que ele muitas vezes pensou que não Com o passar dos anos, a casa que, na infância, fora a prisão
amavam. Dizia ainda a Mary Jo que desejava ser querido e que, de Joe, transformou-se em seu castelo-fortaleza. Simbolicamente, po-
por essa razão, queria uma família grande. "Para ser alguém numa rém, ele fez também do castelo- fortaleza a prisão de Betty, das
crian-
parte dela", disse-me. eas e de si próprio. Ali, por trás de paredes imaginárias de um pre-
Joe também acordava Betty durante a noite. A tarefa dela era 5idio, ele se sentia seguro. Não permitia a ninguém entrar em casa
preparar-lhe chá, às vezes até trinta xícaras numa só noite. Betty porque não havia ninguém em quem confiasse (e porque, quando
contou-me que, mesmo enquanto Joe dormia, ela freqüentemente fi- criança, não tivera permissão para levar ninguém até lá). Temia
cava acordada, ouvindo-o "comer e mastigar durante o sono". Em que algum estranho vindo de fora fosse "chegar - se" a seus filhos,
termos psicológicos, através dos movimentos da boca e dos movi- "chegar-se" a sua mulher e que eles fugissem do castelo. Temia
mentos de sucção, Joe estava recapitulando a angústia de separa- também que algum estranho descobrisse seus experimentos secre-
ção que experimentara quando, com um mês de vida, fora afastado tos. Esse era seu reino, Ele era o rei. Foi por isso que sua casa
não apenas do seio da mãe, como também da própria mãe. Os mo- transformou -se no que o amável sapateiro da redondeza chamava
vimentos de mastigar e sugar eram também substitutos de outras "o castelo de Joe Kallinger".
satisfações, como uma indicação de frustração e de fome psíquica.
A boca é também um meio primitivo de conhecer os objetos.(*) As
crianças agarram objetos e os levam à boca numa espécie de impul- Fora do castelo ficava Kensington, que já não era tão tranqüilo
so primitivo. Joe, através desses movimentos bucais, estava esti-
como quando o pequeno Joe fora levado para lá por Anna Kallin-
mulando a introdução de um objeto na boca e, ao fazê-lo, estava re- ger. Embora Kensington ainda contasse com boas famílias e cida-
gredindo à primeira infância. Mas alguns esquizofrênicos também
dãos sólidos, a fatalidade e a decadência estavam no ar,
apresentam esse modo de reação primitivo. (*•) E Joe, nos anos que Quando a família mudou-se para East Sterner Street, Stevie ti-
se seguiram à mudança para a casa das lembranças negativas, es-
tava a caminho da instalação de uma psicose esquizofrênica total- nha doze anos, Mary Jo, oito, Joey, sete, Michael, cinco, e Jimmy,
três. Com o passar dos anos, trabalhando na loja, Joe observava seus
mente estruturada. filhos saírem para as ruas de Kensington. Invejava a liberdade deles,
Betty e as crianças reagiam tal como as marés reagem à força
pois, tal como as outras crianças de Kensington, "amarravam- se" em
da lua a cada uma das compulsões noturnas. de Joe. "E como quan-
diferentes companheiros inseparáveis em diferentes ocasiões. Como
as outras, em vez de ir para a escola, iam freqüentemente para a
Silvano Arieti, Interpretatlon o( Sehlzophrenia, ed. revista (Nova
Iorque, Basic Books, Inc., 1974), pp. 428-429. estação de trem apanhar sapos, ou brincavam sob a ponte Silvar. Al-
gumas vezes, Stevie, Joey e Michael iam "furtar" material para
Idem.
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Certa manhã, Joe levantou-se da cama às quatro horal. Pela
pichar muros. Uma parte de Joe, ao ver seus filhos passar, era janela aberta de seu quarto no segundo andar, atirou bolas de aço
o pai que reprovava o que eles poderiam estar fazendo — e, se- usadas nas máquinas de jogar pinball na ampla janela envicraçada
gundo suspeitava, freqüentemente faziam — nas ruas. A outra par- do escritório de Harry Comer, que ficava a dez metros de di tância,
te, contudo, era o menino que tinha sido um estranho nas ruas onde bem do outro lado da rua. Uma das bolas atingiu o alvo e est lhaçou
nça de -
seus filhos hoje brincavam. Agora, vivendo através dos filhos na a vidraça. Sem acordar Betty, Joe voltou a dormir, na aspar
imaginação, ele tornava próprias as travessuras deles. que o dano forçasse Comer a "murar com tijolos" sua janela assim
Além de um homem dividido, Joe era também um homem pôr fim à espionagem. Algumas horas depois, telefonou para Comer
aterrorizado. No início de 1969, o Diabo, que lhe tinha dado ordens em casa e avisou-o sobre a janela quebrada. Naquela tarde, ajudo!
na época dos incêndios, começou a aparecer freqüentemente. O Comer a cobrir a janela com uma placa de compensado. Agora,
Diabo exigia que Joe praticasse atos ultrajantemente sádicos. acreditava, a espionagem estava acabada!
"Flora", disse-me ele, "eu tinha obedecido ao Diabo quando ana depoiS, -ncientarifonbE-5111bu para o outro ado da
Uma áem
provoquei os incêndios. Mas agura, resistia. Já que as ordens esta- rua e viu que as placas de madeira tinham sido retiradas e substituí-
vam vindo do Diabo, eu não tinha que executá-las". das por uma lâmina de vidro novinha em folha. Mais una vez,
A partir de 1969, Joe também ficou sujeito ao que então acreditou estar sendo espionado. Durante dois meses, sentindo que
chamava "pensamentos indesejados". Consistindo numa extensão das cada um de seus movimentos era observado e sofrendo por acreditar
antigas fantasias, esses "pensamentos" eram agora alucinações com- que estava sendo vigiado por agentes da CIA, Joe não tomou ne-
pletas, embora Joe não os reconhecesse como tabge ouvia vozes uma me 1 a.
nhuma
que pareciam vir de fora e que lhe eram tão reairsquanto as vozes Incapaz de suportar a pressão, porém, voltou a levantar se urna
das pessoas a seu redor. Via imagens a cores vívidas. A medida que as manhã às quatro horas e pôs-se diante da janela aberta do quarto.
alucinações foram-se tornando mais intensas, Joe, observando seus fi- Dessa vez, tinha diante de si uma fileira de bolas de aço obre o
lhos tomarem a direção da ponte Silvar, recordava-se de que lá, quan- parapeito da janela. Pegou uma delas, estendeu o braço p ra trás
do adolescente, havia praticado dois de seus primeiros atos de agres- e atirou. Mas a bola quicou na parede de tijolos do escrit rio de
são. A premonição adolescnte de que sua vida terminaria em desgra- Comer e caiu na calçada com um estalido agudo. Temendo er sido
ça, que havia surgido naquela época, voltava agora com força total. observado por algum transeunte na rua ou por agentes emboscados
medida que o terror ia crescendo, Joe ia cercando de aço no escritório de Comer, Joe recuou por alguns momentos para as
todas as janelas do porão e colocando pesadas grades de arame em sombras do quarto. Depois, pegou outra bola de aço do parapeito
torno do primeiro andar. A prisão que um dia fora simbólica era e lançou-a contra a janela de Comer. Dessa vez, ouviu o v dro es-
agora real, ou tinha, pelo menos, os adornos próprios do encarcera- tilhaçar-se e o tilintar dos cacos caindo sobre a calçada.
mento. Não que ele ou mesmo Betty realmente temessem que a casa Mais uma vez, telefonou para Comer, ajudou-o a cobrira janela
fosse invadida por alguém. Entretanto, quase como uma previsão com uma placa de madeira e sentiu-se seguro em relação aos es-
do que estava por vir, ele erigia suas próprias grades. Com as piões. De novo, porém, a chapa de compensado foi substituída por
grades, sentia-se seguro. Com as grades, punia-se inconscientemente vidro e Joe, em defesa do que pensava ser sua própria se urança,
por seus "pensamentos indesejados". teve de quebrar a janela pela terceira vez. Depois disso, Comer
Temerosamente, Joe começou a olhar para a calçada oposta de instalou um painel de vidro temperado dividido em duas pa tes. Joe
East Sterner Street, para o prédio em frente a sua loja, onde Harry perdeu a esperança de impedir os espiões do escritório de Comer
Comer tinha um escritório. Comer era deputado estadual pelo mu- de observálo pela nova janela.
nicípio na assembléia de Harrisburg, havia testemunhado sobre o Joe decidiu cobrir as janelas de sua própria loja com °inflas
caráter de Joe no processo por incêndio culposo e conhecia Joe des- escuras. Por trás delas, ocultava-se dos temidos agentes d a C IA que
de que este era bebê. Mas Joe estava agora sob a influência do delí- moravam no escritório de Comer e o espionavam do outroado da
rio de que Comer, juntamente com outros homens de seu escritório, rua. As cortinas, impedindo a entrada de luz e ar do exteri r, obri-
fora incumbido pela CIA de espionar Joe Kallinger.
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garam Joe a trabalhar numa área fechada, com iluminação artifi- ampla da gélida casa de East Hagert Street. Stevie, de 13 anos, Mary
cial e sem ventilação. Ele inspirava vapores de cola, tintas, sol- Jo, de 10, Joey, de 9, Michael, de 7, e o pequeno Jimmy, de 5 anos,
ventes e outras substâncias. Sabia que as mudanças lhe eram pre- arrancaram tábuas do piso e cavaram a terra úmida. Joe supervisiona-
judiciais e que estava transformando sua loja num local de trabalho va, mas não cavava.
quase insuportável, mas o delírio era mais forte do que seu bom A medida que as crianças iam cavando mais fundo, Joe colo-
senso. Com suas feições pálidas acima do guarda-p6 verde-oliva c cava ripas de madeira como escora contra as paredes do poço, para
das calças pretas, e com o nariz e a garganta dolorosamente irritados que elas não desmoronassem. Ao chegarem a seis metros, eles encon-
pelds vapores, Joe parecia um asceta sofredor. traram água, e Joe lhes disse que não poderiam prosseguir. Joey,
'Achava que uma força estranha o estava manipulando. Quando em seus nove anos, feliz por estar concluído o longo projeto, gritou
o demônio lhe dava ordens, sabia qual era essa força e não precisava uma obscenidade expressando sua satisfação e zombou do pai e do
obedecer; em outras ocasiões, porém, como ao quebrar as janelas buraco. Enfurecido, o rosto de Joe enrugou-se de tensão e seus
de Comer, o demônio não tinha aparecido. Sem saber a que cha- lábios se comprimiram. Gritou com Joey: "Se você não calar a boca,
mar essa outra força estranha que o controlava, Joe começou a pen- vou enterrá-lo nesse buraco!" Joey olhou de soslaio para o pai com
sar em expressões como "a mente lhe diz" ou "as mãos e os pés uma piscadela maliciosa e ergueu o dedo médio, enquanto as outras
estão fazendo". Quando essas expressões lhe ocorriam, Joe não mais crianças davam risinhos contidos. Ignorando-os, Joe colocou uma
sentia que a mente estivesse no interior de seu crânio, ou que as tira larga de madeira grossa no fundo do buraco, logo acima do
mãos com que trabalhava e os pés que o conduziam fossem seus. nível da água. Em seguida, fez descer uma escada de seis metros
Distante, separado de si mesmo, sentia-se fraco, indefeso e persegui- de comprimento até o fundo do buraco, para facilitar a descida e
do. Era ele o assombrado, e as assombrações que o perseguiam fa- a subida.
ziarri-no sentir-se como um animal ferido, Toe saiu em busca de um Uma vez concluída a longa e árdua tarefa, Joc quicou os filhos
esconderijo obscuro. para fora da casa, trancou a porta e guardou no bolso a única chave
existente. O número 1808 de East Hagert Street estava fora dos limi-
Sob a lua cheia, Joe caminhou em direção a East Hagert Street. tes de todos, com exceção de Joe.
Ia pensando: sob a luz esquisita da lua, as bruxas dançam nos te- "Aquela casa de East Hagert Street", disse-me Joe, "era um
lhados e os demônios tagarelam agachados. Isto pode deixar um pequeno ninho todo meu, onde ninguém podia me pressionar. .
homem maluco. onde me levei a transformar naquele tipo de homem que sim-
Com os ombros encurvados, Joe caminhava agora ligeiramente plesmente se retira da vida, como um animal mortalmente ferido
agachado. A temperatura estava amena. Ele usava calças de brim, que se arrastasse até algum obscuro refúgio. A casa tinha uma
uma camisa esporte em cor turquesa e sapatos velhos. multidão de pecados. Mas não era isso o que eu pretendia dizer.
Caminhando junto às paredes dos prédios, encolhendo-se mo- Aquela casa assistiu a uma multiplicidade de experiências que não
mentaneamente nas entradas dos edifícios e casas, evitava os tran- concluí em East Fletcher Street. A casa da rua Hagert era meu
seuntes e se apressava em direção ao número 1808 de East Hagert mundo particular. Como o Lago Dourado de Thoreau. Ainda me
Street, onde, naquela tarde, em 2 de abril de 1969, ele e seus filhos lembro disso, de meu curso de literatura norte-americana. E exata-
tinham terminado de cavar um buraco de seis metros de profundi- mente o que era aquele velho lugar. Exatamente. Tal como um anexo
dade. Eram agora oito horas da noite. Ele estava voltando sozinho secreto de meu castelo, era um lugar para a gente se esconder. No
para usar o buraco pela primeira vez. castelo, eu trabalhava, comia e apertava a faca enquanto fazia amor
Dois meses antes, no dia 30 de janeiro, Joe tinha comprado a com Betty. Mas, em meu anexo secreto, procurava refúgio para po-
casa n° 1808 de East Hagert Street em nome de seus pais adotivos, der ficar a sós com todas as minhas idéias extravagantes e com o
com o objetivo de usá-la como armazém e refúgio secreto. que agora sei terem sido alucinações. Ninguém mais entrava lá. Eu
Três vezes por semana, durante dois meses frios — fevereiro e era o único que tinha a chave".
março de 1969 —, Joe havia arrebanhado seus filhos até uma sala O "anexo secreto" de Joe em East Hagert Street — a que ele

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de circunferência que fora terminado mais cedo naquele dia. Aci-
ocasionalmente chamava "a casa do padre", por causa de seu ocu- ma e em volta da entrada do buraco Joe havia colocado caixas e
pante anterior — era feito de toras de madeira e tinha dois andares. pranchas, para que não pudesse ser visto com facilidade por alguém
Duas portas altas, feitas de aço recoberto por madeira, davam aces- que porventura invadisse seu refúgio. A sós pela primeira Vez no
so a um longo corredor. Ao final dele ficava a porta que dava para grande aposento, ele retirou a camuflagem e desceu a escada.
a ampla sala sob a qual os filhos de Joe tinham cavado o buraco; no Sentiu-se como se estivesse penetrando nas profundezaside sua -
teto, seis metros acima do piso escavado e deformado, havia uma própria mente. O buraco era não apenas parte de seu ninho nessa
clarabóia. O padre havia acrescentado esse cômodo à casa, erigindo-o velha casa, mas era também o útero de unia mãe imaginária, subs-
diretamente no quintal. Uma escadaria apodrecida à direita do lon- tituindo aquele que, 32 anos antes, o tinha dado à luz.
go corredor levava ao segundo andar. Por baixo da casa original, Descendo, Joe sentiu o cheiro da terra, bolorento e 11 ido, e
mas não do salão amplo, havia um porão infestado de ratos. sentiu a umidade envolvê-lo por completo. Depois, seus pés ocaram
Desgastado, repleto de vermes e apodrecido, esse simulacro de podido escavar todo o
a ripa grossa de madeira. Joe desejou ter
casa tornou-se o refúgio onde Joe se protegia das possíveis conse- planeta até algum lugar distante, do outro lado, onde pudes e estar
qüências de seus "pensamentos indesejados", que eram agora suas rtou.
em paz consigo mesmo. Mas a escuridão do buraco o reco i
alucinações. Não queria que ninguém soubesse que havia alguma Pensou em si mesmo como uma criatura da escuridão, um homem °
coisa errada com ele, e já agora sentia instintivamente que havia. Um da noite, um homem subterrâneo.
de seus mais profundos temores era que, se Betty descobrisse, ela se "Flora", disse-me, "Não havia medo no poço, no burco que
divorciaria dele. Isso, pensava Joe, tinha de ser impedido a qual- construí para mim, pois o medo não tinha nenhum senti 4o para
quer preço. O casamento novamente se tornara sólido. mim. O presente se transformava em nada, o mundo, em n da. Eu
só vivia em meu poço".
Joe olhou para o relógio. Eram agora oito e quinze da noite Muito embora gostasse da escuridão, tinha levado uma vela com
de 2 de abril de 1969. Antes de destrancar a porta da esquerda de ele. Retirou-a do bolso, fincou-a na parede de lama entre duas ripas
seu refúgio pela segunda vez, tornou a olhar para a lua cheia. de contenção e acendeu-a. A frágil chama ergueu-se oscilante, es-
Veio-lhe à lembrança um verso de um poema que lera certa vez: "A treitando-se até sua fina ponta. O fogo o excitava agora como sem-
lua é um fragmento de açúcar-cande zangado". ( 4 ) Mas não se pre fizera. Joe sabia que ele também poderia destruí-lo. O Iar fan-
parecia agora com açúcar-cande. Joe achou que era uma caveira tasmagórico que se infiltrava pela clarabóia fez com que ele se vol-
zangada, banhada em leite de pesadelos e malévola como seus pró- tasse, cheio de repulsa, para o interior do buraco.
prios pensamentos e visões. As cavidades oculares eram buracos re- Subitamente, uma torrente de palavras reverberou a seu redor;
pletos de desgraça. Joe achou que o universo talvez fosse um ve- desconhecidas e insondáveis, soavam-lhe como um cântico:
lho canteiro de ossos; que os planetas, as estrelas e as galáxias se- KRTSTORAH, KYRIASTORAH KYRIE MARIA KREll
riam, na realidade, os ossos reluzentes de todos os mortos, lançados KRASTORAH MARIA KRIASTOH KRIASTO MA-
ao céu negro pelos demônios. Joe abriu a porta e percorreu o longo RIA KRTHESTOH KYRTAH KYRIEH ALA MARIA RIEH
corredor até chegar à sala ampla. KYRIASTORAH MARIA KYRIESTOH KYRTAS ORAH
Aparafusada uni metro acima do piso, numa das paredes da MARIA KYRIEH ALA MARIA KYRIEH KRIAS ORAR
grande sala, havia uma espaçosa arca de cereais. Estava repleta
de lascas de madeira, jornais velhos e tijolos danificados. Sob a arca MARIA KYRIASTOR KYRIASTOH ALA MARIA KY-
ficava o buraco de seis metros de profundidade e um metro e trinta RIEH ALA MARIA AIIKAB KAH MARIA KAH KYRAS-
TORIAH.
O verso efetivamente encontrado em The Cambrldge Ladies, de E. E. Vez após vez as mesmas palavras se repetiam, porém em ca-
Cummings, é «The mona rattles Ilke e fragment of angry candyn [A
lua chocalha como um fragmento enraivecido de açúcar-candel. —
---e
dências diferentes e com inflexões variáveis. Para Joe, eram um
(N. da A.)
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quando criança, na casinhola da fonte em Neshaminy e nos tanques
enunciado sem qualquer ligação com qualquer coisa que tivesse de Kensington. Estariam os espíritos falando com ele, mas dessa vez
ouvido antes. através de seu corpo, em vez de externamente a ele? Ou estaria o
A voz estava muito perto de Joe. Ele girou o corpo de um lado demônio do "passarinho" tentando dizer-lhe algo? Talvez o diabo
para outro, olhou para cima e para baixo, tentou descobrir-lhe a fon- estivesse falando com Joe através dos ossos, nervos e músculos do
te na parede de lama que o encerrava, no solo abaixo, talvez lá próprio Joe. O que significariam aquelas palavras? Ele achou que se
embaixo, onde seus filhos não tinham cavado. Poderia facilmente ter pareciam com três palavras que ouvira na igreja quando criança:
subido a escada e saído dali. Permaneceu no buraco, porém, por Maria, Kristos e Kyrios. O tom de raiva, no entanto, fora claro.
fascínio, pavor e um curioso sentimento de indagação acerca dos Mas quem estava COM raiva de quem? Joe soube instintivamente que
sons que haviam penetrado tão estranhamente cm sua solidão. voltaria a ouvir aquelas palavras e que quem quer que as houvesse
Girando o corpo de um lado para outro, bateu na escada e proferido no cântico — os espíritos, o demónio ou o diabo — tinha
apercebeu-se pela primeira vez de que seus braços estavam erguidos de ser maléfico, pois os "pensrimentos indesejados" haviam chegado
à superfície da consciência de Joe enquanto a voz cantava.
para o alto, como uma súplica. Atônito, olhou fixamente para os bra- Sua lou-
ços erguidos, indagando a si mesmo se seriam os seus, e deixou-os cura havia gerado uma "língua" particular cujas palavras não ti-
pender junto ao corpo. Colocou o indicador da mão direita junto à nham referenciais nem significados — Um sintoma da esquizofrenia
garganta e sentiu uma vibração enquanto o cântico prosseguia. Per- paranoide. (")
cebeu também que sua boca estava aberta e que seus lábios se mo- Joe subiu a escada até o grande aposento. O luar fantasmagó-
e de-
viam. Soube, afinal, que os sons estranhos não provinham das pa- rico prateava o piso desgastado. Ele olhou para a clarabóia
redes enlameadas do buraco, nem de algum lugar misterioso sob a cidiu que iria cobri-la com um pedaço de lona. Odiava o luar.
ripa de madeira em que se mantinha de pé, mas sim do interior Muito ■ -ii.hora Joe viesse tentando resistir às ordens do diabo,
apieda freqüentemente, sabia que urna das razões pelas
r..dele mesmo.
KYRIEH KYRIASTORAH KYRYAH KRIASTOH ALA MA-
que lhe
quais tinha feito seus filhos escavarem o buraco era cavar na terra
LRIA KYRYEE KYR1ASTORAH KYRYAH KYRIEH KRIAS- uma passagem para o inferno.
es-
TORAH: O cântico se elevava num crescendo de intensidade. Em- Pensou no inferno enquanto se encaminhava para casa. Na
do
bora o significado das palavras permanecesse ainda insondável, Joe cola, lembrava-se, tinha-se dado grande ênfase à aprendizagem
pôde perceber pela •entonação que a voz em seu interior se zangara. catecismo, e no catecismo ele aprendera que o inferno era uma das
Imaginou se a voz estaria zangada com ele! Parecia-lhe que a voz recompensas ou punições recebidas imediatamente após o julgamento
o estava repreendendo como a uma criança que tivesse feito algo do espírito dos mortos. A palavra inferno, como tinha aprendido,
errado. Depois, a voz pareceu acusá -lo, mas não por ações que ti- significava gehenna, que, supunha Joe erroneamente, era a palavra
vesse praticado. A voz o acusava elas ações a que os "pensamentos que designava buraco no chão. O novo buraco de East Hagert Street
indesejados" poderiam conduzir. e o do poço da fonte eram buracos no chão. Nos outros, como os
Vez após outra Joe escutou o nlouquecedor e repetitivo cân- dos tanques de Kensington e o da cozinha da casa de East Fletcher
tico: KRIASTORAH ALA MARIA KRIASTOH. E então, final- Street, Joe pensava como sendo buracos acima do chão.
A temperatura er a
mente, a voz parou. Uma sufocante quietude pairou sobre o poço da As ruas de Kensington estavam silenciosas.
escuridão. A vela tremeluziu. Joe estava tremendo. amena. Ao chegar a East Sterner Street, Joe ergueu os olhos para a
De quem seria aquela voz? perguntou a si mesmo. Essa era unia lua e, em seguida, para sua casa.. Ela era da cor de ossos sob a
pergunta para a qual pensava já saber a resposta. Joe estava con- luz morta da lua. Joe murmurou: "Este é meu castelo. Que ele seja
vencido de que, embora a voz tivesse falado com sua língua e saído poupado do mal".
do interior de seu corpo, não era a voz de Joe Kallinger!
• Ver S. Arieti e F. Schreiber, «Multiple Murdrrs of a Schlzophreolc
Jouraal cif the American
Algo está falando através de você, disse Joe a si mesmo, tal Patient: A Psychodynamie InterpretationD,
como, em outras ocasiões, uma força estranha controla suas mãos Academy of Psychoanalysis, Vol. 9, N° 2, 1981, pp. 501-529.
e seus pés. Lembrou-se dos espíritos com quem entrara em comunhão
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cheia de marcas da enfermaria vazia dos prisioneiros, na adeja do
Condado de Camden, escutei a narrativa de Joe, cujo rost ansioso
transpirava. Seus olhos escuros atravessavam meu corpo, irando o
passado.
"Lembre-se, Flora, de que eu lhe disse que transformei minha
casa de Front Street numa prisão. No porão havia três janc: las, uma •
9 Motim no Castelo delas dando para a rua Sterner, e as outras duas, para Fr nt Street.
Sobre as duas janelas de Front Street eu tinha colocad portões
de aço fixados a postes por meio de dobradiças, que se fechavam
com cadeados presos à parede da casa. Na janela da rua Sterner eu
tinha aparafusado uma chapa de aço. Os parafusos penetravam fun-
do na parede e eu os tinha recoberto de cimento".
Joe fez uma pausa e depois olhou diretamente para mim; suas
pupilas estavam vazias a impenetráveis.
"O porão parecia ser o lugar perfeito para castigar e corrigir
\tru meus filhos. Trabalhando e morando com eles na mesma casa, eu
r•)-sif os via com mais freqüência do que no passado. Havia ocasiões em
\‘:' 1- Quando Joe desceu pela primeira vez até o fundo do poço de East que não gostava do que via. Senti que meus filhos mais velhos, Ste-
Hagert Street, já estava vagando pela escura noite da psicose. Esta- phen e Mary Jo, assim como Joey, eram rebeldes e desreg ados. Os
ut
va-se retraindo do mundo. Acordado, sentia-se freqüentemente como meninos se metiam em brigas de rua e, segundo eu temi , também
ist= se estivesse dormindo e sonhando. Muitas vezes, o sonho se trans- estavam 'por dentro do sexo' nas ruas. Mary Jo 'matava' ulas com
formava num pesadelo, e as pessoas a seu redor, em personagens freqüência.
do pesadelo. —C) mundo se estava transformando num inimigo de Joe. "Betty ficava de fora. Era passiva. Não conseguia idar com
O delfrio'cle perseguição, que começara com sua idéia de que Harry eles. Eu tinha de impor toda a disciplina. Meus filhos m is vcilhee:
Comer o eslave espionando, vinha agora,creleen , e Joe se tornava tinham-se tornado um tormento para mim. Queria corrig -los. Mas
cada vez mais grandioso. não queria dar a isso o nome de punição. Durante meu pr melro ca-
a vez ha
Os espasmos da^loucuza que o afetavam eram assustadores. semento e até agora, quando já estava casado pela g
Todas as vezes quesentia a ?taxi m ataq ele se re- muitos anos, eu nunca tinha aprovado nenhum castigo cor oral para
tirava para seu poço: uz a ve a, pratEl ica rituais 'diversificados meus filhos.
dos quais a masturbação e a defecação faziam parte, pois o incons- "Um dia, em junho de 1969, eu estava no buraco e mudei de
ciente encara os excrementos e as secreções do corpo como dons de -; idéia sobre o castigo físico. Já lhe contei o que aconteceu no buraco
poder. e que me fez mudar. Eu me sentia sem nenhum peso rte o bas-
Num desses episódios, Joe, que via a si próprio como o rei do , tante para fazer qualquer coisa. Dois meses antes disso, inha des-
castelo e um pai onipotente, decidiu lidar com as falhas de três de • . cido pela primeira vez até o fundo de meu buraco em E st Hagert
seus filhos. Tomou essa decisão imediatamente após ter eliminado Street para me salvar. Agora, achava que iria salvar meus filhos no
um grande volume de fezes, o que, fazendo parte do ritual do sub- porão de minha casa em Front Street.
solo, tinha o efeito de reanimá-lo e fortalecê-lo. Os delitos das cri- "Eu tinha certeza de que educação era a maneira certa de
anças eram reais, mas o modo como Joe dispôs-se a corrigi-los foi encarar o que eu estava planejando fazer. Iria reeducar mus filhos,
delirante e sádico. fazer com que se modificassem e fizessem as coisas a eu modo .
Numa noite quente de julho de 1977, Joe contou-me sobre o Assim, enfileirados na mesa de metal do porão havia um edaço de
método de punição que usou com esses três filhos. Sentada à mesa
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lanceados pelas palmilhas nos sapatos. As pessoas morrem mais de-
corda grossa, meio metro de uma mangueira de borracha, uma caixa pressa quando têm pés ruins.
de pregos, tiras de couro e um açoite feito em casa". — Morrem? perguntei.
, Em minha imaginação, pude ver o porão de Joe com suas pra- — Claro! Dê uma olhada nos pés de qualquer pessoa idosa,
teleiras cobertas de saltos, solas e tiras de couro, além de outros ar- alguém com 80 ou 90 anos. Aqueles são pés fortes, Flora; carregaram
tigõs que fariam bolhas na pele. A alguns passos das prateleiras, aquela pessoa através de uma longa vida. Um dia desses, deixe-me
imaginei, ficava a mesa de metal com o "material educativo" de Joe, dar uma olhada nos seus pés, tirando os sapatos. Aposto que sou
como ele o chamava, todo arrumado e pronto para a "aula". Em capaz de dizer quase exatamente quanto tempo você vai viver.
1969, seus três alunos foram Stevie, de 13 anos, Mary Jo, de 10, e Sem refletir, olhei para meus pés, que haviam passado muitos
Joey, de 9. O curso durou até 1972. As aulas eram particulares, pois milhares de horas mantendo- me de pé, lecionando nas salas de au-
Stevie, Mary Jo e Joey eram levados ao porão — à "câmara de tor- las e nas plataformas usadas para proferir palestras. Imaginei quais
turas", como o chamavam — separadamente, e nenhuma criança ja- seriam minhas chances.
mais assistiu à "instrução" que Joe dava a qualquer das outras. — Quando nós não estivermos com pressa, está bem, Joe?
"Eu me culpava pelo comportamento das crianças que tinha de — O.K. Mas havia urna outra coisa que eu queria desco-
corrigir", prosseguiu Joe em sua narrativa. "Em geral, eu tinha sido brir através das experiências com os hamsters. Quando se tem bons
um molóide como pai. E precisava ser rigoroso, pois não queria pés, o cérebro também fica em boa forma. Os pés controlam o cé-
que eles crescessem ruins. Portanto, meu objetivo era sério, Flora, rebro. Isso quer dizer que, se você tiver durabilidade e resistência
tão sério quanto tinha sido com os hamsters que levei para minhas nos pés, terá inteligência no cérebro. Eu queria fazer experiências
experiências na casa de East Fletcher em 1964". sobre a ligação entre os pés e os cérebros dos hamsters. Se eles me
Intrigado, perguntei — Eram bichinhos de estimação para as ouvissem e fizessem o que eu mandava, eu ficaria sabendo que as
crianças? palmilhas dos sapatinhos que eu fizera para eles estavam fazendo
as crian-
— Não, Flora, não eram bichinhos de estimação para bem, dando a eles maior durabilidade e inteligência. Então, eles
ças, respondeu ele em tom tristonho. — Mas, na verdade, tinham prestariam obediência a mim, seu amo e senhor.
algo a ver com meus sentimentos a respeito de meus filhos. — Joe, você acha que a obediência cega é um bom indicador
— Então, o que você quis dizer quando falou que conseguiu os da inteligência de um organismo?
hamsters para uma finalidade séria? — Olhe, Flora, disse ele com convicção, sempre achei que,
— Eu quis dizer, Flora, que eles tinham muito a ver com meus quando qualquer ser vivo é obediente, ele é inteligente. Eu acho
experimentos ortopédicos. que meus filhos eram inteligentes; seja como for, tinham bons pés.
— E mesmo? perguntei, atônita. — Como assim? Mas não queriam me obedecer. Eu tinha de fazer brotar a inteli-
— Bom, eu já tinha feito mais de 40.000 experiências, a maio- gência deles, reeducando-os no meu porão. Com
os quatro hamsters
ria delas comigo mesmo, e algumas com minha mulher e meus fi- marrons, como com meus filhos, eu era o senhor. Iria descobrir quão
lhos. Tinha até convencido o carteiro a me deixar colocar palmilhas inteligentes eram os hamsters observando com que presteza me es-
em seus sapatos, de modo que fiz algumas experiências com ele. Mas cutariam.
nunca tinha feito experiências com animais antes disso. E Joe prosseguiu na narrativa:
— O que você pretendia fazer com eles? "Quando os levei para minha casa em East Fletcher Street, vi
— Eu ia fazer sapatinhos para os pés deles e palmilhazinhas que não havia meio de fazer sapatos e palmilhas para meus hams-
para colocar nos sapatos. Achava que, dessa maneira, iria conseguir ters. Seus pés eram demasiadamente pequeninos. Mas eu sabia que
muitas informações. poderia prosseguir com a segunda parte da experiência — a ligação
— Que tipo de informações sobre os pés humanos você iria entre a obediência e a inteligência — mesmo sem os sapatos
conseguir fazendo experiências com hamsters? "Para ter certeza de não confundir os hamsters — todos ele:
— Eu acreditava que iria descobrir que a vida humana podia se pareciam, você sabe, eram todos da mesma cor marrom c do
L ser prolongada através de pés fortes e sadios, que fossem bem ba-
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por quanto tempo ele conseguiria manter a roda em movirner to, gi-
mesmo tamanho — coloquei uma etiqueta com o nome na pata rando, girando, girando, antes de entrar em colapso e morrer
traseira direita de cada um. Dei-lhes os nomes de Winko, Popsicle, verdade, eu queria que ele vivesse, Floral Se ele vi-
Jellyroll e Humpty Dumpty. vesse, meu experimento seria um sucesso, por fazer emergirea in-
"Depois, coloquei-os numa gaiola grande com uma rodinha no teligência e a durabilidade dele. Continuei a cutucá-lo e ord nei-lhe
interior. Sabia que a melhor maneira de testar a inteligência e a du- que vivesse. Eu dizia, 'Winko, fique vivo, não importa o qu acon-
rabilidade deles seria na roda. Se eles tivessem inteligência, iriam teça!'
escutar-me; se tivessem durabilidade, escutariam e sobreviveriam. "Parei um pouco para descansar. Se eu deixasse Win o des-
Obedecer é uma prova de inteligência; sobreviver é outra. Certo?" cansar demais, ele ficaria forte outra vez. E eu não queria isso. A
—. Joe, de que maneira você esperava que os hamsters o "es- melhor maneira era sem interrupções. Mas eu precisava de m pou
cutassem", se eles não falam nenhuma língua humana? Você os co de repouso. Já eram duas horas da manhã. Eu tinha es ado fa-
adestrou com sinais manuais? zendo a experiência com Winko desde as quatro da tarde, exceto
— Eu falava com eles em inglês, assim como estou falando com por algumas breves interrupções. Não tinha comido nada, porque
você. Puxei uma cadeira para junto da gaiola e me sentei. Disse aos estava excitado demais. Podia
hamsters tudo o que iria fazer. Era muito importante para o futuro "Nessa época, eu estava de férias da loja de Mahone
da humanidade, eu disse, que eles me obedecessem. Disse-lhes que trabalhar no experimento a noite inteira, até o dia seguinte, a noite
os pés deles eram pequenos demais para que eu lhes fizesse sapatos diante. Eu apanharia um sanduíche na ozinha,
seguinte, e assim por estar,
e palmilhas. Mas prometi fazer para eles chapeuzinhos e roupas — dormiria uma ou duas horas no divã que ficava na sala e
mesmo não sendo alfaiate — se eles me escutassem e sobrevivessem. experi-
perto da gaiola. Depois, poderia levantar-me e prosseguir no
Flora, eles entenderam cada palavra que eu disse! mento com o mesmo hamster.
— Que foi que os hamsters lhe responderam? et s me diriam com qual deles eu estava trab lhando.
— Nada! Essa foi minha segunda decepção com eles. Primeiro, Mas, ao cochilar no divã durante um intervalo, fiquei pre cupado
descobri que não podia fazer sapatos e palmilhas para os pés deles. hamsters trocassem as etiquetas com os nomes
com a idéia de que os nha ex-
Depois, não consegui fazer com que se interessassem por meu ex- entre si para me confundirem, para me fazerem estragar m
perimento. Eles nem sequer levantaram as orelhas quando falei so- pertênclit.
bre os chapéus e as roupas. Mas eu sabia que tinham-me entendido, "As três horas da manhã, voltei para a gaiola e pegue Winko
sim; estavam bancando os espertinhos para que eu abrisse a guarda. pelo rabo. Cutuquei-o de volta para a roda e o fiz mantê-la girando,
Eles não escutavam, não pareciam querer entender! enei-lhe
girando, girando. Ele urinou, por medo, eu acho. Então, or
e ouvia,
Joe continuou: que fosse corajoso, que parasse de urinar. Mas Winko não
"Enquanto eu falava, eles me ignoravam! Um deles pulava na rimento,
não me obedecia. Um dia e meio depois de começado o exp
roda e a fazia girar com um movimento dos pés nos raiozinhos. Ou Winko entrou em colapso na roda e morreu.
então beliscavam a comida que eu tinha colocado na gaiola. Um não me
"Senti-me péssimo. Eu era como um pai para ele. Ele , pensei.
espertalhão ficou me espreitando com seus olhinhos castanhos; de- havia escutado, e agora estava morto, não era culpa minha
pois, deitou-se num canto e ficou com ar mal-humorado. A pro- ela roda
pósito, eram todos meninos. Não sei que idade tinham. Se me tivesse obedecido, poderia ter continuado girando aq
"Finalmente, percebi que não estava chegando a parte alguma. para sempre, Flora, para sempre! Aind estava
"Delicadamente, peguei seu corpinho peludo.
Parei de falar e comecei a experiência. Agora eles iam me escutar, ou quente. Levei-o para o quintal, cavei um buraco e enterr i-o sem
então não sobreviveriam. qualquer marcador ou lápide.
"Peguei um lápis com uma borracha na ponta e usei a bor- "Os três amigos de Winko tiveram o mesmo destino: cutu-
racha para forçar um deles — era o Winko — a subir na roda e cada um deles, quando chegava sua vez, até a roda. El s faziam
começar a trotar. Fiquei de frente para o lado da saída da roda e quei
a roda girar e girar; depois, urinavam e morriam.
mantive Winko em movimento, cutucando-o com o lápis. Queria ver
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"Eu tinha sido um pai para todos os quatro. Eles me decep- para nós. Mas nós os estragamos, Flora, nós os estragamos! Se ape-
cionaram: seus pés eram pequenos demais; não me davam ouvidos nas eu pudesse levá-la pelo mundo para lhe mostrar os bilhões de pés
quando eu me sentava junto à gaiola e falava com eles, ou quando doentes, sem Deus! Foi por isso que fiz mais de quarenta mil ex-
lhes dava ordens na hora em que estavam fazendo a roda girar; e, periências — não só para me corrigir, mas também para salvar a
apesar de eu ter dito que não fizessem isso, voltaram-se contra mim humanidade!"
e morreram.
Quando Joe acordou de seu longo sono, ficou subitamente cho-
"Ao cabo de seis dias, quatro montinhos de terra bem batida
cobriam Winko, Popsicle, Jellyroll e Humpty Dumpty em meu quin- cado com o que havia feito. Ele já havia destruído coisas inanima-
das, mas, antes dos hamsters, nunca levara nenhuma criatura viva à
tal. Ajoelhei e fiquei lá por muito tempo, sobre a terra úmida, junto
morte. Quando Hilda, sua primeira mulher, havia-lhe pedido dinhei-
a seus montinhos, rezando por suas almas. Rezei para que pelo
ro para abortar sua segunda gravidez, Toe ficara horrorizado. Ti-
menos dessem ouvidos a Deus e se comportassem bem na grande
nha-se recusado a dar-lhe o dinheiro e dito a ela que se compor-
gaiola de ouro por trás das estrelas. Amém. Amém, Flora!
tasse e que tivesse o bebê.
"Depois, tornei a entrar em casa. Mergulhei no divã e dormi
por dezoito horas seguidas." Naquela época, Joe considerava a vida sagrada; até mesmo
Joe respirou profundamente e cobriu o rosto com as mãos. Mui- a morte por causas naturais, como a doença, a velhice, e os dois
to embora estivesse terrivelmente quente na cadeia, ele estava tre- abortos espontâneos de Betty, pareciam-lhe não naturais. Ele sentia
mendo. que o que quer que fosse inimigo da vida estaria amaldiçoado. Mas
— Joe, o que você teria feito, perguntei, se seu experimento agora, no prazo de seis dias, havia matado quatro pequeninos hams-
tivesse tido êxito? ters, e sabia que o diabo e todos os outros anjos decaídos estavam
— Ah, eu tinha grandes planos, Flora, respondeu-me com tris- esperando para atirá-lo na boca pútrida do Inferno da Morte.
teza. — Eu teria construído um grande laboratório, com uma gran-
de roda para animais grandes, como os elefantes e os leões. Depois,
teria trazido seres humanos — condenados das prisões e gente lou- Ao preparar o que Stevie, Mary Jo e loey chamavam "a câmara
ca, das fazendas para birutas — e feito com que todos passassem de torturas", Joe estava dando mostras da mesma combinação de de-
pelo experimento. Teria feito sapatos e palmilhas para os animais lírio e sadismo que exibira com os hamsters. Com os hamsters, o
grandes e as pessoas. delírio era um experimento científico; com as crianças, era a orien-
Joe continuou: tação e disciplina parentais.
"Eu teria descoberto como manter as pessoas vivas para todo — Com Stevie, Joey e Mary Jo eu usava o disfarce do "agora
o sempre, e ninguém jamais morreria! Esse fora o mandamento de vocês vão comportar-se". Mas agora percebo que sentia grande
Deus para mim, quando eu tinha quinze anos e Ele me disse que prazer nas punições que combinavam o sexo com o sadismo. Eu ati-
fizesse as experiências com as palmilhas e os sapatos. rava pregos no corpo exposto de Mary Jo e espancava Joey com
"Se todos tivéssemos um ajuste correto dos sapatos aos pés, não meu açoite feito em casa. Também brutalizava Stevie, embora não
mais haveria guerras. Saberíamos como nos entender uns com os ou- me lembre de que maneira.
tros, como resolver os problemas. Não haveria mais ódio, apenas Essa foi a admissão, talvez a confissão de um homem que, ao
amor. Nem doença, nem crimes, e ninguém trancafiado em prisões falar comigo sobre seu passado, tinha vislumbres de seu significado.
e casas de doidos. Na época em que infligia as torturas, é claro, loe não tinha
"Comecei comigo mesmo quando tinha quinze anos, colocando nenhum vislumbre. Impunha seu tipo especial de "instrução" sá-
as palmilhas em meus sapatos para conseguir o alinhamento ade- dica sempre que um dos filhos falhava com ele, por não efetuar
quado dos pés com as pernas e com o cérebro, para que eu pu- alguma venda no trabalho de porta em porta, ou, como no caso de
desse corrigir a mim mesmo e dominar aquilo que me estava domi- Mary Jo, por deixar de escolher um cavalo vencedor. A tortura tam-
nando. Os pés controlam o cérebro. Eles são o dom mágico de Deus bém era distribuída pelo que Mary /o descreveu como "fazer coisas".

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relâmpagos. Cada hora do mostrador do relógio era representadli pelo
As "coisas" que Stevie, Joey e, mais tarde, Michael faziam in- algarismo arábico próprio, salvo pelo número 12. Em lugar dele,
cluíam, coletivamente, furtos nas lojas do lugar, na casa de um diretamente acima dos ponteiros, havia uma caveira humanai bran-
cego e nos caminhões, além de arrancar uma bolsa de uma senhora ca. Joe ouvia as lentas e sombrias doze batidas do relógio. auauclo
idosa, As "coisas" incluíam também fugir, furtar as sinaleiras de a última batida parava de soar, ele olhava para seu relógio de pulso:
alerta e outros artigos dos carros de frete do pátio da ferrovia, re- um minuto e meio após a meia-noite; o carrilhão nunca se sava.
tirar peças dos carros e atear fogo aos galpões de ferramentas e à em se desfazia e Joe subia as escad s, ca-
Em seguida, a imag
fábrica abandonada John Bromley Sons. Em 3 de julho de 1971, minhava pelo corredor e abria a porta do quarto onde do mia a
Jucy foi preso por gritar obscenidades a um policial que lhe disse criança a ser "reeducada".
que parasse de jogar lixo pelas ruas. Mary Jo quebrava os móveis "A coceira na palma de minha mão direita era o sinal e que
quando tinha acessos de raiva e freqüentemente fazia gazeta na uma das crianças tinha feito coisas", disse-me Joe. "Não f zia a
escola. menor diferença, Flora, se aquela criança em particular tinha eu não
As crianças "matavam" aulas constantemente, preferindo a edu- feito alguma coisa naquele dia. Eu sabia que todos os três e tavam
cação bárbara e vivaz das ruas à inatividade das salas de aulas. Joey fazendo coisas, inclusive desobedecendo em casa e sendo desboca-
fazia um cruzeiro pelas escolas: da Sheppar à Daniel Boone e à dos comigo, com Betty e entre si. As 'cosias' aconteciam pratica-
Douglas. A escola Boone era para as piores crianças da cidade, mente todos os dias.
e quando Joey passou por ela, foi a pior criança da pior escola "Mas a coceira era o sinal para aquela criança específi a na-
de Filadélfia. Quando tentou fazer com que um professor fosse quele dia específico. Eu a sentia na palma de minha mão ireita
expulso, Joe tomou o partido do professor. O professor não foi ex- como uma coisa que se arrastava, e então ouvia a voz. Ela dizia:
pulso. Joey ficou em Boone por menos de três semanas. Foi man- Mary Jo. Ou Joey. Ou Stevie. Eu sabia_que era a voz do diabo,
dado para a Escola Douglas, uma instituição para retardados e per- que--me aparecera. na época dos Incêndios ida rua Tinliére d East
turbados. Fletcher Street. O diabo iinliii-le - raifirrtiãdo- em -1969.-Embo a não
As "coisas" eram também sexo numa multiplicidade de mo- estivesse presente ern-lbeff daquele ano, quando de-s'ci pé a pri-
dalidades e posições. Joe se afligia porque Mary Jo estava "saindo" meira- vez ao poço, o diabo tinha sido uma voz espichadora quan-
com rapazes mais velhos, e Toey vinha mantendo relações heteros- do, dois meses depois, iniciei meu programa de' feeducaç o das
sexuais e homossexuais. crianças.
Certa tarde, quando Joey tinha onze anos, ele e Mary Jo, en- "À meia-noite, eu via o carrilhão e a caveira saindo da maça
tão com doze anos, ficaram vendendo "chupada?' a quatorze rapa- e da escuridão, com os clarões dos relâmpagos. Era apav rante,
zolas num telhado que dava para um parque de diversões em Ken- •
.>. Flora.
sington. Mary Jo ficou ao pé da escada que conduzia ao telhado e "Eu sabia que estava 'en,trandrbita' — quer dize , dei-
cobrava cinqüenta centavos de cada um dos fregueses de Joey.
, d er--"era todas as vezes que sentia
a co eira e
Alguns deles quiseram o dinheiro de volta, reclamando que Joey ouvia a vofttrreiiiia uma dor de cabeça e, depois, 'entrava m ór-
os havia enganado por não levá-los ao orgasmo. Joey era hábil para
'•
\\: bita'. Sabia que aquilo estava acontecendo, mas não conseguia Dm-
fazer tratos: disse-lhes que o preço de cada consulta era de cinqüenta '," trolá-lo. Mais urna vez, era 'aquilo' que me controlava.
centavos pelos primeiros dois minutos, e que não era culpa dele se
"Eu ficirrirrearmente m dado. Meu pensamento ficava dif rente.
alguns dos garotos não "conseguiam". Se quisessem mais, teriam de Não era, em absoluto, como o pensamento das outras pesso s. Mi-
pagar vinte e cinco centavos por minuto adicional. nhas preocupações deslocavam-se das coisas visíveis deste undo
Toe só levava Stevie, loey ou Mary To ao porão — nunca para o mundo das coisas invisíveis, quando eu sentia a co eira e
mais do que um de cada vez — depois da meia-noite. Exatamente à ouvia a voz.
meia-noite de qualquer dia em que decidisse que ia "reeducar" um "E aí está a aventura, Flora: você ainda é Joe Kallinge ., mas
dos membros de sua tripulação, ele tinha a alucinação de um imenso fica com toda essa nova maneira de pensar."
relógio emergindo da escuridão esfumaçada, cortada por clarões de
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Ascsementes da deterioração"Ilo relacionamento entre o pai e os
— Você sabe me dizer, Joe, como são a coceira, as vozes, o
filhos ttiElin sido lançadas na casa da família em East Fletcher
"isso" que controla você?
Street. As rosas do quintal dela tornaram-se, para mim, símbolos do
— Ah, sim, retrucou ele num tom suave. — Sim. A coceira, as que Joe tinha dito a respeito do normal pervertido em anormali-
vozes, o "isso", são como... como, bem... Joe hesitou, bebeu um dade pelo "isso" que o controlava e que ele não conseguira definir.
gole d'água e depois apertou fortemente as mãos diante do corpo, No outono de 1964, ele disse a Stevie, Mary Jo e Joey que plantas-
com o olhar vago. — Como os espíritos de janeiro, sim, os espíri- sem no quintal umas raízes de roseiras que havia comprado. Du-
tos de janeiro. rante a maior parte do verão de 1965, Joe e as crianças compraze-
Num sussurro trôpego, repetiu três ou quatro vezes a expressão ram-se com as lindas rosas vermelhas.
"espíritos de janeiro". No entanto, numa tarde do início de agosto de 1965 (antes do
Depois, ficamos ambos em silêncio. Eu não tinha ouvido falar terceiro incêndio provocado por Joe em East Fletcher Street), Joe
sobre os "espíritos de janeiro" e não pressionei para conseguir uma e seus filhos estavam andando pelo roseiral. Repentinamente, Joe ar-
recordação que parecia perturbá-lo tanto e de que, eu tinha cer- rancou uma rosa de seu canteiro e rasgou as pétalas em pedaços .
teza, ele voltaria a falar. Além disso, eu não queria as esquisitices da Seu rosto enrugou-se de tensão, seus lábios se comprimiram, e os
coceira, das vozes e do "isso" explicadas em termos dos "espíritos olhos tornaram-se duros e cruéis. Ele gritou uma ordem: — Arran-
de janeiro". Queria algo mais concreto e compreensível. Ele pros- quem os canteiros, destruam as rosas! Todas elas, entenderam, me-
seguiu: ninos?
"Eu me estava transformando num sistema completo de sinais, As crianças o olharam, aflitas, e não se mexeram, não conse-
num mundo privado em mim mesmo. Havia o cântico que safra de guindo compreender a ordem que ele lhes tinha atirado.
dentro de mim no buraco de East Hagert Street. E o sinal de co- — Cada uma delas, até as raízes! E cuidado com os espinhos
ceira na palma da mão direita veio logo depois do buraco. Joe dava largas passadas em círculos ao redor do jardim, es-
magando as rosas e os canteiros enquanto andava. Empurrou Stevie
"Eu queria ser como todas as outras pessoas", disse-me pen-
a Michael e olhou ameaçadoramente para Mary Jo. — Vocês tra-
sativamente. "Mas o que era normal para os outros era anormal para
tem de fazer o que estou dizendo agora mesmo! Eu sou o rei. Essas
mim. O anormal era meu normal; os delírios eram a realidade, e
flores são minhas inimigas. Destruam-nas! Ficou observando enquan-
a realidade era um delírio. Eu sou mesmo uma espécie de biruta,
to as crianças cumpriam suas ordens. — Arranquem essas pétalas r
hein, Flora?" Rasguem todas em pedaços! Espalhem-nas pelo chão em pedacinhos!
Alguns momentos antes. Joe falara de maneira quase incoerente Uma hora depois, o jardim de rosas estava destruido. O quin-
sobre "os espíritos de janeiro". Agora, mostrava uma extraordiná- tal era agora um deserto. Apenas as quatro pequeninas supulturas
ria percepção interior. Essas mudanças sempre me. surpmendiam, dos hamsters, que ficavam próximas, permaneceram intocadas Sobre
mas faziam parte da natureza episódica -de sua loucura. Ele era t elas haviam caído alguns fragmentos de pétalas.
inteligência e
psicótico, mas a psicose nem sempre, blo_yeavasta_jateligência
sua consciência. Descobri que as pessoas loucas não são o
tempo todo. O castelo era o lugar onde_ Joe pensava em si mesmo corno uni
As crianças não o achavam Usina, embora, é claro, tivessem rel. Mas o castelo era também o próprio loc.
percebido nele uma grande transformação. Apenas intermitentemen- No porão, ele infligia castigos que faziam com que Stevie, Joey
te ele era o pai que Mary Jo deácreveu como "mimando-a a ponto de e Mar Joi chamassem aquele lugar de "carrira de torturas". No
estragá-la". Os "ensinamentos" tinham surtido dois efeitos: agora, as cast que . ele próprio, a psicose de 'Toé infligia torturas a ele.
crianças sempre o temiam, e, às vezes, odiavam-no. Os delitos que
Por três semanas em julho,de 119Tf, no "irilinTo-, -a—tolfriénni
a "instrução" pretendia remediar continuaram irredutíveis e torna- foi suspensa: a. "câmara de torturas" não foi usada e o próprio Joe
ram-se mais numerosos, pois as crianças ficavam longe de casa o
ficou livre das aludi-145n e dos pensamentos indesejados. Sentiu - se
máximo possível.
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— Em julho de 1971, disse ele, passamos seis maravilhosas
também sexualmente potente sem recorrer às velhas fantasias de noites juntos num período de três semanas. Fizemos uma orção de
cortar e à faca para apertar. E experimentou uma sensação pouco coisas, Flora: saímos para jantar, só nós dois. Um dia, ara come-
habitual de bem-estar, até mesmo de euforia. morar a beleza da noite anterior, comprei um colar pra ela; e
As três semanas tiveram início numa noite em que Joe estava dei-lhe outros presentes, não porque fosse Natal, ou aniver ário dela,
prestes a fechar a loja e Mary Jo apareceu a seu lado. Ele achou no- ou porque ela precisasse de alguma coisa. Comprei-os p rque, du;
tável que, apesar dos "castigos" que lhe havia infligido, ela ainda rante aquelas semanas, ela teve um significado muito es ecial para
se aproximasse dele apenas para conversar. Isso o assegurou de mim.
que o amor que ela sentia por ele não havia morrido. Joe fez uma pausa, olhou-me fixamente, ergueu-se e fi ndou pelo
Inclinando-se sobre a mesa de trabalho, ela conversou sobre cômodo. Passados alguns momentos em que parecia es ar mergu-
coisas que, na opinião dele, seria mais apropriado ela discutir com lhado em recordações, disse-me: — Interrompi aquilo q ando per-
a mãe. Joe ouviu, mas não disse nada. As lembranças se multiplica- cebi que não podia continuar. Foi quando dese'ei ue el não. fosse
ram nele, especialmente a recordação do consolo que encontrara minha filha. Mas não pude arranc - a e meu coração da maneira
em conversar com ela sobre as lembranças malignas de sua própria qti-e—fircom que as crianças arrancassem—firfosii dê' Ea t Fletcher
infância . Street. Chfaiido amo, amo profundamente. Profundamente demais.
.Mary Jo tinha apenas doze anos e quatro meses, mas, ao olhar Levo isso muito a sério, demasiadamente a fundo, como tildas as ou-
para seus olhos e cabelos escuros, seu gracioso rosto de Madona e tras coisas. Torna-se parte de uma obsessão. Tenho a h nivel sen-
suas linhas flexíveis, vestindo calças de brim e uma camiseta, Joe sação de que não fiz bem algum à vida de Mary Jo. Aquelas três
experimentou por ela sentimentos que nunca conhecera antes. semanas foram a maior felicidade que jamais conheci.
Estava ficando tarde, Era hora de fechar a loja. Na escuridão Quando Joe rompeu esse relacionamento arrancou.e[clestruiu a
que descia lentamente, Mary lo pareceu-lhe uma flor que já foi olhada. felicidade de sentir-se e comportar-se como.um homem no mal numa
— Mary lo, disse ele, você vai ser uma bela mulher. StMgrarioriütTf.13Uriin- le aquelas três semanas, não pra isou aper-
— Obrigada, papai, respondeu ela. lar uma faca ou ter cfantasias violcnias e. sanguinárias pra manter
Naquela noite, Joe pensou em si mesmo como um jardineiro que sua .pptenc-jr. Durante aquele período, sua personalidade atinha-se mo-
cultivasse uma flor e, em deleite, observasse o desabrochar de suas dificado: ele jà nãO -létitia ódios incompreensíveis, nerii a necessidade
pétalas. Nas três semanas que se seguiram, o jardineiro regozijou-se. de mattratar—seus-filhos_.ou. de_refugiar-se no-Uretiro_esct,ro,", o bu-
Eu nada sabia sobre o jardineiro e sua flor quando conversei
a Cda._casa- de-East. Hagert Street. Esteve livre, negue as três se-
rc-
com Joe sobre Mary Jo na Cadeia do Condado de Bergen, em 1976. manas, dos pensamentos indesejados e das alucinações sop .cujo fas-
Mas pude sentir a intensidade de seus sentimentos por ela. cínio acreditava estar recebendo ordens do inferno.
Alguns dias depois, estive com Betty quando ela voltava de A felicidade . de Joe nasceu do delírio de que pai filha po-
uma visita ao marido na cadeia, a caminho de casa. Quando Betty diam "encontrar-se" livremente numa cultura que conden esse tipo
desceu do carro Mary Jo correu até ela e perguntou, excitada, — de relação. Para um homem "normal", que não esteja sicologica-
Você viu papai? Mais uma vez, pude sentir que havia uma forte mente incapacitado, a felicidade da relação com uma esp sa ou uma
ligação entre pai e filha. No tribunal de Hackensack, os especta- namorada tem exatamente as mesmas qualidades da relação que Joe
dores tinham ficado maravilhados ao ver como Mary Tio, depois de teve com sua filha. A primeira, porém, cresce e floresce com a apro-
ter sofrido os maus-tratos do pai, conseguiu_ dizer , à. imprensa que, vação da sociedade. A segunda não poderia fazê-lo.
quando seu pai estivesse bern, quêna- que ele voltasse para casa. A Joe pôs fim à relação. Moralmente, era certo que o fizesse. En-
imprensa não compreendeu a intensa ligação entre pai e filha (nem tretanto, num sentido muito especial, fazê-lo foi errado para ele. A
tampouco a consciência de Mary Jo de que ele a havia maltratado tragédia foi que o término desse capítulo de sua vida pôfim a um
por estar mentalmente enfermo). E tampouco eu compreendi real- período livre de alucinações e de sadismo. Funcionandos b o efeito
mente essa relação até um ano depois, quando, na Cadeia do Con- de um único delírio (com respeito à filha), Joe fora real ente feliz
dado de Camden, Joe me falou a esse respeito.
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por três semanas. Os outros aspectos de sua psicose tinham tido casa dos Kallingers, os Strongs tinham aberto sua casa às crianças
um descanso temporário. Kallinger. Os Strongs tinham três filhos, dois rapazes e uma moci-
Joe havia funcionado bem ao manter o delírio; depois de en- nha: Johnny, de 23 anos, Willie, de 17, e Susan, de 13 anos, que
frentar a realidade dos costumes sociais, escorregou novamente para era a melhor amiga de Mary Jo. Joe estava convencido de que Mary
suas velhas excentricidades psicóticas. Voltou a manter relações Jo e Willie eram amantes.
sexuais com a ajuda das antigas fantasias sangrentas e com a faca a — Eu não tinha nenhuma prova, disse-me ele, de que Mary'
sustentá-las. Voltou também a uma vida regida por alucinações, Jo e Willie Strong estivessem dormindo juntos. Mas tinha certeza
pensamentos indesejados e a atuação de seus impulsos sádicos, disso. Não sabia, realmente, Mas sabia.
Para salvar-se, Joe trabalhava obsessivamente em seus experi- Para Joe, Willie Strong e Freddy Prince eram a encarnação e
mentos ortopédicos e fazia peregrinações solitárias ao buraco da extensão de ódios passados. Eram os rapazes que, muitos anos atrás,
East 'Hagert Street com freqüência ainda maior do que no passado. no Cinema Howard, esfregavam-se nas moças enquanto Joe ficava
Sua mente continuava a voltar-se para Mary Jo, a princípio de sozinho. E mais importante 'ainda, eles eram Hans Ibler, o homem
maneira nostálgica e terna. Com o tempo, entretanto, ele se enraive- para quem Joe perdera Hilda, sua primeira mulher. Joe também
ceu, porque ela estava saindo com outros. Em relação a esses ou- expressava, através da máscara da reprovação paterna, a ira que ex-
tros, o ciúme de Joe se inflamava. Os rapazolas com quem ela perimentava no delírio de ser o amante traído de sua própria filha.
saía tornaram-se seus inimigos: personagens sombrios e persecutórios, — A família Strong foi a fonte de meus problemas, não só com
mais ameaçadores ainda do que os espiões imaginários da CIA que, minha filha, mas também com meus filhos, disse-me Joe numa com-
num :delírio, ele costumava pensar que moravam no escritório de binação de raiva e tristeza. — Os Strongs viraram meus filhos
Harry Comer. contra mim.
Joe culpava os Strongs, mas culpava também a si mesmo pelo
Certa noite, dirigindo-se para casa de volta de seu buraco na
que chamava "rédeas soltas". Ele havia encurtado as rédeas quando
East Hagert Street, ele viu Mary Jo andando de mãos dadas com começou a levar Mary Jo à escola e a buscá-la. Estava repetindo o
um rapaz de 19 anos, ali da vizinhança, chamado Freddy Prince. Os que fora feito com ele na infância. Entretanto, kW erguer uma bei -
dois estavam rindo c beijando-se nus lábios. Para evitar uma confron-
ricada entre sua filha e seus "rivais", estava também dando expressão
tação, Joe recuou até o vestíbulo de um prédio. a seus sentimentos de ciúme ainda vivos. Queria certificar-se de que
No dia seguinte, Joe observou que Mary Jo estava usando um ela não iria "matar" as aulas para passar o dia na casa de seus ini-
novo colar. migos, os Strongs.
— Onde está o que lhe dei? perguntou. As novas raivas pareceram misturar-se às antigas. A vida coti-
— Está comigo, papai, disse ela. — Mas este é novo. Foi o diana foi-se tornando cada vez mais irreal e onírica para Joe. Por
Freddy quem me deu. vezes, sentia-se inteiramente desperto e receptivo às exigências do
/cie arrancou o colar do pescoço da filha. momento, mas, em outras ocasiões, sua percepção da realidade era
Quatro dias antes do Natal de 1971, Joe tornou a ver Mary jo completamente distorcida por seus delírios e alucinações. Sentia-se fre-
e Freddy na rua. Mais uma vez, evitou-os. Em casa, passou um ser- qüentemente sonolento e seus padrões de fala começaram a modifi-
mão tia filha sobre sair com "homens mais velhos" e ordenou-lhe que car-se. Amiúde falava com pausas prolongadas, inventava palavras
"abandonasse" Freddy Prince. novas e fazia rimas inadequadas.
Mary Jo sabia que Joe não fazia objeções a que ela saísse com As vozes lhe chegavam com maior freqüência do que no passa-
Freddy por causa da diferença de idades, c sim porque, como me do. Joe achava que elas não provinham de seu interior, mas sim
disse, "Papai se comportava corno se eu fosse namorada dele. Sentia do mundo externo. Não conseguia distingui-las das vozes das pessoas
ciúme de qualquer rapaz que eu namorasse". que realmente falavam com ele. Quando -preparou a área de puni-
Joe também quis que Mary Jo "abandonasse" a família. Strong. ções no porão, o diabo fora uma voz atiçadora. Mas essa voz se
Como moradores de Kensington que viviam a poucos quarteirões da havia alterado. Já não era a do diabo. — Uma força mc estava ma-

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1.2..11.11.1•Ma•

Agora, estava à procura daquilo que era parte de e e que temia


nipulando, Flora, disse-me. — Eu não sabia o que era. Mas tinha ter perdido. Havia realizado seu sonho da família, ou pelo menos
que ser outra coisa que não eu mesmo. assim pensava, ao ter seis filhos. Entretanto, na área de punições de
Na véspera de Ano Novo em 1972, enquanto fazia o inven- seu porão, havia distorcido e pervertido aquele sonl o. Como resul-
tário de seu estoque no porão, Joe ergueu os olhos e reconheceu a tado, o sonho tinha mostrado sinais de desmoron mento, Agora,
grande figura imersa em luz branca que aparecera diante dele vinte Joe achava ter havido um motim no castelo, porque ary Jo e Joey
anos antes. Naquela época, tinha quinze anos; agora, estava com tinham fugido juntos.
35. A figura disse apenas uma frase: ..---Eiltjüanfo o táxi vasculhava Kensington, as sus citas e ciúmes
— Joseph, agora Eu o controlo! paranóides de Joe iam escrevendo o cenário das c nas sexuais em
A luz foi-se esmaecendo e a figura desapareceu. — Quando que imaginava que Joey — e especialmente Mary Jo — tinham
as vozes vinham do diabo, disse-me Joe, eu nem sempre tinha que estado envolvidos desde que saíram de casa na tard de sábado.
executar a ordem. Mas, depois de 1972, elas vinham de Deus, e Estavam-no fazendo de bobo! Era seu dever de pai, disse a si
eu tinha de fazer exatamente o que me era ordenado. mesmo, encontrar Mary Jo e Joey e castigá-los, para ue nunca mais
Ao escutar a voz que alucinava ser de Deus, Joe tinha uma fugissem dele novamente.
sensação de poder, pois estava agora no delírio de que Deus sancio- Joe sentia dor nas têmporas. Era o mesmo tipo de dor que ti-
naria e santificaria tudo o que Joe Kallinger fizesse sob Suas or- nha levado a sua internação no Hospital St. Mary' e no Hospital
dens. Agora que, em seu delírio, ele executava as ordens do Ser Su- Estadual de Hazleton. Suas têmporas latejavam co a fúria e o
premo, do Líder Máximo do Universo, o que era errado para as desespero não s6 do presente, mas de uma vida int ira. Os latejos,
outras pessoas tornava-se certo para Joe. como as batidas primitivas de um tambor, tinham u ritmo regular
Com sua lógica delirante, Joe tornou-se cada vez mais puni- e compulsivo.
tivo com os filhos. Mas os filhos eram rebeldes: Mary Jo continuou — Eu sabia, disse-me Joe, que alguma coisa de tro de mim es-
a encontrar-se com Freddy Prince e a visitar os Strongs, onde fre- tava errada. Era como se meu cérebro se fechasse e os pensamentos
qüentemente passava a noite. Joey costumava fugir e depois telefonar indesejados — os pensamentos desviantes, como s encaro agora
a Joe para que o trouxesse de volta, e Joe ia buscá-lo onde quer que — se apossassem de mim. Assim que a mente volta para dentro do
corpo, ela rejeita violentamente esses pensamentos. gente tem uma
estivesse para levá-lo para casa.
visão mais ampla quando está normal. Quando se es á nessa esquina
Na tarde de sábado, 22 de janeiro de 1972, Mary Jo e Joey saí-
estreita, sua família, seu trabalho e as promessas q e você fez aos
ram juntos de casa e não voltaram à noite. Quando, na manhã se- fregueses não têm nenhum significado. Você corre p ra sair e desco-
guinte, eles ainda não tinham voltado, Joe não telefonou para a brir esse outro mundo. Você caminha às cegas. Você ão tem direção.
polícia, como geralmente fazia quando apenas Joey estava desapare- Joe ainda estava nesse "outro mundo" das al cinações e das
cido. Não telefonou para os Strongs, porque eles eram seus inimi- fantasias violentas ao voltar para casa, após a inúti busca matinal.
gos. Mas também não telefonou para outros amigos de Mary Jo e Andou de um lado para outro a maior parte da tarde, mas, chegando
Joey. Não confiava em ninguém. Além disso, Joe Kallinger, que re- a noite, decidiu sair novamente. O revólver não era a arma das
cebia ordens de Deus, não iria pedir ajuda a reles mortais. As nove alucinações e fantasias dominadas por facas, que faziam parte de
horas da manhã de domingo, entrou num táxi e vasculhou Ken- sua psicose, mas Joe resolveu levar com ele uma a somática de ca-
sington. libre 45, carregada com cinco cartuchos, que guardava na loja por
L O que o impelia para adiante era a velha sede de viagens. Em motivo de segurança.
L. criança, ele vagara pelas ruas por causa da falta de raízes; naquela Colocou o revólver no cinto- e vestiu o sobr tudo. Planejava
época, estava em busca de algo de que se pudesse tornar parte. Ha- usar o revólver como arma tática para assustar os a atinados, Mary
L via apanhado no caminho os objetos jogados fora porque poderia Jo e Joey, forçando-os à submissão. Em seguida, pediu aos mem-
ser um pai para eles, tal como, mais tarde, vira-se como pai dos bros da família que estavam em casa — Betty, Michael, então com
quatro hamsters.
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L.
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onze anos, e James, de nove anos — que o acompanhassem. Di- carrilhão não tinha que emergir da escuridão esfumaçada, e a hora
versamente dos amotinados, eles não se haviam rebelado contra ele não precisava ser depois da meia-noite. As rosas do quintal de East
e ainda representavam seu sonho da família. Enquanto o táxi per- Fletcher Street tinham sido inimigas de Joe. Ele as havia destruído.
corria. as ruas estreitas de Kensington, Joe se consolava com a pre- Joey e Mary Jo eram seus inimigos agora. Ele não estava mais in-
sença deles. teressado em infligir dor para fins "educativos". Esta noite, que-
Já havia quase perdido a esperança de encontrar os amotina- ria vingança.
dos e devolvê-los à família quando, pela janela do táxi, viu-os saindo — No instante em que vi Mary Jo e Joey com os Strongs, dis-
do Cinema Midway, na esquina das avenidas Allegheny e Kensing- se-me Joe, soube que meus filhos tinham cerrado fileiras com o ini-
ton. Joe observou com asco que Susan, Johnny e Willie Strong es- migo. Flora, eu tenho vontade de me matar só em pensar no que
tavam com Mary Jo e Joey. fiz depois que Betty e nossos dois filhos menores saíram, quando
O táxi os seguiu enquanto Mary Jo, Joey e os três Strongs, sem eu lhes disse que fossem comprar pizza. Talvez você nunca mais volte
conhecimento do que se passava, iam caminhando pela avenida Ken- a falar comigo. Foi por isso que, apesar de você ficar perguntando,
sington. Quando se aproximaram da rua Somerset, Joe pediu ao eu evitei — ou será que deveria dizer "me esquivei"? — de contar-
motorista que parasse junto à calçada. Depois que ele o fez, Joe lhe. Mas vou-lhe contar direito. Não consigo lembrar-me de todos os
saltou do táxi, Mary Jo, Joey e os três Strongs o viram e puseram-se detalhes. Boa parte parece vaga, e eu me lembro do que aconteceu
a correr. Os filhos de Joe corriam juntos, mas os Strongs tomaram como fragmentos e trechos de um sonho. Lembro-me do essencial.
um caminho diferente. Lembro-me deles muito bem. Eu poderia me matar.
Joe disse ao motorista que seguisse Mary Jo e Joey. Estava Eu já ouvira a história contada por Mary Jo. Tinha lido o
zangado com a evidente insubordinação deles e com o que lhe pa- depoimento de Mary Jo e Joey no julgamento. Tinha lido as histó-
recia ser uma clara indicação de que cies não o amavam. Se me rias dos jornais. Agora, iria ouvir a história narrada por loa.
amassem, pensou, viriam até mim e fariam o que mando. Mas "Quando estávamos no táxi", disse ele, ser-ando-se, "pensei
o visível medo que os filhos sentiam dele também o agradava, pois que talvez devesse fazer uma corte marcial. O crime deles contra
lhes garantiria a captura. mim era grave. Mas, ao chegarmos em casa, recebi instruções de
Pior duas vezes as crianças olharam para trás para ver se Joe Deus. L5 estava a mesma figura grande, imersa em luz branca, que
estava em seu encalço. Na segunda vez, ele fez com que o moto- viera até mim quando eu tinha quinze anos e que voltara a apare-
rista parasse o táxi ao lado deles. Saltou e apontou o revólver para cer na véspera de Ano Novo, apenas 23 dias antes.
os dois filhos. Depois, apontou duas vezes com a ponta do cano do "Mandei que Mary Jo esperasse no sofá-cama. Levei Joey para a
revólver para a porta aberta do táxi, como quem dissesse, "Entrem". cozinha, coloquei-o sentado numa poltrona vermelha de espaldar alto
Mais tarde, Mary Jo iria dizer-me, — Pela expressão do rosto e algemei sua mão direita ao fecho da geladeira. Para assustado,
de papai, tivemos certeza de que, se não o obedecêssemos, ele atira- deixei cair no chão uma faca de açougueiro, Ele gritou e prague-
ria em nós! jou, mas eu já estava acostumado a isso. Ele amava seu pai quan-
Joe entrou no táxi depois de Mary Jo e Joey. Ninguém falou. do do eu era o que chamava "o papai das diversões e brincadeiras".
— Eu mal pude acreditar, disse-me Betty um dia. — Nunca tinha Pintamos juntos as paredes externas da escola dele com uma pistola
visto Joe usar um revólver antes. de tinta e entramos em outras aventuras amalucadas. Por vezes,
A escuridão invernal havia descido. O táxi parou. Eles salta. eu delegava a ele a execução de meus desejos insanos. Mas, no ins-
ram. Betty e as crianças andaram com passadas incertas e nervo- tante em que lhe mostrava quem era o patrão, ele me dizia palavrões.
sas para dentro de casa, em fila indiana. Pressentiam o perigo. Sem o menor respeito. Bom, seja como for, eu o algemei. Ele era
Lá dentro, Joe disse a Betty: — Não tire o casaco. Saia e com- meu prisioneiro. Não poderia fugir. Eu podia voltar minha atenção
pre umas pizzas. Leve Mike e Jimmy com você. para Mary Jo. Naquela noite, ela era o grande inimigo.
A porta da rua se fechou. Joe olhou friamente para Joey e Mary "Ela estava sentada no sofá-cama à minha espera, exatamente
Jo. Esta noite, a palma da mão direita não precisava coçar, o grande como eu lhe dissera' para fazer. Sabia muito bem que não adiantava

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"Ajoelhei-me diante de minha filha. Inclinei-me para ela. Ela se
tentar fugir. Isso me agradou. Sim, ela era esperta. Betty e eu a encolheu. A voz de Deus me ordenava que queimasse Mary Jo. Ti-
considerávamos a mais inteligente dentre nossos filhos. E bonita. entramos em casa .
nha-me dado essa ordem tão logo
Você a conhece, Flora. Sabe quão bonita ela é. Notável. É, notável "Temos de queimar para criar, queimar para purificar. Tive
mesmo. Pareço estar evitando falar, escapulindo de minha história". quando Mary Jo sentisse a dor da espátula, todas
esperança de que, Esperei
"Bem, dirigi-me até ela, parei bem diante dela e lá fiquei, olhan- as células puras de seu corpo se apressassem em voltar.
do para seu belo rosto amedrontado. A vingança circulava dentro que elas pudessem transplantar para o corpo de mi ha filha a bon-
e
de mim como se fosse energia elétrica. Eu amava minha filha e a dade original que eu achava que Freddy Prince, Jillie Strong,
odiava. Não dissemos nada um ao outro. Havia um silêncio total talvez outros, tinham expulsado.
entre nós. Pude ouvir Joey na cozinha, debatendo-se contra as al- "Inclinei-me outra vez para ela. Seus olhos e<tavam vidrados.
gemas e remexendo-se na poltrona. A cada minuto, seus palavrões Minha mão esquerda moveu-se com a espátula quente para a parte
explodiam bem no meio da sala. Isso fazia Mary Jo saltar, mas eu interna de sua coxa direita. A coxa estava nua. As calcinhas não a
estava mais firme do que o laço de um carrasco. cobriam. Pressionei a espátula quente contra a pele nua. Acho que
"Trazia nas mãos uma espátula que apanhara na cozinha e uma ela gritou. E eu repetia uma vez atrás da outra, uma espécie de
refrão monótono, 'Você nunca mais vai fugir de m m outra vez'.
corda do porão. No chão, • bem junto ao sofá-cama, coloquei um
pequeno fogareiro a querosene, todo preparado e pronto para fun- "Quando a espátula esfriou, retirei-a da carne de Mary Jo e
cionar, que eu tinha ido buscar na loja. tornei a colocá-la no fogareiro para esquentar. Ftli até a cozinha
"No meu bolso estava o canivete de lâminas cambiáveis que tratar de Joey. Mas vou deixar isso para depois. D ixe-me continuar
eu sempre levava comigo. Ele me dava a mesma sensação de con- com Mary Jo. espátula quem
fiança que eu sentia ao apertar uma faca durante a relação sexual. "Quando voltei para ela, tornei a pressionar at o mais de meio
lugar, a pou
Como você Se lembra, foi somente durante aquelas três lindas se- em sua coxa, exatamente no mesmo as teve sorte dt.
manas com Mary Jo que, para me sentir à vontade, não precisei de centímetro da vagina. Ela tremia violentamente,
eu não fazer o que tinha começado a fazer."
uma faca na mão ou de um canivete no bolso.
Joe parou e bebeu um pouco Xá gua.
"Mas, na noite de que estamos falando, tirei o canivete do bol- a pressionei con
"Não sei quantas vezes reaqueci a espátula e
so e apertei o botãozinho do cabo. A lâmina fina saltou e encos- tra a coxa de Mary Jo. Acho que foram s duas. a diz que foram
tei a ponta no pescoço de Mary Jo. Disse-lhe que, se ela gritaise, a parece ter sur
mais. De repente, no entanto, eu mudei. A mudan
eu a esfaquearia. Ordenei que tirasse toda a roupa, exceto o sutiã gido quando percebi que, na espátula fria, havia a guns pedaços dr
e as calcinhas. Ela obedeceu. carne queimada. Levei a espátula para a cozinh , lavei-a e colo-
. Examinei o fe
"Eu nunca tinha feito nada disso antes, mas soava como um ue -a novamente numa gaveta. Voltei para Mary J
verdadeiro criminoso. Ah, bem, quando criança, fiz uma coisa pa- rimento dela: havia um círculo de carne descorada na parte interm
recida com essa naquelas viagens de ônibus e na ponte Silvar. Mas da coxa direita dela, com 8 a 10 centímetros de diâmetro. Desamarrei
corrigi
me apavorei. Não fiz mais nada. as mãos e os tornozelos dela. Depois, fui para a loja para me
"Com Mary Jo, eu fiz. Com a corda, amarrei os pulsos dela através de meus experimentos ortopédicos. Daquela 'vez, eu realmente
nas costas e atei seus pés pelos tornozelos. Depois, coloquei a es- precisava de correção." is, expressei uf
pátula sobre o fogareiro de querosene. Acho que demorou uns cinco Ficamos em silêncio por alguns minutos. Dep
minutos para que a espátula se aquecesse. Esperei. Mary Jo esperou. nha perplexidade. o tempo, queri.
S6 que não sabia o quê. — Joe, você queria vingança. Mas, ao mesn queimou a coxr
purificá-la através das queimaduras. Por que você
"Peguei a espátula. Estava quente. Uma espátula não é uma
dela, em vez de alguma outra parte do corpo?
faca, mas segurei-a na mão esquerda, a mão de apertar a faca du-
rante o ato sexual, e que depois viria a ser a mão esfaqueadora. — Para que ela não trepasse, respondeu.
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"Eu estava assustado com o que tinha feito. Estava também
— Você quer dizer que a cicatriz permaneceria ali para sempre assustado porque essa fora a primeira vez em que eu havia posto
e isso a envergonharia?
em prática minhas fantasias e minhas alucinações. Desde a época-em
— Eu não estava pensando em sempre. Só no futuro imediato.
que tinha doze anos, eu tinha fantasias .solire_ahrir o estâmagu_de
O ferimento ficaria sensível e ia doer. Quando se sente dor, não uma muJJter ou calrlora. os-seios-dela. Nos últimos anos, tam-
se pode trepar.
bém fazia fantasias-sobre_espetá-la. com ,pregos,e_queimada_com um
— Mas você me disse, retruquei, que não tinha realmente cer- cigarro ou um ferro quente. Mary ¡o era uma mulher. Eu a havia
teza do que ela estava fazendo com os rapazes com quem safa.
— Eu também lhe disse, respondeu, que não sabia, mas sabia! ir e a - corri- uma—es
. pátvil á.-
-- "Da loja, voltei para a sala para procurar Mary Jo e Joey.
Eu lhe disse que tinha de me vingar do que ela havia feito comigo. Eles estavam lá em cima. Chamei-os. Eles desceram. Dei a cada um
Ela havia conspirado com o inimigo. cinco dólares em moedas. Quando criança, eu tinha roubado moedas
— O ciúme teve algum papel nisso? perguntei. do armário de meus pais adotivos para livrar-me de minha soli-
— Um grande papel, respondeu. dão, subornando os garotos para que fossem ao cinema comigo --
—Por que disse que ela teve sorte de você não fazer o que eu pagava a entrada deles. Achosue estaya Jazendo a mesma coisa
J começou? com Mary_lo..e...Joey: subornar -Fedia-os para_ que me perdoassem e es-
i— Eu ai enfiar a espátula na vagina dela e empurrá-la até as qne.cerem o que _eu tinha feito com eles, subi:imanag:6s para que
tripas. la estorricar a maldade para fora dela, para que a bondade Me amassem, De qualquer modo, parecíamos ser amigos novamen-
pudesse voltar. Deus tinha me dado essa instrução ao aparecer di- te. Betty havia telefonado para perguntar se podia voltar para caso.
ante de mim depois de voltarmos para casa. Eu disse que sim. A família inteira sentou-se para fazer uma refeição
Estávamos ambos tensos. Ele me olhou para ver se eu estava tardia à base de pizza.
zangada. No entanto, embora estivesse horrorizada, eu sabia que a "Mas por que Betty me deixou sozinho com Mary lo e Joey? Ela
ação, contra a filha e o filho dele tinha emergido do sadismo, refor- não deveria ter confiado em mim naquela noite. Ela vira o revólver
çado por sua psicose. Ele já me havia admitido que sentia grande que usei para fazer com que eles entrassem no táxi. Mas tleixott
prazer em infligir dor. que. eu ficasse sozinho com os filhos dela. Por que Betty não pôde
- Você acredita no que está fazendo enquanto está fazendo", ex- salvar-me de mim mesmo?
plicou-me. "Você acredita que aquilo está certo. E um impulso autô- "E eu sabia que meus experimentos ortopédicos não poderiam
nomo. E uma força autônoma. E aquilo que é naquela hora. salvar-me, tampouco. Eles eram um fracasso. Se não tivessem fa-
"Mas deixe-me contar-lhe o que fiz com Joey. Tal como Mary Jo, lhado, eu não teria queimado Mary Jo. E eu fracassei, Flora. Quan-
ele tinha-se aliado ao inimigo. Mas o que fiz com ele não foi tão do me casei, aos 16 anos, dispus-me a construir uma familia. Eu ti-
drástico quanto o que fiz com Mary Jo. Retirei a cabeça de metal nha um sonho com a família. Mas ele fracassou. Eu fracassei.
de um martelo. Com o cabo de madeira, bati nas mãos, no rosto, no "Quando tinha 15 anos, Deus me instruiu para que aprendesse
corpo todo de Joey. Mas, acima de tudo, bati nos joelhos dele. A a curar a mim mesmo e a humanidade através de meus experimen-
cada golpe, eu dizia: — Para que você não fuja novamente! ' tos ortopédicos. Tentei fazer as duas coisas. Mas Ele também me or-
— Quer apostar? ele me desafiou. — Sou eu quem dito todas denou que queimasse minha filha. Eu o fiz. Depois disso, soube que
as regras. Você vai aprender, seu fodidol não poderia salvar-me. Mas soube também que não poderia salvar a
"Não fiquei surpreso. Ele estava sempre me xingando. Fazia deli- humanidade. Como poderia salvar o mundo, se não era capaz se-
beradamente coisas para me irritar e me deixar nervoso. Eu amava quer de salvar a mim mesmo? Naquela noite, decidi destruir aquilo
Joey, mas também tinha medo dele. Retirei as algemas quando fui que não podia salvar.
até a cozinha para lavar a espátula que tinha usado em Mary Jo.
"Bem", prosseguiu Joe, "libertei Joey e Mary Jo. Depois, como
já disse, fui para a loja trabalhar em minhas experiências orto-
pédicas.
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nham fracassado, Joe Kallinger tinha fracassado, Deu tinha fracassa.
do! Abjeto e deprimido, Joe deitou-se de costas no c tre. Colocou o
antebraço sobre os olhos, enquanto um tremor profu do apoderou-se
de seu corpo.
— Você nunca mais vai fugir de mim outra vez, nunca vai fugir
de mim outra vez, de mim outra vez, de mim outra vez! sussurrou
10 O Rei Despido Joe. As palavras tinham o mesmo ritmo que tiveram xatamente uma
semana antes, quando ele pressionou a espátula uente contra a
carne macia da coxa de Mary Jo. O motim no cast lo levara a um
expurgo e uma mudança no poder. A mudança levara a sua prisão
naquela noite de domingo, 30 de janeiro de 1972.
Dessa vez, não apenas Mary Jo e Joey, como ta bém Mike, ti-
nham fugido do pai. Tinham ido à Delegacia Pol cial combinada
do 24° e 25° distritos, conhecida como Detetives do este, e tinham-
no denunciado por maus-tratos contra crianças. Tin am-no levado a
ser preso e encarcerado nesse lugar que cheirava desinfetante e
ranço de suor. Pois bem, agora os três poderiam f zer o que bem
O guarda estava sentado numa grande escrivaninha sobre a qual ha- diabos quisessem! Seu castelo agora lhes pertencia.
via um pequeno abajur. Vigiava os cinqüenta prisioneiros que dor- Durante toda a semana, Joe havia levado Mar io à escola e
miam em filas paralelas de catres duros, com os pés e as cabeças ido buscá-la como de hábito, e chegara até a ter u a conversa na
voltadas em sentidos opostos, do outro lado da divisória alta de tela escola dela na segunda-feira, 24 de janeiro, o dia s guinte às quei-
de arame. maduras. Mary Jo e Joey tinham saído, tinham estad com seus ami-
Joe Kallinger sentou-se em seu catre. Olhou para o guarda atra- gos e não tinham ido ao médico para cuidar de eus ferimentos.
vés da tela de arame e não conseguiu acreditar no que via. Durante Nem uma só vez durante a semana seu pai a havia n achucado. Mas,
o dia, Joe estivera em casa, rei de seu turbulento castelo. E agora, e Joey? Bem, Joe tinha de admitir para si mesmo que, durante a
à noite, estava encarcerado num dormitório da Casa de Detenção semana, tinha voltado a algemar Joey à geladeira e o havia espan-
de Filadélfia. cado. Joe nunca tinha levado nenhum dos dois filho menores, Mikc
listou aqui porque não sou amado, disse a si mesmo. Ergueu os e Jimmy, ao porão. Mas, nessa semana, havia batid levemente em
olhos, mi esperança de que a reluzente figura alucinatória de Deus, Mike com um cinto.
que lhe dissera "Agora, Eu controlo você!", aparecesse na Casa de Joe estava horrorizado diante da traição dos ilbos, especial-
Detenção para consolá-lo. Mas o Senhor permaneceu oculto para Joe. mente a de Mary Jo. Em sua mente torturada, ela o avia descartado
A única voz que ouviu foi a de um prisioneiro próximo, resmun- não apenas como seu pai, mas também como seu amante. Ela o
gando em seu sono perturbado. havia "mandado de volta" — para uma instituição — do mesmo
Não tenho ninguém, pensou Joe. Nem filhos, nem mulher, nem modo que, quan e era criança, seus pais adotivos sempre amea-
mãe, nem pai, nem amigos, nem fregueses, nem colegas sapateiros, çavam fazer. O s vento de abandono que havia e perimentado no
nem médico, nem padre, nem Deusl Joe ouviu uma cadeira arras- Hospital St. Mary's, aos seis anos e nove meses e idade, foi o
tar-se no chão. O guarda ergueu-se da escrivaninha, acendeu um mesmo que voltou a sentir da Casa de Detenção d- Filadélfia aos
cigarro e pôs-se a andar lentamente de um lado para outro. 35 anos.
Joe entendeu que Deus estava ocupado em algum outro lugar Impossibilitado de dormir, Joe levantou-se. A dou lentamente
e já não se importava com Seu servo, a quem havia ordenado que pela estreita passagem entre as duas fileiras paralelas de catres até
salvasSe a humanidade com os experimentos ortopédicos. Eles ti- as privadas que ficavam nos fundos do dormitório. 1 las eram abar-

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era sido meu sucessor, como proprietário e gerente desse império.
tas. Embora estivesse sozinho, Joe sentia os olhares inibidores que,
Mary Jo seria advogada. Moraríamos juntos num dos subúrbios ele-
durante o dia, acreditava que iriam acossá-lo. Como se estivesse sen- gantes. Morto. Morto. Está tudo morto e enterrado!
do vigiado, e ainda sob o efeito do delírio do pênis pequeno que o Joe retirou o papel sanitário do bolso para enxugar a umidade
tinha levado a evitar os lavatórios públicos, urinou não num dos mic- rosto. Olhou longamente para o papel. Colocou-o de novo no
do
tórios, mas sentado num vaso sanitário. bolso, deixando uma ponta comprida pendendo para fora. Riscou
Ao levantar-se, percebeu que ia vomitar. Vergando-se sobre o
uni fósforo de uma caixa que havia encontrado no c;ião. Fechando
vaso sanitário, vomitou de frustração e desprezo por si mesmo. Re-
as mãos em concha, encostou cuidadosamente no papel a chama
cuperou lentamente o fôlego e refez seu trajeto pela passagem estreita. amarela e tremeluzente. Depois, acendeu a caixa de fósforos inteira,
Na tarde seguinte, estava cochilando em seu catre. Ao acor- jogou - a no bolso do macacão e esperou.
dar, descobriu num dos bolsos do macacão um maço grande de pa- Sentiu o calor na pele. Rezou por uma morte rápida.
pel sanitário. Não tinha a menor idéia de como aquilo chegara ali. — Ei, "cara", que diabo você está fazendo? gritou um dos
Teria sido uma brincadeira tola de outro prisioneiro? perguntou-se. prisioneiros. Agarrou Joe pelo braço e puxou-o para fora da cama,
Será essa a maneira como os prisioneiros fazem pilhérias? Ainda e depois apagou o fogo, que havia queimado parte do macacão. —
com o papel no bolso, Joe levantou-se do catre e andou até a tela Está tentando se matar ou o quê?
de arame. Colocou as pontas dos dedos nos fios de arame que for- Um guarda corpulento veio até Joe, que estava deitado no chão.
mavam a teia da gaiola que o aprisionava. Sacudindo levemente os
fios de metal, ocorreu-lhe que aquele era o tipo de coisa por trás
— O que é que está havendo? perguntou. — Isso aqui não é o Dia
da Independência, Kallinger!
da qual as galhinhas e os porcos eram conservados até serem abatidos. — Foi um acidente, disse Joe.
Imaginou como seus filhos reagiriam se ele fosse executado. Na — Claro! retrucou o guarda com sarcasmo, enquanto examina-
fantasia, podia vê-los, esperando ansiosamente com os demoníacos para
va os danos. — Siga-me, Kallinger. Você é uma dor de cabeça
Strongs, perto do local da execução. Eles fariam ruídos alegres e esta- os contribuintes!
riam jogando tiras de couro e cabos de martelo para o ar, com Mary Joe acompanhou o guarda, que continuou a falar enquanto eles
Jo a chefiá-los como urna líder de torcida num jogo. Ele podia ver saíam da jaula:
Joey, vingado e triunfante, com seus olhos pirracentos reluzindo de -- Acho que vamos mudar você para a frente da área, para
ódio e exaltação, e cantando, "Estou livre! Estou livre! Estou livrei". mantê-lo longe de problemas e ficar de olho em você. Entre aqui
A dor latejou furiosamente na testa de Joe. Os objetos de ambos para uma inspeção corporal.
os lados da tela de arame — o guarda, a escrivaninha, os rostos Num pequeno cômodo privado, o guarda fez sua inspeção e
dos outros prisioneiros, os catres — pareceram inflar-se como ba- não encontrou nada além da caixa de fósforos queimada. Chamou
lões. A luz do teto mudou de cor, passando do branco quente da um acadêmico de medicina para ver se Joe tinha-se queimado. Ha-
iluminação para um azul-frio e depois verde-marinho. A náusea co- via apenas uma pequena queimadura superficial na perna direita.
meçou 'a torturá-lo. Joe foi transferido para a primeira cama da primeira fileira,
Alguns minutos depois, os objetos voltaram lentamente ao ta- . que ficava mais próxima da escrivaninha do guarda, na extremida-
manho normal e a náusea cessou. A luz do teto não mudou de cor. ` de do dormitório, para que pudesse ser vigiado mais de perto. No
Joe andou até seu catre. Ignorou os outros prisioneiros. Com a dossiê de Joe o guarda escreveu: "Suicídio: Alto Risco".
dor ainda a latejar-lhe na cabeça, sentou-se no catre e olhou tristo- A primeira tentativa de suicídio de Joe ocorreu no Hospital Es-
nhamente para as janelas recobertas de barras de aço. tadual de Hazleton, em 1959. Essa era a seamda. Fora decorrente
É o fim, pensou. Tudo se acabou. As crianças mandaram-me tio que ele encarava cotrrtraição de seus filhos. Mas era tam-
prender. Minha loja vai-se embrulhar. Ficarei arruinado e falido! bém expressão da decisão que havia tomado na noite em que quei-
Minha cadeia de lojas de consertos de calçados, que eu ainda es- mou a coxa de Mary Jo. Naquela noite, ele havia decidido destruir
perava construir depois do processo que a companhia de seguros :,quilo que não pudesse salvar.
abriu contra mim por um dos incêndios da Rua Fletcher.. Joey
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a polícia os encontrou, as crianças acusaram uns p rto-riquenhos de
tê-las amarrado. Foi dessa maneira que ludibriaram a polícia e saí-
Quarenta anos! Thomas A. White, o advogado de Joe, disse-lhe ram da aventura parecendo vítimas. Essa é a idéi que eles têm de
que a sentença pelas acusações de maus-tratos a crianças poderia diversão. Estavam mentindo naquela época. E esta mentindo agora.
colocá-lo na prisão por quarenta anos. O Dr. Hoffman não tinha nenhum conhecim nto da vida pas-
A loucura que o levara a procurar refúgio num buraco, que o sada ou interior de Joe. Contudo, com base nessa breve entrevista,
fizera torturar seus filhos e desejar matar-se, já não era o inimigo. o médico como escreveu mais tarde em seu laudo, ficou convencido
Fora substituída — temporariamente — pelo Estado da Pensilvánia, de que ou Joe estava "gravemente enfermo, men almente, ou seus
com seu tribunal e seu promotor, e pelos jornais de Filadélfia, que filhos são do tipo que deu início aos processos d bruxaria de Se,
tinham denominado Joe de suposto espancador de crianças. Con- lem". Prosseguiu no exame, dizendo. — Fale-me sobre sua saúde
denado, ele passaria o resto de sua vida no xadrez. O terror do fu-
turo tornava pálidos os horrores do passado. Sr. Kallinger.
Agora, Joe queria viver. Tinha o objetivo fixo de ganhar essa — E esplêndida, respondeu Joe. — Nunca a hei que estivesse
enlouquecendo. Não tenho nenhuma história de de ressão. Gosto da
causa e redimir sua antiga vida, lá fora, do estigma que a havia
manchado desde sua prisão. Queria sair do tribunal inocentado das vida. E minha filha quem precisa de ajuda. Eu sou ima pessoa sadia
acusações e ler sobre sua absolvição nos jornais. Joe não fora indagado sobre enlouquecer, m s, mesmo assim
negara seu antigo medo da loucura.
— O senhor alguma vez já achou que tia a i uvido alguén
O guarda retirou as algemas. Joe sentou-se. Do outro lado da chamá-lo, e depois, ao se voltar, viu que não hav a ninguém?
escrivaninha, no escritório d.: Prefeitura, sentava-se o Dr. Francis H. . — Nunca! retrucou Joe. Em seu laudo, o Dr. Hoffman poste.
Hoffman, psiquiatra-chefe da Divisão Neuropsiquiatrica do Tribunal riormente escreveu que, ao negar uma alucinação ue é comum na
de Apelações Comuns de Filadélfia. Joe, que tinha estado preso por pessoas normais, o Sr. Kallinger havia traído u a "defensividade
um mês e sabia que esse era um exame psiquiátrico anterior ao paranóide".
julgamento, sentiu que, nesse escritório, estava prestes a defrontar-se — Nenhuma alucinação ou delírio? pergunt u o medico.
com um de seus inimigos. Atrás das grades por quarenta anos era a — Nenhuma.
frase que martelava em sua mente. — O senhor esteve internado no setor psiqui trico do Hospita .
— Meus filhos estão mentindo cem por cento, respondeu loa. St. Mary's em 1958, não esteve? observou o Dr. Hoffman, dando
Agora, estava pronto a negar os acontecimentos de 23 de janeiro uma olhadela num laudo que estava sobre sua mes
que tinham levado seus filhos a fazer com que ele fosse preso em — Estive lá para descansar, insistiu Joe. — Eles me puseras
30 de janeiro. Joe acreditava que qualquer coisa que dissesse num na ala psiquiátrica. Mas não me consultei com enhum psiquiatrP
exame psiquiátrico anterior ao julgamento poderia ser usada contra desde então.
ele no tribunal. Mesmo quando o Dr. Hoffman perguntou se Joe já tivera a:
— E as queimaduras e os espancamentos? j gume convulsão ou período de inconsciência, Joe não falou sobre
— Não são verdade! Minha filha está mentindo! Hazleton.
— Por favor, diga-me por que o senhor considera sua filha uma Joe falou com desembaraço sobre seu relacionamento com o
mentirosa. Com um pouco mais de detalhes, por favor. filhos. No futuro, disse, tinha esperanças de que o relacionamento
— O senhor quer exemplos? indagou Joe retoricamente, en- corresse bem. E explicou: "Quando se tem filhos, e sas coisas aconte-
quanto se inclinava para o médico. Houve uma ocasião em que minha cem". E afirmou: "Sou emocionalmente sadio e ba tante corriqueiro
filha e meu menino mais velho, Stepheil, fugiram. Fugir não é nada só que sou meio mole como pai".
incomum para eles. De qualquer modo, nessa viagem em particular, Quando o médico indagou sobre sexo, Joe se tiu-se tomado po,
eles resolveram parecer bonzinhos. Amarraram-se num frigorifico no
recordações angustiantes que o fizeram hesitar:
porão de uma casa vazia, não muito longe de onde moro. Quando
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— O senhor pode me falar sobre sua vida sexual? repetiu o aproximar-se delas e quando retrair-se; que se sentia insatisfatório e
o médico. impotente; que era atormentado pela desconfiança e despedaçado
— Minha vida sexual? Não há nada de especial nela. Casado pela tensão. Os testes revelaram ainda que suas idéias eram "mór-
aos dezesseis anos e meio, divorciado aos vinte e dois. Casado outra bidas" e que suas percepções eram primitivas. Mais uma vez, os
vez e vivendo com a atual Sra. Kallinger há treze anos. Sem proble- testes reafirmaram o que já foi assinalado aqui.
mas. Ela é uma boa esposa. Eu sou um bom marido. Um bom pro- Joe exibiu o primitivismo de um homem percorrendo a traje- ,
vedor. Nada de traição. É tudo esplêndido. toda de símbolos — como o diabo, por exemplo — que, para ele,
Joe havia ocultado lembranças cruciantes significativas. Mas, eram reais. Com os filhos, havia também demonstrado um senti-
para o ouvido treinado do psiquatra, a intensidade dc sua negativa mento primitivo do poder paterno com respeito à família. Em Joe,
e sua defensividade paranóide haviam feito do ocultamento uma os componentes do inconsciente coletivo de Jung — "os materiais
revelação em si mesmo. psíquicos racionalmente herdados e presentes no inconsciente indi
Durante a entrevista, Albert Levitt, um psicólogo clínico, ficara vidual" — pareciam estar muito mais próximos da superfície do que
sentado a um canto, ouvindo sem participar. Após a entrevista, apli- nas pessoas que não estão psicopatologicamente comprometidas. O
cou uma série de testes psicométricos e projetivos. Os testes psicomé- fato de ele cavar um buraco profundo na terra e sua obsessão com o
tricos dizem respeito à mensuração mental — a mensuração da in- fogo eram manifestações primitivas. De uma forma primitiva, ele era
teligência, de traços mentais e aptidões, e da velocidade e precisão também subterrâneo, um homem da noite e, como às vezes se referia
dos processos mentais. Os testes projetivos são usados como um ins- a si próprio, uma criatura da escuridão. Era, em suma, um anacro-
trumento de diagnóstico em que o material de teste é tão pouco es- nismo do século XX.
truturado que qualquer resposta reflete uma projeção de algum as- A morbidez revelada pelos testes era um eflexo do estado
pecto da personalidade e psicopatologia subjacentes do sujeito. En- mental doentio que se desenvolvera a partir da transformação de
tre os testes projetivos mais comuns estão o Rorschach (borrões de uma criança sensível num adulto destrutivo, que ainda preservava
tinta) e o Teste de Apercepção Temática (TAT). numa parte de si a sensibilidade precoce.
Os testes indicaram o que já foi descrito nestas páginas: que O exame de Hoffman e os testes de Levitt compreenderam umas
Joe tinha problemas causados por "dificuldades sexuais" e que havia três horas de trabalho intenso. Depois, desejando a opinião de ou
ocasiões em que não tinha certeza de ser como os outros homens. E, tro psiquiatra, o Dr. Hoffman levou Joe ao consultório do Dr. Alex
como disse Albert Levitt, "parece haver uma certa desconfiança no von Schlichten. Durante trinta minutos, o novo médico formulou a
que diz respeito à figura feminina". Joe perguntas que cobriam parte do mesmo terreno investigado pelo
A desconfiança que Joe desenvolvera no passado estava agora Dr. Hoffman. Este, que permanecera ao lado de Joe, ouviu muito
ancorada em Mary Jo, que o havia exilado de seu castelo, e tam- atentamente tudo o que foi dito. Joe foi solicitado a retirar-se en-
bém na fraqueza de Betty. Betty era calorosa, bem-humorada e afe- quanto os dois psiquiatras conversavam entre si.
tuosa, mas era também autocentrada, infantil e passiva. Não conse- O Dr. von Schlichten, que fora solicitado a verificar o traba-
guia disciplinar as crianças e, quando elas se machucavam ou adoe- lho dc seu chefe, o Dr. Hoffman, concordou em que os maus-tratos
ciam, ficava histérica. Como disse foey no tribunal, "Quando a às crianças de que o Sr. Kallinger fora acusado provavelmente haviam
gente se corta e está sangrando, mamãe fica correndo em círculos ocorrido, e se enraizavam em sua doença mental. A descoberta im-
enquanto a gente sangra". Ela se apoiava em Joe e não percebia a portante, no que concerne a esses exames, foi que o Sr. Kallinger
necessidade, como ele disse, de "salvar-me de mim mesmo". Joe era estava gravemente doente. - Essa descoberta foi reforçada pelos re:
o
a força dominante na família, em parte por sua própria inclinação, sulfadOs ddlies-tei'de - Albert Levai. Observando a diferença entre
mas também porque o retraimento e a passividade de Betty for- Joseph Kallinger interno e o externo, Levitt assinalou que seu "pen-
çavarr-no à dominação. samento manifesto tende....a. ter características ,paranóides e defensi-
Os testes também revelaram que Joe só conseguia estabelecer virrele estar funcionando num estado patológico que tal-
contatos superficiais com as outras pessoas e que não sabia quando afirmou tara-
v-éi corresponda a uma grave doença mental". Levitt

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Depois, rígido
sacudia os braços, agitando-os em todas as direções.
nas grades da cela, apontou para a parede
bém que o estado do Sr. Kallinger "acumula pressão no sentido de de medo encostando-se
do fundo e vociferou, "Ele está aqui de novo!
fazer algo grave". acovatielaua.
O Dr. Hoffman escreveu ter concluído, com a assessoria do Dr.1' — Quem? sussurrou Joe para a figura
braço est ndido, o tronco
Von Schlichten, que, "no momento, o Sr. Kallinger deve ser encaradc.' Na escuridão, Joe mal podia ver o pés erguido e
como sofrendo de um processo esquizofrênico, provavelmente de tipó contra as grades, com um d s
gordo espremendo-se contra ri
elas, como se o brame enfurecido qui-
paranóide". pronto para disparar
Cada um dos médicos, sob juramento, assinou um documento sesse impulsionar-se para fora da cela.
Na janela. Ele está entrando pela janela, grunhiu c
separado, classificado como "certificado médico", onde se afirmava — Olhe!
que Joseph Kallinger era "mentalmente enfermo" e deveria ser ava- homem.
Joe olhou para a parede dos fundos. Viu apenas o concreto
liado em termos de um "processo/ esquizofrênico e periculosidade".
pepois, ergueu rapidamente os olhof, como que pare
Em março de 1972, HoffmanjSon Schlichten e Levitt. chegaram frio da prisão. que a clarabóia inclinada do teto, It única janela dl
basicamente ao mesmo diagnóstico que seria feito, mais tarde, pelo certificar-se de
Dr. Silvano Arieti (em 22 de fevereiro de 1980 e em 9 de março cela, ainda estava lá.
Joe voltou a olhar para o homem gordo. Corria um animal en-
de 1981), assim como pelo Dr. Lewis Robbins (em 11 de dezembro
de 1981, no quadragésimo primeiro aniversário de Joe). Tanto o jaulado e assustado que desejasse fugir, ele começou a mover-se dr
em passadas rápidas, mas trôpegas, de uma
Dr. Arieti quanto o Dr. Robbins tiveram o benefício do conheci. um lado para outro,
mento dos fatos biográficos aqui apresentados. Os examinadores da outra extremidadedas grades. A cela tinha apenas ,75m por 3,65m
duplo em cada parede lateral, seno o espaço entr.
Prefeitura, no entanto, nada sabiam sobre a biografia de Joe. E os com um beliche , os movimento.
resultados foram os mesmos. Retrospectivamente, o Dr. Arieti deter- ele apens a da larura de um dos e ic
das grades, comse u peso chocando-se contra ela
minou que, na época dos exames da Prefeitura, a psicose de Joe já dos gordo ao longog
estava em franca operação: Joe já era psicótico antes de cometer um ao deslocar-se de um lado para outro, fizeram JOe pensar que e'
só de seus atos criminosos , inclusive os maus-tratos aos filhos, pelos enjaulado num zoológico.
próprio estavaconseguia ver o rosto do homem gord e não sabia se
quais, na época dos exames na Prefeitura, estava aguardando julga- Joe não superior, aci a do homem er
mento. prisioneiro que dormia no beliche
Os médicos da Prefeitura afirmaram que Joe não era compe- furecido, estava acordado. o gordo percorreu re etidamente a ce'
tente para ser julgado, e deveria ficar em observação durante ses- Afastando-se das grades,
longitudinal. Suas palavras tornara -se incompreens•
senta dias na Unidade Forense Estadual de Segurança Máxima, que no sentido ndo sua fúria ei.
era o Bloco F da Prisão de Holmesburg, para uma avaliação mais veia. Joe percebeu que o homem estava express
espanhol. Mas uma das palavras, repetidamente enunciada de m
pormenorizada. uda, era falada em inglês. A palavra
nitra ag . era urso.
o delirava de te
Quase todas as noites, o jovem porto-ruiu
ror a respeito do urso. Aqui eles têm tudo que se pode imagina'
Tal como os braços de um polvo, o Bloco F e os demais blocos Joe. Toda sorte de birutas, como esse tomem que vê ui
de celas na Prisão de Holmesburg partem de um grande vestíbulo observou
urso. Todos os tipos de criminosos. Também t m assassinos agi
circular central. Abrigando prisioneiros que estão sob observação Esse "cara" que vê o urso atirou seu bebê pela anela. Seu própri
psiquiátrica, o Bloco F é uma mistura de prisão e hospício. imaginar que Joe Kallinger iria er despejado jun
Por volta das onze horas de sua primeira noite no Bloco F, em filho! Quem iria
6 de março de 1972, Joe foi despertado por um grito. Ao abrir os com assassinos?te físico também deprimia Joe. le precisava ajo
olhos, viu um de seus dois companheiros de cela, um prisioneiro O ambien da cela, emba i
grande, gordo e pesado, de aproximadamente trinta anos, com lon- lhar-se para se lavar sob uma torneira na pared r água quen te, lc
no chão. Para consegu i
gos cabelos negros e desalinhados, saltando para a frente e para trás, da qual havia um balde
de uma ponta à outra da cela, como um macaco louco. O homem 1"
tinha que andar desde sua cela até o chuveiro. Uma prateleira de cario de que Kallinger pudesse funcionar como um pai e marido emo-
madeira numa das paredes da cela fervilhava de baratas. cionalmente sadio. Kallinger não era capaz de lidar com seu meio
As baratas compartilhavam até mesmo a comida dos prisio- ambiente ou com seus filhos e, de acordo com um laudo de Char-
neiro. Joe, que sempre gostara de uma disputa legal, quis processar les Gallun, um orientador da instituição, tampouco a Sra. Kallinger
a instituição. Soube, porém, que outros internos haviam instaurado podia fazê-lo. "A julgar por todas as aparências", escrevera Gallun
um processo contra Holmesburg no ano anterior e que o caso es- no relatório para o Dr. Jablon, "a Sra. Kallinger parece vir sendo -
tava pendente.
uma mãe bastante insatisfatória. Relata-se que é totalmente subser-
Ele se indagou também o que poderia fazer acerca do homem viente ao Sr. Kallinger e não assume nenhuma responsabilidade pela
que via o urso e que quase fez com que Joe e o outro companheiro família". Os relatórios do pessoal da escola, bem como de psicólo-
de! cela o vissem também. Denunciar o sujeito? Mas, aqui, espera-se gos e psiquiatras,haviam indicado claramente que, tal como Gallun
que os homens sejam birutas. E por isso que estão em observação. os resumira, "a mãe é uma pessoa extremamente fraca, que abdica
Joe pensou amargamente que ele também era tido como "biru- de suas responsabilidades e da tomada de decisões em favor do
ta". Por isso estava aqui. Mas não pensava em si mesmo como biruta marido".
e não ligava suas alucinações às do homem que via o urso. "Ao que parece", escreveu o Dr. Jablon em seu relatório de 9
A maior parte do tempo, Joe queria estar fora desse lugar, onde de maio de 1972, "seria muito importante incluir o Sr. Kallinger
\u' os homens apanhavam e eram acorrentados, e ficar livre; mas ha-
numa terapia de família, caso ele seja libertado do cárcere. Parece
via ocasiões em que o impulso suicida também era forte, ocasiões também imperativo que, com base no que soubemos sobre a situação
em que ele tinha sonhos e fantasias sombrias sobre os filhos que o familiar, todos os membros da família devem ser incluídos na tera-
haviam aprisionado. pia. Espera-se que o tribunal possa fornecer os meios para que
Joe soube por Thomas A. White que o exame da Prefeitura fora esses planos sejam postos em prática".
prejudicial, isto é, prejudicial para a volta de Joe para sua casa. O Dr. Jablon também observou,em seu relatório, que o Sr. Kal-
Mas White, que era também advogado de Harry Comer, disse igual- linger estava sofrendo de atitudes paranoides, envolvimento esqw-
mente que ele e Comer tinham esperança de que as constatações da zoide, "pelo menos os priniórdi6s de um distúrbio do pensamento",
Prefeitura fossem derrotadas em Holmesburg. - pensamentos não-realistas e um estado que sugeria psicopatologia. O
Dr. Jablon escreveu ainda que as reações emocionais de Joe não se
A avaliação de Joe em Holmesburg, no tocante ao processo es- relacionavam com a situação em que ele se encontrava, que ele dava
quizofrênico, à periculosidade e à competência para ir a julgamento, risinhos inapropriados, que havia algo de evasivo nele, e que pro-
coube ao Dr. Norman C. Jablon, chefe da unidade forense de diag- jetava a culpa nos outros.
nóstico. Desde 1965 ele vinha avaliando prisioneiros em termos de Após observar esses sintomas, que estão relacionados com a
sua competência para irem a julgamento e de sua classificação com psicose, o Dr. Jablon diagnosticou Joe como não-psicótico — como
respeito aos distúrbios psiquiátricos reconhecidos: neurose, psicose sofrendo de uma "personalidade inadequada", que é uma das sub-
ou distúrbios de personalidade. divisões dos "distúrbios da personalidade:I. Apes.'r dos sintomas, o
Ao fazer a avaliação final de Joe, o Dr. Jablon referiu-se ao dos- Dr. Jablori Info-Thin– a-o tribunal: "Não' há razão para esperar que
siê que os psicólogos da equipe haviam preparado sobre Joe, sua Joseph Kallinger precise de institucionalização ou de tratamento hos-
mulher e seus filhos. O médico dispunha também dos relatórios das pitalar no momento atual". O médico também declarou Kallinger
investigações policiais, de registros das varas de família e do dos- competente para ir a julgamento.
sie médico de Joe, inclusive as constatações de Hoffman, Von Schlich- — Do ponto de vista do diagnóstico, explicou o Dr. Jablon, o
ten e Levitt. Pode-se presumir que lá estivesse também o registro Sr. Kallinger não apresenta um quadro bem definido, O médico ra-
da tentativa de suicídio de Joe na Casa de Detenção de Filadélfia. ciocinou, conforme seu testemunho- posterior no' tribunal, que o Dr.
Com base em seus próprios exames de Joe e nos relatórios so- Hoffman e o Dr. Von Schlichten também não tinham tido certeza.
bre a; família, o Dr. Jablon concluiu que havia um prognóstico pre- Se a tivessem, sustentou o Dr. Jablon, poderiam ter submetido o
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Os médicos da Prefeitura inham enca-
minadores da Prefeitura.
laudo final de que Kallinger não era competente para ir a julgamen- Joe à divisão do Dr. Jablon para um diagnóstico baseado
minhado
to, e poderiam ter recomendado que ele fosse encaminhado a um
em estudos mais pormenorizados. para a
hospital estadual para fins de tratamento. Em vez disso, tinham en-
— Eu tinha certas garantias de que não seria mandado
caminhado Kallinger para uma avaliação diagnóstica. prisão, disse-me Joe. — O Juiz Robert Williams fora o juiz original,
O Dr. Jablon explicou também ao tribunal, no julgamento, que mas meus amigos conseguiram fazer com que o caso fosse julgado
seu diagnóstico fora menos grave que o dos Drs. Hoffman e Von pelo juiz Edward J. Bradley. "Sei como trabalhar com Bradley", dis-
Schlichten. "Em geral", disse o Dr. Jablon, "a avaliação feita na se-me meu advogado. Eu sabia que o advogado saberi como traba-
Prefeitura é mais grave do que a de Holmesburg". Explicou ainda com
que a razão disso "é que o exame da Prefeitura é efetuado mais lhar com o juiz Bradley, porque Harry Comer poderia rabalhar
Democrata,
Michael Bradley, um poderoso líder distrital do Partido
perto da data da detenção do prisioneiro, quando as tensões e que era pai do juiz. Meu advogado veio visitar-me no Bloco F uma
pressões são maiores". Passou despercebido o fato de que os sinto-
semana antes do relatório de Jablon de 9 de maio de 1972. Ele
mas que são mascarados em outras ocasiões podem vir à tona nos esse atraso
estados de tensão e pressão. Também despercebido passou o fato de disse que haveria um atraso na ida ao t ribunal, mas q e
Garantiu-me que eu estaria de volta em
que, em outubro de 1972, sete meses depois de examinarem Joe pela funcionaria a meu favor.
minha loja antes que as aulas recomeçassem, para pega o serviço da
primeira vez e cinco meses após a avaliação de Jablon, os Drs. Hoff-
man e Von Schlichten efetuaram um segundo exame. Sua nova con- volta à escola.
clusão foi: "Continuamos a considerar que Joseph Kallinger sofre O que de fato aconteceu não é muito claro. Con udo, Deborah
ntou-me que
de uma grave doença mental". Glass, uma promotora pública assistente do caso,
fora avisada de que o caso era "urna espécie de batata quente, e
que
Eles recomendaram que Kallinger fosse internado no Hospital
Estadual de Filadélfia, para evitar uma repetição do comportamento o Juiz •Bradley estava predisposto a libertar aquele h mem (Kallin-
que tinha levado às acusações de maus-tratos a crianças. ger) sob fiança". O Juiz Bradley recusou
- se a ser entr vistado sobre
O "distúrbio da personalidade" é um dos diagnósticos psi- esse assunto, e a administração do tribunal impedi - me de entre-
(Eles tinham
quiátricos reconhecidos. Embora menos grave, pode ter muitos dos vistar os Drs. Alex von Schlichten e Albert Levitt.
1 traços de uma psicose. No caso de Joe, era incorreto, não apenas em feito parte da equipe que diagnosticou Joseph Kalli ger como so-
termos de seus sintomas, como também de seu comportamento co- frendo de uma grave doença mental e que recomendo que ele fosse
a
tidiano. Muito embora fosse psicótico, ele tomava as decisões na hospitalizado). Depois de o Dr. Von Schlichten ter combinado
tribunal
família, era o genitor mais forte e era altamente eficiente em seu entrevista comigo, um funcionário de relações públic s do
trabalho de sapateiro. Na verdade, era o que os terapeutas de famí- telefonou-me cancelando a entrevista. O Dr. Von Schl chten e Albert
veram alterna-
lia chamam "superajustado", dominador e onipotente em sua esfe- Levitt, que estavam ansiosos por falar comigo, não t
ra especial — um rei, tanto na ação quanto na fantasia. Não foi tiva senão obedecer à decisão administrativa.
uma inadequação o que o fez queimar a coxa de Mary Jo ou o Se Harry Comer deu- se ao trabalho de fazer alga por Joe,
que, na Casa de Detenção de Filadélfia, levou-o a tentar matar-se. podemos presumir que tenha sido por causa de sua onga amizade.
Esses atos decorreram do que Hoffman, Von Schlichten e Levitt à loja e à casa
O escritório legislativo de Comer ficava em frente
haviam caracterizado como a instalação de uma grave doença men- de Joe, e Comer o conhecia desde a época em que A na Kallinger o
tal e da psicose que o Dr. Arieti diagnosticou como francamente ex- levou para casa pela primeira vez, trazendo-o do St. Vincent's. Co-
pressa entre 1969 e 1972. sobre o caráter de Joe no process por incêndio
mer testemunhara zes de Comer
Joe, ainda lutando contra a possibilidade dos quarenta anos por culposo de que Joe foi absolvido. Pendurando cart
do
trás das grades, dissera ao Dr. Jablon, "Quero voltar ao meu traba- em sua loja de consertos de calçados, Kallinger bat a na tecla
lho". O médico lhe respondeu. "Esse é o espírito certo". Joe achou candidato com os fregueses e, em geral, auxiliava nas campanhas elei-
que o Dr. Jablon estava do seu lado e sentiu-se triunfante pelo fato torais de Comer. Os dois homens se ajudavam mutÀamente.
de as constatações de Holmesburg terem posto de lado as dos exa-
187
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O Juiz queria dizer que não estava preocupado em punir Kal-
Na manhã de terça-feira, 6 de junho de 1972, Joe sentou-se ii-iger, e que o problema real estava em fazer o que fosse melhor
numa balinha do sexto andar da Prefeitura, esperando pelo início para todos os membros da família Kallinger.
de seu julgamento. Através do antiquado corredor, com seu teto alto, O Juiz assinalou que Kallinger não havia ameaçado ninguém
pôde ver três figuras, uma atrás da outra. A primeira era emproada exceto sua família, e que "toda a relação familiar" era mais impor-
e arrogante, a segunda, bem contornada e graciosa, e a terceira, flexí- tante do que saber se Kallinger deveria ou não estar na prisão. O
vel e de movimentos ágeis. Joe reconheceu Joey, Mary Jo e Mike. juiz disse também que se sentiria mais esperançoso acerca de man.
Al uns minutos depois, seus filhos reapareceram diante da por- ch.r Kallinger para casa se Joseph Jr. e Michael não estivessem lá.
ta abar a e espiaram para dentro do aposento. Joe lhes sorriu, mas (Mary Jo estava morando com os avós maternos). Entretanto, antes
eles 'lã/ retribuíram o sorriso. Estavam cochichando entre si e dando de tomar uma decisão sobre reduzir a fiança de Kallinger ou senten-
risinhos, e pareceu a Joe que, olhando para suas algemas, estavam-se ciá-lo, o juiz ordenou que o Escritório da Promotoria efetuasse, atra-
regozijando. Por três vezes, voltaram para olhar e regozijar-se diante vés do Departamento de Bem-Estar Público, uma investigação minu-
do rei a quem haviam destronado. ciosa da família Kallinger.
— Senti que eu não era prisioneiro do Estado, e sim das crian- A fiança estipulada no dia da prisão de Joe fora de 75.000
ças, diste-me Joe. — Eu tinha passado a vê-los como deuses, deu- dólares por todas as acusações. Na verdade, na Pensilvânia, um réu
ses tota s. Eles tinham poder sobre mim. Eu os temia. pode sair sob fiança pagando 10% do total estabelecido. Contudo,
Detz minutos depois de Joe ver os filhos, começou seu julga- sem possibilidade de levantar 7.500 dólares, Joe fora levado para
mento. a Casa de Detenção de Filadélfia. Agora, voltava para a Prisão de
Joe alegou inocência e dispensou o julgamento por um júri. O Holmesburg para aguardar "a melhor solução possível".
Juiz Bradley relembrou-lhe seu direito a tal julgamento e disse que
ele ainda poderia tê-lo. Mas Joe retrucou, "Meritíssimo, eu gostaria
de colocar-me em suas mãos". A audiência sobre a fiança ocorreu em 24 de agosto de 1972.
O deputado Harry Comer, testemunha do caráter de Joe, tes. A investigação ordenada pelo Juiz Bradley não havia produzido ne-
temunhOu sobre sua "excelente reputação" e sobre o fato de que os nhum resultado: a notificação fora para o órgão errado, e as pes-
soas erradas tinham sido intimadas. Em vez de ser encaminhado para
filhos d Kallinger mantinham a vizinhança em "permanente tumul-
a Cidade de Filadélfia com base na assistência à criança, o caso de
to". LeMbrou que havia aconselhado Kallinger diversas vezes a tirar
Kallinger fora posto nas mãos do Estado da Pensilvânia como uma
a loja de casa, "por causa das interrupções contínuas das crianças e
de outras pessoas do lugar". questão de assistência social.
Thomas White, o advogado de Joe, insistiu em que a confu-
Como testemunhas pelo Estado da Pensilvânia, Mary Jo, Jo- são fora uma tentativa deliberada por parte do promotor, Arlen
seph Jr e Michael Kallinger lidaram com os acontecimentos já des-
Specter, de manter Kallinger na prisão.
critos. Se a confusão foi deliberada ou não, a prisão era onde a pro-
O juiz decretou que, com respeito a Mary Jo, Kallinger era motoria queria que Joe permanecesse. Tal como os velhos Kallingers,
culpado, de crueldade para com uma criança e de agressão com agra- promotoria não pensava em Toe como "doente", e sim como "ruim".
vantes; não era culpado, porém, de agressão com intenção de mu- No julgamento (6 de junho de 1972), quando o Juiz Bradley
tilar. No caso de Joseph Jr., Kallinger era culpado de crueldade, e disse que Kallinger tinha sido perigoso apenas para sua família, Ja-
não de crueldade com agravantes, e de agressão simples, e não de mes Bryant, um promotor assistente, discordara. Citara um caso de
agressão com agravantes e com intenção de mutilar, como fora acu- crueldade contra a criança envolvendo Pasquale Munio. O menino ti-
sado. M acusações de Michael Kallinger foram rejeitadas. nha jogado cascas de laranjas na loja de consertos de sapatos de
Jofora considerado culpado da maioria das acusações. Mas o Callinger. Joe tinha corrido atrás de Pasquale com um revólver. O
Juiz Br dley explicou: "Neste ponto, a questão não é tomar medi- mso, que deveria ter sido levado em maio de 1971 ao Juiz Glan-
das neg tivas. Trata-se de buscar a melhor solução possível".
189
188

1LF
cLc)
ou da colocação de Kallinger num hospital _psiquia_tri Juiz Brad-
cey, do Tribunal Municipal de Filadélfia, fora arquivado porque lexiesistitkk argumentação deli: —
Kathryn Munio, a mãe de Pasquale, que havia apresentado a queixa, Disse o Juiz Bradley: "... salvo por episódi•s do tipo pelo
não compareceu à audiência. qual o Sr. Kallinger está agora indo a julgamento, as rianças saem-se
O Juiz Bradley não dispunha dos dados de que considerava melhor quando ele está em casa do que suando não está,
precisar para tomar uma decisão bem fundamentada sobre estipular em termos do fato de que ele realmente provê um meio de subsis-
uma fiança ou sentenciar Joe. Adiou a sentença, mas disse que toma- tência e também em termos do fato de que ele >fetivamente ofe-
ria uma decisão sobre a fiança nessa audiência. Deborah Glass, a rece alguma forma de orientação, que, de outra for a, estaria com-
promotora assistente que chamou Joe de " el6gio andante", pletamente ausente. A pergunta é, deve a prescriçã•legal ser a de
opôs-se à redução da fiança. O juiz perguntou a Betty altinger se ela afastar o Sr. Kallinger ou permitir-lhe que permane a em casa? Co-
gostaria de que a fiança fosse reduzida para que seu marido pudesse mo disse, não estou de modo algum convencido •e que afastá-lo
voltar para casa. Depois que ela respondeu afirmativamente, o Juiz traga alguni beneficio para as crianças ou a situação doméstica geral.
Bradley reduziu a fiança por todas as acusações para 5.000 dóla- Não há dúvida de que ele é, em termos econômicos um bom prove-
res. Uma condição imposta foi a de que o Departamento de Sus- dor em casa. De outra forma, as crianças, a mãe toda a família
pensão Condicional da Pena do tribunal supervisionasse Joe enquan- não teriam qualquer apoio e, aparentemente, as crianças recebe-
to ele estivesse solto sob fiança. riam menos orientação do que recebem quando e está em casa.
Sou levado a concluir que a prescrição deve ser d tal ordem que
permita ao Sr. Kallinger permanecer em casa, pro ando o sustento
Em 17 de janeiro de 1973, depois de estar em casa sob fiança e o apoio de sua família".
há cinco meses, Joe compareceu ao tribunal para ouvir a sentença.
Teve a sentença suspensa com relação a Joseph Jr. Quanto à quei-
madura feita na coxa de KarLjo, foi sentenciado a quatro anos A cada momento crítico da vida de Joe em q e a intervenção
com sursis para tratamento psiquiátrico. Foi solicitado a cralSáte- psiquiátrica teria sido possível, ela não ocorreu. Q ando tinha quin-
cer ao Centro Comunitário de Saúde Mental do Hospital Episcopal.
Após uma entrevista que durou cinco minutos, o entrevistador disse
ze anos e deu as primeiras mostras de movimentos •erpenteantes, de
um riso bárbaro que provinha da barriga e de ouros sintomas de
a Joe que nada havia de errado com ele. Joe comunicou isso ao fun- doença mental, Anna Kallinger, em vcz de levá-lo a um psiquiatra
cionário encarregado de fiscalizá-lo, que escreveu uma carta ao Cen- deu entrada numa queixa de incorrigibilidade. A•s 22 anos, Joe
tro Comunitário de Saúde Mental e obteve a mesma resposta. Esse fora hospitalizado no pavilhão psiquiátrico do Ho pitai St. Mary's
foi o término da orientação psiquiátrica para Joe, mas ele conti- mas os psiquiatras de lá não viram nenhum sinal e doença mental
nuou em liberdade
— condicional) grave.
A "melhor sanção possível" teria sido que Joe, que era psicó- No Hospital Estadual de Hazleton, onde Toe esteve em estado
tico e perigoso por causa da psicose, fosse colocado num hospital de amnésia e tentou o suicídio, os médicos realme te recomendaram
psiquiátrico para tratamento. Os Drs. Hoffman e Von Schlichten, ao nenhuma medida foi t macia pelo pró
um -alOinpanhamerit6, Mis-
fazerem um exame de Toe antecedente à sentença, quando ele estava prio Joe ou por qualquer outra pessoa próxima • ele. Quando os
sob fiança, haviam reafirmado suas observações originais. Essas ob- médicos da Prefeitura diagnosticaram pela segunda vez a gravidade.
servações nunca foram enviadas ao Centro Comunitário de Saúde da psicose de Toe e recomendaram a hospitalização essa hospitaliza
Mental. Os dois psiquiatras haviam sugerido especificamente que ção não ocorreu.
Joe fosse enviado ao Hospital Psiquiátrico Estadual de Filadélfia. O Em 1972 e 1973, Joe tinha uma probabilida e razoavelmentL
Juiz Bradley poderia ter agido com base não no diagnóstico do Dr. sicose através da
boa de melhorar otu-,-43 elo menos, de controlar sua negada porque o
Jablon de que Joe não era psicótico, e sm no segundo laudo de Essa oportunidade lhe foi
t . inediOrõãt e da t rap a.
on Schlichten-Le
Hoffman- Von Schlichten de que ele o era. Contudo, na época da sen- Juiz kadley ignor kt, c:1 segundo laudo de Hoffman-
tença, enquanto Deborah Glass defendia a tese do encarceramento 19.
190
vitu recomendando a hospitalização e, em vez disso, baseou-se' no
laudo do Dr. Jablon, que afirmava que "Não há razão, entretanto,
par esperar que (Joseph Kallinger) precise de institucionalização ou
detratamento
' hospitalar
, no momento atual por motivos psiquiátri-
cos . O Dr. Jablon efetivamente recomendou que, se Kallinger fosse ;;
libertado da prisão, ele e a família deveriam fazer terapia familiar.
As conseqüências das conclusões do Dr. Jablon contra a hospi-
talilação ou o tratamento hospitalar foram ainda mais lastimáveis na
11 Os Deuses Totais
medida em que ele próprio havia assinalado, em seu relatório de 9
de maio de 1972, alguns dos sintomas de psicopatologia grave, e
tinha escrito que, "Do ponto de vista do diagnóstico, o Sr. Kallinger
não apresenta um_quadro bea_definldo"."Ad —fitierlidffro t stico
dr'rpersonalidade inadecdida", o Dr. jablon citou sintomas que
erarri psicóticos ou, pelo menos, pr±psidtkos. Entre esses sintomas
estata -515thsamento digressivo e semelhante ao autista.
'Anexa ao próprio diagnóstico estava a observação de que "A
tendência dele (Joseph Kallinger) ao retraimento e sua incapacidade
de edcpressar hostilidade, mesmo quanfo —Isso--seriamproglido, su- "O guarda caminhou a meu lado na saída da prisão, em direção ao
portão principal, onde Betty estava esperando. O sol estava quente
gereM um comprometimento esquizóide. Suá *evisivarerageradas
e brilhante, mais quente e mais brilhante do que eu me lembrava.
e-sua- desconfiança si:gere:1i algifiria's atitudes paranóides". E o Dr.
Jablón escrevera: "E precário o prognóstico de que esse paciente Não sou exatamente maluco por sol, Flora, é brilho demais para um
homem subterrâneo como eu; mas as luzes no interior da prisão são
seja capaz de funcionar como um pai e marido emocionalmente
sadid". fracas, e a luz do dia não penetra muito pelas estreitas janelas co-
bertas de grades; depois, há também aquela escuridão interior com
O diagnóstico de Jablon de que Joe não era psicótico e estava
que um prisioneiro convive, quase como se sua alma tivesse sido
sofrendo de um distúrbio de personalidade iria estabelecer um pa-
armazenada junto com suas roupas e outros pertences pessoais.
drão de diagnóstico para o qual muitos psiquiatras posteriores con-
"Naquela manhã, em 26 de agosto de 1972, Betty fora até a
correram e que, mais tarde, os promotores usaram em seu benefício.
Prefeitura pagar os 10% dos 5 mil dólares para os quais o juiz
Em 1976 e 1977, o próprio Dr. Jablon iria repetir e defender publi-
Bradley tinha reduzido minha fiança de 75.000 dólares. Tudo o que
camente seu diagnóstico original de que Joe era sociopata.
Betty precisou fazer foi pagar 500 dólares. Agora, na parte da tarde,
ela iria levar-me para casa.
"O portão se abriu. Apertei a mão do guarda, que me desejou
'Flora", disse-me Joe ao olhar-me com tristeza por sobre a mesa
boa sorte. Ele sorriu e, de repente, pareceu humano, não mais como
de madeira cheia de marcas na enfermaria da Cadeia do Condado de
um guarda; foi a primeira vez, acho, em que vi alguém sorrir em seis
Camden, "em Holmesburg, alguma coisa realmente profunda estava
meses e vinte e seis dias.
acon ecendo dentro de mim. Na época, eu não tinha realmente cons-
"Minhas próprias roupas pareciam estranhas em mim quando
ciêndia do que era. Não sabia quão longe aquilo iria."
Betty e eu nos abraçamos. Eu tinha esquecido como era o contato das
roupas de uma mulher em minhas mãos, e como é suave e limpa a
pele de uma mulher para o tato. Minhas mãos tinham estado matando
baratas a tapas, girando torneiras sujas das bicas d'água, puxando
cobertores ásperos sobre meu corpo no colchão duro — não há
nada de doce e feminino no xadrez.
192
193
tar e estalar nas frias paredes de pedra, o baque surdo de punhos nos
"Betty e eu entramos no ônibus para ir para casa. Os assentos corpos dos prisioneiros, portões que se fecham com estrondo.
macios e o movimento para longe da prisão eram agradáveis. Aper- "Tudo em minha loja estava exatamente como eu havia dei-
tei a mão de minha mulher. Estava de volta 'à rua'. Estava livre! xado, exceto que não havia sapatos de fregueses. S m eles, minha
"Mas será que eu estava livre? A medida que fomos rodando, loja era como uma boca sem dentes. Na prisão, eu ti ha escrito uma
observei as pessoas andando, entrando e saindo das lojas, simples- carta promocional sobre um serviço de consertos d - calçados com
mente cuidando da vida delas. Aquilo era agradável. Mas aí, co- recolhimento e entrega a domicilio. Mandei quinhe tas cópias mi-
mecei a pensar sobre minhas coisas — minha loja de consertos de meografadas de minha carta aos escritórios de adv gados, juizes e
calçados — e o prazer se congelou em medo. Eu só estava solto serviços legais de toda a cidade. A carta dizia que o Serviço Rápido
sob fiança. Meu sonho tinha sido sair do tribunal do Juiz Bradley Kallinger de Consertos de Calçados com Recolhime to e Entrega a
inocentado das acusações, mas isso não acontecera. Os jornais ti- Domicílio apanharia e entregaria os sapatos nos esc itórios no mes-
nham imprimido que eu fora considerado culpado da maioria das mo dia.
acusações. Eu era um criminoso! "Quando voltei para casa, alguns pedidos já h: iam pingado e
"Eu mal podia acreditar. Eu, um criminoso? Eu tinha 36 anos. eu estava esperançoso. No início, Betty teria que idar dos reco-
Nunca fora preso antes. Não era como os homens que tinha encon- lhimentos e entregas; depois, eu pretendia arranjar um caminhão e
trado na prisão. A vida deles estava repleta de crimes. Não, o cri- um entregador. Mas pensei muito sobre o trabalho, porque um pin-
me era a vida deles! ga-pinga não é a mesma coisa que uma avalancha d- pedidos. ',em-
"Tinha que pensar em alguma coisa que modificasse o veredito
de culpa, senão os fregueses permaneceriam afastados e meu negó-
-bre-se, Flora, de que eu era um criminoso, e portan o pensei muito
em como retirar esse estigma.
cio ficaria arruinado. Ninguém quer fazer negócios com um cri- Joe decidiu que, para conseguir isso, precisav de uni plano
minoso. E, embora ainda faltassem cinco meses para a data da mi- se envolvesse
,I P poderoso, O plano teria boa probabilidade de êxit
nha sentença, eu poderia ser mandado de volta para o xadrez a Joey, Michael e Mary Jo, a quem ele chamava "os de ses totais", por-
qualquer momento se não ficasse limpo, ou se meus garotos fizessem que haviam superado o rei do castelo ao mandá-lo ara a cadeia.
outra queixa contra mim.
"Betty voltou para a casa dos pais dela no dia em que me le-
vou para casa, como tinha dito ao Juiz Bradley que faria. Era lá Joe sentiu-se destronado ao sentar-se sozinho n sala do castelo
que Mary Jo estava morando; e Joey, Mike e Jimmy também iriam depois que Betty foi embora para a casa dos pais. Tinha medo de'
ficar por lá até que as aulas recomeçassem. Eu estava furioso porque Joey e Mike, tal como eles sentiriam medo dele q ando, ao volta-
iria ficar sozinho durante a primeira semana e meia depois de voltar rem com Betty, entrassem temerosos na casa, and ndo nas pontas
para casa. Mas não havia nada que pudesse fazer. dos pés. Com Joey, o pai estava também zangado, ois recebera em
"Sentei-me em minha loja e pensei muito sobre como fazer meu Holmesburg cartas anônimas que diziam como Joey estava saquean-
negócio tomar impulso. E voltei a familiarizar-me com todas as mi- do o depósito de East Hagert Street.
nhas ferramentas e máquinas. Não tinha esquecido como usá-las, a Joe viu entrar sua mãe adotiva, agora com 7 anos. Quando
velha habilidade ainda estava em meus dedos, e senti prazer em to- ele assumiu o negócio de consertos de calçados e a casa da esquina
- car minhas ferramentas como se fossem velhos amigos, em voltar a das ruas East Sterner e North Front, Anna e Ste ' hen mudaram-se
saber tudo sobre elas. Liguei o acabador, voltei a sentar-me e fi- para a casa que possuíam ao lado, no n" 102 da Ea t Sterner Street.
quei simplesmente ouvindo sua música, uma música que eu não O contato que Joe mantinha com os velhos Ka lingers permane-
ouvira em seis meses e vinte e seis dias: o gemido do motor elé- cera intenso; quanto à influência que exerciam so ce ele, de modo
trico, o silvo da correia de transmissão, o eixo girando em seus ro- geral, ela se enfraquecera. Eles o haviam adotado para herdar seu
lamentos. A música da prisão não se parece com nenhuma outra coi- negócio e cuidar deles na velhice. Ambos os pro ósitos tinham-se
sa do mundo: são os sons do Caos e da Noite Imemorial — guardas realizado. O negócio era de Joe e depois de apos ntar-se, Stephen
dando ordens ásperas, resmungos e pesadelos gritados, sons de arras-
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19=1
freqüen emente o ajudava no trabalho de consertar sapatos. Joe e lhor sapateiro que fosse, ele era também um criminoso, e isso es-
Betty cuidavam dos velhos Kallingers quando eles adoeciam e eram-
tava retardando a recuperação dos negócios. Joe olhou para as pra-
lhes prestativos também em outros aspectos. Stephen falecera em
teleiras onde empilhava os sapatos a serem consertados, Estavam
1971 e, no instante de sua morte, Joe estava friccionando os pés
quase vazias, exceto por um par de sapatos de um juiz e outro de
dele pata prolongar-lhe a vida.
um advogado de Center City. O plano tinha de ser posto em prática
Sernpre que Joe e Betty discutiam, Anna tomava o partido de agora!
1
Joe e Stephen, o de Betty. Quando Joe e Betty levaram Mary Jo,
aos qua ro meses de idade, a um hospital de Boston para fazer um Depois do jantar, chamou Mike e Joey à loja.
— Sentem-se, meninos, disse-lhes convidativamente, com um
tratame to ligado a um problema auditivo, Anna cuidou de Annie e
Stevie, as filhos do primeiro casamento de Joe. Ao saber que Joe amplo sorriso.
estava pensando em estabelecer-se em Boston, Anna desmaiou. De- Joey olhou de esguelha para o pai. Mike resmungou alguma
pois de keanimá-la, Stephen telefonou para Joe dizendo-lhe que viesse coisa ininteligível. Joey era mais magro e mais baixo do que o ir-
para casa, Joe assim fez, e a segunda finalidade da adoção continuou mão e seu cabelo era mais escuro que o de Mike, Mike era dentuço,
a ser atendida. porém, no mais, parecia-se bastante com Joey; apesar disso, Joey
Os filhos do primeiro casamento de Joe tinham recebido seus era muito mais parecido com o pai do que Mike, embora ambos ti-
nomes erni homenagem aos avós Kallinger e, por essa razão, Anna vessem cabelos alourados, enquanto os de Joe eram negros como
era louca por eles. Com os filhos de Joe e Betty, porém, era mais azeviche.
fria. Conversando com Joe no dia em que ele voltou de Holmesburg, - Joe observou que ambos haviam emagrecido. Muitos jantares
Anna balançou negativamente a cabeça, estalou a língua e declarou ser prontos baratos, pensou consigo mesmo. Observou também que as
uma grande vergonha que um pai já nem sequer pudesse castigar seus roupas deles estavam velhas e gastas, e os tênis, puídos e sujos.
filhos nesse mundo maluco sem ser mandado para a cadeia por isso. Na era pré-Holmesburg, Joe dava uma ordem e os garotos saíam
Em sua velha terra, prosseguiu, agitando um dedo no ar, isso jamais correndo para executá-la. Desde o motim no castelo, porém, ele
aconteceria. Lá os pais eram respeitados e temidos; mas aqui, nesse havia perdido sua autoridade de pai. Sabia que tinha de acalmar
país gottverlassen, ' as crianças fazem o que bem entendem. esses "deuses totais", tinha de persuadi-los a trabalhar para ele,
Nurna visita a sua casa, vindo da residência dos avós maternos e não contra ele. Sabia que eles poderiam mandá-lo de volta.
enquantq Joe estava na cadeia, Mary Jo mostrara a Anna Kallinger a — Qual é o "papo"? perguntou Joey.
cicatriz. Anna dissera à neta em tom raivoso, "Oral Isso não é na- — E, qual é o "papo"? ecoou Mike.
dal Um minúscula ruguinha em sua pele, e por causa disso você — Estamos ocupados. Vamos lá, "cara", ordenou Joey.
manda s u pai embora, não é? Suponho que agora esteja com medo — E, vamos lá, exigiu Mike.
de que os rapazes não gostem de você porque tem essa dro- Não iria ser fácil, pensou Joe, olhando para se..s dois filhos,
guinha dê Puptzich, não é? Seu pai devia ter queimado a outra perna nus ele precisava tentar. De outra forma, o futuro seria um desastre.
também! Você é muito má em fazer isso com seu pai, que a amou — Olhem aqui, meninos...
e deu muito duro por você. Ia, meine Enkelin! •• Está entendendo, — Estamos olhando, disseram Joey e Mike em uníssono, fim
sua imptestável, que só pensa em homem? girado olhar atentamente para um ponto da camisa de Joe.
Joe os olhou e riu. — Não, rapazes, não estou dizendo para
O Serviço Rápido Kallinger de Consertos de Calçados com olharem para minha camisa. O que eu quero dizer é que, bem,
Recolhimento e Entrega a Domicílio estava começando a crescer, aconteceu muita coisa entre nós, certo?
com a entrada de alguns pedidos pequenos a cada semana, mas — Certo! retrucou Joey. Pôs-se a soprar anéis de fumaça. Mikc
não muitos dos antigos fregueses de Joe haviam voltado. Por me- sacudiu afirmativamente a cabeça com ar de entendido e pôs-se a
• N.E. — Abandonado por Deus. chupar seus dentes protuberantes.
" N.E., — Sim, minha neta! — Mas o meu lema, prosseguiu Joe com insistência, é perdoar
196 197
podem fazer isso por mim, retratando-se diante do tribunal.
Joey acendeu uni cigarro. Silêncio.
e esquecer. Sei que vocês amam o papai... Joe esperou por alguma
resposta, mas Joey e Mike permaneceram em silêncio. — Não precisam me dizer agora, disse Joe. Sá pensem nissu,
. que vocês me amam, persistiu Joe, e que papai ama por favor, e depois me avisem. Está bem?
— — O.K. A gente vai pensar e depois avisa, d sse joey.
vocês. Pelo menos, é assim que as famílias devem ser. Joey, que tinha doze anos, e Mike, que estava •om onze, con-
Joey e Mike conservaram-se em silêncio. versavam sobre o pedido do pai em seu quarto. Joey queria que os
— Há uma coisa que eu quero pedir, uma coisa que quero que negócios do pai se recuperassem porque, como co cordavam ele
vocês dois façam, vocês e sua irmã Mary Jo também. E para o bem e Mike, a vida não tinha a menor graça ceia dinheir , sem filés no
da família Kallinger. jantar e viagens nos fins de semana. Mike não gostava muito de joey
Joey, que era habitualmente irrequieto, levantou-se da cadeira. — ele era desbocado e desagradável — mas concor ou com ele a
Andou de um lado para outro da loja, olhando para o pai. respeito do pedido do pai, assim como havia concor ado com Joey
— Bom, qual é a idéia? perguntou jocy. e Mary Jo no dia em que foram denunciar o pai à po icia por maus-
Joe o deteve, colocando a mão sobre o ombro ossudo de Joey.
Olhou para o rosto fino e os olhos cheios de suspeita e desconfiança. tratos.
Para Joey, porém, como me disse Carol Dwyer, sua professora
— Muito bem, é o seguinte, rapazes, disse. Só há um meio de na Escola Douglas, havia uma razão mais importan e: ele se orgu-
eu fazer com que esse negócio volte a ser o que era antes de eu lhava de seu pai ser o 'proprietário de uma loja e e os Kallingers
ser mandado para Holmesburg, quando eu estava ganhando bem e serem da classe média. Isso, como disse Joey à Sra. Dwyer, o fazia
nós estávamos comendo filés e bebendo leite, e não como agora, co- sentir-se superior aos garotos cujos pais trabalhavam .ara outras pes-
mendo as refeições da assistência social. Só há um meio de voltar
aos bons velhos tempos, que é eu conseguir limpar meu nome das soas nas lojas ou nas fábricas.
A Sra. Dwyer descreveu-me o modo como Joey costumava per-
acusações pelas quais vou ser condenado dentro de cinco meses. As guntar a seus colegas de turma o que os pais del s faziam para
pessoas não gostam de fazer negócios com um sujeito como eu, que ganhar a vida. Quando a resposta era que o pai o outro garoto
foi condenado por um crime. Como eu disse, tenho de limpar meu trabalhava numa loja de ferragens ou numa fábrica e chapéus, Joey
nome! se gabava de que o pai dele possuia e dirigia urna I ja de conserins
joey e Mike se entreolharem. de calçados, ganhava muito dinheiro e era o melhor m seu ramo.
— O que é que isso tem a ver com a gente? indagou Mike. Segundo a Sra. Dwyer, Joey zombava aberta ente do staar:.
— Estou pedindo a vocês, Joey e Mike, e também a sua irmã — inferior de muitos de seus colegas de escola. Muita vezes, isso le-
vocês podem telefonar para ela na casa do vovô e pedir a ela — vava a brigas, mas, quer ganhasse ou perdesse,•ey se afastava
estou pedindo a vocês três que voltem lá e digam ao tribunal que
orgulhosamente, por ser filho de um homem que a dono de seu
as acusações de maus-tratos de que todos me acusaram e pelas quais próprio negócio, não recebia ordens de ninguém e ditava todas as
fui preso são falsas! regras de sua própria loja.
— E o que é que a gente ganha com isso? perguntou Joey. Os dois irmãos também resolveram que seri•d:vertido des-
— Muita coisa! respondeu Joe. Boa comida, boas roupas, bons mentir-se. O fato de que estariam cometendo perjüri não lhes ocor-
restaurantes, cinemas, viagens nos fins-de-semana, dinheiro no bolso c reu. E, mesmo que tivesse ocorrido, eles não sei portariam, pois
o que mais vocês quiserem. Olhem para minhas prateleiras, rapazes. contar mentiras era uma parte importante de seu e tilo de vida. A
Olhem só para elas! Praticamente vazias, não é? Mal se vê um par diversão viria de mentirem para os adultos, a que odiavam e de
de sapatos nelas. Sem que os sapatos cheguem para que eu os con- quem desconfiavam, e da gloriosa algazarra que su•retratação pro-
serte, nós vamos ficar o resto da vida dependendo dos pagamentos vavelmente causaria no tribunal e na comunidade e Kensington, e
da assistência social, e vocês ai podem começar a esquecer os bons talvez mesmo em toda a cidade de Filadélfia. Além disso, eles que-
tempos e os dólares, porque papai não vai poder dá-los a vocês — riam que seus nomes e fotografias voltassem a apa ecer nos jornais
se os negócios não se recuperarem. E, como eu disse, o único irmã
de eles se recuperarem é eu limpar meu nome, e vocês e sua 199

198
marrom, um preto e um azul, bem como um outro posteriormente
e na elevisão. O dinheiro e os bons tempos eram formidáveis, mas
conhecido no tribunal como o livro de Ben Franklin.
também a fama o era. Para Joey, o pai com quem brincava do jogo do diário era seu
Os meninos telefonaram para a irmã, Mary Jo, que tinha então
"papai das diversões e brincadeiras". Era o mesmo pai que, num
'treze anos, e lhe contaram o que papai queria que fizessem e o que paroxismo de extravagância (totalmente induzido por forças inte-
eles ganhariam com isso. Mary Jo concordou de bom grado, pois a riores), havia sugerido que Joey e ele pintassem com um atomiza-
boa vida também a atraía. Divertir-se um pouco à custa das auto- dor as paredes externas da escola de Joey e que o havia acompanha-
ridadeX, que estavam sempre tentando dificultar a vida das crianças, do enquanto este o fazia nas primeiras luzes de um amanhecer.
valia todas as retratações do mundo. No porão, Joe e Joey, ligados por uma proximidade conspirati-
lima hora depois de saírem da loja de Joe, Joey e Mike volta- va, trabalharam nos diários no decorrer de 14 meses: de setembro
ram e lhe disseram que eles e a irmã, Mary Jo, tinham resolvido trT972 a novembro de 1973. Salvo por algumas interpolações de
desmentir as acusações de maus-tratos. sua própria autoria, Joey escrevia o que Joe ditava.
Manipulando seus filhos, Joe dera o primeiro passo em direção Entre os registros a serem posteriormente usados como provas
à retratação. Entretanto, a própria audiência de retratação só ocor-
reria Pouco depois de um ano após a condenação de Joe, em 17 de descobertas a posteriori encontravam-se:
"Minha irmã, Mary Jo Kallinger, pediu a mim, Joe K., no últi
janeird de 1973, à liberdade condicional por quatro anos, o que sig- mo dia 30 de janeiro de 1972, para ir com ela à polícia afastar meu
nificada que ele permaneceria em casa, em vez de ser mandado para pai, porque ele não a deixava sair com os rapazes. Eu disse que não
, s trágicos acontecimentos que iriam ocorrer na-
uma i sstituição. O queria ir. Ela me implorou que fosse à polícia. Disse-me o que eu
queles quatro ano resultaram de ele permanecer em casa, e—rião- do devia dizer. Eu não queria mentir, mas Mary Jo Kallinger disse que
desmentido das crianças. Entretanto, se, durante a chamada liber- tudo ia ficar bem depois que eles mandassem papai embora. Mary
dade Condicional para tratamento^ psiquiátrico, ele tivesse - rérilinente disse que a gente ia poder fazer o que quisesse. Disse que eu ia po-
recebido auxílio psicológico, poderia ter enfrentado alguns dos pro- der Poder todas as garotas que eu quisesse e que ela ia poder
blemaS que o estavam destruindo, cm vez da empenhar-se desonesta- sair com os irmãos Strong o quanto quisesse, e também 'matar' a es-
mente com os filhos no trabalho de ocultar a realidade sobre os cola, e que não ia ter ninguém para impedi-la, e q ue podei ianio:,
maus-gratos psicóticos que lhes infligira. ganhar muito dinheiro vendendo as mercadorias do papai lá do
depósito e ficar com todo o dinheiro dele. Papai, era um pai 'legal' "
Joe tomara conhecimento, durante o período de seu processo e
encarceramento, do que os advogados chamam "provas descobertas "Mary Jo mandou papai embora e tive de ajudá-la. Ela me obri-
a posteriori" — as provas reveladas após a conclusão de um pro- gou a dizer que ela estava chorando, para os guardas acreditarem
cesso,' que podem inverter o veredito. Joe sabia que, além da retra- quando ela dissesse que o papai tinha batido nela com um batedor
tação das crianças, precisava de provas. De fato, foi com base em de ovos quente, que eu sabia que ele não tinha usado para bater
provas descobertas a posteriori que, em 30 de novembro de 1973, nela. Eu não devia ter dito que papai me batia com uma alavanca,
Arthur L. Gutkin, advogado de Joe, entrou com uma petição para porque ele não batia. Acho que ele é um bom sujeito, que sempre
um novo julgamento no caso de maus-tratos contra crianças. tenta me ajudar quando tenho problemas, e eu o amo. Acho que mi-
Joe sabia, porém, que nenhuma prova desse tipo existia em nha irmã é uma mentirosa".
seu caso. Assim, pediu a Joey que o ajudasse a criá-la. Antes da
prisão Joe mantinha os instrumentos de castigo no porão. No dia
seguinte a sua volta para casa, retirou-os de lá. Agora, o porão era ... Vamos até a policia para mandar prender meu pai. Vou
o lugar para onde, uma vez fechada a loja e terminado o jantar, dizer a eles uma porção de mentiras sobre papai e dizer que ele
Joe e : Joey se dirigiam a fim de criar provas descobertas a posteriori, me algemou na geladeira e me espancou. Aí, eles vão levar papai
através de anotações com datas antigas feitas em quatro diários: um
201
200
embora e eu vou poder me divertir. Mal posso esperar até ama- to no passado limpar seu nome por motivos com veiais. Trabalhai,
nhã". (Esse registro tinha a data de 29 de janeiro de 1972). do doze horas por dia, ele conseguira tirar a fa aia da assistêncj
"Enquanto papai estava longe, fiquei contente de ter mentido social dois meses depois de voltar para casa. Sua vida tinha melhc
aspectos. Um mês depois de deix r Holmesburg, e.
para ele ficar na cadeia, porque agora eu podia fazer o que quisesse. rado em outros
Foi fácil fazer os juízes acreditarem nas minhas mentiras sobre papai . havia entrado para a Assembléia de Deus em Ken ington, urna 'gra;
Eles acreditaram em tudo o que eu disse". protestante fundamentalista, e encontrara consolo essa afiliação. lo
não pertencera a nenhuma igreja desde que a Igreja Católica R
mana o havia excomungado treze anos antes.
Em 2 de maio de 1973, Joe achou que já tinha uma quanti- Havia consolo também em tomar conheci ento de que, ir,.
dade suficiente de provas descobertas a posteriori para contratar um meses após sua volta para o lar, Betty havia ngravi2..do e, e
advogado que entrasse com uma petição de um novo julgamento pe- agosto de 1973, ele seria pai de seu sétimo filho.
las acusações de maus-tratos contra seus filhos. Nesse dia, escreveu Agora, tanto Joe quanto os "deuses totais" q eriam que seu c
uma carta da qual enviou três mil Xerox não apenas aos advogados me fosse limpo, muito embora os negócios já ão fossem a rag
da Pensilvânia, mas também de Nova Jérsei e Nova Iorque. Rece- principal. As crianças gostaram da brincadeira. 1 e achava que, cc.
beu cinqüenta respostas, mas escolheu advogados a quem conheceu ou sem os negócios, não poderia viver com o e tigma de ser sof
através de outra fonte. lado de criminoso. Assim, usando a máscara da nocência com ser
John Fareira, Assistente Administrativo do Superintendente do advogados, com o Sr. Hoffmaster e com os ami os, entre politic
Distrito Escolar N° 5, fora uma das pessoas que haviam acreditado e educadores, Joe esperava que o tribunal também viesse a coo'
na inocência de Joe, apesar do veredito. Isso se aplicara a muitos dos derá-lo inocente. Agia com a intenção Ieliberada de levar o tributa
professores das crianças. Como me disse Carol Dwyer, professora de a pensar dessa forma. Não obstante, ao mesmo impo, estava ain
Joey na Escola Douglas, "O Sr. Kallinger era o pai mais prestativo e sob o efeito do delírio de que não havia maltr tado os filhos, rrli
interessado que tínhamos. Quando eu lhe telefonava, ele sempre shn tentado "educá-los". Era por isso que conii erava justo ser
vinha de imediato. Era um homem inteligente, bem-falante, bem ves- bertado do estigma de maus-tratos às crianças.
tido, com um ar profissional, e conhecia pessoas importantes. Não Em junho de 1973, os diários, que haviam c meçado com o o
era, de maneira alguma, o tipo de homem de quem alguém suspei- 'ativo de criar "provas descobertas a posteriori", .assaram a ter u
taria de maltratar os filhos". raison d'être adicional, Transformaram-se no mel pelo qual Joe d
Fareira telefonou para Joe e deu-lhe o telefone de Kenneth F. legava a Joey a execução de alguns de seus próp ios desejos e fana
onde, quand. menino, Joe ff
Hoffmaster, presidente da Organização de Pais de Filadélfia, que sias. Quando Joey ia para as ruas
investiga falsas acusações de negligência e maus-tratos contra os pais. um estranho, o pai fazia com que o filho carretasse um microfot
Joe telefonou para Hoffmaster, que foi visitá-lo e ajudá-lo em seu oculto e um pequeno gravador para registrar su=s aventuras. Out.
sair da loja u de casa, Joe c-
caso. Em julho de 1973, Joey, Mike e Mary Jo forneceram ao Sr. Hoff- do o que Joey havia gravado, sem
t_ master declarações de retratação. Quando Joe lhe mostrou a carta de oagula satisfazer a sede de perambulação que tivera na idade
2 de maio que tinha enviado aos advogados, Hoffmaster sugeriu que Joey --- e que ainda tinha. Desse modo, a criançí interna em Joe
seus próprios advogados, Malcolm W. Berkowitz e Arthur L. Gut- venciava tanto as aventuras normais de que ele ora privado quan
kin, poderiam interessar-se em representar Joe. Em 30 de novembro as aventuras anormais das quais a própria privaç o e outros aspec,
de 1973, depois de entrevistar todos os filhos de Kallinger e ler os de sua infância grotescamente anormal haviam criado uma nece-
diários de Joey, Gutkin deu entrada numa petição de novo julga- dade deturpadora. Alumas das aventuras, tal c mo vividas ou lir
mento, com base em provas descobertas a posteriori. ginadas por joey, ouginda
a fantasiadas por lo , também entrai
Joe prosseguiu com a petição apesnr de, nessa época; seus ne- nos diários.
-me Joe
L. • gócios haverem prosperado bem além de suas sombrias previsões da "Antes de Joey sair de casa de manhã", creveu
ocasião em que voltou para casa; já não lhe era tão importante quam 12 de junho de 1977, "eu injetava nele meus s ntimentos, meus

202
t
pulsos e minha personalidade. Pela manhã, dava-lhe minha perso- sempre fugia, não o deixava sair de casa e o obrigava a sentar-se
nalidade daquele dia para ele preformar (sic) • minha personalidade. o tempo todo nos degraus da escada que levava ao segundo andar.
O produto final, ao término do dia, seria uma combinação de minha A segunda era que o pai ficava sempre repetindo que ele não de-
injeção e das aptidões de Joey capazes de levar ao wonder lust via aborrecer-se por causa desse castigo e dos problemas que tinha
(sic)**, a alguma surpresa e ao resultado esperado, fosse escre- na escola e na rua. Joey disse também a Balger que tinha "esmurra-
vendo n9 diário ou escutando uma fita gravada". do" o pai e depois ido até o escritório para ser preso.
Balger recusou-se a atendê-lo.
"Wjonder lust", um neologismo ou palavra inventada típica de
um esquizofrênico, era também símbolo da ânsia de Joe por divaga- Entretanto, antes de Joey sair do escritório, Balger perguntou-
ihe se as acusações por maus-tratos que ele fizera contra o pai um
ções, mim meio que paralisava sua imaginação. "Preformar minha
ano e meio antes eram verdadeiras.
personalidade" era unia transformação de "executar" (perform) que
— Não, aquilo não foi verdade, respondeu Joey. (Ele estava zan-
levava ln si a idéia da formação ou modelação de Joey segundo as
necessid des psicóticas do pai. gado com o pai, mas mantinha sua promessa de retratar-se).
— Por que você fez essas acusações falsas' perguntou-lhe
Os iáraos informam que Joey ateou fogo seis vezes às linhas
Balger.
de trem, a uma casa grande e em torno de uma de suas amantes.
— Não sei, disse Joey.
Há iam rn referências freqüentes a intenções e experiências sexuais
— Você está arrependido?
sádicas q e são exatamente idênticas ao conteúdo das fantasias sexuais -- Não, respondeu Joey, não estou arrependido.
sádicas o próprio Joe. — Os incêndios foram narrados por Joey, Joey também retratou-se oficiosamente das acusações de maus-
disse-me Joe em 14 de julho de 1977. — Mas os registros sobre sexo tratos diante de Anthony Medaglia, um funcionário do departamento
eram me s. Um pai normal não seria permissivo sobre os incêndios e dc sursis. joe havia apresentado uma queixa de incorrigibilidade con-
certamentee não teria ditado trechos sobre cortar os mamilos de urna
tra Joey. Ao entrevistar o menino sobre a petição do pai, o fun-
moça. Mbs eu só era um pai normal durante parte do tempo. cionário perguntou-lhe como se dava com os pais.
Em novembro de 1973, mês em que foi apresentada a petição -- Muito bem, disse Joey.
de um novo julgamento sobre as acusações de maus-tratos aos fi- -- Não é verdade que seu pai o agrediu? perguntou o 01 [LU
lhos, Joey meteu-se em complicações que não tinham sido delegadas Medaglia.
por Joe. Esteve foragido durante 56 horas por estar tendo um ro- — Não, respondeu Joe. — Minha irmã; e eu inventamos essa
mance com Thomas Black, um homossexual de 34 anos. Por insis- história.
tência de Joe, Joey tornou-se o queixoso juvenil numa acusação por
ofensa aos costumes (relação sexual desviante e involuntária com um
menor) contra Thomas Black. Em função disso, Joe e Betty leva- Joe, um pai aparentemente normal em termos da lei e da mo-
ram Joey a Harold Balger, um funcionário da Divisão de Assistên- ralidade, estava no carro da polícia quando Balger e outros oficiais
cia Juvenil do Esquadrão de Costumes do departamento de polícia. do Esquadrão de Costumes prenderam Thomas Black. Ele e Joey com-
No dia seguinte, 17 de novembro de 1973, Joey foi sozinho ao es- pareceram à audiência preliminar de Black no Tribunal de Família .
critório dê Balger.
Thomas Bleck foi posteriormente julgado e mandado à prisão.
Ao entrar no escritório, Joey carregava dois sacos grandes de ba- No decorrer do processo de Thomas Black, Joey meteu-se numa
las. Mos rando-se ora taciturno, ora infantil, pediu que Balger o briga com um policial e chutou-lhe os testículos. Foi preso.
prendesse e o trancafiasse. Explicou que não queria mais ficar em A prisão foi grave, não só porque Joey havia agredido um ofi-
casa, por, duas razões. Uma era que seu pai, lembrando-lhe que ele cial de polícia, mas também porque, nos dois anos anteriores, três
casos contra ele tinham sido encerrados. Em 3 de julho de 1971,
• No oulginal, preform, em lugar de perform (pôr em prática, execu- Joey, então com onze anos, fora preso por gritar obscenidades a um
tar). (N. da T.).
•• O telto correto, em termos vocabulares, seria wanderlust (N. da T.). policial que mandou que ele parasse de jogar lixo nas ruas. Em 11

204 205
Abriram caminho até o telhado de um prédio de tr s andares com
de maio de 1972, enquanto Joe estava em Holmesburg, Joey, en- a rua Harold,
uma loja de barbeiro no térreo. O prédio ficava
da ave-
tão com doze anos, fora preso por furto num vagão de trem, por RMR mas o telhado corria paralelo à estação da ferrovia levada
(receptação de mercadorias roubadas), conspiração c vandalismo. Em nida Kensington com a rua Harold.
4 de abril de•1973, Joey fora preso por vandalismo numa propriedade Pura chegarem à estação do elevado, os menu os tinham que
da ferrovia, por violação de uma área particular e por conspiração. melro a saltar,
Detido sob a acusação de fuga e incorrigibilidade, Joey foi pos- pular do telhado para a plataforma. Joey foi o pr andares, indo
mas não caiu na plataforma da estação. Caiu os tr"
to pelo tribunal sob a custódia do Centro de Estudos Juvenis da para Hospital Epis-
Filadélfia, depois encaminhado a uma ala psiquiátrica do Hospital bater no pátio da barbearia. A polícia o levou na parte do pé
copal. Os médicos disseram que havia uma fratura
Geral de Filadélfia, e posteriormente enviado à Escola e Hospital Es- ema. A fratura
direito em que o tornozelo se liga aos dois ossos da
tadual do Leste, em Trevosa, Pensilvilnia. O Hospital Estadual do era séria e o prognóstico era ruim. A perna de Jo y foi engessada
Leste é uma instituição para crianças emocionalmente perturbadas, a desde a base dos dedos do pé até o quadril direi o. Joe levou o
maioria das quais é colocada sob custódia do tribunal por delitos rido finalmente
filho do Hospital Episcopal para o St. Mary's. Ou sava muletas e
graves. voltou à escola e Hospital Estadual do Leste, Joey
O Dr. Robert J. Donovan, um neuropsiquiatra do Centro de Es-
tinha a perna direita engessada.
tudos Juvenis, especulou que a "hostilidade (de loey) talvez nasça u Joey, que ti-
do tratamento sádico a que talvez tenha sido submetido" e obser- Na sexta - feira, 15 de março de 1974, Joe ley um medico de
consultar
vou que ele "parece estar em guerra com o mundo". O diagnóstico nha obtido uma licença de um dia, para sse de volta ao
do Dr. Donovan foi "reação de fuga da adolescência" e "personali- Filadélfia. O menino implorou ao pai que não o lev o estava sob a
Hospital Estadual do Leste. Joe assinalou que o fil
dade passivo-agressiva". A previsão do médico foi: "A medida que mas o gar • to fugiu dele e
custódia do tribunal e tinha de voltar,
(Joey) ficar mais velho, essas tendências poderão tornar-se perigo- se embrenhou, cambaleante, no bosque em frente a ' hospital sexta-
sas para outrem e para ele mesmo". • Joey voltou à Filadélfia de ônibus. Passou a noi e daquela
Na Escola e Hospital Estadual do Leste, Robert H. Falkenstein, No sábado, as
feira e a maior parte do sábado andando de trem
psicólogo, relatou que "Joseph Jr. parece não ter interesse na psico- 10:15 hs. da noite, apresentou-se a Lew King, o e • itor noturno do
logia de outrem, mas está envolvido numa relação excessivamente toe para avisar
Philadelphia Bulletin. Outro editor telefonou para
próxima, de hostilidade-dependência e amor-ódio, com o pai". Quan- que Joey se havia entregue ao Bulletin e estava segu .. Joe foi buseá-
do estava em sua fase de hostilidade e ódio, Joey escreveu no diá- . Tom Gibbons,
lo. Os dois se abraçaram e se agarraram um ao outr '
rio: "Gostaria de afogar meu pai — ou de queimá-lo numa grande casa. Na manhã
um repórter do Bulletin, levou-os de carro até em
fogueira". Essa fora uma das ocasiões em que Toe não estivera com o seguinte, Joey voltou ao Hospital do Leste. Suas visi as de fim de se-
filho durante a redação do diário. Ao ler esse trecho, contudo, Joe mana ficaram proibidas porque, como disse uma as istente social do
não ficou surpreso. — Flora, Joey e eu nos amávamos, alternada- eber-se de que a
hospital, era essencial "ajudar o Sr. Kallinger a aper
"ciente. Era como se nossas emoções ficassem passando por uma manipulação dele por Joey feria tanto o pai quanto o filho".
final
porta giratória. Joe continuou a lutar vigorosamente por seu filho. Ao
Na Escola e Hospital Estadual do Leste, Joey era inquieto e in- ' gesso na perna
de fevereiro de 1974, a batalha girava em torno d
feliz, apanhava de outros pacientes e era um terror tanto para os de Joey. Os médicos a quem a Escola e Hospital stadual do Leste
pacientes quanto para a equipe. Foi diagnosticado como sofrendo de dores na erna direita, re-
"esquizofrenia de tipo latente (psettdopsicopática), com traços so- enviou Joey, depois de ele se queixar de fim de semana
tiraram o gesso, mas as dores voltaram durante u
•iopáticos e sádicos e tendência ao acting•out (atuação)". Joe nunca ou o filho torna-
que ele passou em casa. Os médicos a quem Joe le
foi informado sobre o diagnóstico de esquizofrenia. ram a colocar o gesso e disseram que Joey precisa ia dele por mais
Joey ansiava por seus fins de semana em casa. Em seu segundo médico da Es-
L seis semanas. O gesso ficou, embora o departamen o
fim de semana, ele e alguns amigos quiseram entrar num trem, como cola Estadual do Leste achasse correta a decisão + e retirá-lo. Du-
freqüentemente faziam, apenas pela excitação de viajar sem pagar.
207
206
rante as conversas sobre o gesso, Joe queixou-se também de que
Jciey chegara em casa num "estado deplorável" e que, embora es- No final de fevereiro de 1974, "os deuses totais" testemunha-

m esse chovendo muito, o menino não estava usando casaco nem


ias. Agora, Joe dedicava suas energias a fazer com que Joey,
que fora colocado pelo tribunal sob a custódia da Escola e Hospital
ram sobre a petição de um novo julgamento numa audiência com o
Juiz Bradley, no Tribunal 443 da Corte de Apelações Comuns. Eles
afirmaram que seu testemunho no julgamento fora falso e que es-
Eitadual do Leste, voltasse para casa. Finalmente, como conseqüência tavam envergonhados de ter mandado prender o próprio pai.
de uma audiência no tribunal, isso ocorreu em 6 de maio de 1974. Em 19 e 20 de fevereiro, Joey saiu de Escola e Hospital Estadual
Quando perguntei a Joe sobre Joey e o Hospital Estadual do do Leste para ir ao tribunal. Estava de muletas e foi acompanhado
Lelste, ele me escreveu uma longa carta sobre o assunto, que é unia por delegados assistentes. Os advogados da defesa e da acusação
contribuição importante para nossa compreensão da trágica rela- leram trechos de seus diários. Joey os sustentou firmemente.
ção de amor e ódio entre o pai e o filho. O dia 20 de fevereiro celebrava o décimo quarto aniversário
"Vou escrever as idéias que me vêm a partir de sua última de Joey. O pai levou-lhe uma dúzia de bolinhos, mas, devido às nor-
pergunta no telefone", escreveu-me Joe em sua carta pelo Dia de mas do Hospital do Leste, Joey não pôde aceitá-los. Ao final de ses-
Ação de Graças, em 25 de novembro de 1976, "vou dizer-lhe o por- são do dia, entretanto, enquanto Joey esperava que os delegados o le-
quê de minha batalha contra o Estadual do Leste. Bem, eu era um vassem de volta ao Hospital Estadual do Leste, Joe inclinou-se em
pai amoroso, sim, um pai tão amoroso que nem o Céu ,nem o In- sua cadeira, beijou Joey na testa e lhe disse, "Feliz aniversário".
ferno podiam deter as forças dentro desse homem. O grito de meu Joey voltou para casa em maio de 1974. Ao visitar a Escola
filho Joey pedindo ajuda era um apelo à luta, uma luta que mais Douglas, ficou decepcionado, segundo Carol Dwyer, ao saber que
tarde se transformaria na batalha de um homem contra as forças da Chow-Chow, o gatinho que ele havia achado e de quem tinha cui-
era moderna — instituições. médicos, sociólogos, assistentes sociais, dado em sua sala de aula, já não estava lá. Quando falava com
auxiliares e o próprio Tribunal que pôs meu filho no Estadual do Chow-Chow, disse-me a Sra. Dwyer, ele demonstrava o mesmo lado
Leste, assim com o Esquadrão de Costumes que deu início à ação gentil a que dera expressão quando, em agosto de 1973, anunciou
e tbda a estrutura juvenil. A todos eles esse homem — Joe Kallin- diante da turma, "Há um novo bebé em nossa família: é Bonnie Sue".
ger1 — enfrentaria, e nada poderia detê-lo. Meu amor era tão inten-
so qu
e no fim eu iria vencer, e venci: uma vitória que deixou cica-
triás e trouxe surpresa para muitos. Mas meu filho era meu amor. Desde o retorno de Joe de Holmesburg em agosto de 1972, ele
O que ele fazia para me maltratar não tinha importância, e meus estivera mais preocupado com o mundo externo .ias realidades ime-
maus-tratos não importavam para ele. diatas do que em qualquer outra época desde que sua psicose se ma-
nifestara francamente. Entretanto, estava também funcionando sob o
"Ele (Joey) tinha confiança em mim e eu não iria desapontá-lo.
efeito do delírio mais grave que já o havia acometido. Depois de quei-
Eramos unidos. Eu o amava, e aquele amor era um cavaleiro de ar-
mar a coxa de Mary Jo, ele havia percebido que seus experimentos
madura reluzente ou o príncipe encantado de qualquer história, c
ortopédicos para salvar-se e curar a humanidade eram um fracasso.
eu sabia que era exatamente isso o que eu era. Sob a condição de re-
Em suas alucinações, Deus ordenou-lhe então que destruísse o mundo l
ceber tratamento como paciente externo no Hospital Infantil de St.
que não curara nem salvara.
Cristopher. em Filadélfia, Joey foi devolvido a minha custódia após Em Holmesburg, Joe havia alucinado a presença de Deus, a voz
uma audiência no tribunal juvenil em 6 de maio de 1974. de Deus a ordenar-lhe que destruísse. Durante aproximadamente um
"Você pergunta, Flora, o que estaria ligado, em minha infância, ano e meio após sua volta ao lar, as ordens não tinham surgido. No
a meus sentimentos e atitudes para com Joey. Acho que sei. Ninguém inverno de 1973-1974, porém, precisamente na época em que seu
tinha sido meu príncipe. Ninguém me salvou. Não havia ninguém advogado estava dando entrada na petição de um novo julgamento,
em quem eu pudesse confiar, ou eu não seria como sou". com base em provas descobertas a posteriori, e na mesma época em
que incentivou Joey a denunciar Thomas Black e depois empenhou-

208 209
Joe ergueu os olhos e viu Michael vindo p la estrada. Sob
1 se na batalha de Joey contra a Escola e Hospital Estadual do Leste. braço esquerdo ele trazia uma caixa de jóias. Mi hael pulou a cer-
Joe começou a agir com base em seu delírio grotesco e hediondo dej ca com facilidade e, com olhos desafiadores e gra s, desceu o diqu,
massacrar a humanidade, gerado pelas alucinações de Deus. até onde Joe estava sentado. Pôs-se de pé diante d pai, olhando-o d
Naquele inverno de 1973-1974, seguindo ordens que acredita- cima para baixo, ainda com a caixa de jóias em aixo do braço es-
va provirem de Deus, Joe estava decidido a destruir a humanidade, querdo.
a matar com um facão de açougueiro todos os homens, mulheres, cri- — De agora em diante, papai, disse Michae você vai ter qu'
anças e bebês sobre a face da Terra. Para atingir esse objetivo, es- entrar comigo!
tabeleceu uma sociedade criminosa com seu filho Michacl, um dos — Mas por que isso é necessário? perguntou Joe.
"três deuses totais", Joey 'fora o representante de *Joe em Kensington, — E assim que vai ser, respondeu Mike.
executando os desejos não-expressos do pai. Joe pensava cm Michacl — Mike, você quer que eu corra perigo?
como seu representante nos bairros elegantes para o mesmo fim.
— Bom, desafiou-o Mike, ou você entra con igo, ou eu não er
Joey safa sozinho, mas, com Michaei, costumava ir junto. tro de novo.
Com Michael, Joe tinha o que denominava de "uma represen-
— O.K., lvlike, respondeu Joe, assustado. ike me desafiou
tação de camaradagem". Sempre que chegava uma ordem das aluci-
— Flora, disse-me Joe mais tarde, quando
nações de Deus, Joe e Michael pegavam ônibus que se dirigiam a foi como se meu coração parasse. Eu nunca ti ha entrado ilega
outras áreas da Pensilvânia e de Nova Jérsei, onde desciam ao acaso mente numa casa. Mike estava vivendo num muno de diamantes e
em cidades estranhas cujos nomes não conheciam. Isso acontecia três quilates. Eu sabiaque_os_roubo_s_eram só um meio de me aproe,
aproximadamente duas vezes por semana. Michael invadia as casas tar para o massacre. mundial. Tinha medo deeçar a entear n
enquanto Joe esperava por ele no ponto de ônibus, seguia adiante casásrNfilMike tinha dito que, de agora em d ante, eu teria qu,
ou sentava-se num banco. Enquanto Joe aguardava do lado de fora, entrar com ele. Não falou que eu teria de entrar com ele naque
Michael cometeu duas dúzias de furtos, desde o inverno de 1973 até dia. Fiquei na esperança de que não houvesse ou ra ordem de Deu
junho de 1974. de que Deus não continuasse a desafiar-me a dest uir a humanidad,,
A primeira invasão de Joe foi numa pequ na cidade da Pe
silvânia. Ele achou que tinha de aprender o que ike iá sabia. Mike
Num belo dia de junho em 1974, Joe e Mike andaram até uma era a força e a coragem de Joe. Os dois andaram por terras cul,
velha estrada rural em Nova Jérsei. Enquanto Joe permaneceu sen- vades, entraram na casa de um fazendeiro, e Mike começou a saque -
tado numa pedra junto a um riacho, Mike desceu a estrada e inva- , os quartos. Joe o acompanhou, sentindo-se co o se estivesse ru.,
diu uma casa. Joe desviou os olhos da água reluzente do riacho e • . sonho que tivera quando criança, com grades em•rma de meias-lui
voltou-se para a estrada poeirenta. A estrada estava deserta. telhados que se fundiam, e gente nos telhados •ue se tornava SI' -
O riacho fez Joe lembrar-se do que havia perto do velho ban- amiga. No sonho, Joe tinha tentado entrar nova nte na casa e sei.
galô em Neshaminy, onde, na infância, ele tivera fantasias alegres tira-se um intruso.
sobre as borboletas. O chalé agora lhe pertencia, mas as fantasias ale- Joe seguiu Mike e, depois, começou a ajuda o. apanharam
gres que o haviam cercado já não existiam. Ali, sentado junto à água grande coleção de moedas e saíram. Andando •om Mike por un
cintilante em Nova Jérsei, ele se recordou do menino que tinha le- trilha, Joe sentiu-se tonto, com dor de cabeça e v ndo luzes. Ao ci.
vado até o riacho perto de Neshaminy para castrar. Aquilo não se as as ferramenti,
gar em casa, foi para sua bancada de trabalho.
concretizara. Agora, ao fazer essas incursões exploratórias nos su- não chegavam até o ponto em que deveriam toca . Joe tinha perdi,
búrbios elegantes sob o que alucinava ser ordens provenientes de a coordenação.
Deus, os pensamentos de Joe eram também sobre castrar e des- Depois da primeira entrada ilegal de Joe, e e Mike foram
truir. Ele não havia falado com Mike sobre "a ordem de Deus" ou o muitas cidades de Jérsei de que ele depois se esqueceu, e que
massacre do mundo, mas sabia que chegaria o momento em que ele tornaram, como me disse, "papel velho jogado beira da estrada'
próprio teria de agir, embora ainda não estivesse pronto.
2"
210
Mas lembrou-se efetivamente de ele e o filho terem invadido e pene-
trado em casas das cidades de Lansdale, Norristown, Conshohocken,
Bryn Mawr, Ardmore, Upper Darby, Broomall, Wayne, King of
Prussip, Swarthmore, Media, Willow Grove, Hatboro e Doylestown,
na Pehsilvânia.
Sempre que voltava de uma incursão pelos subúrbios, Joe es-
perava! não sair novamente. Mas, quando voltava a ordem alucina-
12 A Prova da Força
nada de Deus para que saísse com Michael, Joe dizia a seu filho,
"Vamos!"
Quando a ordem recebida por Joe era muito forte, ele e Mi-
chael às vezes saíam de casa antes das seis horas da manhã. Quan-
do era menos urgente, porém, Michael ia à escola e se encontrava
com Joe num lugar predeterminado. Nesses casos, Joe telefonava
para a escola e dizia, "Precisamos de Michael".
Havia ocasiões em que Michael telefonava para Joe para per-
guntar "Nós vamos?" Se a ordem não tinha vindo, Joe respondia,
"Hoje não". Se tinha, ele dizia, "Encontre-me na esquina de Bridge Domingo, 4 horas da tarde, 7 de julho de 1974. A loja estava
e Pratt". Era ali que pegavam o trem elevado até o terminal dos fechada, com as cortinas cerradas, mas Joe estava em sua bancada
ônibus. de trabalho, com Michael de pé a seu lado, observando. Joe segu-
Ao sentar-me com Joe na enfermaria da Cadeia do Condado rava uma fresa manual, um instrumento então recémpatenteado para
de Carnden, ele me disse tristemente: — Michael não precisava ir cortar materiais pesados, na mão esquerda. Apertou as alças e a lâ-
comigo. Poderia ter ido à polícia. Já tinha feito isso antes. Se tivesse mina fina cortou o salto de um sapato de mulher. Como urna cabeça
medo de ir sozinho, poderia ter chamado Joey, ou então uni amigo decepada numa execução, o salto caiu na minúscula "mesa" de
ou um professor para ir com ele. Ou poderia ter telefonado para o metal afixada à fresa. Isso excitou Michael e ele disse ao pai,
fundo ário encarregado da minha condicional. Não digo que 'Mi- "Vamosl"
chael .enha começado isso, mas, se ele tivesse dito "não", tudo ter- Joe colocou a fresa e um rolo de fita gomada preta num peque-
minar a ali. Ele era minha força, minha coragem, o coração da ope- no saco plástico. Colocou o saco no bolso. Pai e filho saíram da loja.
ração inteira. Flora, Flora, repetiu Joe em tom súplice, por que, por O dia estava ensolarado e a temperatura, por volta dos 30°C .
que 1V ichael me colocou em perigo? Durante nove meses, Joe e Michael haviam percorrido sem destino
muitas milhas de subúrbios, mas hoje iriam ficar na cidade. Esse
passeio seria diferente: antes que terminasse, a primeira vítima de-
les jazeria morta numa fábrica abandonada.

Em minha visita a Joe em 17 de junho de 1977, na enferma


ria deserta da Prisão do Condado de Camden, ele me disse:
"Mike disse 'Vamos!' porque estávamos inteiramente sintoni-
zados. Ele era um imã para meus pensamentos, Flora: captava-os e
agarrava-se a eles exatamente como um ímã atrai e segura a limalha
de ferro. Aquilo fazia com que me sentisse seguro ::om Michael, pois

213
212
"Eu não poderia fazer aquilo sem ele, de modo q e, emintenso
26 de
Mike, tenho um esc .°
eu estava caindo num mundo louco, mais louco ainda do que aque- junho, fiz-lhe um pedido direto: — c ael não
le em que eu tinha vivido antes de meu encarceramento na Prisão , e é você suem va e a u ar
de matar a
esperou nem um segundo. resposta veio alta e c ara: —
de Holmesburg. to pai-e-filho
"Naquele verão de 1974, eu sabia que tinha que destruir o contente em fazê-lo, papai! Tínhamos um relacioname
mundo, matar todos os homens, mulheres e crianças deles. Essa muito próximo e reconfortante. -
era a ordem de Deus para mim. Quase todos os dias eu ouvia a voz "Nao tate' com ele sobre a ordem de Deus. Tal ez ele não ti-
d'Ele: "Você deve destruir aquilo que não pôde salvar com seus ex- vesse acreditado, talvez perTgaiséThirenstava fora de mim, e
perimentos Ortopédicos". Algumas vezes, Deus me relembrava os talvez se recusasse a me ajudar.
hamsters e Mary Jo. Costumava dizer, "A destruição dos hamsters foi "Passou-se uma semana e meia. Não tínhamos v liado a dizer
o começo. Você continuou ao queimar a coxa de Mary Jo, s6 que nada sobre o assunto, mas, às três horas da tarde de omingo. 7 de'
ia enfiar a espátula quente na vagina e nas tripas dela, mas se acovar- julho, eu lhe disse que queria encontrar alguém para atar naquele
dou e queimou apenas a carne macia perto da vagina. Agora che- dia. — Tudo bem, papai, disse ele, — Eu te ajudo. C ntinuei a tra-
gou a hora, com a ajuda de Michael, de você matar três bilhões de fechada. Michael esta a observando
balhar, embora a loja estivesse
pessoas". Eu ouvia muitas coisas desse tipo, ditas pelo Senhor, no enquanto eu trabalhava com a fresa e, tão logo serre um salto —
verão de 1974. eram mais ou menos quatro horas —, ele me disse: — Vamos!
"Matar três bilhões de pessoas! Era uma grande ordem de Deus, "Saímos andando sem saber onde iríamos parar. Michael disse
Flora, uma grande ordem! E tinha de ser executadal Mas, como eu alguém! E eu comentei, -- Vamos ve . Algo dentro
— Vou pegar
iria começar? Minha mente, desde que eu tinha doze anos, estivera de mim me puxava para longe daquilo que eu sabia que tinha de
cheia de quadros de corte de órgãos sexuais masculinos e femininos. dependia tanto de Mike, era como se es-
ser feito. Mas, como
Usei esses pensamentos ao longo dos anos, na maioria das vezes, por cie. Sabia que faria qualquer cisa que Mikc
tivesse hipnotizado
para conseguir ser potente, primeiro com Hilda, depois com Betty. fizesse. Eu faria o que ele quisesse.
Mas agora percebo que aquilo tinha outra finalidade: sem as ima- "E, pode-se acreditar nisso? lá estava eu, o pai, mas era o fi-
gens, que me provocavam ereções, eu não poderia obedecer às or- o poder. E olhe que, exceto por eu pênis, sou
lho, Mike, quem era
dens de Deus. Com elas, podia. Michael tinha só 1,50 m, magrela orno ninguém,
maior do que ele.
"Mas eu não sabia matar. Não sabia como matar. Salvo pelos com cabelos louro-escuro balançando sobre os ombr s, que lhe da-
hamsters, nunca tinha matado nenhuma pessoa ou animal. Aquilo vam quase a aparência de uma menina, ;lio frágil qu- a gente acha-
era a guerra, a guerra de Deus. Eu era o general d'Ele e Michael va que um vento seria capaz de derrubá-lo de um sop o. Mas ele era
era meu oficial imediato, os dois contra o mundo, em nome de Deus! bom nos esportes, diversamente de mim. Sempre o incentivei nos
"Flora, nunca estive numa guerra. Eu era um garotinho na esportes, porque isso foi uma das coisas que não p de fazer. Mas
época da II Guerra Mundial. Depois, a Coréia e o Vietnã eram Mike era realmente meio doentio, Flora, com aquela tosse asmática
apenas nomes e fotografias nos jornais para mim. que tinha.
"Eu tinha sido um menino medroso. Agora, era um adulto me- "Bem, eram mais ou menos seis e meia quanto paramos em
droso. Mas Michael não tinha medo de nada, não tinha nenhum dos frente ao Centro de Recreação Mann, na esquina 'a rua Quinta
medos que eu sentira na idade dele. No verão de 1974, ele tinha doze com a avenida Allegheny. Do lado de fora do prédio ica a piscina e,
anos e meio. Eu precisava de alguém que fosse frio e destemido para embora já fosse tarde, ainda havia muita gente na piscina, princi-
me ajudar a matar três bilhões de pessoas. E precisava de alguém a palmente crianças.
quem amasse e em quem confiasse. Essa pessoa era Michael: ele "Vimos um garoto moreno, baixinho e magrice a, de nove ou
A camisa e as calças de
não tinha um só nervo no corpo e era meu filho amado. Além dez anos de idade. Estava usando tênis.
disso, eu sabia que meu pênis não era tão grande quanto o dele, de esfarrapadas. Ele stava
e sozinho, brin:ando com um
brim est avam acendia e apagava, uma vez atras
modo que ele teria o poder que eu não Unha. Michael tomou-se isqueiro. Acendia-o e o apagava,
minha força e minha coragem. 215

214
da outra, repetitivamente. Havia algo de estranho na maneira como de assassinato, não mais tive medo. O Senhor Jeová estava conosco.
fazia isso. "Entretanto, se fracassássemos dessa vez — se nossas forças
"Mike e eu ficamos observando o garoto por alguns minutos nos faltassem e não conseguíssemos matar José —, fracassaríamos
para nos certificarmos de que estava sozinho. Ele acendia e apagava sempre. Se tivéssemos êxito, porém, o resto viria depois: Mike e eu
o isqueiro, dava alguns passos, parava, acendia e apagava o isqueiro abateríamos três bilhões de pessoas como se fossem patos ra;--na Tá-
novamente. Era esquisito. Ninguém se aproximou dele, de modo que gr—Niquela tarde de domingo teríamos nossa prova de força.
Mike :foi até lá. Quando Mike lhe perguntou onde morava, ele disse "Levamos menos de meia hora para ir da piscina até a fa-
que era apenas a dois quarteirões da piscina. Quando disse o en- brica de tapetes abandonada, na esquina das ruas Hancock e West-
dereço a Mike, reconheci o local como uma área mista de brancos e moreland, para onde levamos José.
porto-çiquenhos. Mike perguntou o nome dele e ergueu os olhos para "Entramos. O interior da fábrica estava negro como piche e
mim, ;piscando e balançando ligeiramente e cabeça em sinal afir- não conseguíamos ver onde estávamos pisando. Pedi a José que me
mativo, como quem dissesse, vamos pegar esse aqui. O menino disse emprestasse o isqueiro e, usando-o para iluminar o caminho, Mike
que se chamava José Collazo. e eu começamos a subir um longo lance de escadas de aço enferruja-
Precisamos de ajuda para mudar umas caixas de fitas de das. Nesse ponto, porém, José recuou. — Tenho de ir para casa,
lugar, descobri-me dizendo a José. — Você quer nos ajudar? resmungou. Já agora, sua voz tinha um tom diferente do 'Tenho que
"Não sei por que pensei em fitas. Quanto ao motivo pelo qual estar em casa às nove'. O bem-estar que sentira na rua desfez-se
estava; procurando uma razão para levá-lo conosco, esse eu real- no instante em que ele entrou na fábrica e viu que era um lugar
mente!conhecia. Se o menino tivesse começado a gritar e debater-se abandonado.
em pdblico, teríamos perdido nossa primeira vítima no massacre "Quando José disse isso, fizemos com que subisse os degraus,
do mdndo. segurando seus braços com força. Mais uma vez, ele estava entre
"José hesitou. — Tenho de estar em casa às nove horas, disse. Mike e eu, só que, agora, não andava voluntariamente. Debateu-se
"2— Você estará, respondi-lhe. um pouco na subida até o patamar, mas não tentou realmente esca-
— A gente tem umas caixas de fitas, entende? acrescentou pulir. Simplesmente ficou repetindo, vez após outra, com a voz cada
Mike em tom muito amistoso. — A gente paga para você nos ajudar, vez mais amedrontada, 'Tenho que ir para casa'. Não gritou.
O.K.? "Chegamos ao patamar. Era muito pequeno, uma espécie de
-- O.K., comentou José. — Mas tenho que estar em casa sacada. As crianças costumavam usar o lugar para brincar, de modo
às nove. que havia garrafas vazias de soda e cerveja espalhadas pelo chão.
"Saímos do Centro de Recreação. José colocou o isqueiro no Esbarrávamos nelas com os pés à medida que nos mexíamos. Mal
bolso. Eu sabia que, não muito longe dali, havia uma fábrica de havia espaço para andar. O patamar não parecia levar a lugar al-
tapetes abandonada. Decidi que era lá que mataríamos José. gum, e sentimo-nos como se estivéssemos suspensos no ar. Com a
"tomos andando pelas ruas, depois subimos uma escada até ajuda do isqueiro, inspecionei a área. Com meu canivete, cortei o
uma pequena passarela preta acima da ferrovia, descemos as escadas fio preto de um velho ventilador que encontrei, Por causa da es
e andaknos novamente pelas ruas. A conversa era pouca; tudo o que curidão, José não me viu cortar o fio.
lembrci é que José disse que estava na terceira série. Enquanto "Eu estava nervoso. Tinha posto o isqueiro em meu bolso en-
íamos a ndando, eu ficava do lado de fora da calçada, junto ao meio- quanto cortava o fio. Voltei a pegá-lo depois de cortar o cordão.
fio, IVIlke na parte interna e José entre nós. Ele parecia à vontade Mas o isqueiro caiu de minha mão e rolou escada abaixo. Não ten-
perto Jle Mike, que tinha aproximadamente sua idade. tei pegá-lo novamente.
"Quando Mike e eu saímos da loja, eu não era sujeito voluntá- "Gastei menos de um minuto para cortar o fio. Enquanto fa-
rio de' meus próprios pensamentos. Estava assustado, mas sabia o zia isso, Michael começou a despir José. Não houve nenhuma bruta-
que tiriba que ser feito. Contudo, depois que Mike acenou para mim, lidade. Ele foi despido com delicadeza, de maneira agradável. Quan-
dizendb-me que tinha escolhido José para ser nossa primeira vítima do isso estava terminado, o menino sentou-se nu no piso de aço en-

216 217
"Michael e eu desamarramos o menino. Eu tini:: certeza de
quanto Michael o mantinha sentado, segurando-o pelos ombros. Mi- que ele estava morto. Em nenhum momento o ouvimo' arquejar, e
chael havia colocado as roupas de José numa pilha arrumadinha, talvez ele tenha morrido sufocado. Ou talvez porque o instrumento
bem ao lado de onde ele fora despido. Então, nós o deitamos de cortou-lhe o reto. O que quer que o tenha matado, por — a mor-
costas e, com uni pedaço do fio, amarramos suas mãos em frente daça, o cortador ou o pavor —, Mike e eu tínhamos . o o que ha-
do corpo e, com o outro pedaço, amarramos seus tornozelos. no teste. o_resto. seria
víamos planejado fazer. Tínhamos passado
"Quando o toquei, a única coisa que senti foi meu medo. Ele . Seja feita a vontade de Deus! Amém Floral
se debateu um pouco, mas estava assustado demais para resistir. O as cal-
"José nem seque drorcin-Wamos a roupa de e —
salão era escuro e inodoro. Nem sequer havia aquele cheiro poei- de brim, os sapatos de tênis, a roupa de baixo, a camisa —e
rento que se poderia esperar de um lugar abandonado, e nem o suor • ças
saímos da fábrica, com as roupas numa trouxa sob o ,raço esquer-
que se esperaria sentir numa criança que tinha feito uma longa ca-
do de Michael.
minhada numa noite quente, e que estava aterrorizada com o que "Eu estava um pouco decepcionado, porque a fábr ca estava es-
estávamos fazendo com ela. Mas havia suor em mim. Eu podia sen-
ti-lo escorrendo de minha testa, minhas mãos e meu nariz. cura demais para que eu conseguisse ver o sangue eu queria ver
sauim. Meus pensamentos estavam ensopados de sa gue: sangue
"Michael pegou uma das meias de José da pilha de roupas, co- eto1assmult001~101 • • • • • ••• • • an
jorrandoos riosgoto In.
locou-a na boca do menino e depois cobriu-lhe a boca com a fita e os oceanos, sangue fervilhando nu - ffitenso-cal-
isolante que eu havia levado da loja eentregara a Michael logo de- chan•o cindo enquanto as
de rao, om pedaços áe órgaos sexuais estreme–
pois de cortar o fio. A mordaça ficou firme. ~Mala a e.
' "Tirei a fresa do saco plástico e entreguei-a a Michael. Esse b • O

Mis eu sabia que haveria muito sangue ao ter ino do mas-


instrumento é mais pesado na parte superior do que na ponta, onde sacre do mundo, de modo que me animei e coloquei u braço sobre
as alças se ligam à lâmina afiada. — Mike, meu oficial imediato, m nha coragem,
"Michael estava ajoelhado no chão. Inclinou-se sobre José e os ombros de Mike
meu filho. Sem ele, eu não teria passado na prova.
tentou enfiar a parte superior e mais pesada da fresa no Anus do ga- num pont , a princípio.
"Michael e eu só não concordávamos
roto. Não coube. Precisávamos de alguma coisa mais fina. Michael Eu queria destruir os órgãos sexuais das vítimas. Qu se tinha cas-
então empurrou a parte inferior da fresa para dentro do reto do doze
menino. Ele se debateu e tentou gritar através da fita isolante. To- trado um menino no riacho perto de Neshaminy quan •
o tinha
anos e meio, e em três outras ocasiões havia tentado estruir órgãos
do o seu corpo se contorcia, mas ele não conseguiu emitir lá grandes sexuais. Mas esse anseio desapareceu e só voltou qua do eu já era
sons. Eu o estava segurando. pai. Agora, eu queria fazer de Mike um representant - para execu-
"Depois de retirar o instrumento do reto de José, Michael o tar aquilo que eu não tinha conseguido fazer quando era da idade
desvirou. Ele era leve. Houve um pequeno ruído surdo, o som de dele. Queria que ele fizesse o que eu não fora capaz e fazer.
seu corpo magro sendo virado e batendo no aço. Agora, o garoto "Mas Mike queria apenas esfaquear a vítima, rgulhar a lâ-
estava deitado de costas. Não reparei se estava respirando. Michael
inclinou-se para ele e colocou o pênis de José sobre a minúscula mina em seu coração. Não sei por que, Flora, mas M ke concordou
em fazer as coisas a meu modo. E assim, tudo f uncio ma
ou como pla-
t. mesa de metal afixada à fresa manual. Apertou as duas alças e a nejado: Mike cortou o pênis do menino com a me facilidade
lâmina de aço desceu sobre o pênis — exatamente como uma gui- com que se derruba uma tora de madeira.
lhotina cortando cabeças. "Caminhamos pela escuridão em linha reta, d scendo a rua
"Michael me entregou a fresa. Estava escuro demais para en- excitada-
Hancock até o beco sem saída da estrada de ferro. •guei
xergar alguma coisa. Senti que cerca de um centímetro e meio de mente os tênis de José no aterro da estrada de fer o. Quanto ao
Vtiziet no
pênis ficara preso na mesinha. Retirei o pedaço de carne, colo- resto de suas coisas, nós as jogamos num vagão abeto e
quei a fresa no bolso de minhas calças e pus a carne no saco plás- pátio de sucata da ferrovia. Atirei a fita adesiva pre a num bueiro
tico onde havia carregado o instrumento. Michael nunca soube que Segunda e o pátio de ferro velho. Conser-
entre o meio-fio da rua
eu havia guardado a carne. vamos a fresa manual. 219
218
"Tomamos a direção da Avenida Lehigh, mas seguimos por um tinha sido uma coisa cruel e chocante. Um homem foi preso pelo
desvio, para não sair diretamente em Front Street. Não falamos crime, e Comer e eu conversamos sobre ele, como sobre qualque
muito, como também não tínhamos falado muito na fábrica. outra coisa. Eu era apenas mais um cidadão ultrajado, Flora. O ho
"Chegamos de volta à loja por volta das nove horas da noite, mem foi solto e a história morreu aos poucos".
cinco horas depois de termos saído. Michael subiu para seu quarto. — Mas, perguntei, por que você fez essa dissociação? Você nã o
— Boa noite, papai. — Boa noite, Michael. Foi um cumprimento se sentia culpado, porque estava agindo sob as ordens de Deus
caloroso. A prova nos unira ainda mais do que antes. Mike e eu achava que aquilo que estava fazendo era certo.
estávamos agora lutando na guerra de Deus contra o mundo. Se- — E, respondeu Joe. — Esse é o grande mistério, o inferno
ria fácil, fácil como atirar em patos num lago. dessa coisa toda. Períodos inteiros da minha vida, episódios inteiro
"Sozinho na loja, retirei a fresa do bolso. Ela cheirava a tra- são apagados. Ainda há tantas coisas que eu não lhe contei! S
seiro. Limpei-a e coloquei-a de volta em seu lugar na bancada. Re- que há, mas não sei o que não lhe contei. Talvez você não me acr
tirei o pedaço de carne do saco plástico. Tinha meia polegada, dite, mas é assim que funciona.
como eu imaginara lá na fábrica. Coloquei-o de novo no saco e — Joe, respondi, eu não acreditaria em você se não tivess
guardei-o numa gaveta da bancada. escrito um livro sobre uma mulher, Sybil, que não conseguia le
"No dia seguinte, o pedaço de pênis morto estava exalando um brar-se de muitos intervalos inteiros de tempo, desde a época em qt
cheiro desagradádel, de modo que o coloquei num pedaço quadra- tinha três anos e meio até os quarenta e dois anos de idade. El
do de gesso de uns dois centímetros de espessura. Embora fosse um sofria de uma dissociação histérica, O que explica os seus lapsos d
troféu pequeno, eu podia imaginar que um pênis inteiro fora ampu- tempo, acho eu, é a dissociação esquizofrênica.
tado e os testículos, cortados. Na fábrica, Michael pusera em prática — Dê o nome que quiser, disse ele. — Mas o fato é que h •
minha fantasia de castração, de modo que experimentei a mesma uma porção de coisas de que não me lembro. Até poucos dias atrá ,
sensação de alivio que teria se eu mesmo o tivesse feito. o assassinato de José era um desses episódios. Agora que me lembr
"Durante uma semana, conservei o pedaço de gesso na loja, gostaria de poder esquecer. O garoto estava cuidando de sua própri
perto de minha bancada de trabalho. Depois disso, guardei meu tro- vida e nós o matamos, Ele não gritou. Não fez ~Muna z,',

féu sob as tábuas de madeira do piso do salão em que tinha cavado Era uni bom menino. (Nesse ponto, Joe deu um risinho, depois c
meu buraco, no número 1808 de East Hagert Street. S6 que, passa- meçou a chorar).
das duas semanas, eu podia sentir o mau cheiro elevando-se do piso — Flora, prosseguiu ele depois de acalmar-se, escolhi Micha I
de madeira. Atirei o quadrado de gesso num esgoto a quatro quar- como meu parceiro, meu oficial imediato, por ele ser tão frio
teirões de minha casa de Hagert Street. nunca demonstrar nenhuma emoção. Mas, depois de matarmos Jos'
"Por que Mike e eu matamos aquele garoto? Por que José? Por Collazo, fiquei com medo, porque soube que Michael podia rea -
que um garoto? Bem, Mike o escolheu e eu concordei com a idéia. mente fazê-lo, podia realmente matar pessoas sem perder sua friez
Na época, pegar José como nossa primeira vítima pareceu-me tão Nem mesmo as ordens de Deus conseguiam afastar meu medo. Mik'
certo quanto ir à igreja aos domingos. Alguns dias, ou talvez uma sentiu prazer naquela saída de domingo. Sentiu-se como um figura
semana depois de matar José, só me lembrava do incidente como importante, e sua voz mostrava excitação. Eu sabia que a combin, -
se fossem fragmentos de um sonho, embora as ordens de Deus para ção de Michael e eu seria o terror do mundo. Mas estava assustar'
mim continuassem a chegar dos Céus quase todos os dias. Flora, realmente assustado. Enquanto voltávamos da fábrica aband .-
"Flora, foi só nesses últimos dias, conversando com você aqui nada onde tínhamos acabado de matar José Collazo, eu disse
na Cadeia do Condado de Camden, que a lembrança de Michael e eu Mike, quando nos aproximamos de casa: "Vamos matar outros'
matando José Collazo voltou à minha mente, num jato violento. E ele respondeu. "Ótimo!"
Durante anos, não me lembrei de absolutamente nada. Parecia ser
apenas mais uma história de horror nos jornais. Lembro-me de ter A porta externa da cadeia, no sexto andar desse prédio mun
conversado com Harry Comer a esse respeito; ambos dissemos que cipal de granito branco com seus quatorze andares, fechou-se atrá.

220 22
de mim — até amanhã à noite, quando eu estaria de volta.
— Saindo tarde, hoje, disse-me o cabineiro do elevador.
Tarde, pensei, porque eu havia ocupado um assento na primei-
ra fila, bem junto à orquestra, num recital particular — a rigor, ex-
usivo — de uma história de horror. Era a história de um assassi- 13 A Última Canção
r ato a sangue frio, sem o menor sentido e totalmente sem motivo,
pelo menos do ponto de vista da relação entre os assassinos e a víti-
ma. Mas era também a primeira expressão inteiramente desabrocha-
da da trágica ação da psicose de Joe que vimos descrevendo neste
livro. carro, senti
Naquela noite quente de junho, ao entrar em meu
um calafrio.

de domingo, 21 de julho de 1974 -- exa-


terem matado tose
Logo no duas
iníciosemanas
da manhã
depois de Joe e Michael menino
tamente Joe viu, como que numa tela de cinema, um embaixo.
Collazo —, de uma montanha e encontrando a morte
sendo atirado cor-
chão e seuláfrágil
No momento em que o menino bateu no
se despedaçou, Joe, deitado no sofá-cama da sala, teve uma
po a urdem
novamente dando-lhe
ereção. Senhor estava
Acreditou que odessa vez em imagens, e não em palavras. per-
matar, porém
para
começou a masturbar-se, porém sem prazer. No mês retalhar
anterior,e cor-
a potência até mesmo com as velhas imagens de para um
dera Não sendo mais potente, mudara-se do quarto de Betty
tar. Achando que a mudança seria apenas temporá-
sofá-cama na sala.
ria, Betty havia aquiescido.
pensava nela lá em cima, mas sem excitação. Não
era oAgora,
desejoloe
sexual, mas sim a ordem de matar e os pensamentos
sanguinários implantados por essa ordem que enrijeciam o pênis de
as calças do pijama e sentou-se na beirada do sofá-
Joe. Ele abotoou
cama.— Você tern que levá-lo lá para docima, ordenou
rochedo. a Voz do Se-
Certifique-se de
alto. Atire-o da borda
vai escolher matá-lo seja alto o bastante para
nhor. Lá no
que o lugar em que morte certa! Agora, o comando do Senhor
que a queda signifique
vinha em palavras. 223

222
Lá em cima? Onde seria isso? perguntou-se Joe. E quem seria — Joey é um espinho em seu coração, Joseph. E é também
ele? homossexual.
Joe viu o menino mancando em direção à borda de um rochedo. — Mas é meu filho, gemeu Joe.
Tinha um brilho maléfico no olhar. Olhando para Joe, o menino — Destrua esse filho! Embora você o ame, deve matá-lo, pois
disse, "Pare de implicar comigo, 'seu' comedor de babaca, senão eu ele está possuído pelo demónio, é um germe de satã que passou de
mando trancar você outra vez!" Era Joey! Estava sendo desbocado seu corpo para o de Betty quando você se deitou com ela para pro-
com seu próprio pai! Sendo um dos três "deuses totais", estava ten- duzir Joey. Mate Joey! Eu, o Senhor Todo-Poderoso, lhe ordeno, Jo-
tando, com seu olhar malévolo e suas palavras demoníacas, man- seph Kallingerl
dar Joseph Kallinger de volta ao xadrez! — Todas as minhas batalhas, eu as lutei por locy. Salvei-o como
Destruí-lo! Toe havia guardado os diários. Num deles, o menino ninguém me resgatou quando eu era criança. Sou o príncipe encanta-
escrever, "Quero afogar meu pai, queimá-lo numa grande fogueira". do de Joey. Quando as coisas iam mal com ele, eu estava lá. Colo-
A mensagem de Joey era clara; e o desejo de morte do filho em re- cava meus braços ao redor dele e o beijava. Nunca o abandonei.
lação ao incitara a alucinação deste sobre seu desejo da morte do Quando ele fugia, eu o trazia de volta.
filho. , — De volta? perguntou a Voz ironicamente. — Você disse de
— cê yo vai encontrar o nome de um lugar alto num folheto volta? Essa é boal Joey pode mandar você de volta! De volta à
sobre a Mesinha ao lado do sofá-cama, instruiu a Voz do Senhor. prisão, Joe, de volta à prisão por violar a liberdade condicional. Será
Joe, ainda sentado na beirada do sofá-cama, estendeu a mão que isso o faz lembrar-se de alguma coisa, hein, meia Kind? lu? •
para apanhar os folhetos de viagens. Tinha-os apanhado poucos dias — E claro! Quando eu era pequeno, meus pais ameaçavam
antes no Serviço de Informações Turísticas em Center City, porque mandar-me de volta para St. Vincent's. O tempo todo. Mas Joey ama
queria leVar Mike, Jimmy e Joey para um passeio. Depois de olhar seu pai. Temos estado juntos desde maio. Mesmo que ele não me
rapidame ate os folhetos, escolheu um deles e repôs os outros na mesa. amasse, eu sou o chefe, porque tenho uma arma contra Joey: poss,
Joe eu o folheto lenta e cuidadosamente. Procurou o lugar alto fazer com que ele volte ao Hospital Estadual do Leste. Ele foi sol:
sobre o qual a Voz lhe havia falado. Ficava a dez milhas de Wells- sob minha custódia, e posso mandá-lo de volta.
boro, na Pensilvânia, e era uni lugar chamado Grande Canyon. Leu: — Joey contribuiu para destruir seus experimentos ortopédh,
"Situado numa bela região do centro-norte da Pensilvania, o Grande insistiu a Voz. — Você teve que tirar tempo de seus experimentos,
Canyon Oa Pensilvânia tornou-se uma das metas do turismo que porque Joey estava sempre se metendo em confusões ou fugind.) Je
mais rap damente crescem no Leste. Milhares de pessoas surpreen- casa. Se você tivesse despendido mais tempo nos experimcin s c
dem-se a cada ano diante do aspecto majestoso dessa garganta de ramos tempo preocupando-se com aquele germe do diabo, el. •
50 milha{ de extensão. No Mirante do Parque Leonard Harrison, o teriam fracassado, você não teria queimado a coxa de Mar.' !o e
Riacho Pine corre através do canyon a uma profundidade de 1.000 o três "deuses totais" não o teriam mandado para Holmesbm g. E
pés. Mas uma visita a Canyon County oferece mais do que a beleza você teria sido o salvador do mundo. Mas, agora, deve destruído.
do prépr o canyon..."
Joe fechou o folheto e tornou a colocá-lo na mesa. Mil pés "Fiquei chocado com o que estava recebendo ordens de lazer".
abaixo, ponderou. Um corpo caindo na garganta do Grande Canyon disse-me Joe no dia 4 de julho de 1977, em nosso canto familiar da
seria destruido. enfermaria da Prisão do Condado de Camden. "Pedi a Michael que
Os cklhos. A boca suja, pensou Joe. O olhar do diabo! Assim fosse à loja comigo um instante. Ele já tinha me falado que queria
é Joey. Mas eu amo Joey. Preocupo-me com ele o tempo todo. matar o irmão. Michael odiava Joey. — Não suporto locyl costu-
Como poso matá-lo? mava dizer. Havia ocasiões em que eu também não soportava joey.
— Você deve destruir aquilo que ama, ordenou a Voz de Deus. Ele levava todos à loucura. Mas eu o amava, e gostava tanto dele!
— Mas nunca pensei em matar Joey! respondeu Joe. — O mun- Fechei a porta e disse: — Mike, vamos ao Grande Canyon hoje.
do inteiro, três bilhões de pessoas, está certo, mas Joey...
• N.E. — Meu filho? Sim?
225
224
Ou alva fosse
de seus órgãos sexuais,
soas — através
porque da destruição
eu amava Joey e não queria fazer o que a Voz tinha orde-
vamos ver. Quem sabe o que o dia pode
nado. — Bem, disse a Mike,
Nunca estive lá, Mike respondeu.
— Sei disso, falei. — Mas hoje nós vamos: você, limmy, Toey trazer?"
perguntou Mike. da manhã, Joe entrou na loja, o de Michael,
e eu."— Por que está me dizendo isso? a câmara Bro nie de uma
"— Porque. • . hesitei. E então a Voz falou por mim: — Quan- Depois do café
Jimmy e joey o aguardavam. toe retirou registr dora. Deu a
apanhou cUtheiro na caixa
do acordei, hoje, soube que tinha de matar Ta y•
prateleira de vidro e resto n bolso.
"Michael não pareceu perceber que tinha sido outra voz. Ape- dólares e guardou o
nas olhou para mim, franzindo um pouco o cenho e chupando os cada um dos meninos doisprontos para sair. perguntou. --
dentes protuberantes. O medo apareceu nos olhos dele, Flora, um — Então, meninos, respondeu loey, acendendo u cigarro.
alguma coisa vai achatar s montanhas
medo real. Michael, o Frio, era capaz de sentir medo. Embora ti- — Porra, é claro! um boc do para você
vesse dito muitas vezes, 'Vamos livrar-nos de Joey',.eu
Sepodia
papaisentir
pode Se a gente não sair agora, Demorou
parecendo panquecas.
o que Michael estava pensando: 'E a nossa famíliabém e elas vão ficar insolentemente na porta da rua
fazer isso com meu irmão, pode fazer comigo
"Olhando para Michael, percebi o quanto aquilo estava errado. se vestir!
Toe observou Toey encostar-se
cigarro balançava num canto de sua boca.
Ele era a pulsação de tudo, de todos os meus planos de matar. Eu o corpo
que dava para a loja. O de ToeY caindo de ar um ro hedoj em se-
da ele enquanto
não seria nada sem Michael. Desde a época em que começamos nos- Toe tornou p sadamente em
estalar dos ossos e o •
sa sociedade, no inverno de 19734974, Mike fora para mim como guida, ouviu-lhe o como
um cão de guia para um cego. Todos os outros membros da família seu corpo saltava uma ou duas vezes antes de cair asar' çalhado,
b os retorcidos e o rosto mu .ou: ele viu o
poderiam ser mortos — qualquet um, exceto Michael. Sem ele, mi- repouso, cona os adro compunham
nha força se desvaneceia. Se alguma coisa acontecesse com ele, se- uma boneca de trapos ensangüentada. O qu
e retorcido de Toey deitado entre os q e
ria como se meu coração parasse. Eu precisava de Michael para aju- a grande
corpo moído
montanha dos malditos, tão alta que podia ser vista acima
dar-me a destruir o planeta Terra. da linha do horizonte. Os demônios invisíveis, que v avam em eter-
"Disse-lhe,'— Mike, está tudo bem. na patrulha ao redor da montanha, estavam cortan o o pênis e os
"Ele pareceu mudar quando eu disse isso. O medo desapare-
te facas flamejantes.
ceu de seus olhos e a antiga frieza voltou. Seu olhar estava frio de Toeyé com suas que é que está
quando Mike perguntou: — Como é que nós vamos fazer, papai? que você está parado aí, papai?
"Expliquei que o Grande Canyon era um lugaruma alto.montanha,
Mike en- — Por que embora! gritou Joey em voz esgani da.
Vamos
olhando?
tendeu de imediato. — Vamos atirá-lo do alto ema is gelados do Toey... começou Toe. o dê ouvidos a
disse-me. Seus olhos, sempre vítreos, pareceram — Escute, embora, papai, disse Michael. — N'
— Vamos
menos não agora. Vamos!
çue em outras ocasiões. ele, pelo ando avidamente adi nte de limmy e
— Talvez, Mike, retruquei.
— Por que talvez? Vamo-nos livrar dele hoje! Toe observou Ioey - s e pássaros. —
Ivhke,
"Pensei comigo mesmo, imagine dizer uma coisa dessas sobre que corriam em círculos e fingiam ser avio
Mike, pássaro voando sobre uma mont nba, disseabertos em
o próprio irmão. E tão antinatural. Eu não disse nada a mim
próprio filho. Isso teria sido cruel demais. Sou um grande um mergulhe com os b aços
descrevendo um circulo e ora, e tratem cl-
mesmo sobre matar o Ice, vamos ficar juntos esse
Peruo nisso agora, mas não pensei naquela época. Cruz.
''— Por que talvez? tornou a perguntar Mike. do, disse
—.- Estáá bem e se perder. Vamos nos divert r mais com
"Flora, não sei por que eu tinha dito 'talvez'. Talvez fosse por- não sair corren
ficarmos todos juntos. Certo?
que, de acordo com os pensamentos que costumava ter,uni rochedo.
eu quisesse negócio se 22,
mutilas meu filho sexualmente, em vez de atirá-lo de d. pes-
Lembre•se de que foi assim que planejei matar três bilhões

226
— Quatro bilhetes de ida e volta para Wellsboro, disse ao bi-
Joey continuava à frente, no entanto, caminhando lépido com
lheteiro. — A que horas sai o ônibus?
seu coxear, e cantava baixinho para si mesmo: — We had Joy, we
— Dentro de oito minutos, respondeu o bilheteiro.
had fon, we had seasons in the suniBut the bilis that we climb
Joe afastou-se lentamente da bilheteria. Os meninos quiseram
are just seasons out of time. * Joey ia pensando em seu pai bom —
ir ao toalete e Joe foi com eles ao que ficava no lado do terminal
o "papai das diversões e brincadeiras". Parou de andar na estação
que dava para o rua Arch, na extremidade oposta à bilheteria.
da Linha Elevada Frankford para esperar pelo pai e pelos irmãos.
Demoraram-se demais no toalete c perderam o ônibus. Sabendo
H- Quanto tempo vai demorar a viagem de ônibus? perguntou
que não poderia matar Joey a menos que chegasse no Grande Canyon,
Jimmy! enquanto os quatro subiam os degraus até a plataforma ele-
Joe sentiu-se aliviado; mas sentia também um grande anseio de ma-
vada ra esquina da avenida Kensington com a rua A.
tar o filho, o que alucinava ter sido uma ordem de Deus.
— Duas ou três horas, acho, respondeu Joe.
Ainda sentindo o intenso anseio de matar Joey, voltou à bilhe-
— A gente vai escalar muito?
teria, onde foi informado de que poderia esperar até às 13 horas
HL Não sei, Jimmy, talvez, disse Joe.
pelo ônibus seguinte para Wellsboro, ou então ir até Hazleton, onde
Esnbora Jimmy fizesse algumas restrições às escaladas, os três
poderia fazer uma baldeação para o Grande Canyon.
meninos estavam excitados com a idéia de saírem numa expedição
Após uma breve conversa com os meninos, Joe comprou 1, .
explordtória.
lhetes para Hazleton.
Uât garoto rechonchudo com uma basta cabeleira loura, que aca- Na estação de Hazleton, Joe perguntou a um bilheteiro sobe:
bara de chegar à plataforma do elevado, caminhou em direção a eles. conexão de Hazleton para o Grande Canyon, mas o homem !ui !I.
— Onde é que você vai, Marty? perguntou Mike. mou-lhe que, aos domingos, não havia nenhum ônibus que fizesse
— Vou a um almoço de domingo na casa da vovó, respondeu aquele trajeto.
Martin Slocum, um dos garotos em quem Mike vivia "pendurado". Os meninos ficaram decepcionados. Joe disse: — Bem, tal
- Pô, isso não é nada! disse Joey. — N6s vamos escalar uma visitarmos as minas? Sabia que poderia matar Joey com a mesma
montanha alta. Aposto que é a montanha mais alta de toda a Pen- facilidade atirando-o no poço de uma mina ou empurrando-o do topo
silvânià. do Grande Canyon. Disse ainda, — Iremos ao Grande (Thoyen II.1
— Onde é que fica? perguntou Martin Slocum com admiração. semana que vem,
— Grande Canyon, respondeu Joey. — A dez milhas de uni — Que maravilha, disse Joey com sarcasmo. — S3 que eu
lugar Ohamado Wellsboro. Agente vai de ônibus. queria ver o Grande Canyon hoje! Droga, papai! Voei: linha que
—r Você é sortudo, Joey! Queria que meu pai me levasse a esmerdalhar tudo? Quem é que quer visitar minas velha, quando a
lugares corno o Grande Canyon. Mas ele .não me leva alugar ne- gente podia ficar no alto do Grande Canyon?
nhum. Joey rolou o cigarro com o língua desde o canto esquerdo da
—r Ei! Está chegando o trem! gritou Mike. boca até o direito. Inalou uma grande quantidade do fumaça e so-
prou-a com uma baforada no rosto de Mike.
/cie dirigiu-se com ar carrancudo até a bilheteria do terminal de — Você quer parar de fumar um minuto, por favor? Suas
ônibus na esquina das ruas Treze e Arch. Queria voltar; sentia o guimbas estão me matando de tosse. Você é um 'saco', Joey, sabia?
pânico revolvendo no estômago e tinha dificuldade de respirar, como — E você é uma velhinha beata, Mike Kal !Inger. Você não
vale uma trepada. Joey cerrou o punho direito e esticou o dedo mé-
se houvesse um torno apertando seu peito. Mas, agora, não podia
dio para Mike.
parar.
— Joey, fique quieto, ordenou Joe. — Jimmy tem algo a dizer.
— Aposto que as minas vão ser divertidas, disse Jimmy. —
Tivemos alegria, tivemos diversão, passamos temporadas no sol/Mas E melhor do que ficar perambuland6 nessa estação nojenta, sem
as montanhas que escalamos são apenas temporadas no tempo (trad. fazer nada.
livrC de uma canção popular norte-americana). (N. da T.)
229
228
— E como é que seus irmãos não estão cansados?
-- Não estou interessado neles.
Está bem, disse loe, vamos seguir sem você.
— Foda•se, papai! Joey levantou-se da pedra, fez u gesto
— os fundi-
uri.
Joe voltou à bilheteria e indagou ao bilheteiro qual o caminho
para as minas. Depois de ouvir as instruções, reuniu os filhos dos adris para a frente, com a mão esfregan
diferentes pontos da estação de ônibus para onde tinham vagueado. pelindo
lhos, e tornou a sentar
-se vamos deix -lo aí.
Joe estava zangado consigo mesmo pormedo
,z, tinha ter decidido
do que ir até as
poderia — Vamos embora, limmy, disse loe,Ficou em sua pedra e ob-
, subida, alas-
minas. A despeito
acontecer da ordem
quando ele e Ioey da V
ficassem de pé junto à borda de um, — Vá tomar no rabo! rosnou joey•
seroou enraivecido o pai e os irmãos prosseguirem na
poço. Ao abrir a porta da estação e sair para as ruas de Hazleton apail Espere
ouviu o grito de Joey morrer no ar, enquanto seu corpo ganhava gritar: — Ei.
tando-se dele.
velocidade, caindo pelo poço de uma mina em direção ao centro Poucos minutos depois, Ice o ouviu
z e o estalar
da terra. Joe viu-o subir em sua direção. O som de sua v tempo, loe
por mim! o
de suas botas nas pedras eram inquietantes. Ao rnes melhor ele se
Aos domingos, somente os turistas iam às minas de carvão e percebeu que a tarde ia passando depressa e que era
fumaça no ar.
aos poços de ardósia que cercam a cidade de Hazleton. Antes fér-, mexer, se é que pretendia matar joey hoje. lcançar vocês,
til como as regiões montanhosas circundantes, recobertas de pinheiros Joey acendeu um cigarro e soprou alguns anéis d
rido quiser an-
vidoeiros e faias, a terra estava agora mamada pelas escavações, e Depois, cuspiu no chão, sorriu e disse. — Resolvi Nin-
profundos buracos deixavam cicatrizes na superfície do solo. Mui- porque não quero perder a diversão. Mas só ando qu sério: —
tos cones de ardósia e barro achatados no topo, largos na base e dar, t atendeu? Franziu o cenho e prosseguiu em to
estreitando-se à medida que subiam, achavam-se entre os poços. guém me diz o que fazer. Eru dito todas as regras. ase dos diários
Espalhados por toda a área havia escavadeiras elétricas, perfura- Olhando para o filho, Joe lembrou-se de uma f ueirná-lo numa
"Quero afogar meu pai,
trizes, caminhões e guindastes, todos com os motores silenciosos.
No céu sem nuvens, o sol da tarde queimava a região deserta, e o "querido papai" de Joey: prio, já adulto ,
grande fogueira".
De repente, Joe estava alucinando. Viu a si p deitado de cos-
silêncio
joeacentuava
e os filhosa caminharam
desolação. por uma trilha que serpenteava en-
deitado no chão do bangalô de Nesharniny. Estava seu corpo, loey
tre os buracos e os cones. Joe se deteve ao lado de um dos cones mais tas, com os braços abertos em cruz e despido. Sobr ndendo com um
altos e olhou para cima. O morro tinha uma inclinação suave e não o a pele de ice
atirava galhos secos e folhas ressecadas, que ia ac
os músculos quei
parecia difcil
í K.,de escalar.
disse joe, enquanto caminhava junto à base do cone; fósforo. Os galhos e as folhas crepitavam enquan
chão. A metade
a e ver o que há lá em cima. Já não estava queimava e se enrugava. O mau cheiro da carne e •
— O. mando enchia o bangalô. Toe ergueu a cabeça d de pele chamus
vamos subir nessa pilh
interessado nos buracos inferior de seu rosto estava queimada: fragmento penas seus olhe
Joe encontrou umaprofundos.
trilha pedregosa que subia pelo flanco do cada pendiam da mandíbula e dos ossos da face. sua caveira exi-
cone. O grande número de pedras planas e a subida suave da tri- acesos de dor, enquanto, por baixo dele ira de praia oro.
va de uma velha
cad
escavou' cigarro pendia-lb-
lha facilitaram
A menos adeescalada.
meio caminho do topo, entretanto, joey parou de bia um esgar. joey o observa "
estava reclinado. Seus olhos estavam alegres. Um
andar. Ele e Jimmy seguiam atrás de Joe e Mike. do canto da boca. E ele cantarolava
hadbaixinho,
seasonsc•nsigo
In themesmo,
sua ."
— Ei, papai, chamou joey. had fun..
joe had As imagens da alucinação desapareceram.
joeyparou de subir
sentou-se e voltou-se.
numa pedra, e disse — Estou cansado, não vou 7"

continuar.
— SeuE tornozelo
isso aí. está incomodando? perguntou Toe.
— Não, estou s6 cansado.

230
Joe sentiu um calafrio sob o sol quente. Seu corpo tremia; o
suor jorrava sobre seus olhos. Estava com sede, com a boca resse- — Não senti confiança em papai quando ele começou a tirar
cada, e sua saliva era amarga. Desejou ter levado cantis d'água.
retratos de mim e de Joey, disse-me Jimmy Kallinger em 19 de
4— Que é que há? perguntou Joey. — Agora é você quem
está 1ansado, hein? março de 1978. — Os lábios do papai se encurvaram e esticaram,
como sempre acontecia quando ele tinha uma mudança repentina.
acudindo-o delicadamente pelos ombros, Joe logo respondeu,
— N o, não estou cansado, Joey. — Eu e Joey estávamos junto à borda do monte. Joey estava
atrás de mim, bem na beirinha, quase no espaço vazio. Papai disse:
lhou para Mike e Jimmy. Teria sido melhor, pensou consigo "— Cheguem um pouco mais para trás. Quero tirar fotogra-
mesmo, deixar Jimmy em casa. Depois, ergueu os olhos para cima.
fias de vocês.
A Voz de Deus ressoou em seus ouvidos, dizendo-lhe que, no alto
da pi ha, encontraria o lugar certo para matar Joey.
— Um pouco mais, disse papai.
— Assim está bom.
"Depois, papai começou a tirar retratos. Mandou Joey fazer
poses diferentes. Também me pediu para posar, mas não tanto. Eu
9 topo do monte era um platô largo, com algumas pedras pe- e Joey estávamos na beirinha da pedra. Michael estava com papai,
sadas irrompendo da superfície plana. Espalhadas por toda a parte mas só papai tirava as fotografias.
havia muitas pedrinhas, todas de grãos de ardósia cinza-azulada, for- "Puxa, eu estava apavorado. Joey também, eu acho. Mas ele era
mada pela compressão de barro com xisto. O sol batia com inten- corajoso, sabe. Eu admirava Joey por ser corajoso e por enfrentar
sidad no platô. A superfície desprovida de árvores não tinha ne- papai. Mas, na beirada daquela pedra, Joey fez praticamente tudo o
nhuma sombra. que papai mandou".
oe e os filhos sentaram-se no chão para descansar. Espremiam
os olhos por causa da luz intensa. Joe pegou algumas pedrinhas,
deixou-as cair no chão e desejou outra vez ter trazido água. Sua "Eu não confiava em mim mesmo", disse-me Joe eln 9 de agi ,
camisa e suas calças estavam ensopadas de suor. to de 1977. "Estava tirando fotografias de Joey e Jimmy na boi
-J-- Tenho que mijar, disse Jimmy. do topo daquele morro alto de ardósia que tínhamos escalado, 1.. 1»
— Vá mijar lá do outro lado, para ver como é, disse Mike. na borda do platô. Eu estava mandando que eles chegassem
— Está bem. Jimmy andou até o outro lado do platô. — Uau! perto da borda, Joey mais perto do que Jimmy. Não confiava cie mim
gritod. — E bem diferente do lado que a gente subiu. E reto até mesmo, porque não tinha gostado do modo como olhei por s A e a
lá en1 baixo! Apanhou uma pedrinha e atirou-a, observando-a des- borda para ver se Joey morreria caso caísse. E tinha estado pen-
crever um arco a distância e depois cair verticalmente no chão, sando em matar Joey o dia inteiro.
Ice andou até onde estava Jimmy e olhou por sobre a borda. "Mike estava de pé a meu lado enquanto eu tirava a: .Hogra-
A queda era vertical. Esse era o lugar para matar Joey: não havia fias. Eu não tinha a menor idéia do que ele estava pensandr • Havía-
nada que pudesse deter sua queda. mos falado em matar Joey naquela manhã, na loja, mas aio tínha-
oey estava de pé a uma pequena distância de Mike, que o mos dito mais nada sobre o assunto depois disso.
"Enquanto eu batia as fotos, Mike tocou em meti braço para
observava cuidadosamente. Joey fechou as mãos em concha junto à
atrair minha atenção. E disse, — Papai, deixe eu jogar uma pedra
boca: — Jooeeee Kaaaaaallinger, Joeeeeee Kaaaaaallingcr! Depois,
abaixou as mãos e esperou pelo eco. Franziu o cenho. Voltou a gri- no Joey.
"— Vá em frente, respondi.
tar: — Joeeeeee Kaaaaaallinger! Não houve eco. "Joey estava de pê bem na beirada do platô. Eu sabia que ele
— Merda! exclamou. — Nenhum som. Parece que este lugar
está mesmo morto!
perderia o equilíbrio se a pedra o atingisse. Se a pedra o atingisse,
ele teria de morrer, mas eu disse a Mike, 'Vá em frente'.

233
232

n
"No terminal de ônibus, eu tinha hesitado. loey era inha pró-
pria carne, meu filho. Eu queria salvá-lo. Esse sentimento continuou
a interpor-se entre-eu e meu desejo de cumprir a ordem de Deus. Mas
"isso me assustou. Alguma coisa estava me impedindo de ma- a ordem — é, e também meu próprio desejo de cumpri as ordens
tar Joey, Flora, mas eu também estava tentando cumprir a ordem de do Senhor — faziam como eu quisesse matar meu filho.
Deus. Era uma luta, uma verdadeira luta. "No cone de ardósia, minha taça estava muito ch ia. Depois,
"Eu sabia muito bem que não queria que Jimmy visse Mike normal voltaram e o sangue nosescoou da
e' meio
atirar a pedra. Não queria uma testemunha. E não queria que Jimmy os sentimentos de um p
taça. A mesma coisa acontecera quando eu unha
visse um de seus irmãos matar o outro. Assim, disse-lhe: — Jimmy, e planejei cortar o pênis de outro menino. Não consegui fazê-lo, em-
venha para cá. Quero tirar sua fotografia deste lado. Levei-o para o bora o menino estivesse de pé bem na minha frente e despido da
outro lado do platô e certifiquei-me de colocá-lo de costas para cintura para baixo. Saí correndo. Mas, naquela época, e não estava
Mike e Toei/. Mike esperou enquanto eu fazia isso. agora, estava!
"Eu e,..va bem de frente para Mike e joey. VI Mike pegar uma sob o"Eu
comando do Senhor.
não sabia E
se o Senhor tinha conhecimento de que eu esta-
pedra com uma extremidade pontiaguda e uma circunferência de va recuando. Provavelmente, tinha. O Senhor sabe to as as coisas.
uns vinte e poucos centímetros. Mike mirou no irmão. Vi a pedra Estavo com medo de que Ele pensasse que eu era .lar m traidor
loey es-e
voar pelo ar, indo em direção a Joey. Depois, vi que ela não o atin- me castigasse. Eu estava assustado. Mas a idéia de
giu. e passou por cima da borda. n- tava longe de meus pensamentos quando descemos o erro de llaz-
"Tirei outra fotografia de Joey e agi como se nada tivesse acoen- leton e rumamos para casa. O desejo fora lavado co o uma nódoa
Joey .
Que estaria ele pretend
tecido. Depois, vi Mike dirigir-se até .a..bia v
feia. A taça estava seca!"
do? perguntei-me. Será que ia empurrar Joey? Eu não sabia. S
perfeitamente, no entanto, que já não queria que Joey.losse morto.
O desejo havia desaparecido. Desaparecido ..por completo. Como As 05:45 hs, de terça-feira, 25 de julho de 1974, oe ouviu uma
Eu já —Vrillueria
tu . . _.._. que
explosão. Levantou-se da cama, acendeu as luzes e p rcorreu
loja. Não
todos
en-
quando uma taça cheia se esvazia... e resseca.
.. ......
meu "Assim,
filho fosse morto. os aposentos de ambos os andares da casa, inclusive
fui até o lugar onde estavam Joey e Mike. Este, olhan- controu nenhuma causa da explosão e nenhum sinal de avaria. Al-
ia janclz. Nn
do para baixo, estava dizendo — Eu não tenho medo de pular. guns Clarões vacilantes do alvorecer penetravam
"Pareceu-me que Mike estava desafiando loey a fazer exata- rua, apenas um carro de policia, passando lenta e sil ciosamente. .
mente isso. Assim, eu disse, — Venha, loey. Saia dessa borda. lá é A Voz de Senhor se tez ouvir e Joe saiu da jane a, aterrorizado
Desde Hazleton, nem uma só vez a Voz lhe tinha r velado o Todo- - lhe
hora de irmos embora, de qualquer maneira. Poderoso. O medo da ira de Deus, da punição divi a, percorreu
They fez o que eu mandei. Em seguida, descemos o cone. No '
caminho, ouvi Joey dizer a Mike, — Que é que você estava tentando
todo Eobera
corpo.
estivesse assustado, pôde ouvir nitid•mente as Pala"
pode- vras do Senhor: — Você g' em Hazleton, dis e o Senhor. —
"Não gostei de ouvir aquilo. Era próximo Mas não vai fugir agora. A explosão que ouviu foi dethro de você.
ria ter acontecido. E eu estava contente Por joey ter dito aquilo a Foi um sinal de que você está ficando pronto para explodir algo. A
Mike, e não a mim. estacionamento
"Eu queria matar Joey quando saí de casa naquela manhã. mu ndO o, Voz silenciou.
'Joe não sabia o que era o "algo' , mas pensou
Senhor me havia dito que, logo no início de meu massacre docomo um de Niehaus, onde grandes reboques interestaduais e esi°tines
seuscontainers
interiores
eu teria de matar um membro de minha própria fa,era elhor ficavam lado a lado. Pôs-se a pensar nos reboque
sacrifício. Eu tinha de provar que minha família não as ' cenas escuros, suas dimensões espaçosas — como seri- fácil destruí-to:
do que a família de ninguém. Naquela manhã, quando vi m pelo fogo ou através de uma explosão! A chama de um fósforo acen-
le Joey caindo, soube que ele era a pessoa a ser sacrificada. Minha de 23"
'.aça estava repleta do desejo de matá-lo; a taça estava cheia

sangue.

234
dando um líquido inflamável atearia fogo a um reboque. E isso po- tador de grama do pequeno chalé, uma lanterna, fósforo, três garrafas
deria ser feito antes que qualquer pessoa começasse a trabalhar no de vidro vazias de meio galão, usadas para borrifar água, e duas sa-
estacionamento.
colas de supermercado tamanho gigante. Encheu as garrafas de gaso-
Descalço e de pijama, Joe subiu ao quarto de Michael para di- lina e deixou-as destampadas. Numa das sacolas de compras colocou
zer-lhe, "Vamos!"
duas das garrafas de gasolina e, na outra, a terceira garrafa de gaso-
lina, a lanterna, os cigarros e os fósforos. As duas sacolas estavam •
sobre o balcão quando Mike e Joey entraram na loja.
Dez minutos depois, Joe estava de pé na parte da loja reser- — 'Cara', isso é hilariante! gritou Joey, aproximando- se de Joe
vada aos fregueses. Mike, atento, fitava-o de frente. e encostando-se no balcão. — Pai, essa idéia é genial! A gente vai
—r O que nós tentamos fazer na pilha de ardósia não funcio-
nou, não foi? perguntou Joe. até os reboques agora?
--i Foi, papai. — Vai, respondeu Joe, entregando a Joey a sacola com as duas
garrafas de gasolina. — Você e Mike vão agora. Vou esperar aqui.
—i No final, no alto daquele monte em Hazleton, explicou Joe, Mike voltará para me buscar. Joey acendeu um cigarro.
eu nãociqueria que nada acontecesse a Joey. Ontem você me disse — Apague esse cigarro, Joey. E melhor você não fumar tendo
que g taria que o tivéssemos matado naquele morro. Prometi-lhe gasolina por perto.
uma o tra oportunidade. Bem, vou manter minha promessa hoje. Joey amassou o cigarro num cinzeiro do balcão. Começou a
— Formidável, pai I
sacudir a sacola.
—H Portanto, olhe, Mike, prosseguiu Joe. — Vamos dar a Joey um — Pare com isso, ordenou Joe. — As garrafas não estão tam-
pouco õe gasolina e fazer com que ele entre num dos reboques do padas. Você quer derramar gasolina pela rua toda?
estacionamento Niehaus, na esquina de Mascher e West Lehigh. Ele — Vejo você mais tarde, jacaré, disse Joey ao pai ao sair para
vai começar a fumar um cigarro e é certo que derrame alguma ga- a rua.
solina enquanto estiver fumando. — Joey é bem boboca com coisas — Eu alcanço você, Joey, disse Mike.
desse t po. A gasolina pegará fogo, o reboque ficará em chamas e -Joe entregou a Mike a sacola com os fósforos, a tatuei na, os ci•
o mesmo acontecerá a Joey. Que tal, hein? garros e a terceira garrafa de gasolina.
— Bárbaro! disse Mike.
— Não quero que Joey acenda nenhum fósforo a caminho de
Mike subiu para acordar Joey. lá, explicou. — Não vamos querer que aconteça nada na rua.
Joe teve uma alucinação: os membros de Joey arrancados de seu Joe subiu ao segundo andar e colocou-se na janela do quarto do
corpo, seus órgãos internos atrofiados pelo calor, sua pele em cha- meio. Era o quarto em que, quando menino, ele cavara um buraco
mas, sua cabeça como uma bola ardente de carne, ossos e cabelos, na parede e tivera suas primeiras fantasias de destruição.
emitindo gritos de agonia...
Joey não voltará mais, pensou ao observar Mike e Joey andan-
Os' lábios de Joe abriram-se num sorriso maníaco. De seu
do em direção ao estacionamento. A perspectiva da destruição de
estômago veio uma gargalhada retumbante, tonitruante — o riso
Joey por um incendio,nund. reb,oquç, disse-me Joe em 9 dc agosto dc
ventral que irrompera pela primeira vez de seu interior quando ele
1977, durante uma de' nossas últimas conversas na Cadeia do Con-
tinha quinze anos. Agora, como naquela época, o riso tinha vontade
dado de Camden, "deu:me um sentimento de excitação, um extase,
própria., Da boca de Joe vinham ribombos de gargalhada, como
uma imensa e reluzente cobra que se desenrolasse rapidamente, vol- uma ereção. Era o mesmo tipo de excitação que eu iria experimentar,
mais tarde, ao usar uma Jaca para torturar. Mas não senti nenhum
ta após volta, do interior de sua cova.
desejo de me masturbar enquanto observava Joey caminhar para sua
De repente, o riso cessou.
morte. Quando a ereção passou, saí da janela, vesti-me e desci para
Joe levantou-se e reuniu os adereços para a encenação da brin- a loja, para esperar por Mike".
cadeira no reboque: uma lata de cinco galões de gasolina que ha- Para Joe, a ereção já não tinha mais nada a ver com prazer
via comprado para levar para Neshaminy, que seria usada no cor- erótico — a ereção convertera-se na expressão do prazer do assassi-
236
237
'1 pois, a Companhia 31, Pelotão A, Batalhão 06 do D partimento de
nato. Desde que elaborara o plano do massacre global, o assassinato Incêndios de Filadélfia chegou ao local.
através dos órgãos sexuais substituíra a mutilação fantasiada dos No silêncio que se seguiu ao lamento das sirenas, Joe ouviu
órgãos genitais como estímulo da potência. passos, com seu ritmo desigual e conhecido, em ireção à loja.
Mais tarde, Mike contou a Joe a história do que acontecera no Intrigado, levantou-se e esperou que a sineta tocasse; em vez disso,
reboque e Joe relatou-a a mim. porém, a porta foi escancarada,
"Joey e Mike escolheram um reboque perto de uma parede. No — Acho que aquele incêndio começou meio c do, disse joey,
reboque havia um container. Caso você não saiba, Flora, a carga emoldurado pela porta de entrada. — Eu estava esperando que vo-
é colocada no contalner e este é descarregado do reboque nas do- cês chegassem. entrou na loja, passando pelo
cas, nas ferrovias e nos ancoradouros. Joey cruzou a porta mancando e
"Joey subiu no container pela porta dos fundos. Logo que. en- pai. Parou diante de Mike.
trou, retirou as garrafas de gasolina de sua sacola e colocou-as na — Você está bem? perguntou Joe.
parte frontal do container. Quando voltou para a porta dos fundos, Sem responder, Joey deu impulso nas mãos, su•pendeu o corpo
Mike deu-lhe a sacola com os cigarros e os fósforos. Mike disse a e sentou-se no balcão. — Pai, sente-se na cabina a' lado de Mike
Joey que viria buscar-me e que ambos voltaríamos para ajudá-lo na que eu lhe conto tudo.
brincadeira. Mike fechou a porta, mas não conseguiu trancá-la. Era Joey contou o que acontecera depois que Mike o deixou no re-
baixo demais. Assim, imprensou uma caixa vazia de aço com capa- boque. Ele havia fumado incessantemente e atirado cigarros acesos
cidade para 12 garrafas pequenas de leite entre o reboque e a nas garrafas de gasolina. Depois, espalhara gasolina pelo chão e ati
parede. Encontrara a caixa no estacionamento. Seja como for, quan- rara pontas de cigarro. Quando as chamas chamus aram os fundi-
do Mike me disse isso, comentei, 'O.K., o que quer que você tenha lhos de suas calças, ele se atirara na porta com tod: a sua força. A
porta do reboque se abrira, jogando para o lado caixa vazia de
feito estava certo'. Joey
"Subimos para o quarto do meio e olhamos pela janela. Mike leite que Mike havia imprensado contra ela. Fora •o reboque,
apontou-me o reboque. Ficamos a observá-lo, sem conversar, sim- rolara no chão para apagar o fogo de suas calças. Feito isso, fora
plesmente esperando. até a Lanchonete do Sam, de onde telefonara pana os bombeiros,
.
"Passado algum tempo, vimos fumaça. Era muito espessa e ne- comunicando o incêndio no reboque. Depois disso, voltara para casa
gra e vinha do reboque de Joey.
"'Bom', disse Mike, 'ele está morto'.
" 'E, acho que sim', disse eu. As três horas da tarde de domingo, 28 de julh•de 1974, a Voz
"Parecia ser isso, Flora. Mas não tive nenhum êxtase, nenhu- despertou Joe de um sono profundo. Mais cedo, naquela manhã,
ma ereção. Naquele momento, eu já não queria que Joey estivesse tinha começado a dirigir-se com Mike e Joey para o Grande Canyon,
morto. Foi como em Hazleton, no final. Como na pilha de ardósia, mas, no trem que levava ao terminal de ônibus, t nha mudado de
idéias sobre o Grande Canyon. A Voz do Senho o levara a um
a taça estava vazia.
prédio em construção como sendo o lugar para ma ar Joey.
"Em Hazleton, porém, eu conseguira salvar Joey de mim. Ago-
A pretexto de tirar fotografias, Joe e Mike fiz ram Joey deitar-
ra, não poderia fazer nada se Joey estivesse morto. Delegara a Joey se de bruços num andaime uns trinta centímetro acima de suas
a tarefa de matar-se. E aquela fumaça me fez pensar gire essa tinha
sido minha última delegação a Joey. cabeças. Escoraram Joey entre uma escada e algu as tábuas, exa-
as toe não con-
tamente na posição certa para cortar-lhe o pênis.
"Mike e eu descemos até a loja para aguardar notícias".
seguiu fazê-lo. A taça tinha-se esvaziado.
Joe e Mike sentaram-se, tensos, nas cabinas de espera dos fre- Joe havia recolocado o canivete no bolso. E e Michael reti-
gueses. Ouviram sirenas do corpo de bombeiros, porque, às 6:38 hs. de joey e mandaram que ele descesse do
raram as tábuas das costas
da manhã, os bombeiros locais haviam recebido um telefonema co- andaime.
municando o incêndio no estacionamento Niehaus. Dois minutos de-
239
238
Joe dissera então aos filhos que agora iriam até o terminal de Subitamente, ele estava no cume da mais alta montanha do
ônibils fazer reservas para o ônibus vespertino de Wellsboro, que ia mundo. Olhava em torno, de horizonte a horizonte. Soprava um ven-
até ó Grande Canyon. Depois de comprarem os bilhetes, tinham vol- to cortante. Andou até a borda do cume e olhou para baixo. Formi-
tadol para casa. gueiros de pessoas minúsculas corriam pelas cidades, atravessavam
'Mas Joe tinha adormecido no sofá-cama e perdera o horário fazendas e enchiam os barcos nos oceanos. Eram seus inimigos.
do õnibus. Ele apontou o dedo para uma das cidades. Imediatamente, um
Ainda vestindo as calças e a camisa que usara pela manhã, furacão a destruiu. Agitou o punho em direção à cidade arruinada
sentou-se no sofá-cama e ouviu a Voz que o despertara. — os sobreviventes conheceram uma morte horrível, por fome e
Matar Joey é certo, disse o Senhor. — Esta manhã, você doença. Voltou-se ligeiramente e apontou o dedo para as fazendas.
falhiu porque pensou que seria errado. Deveria ter cortado o pênis Imensos ciclones negros dançaram pelos acres de aveia e milho. Fa-
dele enquanto ele estava naquele andaime. Portanto, pense novamente, zendeiros, donas-de-casa, cavalos, vacas, porcos, crianças a caminho
Joe, e prepare-se para a luta como um homem. da escola, ônibus, automóveis, caminhões e fazendas inteiras foram
Joe deixou pender a cabeça. Não respondeu. Pela manhã, no sugados pela goela dos ciclones.
andaime, tinha lutado contra a Voz, e lutara novamente contra ela Joe tornou a virar-se e franziu os lábios num muxoxo cm direção
tarde, ao adormecer; embora tivesse feito reservas, não levara Joey aos oceanos. Ondas monstruosas e uma chuva espessa afundaram na-
vios, inundaram ilhas solitárias e arrancaram de suas fundações os
e Mike ao Grande Canyon.
Encontre um buraco. Mate Joey dentro dele. Joey é um pré 'os dos portos marítimos.
demônio, está repleto do mal. E é 'bicha'; seu corpo está sujo de Joe ergueu os olhos. Nuvens negras deslizavam pelo céu; o
/ tanto se esfregar em outros rapazes, de colocar os pênis gotejantes vento levava agora o mau cheiro dos corpos apodrecendo nas cida-
deles na boca, de tomar no rabo. Arghl des e fazendas. .n
t/ Talvez eu me tenha transformado no demônio que não foi ar-
— Vai acontecer esta tarde, respondeu Joe.
roncado de meu "passarinho" pelo Dr. Daly, pensou Joy. O demônio
— Hoje, Joey; amanhã, o mundo, prosseguiu a Voz. — Você cresceu; já não está somente em meu pénis, mas estou com as jun-
e Michael, seu oficial imediato, cometerão um massacre global. tas explodindo, porque o demônio tomou conta de meu corpo in-
Matarão todos os membros da enojante raça humana. Depois, você
eliminará sua família, o que sobrar de seu bando podre. Por fim, teiro. Agora, eu sou o demônio.
Um relâmpago em forma de faca cortou o cume extatamente no
matará Michael, e depois se matará.
centro. Atirou cascalho para todos os lados e ergueu a poeira no ar.
— Quero morrer, gemeu Joe. O mau cheiro da carne pútrida desapareceu. Joe sacudiu a poeira e
— Você morrerá, Joe, morrerá. Cometerá um suicídio glorioso.
Mas, primeiramente, tem que saber algo sobre esse misterioso sujeito os fragmentos de cascalho de seu corpo.
Enquanto o trovão bramia pelos céus escuros até a linha do
cha4ado Morte. Você e Mike tiveram um bom começo com José
horizonte, uma figura com o rosto e o corpo de Joe Kallinger apa-
Collazo. receu bem acima do ponto onde batera o relâmpago. Uma luz pura
-- Com quem? a envolvia. Sua postura era nobre: trajava camisa e calças de fogo,
— O garoto da piscina, Joe. Não se lembra dele? com partículas de opalina e turquesa girando nas chamas. Nos pés,
- Não. trazia chinelos de madrepérola com fechos de ouro cravejados de ru-
— Bem, não tem importância. Há tantos para matar. Mas você bis. No verso da camisa flamejante, espíritos em letras de gelo imu-
e Mike mataram José. Isso é que é importante. Você provou que é tável, estavam os dizeres: Serviço Rápido Kallinger de Consertos de
feito de bom material, Joe. Use-o!
Calçados com Recolhimento e Entrega a Domicílio.
— Kyriastorah kyrieh maria kreh, entoou Joe.
Sempre que pronunciava esses sons, toe sentia-se repleto de O duplo de Joe Kallinger olhou desdenhosamente para os de-
energia. Era um sentimento oceânico, que lhe dava consciência do tritos a seu redor e afastou com a mão os grãos de poeira de seu
que lhe agradava chamar seus poderes sobre-humanos. rosto.

241 )
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Joe sentou-se numa das cabinas de espera. In • inou-se para a
— Coloco-me em sua presença, disse a figura, na forma ce- frente, com as mãos unidas e o rosto ansioso e date minado.
leste que você assumirá depois de suicidar-se. Você não é um de- — Mike, preciso dizer-lhe uma coisa. ara falar sobre
mônio. Agora, seus poderes são sobre-humanos, mas estão escon- — Olhe aqui, papai, se você me trouxe aqui
didos por esse corpo doentio e terrâneo (sie) que você carrega como hoje de manhã, bom, não estou interessado. Portanto, squeça, 'caral
um condenado. Após sua morte, você o despirá e será Deus. Regerá Joe respirou fundo. Sabia que, sem Mike, nã poderia matar
o universo. Joey, por mais insistente que a Voz se tivesse tornad
Com a graça de um bailarino, o duplo de Joe planou acima voz baixa e tre-
— Mike, esta tarde, disse Joe lentamente, com o, acabado!
do cascalho, cobrindo uma pequena distância em direção a Joe. mula, Joey vai por água abaixo, para fora do mun
O brilho da figura era agora um casulo de luzes que envolvia todo o Mike ergueu as sobrancelhas. Deu um risinho cu to e zombeteiro.
cume. Para além dele estavam as nuvens, deslizando baixas, e a es- as você precisa
— Não estou brincando, filho, dieta Joe. —
curidão. ajudar-me. Não posso fazer isso sem voai.
— Mas o tempo está-se encurtando, disse a figura. — Você ' ey no andaime,
— Eu estava pronto para cortar o pau de J não era correto.
deve levar Michael a sua loja e conversar com ele. Mostre-lhe o papai, mas você não quis me dar a faca. Disse que
poder de sua decisão de matar Joey hoje. Para a viagem de morte Mike deu outra risada zombeteira.
dele, você deve levar quatro correntes, quatro cadeados e quatro Subitamente, os lábios de Toe perderam seu formato sensual.
chaves. Lembre-se: Seja a figura que agora vê diante de seus olhos Franziram-se, como sempre acontecia quando Joe estava pronto a
— o deus em quem você se transformará após seu suicídio, depois praticar alguma ação sádica. Vendo isso, Mike dis e: — Está bem,
que tiver destruido o mundo. papai. Ajudo você hoje à tarde. Mas, se você es ragar tudo desta
A cena alucinatória desapareceu. vez, não vamos mais ser sócios.
— Não vou estragar tudo, Mike. e.
— Onde é que vamos matá-lo? perguntou Mi ontro vocês dois
Joe ainda estava sentado na borda do sofá-cama, ponderando Vá procurar Joey agora, disse Joe. — En '

sobre sua "visão", quando Michael entrou na sala, ligou a televisão no Restaurante OK, na rua York. Af, encontrare os um lugar.
e
e sentou-se para assistir ao programa. Joe lavou as mãos e o rosto, passou brilhan ina no cabelo
No andaime, Mike chamara Joe de covarde; Mike estava de- trocou de roupa, vestindo novas calças pretas e u a camisa branca
cepcionado porque papai tinha-se apavorado. Não queria ter mais limpa, aberta no colarinho. Depois, foi até o porá e . Num canto dr'
nada a ver com esse pai sem firmeza, sem espinha dorsal. chão estavam as correntes com que Joc havia ace rentado seu filho
Mas Joe sabia que, uma vez que falasse com Mike, o filho mais velho, Stephen, numa cama. Levou quatro dei 5 para a loja.
teria uma opinião diferente. Em sacolas usadas para carregar sapatos Jo colocou as cor
Mike, quero conversar um pouco com você. rentes e quatro cadeados com chaves. Levou tambi m a máquina fo-
Relutantemente, Mike desligou a televisão e aproximou-se do pai. tográfica e três lanternas, saindo pela porta da loja
Cruel e zombeteiro, colocou-se silenciosamente diante de Joe. Betty, que estava sentada nos degraus da ntrada de Fran'
— Vamos até a loja, disse Joe. Street, pensou que Joe estivesse dormindo.
Na quietude de domingo, Joe perguntou: — Onde está Joey?
Mike deu um pequeno salto para cima do balcão, perto da
caixa registradora, e sentou-se calado por alguns instantes antes de Joe encontrou-se com Mike e Joey na rua Y rk, em frente ao
responder ao pai. Então, disse; — Ele estava sentado lá fora, mas Restaurante OK. Entraram e sentaram-se nos fun os, numa cabin
já se mandou. Disse que voltava às seis, porque você ia levar a gente junto à janela.
para jantar e ao cinema. Pata compensar por não termos ido ao Joe e Mike sentaram-se num dos lados da esa, Joey no oc
Grande Canyon, disse ele. Acho que deve estar por aí em algum e ao pai sua pro
tro. Entre hambúrgueres e coca-colas, Joey lembr
lugar. 24
242


messa de irem ao Grande Canyon no domingo seguinte, mas fez uma Espalhados por toda a área havia tijolos quebrados, blocos de
previ$ão: — Você vai foder com tudo de novo. Conheço você. cimento, pedaços de aço, fragmentos de vidro, partes de encanamen-
Ne repetiu sua promessa de levar a família inteira para jantar tos, garrafas, latas e maços de cigarro amassados. Aqui e ali, a
fora ilaqueia noite e disse que, durante a tarde, ele e os filhos iriam água acumulara-se em poças que refletiam o céu claro de verão.
tirar fotografias.
Para Joe, os tijolos e os pedaços de aço eram como imagens
Foi por isso que eu trouxe as correntes, disse Joe. partidas num sonho. Sentia-se como se estivesse flutuando, mas, im-
— Iau! Isso é o máximo! exclamou Joey.
pulsionado pela Voz, que surgira intermitentemente desde que ele
Joey sempre gostara de posar diante de uma câmara. Certo dia, saíra de casa, Joe sabia onde estava e por que estava ali.
colocara algemas para ser fotografado com alguns amigos. Os ami- Joey havia-se adiantado até a área de demolição, apressando - se
gos apontavam para ele, que usava as algemas. na frente de Joe e Mike. Explorou o terreno e começou a encher os
Jpey acendeu um cigar— e disse: — Papai, me dá dinheiro para bolsos de tesouros. Numa das poças, encontrou um pequeno ramo
a eletrola.
Joe hesitou. amarrotado de flores de cera. Sacudiu delas a água e levantou - se,
— Dê a ele, disse Mike. Depois, sussurrou no ouvido de Joe — agitando o ramo no ar.
Vamos, é a última vez. — Ei, ,vocês, olhem para isto! Puxa, se eu conseguisse um
punhado delas, novas, podia vender de porta em porta e ganhar um
Jbey estava olhando para a lista de discos no painel seletor. — bocado de dinheiro, heni? Olhou para Joe e Mike,
Ei, pat, eles têm minha música favorita!
— E, muito bem, Joey, muito bem, disse Joe, Continuou a an-
— Tome aqui, disse Joe. dar, seguido por Mike. Há muito tempo, Joe dera flores reais a sua
Jpey pôs a moeda na abertura e sentou-se para escutar sua can- mãe adotiva no Dia das Mães. Ela o olhara de cima, dizendo, "Bali,
ção predileta de rock, Seasons in the Sun. Terry Jacks cantava: Joseph, que absurdo! Elas vão morrer. E nessas coisas que morrem
"We had joy, we had fun, we had seasons in the sun; but the hills que você gasta seu dinheiro". Anna jogara as flores fora.
that we climb are just seasons out of time".
Jpey também cantou. O mesmo fez Joe, que raramente cantava. Joe observou Joey mancando entre os detritos, cavando, :Ta-
Miando coisas, examinando, jogando fora e colocando no 110150, (111.11
Entoaya a canção muito baixinho, com as palavras mal saindo da um varredor de rua. Seu dorso magro vergava-se sobre as pernas
boca. Mike apenas ouvia. enquanto ele caminhava como um caranguejo entre o lixo, com o
No verso "Good-bye, Papa, plena pray for me, 1 was the black
rosto próximo de um velho rolo de fios elétricos, quase a farejá - lo
sheep of the family", • Joey disse calmamente, — Esse sou eu:
como um animal. Um animal-flor, pensou Joe, que será jogado fora
a ovelha negra da família. esta tarde, em algum lugar sob os detritos.
Joe sabia que, abaixo do solo, havia fundações que ainda não
tinham sido expostas pelos demolidores. Nesta área, tinha certeza, ele
Em 28 de julho de 1974, todo o lado norte da rua do Mer-
cado, desde a rua Oito até a Dez, era uma área em demolição. Pré- haveria de achar alguma entrada para um mundo subterrâneo de po-
dios e lojas tinham sido parcial ou totalmente demolidos. rões, canos, escadarias, depósitos e portas secretas..0 ar seria bo-
Meia hora depois de saírem do Restaurante OK, Joe, Mike e lorento e úmido como o ar de seu buraco em East Hagert Street
Joey afastaram-se das ruas asfaltadas de Filadélfia para andar por — Ei, papai, gritou Joey, por que não tiramos fotografias com
esse terreno áspero e cheio de detritos, que se tornara lamacento em as correntes que você trouxe bem aqui?
muitos pontos pela ruptura de encanamentos dágua. — Não, Joey, retrucou o pai, vamos guardar as correntes para
a última foto, a melhor delas, Mas vamos tirar algumas fotografias
aqui.
-• «Adeus, papai, reze por mim, por favor; fui a ovelha negra da familiar Joe sentia-se em casa na área de demolição. Lembrou-se do pe-
(N. da T.). queno carrinho de mão vermelho que costumava levar quando ele e
as crianças saíam para explorar latas de lixo e pilhas de detritos.
244 245

g' 5
Joey sentou-se num degrau, enrolou as calças até os joelhos, ti-
Joe gostaria de tê-lo agora, para que algum; dos objetos indesejados rou os tênis e as meias e balançou os pés na poça. A gua estagnada
espalhados por todo o terreno pudessem encontrar um lar em seu era quente e pegajosa.
porão. Joe e Mike detiveram-se alguns degraus acima de Joey. Pus-
Joe ouviu Joey chamar novamente. — Ei, pai, venha até aqui. searam o facho das lanternas pelas paredes, a escadar a e a água. A
Você também, Mike. escada não tinha nenhuma projeção onde pudessem pendurar Joey
Joey estava de pé diante de uma grande abertura que expunha com as correntes, e as paredes bolorentas ao redor era nuas e lisas,
à luz um longo balcão num salão que fora de uma loja de artigos transpirando umidade.
decorativos chamada Goldman's. Buscando um local adequado com suas lancem , Joe e Mike
— Que há aí? perguntou Mike. viram uma grande plataforma de aço que se estendi de uma das
— Não sei ainda. Vamos dar uma olhada, respondeu Joey. paredes até a escadaria. A parede fazia um ângulo re o com a poça
Joey ficou decepcionado. O salão fora "depenado". Apenas o dágua estagnada. Nela havia uma armação de janela em vidro.
balcão ainda estava ali; as mercadorias e aparelhagens tinham sido Encostada na parede próxima à borda da platafo a havia uma
retiradas e a parede externa fora demolida. Até o piso estava nu, escada de aproximadamente 1,80m de altura com s is degraus re-
sem nenhum detrito. dondos. A plataforma de aço ficava cerca 1,50m acra da poça.
Joe e Mike examinaram a escada de mão. Joe cutucou-o com
O salão dianteiro fora esvaziado, mas Joey descobriu uma gran- a sacola de cadeados e chaves. Mike sacudiu a sacola com as corren-
de porta de ferro nos fundos do cômodo, que estava parcialmente
aberta. A escuridão por trás dela era misteriosa. Joey empurrou a tes. Elas chocalharam.
porta e, em meio à penumbra e à poeira, Joe viu o patamar de uma — E esse o lugar! disse Mike.
escadaria de aço circular. — E, sim, respondeu Joe com admiração na vo
Lá embaixo, Joey batia com os pés na água e ca avo baixinho,
— Vou descer, disse Joey. "We had Joy, we had fun, we had seasons in the s n
— Você quer ir também, Mike? perguntou Joe.
— Traga-o aqui em cima, ordenou Jce.
— O.K. tograf ias.
— Venha, Joey, gritou Mike. — Vamos tirar f
— Muito bem, Joey, disse o pai, vamos descer e ver o que há. Joey secou os pés com um lenço e calçou as ias e os tênis.
No patamar da escada, os três acenderam suas lanternas. Agar- Deixou as calças enroladas até os joelhos. O ram de flores de
rado a seu ramo de flores de cera, Joey abriu caminho para o sub- cera ainda estava preso em seu cinto. Subiu os deg aus iluminados
solo. Lentamente, desceram os degraus da escada em espiral. Mike
pela lanterna de Mike.
ia atrás de Joe. Joey olhou ao redor. — Merda! Aqui não tem lu suficiente para
— Isso parece bom, disse Mike.
— Pode ser. Vamos descobrir, respondeu Joe. Joe sabia que tirar retratos!
e Joe.
ele e Mike tinham o mesmo pensamento: talvez este fosse o lugar — Bem, temos bastante luz das lanternas, dis
ara de alguma
por que estavam procurando para matar Joey. — Está bem. Mas não quero sair na foto com
coisa que foi enfiada num barril de tinta.
Descendo, observaram que, quanto mais prosseguiam na desci- sse Mike.
da, mais úmidos se tornavam os degraus. Depois de completarem ou- — Não se preocupe, Joey; você não vai sair, d
O pai disse então: — Joey, venha até aqui, pe to da borda da
tra volta da escada em espiral, viram que os degraus estavam sub- plataforma. Está vendo essa escada encostada na par de? Bom, suba
mersos e pareciam continuar descendo em círculos para além do dois degraus e depois vire-se de frente, apoiand as costas nos
alcance de suas lanternas
degraus.
Ficaram olhando para a enorme poça de água estagnada para a De costas para a escada, com os braços e as pernas fazendo
qual a escada agora conduzia. Sabiam que, se houvesse outro pata- pressão contra os lados dela, Joey deu uma risadin a ao ver Mike
mar, ele seria inacessível. retirar as correntes da sacola.
— Iauldisse Joey. — Vou chapinhar na água.
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Joe teve medo de que as flores no cinto de Joey atrapalhassem Em volta do nariz e da boca havia pedaços de sujeira escura e úmi-
as correntes. Jogou-as para o outro lado do cômodo, em frente à da e de limo.
moldura da janela.
— Papai, ajude-me, pediu com um fio de voz.
— Ei, gritou Joey, por que você jogou fora minhas flores?
— Depois, Joey, depois eu lhe arranjo mais flores, disse Joe. Em seguida, virou novamente o rosto para a água e ficou imóvel
Q pedido de ajuda- de loa retirou
retirou-toe
toe seu êxtase.
Mike entregou as correntes a Joe, que prendeu os tornozelos e — Mike, vou descer para ajudar
pulses de Joey à escada. Em seguida, Mike pôs. um cadeado em cada — Droga! Vou ficar aqui, respondeu Mike. — Não vou en-
corrente e fechou-o.
trar nessa água nojenta.
; Joey deu outro risinho. — Papai, isso me lembra a ocasião em
A escada flutuou por uma pequena distância em direção à ex-
que pus algemas nos pulsos, com uns 'caras' olhando para mim na tremidade da poça, balançou suavemente e deslizou aos poucos para
rua, .e alguém tirou meu retrato. Você tem aquela foto em casa, a extremidade oposta.
não é?
Joe saiu da plataforma e desceu a escadaria até ficar com
Tenho, Joey, respondeu Joe. água na altura do queixo. A luz da lanterna de Mike iluminava a su-
Joe fez um sinal para Mike com a cabeça. Agora, cada um es- perfície. Joe tentou puxar a escada. Vendo-o fazer isso, Mike apres-
tava num dos lados da escada, com a poça dágua à sua direita. Joe sou-se a descer os degraus.
examinou com a lanterna pela última vez as correntes e cadeados, — Eu seguro você, disse Mike, mas não vou entrar na água.
certificando-se de que eles atavam Joey firmemente à escada.
Qual de vocês vai tirar meu -retrato? perguntou Joey. Mike desceu e segurou o ombro direito de Joe enquanto este
puxava a escada. Quando Joe colocou a parte inferior da escada num
Mike, que estava agora com a máquina fotográfica, ergueu os dos degraus, Mike soltou-o. O degrau' estava coberto de agua.
olhos para Joey e sorriu. — Eu vou. — Ajudo você com os cadeados, mas não vou tocar em Joey,
Joe e Mike giraram a escada num ângulo de noventa graus, para disse Mike.
que Jbey ficasse de frente para a água. Em seguida, afastaram-na al- Estou sentindo os braços e as pernas frios, pensou Joe enquanto
guns pés da parede onde estivera encostada. Joe pôs a mão no alto retirava as correntes. E os pés frios, como meti pai cri) seu leito do
da escada; Mike esticou o braço o mais alto que conseguia. Cada morte, Joe lembrou-se de que havia tentado esfregar os pés du pui
um segurava sua lanterna com a mão livre, e os fachos de luz brin- para devolvê-lo à vida. Não conseguira fazê-lo e culpara-se por não
cavam na superfície da enorme poça. ter aperfeiçoado seus experimentos ortopédicos.
L- Espere aí! disse Joey. — Vocês estão me mudando para ou- Joe entregou as correntes a Mike c, depois, tocou as mãos e o
tro lugar? Vocês poderiam tirar uma foto muito boa se... rosto de Joey. Ele não estava respirando. Joe verificou-lhe o pulso e
Joe e Mike empurraram a escada sobre a borda da plataforma. ergueu as pálpebras do filho.
No instante em que a escada saiu das mãos de Joe, ele_teve — Está morto, disse.
re . A energia percorreu - lhe o corpo; sentjy„se_invencfyej e — Agora, tire-o dal e me dê a escada, disse Mike.
próxi o das estrelas e do universo. Observou Joey e a escada bate- Joe ergueu Joey da escada. Segurou-o num duo braços e, com a
rem na água, um metro e meio abaixo da plataforma. Os dois espir- outra mão, entregou a escada a Mike. Mike subiu até a plataforma
raram' um grande volume dágua e submergiram. A escada, com Joey com a escada, os cadeados e as correntes.
atado ir a ela, flutuou e ficou sobre a superfície viscosa. Estremeceu e
Joe apertou Joey contra o peito por um momento, e depois co-
balançou suavemente entre os anéis dágua. locou-o delicadamente no degrau mais próximo.
No pênis e por todo o resto do corpo Ne sentiu oSta,se. de — Vamos sair daqui, disse Mike do alto da plataforma.
um.naLmsLassassino, um fogo .divino, radiante e puro. — Não estou com pressa, respondeu Joe.
ãnbaixo da escada, Joey se debateu. Virou o rosto para cima Mike desceu correndo os degraus da plataforma até onde estava
entre dois degraus. O cabelo encharcado cobria-lhe a testa e os olhos. o pai.
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— Vamos, saia dessa água, ordenou Mike. — Ela está batendo
no seu queixo.
— Já disse que não estou com pressa, Mike.
— Era isso o que a gente queria, não era? A voz de Mike se
elevava, em pânico. — Não há nada que você possa fazer por ele.
Ele está morto, morto! Logo, vamos embora!
Joe não se mexeu. Continuou olhando para o rosto de Joey. Ti-
14 Caso N úmero 4003 74
nha esperança de que o filho abrisse os olhos e falasse com ele. Seu
rosto parecia tão vivo...
r- A morte de Joey foi certa, disse Joe a si mesmo, um sacrifício
que tinha de ser feito.
Mike voltou à plataforma e atirou a escada no salão inundado.
Apanhou as sacolas com os cadeados e as correntes.
Mike chamou da plataforma: — Temos que sair daqui. Vamos
ser apanhados.
Joe voltou-se lentamente. Antes de subir a escada em espiral, tor-
nou a olhar para o filho deitado no degrau.
Joe sabia que, finalmente, estava a caminho da divindade. As roupas de Joe estavam ensopadas de água imun' a, mas ele não
sabia disso. Enquanto deixava a área de demolição om Mike, car-
regando as sacolas com as correntes e cadeados, esq eceu-se da des-
cida na escada em espiral, da poça de água estagnada , do assassinato
de Joey e de sua própria imersão na água lodosa. E, embora esti-
vesse consciente de que Joey já não estava com ele e Mike, não se
afligiu com a ausência do filho, nem sentiu curiosi ade sobre onde
ele poderia estar.
Por um processo de dissociação característico e alguns esqui-
zofrênicos, o psiquismo de Toe ifprcitegia da dor da culpa — o
mesmo processo pelo qual ele havia esquecido o ais ssinato de José
Collazo.
Joe e Mike foram diretamente para casa. Seu exercícios sub-
terrâneos e o calor da tarde de verão os deixara sonolentos, de
modo que permaneceram em silêncio na viagem d elevado e até
chegarem a Kensington.
Mike ficou do lado de fora para brincar. Betty inda estava sen-
tada nos degraus da porta que dava para Front S reet, na sala de
estar, e não viu Joe entrar na casa pela porta da 1• ja. Ele subiu, ti-
rou as roupas, que pareceram secas e limpas à sua ercepção distor-
cida, tomou um banho de chuveiro e vestiu-se.
Betty chamou-o do pé da escada.
— Joe, você disse que ia nos levar para janta fora.
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— Mas Joey não está, respondeu Joe. — E melhor esperarmos Agindo sob as ordens do Senhor, que acreditava te em vindo a
até ele voltar. ele em sonho, Joe, acompanhado de Mike, voltou à área de demoli-
Bett suspirou. — Joey me disse que estaria em casa às seis. ção todas as manhãs, desde 29 de julho até 9 de agosto, antes de abrir
Já são q ase sete. a loja. Mike não se referia ao assassinato de Joey. Evidentemente,
— ntão, jantamos aqui, disse Joe. — Vamos comer pizza. Vou estava agindo com base no padrão já estabelecido de que pai e fi-
mandar Mike buscá-la. lho nunca falavam sobre um crime, uma vez cometido.
Joe desceu e saiu pela porta de Front Street. Chamou por Mike Certa manhã, na área de demolição, enquanto Mike vagueava
e deu - lhe dinheiro para comprar pizza. até uma esquina de rua, Joe observou os caminhões da Companhia
Durante e depois da ceia, Betty, que achava que o marido esti- de Fretes Hawthorne que entravam e saíam levando partes dos pré -
vera em casa a tarde inteira, ficou repetindo: — Joey me disse que dios demolidos. Quanto mais observava, mais aumentava sua impres-
voltaria àls seis porque papai ia nos levar para sair. Sei que ele não são de que vira Joey ali no doMingo em que ele "desapareceu".
fugiu des 'a vez — ele não diz que vai voltar quando foge. Sempre que Joey fugia, telefonava para o pai. Dessa vez, não o
As onze horas da noite, Joe telefonou para o 25° Distrito do tinha feito. Joe começara a encarar — como já tentara fazer com
Departamento de Policia de Filadélfia para comunicar o desapare- que Betty encarasse — a possibilidade de que Joey estivesse morto.
cimento de Joey. — Quero saber, perguntou Joe a um homem que estava orien-
tando os caminhões da Companhia flawthorne, se vocês acharam
algum corpo aqui.
— Não, não encontrei nenhum corpo, respondeu William Fa-
Joe concentrou-se nos detalhes de uma investigação particular. cison, um empregado da Segurança Avançada.
Na bancada de sua loja, colocou um gravador onde gravava as pis- — Tem certeza?
tas sobre p paradeiro de Joey que lhe eram trazidas pelos fregueses, — Não, não tenho certeza. Mas vou verificar.
por donas-de-casa e por crianças da vizinhança. Numa cadeira jun- Facison designou outra pessoa para orientar os caminhões e
to a sua banqueta ficou o telefone da loja, que ele usava como linha telefonou para o Escritório de Investigações sobre Mortes Suspeitas.
especial pigra seguir pistas fornecidas por pessoas de toda o cidade informando a Joe que nenhum corpo fora encontrado. Depois disso,
que tinha lido o pedido de ajuda da família Kallinger. Facison telefonou para o 6° Distrito Policial. Mais uma vez, os re-
Joe trabalhava com o Esquadrão de Costumes, que estava inves- sultados foram negativos.
tigando o caso; mas também saía da loja para explorar as ruas, os Joe encontrou Mike. A caminho de casa, pensou que a possi-
terrenos baldios e as casas abandonadas, não só em Kensington, mas bilidade de Joey estar morto já não era apenas uma especulação fo-
também em Richmond e Fishtown. mentada pelo pânico.
Na primeira noite depois de matar Joey, Joe teve um sonho.
Sonhou cutte ele, Mike e Joey estavam andando por urna área em de- O corpo do indivíduo branco, de sexo masculino, deitado so-
molição. então, subitamente, Joey desaparecia. Ao acordar, Joe acre-
ditou que o sonho lhe fora enviado pelo Senhor, que o estava ins- bre a laje, tinha 1,70m de altura e pesava 35 quilos. Vestia meias
de padronagem azul e branca, calças xadrez azul, branco e vermelho,
truindo a procurar Joey na área de demolição entre as ruas Nove e
do Mercado. Joe não se lembrava de que o Senhor lhe ordenara que ténis preto e branco com a palavra "Dug" e o número "74" num
matasse Joey. dos pés e, no outro, um conjunto indecifrável de iniciais. Usava tam-
Pela manhã, antes de abrir a loja e tendo Mike a seu lado, Joe bém uma camisa bege de mangas curtas.
foi até a área em demolição. Tinha levado a máquina fotográfica e O corpo fora removido pelo pessoal do DML (Departamento
Médico Legal), às 6:15 hs da manhã de 9 de agosto de 1974, do
tirou foto de velhas demarcações. As ruas Nove e do Mercado pa-
reciam estranhamente familiares, como se Joe estivesse vivendo um aibsolo de um edifício da área em demolição entre as ruas Nove e
momento ide déjá vu. Para além disso, não tinha nenhuma lem- do Mercado. Fora levado para o necrotério, onde fora recebido por
E. Woerle, do DML, e designado como Caso Número 4003-74.
brança. E
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O DML não suspeitou de assassinato. Mas, obviamente, o de- — Eles trancam a porta atrás da gente no necr tério, disse-me
partamento de polícia suspeitou, pois, às 10:30 hs da manhã, o n. — A gente
Detetive Paris, da Divisão de Homicídios, chegou ao necrotério para Joe três anos depois, no Cadeia de Condado de Camd que a prisão.
se sente apanhada numa armadilha, muito mais do
colher informações sobre o morto. Rosenstein fez
As 11:30 hs da manhã, o legista assistente, Dr. H. E. Filiinger, Senti que eles me estavam manobrando. O Detetive amuscadas no
declarou o indivíduo como morto. No Atestado de Óbito, fez cons- um jogo de palavras. Fiz a identificação pelas calças c
próprio corpo.
tar que a causa da morte era indeterminada, e a forma da morte, reboque. Vi fotografias do corpo de Joey, mas não o
desconhecida. Ao mesmo tempo, um exame post-mortem foi iniciado A polícia perguntou, 'Seu filho costumava andar co as calças en-
is ter visto as
roladas até os joelhos?' Eu não me lembrava de jam :
e revelou que o corpo estava em estado de putrefação parcial. de Joey daquele jeito. Flora, quando a policia me levou para
A identidade do morto, tal como a causa e a forma da morte, calças
o necrotério, eu não me lembrava de nada sobre a orce de Joey .
não foram determinadas. Os meios de comunicação trabalharam com
Contei isso a você uns três dias atrás. Mas, até im diatamente an-
a polícia e o DML para descobrir quem seria o Caso Número 4003-74.
No dia 12 de agosto, um detetive de homicídios chamado Ed tes daquele dia, eu não me lembrava de nada. Flor , de nada!
Funk indicou ser provável que o Caso Número 4003-74 fosse Joey
Kallinger, idade 14 anos, de North Front Street n° 723, cujo desa-
parecimento fora comunicado em 28 de julho. As 5:45 hs da tarde, Mesmo nos órgãos oficiais, nunca houve nenhuma certeza so-
o Investigador James A. McGovern, do DML, entrevistou Kallinger. bre o modo como Joey morreu. Quando Joe me falou -obre o assassi-
O Detetive de Homicídios Daniel kosenstein levara Joe num carro n
ato, não o fez em resposta a qualquer pergunta m nha, e sim es-
da polícia de chapa particular da loja ao necrotério. pontaneamente. Apanhou uma escada que, por acaso estava na en-
Joe forneceu dados, segundo o Certificado de Identificação do fermaria, e encenou vividamente os detalhes de com ele e Michael
DML, relativos às circunstâncias da morte. O formulário afirma tam- tinham acorrentado Joey à escada e depois o haviam jogado na poça
bém que "os dados foram pessoalmente fornecidos pelo informante" de água parada.
e que ele não viu o corpo. Entretanto, viu fotografias do corpo. Não acreditei quando Joe me disse que não se le 1brara de nada
A declaração de Joe, assinada por ele e atestada por James acerca do assassinato até três dias antes de me falar a respeito. Por
McGovern, aparece da seguinte maneira no Certificado de Identifi- causa de meu ceticismo, lembrei-lhe que, na Cadeia o Condado de
cação: Bergen, aproximadamente um ano antes, ele me tinha dito que "Joey
provavelmente morreu por afogamento Perguntei-lh o que preten-
Comunicamos o desaparecimento dele ao 25° Distrito no dera dizer com aquela afirmação. Ele respondeu, 'Apenas que o
dia 28 de julho de 1974, aproximadamente às 23:00 hs. Ele afogamento parecia provável, a partir dos dados que obtive na poli-
fora visto pela mãe pela última vez por volta das 14:00 hs cia e no DML".
daquele dia. Agora, porém, acredito em Joe. Minha crença, ou melhor, mi-
Ele vinha sendo regularmente atendido na unidade psi- nha convicção baseia-se nos conhecimentos psiqui tricos sobre a
quiátrica do Hospital St. Christopher's há cerca de seis sema- e, e su dissociação do
esquizofrenia: Joe é. esquizofrênico parte tão inte-
nas antes do desaparecimento. Freqüentava a Escola Estadual assassinato de Joey, tal coma do de Jostr-ollazo,
do Leste, em Trevose, Pensilvânia. Esteve no Edifício Mills grante de sua psicose quanto os próiios assassinatos. O Dr. Arieti
por causa de seu comportamento incorrigível na escola. e eu concordamos em que Joe estava dizendo a erdade quando
Tenho seis outros filhos. Ele era nosso quarto filho. afirmou que não se lembrava dos assassinatos. Tamb m concordamos
Identifico as calças como sendo as de meu filho. Havia em que as longas horas de conversa comigo haviam retirado o lacre
uma marca de chamuscado na bainha esquerda, onde o tecido das lembranças, trazendo-as do subconsciente de 1 e, onde haviam
estava duro. Ele tinha . o mesmo tipo de tênis encontrado no permanecido latentes, para sua consciência.
cadáver e a camisa parece ser a mesma.
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Joe não conseguiu compreender por que, sendo pai do falecido, Kensington, Bobby Vane era o único também considerado suspeito
foi levado do necrotério para o Prédio da Administração Policial — pela polícia. A polícia o deteve, mas ele foi submetido a um teste no
a Casa !Redonda, como era chamado. detector de mentiras e foi considerado inocente.
Tarnpouco pôde compreender por que não teve permissão de te- Apenas a policia de Filadélfia suspeitou de Joe Kallinger. Essas
lefonara sua mulher sobre a identificação das roupas do filho e por suspeitas foram a razão pela qual eles o levaram do necrotério para
que, na' Casa Redonda, o Detetive O'Brien formulou-lhe as mesmas a Casa Redonda no dia 12 de agosto. Mas a polícia não o informou
perguntas que ele já havia respondido integralmente aos policiais de que ele era um possível suspeito no caso de desaparecimento e
encarregados da investigação. morte de Joey.
Naquela noite, numa entrevista telefônica, Joe disse a Thomas J. Nem a polícia, nem qualquer outra pessoa suspeitava de Mi-
GibbonS, da equipe do Philadelphin Bulletin: "Acabei de voltar do chael Kallinger.
necrotenio e identifiquei as roupas de Joe (Joey). As calças que eles
me mostraram eram exatamente as mesmas, inclusive a marca de * * *
queimadura" (da brincadeira no reboque). Joe também disse a Gib-
bons que os funcionários do necrotério informaram que o corpo
apresentava ossos quebrados num dos pés. "Joey tinha isso", ex- Sexta-feira, 16 de agosto de 1974. Com o rosto petrificado e
plicou Jbe. "Foi o resultado de quando ele saltou de um telhado em rigidamente calmo, Joe estava sentado na primeira ui1 de um am-
janeiro. Ainda mancava por causa disso". plo salão na Funerária C. J. O'Neill. Nos assentos à sua direita es-
O iirtigo de primeira página do Bulletin, assinado por Gibbons tavam Anna Kallinger, Mary Jo, Stevie, Jimmy e Michael. Michael
e Naedgqle, saiu no dia 13 de agosto e assinalou que Joe Kallinger tinha querido ficar em casa, mas Joe insistira em que ele compare-
nada diSsera sobre o que tinha levado Joey a fugir no dia 28 de julho. cesse ao funeral de seu irmão.
"Urna das mais felizes que passamos", foi como Joe descreveu a O assento de Betty, à esquerda de Joe, estava vazio. Ela estava
última sbmana de Joey a William Storm, do Bulletin. "Levei Joey e de pé ao lado do caixão do filho e olhava para o lugar onde o rosto
meu filho Michael a uma excursão pelas montanhas da Pensilvánin. de Joey seria visível, caso o caixão estivesse aberto. Incrédula, olha-
Pegamo um ônibus para Hazleton, acampamos e fizemos uma ca- va para as flores de ambos os lados do caixão e para a coroa ao
minhada. Vimos pedreiras e minas de carvão e desfrutamos da com- saber se é Joey?
centro. Murmurou para si mesma: — Como posso
panhia Üns dos outros". Não sei o que eles puseram aí.
Joe; havia esquecido não apenas o próprio assassinato, como Joe levantou-se de sua cadeira e foi ter com ela.
também; as tentativas de que o precederam. — Não vou acreditar enquanto não o vir. Qualquer um pode-
ria estar af, Toe, qualquer um.
— Eu sei que é Joey. Estive no necrotério.
— Isso não quer dizer nada, disse Betty. —
Talvez vocês to-
Kensington acreditava que Joey tivesse sido assassinado por
vai entrar
agressão; homossexual. Havia rumores de que ele se afastara com dos estejam querendo brincar comigo, e hoje à noite Joey
um homem num carro esporte vermelho. Outro boato era que um novamente em minha casa.
homem que lhe prometera emprego numa firma lavadora de auto- — Betty, vi as roupas dele, as coisas dele, Betty. Eles me mos-
móveis q tinha levado para longe num sedã verde último tipo. Algu- traram fotografias.
mas pesSoas afirmavam que um homem de 23 anos havia matado — E como é que não nos deixam ve-lo? Como é que fecha
Joey; outras, que Bobby Vane — um amigo de Joey que tinha mo- = o caixão?
rado na, casa de East Hagert Street enquanto Joe estava em Hol- Joe não podia contar-lhe sobre as fotografias. Nelas, vira o
mesburg — era o assassino. couro cabeludo emurchecido e parte do crânio do filho. Os olhos
De' fato, Joey havia conversado com Bobby pouco antes de ir viscosos pareciam as cavidades vazias do rosto de uma estátua. Deli-
encontrar-se com Joe no Restaurante OK. Entre os "suspeitos" de cadamente, Joe levou Betty de volta a sua cadeira.
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O Reverendo Anthony A. Marinacci, pastor da Igreja da As-
sembléia de Deus em Kensington, aproximou-se da estante de leitura.
— Considerando o que sabemos da vida de Joseph Michael
Kallinger Jr., disse aos 25 presentes que tinham comparecido ao fu-
?i neral de Joey, não faremos nenhuma observação sobre ele, mas ten-
' teremos dar apoio e forças à familia. 15 Beco sem Saída
Após o sermão e a leitura da Bíblia, o cortejo fúnebre dirigiu-se
! ao jazigo familiar dos primeiros Kallingers, com seis sepulturas, no
I Whitemarsh Memorial Park. Enquanto os sinos do imponente cam-
.• panário ecoavam por entre as sepulturas, as árvores e os mausoléus,
Joe e Betty detiveram-se diante do túmulo de Stephen Kallinger.
Aconteceram coisas quando eu era, criança, pensou Joe, que não
posso perdoar. Mas, se pudesse ter prolongado a vida de papai, eu
o teria feito. Sinto-me tão mal a respeito de Joey quanto me senti
acerca de papai. Quanto a Joey, porém, não pude fazer nada. Nem
sei como ele morreu.
O caixão de Joey jazia no chão ao lado de uma sepultura aber- Na manhã de quinta-feira, 26 de setembro de 1974, pouco depois
ta. O Reverendo Marinacci estava prestes a iniciar o serviço religio- de um mês do funeral de Joey, Joe foi acordado entre as três e
so, quando Anna Kallinger foi até a cova. -- $teef, clamou ela, meia e as quatro horas pelo som insistente da campainha da porta .
quero ficar perto de você, mas esse Joey tirou minha. sepultura. Agi- Vestindo um robe, desceu até a loja, acendeu a luz e abriu a porta
tou o punho cerrado em direção ao caixão. Deparou com dois detetives e dois policiais uniformizados.
Após o serviço, Anthony Marinacci disse algumas palavras de
— O que é? perguntou Joe, espiando com olhar sonolento os
consolo a Betty e •Joe. Quando ele os deixou., Joe 'tomou o braço de homens diante dele.
Betty e•disse: — E hora de irmos, Betty. • — O Sr. é esperado na Casa Redonda para um interrogatório
— Não. é Joey, murmurqu ela em:toro ásppro. sobre o desaparecimento e morte de seu filho. Joseph Kallinger Jr.,
— Joey está melhór agora, Betty, tnóS..estarnos melhores, disse disse um dos detetives.
Joe, afastando Betty da sepultura ainda -aberta. — De novo?
— Não fale assim, disse -ela; com o ,rosto banhado cm lágrimas.
Os dois se dirigiram para os carros estacionados no caminho.
— Mas já passei por tudo isso no mês passado. Respondi a
Betty falou: — Você nem sequer chorots, Joe., Nem ao menos chorou. todas as perguntas, como manda o figurino.
Vocé foi o único que não chorou, e nunca., vou perdoá-lo por isso. — O Tenente O'Neill quer falar com o Sr., disse o outro de-
E saiu andando, adiante dele. tetive. — Portanto, vista-se. Agora!
— Não vou, só isso! quer não
— O Sr. vai, disse o primeiro detetive, quer queira,
— Não voul
Em agosto, a polícia não havia informado Joe de que ele era
suspeito; agora, não lhe disseram que se tornara o principal suspei-
to. Parecia claro a Joe que eles o estavam atormentando, e ele teve
certeza de que era por causa de uma Queixa por Perdas e Danos
apresentada por Malcolm W. Berkowitz e Arthur L. Gutkin, os ad-
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vogados que tinham representado Joe na petição de um novo jul- tido, mas porque a polícia estava agindo em retaliação por ele tê-la
gamento no caso de maus-tratos infantis, A queixa descrevia a de- processado. Em sua mente torturada, acreditava que os policiais eram
tenção e prisão de Joe em 1972 como ilegais. As três acusações de seus inimigos. Em suas fantasias, eles haviam substituído os 'deu-
violação eram contra o Departamento Jurídico da Cidade de Fila- ses totais" que quiseram destrui-lo.
délfia; a policial Caristo, nascida Baker, da Divisão de Assistência Caminhando pelo saguão em direção a um dos elevadores cilín-
Juvenil do departamento de polícia; e o Comissário de Polícia Jo- dricos da Casa Redonda, Joe não sabia que iria ser interrogado numa
seph O'Neill. A alegação era que, no processo por maus-tratos con- das salas de interrogatório da Divisão de Homicídios pelo T nente
tra crianças em 1972, Joe fora preso por causa do falso testemunho James F. O'Neill, que estava convencido — embora não ivesse
de seus filhos a pedido da polícia. A policial Baker efetuara a pri- provas para indiciar Joe — de que Joseph Kallinger havia atado
são e escrevera as queixas assinadas pelas crianças. As crianças ale- seu filho Joseph Jr.. O'Neill estava seguindo palpites baseados o ins-
garam que, nessas queixas, ela havia exagerado o que disseram. tinto desenvolvido em quinze anos de trabalho policial. E a um
Joe deixou a polícia entrar na loja e telefonou para Arthur policial sagaz e astucioso e se orgulhava de sua folha de servi os no
Gutkin. Departamento de Polícia de Filadélfia.
"O telefonema me acordou", disse-me Gutkin quatro anos de-
pois. "Joe me disse, 'Os policiais quer= que eu vá com eles. Não
têm um mandado de prisão, mas vão me levar de qualquer maneira'.
"Em seguida, um detetive veio ao telefone", prosseguiu Gutkin. Na Sala 104 do Esquadrão, nas primeiras horas da ma hã de
"'Joe está sendo preso?' perguntei-lhe. 26 de setembro de 1974, O'Neill estava de pé diante de su escri-
"'Não', respondeu o detetive. vaninha. Fumante inveterado, trazia um cigarro entre os lá ios fi-
"'Não', disse eu; 'então vocês não vão levá-lo, certo?' nos. Sua capa estava aberta. Usava um terno azul-marinho d talhe
"'Tenho ordens do Tenente O'Neill para levá-lo e vou levá-lo'. simples, ligeiramente amarrotado, e uma gravata de lã escoc sa de
"Joe voltou ao telefone e me perguntou, 'Eu tenho que ir?' listas regulares. Como sempre, trazia o revólver preso numa orreia
"'Não', respondi-lhe, 'mas posso lhe assegurar, Joe, que se ao lado direito do corpo. Desabotoou os botões superiores da amisa
você não for, eles vão levá-lo. E ilegal, mas eles vão levá-lo assim e afrouxou a gravata alguns centímetros, num gesto característico.
mesmo. E melhor você ir. Não faça nada. Não faça nenhuma de- Esperando que seus homens trouxessem o principal susp ito do
claração até eu chegar lá". assassinato de Joseph Kallinger Jr., O'Neill ponderava que m pai
Gutkin, que é judeu, estivera apenas esperando por uni dia de que maltratava seus filhos poderia também .amati-los; e não acredi-
jejum e orações, pois a polícia fora à casa de Joe no Yom Kippur, o -
tava que- os-Eis 'filhos de' Kallinger tivessem dito a verdade o des-
Dia do Perdão, a data mais sagrada do calendário para os judeus. mentirem
mentirem. suas,„acusgçães_contra o pai na audiência de 19 de fe-
Mas a voz urgente de Joe ao telefone forçara Gutkin a ir até a Casa vereiro de 1974. O'Neill farejava a mentira rijes. •Allnal, não Sassara
Redonda. Ele tinha uma forte impressão de que a polícia esperava todos aqueles anos na força policial cheirando rosas.
que, em função do feriado, o advogado de Joe não fosse aparecer. Sentia haver algo de estranho no fato de, poucas sema as an-
tes de comunicar o desaparecimento de Joey, Kailinger ter f=ito um
seguro de vida para Joseph Jr.. O'Neill não tinha conhecim nto da
Vista do alto, a Casa Redonda se assemelha a um par de alge- apólice com indenização em dobro da Companhia de Seg ros de
mas gigantescas. Na verdade, ela se compõe de dois prédios redon- Vida Metropolitan, que, no caso de morte acidental de Joey, paga-
dos de três andares, ligados por um corredor. Quando Joe entrou no
saguão, os dois detetives seguiam à sun frente e os dois policiais ria n Kallinger 24 mil dólares. Mas tinha conhecimento da apólice
da Seguros Mútuos de Vida John Hancock, que, no caso d - morte
uniformizados seguiam atrás.
Joe, não estando detido nem algemado, tinha certeza de que acidental de Joey, pagaria a Kallinger 45 mil dólares.
estava na Casa Redonda não por qualquer crime que houvesse come-
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longas e musculosas. Por baixo da cadeira, um buraco sem fundo
Um policial disse a O'Neill que Kallinger fora colocado numa começava a sugar Joe numa tortura infindável.
das salas de interrogatório. Esguio, enérgico e louco por uma bri- — Kallinger, ainda que isso tome o resto de minha vida, vou
ga, O'Neill abriu o trinco da pesada porta de madeira que se ali- vê-lo pagar por matar seu filho. Entendeu?
nhava com a parede da Sala 103. Abriu-a e entrou num pequeno — Quero falar com meu advogado, disse Joe. Estava tremendo.
aposento desprovido de janelas. Um policial fechou a porta a::: , — Não! respondeu O'Neill, batendo com a palma da mão sobre
dele e trancou-a pelo lado de fora. O'Neill e Kallinger estavam a sós. a mesa. — Você já falou com seu advogado em casa,
Sentado na cadeira dura de madeira diante da mesa nua, Joe — Aquilo foi antes de eu ser preso. Quero falar com ele agora.
ouviu a porta fechar-se com estrondo. Forçou-se a voltar-se e olhar O'Neill levantou-se. Amassou o cigarro sob a sola do sapato.
parede.
para O'Neill. Queria correr, tal como, na infância, costumava cor- Com um movimento curto e enraivecido da perna, chutou a
rer para baixo da cama quando o pai adotivo corria atrás dele para Seus olhos pareciam fendas entre as pálpebras.
chicotear-lhe a pele com solas de couro pesadas. Não havia para — Você vai assinar uma confissão, Kallinger?
onde correr. Era um beco sem salda. Nas duas vezes, Joe sentiu seu Joe balançou negativamente a cabeça.
estômago comprimir-se enquanto observava O'Neill circundar a pon- O'Neill começou a tirar a mão do bolso da capa.
ta da mesa. Tinha ouvido dizer que ele era um policial duro, que Ele vai me bater, pensou Joe.
jamais se cansava. Joe indagou-se se haveria outros policiais a obser- Mas O'Neill disse, "Merda!" Andou até a porta e bateu. Do lado
vá-lo através do espelho embutido na parede. de fora, alguém abriu o trinco, e O'Neill saiu.
Mais uma vez, a porta Foi trancada pelo lado de fora.
— Sou o Tenente O'Neill. O policial puxou uma cadeira em
frente a Joe e sentou-se. Inclinou-se sobre a mesa e apontou o dedo
indicador para Joe. A unha estava bem cortada e limpa, e o dedo
ArtItur Gutkin acreditava que Joe fosse inocente. Salina que m.11
era firme.
— Escute-me, Kallinger. Você matou seu filho Joseph Jr.. Você cliente estava sendo ilegalmente detido nu Casa Redunda pelo Te-
tinha 45 mil dólares num seguro de vida dele. Enquanto eu for ofi- nente O'Neill. Gutkin entrou na Sala 102 do Esquadrão de Homi-
cial de polícia, você nunca receberá esse dinheiro. E nunca vai cídios. Estava muito aborrecido com os policiais, porque eles difluiu
sair daqui, tampouco. Entendido? violado os direitos civis de Joe. Gutkin identificou-se como advo-
Estupefato, Joe recostou-se em sua cadeira. gado de Joseph Kallinger. Foi duro e firme, mas polido.
A porta da sala de interrogatório foi trancada por trás de Gut-
— Meu Deus, disse, foi por isso que você me trouxe aqui?
— Deixe de palhaçada, Kallinger. Você sabe que o matou e kin pelo lado de fora. Ele viu o espelho embutido na parede e ima-
nós sabemos que você o matou. ginou que seria um espelho bidirecional pelo qual ele e Joe estariam
sendo observados. Embora não conseguisse ver nenhum aparelho, ii•
— Escute, eu sou um sapateiro. Nunca matei ninguém.
O'Neill acendeu um cigarro. — Você não vai se sair com essa, nha certeza de que a sala tinha equipamentos de escuta. Gutkin e
disse com sua voz sepulcral. Joe ficariam de boca fechada. Não havia sentido em dizer algo que
onde
pudesse piorar as coisas. Gutkin dirigiu-se à mesa de madeira
— Já ouvi falar sobre pessoas inocentes que são acusadas de Joe, sentava-se em
assassinato. Mas esta é a primeira vez que vejo isso. Onde estão um detetive truculento, que estava observando
as provas? frente a ele.
— Não venha me dizer como fazer meu trabalho. Quero saber — Olá, Art, disse Joe.
onde e exatamente quando você matou seu filho. — 01, Joe, respondeu Gutkin. sorriso frio.
Gutkin cumprimentou o detetive e disse com um
— Como é que eu poderia fazer tal coisa? — Vocês, rapazes, me fizeram escolher entre Deus e meu cliente.
— Você é quem vai me dizer. Os lábios de O'Neill estavam Deus! respondeu
comprimidos e os músculos de sua mandíbula se mexiam, Joe achou — Tínhamos esperança de que o Sr. escolhesse
que ele iria mordê-lo, cauterizar-lhe o cérebro com os raios mortí- o detetive, dirigindo um olhar severo a Gutkin.
feros que saíam de seus olhos cruéis, ou esmigalhe-10 entre suas mãos 263

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.13
Agora, Gutkin sabia que estivera certo em pensar que os poli- Joey. Por causa do seguro de vida que Joe comprara para Joe ? Mas
ciais haviam escolhido aquele dia para poderem interrogar Joe sem muitas pessoas fazem seguros para cobrir a vida de seus filho e não
um advogado. os matam. Joe tinha seguros também para Mike, Jimmy e onnie,
Joe e seu advogado estiveram sentados por trás da porta tran- tal como para Joe.
cada por quase quatro horas. Ficaram em silêncio a maior parte do — Joe, acho que temos um caso, disse Gutkin. — A polícia
tempo. Ambos acreditavam que um homem inocente estava sendo violou seus direitos civis ao levá-lo para a Casa Redonda em um
ultrajantemente detido. mandado e ao detê-lo à força na sala de interrogatório.
O'Neill entrou na sala duas vezes nessas quatro horas: uma — Esse caso seria separado da Queixa por Perdas e Da os, não
para acusar Joe novamente de ter assassinado Joseph Jr., e uma é? indagou Joe. — Quero dizer, da queixa contra a cida e e os
para fazer-lhe duas perguntas: "Você quer fazer uma declaração?" e guardas porque aquela policial não deixou meus filhos retir rem as
"Aceita submeter-se á um teste no detector de mentiras?" Joe olhou acusações de maus-tratos na noite em que foi preso.
para Gutkin, que abanou a cabeça e sussurrou "Não" em resposta a — Sim, Joe, seria.
ambas as perguntas. Era isso o que Joe esperava. Sabia que seu ad- — Pois bem, Art, quero que você abra esse processo o mais
vogado não confiava em testes no detector de mentiras. E Gutkin depressa possível. Não vou mais deixar essas pessoas me tormen-
não, queria que Joe fizesse nenhuma outra declaração. Já em agosto tarem.
de 1974, dissera a Joe, "Você já disse aos policiais tudo o que sabe
sobre o desaparecimento e a morte de Joey. Não tem que fazer
mais nada".
O tráfego movia-se lentamente quando Joe tomou a di ção de
Entre 9:50 e 10:00hs da manhã, o detetive corpulento voltou casa. Na traseira de um caminhão que passava havia um equeno
à sala,de interrogatório. — Vocês podem sair agora, disse a Joe e carrossel. Imediatamente atrás da crina de um dos cavalos de ma-
Gutkin. deira, a cabeça de um menino subia e descia. O lado direito do ros-
to e da cabeça estava coberto pelo cabelo; a cabeça estava d perfil,
de modo que Joe não podia ver o lado esquerdo. Embora ão hou-
O'Neill reclinou-se na cadeira de sua escrivaninha. Um cigarro vesse vento, os cabelos erguiam-se ligeiramente e voltavam a cair,
apagado pendia de seus lábios. Estava frustrado e decepcionado, como se mãos fantasmagóricas os deixassem pender suaveme ne e os
mas não podia simplesmente agarrar Kallinger e atirá-lo numa cela. levantassem de novo. Joe indagou-se o que estaria o menino fazendo
O'Neill sabia que não dispunha de nenhuma prova. Tinha certeza no carrossel, já que ele não estava em funcionamento.
de que estivera com o assassino de Joey ao alcance da mão. Perto do final do quarteirão, o trânsito começou a an ar mais
Sabia que, provavelmente, seria um inferno com os meios de co- ligeiro. Joe continuou olhando para a cabeça do menino e pressou
municação, se os repórteres descobrissem como trouxera Kallinger à o passo para acompanhar o caminhão. O cabelo era castan o-claro,
Casa Redonda às quatro horas da manhã. Algum dia, O'Neill apa- sedoso e comprido como o de Joey. Joe sentiu náusea e toss u. Ten-
nharia Kallinger, mas, por ora, em 26 de setembro de 1974, nada tou não pensar em Joey.
feito. Vinte minutos depois, Joe desceu na estação do elev do em
Huntington e andou até East Sterner Street. Sentia-se feliz por es-
tar de volta. O único lugar do mundo onde se sentia seguro à von-
Joe e Gutkin sentaram-se numa mesa da lanchonete Horn and tade era em sua bancada na loja. Ali, ninguém o acusav de ter
Hardart, na esquina das ruas Cinco e do Mercado, a poucos quar- matado Joey.
teirões da Casa Redonda. Joe contou a Gutkin tudo o que O'Neill Subindo pelo caminho que levava à loja, Joe sentiu-se omo se
lhe dissera antes de o advogado entrar na sala de interrogatório. houvesse estado longe por muito tempo. Estava ansioso p r vestir
Uma vez que O'Neill não tinha nenhuma prova, Gutkin perguntou- seu guarda-pó verde-oliva e sentir nas mãos o couro e as f rramen-
se com base em que o detetive tinha tanta certeza de que Joe matara tas de seu ofício. Ansiava por ligar os interruptores elétri os que
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acionariam seu equipamento. Então, sentir-se-ia poderoso e criativo. — Mais importunações. O'Neill acha que matei Joey. Tentou
Sabia que algumas pessoas o consideravam o melhor sapateiro da fazer com que eu assinasse uma confissão.
Filadélfia, o rei dos remendões de sua cidade. A casa de Joe era — Ohl gritou Betty. — Isso é terrível, Joe, terrível! Meu Deus,
O'Neill e os homens dele são pessoas diabólicas, Joe. Imagine, 2C1-
seu castelo, e a loja era a sala do trono.
sor você de matar Joey, quando Joey nem sequer está morto!
Ao subir os degraus da loja, Joe viu o menino que vira meia
hora antes no caminhão na rua do Mercado. Ainda de nerfil, sua — Joey está morto, Betty, morto. Você se sentiria melhor se
cabeça balançava ao nível da linha do olhar entre Joe e a porta da aceitasse isso.
loja. Joe indagou-se como o garoto teria chegado ali. En seguida, Em sua bancada, Joe sorveu o chá lentamente, sentindo - se grato
o menino virou a cabeça até seu rosto ficar de frente para Joe, e este pelo calor do chá e pela doçura do açúcar.
viu uma cascata de cabelos castanhos, densos e sedosos. No meio, Estava muito cansado. Sentia-se cansado todos os dias, mas
formou-se um repartido; os cabelos se separaram e penderam pesa- hoje, ainda mais. Estivera acordado desde que a polícia viera buscá-lo
damente em ambos os lados da cabeça. Sobre a testa sem sobrance. nas primeiras horas do amanhecer. Mas não podia ir dormir agora.
lhas e os ossos da face estendia-se, fina e esticada, uma pele branco- Não importa quão mal estivessem as coisas, ele tinha de manter a
amarelada. No centro, a pele era chata e lisa, sem nariz, narinas loja funcionando.
ou boca. Os contornos dos ossos da mandíbula uniam-se num queixo Desde o inverno - de -1973- 1974, e :Riais ainda _desde_a última
arredondado e carnudo. ; primavera, os delírios e_alusinações de Joe, juntamente com os sen.
titheiitoi concomitantes cle„exaustão,_haviam-no impedido muitas ve-
Jo saiu correndo dos degraus em pfinico. A meio caminho da
alameda, parou e olhou para trás, para ver se o menino ainda es- I zes 'de trabalhar com sua costumeira energia e dedicação. E isso
tava lá. O menino o seguia. Os globos oculares apareceram entre as atottfeCiáThieSin~linão ia aos bairrosaflisfadorCom Michael.
pálpebras, pequenos discos de cortiça marrom circundados por veias Joe retirou da prateleira um velho par de sapatos que conser-
dono; eram como velhos amigos.
minúsculas, semelhantes a minhocas vermelhas no líquido branco. tara muitas vezes. Conhecia seu
prestes a arran-
Os olhos fitaram Joe com asco. Ele estava prestes a atirar sues Ainda sentindo-se trêmulo, tentou trabalhar. Estava
car a sola e o salto desgastados do pé esquerdo do velho par de sa-
chaves naquele rosto quando viu que não havia nada sob a cabeça:
nem pescoço, nem membros, nem tronco. A cabeça movia -se sozinha. patos quando ouviu uma voz, leve e aguçada, como a voz de um
Joe. atirou as chaves e a cabeça desapareceu. garotinho:
— Meu nome é Charlie.
Betty, que estivera cuidando da loja enquanto Joe estava na Casa iCgateleira onde havia solas e couro empilhados, a ca-
Sobtur
Redonda, saiu e ficou nos degraus. beça, com o rosto encoberto pelos cabelos, flutuava suavemente aci-
— Quem está atirando coisas na porta? Deus do céu, Joe, fico
ma de Joe.
contente por você estar de voltai Não me importo em ser sua Joe sentiu-se como se estivesse afundando num imenso buraco
balconista. E meu trabalho. Você costuma dizer que sou uma balco- sem fundo. Seu coração batia furiosamente. Não conseguia moves-
nista formidável. Mas, ficar na loja todas essas horas sem você é
outra coisa. Por que você está atirando suas chaves por aí? Todos se. Estava impotente.
Tentou erguer os braços, como que para tocar na cabeça, mas
.vão pensar que somos birutas!
Tremendo, Joe apanhou as chaves dos degraus e entrou na ela escapuliu para a porta envidraçada. As pontas dos cabelos le-
vantavam-se e caíam com a movimentação da cabeça suspensa no ar.
loja. Trancou a porta e encostou uma cadeira nela. Depois, correu — Você não tem boca. Como pode falar? perguntou Ice. Sen-
para sua bancada, pegou um martelo pesado e ficou olhando para a
porta. Passados alguns minutos, foi até a cozinha e pediu a Betty tia-se febril e desesperado.
que lhe preparasse uma xícara de chá. Os cabelos se dividiram. — Posso falar. Olhe! A voz parecia
.
— Puxa, Joe, você está com uma aparência terrível! Que foi vir de um alto-falante. Os olhos castanhos fixaram-se em Joe
que eles lhe fizeram lá? perguntou Betty. — O que você quer? De onde veio?
267
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Charlie não respondeu. Continuou olhando fixamente para Joe.
— Por que você não me responde?
Lentamente, os cabelos cobriram o rosto, como a cortina de um
palco.
— Muito engraçado! gritou Joe.
A voz . de Betty veio da cozinha: — Joe, com quem você está
falando aí?
— Escute, disse Joe a Charlie, essa é minha mulher. Ela vai
vê-lo. Vá embora, pelo amor de Deus!
16 Retaliação
— Não se preocupe, Joe. Betty nunca me vera. Ninguém mais
me verá, aliás, Só você. f•
— Como é que você sabe o nome de minha mulher?
— Porque pertenço a você e você me pertence, respondeu
Charlie.
Os cabelos tornaram a dividir-se. Mais uma vez, os olhos casta-
nhos de Charlie fitaram Joe, mas, dessa vez, com ódio.
Aterrorizado, Joe disse: — Nunca lhe fiz nada. Por que você está
me importunando? Não posso viver dessa maneira, não posso!
Joe enterrou o rosto nas mãos e soluçou. Quando ergueu os Joc achava que os policiais estavam dispostos a persegui-lo. Acre-
olhos, Charlie havia desaparecido. ditava que eles estavam importunando sua família e empreendendo
uma campanha de ódio contra ele, e ficou obcecado com o desejo
de vingar-se.
Nos dois meses seguintes à descoberta do corpo de Joey, Joe
Charlie apareceu freqüentemente a Joe nos ms-anos_seguintes:
A primeira aparição, em 26 de seterrthrcL d sentiu-se alvo de uma campanha Odeie Kallinger, desfechada pela
, não se deu por policia de Filadélfia. O'Neill sentira instintivamente que Kallinger
acaso, em minha opinião. Na manhã daquele dia, o Tenente O'Neill tinha assassinado seu próprio filho. A polícia queria proteger a so-
havia acusado Joe de ter matado joey. Embora Joe não se lembrasse
ciedade de Joe, que não sabia que tinha matado Joey e não achava
conscientemente do .assassinato, seu subconsciente-proyavelmente_rea- que a polícia tivesse qualquer razão para considerá-lo perigoso. Es-
giu à acusação de O'Neill criando Charlie, uma figura-dg, retaliação
tava aterrorizado com as táticas irregulares empregadas pelos poli-
ciais contra ele, com a brutalização de sua família, e via os poli-
Conjecturei que Charlie seria a imagem distorcida da cabeça de
ciais como seus inimigos. Explodindo de vingança, estava deter-
loey, erguendo-se da poça imunda de água estagnada do subsolo e
minado a revidar.
gritando através dos degraus da escada à qual Joe e Michael o ha-
viam acorrentado, "Papai, ajude-mel" A necessidade de retaliação de Joe era a de um homem que
Joe havia matado sob e_fora jej. achava que a polícia o havia brutalizado, mas era também uma ex-
glderosa-aluçãação4 de pressão de sua "erlançaintertiuka_passitõo". • Há uma "criança in-
um poderoso -delírio; quê o faziarn_pensar que o _que. era errado
eripeo.-0 a ssassinato de seu filho não se prendeu ao seguro ou a terna do passado" em todos nós, Trifluenaando nosso pensamento e
quaisquer outros interesses mundanos imediatos. A morte de Joey nosso comportamento. As pessoas que foram submetidas a punições
foi um sacrifício a caminho do conceito paranóide que Joe fazia de I. parentais extremadas sentem-se freqüentemente motivadas por um in-
sua própria divindade. tenso desejo de revidar ou de acertar contas com o mundo.

" Esse conceito é explicado em W. Hugh Missildine, Your Infles Child


of the Past, Nova Iorque, Simon and Schuster, 1963.
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269
foi marcada no Setor Juvenil da Divisão do Tribunal de Família da
De 4 de outubro a 13 de outubro de 1974, Joe encenou seis Corte de Apelações Comuns. Joe compareceu à audiência, mas o
episódios através dos quais buscou fazer com que a polícia "pareces- caso foi arquivado porque os registros do Hospital Frankford in-
se má." Também planejou usar o tratamento que os policiais lhe des-
dicavam claramente que a concussão. de Michael [ora resultante de
sem no decorrer desses atos como prova adicional na ação de direi-
tos civis já iniciada contra a Cidade de Filadélfia e o Depirtrmento uma queda em Kiddie City. A polícia não se envolveu nesse primei-
ro episódio de retaliação.
de Polícia de Filadélfia. No domingo em que a Dra. Price examinou Michael no St.
O primeiro desses episódios ocorreu na sexta-feira, 4 de outubro
Christopher's, 6 de outubro de 1974, Joe encenou o segundo epi-
de 1974, nove dias depois do interrogatório de Joe pelo Tenente
O'Neill e da primeira aparição de Charlie. Nessa sexta-feira, Ice sódio de sua retaliação contra a polícia. "Levei Mike ao St. Christo-
1979, "porque ele estava vo-
disse a Mike que encenasse um tombo na loja Kiddie Cit." na ave- pher's, disse-me Joe em 15 de julho de
mitando. Mas também o levei para estabelecer uma base para a amné-
nida East Erie, e fingisse que o calombo que já tinha na testa, em para a segunda rodada de minha reta-
decorrência de uma briga de rua naquela tarde, tinha sido provo- sia que havíamos planejado
liação".
cado pela queda. A "segunda rodada" começou sob a forma de um passeio com
Depois de acompanhar Mike até a loja, Joe esperou num banco pó-
a família, com Mary Jo andando a cavalo e Mike montando um
do lado de fora até ver uma ambulAncia parar em frente à entrada
nei na pista de passeios a cavalo do Parque Juniata. Mais tarde,
principal de Kiddie City. Em seguida, foi para casa receber um tele- Joe e Mike foram para o bosque. Joe dissera a Mike que desapare-
fonema do Hospital Frankford, para onde Mike tinha sido levado. onde, fingindo
Joe tinha certeza de que a polícia não acreditaria que Mike cesse do bosque e fosse para Camden, em Nova Jérsei,
amnésia, deveria internar-se num hospital. Joe comunicaria seu de-
conseguira o calombo em Kiddie City e o acusaria de mais maus- Mike, porém, sugeriu que, em
saparecimento e exigiria uma busca.
tratos contra os filhos. Joe queria que a polícia o interogasse, para vez de ir para Nova Jérsei, deveria esconder-se no porão de Anna
que pudesse acabar como a parte inocente e caluniada.
Joe foi ao hospital, onde um médico. lhe disse que seu filho Kallinger.
Depois de Mike dirigir-se para East Sterner Street, Joe foi para
havia sofrido uma queda em Kiddie City e tinha um fetimento na os estábulos esperar por Mary Jo e telefonar para o 25° Distrito Po-
j. testa e uma pequena concussão. O médico disse que Joe poderia le- licial. Comunicou que seu filho Michael, que havia desaparecido do
1 var Mi'e para casa e deveria acordá-lo durante a. noite para ver se Parque Juniata, continuava sumido.
seus olhos estavam funcionando bem.. Enquanto Mike estava no porão de Anna Kallinger, os policiais
Os olhos de Mike ficaram bem, mas, ás 4:30hs da manhã de do- fizeram:uma busca no parque com cães adestrados.. Na verdade, es-
mingo, 6 de outubro, ele vomitou três vezes. O vómito devia-se, evi-
tavam procurando o corpo de Michael. Achavam que Kallinger ha•
dentemente, quer à tensão, quer às lesões resultantes da briga de rua
via matado outro filho!
de sexta-feira. Na segunda-feira, 7 de outubro, Mike ainda estava no porão en-
Joe levou Michael ao Hospital Infantil St. Christopher's, que era
quanto seus pais, seu irmão e suas irmãs eram detidos e interroga-
mais próximo da casa dos Kallingers do que o Hospital Frankford. desaparecimento — Joe na Detetives do Leste, que é
A Dra. Deborah Price, que não sabia da briga real de Michael ou de dos sobre seu
uma combinação do 24° e do 25° Distritos Policiais, na esquina de
sua suposta queda, tinha conhecimento de que Kallinger lora consi- Front e Westmorelnnd, e o resto da família na Casa Redonda .
derado culpado de maus-tratos contra os filhos em 1971 Suspei-
Enquanto Joe era interrogado na Detetives do Leste, Charlie
tou que outros maus-tratos houvessem causado a concussão de Mi-
em frente a ele, bem atrás da cadeira
1 ' flutuou através da parede por
chael. Assim, submeteu um laudo de maus-tratos contra &eriças ao cima da cabeça do capitão e, na alto
do capitão. Charlie passou
Departamento de Assistência Pública. ra da linha do olhar, parou bem perto de Joe. Seus cabelos estavam
Joe não permitiu que o DAP tivesse acesso ao lado do St .
presos dos lados da cabeça e seus olhos castanhos brilhavam de ale-
Christopher's e o órgão solicitou "que o tribunal investigue urgente-
mente as condições de vida de Michael Kallinger". Uma audiência gre malícia.
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apontando para Bonnie, então com 14 meses de idade, a filha mais
— Cada um dos policiais desta sala, disse ele a Joe, adoraria nova dos Kallingers. "E se a senhora chegasse das compras e a en-
ver você em seu caixão! Joe cobriu os olhos com as mãos e suspirou. contrasse afogada na banheira, e seu marido tivesse feito isso?" Betty
Um detetive o repreendeu por não permanecer acordado. respondeu que, se seu marido fosse alguém a quem temesse ou que
Agora, Charlie estava entre Joe e o capitão. Para ver o capi- batesse nela ou nas crianças, ela não teria vivido com ele por dezes-
tão, Joe tinha de mexer com a cabeça, mas Charlie se movia a cada
vez que Joe se movia, bloqueando-lhe a visão. Joe precisava incli- sete anos.
nar-se para ver o policial — ora para a esquerda, ora para a di- "Seu pai", disse outro detetive a Mary Jo, "tinha três espinhos
incomodando. Um deles, Joseph Jr., já se foi. Agora há mais dois
reita, novamente para a esquerda.
Finalmente, o capitão perguntou a Joe o que ele estava ten- para sumirem". E claro que o detetive pretendia dizer que os outros
dois eram Michael e Mary Jo, que, juntamente com Joseph Jr., ha.
tando olhar, e acrescentou que era uma pena que Kallinger estivesse
impaciente, pois a equipe de policiais comandada pelo capitão iria viam feito as acusações de maus-tratos.
mantê-lo naquela sala até que a situação se esclarecesse. A Jimmy, de dez anos, outra detetive disse. "Seu pai é um ma-
Charlie lançou ao capitão um olhar assassino e virou-se nova- níaco que mata os próprios filhos. E você, James, é o próximo".
Observando que Bonnie tinha manchas roxas nas mãos e nos
mente para Joe. — Infernize a vida desse 'cara', Joe, disse Charlie.
braços, os detetives pediram que um médico a examinasse. Tinham
Sem refletir, Joe murmurou: — Cale a boca, Charliel Ao ouvir isso,
um detetive na outra extremidade da mesa explodiu: — O que foi certeza de que as manchas seriam resultantes de surras infligidas
que o Sr. disse, Sr. Kallinger? por Toe Kallinger. Na realidade, Bonnie nascera com uma rara en-
— Esse porco está pensando que você mandou ele calar a boca, fermidade congênita, pela qual ainda estava em tratamento e que de-
disse Charlie. — Gronc, grone, gronc. terminava as manchas roxas, •
Charlie subiu e desceu algumas vezes e, em seguida, flutuou A polícia tinha - advertido Betty, Mary Jo e Jimmy, cada qual
numa sala de interrogatório diferente, de que Joe iria matá-los. Ao
até o vidro da janela fechada. Flutuando, cantava, "We had joy, we
had fun, we had seasons in the sun..." e depois desapareceu na fazê-lo, os detetives estavam usando uma estratégia para romper a
luz brilhante do sol, do outro lado da janela fechada, resistência deles, pois a polícia acreditava que a família sabia mais
do que dizia sobre o desaparecimento de Michael e a morte de Joey.
Após cinco horas de interrogatório pela equipe, Joe foi infor-
Embora os policiais estivessem intuitivamente certos_ sobre o
mado de que poderia sair. Charlie o estava esperando, flutuando na
brisa mais ou menos um metro e meio acima da calçada. A pele bran- assassinato de Joey e quanto a' pensarem que Joe era perigoso para
a sociedade; as táticas brutais que empregaram contra Joe e Sua fa-
co-amarelada, os olhos castanhos cheios de desprezo e os cabelos ata-
dos em fios superpostos nos lados da cabeça de Charlie fizeram com mília não se justificavam. Eles achavam também que Toe linha assas-
que Joe se indagasse se ele viera de Deus ou do diabo. sinado Joey brutalmente para conseguir o dinheiro do seguro; nada
— Você quer que eu vá embora, não é, Joe? perguntou Char- sabiam — e nem poderiam saber — sobre as motivações psicóticas
lie em tom debochado. — Mas nunca vou deixá-lol Um dia desses, mais profundas de Joe.
talvez eu apareça e nunca mais vá embora. Não seria ótimo?
Joe olhou para Charlie com repugnância, mas não respondeu. Naquela noite, enquanto a família tentava relaxar depois dos
— Bem, não se preocupe com isso hoje. Não estou com vontade desgastantes interrogatórios, Joe disse a Mike que era hora de ir
de voltar com você para aquela velha loja fedorenta de consertar sa- para Camden, em Nova Jérsei, e ser encontrado. Usando as mesmas
patos. Mas estarei por perto quando você fizer coisas mais excitan- roupas que vestira ao "desaparecer" do Parque Junlata na véspera,
tes do que recortar sapatos. E você vai fazer muitas, Joe, muitas!
• A designado médica da doença de Sonnie é code macmoratalelonglecta-
Uca congenita. Trata-se de uma enfermidade Congenitamente contraí-
Na Casa Redonda, um detetive advertiu Betty de que deveria da (no Mero), na qual a pele do -paciente torna-se, marmórea (neer
"trancar a porta de seu quarto à noite, pois talvez a senhora não morata) em decorrência de uma dilataçiio crônica dos capilares e
acorde pela manhã. A senhora parece amar esse bebê", acrescentou, outros pequenos vasos.
273
272.
Mike partiu para Camden. Como Joe havia originalmente planejado, Mike e Jimmy realmente deram o fora. Viram o pai na esquir
ele deveria fingir amnésia e conseguir ser internado nura.liospital._. das ruas East Hagert e Emerald. Jimmy foi para casa, mas Mike
As 9:45hs da noite, depois de ser informado por telefone de Joe voltaram para a casa de East Hagert Street. O policial na entrai
que Mike estava no ambulatório de emergência do Hospital Cooper, não quis deixá-los entrar. Lembrou a Mike que lhe tinha dito qt
em Camden, Joe saiu para buscá-lo, De Camden, telefonou para a desse o fora. Quis saber quem era Joe.
Divisão de Detetives do Leste para comunicar que havia encontrado — Sou o pai dele e esta é minha casa, disse loc. — O que
seu filho e o estava levando para casa. que a policia está fazendo aqui?
As onze horas da noite, Joe e Mike chegaram em casa. Cinco — Recebemos um chamado, explicou um policial que acaba:
minutos depois, dois detetives, que já tinham estado lá, voltaram. de descer as escadas.
Insistiram em ver Mike, para poderem comuhicar que estava vivo. — Fantástico! disse Joe em tom reprovador. — Quer dize: qi
meia-noite e meia, Joe teve de acordá-lo porque dois policiais algum biruta telefona e vocês todos vêm correndo. E parece que i
uniformizados foram confirmar o que os detetives haviam visto. De Miram a casa também. Vou chamar meu advogado.
pifam.. e tonto de sono, Mike colocou-se diante dos dois oficiais de — Poderíamos prendê-lo por interferir no trabalho da políci
polícia. Os policiais saíram, não sem antes advertir Joe de que não disse outro policial. — Qual é seu nome?
perdesse seus filhos de vista depois disso. O primeiro guarda apanhou um bloco e um lápis e começou
A terceira rodada do plano de retaliação de Joe contra a policia escrever.
começou ao meio-dia de domingo, 13 de outubro de 1974. Joe le- — Joseph Kallinger.
vara Mike 'e Jimmy para a casa •de East Hagert Street, part. forçar a — O Joseph Kallinger? perguntou o segundo policial, arreg
polícia a violar a lei e, possivelmente,' prendê-lo.ilegalment.s. • laudo os olhos.
Joe pegou um rolo de fita isolante bege, algumas.ripas de ma- — Sim, s6 poderia haver um, disse o primeiro. Fez outra an
deira e um pequeno gravador Sony onde havia. colocado uma fita tação no bloco.
com duração de sessenta minutos. Ajustou o• Sony' para a posição de — Muito engraçado, disse Joe.
gravação e prendeu-a firmemente com a fita 'numa das portas de — Claro que é, respondeu o primeiro policial. Continuou a e
entrada. Em seguida, instruiu Mike pare que saísse c telefonasse crever no bloco. Depois, ergueu os olhos.
para o 24° Distrito Policial. de um • telefone .público. Mike deveria — Qual é o nome do seu filho?
dizer que alguém tinha•invadido•cy nett 1808 de East • Hagert Street: — Michael, respondeu Joe.
Depois que Mike voltou, Joe saiu,• mas antes instruiu Mike a
— Michael, repetiu o policial. — Também conhecemos voc
colar em ambas •as portas, com afita isolante, uma ripa comprida, Perdido e achado, não é?
estreita e muito fina de madeira. Joe queria que os policiais chu-
tassem a porta e violassem a lei. O gravador fora ajustado para a po- Os policiais continuaram a impedir que Joe e Mike entrasse
sição de gravação porque ele queria todo o acontecimento • gravado na casa até que o segundo policial, que tinha saído para verifia
com um vizinho, voltou dizendo, — Este lugar é de Kallinger.
em fita.
As 12:30hs, Mike e Jimmy, que estavam varrendo o escritório Naquela noite, depois do jantar, Joe levou Mike e Jimmy
de East Hagert Street, ouviram 'a polícia batendo nas pertas exter- alameda Independência, em Center City, na esperança de alcançar
nas, Os policiais avisaram: — Abram a porta, ou vamos derrubá-la. final da feira e do carnaval que os habitantes de Filadélfia chama
Mike e Jimmy foram até a porta e disseram que os policiais não po- Superdomingo. Joe também tinha um plano que, se corretnmen
diam entrar. Um dos policiais abriu a porta com um pontapé e executado, resultaria na prisão ilegal de seus filhos e dele própri'
quatro homens uniformizados entraram- no saguão é cercaram Mike e Como parte do plano, levava uma grande sacola de papel na qual h
Jimmy. Em seguida; três:policiais deram uma busca na casa; mas via colocado uma porção de ossos humanos amarrados. Tratava-se c
ossos que ele usava habitualmente para mostrar aos fregueses corr
o que permaneceu na. entrada disse a•Mike' Jimmy que "dessem o
fora", ou então seriam presos. funciona o arco dos pés (e que eram um artigo padrão usado pele
27
274
sapateiros), mas Joe sabia que, pelo fato de os ossos serem proveni- fonou para informar que seus filhos estavam detidos. Gutkin tirou
entes de um ser humano, despertariam suspeita nos policiais.
O Superdomingo já havia terminado e as ruas estavam de- Joe, Mike e Jimmy de suas celas e fez com que as algemas de Joe
fossem retiradas, Enquanto o advogado e seus clientes sentavam-se
sertas quando Joe, Mike e Jimmy chegaram à alameda, às 7:15hs da Juntos na sala dos detetives, perguntou-se a Joe e os filhos se eles es-
noite. Mike e Jimmy vasculharam com os pés tufos de algodão-doce
e balões de ar furados. Depois, Mike foi até um telefone público e tariam dispostos a submeter-se ao teste do gráfico da voz. A res-
fez um chamado anónimo para o 6° Distrito Policial. Comunicou posta foi não.
que um homem carregando uma sacola com drogas estava andando As 22:20hs, um tenente entrou na sala. Carregava uma grande
com duas crianças na alameda Independência. sacola de papel com os ossos. A polícia tinha enviado os ossos a um
hospital para que fossem analisados, e o hospital informara que
As 7:30hs da noite, sete carros de polícia pararam junto ao
eram ossos velhos. Os policiais agora acreditavam que Joe tinha
meio-fio. Quinze policiais stfram dos automóveis. —
Lembrem se do - dito a verdade ao afirmar que usava aqueles ossos em seu trabalho.
que eu disse, recomendou Joe aos filhos. — Quando forem presos,
não digam uma s6 palavra, nem mesmo seus nomes. Joe adiantou- O tenente entregou a sacola a Joe.
se aos filhos. Queria que a sacola com os ossos ficasse em evidência. Fora da delegacia, Gutkin disse a Joe que a prisão ilegal se
tornaria parte da ação de direitos civis. O mesmo aconteceria com
Um oficial de polícia arrancou a sacola da mão de Joe, abriu-a as brutalidades e indignidades. Gutkin não sabia que, embora as
e procurou a droga. Em vez disso, encontrou os ossos. Apanhou-os, brutalidades e indignidades fossem reais, a prisão tinha sido trama-
sacudiu-os de leve na mão e depois segurou-os entre o polegar e o da por joe.
indicador, como se fossem um cacho de uvas. Todos os policiais lan- Joe sentia o mundo escurecer-se a seu redor. Isso dizia respeito
çaram olhares severos aos ossos balouçantes. Depois que o policial ao mundo externo, onde os policiais brutalizavam sua família e ele
que os estava segurando recolocou-os lentamente n, sacola, ele olhou próprio. Mas dizia respeito também ao mundo interno de Joe.
para Jimmy, depois para Mike e perguntou: — Onde está a mãe de medida que os delírios e alucinações tornavam-se mais poderosos,
vocês? Joe se aproximava de pore errlniticp seu plimildo massacre mundial.
Os meninos não responderam. O rosto do policial estava tenso,
mas Joe estava-se divertindo. Continuou a divertir-se ao ser colocado
num camburão, seus filhos em outro, sendo todos levados para a
delegacia do 6° Distrito.
Quando Joe tentou telefonar para Gutkin, um policial o arran-
cou do telefone e o algemou. Na segunda tentativa de Joe, ele foi
submetido a uma busca corporal e colocado numa cela. Embora Joe
fosse provar que essa prisão era ilegal, ela era agora tão real quanto
o catre duro e frio de sua cela e as algemas que faziam inchar suas
mãos, Odiou-se por ter imposto esse sofrimento a Mike e Jimmy.
Seguiu-se uma série de acontecimentos inesperados.
Joe e seus filhos foram transferidos do 6° Distrito, que faz parte
da Divisão Central, para o Quartel-General. A transferência foi feita
para que Joe pudesse ser novamente interrogado sobre a morte de
Joey. Ele se recusou a responder a qualquer pergunta.
Às 21:20hs, Arthur Gutkin, a quem Joe não obtivera permissão
de telefonar, chegou ao Quartel-General. Betty lhe havia telefonado
depois que a Divisão de Assistência Juvenil do 6° Distrito lhe tele-

276 277
Livro Quatro

O Lassacre
da Humanidade
17 Um Presente para Bonnie

Pouco depois de um mês após os seis episódios de retaliação, Joe,


adormecido no sofá-cama, sonhou que caminhava por um longo cor-
redor com uma vara de condão em sua mão esquerda. Ao final do
corredor, um portão de ferro com grades em forma de meia-lua es-
tava fechado. Joe agitou a vara e o portão se abriu.
Diante de si, ele viu uma estrada em linha reta que atravessava
um vale de campos esmaltados. Sobre idéias de flores de perfume
adocicado adejavam borboletas multicores: pássaros canoros descre-
viam círculos e mergulhos em seu vôo sobre o vale. Em ambos os
lados do vale havia montanhas cobertas de neve. O sol brilhava e o
céu era azul. Longe, havia uma casa térrea rodeado por uma cerca.
Joe sabia que aquele era seu destino nesse dia 22 de novembro de
1974.
Ele não havia caminhado muito pela estrada quando uma chuva
de cordões dourados de sapatos caiu do cume das montanhas. Do céu,
planando suavemente, desceram anjos cantores. Entoavam uma
canção:
"Joe Kallinger, sapateiro mestre e Deus do Universo. O Curan-
deiro e Destruidor, nós te cantamos louvores, Aleluia!"
Joe ergueu os olhos. Bem no alto, acima das flores, os anjos
descreviam voltas largas e ondulações suaves sob o sol, que emitia
raios das pontas de suas asas. Descendo, eles agitaram o ar sobre
o campo ao voar em direção às montanhas. Depois, tomando unta
espiral ascendente, os anjos desapareceram na luz branca da neve.
Em êxtase, Joe acenou com a mão. Abriu os braços em cruz.
Uma grande explosão sacudiu a terra e destruiu as flores. A neblina
encobriu o vale. A figura sem cabeça de uma mulher despida postou-
se no meio da estrada. A neblina esvoaçava ao redor dela. Um de-
281
mónio com um pênis enorme e entumescido estava agachado no — Ei, ajude aqui, sim?
lugar onde deveria estar a cabeça da mulher. — Estou queimando!
Os seios da mulher eram imensos. Dos mamilos, segurando-se — Queimandol Queimando! Queimando!
pelas mãos, pendia um homem do tamanho de uma boneca, com asas Dedos de chamas batiam na cabeça das pessoas. No chão, sa-
de morcego e cabeça de sapo. Estava tentando colocar seu pénis patos vazios dançavam ao som das lamúrias e gemidos, girando t
numa grande cavidade dentro do corpo da mulher, que expunha os descrevendo passos de dança ao som da música infernal. Vez por ou
órgãos internos desde o alto de seus quadris até a parte inferior da tra, um sapato chutava alguém nas pernas. Os braços ardentes en
caixa torácica. ( ramos, deixando atrás de si uma nuvem de centelhas, desciam con
Sentada entre as alças intestinais estava Bonnie, a filha de dar mas o sapato escapulia em segurança para longe.
quinze meses de Joe. Reluzindo com os líquidos corporais, ela batia Joe olhou para a passagem que subia. Viu a cabeça de Jesu
nas pernas do homenzinho e olhava para Joe. '''' finc a na ponta de um facão de açougueiro. O sangue gotejava di
Bonnie deixou-se escorregar da cavidade e saltou agilmente para ■ , pescoço. Nenhum som saía dos lábios móveis de Jesus. Atrás do fa
o chão. Também ela estava nua. Seus braços, pernas e costas estavam ;II cão e da cabeça havia cores psicodélicas que se acendiam e apega
cobertos de manchas roxas. Ela passou a mão suavemente sobre os vem ao longo da passagem, até serem reunidas pela distância nua
machucados e olhou com tristeza para Joe. Depois, fez uma pirueta ponto luminoso que pulsava. J
sobre o calcanhar direito, girando cada vez mais depressa, até Joe Depois, Joe olhou para bgxo. Pendendo do teto da passager
ver apenas um borrão giratório. descendente, viu uma rosácea com o rosto de Lúcifer, o Rei do Ir
Ele disse, "Bonnie, quando você crescer, essas manchas horrí- terno. O rosto transformou-se lentamente, assumindo a forma de ur
veis vão fazê-la andar em círculos, tal como agora. Você não terá triângulo recoberto de pêlos curtos, escuros e encaracolados. Uma vo
amigos. Acabará falando sozinha. Mas eu vou curá-las". lasciva saiu do triângulo:
No momento em que tomou essa decisão, Joe viu-se de pé fora — Sei o que poderá curar Bonnie.
da cerca da casa que era seu destino. Procurou um ponto. Não ha- — Diga-me, pediu Joe.
via nenhum. Tentou pular a cerca, mas ela se transformou numa pa- — Pegue meu líquido, misture-o com seu sêmen e com perft
rede de cobras que se contorciam e sibilavam. me. Coloque o líquido nos machucados de Bonnie.
Joe agitou sua vara. As cobras desapareceram. Estava agora an- O triângulo estava repetindo essas instruções quando Joe acordos
dando por uma passagem. Nas paredes havia olhos: eles o fitavam
e piscavam. A passagem dividia-se em três direções: para cima, O bairro de Lindenwold, no Condado de Carnden, Nova /Use
para b -ixo e em frente. Joe não sabia qual delas tomar. Agitou a fica a quinze milhas de Filadélfia. E um terminal da Ferrovia Er

r
vara novamente, mas ela se encolheu, tomando a forma de um pe-
queno pênis ressequido, com uma rosa vermelha numa haste em
s ponta. Atirou-o fora.
Ouvindo o som de fogo, Joe deu uma espiada na passagem que
s guia em freillEZEla- Wa a uma grande planície. Através do ar
pressa de Filadélfia. Em 1974, a população de Lindenwold era d
quase 19.000 habitantes. As crianças brincavath e os adultos pa.
seavam por bosques cheios de sombra e campos abertos. Lindenwol
era uma comunidade suburbana de nível médio de renda. Em 197'
ninguém do local sofria por pobreza. Todos consideravam suas cosi
escurecido, Joe viu pessoas cujos braços eram como ramcs de árvo- seguras contra as invasões.
res. Balançando de um lado para outro, os ramos queimavam num No início da manhã de sexta-feira, 22 de novembro de 197.
. ,
fogo que não os consumia. Nos tornozelos das pessoas havia gri- ,,,' Joe c Mike chegaram a Lindenwold pela Linha Expressa. Vaguearas
lhões de ferro com correntes que se enterravam profundamente na \J • pelas ruas até chegarem ao n" 4 da avenida Carver — uma casa qt
terra. Joe ouviu gemidos agudos e lamentos, imprecações e gritos parecia promissora. Pertencia a Wallace Peter Miller, um guará
das bocas retorcidas: j. rodoviário estadual de Nova Jérsei, e a sua mulher, Karen.
— Estou acorrentado e estou morrendo. Mike quebrou a janelinha de vidro próxima à maçaneta C
Millers estava em casa. Ic
— Ninguém se importa! porta e a abriu. Apenas o cachorro dos
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chamado de Curandeiro e Destruidor. Não tinha certeza de onde tinha
ficou decepcionado: o cão era macho, mas, mesmo que tivesse sido estado quando os anjos lhe cantaram louvores ou quando viu o
uma fêmea, a secreção vaginal canina não teria as propriedades cura- trilingulo. Nem sequer sabia onde os vira naquele dia, mais cedo, ou
tivas mágicas que Joe atribuía à secreção vaginal humana, e não na véspera, ou na semana anterior, ou talvez no ano anterior, ou,
poderia ser usada nos machucados de Bonnie. quem sabe, em alguma vida prévia.
Para mantê-lo quieto, Joe e Mike deram ao animal comida que Aleluia! cantaram os anjos. Aleluia! gritara a multidão depois
havia na geladeira. No quarto, encontraram uma grande mala azul, de Joe tê-la alimentado. Ele estivera sentado numa colina estéril,'
onde puseram urna máquina fotográfica, jóias e algumas moedas de numa terra árida. Uma grande multidão subia a colina ao seu encon-
centavos que retiraram de um botijão de água de cinco galões de tro. Todos traziam pratos nas mãos. Rachadas pela fome, suas bocas
um bebedeuro. Feito isso, saíram. se abriam a fechavam como a boca dos peixes fora dágua. Uma poei-
Pretendiam andar pelas ruas até encontrar o lugar certo: uma i ra cinzenta cobria suas cabeças e seus trajes andrajosos. Us garotinho
casa onde houvesse uma mulher. Joe queria uma mulher jovem e com uma cesta estava sentado ao lado de. Joe, Na cesta, o menino
sadia, que tivesse muita secreção vaginal e cujos órgãos sexuais ff- tirthrilpenitreih - e um- fial de peixes. Com -eles, Joe havia
assem bonitos quando mutilados e banhados em seu próprio sangue. alimentadtintillidão "maltrapilha. E ainda havia sobrado. Aleluia!
Aproximando-se da divindade, Joe sabia que tinha o poder de' -- Jornitriablit quandb tinha feito esse milagre ou onde ficava a
ater todas as pessoas do planeta Terra através da deltritição de terra árida. Tampouco conhecia o garotinho com a cesta. Ele havia
s us 6r aos sexuais. A melhor iiiiiffeirá-dê cnegaf à eklin ' -gl ai, '
desaparecido. Estava morto, Deus tenha piedade de nós, pecadores.
acreditava oe, era .atingidas-onde.sluam, naqueles 6' os e .em-L' Naquela terra desértica, era melhor o menino estar morto do que
av_enturança • e êxtase, Com o facão de açougUerrique levava numa vivo. Aleluia! ri
grande sacola marrom de papel, pretendia cortar os penitu testículos. Mike tinha ido atrás de uma árvore urinar.
I
detodos os homens e os seios, de todas as Ánylheres, e depois rasgar Joe esperou. Trocou a mala para a mão esquerda, a mão do
as nnilliffércom um corte descendente que iria desde a carne ma- poder, que iria usar para exterminar a humanidade, a mão que
cia 'acima de seus triângulos peludos até a parte posterior de suas defendia Joe em suas batalhas contra Lúcifer. Joe tinha de admitir.
vaginas. Se tivesse havido uma mulhei- na casa de onde ele e entretanto, que Lúcifer, auxiliado por Joey, havia destruído seus ex-
Mike acabavam de sair, pensou Joe, ela estaria morta agora. perimentos ortopédicos; o velho Lúcifer, Rei do Inferno, que faz
Uma casa com uma mulher, só e indefesa: esse, decidiu e, se- brilhar as luzes fantasiosas do mal diante dos olhos dos homens,
ria um bom começo no assassinato de três bil õe de pessoas. Joe
iria não-ii-penas-mati-11,-doiribTaitibám; antes de faz& o, er de for- vencera a primeira Batalha dos Sapatos. Mas haveria outras bata-
lhas, Joe sabia, e ele, Joe, as venceria.
çá-la, a abrir as pernas, para que pudesse esfregar-lhe a genitália com
." Puxando o zíper das calças, Mike saiu de trás da árvore e disse,
um lenço de papel, que ficaria embebido em secreção vaginal. De-
pois, ele colocaria o lenço embebido numa das luvas de borracha .... ' amos)"
■ Encaixada sob a axila esquerda de Joe estava a sacola de papel
que levava no bolso traseiro. A secreção, misturada com o sémen •
de Joe e algumas gotas de perfUtn6 . 1 sana á ptiertnilificeilirl que rrom com o facão de açougueiro. Ele não ousaria carregá-la sob
Joe iria curar Bonnie de suas horríveis manchas_roxas. Ele se re- 1 a axila direita, pois o braço direito não era o braço do poder. Joe
cordou' de que- O triângulo misterioso o havia Instruído a conse- i pensou na cabeça de Jesus fincada na ponta de um facão, com o
guir a secreção vaginal. sangue gotejando do pescoço. Sabia que se ele, Joe, estivesse a ca-
A mala azul era pesada e Joe estava cansado. Queria deitar-se minho da divindade, Jesus seria Seu Filho. Teria ele cortado a cabeça \,-
numa das margens .da estrada e dormir um_fal loa ai que milhões de pessoas adoravam e a quem clamavam por miseric6r- ` À
sono, de uns dois
milhões de anosfoe sabia_que Seria' Deris um ! dia? Se assim fosse, então Joe Kallinger, sapateiro mestre e Futuro (3 %.
, nlai. .4i...2..eus L" .' Deus do Universo, teria matado Seu próprio Filho. Joe parou de an-
precisava . de. 1-4 uso. A Crianiclinia ora-unrert ra fácil. ..., .
dar, horrorizado. --1
Mike estava atento ao aparecimento de alguma casa -com-boas .. — Que é que-hl, papai? perguntou Mike.
probabilidades. Joe recordou-se do exército de anjos que o havia
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— Nada. Estou pensando, s6 isso. de cuspir nela, de modo que ela não vai fazer a gente ficar do lado
— Vamos tentar aquela casa do outro lado da rua, disse Mike. de fora. Quer entrar agora?
— Está Isolada naquela esquina. Lá adiante, está vendo? — Volte lá, Mike. Veja se descobre se ela tem algum dinheirc
— O.K., Mike