Você está na página 1de 100

www.revistapesquisa.fapesp.

br
Pesquisa FAPESP maio de 2018

maio de 2018 | Ano 19, n. 267

Marcas antigas Vestígios de aldeias fortificadas e


evidências da domesticação de

na floresta plantas indicam que havia


uma grande população vivendo
na Amazônia pré-colombiana

Hackerspaces, Empresas e Mata Análises de Brasil começa


locais que reúnem universidades Atlântica se composições a usar a
aficionados discutem como tornou revelam o PrEP, nova
Ano 19  n.267

por tecnologia, melhorar a ambiente complexo processo forma de


multiplicam-se formação de de bichos de criação de prevenção
pelo país engenheiros pequenos Villa-Lobos contra o HIV
O que a ciência brasileira

explora você encontra aqui

12 edições por R$ 100


Condições especiais para estudantes e professores

revistapesquisa.fapesp.br | assinaturaspesquisa@fapesp.br
fotolab o conhecimento em imagens

Sua pesquisa rende fotos bonitas? Mande para imagempesquisa@fapesp.br


Seu trabalho poderá ser publicado na revista.

Torneira de luz
Patrícia Christina Marques Castilho

O conjunto formado pelo aro preto e o cubo transparente funciona como uma
torneira que transmite apenas uma polarização específica de um raio de laser, explica
o físico Raul Teixeira. Assim, sua equipe pode controlar a quantidade de luz que
chega ao coração do experimento, onde estão átomos de estrôncio resfriados quase
ao zero absoluto, uma temperatura que não existe na natureza. Entender como eles
reagem à luz pode ajudar a construir novos lasers, sensores ou componentes
de memória para computação quântica. O sistema também pode funcionar como
uma representação de escalas muito maiores, simulando como a luz se propaga pelas
nuvens gélidas dos meios interestelares.

Imagem enviada por Raul Celistrino Teixeira, professor da


Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

PESQUISA FAPESP 267 | 3


maio  267

CAPA POLÍTICA DE C&T 52 Física 68 Indústria


Novas pesquisas indicam Flutuações aleatórias automobilística
que a Amazônia 30 Inovação seriam benéficas à Tecnologias incentivadas
A busca de estratégias produção de energia por pelo programa Inovar Auto
pré-colombiana era
para melhorar a formação fusão nuclear foram quase todas
densamente povoada dos engenheiros importadas
p. 18   55 Epidemiologia
36 Gestão Casos de hanseníase 72 Engenharia
Pesquisadores são em crianças sugerem aeronáutica
estimulados a criar planos subnotificação da Dirigível autônomo
de gerenciamento de dados prevalência da doença vai monitorar reservas
  em Manaus na Amazônia
40 Entrevista
Bióloga Cristiana Seixas 58 Saúde pública
aponta saídas para frear Pílula que evita transmissão
perda da biodiversidade do HIV é adotada
  e avaliada no Brasil

CIÊNCIA 60 Biologia molecular


Vírus da zika é testado
44 Ecologia no combate ao
Levantamento registra câncer no cérebro
predomínio de
pequenos animais na
Mata Atlântica TECNOLOGIA

48 Geologia 62 Computação
Chuvas intensas teriam Hackerspaces
ENTREVISTA unido as florestas da multiplicam-se pelo país
Bernardete Gatti região Norte e do
Educadora litoral durante a última 67 Estudantes
expõe entraves glaciação participam de competição
na formação de programação p. 48
de professores
p. 24

p. 95
www.revistapesquisa.fapesp.br
Leia no site todos os textos da revista em português, inglês
e espanhol, além de conteúdo exclusivo

vídeo  youtube.com/user/pesquisafapesp

p. 82 Perfil: Marcelo Viana


Diretor do Impa fala da entrada do Brasil na elite
internacional de matemática
HUMANIDADES bit.ly/ent265​

74 História
Pesquisas mostram o
p. 62
papel de diferentes
protagonistas no processo
de abolição no Brasil
12 Notas
80 Entrevista
A historiadora Paulina 88 Obituário
Alberto diz por que Paul Singer dedicou sua
intelectuais negros vida à compreensão do
passaram a rejeitar o ideal Brasil Cicatrizes de um cataclismo no Brasil Central
de harmonia racial Queda de meteorito há 250 milhões de anos gerou
90 Memória terremoto e tsunami​
82 Música Aos 200 anos, Museu bit.ly/2wvBXCF
Análise de peças musicais Nacional tenta resgatar
revela o processo de importância do passado
criação de Villa-Lobos
94 Resenha
Arte e conhecimento em
SEÇÕES Leonardo da Vinci, de
Alfredo Bosi. Por Eduardo
3 Fotolab Kickhöfel

6 Comentários 95 Carreiras
Recém-doutores, bolsistas
7 Carta da editora querem adiar volta ao Brasil Mistérios
​​ de ser macho ou fêmea
Rã amazônica é o vertebrado com o maior número
8 Boas práticas registrado de cromossomos sexuais
Troca de favores em bit.ly/2rDcbr6
processo de avaliação agita
agência norte-americana podcast  bit.ly/PesquisaBr

11 Dados E​specialistas falam sobre a universalização do ensino


Formação de engenheiros e Foto da capa e o aumento das desigualdades na aprendizagem
profissionais afins maurício de paiva bit.ly/2KcZKcE
Conteúdo a que a
comentários cartas@fapesp.br
mensagem se refere:

Revista impressa

Reportagem on-line Algoritmos tempo me sentia ansiosa e esfolava minhas


Enquanto metade dos algoritmos resolve mãos de tanto que as esfregava uma na outra.
Galeria de imagens
problemas, a outra metade cria mais pro- Quando, finalmente, fui diagnosticada com
Vídeo blemas (“O mundo mediado por algoritmos”, síndrome de Asperger (transtorno neurobio-
edição 266). lógico do espectro autista), conforme o Ma-
Rádio
Eduardo Klein Fichtner nual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos
Mentais (DSM-5), me dei conta de que não
preciso sentir tanta culpa por ser quem eu
contatos Alimentos ultraprocessados sou (“O cérebro no autismo”, edição 184).
Considero equivocado o uso da denomi- Heloisa Carmen

revistapesquisa.fapesp.br nação “ultraprocessado” para classificar


alimentos com formulações pouco saudáveis.
redacao@fapesp.br
O processamento em si torna os alimentos Ciências humanas e sociais
PesquisaFapesp
seguros para o consumo e duráveis. Por exem- Por que há tão poucas matérias sobre as
PesquisaFapesp plo, o leite in natura pode ser uma fonte de humanidades? Gostaria de assinar a re-
pesquisa_fapesp infecção se não for processado. Alimentos vista, mas é desestimulante ver tão poucos
Pesquisa Fapesp industrializados com excesso de açúcar ou sal artigos dessa área, a minha, por edição.
pesquisafapesp
não são necessariamente produtos “proces- Luis Sandes
sados demais”, mas sim com formulações
cartas@fapesp.br pouco saudáveis. O equívoco na terminologia
R. Joaquim Antunes, 727 “ultraprocessado” fica claro na reportagem Correções
10º andar
“Alguns efeitos dos alimentos fabricados” (edi- Na reportagem “O mundo mediado por al-
CEP 05415-012
São Paulo, SP
ção 265), em que a gelatina de abacaxi foi goritmos” (edição 266) há uma referência
classificada como um abacaxi ultraprocessado, equivocada à dificuldade dos computadores
Assinaturas, renovação sendo que o produto não é derivado do pro- em realizar a fatoração de números primos.
e mudança de endereço cessamento do abacaxi, mas sim do couro O correto é afirmar que existe esperança de
Envie um e-mail para bovino, com adição de açúcar e aroma artificial. encontrar algoritmos eficientes para solucio-
assinaturaspesquisa@
Jorge Andrey Wilhelms Gut nar problemas como a fatoração de números
fapesp.br
ou ligue para inteiros em primos.
(11) 3087-4237,
de segunda a sexta, Autismo Ao contrário do publicado na reportagem “O
das 9h às 19h Durante anos me culpei por ser “esquisi- voo dos bilionários” (edição 265), a empresa
ta socialmente”, me sentia mal por querer Hyperloop Transportation Technologies não
Para anunciar 
Contate: Paula Iliadis 
falar somente sobre existencialismo e astro- faz parte do conglomerado do empresário
Por e-mail: nomia (de modo que a angústia me consumia Elon Musk.
publicidade@fapesp.br se fossem outros assuntos) e ser considerada
Por telefone: chata por isso, me sentia confusa por ter di-
(11) 3087-4212 ficuldade absurda em alguns estudos e um Sua opinião é bem-vinda. As mensagens poderão ser resumidas
talento admirável em outros. Durante muito por motivo de espaço e clareza.
Edições anteriores
Preço atual de capa
acrescido do custo de
postagem.
Peça pelo e-mail: A mais lida no mês de abril no Facebook
clair@fapesp.br
Boa parte do shoyu produzido no Brasil
Licenciamento tem alto teor de milho bit.ly/ShoyuBR
de conteúdo
Adquira os direitos de
reprodução de textos 83.971 pessoas alcançadas
e imagens
de Pesquisa FAPESP. 524 reações
Por e-mail:
Léo ramos chaves

mpiliadis@fapesp.br 93 comentários
Por telefone:
(11) 3087-4212 479 compartilhamentos

6 | maio DE 2018
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
carta da editora
José Goldemberg
Presidente

Eduardo Moacyr Krieger


vice-Presidente

Conselho Superior

Carmino Antonio de Souza, Eduardo Moacyr


Krieger, Ignacio Maria Poveda Velasco, fernando
ferreira costa, João Fernando Gomes de Oliveira,
José Goldemberg, Marco Antonio Zago, Marilza
Vieira Cunha Rudge, José de Souza Martins, Pedro
Luiz Barreiros Passos, Pedro Wongtschowski,
Vanderlan da Silva Bolzani
Amazônia surpreendente
Conselho Técnico-Administrativo

Carlos américo pacheco


Diretor-presidente Alexandra Ozorio de Almeida | diretora de redação
Carlos Henrique de Brito Cruz
Diretor Científico

fernando menezes de almeida


Diretor administrativo

“A
literatura científica amazônica, na região: aruaque e tupi-guarani. Apesar
amplíssima, reflete bem a fisio- de seu predomínio não se dar em áreas
issn 1519-8774
grafia amazônica: é surpreen- contíguas, por meio do estudo de seme-
Conselho editorial
Carlos Henrique de Brito Cruz (Presidente), Caio Túlio Costa, dente, preciosíssima, desconexa. Quem lhanças gramaticais e empréstimos de
Eugênio Bucci, Fernando Reinach, José Eduardo Krieger,
Luiz Davidovich, Marcelo Knobel, Maria Hermínia Tavares de quer que se abalance a deletreá-la, ficará, palavras entre idiomas, constatou-se que
Almeida, Marisa Lajolo, Maurício Tuffani, Mônica Teixeira

comitê científico
ao cabo desse esforço, bem pouco além houve interação e que as diferenças en-
Luiz Henrique Lopes dos Santos (Presidente),
Anamaria Aranha Camargo, Ana Maria Fonseca Almeida,
do limiar de um mundo maravilhoso.” O tre as línguas indicam como os grupos
Carlos Américo Pacheco, Carlos Eduardo Negrão, Fabio Kon,
Francisco Antônio Bezerra Coutinho, Francisco Rafael Martins
diagnóstico foi feito há quase 110 anos marcam seu lugar dentro de um sistema
Laurindo, José Goldemberg, José Roberto de França Arruda,
José Roberto Postali Parra, Lucio Angnes, Luiz Nunes de
por Euclides da Cunha (À margem da interativo maior. Os próximos capítulos
Oliveira, Marie-Anne Van Sluys, Maria Julia Manso Alves, Paula
Montero, Roberto Marcondes Cesar Júnior, Sérgio Robles Reis
história, 1909). O avanço recente do co- dessas investigações serão aguardados
Queiroz, Wagner Caradori do Amaral, Walter Colli
nhecimento sobre a ocupação da Ama- com muito interesse.
Coordenador científico
Luiz Henrique Lopes dos Santos
zônia antes da chegada dos europeus é Por sua amplitude, a reportagem de
diretora de redação notável, e reúne contribuições de áreas capa remete a várias outras desta edi-
Alexandra Ozorio de Almeida
diversas do conhecimento como arqueo- ção. O diagnóstico da (perda da) biodi-
logia, geologia, biologia, ecologia, antro- versidade nas Américas e seus impactos
editor-chefe
Neldson Marcolin

Editores Fabrício Marques (Política de C&T), pologia, entre outras, mas ainda há muito na qualidade de vida humana é tema de
Glenda Mezarobba (Humanidades), Marcos Pivetta (Ciência),
Carlos Fioravanti e Ricardo Zorzetto (Editores espe­ciais), terreno para pesquisa. entrevista com a bióloga Cristiana Si-
Maria Guimarães (Site), Bruno de Pierro (Editor-assistente)

repórteres Christina Queiroz, Rodrigo de Oliveira Andrade


O saber que emerge desses estudos des- mão Seixas, da Universidade Estadual
e Yuri Vasconcelos banca ideias arraigadas sobre a região de Campinas (Unicamp), uma das coor-
redatores Jayne Oliveira (Site) e Renata Oliveira
do Prado (Mídias Sociais)
e sua história, como mostra a reporta- denadoras do documento divulgado pela
arte Mayumi Okuyama (Editora), Ana Paula Campos (Editora de
gem de capa desta edição (página 18). Na Plataforma Intergovernamental de Bio-
infografia), Júlia Cherem Rodrigues e Maria Cecilia Felli (Assistentes)
Amazônia, desenvolveram-se sociedades diversidade e Serviços Ecossistêmicos
fotógrafos Eduardo Cesar e Léo Ramos Chaves
populosas, com vários milhões de habi- (IPBES), ligado à ONU (página 40). Es-
tantes, e complexas, que construíram es- tão saindo as primeiras pesquisas feitas
banco de imagens Valter Rodrigues

Rádio Sarah Caravieri (Produção do programa Pesquisa Brasil)

revisão Alexandre Oliveira e Margô Negro


tradas e viveram em aldeias fortificadas a partir de uma nova base de dados sobre
Colaboradores Ataliba Coelho, Bruno Algarve, Eduardo
com valetas e paliçadas. Foi encontrada espécies de mamíferos, aves, anfíbios e
Kickhöfel, Karina Toledo, Luana Geiger, Marcos de Oliveira,
Maurício de Paiva, Pedro Hamdan, Renato Pedrosa, Suzel
uma profusão de geoglifos – estruturas borboletas da Mata Atlântica, a Atlantic
Tunes, Victória Flório
desenhadas no chão com pedras – em for- Series. Apesar de as extinções verificadas
Revisão técnica Adriana Valio, Claudia Bauzer Medeiros,
Francisco Laurindo, José Roberto de França Arruda,
mato geométrico, que teriam sido espaços serem poucas, a fragmentação da área
Luiz Augusto Toledo Machado, Luiz Nunes de Oliveira,
Maria Beatriz Borba Florenzano, Plínio Barbosa de Camargo,
de sociabilização e práticas cerimoniais. total desse bioma em trechos relativa-
Ricardo Trindade, Roberto Marcondes Cesar Junior,
Wagner Caradori do Amaral, Walter Colli
Um aspecto surpreendente dessa ocu- mente pequenos (até 1 km2) é prejudicial
pação pré-colombiana é a descoberta de principalmente às espécies de grandes
É proibida a reprodução total ou parcial
de textos, fotos, ilustrações e infográficos
que gerações de indígenas faziam o ma- mamíferos (página 44). O bicentenário
sem prévia autorização nejo da floresta para seu sustento, isto é, do Museu Nacional, a mais antiga insti-
Tiragem 28.200 exemplares
IMPRESSão Plural Indústria Gráfica que vastas porções da floresta não seriam tuição científica do país, é objeto da se-
distribuição Dinap
áreas virgens. Foram identificadas mais ção Memória desta edição (página 90).
GESTÃO ADMINISTRATIVA FUSP – FUNDAÇÃO DE APOIO À
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO de 80 espécies vegetais domesticadas pe- Os mais de 20 milhões (sim, milhões) de
PESQUISA FAPESP Rua Joaquim Antunes, no 727,
10o andar, CEP 05415-012, Pinheiros, São Paulo-SP
los índios, como arroz e açaí, e pesquisa- itens de seu acervo, dedicado sobretudo
FAPESP Rua Pio XI, no 1.500, CEP 05468-901,
Alto da Lapa, São Paulo-SP
dores observaram uma concentração de à antropologia, botânica, entomologia,
seringueiras e castanheiras, entre outros geologia e paleontologia, são a base de
cultivos, ao redor de sítios arqueológicos. muitos estudos relevantes já publicados
Secretaria de Desenvolvimento Econômico,
Ciência e Tecnologia

As pesquisas em andamento incluem nessas áreas, inclusive pelo próprio cor-


Governo do Estado de São Paulo

uma dimensão essencial: a linguagem. po de pesquisadores da instituição. Que


Duas famílias de línguas eram dominantes venham os próximos 200 anos.

PESQUISA FAPESP 267 | 7


Boas práticas

Condutas impróprias na avaliação de projetos


Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos investigam casos
suspeitos de quebra de sigilo e de troca de favores

Os Institutos Nacionais de Saúde (NIH), foi suficientemente ambíguo para refazermos o


conglomerado de centros de pesquisa que constitui processo”, informou Nakamura, referindo-se
a principal agência de financiamento às ciências à decisão de submeter os projetos a um novo
biomédicas dos Estados Unidos, investigou nos últimos escrutínio. Para garantir a sua integridade, processos
meses 60 casos suspeitos de quebra de sigilo em seu de avaliação nos NIH devem respeitar uma série de
processo de revisão por pares e anunciou que, regras de confidencialidade, que buscam garantir a
em breve, revelará as medidas disciplinares contra independência dos revisores e proteger segredos
pesquisadores que tentaram influenciar revisores comerciais ou informações sensíveis.
em busca de avaliações favoráveis a seus pedidos Nos casos investigados, foram detectados indícios
de financiamento. “Nos próximos meses, já teremos de violação a várias dessas normas. A mais grave delas
casos que poderão ser compartilhados publicamente”, está relacionada a uma proposta de troca de favores,
disse ao site da revista Science o diretor do Centro que é a oferta de alguma vantagem feita pelo
de Revisão Científica dos NIH, o neurocientista proponente a membros do painel a fim de obter
Richard Nakamura. “São exemplos raros, mas é avaliação favorável. Pesquisadores também tomaram
fundamental que se tornem cada vez mais raros.” conhecimento das pontuações iniciais que seus
O centro comandado por Nakamura organiza painéis projetos receberam antes de serem avaliados pelo
de avaliação para analisar conjuntos de projetos painel e dos nomes dos revisores designados para
apresentados por pesquisadores aos institutos. No ano analisá-los antes que a reunião ocorresse. Nakamura
fiscal de 2017, foram avaliadas 54 mil solicitações de não deu detalhes de como as informações vazaram
financiamento e concedidas pouco mais de 10 mil. nem revelou a identidade dos envolvidos. Em um dos
Sabe-se que os 60 casos controversos haviam casos, um membro da equipe dos NIH que apoia os
sido analisados por um mesmo painel de especialistas, painéis de revisão mudou irregularmente a pontuação
composto por revisores pouco experientes com que os revisores deram a uma das propostas.
as normas dos NIH, em uma rodada de avaliações De acordo com as regras da agência, tudo isso é
considerada irregular. “Houve uma tentativa inapropriado. É vedado aos proponentes ter acesso à
de influenciar o resultado da revisão e o efeito disso pontuação inicial atribuída a seus projetos. Da mesma

8 | maio DE 2018
Vista aérea do
Centro Clínico
dos NIH, na cidade
norte-americana
de Bethesda

forma, as discussões do painel de iniciativas na área de educação para A preocupação dos NIH em
revisores são sigilosas, a fim de evitar violações de regras não estava coibir desvios remete a uma crise
garantir independência sem temor sendo suficiente para prevenir de confiança enfrentada pelo órgão
de represálias, garantindo-se aos episódios de má conduta e sugeriu que em 2005, quando foi interpelado
pesquisadores, em contrapartida, todos os membros de painéis de revisão por congressistas sobre indícios de
a possibilidade de recorrer de recebam treinamento periódico, por que alguns de seus 17 mil funcionários
resultados que julguem injustos. meio de vídeos on-line que descrevem exerciam atividades que implicavam
O contato direto entre avaliador e as normas, como já acontece com conflitos de interesses.
avaliado para tratar do projeto é membros de comitês de ética. À época, o então diretor da agência,
totalmente proibido. As possíveis “Os presidentes dos painéis de revisão Elias Zerhouni, proibiu que os
punições envolvem a suspensão precisam enfatizar que até mesmo funcionários prestassem consultoria
do financiamento a projetos ou a pequenas violações de regras podem para empresas farmacêuticas e
proibição aos infratores de obterem comprometer o sistema”, disse a de biotecnologia e abriu uma
recursos federais. Segundo Nakamura, neurocientista Yasmin Hurd, membro investigação que identificou dezenas
preservar a integridade do processo do conselho do Centro de Revisão de violações éticas – 27 funcionários
de revisão científica dos projetos é Científica e diretora do Instituto foram punidos administrativamente
mais importante do que nunca. de Dependência Química da Escola de e oito enfrentaram processos
As tentativas de influenciar esse Medicina Icahn, em Nova York. criminais. n Fabrício Marques
processo, ele observa, podem corroer
a confiança do público na ciência e
distribuir de forma injusta os limitados
recursos federais para pesquisa.
Em dezembro passado, quando os Regras de confidencialidade
ilustração  pedro hamdan  Foto  National Institutes of Health

casos começaram a ser investigados,


um dos diretores dos NIH, Michael
Lauer, publicou um post em um blog Um revisor dos Institutos Nacionais › Usar informações de propostas
da instituição em que enfatizou de Saúde é proibido de: de pesquisa em benefício
a importância de revisores e próprio ou divulgá-las para
› Compartilhar propostas e pessoas ou instituições que possam
pesquisadores conhecerem as regras materiais usados em reuniões de se beneficiar delas
que protegem a integridade do processo peer review com pessoas que não
de avaliação da agência. Na mesma tenham participado oficialmente › Participar de painéis de peer
ocasião, os NIH publicaram uma versão desses painéis ou divulgar review sem assinar uma declaração
atualizada dessas normas, que estão em informações e documentos sobre padronizada de confidencialidade
vigor desde 2015. Em reunião realizada suas deliberações
› Divulgar informações sobre
em março, o Conselho Consultivo do › Fornecer a pessoas não projetos aprovados antes da
Centro de Revisão Científica dos NIH autorizadas acesso aos sistemas de assinatura de contrato entre
reconheceu que a estratégia de apoiar computador dos NIH o pesquisador e os NIH

PESQUISA FAPESP 267 | 9


Uma rede para reproduzir experimentos

ilustração pedro hamdan


Um grupo de pesquisadores do realização dos testes – a estimativa
Instituto de Bioquímica Médica é gastar cerca de R$ 1 milhão na
Leopoldo de Meis, da empreitada. “O valor é pequeno
Universidade Federal do diante do volume de recursos
Rio de Janeiro (UFRJ), vai investidos por agências de fomento
organizar nos próximos meses à pesquisa no país. É importante
uma rede de laboratórios aperfeiçoar os mecanismos
incumbida de repetir até de controle de qualidade dos
100 experimentos em ciências resultados obtidos.” Cada
biomédicas publicados em artigos experimento selecionado deverá
científicos brasileiros – o objetivo ser refeito em pelo menos três
é verificar o quanto é possível laboratórios.
reproduzir os resultados que foram Amaral observa que nem sempre
divulgados. Batizado de Iniciativa a revisão por pares dos artigos
Brasileira de Reprodutibilidade científicos é suficiente para
(reprodutibilidade.bio.br), o detectar falhas na metodologia
projeto recebeu financiamento do ou na execução dos experimentos.
Instituto Serrapilheira. O primeiro “Mas ninguém sabe qual é a
passo será selecionar cinco extensão desse problema”,
métodos bastante difundidos para afirma. “Alguns levantamentos
refazer experimentos – entre os feitos em outros países avaliando
candidatos, há técnicas como áreas específicas de pesquisa
o Western Blot, de detecção de conseguiram confirmar
proteínas, Elisa, de detecção menos da metade dos resultados
de anticorpos, ou RT-PCR, de anunciados em artigos.”
quantificação de RNA, além de
modelos baseados em culturas
de células e roedores. “Queremos
escolher métodos consagrados Acusado de assédio, editor é destituído
e fáceis de fazer, pois a etapa
seguinte será convidar centros
capazes de realizá-los em vários O American Journal of Political experiências semelhantes
lugares do país interessados Science, revista da Associação de comentaram o post e se
em participar da rede”, afirma Ciência Política do Meio-oeste encarregaram de citá-lo.
o médico Olavo Amaral, dos Estados Unidos, deixou A Associação de Ciência
coordenador do projeto. Ele temporariamente de receber Política do Meio-oeste fez uma
espera credenciar os laboratórios manuscritos para publicação investigação sobre a suspeita,
participantes até o final do ano. enquanto não encontra substituto mas seus conselheiros não
A escolha dos experimentos a para o editor William Jacoby, chegaram a um consenso sobre a
serem replicados deverá ser feita demitido do cargo em meio a culpa de Jacoby e optaram por
de forma aleatória entre artigos acusações de assédio sexual. Jacoby mantê-lo na função de editor até o
científicos brasileiros que os é pesquisador da Universidade final do ano. A saída, contudo, foi
utilizaram. “A intenção é selecionar Estadual de Michigan. Em janeiro, antecipada depois que o acusado
pelo menos 20 experimentos a cientista política Rebecca Gill, utilizou o espaço do site da revista
relacionados a cada método e saber hoje professora da Universidade de para se defender e alegar
em que proporção dessa amostra Nevada, em Las Vegas, escreveu um inocência. O post atraiu críticas e
os resultados se confirmam”, relato pessoal em uma rede social acabou sendo apagado. Uma carta
explica Amaral. Para o primeiro ano e o compartilhou em uma reunião assinada por 85 pesquisadores
de trabalho, durante o qual serão acadêmica, contando a experiência pediu o desligamento imediato
montados os protocolos para de ter sido assediada sexualmente de Jacoby, por abuso das
replicar as pesquisas, o Instituto por um professor durante a prerrogativas de editor.
Serrapilheira vai investir R$ 145 graduação e explicando o efeito que Uma reunião de emergência
mil. Encerrada essa etapa, o grupo isso teve sobre sua autoconfiança. do conselho editorial da revista,
da UFRJ espera obter uma nova Não mencionou Jacoby, mas nem no dia 20 de abril, “aceitou a
rodada de financiamento para a foi preciso, porque colegas com demissão” de Jacoby.

10 | maio DE 2018
Dados Formação de engenheiros
e profissionais afins

As instituições de ensino superior (IES) no Brasil formaram 125.558 profissionais em programas da


grande área de engenharia, produção e construção1 em 2016, número 19% acima dos 105.931
formados em 2015. Em cursos de engenharia propriamente ditos, que representaram 78% do total
da grande área, foram formados 97.980, com a mesma taxa de crescimento (19%).
A maior parte dos graduados concluiu o curso em instituições particulares (91.485 na grande
área e 71.635 em engenharia, 73% do total nos dois casos), que teve um crescimento de 21%
para a grande área e de 31% para bacharelados de engenharia em relação ao ano anterior.
O setor público cresceu 12% na grande área e 3% em formados em engenharia.

Graduados por categoria Engenharia, produção Engenharia


administrativa, 2015 e 2016 e construção

50.361
41.680

39.190
41.124
33.875

32.445
32.142
n Federal

24.718
22.580

n Estadual
19.418

18.673
17.553
n Municipal
9.296
9.345

6.514

5.714
1.958
2.197

1.436
1.613

n Privada com fins lucrativos


n Privada sem fins lucrativos
2015 2016 2015 2016 2015 2016 2015 2016

817
Formados em O número de formados na grande
engenharia, produção 123 área considerada em 2015
111 106
e construção colocou o Brasil na quarta posição
86 82
(em milhares) – Brasil, 80 no mundo, atrás de Índia, Estados
São Paulo, países 55 52 50 Unidos e México2.
escolhidos3, 2015 35 34 33 31 O número de 2016 para o Brasil
27 22
19 19 16 15 15 (125.558) superou os números do
México e dos Estados Unidos,
para 2015. Os 35.471 graduados
a
EUA

Br o
A Jap il
Co lem ão
ia ha

n l
Tu ésia

Sã olô a
Fe Pa ia
Re d. R lo

U a
lô o
pa ia
a
lia

Fr ile
C a ça
Á us á

do ia
l
do S u

Su
as
di

P ui

o s

nh

A nad
ic

Co nid
o n

E s mb

ca ál
u

por IES de São Paulo representam


in us

Itá
Ch
an
re an
éx

rq
Ín

In do

fri tr
M

33% do total do país.

Bacharelados por As IES formaram 51 profissionais


157
100 mil habitantes – por 100 mil habitantes,
131
Brasil, São Paulo, 108 101 posicionando o Brasil ainda abaixo
países escolhidos3, 88 82 da média dos países da OCDE, em
6866 65 64 63 62
2015 58 2015. As instituições de São Paulo
51 51 45
38 36 29
27 23 21 formaram 82/100 mil do estado,
índice próximo dos países líderes.
Em 2016 foram 61/100 mil por IES
ilustração freepik

lô l
A C ia

pa ia
m le
M ha
o ico

Ja o
M Tu pão

O a
lô E
us ia
ia

Re B ha

U l
Ca ido

EUAá

fri Fra ia
Fe do a

In Rus l
do sa

a
Po Su

u
o si
ia ui

ca nç

si
ul

C o CD
n
le hi

A mb
ál
Es Índ

d. S
in ra

Itá
an

do país e 95/100 mil habitantes


na


Sã éx

éd rq

n
Pa
do

tr
a
i

em São Paulo.
re
Co

1 Inclui cursos de engenharia propriamente ditos (reconhecidos pelo Confea como tal) e outros programas na área de arquitetura, tecnologia em construção civil, eletricidade e outros,
inclusive de tecnologia em nível superior. Foi estabelecida pela Unesco e é utilizada pelo MEC e por órgãos multilaterais, incluindo a OCDE. 2 Os números para a China não estão disponíveis.
3 Países da OCDE e associados com pelo menos 10.000 títulos em Engenharia, Produção e Construção conferidos em 2015. Fontes Brasil Censo da Educação Superior, Inep/MEC. África do Sul – South
African Department of Higher Education and Technology. Demais países – OCDE. Populações – IBGE, Fundação Seade/SP e World Bank Database.

PESQUISA FAPESP 267 | 11


Notas 1

Saara cresce 10%


em um século
O deserto,
em tons claros
na imagem
Considerado o maior deserto quente do mundo, o Saara milhões de km2 no inverno do hemisfério Norte, o período
de satélite
encontra-se em expansão. Cresceu cerca de 10% no mais seco, e se retrair para metade disso (7 milhões de (acima), avança
último século e hoje ocupa uma área de quase 7,4 mi- km2) no verão e no outono, quando chove um pouco. sobre regiões
lhões de quilômetros quadrados (km2), um pouco menor Mesmo assim, a área que ocupa a cada estação vem com clima
menos seco
que a do Brasil. O deserto recebe, em média, menos de aumentando. O deserto se expande mais em direção ao
100 milímetros de chuva por ano e seu avanço sobre norte no inverno e rumo ao sul no verão, quando avança
regiões mais úmidas do norte da África foi calculado sobre o Sahel, região de clima semiárido coberta por
por pesquisadores da Universidade de Maryland, nos campos. Segundo os pesquisadores, variações naturais
Estados Unidos. O geofísico Sumant Nigam e sua aluna do clima, como alterações na temperatura superficial do
de pós-graduação Natalie Thomas analisaram dados Atlântico e na circulação de ventos quentes, explicariam
de pluviosidade de mais de um século em toda a África parte (dois terços) da redução das chuvas e do avanço
e concluíram que o deserto cresceu 7 mil km2 por ano do Saara. O terço restante pode ser consequência das
de 1920 a 2013 (Journal of Climate, 29 de março). Já se alterações no clima causadas por influência humana.
suspeitava que o Saara estivesse se ampliando, mas os “As mudanças climáticas podem amplificar a circulação
estudos anteriores, feitos a partir de imagens de satéli- desses ventos, causando o avanço de desertos subtropi-
te, exploraram períodos mais curtos e recentes. Como cais rumo ao norte”, contou Nigam em um comunicado
em todo deserto, a área aumenta e diminui segundo a à imprensa. “O avanço do Saara rumo ao sul sugere que
estação do ano. O Saara pode se estender por até 13,6 outros mecanismos estejam envolvidos.”

12 | maio DE 2018
Novo teste 4

para detecção
de brucelose

Pesquisadores do
Instituto Adolfo Lutz
(IAL), de São Paulo, estão
concluindo um ensaio
molecular para o
diagnóstico da brucelose
humana, zoonose
causada por bactérias do
gênero Brucella. Hoje, a
detecção é indireta, por
meio de exame sorológico
que flagra os anticorpos
produzidos pelo
organismo infectado.
O novo teste detecta o
material genético da
bactéria e revela mais
rapidamente a infecção. de infecção é o consumo A abertura dos
Ele também é mais de leite e queijo de Estados Gerais em
Versalhes, 5 de
Ciência de dados
sensível e específico produção clandestina.
do que o ensaio O teste molecular do IAL
maio de 1789,
gravura de
reconstrói a retórica da
convencional. Cerca de aponta a espécie
Revolução Francesa
Isidore-Stanislas
500 mil novos casos e a cepa responsáveis Helman
(1743-1806) sobre
da doença são notificados pela contaminação,
desenho de
por ano no mundo, auxiliando no tratamento Charles Monnet
principalmente em países e na compreensão da (1732-1808) Uma parceria entre especialistas em história, compu-
fotos 1 nasa  2  Luca Galuzzi  3  eduardo cesar  4  Isidore-Stanislas Helman / Biblioteca Nacional da França / Wikimedia Commons

em desenvolvimento. Não epidemiologia da doença. tação e ciências cognitivas está ajudando a mostrar
se sabe a real dimensão “Nossa primeira opção como ideias surgiram e vicejaram logo após a Revolução
da enfermidade no Brasil, é testar a urina; depois, Francesa (PNAS, 17 de abril). Os pesquisadores, vincu-
já que a notificação o soro sanguíneo. Já lados às universidades de Indiana e Carnegie Mellon,
não é obrigatória. definimos a concentração nos Estados Unidos, usaram técnicas de mineração de
Segundo o infectologista de cada reagente, a dados para analisar transcrições de 40 mil discursos da
Marcos Vinícius da temperatura de reação Assembleia Nacional Constituinte, o primeiro parlamento
Silva, coordenador do e outras variáveis pós-revolução, que funcionou de 1789 a 1791. Os tex-
Ambulatório de Doenças importantes do teste”, tos estão disponíveis no Arquivo Digital da Revolução
Tropicais e Zoonoses do conta a imunologista Francesa e foram estudados por meio de um método
Instituto de Infectologia Suely Kashino, que combina teoria da informação com estatística para
Emílio Ribas, em São integrante da equipe que rastrear padrões de uso de palavras nos debates da
Paulo, o número de desenvolve o teste no assembleia. Enquanto os representantes à esquerda no
indivíduos contaminados IAL. “Estamos a meio Queijo e leite espectro político utilizavam uma retórica inovadora para
tem crescido nos últimos caminho do processo produzidos sem apresentar suas ideias, os mais conservadores adotavam
fiscalização
anos. Um motivo é a de padronização.” um discurso com combinações de palavras familiares para
sanitária
ampliação da cobertura O teste ainda passará por podem causar se opor a mudanças. “No início da revolução, havia muita
vacinal do rebanho fase de validação. brucelose novidade em andamento. Alguns conceitos sobressaíram,
bovino, reservatório as pessoas passaram a gravitar em torno deles e os le-
do microrganismo, varam adiante”, contou a historiadora Rebecca Spang,
obrigatória desde 2001. pesquisadora da Universidade de Indiana e coautora
“A ampliação da do estudo, segundo o serviço de notícias Eurekalert. A
imunização elevou os certa altura, o carisma dos oradores foi parcialmente
acidentes com agentes neutralizado nos bastidores da assembleia com a cria-
de saúde animal, que, ção de comitês para deliberar sobre temas específicos.
às vezes, se infectam ao “Os comitês se tornaram centros de poder por meio de
manipular o imunizante”, seu conhecimento especializado”, disse o cientista da
conta Silva. Outra forma 3 computação Alexander Barron, primeiro autor do estudo.

PESQUISA FAPESP 267 | 13


1 Cautela com
Para reduzir a antibióticos e
poluição caseira antiácidos

Quem tem filho pequeno


Um artigo de revisão publicado em feve- sabe que infecções e
reiro de 2018 na revista Environmental refluxo estomacal
Research Letters argumenta a favor de são problemas
estratégias que promovam a troca dos frequentes, tratados,
fogões que utilizam biomassa (lenha ou respectivamente, com
carvão) por fogões a gás liquefeito de antibióticos e redutores
petróleo (GLP). O trabalho foi escrito da acidez do estômago.
pelo físico José Goldemberg, professor Mesmo adequadamente
emérito da Universidade de São Paulo receitadas, essas
(USP) e presidente da FAPESP, e pelos medicações podem
pesquisadores Javier Martinez-Gomez, cobrar um preço
da Universidade Internacional Sek, Equa- mais adiante: o
dor; Ambuj Sagar, do Instituto Indiano desenvolvimento de
de Tecnologia Delhi; e Kirk Smith, da alergias. Pesquisadores
Universidade da Califórnia em Berke- da Universidade de
ley, Estados Unidos. Nele, os autores 2014, menos de 10 milhões de brasileiros, No mundo, Ciências da Saúde
sugerem que essa troca seria uma etapa principalmente habitantes das áreas 2,7 bilhões Uniformed Services
de pessoas
intermediária, que precederia o uso de rurais, usavam madeira para abastecer e do Centro Médico do
cozinham em
fogões elétricos ou abastecidos com os fogões. Na Índia, em consequência de fogões a lenha Exército Dwight D.
energia renovável. “Propomos um prê- um programa coordenado pelo governo ou carvão Eisenhower, nos Estados
mio global de inovação como forma de e por empresas de petróleo, de 2015 a Unidos, analisaram
motivar quem possa desenvolver um 2017, cerca de 10 milhões de habitan- os dados de 792 mil
fogão para as cozinhas das casas que tes abandonaram os fogões a lenha e crianças nascidas entre
não seja poluidor e seja robusto e aces- começaram a usar GLP. Estima-se que, 2001 e 2013 e verificaram
sível”, escrevem. No Brasil, os subsídios no mundo, 2,7 bilhões de pessoas (um que aquelas tratadas
governamentais para incentivar o uso de em cada três habitantes) ainda prepa- com antibióticos ou
GLP começaram em 1973 e cessaram rem seus alimentos em fogões a lenha reguladores da acidez
em 2000. Em consequência dessa ação, ou carvão, o que aumenta o risco de nos seis primeiros meses
nessas três décadas, o uso de lenha para doenças respiratórias e cardiovascula­­­res de vida se tornaram
cozinhar caiu 65%, de acordo com os e contribui para a liberação de gases de mais propensas a
autores do estudo (ver gráfico abaixo). Em efeito estufa na atmosfera. desenvolver alergias.
Uma proporção pequena
das crianças (3%) tinha
Gás substitui lenha nas cozinhas brasileiras Auxílio gás alergia a alimentos. Esse
Incentivos governamentais facilitaram a troca por fogões menos poluentes número, porém, foi até
Preço Incorporação
duas vezes maior entre
regulado do auxílio
pelo gás ao Bolsa aquelas que haviam
Período sem Incentivo para Subsídios para mercado Família tomado redutores de
intervenção uso de GLP todos os cidadãos
70 acidez do estômago. Fonte  Goldemberg, J. et al. Environmental Research Letters. 2018.

As crianças tratadas
60 com antibióticos
apresentaram o dobro do
Número de domicílios (em milhões)

50 risco de ter asma e rinite


n Domicílios com fogão a lenha
n Domicílios com fogão a gás alérgica do que aquelas
40
que não tomaram
esses remédios (JAMA
30
Pediatrics, 2 de abril).
Para os pesquisadores,
20
esses medicamentos
10
podem alterar a
microbiota e só devem
0 ser administrados “se o
1920 1925 1930 1935 1940 1945 1950 1955 1960 1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000 2005 2010 2015 benefício clínico for claro”.

14 | maio DE 2018
2 Cena de captura 3

de baleia
encontrada na
ravina Izcuña
Um enxame de
foi pintada
há cerca buracos negros
de 1.500 anos

Astrofísicos dos Estados Unidos e do Chile de-


tectaram uma dúzia de buracos negros de mas-
sa pequena (algumas vezes superior à do Sol)
no centro da Via Láctea, a galáxia que abriga o
Sistema Solar (Nature, 5 de abril). Esse pequeno
enxame de objetos está orbitando Sagitário A*,
um buraco negro com massa equivalente à de 4
milhões de sóis. Os buracos negros não emitem
luz, mas a matéria atraída por eles, ao rodopiar
antes de ser tragada, libera raios X. Os 12 objetos
foram identificados com ajuda do Observatório
Chandra de Raios X, um satélite da agência espa-
cial norte-americana (Nasa) que passou 115 dias
observando o centro da Via Láctea. O Sagitário
A* está em uma região cheia de poeira e gás com
alta formação de estrelas, algumas com massa su-
Nas bordas do entre as cidades de ficiente para colapsar gravitacionalmente e formar
Atacama, cenas Antofagasta e El Paposo, buracos negros de pequena massa. A descoberta
no norte do Chile. As é fundamental para entender a interação entre os
de pesca imagens estão gravadas dois tipos de buracos negros. Para o astrofísico
em 24 blocos de rocha Rodrigo Nemmen, professor da Universidade de
Os povos que habitaram distribuídos por um São Paulo (USP) especialista em buracos negros,
o litoral norte do Chile trecho de 5 quilômetros a dificuldade de identificar os objetos detectados
fotos  1 eduardo cesar  2 Benjamín Ballester / Universidade Paris 1 Pantheón-Sorbonne  3 Nasa / CXC / Stanford / Zhuravleva, I. et al.

antes da chegada do (km) da ravina Izcuña, agora “é equivalente à de avistar uma bactéria
colonizador europeu um canal criado por na superfície da Lua”. A detecção desses objetos
devem ter sido hábeis escoamento de água que confirma uma previsão feita em 2000 pelos astro-
pescadores e caçadores se estende do sopé da físicos Jordi Miralda-Escudé e Andrew Gould. Na
de animais marinhos. cordilheira à planície época pesquisadores da Universidade Estadual de
Possivelmente, saíam costeira. As pinturas Ohio, eles calcularam que haveria 25 mil buracos
sozinhos em pequenas mais comuns são negros no centro da galáxia.
jangadas para arpear figuras simples, em
baleias, espadartes e forma de peixe, seguidas
tubarões ou capturar de jangadas e cenas de
leões-marinhos e captura. As figuras
tartarugas. “Essa deve humanas são quase
ter sido uma atividade ausentes. Nas cenas
solitária, realizada pelos de pesca, aparecem
indivíduos mais aptos”, solitárias na jangada,
sustenta o arqueólogo com uma presa arpoada,
chileno Benjamín quase sempre maior que
Ballester, pesquisador da o barco (Antiquity,
Universidade de Paris 1 fevereiro). “Esse
Pantheón-Sorbonne, estilo coloca a presa
na França. Essa intencionalmente como
interpretação se baseia protagonista,
na análise de material como evidenciam
Imagem do
arqueológico coletado as representações centro da Via
por outros pesquisadores detalhadas da anatomia Láctea.
e no exame de 328 e fisiologia dos animais”, O Sagitário A*
fica na região
pinturas que Ballester escreve Ballester.
delimitada
descobriu recentemente As pinturas datam de pelo quadrado
na região de El Médano, 1.500 anos atrás. amarelo

PESQUISA FAPESP 267 | 15


Molécula criada
em laboratório

Pesquisadores da Universidade Harvard e


do Instituto de Tecnologia de Massachusetts
(MIT), nos Estados Unidos, conseguiram
controlar reações químicas de um modo ino-
vador. Usaram feixes de laser para promover
um esbarrão entre dois átomos e uni-los,
criando uma molécula. Utilizando pinças
ópticas, feixes de laser altamente focados
capazes de aprisionar objetos microscópicos,
os pesquisadores empurraram um átomo
do elemento químico césio (Cs) contra um 2

átomo de sódio (Na) até que colidissem. Um Macho adulto


terceiro laser foi lançado sobre ambos, for- monitorado por As onças os municípios capixabas
armadilhas
necendo energia extra para criar a molécula
fotográficas na isoladas do de Linhares e Jaguaré.
NaCs (Science, 12 de abril). Na natureza, as O DNA extraído das
moléculas se formam a partir da interação de
Reserva
Natural Vale
Espírito Santo fezes apontou que ali
átomos por acaso. Por suas características vivem ao menos
químicas, césio e sódio jamais originariam Por dois anos, a bióloga 11 onças, um pouco
uma molécula espontaneamente. Até hoje, Ana Carolina Srbek- mais do que as nove
a fabricação de moléculas era imprevisível Araujo e seus colegas que tinham sido
e, em uns poucos casos, envolvia o uso de percorreram um trecho documentadas por meio
componentes tóxicos para facilitar a inte- da Mata Atlântica de armadilhas
ração entre os átomos. O feito do grupo de capixaba a pé ou de fotográficas. O resultado
Harvard e do MIT abre novas possibilidades bicicleta em busca de mais marcante do
para a engenharia de moléculas construídas algo pouco usual: fezes trabalho foi identificar
átomo a átomo e o desenvolvimento de tec- de onça-pintada uma perda de
nologias de materiais. Segundo os pesquisa- (Panthera onca) . variabilidade genética
No centro da
dores, a molécula de NaCs tem propriedades imagem maior, A coleta do material na população, além de
particulares que permitiriam seu uso para recipiente é o modo mais simples e sequências gênicas
armazenar ou manipular informações em mantém menos invasivo de exclusivas dali, indícios
aprisionada
um computador quântico. Líder da equipe obter informações sobre de isolamento
nuvem de
de Harvard, a física Kang Kuen Ni disse à átomos de sódio. o maior felino do prolongado em relação
revista Chemistry World que os próximos No detalhe, um continente, cuja área de às populações de onça

fotos 1 Lee Liu e Yu Liu  2 Srbek-Araujo, A. C. et al. Journal of Mammalogy. 2018  3 eduardo cesar
passos do trabalho envolvem o ganho de átomo de sódio ocorrência nas Américas de outras áreas (Journal
e outro de
controle total sobre uma única molécula e se vê muito reduzida of Mammalogy, 3 de
césio são vistos
a criação de moléculas maiores para simular ao microscópio por causa do abril). Os autores do
operações de computação quântica. eletrônico desmatamento. Na estudo, coordenado pelo
Mata Atlântica, menos geneticista Eduardo
de 3% da área original Eizirik, da Pontifícia
da floresta ainda Universidade Católica
abriga esses animais. do Rio Grande do Sul,
Como parte de seu sugerem o manejo dessa
doutorado, Ana Carolina, população diante da
hoje professora na impossibilidade de se
Universidade Vila Velha, restaurar floresta
no Espírito Santo, suficiente para garantir
coletou amostras de a mobilidade dos felinos.
Sódio
fezes de onça na As ações envolveriam
Reserva Natural Vale, translocação de onças
que preserva quase e reprodução assistida
23 mil hectares abrangendo populações
1 μm Césio
de remanescentes de de outras áreas da
1 Mata Atlântica entre Mata Atlântica.

16 | maio DE 2018
Conpresp tomba
prédios da USP

O Conselho Municipal de Preservação do


Patrimônio Histórico, Cultural e Ambien-
tal da Cidade de São Paulo (Conpresp)
aprovou em abril o tombamento de
mais quatro conjuntos de edifícios da
Universidade de São Paulo (USP), todos
localizados na Cidade Universitária. Os
prédios dos departamentos de História
e Geografia da Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas (FFLCH);
os edifícios de Engenharia Mecânica
e Naval, de Engenharia de Minas e de
Petróleo e de Engenharia Metalúrgica e
de Materiais da Escola Politécnica (Poli);
e as piscinas e o estádio de futebol do
Centro de Práticas Esportivas (Cepeusp)
foram reconhecidos como patrimônio
da arquitetura modernista da cidade.
A partir de agora, essas instalações só
poderão sofrer adaptações e reformas
depois de aprovadas pela Divisão de
Preservação da Prefeitura de São Paulo
e pelo Conpresp. “Nesses edifícios há
espaços coletivos que favorecem a con-
vivência entre a comunidade acadêmica,
além de sua criação envolver questões
construtivas inovadoras, como a tec-
nologia do concreto”, explica Mônica
Junqueira, professora da Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP).
“Sua linguagem denota certo despo-
jamento característico da arquitetura
brutalista moderna dos anos 1950 e
1960.” Para Mariana Rolim, diretora do
Departamento do Patrimônio Histórico
da Prefeitura de São Paulo, os prédios
evidenciam uma concepção técnica
e formal pioneira no modo de enten-
der o ensino, como o uso de rampas e
áreas de convivência para conectar os
espaços. “Antes deles, as faculdades
funcionavam em prédios onde as salas
de aula eram distribuídas por longos
corredores”, observa Mariana. Com as
novas aprovações, são 20 os edifícios
tombados na USP.

Rampas e áreas de
convivência unem
os prédios dos
departamentos de
História e Geografia
da FFLCH-USP
3

PESQUISA FAPESP 267 | 17


capa

Mais gente
na floresta
Novos sítios arqueológicos e evidências de
domesticação de plantas sustentam a ideia de que a
Amazônia pré-colombiana era densamente povoada

Marcos Pivetta

18 | maio DE 2018
Geoglifos, como estes
no município de Senador
Guiomard, no Acre, estão
presentes em uma faixa
de 1.800 quilômetros no
sul da Amazônia

A
descoberta recente de 81 sítios arqueológicos (1921-2012), pioneira da arqueologia amazônica, para
pré-colombianos aparentemente densamente quem a região era um grande vazio populacional.
povoados em uma área do sul da Amazônia Os novos sítios se situam na bacia do Tapajós, no nor-
que se julgava inabitada ou pouco povoada te de Mato Grosso, em uma área relativamente plana de
entre meados do século XIII e o início do XVI reforça terra firme, livre de inundações, pontuada por suaves
uma hipótese defendida por boa parte dos arqueólogos elevações de 100 a 300 metros (m). As regiões de terra
nos últimos 15 anos: a de que a grande floresta tropical, firme, também denominadas áreas interfluviais, repre-
que se estende por terras brasileiras e de mais oito paí- sentam pelo menos 70% dos 5,5 milhões de quilômetros
ses, abrigava sociedades complexas e uma numerosa quadrados (km2) da Amazônia. Normalmente, não são
população antes da chegada dos europeus às Américas. alvo de buscas arqueológicas. E a razão é simples: essas
Os números variam enormemente, mas as estimati- áreas estão fora das planícies inundáveis, as várzeas no
foto  maurício de paiva

vas atuais mais aceitas apontam para algo entre 8 e 10 entorno dos rios, que são as zonas mais férteis e com
milhões de indígenas, um contingente similar ao dos mais riqueza natural. Em tese, a maior parte das antigas
incas que ocuparam nos Andes uma área muito menor populações pré-coloniais deveria ter se concentrado
no período pré-colonial, e não no máximo 2 milhões de nas várzeas, pois a terra firme seria muito pobre em
pessoas, como dizia a norte-americana Betty Meggers recursos para sua sobrevivência. “As áreas interfluviais

PESQUISA FAPESP 267 | 19


sempre foram negligenciadas, mas nosso estudo 1

indica que elas podiam abrigar grandes concen-


trações humanas”, comenta o arqueólogo brasi-
leiro Jonas Gregório de Souza, que faz estágio
de pós-doutorado na Universidade de Exeter, no
Reino Unido, primeiro autor do estudo sobre os
sítios do Tapajós, publicado em março na revista
científica Nature Communications.
Com o auxílio de imagens de satélites e idas
a campo, Souza e colegas britânicos de Exeter
e brasileiros da Universidade Federal do Pará
(UFPA), da estadual de Mato Grosso (Unemat) e
do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (In-
pe) identificaram no Tapajós 104 construções ou
desenhos geométricos escavados no solo, os cha-
mados geoglifos. São valas e valetas geralmente
de formato circular, com diâmetros que variam
de 11 m a 363 m, dentro das quais há, em alguns
casos, resquícios de velhas moradias. Também
foram encontrados na área, situada entre os rios
Aripuanã, Juruena e Teles Pires, peças de cerâ-
mica, traços de caminhos que ligavam as aldeias Souza. “Os sítios do Tapajós não são idênticos aos Monumentos
e trechos com terra preta, um solo mais escuro do Acre ou do Xingu. Parecem pertencer a uma pré-colombianos
feitos de pedra,
formado a partir de detritos orgânicos acumula- outra tradição cultural, mas que certamente está encontrados perto
dos onde houve ocupações humanas prolongadas. relacionada a essas duas áreas.” do litoral do Amapá
Os autores do estudo afirmam que, se olhados
Cinturão de ocupação humana em conjunto com os sítios da Bolívia, do Acre e do
Descobrir esse tipo de sítio pré-histórico, pontua- Xingu, os resquícios de presença humana no Ta-
do por geoglifos ou por extensas valetas escavadas pajós fazem parte de um cinturão de 1.800 km de
na terra, deixou de ser algo inédito na Amazônia extensão com evidências de ocupação humana no
nas duas últimas décadas. Há dezenas de lugares sul da Amazônia no período pré-colonial. Apesar
com essas formas geométricas na floresta tropical, de haver distinções regionais, um grande traço
desde a fronteira da Bolívia com o Acre, onde as comportamental uniria os habitantes dessa faixa
figuras também podem exibir formas quadradas meridional da floresta: esses povos desaparecidos,
ou hexagonais, até a região do Alto Xingu, também que viveriam em aldeias fortificadas, deixaram
no norte de Mato Grosso. Sítios pré-colombianos marcas no solo de sua presença. “Há 10 anos,
circundados por valetas ou paliçadas também prevíamos que também deveria haver geoglifos
existem na confluência dos rios Negro e Solimões, na bacia do Tapajós e isso se confirmou agora”,
a cerca de 30 km de Manaus, no Amazonas, no afirma o paleontólogo Alceu Ranzi, ex-professor
Amapá e na Guiana Francesa. O diferencial da das universidades Federal do Acre (Ufac) e de
nova descoberta reside na localização das aldeias. Santa Catarina (UFSC). Coautor do novo estudo,
“Focamos nossa pesquisa no Tapajós justamente Ranzi foi um dos primeiros a identificar, mais de
Valeta escavada
por essa área estar entre os geoglifos do Acre e os duas décadas atrás, essas grandes figuras geo- em sítio
sítios do Xingu. Queríamos saber se nessa nova métricas em território acreano. De acordo com arqueológico na
região também haveria sítios similares”, explica projeções e cálculos de ocupação populacional bacia do Tapajós

20 | maio DE 2018
Rastros da ocupação humana
Os sítios arqueológicos, sobretudo os do centro-sul da Amazônia, situam-se perto de áreas ricas
em terra preta, castanheiras, desenhos e valetas escavados no solo

Rio Negro

as
zon
Ama
R io belém
manaus
Rio A
mazonas
iquitos

s

pa
Ta
ira Ri
o
de
Ma
o
Ri

porto velho novos sítios


do tapajós
Rio Branco

u
X ing
Rio
● Sítios arqueológicos
● Geoglifos, valetas
e antigas estradas
● Castanheiras santa cruz de la sierra
● Solos ricos em terra preta
fonte Baseado em mapas feitos por André Braga Junqueira para CLEMENT, C. R et al.
The domestication of Amazonia before European conquest (2015)

feitos por Souza e seus colegas, entre 500 mil e 1 por uma malha de estradas de terra batida. Os
milhão de indígenas teriam vivido nesse cinturão pesquisadores estimaram que entre 2.500 e 5.000
em até 1.500 aldeias entre os anos 1250 e 1500. A pessoas podem ter residido nas maiores aldeias.
área dessa faixa equivale a 400 mil km2, apenas Estudioso há três décadas do Xingu, onde já
7% de toda a bacia amazônica. viveu e ainda passa temporadas, o antropólogo
denomina esse tipo de ocupação de “cidade-jar-
“Cidade-jardim” dim”, uma espécie de arquitetura amazônica que
Talvez o exemplo mais espetacular desse tipo teria florescido no período pré-colonial. “Seria
de ocupação nas franjas meridionais da floresta uma forma ‘galáctica’ de urbanismo pré-histórico,
resida nos sítios arqueológicos situados nas ter- sem um centro de comando, mas com aglomera-
ras hoje habitadas pelo povo Kuikuro, dentro dos representando pequenas entidades políticas
da reserva indígena do Xingu, no norte de Mato independentes dentro de um sistema igualitário
fotos 1 Mariana Cabral 2 José Iriarte

Grosso, a leste dos novos achados no Tapajós. de poder regional”, explica Heckenberger. Um
Ao lado de colegas brasileiros e de dois índios dos traços desse tipo de ocupação seria a pro-
dessa etnia, o antropólogo norte-americano Mi- funda integração dos habitantes com os recursos
chael Heckenberger, da Universidade da Flórida, da floresta, que não seria simplesmente mantida
descreveu, em um artigo na revista Science em intacta, como algo sagrado, mas manejada de ma-
2003, um grupo de 19 aldeias de formato circular, neira a garantir o sustento de seus povos.
as maiores protegidas por fossas de até 5 m de Além dos traços profundos no solo amazônico,
profundidade e muros de paliçadas, interligadas a presença de vastas populações por um longo

PESQUISA FAPESP 267 | 21


período teria deixado marcas sutis na floresta do do Amapá (Iepa), indicaram que o sítio, pro-
tropical, tão tênues que, até pouco tempo atrás, vavelmente usado para fins cerimoniais e talvez
eram ignoradas ou interpretadas como elementos funerários, foi ocupado entre 700 e mil anos atrás,
da configuração natural da mata. Estudos recen- também antes da colonização europeia.
tes feitos por biólogos, ecólogos, geólogos, botâ- Apesar de ter se mudado do Amapá, a dupla
nicos, geralmente em parceria com arqueólogos, continua os estudos na região, onde calcula haver
têm sugerido que vastas porções da floresta não 500 sítios pré-históricos. “Descobrimos perto do
são áreas virgens, intocadas pelo homem, mas Oiapoque antigos assentamentos humanos prote-
sim setores da mata manejados pelos índios ao gidos por fossos escavados no chão”, comenta Sal-
longo de gerações para seu sustento. Um artigo danha, que defendeu doutorado sobre essa região
publicado em março de 2017 na Science indicou no ano passado no MAE-USP. “Ali havia também
que havia maior concentração e diversidade de a cultura de promover grandes movimentações
árvores que podem ser fonte de alimento perto de terra.” Do outro lado da fronteira, na Guiana
dos antigos assentamentos humanos. O trabalho, Francesa, os arqueólogos locais denominam os
cuja primeira autora era a bióloga Carolina Levis, sítios protegidos por valas, geralmente situados
doutoranda no Instituto Nacional de Pesquisas em lugares mais elevados, de montanhas coroa-
da Amazônia (Inpa) e na Universidade de Wage- das. Saldanha e Mariana ainda encontraram outro
ningen, na Holanda, listou 85 espécies vegetais tipo de estrutura monumental associada a práti-
que foram usadas e domesticadas pelos índios, cas cerimoniais e funerárias: círculos formados Árvores como a
castanheira teriam
como o açaí, a castanha-do-pará e a seringueira . por grandes troncos de madeira que marcavam e
sido manejadas
delimitavam a presença de poços funerários com pelos povos
Castanheiras em torno dos sítios sepultamentos humanos, alguns em urnas antro- pré-colombianos
Em um trabalho de 2015 publicado na revista
científica Proceedings of the Royal Society B, um
grupo de pesquisadores do Brasil e dos Estados 1

Unidos mostrou que as castanheiras parecem


se concentrar em torno das áreas ricas em ter-
ra preta que contornam os sítios arqueológicos.
Essa correlação é mais visível nos antigos assen-
tamentos humanos que ficavam no entorno dos
rios Amazonas e Madeira e, em menor escala, no
Tapajós (ver mapa na página 21). “Os índios pré-
-colombianos domesticaram o arroz na Amazô-
nia há 4 mil anos e moldaram partes da floresta
plantando seringueiras, castanheiras e outros
cultivos”, comenta o arqueólogo Eduardo Góes
Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da
Universidade de São Paulo (MAE-USP), um dos
grandes especialistas na pré-história da região e
coautor do estudo. Para Neves, a descoberta dos
novos sítios no Tapajós não é surpreendente. “Em
qualquer lugar da Amazônia que escavamos, en-
contramos algo. Muitas áreas não estudadas po-
dem ter abrigado culturas complexas”, sugere.
Uma zona em que a pesquisa arqueológica co-
meçou a se desenvolver há pouco mais de 10 anos
é a costa norte do Amapá, perto da fronteira com a
Guiana Francesa. Inicialmente, essa área chamou
a atenção por causa do sítio do Rego Grande, no
município de Calçoene, distante 460 km ao norte
fotos 1 léo ramos chaves 2 Science / AAAS

de Macapá. Apelidado de Stonehenge amazôni-


co (o conhecido círculo de pedras erguidas há
4,5 mil anos no sul da Inglaterra), o lugar abriga
um pequeno conjunto de megálitos, construções
humanas feitas com grandes blocos de granito.
Datações de carbono 14 realizadas pelo casal de
arqueólogos Mariana Petry Cabral e João Darcy
de Moura Saldanha, então a serviço do Instituto
de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Esta-

22 | maio DE 2018
pomórficas. Não se sabe se os antigos habitantes 2

da costa amapaense dividiam as mesmas tradições


culturais dos povos que fizeram os geoglifos na
Bolívia e no Acre e as valetas e construções geo-
métricas do Xingu e do Tapajós. Há, no entanto,
um possível elemento de ligação, apesar da dis-
tância geográfica. Nos tempos pré-colombianos,
as terras do litoral perto da Guiana Francesa eram
dominadas por tribos que falavam majoritaria-
mente línguas da família aruaque.

Fragmentação linguística
Boa parte dos sítios arqueológicos que registram
extensos trabalhos de movimentação de terra,
como os geoglifos do Acre e as antigas aldeias do
Xingu, situa-se em áreas que foram ocupadas por
falantes de línguas das famílias aruaque e tupi-
-guarani. Segundo a linguista Patience Epps, da
Universidade do Texas em Austin, as áreas em
que essas duas famílias predominam na Amazô- 1

nia tendem a não ser contíguas. “Durante muito


tempo, esse padrão foi interpretado como um
indicador de que havia um relativo isolamento
entre os grupos de indígenas, que seriam forma-
dos por pequenas populações sem muita intera-
ção”, comenta Patience. “Mas argumento que es-
sa fragmentação linguística poderia também ser
0 1 2 km
entendida como um resultado da interação desses
grupos, que seria compatível com a visão de que
havia nessas áreas populações densas e estruturas Imagem de ram que a região foi quase um deserto de gente
sociais complexas.” satélite mostra antes da chegada dos europeus, também não há
vestígios de aldeias
Patience estuda como os falantes das diferen- evidências que sustentem algumas estimativas
pré-colombianas
tes línguas da Amazônia se relacionam e travam no Xingu, norte de exageradas, como as de que os povos pré-colom-
contato, um tipo de proximidade que se expressa Mato Grosso, bianos da Amazônia poderiam ter abrigado 50
sobretudo pelo empréstimo de palavras de um denominadas com milhões de pessoas. “Não creio que o estágio atual
a letra X e um
idioma para outro e de semelhanças gramati- das pesquisas nos permita fazer generalizações
numeral. As linhas
cais. Há anos, ela coleta dados sobre o léxico e vermelhas indicam o para toda a Amazônia. Seria como generalizar
a gramática de centenas de línguas da região. traçado de antigas a história de um grande continente”, pondera a
Ela constatou, por exemplo, que as línguas das estradas e praças, arqueóloga boliviana Carla Jaimes Betancourt,
e as pretas, a
famílias aruaque e tupi-guarani são as que mais da Universidade de Bonn, na Alemanha, que es-
localização de
cederam palavras ou expressões para outras lín- valetas tuda sítios de seu país natal. “Temos evidências
guas. Alguns termos ou expressões, como os que de grandes populações e de uma maior densidade
designam a ave garça ou o numeral 4, são disse- demográfica em algumas regiões, como o Xingu
minados por toda a bacia amazônica e compar- e Moxos [Bolívia] ”, afirma Carla. “Mas também
tilhados por várias línguas. “Temos evidência devemos admitir que algumas pesquisas, como
desse tipo de interação em algumas zonas mul- as de [Dolores] Piperno [do Instituto de Pesquisa
tilinguísticas, como o Alto rio Negro e o Xingu”, Tropical Smithsonian], comprovam que existiram
explica a estudiosa. “Nessas áreas, as diferenças igualmente áreas mais vazias.” n
entre as línguas fazem parte de como os grupos
marcam seu lugar e seu papel social dentro de
um sistema interativo maior, como as diferentes Projeto
partes de uma grande engrenagem.” A arqueologia do Holoceno Médio e o início da domesticação de
Apesar de os indícios arqueológicos, botânicos paisagens no sudoeste da Amazônia (nº 17/11817-9); Modalidade
e até linguísticos serem crescentes e compatíveis Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Eduardo Góes
Neves (USP); Investimento R$ 161.053,20.
com a existência de uma grande população ao
menos em setores da Amazônia pré-colonial, a Artigos científicos
questão demográfica ainda permanece em aberto. SOUZA, J. G. et al. Pre-Columbian earth-builders settled along the entire
southern rim of the Amazon. Nature Communications. 27 mar. 2018.
Se são cada vez mais raros os arqueólogos que CLEMENT, C. R. et al. The domestication of Amazonia before European
pensam como Betty Meggers e ainda conside- conquest. Proceedings of the Royal Society B. 22 jul. 2015.

PESQUISA FAPESP 267 | 23


24 | maio DE 2018
entrevista Bernardete Angelina Gatti

Por uma política de

formação
de professores
Pesquisadora expõe obstáculos e desafios enfrentados
na preparação de novos educadores

Bruno de Pierro  |  retrato  Léo Ramos Chaves

P
oucos ruídos da rua chegavam à ampla e silenciosa
sala de reuniões do Conselho Estadual de Educação
de São Paulo (CEE) durante uma tarde de janeiro.
“Hoje está tudo quieto, uma delícia, mas amanhã
estará bem cheio”, comentou a educadora Bernardete Ange-
lina Gatti, de 75 anos, presidente do conselho desde agosto de
idade 75 anos 2016. No dia seguinte, todos os assentos estariam ocupados
para debates sobre processos de avaliação de instituições de
especialidade
ensino superior e outros temas. É Bernardete quem comanda,
Educação
sempre às quartas-feiras, as sessões plenárias abertas ao pú-
formação blico realizadas na sede do CEE, órgão criado em 1963 com
Graduação em o objetivo de estabelecer regras para as escolas estaduais
pedagogia na USP e particulares e orientar as instituições públicas de ensino
(1962), doutorado superior do estado. O conselho está instalado no segundo
em psicologia pela andar do edifício Caetano de Campos, na praça da República,
Universidade Paris VII- região central de São Paulo. Inaugurado em 1894 e conhecido
Diderot (1972) como “escola da praça”, o prédio histórico formou gerações
de normalistas e, desde o final dos anos 1970, abriga a sede
instituição
da Secretaria Estadual de Educação.
Fundação Carlos
Na antessala da diretoria, quadros com imagens de crianças
Chagas
sorridentes manuseando lápis e papéis remetem ao início da
produção carreira de Bernardete, que, durante a graduação em pedago-
científica gia na Universidade de São Paulo (USP), na década de 1960,
Cerca de 120 artigos lecionou para crianças e adolescentes em colégios públicos. A
científicos e 19 livros experiência como alfabetizadora e o doutorado em psicologia
escritos ou organizados na Universidade Paris VII, na França, prepararam o terreno
para que ela iniciasse em 1971 a carreira de pesquisadora na

PESQUISA FAPESP 267 | 25


Fundação Carlos Chagas, instituição que na dissociação dessas metodologias
é referência em avaliação educacional. dos conteúdos curriculares. No Bra-
Desde então, coordenou estudos pio- sil, o Conselho Nacional de Educação
neiros sobre a formação de professores [CNE] começou a discutir esse assunto
no Brasil. Com o tempo, em 2011. Em 2015, foi homologado pelo
Um deles, realizado no final da década Ministério da Educação [MEC] o Pare-
de 2000, avaliou as propostas curricula-
res de 94 cursos de licenciatura em pe-
a escola vai cer nº2/2015, que analisa a situação da
formação dos professores no Brasil e do
dagogia, língua portuguesa, matemática
e ciências biológicas e constatou que elas se tornando desempenho do sistema educacional.
O trabalho do CNE concluiu que a re-
eram frágeis na formação de competên- formulação dos cursos de licenciatura
cias essenciais para a atividade docente: triste. A é inevitável. Esse parecer resultou em
disciplinas como didática e psicologia da uma resolução que deverá entrar em
educação representam apenas 10%, ou criança passa vigor a partir de julho deste ano pro-
menos, do currículo desses cursos. Nesta pondo a base curricular nacional para
entrevista, Bernardete fala dos proble-
mas que ainda persistem na qualificação
a ser cerceada a formação de professores.

dos professores que atuam no ensino


fundamental e no médio e relembra os e dirigida para O que deve mudar?
Será exigido que as licenciaturas não
tempos de alfabetizadora. sejam apenas um complemento ao ba-
aprendizagens charelado e tenham um projeto político
Em sua opinião, como está a formação e pedagógico próprio. No mínimo 20%
de professores no Brasil?
Persistem problemas arraigados desde a
muito formais do curso deverá ser dedicado à forma-
ção em educação. Também está pro-
criação dos primeiros cursos de licencia- posto que as licenciaturas precisam ter,
tura no país e a mentalidade de que para em suas variadas disciplinas, uma par-
formar o professor basta que ele domine te voltada à prática como componente
os conhecimentos de sua área. Esse dis- curricular. Isso significa que uma disci-
curso relega o conhecimento pedagógico. plina de álgebra precisa abordar práticas
Professores com licenciatura em pedago- de ensino de álgebra. Uma resolução
gia geralmente trabalham com a educa- estadual foi definida em São Paulo com
ção infantil e a alfabetização de crianças cação básica. Em quase todas as insti- a finalidade de ajustar nossos cursos à
e adultos. Para isso, estudam psicologia tuições, os cursos de licenciatura ainda legislação nacional.
da educação e práticas de ensino. Mas são encarados como mero apêndice do
em outras áreas, como língua portuguesa bacharelado, que formam profissionais Quais os principais resultados de seu
e biologia, que vão formar os professores para atuar no mercado geral. Politica- estudo de 2008 sobre a base curricular
para o ensino fundamental ou médio, os mente, essa discussão de currículo nunca dos cursos de licenciatura no Brasil?
cursos de licenciatura não oferecem uma foi levada muito a sério. Queríamos saber quais currículos eram
formação sólida em educação. implementados pelas instituições de en-
É um problema só do Brasil? sino para formar professores. Com mi-
Por que a formação é deficitária? A formação dos professores está em cri- nha equipe na Fundação Carlos Chagas,
A formação pedagógica possibilita o se quase no mundo inteiro. Mas é pos- coloquei em prática um projeto de amos-
contato com aspectos da psicologia do sível identificar bons centros de forma- tragem ampla para analisar propostas
desenvolvimento, da sociologia e da his- ção em alguns países. Na França há uma pedagógicas de cursos de licenciatura
tória da educação, das metodologias de dedicação muito grande de instituições em universidades públicas e privadas
ensino. Isso fornece as bases para o pro- que montaram núcleos de investigação do Brasil. Solicitamos às instituições os
fessor lidar com os alunos em sala de au- da prática educativa, como na Universi- projetos político-pedagógicos, as emen-
la. Não é trivial ensinar matemática para dade de Nantes. Algo semelhante pode tas das disciplinas e as bibliografias dos
uma criança de 10 anos. As disciplinas de ser observado na Universidad Complu- cursos de pedagogia, matemática, letras
metodologia e práticas de ensino exigem tense de Madrid, na Espanha. Ensinar e biologia. Verificamos que não estavam
um nível de articulação entre conteúdos não é apenas transferir conhecimento, formando professores nas licenciaturas.
da pedagogia com o de outros campos. mas também valores, atitudes e proces- O predomínio era a formação teórica
Há metodologias de ensino que se apli- sos de comunicação. O Brasil precisa na área disciplinar do bacharelado. A
cam a disciplinas como biologia, para o caminhar nessa direção. legislação exigia que 10% do tempo na
trabalho de aprendizagem na educação licenciatura fosse dedicado a disciplinas
básica, que não se aplicam à matemática. O que caracteriza a crise na formação de educação, mas as instituições reser-
Não estou culpando os professores, mas de professores? vavam no máximo 7% da grade curri-
a formação que eles recebem no ensino É a ideia de que o conteúdo prevale- cular. A licenciatura de biologia estava
superior reflete no seu trabalho na edu- ce sobre as metodologias de ensino e formando biólogos e não professores do

26 | maio DE 2018
A baixa remuneração é outro fator que
prejudica a formação dos professores,
não?
Se a carreira do professor fosse mais bem
remunerada, mais jovens a escolheriam.
Quando se fala em salário de professor,
há desigualdades de acordo com o es-
tado ou o município. Existem áreas dis­
ciplinares em que os professores dão
muitas aulas e isso garante um salário
um pouco melhor. Outras disciplinas,
porém, são dadas uma ou duas vezes por
semana, como inglês, sociologia e filoso-
Sessão plenária fia. Nesses casos, o salário baseado em
comandada hora/aula é baixo. É preciso repensar
por Bernardete o aproveitamento dos professores nas
na sede
do Conselho
escolas. Em Cuba, há professores com
Estadual de formação interdisciplinar que podem
Educação dar aulas de história e de sociologia. Há
professores que dão aulas de matemáti-
ca e física. Em outras situações, os pro-
ensino médio. Não havia disciplinas de versidade. Em 2016, foi implementada fessores poderiam ser aproveitados em
psicologia nem de avaliação educacional. a Rede de Apoio à Docência no Ensino projetos temáticos. Isso implica mudar
Depois refiz o estudo em 2011 e 2012. Foi Superior, a Rades, fruto de uma parce- a forma de contratação e a própria es-
impactante, porque revelou que era pre- ria entre Unicamp, USP e Unesp [Uni- trutura curricular da escola.
ciso repensar a estrutura curricular que versidade Estadual Paulista]. A missão
forma professores em instituições públi- da rede é consolidar um espaço cole- Há escolas particulares que adotam
cas e privadas. Encontramos bibliogra- tivo de ações de formação pedagógica modelos de ensino capazes de integrar
fias absolutamente incompatíveis com a dos docentes dessas universidades. São conhecimentos. É possível adotar abor-
ementa do curso. Uma instituição tinha iniciativas muito bem-vindas. Mas vale dagens inovadoras na rede pública?
uma disciplina de avaliação educacional ressaltar que quase 90% dos professores Em tese, o Estado não impede a adoção
cuja bibliografia era repleta de obras de que atuam na rede de ensino são forma- de modelos mais alternativos. No muni-
Paulo Freire [1921-1997]. O problema dos em instituições particulares. cípio paulista de Americana, uma escola
é que Paulo Freire não escreveu sobre estadual funcionava com o conceito de
avaliação educacional propriamente. O Por que isso ocorre? blocos de ensino. Durante dois meses, es-
foco dele era outro. Porque universidades e faculdades par- tudava-se apenas matemática articulada
ticulares dispõem de mais vagas em cur- com outras disciplinas. Em outros dois
E como está a formação dos professores sos de licenciatura. No fundo, é um pro- meses, os alunos estudavam língua por-
dos cursos de licenciatura? blema de natureza política. Além disso, tuguesa. É uma proposta interessante,
Em geral, os professores de futuros pro- muitas pessoas resolvem fazer a licen- mas que não teve continuidade. Isso por-
fessores não tiveram formação peda- ciatura por não encontrarem emprego que há, de fato, um espírito burocrático
gógica ou, se tiveram, foi em condições na área que escolheram no bacharela- que impede a consolidação de modelos
genéricas. do – por falta de opção, acabam dando alternativos na rede pública. É preciso
aula. O problema é que a formação que dar um pouco mais de liberdade para
Como melhorar essa situação? o licenciado não teve na universidade que as escolas organizem projetos de
Discutindo essa questão no ambiente precisa, posteriormente, ser compensada trabalho mais interessantes. Há muitas
acadêmico. O tema se tornou tão impor- pela rede pública de ensino por meio da iniciativas que saem do papel, mas não
tante que alguns campos de formação, formação continuada. seguem adiante. No entanto encontra-
como medicina e engenharia, começa- mos professores que levam avante pro-
ram a se preocupar. Existem revistas Como assim? postas bem diferenciadas.
científicas especializadas em ensino de A concepção de formação continuada é
medicina e de engenharia. Na Unicamp um aperfeiçoamento profissional e cul- As escolas brasileiras vêm evoluindo
[Universidade Estadual de Campinas], tural que se tem ao longo da vida. É um em termos pedagógicos?
professores dessas áreas demonstraram aprofundamento da formação. Mas no A maioria das escolas de ensino infantil
interesse em aperfeiçoar a formação pe- Brasil significa dar a formação básica tem propostas interessantes. Entendem
dagógica. Em 2010, foi criado o Espaço em educação que não foi passada pelas que a criança está ali para se desenvolver,
eduardo cesar

de Apoio ao Ensino e Aprendizagem da licenciaturas. Isso é visível pela natureza ser educada e melhorar seu contato com o
Unicamp para aprimorar a qualidade dos programas de formação continuada mundo, adquirindo, ao mesmo tempo, al-
do ensino de graduação da própria uni- do MEC e das secretarias de Educação. gumas estruturas cognitivas importantes.

PESQUISA FAPESP 267 | 27


A coisa começa a mudar de tom a partir múltipla. Embora não tenha termina- tica na pedagogia e na psicologia da USP.
do primeiro ano do ensino fundamen- do o curso de matemática, fiz discipli- Cooperei, ainda estudante, em estudos
tal. Ocorre uma quebra com o estilo da nas suficientes para me desenvolver na do psicólogo Arrigo Leonardo Angelini,
educação infantil de aproximar a criança estatística aplicada. Na França, duran- que igualmente trabalhava com dados e
de brincadeiras, jogos e músicas. Com o te o doutorado em psicologia na Uni- estatística. Isso me estimulou a aprimo-
passar do tempo, a escola vai se tornando versidade de Paris VII – Denis Diderot, rar minha formação em matemática, que
triste. O aluno é cada vez mais exigido, in- aproveitei para frequentar disciplinas teve um peso enorme na minha carreira
clusive fisicamente, porque precisa ficar de estatística aplicada. Estudei modelos como pesquisadora. Eu poderia ter se-
sentado olhando para frente, como se isso descritivos inovadores em um laborató- guido uma carreira na estatística. Decidi
propiciasse realmente o desenvolvimen- rio e usei muita estatística na minha tese, ficar na área de educação porque enten-
to cognitivo. A criança passa a ser mais defendida em 1972. Fiz os créditos em der a atividade de educar colocou-se pa-
cerceada e dirigida para aprendizagens psicologia também. ra mim como questão importantíssima.
formais. Não que isso seja ruim, mas po-
deria ser feito sem dispensar o espírito De que maneira a estatística foi incorpo- A senhora chegou a dar aulas para
lúdico e de criatividade. rada em seus trabalhos sobre educação? crianças?
Tive dois professores que me influen- Fui professora primária e de matemática.
Até porque, na vida adulta, o mercado ciaram bastante nisso. Uma foi a psicó- Naquela época, final dos anos 1950, mi-
de trabalho cobra criatividade. loga Carolina Bori, de quem fui aluna nha preocupação já era pensar a forma-
Iniciativa e criatividade são conceitos no curso de pedagogia na USP. Partici- ção humana dos alunos e não apenas o
que ditam o mundo de hoje em muitos pei de projetos de pesquisa de Carolina, conteúdo técnico da disciplina. Fora isso,
setores da sociedade. Exigem-se essas que já à época utilizava metodologias de eu também fui alfabetizadora de crian-
habilidades o tempo todo. Mas o aluno estatística em estudos de psicologia ex- ças. Trabalhei no Leprosário de Barueri,
é colocado dentro de um quadradinho. perimental. O outro foi José Severo de na Região Metropolitana de São Paulo,
Há casos isolados em que as crianças são Camargo Pereira, que lecionava estatís- onde lecionei para os filhos de pacientes
estimuladas a pensar e a criar, mas em com hanseníase. Depois fui transferida
geral são escolas particulares. Na rede para a capital paulista e dei aulas para
pública, temos um caso interessante que crianças em uma escola próxima a um
é o das escolas de ensino integral, que lixão. Posso dizer que alfabetizar crian-
unem professores e alunos em torno de ças foi a atividade mais difícil da minha
projetos e ações coletivas. Já existem vida. Hoje as crianças são estimuladas a
aproximadamente 200 escolas paulistas pegar no lápis na pré-escola e mesmo em
que seguem esse modelo. casa, mas naquela época não era assim.
Ensinar uma criança a pegar no lápis e
Vamos falar um pouco sobre o início escrever é uma tarefa árdua. É preciso
da sua trajetória. A senhora concluiu o acompanhar muito de perto e, por isso,
bacharelado e a licenciatura em peda- Sempre tive o professor precisa ter uma boa forma-
gogia na USP em 1961 e depois se aven- ção. Não foi fácil enfrentar uma classe
turou pela matemática. Como foi esse
percurso?
em mente que com 40 alunos que ainda não sabiam ler
e escrever e fazer com que conseguis-
Ao terminar o ensino médio na Escola
Normal Estadual de Matão, no interior
a educação sem escrever um bilhete, uma cartinha.
Senti na pele a dificuldade de uma alfa-
de São Paulo, decidi cursar pedagogia. betizadora.   
Naquela época, a graduação em peda- e a atividade
gogia tinha disciplinas de matemática Não se sentiu desestimulada a pros-
e estatística. No quarto ano do curso, os docente estão seguir?
alunos tinham de escolher uma especia- Não. Eu já estava no curso de pedagogia e
lidade e eu optei por estatística. Sempre
gostei dessa área e cheguei até a cursar
a serviço da a vida me conduziu a seguir na área. Co-
mo eu estudava à tarde, além de dar aulas
matemática na USP, mas não concluí
porque preferi fazer o doutorado em construção de manhã, também trabalhava à noite.
Lecionei matemática para turmas de oita-
psicologia na França, entre 1967 e 1970. va série durante dois anos, em uma escola
Meu interesse por psicologia também da civilização no bairro da Aclimação. Fui alfabetizado-
sempre foi presente. Quando entrei na ra com 18 anos de idade e comecei a dar
pedagogia, ainda não existia a graduação aulas de matemática aos 20 anos. Mas
em psicologia. No Brasil, a formação dos encontrei meios para falar de assuntos
psicólogos era feita na pedagogia. abstratos com os adolescentes. Em vez
de partir para demonstrações teóricas, eu
Eram interesses bem diversos. baseava as aulas em problematizações do
Sim, minha formação acabou sendo ambiente. Aprendi isso com a pedagogia.

28 | maio DE 2018
Perguntava para os alunos: “Por que este mos um caso de um professor formado
prédio não cai?”. E mostrava a eles que em pedagogia que dá aulas de física no
havia matemática na construção de um ensino médio. E não dá para depreciar
edifício, associando um problema con- esse professor, afinal ele está fazendo um
creto a uma solução matemática. Acho Ensinar uma esforço enorme. Esse é apenas um dos
que essa abordagem funcionou, porque vários indicativos de que faltam profes-
nenhum aluno fugiu das minhas aulas.
Foi naquela época que comecei a refletir
criança a sores em algumas áreas do conhecimen-
to. Dados do Inep [Instituto Nacional de
sobre a formação de professores.
pegar no lápis Estudos e Pesquisas Educacionais] reve-
lam esse desencontro entre formação e
Qual era seu interesse no início da car- atividade profissional.
reira de pesquisadora? e escrever é
Verificar onde os professores estavam Como descobriram casos desse tipo?
sendo formados. Trabalhei com grandes uma tarefa Os casos aparecem ao analisarmos dados
bases de dados. Também havia outro fo- do Censo da Educação Superior produzi-
co em uma das primeiras pesquisas que
publiquei com minha equipe no perió-
árdua. Senti do pelo Inep. O censo informa o curso de
graduação do professor, as qualificações,
dico Cadernos de Pesquisa, da Funda-
ção Carlos Chagas. Foram trabalhos em na pele a onde ele está lecionando e o que está en-
sinando. É sabido que o pessoal que se
que procurávamos entender como era a forma em pedagogia acaba lecionando
aprendizagem dos professores na forma- dificuldade em disciplinas como sociologia e filo-
ção continuada. Trabalhei, ainda, em um sofia, porque não existem muitas licen-
projeto para o MEC e o Banco Mundial,
em parceria com a Universidade Federal
de ser uma ciaturas nessas duas áreas. Mas temos
encontrado casos de médicos ensinando
do Ceará, na década de 1980. Foi uma
avaliação do Programa de Expansão e alfabetizadora biologia e advogados ensinando língua
portuguesa para turmas de ensino médio.
Melhoria do Ensino Rural. Consistiu
em um estudo desenvolvido ao longo de Isso é permitido?
cinco anos, com coleta de dados em uma Um médico só pode ser aceito para en-
amostra de 603 escolas de Pernambuco, sinar biologia em uma escola se forem
Piauí e Ceará. Foram analisadas variáveis esgotadas todas as tentativas de contra-
como perfil dos professores, infraestru- tação de licenciados ou licenciandos em
tura escolar e condição socioeconômica A senhora deixou a fundação após 43 biologia. Se não houver opção, os alunos
dos alunos de segundo e quarto anos. A anos. Qual seu envolvimento com a pes- ficam sem aulas. O país precisa de uma
aprendizagem de conceitos básicos de quisa atualmente? política forte de formação de professo-
língua portuguesa e matemática estava Saí em maio de 2017, mas ainda atuo co- res, o que depende de uma mudança na
visivelmente prejudicada nessas turmas. mo pesquisadora consultora da institui- política nacional. A União precisa finan-
Não houve melhoria de desempenho, es- ção. Não abandonei a atividade. No mo- ciar mais a educação básica por meio do
tatisticamente identificável, no decorrer mento, coordeno um estudo que envolve Fundeb [Fundo de Manutenção e De-
dos cinco anos de investigação. pesquisadores da fundação e da PUC- senvolvimento da Educação Básica e de
-SP [Pontifícia Universidade Católica Valorização dos Profissionais da Educa-
Por que ingressou na Fundação Carlos de São Paulo]. Trata-se de um projeto ção]. Isso deveria ser acompanhado por
Chagas? em parceria com a Unesco. O objetivo é um investimento na ampliação de vagas
Entrei na fundação em 1971, após ser atualizar os dados do livro Professores do nas licenciaturas.
convidada para compor um núcleo de Brasil: Impasses e desafios, publicado em
pesquisa em educação. O que era ofe- 2009. Além dos dados, atualizaremos a Como resumiria sua contribuição para
recido de infraestrutura e apoio à pes- parte dedicada a avaliar as políticas de a pesquisa em educação?
quisa não era disponibilizado pela USP educação implementadas nos últimos Ao longo da minha carreira, defendi a
à época. Na Carlos Chagas havia recur- 10 anos. Fora isso, levantaremos novas necessidade de uma melhor qualificação
sos para apoiar projetos de fôlego nas iniciativas de formação de professores da formação dos professores. Sempre
humanidades. Optei, então, por ficar em colocadas em prática no país. Estamos tive em mente que a educação e a ati-
tempo parcial na USP, onde comecei a atrás de ações inovadoras. vidade docente estão a serviço da cons-
lecionar em 1964 como professora de trução da civilização. Muitos desacertos
estatística no Instituto de Matemática Alguma informação preliminar chamou da sociedade contemporânea, como a
e Estatística. O bom era que eu aprovei- a sua atenção? escalada da violência, são fruto da falta
tava o conhecimento adquirido em esta- Ainda é cedo para avaliar. Mas um dado de cuidado com a educação básica e a
tística em minha pesquisa em educação, chocante é que muitos professores estão formação humana. Também trabalhei
uma área marcada por muita teorização atuando em áreas para as quais não fo- muito com questões de metodologia de
e poucos dados. ram preparados. Por exemplo, encontra- pesquisa em educação. n

PESQUISA FAPESP 267 | 29


política c&T  Inovação y

Empresas e universidades discutem


estratégias para aperfeiçoar a formação
dos engenheiros

Fabrício Marques

O
debate sobre o papel dos engenheiros no de-
senvolvimento do país e na competitividade do
setor produtivo chegou a um novo patamar. De
um lado, perdeu fôlego o argumento de que é
preciso aumentar o número de profissionais for-
mados para dar lastro aos desafios de inovação das empresas.
Acontece que se investiu no país na expansão de vagas nas
universidades e em 15 anos o contingente de graduados de en-
genharia quadruplicou – de 25 mil em 2001 para mais de 100
mil em 2016 –, sem alcançar um impacto correspondente na
capacidade inovadora do setor produtivo. A percepção sobre
uma alegada escassez desses profissionais também foi anes-
tesiada nos últimos três anos por força da retração na econo-
mia e do consequente encolhimento do mercado de trabalho.
Em paralelo, outro tipo de preocupação ganhou espaço, re-
lacionada à formação deficiente de parte dos graduados e da
escassez entre eles de certas competências, como a capacidade
de gerenciar projetos, de trabalhar em equipe e de aprender ra-
ilustraçãO bruno algarve

pidamente novos conhecimentos, apontadas como importantes


para que as corporações enfrentem transformações tecnológicas
e organizacionais que se avizinham. Com isso, o debate enve-
redou para a promoção da qualidade dos cursos. Em março, o
Conselho Nacional de Educação (CNE) recebeu uma proposta
de atualização das diretrizes curriculares para o
curso de engenharia que é reveladora dessa mu-
dança. Formulado pela Mobilização Empresarial
pela Inovação (MEI), fórum vinculado à Confe-
deração Nacional da Indústria (CNI), e pela As-
sociação Brasileira de Educação em Engenharia
(Abenge), o documento propõe que a formação
passe a se basear no desenvolvimento de compe-
tências e não apenas no domínio de conteúdos; Da universidade
sugere que o empreendedorismo se torne campo
de atuação dos engenheiros; e aconselha mudanças ao mercado de trabalho
na avaliação dos cursos, com adoção de parâmetros
que mensurem o quanto os alunos aprenderam e Evolução dos estudantes matriculados e dos
o impacto dos egressos no mercado de trabalho. que concluem cursos de engenharia, e do número
“Além de aprimorar o modelo de avaliação atual, de empregos para engenheiros
defendemos a criação de um sistema de acredita-
ção, capaz de avaliar os pontos fortes e fracos de
Matrículas em cursos das áreas de engenharia, produção e construção
cada curso e sugerir medidas para melhorá-los”,
diz a socióloga Zil Miranda, assessora da CNI que 1.300.000

coordenou o grupo de trabalho da MEI respon- 1.100.000

sável pela proposta. “Esperamos que o CNE, que 900.000


Privado
nos incentivou a preparar a proposta, agora a le- 700.000
Público
ve para consulta pública e em seguida tenhamos 500.000

a sua homologação pelo MEC”, afirma Vanderli 300.000

Fava de Oliveira, professor da Universidade Fede- 100.000


0
ral de Juiz de Fora e presidente da Abenge. Para 2010 2011 2012 2013 2014 2015

ele, um dos principais desafios é fazer com que


os cursos privados, que foram o principal alvo da Fonte  Sinopses Estatísticas do Inep

expansão recente, ofereçam formação com qua-


lidade equivalente à das universidades públicas.
“Muitos foram criados oferecendo o mínimo ne-
cessário. É preciso criar incentivos para melhorar
a qualidade dos cursos privados e uma política de Concluintes em cursos das áreas de engenharia, produção e construção
financiamento estudantil que ajude os alunos a 130.000
pagar por uma formação que é cara”, diz Vanderli. 120.000
Seis em cada 10 matrículas na graduação em 100.000
engenharia vinculam-se a cursos noturnos e 90% 80.000
destas estão em instituições privadas. “A maio- 60.000 Privado
ria dos engenheiros formados em cursos notur- 40.000 Público
nos em instituições particulares não tem o perfil 20.000
do engenheiro capaz de fazer inovação de base 0
tecnológica nas empresas. Uma formação sólida 2010 2011 2012 2013 2014 2015

exigiria que pelo menos parte da formação seja


feita em período integral”, diz José Roberto de Fonte Sinopses Estatísticas do Inep

França Arruda, professor da Faculdade de En-


genharia Mecânica da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp).  Já 85% das matrículas em
cursos integrais estão em universidades públicas.
Um objetivo comum nas propostas para forta- Evolução dos empregos formais na categoria ocupacional de engenheiro
lecer os cursos é a ideia de que as instituições de
ensino precisam estreitar laços com as empresas, 90.000
de forma a tornar a formação dos alunos mais pró-
xima da realidade. Esse expediente pode ajudar 60.000

a conter a evasão na engenharia: apenas 75% dos 30.000


alunos de graduação matriculados em um ano per-
manecem no ano seguinte. “Nossa capacidade de 0
2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015
formar engenheiros é muito maior do que a que se
materializa. Se o problema da evasão for enfrenta- Fonte  MTE – RAIS

pESQUISA FAPESP 267  z  31


do, será possível duplicar o número de formados
sem aumentar a infraestrutura”, afirma Humber- Mais engenheiros são formados...
to Pereira, presidente da Associação Nacional de Evolução do perfil dos egressos na educação
Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Ino- superior presencial no Brasil por área – em %
vadoras (Anpei) e vice-presidente de programas
e suprimentos da Embraer Defesa & Segurança.
n 2001  n 2008  n 2015

O
dirigente da Anpei avalia que uma simplifi-
cação da formação é necessária. “Na tenta- 26,6
Ciências sociais e Direito 22,7
tiva de abarcar uma grande quantidade de 23,5

tecnologias, criaram-se inúmeras especializações. 25,9


Uma engenharia menos especializada com currícu- Educação
16,7
21,1 29,1

lo mais uniforme criaria um horizonte mais aberto 23,8


13,2
para a vida profissional”, diz. “A formação básica Economia e Administração 18,3
20,2
19,1
mais forte associada à interação com modelos ex-
13 17,1
perimentais da indústria ajudaria a combater a Saúde e bem-estar social 16
evasão e a fornecer a mão de obra para os desafios 15,2
16,1

de inovação.” Para Arruda, da Unicamp, as especia- 4,6 15,8


Ciência da computação 4,2
lidades da engenharia estão ficando anacrônicas. 3,6 13,1
“O engenheiro capaz de inovar deve ter formação
4
aprofundada de ciências básicas, matemática, esta- Engenharias (menos civil) 4,3 12,8 Total absoluto
7 de concluintes
tística e computação. A engenharia do século XXI 10,8
necessita dos avanços das ciências básicas. Assim Ciências e Matemática
3,6
3,5 10,7
2001: 352.305
como aconteceu com a engenharia eletrônica, ho- 2,5
2008: 800.318
10,6
je todas as engenharias precisam da ciência básica 3,2
Humanidades e Artes 2015: 916.363
mais avançada disponível ou ao menos uma forma- 3,6
7,8
3,1
ção que permita ao engenheiro compreender as 6,7
2,1
ciências básicas. O profissional do futuro precisa Agricultura e Veterinária 2,0
4,8
conseguir ler revistas como Science e Nature com 2,4

um mínimo de capacidade de compreensão.” Engenharia civil


3,2 1,6
0,8
Dados compilados por Renato Pedrosa, profes- 2,9

sor do Instituto de Geociências da Unicamp (ver 1,2


Arquitetura e urbanismo 0,8
página 11), mostram que em 2015 o Brasil foi o 1,4
quarto país com o maior número de diplomas de
1
graduação nos campos de engenharia, manufatu- Serviços 2,6
2,6
ra e construção (105.931), atrás de Índia (817 mil),
Estados Unidos (123 mil) e México (111 mil). Em Fontes  Inep, Sinopses estatísticas
da educação superior – MEI
muitas fontes, a China é mencionada por graduar
mais de 1 milhão de engenheiros por ano, embo- 82,8

ra essas informações não constem das principais 76,4

estatísticas nacionais. Em termos relativos, a si- ... mas a proporção de doutores65 caiu
tuação do Brasil é menos favorável: diplomou 51 % de doutores formados no país por área54,5

engenheiros por grupo de 100 mil habitantes em médias de cada período
2015, sendo superado por países como Coreia do 39,5

Sul (157/100 mil), Chile (108) ou Alemanha (101). 38,6


A expansão das vagas dos cursos de engenharia n 1996-1998  n 2004-2006  n 2012-2014
37,8
atingiu um teto em 2015 e começou a refluir no ano
seguinte, em decorrência da recessão econômica. 32,5

De acordo com dados do Instituto Nacional de Es- 20 28,2


tudos e Pesquisas Educacionais (Inep) reunidos 27,8
15
por Pedrosa, o número de ingressantes em cursos
11,3
de engenharia em 2016 foi de 302 mil, ante o recor- 10
de de 352 mil em 2015. Em instituições públicas, 6,2

o contingente caiu de 76 mil ingressantes para 64 5 5,4


mil, enquanto nas particulares a queda foi de 276
3,6
0
mil para 237 mil. O número total de matriculados
Agrárias Biológicas Saúde Exatas Humanas Sociais Engenharias Letras Multidis-
foi reduzido de 1,042 milhão para 1,006 milhão. 1,8
ciplinar
A redução do interesse pela profissão de enge- Fontes  CAPES/MEC – Elaboração CGEE

nheiro recolocou uma antiga questão: o descom-

32  z  maio DE 2018


passo entre o número de formados e a real capa-
cidade do mercado de trabalho de absorvê-los.
Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea) mostrou que, entre os mais de 40
mil engenheiros graduados em 2011 no país, 29%
não estavam empregados. E, entre os 71% com
ocupações formais, só um terço estava em ativi-
dade de engenharia, enquanto mais da metade
trabalhava em funções técnicas ou de nível secun-
dário. “Ao final de 2012, que foi um ano de econo-
mia aquecida, apenas cerca de 13 mil engenheiros
graduados em 2011 haviam obtido empregos que
requeriam a formação superior, sendo 8,4 mil em
atividades relacionadas às engenharias”, observa
Pedrosa. Isso, ele observa, deixaria outros 16 mil
portadores de diplomas em engenharias stric-
to sensu em situação de subemprego. Segundo o
pesquisador, a premissa de que o país precisava de
mais engenheiros, utilizada para ampliar as vagas,
não tinha base em uma demanda concreta. “Não
há evidência de apagão de engenheiros. O que se
pode questionar é se há falta de engenheiros bem
formados. Com a retração da economia, esse pro- Boa parte das empresas contrata
blema se tornou ainda mais agudo, uma vez que
o país formou quase 100 mil engenheiros stricto engenheiros não para gerar inovações,
sensu, o que deve engrossar o contingente de de-
sempregados e subempregados”, diz.
mas para reproduzi-las em aplicações

V
anderli Fava de Morais, da Abenge, en- mas limita sua inserção profissional, inclusive em
xerga a situação de modo diverso. Segun- outras áreas que requerem formação superior”.
do ele, é habitual na engenharia formar Humberto Pereira, da Anpei, observa a exis-
profissionais que são atraídos por propostas de tência de uma debilidade no segmento industrial
emprego em outras áreas. “É comum em países brasileiro, que absorve menos engenheiros do que
desenvolvidos que um terço dos formados traba- poderia. “Boa parte das empresas inova pouco e
lhe com engenharia, outro terço atue em funções contrata engenheiros não para gerar inovações,
que têm interface com a área e o terço restante mas para reproduzi-las em aplicações. Ainda não
vá trabalhar em outros campos, como o mercado temos muitos ambientes e empresas que fomen-
financeiro”, afirma. Ele afirma que, em termos tem a inovação”, diz. Outro ponto preocupante
quantitativos, não houve falta de engenheiros no é o número relativamente baixo de engenheiros
país, mas sim escassez de engenheiros seniores, na pós-graduação, agravado pelo fato de a maio-
profissionais capazes de liderar projetos. “Os ria dos doutores formados no país não encon-
alunos que ingressam hoje nos cursos serão en- trar opção atraente, a não ser trabalhar no setor
genheiros juniores em cinco ou seis anos e senio- privado. Johannes Klingberg, diretor-executivo
res em 15 ou 20 anos. A quantidade formada hoje da Associação de Engenheiros Brasil-Alemanha
pode resultar em carência no futuro, caso o país se (VDI-Brasil), diz que na Alemanha o caminho
desenvolva tecnologicamente.” Na sua avaliação, entre a pós-graduação e o setor privado é mais
o parâmetro para definir a importância de for- aberto. “Oitenta por cento dos doutores em en-
mar mais profissionais não é a demanda imediata genharia na Alemanha voltam para a indústria.
das empresas. “Quem cria a necessidade para ter Já aqui no Brasil existe a visão de que doutorado
mais engenheiros são os próprios engenheiros, ao é teórico e não vai agregar experiência às empre-
solucionarem problemas que levam à expansão sas”, observa. Para Eduardo Zancul, professor da
da economia”, sustenta, ao lembrar que o Brasil Escola Politécnica da Universidade de São Paulo
forma proporcionalmente menos profissionais (Poli-USP), a dinâmica do mercado de trabalho
que países desenvolvidos. Os dados levantados alemão explica a absorção de doutores. “No dou-
por Renato Pedrosa sugerem que essa visão está torado em engenharia na Alemanha, é comum
superada. Segundo o pesquisador, o Brasil já está pós-graduandos participarem de projetos de pes-
entre os líderes nos números de graduados em quisa e desenvolvimento (P&D) em cooperação
engenharia no mundo, mas “a qualidade da for- com empresas. Com isso, a integração posterior
mação de boa parte desses detentores dos diplo- em corporações é facilitada”, afirma.

pESQUISA FAPESP 267  z  33


Na avaliação de Carlos Henrique de Brito Cruz,

eduardo cesar
diretor científico da FAPESP, a pequena ousadia
das atividades de P&D das empresas no Brasil,
documentada fartamente, por exemplo, pelo redu-
zido número de patentes, pouca competitividade
internacional e uma agenda de P&D meramente
adaptativa e não criadora, faz com que um profis-
sional com doutorado veja poucas oportunidades
intelectualmente desafiantes na empresa. “É claro
que há honrosas exceções, mas estamos aqui fa-
lando de buscar emprego para muitos engenheiros
inovadores de forma a se afetar a produtividade
da economia”, afirma.

N
a percepção das empresas, o aperfeiçoa-
mento da formação dos engenheiros de-
veria ser mais direcionado à solução de
problemas. Um estudo qualitativo realizado em é o de engenharia de inovação, para desenvolver
2015 pela VDI-Brasil entrevistou 25 presidentes competências no campo do empreendedorismo, e
de empresas sobre as competências necessárias o outro o de engenharia de sistemas e logística. “A
para auxiliar na implantação da manufatura avan- formação é transversal. Alunos dos seis cursos de
çada – um conjunto de tecnologias que sustentam engenharia do ITA podem escolher qualquer um
processos industriais inteligentes. dos minors. Esperamos que ao menos 40% deles
Uma das conclusões foi que, para obtenham essa formação”, diz o engenheiro civil
trabalhar com tecnologias de com- Anderson Ribeiro Correia, reitor do ITA. “Temos
plexidade crescente, os engenheiros Na percepção tradição em formar pesquisadores e profissionais
precisam ter um perfil mais flexível para a indústria de alta tecnologia. Mas nas em-
do que o atual, além de saber atuar das empresas, presas de hoje as equipes são multidisciplinares
em equipes multidisciplinares. “A e muitas vezes requerem profissionais com habi-
tendência é que engenheiros sejam
a formação dos lidades amplas além de uma boa formação”, ex-
contratados para atuar em projetos engenheiros plica. Os estudantes do ITA também podem optar
que demandam competência para por fazer mestrado acoplado à graduação. “Temos
trabalhar de forma colaborativa”, deve ser mais alunos que saíram da graduação com mestrado di-
diz o engenheiro eletrônico Mau- retamente para um doutorado no exterior.”
rício Muramoto, vice-presidente direcionada Outro exemplo inovador é o Insper, de São
da VDI Brasil. “O essencial para as Paulo, que em 2015 criou cursos de engenharia
empresas é que o engenheiro saiba
à solução de mecânica, mecatrônica e de computação com uma
aprender a aprender. A velocidade problemas proposta na qual os estudantes trabalham com a
do avanço tecnológico disparou e o resolução de problemas trazidos por empresas
ciclo de vida dos produtos cai ano e são estimulados a desenvolver competências
a ano”, afirma Muramoto. como a comunicação e o trabalho em equipe.
Diversas escolas de engenharia “Sempre que essas habilidades são trabalhadas,
do país estão empenhadas em de- informamos aos alunos qual era o desempenho
senvolver novas habilidades nos alu- que se esperava deles”, explica o engenheiro Fábio
nos. Um exemplo é o Instituto Tecnológico de Miranda, coordenador do curso de engenharia da
Aeronáutica (ITA), responsável pela formação de computação. “No caso do trabalho em equipe, não
gerações de profissionais que consolidaram a in- basta interagir com os colegas. O desempenho é
dústria aeronáutica, espacial e de defesa na região considerado satisfatório se o estudante, em uma
de São José dos Campos. A instituição criou um eventual ausência de um colega, por exemplo,
programa de formação complementar, conhecido conseguir compreender a natureza do seu traba-
como minor, oferecido aos alunos de graduação lho e levá-lo adiante.” Os alunos têm autonomia
de engenharia. Os estudantes poderão optar por na execução dos projetos e negociam diretamente
três eixos de disciplinas. Um deles, já implantado, com as empresas “clientes”. Os primeiros enge-
é o de engenharia física e busca ampliar, por meio nheiros do Insper formam-se no ano que vem.
de um conjunto de disciplinas, a formação cien- Alunos de engenharia O retorno que a instituição vem recebendo das
tífica dos alunos, preparando-os para a carreira e de outros cursos da empresas onde os alunos fazem estágio é positi-
USP se dedicam à
acadêmica e para trabalhar no desenvolvimento vo. “A atitude proativa deles tem sido elogiada.”
execução de projetos
de novas tecnologias na indústria. Os outros dois no Inovalab, da Escola Uma das mais tradicionais faculdades privadas
minors começarão a ser implantados em breve: um Politécnica de engenharia do país, o Centro Universitário

34  z  maio DE 2018


FEI, em São Bernardo do Campo, está mudando
sua forma de ensinar. Criada há 77 anos, a ins-
tituição deu início há três anos a uma mudança
organizacional. O corpo docente recebeu trei-
namento para incorporar dimensões da inova-
ção e criatividade na formação dos alunos sob
a mentoria de um grupo de empresários ligados
à instituição. Simultaneamente, foi criado um
evento anual, o Congresso de Inovação e Mega-
tendências, espaço de discussão das tendências
mundiais e de visões de futuro para a profissão
e o mercado de trabalho. Na esfera curricular,
surgiram disciplinas integradoras que permi-
tem a proposição de ideias novas e elaboração
de projetos multidisciplinares. “Queremos que
os alunos estejam preparados para lidar com
qualquer desafio tecnológico que as empresas
tenham de enfrentar”, afirma Fábio do Prado,
reitor do Centro Universitário FEI.

A
ideia de formar engenheiros com forma-
ção diversificada levou a Escola Politéc-
As áreas de especialização nica da USP a tornar seu currículo mais
Evolução do perfil dos engenheiros graduados flexível, permitindo, por exemplo, que os alunos
entre 2001
1999 ee 2015
2015 fizessem uma disciplina optativa a cada semes-
tre. Essa mudança inspirou a abertura do Inova-
100% lab@Poli, laboratório onde alunos de diferentes
cursos – de administração, design e arquitetura,
80%
além dos de engenharia – trabalham juntos na
100%
100% execução de projetos. Em uma das disciplinas
60%
oferecidas, o aluno pode se dedicar a um desafio
80%
80%
real de inovação apresentado por uma empresa
40%
– e no ano seguinte investir no mesmo desafio,
60%
60%
agora buscando refinar a solução. “A intenção é
levar os alunos a desenvolver competências pa-
20%
40%
40%
ra inovação”, diz Roseli de Deus Lopes, uma das
coordenadoras do Inovalab@Poli.
0
20% 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 O laboratório foi inspirado em projetos simila-
20%
res da Universidade Stanford, nos Estados Unidos,
0
n Eletricidade e energia n Química e processos
2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
n Eletrônica e automação
2011 2012 2013 2014 2015
e da Universidade de Aalto, na Finlândia. Desde
0
n Eng. mecânica e metalurgia
2001 2002 2003 2004 n Eng.
2005 civil2007
2006 e de2008
construção
2009 2010 2011 Engenharia
n (cursos
2012 2013 2014 2015gerais) 2014, a disciplina de formação para inovação já
n Outros cursos n Processamento de alimentos n Mineração e extração recebeu seis turmas e mais de 350 alunos. “A ên-
fase é vivenciar as etapas para a execução de um
projeto de inovação”, explica Eduardo Zancul,
pesquisador da Poli-USP que também coorde-
Permanência baixa na o Inovalab@Poli. “O aluno precisa pesquisar
Evolução da taxa de evasão no ensino presencial sobre as necessidades da empresa, aprofundar-
de
30%graduação em engenharia -se no entendimento do problema, encontrar os
25% métodos mais adequados e fazer um cronograma
20% de trabalho.” A estudante de engenharia mecatrô-
30%
15%
30% nica Clara Cappatto, hoje monitora do laborató-
25%
10%
25% rio, participou de um grupo que desenvolveu um
20%
5%
20% dispositivo móvel de eletrocardiografia. O desafio
15%
0%
15% havia sido apresentado pelo Hospital do Coração
10%
10%
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015
(HCor), de São Paulo, e gerou um protótipo. “Eu
5%
5% me ressentia do excesso de teoria no início do
0%
0% 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 curso e o projeto permitiu aplicar o que eu via
2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015
na sala de aula. Também me dei conta de que o
Fontes O Estado da Inovação no Brasil/MEI (2016-2017) – com base em sinopses estatísticas do Inep empreendedorismo é minha vocação”, conta. n

pESQUISA FAPESP 267  z  35


gestão y

Uma estratégia
para dados
G
erenciar e armazenar grandes vo-
lumes de dados gerados em pes-
quisas são desafios enfrentados por
cientistas em todos os campos do
conhecimento. Na última década, algumas
das principais agências de fomento, como a
Pesquisadores são estimulados a National Science Foundation (NSF) nos Esta-
dos Unidos e o Economic and Social Research
gerenciar e compartilhar Council do Reino Unido, passaram a exigir
que os pesquisadores submetam, junto com
as informações científicas as solicitações de financiamento, os chamados
que produzem planos de gestão de dados, que descrevem
como os dados produzidos serão gerenciados,
preservados e divulgados em repositórios pú-
blicos. O objetivo é promover o compartilha-
mento de informações de forma a permitir a
Bruno de Pierro reutilização ou reprodução de experimentos,
com isso acelerando novas descobertas cientí-
ficas e racionalizando a aplicação de recursos.
No Brasil, não existe a obrigatoriedade da
elaboração de planos de gestão. Em outubro
do ano passado, a FAPESP deu um primeiro
passo e anunciou que os pedidos de financiamento

36  z  maio
 nononononono
DE 2018 DE 2018
Organização de um plano em cinco etapas

1. Destaque os tipos de dados que 2. Comunique eventuais restrições


serão produzidos durante a execução éticas ou legais para o
do projeto. Por exemplo: registros compartilhamento de dados, além de
de coleta, resultados experimentais, medidas para garantir a privacidade,
gráficos, mapas, vídeos, planilhas, confidencialidade, segurança e
gravações de áudio ou imagens. propriedade intelectual.

3. Descreva a política de preservação


e compartilhamento. Por exemplo,
se os dados serão disponibilizados
imediatamente ou apenas
após a publicação de um artigo.
para projetos temáticos – aqueles com duração
de cinco anos que se destacam por seus obje-
tivos ousados – devem conter um documento
complementar explicitando o plano de gestão
de dados. A medida irá se estender gradativa-
mente para outras modalidades de apoio ainda 4. Apresente os métodos que serão
este ano. “Trata-se de uma iniciativa pioneira empregados para armazenar os
no país ao estabelecer políticas e diretrizes registros e torná-los acessíveis. Inclua
para o gerenciamento de dados científicos”, os metadados (dados que descrevem
afirma Claudia Bauzer Medeiros, professora conjuntos de dados) para que
ilustração Júlia cherem rodrigues com imagens da freepick

do Instituto de Computação da Universidade usuários possam reutilizar arquivos


Estadual de Campinas (Unicamp) e coorde- depositados em repositórios.
nadora do programa eScience da FAPESP.
O Código de Boas Práticas da Fundação, lan-
çado em 2011, já estabelecia que os pesquisa-
dores devem disponibilizar os registros resul-
tantes de suas pesquisas. “A partir de agora,
eles deverão detalhar como os dados serão 5. Atualize o plano sempre que
gerenciados desde a coleta até a preservação, necessário, incluindo
declarando de que forma e a partir de quan- correções de rumo e adoção
do serão disponibilizados”, diz. No Brasil, a de novas metodologias.
Unicamp foi pioneira em criar formulários
para planos de gestão e cadastrá-los no site
Fonte Claudia Bauzer Medeiros

pESQUISA FAPESP 2xx  z  37


É necessário detalhar como os
dados serão gerenciados desde
a coleta até a preservação

mundial DMPTool (dmptool.org). Essa ini-


ciativa, comandada por Benilton de Sá Carva-
lho, do Instituto de Matemática, Estatística e
Computação Científica (Imecc), permite que
pesquisadores daquela universidade possam ma reúne registros de 470 coleções do Brasil e
facilmente criar seus planos on-line e dispo- de outros países. Essas coleções compartilham
nibilizá-los para todo o mundo. O DMPTool cerca de 9 milhões de registros de 125 mil es-
reúne mais de 200 instituições de pesquisa de pécies, das quais 2.756 ameaçadas de extinção.
diferentes países que oficializaram a criação e Contudo, fazer um plano de gestão não se
a disponibilização de seus planos de gestão de restringe a depositar dados em uma base on-
dados. No momento, apenas três universidades -line. De acordo com o Data Curation Center,
brasileiras estão na plataforma: a Unicamp, a órgão do Reino Unido responsável pela pre-
Universidade de São Paulo (USP) e a Federal servação de dados de pesquisa, o plano deve
do ABC (UFABC). conter informações sobre como e por que os
dados foram produzidos e armazenados. Por

A
disponibilização de dados de experi- isso, é fundamental explicar como serão or-
mentos ou coletados em campo tem o ganizados os chamados metadados – dados
potencial de impulsionar parcerias e que descrevem outros dados. “Trata-se de
acelerar descobertas científicas ao ampliar a fornecer descrições sobre os conjuntos de da-
visibilidade da pesquisa. Em 2016, um con- dos, detalhando como eles foram produzidos,
sórcio internacional envolvendo mais de 30 quando, onde e como podem ser reutilizados
organizações, entre elas a Fundação Oswal- e também quem os gerou”, esclarece a cientis-
do Cruz, a Academia Chinesa de Ciências ta da informação Márcia Teixeira Cavalcanti,
e os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) professora da Universidade Santa Úrsula, no
dos Estados Unidos, estimulou pesquisa- Rio de Janeiro, e membro do grupo de pes-
dores a compartilhar dados coletados du- quisa Informação, Memória e Sociedade do
rante o surto do vírus zika. A medida sur- Instituto Brasileiro de Informação em Ciên-
tiu efeito e em poucos meses foram publica- cia e Tecnologia (Ibict). “Isso significa confe-
dos estudos evidenciando a relação entre o rir identidade e padronização para os dados
zika e a microcefalia. Na área de biodiversi- científicos, para que possam ser facilmente
dade, o armazenamento de dados científicos acessados nas buscas em repositórios e reu-

ilustração Júlia cherem rodrigues com imagens da freepick


em repositórios garante o acesso a milhões de tilizados em outras pesquisas”, diz.
registros sobre espécies de plantas e animais, Em 2016, Márcia Cavalcanti foi uma das
facilitando a produção de novos conheci- responsáveis pela curadoria de dados da pla-
mentos. A rede speciesLink, uma das bases taforma CarpeDIEN (carpedien.ien.gov.br) do
digitais de biodiversidade desenvolvidas Instituto de Energia Nuclear (IEN), que reali-
no país, permite a seleção de informa- za pesquisas em áreas como radiofármacos e
ções sobre a ocorrência e a distribuição inteligência artificial. “Levou um tempo para
de espécies de microrganismos, algas, conseguirmos adequar os modelos de meta-
fungos, plantas e animais. A platafor- dados mais apropriados para o tipo de infor-
mação com o qual estávamos lidando”, conta.
Segundo a pesquisadora, o processo de cura-
doria deve começar antes de os dados serem
produzidos. “No plano de gestão, é importante

38  z  nononononono DE 2018


ção do Programa FAPESP de Pesquisa sobre
Mudanças Climáticas Globais. Segundo ele,
muitos pesquisadores evitam depositar dados
que o pesquisador descreva até mesmo quais de experimentos antes de publicar o estudo
softwares ou equipamentos serão utilizados em um periódico científico, alegando que as
para gerar informações como imagens ou al- informações podem ser apropriadas por ou-
goritmos.” Para Claudia Medeiros, esse tipo tros e publicadas sem receber o devido cré-
de informação é fundamental. “Muitas vezes, dito. “Isso é conversa fiada”, critica Câmara.
ter acesso aos dados não é suficiente para re- Ele explica que o compartilhamento de dados
produzir um experimento. É preciso também independe da publicação do paper. Isso porque
ter os mesmos programas de computador ou as informações depositadas em repositórios
sistema operacional para repetir as mesmas recebem um código identificador conhecido
condições do estudo original”, destaca. como Digital Object Identifier (DOI), permi-
tindo a rastreabilidade do dado. “O fato é que,

D
urante o período no IEN, Márcia Caval- infelizmente, muito pesquisador não quer que
canti realizou um levantamento sobre alguém publique uma análise antes que ele,
os repositórios de dados na Europa. Pu- que coletou os dados, divulgue seu trabalho
blicado no ano passado na revista do Instituto primeiro”, diz Câmara.
de Ciências Humanas e da Informação da Uni- “Todos os dados relativos aos meus traba-
versidade Federal do Rio Grande (Furg), no lhos são depositados em bases abertas confor-
Rio Grande do Sul, o estudo analisou a situação me são coletados”, afirma o pesquisador, que
de 33 países, dos quais apenas nove declararam publica dados gerados por análises de imagens
ter repositórios de acesso aberto a dados de de satélite na Pangaea, plataforma que reúne
pesquisa em 2016. De acordo com o trabalho, dados georreferenciados. Recentemente, in-
isso revela que em muitos países europeus a formações guardadas por Câmara nessa base
implementação de políticas de compartilha- digital foram reutilizadas por pesquisadores
mento de dados de pesquisa se encontra em do Restore+, um consórcio internacional com
estágio inicial. O Horizonte 2020, o principal sede na Alemanha para promover estudos so-
programa de apoio à pesquisa e à inovação da bre o uso da terra. Câmara celebra a iniciativa
União Europeia, que entrou em vi- da FAPESP de exigir o plano de ges-
gor em 2007, lançou em 2016 um tão de dados dos pesquisadores. “Essa
documento descrevendo os passos ação pode ajudar a combater hábitos
para a preparação de um plano de perversos praticados no meio cientí-
gestão de dados, que passaram a Pesquisadores fico ao difundir boas práticas de ge-
ser obrigatórios em todos os pro- renciamento de dados”, aponta. “Há
jetos submetidos a partir de 2017. financiados pesquisadores que se sentem donos
Um dos pontos mais importantes dos dados e só os cedem a colegas se
do guia é chamar a atenção pa-
com dinheiro obtiverem algo em troca, como a coau-
ra situações em que a divulgação público não toria do artigo. Essa conduta, infeliz-
de dados brutos pode deflagrar mente, é bastante frequente”, diz. n
problemas éticos. Por exemplo, podem se furtar
ensaios clínicos que utilizam da-
dos pessoais e precisam garantir a a compartilhar
privacidade dos pacientes.
“Salvo exceções desse tipo, não
informações,
existe argumento para justificar o diz Câmara
não fornecimento de dados por
pesquisadores financiados com
dinheiro público”, afirma Gilberto
Câmara, pesquisador do Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais
(Inpe) e membro da coordena-

pESQUISA
pESQUISA FAPESP
FAPESP 2xx 
267  z  39
Entrevista Cristiana Simão Seixas y

Como medir
o valor
da natureza
Bióloga que coordenou diagnóstico sobre
a biodiversidade nas Américas expõe
estratégias para reduzir velocidade da perda

Fabrício Marques

N
o final de março, pesquisado- do Diagnóstico das Américas do IPBES,
res e autoridades de 129 países documento que mapeou a velocidade da
participaram em Medelín, Co- perda da biodiversidade no continente e
lômbia, da 6ª Plenária da Plata- seus impactos na qualidade de vida hu-
forma Intergovernamental de Biodiversi- mana e sugeriu estratégias para refrear Experiência em interações
dade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), o processo. Pesquisadora do Núcleo de entre conservação e
desenvolvimento qualificou a
painel ligado às Nações Unidas que busca Estudos e Pesquisas Ambientais (Ne-
bióloga a coordenar trabalho
organizar o conhecimento científico e pam) da Unicamp, ela se envolveu nos de especialistas
outras formas de conhecimento sobre últimos anos com um tema de pesquisa
a biodiversidade e os benefícios que ela que está no cerne das preocupações da
fornece para a vida humana no planeta. plataforma: as interações entre conser-
Relatórios sobre degradação e restaura- vação da biodiversidade e desenvolvi-
ção de áreas e a respeito da situação da mento econômico e social. Criada na
biodiversidade em quatro regiões foram zona rural do interior paulista, ela se in-
aprovados na plenária. A organização das teressa pelo assunto desde que escolheu O que foi avaliado no diagnóstico das
informações teve a colaboração direta a graduação em biologia e o mestrado Américas?
de 25 pesquisadores brasileiros, que até em ecologia, realizados na Unicamp, e O foco do diagnóstico não foi simples-
julho devem divulgar outro diagnóstico, passou a desenvolvê-lo em seu doutora- mente mostrar que estamos perdendo
esse específico sobre a situação do país, do em Gestão Ambiental e de Recursos biodiversidade. Isso todo mundo já sabe.
coordenado pelos biólogos Carlos Joly, Naturais na Universidade de Manitoba, O objetivo foi apontar a velocidade desse
da Universidade Estadual de Campinas no Canadá, concluído em 2002. Na en- processo e como a contribuição da biodi-
(Unicamp), e Fábio Scarano, da Universi- trevista a seguir, ela expõe as conclusões versidade e dos serviços ecossistêmicos
dade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). do diagnóstico, explica a importância dos para a qualidade de vida das pessoas vem
A bióloga Cristiana Simão Seixas, de conhecimentos tradicionais e mostra mudando. A partir disso, levantamos ce-
47 anos, teve um papel de destaque nes- por que é preciso contabilizar também nários e as opções de políticas para tentar
se grupo. Foi uma das coordenadoras os valores imateriais da biodiversidade. frear a perda.

40  z  maio DE 2018


funcionando. Há um crescimento econô-
mico desordenado, expansão da agrope-
cuária, da mineração e da poluição, além
das mudanças climáticas. Mas também
há iniciativas, ainda em pequena esca-
la, de agricultura sustentável, práticas
sustentáveis de manejo de água, de flo-
resta, de pesca, de caça etc. Nesse sen-
tido, temos muito o que aprender com
populações tradicionais e indígenas. O
diagnóstico aponta que as Américas são
uma região não só altamente biodiver-
sa mas também culturalmente diversa.

A que se deve a queda na pegada eco-


lógica da América do Norte?
Não dá para dizer exatamente, mas há
mudanças no comportamento humano
e no padrão de consumo. A agricultura
orgânica cresce, temos agroflorestas, me-
nor uso de inseticidas e legislações que
controlam resíduos industriais.

E na América do Sul? Qual o potencial


para reduzir?
O aumento da nossa pegada ecológica
tem a ver com muitas pessoas saindo
da linha de pobreza e consumindo mais.
Isso tem o lado bom, que é a questão so-
cioeconômica. Tem um dado importante
a analisar, o da reserva ecológica de cada
país, que é a biocapacidade menos a pe-
gada ecológica. Nos Estados Unidos, o
balanço é negativo. No Brasil é bastante
positivo e o potencial para promover um
desenvolvimento sustentável é grande.

Como a diversidade cultural e a bioló-


gica andam juntas?
Qual é a dimensão dela? produzir serviços para a humanidade. Ao A proposta do IPBES é fornecer o me-
Os dados mostram que 95% das prada- mesmo tempo, temos 22,8% da pegada lhor conhecimento disponível para a to-
rias na América do Norte já se transfor- ecológica do mundo, o que é evidente- mada de decisão. Isso depende da ciência
maram em áreas dominadas pela ação mente desproporcional. A pegada eco- e também de conhecimento das comu-
humana. O mesmo vale para 88% da Ma- lógica é o impacto que a produção eco- nidades indígenas ou tradicionais. As
ta Atlântica, 70% dos Campos do Rio de nômica e o desenvolvimento dos países populações que vivem em um ecossis-
la Plata, incluindo os Pampas, 50% do causa nos ecossistemas. Ela continua tema entendem como ele funciona. Há
Cerrado, 17% da floresta amazônica e por crescendo na América do Sul, no Cari- um sistema de valores e de conhecimen-
aí vai. Em algumas regiões, a biodiversi- be, na América Central. Mas nos Esta- to acoplado ao sistema biofísico. Essas
dade diminui muito rapidamente. Ain- dos Unidos e no Canadá, embora sejam populações podem ensinar a manejar
da assim, as Américas possuem 40% da responsáveis por dois terços da pega- ecossistemas de maneira sustentável,
chamada biocapacidade global, que é a da ecológica do continente, a tendência tirando o máximo proveito dele, sem
possibilidade de prover serviços e bene- é de diminuição. Esta é a boa notícia: é destruí-lo.
fícios para a humanidade. Isso é medido possível frear esse processo.
pelo potencial ecológico dos ecossiste- Como é possível incorporar esse tipo de
mas das Américas, pela contribuição de Como fazer isso? conhecimento ao diagnóstico?
tecnologias e pela capacidade de absor- O diagnóstico mostra aqui e acolá ini- Incorporamos esses exemplos na forma
eduardo cesar

ver os dejetos da produção econômica. ciativas que estão conseguindo dar uma de estudos de caso. Por definição, esse
O continente tem 13% da população do refreada em algumas áreas. É preciso conhecimento é local. Fizemos um es-
mundo e 40% da capacidade global de aprender com os exemplos que estão forço para coletar trabalhos etnográfi-

pESQUISA FAPESP 267  z  41


cos, antropológicos e etnobiológicos, Como conciliar a preservação da bio-
que mostram, por exemplo, como po- diversidade com o desenvolvimento?
pulações indígenas vêm manejando a O diagnóstico deixa claro que as áreas
caça de forma sustentável por séculos. Não há uma protegidas são muito importantes para
Também se mostrou que as populações a conservação, mas insuficientes. E que
indígenas no alto rio Negro criaram no- parte do mundo estratégias de restauração são igualmente
vas variedades de mandioca, por meio importantes para áreas degradadas, mas
de manejo e cruzamentos.
que seja não devem ser a política principal. Preci-
intocada pela samos pensar em como manejar de forma
Há outros destaques? mais sustentável as áreas que já estamos
Não tem um que seja mais representati- ação humana. explorando. É possível? Eu acredito que
vo. São casos únicos e cada um tem par- sim. Tem que ter força política e lidar
ticularidades. O manejo da mandioca no Isso não com inúmeros interesses, mas o diagnós-
rio Negro, na Amazônia brasileira, é um tico apresenta várias possibilidades. No
exemplo. Há relatos, agora comprovados
existe nem caso da agricultura, há conhecimento so-
com imagens de satélite, que muito do no polo Norte bre como aumentar a produtividade em
que achávamos que eram florestas intac- uma área sem ter muito impacto. Outro
tas na Amazônia são na verdade áreas ponto: é necessário gerar mais energia,
manejadas e desenhadas pelas popula- já que a população está crescendo. Quais
ções que viveram ali em outras épocas, seriam as opções? Talvez seja preciso
que exploraram, por exemplo, as casta- construir uma hidrelétrica, sim. Elas não
nheiras. O homem maneja esses ambien- ção final. Embora a proposta é que haja devem ser vistas sempre como vilãs. Mas
tes há milhares de anos (ver reportagem uma paridade entre pesquisadores de deve-se fazer hidrelétricas em áreas on-
à pág. 18). Não tem uma parte do mundo ciências humanas e ciências naturais, de haja uma caída de água grande e com
que seja intocada pela ação humana. Isso isso não foi possível. As indicações feitas pouco impacto. Sempre há opções e, en-
não existe nem no polo Norte. eram predominantemente da área bioló- tre elas, uma combinação que gere menos
gica. Assim, a grande maioria foi de bió- perdas. É necessário colocar as diferentes
Como foi reunir pesquisadores de áreas logos, ecólogos, agrônomos, cientistas opções e as perdas e ganhos no papel,
diferentes para produzir o diagnóstico? do clima e houve poucos economistas, mas não vale contabilizar só o valor eco-
É preciso compreender como funciona sociólogos e antropólogos. Também se nômico. Quando uma população indígena
o IPBES. Em cada diagnóstico, abre- buscou reunir pessoas representativas é deslocada da sua área, não perde só o
-se uma chamada para pesquisadores e dos diversos biomas e sub-regiões das ganha-pão. Vai perder cultura e conheci-
pessoas interessadas. Oitenta por cento Américas. Entretanto, não havia especia- mento desenvolvidos localmente. Muitas
dos participantes devem ser indicados listas no Ártico. A solução foi convidar populações deslocadas acabam desapa-
por governos – no caso do Brasil, pelo 50 autores contribuintes, especialistas recendo. As Américas concentram 15%
Itamaraty – e 20% pela sociedade civil que ajudam a escrever alguns parágrafos das línguas do mundo e quase dois terços
e setor privado. Aí, o IPBES faz a sele- sobre um dado tema. delas estão sendo ameaçadas ou em risco
de extinção. Há muita cultura deslocada
por construção de barragens, exploração
da minérios e conflitos de terras.
Pegada ecológica nas Américas
Como mudar comportamentos?
Evolução da área que cada sub-região do continente requer para Não se vai longe sem promover uma
produzir todos os recursos que sua população consome e absorver conscientização maior. Se perguntar a
os rejeitos gerados por ela (1992 a 2012) uma pessoa quanto do bem-estar dela
vem da natureza, ela provavelmente vai
mencionar a alimentação. Na verdade, é
Hectares globais Pegada ecológica total a comida, a água, a roupa que veste, o ar
que respira. O bem-estar de caminhar
3 bilhões
numa praça, num parque, numa mata,
n Caribe
n Mesoamérica
tudo vem da natureza. Com a vida nas
n América do Norte cidades, as pessoas perderam essa per-
2 bilhões n América do Sul cepção. Além disso, suas opções de con-
sumo geram impactos na natureza sem
que elas se deem conta disso. A questão
1 bilhão
não é parar de consumir, mas de ter um
consumo consciente. Qual é o alimento
0 fontes  Global Footprint que eu vou comprar? Conheço o impacto
Network e World
1992 1996 2000 2004 2008 2012 Wildlife Fund (2016) que ele teve na natureza? Vou comprar

42  z  maio DE 2018


tantes onde esse produto vai ser levado.
O espectro da preservação É preciso levar tudo isso em conta. Na
questão da água é a mesma coisa. Gasta-
Porcentagem de áreas protegidas pela legislação nas -se muita água para produzir alimento.
Américas e em suas sub-regiões A tensão é entre a segurança hídrica e
a segurança alimentar. A água não teve
% valor econômico nas tomadas de deci-
são durante séculos. Só há pouco tem-
25 n Terrestre po, numa situação de escassez, é que se
20
n Marinha começou a valorar a água.
n Total

15 Que lacunas ficaram no diagnóstico?


Tem muito ainda a ser descoberto em
10
termos de biodiversidade e de funciona-
5 mento dos ecossistemas. Os bancos de
dados disponíveis sobre dados socioeco-
0 nômicos baseiam-se em países, em divi-
Américas Caribe Mesoamérica América América
Total do Norte do Sul
sões geopolíticas, enquanto as informa-
ções sobre biodiversidade se relacionam,
fontes  World Conservation Monitoring Centre (Unep) e International Union for Conservation of Nature geralmente, a bioma. Outra questão é que
muitos estudos são feitos localmente, e
sabemos muito pouco sobre o quanto
qualquer madeira para construir a minha mineradoras? Um tomador de decisão as suas conclusões podem ser genera-
casa ou apenas madeira certificada? Es- muitas vezes não se dá conta de que o lizadas. Temos também dificuldade em
sas escolhas podem ajudar a minimizar bem-estar dele e de seus eleitores está correlacionar os benefícios da natureza
o impacto. Outro foco é criar políticas ligado à natureza. com qualidade de vida, incluindo seus
que organizem melhor a paisagem. As valores econômicos e imateriais.
plantas se dispersam, por exemplo, pelo Por que a restauração de áreas degrada-
vento ou com a ajuda dos pássaros. Pre- das não é considerada uma prioridade? É trabalho para que ramo de pesquisa?
cisamos pensar em corredores ecológi- Se a restauração fosse a solução, podería- É um desafio para economistas, antropó-
cos para fauna e flora, em incentivar a mos desmatar tudo para restaurar mais logos, sociólogos. Pense nas áreas verdes
ter mais polinizadores para aumentar a tarde. O prejuízo disso seria enorme. A urbanas, no quanto ter contato com a
produção de culturas agrícolas. Um dos restauração é necessária para áreas já natureza aproxima as pessoas e faz com
diagnósticos aprovados anteriormente degradadas. Mas, quando restauramos, que se socializem. Isso traz bem-estar.
pelo IPBES tratou da polinização. Ba- não é possível recuperar 100% dos servi- Mas como se mede isso? Outra questão
seado nele, a França criou uma política ços e dos benefícios que a natureza provê é compreender melhor a relação entre
para colocar plantas silvestres à beira nem a biodiversidade que existia antes. vetores indiretos da mudança da biodi-
das estradas, porque elas atraem insetos É possível restaurar a parte arbórea de versidade, como o crescimento popula-
polinizadores e isso ajuda a aumentar a uma mata degradada. Em relação à fauna, cional, o desenvolvimento insustentável,
produtividade da agricultura. tanto a dos microrganismos do solo como a falta de governança efetiva, a desigual-
dos pássaros e mamíferos, é outra conver- dade, com os vetores diretos, como o
O peso do agronegócio na economia sa. Também não se consegue restaurar desmatamento, a mudança climática, a
brasileira atrapalha essas estratégias? uma parte imaterial da degradação. Eu e fragmentação de hábitat, a sobre-explo-
Sou filha de produtor rural e não vejo as minha família podemos ter uma relação ração dos recursos. Podemos fazer po-
divergências entre o agronegócio e os com uma árvore porque ela foi plantada líticas para frear o desmatamento, mas
ambientalistas como inconciliáveis. No por meu bisavô. Se alguém tirar a árvore, primeiro precisamos entender as causas.
diagnóstico brasileiro, fomos conversar pode-se até plantar outra no lugar, mas o No fundo, esse processo se acelera por-
com o setor produtivo, com indígenas, valor relacional nunca vai ser o mesmo. que há cada vez mais gente no mundo.
com organizações não governamentais. As Américas têm 1 bilhão de habitantes
Tem muita gente no agronegócio que O que o diagnóstico diz sobre a compe- e é esperado que chegue a 1,2 bilhão em
tem consciência ambiental e está pro- tição entre bioenergia e alimentos pelo 2050 e que o PIB do continente dobre
duzindo de modo mais sustentável. Tem uso da terra? no mesmo período. Qual será o impacto
muito vilão também. O país precisa in- Foi um tema inconclusivo. Tanto a ex- ambiental disso se não optarmos por um
vestir em mobilização de conhecimen- pansão da cana-de-açúcar quanto a da padrão de vida mais sustentável em ter-
to. Já geramos muito conhecimento e produção de alimentos podem gerar pre- mos de produção e consumo? Tal opção
agora temos de levá-lo aos tomadores juízo se não forem feitas de forma sus- exige uma mudança comportamental em
de decisão e fóruns de debate. Como tentável. O ponto é que sempre há ga- todos os níveis: do indivíduo às grandes
se leva isso ao agricultor familiar e às nhos e perdas – e não só para uma dada corporações, passando, é claro, pelas ins-
grandes empresas agropecuárias ou às região, como também para lugares dis- tituições governamentais. n

pESQUISA FAPESP 267  z  43


As metamorfoses
da Mata
Atlântica
Levantamento sobre 2 mil espécies registra
predomínio de animais de pequeno
porte e resistência à fragmentação florestal
Harpia, com
12 registros
na região
Carlos Fioravanti estudada

44  z  maio DE 2018


ciência  ECOLOGIA y

O
s animais de grande porte
escassearam e os peque-
nos se tornaram dominan-
tes, mas praticamente não
houve extinções globais na
Mata Atlântica, de acordo com estudos
realizados a partir da base de dados Atlan-
tic Series, cuja elaboração reuniu cerca
de 400 biólogos, ecólogos e engenheiros
florestais do Brasil e de outros países. Ao
juntar informações de coleções biológi-
cas de museus, artigos científicos, coletas
de campo, bases on-line, dissertações de
mestrado, teses de doutorado, relatórios
técnicos e inventários de campo que ha-
viam sido publicados ou não, os pesqui-
sadores observaram também a resiliência
– capacidade de adaptação – das espécies
de mamíferos de grande e pequeno porte
e de aves à extrema fragmentação da Mata
Atlântica. A floresta que acompanha o li-
toral, entrando no interior de São Paulo e
Minas Gerais, ocupa cerca de 15% da área
estimada há cinco séculos, quando come-
çou a colonização europeia, e se encontra
dividida em centenas de pedaços, a maio-
ria com menos de 1 quilômetro quadrado.
“Mesmo com uma redução de 85% da
área da Mata Atlântica, não houve uma ex-
tinção em massa, pelo menos não ainda”,
diz o biólogo Mauro Galetti, professor da
Universidade Estadual Paulista (Unesp),
campus de Rio Claro, e um dos coorde-
nadores do trabalho. “Houve extinções
locais, como a do macaco monocarvoeiro
(Brachyteles arachnoides), que ocorria em
boa parte da Mata Atlântica e hoje é rarís-
simo, mas encontramos poucas extinções
fotos 1 Ricardo Kuehn / Folhapress 2 eduardo cesar

globais entre as 2 mil espécies já exami-


nadas.” Três espécies de aves – a coruja-
-marrom, a caburé-de-pernambuco (Glau-
cidium moorerorum), o pararu (Claravis
geoffroyi) e o tietê-de-coroa (Calyptura
cristata) – não são avistadas há mais de 20
anos e provavelmente já desapareceram.
Entre os anfíbios, a única espécie consi-
Onça-parda,
derada extinta é a perereca Phrynomedusa adaptada a grandes
fimbriata, vista apenas no alto da serra de e pequenas
Paranapiacaba em 1896 e descrita em 1923. áreas de floresta

pESQUISA FAPESP 267  z  45


Bichos grandes mais raros A Atlantic Series reúne informações sobre as
Os estudos da Atlantic Series registraram uma áreas de ocorrência e a abundância de – até ago-
redução das populações de mamíferos e aves ra – 296 espécies de mamíferos (de grande e pe-
de grande porte. A onça-pintada, a queixada ou queno porte, morcegos e primatas), 832 de aves,
porco-do-mato (Tayassu pecari), o cachorro- 528 de anfíbios e 279 de borboletas, com dezenas
-do-mato-vinagre (Speothos venaticus), a harpia de milhares de registros geográficos para cada
(Harpia harpyja), os tucanos e os gaviões flores- grupo. Os trabalhos científicos resultantes dessa
tais tornaram-se raros na Mata Atlântica, à me- base de dados estão sendo publicados na revista
dida que perderam território ou foram caçados. científica Ecology; as listas de espécies com suas
Em consequência, ressalta o ecólogo Milton Ri- áreas de ocorrência e abundância integram os
beiro, professor da Unesp em Rio Claro, espécies anexos de cada trabalho e um site criado pelo
de árvores de grande porte tendem a escassear, grupo da Unesp (bit.ly/MataAtlanticA).
porque dependem de animais avantajados para Os estudos evidenciam as espécies mais abun-
levar suas sementes também grandes para áreas dantes e as mais raras. No primeiro caso, entre os
em que possam germinar com baixa competição mamíferos de grande porte registrados por ar-
com outras árvores da mesma espécie. madilhas fotográficas, o mais comum nas matas
O biólogo Fernando Lima, pesquisador da é o cachorro doméstico (Canis familiaris). No se-
Unesp e do Instituto de Pesquisas Ecológicas gundo caso estão, entre os macacos,
(Ipê), com colegas de outras instituições do Bra- o mico-leão-de-cara-preta (Leonto-
sil e da Argentina, encontrou grupos de pelo me- pithecus caissara), com 34 registros,
nos 50 onças-pintadas apenas em matas da serra A capororoca e o macaco-prego-dourado (Sapajus
do Mar, do alto Paraná e Paranapanema (oeste flavius), com 44 registros em toda a
de São Paulo) e de Missiones, na Argentina. “As é a árvore Mata Atlântica.
populações de onças não chegam a 300 indiví- Dos trabalhos, emergem tam-
duos, são poucas e estão muito isoladas, o que
campeã bém as relações entre os animais e
prejudica a continuidade da espécie”, diz. Por de dispersores: as plantas. Em junho de 2017, o pri-
serem escassas, as onças deixaram de exercer o meiro dos seis artigos já publicados
papel de predador de topo da cadeia ecológica. seus frutos apresentou 8.320 interações, em ge-
Em consequência, os competidores de porte mé- ral ligadas à alimentação, entre 331
dio como a onça-parda e a jaguatirica (Leopardus alimentam animais (aves, mamíferos, peixes,
pardalis) ganham espaço, com efeitos imprevi- anfíbios e répteis) e 788 espécies de
síveis sobre as populações das habituais presas,
38 espécies plantas. Um dos destaques foi um
como capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris) de aves e tipo de árvore encontrada em en-
e porcos selvagens como catetos (Pecari tajacu) e costas e margens de córregos, a ca-
queixadas (Tayassu pecari). mamíferos pororoca (Myrsine coriacea). Essa
espécie tinha o maior número de
dispersores: seus frutos atraem 83
espécies de animais, como gralhas,
jacus, bugios, sabiás e outras aves. O
macaco muriqui (Brachyteles arach-
noides) e o sabiá-laranjeira (Turdus
rufiventris) despontaram como os
frugívoros com as dietas mais di-
versificadas, por se alimentarem dos
frutos, respectivamente, de 137 e 121
espécies de plantas. “A elucidação
das relações entre fauna e flora, co-
mo frugivoria, herbivoria, dispersão
e polinização, é fundamental para
sustentar a definição de grupos fun-
cionais de espécies a serem usadas
na restauração florestal”, comen-
ta o biólogo Ricardo Rodrigues, da
Escola Superior de Agricultura Luiz
de Queiroz da Universidade de São
Paulo (Esalq-USP), que não partici-
pou desse trabalho.
1 O ecológo Jean Paul Metzger,
Capivaras, cuja quantidade pode aumentar à medida que grandes predadores escasseiam professor do Instituto de Biociên-

46  z  maio DE 2018


2 porque as espécies desse tipo se adaptam a áreas
pequenas, mas não sabemos até que ponto”, diz
Galetti. “A possibilidade de ser um padrão geral
de florestas tropicais abre um enorme campo
de pesquisas, para entender como uma espécie
se torna hiperdominante.” Um estudo da Scien-
ce de 2013 indicou que, entre as cerca de 16 mil
espécies de árvores da Amazônia, 227 (1,4% do
total) são hiperdominantes, enquanto outras 11
mil respondem por apenas 0,1% do total.

Dois séculos de registros de aves


Coordenado pela bióloga Erica Hasui, professora
da Universidade Federal de Alfenas, Minas Ge-
rais, o artigo sobre aves, publicado em fevereiro
deste ano, oferece uma visão retrospectiva mais
ampla que os outros trabalhos da Atlantic Series.
Ele reúne 183.814 registros de 832 espécies obti-
dos entre 1815 e 2017 em 4.122 localidades. Com
base nessas informações, Erica e o biólogo Luis
Fábio Silveira, curador das coleções ornitológi-
cas do Museu de Zoologia da USP, verificaram
Mico-leão-de- cias da USP e um dos coautores desse trabalho, que a jacutinga (Aburria jacutinga), que nos anos
-cara-preta, o ressalta que essa base é também uma matéria- 1800 se espalhava pelas matas de quase todo o
macaco mais raro
na Mata Atlântica,
-prima farta para estudos sobre variação das sudeste, hoje vive apenas nos maiores fragmentos
com 34 registros populações, áreas de ocorrência de espécies e de Mata Atlântica, localizados principalmente
interações entre comunidades de animais e plan- em São Paulo.
tas. “A partir da reunião desses dados, podemos Esse inventário contém apenas 12 registros
testar uma série de novas hipóteses, como a re- de harpia, em grandes áreas de Mata Atlântica:
lação entre as extinções da fauna e a das árvores o mais antigo foi em Cantagalo, no Rio de Ja-
de grande porte, levando à redução da biomassa neiro, em 1850, e o mais recente em Iporanga,
da floresta”, sugere. no interior de São Paulo, em 1992. Há também
“Com os dados da Atlantic Series”, acrescen- registros do final do século XIX de espécies ho-
ta Galetti, “tentaremos entender como as espé- je raras em áreas da cidade de São Paulo, como
cies sobrevivem mesmo diante de uma altíssima o não-pode-parar (Phylloscartes paulista), um
fragmentação”. Segundo ele, a capacidade de os pássaro de até 10 centímetros de comprimento,
animais se adaptarem a espaços menores, com acinzentado, com peito amarelado, que foi obser-
luminosidade e clima diferentes dos habituais, vado nos bairros de Santo Amaro e do Ipiranga,
a chamada plasticidade fenotípica e comporta- respectivamente, em 1897 e 1899.
mental, tem sido pouco estudada. A onça-parda Até o final do ano outros levantamentos dessa
(Puma concolor) consegue viver em florestas, série deverão ser publicados, tratando de anfí-
em plantações de eucalipto ou entre canaviais e bios, borboletas, primatas, formigas, polinizado-
alimentar-se de animais de todo tipo – de camun- res e árvores. Diante dessa produção científica,
fotos 1 eduardo cesar 2 Paulo Gil / ZooSP ilustração flora brasiliensis

dongos a bois. Em contrapartida, a onça-pintada o ecólogo finlandês Otso Ovaskainen, da Uni-


(Panthera onca), embora possa viver em matas versidade de Helsinque, na Finlândia, que em
fechadas ou abertas como o Cerrado e a Caatin- 2015 motivou os biólogos brasileiros a reunirem
ga, precisa de grandes espaços e de animais de seus dados, comentou: “É fantástico que todos
grande porte como anta e porcos-do-mato que esses dados estejam agora acessíveis para pes-
possa caçar. quisadores que trabalham com ecologia tropical.
Gradualmente, a Mata Atlântica se transforma Eles são especialmente relevantes para entender
em uma floresta de animais de pequeno porte, o impacto dos seres humanos sobre os ecossis-
que se tornam hiperdominantes. A hiperdomi- temas, por meio, por exemplo, da fragmentação
nância é uma situação em que poucas espécies florestal e da defaunação”, disse. “A possibilidade
respondem por pelo menos metade dos exem- de combinar essas informações de modos dife-
plares de determinado tipo de ser de uma área. rentes é animadora.” n
Entre as 124 espécies de pequenos mamíferos, as
predominantes são o gambá (Didelphis aurita) e
o ratinho-do-arroz (Oligoryzomys nigripes). “A Os artigos mencionados e os projetos de pequisa vinculados aos
hiperdominância é um reflexo da fragmentação, resultados apresentados encontram-se na versão on-line.

pESQUISA FAPESP 267  z  47


GEOLOGIA y

A chuva
que uniu
duas
florestas
Períodos de aumento de
pluviosidade entre 120 mil e
12 mil anos atrás teriam conectado
a Mata Atlântica à Amazônia

Ricardo Zorzetto

E
ntre 120 mil e 12 mil anos atrás, o clima foi bem mais
frio no planeta. Tanto no inverno como no verão, as
temperaturas médias eram cerca de 16 graus Celsius
(°C) mais baixas do que as medidas hoje próximo ao
polo no hemisfério Norte. Esses 108 mil anos, no entanto, não
foram de frio contínuo e uniforme. Houve 26 períodos em
que a temperatura caiu outros 10 °C e as geleiras cobriram
boa parte das terras que atualmente formam a América do
Norte e o norte da Europa e da Ásia. Seis desses períodos são
especiais. Recebem o nome de eventos Heinrich – homenagem
a Hartmut Heinrich, geólogo e climatologista alemão que os
descreveu em 1988 – e foram marcados por um resfriamento
ainda mais drástico e abrupto. Em questão de anos, as tem-
peraturas teriam baixado ainda mais e as geleiras avançado
em direção ao equador, com a zona de ocorrência de icebergs
chegando à península Ibérica e ao norte da África.
Nos eventos Heinrich, que duraram de centenas a pou-
cos milhares de anos, a precipitação mais intensa de neve
teria feito os glaciares continentais e as plataformas de ge-
Ataliba Coelho

lo que avançavam sobre o mar se partirem e lançarem uma


verdadeira armada de icebergs nas regiões subtropicais do
Atlântico Norte. O frio e a alteração da salinidade do oceano

48  z  maio DE 2018


Uma das galerias
da Toca da Boa
Vista, na Bahia,
onde espeleotemas
se formam a partir
da água rica em
calcário que goteja
do teto da caverna

Espeleotema

pESQUISA FAPESP 267  z  49


teriam modificado o transporte de calor ao norte A última glaciação  (entre 120 mil e 12 mil anos atrás)
do equador e alterado a circulação de ventos que
carregam umidade, afetando o clima na América
do Sul. Aqui, as transformações foram menos ra-
dicais. As temperaturas ficaram 5 °C mais baixas
e não surgiram geleiras, mas choveu muito mais.
Em certas ocasiões, a área que hoje correspon- A temperatura
de ao centro-leste do Brasil teria ficado úmida diminuiu na Terra
por tanto tempo que setores da Mata Atlântica e parte dos
continentes ficou
no Nordeste teriam se expandido a ponto de se
sob gelo no Nos períodos mais frios, as geleiras
juntar à floresta amazônica. hemisfério Norte chegaram ao norte da África
“Os eventos Heinrich certamente intensifi- Choveu mais na América do Sul
caram a pluviosidade na região centro-leste do
Brasil”, afirma o geólogo Nicolás Stríkis, da Uni-
versidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Fonte  Ehlers, J. et al. Quaternary Glaciations – Extend and Chronology volume 15: A closer look

Janeiro. Stríkis e colaboradores do Brasil e do


exterior apresentaram essa conclusão no início
de abril em um artigo publicado na revista cien- “Na América do Sul, os eventos Heinrich pro-
tífica PNAS. Eles constataram que os eventos duziram mudanças de grande magnitude no cli-
Heinrich fizeram chover mais no centro-leste ma, que, em poucas décadas, pode ter passado de
brasileiro depois de analisar rochas formadas seco a úmido”, explica Cruz. Os espeleotemas de
nos últimos 100 mil anos em cavernas de Minas Minas e da Bahia indicam que choveu muito nessa
Gerais e da Bahia. A água dos rios e das chuvas região do Brasil em cinco dos seis eventos Hein-
que se infiltra pelo teto das cavernas calcárias rich, que ocorreram, em média, em intervalos de
dissolve a rocha e, ao gotejar no chão, volta a 10 mil anos. Choveu mais e por mais tempo por
se solidificar, formando os espeleotemas. Essas volta de 48 mil anos atrás, no evento Heinrich
rochas crescem acompanhando o volume das número 5 (HS-5), e há 39 mil anos, no HS-4 –
chuvas e armazenam informações químicas da cada um deles durou de 1,5 mil a 3 mil anos. O
água e do calcário do período em que se forma- aumento das chuvas observado agora por Stríkis
ram, permitindo reconstituir o clima do passado. e Cruz no Cerrado já tinha sido identificado pelo
geólogo Augusto Auler em uma área de Caatinga.

D
urante o doutorado, concluído em 2015 No início dos anos 2000, durante estágio de pós-
no Instituto de Geociências da Universi­ -doutorado na Universidade Federal de Minas
dade de São Paulo (IGc-USP), Stríkis e seu Gerais (UFMG), Auler trabalhou no mapeamento
orientador, Francisco William da Cruz Junior, re- da Toca da Boa Vista – a mais extensa caverna
colheram cerca de 50 espeleotemas nas cavernas brasileira, com 120 quilômetros de galerias – e
Lapa Grande e Lapa Sem Fim, respectivamente, coletou espeleotemas ali e em duas outras caver-
nos municípios de Montalvânia e Luislândia, re- nas de Campo Formoso, município que fica em
gião de Cerrado no norte de Minas, e nas cavernas uma região semiárida no norte da Bahia.
Paixão e Marota, em Andaraí, no Cerrado baiano. A datação e a análise dos espeleotemas, realizada
Eles mediram a proporção entre duas variedades em parceria com pesquisadores estrangeiros, per-
(isótopos) de oxigênio encontradas na água e no mitiram reconstituir o padrão de chuvas regional
calcário de 6 mil amostras extraídas de 13 espeleo- nos últimos 210 mil anos. Segundo os dados, nem
temas e, com base nesses dados, recriaram o perfil sempre foi tão seco ali. Houve longos períodos de
de umidade para a região nos últimos 85 mil anos. baixa umidade, mas a cada 20 mil anos o clima se
Filipa Naughton, especialista em paleoclima tornava mais chuvoso, relataram os pesquisadores
do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, em um artigo de 2004 na revista Nature. As épocas
ajudou os brasileiros a confrontar as datas dos de maior pluviosidade coincidiram com quatro
períodos de mais chuva no centro-leste do país eventos Heinrich da última glaciação (HS-1, HS-4,
com as dos eventos Heinrich no Atlântico Norte. HS-5 e HS-6). Um deles, o HS-4, durou na região
Com o derretimento dos icebergs formados nas cerca de 3 mil anos, segundo os pesquisadores,
épocas de frio extremo, sedimentos mais espes- tempo suficiente para alterar o perfil da flora local
sos (variando de areia fina a grossa) cobriram a e permitir o surgimento de corredores de uma ve-
lama fina do fundo do oceano. Um testemunho getação mais densa que pode ter conectado a Mata
de sedimentos marinhos coletado em 1995 no Atlântica, hoje distante 500 quilômetros em linha
norte de Portugal guarda vestígios dos icebergs reta de Campo Formoso, à floresta amazônica, que
de seis eventos Heinrich (HS, do inglês Heinrich fica a mais de 1,5 mil quilômetros dali.
stadials), que coincidem com as fases de tempe- Já naquela época os pesquisadores encontra-
ratura mais baixa da última glaciação. ram indícios de que vegetações mais verdes e

50  z  maio DE 2018


Cavernas, tufas e espeleotemas

Espeleotemas de cavernas do Brasil, do Peru e da


Bolívia e rochas contendo folhas fossilizadas
(tufas) guardam vestígios de um passado úmido,
quando corredores de vegetação teriam B
conectado a Mata Atlântica à floresta amazônica A

Cavernas

Toca da
Boa Vista

Amazônia
Caatinga
Sinais de floresta no semiárido
Cerrado Tufa recolhida próximo à Toca da Boa Vista contém folhas
Pantanal fossilizadas da liana Plukenetia tamnoides (A),
Lapa e da erva Begonia grisea (B), típicas da Mata Atlântica
Grande
Mata
Atlântica

Pampa
11 mil anos de idade contendo pólen fossilizado
Fonte  Nicolás Stríkis / UFF
40.485 anos de árvores amazônicas de grande porte, como
as do gênero Simarouba, que podem alcançar 35
metros. “Em algumas áreas de Caatinga, onde ho-
je tem muito cacto, já houve florestas típicas de
Um evento extremo
clima mais úmido, com espécies hoje comuns na
À direita, espeleotema coletado
floresta amazônica”, conta Oliveira, atualmente
na caverna Lapa Grande, em Minas
43.444 anos professor no IGc-USP. “As tufas mostravam no
Gerais, guarda informações do
clima no centro-leste brasileiro entre
nível macroscópico as evidências que eu havia
59,8 mil e 40,5 mil anos atrás
observado no microscópico”, explica o pesqui-
sador, que também encontrou em sedimentos
da última glaciação grãos de pólen de árvores
Esta região da rocha cresceu mais
rapidamente do que o resto, indicando um
da mata de araucária no atual Cerrado mineiro.
aumento de chuvas entre 48,5 mil e 47 mil
Esses e outros registros de pólen fossilizado,
anos atrás, durante um evento Heinrich somados às informações de pluviosidade obtidas
em cavernas do Brasil, do Peru e da Bolívia, re-
sultado de projetos que investigam a origem da
biodiversidade na Mata Atlântica e na floresta
altivas, típicas de clima úmido, teriam existido amazônica, reforçam a hipótese de que a vegeta-
onde hoje é a Caatinga. Não muito distante das ção da Amazônia e da Mata Atlântica teriam se
cavernas, a paleobotânica Patrícia Cristalli, então unido em mais de um momento num passado não
aluna de doutorado no IGc-USP, encontrou nos tão distante. “Esses períodos mais úmidos com
vales dos rios Salitre e Jacaré, na Bahia, rochas 51.449 anos alguns milhares de anos de duração podem ter
calcárias com idade variando de 11 mil a mais de permitido a formação intermitente de corredores
fotos  eduardo césar  infográficO ana paula campos

600 mil anos que continham folhas fossilizadas de vegetação entre essas florestas”, supõe Stríkis. n
de plantas típica da Mata Atlântica e da floresta
amazônica. Conhecidas pelo nome de tufa, es-
sas rochas se formam no fundo de rios ricos em
Projeto
carbonato de cálcio que existiram no passado e
Paleoclimatologia e estudo da dinâmica atual em sistemas cársticos
depois secaram. “As tufas são um indício de que do Brasil Central: Implicações para interpretações paloeclimáticas
houve água corrente naquela região”, conta Cruz, com base em registros de espeleotemas (nº 15/14327-7); Modali-
que participou da expedição de coleta. dade Bolsa de pós-doutorado; Pesquisador responsável Francisco
William da Cruz Junior (USP); Beneficiário Nicolás Misailidis Stríkis;
Um pouco antes, em 1999, o palinólogo Pau- Investimento R$ 43.283,70.
lo Eduardo de Oliveira já havia encontrado em 59.830 anos Artigo científico
Pilão Arcado, uma área de dunas cercada por STRÍKIS, N. M. et al. South American monsoon response to iceberg dis-
Caatinga no noroeste da Bahia, sedimentos com charge in the North Atlantic. PNAS. v. 115, n. 15, p. 3788-93. 10 abr. 2018.

pESQUISA FAPESP 267  z  51


Física y

Turbulência
criativa
Estimular flutuações aleatórias pode aumentar a
produção de energia em reatores de fusão nuclear

Victória Florio

S
istemas turbulentos, com flutua- maior a turbulência, menores as chances
ções aleatórias, podem ser impre- de aparecimento do chirping”, explica
Como ocorre a fusão nuclear
visíveis, dificultando a formula- Duarte, que relatou os experimentos em
ção de modelos explicativos sobre artigo publicado em dezembro do ano
hélio
fenômenos naturais. Mas o estímulo, passado na revista Physics of Plasmas, deutério

até certa medida, à presença de turbu- do Instituto Americano de Física. fusão

lência pode ser positivo no interior dos Inaudível para ouvidos humanos, o
tokamaks, reatores experimentais de gorjeio é uma espécie de trinado emitido energia

fusão nuclear onde dois núcleos de dife- por ondas que se propagam pelo plasma
rentes isótopos do átomo de hidrogênio de reatores e tecnicamente se assemelha
se unem, formam um núcleo do átomo ao canto das aves em alguns aspectos. O trítio

de hélio e liberam energia. Essa ideia, chirping emerge das interações entre os-
aparentemente paradoxal, foi propos- cilações do plasma e partículas altamente No interior de um reator, campos
ta pelo físico brasileiro Vinícius Njaim energéticas. O efeito expulsa as partícu- magnéticos intensos confinam o
plasma. A altíssima temperatura faz
Duarte, que faz estágio de pós-doutorado las para fora do equipamento, esfriando duas formas do átomo de hidrogênio,
na Universidade de Princeton, nos Es- e comprometendo a continuidade das deutério (cujo núcleo tem um próton
tados Unidos, para atenuar a perda de reações de fusão nuclear. Cada tokamak e um nêutron) e trítio (um próton e dois
energia nesses reatores de plasma supe- apresenta um padrão de chirping distinto, nêutrons), se fundirem. O processo
resulta na formação de um elemento
raquecido provocada por um fenômeno que lhe confere uma identidade própria: mais pesado, o hélio, com dois
conhecido como chirping ou gorjeio. A alguns gorjeiam muito, outros, pouco. O prótons e dois nêutrons em seu
abordagem foi inicialmente proposta co- fenômeno também é comum em objetos núcleo, e na liberação de um nêutron
mo teoria, seu emprego foi simulado em astronômicos e ocorre, por exemplo, no e de uma boa quantidade de energia

computador e posteriormente testado, plasma da magnetosfera do Sol – a parte


nêutron próton
com sucesso, em três tokamaks. “Quanto externa da atmosfera da estrela, cheia de

52  z  maio DE 2018


O NSTX, da Universidade
partículas eletricamente carregadas. A doutorado. O físico da USP viu o poten- de Princeton, foi
um dos tokamaks em
turbulência é, de certa forma, uma carac- cial de Duarte para pesquisa e o enviou que foi testado o
terística inerente a fluidos. Em geral, não a Princeton para trabalhar com um de método para reduzir
precisa ser induzida e surge naturalmente seus colaboradores, o físico russo Nikolai a perda de energia
devido ao movimento das partículas do Gorelenkov. Seu tema original de pes-
plasma. “A turbulência é, em geral, algo quisa no doutorado estava ligado à física
indesejado em qualquer sistema, mas, no de plasmas, mas não à questão do chir-
caso dos tokamaks, pode levar a cenários ping. “Enquanto desenvolvia seu tópico tórios da empresa General Atomics em
que possibilitam o aumento da produção original, Duarte assistiu a seminários e San Diego, Califórnia, nos quais o plasma
de energia no plasma”, explica o físico percebeu que esse problema não estava foi operado em uma geometria peculiar,
Ricardo Galvão, diretor do Instituto Na- explicado”, conta Galvão. “Ele resolveu, que sabidamente mitiga a turbulência.
cional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e por conta própria, investigar o assunto O chirping, normalmente bastante raro
orientador da tese de doutorado de Duar- e o resultado foi excelente: seu estágio no DIII-D, mostrou-se predominante
te sobre o tema, defendida em meados teve que ser prolongado por mais um nessa geometria. Em tokamaks que nor-
do ano passado no Instituto de Física da ano, financiado agora por Princeton, para malmente apresentam muito chirping,
Universidade de São Paulo (IF-USP). que ele pudesse estudar o chirping.” Foi como o NSTX, de Princeton, Duarte e
Galvão aceitou-o como aluno a pedido nesse período que teve a ideia de con- seus colegas de Princeton adotaram uma
do físico italiano Roberto Antonio Cle- trolar o gorjeio dos reatores por meio geometria que favorecia a turbulência e
mente, do Instituto de Física Gleb Wata- do estímulo da turbulência no plasma. reduzia o problema no reator. Antes de
ghin da Universidade Estadual de Cam- Com o objetivo de testar o modelo confirmar o papel-chave da turbulência,
pinas (IFGW-Unicamp). Muito doente, proposto por Duarte, foram realizados os pesquisadores testaram outras hipó-
elle starkman

Clemente, que orientou parcialmente o experimentos específicos no DIII-D, to- teses, como a colisão entre as partícu-
mestrado de Duarte e morreu em 2011, kamak, do Departamento de Energia dos las ou suas velocidades de ressonância,
pediu-lhe que acolhesse o estudante no Estados Unidos que funciona nos labora- mas nada permitia controlar o chirping.

pESQUISA FAPESP 267  z  53


Imagem de março de
2018 registra a
construção, no sul da
França, do Iter,
previsto para ser o
maior reator de fusão
nuclear do mundo

hélio, mas, dentro dos reatores, isso não é


tão trivial. Para emular as condições das
Nenhum reator de fusão nuclear atual estrelas, no interior dos tokamaks, os fí-
sicos têm de agitar bastante os átomos.
produz mais energia do que consome, A temperatura mínima de ignição das
reações de fusão nos tokamaks é de cerca
problema ainda não contornado de 150 milhões de graus Celsius , 10 vezes
superior à do centro do Sol.
O tokamak tem formato toroidal, se-
melhante à câmara de um pneu. Gira em
“O entendimento que obtivemos sobre rejeitos radioativos do que a fissão nu- seu interior, confinada por fortes cam-
os plasmas no laboratório deve ser útil clear, atualmente empregada para produ- pos magnéticos, uma sopa de plasma de
também para explicar e controlar o chir- zir energia em usinas atômicas, nas quais hidrogênio – estado da matéria em que
ping na natureza”, comenta Gorelenkov, os núcleos dos átomos são quebrados. O os gases são aquecidos até o ponto de os
coautor do trabalho. problema é que os tokamaks atuais, ao elétrons escaparem dos átomos – e de
Os resultados foram tão animadores contrário das centrais nucleares, con- partículas rápidas, dentre elas núcleos
que o método proposto por Duarte se- somem mais energia do que produzem. do átomo de hélio, também denominados
rá utilizado em outros tokamaks, como O maior experimento de fusão nuclear partículas alfa. “Fazer da fusão um pro-
o Iter, maior projeto de reator desse ti- em funcionamento do mundo, o JET, cesso eficiente e autossustentável envolve
po, atualmente em construção no sul da localizado em Culham, na Inglaterra, não deixar que as partículas rápidas esca-
França, cujo objetivo é demonstrar a via- obteve uma eficiência máxima de 67%: pem do reator, a fim de que elas possam
bilidade econômico-científica da produ- para gerar 16 MW gasta 24 MW. transferir sua energia para o restante do
ção de energia a partir da fusão nuclear. plasma”, explica Duarte. n
Previsto para começar a operar em 2025, Energia das estrelas
o megatokamak envolve a participação Nos laboratórios, a física de plasmas tenta
de 35 países e um investimento da ordem imitar a natureza. O processo de fusão nu- Projeto
de €20 bilhões. A previsão é de que o Iter clear dos tokamaks é o mesmo por meio Modos acústicos geodésicos e contínuos de Alfvén
seja capaz de gerar 10 vezes mais ener- do qual estrelas, como o Sol, produzem em colunas de plasma com rotação (nº 12/22830-2); 
Modalidade Bolsa de Doutorado; Pesquisador responsá-
gia do que gasta : 500 megawatts (MW) sua energia. Nesses objetos celestes, uma vel Ricardo Galvão (USP); Bolsista Vinícius Njaim Duarte
ITER Organization / EJF Riche

produzidos a partir de 50 MW de potên- atração gravitacional descomunal leva Investimento R$ 86.783,64 e R$ 78.445,84 (Bolsa Está-
cia injetada. Seus defensores dizem que, os átomos de hidrogênio a ficarem bem gio de Pesquisa no Exterior, nº 14/03289-4 ).

por ser muito grande, o reator será mais próximos uns dos outros a tal ponto que Artigo científico
eficiente na produção de energia do que a fusão entre eles se torna inevitável. Em DUARTE, V. et.al. Theory and observation of the onset
of nonlinear structures due to eigenmode destabiliza-
seus congêneres menores. A fusão nu- teoria, parece simples juntar dois isótopos tion by fast ions in tokamaks. Physics of Plasmas. v. 24,
clear é mais segura e resulta em menos de hidrogênio para formar um núcleo de n. 12. dez. 2017.

54  z  maio DE 2018


epidemiologia y

Incidência
oculta
Casos de hanseníase em crianças
na Amazônia sugerem que números
disponíveis subestimam a doença

Ilustração
Suzel Tunes representando
lesão na pele
provocada pela
bactéria causadora
da hanseníase
(bastões vermelhos)

M
ais de 25 mil novos casos de hanse- crianças e adolescentes com menos de 15 anos
níase por ano colocam o Brasil no se- de idade é 17 vezes superior à taxa registrada
gundo lugar do mundo, atrás apenas anteriormente para a faixa etária na cidade. Em
da Índia, no ranking dos países com 2013, a taxa na capital amazonense foi de 0,68 ca-
maior ritmo de crescimento da doença e também so por 10 mil, mas a pesquisa da Fuam registrou
entre os mais afetados. Apesar disso, o Brasil a ocorrência de 11,58 casos por 10 mil, indicando
está próximo de atingir a meta estipulada pela subnotificação da doença.
Organização Mundial da Saúde – 1 caso a cada 10 O estudo foi realizado em 277 das 622 escolas
mil habitantes – para que a hanseníase deixe de públicas de Manaus. Dentre 34.547 estudantes
ser considerada um problema de saúde pública. examinados, foram encontrados 40 novos casos
A taxa de detecção é de 1,22 caso por 10 mil e de hanseníase. Segundo a dermatologista Caroli-
apresenta tendência de queda: entre 2007 e 2016, na Talhari, coordenadora da pesquisa, o número
o número de novos casos de hanseníase caiu 37% preocupa sobretudo pela faixa etária dos doentes.
no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. “Do ponto de vista epidemiológico, a existência
Esses dados seriam animadores, não fosse por de crianças com hanseníase significa a presença
um detalhe: por trás desses números podem exis- de bacilos circulantes na comunidade”, alerta.
tir muitos doentes não diagnosticados. É o que in- A hanseníase afeta todas as idades, mas a ocor-
dica um estudo publicado em fevereiro deste ano rência em crianças e adolescentes menores de 15
na revista PLOS Neglected Tropical Diseases. O anos é um importante marcador epidemiológi-
trabalho foi feito por pesquisadores da Fundação co para a doença, explica a pesquisadora. Anti-
de Dermatologia Tropical e Venereologia Alfredo gamente conhecida como lepra, a hanseníase é
da Matta (Fuam), órgão vinculado à Secretaria causada pela bactéria Mycobacterium leprae, que
de Saúde do Amazonas, em colaboração com a é transmitida de pessoa para pessoa por meio do
Universidade do Estado do Amazonas e outras contato com secreções liberadas na tosse ou es-
instituições. Os resultados do estudo sugerem pirro de pessoas infectadas e sem tratamento. A
que, em Manaus, a incidência de hanseníase em enfermidade afeta os nervos periféricos e provo-
cdc

pESQUISA FAPESP 267  z  55


ca manchas esbranquiçadas ou averme- Criança passa
lhadas na pele, que perde a sensibilida- por exame
dermatológico em
de. Seu tempo de incubação é longo, de Manaus
cinco a 10 anos até o aparecimento dos em janeiro
sintomas. Por isso, quando se encontra deste ano
um adulto infectado, é difícil precisar
quanto tempo passou desde a exposição
à bactéria. Já a detecção em crianças in-
dica a existência de focos de transmissão
ativos, em geral no ambiente domiciliar.

Doença de aglomeração
No estudo de Manaus, verificou-se que
52,5% dos casos de crianças recém-diag-
nosticadas tiveram contato em casa com
ao menos uma pessoa infectada. Os avós
foram os transmissores em 52,4% dos ca-
sos; os tios em 14,3%; e pais em 9,5%. “A
contaminação da criança ocorreu antes
do início do tratamento do adulto, pois
sabemos que a primeira dose supervisio-
nada da poliquimioterapia fragmenta os
bacilos, interrompendo a transmissão”,
conta a epidemiologista Valderiza Pedro-
sa, pesquisadora da Fuam e primeira au-
tora do artigo da PLOS Neglected Tropi-
cal Diseases. O tratamento, disponível de
graça na rede pública de saúde, envolve
a administração de três drogas (sulfona,
rifampicina e clofazimina). O esquema
terapêutico é eficaz, sem muitos efeitos
colaterais, mas demora de 9 a 18 meses.
Os pesquisadores também examina- A detecção da doenças em crianças
ram 196 pessoas que conviviam com as
crianças infectadas, no ambiente domés- indica a existência de focos ativos
tico ou em casas vizinhas. Eles defendem
que é importante avaliar pessoas não
de transmissão
aparentadas que more perto dos infec-
tados, visto que uma pesquisa feita há
cinco anos indicou que a taxa de detec-
ção era similar tanto nos familiares dos
pacientes como nos vizinhos. vidos na epidemiologia da hanseníase. sim, por uma dezena de genes, cada um
Esse estudo, publicado em 2013 pela Embora a convivência com uma pessoa contribuindo parcialmente para o efeito
PLOS Neglected Tropical Diseases, foi rea- infectada e não tratada seja o maior fator total observado”, afirma Mira. “No en-
lizado pelo Instituto de Medicina Tropical de risco para a contaminação, a maioria tanto, ainda estamos distantes do ponto
da Universidade Federal do Rio Grande das pessoas expostas não desenvolve a em que um teste genético possa ser apli-
do Norte na cidade de Mossoró, conside- doença. No entanto, o grupo de pesquisa cado para identificar indivíduos suscetí-
rada hiperendêmica para a hanseníase. da Fuam chegou a encontrar uma família veis.” Segundo o geneticista, para enfren-
A professora Selma Maria Bezerra Jerô- na qual a doença acometeu três gerações. tar a hanseníase, o diagnóstico precoce
nimo, diretora do instituto, esclarece co- O geneticista Marcelo Távora Mira, ainda é a ação essencial e depende do
mo ocorre a transmissão do bacilo entre professor do Programa de Pós-gradua- treinamento de médicos e das equipes
vizinhos: “O bacilo fica suspenso no ar ção em Ciência da Saúde da Pontifícia de apoio dos serviços públicos de saúde.
e sobrevive por alguns dias no ambien- Universidade Católica do Paraná, expli-
Altemar Alcantara / Semcom

te. Ocorre que, em muitas localidades, as ca que o componente genético define a dados conflitantes
casas são conjugadas com meia parede e suscetibilidade da pessoa a contrair a Segundo nota da assessoria de impren-
um telhado comum, sem forro. As pessoas doença. “É pouco provável que exista o sa do Ministério da Saúde, dados pre-
compartilham o mesmo ar contaminado”. ‘gene da hanseníase’. Hoje as pesquisas liminares de 2017 indicam uma inci-
Além da contínua exposição ao bacilo, apontam para um efeito genético cau- dência de 0,6 caso de hanseníase por
existem também fatores genéticos envol- sado não por um ou poucos genes, mas, 10 mil habitantes de Manaus, ou seja,

56  z  maio DE 2018


representam casos isolados. Eles confir-
A geografia da hanseníase mam um cenário preocupante que tem
sido descrito por diversos estudos. “Es-
95% do total de ocorrências oficialmente registradas no mundo tamos batendo nessa tecla desde 2012”,
ocorreram em 22 países em 2016 diz Frade.
O médico participou de pesquisas em
várias localidades nas quais também fo-
Número Prevalência ram constatados casos de hanseníase não
de casos de casos por diagnosticados em crianças. Nas cidades
novos 10 mil habitantes
de Oriximiná e Castanhal, ambas no Pa-
Índia 135.485 0,66 *Dados de 2015 rá, foram detectados 109 novos casos en-
Brasil 25.218 1,09
** Dados de 2014
tre 754 pessoas examinadas (incidência
Indonésia 16.826 0,69 de 14,4%), das quais 40 eram crianças
Congo 3.742 0,53 com menos de 15 anos de idade. O estu-
Etiópia 3.692 0,36 do foi publicado em 2015 no periódico
Nepal 3.054 0,88
BMC Infectious Diseases. O Pará está en-
Bangladesh 3.000 0,19
tre os estados brasileiros mais afetados,
Mianmar 2.609 0,47
assim como Maranhão, Piauí, Rondônia,
Sri Lanka* 1.977 1,01
Madagascar 1.780 0,84
Roraima e Pernambuco. A incidência é
Filipinas 1.721 0,41 ainda maior em Tocantins e Mato Gros-
Nigéria 1.362 0,73 so, considerados hiperendêmicos.
Moçambique 1.289 0,47 Os pesquisadores da FMRP-USP não
Costa do Marfim 895 0,32 se concentraram apenas nos estados de
Sudão do Sul** 691 0,62 maior incidência de hanseníase. No mu-
Egito 651 0,07 nicípio de Jardinópolis, distante uns 20
Sudão 624 0,15 quilômetros de Ribeirão Preto, no inte-
Angola 618 0,42
rior de São Paulo, encontraram 24 novos
Comores 304 3,30
casos da doença entre julho e dezembro
Tanzânia 247 0,33
Kiribati 218
de 2015. Além de medir a incidência (nú-
10,05
Micronésia 169 13,24
mero de casos novos), também verifica-
ram a prevalência (total de casos). “Em
Fonte Organização Mundial da Saúde
2014, a prevalência da hanseníase em
Jardinópolis foi de 0,73 caso para cada
grupo de 10 mil habitantes. Em 2015
e 2016, com a intensificação da busca
ativa de casos pela equipe do Centro
127 casos novos diagnosticados, sendo de Referência Nacional em Dermato-
quatro em menores de 15 anos. O órgão logia Sanitária do Hospital das Clíni-
informa que os resultados oficiais de A pesquisa cas de Ribeirão Preto, os índices subi-
prevalência da doença no Brasil levam de Manaus ram, respectivamente, para 4,4 e 23,6”,
explica Frade.
em conta pacientes de todas as idades.
Dessa forma, argumenta, os resultados confirma um Segundo o médico, os profissionais da
publicados no artigo da PLOS Neglected saúde têm dificuldade em diagnosticar a
Tropical Diseases, que mirou crianças e cenário doença porque falta preparo e há a noção
adolescentes com menos de 15 anos, não errônea de que a hanseníase está deixan-
podem ser comparados com os dados preocupante, do de ser um problema de saúde públi-
oficiais. Carolina Talhari discorda. “A afirma Marco ca no país. “Quem procura e sabe o que
está buscando acha a doença”, afirma. n
taxa de detecção de hanseníase em
crianças encontrada em nosso estudo Frade, da
foi comparada com a taxa oficial de
detecção para a mesma faixa etária", Sociedade Artigos científicos
PEDROSA, V. L. et al. Leprosy among schoolchildren in the
afirma. “É preciso investir na busca ativa
e na detecção precoce dos casos.” Brasileira de Amazon region: A cross-sectional study of active search
and possible source of infection by contact tracing. PLOS
 Para Marco Andrey Cipriani Frade, Hansenologia Neglected Tropical Diseases. 26 fev. 2018.
MOURA, M. L. et al. Active surveillance of Hansen’s
professor da Faculdade de Medicina de Disease (leprosy): Importance for case finding among
Ribeirão Preto da Universidade de São extra-domiciliary contacts. PLOS Neglected Tropical
Paulo (FMRP-USP) e vice-presidente da Diseases. 14 mar. 2013.
BARRETO, J. G. et al. Spatial epidemiology and serologic
Sociedade Brasileira de Hansenologia, cohorts increase the early detection of leprosy. BMC
os números da pesquisa de Manaus não Infectious Diseases. 16 nov. 2015.

pESQUISA FAPESP 267  z  57


SAÚDE PÚBLICA y

Comprimidos da PrEP,
indicados para quem
não se infectou e tem
relações sexuais de risco

Barreira A
Profilaxia Pré-Exposição Sexual (PrEP),
a mais recente estratégia de preven-
ção da transmissão do HIV, avança no
Brasil. Trata-se de uma pílula de uso

anti-HIV
diário que evita a contaminação pelo vírus da
Aids na quase totalidade dos casos. Aprovada
em 2017 para uso no país e distribuída desde o
início deste ano no sistema público de saúde, a
medicação tem atraído pessoas com risco de se
infectarem pelo vírus causador da Aids, de acordo
Novo medicamento com estudos recentes. Apesar dos avanços, ainda
há incertezas sobre o risco de a PrEP promover o
para evitar a abandono de outras formas de prevenção, como
o uso de preservativos, o que aumenta o risco de
transmissão do vírus transmissão de HIV, gonorreia, sífilis, clamídia
da Aids é adotado e e outras doenças sexualmente transmissíveis
(DSTs). De acordo com o Ministério da Saúde
avaliado no Brasil (MS), 8% das trabalhadoras do sexo têm sífilis e
a maioria não usa camisinha em relações sexuais
com clientes constantes, namorados ou maridos.
“A efetividade da PrEP no Brasil depende da
ampliação do acesso a esse medicamento e do
atendimento adequado aos usuários”, afirma a
médica epidemiologista Maria Amélia Veras,
professora da Faculdade de Ciências Médicas
da Santa Casa de São Paulo. Efetividade é o de-

58  z  maio DE 2018


sempenho de um medicamento em reais com homens, dos quais 18% já se infec-
condições de uso por um número eleva- taram com o vírus causador da Aids, de
do de usuários. “Para funcionar de mo- acordo com o MS. Entre as mulheres, as
do satisfatório, essa ou qualquer outra O abandono taxas de detecção do HIV crescem na
estratégia de prevenção contra o HIV faixa entre 15 e 19 anos (de 3,6 casos por
pressupõe que as necessidades dos usuá- do uso do 100 mil mulheres em 2006 para 4,1 por
rios sejam levadas em consideração e 100 mil em 2016) e na faixa de 60 anos ou
que os profissionais da saúde possam
preservativo mais (de 5,6 em 2006 para 6,4 em 2016).
estar disponíveis para conversar com aumenta Nas outras faixas de idade, a tendência
eles. Para que isso ocorra, precisamos é de queda nos últimos 10 anos, princi-
que o SUS seja fortalecido com mais re- o risco de palmente entre as mulheres de 25 a 29
cursos e pessoal.” anos (de 30,5 por 100 mil em 2006 para
A PrEP consiste no consumo de um transmissão 15 por 100 mil em 2016).
comprimido com dois medicamentos an- Do início de janeiro até o final de mar-
tivirais – tenofovir e emtricitabina – e é
de HIV, sífilis, ço deste ano, 36 centros de saúde pública
indicada para quem não se infectou com gonorreia, de 11 estados atenderam 1.401 pessoas
o vírus e tem relações sexuais de risco, interessadas em PrEP. No dia 5 de abril,
com pessoas contaminadas pelo HIV. clamídia e na palestra de abertura de um curso so-
Produzidos pela empresa farmacêutica bre Aids na Faculdade de Medicina da
norte-americana Gilead, os comprimi- outras doenças Universidade de São Paulo (FM-USP),
dos são importados e, além do sistema a médica Adele Schwartz Benzaken, di-
público de saúde, podem ser comprados retora do Departamento de Vigilância,
em farmácias ou por internet a um custo Prevenção e Controle de Infecções Se-
médio mensal de R$ 300. Há uma pers- xualmente Transmissíveis, HIV/Aids
pectiva de produção nacional: o Instituto e Hepatites Virais do MS, anunciou os
de Tecnologia em Fármacos da Fundação feito sexo anal sem preservativo com planos de aumentar o número de pessoas
Oswaldo Cruz (Farmanguinhos/Fiocruz), pelo menos três parceiros não se alterou atendidas e de centros de atendimento.
do Rio de Janeiro, anunciou em março de modo significativo do início ao fim do O primeiro grupo de usuários da PrEP
um acordo com uma empresa farmacêu- período em que tomaram os antivirais. na rede pública de saúde foi principal-
tica nacional para produzir o tenofovir e O problema é que, mesmo que o me- mente de homens gays e outros homens
a emtricitabina. O Instituto Nacional de dicamento tenha alta eficácia contra o que fazem sexo com homens (84,5%) e
Propriedade Industrial (INPI) recusou o HIV, o abandono do uso de preservati- brancos ou amarelos (61,3%) de alta es-
pedido de patentes das duas formulações vo aumenta o risco de transmissão de colaridade, com baixa participação de
no Brasil, o que facilita sua produção no outras DSTs. Na Espanha e no Canadá, mulheres transexuais e travestis (1,2%).
país, mas o plano de fabricar os fármacos por exemplo, altas taxas de DSTs têm “Temos de nos esforçar para chegar às
a preços menores ainda depende da apro- sido relatadas entre usuários de PrEP populações mais vulneráveis ao HIV,
vação do registro na Agência Nacional de que fazem sexo sem preservativo, obser- como gays de baixa escolaridade, pes-
Vigilância Sanitária (Anvisa). va o médico virologista Pablo Barreiro, soas trans e trabalhadoras do sexo, que
Aprovada nos Estados Unidos em do Hospital Universitário Carlos III, de são as que mais precisam da PrEP”, dis-
2012, com poucos efeitos colaterais (en- Madri, em artigo na revista Aids Reviews se Adele. Como estratégia para deter a
tre os quais enjoo e flatulência), a PrEP de março deste ano. transmissão do vírus, o sistema público
tem uma eficácia superior a 90%. Um de saúde já oferece a Profilaxia pós-Ex-
estudo de pesquisadores da Fiocruz pu- os mais vulneráveis posição Sexual (PEP), que consiste no
blicado na Lancet HIV em março deste O MS estima que 866.092 pessoas vivam uso de outros antivirais em até 72 horas
ano indicou uma alta taxa de adesão a com HIV, das quais 84% foram diagnos- após exposições de alto risco para o HIV,
essa abordagem preventiva no Brasil: ticadas e 63% recebem tratamento. A ta- com alta eficácia, como a PrEP. O núme-
83% dos 450 participantes chegaram xa de detecção de Aids apresentou uma ro de vezes em que a PEP foi adotada
até o final das 48 semanas propostas pequena redução – de 19,5 casos por 100 passou de 15.414 em 2009 para 87.414
de tratamento, fornecido pelas institui- mil habitantes em 2015 para 18,5 para em 2017, já que uma pessoa pode tomar
ções de pesquisa que colaboraram com cada 100 mil em 2016 –, mas está au- mais de uma vez. n Carlos Fioravanti
o estudo. Os participantes eram homens mentando principalmente entre homens
que fazem sexo com homens e mulhe- de 15 a 29 anos. Dois grupos são os mais
res transexuais – que se identificam co- vulneráveis à infecção e apresentam as Artigos científicos
mo sendo do sexo feminino, embora ao menores taxas de adesão aos tratamen- GRINSZTEJN, B. et al. Retention, engagement, and adhe-

nascer tenham sido registradas como tos. O primeiro é o das mulheres tran- rence to pre-exposure prophylaxis for men who have sex
with men and transgender women in PrEP Brasil: 48 week
do sexo masculino – não infectados por sexuais, com uma taxa de infecção que results of a demonstration study. Lancet HIV. v. 5, n. 3,
eduardo cesar

HIV. Todos mantiveram os hábitos se- varia entre 17% e 64%, segundo estudos p. 136-45. mar. 2018.
BARREIRO, P. Hot news: Sexually transmitted infections
xuais e tomavam PrEP regularmente: a preliminares do MS. O segundo é o de on the rise in PrEP users. Aids Reviews. v. 20, n. 1, p. 71.
proporção de pessoas que relataram ter gays e outros homens que fazem sexo jan.-mar. 2018.

pESQUISA FAPESP 267  z  59


Biologia molecular y -tronco neurais sadias – obtidas a partir
de células-tronco pluripotentes induzi-
das (IPS, células adultas reprogramadas
em laboratório para se comportarem
como células-tronco) – e tumorais, ve-
rificaram que o vírus é mais eficiente

Zika contra
em destruir estas últimas. “Também ex-
pusemos neurônios maduros ao vírus e
vimos que eles não foram infectados ou

câncer
destruídos pelo patógeno”, acrescenta
Okamoto. “Essa é uma ótima notícia,
uma vez que nosso objetivo é destruir
especificamente células tumorais”, com-
pleta Mayana.
Passando aos ensaios com camundon-
gos portadores de tumores humanos no
encéfalo, uma parte dos animais recebeu
Vírus da doença é testado como uma injeção com pequena dose de zika
e, no grupo tratado, houve uma redução
ferramenta para tratar tumores significativa do volume tumoral. O gru-
po pretende avançar para ensaios clí-
agressivos do sistema nervoso central nicos. “A ideia seria começar com dois
ou três pacientes que não respondem
aos tratamentos convencionais e, se a
Karina Toledo, da Agência FAPESP estratégia funcionar, estender para um
grupo maior”, propõe Mayana. O grupo
submeteu uma patente com o protocolo
terapêutico adotado em roedores.

Q
uando o vírus zika pegou o camundongos, que o vírus zika pode ser aprendizado de máquina
Brasil de surpresa, no final usado como ferramenta no tratamento O vírus zika também foi o ponto de par-
de 2015, provavelmente já de tumores humanos agressivos do sis- tida para desenvolver uma plataforma
circulara silencioso pelo país tema nervoso central. É a primeira vez capaz de diagnosticar diversas doenças
por pouco mais de dois anos. Razoa- que isso foi feito em um modelo vivo. por meio de marcadores metabólicos no
velmente silencioso, porque apesar de Mayana coordenou a investigação ao sangue de pacientes. “Nesse caso, a preci-
causar alguma febre, dor no corpo e nas lado de Oswaldo Keith Okamoto, tam- são diagnóstica ultrapassa 95%”, afirma o
articulações, manchas no corpo, entre bém do IB-USP e do Cegh-CEL. “Nos- farmacologista Rodrigo Ramos Catharino,
outros sintomas da doença que escapa- sos estudos e de outros grupos mostra- da Faculdade de Ciências Farmacêuticas
va ao diagnóstico pela semelhança com ram que o vírus zika causa microcefalia da Universidade Estadual de Campinas
dengue e chikungunya, nada se compara porque infecta e destrói as células-tronco (Unicamp). “Uma das grandes vantagens
ao dramático nascimento de crianças neurais do feto, impedindo que novos é que o método não perde a sensibilida-
com problemas no desenvolvimento neurônios sejam formados. Foi então que de mesmo se o vírus sofrer mutações.”
do cérebro – a microcefalia fetal. Agora tivemos a ideia de investigar se também O método alia a tecnologia de espec-
surgem formas mais rápidas, confiáveis atacaria as células-tronco tumorais do trometria de massas, que permite iden-
e práticas de diagnosticar o vírus, per- sistema nervoso central”, diz Okamoto. tificar dezenas de milhares de molécu-
mitindo antecipar tratamento e medidas Os experimentos começaram in vitro las presentes no soro sanguíneo, com
de saúde pública. E quanto à sua capa- com três linhagens tumorais humanas um algoritmo de inteligência artificial
cidade neurodestruidora, que tal usá-la que causam câncer no sistema nervo- capaz de encontrar padrões associados
em benefício próprio? so central. Os pesquisadores acrescen- a enfermidades – tanto de origem viral
É a ideia do grupo da geneticista Ma- taram quantidades crescentes do vírus como bacteriana, fúngica e até mesmo
yana Zatz, do Instituto de Biociências da às células tumorais em cultura e acom- genética. Os resultados, parte do dou-
Universidade de São Paulo (IB-USP) e panharam por meio de microscopia de torado do farmacologista Carlos Melo e
coordenadora do Centro de Pesquisas imunofluorescência. “Observamos que publicados em abril na revista Frontiers
do Genoma Humano e Células-Tronco pequenas quantidades do zika eram su- in Bioengineering and Biotechnology, re-
(Cegh-CEL), um dos Centros de Pes- ficientes para infectar as células de tu- velam a capacidade de detectar o vírus
quisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoia- mores do sistema nervoso central. As de mesmo 30 dias após o início da infecção.
dos pela FAPESP. Em artigo publicado próstata chegaram a ser infectadas, mas “Nenhum kit para diagnóstico disponível
no final de abril na revista Cancer Re- em uma proporção muito menor”, ele tem sensibilidade para detectar a infec-
search, os pesquisadores mostraram, em relata. Ao comparar o efeito em células- ção pelo zika após o término da fase agu-

60  z  maio DE 2018


Células de
meduloblastoma,
um tipo de
câncer cerebral,
infectadas
pelo zika
(vermelho)

da. Nosso método poderia ser útil, por de ser feita até em tiras de papel, longe do Rio Preto (Famerp). “Dengue e zika
exemplo, para analisar bolsas de sangue do laboratório. Isso foi possível graças são vírus muito parecidos, que frequen-
para transfusão”, comenta Catharino. a um tratamento químico e térmico que temente apresentam resultados cruza-
inativa enzimas que, de outra forma, de- dos nos testes. Essa plataforma Sherlock
Em campo gradariam os alvos genéticos. diagnosticou com 100% de acerto mesmo
Enquanto o vírus zika pode ser reconhe- O conjunto Sherlock-Hudson reconhe- as amostras positivas para mais de um
cido e até útil em laboratório, no mundo ce vírus na amostra – sangue, saliva ou vírus”, afirma Nogueira.
externo ele ainda é difícil de ser detec- urina – graças ao sistema Crispr-Cas13, Ele diz que esse tipo de tecnologia
tado com a agilidade necessária para se capaz de encontrar sequências no ge- permite adaptar o teste para se adequar
minimizar os efeitos maléficos. noma viral de maneira muito específica, às necessidades. “Caso surja uma epi-
Resultados promissores para uso em encaixando apenas se houver uma con- demia com um vírus novo, é possível
campo vêm do grupo da geneticista cordância alta entre o alvo e o modelo rapidamente desenvolver o kit com os
iraniana-americana Pardis Sabeti, do transportado pelo sistema. “Esse sistema reagentes e levá-lo ao local. Porém, ainda
Instituto Broad, nos Estados Unidos, é único na família Crispr porque, quando estamos a alguns anos de uma aplicação
conforme publicado em abril na revista uma sequência é reconhecida, a enzima comercial.” O reconhecimento detalhado
Science. A virologista Catherine Freije, Cas13 consegue romper uma sequência de sequências genéticas pode permitir
doutoranda na Universidade Harvard, e adicional de RNA”, a dupla de autores discriminar mutações específicas, como
o biólogo de sistemas Cameron Myhr­ explicou em e-mail assinado conjunta- em proteínas associadas ao desenvolvi-
vold, em estágio de pós-doutorado no mente. “Isso é particularmente útil no mento de microcefalia fetal, ou rastrear a
Broad, estiveram à frente do trabalho, contexto do diagnóstico porque pode- origem geográfica da linhagem presente
que aprimorou a plataforma de diagnós- mos introduzir moléculas-repórter que em um paciente. O método está em fase
tico Sherlock (sigla para Desbloqueio criam uma marca fluorescente ou visual de aprimoramento e pode ser comple-
Enzimático Específico de Alta Sensibi- quando quebradas.” mentar a outros já desenvolvidos, como
lidade), desenvolvida por outro grupo O método detectou, em menos de duas o sistema de sequenciamento do projeto
do mesmo instituto. O método modifi- horas, os vírus causadores da febre zika ZiBRA (ver Pesquisa FAPESP nº 256). n
cado foi batizado como Hudson (sigla e da dengue em amostras de pacientes Com colaboração de Maria Guimarães
de Aquecendo Amostras Diagnósticas brasileiros coletadas entre 2015 e 2016 no
não Extraídas para Obliterar Nuclea- âmbito de um projeto coordenado pelo
virologista Maurício Lacerda Nogueira,
Cegh-CEL

ses) e permite detectar RNA e DNA por Os artigos e projetos consultados para esta reportagem
meio de uma reação enzimática que po- da Faculdade de Medicina de São José estão listados na versão on-line.

pESQUISA FAPESP 267  z  61


tecnologia  computação y

Espaco livre
m uma ensolarada tarde de sábado, em abril, o designer
Locais que reúnem
aficionados por
tecnologia, os
hackerspaces se
multiplicam pelo país

Suzel Tunes
E Sandro Friedland, 42 anos, entrou em uma casa de
fundos no bairro paulistano de Pinheiros disposto a
dominar os segredos da impressora 3D. Pouco tempo
depois chegou a desenvolvedora Gabriela Freitas, 26.
Ela queria dicas para participar do Capture the Flag,
competição que envolve a resolução de desafios rela-
cionados à segurança da informação. No portão que dá acesso à
casa não há placa de identificação. Apenas o discreto grafite de
um guarda-chuva na fachada indica a atividade local: lá funciona
o Garoa Hacker Clube, o primeiro e mais famoso hackerspace
do Brasil, entre os cerca de 30 em atividade no país.
Sandro e Gabriela não estão ali a trabalho ou estudo. Em um
“laboratório comunitário para amantes de tecnologia” – como
o Garoa é definido por seus membros – não há fronteiras bem
definidas entre trabalho, estudo e lazer. “O conhecimento é li-
vre”, diz o analista de sistemas Lucas Vido, 27 anos, tesoureiro
para criar
Visão interna e do clube, verbalizando um dos conceitos mais das associações de hackers ou, quando é o caso,
externa do ABC caros à ética hacker. “A cultura hacker tem três pela universidade a que estão ligadas.
Makerspace,
em São Bernardo
características marcantes: liberdade, no sentido Para os frequentadores dos hackerspaces, “hac-
do Campo, de autonomia, livre acesso e livre circulação de ker” mantém seu vínculo com o significado origi-
que foi “impresso” informações, daí a importância de usar softwa- nal, nascido nos anos 1950 nos Estados Unidos, e
em madeira res e hardwares de código aberto; aprendizado relacionado à experimentação tecnológica. Não
compensada e
pela prática; e cooperação”, define o engenheiro tem, portanto, nenhuma associação com “crimi-
depois encaixado
de produção Victor Macul, de 27 anos, professor noso digital”, como pode indicar o senso comum.
do Insper e doutorando em engenharia de pro- Lucas Vido diz que hackear é “pegar algo que já
dução na Escola Politécnica da Universidade de existe e dar um uso inovador”. Um bom exemplo
São Paulo (Poli-USP). dessa cultura está em Natal, Rio Grande do Nor-
Nos hackerspaces é possível encontrar dife- te. Lá, o Jerimum Hackerspace, criado em 2017
fotos  léo ramos chaves

rentes tipos de projeto, como desenvolvimento inspirado no Garoa, desenvolveu recentemente


de robôs, maratonas de programação, palestras, um marcador de pressão arterial utilizando o Ar-
minicursos e muita troca de experiências. As ati- duíno, uma versátil plataforma de código aberto
vidades do Garoa e de outros espaços semelhantes de prototipagem eletrônica, presença obrigató-
são bancadas pelas mensalidades dos integrantes ria em todo hackerspace. “O Arduíno é barato,

pESQUISA FAPESP 267  z  63


Brasília, para medição do índice de umidade, algo
crítico na região; e os projetos de permacultura
e produção cultural alternativa promovidos pela
Baia Hacker, de Itu e Porto Feliz [SP]”, informa.

LABORATÓRIO COMUNITÁRIO
Os hackerspaces se distinguem de outras ini-
ciativas de laboratório comunitário, como ma-
kerspaces e fablabs, que são mais dirigidas para
a execução de projetos. Os limites entre os dois
tipos de espaço não são bem definidos, razão pe-
la qual Beatriz Martins escolheu trabalhar com
hackerspaces autoidentificados. “Nesses espa-
ços há uma variedade de sessões de discussão
nas quais se debatem temas diversos e não só os
relacionados à tecnologia. Em seis dos espaços
que responderam ao questionário da pesquisa há
encontros voltados a questões de gênero”, conta.
“Quando estamos conversando, não há assun-
to limitado. E não existe professor e aluno, ape-
nas troca”, testemunha Ana Clara, do Jerimum.
Sebastião Santiago Barretto, 64 anos, engenhei-
Lucas Vido monta ro eletrônico formado em 1976 pela Poli-USP, é
robô observado de hardware livre [a placa pode ser copiada sem um dos participantes que se alterna no papel de
por Fernando Guisso:
o Garoa foi a
problemas] e com muita informação disponível professor experiente e aluno curioso. Frequen-
primeira associação na internet”, explica Ana Clara Nobre, 26 anos, tador do Garoa há dois anos, ele já teve várias
de hackers do país, estudante de tecnologia da informação da Uni- oportunidades de compartilhar com os colegas
criada em 2009 versidade Federal do Rio Grande do Norte, ana- sua experiência como integrante da equipe que
lista de infraestrutura e uma das fundadoras do participou do projeto Patinho Feio, em 1972, um
espaço. “Fizemos um medidor de pressão mais dos dois primeiros computadores desenvolvidos
barato do que o que se vende em farmácia e que no Brasil – o outro, Zezinho, foi feito no Instituto
ainda permite visualizar as alterações por meio de Tecnologia de Aeronáutica (ITA), em 1961. “É
de um gráfico”, anima-se a analista, que também impressionante a quantidade de conhecimento
é coordenadora da PotiLivre, Comunidade Poti- que se adquire ouvindo as conversas no labo-
guar de Software Livre. ratório. Mesmo quem não tem muita formação
acadêmica sempre contribui. Uma das coisas

O s hackerspaces não têm compromisso com


resultados que sigam para os escritórios de
patentes e as prateleiras dos mercados. No-
vas tecnologias podem até surgir nesses espaços,
mas quem frequenta um hackerspace está muito
mais interessado no processo do que no fim. O
de que mais gosto no Garoa é ficar em um canto
montando algo enquanto ouço as conversas que
rolam por lá”, diz Barretto.
Área livre de convivência, lazer e discussão, o
hackerspace é, ainda, um espaço de networking,
que pode gerar oportunidades profissionais. Foi
que não impede que, eventualmente, os associa- o que aconteceu com Victor Fragoso, 21 anos,
dos de um hackerspace se unam em favor de pro- estudante de ciência da computação da Univer-
jetos com resultados mais práticos e imediatos. sidade Federal do ABC (UFABC) e ex-estagiário
Alguns desses projetos podem estar relaciona- recentemente efetivado em uma empresa de com-
dos a agendas sociais ou comunitárias. Foi o que ponentes eletrônicos. “Eu frequentava o ABC
descobriu a jornalista Beatriz Martins, de 58 anos, Makerspace, em Santo André, quando um amigo
pesquisadora associada do Laboratório Interdis- apareceu pedindo indicação de alguém para fazer
ciplinar sobre Informação e Conhecimento, vin- estágio na empresa”, conta. Agora com a agenda
culado ao Instituto Brasileiro de Informação em mais apertada, Fragoso frequenta o WikiLab, ins-
Ciência e Tecnologia (Ibict) e à Universidade talado no campus da UFABC de São Bernardo do
Federal do Rio de Janeiro. “Destaco alguns exem- Campo, na Região Metropolitana de São Paulo.
plos: o projeto de reciclagem de lixo eletrônico O WikiLab é uma consequência direta do ABC
fotos  léo ramos chaves

desenvolvido pelo LabHacker, de Santiago [RS]; Makerspace, criado em 2014 e também funcio-
o indexador de dados públicos Peba, que permite nando na UFABC, em área cedida pela reitoria,
o acesso a gastos de deputados federais, proje- depois de passar por outros espaços. As ativida-
tado pelo Teresina Hacker Clube [PI]; o projeto des têm o apoio dos professores Sérgio Amadeu
Monitora Cerrado, do Calango Hacker Clube, de da Silveira e Cláudio Penteado, do curso de po-

64  z  maio DE 2018


Novas tecnologias podem surgir nesses lugares,
mas quem frequenta um hackerspace está mais
interessado no processo do que no fim

líticas públicas, e Jerônimo Cordoni Pellegrini, mo”, lembra o arquiteto Diego Fagundes, de 33
de ciência da computação. Os três são coorde- anos, um dos dois dos fundadores, juntamente
nadores do Laboratório de Tecnologias Livres com a também arquiteta Erica Mattos, de 32. Na
da universidade. época, o grupo, de 15 a 20 pessoas, já organizava
Todo o processo de criação do laboratório de algumas oficinas e palestras, sem espaço próprio.
40 metros quadrados do ABC Makerspace, do Até que Fagundes ingressou no mestrado de ar-
projeto inicial à montagem final, foi colaborati- quitetura e urbanismo e articulou uma parceria:
vo e utilizou tecnologias livres. “Adaptamos um a faculdade cederia o espaço e o Tarrafa daria
projeto de wikihouse, disponível na internet, que apoio a disciplinas que envolvessem interativi-
permite ‘imprimir’ casas de madeira compensa- dade e tecnologias digitais. Deu certo.
da. O desenho é feito no computador e o código
inserido numa máquina que faz o corte das cha-
pas de madeira. Depois, basta encaixar as peças”,
explica Fragoso. O custo, de cerca de R$ 70 mil,
foi financiado por meio da plataforma de crowd-
funding Catarse (ver Pesquisa FAPESP nº 262).
Outros hackerspaces que funcionam dentro de
A mais recente dessas iniciativas de parce-
ria com a universidade é o Hackerspace do
Instituto de Física (IF) da USP, inaugurado
no mês passado. Para ser instalado na sala nº 100
do edifício principal do instituto, teve a articula-
ção e o incentivo do professor Alexandre Suaide.
universidades também estão abertos a frequen- “Há muito tempo os alunos sentiam falta de um
tadores e eventos externos. É o caso do Tarrafa ambiente para desenvolver projetos e atividades
Hacker Clube, que opera na Faculdade de Ar- sem vínculo formal com grupos de pesquisa ou
quitetura e Urbanismo da Universidade Federal laboratório acadêmico”, diz o físico.
de Santa Catarina, em Florianópolis. “O Tarrafa O espaço já nasceu com alguns equipamentos,
Usuários sem vínculo surgiu em meados de 2012, a partir da reunião como impressoras 3D, Arduínos e computadores
formal com grupos de alunos e ex-alunos, predominantemente das herdados de um projeto que foi interrompido
de pesquisa em
engenharias, interessados em tecnologias digitais anos atrás, deixando material ocioso. Na lista
espaço inaugurado
em abril no Instituto e, sobretudo, em uma abordagem de aprendizado de discussão do grupo já existem cerca de 50
de Física da USP mais prática, muito inspirada no faça você mes- pessoas, mas a expectativa dos organizadores é
de que esse número chegue a, pelo menos, 200.
“Nosso objetivo é que o grupo esteja aberto a
qualquer pessoa, inclusive para quem não é alu-
no da USP”, diz o aluno do IF Danilo Lessa, 24
anos, um dos fundadores do hackerspace. Suaide
apoia a autonomia: “O local favorece uma pos-
sível ponte entre a universidade e pessoas com
ideias criativas e não ortodoxas. No IF há várias
disciplinas e laboratórios de pesquisa que podem
se beneficiar de ideias nascidas no hackerspace”.

formas DE FAZER CIÊNCIA


Vislumbrando novos modelos educativos ou em-
presariais, vários pesquisadores têm se debruça-
do sobre as formas de fazer ciência estimuladas
pelos hackerspaces, makerspaces e fablabs. Em
2014, Cecília Burtet concluiu sua dissertação em
administração pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul estudando “os saberes desenvol-
vidos nas práticas em um hackerspace de Porto

pESQUISA FAPESP 267  z  65


International Design
Center, do MIT
(à esq.), e laboratório
na Universidade
Columbia (abaixo),
ambas nos Estados
Unidos: incentivo
à experimentação

Alegre”. “Minha área de pesquisa no mestrado


era aprendizagem organizacional. Dentro desse
setor, as contribuições trazidas pelo coletivo de
hackers dizem respeito à aprendizagem baseada
na prática e à discordância como impulsionador
da aprendizagem, ambientes sem regras ou hie-
rarquias dadas a priori”, exemplifica a pesquisa-
dora. Agora, no doutorado em administração pela
Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Cecília
pesquisa a relação entre o Movimento Maker,
“que teve sua origem no movimento de hacker­
spaces”, e a inovação no Brasil.
“Minha impressão é de que esses espaços têm
aumentado e devem continuar crescendo, princi- os diversos laboratórios do MIT e possibilitar aos
palmente dentro de ambientes de ensino”, diz o alunos adquirir a experiência hands on, o nosso
engenheiro de produção Victor Macul. Para ele, ‘mão na massa’”, explica Gabriela. Para facilitar
as escolas de engenharia, design e arquitetura o acesso a qualquer laboratório da instituição foi
têm uma tendência a valorizar cada vez mais o criado um aplicativo de celular, o Mobius. “Por
aprendizado baseado em projetos, e, para isso, ele, o aluno pode saber, a qualquer hora do dia
são necessários laboratórios multidisciplinares. ou da noite, qual laboratório está aberto e dispo-
“Em 2017, fiz parte da primeira turma do Fab nível para seus projetos e agendar a utilização
Academy, um programa de capacitação em fa- de equipamentos e a orientação de monitores.”
bricação digital do Instituto de Tecnologia de Juntamente com Maria José Pompeu Brasil,
Massachusetts [MIT], que se formou no Brasil”, professora aposentada pelo Instituto de Física da
conta. “Agora há mais pessoas capacitadas para Unicamp, Gabriela Celani está se empenhando
oferecer esse treinamento por aqui.” na criação de uma rede de makerspaces na Re-
A arquiteta Gabriela Celani, professora da Fa- gião Metropolitana de Campinas, vinculada às
culdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Ur- prefeituras. “Esses espaços têm um potencial de
banismo da Universidade Estadual de Campinas interdisciplinaridade que é uma das chaves para
(FEC-Unicamp), aposta no investimento em labo- a inovação”, afirma. Enquanto o apoio governa-
ratórios multidisciplinares como caminho para a mental não se concretiza, Maria José investe em
inovação e o empreendedorismo. Doutora em de- um projeto pessoal: está alugando um espaço com
fotos  Gabriela Celani / Unicamp

sign e computação pelo MIT, em 2002, ela voltou seus próprios recursos, próximo à Unicamp, para
à instituição norte-americana no início deste ano a criação de um makerspace. Ele será coordenado
para um semestre sabático e ficou surpresa com o em parceria com um ex-aluno, Claudecir Biazoli,
crescimento das iniciativas maker por lá. Dentre hoje professor de física do ensino médio. “Será
as mais interessantes está o Projeto Manus, que um espaço de divulgação e produção científica e
remete ao lema do instituto Mens et Manus (do artística aberta a toda a população, da infância à
latim, mente e mão). “Esse projeto visa conectar terceira idade”, planeja a professora. n

66  z  maio DE 2018


cam a explorar novas possibilidades em
técnicas de programação e segurança (ver
reportagem na página 62). No evento do

Desafio em Facebook, os estudantes tiveram 24 horas


para apresentar um protótipo. “Fizemos
um rodízio entre os quatro integrantes da
equipe, para que todos pudessem comer
e ter algumas horas de descanso sem que

24 horas o trabalho fosse interrompido”, conta


Leila Pompeu Zwanziger, de 20 anos.
Ela e Imamura são bolsistas de iniciação
científica da FAPESP.
O ambiente da competição estimulou
os estudantes. Engenheiros e programa-
dores do Facebook ficaram à disposição
Competição leva estudantes para tirar dúvidas das quase 20 equipes
participantes. “Poder interagir com pro-
de programação a enfrentar fissionais foi um diferencial importante
do evento”, avalia Imamura, que em 2017
problemas reais participou de um hackathon da Motoro-
la, do qual também foi vencedor. O jogo
Bruno de Pierro desenvolvido pela equipe da Unicamp
– também fazem parte Rodrigo Ama-
ral Franceschinelli e Victor Gasparotto
Capone – tem como objetivo fazer um
personagem se mover pela tela do smart-

U
phone. Para dar os comandos, o usuário
ma equipe formada por alu- escreve um programa com tarefas sim-
nos de graduação do Instituto ples de programação, utilizando os QR
de Computação da Universi- codes impressos em quadradinhos de pa-
dade Estadual de Campinas pel. Um QR code é um código quadrado,
(IC-Unicamp) venceu o Facebook Bra- que funciona de forma semelhante ao
zil Hack 2018, competição que reuniu código de barras, e pode ser escaneado
programadores e hackers de todo o país pela câmera do celular. “A finalidade do
nos dias 7 e 8 de abril em São Paulo. A jogo era ensinar lógica de programação
conquista garantiu a participação no de maneira lúdica, especialmente para
Facebook Global Hackathon Finals, crianças”, enfatiza Imamura.
marcado para o dia 15 de novembro. Para Claudia Bauzer Medeiros, pro-
Com isso, a equipe da Unicamp se jun- fessora do IC-Unicamp e orientadora de
tará a representantes de vários países Leila Zwanziger, a participação em com-
na sede da empresa norte-americana, petições desse tipo contribui para que os
no Vale do Silício, Califórnia. O projeto alunos aprendam a trabalhar colaborati-
vencedor da etapa nacional envolveu o vamente. “O sucesso do projeto depende
desenvolvimento de um jogo de celular muito do entrosamento entre os membros
para ensinar programação, inclusive a do grupo”, diz ela. “Cada vez mais o mer-
pessoas com deficiência visual. “Trata-se cado busca pessoas que saibam trabalhar
de um aplicativo para o sistema Android em conjunto.” O hackathon é uma prova
acompanhado de um kit feito de papel para testar a agilidade dos participantes
para ensinar padrões de codificação. Po- e a capacidade de raciocinar sob pres-
de ser uma alternativa barata, acessível são – no caso, o prazo apertadíssimo. “No
e divertida de aprender a programar”, fim, todos saem ganhando. Os estudantes
diz Rafael Eiki Matheus Imamura, de adquirem aprendizado e superam alguns
21 anos, aluno do IC-Unicamp. desafios por se tratar de uma experiência
O termo hackathon tem sido empre- Tela do jogo criado bem desgastante, física e emocionalmen-
gado desde a década de 1990 em eventos por estudantes para te”, diz Claudia. Ela destaca o preparo
ensinar programação,
em que jovens se juntam e passam horas, prévio que os alunos têm na universidade:
qr code freepik

inclusive a pessoas
e até dias, em maratonas de programação. com deficiência visual “Privilegiamos uma sólida formação teó-
Nesses ambientes, hackers são aqueles rica na Unicamp, sempre acompanhada
interessados em tecnologia que se dedi- de aplicações a problemas reais”. n

pESQUISA FAPESP 267  z  67


Indústria automobilística y

Eficiência
importada
Carros gastam menos combustível com
tecnologias incentivadas pelo programa
Inovar Auto, quase todas trazidas do exterior

Marcos de Oliveira
motores de
3 cilindros

Menores, são mais


leves, têm menos
peças e produzem

A
menos calor,
utomóveis e camionetes produzidos a partir de 2017
o que diminui o
no Brasil têm índices de consumo de combustível
gasto com
e de poluição menores em relação a 2012. A queda
combustível
no gasto de gasolina ou álcool foi de 15,46%, uma
média entre todos os modelos dos fabricantes de veículos
no país. Com isso, as emissões de dióxido de carbono (CO2)
resultantes da queima de combustíveis caíram 16%. Os núme-
ros fazem parte do balanço final do Programa de Incentivo à
Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva
de Veículos Automotores (Inovar Auto), vigente entre 2013 e
2017. O objetivo do programa foi aumentar a competitividade
do setor, produzindo veículos que consumissem menos com-
bustíveis e poluíssem menos. Para tanto, esperava-se que as comando de
empresas investissem em engenharia, tecnologia industrial válvulas variável
básica, pesquisa e desenvolvimento (P&D) e na capacitação
dos fornecedores em troca de vantagens fiscais temporárias. Controla de forma mais
Mas as tecnologias adotadas foram, quase na totalidade, tra- inteligente as válvulas de
zidas das matrizes no exterior para adequação aos veículos entrada de ar e combustível
fabricados no Brasil. e a saída de gases
A principal meta fixada pelo programa foi o melhor apro- queimados, principalmente
veitamento do combustível pelo motor. A melhora deveria em altas velocidades e nas
ser, em relação aos números de 2012, de no mínimo 12%; caso desacelerações
contrário, a empresa seria multada. O fabricante que atingisse
15% teria 1% de abatimento do Imposto sobre Produtos Indus-
trializados (IPI) e, se chegasse a 18%, receberia um desconto
de 2% até 2020. Para atingir essas metas, cumprindo o acordo
firmado entre o governo federal, fabricantes de veículos e au-
Soluções econômicas
Para diminuir o gasto de combustível de direção elétrica
12% a 18% os fabricantes utilizaram uma
série de estratégias A troca da direção
hidráulica pela elétrica traz
Fontes  mdic / fiat/ GM
diminuição de gasto de
combustível. A hidráulica
utiliza, para funcionar, a
energia do motor

turbo- câmbio de
compressores 6 marchas

Os motores de três Manual ou


cilindros garantem maior automático, a
potência ao veículo sem marcha extra serve
maior gasto de para espaçar e
combustível ao injetar dividir mais a força
mais ar para a queima do motor e diminuir
do combustível o consumo e o ruído

start & stop

Um sistema que
desliga o motor no
momento em que
o carro para – em um
semáforo, por
exemplo – e o religa
topeças, a indústria incorporou novas tecnologias aos veículos:
quando o motorista
novos motores, materiais mais leves, eletrônica embarcada e
aciona o acelerador
pneus com menos resistência ao rolamento.
As estratégias tecnológicas envolveram principalmente o
desenvolvimento de soluções para os motores flex, únicos que
funcionam com gasolina e etanol em qualquer proporção. A
adaptação das inovações ao sistema flex foi a área que mais
exigiu da engenharia brasileira. Um exemplo foi a dissemi-
nação do uso de motores de três cilindros no lugar dos de
pneus verdes quatro convencionais. Eles têm menos peças e são mais leves
do que os de quatro cilindros, apresentando menor atrito e
A borracha tradicional
geração de calor, o que resulta na diminuição do consumo de
traz sílica e outros
combustível. Esses motores começaram a ser trazidos do ex-
materiais na sua
terior em 2011, principalmente para carros 1.0, mas também
composição. Os pneus
são produzidos localmente.
têm menor resistência ao
Muitas das tecnologias utilizadas para atingir as metas do
rolamento e são capazes
Inovar Auto foram importadas ou estavam presentes apenas
de economizar 2% de
em veículos de luxo ou esportivos, como o comando de válvulas
combustível
com temporização variável, que evita queimas de combustível
desnecessárias. Os engenheiros locais adaptaram esse tipo de
tecnologia, existente desde os anos 1990, aos motores 1.0 de
3 cilindros e ao sistema flex. Já estão em uso nos modelos Up
(Volks), Ka (Ford), HB 20 (Hyundai) e Mobi (Fiat).
Outra estratégia é o uso dos chamados pneus verdes, que
eduardo cesar

têm menor resistência ao rolamento e exigem menos força do


motor. Custam 7% a mais que os comuns, mas podem ajudar a
economizar até 10% de combustível. Desenvolvidos por vários
fabricantes de pneus, empregam novos
materiais e trazem modificações na es- Avanços parciais
trutura interna e no desenho da banda
de rodagem. As montadoras utilizaram Resultados dos veículos produzidos em 2017
ainda linhas aerodinâmicas no design em relação a 2012 no Brasil (média)
dos veículos que diminuem a resistência
ao ar e peças mais eficientes como novos Fonte mdic

alternadores que aperfeiçoam a recarga


da bateria, bombas de gasolina e direção
elétrica (ver quadro nas páginas 68 e 69).

Quantidade de CO2 não


MENOS 32 QUILOS
lançada na atmosfera
A General Motors (GM) passou a utili-
zar câmbios com seis marchas tanto no
manual como no automático. A marcha 737,4 mil
extra contribui para diminuir o consumo t/ano
Queda na emissão de
e reduzir o ruído em alta velocidade. A grama por CO2 por
empresa tem o veículo mais vendido no quilômetro (g/CO2)
Brasil, o Onix, e seus engenheiros con-
seguiram reduzir o peso do carro em 32
de 155 g de CO2
quilos ao retrabalhar mais de 100 com-
ponentes, além de aumentar o uso de aço
para 131g de CO2
mais leve. Adicionando os pneus verdes,
eles alcançaram o índice de 18% no geral
em economia de combustível, de 2012 a
2017. Como comparação, a empresa di-
vulga que o carro antecessor, o Corsa, ga-
nhou eficiência energética de 10% duran-
te o seu ciclo de vida, entre 1994 e 2016,
uma evolução menor em um intervalo de
tempo quatro vezes maior em relação ao lei que estabeleceu o programa foi de cas no Brasil para produzir no mínimo 35
Onix. “Os incentivos destinados à pes- R$ 6,5 bilhões ao longo de cinco anos, mil unidades ao ano, além de motivar as
quisa e ao desenvolvimento promovidos equivalente a 1,5% da receita bruta das já instaladas no país a investir em novos
pelo Inovar Auto proporcionaram o mais empresas sobre o IPI com a compra de produtos, tecnologias e instalações. “Isso
relevante salto em eficiência energética matéria-prima nacional e importada, gerou empregos, embora tenha faltado
da indústria automobilística. Nesse que- ferramentaria, investimento em P&D e incentivos de P&D para a indústria de
sito, o carro no Brasil evoluiu nos últimos capacitação de fornecedores, incluindo autopeças”, diz Gábor.
cinco anos mais do que nos últimos 20 os percentuais das montadoras que tive-
anos”, compara Marcos Munhoz, vice- ram redução de preço nos carros novos. SEM INOVAÇÃO RADICAL
-presidente da GM Mercosul. A indústria automobilística é responsá- A maior parte das vendas no Brasil é de
Apenas duas empresas, a GM e a Ford, vel por 22% do Produto Interno Bruto carros de menor valor. “A competição
atingiram a meta de 18% prevista no Ino- (PIB) industrial de 4% do PIB total, em- é feroz, com juros zero, pagamento de
var Auto. As que chegaram a 15% são pregando 1,6 milhão de trabalhadores. IPVA [Imposto sobre a Propriedade de
Audi, Honda, Mercedes-Benz, Nissan, “Foram metas ambiciosas, tivemos Veículos Automotores] etc. Qualquer tec-
Renault, Toyota, Volkswagen e Grupo uma melhora na eficiência energética en- nologia a mais significa aumento de cus-
PSA (Peugeot e Citroën). As demais que tre 12% e 18% e provavelmente isso não to. Com incentivos, todas as montadoras
têm fábrica no Brasil alcançaram o pa- aconteceria sem o Inovar Auto”, opina o correm atrás porque podem ter preços
tamar de 12%. engenheiro Gábor Deák, conselheiro da maiores e ganham descontos no preço
Na avaliação do MDIC, de maneira Sociedade de Engenheiros da Mobilida- final”, comenta o físico Waldyr Gallo,
geral, os resultados foram muito bons, de (SAE Brasil) e do Sindicato Nacional da Faculdade de Engenharia Mecânica
levando-se em consideração o acordo e da Indústria de Componentes para Veí- da Universidade Estadual de Campinas
o investimento previsto pela indústria culos Automotores. O Inovar Auto deu (Unicamp). Gallo coordena o Centro de
automobilística instalada no Brasil, de prazo de quatro anos para a indústria Pesquisa em Engenharia Professor Ur-
R$ 5 bilhões por ano de vigência do pro- local se ajustar, dificultou a importação bano Ernesto Stumpf, única unidade de
grama. Os veículos produzidos dentro com o acréscimo de 30% de IPI no preço pesquisa ligada às montadoras por meio
dos parâmetros do Inovar Auto entre de carros importados de empresas que de parceria entre um fabricante de car-
outubro de 2016 e durante todo o ano não fabricassem veículos aqui. Isso en- ros, a PSA, e uma agência de fomento à
de 2017 somaram 1,754 milhão de uni- corajou montadoras como Audi, BMW, pesquisa, a FAPESP, que envolve pes-
dades. A renúncia fiscal realizada pela Land Rover e Mercedes a montar fábri- quisadores de várias instituições para

70  z  maio DE 2018


Tecnologia, Inovações e Comunicações
(MCTIC) não tem dados de indicadores
relativos a P&D no setor automobilístico.
A falta de acompanhamento rigoroso
do Inovar Auto, mostrando os resultados
ao longo do desenvolvimento do progra-
ma, é uma falha apontada pelo engenheiro
Queda na de produção Roberto Marx, professor da
emissão de CO2 Escola Politécnica (Poli) da USP. “Para
uma política industrial dessa relevância,
16% é preciso contemplar desde o início uma
avaliação sistemática dos resultados, sem
entrar em dados sigilosos e individuais de
cada empresa. O governo deveria mostrar
à sociedade quais foram as metas supera-
das e o que está sendo realizado, inclusive
em P&D”, afirma Marx. “Na área de P&D,
outra questão fundamental é saber se as
Queda do consumo empresas tomam decisões de melhorar
de combustível os veículos por conta dos incentivos da-
dos pelo governo federal ou se o fariam
mesmo sem eles. Fica a dúvida: sem in-
15,46% Economia de centivos, as montadoras não fariam P&D,
combustível deixando os carros desatualizados? Isso é
um dilema de décadas da política indus-
370,78 milhões trial no Brasil.” Segundo o pesquisador,
de litros o Inovar Auto só avançou em relação as
inciativas anteriores porque exigiu con-
trapartidas mais precisas das empresas.
Adriana Marotti, professora da Fa-
estudos do motor a etanol. “Esse centro culdade de Economia, Administração
não teve inspiração do Inovar Auto. Pes- e Contabilidade (FEA) da USP, que es-
quisamos novas configurações de mo- tuda o tema, também avalia que o maior
tores, redução de consumo, de emissão benefício do Inovar Auto foi exigir das
de gases e seus impactos e a viabilidade montadoras contrapartidas em resulta-
econômica e ambiental”, diz Gallo. Fica a impressão dos, no caso a eficiência energética. Já em
O estudo “O sistema de inovação do relação a P&D, não há o que comemorar.
setor automotivo brasileiro: Lições apren- de que, sem “Não há inovação radical local na indús-
didas com o Inovar Auto” feito por Paulo tria automobilística brasileira, tirando os
Kaminski, coordenador do Centro de En-
incentivos, as motores a etanol. O número de patentes
genharia Automotiva da Escola Politéc- empresas não é sempre perto de zero”, diz. “As mon-
nica da Universidade de São Paulo, e pe- tadoras consideram P&D as pequenas
los engenheiros mecânicos e professores fazem P&D modificações nas carrocerias, que fazem
Ugo Ibusuki, da Universidade Federal do de tempos em tempos em um modelo. O
ABC, e Erik Telles Pascoal, da Faculdade e deixam mesmo ocorre com a tropicalização de
de Engenharia de Resende (RJ), questio- veículos importados.” Para Adriana, parte
na a competitividade do setor na área de
os carros também da definição do que é P&D no
P&D. “Percebemos que do ponto de vista desatualizados, Inovar Auto não ficou clara.
infográfico ana paula campos ilustraçãO freepik

da inovação radical na indústria automo- O programa terminou em 2017, como


bilística instalada no Brasil ainda falta diz Roberto previsto, mas recebeu um ano antes a
muito para sermos competitivos”, conta condenação da Organização Mundial do
Kaminski. “Grande parte do desenvolvi- Marx, da Poli Comércio (OMC), que considera ilegais
mento da inovação na indústria continua programas que concedam incentivos fis-
vindo das matrizes e o Inovar Auto não cais a fabricantes locais e imponham tri-
mudou muito a situação nas montadoras butação extra para bens importados (ver
do país. O programa foi formado em meio Pesquisa FAPESP nº 251). Essa situação
à crise industrial brasileira, quando as precisará ser evitada no Rota 2030, novo
empresas perderam mercado e empre- programa federal para o setor automotivo
gos”, observa. O Ministério da Ciência, previsto para ser anunciado neste ano. n

pESQUISA FAPESP 267  z  71


Engenharia Aeronáutica  y

Dirigível sobre
a floresta
Aeronave autônoma
construída no Brasil

A
o voar lentamente e a baixas
altitudes sobre a floresta na
vai monitorar
região de Mamirauá, no esta- reservas ambientais
do do Amazonas, o dirigível
Noamay deverá localizar e captar sinais na Amazônia
de rádio emitidos por colares instalados “Por enquanto, o dirigível tem uma
em macacos e onças. Esse tipo de aero- autonomia de voo de uma hora, mas no
nave poderá também obter, por meio futuro será possível mantê-lo no ar por
de sensores, dados sobre o ar e o solo. mais tempo, sustentado pelo gás hélio e
O dirigível não tripulado, que mede 11 por motores elétricos energizados por
metros (m) de comprimento e 2,50 m de O dirigível traz uma inovação impor- baterias”, explica Bueno. Em relação aos
diâmetro na parte mais larga, foi proje- tante, segundo Bueno: quatro motores equipamentos de sensoriamento a serem
tado para voar de forma autônoma com elétricos com hélices instalados de forma embarcados na aeronave, ele acrescenta:
um trajeto predefinido ou teleguiado que possam girar em 360° e funcionar “Poderemos instalar antena e receptor
por um piloto em terra. “Fizemos o cada um de modo independente, permi- para localizar e acompanhar animais que
primeiro voo no modo teleguiado em tindo subir e pousar na vertical, pairar no portam colar transmissor, câmeras em
3 de março, a partir da pista de pouso ar e voar fazendo manobras. “Esse novo diferentes faixas de espectro, um laser
da cidade de Balsa Nova, no Paraná”, sistema, que chamamos de vetorização Lidar [sigla de detecção de luz e medida
conta o engenheiro eletrônico Samuel multidimensional, permite controlar a de distância] para mapear o solo e tentar
Siqueira Bueno, pesquisador do Cen- aeronave com mais precisão nos seus localizar ruínas de presença humana an-
tro de Tecnologia da Informação (CTI) três eixos, o que facilita o voo pairado tiga ou outros sensores para saber a com-
Renato Archer – entidade do Ministério mesmo com a ocorrência de ventos late- posição do ar sobre a floresta.”
da Ciência, Tecnologia, Inovação e Co- rais. Inédito, o sistema facilita controlar As baterias recarregáveis do Noamay
municações (MCTIC), em Campinas, o dirigível em baixas velocidades e por são de polímeros de lítio (LiPo), de alta
que liderou o projeto Droni – Dirigível isso estamos preparando patentes para capacidade. Sem gás hélio, apenas com
Robótico de Concepção Inovadora. serem depositadas no Brasil e no exte- os equipamentos para voar, o dirigível
O Noamay – “cuidar e proteger” na rior”, explica o engenheiro aeronáutico pesa aproximadamente 38 quilogramas
língua indígena yanomami – entrará em Christian Amaral, sócio da Omega Ae- (kg), com capacidade para mais 6 kg de
operação no segundo semestre deste ano roSystems, empresa de Campo Largo carga. Vazio e dobrado, o envelope cabe
no Instituto de Desenvolvimento Susten- (PR) que projetou e construiu o dirigí- dentro de uma mala grande de viagem.
tável Mamirauá (IDSM) – organização vel e também fez parte do projeto Dro-
social ligada ao MCTIC –, que também ni. Amaral explica que os dirigíveis são plataforma multiuso
participou do projeto Droni. O instituto mais úteis em algumas situações do que Outro desafio dos pesquisadores é ter-
atua nas reservas ecológicas de Mamirauá os drones porque podem voar por mais minar o desenvolvimento do sistema de
e Amanã, com um total de 3,4 milhões de tempo, levando uma carga muito maior controle autônomo do Noamay. “Con-
hectares. O projeto Droni foi financia- e fazer voos pairados com maior esta- cluímos em 2002 o desenvolvimento de
do pelo Conselho Nacional de Ciência bilidade. As baterias dos drones duram um sistema de voo autônomo para nosso
e Tecnologia (CNPq) entre 2014 e 2017. poucas dezenas de minutos. primeiro dirigível, comprado no exterior,

72  z  maio DE 2018


Noamay no ar:
quatro motores
elétricos com hélices
que podem girar
em 360º de forma
independente

em 1998”, conta Bueno, que coordenou Omega e do IDSM, também participam


o projeto Aurora, sigla em inglês para do projeto as universidades Federal da
Dirigível Robótico Autônomo Não Tri- Amazônia (Ufam), Estadual de Campi-
pulado para Monitoração Remota (ver nas (Unicamp), Instituto Tecnológico de
Pesquisa FAPESP nº 84). A aeronave era Aeronáutica (ITA) e Instituto Superior
controlada pelo computador e sensores Técnico de Lisboa, de Portugal. Essa co-
embarcados. “Com esse sistema, o dirigí- laboração multi-institucional dá prosse- O dirigível precisa de 40 metros cú-
vel realizava voo de cruzeiro autônomo, guimento às pesquisas e aplicações do bicos (m3) de hélio. O gás pode ser com-
mas as operações de decolagem, aterris- Noamay no âmbito do Instituto Nacional prado, acondicionado em cilindros, em
sagem e voo pairado eram controladas de Ciência e Tecnologia para Sistemas Tefé, cidade-sede do Instituto Mami-
pelo piloto em terra”, diz. Autônomos Cooperativos (InSAC). rauá. O preço médio é R$ 120,00 o m3, o
O estabelecimento de um controle ge- O engenheiro eletricista José Reginaldo que significa R$ 4.800,00 para encher o
ral, que inclua decolar, pairar sobre um Hughes Carvalho, professor no Instituto dirigível. “Estamos projetando um reser-
ponto escolhido, fazer aterrissagem e até de Computação da Ufam, diz que o Noa- vatório de material sintético para acon-
decidir sozinho a rota e a missão de acor- may poderá se transformar em uma pla- dicionar o gás e não o perder, caso seja
do com os dados captados pelo próprio taforma multiuso, tanto como alternativa necessário esvaziar o envelope do di-
dirigível, ainda necessita de metodolo- mais segura e barata aos voos tripulados rigível”, explica Amaral, da Omega. A
gias que estão sendo desenvolvidas de (usados para rastreamento de animais e empresa pretende, no futuro, produzir a
forma simulada, para depois serem tes- coleta de informações ambientais) quanto aeronave em escala. “O mercado mundial
tadas. “Metodologias de piloto automá- para aquisição de dados, oferecendo uma de dirigíveis, dos remotamente pilotados
tico para dirigíveis que cumpram todas cobertura maior que os sensores fixos. aos autônomos, para aplicações ambien-
Samuel Bueno / CTI

essas fases de voo inexistem no mundo. “Com o diferencial de ser silencioso e, tais e de sensoriamento, estando ainda
Por isso, temos vários estudantes de pós- ao mesmo tempo, flexível, sendo capaz em processo de formação, apresenta um
-graduação envolvidos nesses estudos”, de pairar sobre um ponto de interesse e grande potencial de expansão a médio e
conta o pesquisador. Além do CTI, da prosseguir para o próximo”, acrescenta. longo prazos.” n Marcos de Oliveira

pESQUISA FAPESP 267  z  73


Amnésia, de Flávio
Cerqueira, 2015.
A exposição Histórias
afro-atlânticas será
aberta ao público a partir
de junho no Masp e no
Instituto Tomie Ohtake,
em São Paulo

74  z  maio DE 2018


humanidades   história y

Ú caminhos
ltimo país do Ociden-
te a abolir a escravidão
mercantil, o Brasil foi
a nação que mais rece-
beu africanos expatria-
dos. Foram 4,7 milhões
de pessoas entre 1550 e

da
1860, cerca de 40% de
toda diáspora africana.
Passados 130 anos da
assinatura da Lei Áurea, ocorrida em
13 de maio de 1888, o conhecimento
científico acumulado permite entender
novos aspectos desse regime que con-

liberdade
seguiu se perpetuar sobretudo graças
ao uso disseminado da violência. Um
exemplo é o Dicionário da escravidão
e liberdade – 50 textos críticos (Com-
panhia das Letras), lançado este mês e
que reúne um conjunto de estudos de
especialistas nacionais e estrangeiros
no assunto. Eles mostram, por exem-
plo, como os escravos passaram a ser No marco de seus
entendidos como protagonistas de suas
próprias histórias, capazes de organizar 130 anos, pesquisas
rebeliões e manter famílias mesmo nas
adversas condições das senzalas. No
mostram o papel de
aprofundamento das pesquisas aca- diferentes protagonistas
dêmicas sobre o tema, características
específicas da escravidão nos meios no processo de
rural e urbano, assim como as relações
entre escravizados negros e indígenas abolição da escravidão
também vieram à luz. Analisada como
um processo que envolveu diferentes
no Brasil
protagonistas, de personalidades po-
líticas a associações de trabalhadores
e, sobretudo, negras e negros livres ou
escravizados, a Abolição também pas- Christina Queiroz
sou a ser vista como uma medida que
estabeleceu igualdade jurídica entre a
população – mas que não se traduziu
em equidade racial.
coleção do artista / foto rômulo fialdini

Flávio dos Santos Gomes, professor


do Instituto de História da Universida-
de Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e
um dos organizadores do livro, ao lado
de Lilia Moritz Schwarcz, professora
no Departamento de Antropologia da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciên-
cias Humanas da Universidade de São
Paulo (FFLCH-USP), explica que os

pESQUISA FAPESP 267  z  75


últimos 20 anos foram marcados pelo aprofun-
diáspora pelo mundo damento dos estudos sobre aspectos pontuais
Brasil recebeu 40% dos africanos expatriados da história da África, escravidão, Abolição e pós-
Abolição. “Esses campos de pesquisa anterior-
mente eram avaliados de forma mais abrangente
e panorâmica, de maneira que ocorriam genera-
lizações em relação à origem dos africanos e às
especificidades da escravidão no território bra-
europa
sileiro”, lembra. Outra tendência das pesquisas
recentes, segundo ele, é pensar a escravidão da
américa
do norte perspectiva atlântica, mostrando como ela per-
meou as relações sociais, econômicas e políticas
entre a África, a Europa e as Américas.
caribe África Ao levantar dados em bancos de teses defendi-
das nos últimos 50 anos, no Brasil e nos Estados
Unidos, em censos provinciais armazenados em
arquivos públicos e livros paroquiais de igrejas,
Brasil Herbert S. Klein, professor emérito de história
3
2 na Universidade Columbia, nos Estados Unidos,
1 identificou que dois terços dos escravos que che-
Africanos desembarcados
no Brasil:
garam ao Brasil, durante os mais de 300 anos de
1 Sudeste 2.263.914
tráfico, eram homens adultos. Setenta por cento
Bahia 1.550.355
dos escravos provinham da África centro-ociden-
2
Pernambuco 853.833
tal, 18% do golfo de Benin e 6% de Moçambique,
3
Outros 54.041
contabiliza. “Cerca de 80% dos escravos de ambos
Total 4.722.143
os sexos eram economicamente ativos, o que é
Fonte www.slavevoyages.org
uma taxa de participação extraordinariamente
alta”, observa. No Brasil, durante a vigência da
escravidão, a expectativa de vida dessa popula-
escravidão no brasil ção era cinco a 10 anos menor do que a de negros
2/3 norte-americanos, por exemplo, que viviam, em
média, 33 anos.
homens

A
lém de identificar os perfis da população
4,7 milhões 3/4 africana e afrodescendente no Brasil,
Adultos pesquisas recentes procuram entender
Total (maiores de 18 anos)
de escravos as especificidades que a escravidão ad-
africanos quiriu em território nacional. Schwarcz
80% explica que, nesse sentido, ganham evidência as
Fontes Herbert S. Klein/
Universidade Columbia (EUA) / economicamente ativos análises sobre a Amazônia, região pouco privi-
dicionário da escravidão e
liberdade (de ambos os sexos) legiada nos estudos sobre o tema, que permitem
compreender dinâmicas estabelecidas entre in-
dígenas e africanos no país. O texto “Amazônia
escravista”, coautoria entre Schwarcz e Gomes,
que integra o dicionário, mostra que a chega-
população brasileira em 1872 da de africanos está relacionada ao estabeleci-
mento de lavouras na região. Eles se tornaram
majoritários a partir do século XVIII por causa
NEGROS
ESCRAVOS OUTROS
dos lucros auferidos pelo tráfico, mas também
15,24% 41,76% porque os indígenas resistiam ao trabalho com-
1,5 milhão 4,3 milhões
pulsório e conseguiam escapar de seus algozes
com mais facilidade, devido ao domínio do ter-
TOTAL ritório. Os africanos, por sua vez, chegavam de-
10 milhões
NEGROS
de habitantes bilitados e doentes depois de cruzar o Atlânti-
NÃO ESCRAVOS
43%
no Brasil co em porões de navios, em viagens com cerca
4,2 milhões de três meses de duração, e eram considerados
“mais fáceis de domesticar”. Com isso, enquanto
um escravo africano custava 20 mil réis, o índio
Fonte  Censo nacional
imperial de 1872 valia 7 mil, entre 1572 e 1574. Crianças também

76  z  maio DE 2018


população João em 1807. A partir de 1870, o debate assume
maior proporção e grupos e movimentos abolicio-
cronologia
brasileira nistas são criados em diferentes regiões do Brasil.
2012-2017 “As ideias abolicionistas circulavam pelos países 1545-1550
207,1 escravistas por meio de marinheiros e viajantes, e Primeiras entradas
milhões escravizados inflamavam-se com as notícias vindas
sistemáticas de africanos
escravizados no Brasil,
total
da independência do Haiti”, exemplifica Schwarcz. enviados a engenhos
2012 46,6%
branca da população Angela Alonso, professora no Departamen- em Pernambuco, Bahia e
outros lugares
2017 43,6% brasileira to de Sociologia da FFLCH-USP e presidente
do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
preta
7,4%
(Cebrap), explica que as primeiras interpreta- 1650-1780
Desenvolvimento de
8,6% ções sobre o fim da escravidão foram escritas lavouras de arroz,
por abolicionistas simpáticos à Coroa imperial, algodão, fumo e da
2012 45,3%
parda que atribuíam importância excessiva ao papel pecuária em todo o país,
com utilização de
2017 46,8% da princesa Isabel (1846-1921) no processo. Com
trabalho escravo,
Fonte ibge, 2017 isso, ela passou a ser vista como a protagonista principalmente africano
da iniciativa, quando, na realidade, diferentes se-
tores da sociedade estavam mobilizados em prol 1695
da causa desde pelo menos 1868. “A partir desse Assassinato de Zumbi
ano até 1888, identifiquei a existência de mais dos Palmares, um dos
líderes da resistência
eram vendidas. “Apesar de maioria, os africanos de 200 associações abolicionistas atuantes no
contra a escravidão
não chegaram a substituir totalmente os índios Brasil, revelando o trabalho de diferentes grupos
no trabalho compulsório”, informa Schwarcz. O engajados na campanha”, esclarece Angela, que
sistema escravista também utilizou, sempre que realizou pesquisas em jornais da época.
1807-1835
Revoltas escravas
pôde, a mão de obra indígena.

E
ocorrem em diversas
A pesquisadora lembra que até recentemente la destaca a trajetória de líderes abolicio- regiões da Bahia

os estudos historiográficos indicavam um mero nistas que atuaram em diferentes frentes:


processo de substituição: a escravidão indígena Luís Gama (1830-1882) no Judiciário, José 1815
Tráfico atlântico ao norte
teria sido substituída pela africana e, após a Abo- do Patrocínio (1854-1905) no espaço públi- da linha do Equador é
lição, os postos de trabalho antes destinados aos co, Joaquim Nabuco (1849-1910) no Parla- proibido depois da
negros teriam sido ocupados pelos imigrantes eu- mento, e André Rebouças (1838-1898), que atuou assinatura de tratado
ropeus. “Estudos recentes comprovam que essas em várias áreas. Uma das táticas empregadas, entre Brasil e Reino
Unido
populações conviveram nos mesmos espaços de sobretudo a partir de 1883, já havia sido utiliza-
trabalho”, afirma a pesquisadora. Ela explica que da por lideranças de outros países para libertar
indígenas e africanos trabalharam juntos nas ca- escravos. Segundo Angela, nos Estados Unidos 1831
Proibido o tráfico de
pitanias de Pernambuco e da Bahia, com o desen- grupos de ativistas abolicionistas organizavam escravos para o Brasil
volvimento do cultivo da cana-de-açúcar a partir roubos de escravos para levá-los a regiões em que
de 1550. “Uma das principais peculiaridades da não havia escravidão, ou mesmo ao Canadá. “No 1850
escravidão no Brasil foi sua disseminação por to- Brasil, não havia território livre de escravidão, Promulgação da Lei
do o território nacional, diferentemente do que de maneira que eles se esforçaram por criá-los”, Eusébio de Queirós,
que reforça a proibição
ocorreu em outras áreas coloniais das Américas, conta. Assim, investiram em campanhas de liber- do tráfico para o país
onde ela foi escassa ou inexistente em algumas tação em províncias menores, onde havia poucos
partes.” Segundo Schwarcz, no século XVIII, as escravos e autoridades simpáticas ao abolicionis- 1871
descobertas de minas de ouro levaram a uma cor- mo e nas quais as forças de repressão do governo Lei do Ventre Livre
rida à região central do Brasil, enquanto a partir imperial tinham dificuldade de chegar. Esse foi é assinada
do século XIX a economia exportadora cafeeira o caso do Ceará. A campanha envolvia captação
mobilizou a criação de senzalas nas fazendas do de recursos para a compra da liberdade e o con- 1884
Sudeste, marcando diferentes formas de distri- vencimento dos senhores para que alforriassem Escravidão é abolida
infográfico ana paula campos  ilustraçãO freepik

nas províncias do Ceará


buição da população escravizada. seus escravos. Depois da libertação de escravos e Amazonas
em diferentes municípios, em 1884 o presidente
Múltiplos protagonistas da província, em aliança com os abolicionistas, 1885
Pesquisas recentes sobre a Abolição evidenciam declarou o fim da escravidão naquele território. Lei dos Sexagenários é
que a extinção oficial do trabalho escravo no Brasil O acontecimento levou Patrocínio e Nabuco a assinada
se deu por meio do esforço de vários protagonistas, organizarem celebrações na França e no Reino
incluindo lideranças políticas, associações comer- Unido, reforçando a pressão internacional para 1888
ciais e dos próprios africanos e afrodescendentes. que o governo brasileiro elaborasse um plano de Abolição da escravidão
no Brasil
O início do debate sobre a emancipação dos es- extinção do regime escravagista. Mais tarde, a
cravos é antigo, com a pressão pelo fim do tráfico mesma tática foi adotada para liberar a provín-
Fonte  Dicionário da
começando já na época da vinda da Corte de dom cia do Amazonas. Escravidão e Liberdade
A família, s/d, de
Sidney Amaral
(1973-2017).
Bronze polido
(10 × 20 × 2 cm).
Edição 03/03 –
Prova do artista

Na avaliação de Angela, outro fato relevante tornaram célebres, como a Revolta dos Malés em
ocorreu após uma fuga massiva de escravos de 1835, na Bahia, e a Revolta de Manuel Congo em
Itu para Santos, no litoral de São Paulo, em 1887. 1838, em Vassouras, Rio de Janeiro, repercutiram
Acionado pelo governo imperial, o Exército pro- em todo o país, evidenciando a possibilidade de
moveu um massacre dos fugitivos na travessia da insurgência em diferentes regiões. “Essas re-
serra do Mar. O acontecimento teve repercussão voltas ajudaram a criar as bases do movimento
negativa em todo o Brasil e agravou a crise exis- abolicionista”, afirma a historiadora. Aos poucos,
tente entre governo e Exército – que, na ocasião, a causa se expandiu e passou a envolver grupos
reivindicava aumento do salário da tropa. A partir sociais como sapateiros, padeiros e jornalistas,
de então, os militares declararam que não iriam que criaram sociedades empenhadas em reunir
mais reprimir rebeliões ou capturar escravos o montante necessário para comprar a liberdade
fugitivos, tirando do Império os meios que dis- de cativos. A possibilidade de comprar a alforria
punha para sustentar a escravidão. de escravizados – seja por eles mesmos ou por
Como parte da campanha abolicionista, as lide- terceiros – se ampliou após a promulgação da Lei
ranças exigiam não apenas a promulgação de uma do Ventre Livre, em 1871. “A Abolição foi um mo-
lei para extinguir o regime de trabalho forçado vimento gestado não somente nas altas esferas po-
em todo o país, como também o pagamento de líticas e institucionais. Vários atores participaram
um salário mínimo aos egressos da escravidão e do processo”, destaca a pesquisadora.
a doação de terras próximas às estradas de ferro,

E
sem que houvesse a necessidade de desapropria- ntre os anos 1960 e 1970, a chamada Escola
ção das propriedades dos senhores. Já as classes Sociológica de São Paulo trabalhava com
senhoriais reivindicavam indenização pela perda a ideia de que os escravos eram incapazes
dos escravos. “Em 1888, a Lei Áurea descartou de interferir em suas trajetórias. Além de-
ambas as possibilidades e o que aconteceu foi um les, pensadores ligados à corrente teórica
empate político”, analisa Angela, lembrando que marxista ortodoxa insistiam que o escravo não
o Império não se comprometeu em fiscalizar o tinha consciência de classe, algo intrínseco ao
cumprimento da lei, tampouco em estabelecer trabalhador livre e assalariado. Essa concepção
políticas públicas de inserção de ex-escravizados mudou. “Existe hoje uma corrente historiográ-
no mercado de trabalho. fica consistente que trabalha com a ideia de que
Wlamyra Albuquerque, professora de história os escravos não sofriam de anomia”, diz Marcelo
na Universidade Federal da Bahia (UFBA), por Mac Cord, professor da Faculdade de Educação
sua vez, constatou em suas pesquisas que revol- da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ele
tas escravas aconteceram desde os primórdios explica que essa vertente de estudos teve em teó-
da adoção do regime no Brasil. Rebeliões que se ricos ingleses, como Edward Palmer Thompson

78  z  maio DE 2018


(1924-1993), seu ponto de inflexão, na medida isso, o país criou políticas estimulando a chegada
em que se começou a enxergar escravos como de trabalhadores europeus, estratégia que difere
sujeitos históricos. daquela observada em regiões do Caribe, como
Tal visão, na interpretação de Wlamyra, re- Cuba, por exemplo. Lá a prioridade era atrair imi-
lativiza o olhar de vertente historiográfica que gração asiática apta a atuar na produção de açúcar.
vigorou até meados dos anos 1980 e que atribuía “Na narrativa histórica, justificou-se que a vinda
à pressão inglesa papel preponderante no proces- de europeus para as lavouras e fábricas brasileiras,
so de extinção da escravidão. Como resultado da entre o final do século XIX e o começo do XX, se
Abolição em diferentes regiões das Américas, no deu porque eles eram mais qualificados do que os
decorrer do século XIX a pressão internacional egressos da escravidão”, lembra Gomes. No entan-
cresceu para que o Brasil fizesse o mesmo. Depois to, muitas famílias de imigrantes chegavam com os
de firmar, com o Reino Unido, tratados que da- mesmos níveis de capacitação dos ex-escravizados,
vam base legal para a repressão ao tráfico e para observa. Robério Souza, professor de história da
a emancipação de africanos encontrados a bordo Universidade do Estado da Bahia (Uneb), explica
de navios negreiros, o país promulgou, em 1831, que, apesar das tentativas de substituir a força de
uma lei proibindo o tráfico atlân- trabalho de ex-escravizados por imigrantes euro-
tico. Beatriz Gallotti Mamigonian, peus, os negros não desapareceram do mercado e
professora do Departamento de disputavam espaço com os recém-chegados tanto
História da Universidade Federal Pesquisadores nas lavouras quanto nas fábricas. “Mas havia uma
de Santa Catarina (UFSC), conta hierarquia que levava os imigrantes brancos aos
que a aplicação da lei de 1831 foi buscam melhores postos”, diz, lembrando que não exis-
desigual e não resistiu aos inte- tia legislação regulamentando a jornada diária
resses de traficantes e fazendei-
compreender de trabalho nem a remuneração, o que só viria a
ros. “Assim, mesmo tendo direi- por que a acontecer nos anos 1930, com o governo de Ge-
to ao estatuto de africanos livres túlio Vargas (1882-1954).
e, portanto, à liberdade, cerca de Abolição não

U
800 mil pessoas foram importa- ma das possibilidades para egressos do
das entre 1830 e 1856 e mantidas se traduziu cativeiro foi servir às Forças Armadas,
como escravas”, afirma. De acor- conforme estudos de Álvaro Pereira do
do com ela, os 11 mil capturados e
em equidade Nascimento, professor de história da Uni-
emancipados ficaram sob tutela do racial versidade Federal Rural do Rio de Janeiro
governo imperial, atuando em fá- (UFRRJ), campus de Nova Iguaçu. Segundo ele,
bricas, obras públicas e hospitais. desde meados do século XIX escravos fugidos e
“Eles trabalhavam sem salário, em libertos se alistavam para atuar no Exército ou
troca de comida e roupa, como os na Marinha e isso seguiu como uma possibilida-
escravos”, explica Beatriz. de depois de decretada a Abolição. Nas Forças
Armadas eles recebiam um salário, uma farda e
O dia seguinte tinham onde dormir – mas seguiam sendo víti-
Apesar de reconhecer que a Lei Áurea estabele- mas das práticas violentas que caracterizaram
ceu a igualdade jurídica entre negros e brancos, todo o regime escravagista no Brasil. “Em 1910,
Wlamyra, da UFBA, afirma que a legislação não 90% dos marinheiros brasileiros eram negros”,
envolveu a defesa da igualdade racial. “Muitos destaca. Ele fez a constatação a partir de pes-
abolicionistas brancos queriam se livrar da pre- quisas realizadas em relatórios do Exército e da
sença dos negros na sociedade brasileira e, nesse Marinha, armazenados no Arquivo Nacional, na
sentido, alguns projetos parlamentares previam a Biblioteca Nacional e no Arquivo da Marinha.
deportação de ex-escravizados para formação de Área do conhecimento que passou a atrair a
colônias na África. Hoje, um dos principais desa- atenção de pesquisadores brasileiros com mais
fios da historiografia é entender por que a igualda- intensidade a partir da década de 1980, as pesqui-
de jurídica não se traduziu em igualdade racial”, sas sobre o pós-Abolição representam um campo
cortesia galeria pilar / foto léo ramos chaves

destaca a pesquisadora. Após a extinção oficial da fértil que merece ser aprofundado, na avaliação
escravidão, enraizou-se ainda mais a hierarquiza- de Nascimento. “Essas análises nos permitirão,
ção racial. “Na virada do século XIX para o XX, as por exemplo, compreender melhor os mecanis-
ideias eugenistas ganharam espaço nas faculdades mos pelos quais as desigualdades raciais ainda
de direito e medicina. Os negros eram vistos como persistem no Brasil”, afirma. n
incapazes, biologicamente, de atingir um patamar
de desenvolvimento intelectual”, conta.
Para Gomes, da UFRJ, o determinismo racial Livro
teria motivado as autoridades brasileiras a investir SCHWARCZ, L. M. e GOMES, F. dos S. Dicionário da escravidão e
em projetos de branqueamento da população. Para liberdade – 50 textos críticos. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

pESQUISA FAPESP 267  z  79


Entrevista paulina alberto y

Militância e luta
no século XX
Livro mostra como e por que intelectuais negros
deixaram de endossar o ideal de harmonia racial
para rejeitá-lo por completo

Glenda Mezarobba

N
ascida na Argentina, a histo- Quis focar no século XX para contar a Os intelectuais do começo e meados do
riadora Paulina Alberto, 42 história das relações simbólicas, concre- século, mesmo trabalhando sob muita
anos, atua nos departamen- tas e políticas com a África e seus sig- pressão para endossar as ideologias de
tos de História e Línguas da nificados para a definição da cidadania harmonia racial, foram críticos lúcidos
Universidade de Michigan, nos Estados e das identidades brasileiras possíveis e persistentes da discriminação e luta-
Unidos, desde 2005. Entre seus objetos depois da Abolição. A história das ideo- vam constantemente para reivindicar
de pesquisa estão as ideologias de raça logias raciais no Brasil já tinha sido con- inclusão. Quando comecei a pesquisa,
e nação na América Latina. Nesta entre- tada muitas vezes “de cima para baixo”, a história do pensamento e do ativismo
vista, concedida por e-mail no intervalo e eu quis contá-la, dentro do possível, da negro era contada, sobretudo, a partir
de sua participação em um congresso na perspectiva de brasileiros que se auto- da criação do MNU, na década de 1970.
Universidade Harvard, para o qual estava denominavam “negros” ou que defen- Isso tinha a ver com o fato de a maioria
prevista a presença de Marielle Franco, diam com orgulho sua herança africana dos intelectuais e ativistas negros, e de
vereadora carioca e ativista de direitos e buscavam se organizar em torno des- outros estudiosos da política negra brasi-
humanos assassinada em março, no Rio sas identidades no espaço público. Para leira, argumentar que a ideologia da “de-
de Janeiro, Paulina fala do livro Termos poder incluir uma variedade de vozes e mocracia racial” tinha não só mascarado
de inclusão: Intelectuais negros brasileiros de modalidades de debate e luta, optei a existência de profundas desigualdades
no século XX, recém-lançado pela editora por trabalhar com uma definição ampla raciais, mas também inibido os movi-
da Unicamp. Publicado originalmente de intelectuais negros. Acabei me de- mentos necessários para combatê-la. A
em inglês e vencedor dos prêmios Ro- tendo principalmente nas organizações emergência do MNU foi um momento
berto Reis Book Award, concedido pela sociais e recreativas negras, sobretudo muito poderoso porque os intelectuais e
Brazilian Studies Association, em 2012, e em São Paulo, em jornais da imprensa ativistas a ele relacionados rejeitaram as
Warren Dean Memorial Prize, em 2013, negra paulista e carioca, em congressos ideologias de “democracia racial”, iden-
o livro é um desdobramento da pesquisa e publicações acadêmicas de pensadores tificando-as como “mitos” perniciosos.
iniciada em seu doutorado, sobre como negros de meados do século, em alguns Mas esse momento não deve obscurecer
as relações entre Brasil e África foram candomblés em Salvador e em grupos e a história igualmente importante e di-
repensadas depois da Abolição. publicações associados ao Movimento nâmica do pensamento racial anterior.
Negro Unificado, o MNU.
Em seu livro, você busca contar a his- Embora condenassem a discriminação e
tória do pensamento racial brasileiro O que esses intelectuais pensavam, por reivindicassem inclusão como cidadãos
da perspectiva de intelectuais negros. exemplo, sobre os discursos de harmo- brasileiros, muitas vezes esses intelec-
Quem são eles? E por que o século XX? nia racial? tuais também endossavam ideologias

80  z  maio DE 2018


nacionais de harmonia racial. Como
entender essa contradição?
Conhecendo plenamente a crítica que
ativistas e acadêmicos têm feito à “demo-
cracia racial” como mito, pode parecer
mesmo contradição. Mas para os intelec-
tuais negros, principalmente no começo
do século, condenar a discriminação e
reivindicar a inclusão não era necessa-
riamente incompatível com endossar as
ideologias de fraternidade racial. Nos
anos 1910 e 1920, quando começaram
a usar a linguagem da “fraternidade ra-
cial”, buscavam alternativas viáveis ao
racismo científico que decretava a ex-
clusão absoluta das pessoas negras. Ao
tomarem um símbolo e um conceito, o
da fraternidade, com ampla repercussão
entre as elites, e ao tentarem redefini-lo
como ideal compartilhado de inclusão,
demostraram enorme agilidade política. Paulina Alberto
pesquisa ideologias
Os intelectuais negros usaram os ideais
de raça e nação na
dominantes para manifestar suas deman- América Latina
das. É importante ressaltar, no entan-
to, que a “fraternidade racial” deles não
era a mesma de muitas elites brancas. A
primeira era uma variante da harmonia
racialmente inclusiva, orientada para os Como explicar essa mudança? cia racial não é nem nunca foi realida-
direitos, e projetada como ideal ainda a Muitos historiadores argumentam que a de no Brasil. O passado e o presente de
ser atingido. A segunda era, muitas ve- causa dessa radicalização tem a ver com discriminação, desigualdade e violên-
zes, variante conservadora que decretava fatores externos, principalmente o mo- cia contra os negros tornam impossível
que a harmonia racial já existia e as lutas vimento pelos direitos civis nos Estados afirmar que o país é uma democracia
eram desnecessárias. Era isso que fazia Unidos. No Brasil, era comum destacar a racial. A resposta mais complexa é que,
o ideal da “fraternidade racial”, tão útil, influência das pesquisas da Unesco, que mesmo não sendo realidade no Brasil,
mas também tão instável para as políticas nos anos 1950 começaram a questionar não me sinto confortável em chamá-la
de igualdade racial. o país como “laboratório” de harmonia de “mito”, no sentido de “mentira” ou o
racial, ou dos trabalhos de Florestan Fer- oposto da realidade. Faço parte de uma
Como a ideia de “uma nação orgulhosa- nandes e da Escola Paulista de Sociologia. geração de pesquisadores que procura
mente misturada racial e culturalmen- Além desses fatores, destaco o protago- ir além da díade “mito” ou “realidade”
te” muda ao longo do século? E quando nismo dos intelectuais e ativistas negros para entender mito não como mentira,
se abandona o tom esperançoso? e das interpretações que fizeram das mu- mas como uma linguagem de negociação,
As formas e os conteúdos das ideias de danças no panorama nacional e interna- uma série de conceitos, valores e ideais
inclusão racial não são estáticos. A tra- cional, considerando influências externas que guiam e estruturam os debates sobre
jetória que leva os intelectuais negros a como, por exemplo, as lutas anticolonia- raça e cidadania. O “mito” nesse sentido
construir ideologias de inclusão racial listas na África, mas também seguindo as é parte da “realidade” social, tem uma
no começo do século, num engajamento lógicas internas dos intelectuais e suas dimensão de aspiração, permite colocar
esperançoso, até denunciá-las como mito lutas. Foi depois do golpe militar, que no centro da vida pública um ideal de
pernicioso, revela as diferentes estratégias tornou a ideia de democracia racial uma como os brasileiros deveriam se relacio-
adotadas para reivindicar o pertencimen- construção absolutamente cínica, que os nar. A história dos intelectuais negros no
to pleno à nação em momentos históricos pensadores negros abandonaram defini- século XX mostra que, mesmo nos mo-
diferentes. Leio essa mudança não como tivamente o tom esperançoso em favor mentos mais sombrios da luta contra o
contradição nem como despertar para um de ataques abertos contra a democracia racismo, a noção de que o país chegaria
nível mais aguçado de consciência racial, racial, classificada como “mito” e ferra- algum dia a ser uma “verdadeira demo-
mas como parte de uma mesma luta de menta de dominação ideológica. cracia racial” foi uma narrativa muito
longa duração, que se desenvolveu em poderosa. Mesmo que a expressão “de-
lugares e contextos diferentes. A virada Democracia racial, no Brasil: mito ou mocracia racial” esteja desacreditada, o
arquivo pessoal

acontece principalmente nos anos 1970 e realidade? ideal de inclusão racial, articulado por
1980, com o surgimento das organizações Existe uma resposta simples e outra mais intermédio de novos termos, continuará
que dariam lugar ao MNU. complexa. A simples é que a democra- orientando a luta antirracista. n

pESQUISA FAPESP 267  z  81


música y

Villa-Lobos
(quase)
desconhecido
Análise de peças musicais, em especial
as sinfonias, revela o complexo processo
de criação do compositor brasileiro

C
om centenas de músicas catalogadas, além de poe-
mas sinfônicos e concertos para diversos instrumen-
tos e balés, o compositor e maestro Heitor Villa-
-Lobos (1887-1959) teve sua trajetória consagrada
por obras que evidenciam elementos da identidade
nacional, entre eles ritmos afro-brasileiros e alusões a cultu-
ras indígenas. No entanto, um novo aspecto da produção do
autor carioca, que também compôs 11 sinfonias, três óperas e
18 peças para quarteto de cordas, começa a se tornar conheci-
do. E envolve exatamente obras em que esses elementos não
prevalecem, como mostram os resultados de dois projetos de
pesquisa recentes.
O primeiro deles, Villa-Lobos, um compêndio – Novos desafios
interpretativos (Editora da UFPR, 2017), livro com ensaios de
diversos pesquisadores, revela a complexidade dos processos
de composição do artista, enquanto o segundo, o resgate e a
gravação integral de suas sinfonias pela Orquestra Sinfônica
do Estado de São Paulo (Osesp), coloca em circulação um con-
junto musical praticamente esquecido. “Villa-Lobos criou suas
obras a partir de um processo complexo, que combina
elementos da música popular brasileira com a tradi-
Museu Villa-Lobos

ção musical europeia”, afirma Paulo de Tarso Salles, Partituras


das sinfonias
professor do Departamento de Música na Escola de
continham erros
Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo que prejudicavam
(ECA-USP) e um dos organizadores do livro. sua execução

82  z  maio DE 2018


pESQUISA FAPESP 267  z  83
14 choros são tocados com frequência em
salas de concerto. “Villa-Lobos foi um
Erros nas dos compositores mais ativos do século
XX, mas tornou-se conhecido por uma
partituras não pequena parcela de sua produção”, afir-
ma. Essa pequena parcela envolve peças
são exclusivos em que o clima de brasilidade se faz evi-
de Villa-Lobos. dente, enquanto o repertório associado
à tradição europeia, como as sinfonias
Mozart e e os quartetos, é menos conhecido. “O
trabalho de Villa-Lobos com essas com-
Beethoven, posições foi visto como um paradoxo em
sua trajetória, como algo que teimava
por exemplo, em fazer, apesar de sua formação téc-
também tiveram nica ‘precária’. Ele era considerado um
compositor que pretendia exaltar a iden-
manuscritos tidade nacional”, explica Salles, da USP.
O pesquisador está finalizando a redação
revisados de um livro, a ser publicado no segun-
do semestre, em que analisa o processo
1 de composição dos quartetos do artista.
“Identifiquei que ele compunha estabe-
lecendo um diálogo entre elementos da
Essa imagem difere daquela cristaliza- forma sonata e sonoridades brasileiras.”
da no discurso crítico, segundo a qual o

S
artista compunha sem técnica e rigor, e a alles explica que parte da ideia
de compositor intuitivo, presente no ima- de que Villa-Lobos não tinha for-
ginário popular. Tais visões aparecem, mação técnica advém do fato de
2
por exemplo, no documentário Índio de ele não ter concluído estudos formais.
casaca, produzido pela Rede Manchete Outros compositores brasileiros, como
em 1987 e dirigido pelo jornalista Roberto Carlos Gomes (1836-1896), chegaram a
Manuscritos das Feith. O filme contém um depoimento de realizar estudos na Europa. Suas par-
sinfonias (acima e Antônio Carlos Jobim (1927-1994), rela- ticipações em rodas de choro no Rio
abaixo) e versão da
tando encontros com Villa-Lobos, quan- de Janeiro também contribuíram para

fotos 1 Centro de Documentação Musical da Osesp 2 e 3 Museu Villa-Lobos  4 AFP PHOTO PIC / ARCHIVES -N / B-PIG / AFP
partitura (ao fundo)
após edição do este compunha partituras enormes, reforçar essa concepção. “No entanto,
ao mesmo tempo que fumava charuto, como autodidata, ele estudou a fundo
escutava sinfonias com a TV ligada e uma partituras de compositores europeus,
soprano e um pianista ensaiavam na sala como as do francês Claude Debussy
de seu pequeno apartamento. Jobim lem- [1862-1918] e do russo Igor Stravinsky
bra que, mesmo nesse ambiente caótico, [1882-1971], ao mesmo tempo que vi-
era possível observá-lo abstraído em seu venciou o universo da música popular,
processo de criação. Em certo momen- ao tocar não apenas nas rodas de choro,
to, o narrador do documentário diz que mas também com seresteiros”, observa.
Villa-Lobos era genial quando compunha Para Salles, a experiência com os músi-
intuitivamente, mas, quando se guiava cos que tocam choros e serestas fez parte
pela razão, sua música soava irregular. do processo de aprendizagem do autor e
“O próprio Villa-Lobos colaborou para foi incorporada em seus procedimentos
propagar essa ideia do compositor que de composição, combinando com o co-
cria impulsionado pela intuição”, avalia nhecimento que ele detinha da música
o musicólogo Manoel Aranha Corrêa do clássica europeia. Um dos elementos
Lago, membro da Academia Brasileira que permitem comprovar o apuro téc-
de Música (ABM). O livro contesta es- nico de suas composições é o conceito
sa ideia ao mostrar a sofisticação de seu de simetria, que aparece em diferentes
processo criativo. trabalhos, inclusive nas sinfonias. “Villa-
Nahim Marun, pianista e professor -Lobos se preocupava em criar estrutu-
do Instituto de Artes da Universidade ras musicais equilibradas ritmicamente
Estadual Paulista (IA-Unesp), campus e harmonicamente, da mesma forma que
de São Paulo, lembra que obras como a compositores europeus formados em
3 série de nove bachianas brasileiras e os conservatórios”, explica Salles.

84  z  maio DE 2018


Villa-Lobos que parte dos elemen-
em Paris: tos indígenas, emprega-
instrumentos
inusitados
dos por Villa-Lobos em
aparecem suas músicas, advinha
em suas do contato que teve com
composições fonogramas de melodias
e canções dos índios Pa-
recis e Nambiquaras da
serra do Norte, coletados por Edgar Ro-
quette-Pinto (1884-1954) em uma das
expedições feitas com Cândido Maria-
no da Silva Rondon, o marechal Rondon
(1865-1958). O material está armazenado
no Museu Nacional e, segundo Waizbort,
um tanto desgastado pelas incontáveis
vezes que Villa-Lobos o escutou. O com-
positor incorporou não apenas a música
indígena em suas obras, mas também os
defeitos de gravação registrados nos fo-
nogramas. “Com isso, nas composições,
não é exatamente a música indígena que
está presente, mas algo criado a partir
dela. Villa-Lobos trouxe a performance
da máquina para dentro da sua música.”
Em função do desenvolvimento dos pro-
gramas de pós-graduação em música e
musicologia no Brasil desde meados dos
anos 1980, os estudos musicológicos se
adensaram e Villa-Lobos emergiu como
objeto privilegiado das pesquisas, que
passaram a revelar aspectos desconhe-
cidos de sua trajetória e de seu trabalho.

Resgate das sinfonias


A criação de quartetos e sinfonias é con-
siderada fundamental para a consagra-
ção de compositores. Em geral, todas
as partituras, das mais simples às mais
complexas, necessitam ser revisadas, in-
dependentemente do autor. “Na história
4 da música, é comum que as partituras
de grandes compositores como Ludwig
van Beethoven [1770-1827] ou Wolfgang
Leopoldo Waizbort, professor do De- construtivo de suas composições, pro- Amadeus Mozart [1756-1791] contenham
partamento de Sociologia da USP, tam- cedimento que historicamente foi negli- erros, mas no caso dos europeus já foram
bém defende que Villa-Lobos adotou genciado ou diminuído nos estudos sobre feitas edições e revisões críticas”, infor-
procedimentos de composição comuns sua música”, afirma o pesquisador. Para ma Marun, da Unesp. Nas sinfonias, esse
a outros artistas europeus, entre eles Waizbort, falta conhecer melhor como processo de revisão requer um esforço
o uso da escala octatônica, empregada o compositor combinava e organizava maior se comparado, por exemplo, ao
com frequência por compositores russos elementos da música brasileira e euro- resgate das partituras de quartetos, que
como Igor Stravinsky e Mikhail Glinka peia em seus trabalhos. envolvem menos instrumentos. “Nos
(1804-1857). Esse foi um dos objetivos da pesquisa quartetos, muitas vezes é possível cor-
Esse procedimento envolve a criação que desenvolveu e que deu origem ao rigir os principais erros durante os en-
de escalas de oito notas musicais dentro artigo “Como, quando e por que Villa saios, após a análise e o debate entre os
do intervalo de uma oitava na partitura, desmentiu Benjamin”, publicado em músicos, algo inviável para as sinfonias,
sendo que o modelo mais conhecido é a Villa-Lobos, um compêndio. No traba- que incluem dezenas de instrumentistas
escala simétrica formada por intervalos lho, Waizbort dialoga com o arcabouço e, em algumas peças, também cantores
de tom e semitom. “Essa escala foi muito teórico do filósofo e sociólogo alemão líricos”, detalha Salles, da USP. Pouco
usada por Villa-Lobos como elemento Walter Benjamin (1892-1940) e identifica executadas não apenas devido à ausên-

pESQUISA FAPESP 267  z  85


alemã que tem pouca intimidade com a
música do compositor”, conta Arthur
Nestrovski, diretor artístico da Osesp.
Ele contabilizou centenas de erros nas
partituras manuscritas das sinfonias,
que podem ter sido cometidos tanto pe-
lo compositor, que não tinha o hábito de
revisar seus trabalhos, como pelas pes-
soas que o ajudavam a copiar as notas no
papel. Desenvolvido entre 2010 e 2017,
o projeto de revisão e edição conduzido
pela Osesp baseou-se em cópias desses
manuscritos.

U
m dos erros identificados envolve
passagens em que vários instru-
mentos tocam a mesma melodia.
Quando a página da partitura muda, um
deles desaparece da melodia. “Isso sig-
nifica que houve um erro de transcrição
para aquele instrumento por parte de
quem estava copiando o trabalho. Fa-
zendo um paralelo com a literatura, é co-
mo se uma frase fosse cortada ao meio”,
explica Nestrovski. Além das correções
feitas pelos maestros, nos ensaios os mú-
sicos também indicaram tudo que não fa-
zia sentido envolvendo acordes,
Manuscrito da conexões entre notas e a con-
Suíte sugestiva,
tinuidade de melodias. As gra-
uma das peças
mais experimentais vações das sinfonias só foram
1 do brasileiro possíveis depois da correção
de novos erros, como proble-
cia de alusão direta a elementos da mú- mas de unidade, sonoridade e dinâmica,
sica popular brasileira, como também a percebidos após três ou quatro apresen-
inúmeros erros nas partituras e à ampla tações. Sozinha, a análise das partituras
estrutura de instrumentos necessários não permitiu identificar tais falhas.
em suas performances, as 11 sinfonias de As partituras editadas estão agora dis-
Villa-Lobos ganharam nova vida com o poníveis, para aluguel, no site da ABM.
projeto coordenado pelo maestro Isaac Villa-Lobos Neves, da Osesp, conta que a editora
Karab­tchevsky e pelo Centro de Docu- francesa Max-Eschig detém os direitos
mentação Musical (CDM) da Osesp, di- combinava de uso de algumas partituras – entre elas
rigido pelo também maestro Antonio das sinfonias 1, 8, 9, 10, 11 e 12 – até 2029,
Carlos Neves. Na iniciativa, a Osesp re-
elementos da quando se tornarão de domínio público.
visou e editou as partituras, apresentou- cultura popular Apesar disso, a editora revisou apenas
-as em concertos e gravou integralmente parcialmente os manuscritos feitos pelo
todo o conjunto musical. Antes dessa brasileira com compositor e sua última mulher, Armin-
empreitada, apenas a Orquestra da Rá- da Neves de Almeida, a “Mindinha”, que
dio de Stuttgart, regida por Carl Saint a tradição da o ajudava a copiar as notas. A Academia
Clair, havia gravado as sinfonias, entre Brasileira de Música, no Rio de Janeiro,
música clássica
fotos 1 Museu Villa-Lobos  2 HARCOURT / AFP

1997 e 2000. é dona dos direitos das partituras das


As sinfonias foram um projeto de lon- europeia sinfonias 2, 3, 4, 6 e 7. A quinta sinfonia
go prazo de Villa-Lobos, que escreveu as se perdeu.
quatro primeiras entre 1916 e 1919. As Para Neves, da Osesp, as primeiras
outras sete, entre 1944 a 1957. “Decidi- sinfonias de Villa-Lobos, datadas da se-
mos resgatá-las e gravá-las porque elas gunda metade da década de 1910, deno-
foram pouco executadas até mesmo no tam influência francesa de compositores
Brasil e contam com apenas uma gra- como Claude Debussy, Maurice Ravel e
vação integral, feita por uma orquestra César Franck no universo sonoro e na

86  z  maio DE 2018


Compositor
produziu centenas
de peças musicais,
entre sinfonias,
quartetos, óperas,
canções e balés

mente por julgamento precipitado da


crítica. Villa-Lobos era um compositor
célebre e tudo o que produzia era re-
cebido com grande expectativa. Assim
que compostas, suas músicas eram ra-
pidamente executadas por alguma or-
questra e a crítica se apressava em ana-
lisá-las. “As sinfonias denotam diálogo
mais evidente com a tradição da música
europeia. Não se encaixavam na leitura
de que Villa-Lobos compunha para exal-
tar a brasilidade e, na avaliação imediata
da crítica, foram consideradas de me-
nor importância em sua trajetória musi-
cal”, pondera. Ela lembra que Stravinsky
também vivenciou processo similar na
segunda etapa de sua carreira, quando
modificou determinadas diretrizes esté-
ticas pelas quais se consagrou. “As pes-
soas esperavam que ele compusesse uma
nova Sagração da primavera”, recorda, ao
mencionar sua obra mais famosa.

F
lávia considera que as sinfonias per-
mitem ilustrar o apuro técnico de
Villa-Lobos, na medida em que fize-
2 ram parte de um projeto de composição
de longo prazo, iniciado em 1917 e con-
cluído poucos anos antes da sua morte.
forma como as melodias se desenvol- por denominar suas obras como quarte- “As obras possuem coerência entre elas
vem, “expressando um certo espírito da tos ou sinfonias significa que elas apre- e foram criadas de maneira articulada”,
Belle Époque”. “A segunda sinfonia con- sentam caráter universal e não local”, reforça. Salles, da USP, avalia que o tra-
tém uma valsa no segundo movimento”, destaca. A partir desse projeto coorde- balho da Osesp com as sinfonias propi-
exemplifica. Já as últimas, escritas após nado pela Osesp, avalia Lago, a tendên- ciará novos estudos acadêmicos, além de
1945, contêm linguagem característica e cia é que as sinfonias sejam executadas estimular pesquisas sobre outros traba-
amadurecida do compositor, na qual ele com mais frequência em todo o mundo. lhos menos conhecidos do compositor,
combina influências europeias de manei- Além disso, a gravação das sinfonias de- como os quartetos. “Uma das obras mais
ra mais sutil com elementos da cultura ve estabelecer novo padrão para outras experimentais de Villa-Lobos, a Suíte
popular, principalmente nos movimentos orquestras interpretarem as peças, uma sugestiva, de 1928, conta com apenas
lentos. “Nas sinfonias, a identidade bra- vez que foram executadas por maestros uma gravação conhecida, feita por uma
sileira não é tão explícita ou tematiza- e músicos majoritariamente brasileiros, orquestra finlandesa. Ela é apenas uma
da. É uma música mais intelectual, com que não apenas detêm conhecimento do das muitas músicas esquecidas de seu
menos alusões a elementos da cultura repertório de Villa-Lobos, mas também repertório que merece ser redescober-
popular”, explica Nestrovski. da linguagem musical nacional, incluin- ta”, conclui. n Christina Queiroz
Corrêa do Lago, da ABM, concorda do os ritmos e as melodias utilizadas em
que as sinfonias ficaram relegadas a um choros, sambas e serestas.
segundo plano por não conterem ele- Para Flávia Camargo Toni, professora
Livro
mentos tão evidentes de brasilidade, e pesquisadora do Instituto de Estudos
Salles, P. de T. e Dudeque, N. (org.). Villa-Lobos um
a não ser a décima sinfonia, intitulada Brasileiros (IEB-USP) e na ECA, as sin- compêndio: Novos desafios interpretativos. Curitiba:
Ameríndia. “Quando Villa-Lobos optou fonias são menos conhecidas provavel- Ed. UFPR, 2017.

pESQUISA FAPESP 267  z  87


obituário y

Economista solidário
Paul Singer dedicou sua vida à compreensão do Brasil e à expansão
das possibilidades de desenvolvimento dos trabalhadores

Glenda Mezarobba

S
obre Paul Singer é possível dizer que deu la da Silva (2003-2011) e Dilma Rousseff (2011-
vida ao lema de Montesquieu: “Para se 2016). “Sentia-se completamente realizado com
fazer grandes coisas não se deve estar os avanços do que ele chamava ‘o movimento’.
acima dos homens, mas junto deles”, es- Fechou o ciclo de sua vida por onde havia co-
creveu Rui Namorado, no prefácio de Ensaios meçado: implantando o princípio kibutzim da
sobre economia solidária (Almedina). Organizado produção coletiva em solo brasileiro”, escreveu
pelo próprio Namorado, coordenador do Centro André, um dos três filhos do economista ao lado
de Estudos Cooperativos e da Economia Social de Suzana e Helena.
da Faculdade de Economia da Universidade de Paul Israel Singer nasceu em Viena, Áustria.
Coimbra (Ceces-Feuc), o livro foi lançado em Filho único e órfão de pai desde os 2 anos de
março, mês em que Singer completou 86 anos, idade, foi criado pela mãe, com quem chegou ao
em Portugal. Como o título indica, reúne textos Brasil, em 1940, fugindo do nazismo. Começou
sobre o tema que mobilizou sua reflexão teórica a trabalhar por volta dos 14 anos, cursou eletro-
e seu fazer diário nas últimas décadas e que, nas técnica, filiou-se ao Sindicato dos Metalúrgicos
palavras de Singer, “pretende ser alternativa de São Paulo e foi um dos líderes da “greve dos
ao capitalismo”. Professor titular aposentado 300 mil”, que paralisou São Paulo, em 1953. Au-
da Faculdade de Economia, Administração e todidata, antes de ingressar no curso de ciências
Contabilidade da Universidade de São Paulo econômicas e administrativas da USP, já tinha
(FEA-USP), morreu em 16 de abril em conse- lido autores como Marx e Engels. Logo após a
quência de sepse. formatura, em 1959, foi convidado a permanecer
Em depoimento de despedida, publicado no como professor na universidade. Sob a orientação
jornal Folha de S.Paulo, o cientista político An- do sociólogo Florestan Fernandes, defendeu sua
dré Singer diz que a economia solidária foi uma tese de doutorado, “Desenvolvimento econômico
descoberta feita na maturidade pelo pai. “Quando e evolução urbana”, em 1966.
se encerrou o ciclo da prosperidade que o país Na Faculdade de Higiene e Saúde Pública da
viveu entre 1930 e 1980, o desemprego se tor- USP, onde também lecionou, participou da cria-
nou estrutural. Meu pai juntou a ideia de que o ção do interdisciplinar Centro de Estudos de
socialismo precisava ser construído por baixo, Dinâmica Populacional (Cedip) no grupo lide-
dentro do capitalismo, e não como algo que vem rado pela demógrafa Elza Berquó. Em busca do
Raquel Cunha / Folhapress

de fora, com a situação de penúria dos trabalha- conhecimento envolvendo a área de demogra-
dores. Passou a propor a auto-organização em fia, até então não disponível no país, frequentou
cooperativas como saída que atendia, ao mesmo o curso de estudos populacionais ministrado
tempo, às duas necessidades.” Paul Singer diri- por Ansley Johnson Coale no Office of Popula-
giu a Secretaria Nacional de Economia Solidária, tion Research, em Princeton. “Quando voltou,
criada em 2003, nos governos de Luiz Inácio Lu- era um economista-demógrafo”, lembra Elza.

88 | maio DE 2018
nomia e da política”, observa Adalberto Cardoso,
professor de sociologia do Instituto de Estudos
Sociais e Políticos da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj). “Nos anos 1970,
em plena ditadura, mostrou que o crescimento
produziu muita miséria e denunciou o milagre
brasileiro como instrumento de concentração
de renda. Na década seguinte, foi decisivo para
a compreensão da inflação no país e escreveu
bastante sobre o conflito distributivo.”

Intelectual completo
No início dos anos 1980, o ex-militante do Parti-
do Socialista Brasileiro participou da fundação
do Partido dos Trabalhadores e publicou Domi-
nação e desigualdade: Estrutura de classes e re-
partição de renda no Brasil (Paz e Terra). “Paul
concebia, elaborava e interpretava as informa-
ções estatísticas com facilidade. Seu rigor analí-
tico se destacava pelo criterioso uso dos dados, o
que fica evidente na leitura dessa obra”, observa
Frederico Mazzucchelli, professor aposentado
do Instituto de Economia da Universidade Es-
tadual de Campinas (Unicamp) e seu assistente
de pesquisa, no início dos anos 1970. “Outro de
seus grandes méritos foi ter trazido, para a sala
de aula, a discussão sobre a obra econômica de
autores como Marx, Lênin, Galbraith e Keynes”,
avalia. Adalberto Cardoso foi seu aluno e destaca
Singer fotografado “Suas ideias marxistas marcaram a demografia o apreço de Singer pelo debate: “Ele tinha um
em 2016, na sua brasileira. Na primeira pesquisa nacional sobre dom muito especial de valorizar a intervenção,
casa, em São Paulo
comportamento reprodutivo, por exemplo, ele o pensamento dos estudantes. E era muito didá-
ajudou a construir uma tipologia envolvendo tico”. “Talvez sua melhor contribuição no plano
áreas urbanas e rurais”, conta. Em 1968, com acadêmico tenha sido a junção entre economia,
a pesquisa desenvolvida nos Estados Unidos e demografia e sociologia”, escreveu Fernando
mais tarde publicada sob o título de Dinâmica Henrique Cardoso, no jornal Folha de S.Paulo.
populacional e desenvolvimento (Brasiliense), Autor de dezenas de livros, publicou em ale-
Singer prestou seu concurso de livre-docência mão, espanhol, francês e inglês. “Como bom mar-
em demografia, na USP. xista, foi capaz de fazer análises econômicas,
Aposentado compulsoriamente um ano depois, sociológicas e políticas. Em um ensaio de 1973,
em decreto assinado pelo general Costa e Silva, previu a grande crise econômica e a desacelera-
instituiu com Elza, José Arthur Giannotti, Fer- ção da economia brasileira”, assinala Luiz Carlos
nando Henrique Cardoso, dentre outros, o Centro Bresser-Pereira, professor emérito da Fundação
Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Getulio Vargas (FGV-SP). “E seu socialismo era
Entre as “acusações” que pesavam sobre Singer rigorosamente democrático.” Ugo Giorgetti, ci-
estava a de divulgar dados sobre situação familiar, neasta que prepara um documentário sobre o
nível de vida, ocupação e rendimentos de traba- economista, com quem conviveu “tardiamente”,
lhadores no estado de São Paulo. “Ele esteve o faz coro: “Para ele, ser de esquerda é ser integral-
tempo todo dialogando com os dilemas da eco- mente democrático”. n

PESQUISA FAPESP 267 | 89


memória

Para voltar aos velhos tempos

O
Aos 200 anos, Museu Nacional Museu Nacional chega aos 200 anos
com o desafio de resgatar seu
tenta resgatar seu protagonismo protagonismo na geração e disseminação
do conhecimento em ciências naturais no Brasil.
na disseminação do conhecimento Apesar de ostentar um vultoso acervo com mais
em ciências naturais no Brasil de 20 milhões de itens, distribuídos em coleções
que servem de base para o desenvolvimento de
pesquisas nos departamentos de antropologia,
botânica, entomologia, geologia e paleontologia,
Rodrigo de Oliveira Andrade a mais antiga instituição científica do país
atualmente se encontra muito deteriorada, com
infiltrações nas paredes, janelas com vidros
quebrados e móveis com cupins.
Os problemas não desanimam o geólogo e
paleontólogo Alexander Kellner, novo diretor do
Museu Nacional, que julga ser capaz de mudar
esse cenário. No dia seguinte à sua posse, em
2 de fevereiro, reabriu a sala em que dormiram os
imperadores dom Pedro I e II no que era antes
um dos quartos do Palácio de São Cristóvão, que
serviu de residência para a família real de 1808
a 1889. O ambiente que antes funcionava como
um depósito agora é seu gabinete, onde, segundo
ele, planos estão sendo traçados para resgatar
o antigo protagonismo da instituição.
O Museu Nacional foi fundado em junho de
1818, então como Museu Real. Sua criação se
deu em um contexto de intensa valorização dos
estudos em história natural, estimulada pela
vinda de naturalistas europeus para fazer mapas
do território, realizar prospecção de plantas e
minerais e desenvolver e disseminar técnicas
agrícolas mais eficientes (ver Pesquisa FAPESP
nº 171). “Querendo propagar os conhecimentos e
estudos das ciências naturais no Reino do Brasil,
que encerra em si milhares de objetos dignos de
1 observação e exame e que podem ser empregados
em benefício do comércio, da indústria e das
Dom Pedro II artes: hei por bem que nesta Corte se estabeleça
(em destaque) um Museu Real”, escreveu dom João VI
em viagem ao Egito
(1767-1826) no decreto de criação.
(1876), de onde
trouxe itens que Seus antecedentes institucionais, no entanto,
compõem o acervo remontam à Casa de História Natural, criada
da instituição em 1784, durante o governo do vice-rei Luis de
Vasconcelos e Souza (1742-1809). Conhecida
popularmente como Casa dos Pássaros,
a instituição funcionava em um depósito de

90 | maio DE 2018
2

produtos zoológicos na Abraham Werner mais tarde, atividades de


avenida Passos, centro do (1749-1817). Mineralogia 21.000 m2 apoio ao ensino por meio
Rio de Janeiro, como uma também era a especialidade é a área do Palácio de aulas práticas populares”,
sucursal do Museu de do primeiro diretor do conta Heloísa, que estudou a
História Natural de Lisboa, museu, frei José Batista
de São Cristóvão, atuação da instituição no
em Portugal, para onde da Costa Azevedo, formado na Quinta da ensino das ciências naturais
eram enviados exemplares em ciências naturais pela Boa Vista no Brasil no século XIX, ao
de produtos naturais e Universidade de Coimbra. lado de Magali Romero Sá,
adornos indígenas coletados Em 1824, na gestão de seu da Casa Oswaldo Cruz da
no Brasil. A instituição sucessor, João da Silveira Fundação Oswaldo Cruz
funcionou por mais de duas Caldeira (1800-1854), (COC-Fiocruz). Entre julho
décadas até ser abandonada. o Museu Real ganhou o e outubro de 1875 foram
Seu acervo foi enviado primeiro laboratório proferidas no museu
para o Arsenal de Guerra, químico do Brasil. “Lá palestras sobre botânica,
onde permaneceu até a foram realizadas análises zoologia, arqueologia e
criação do Museu Real. mineralógicas e botânicas”, etnografia e mineralogia.
Concebida nos moldes explica a historiadora “A repercussão desses
dos museus europeus Heloísa Bertol Domingues, cursos foi muito favorável”,
de história natural, a do Museu de Astronomia diz Magali. Isso fez com que
instituição brasileira e Ciências Afins (Mast), Ladislau de Souza Netto, o
abrigava coleções no Rio. Silveira Caldeira então diretor, transformasse
científicas, bibliotecas, formou-se em medicina os cursos em atividades
arquivos, laboratórios e na Universidade de prioritárias da instituição.
exposições. Funcionava Edimburgo, na Escócia. Paralelamente às
fotos 1 biblioteca nacional 2 e 3 museu nacional

inicialmente em uma Ainda jovem, aperfeiçoou atividades de ensino, o


antiga casa em Campo de seus estudos em Paris, na museu ampliava suas
Sant’Anna, centro do Rio. França. Em 1825 publicou coleções. Entre 1822 e 1823,
Além do acervo da Casa dos a Nova nomenclatura 550.000 o mineralogista, naturalista
Pássaros, seu patrimônio química portuguesa, um dos amostras de plantas, e político José Bonifácio de
inicial consistia em uma primeiros compêndios de Andrada e Silva (1763-1838),
coleção de minerais raros química escritos no Brasil.
a maior coleção que era secretário do Estado
trazidos pela família real, “Além de práticas botânica do país dos Negócios do Reino e
organizada e classificada científicas, o Museu Real Estrangeiros do Império de
pelo mineralogista alemão passou a desenvolver, anos Pedro I, conseguiu que

PESQUISA FAPESP 267 | 91


naturalistas estrangeiros Com a proclamação da
Dois séculos cedessem parte das peças Independência, em 1822, a
colhidas em expedições instituição mudou de nome,
de história em troca de apoio passando a se chamar Museu
governamental para as Nacional. Em 1889, com a
viagens. Foi assim com proclamação da República e
1818 Georg Heinrich von o exílio da família imperial,
No dia 6 de junho, o rei Langsdorff, Johann Natterer a instituição foi transferida
dom João VI cria por decreto e Auguste de Saint-Hilaire. para o majestoso Palácio de
o Museu Nacional, então Também a imperatriz São Cristóvão, na Quinta
chamado de Museu Real Leopoldina estimulou os da Boa Vista. A abertura ao
estudos em história natural público das exposições
1 concebidos no Museu Real, permanentes na nova sede do
1889 o que fomentou a ampliação museu se deu em 25 de maio
Com a proclamação da das coleções. Seu filho, de 1900. As atividades do
República, a instituição é dom Pedro II, foi um museu se intensificaram
transferida do Campo de 130.000 entusiasta das ciências e deu nas décadas seguintes,
Sant’Anna para o majestoso itens nas grande apoio às atividades reforçando sua política de
Palácio de São Cristóvão, na do museu (ver Pesquisa intercâmbio científico
Quinta da Boa Vista
coleções FAPESP nº 131). A ampliação internacional, de publicações
antropológicas das coleções nacionais de e de cursos públicos.
história natural se deu Importantes personalidades
1900 igualmente por meio da ciência mundial visitaram
Abertura oficial ao público de doações feitas por o museu, entre eles o físico
das exposições na nova sede particulares. É o caso alemão Albert Einstein (1879-
do Museu Nacional de Antônio Luis Patricio da 1955) e a química polonesa
Silva Manso, cirurgião-mor Marie Curie (1867-1934).
e inspetor do Hospital A ideia de que o Museu
1927 Militar da Província de Mato Nacional era uma instituição
O antropólogo Edgard Grosso, que em 1823 doou voltada para o povo ganhou
Roquette-Pinto, um dos ao museu cerca de 2.300 força entre 1937 e 1955,
precursores da radiodifusão, exemplares de 266 espécies durante a administração da
cria a Seção de Assistência de plantas. Em julho de 1863 antropóloga Heloisa Alberto
ao Ensino do Museu Nacional foi criada a Biblioteca Torres (1895-1977). Ela
Central do Museu Nacional, enxergava o museu como
uma das maiores da América parte de uma política
1946 Latina especializada em cultural abrangente, de
A vocação da instituição para ciências antropológicas expressão nacional. Ao
a pesquisa ganha força e sua e naturais, com mais de assumir a direção, em 1937,
administração é transferida 500 mil títulos. fez da antropologia um
para a Universidade do Brasil, instrumento científico para
atual UFRJ a preservação da cultura
brasileira, de acordo com os
ideais do governo de Getúlio
Vargas, entre 1930 e 1945,
conforme verificou a
pesquisadora Carla da Costa
Dias, da Escola de Belas
Artes da Universidade
Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ), em artigo publicado
em 2006 na Revista de
Antropologia. A vocação da
instituição para a pesquisa
26.160 ganhou força em janeiro de
fósseis nas 1946, quando a administração
do museu foi transferida
coleções para a Universidade do
paleontológicas Brasil, atual UFRJ.

2
A instituição contou com
a colaboração de grandes 15.672
pesquisadores e intelectuais amostras
brasileiros. Fizeram parte
de seus quadros o
de coleções
antropólogo Edgard geológicas, entre
Roquette-Pinto, um dos elas o meteorito
precursores da radiodifusão do Bendegó
brasileira, e a bióloga e
política Bertha Lutz, uma
das primeiras ativistas pelo
feminismo no país. Nos
anos 1960 o museu passou
a investir na formação de
pesquisadores e criou a
primeira pós-graduação em 5
antropologia social do país.
Na área de botânica, a
instituição criou seu curso a instituição, 13 mil a menos os pesquisadores trabalham
de mestrado em 1972 e, em do que no mesmo período com a identificação e
2001, o de doutorado, o de 2014. Em 2017, cerca de anatomia das plantas, a
primeiro do Rio de Janeiro 180 mil pessoas visitaram o identidade e a ecologia
na área. Sua coleção de Museu Nacional – Kellner das algas, o estudo do pólen
botânica é a maior do país, quer subir esse número para e a relação entre plantas e
com cerca de 500 mil 1 milhão. polinizadores. Por sua vez,
amostras de plantas. Apenas uma parte de o Departamento de
O prédio do Museu seu acervo fica exposta ao Invertebrados do Museu
Nacional foi tombado em público, como plantas e Nacional é um centro de
1948 pelo Instituto do animais da biodiversidade referência em pesquisas
4
Patrimônio Histórico e brasileira, múmias do Egito, de invertebrados marinhos
Artístico Nacional (Iphan). artesanatos incas e de e de água doce e aracnídeos.
Desde então, a instituição populações nativas Apesar dos problemas, o
se viu diante de diversas brasileiras, esqueletos de Museu Nacional não perdeu
dificuldades, a maioria dinossauros sul-americanos a relevância, na concepção
associada à falta de recursos e o meteorito do Bendegó, de Magali Romero Sá.
para sua manutenção. 6.500.000 encontrado no sertão da “Ele continua sendo uma
Também o número de de exemplares nas Bahia em 1784 e trazido das mais importantes
pessoas que visitavam o para o Rio 100 anos depois. instituições de pesquisa do
museu com o tempo
coleções zoológicas Com 5,36 toneladas, país”, afirma a historiadora.
começou a diminuir. Em é o maior conhecido até Alexander Kellner segue a
janeiro de 2015, apenas o momento no Brasil. mesma linha. “O Museu
13.237 pessoas frequentaram A instituição também Nacional está ligado à
atua na área de pesquisa, história política, científica
fotos  1 e 4 reprodução acervo Museu nacional 2, 3 e 5 wikimedia commons

3
produzindo novos e artística do país”, afirma
conhecimentos em diversos o pesquisador, que
campos. No Departamento já começou a negociar
de Antropologia, por parcerias com a iniciativa
exemplo, o Laboratório de privada e tenta ser recebido
Pesquisas em Etnicidade, pelo governo federal para
Cultura e Desenvolvimento recuperar o Palácio de
(Laced) se dedica ao estudo São Cristóvão. “O Museu
Com mais de de processos de interação Nacional é um projeto
entre populações vencedor”, destaca Kellner.
5.000 itens, indígenas e não indígenas “Mas precisamos de ajuda
o museu detém a e à contribuição dessa para transformá-lo em um
diversidade cultural para o grande museu de história
maior coleção
enriquecimento das natural, como os que
egípcia da dinâmicas sociais. No existem em países da Europa
América Latina Departamento de Botânica, e nos Estados Unidos.” n

PESQUISA FAPESP 267 | 93


resenha

Leonardo da Vinci: uma mirada


Eduardo Kickhöfel

L
eonardo da Vinci não cessa de fascinar. experimentos, então cientistas surgem entre os
Pesquisadores das mais diversas áreas de modernos, e o tipo profissional que conhecemos
estudo voltam-se ao personagem-símbolo hoje teve origem em meados do século XIX. Não
da civiltà (cultura) renascentista. Sua obra de obstante noções que prenunciam questões moder-
múltiplas facetas talvez sugira a possibilidade nas, Leonardo se interessava por filosofia natural,
de obter conhecimento universal, ou ao menos ou seja, conhecimentos teóricos e especulativos a
uma chave para tal conhecimento. Eis então Arte respeito da natureza subordinados a concepções
e conhecimento em Leonardo da Vinci, de Alfredo metafísicas. Entretanto, sendo justo para com o
Bosi, professor emérito de literatura brasileira da autor, leonardistas importantes também usam
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Huma- “artista” e “cientista” para qualificá-lo.
nas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), Isto posto, o livro percorre diversas facetas da
que procura uma chave para entender sua obra. obra de Leonardo. Particularmente feliz e ilumina-
Arte e conhecimento O livro em questão não busca senso históri- dora é a citação, logo no início, da sua descrição de
em Leonardo da Vinci co. Bosi não consultou as recentes publicações caverna: “E arrastado por minha ardente vontade,
Alfredo Bosi
Edusp
da editora Giunti da obra de Leonardo em fac- desejoso de ver a grande cópia das várias e estra-
88 páginas | R$ 34,00 -símiles nem intérpretes como Pietro Mariani e nhas formas feitas pela engenhosa natureza, giran-
Martin Kemp, citando aqui o estudioso que talvez do eu algum tempo por entre escolhos sombrios,
melhor conheça a obra pictórica de Leonardo e cheguei à entrada de uma grande caverna. Diante
seu mais importante intérprete. Bosi também da qual, um tanto estupefato e ignorante daquela
não expressa conhecer fontes do período, em coisa, dobrei em arco os meus rins, pousei a minha
especial Leon Battista Alberti, cujos tratados a mão cansada sobre o joelho, e com a destra cobri
respeito da pintura, escultura e arquitetura for- os cílios abaixados e cerrados, e muitas vezes me
necem conceitos e questões para compreender dobrei ora de um lado, ora de outro, para ver se ali
a produção do italiano. O livro em questão pode discernia alguma coisa, o que me era vedado pela
ser entendido como um ensaio, uma interpre- grande escuridão que havia lá dentro. E passado
tação não diretamente dependente de estudos algum tempo assaltaram-me duas coisas, medo e
eruditos, como o famoso Introdução ao método desejo: medo da ameaçadora e escura espelunca,
de Leonardo da Vinci, de Paul Valéry. desejo de ver se lá dentro houvesse alguma coisa
Essa opção implica riscos, especialmente se miraculosa”. O comentário de Bosi é preciso: “Aqui
não esclarecida. Assim, o título não corresponde diferem os significados da caverna platônica e da
ao conteúdo do livro. Arte como forma de conhe- caverna leonardesca. Da primeira deve o homem
cimento está presente em textos renascentistas, libertar-se para ver o mundo à luz do sol, matriz
como naquele em que, ao tratar da disputa entre de todo o saber. Na segunda, sabendo-a embora
pintura e escultura, Benedetto Varchi segue Aris- escura e ameaçadora, o artista deseja penetrar
tóteles e diz que arte é “um hábito intelectivo que nela para surpreender quem sabe quais segredos
faz com razão verdadeira e certa”, ou seja, conhe- e prodígios”. Muitas coisas maravilhosas estão
cimentos práticos racionais para produzir não só naqueles manuscritos belos e estranhos, e o livro
pinturas e esculturas, mas discursos, operações percorre tópicos como anatomia, o fabulário de
comerciais etc. Sem contextualização histórica, Leonardo, desenho e pintura.
o autor utiliza termos anacrônicos como “artis- As belas páginas do ensaio de Bosi, mesmo que
ta” e “cientista”. Se por artista entende-se pessoa eventualmente anacrônicas, auxiliam a apreciar
que expressa sua respectiva subjetividade, então a obra de Leonardo e talvez sejam estímulos à
artistas são tipos que existem do Romantismo em incipiente pesquisa desenvolvida até hoje a seu
diante. Leonardo, como Michelangelo e tantos respeito no Brasil.
outros mais, fez obras seguindo encomendas e
contratos. Se por cientista entende-se pessoa que
Eduardo Kickhöfel é professor de história da filosofia da Renascença
elabora leis naturais expressas matematicamente, na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade
obtidas por meio de observações sistemáticas e Federal de São Paulo.

94 | maio DE 2018
carreiras

pós-graduação

Retorno compulsório
Bolsistas reivindicam flexibilização do compromisso de voltar ao Brasil
na conclusão do doutorado

Um grupo de pesquisadores brasileiros lançou, No caso das bolsas de doutorado pleno no


em fevereiro deste ano, abaixo-assinado exterior concedidas pela Coordenação de
reivindicando nova discussão sobre as regras Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior
que obrigam os bolsistas de doutorado no (Capes), os beneficiados têm até 60 dias para
exterior a retornar ao país ao término de suas regressar ao Brasil depois de encerradas suas
atividades acadêmicas. No documento, eles atividades. Já os bolsistas do Conselho Nacional
pedem mais clareza e flexibilidade em relação de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
aos critérios usados pelas agências federais de (CNPq) têm, no máximo, 30 dias para voltar
fomento na avaliação dos processos envolvendo ao país. Em ambos os casos é obrigatória a
as solicitações de adiamento do chamado permanência no Brasil por período equivalente
período de interstício, tempo em que o à estadia no exterior. “O objetivo é garantir que
estudante precisa permanecer no Brasil depois o recém-doutor aplique o conhecimento
do término da bolsa no exterior. adquirido em projetos que ajudem a promover
A concessão de bolsas de doutorado no o desenvolvimento científico e tecnológico do
exterior por agências de fomento desempenha Brasil”, explica Adi Balbinot Junior,
papel relevante na formação de pesquisadores coordenador-geral de acompanhamento e
de alto nível, sobretudo quando envolve monitoramento de resultado da Capes.
áreas do conhecimento ainda incipientes ou Quando a volta não ocorre, a Capes, por
inexistentes no Brasil. Compromisso assumido exemplo, instaura processos administrativos,
ilustração  luana geiger

pelo bolsista no momento da concessão sob a responsabilidade de sua auditoria,


do benefício, a obrigação de voltar ao país, solicitando formalmente a devolução dos
depois de concluída a pesquisa, constitui valores subsidiados pela agência. Nos casos
pré-requisito das instituições federais de apoio em que não há devolução, o processo é
à pesquisa científica. encaminhado à Controladoria-geral da União

PESQUISA FAPESP 267 | 95


(CGU) e ao Tribunal de
Contas da União (TCU),
que dá início à cobrança
judicial do montante
desembolsado durante
o período que o
estudante ficou fora do
país, acrescido de
correção monetária.
Segundo Balbinot, o
número de bolsistas
que se recusam a voltar
é pequeno, se
comparado com o
número total de bolsas
concedidas. Nos últimos dois
anos, segundo ele, dos 1.890
bolsistas de doutorado pleno que
concluíram suas atividades no
exterior, 51, ou 2,69%, não voltaram pesquisadores pudessem prolongar
ao Brasil. Alguns conseguiram a estadia fora do país, desde que
emprego em empresas privadas, apresentassem um projeto de
outros foram convidados a pesquisa científico-tecnológica
fazer o estágio de pós-doutorado avalia o grupo de pesquisadores envolvendo cooperação
na instituição em que responsável pelo abaixo-assinado. internacional com instituições
desenvolveram o doutorado ou Em um esforço de lidar com a nacionais, o chamado projeto
constituíram família no país. questão, a Capes decidiu publicar, de novação. Entre outros aspectos,
De acordo com os em outubro de 2016, a portaria o projeto deveria justificar o
organizadores do abaixo-assinado, nº 176, estabelecendo “o instituto não retorno ou o não cumprimento
o principal argumento dos da novação [ato jurídico pelo qual do período de interstício no
estudantes com bolsa de doutorado se cria uma nova obrigação com o Brasil e apresentar relação das
pleno no exterior é que a objetivo de substituir, e extinguir, a novas obrigações, além de
observância do interstício implica, anterior] no âmbito dos programas cronograma de atividades.
por exemplo, a recusa geridos pela Diretoria de Relações De acordo com Balbinot, a ideia
de propostas de trabalho e de Internacionais e os procedimentos era criar mecanismos para avaliar,
oportunidades de estágio para sua aplicação nas hipóteses caso a caso, os pedidos de
de pós-doutorado. O fato de o de justificada impossibilidade de autorização para permanência dos
Brasil não dispor de mecanismos cumprimento das obrigações de recém-doutores no exterior.
que facilitem a reinserção de retorno e permanência no Brasil”. Até então, as solicitações desse tipo
recém-doutores no mercado de Com isso, os bolsistas de eram quase sempre negadas.
trabalho e os sucessivos cortes doutorado pleno no exterior A partir de 2016, tornou-se possível
ilustração  luana geiger

no orçamento federal destinado passaram a não ter mais a obrigação solicitar o adiamento por meio
ao financiamento da pesquisa de cumprir o período de interstício de proposta formal, anexada ao
científica também têm no Brasil, depois de concluídas suas processo eletrônico da bolsa
contribuído para o desinteresse atividades acadêmicas. A medida vigente em, no máximo, 90 dias
desses estudantes em voltar ao país, abriu espaço para que esses antes da data fixada para a volta ao

96 | maio DE 2018
Brasil. O pedido era avaliado por pesquisa e que assegurar a inserção Entre 2002 e 2012, 19.758
três especialistas da área de dos recém-doutores nessas redes brasileiros foram fazer
conhecimento correspondente à é mais importante do que garantir pós-graduação no exterior com
bolsa concedida, escolhidos entre que voltem imediatamente ao bolsas da Capes. Desses, 380 não
os nomes cadastrados na base Brasil, após a titulação no exterior.” retornaram para o país dentro
de consultores ad hoc da Capes. Ao mesmo tempo, esclarece, “é do prazo exigido – o que representa
No entanto, de acordo com igualmente importante assegurar quase 2% do total, segundo dados
Ana Cristina Atanes, uma das que o Brasil seja compensado pelo divulgados em dezembro de 2012
organizadoras do abaixo-assinado, investimento feito na formação pelo jornal O Estado de S. Paulo.
apenas dois dos 74 projetos desse jovem pesquisador”. Na avaliação da cientista social
apresentados desde então foram A indefinição tem gerado Elizabeth Balbachevsky, professora
aprovados pela Capes. “A sociedade incertezas para os bolsistas. do Departamento de Ciência
deve compreender que faltou Ana Cristina, que está prestes a Política da Faculdade de Filosofia,
clareza em relação às regras para concluir seu doutorado no Letras e Ciências Humanas da
obtenção desse tipo de licença e aos Departamento de Cuidados da Universidade de São Paulo
parâmetros usados pela agência Saúde na Universidade de Bangor, (FFLCH-USP), a Capes está
para avaliar esses projetos”, ela diz. no País de Gales, Reino Unido, colocando muita expectativa sobre
Em agosto de 2017, a agência recebeu recentemente uma o pesquisador que, sem ter passado
recuou e decidiu revogar a portaria proposta para continuar sua por estágio de pós-doutorado, ainda
nº 176. De acordo com Balbinot, pesquisa na instituição, mas não não é capaz de gerenciar grandes
quase todos os projetos submetidos sabe se poderá aceitar. “A posição projetos de pesquisa ou de dirigir
à Capes para justificar o pedido das agências brasileiras de impor o centros no exterior.
de adiamento de retorno envolviam retorno imediato e a qualquer custo “Isso apenas evidencia o quanto
apenas a produção de artigos dos recém-doutores é incompatível a concepção das agências
científicos, capítulos de livros com a política de inserção envolvendo a formação de
ou participações em congressos, de pesquisadores em centros de estudantes brasileiros em outros
e não evidenciavam qualquer excelência no exterior, colocando países está desatualizada”, destaca
contribuição efetiva ao em risco parcerias conquistadas Elizabeth. “O retorno imediato
desenvolvimento da ciência e pelo programa”, considera. desses pesquisadores pode
tecnologia brasileiras. “É necessário maior transparência. acarretar mau aproveitamento de
“Isso significa que as pessoas não Um passo nesse sentido seria seu potencial.” Na interpretação
entenderam as exigências da oferecer detalhes sobre os critérios da pesquisadora, as demandas
Capes. Por isso decidimos revogar usados na avaliação das propostas expressas pelo grupo estão
a portaria e criar um grupo de de novação.” alinhadas com aquele que deveria
trabalho para discutir com a
comunidade científica critérios
mais adequados para serem usados
na avaliação dos pedidos de
novação”, explica.
Segundo Lelio Fellows Filho,
coordenador-geral de cooperação
internacional do CNPq, a agência
também está trabalhando na
concepção de novos critérios de
avaliação para as solicitações
de adiamento do período de
interstício, de modo a flexibilizar
essa exigência. Outra medida
importante, prestes a ser adotada,
é a ampliação do prazo para a volta
dos recém-doutores, de 30 para
60 dias, como a Capes.
“Entendemos que o retorno
físico dos recém-doutores
brasileiros já não é tão essencial
como antes”, ele diz. “Também está
cada vez mais claro que a produção
do conhecimento concentra-se
hoje em redes internacionais de

PESQUISA FAPESP 267 | 97


ser um dos principais objetivos de
programas de doutorado pleno perfil
no exterior, ou seja, desenvolver
e fomentar a internacionalização Experimentando a curiosidade
da pesquisa brasileira.
Ainda de acordo com Elizabeth, Bióloga cria empresa para compartilhar seu conhecimento sobre
levando-se em conta a atual a ciência que estuda a vida e os organismos vivos
situação do Brasil, seria razoável
que as agências revissem suas
exigências e tornassem o período de A bióloga Foi nessa época que recebeu o
interstício mais flexível, exigindo paulista Luciana primeiro convite para conversar
dos jovens doutores aquilo que está Vasques estava sobre biologia molecular com alunos
ao seu alcance. “Esse conhecimento prestes a do ensino médio. “Pesquisava no
adquirido no exterior precisa ser concluir um laboratório da geneticista Lygia
constantemente nutrido”, afirma a estágio de da Veiga Pereira, quando ela
pesquisadora. “Se o recém-doutor pós-doutorado desenvolveu o projeto e me convidou
tem a oportunidade de dar no Instituto para participar”, relembra. A ideia
continuidade ao aprimoramento de de Biociências da era que as atividades despertassem o
suas habilidades fora do país, seria Universidade interesse dos jovens para temas
interessante que as agências de São Paulo atuais como técnicas de edição de
léo ramos chaves

pudessem negociar outro tipo de (IB-USP) quando foi convidada a DNA. “Foi aí que decidi montar uma
colaboração, como a coorientação desenvolver oficinas de biologia empresa dedicada a esse tipo de
de estudantes brasileiros, inserção molecular para alunos de um atividade”, explica.
em alguma rede de pesquisa, a colégio particular em São Paulo. Estruturou as primeiras oficinas
mediação de novas parcerias entre A experiência despertou-lhe o em casa e apresentou sua proposta
instituições brasileiras e a que ele se desejo de aplicar o conhecimento a algumas escolas de São Paulo.
encontra em outro país”, sugere. adquirido em duas décadas e meia O interesse foi crescendo. “Nos
Balbinot argumenta que a Capes de pesquisa científica na difusão e projetos, apresento aos alunos
está atenta à questão da aperfeiçoamento do ensino da os avanços mais recentes no campo
globalização e internacionalização biologia em escolas. Em 2016, aos 44 da biologia molecular e discuto
do ensino superior e que pretende anos de idade, decidiu empreender. questões éticas envolvendo a
publicar nova portaria ainda este Sem abandonar o trabalho em manipulação gênica.” A proposta é
ano. Por ora, aos recém-doutores laboratório, criou a Molecolare. que as oficinas transmitam o
interessados em permanecer Luciana ingressou no curso de conhecimento científico de forma
no exterior resta a possibilidade de, biologia no IB-USP em 1991, aos 18 atraente, permitindo aos estudantes
no Brasil, solicitar a suspensão anos. No ano seguinte, sob a entender as técnicas aplicadas
da obrigação de permanência no orientação da geneticista Mayana nas pesquisas em laboratório por
país. Para isso, devem apresentar Zatz, começou um projeto de meio de experimentos reais.
justificativa à Capes. “Se aprovada, iniciação científica sobre genes Os cursos de atualização para
o recém-doutor pode sair por mais responsáveis pela distrofia muscular, professores do ensino médio vieram
um ano, para desenvolver algum doença degenerativa caracterizada logo em seguida. Hoje a Molecolare
projeto de pesquisa científica ou pela fraqueza progressiva dos também presta consultoria a
fazer estágio de pós-doutorado”, músculos. No mestrado e doutorado, estudantes de mestrado e doutorado
esclarece. “Não dá para legislar em desenvolvidos na mesma instituição, interessados em definir os desenhos
cima da exceção. Se o pesquisador dedicou-se ao estudo do mecanismo experimentais de suas pesquisas.
não quiser voltar, terá de devolver de inativação do cromossomo X Em um caso recente, Luciana ajudou
o dinheiro para a União.” em células humanas femininas. uma pesquisadora de doutorado a
Segundo Ana Cristina Atanes, Em 2003 ela iniciou seu primeiro avaliar se os controles que ela havia
o abaixo-assinado pretende estágio de pós-doutorado no usado em um projeto de biologia
contribuir para o aprimoramento Instituto do Coração (InCor) da molecular estavam corretos e a
dos mecanismos já usados pelas Faculdade de Medicina (FM-USP). estruturar os dados coletados.
agências federais de fomento e não Em seguida trabalhou como “Ao planejar e executar bem os
busca eximir ex-bolsistas das pesquisadora visitante no experimentos, diminuem as chances
obrigações assumidas no momento Departamento de Bioquímica da de eles terem de ser repetidos.”
da concessão dos benefícios. Universidade Federal de São Paulo Luciana hoje se dedica quase
Até o fechamento desta edição, (Unifesp), onde ficou até 2011, exclusivamente a sua empresa, a não
1.705 pesquisadores haviam quando voltou para o IB-USP para ser por uma aluna de doutorado
assinado o documento. n iniciar um novo pós-doutorado. que ainda orienta no IB-USP. n R.O.A
Rodrigo de Oliveira Andrade

98 | maio DE 2018
classificados ­_ Anuncie você também: tel. (11) 3087-4212 | www.revistapesquisa.fapesp.br

26 a 28 de Novembro - Rio de Janeiro

O congresso reunirá instituições e


profissionais voltados ao desenvolvimento da
metrologia das radiações ionizantes
destacando a importância social desta área na
saúde, na indústria e no meio ambiente entre
outros setores.

Informações:

www.cbmri.org.br
cbmri@metrologia.org.br
(21) 2532-7373
FAPESP recebe propostas para o
3º Ciclo de Análises de 2018 do
Programa Pesquisa Inovativa
em Pequenas Empresas – PIPE
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
R$ 15 milhões estão reservados para o atendimento
das propostas selecionadas

As propostas de financiamento devem conter projetos de pesquisa


que possam ser desenvolvidos em duas fases:

Fase 1 Demonstração da viabilidade tecnológica de produto ou processo,


com duração máxima de nove meses e recursos de até R$ 200 mil.
Fase 2  Desenvolvimento do produto ou processo inovador, com duração
máxima de 24 meses e recursos de até R$ 1 milhão.
Os proponentes que já realizaram as atividades tecnológicas que demonstrem
a viabilidade do projeto podem submetê-lo diretamente à Fase 2.
Podem apresentar propostas pesquisadores vinculados a empresas
de pequeno porte (com até 250 empregados) com unidade de pesquisa
e desenvolvimento no Estado de São Paulo.

Tire suas dúvidas  > Participe do “Diálogo sobre Apoio


à Pesquisa para Inovação na Pequena Empresa”, evento
realizado pela FAPESP em parceria com CIESP e SIMPI para
esclarecimentos às empresas que irão apresentar propostas. 
27 de junho de 2018 das 9h às 12h

mais Informações Data-limite para Anúncio dos projetos


www.fapesp.br/pipe/chamada-3-2018 apresentaçãodaspropostas selecionados

fapesp.br/pipe/normas 30 de julho de 2018 14 de dezembro de 2018

FAPESP Rua Pio XI, 1500 – Alto da Lapa


São Paulo, SP ­– CEP. 05468-901
(11) 3838-4000  www.fapesp.br