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REDES SOCIAIS E

NOVAS SOCIABILIDADES
os usos do facebook por jovens de Forquilha – CE

NATAL - RN
2016
ANTONIA ZENEIDE RODRIGUES

REDES SOCIAIS E
NOVAS SOCIABILIDADES
os usos do facebook por jovens de Forquilha – CE

1ª EDIÇÃO

NATAL - RN

2016
Conselho Editorial – Série Humanidades I

João Bosco Araújo da Costa (Prof. Dr. da Universidade Federal do Rio Grande do Norte) - Presidente
Alexsandro Galeno Araújo Dantas (Prof. Dr. da Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
Daniel Menezes (Prof. Dr. da Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
Francisco Alencar Mota (Prof. Dr. da Universidade Estadual Vale do Acaraú)
Jacimara Villar Forbeloni (Prof.ª Dr.ª da Universidade Federal Rural do Semi-Árido)
Jessé de Souza (Prof. Dr. da Universidade Federal Fluminense)
Joana Aparecida Coutinho (Prof.ª Dr.ª da Universidade Federal do Maranhão)
Joana Tereza Vaz de Moura (Prof.ª Dr.ª da Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
João Emanuel Evangelista (Prof. Dr. da Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
José Antonio Spineli Lindozo (Prof. Dr. da Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
Maria Conceição Almeida (Prof.ª Dr.ª da Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
Maria Ivonete Soares Coelho (Prof.ª Dr.ª da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte)
Norma Missae Takeuti (Prof.ª Dr.ª da Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
Vanderlan Francisco da Silva (Prof. Dr. da Universidade Federal de Campina Grande)

Copyright © Antonia Zeneide Rodrigues, 2016

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei nº 9.610 de 19/02/1998. É proibida a


reprodução total ou parcial sem autorização, por escrito, do autor.

1ª edição
1ª impressão (2016): XXX exemplares

Catalogação da Publicação na Fonte. Bibliotecária Verônica Pinheiro da Silva-CRB-15/692.

Rodrigues, Antonia Zeneide.


Redes sociais e novas e novas sociabilidades: os usos do Facebook por jovens de
Forquilha-CE / Antonia Zeneide Rodrigues; José Correia Torres Neto (Editor); Kaline
Sampaio de Araújo e Veronica Pinheiro da Silva (Revisoras). – Natal: Caravela Selo
Cultural, 2016.
136 p. : il. – (Série Humanidade I)

ISBN 978-85-69247-25-8

1. Internet. 2. Redes sociais. 3. Facebook. 4. Sociabilidade. I. Torres Neto, José


Correia. II. Araújo, Kaline Sampaio de. III. Silva, Veronica Pinheiro da. IV. Título.

CDU 004.738.5
R696r

Direitos reservados a Antonia Zeneide Rodrigues


Natal – Rio Grande do Norte – Brasil
2016
Printed in Brazil – Foi feito depósito legal
SUMÁRIO

11 APRESENTAÇÃO

15 CAPÍTULO 1
INTRODUÇÃO

18  1.1 Os sujeitos e os


procedimentos metodológicos

33 CAPÍTULO 2
SURGIMENTO E
DESENVOLVIMENTO DA INTERNET
E DAS REDES SOCIAIS

33 2.1 Contexto histórico da internet


41 2.2 Desenvolvimento das
comunidades virtuais
45 2.3 Comparando os conceitos de
virtual, ciberespaço e cibercultura
54 2.4 As redes sociais e o Facebook
56 2.5 Contexto histórico do Facebook
64 2.6 Sociabilidade e Socialidade
75 CAPÍTULO 3
O CAMPO E OS SUJEITOS
DA PESQUISA

75 3.1 Como tudo começou


78 3.2 A cidade e a escola
81 3.3 Os sujeitos da pesquisa

95 CAPÍTULO 4
OS “USOS” DO FACEBOOK:
APROFUNDANDO OS
RESULTADOS DA PESQUISA

115 4.1 Vidas "compartilháveis": mudanças


no sentido de público e privado
130 4.2 As dinâmicas conversacionais
do Facebook
134 4.3 Algumas considerações

137 CAPÍTULO 5
CONCLUSÃO

145 REFERÊNCIAS
APRESENTAÇÃO

É
com muita satisfação que apresento o traba-
lho da autora Antonia Zeneide Rodrigues
sobre tema tão apaixonante e atual e que
passou a fazer parte de todos nós – as redes sociais,
e, de um modo mais especial, o Facebook.
No trabalho, a autora se debruça mais especifica-
mente sobre os usos que um determinado segmento
social – a juventude escolar – faz do Facebook,
como forma de socialização, discutindo em que
sentido é possível nos referirmos ao que vem sendo
denominado de “relações sociais virtuais” como
uma novidade teórico-conceitual, em função do
desenvolvimento tecnológico e comunicacional,
doravante denominado de TIC (Tecnologias de
Informação e Comunicação).
E assim, ao proceder, a autora não descura de
precisar as categorias com as quais trabalha em sua
análise, tais como sociabilidade/socialidade, ciber-
cultura, comunidades virtuais, redes sociais, dentre
outras, sob uma perspectiva sociológica, fundada
em autores tais como Michel Maffesoli, GeOrg
Simmel, Raquel Recuero, Zygmunt Bauman,
Manuel Castells, utilizando-se de uma linguagem
clara, autoexplicativa, acessível ao leitor de qualquer
área acadêmica, sem negligenciar o rigor científico
desta ciência.
Ao focar as redes sociais, e, dentre estas,
o Facebook, mais especificamente como utilizado
por alunos de uma escola pública no interior do
Ceará, a autora se preocupa em precisar quem são
esses alunos, como vivem sua realidade social e
escolar a fim de significar os usos que fazem das
redes sociais, de modo que seu trabalho serve igual-
mente a quem se interessa em compreender o tema
juventude, e isso com bastante atualidade, trazendo
as contribuições teóricas de Machado Pais, Pierre
Bourdieu, dentre outros.
Da mesma forma, em sendo o trabalho resultado
de uma pesquisa na área de Ciências Sociais, a autora
não economiza páginas explicitando a metodolo-
gia empregada, que utilizou de uma combinação
de aplicação de questionários com entrevistas e
grupo focal, servindo igualmente a quem se inte-
ressar em compreender como trabalhar com tais
recursos metodológicos.
Entre os que são demasiadamente ufanistas com
relação às potencialidades das redes sociais enquanto
inauguradoras de novas e descontínuas relações
sociais, e, por outro lado, os que se mantêm críticos
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

à essa possibilidade, muitas vezes negando a própria


novidade, a autora se posiciona em algum lugar
intermediário, mas definido, indicando em que
sentido essa novidade existe, no entanto, subtraindo
o ufanismo da perspectiva ao indicar igualmente os
limites desta. Isso através de uma discussão magistral
em torno dos conceitos de virtual e real, conforme
embate sobretudo entre os autores Pierre Lévy e
Rogério Haesbaert.
De certa forma é possível afirmar, com funda-
mento no trabalho da autora, que a novidade trazida
pelas redes sociais em termos de uma comunidade
virtual tem o seu substrato mais material na própria
socialização do indivíduo, enquanto desejo de estar
e viver juntos, sem o que o mundo virtual careceria
de fundamento e sentido.
12
Por adentrar vários aspectos da vida social e
perseguir o sentido da própria vida em sociedade
na contemporaneidade, parabenizo a autora por este
trabalho, que nos será de grande utilidade para com-
preendermos nossas relações sociais nos dias atuais.

Prof. Dr. Francisco Alencar Mota

APRESENTAÇÃO

13
Capítulo 1
INTRODUÇÃO

O
presente trabalho teve o intuito de
pesquisar o que vem sendo denominado
de “novas sociabilidades”, expressão
associada ao advento da internet, e, com ela, as
redes sociais, em particular. A expressão encontra-se
entre aspas, pois pretende-se analisar de que forma
podemos nos referir a essas formas de interação, por
meio das redes sociais, como realmente novas ou
não, e qual a influência na vida dos jovens e em suas
sociabilidades. São questões de onde partimos para
averiguar a partir de um segmento da população
selecionada – a juventude, sua utilização das redes
sociais em termos de desenvolvimento de uma
“nova” sociabilidade a fim de compreendermos
como ela mesma significa tal utilização, tendo como
ferramenta específica o Facebook em função de sua
massificação atual. Em outras palavras, pergunta-
-se em que sentido tem-se alterado as formas das
relações interpessoais entre os jovens a partir das
redes sociais, e a possibilidade de falarmos em
“novas sociabilidades”.
Dessa forma, focaremos o Facebook, que é,
atualmente, a rede social com o maior número
de adeptos, em sua grande maioria formada por
jovens que passam boa parte de suas vidas on-line,
possibilitando uma movimentação de informações
e construções de laços sociais, fazendo parte de todo
um sistema em rede que este novo website trouxe,
com suas diferentes possibilidades de interação,
com modificações na forma como os jovens se
socializam. Segundo Palfrey e Gasser (2011, p. 13),

o mais incrível, no entanto, é a ma-


neira em que a era digital transformou
o modo como as pessoas vivem e se
relacionam umas com as outras e com
o mundo que as cerca.

Pode-se analisar nesta perspectiva como se


constroem esses laços sociais, inicialmente em
função do advento da internet e, posteriormente,
das redes sociais, e em que sentido elas mudaram
ou ampliaram a forma de socialização.
A escolha do tema decorreu do fato de que as redes
sociais estão cada dia mais fazendo parte da vida dos
jovens, e por ganhar cada vez mais relevo a dinâmica
das interações sociais que são estabelecidas princi-
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

palmente através do Facebook, com a exposição dos


“perfis”, no qual as pessoas acabam “compartilhando”
dados importantes de suas vidas. Na atualidade, todas
as pessoas se tornam mais acessíveis com as redes
sociais e a internet, dado que a comunicação se tornou
mais fácil, surgindo, assim, inquietações de como isso
iria interferir nas relações físicas, ou seja, “face a face”,
e quais seriam os impactos – se é que eles realmente
existem – na forma como as pessoas se relacionam,
sobretudo por também possuírem internet e partici-
parem das redes sociais. Segundo Recuero,

O computador, mais do que uma


ferramenta de pesquisa, de proces-
samento de dados e de trabalho, é
hoje uma ferramenta social, carac-
16 terizada principalmente pelos usos
conversacionais. Isso quer dizer que
os computadores foram apropriados
como ferramentas sociais e que esse
sentido, em muitos aspectos, é fun-
damental para a compreensão da
sociabilidade na contemporaneidade
(RECUERO, 2012, p. 21).

A Sociabilidade apresentada nesse trabalho, sob


a perspectiva de Simmel, aparece como um aspecto
que sofreu modificações ao longo do tempo, com a
incorporação cotidiana das Novas Tecnologias da
Informação, chegando ao ponto de surgirem novas
formas de se interpretar a “sociabilidade”, sendo le-
vantados outros conceitos como o de "socialidade",
que, segundo Michel Maffesoli, se encaixaria melhor
na sociedade atual.
Em suma, tenta-se descrever, neste livro, a
dinâmica das sociabilidades juvenis a partir de
uma escola de Ensino Médio, levantando questio-
namentos acerca dessas tais “novas” sociabilidades
como um novo processo de socialização dos jovens,
utilizando como ferramenta os sites de redes sociais,
propiciadores de uma nova forma de comunicação,
interação e criação de laços sociais.
Traz, ainda, como suporte, a ressignificação
de alguns valores tradicionais, como o sentido de
amizade, de público e privado, até mesmo as formas
de conversar e trocar ideias com os amigos. São carac-
CAPÍTULO 1

terísticas de um tipo de sociedade fluida, que acabou


sendo absorvida por um “mundo virtual” que muitas
vezes transmite as deficiências dos problemas vividos
no plano “real”. Zygmunt Bauman traz esses questio-
namentos, levando em consideração a sociedade atual,
17
contemporânea, em que as relações sociais estão cada
vez mais fluidas e descomprometidas.
Nesse contexto, construiu-se ideias a respeito do
tema que se queria pesquisar, tendo como principal
objetivo analisar se as “novas sociabilidades” existem
e se elas influenciam na sociabilidade e na socia-
lização dos alunos da Escola de Ensino Médio Elza
Goersch. Para isso foram desenvolvidos diversos pro-
cedimentos metodológicos, os quais serão abordados
a seguir.

1.1 Os sujeitos e os
procedimentos metodológicos

O presente texto é o resultado de uma pesquisa


realizada no âmbito do curso de Ciências Sociais da
Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), cuja
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

motivação passarei a explicitar a seguir. Em agosto


de 2012, comecei a fazer parte do grupo de bolsistas
do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à
Docência (PIBID), programa esse financiado pela
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior (CAPES), órgão pertencente ao
Ministério da Educação, enquanto aluna daquele re-
ferido curso, na modalidade Licenciatura. O PIBID
é um programa que propicia o contato dos então
licenciandos, de diversas áreas de ensino, com a
escola, estabelecendo uma parceria entre escola e
universidade. Somos apresentados ao ambiente
escolar e fazemos dele objeto de estudo do que será,
posteriormente, nosso campo profissional. Além dis-
so, há o trabalho de parceria que é desenvolvido com
os professores, tentando trazer melhorias ao processo
18 de ensino-aprendizagem.
Os sujeitos da pesquisa são estudantes da
Escola de Ensino Médio Elza Goersch, situada na
cidade de Forquilha – CE, a 208 km da capital
Fortaleza. À época da pesquisa, constavam matri-
culados na instituição aproximadamente 1.550 es-
tudantes, divididos no primeiro, segundo e terceiro
anos, com funcionamento nos turnos manhã, tarde
e noite. Em função das minhas atividades como
bolsista, frequentava a escola no mínimo uma vez
por semana, no turno da manhã. Quando resolvi
qual seria o campo da pesquisa, já estava inserida
nele. O campo me escolheu, não o contrário.
Ao dar início ao planejamento para o projeto,
fiz uma delimitação do campo, haja vista a grande
quantidade da população, no que se refere ao núme-
ro de alunos, e de acordo com o foco da pesquisa,
não seria possível realizá-la com a totalidade deles,
nem seria isso necessário, pois, segundo Quivy e
Campenhoudt (1992, p. 79),

[...] o campo de análise deve ser muito


circunscrito. Um erro muito frequen-
te nos investigadores principalmente
consiste em escolherem um campo
demasiado amplo.

Para realizar uma pesquisa qualitativa e torná-la


exequível foi feita a delimitação do campo. Dos mais
de mil alunos da escola, depois da delimitação, teve-se
CAPÍTULO 1

apenas 594 estudantes do turno da manhã, subdividi-


dos em 13 turmas com, em média, 45 alunos por sala.
Houve um peso significativo para a escolha e de-
limitação do campo e dos sujeitos - minha interação
prévia com eles, o que, segundo Barreira (1999),
é extremamente importante, pois comumente 19
esquecemos que no momento da pesquisa são criadas
relações sociais, dependo delas o desenvolvimento
do trabalho, sobretudo por estarmos lidando com
jovens que não têm nenhuma obrigação de nos passar
informações, ideias, pensamentos.
Aos poucos fui me acostumando com o ambiente
e me tornando conhecida pelos alunos, estabelecen-
do relações de maior proximidade, que, ao decorrer
da pesquisa, fizeram uma grande diferença, mais
sentida quando da realização das entrevistas, aca-
bando por se constituir em uma tarefa mais fácil,
posto que já havia se desenvolvido um sentimento
de cumplicidade.

Ressalto o fato de que as relações es-


tabelecidas no percurso da pesquisa,
com todas as suas especificidades,
constituem relações sociais que exer-
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

cem fortes influências nas informa-


ções obtidas. Nesse sentido, tentarei
estabelecer uma interação que me
possibilitasse obter o maior número
de informações. Ao mesmo tempo,
tentei não me situar na posição de
avaliador, objetivando diminuir, ao
máximo, a “violência simbólica”, bas-
tante presente na relação entre sujeito
entrevistador e sujeito entrevistado
(BARREIRA, 1999, p. 19).

Assim, no interior do campo foram sendo cons-


truídos o tema e a minha relação com os alunos,
o que fez grande diferença na obtenção dos da-
dos. Em um primeiro momento, eu tinha o campo,
20 sabia onde seria desenvolvida a pesquisa, mas não
tinha ideia de qual seria o tema; depois de algumas
observações, entendi que seria algo ligado às novas
tecnologias, por perceber, nas aulas que dávamos
para os alunos, em intervenções do PIBID, que
eles tinham um grande interesse por elas, quando
utilizadas nas aulas. Percebi, também, as regras
impostas pela escola da proibição do uso de celular,
que não funcionavam efetivamente, pois percebia a
utilização deste em sala de aula. Todos esses aspectos
corroboraram para a escolha do tema. Não foi um
processo fácil; houve mudanças na delimitação do
objeto, várias vezes, e isso ocorria concomitantemen-
te às leituras que fazia, as quais me levaram a outras,
até concluir sobre o que seria pesquisado.
Segundo Quivy e Campenhoudt (1992), faz-se
necessário, inicialmente, fazer uma pesquisa ex-
ploratória, que seria um dos processos essenciais
para o desenvolvimento do trabalho de pesquisa
empírico. A pesquisa exploratória aconteceu com
as observações de campo, e com as leituras bibliográ-
ficas a respeito do assunto, o que favoreceu para que
se pudesse delimitar o “tema” e os procedimentos
metodológicos que seriam utilizados. Foi quando
soube que queria pesquisar sobre “Redes Sociais”,
embora que não tivesse, ainda, um problema deli-
mitado, o que só me viria depois, com os encontros
de orientação.
Segundo Damatta (1978), são necessários “ritos
de passagem” para a construção de um trabalho
CAPÍTULO 1

de pesquisa. O primeiro passo seriam as construções


de hipóteses baseadas nas teorias estudadas, a fase
denominada “teórico-intelectual”, pois ainda não se
possui nenhum dado qualitativo para comprová-la
ou desconstruí-la – encontra-se, ainda, no campo
das hipóteses. Levando em consideração o exposto, 21
a caracterização de “novas” sociabilidades seria, no
primeiro momento, mera hipótese.

[...] a hipótese traduz, por defini-


ção, este espírito de descoberta que
caracteriza qualquer trabalho cientí-
fico. Alicerça numa reflexão teórica e
num conhecimento preparatório do
fenômeno estudado (fase explorató-
ria), representa como que uma pres-
suposição, que não é gratuita, sobre o
comportamento dos objetos reais estu-
dados (QUIVY; CAMPENHOUDT,
1992, p. 59).

Assim, partimos da hipótese das denominadas


“novas sociabilidades”, propiciadas pelo Facebook,
que alguns previam ser “revolucionário”, levando
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

em consideração as mudanças nas formas de relações


sociais. Foi nesse momento em que começaram os
desafios, sendo uma das minhas principais preocu-
pações como iria observar o mundo virtual e analisar
a interação dos jovens em um mundo que se supõe ir
além do real. Após fazer a utilização de leituras sobre
o tema, relacioná-las à metodologia e, posteriormente,
em conversas com o Orientador, o percurso ia sendo
pavimentado, e a minha única preocupação seria a
efetivação das práticas e métodos escolhidos. No que
se referia à aproximação com os sujeitos da pesquisa,
não tive nenhum problema. O campo era conhecido,
pois eu já tinha um espaço na escola.
Sob essa perspectiva foram selecionados pro-
cedimentos metodológicos para que se pudesse
chegar aos resultados que serão apresentados nesse
22 trabalho. Minha principal dificuldade foi a definição
dos métodos. Havia escolhido um tema que não
seria facilmente visto com uma mera observação;
era um verdadeiro desafio metodológico.

Por sua complexidade e abrangência,


com vínculos que não se delimitam
às fronteiras geográficas e culturais
(etnias, religião, idioma, gênero etc.),
essas novas formas relacionais e suas
diferentes possibilidades de apropria-
ção das Tecnologias de Informação e
Comunicação (TICs) representam um
desafio teórico e metodológico [...]
(AGUIAR, 2007, p. 1-2).

As redes sociais são complexas. Existe uma


multiterritorialização possibilitando interações que
não se fazem comumente; foi necessário ampliar
o leque de possibilidades dos métodos que seriam
escolhidos. Utilizei técnicas como conversas com
os jovens alunos, bate-papos on-line e face a face,
considerando-se que muitos foram adicionados ao
meu perfil no Facebook para que tivéssemos um
contato mais próximo e também para que pudesse
observá-los. Nesse primeiro momento, tornou-se
possível o entendimento do que iria ser buscado,
no que se refere à delimitação do objeto.
O trabalho de pesquisa teve início no primeiro
semestre do ano de 2013, sendo desenvolvidas ati-
CAPÍTULO 1

vidades ao longo desse ano até o final do primeiro


semestre de 2014. No ano de 2013, quando foi ini-
ciada a pesquisa, estudavam na referida instituição
escolar aproximadamente 1.481 estudantes, número
que em 2014 era de 1.550 alunos.
23
Foram desenvolvidos vários procedimentos me-
todológicos, sendo o primeiro deles a aplicação de
um questionário, com a finalidade de obter informa-
ções sobre os sujeitos da pesquisa, se tinham acesso
à internet, e ao uso das redes sociais e do Facebook,
em particular, entre outros aspectos, tentando-se
fazer um primeiro levantamento acerca do tema,
bem como um reconhecimento das características
dos sujeitos referentes à relação com a tecnologia e
as redes sociais.
Segundo Tim May (2004, p. 178), os métodos
podem ser complementares, sendo normal pes-
quisadores qualitativos se utilizarem de métodos
quantitativos para que se tenha uma maior dimensão
dos sujeitos da pesquisa. Primeiro se deve entender
as “estruturas de referências” das pessoas que serão
pesquisadas e algumas ferramentas quantitativas
trazem essa possibilidade de interpretação, que deve
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

acontecer nesse primeiro momento, antes mesmo


de serem aplicados outros métodos qualitativos.
Por mais que existam diversas críticas quanto à apli-
cação de questionários, neste trabalho, essa técnica
foi utilizada como uma forma de levantamento de
dados, que seriam complementados posteriormente
com as entrevistas e os grupos focais.
Assim, foram aplicados 149 questionários com os
alunos do turno da manhã, em média 12 questioná-
rios por sala, havendo maior quantidade em algumas
turmas devido ao interesse dos alunos, em um total
de 13 salas. Foi obtida uma amostra representativa
de 10% dos jovens estudantes da escola. Os pri-
meiros questionários foram aplicados nos meses de
agosto e setembro de 2013. O questionário continha
12 questões objetivas de múltipla escolha; a seleção
24 feita para responder aos questionários foi por parte
dos próprios alunos – ao visitar as salas, eles se
autoindicavam para respondê-lo.
Foi ainda utilizado um segundo questionário
com finalidade de traçar um perfil socioeconômi-
co. Esse questionário foi aplicado em março de
2014, com os alunos do turno da manhã que são o
alvo da pesquisa; foram aplicados 42 questionários,
dos quais 5 via Facebook, pois depois da aplicação
física os alunos começaram a pedir para respondê-lo
e eu os enviei por inbox, mensagem privada desta
rede social. Em percentuais isso representou 7%
da população do total que foi analisada. Os dados
desse segundo questionário serviram de base para o
segundo capítulo desse trabalho, que tem como fina-
lidade apresentar os sujeitos da pesquisa. Esses ques-
tionários foram aplicados com o intuito de abrir
caminhos para que se pudesse desenvolver outros
procedimentos metodológicos, como um grupo
focal e entrevistas individuais.
Levando em consideração esses pressupostos, foi
utilizada uma combinação de técnicas, o que permi-
tiu um melhor entendimento do tema proposto – as
“novas sociabilidades” entre os jovens, utilizando a
observação participante para a elaboração de um
roteiro de entrevistas. No mês de maio de 2014, foi
realizada uma entrevista em grupo com 8 jovens de
diferentes anos de ensino, sendo 2 alunos do 3º ano,
2 do 2º ano e 4 alunos do 1º ano, ocasião em que
foi possível um debate entre as ideias durante
CAPÍTULO 1

aproximadamente 1 hora e meia de entrevista, com


10 perguntas abertas que foram sendo modificadas
de acordo com a dinâmica da conversa e com os
temas levantados pelos alunos. Tratavam-se de
questões semelhantes ao questionário aplicado, mas
25
contendo algumas adaptações por se tratar de um
roteiro de entrevistas semiestruturadas.

As entrevistas de grupo constituem


uma ferramenta valiosa de investiga-
ção, permitindo que os pesquisado-
res explorem as normas e dinâmicas
grupais ao redor de questões e tópicos
que desejam investigar. A extensão do
controle da discussão do grupo de-
terminará a natureza dos dados assim
produzidos (MAY, 2004, p. 151).

Utilizei-me também dos grupos focais, justificando-se


tal opção por permitir um maior acesso a um número
considerável de jovens, além de possibilitar uma intera-
ção grupal e discussão das ideias acerca do tema – que
é de interesse deles. Os alunos demonstraram uma
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

enorme empolgação, respondendo todas as questões


de uma forma descontraída. A pesquisa propiciou um
debate e troca de ideias que podem ser considerados
relevantes para a produção dos resultados que serão
apresentados posteriormente.

Os grupos focais se prestaram ao lu-


gar, por excelência, de fala, da troca
de informações e do diálogo entre os
próprios componentes e, como um
momento de “formação”, “um even-
to”, como assinalaram muitos, levan-
do-nos a supor e a refletir acerca do
modo como se tem revelado e se cons-
truído, no cotidiano dessas pessoas, os

26
espaços de trocas e reflexões voltadas
à formação de opiniões individuais e
coletivas (BARREIRA, 1999, p. 20).

Segundo Barreira, esse método é muito im-


portante para o desenvolvimento de uma pesquisa
empírica, mas possui suas limitações, pois se trata de
uma “abordagem rápida”, constituindo-se em uma
entrevista em grupo, em que se conversa rapidamen-
te com os entrevistados, até mesmo por estarem em
grande quantidade. Devido a isso, foram realizadas
entrevistas individuais com o intuito de aprofundar
os dados, possibilitando uma maior reflexão acerca
dos resultados.
Em junho de 2014, foram realizadas três entre-
vistas individuais com 1 aluna do 3º ano, 1 aluno
do 2º ano e 1 aluna do 1º ano. As entrevistas tiveram
uma duração de, em média, 30 minutos, conten-
do as mesmas perguntas do grupo focal, tendo a
característica semiestruturada. Segundo Tim May
(2004), as entrevistas semiestruturadas permitem
que o pesquisador tenha mais espaço para sondar
além das respostas, esclarecendo, assim, algumas
réplicas do entrevistado. E ainda

Considera-se que estes tipos de entre-


vistas permitem que as pessoas respon-
dam mais nos seus próprios termos do
que as entrevistas padronizadas, mais
CAPÍTULO 1

ainda forneçam uma estrutura maior


de compatibilidade do que nas entre-
vistas focalizadas. [...] Como todos os
métodos de entrevista, o entrevistador
deve não apenas estar ciente do con-
teúdo dela, mas também ser capaz de 27
registrar a natureza da entrevista e a
maneira na qual as perguntas são feitas
(MAY, 2004, p. 148-149).

Todas as entrevistas foram semiestruturadas,


tanto o grupo focal quanto as entrevistas indivi-
duais, que foram registradas em um dispositivo
de gravação. Pode-se observar, em todos os passos
desse processo metodológico, que as questões iam
se confirmando a cada processo novo que foi sendo
aplicado. Como os métodos foram utilizados de for-
ma complementar isso possibilitou um aprofunda-
mento do tema pesquisado, fazendo-me obter maior
reflexão acerca dos resultados. Foram combinados
métodos quantitativos e qualitativos.

Do ponto de vista da concepção


teórico-metodológica geral, que nor-
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

teou toda a pesquisa, desde a formula-


ção de procedimentos de campo à in-
terpretação final dos dados, buscamos
uma aproximação razoável entre uma
abordagem quantitativa e qualitativa,
cujo caminho fizesse emergir o com-
portamento dos indivíduos construído
no seu cotidiano de produção de valo-
res, ou melhor, na complexa rede de
significados que empresta sentido às
representações sociais dos pesquisados
(BARREIRA, 1999, p. 19)1.

1Informações da pesquisa desenvolvida por César Barreira


sobre juventude na cidade de Fortaleza. A citação faz parte do
texto metodológico do livro “Ligado na galera”, em que ele
descreve seus procedimentos metodológicos, principalmente o
28 desenvolvimento de grupos focais.
Os resultados apresentados nesse trabalho,
portanto, foram fruto de uma combinação meto-
dológica, corroborando para isso a reflexão teórica
a partir da leitura de vários autores, sob uma pers-
pectiva sociológica e interdisciplinar, tendo como
finalidade o enriquecimento dos temas tratados.
Feitas essas considerações, o presente texto se di-
vide em três momentos. No primeiro, parto, inicial-
mente, de uma apresentação do contexto histórico
da internet, baseando-se nas teorias do sociólogo
Manuel Castells, que apresenta um cenário de de-
senvolvimento de uma sociedade em rede, trazendo
dados históricos sobre como surgiu a Internet, seus
fundadores, seu desenvolvimento tecnológico acerca
da informática, até chegar à popularização da rede
entre a comunidade civil. E, finalmente, chega-se às
redes sociais, abordando seus principais conceitos,
como Cibercultura, Ciberespaço e Virtual, palavras
que nasceram com a utilização da internet e das redes
sociais. As Comunidades Virtuais também fazem par-
te do histórico da rede mundial de computadores.
Levando-se em consideração termos como “virtual”,
que possui prismas diferenciados quando se refere a
conceituações teóricas, trago uma discussão do filó-
sofo Pierre Lévy e do geógrafo Rogério Haesbaert,
em se tratando de relações em um plano virtual e
físico, levando em consideração os territórios e os
espaços onde tais relações acontecem.
Em suma, finalizando o segundo capítulo, são
CAPÍTULO 1

apresentadas discussões sobre as categorias de socia-


bilidade, de GeOrg Simmel, e socialidade, a partir
de Michel Maffesoli, debruçando sobre as formas
de socialização e a conceituação destas na sociedade
contemporânea e as novas formas de socialização
entre os jovens. 29
No terceiro capítulo, é feita a apresentação
do campo e dos sujeitos da pesquisa, com jovens
estudantes, ocasião em que levanto uma discussão
teórica acerca do conceito de “Juventude”, fazendo,
ao mesmo tempo, uma apresentação dos resultados
obtidos no questionário socioeconômico, chegando-
-se, assim, à categorização de tais jovens como
“nativos digitais”, com o auxílio de Palfrey e Gasser.
No quarto capítulo, finalmente, são expostos e
discutidos os dados da pesquisa. Os resultados que
foram obtidos como os processos metodológicos
são apresentados em meio a discussões teóricas de
conceitos-chave levantados nos capítulos anteriores,
complementados com a contribuição de Raquel
Recuero. Foram utilizadas as falas dos alunos como
forma de apresentação acerca de sua experiência com
a dinâmica do Facebook. São tratados, ainda, termos
como sociabilidade e privacidade, que aparecem
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

como noções que podem ser interligadas. São tam-


bém discutidas questões como a linguagem utilizada
nas redes. Dessa forma, todos os dados obtidos com
os sujeitos da pesquisa encontram-se diluídos no ter-
ceiro capítulo, de forma direta ou mesmo indireta.
Esperamos que o trabalho tenha importância para
a construção e fundamentações teórico-científicas a
respeito do tema tratado, sendo apenas um viés de
um campo complexo e cheio de possibilidades.

30
Capítulo 2
SURGIMENTO E
DESENVOLVIMENTO DA INTERNET
E DAS REDES SOCIAIS

2.1 Contexto histórico da internet

A
internet, conforme vários autores têm
acentuado, trata-se de uma das maiores
revoluções tecnológicas da humanidade,
consistindo-se em uma grande rede de relações em
que aos poucos, como veremos, deixa de se limitar
aos interesses meramente científicos e governamen-
tais até invadir as residências dos usuários, sendo
utilizada para todos os tipos de transações –
comerciais, profissionais, educacionais, afetivas
etc. Tudo isso como consequência do desenvolvi-
mento tecnológico nas últimas décadas, cuja traje-
tória merece, como faremos no presente trabalho, ser
explicitada a fim de que possamos, ao final, perceber
e compreender sua utilização em meio aos jovens,
em particular, como forma de relações sociais.
As origens da internet, bem como os motivos que
levaram ao seu surgimento, remontam ao contexto
da Guerra Fria, conflito que colocava, ao longo de
boa parte do século XX, os Estados Unidos em uma
luta constante contra a antiga União Soviética pela
supremacia tecnológica, militar, política e econô-
mica. Segundo Castells, a Guerra Fria favoreceu o
investimento governamental em ciência e tecnologia
de ponta, particularmente “depois que o desafio do
programa espacial soviético tornou-se uma ameaça
à segurança nacional dos EUA” (CASTELLS, 2003,
p. 22). Destaque-se, nesse contexto, como marco
originário, o lançamento do primeiro Sputnik2, em
1957, pelos soviéticos.
Em 1958, o Departamento de Defesa dos EUA
criou a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de
Defesa (Advanced Research Projects Agency – ARPA).
Com uma mobilização voltada para as pesquisas,
é criada em 1969 uma rede de computadores no
Escritório de Tecnologia de Processamento de
Informações (Information Processing Techniques
Office – IPTO), que seria um dos departamentos da
ARPA, onde foi desenvolvido um pequeno programa
de computadores – o “Arpanet”, embrião do que
mais tarde viria a ser a internet. Inicialmente, os
cientistas não tinham de fato uma linha de pesquisa
clara. Segundo Castells,

A esperança da ARPA era que, a partir


REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

de recursos substanciais e inventivida-


de científica, fosse produzido algo de
que os militares (mas também a eco-
nomia dos EUA) pudesse se beneficiar
(CASTELLS, 2003, p. 22).

2Sputnik significa “companheiro”, em russo, e é mais conhecido


como um grupo de naves espaciais robóticas lançadas ao espaço em
missões pela União Soviética. O primeiro satélite artificial enviado
para explorar a atmosfera superior tinha a função de estudar as
capacidades de lançamento de cargas úteis e os efeitos da ausência
de peso e da radiação sobre os Organismos vivos. Tomou o nome
de Sputnik 1 e seu lançamento aconteceu em outubro de 1957,
marcando o início de um grande desenvolvimento tecnológico,
científico, político e militar. Disponível em: <http://www.signifi-
34 cados.com.br/sputnik/>. Acesso em: 12 abr. 2014.
Nesse contexto, surge a primeira rede de computa-
dores, inicialmente conectada às universidades que
estavam em parceria com a pesquisa.

A primeira rede de computadores, que


se chamava ARPANET – em home-
nagem ao seu poderoso patrocinador
– entrou em funcionamento em 1° de
setembro de 1969, com seus quatro
primeiros nós na Universidade da
Califórnia, em Los Angeles, no Stanford
Research Institute, na Universidade da
Califórnia, em Santa Bárbara e na
Universidade de Utah. Estava aberta
aos centros de pesquisa que colabora-
vam com o Departamento de Defesa
dos EUA, mas os cientistas começaram
a usá-la para suas comunicações, che-
gando a criar uma rede de mensagens
entre entusiastas de ficção científica
(CASTELLS, 1999, p. 83).

Em 1975, a Arpanet é transferida para a Agência


de Comunicação de Defesa (Defense Communication
Agency – DCA), de onde sairiam as principais comuni-
cações entre os militares por computador. Inicialmente,
a internet tem uma finalidade militar, com o intuito
de comunicação entre os principais polos das forças
armadas. Conforme Castells, “a certa altura tornou-se
CAPÍTULO 2

difícil separar a pesquisa voltada para fins militares


das comunicações científicas e das conversas pessoais”
(CASTELLS, 1999, p. 83). Dessa forma, deu-se a
divisão entre a ARPANET e a MILNET, estando a
primeira restrita a fins científicos, enquanto a segunda
a fins militares. Até então, a Internet passava por um 35
período de experimentação, mas percebe-se que ela
vai se distanciando dos ideais fechados, das finalidades
militares, e, aos poucos, ganha espaço como forma de
comunicação entre as pessoas.
No ano 1979, desenvolveu-se a UNIX,

um sistema operacional desenvolvido


pelos Laboratórios Bell, liberado para
as universidades em 1974, inclusive
seu código-fonte, com permissão
para a alteração da fonte (CASTELLS,
2003, p. 16).

O UNIX foi um sistema operacional criado gra-


tuitamente e liberado na rede para aperfeiçoamen-
tos, mais tarde conhecido como LINUX, ou seja,
quando eram criados novos programas estes ficavam
disponíveis na rede livremente para que pudessem
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

ser modificados, o que leva a compreender que o


surgimento da internet é permeado de um trabalho
em comum, tendo-se em vista os programas serem
formados em grupo e ainda não existir a privatização
de programas.

Nos anos 60 e 70, o desenvolvimento


da informática se deveu, em parte, ao
que os técnicos compartilhavam seu co-
nhecimento. Os códigos dos programas
de computadores eram compartilhados,
de maneira que os avanços de um eram
utilizados por outros para melhorar o
dito programa. Atualmente, grande
parte das aplicações de informática
que utilizamos tem seu código oculto
36 pertencente aos seus proprietários,
por isso não podemos copiá-las e nem
compartilhar o seu desenvolvimen-
to. Só eles, os seus proprietários, podem
modificá-las, melhorá-las (CASTELLS;
CARDOSO, 2005, p. 229).

E assim a internet ultrapassa as barreiras militares


e governamentais, ganhando espaço “público” e
invadindo progressivamente a vida das pessoas, em
todas as suas dimensões. São idas e vindas que nos
fazem perceber o quanto a criação da internet mo-
dificou a vida da sociedade, e desde o seu processo
de desenvolvimento vem causando transformações
socioeconômicas, sobretudo quando se percebeu que
ela poderia ser utilizada para auferir lucros, ou seja,
utilizada econômica e comercialmente, mais tarde
subsidiando a própria indústria.
A ARPANET desempenhou um papel de
extrema importância na criação da internet, e, pos-
teriormente, no início do que seria uma tentativa de
criação de um correio eletrônico, pois já era possível
a comunicação entre as universidades.

Contudo, todas as redes usavam a


ARPANET como espinha dorsal do
sistema de comunicação. A rede das re-
des que se formou durante a década de
1980 chamava-se ARPA-INTERNET,
depois passando a se chamar
CAPÍTULO 2

INTERNET, ainda sustentada pelo


Departamento de Defesa e operada
pelo National Science Foundation
(CASTELLS, 1999, p. 83).

37
Outro ponto importante foi quando Berners-Lee
criou, em 1990, o programa Enquire, contando com
o apoio da internet que já tinha sido “inventada”.
Este software ampliou as formas de comunicação
entre os computadores, e trouxe melhoramentos na
forma de se fazer pesquisa; é o que conhecemos hoje
como “WWW” – utilizando um mesmo “código”
era possível estar conectado com o mundo e ficar
atualizado com as informações disponibilizadas na
rede mundial de computadores.

Ele definiu e implementou o software


que permitia obter e acrescentar infor-
mação de e para qualquer computador
conectado através da Internet: HTTP,
MTML e URI (mais tarde chamado
de URL). Em colaboração com
Robert Cailliau, Berners-Lee cons-
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

truiu um programa navegador/editor


em dezembro de 1990, e chamou esse
sistema de hipertexto de world wide
web, a rede mundial. O software do
navegador da web foi lançado na
Net pelo CERN em agosto de 1991
(CASTELLS, 2003, p. 18).

Depois da criação da World Wide Web começou


a se tecer uma nova etapa na história da Internet,
um momento de ampliação dos horizontes comu-
nicacionais, e, ao mesmo tempo, uma tentativa de
aceitação do incrível novo “mundo virtual” que
nascera. As pessoas, que antes não tinham acesso à
rede, pois a internet a princípio era algo complexo
e restrito, passaram, progressivamente, a iniciar a
38 entrada no mundo virtual. Depois do “WWW” a
tarefa de navegar em rede se tornou mais fácil, sem
necessidade de códigos complicados, ao longo do
que, aos poucos, foram surgindo os sites. A internet
“nasceu” em uma cultura tecnomeritocrática, em
que inicialmente só tiveram acesso a ela camadas da
sociedade que possuíam algum tipo de conhecimen-
to específico e tecnológico.

Contudo, em 1990 os não-iniciados


ainda tinham dificuldade para utilizar
a internet. A capacidade de transmissão
de dados era muito limitada, e era
dificílimo localizar e receber infor-
mações. Um novo salto tecnológico
permitiu a difusão da internet na so-
ciedade em geral: a criação de um novo
aplicativo, a teia mundial (World Wide
Web – WWW), que Organizava o teor
dos sítios da internet por informação,
e não por localização, oferecendo aos
usuários um sistema fácil de pesquisa
para procurar informações desejadas
(CASTELLS, 1999, p. 87-88).

Em 1995, foi lançado um software criado pela


Microsoft – o Windows 95, e, posteriormente, o
Internet Explorer – um navegador exclusivo da in-
ternet. Com Bill Gates e a Microsoft, os programas
que eram aperfeiçoados via internet, abertamente,
CAPÍTULO 2

passam a não existir mais. De início seria ainda


relativamente “caro” conseguir um computador e
ter acesso à internet, razão pela qual ainda hoje se
fala em exclusão digital.
Quando a internet começa a fazer parte da
sociedade civil, os que têm acesso a ela conseguem 39
ingressar em um dilúvio de informações disponíveis
na tela de um computador, acarretando modifica-
ções em todas as dimensões da vida – estruturas da
economia, política, bem como nas relações sociais
(LÉVY, 1999). Era possível, agora, se comunicar
com pessoas do outro lado do mundo, coisa que até
então só acontecia, de forma instantânea, através
do telefone; mas, diferentemente deste, ocorria
uma interação com um número cada vez maior
de indivíduos, por mais que inicialmente não se
tivesse, ainda, acesso irrestrito à internet, visto que
sua popularização ia se constituindo com o passar
do tempo. Para os negócios, a internet proporcionou
maior avanço e a possibilidade de marketing. O po-
der também se tornou algo descentralizado.

A Internet cria, hoje, uma revolução


sem precedentes na história da
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

humanidade. Pela primeira vez o


homem pode trocar informações, sob
as mais diversas formas, de maneira
instantânea e planetária. A ideia de
aldeia global (embora seja mais exato
falarmos o plural) está se tornando
uma realidade. Hoje as possibilidades
já estão enormes: Consulta de banco
de dados, correio eletrônico, transa-
ções comerciais, fóruns de tendências
as mais variadas, consultas médicas,
agregações sociais (chat, MUDs,
listas...), rádios de várias partes do
mundo, jornais, revistas, música,
vídeo, museus, arte. Os exemplos são
numerosos (LEMOS, 2013, p. 115).
40
O aspecto comunicacional, portanto, é um dos
que tem mais se evidenciado como alteração trazida
pela internet às formas de interação social, em todas
as dimensões da vida social, política, econômica,
administrativa e cotidiana, razão pela qual tem-se
apregoado vivermos uma sociedade informacional
sob novos aparatos tecnológicos, constituindo-se tal
fato uma novidade. Segundo Castells, em seu livro
“Galáxia da internet”, as

atividades econômicas, sociais, polí-


ticas e culturais, essenciais por todo
o planeta, estão sendo estruturadas
pela internet e em torno dela, como
por outras redes de computadores
(CASTELLS, 2003, p. 8).

Assim, em continuidade com o pensamento do


autor, manter-se fora da internet significa nos dias
atuais uma das maiores formas de exclusão, inclusive
em termos econômicos e também culturais.

2.2 Desenvolvimento das


comunidades virtuais

Desde os primórdios da internet, havia ideias


então incipientes de sua utilização como forma de
interação entre as pessoas comuns, mas tal fato ainda
CAPÍTULO 2

não seria viável devido ao acesso a computadores ser


ainda bastante restrito. Isso só foi possível depois
da criação dos PCs (Computadores Pessoais), o que
não significa dizer que antes não havia tal interação
na internet.
41
Na década de 1990, já era possível a troca de
mensagens via e-mail, mas ainda não a comunicação
em tempo real. As pessoas também poderiam usar
pseudônimos, sem haver necessidade de utilizar no-
mes reais, mas já havia indícios do que, mais tarde,
seriam as redes sociais. Com a popularização da
internet foram criadas as “Comunidades Virtuais”,
possibilitando uma interação direta entre pessoas,
mesmo sem a presença física, algo semelhante ao
telefone, mas trazendo oportunidades maiores de
interação e sociabilidade. Começaram a se formar
verdadeiras comunidades, que transcendiam o
espaço físico e ganhavam aos poucos a valorização
de um contingente cada vez maior de pessoas.
Conforme Raquel Recuero (2009), ocorre-
ram mudanças sociais causadas pelo surgimento
da internet. Dentre elas, pode ser destacada
a Comunicação Mediada por Computador –
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

CMC. Além disso, André Lemos ressalta que

as comunidades virtuais eletrônicas


são agregações em torno de interesses
comuns, independente de fronteiras
ou demarcações territoriais físicas
(LEMOS, 2013, p. 89).

Para compreender as comunidades virtuais


nos submeteremos a uma perspectiva sociológica,
debruçando-nos sobre o termo “comunidade”, o que
faremos, inicialmente, segundo Bauman, para quem
está diante de uma nova realidade. Em seguida,
compararemos a diferentes vertentes acerca do termo
“virtual”, com suas peculiaridades e diferentes linhas
de raciocínio. Segundo Bauman,
42
Comunidade é um lugar “cálido”,
um lugar confortável e aconchegan-
te. É como um teto sob o qual nos
abrigamos da chuva pesada, como
uma lareira diante na qual esquen-
tamos nossas mãos num dia gelado.
[...] Numa comunidade, todos nos
entendemos bem, podemos confiar no
que ouvimos, estamos seguros a maior
parte do tempo e raramente ficamos
desconcertados ou somos surpreendi-
dos. Nunca somos estranhos entre nós
(BAUMAN, 2003, p. 7).

De acordo com o autor, comunidade seria


algo desejado por todos os que fazem parte do
meio social, seria um local seguro, onde todos se
entendem e compartilham suas vidas, mas que, por
outro lado, “é um mundo que não está, lamenta-
velmente, ao nosso alcance, o qual gostaríamos de
viver e esperamos vir a possuir” (BAUMAN, 2003,
p. 9). Segundo o autor, seria um paraíso perdido,
mas, para conquistá-lo, seria preciso abrir mão da
liberdade, da fluidez, do movimento, de se estar em
vários lugares ao mesmo tempo.

Há um preço a pagar pelo privilégio


de “viver em comunidade” – ele é
pequeno e até invisível só enquanto a
CAPÍTULO 2

comunidade for um sonho. O preço


é pago em forma de liberdade, tam-
bém chamada “autonomia”, “direito
a autoafirmação” e “identidade”.
Qualquer que seja a escolha, ganha-se
uma coisa e perde-se outra. Não ter 43
comunidade significa não ter proteção;
alcançar a comunidade, se isto ocorrer,
poderá em breve significar perder a
liberdade (BAUMAN, 2003, p. 10).

Levando em consideração o exposto, viver em


comunidade requer esforços que o ser humano
moderno não está, de certa forma, disposto a
cumprir. Segundo o autor, “a identidade brota entre
os túmulos das comunidades” (BAUMAN, 2003,
p. 20). Não é possível escolher, ao mesmo tempo, a
liberdade e a segurança que a comunidade fornece,
seria necessário optar. Atualmente se busca uma
identidade que diariamente é construída, em que
o ser humano supervaloriza sua autonomia e busca
constantemente estar em movimento. A moderni-
dade traz este caráter individual, de busca por um
espaço na sociedade, almejando uma legitimidade.
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

Na procura de si mesmo e de uma


sociabilidade afetuosa, ele facilmente
se perde na selva do eu... alguém que
tateia na bruma do seu próprio eu
não é mais capaz de perceber que
esse isolamento, esse “confinamento
solitário do ego” é uma sentença de
massa. A individualização chegou
para ficar; [...] A individualização
traz para um número sempre cres-
cente de pessoas uma liberdade sem
precedentes de experimentar – mas
traz junto a tarefa também sem prece-
dentes de enfrentar as consequências
(BAUMAN, 2001, p. 48).
44
Tomando por base estes aspectos, não significa
dizer que as pessoas não procuram, ou almejam se
socializar; pelo contrário, elas buscam uma forma
de estar juntas, só que em momentos específicos
em meio a uma valorização exacerbada da indi-
vidualidade. Segundo Bauman (2004, p. 07), as
pessoas buscam “relacionamentos de bolso” nos
quais “podem dispor quando necessário” e depois
tornam a guardá-los. Observando tal perspectiva das
relações modernas estabelecidas fisicamente, traz-se
uma ideia das relações de uma rede social, a qual se
pode acessar quando necessário e se desconectar a
qualquer momento. Neste contexto, existem con-
ceitos que possibilitarão um melhor entendimento
do virtual e suas diversas vertentes, de certa forma
fazendo uma ligação entre os termos.

2.3 Comparando os conceitos de


virtual, ciberespaço e cibercultura

A internet constitui diversas formas e represen-


tações da experiência social, em que os indivíduos
a vivem de diferentes modos em seu cotidiano,
adequando-se às suas necessidades em todos os
aspectos: econômicos, políticos, educacionais e
até mesmo nas próprias relações sociais, em meio
às redes sociais. Percebe-se uma modificação na
dinâmica social, um novo período histórico, que
CAPÍTULO 2

alguns sociólogos contemporâneos associam à pós-


-modernidade, sendo a sociedade da informação
uma das suas principais características.

45
Vivemos num período histórico
caracterizado como a «era da infor-
mação», onde nos deparamos com a
possibilidade de interação com novos
aparatos tecnológicos, que estabele-
cem novas formas de comunicação
entre as pessoas e das pessoas com
coisas. Estamos vivenciando uma
revolução, que tem como elemento
central a tecnologia da informação e
da comunicação. Por consequência,
estamos presenciando uma profunda
alteração nas relações sociais, polí-
ticas e econômicas, impulsionadas
por uma expansão permanente de
hardware, software, aplicações de co-
municações que prometem melhorar
os resultados na economia, provocar
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

novos estímulos culturais e incentivar


o aperfeiçoamento pessoal, através
do uso da tecnologia para a prática
educativa (CASTELLS; CARDOSO,
2005, p. 227).

Como defendem diversos autores, dentre eles


André Lemos, Pierre Lévy e o próprio Manuel
Castells, vivemos um momento histórico de
extrema valorização do conhecimento e da infor-
mação. Atualmente os indivíduos utilizam a tela do
computador para estudar, trabalhar, fazer compras
e se comunicar com outras pessoas. A internet
possibilita melhorias na economia como forma
de marketing, e até mesmo com lojas virtuais.
Atualmente, o Google, reconhecido site de busca,
46 arrecada milhões diariamente devido à publicidade
que é disponibilizada aos usuários. A cada click essa
grande empresa se torna mais poderosa economica-
mente, devido ao grande número de acessos.
Percebe-se que a internet adquiriu um impor-
tante papel social, trazendo mudanças no âmbito
governamental, institucional, econômico e rela-
cional, de uma maneira geral, resultando em uma
dinâmica diferenciada. O filósofo contemporâneo
Pierre Lévy, em seu livro Cibercultura, descreve os
aspectos deste novo processo cultural que a internet
representa se transformando em uma cultura vir-
tual. Ele ressalta as modificações que o uso dessas
conexões e suas ferramentas de interação virtual
trouxeram, fazendo reflexões sobre mudanças co-
tidianas significativas, chamando atenção para pos-
síveis alterações até mesmo no campo educacional,
com o que denominou de “dilúvio de informação”.
Também André Lemos, seu discípulo, estudioso e
pesquisador da cibercultura, no livro Cibercultura:
Tecnologia e Vida Social na Cultura Contemporânea,
delineia um contexto histórico dos primórdios da
Informática até o surgimento de uma cibercultura,
no contexto do desenvolvimento de uma sociedade
comunicacional, levando em consideração as trans-
formações nos processos de sociabilidade e socialida-
de, suscitando o que denominou de cibersocialidade.
Diante do exposto, para abordar o termo ciber-
cultura, faz-se necessário, inicialmente, fazer algumas
considerações sobre a noção de “ciberespaço”, o qual
CAPÍTULO 2

faremos em consonância com a abordagem de Pierre


Lévy, para quem

O ciberespaço (que também chamarei


de “rede”) é o novo meio de comunica-
ção que surge da interconexão mundial 47
de computadores. O termo especifica
não apenas a infra-estrutura material
de comunicação digital, mas também o
universo oceânico de informações que
ele abriga, assim como os seres humanos
que navegam e alimentam esse universo
(LÉVY, 1999, p. 17).

Em outro momento,

O ciberespaço é concebido como


um espaço transnacional onde o
corpo é suspenso pela abolição do
espaço e pelas personas que entram
em jogo nos mais diversos meios de
socialização [...]. Assim sendo, o cibe-
respaço é um não lugar, uma u-topia
onde devemos repensar a significação
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

sensorial de nossa civilização baseada


em informações digitais, coletivas e
imediatas. Ele é um espaço imaginário
(LEMOS, 2013, p. 128).

Pode-se perceber que o ciberespaço surge com o


advento e popularização da internet, e com o surgi-
mento das comunidades virtuais, trazendo uma nova
forma de comunicação que é possibilitada através da
tela de um computador. Conforme vimos, a internet
permite um grande número de informações, sendo
possível navegar e manter-se informado em tempo
atual. Também pode ser concebido como um espaço
onde o ser humano pode ampliar as possibilidades
da “vida real”, criando uma “realidade aumentada”
(LEMOS, 2013), permitindo um desconectar da
48
realidade. Em suma, ciberespaço é a rede e tudo que
está disponível nela.
É-nos de suma importância interligarmos os
termos “ciberespaço” e “cibercultura”. Segundo Lévy,

cibercultura especifica o conjunto de


técnicas (materiais ou intelectuais),
de práticas, de atitudes, de modos
de pensamento e de valores que se
desenvolvem juntamente com o
crescimento do ciberespaço (LÉVY,
1999, p. 17).

Pode-se, então, afirmar que é uma cultura virtual,


que expressa o comportamento do indivíduo neste
novo espaço propiciado pela internet. Cria-se um
“segundo mundo” onde as atitudes e posicionamen-
tos ficam escondidos atrás da tela do computador.
Entende-se que para compreender esta prática é pre-
ciso analisar o conceito de virtual, o que iniciaremos
com a definição de Pierre Lévy (1996, p. 5) a seguir:

A palavra virtual vem do latim me-


dieval virtualis, derivado por sua vez
de virtus, força, potência. Na filosofia
escolástica, é virtual o que existe em
potência e não em ato. O virtual
tende a atualizar-se, sem ter passado,
no entanto, à concretização efetiva
CAPÍTULO 2

ou formal. A árvore está virtualmente


presente na semente. Em termos
rigorosamente filosóficos, o virtual
não se opõe ao real, mas ao atual:
virtualidade e atualidade são apenas
duas maneiras de ser diferentes. 49
Vê-se que o autor se apropria de uma pers-
pectiva filosófica para definir o que é virtual,
compreendendo-o como aquilo que se encontra
em potência, em comparação ao ato, a exemplo
de uma árvore que está presente virtualmente na
semente. Disso se conclui que virtual não é o que
não existe, ou o que é destituído de realidade, não
sendo o oposto de realidade, justificando-se assim a
expressão “realidade virtual”.

É virtual toda entidade “desterrito-


rializada”, capaz de gerar diversas
manifestações concretas em diferentes
momentos e locais determinados,
sem, contudo, estar ela mesma
presa a um lugar ou tempo em par-
ticular. Para usar um exemplo fora
da esfera técnica, uma palavra é uma
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

entidade virtual (LÉVY, 1999, p. 47).

Outras linhas de pensamento divergem quanto


ao significado do termo “desterritorialização” con-
forme usado pelo autor, a exemplo do que nos é
dado por Haesbaert (2012, p. 17), para quem

O mito da desterritorialização é o
mito dos que imaginam que o homem
pode viver sem território, que a socie-
dade pode existir sem territorialidade,
como se o movimento de destruição
de territórios não fosse sempre, de
algum modo, sua reconstrução em
novas bases.

50
Segundo o autor, a utilização do termo “desterri-
torialização” seria uma forma simplista de descrever o
plano virtual, levando-se em consideração, do ponto
de vista geográfico, que território não seria apenas um
“substrato material”, pois pode ser associado também
a conexões que são constantemente reterritorializadas.

Vista ao mesmo tempo como desma-


terialização ou “desespacialização” e
como “não presença”, a desterritoriali-
zação “levyana” se aproxima da mesma
simplificação já apontada que vê o
território através da concepção muito
tradicional de espaço, quase absoluta,
espaço-superfície concreto, devida-
mente localizado, delimitável, estável,
“enraizado”, quase sem movimentos e,
assim, separando nitidamente tempo
e espaço, território e rede, desterri-
torialização e sua outra metade, a
territorialização (HAESBAERT, 2012,
p. 273-274).

Ainda segundo Haesbaert (2012, p. 270),

[...] não há uma desterritorialização


pelo simples fato de que o território
está sendo construído em outras bases,
agora puramente abstratas, como
CAPÍTULO 2

aquelas das “comunidades virtuais”


da Internet.

Ou seja, não há como permanecer “desterrito-


rializado”. Os seres humanos constantemente se
reterritorializam, e também podem estar presentes 51
em vários lugares ao mesmo tempo sem ao menos
sair do lugar; existe uma rapidez de fluxos e informa-
ções, de mobilidades em frações de segundos. O que
existe, sim, é uma multiterritorialização.

Multiterritorialidade (ou multiterrito-


rialização se, de forma mais coerente,
quisermos enfatizá-la enquanto ação
ou processo) implica, assim, na
possibilidade de acessar ou conectar
diversos territórios, o que pode se
dar através de uma “mobilidade
concreta”, no sentido tanto de um
deslocamento físico quanto “virtual”,
no sentido de acionar diferentes terri-
torialidades mesmo sem deslocamento
físico, como nas novas experiências
espaço-temporais proporcionadas
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

através do ciberespaço (HAESBAERT,


2012, p. 344).

Vê-se que o terreno sobre o qual nos debruçamos


no presente trabalho envolve uma complexidade
de termos, cuja utilização nem sempre carrega os
mesmos significados, obrigando-nos a enveredarmos
algumas vezes até por uma discussão interdisciplinar
que é enriquecedora. Analisando o termo desterri-
torialização pode-se ter, à primeira vista, uma noção
equivocada das novas formas de mobilidade e até
mesmo da fluidez das interações sociais. Após al-
gumas reflexões e observações de áreas específicas,
como a Geografia, percebe-se a amplitude da palavra
“território” e seus diversos significados, fazendo-nos
perceber que território vai além de espaços físicos
52 concretos, levando em consideração as formas de
conexões virtuais que não podem ser deixadas de
lado nesse novo cenário que foi sendo tecido com o
surgimento da internet e, posteriormente, das redes
sociais e da cibercultura.
A “nova era” traz possibilidades de se multiter-
ritorializar, isto é, presenciar formas diferenciadas
de território em um dado momento, característica
também das redes sociais. Possibilita-se uma cons-
tante reterritorialização, pois o ser humano não pode
estar em um “não lugar”, como diria Lemos (2013),
pois em todos os momentos sua presença física ou
não está presente em algum “espaço”, seja ele virtual
ou físico. Então se pode incluir a fluidez, levantada
por Bauman, deste fluxo constante que se tornou
a sociedade moderna onde tudo se transforma em
uma velocidade surpreendente.
Sabe-se que o virtual traz possibilidades da
criação de uma “second life” (PALFREY; GASSER,
2001), funcionando como um universo de fantasias,
um mundo paralelo, onde se pode criar versões de si
mesmo para disponibilizar na rede. O virtual é flui-
do, não tendo um local determinado; existe um meio
de estar em vários lugares ao mesmo tempo. O que
se torna perceptível é que a cada dia os jovens
disponibilizam muito tempo nas redes, podendo-se
questionar se é devido a esta possibilidade ilusória
de fugir da realidade. Em suma, o mundo virtual
tornou-se extensão do real e aos poucos vai pre-
enchendo os espaços cotidianos, principalmente
CAPÍTULO 2

dos jovens que têm a possibilidade de acessar as


redes sociais de todos os lugares, inclusive via ce-
lular, em consequência do que se transformaram as
“comunidades virtuais”, com pessoas buscando os
mesmos interesses.
53
Segundo Bauman (2004, p. 39),

O advento da proximidade vir-


tual torna as conexões humanas
simultaneamente mais frequentes
e mais banais, mais intensas e mais
breves. As conexões tendem a ser
demasiadamente breves e banais para
condensar-se em laços. [...] Os con-
tatos exigem menos tempo e esforços
para serem estabelecidos, e também
para serem rompidos.

Esta característica traduz um contexto que vai


além do virtual; sabe-se que aspectos vividos no
mundo virtual possuem traços do que as pessoas
vivenciam na “realidade”; são apenas reflexos que
as redes sociais possibilitam que sejam transmitidos
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

on-line; são comportamentos que fazem parte


da sociabilidade contemporânea, pós-moderna
e individualizada.

2.4 As redes sociais e o Facebook

Diante do que foi exposto anteriormente, tem-se


que a internet ganhou proporções enormes no coti-
diano das pessoas com o surgimento das comunidades
virtuais que aos poucos foram sendo criadas, dando
espaço a posteriori às redes sociais3. Pode-se perceber

3Existe uma diferenciação entre Sites de Rede Social – que são


Facebook, Orkut, Fotolog, Flickr, MySpace, Twitter – e Rede
Social, que é uma metáfora utilizada para descrever a conexão
em rede dos atores sociais, que seria assim uma apropriação dos
54 Sites de Rede Social como ferramenta de socialização.
que estas passaram a representar uma ferramenta de
socialização, interação e até mesmo de comunicação
entre as pessoas. Surgiram diversas delas, como Orkut,
Fotolog, Flickr, Facebook, MySpace, Twitter, e tam-
bém bate-papos como MSN e Skype, que possuem
ou possuíam milhares de usuários. Trazendo para uma
perspectiva conceitual, Raquel Recuero destaca que

As redes sociais são as estruturas dos


agrupamentos humanos, constituídas
pelas interações, que constroem gru-
pos sociais. Nessas ferramentas, essas
redes são modificadas, transformadas
pela mediação das tecnologias e,
principalmente, pela apropriação
delas pela comunicação (RECUERO,
2012, p. 16).

Sendo assim, as redes sociais desempenham um


papel de conexão entre as pessoas, possibilitando
outras formas de interação, em que são construídos
grupos com diferentes modos e finalidades de
socialização. Nelas estão presentes relações que
ora diferem das conversas “face a face”, ora se
assemelham. Devido à característica de que todas
utilizam a linguagem como forma de aproximação,
gerando uma conversação, a diferença é que não é
necessário estar no mesmo espaço físico para que
isso aconteça. Recuero (2009) também ressalta que
CAPÍTULO 2

a utilização da palavra “rede” seria uma metáfora


utilizada para descrever a conexão dos grupos sociais
a partir de conexões que são feitas pelos atores que
dela participam, ou seja, todos estão em um mesmo
“espaço” e uma mesma conexão.
55
Ao surgirem as primeiras redes sociais, as pessoas
começaram a selecionar o que desejavam compar-
tilhar com os “amigos” da rede. Começaram a criar
as próprias formas de comunicação e disseminação
dela. Antes do Facebook, houve outras redes como,
por exemplo, o Orkut, que obteve um grande núme-
ro de usuários, mas que foi perdendo espaço para as
inovações trazidas pelo Facebook. Outra grande rede
é o Twitter, que também obtém grandes proporções.
Um dos pontos que vale ser ressaltado é que a
maioria das redes que surgiram foram criadas em re-
públicas universitárias e por jovens; um exemplo de
grande sucesso no Brasil foi o Orkut, e, logo depois,
o Facebook, atualmente uma das maiores empresas
internacionais, em se tratando de cunho econômico
e de popularidade, levando em consideração que
está com dez anos desde sua criação e ainda possui
grande aceitação entre os jovens. Com o surgi-
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

mento dos aplicativos, a empresa Facebook acabou


agregando-os aos seus negócios; alguns exemplos são
o WhatsApp e o Instagram.

2.5 Contexto histórico do Facebook

David Kirkpatrick, em seu livro O Efeito Facebook:


os bastidores da história da empresa que está conectando
o mundo, baseando-se em entrevistas com os funda-
dores do Facebook, assim se expressa:

A era das redes sociais modernas


finalmente começou no início de
1997. Foi então que uma start-up
nova-iorquina chamada sixdegrees.
56 com inaugurou um serviço inovador
com o uso de nomes reais. Duas so-
ciólogas especializadas em internet,
Danah Boyd e Nicole Ellison, listaram
em um artigo de 2007 as principais
características de uma verdadeira
rede social: um serviço no qual os
usuários podem “construir um perfil
público ou semipúblico”, “integrar-se
a uma lista de outros usuários com os
quais partilham uma conexão” e “ver
e percorrer suas listas de conexões
e aquelas feitas por outras pessoas
dentro do sistema (KIRKPATRICK,
2011, p. 67).

Surgem novas formas de comunicação em que


perfis pessoais podem ser criados e disponibilizados
em público, e, ainda, possibilitam a interação
entre as pessoas que estavam no mesmo sistema de
redes. Logo depois do aparecimento da primeira
rede social foram surgindo diversos segmentos
diferenciados, cada um com suas particularidades,
e, na maioria das vezes, abrangendo apenas grupos
específicos. Diversas redes sociais entraram e
permaneceram disponíveis na internet, mas, con-
sequentemente, não conseguiram se manter nela
por problemas de arrecadações econômicas para
mantê-las ou mesmo graças à não aceitação dos
usuários, ou, ainda, à falta de novidades para manter
CAPÍTULO 2

as pessoas conectadas. Esta é uma característica da


contemporaneidade – a fluidez com que os fatos
acontecem, a dinâmica social acelerada.
Antes do surgimento do Facebook foi concebido
o Orkut, que possui este nome graças ao seu cria-
dor, Orkut Büyükkokten, e teve mais adesão dos 57
brasileiros do que dos próprios norte-americanos,
os quais aos poucos foram abandonando-o até que
em 2008 a sede do Orkut veio para o Brasil, sendo
propriedade da Google. Mesmo fazendo parte de um
dos sites de busca mais poderosos do mundo, a cria-
ção do Facebook, foi uma das causas do seu declínio.

O bem concebido Orkut, uma rede


social aberta a qualquer pessoa, foi
lançado em janeiro de 2004, apenas
duas semanas antes do The facebook.
com. De início, prosperou nos
Estados Unidos e manteve-se firme
diante da enorme onda do My Space,
mas por volta do final de 2004, e de
maneira um tanto extraordinária, foi
inteiramente tomado pelos brasilei-
ros. Uma grande campanha popular
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

para conseguir mais usuários no Brasil


do que nos Estados Unidos despertou
o entusiasmo dos jovens do país
(KIRKPATRICK, 2011, p. 77).

Em 04 de fevereiro do mesmo ano, o The Facebook


estava disponível na rede para os universitários de
Harvard, criado pelo acadêmico em Ciências da
Computação Mark Zuckerberg, um garoto de 19
anos, de personalidade introspectiva, que já havia lan-
çado outras redes sociais no campus da universidade
e bloqueado sistemas de segurança, tendo sido quase
expulso da universidade, e, ainda, conhecido pela
sua capacidade de criação de websites de interação
entre pessoas. The Facebook é lançado na rede e sua
história é permeada de lutas judiciais por um capital
58 econômico altíssimo.
Na tarde de uma quarta-feira, 4 de
fevereiro de 2004, Zuckerberg clicou
em um link na sua conta da Manage.
com e o The facebook.com entrou no
ar. A tela inicial dizia: “O The facebook
é um diretório on-line que conecta
pessoas por meio de redes sociais nas
faculdades. Abrimos o The facebook
para uso popular na Universidade
de Harvard. Você pode usar o The
facebook para: procurar pessoas na
sua faculdade; descobrir quem está
nos mesmos cursos que você; procu-
rar amigos dos seus amigos; ver uma
representação visual da sua rede social
(KIRKPATRICK, 2011, p. 30).

O Facebook se disseminou em uma velocidade


incrível em Harvard e, posteriormente, em outras
universidades. O website se espalhou de uma
forma quase que viral. Zuckerberg contou com o
apoio de Dustin Moskovitz, que ficou responsável
pela ampliação da conexão entre as universida-
des. Outro parceiro nesta fase inicial foi o brasileiro
Eduardo Saverin, que ajudou na questão financeira,
buscando recursos para sua manutenção e disponi-
bilizando capital econômico, já que era filho de um
grande empresário brasileiro.
Logo depois, Saverin arranja outras possibilida-
CAPÍTULO 2

des de emprego e não consegue disponibilidade para


se dedicar ao Facebook; posteriormente, entra em
uma luta judicial contra Zuckerberg. Atendendo a
vários pedidos,

59
[...] eles abriram o serviço para
os estudantes da Universidade de
Columbia, em 25 de fevereiro; os de
Stanford aderiram no dia seguinte,
e os de Yale, no dia 29 do mesmo
mês. Columbia começou devagar,
mas foi em Stanford que se compro-
vou o grande apelo do The facebook
(KIRKPATRICK, 2011, p. 35).

Depois de três semanas da sua criação, The


Facebook já contava com mais de 6 mil usuários,
espalhados pelas principais universidades dos
Estados Unidos, mas ainda não era possível a
interação com pessoas de outras faculdades – nes-
te momento, só se podia acessar o perfil das pessoas
da mesma universidade.
Para fazer com que os jovens passassem mais
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

tempo conectados, foram adicionadas duas ferra-


mentas em setembro de 2004: a primeira, a opção
“mural”, na qual era possível escrever mensagens
púbicas para os demais “amigos”. Todos tinham
acesso a essa opção, em que poderiam ser expres-
sadas as opiniões e marcados encontros em grupo;
a segunda, a opção de criar “grupos” para a adesão
de pessoas com o mesmo interesse em determinados
temas – políticos, sociais, preferências, entre outros.

Hoje em dia, as redes sociais estendem-


-se por todo o planeta. O Facebook é a
maior dentre elas. É raro um estudante
do ensino médio ou um universitário
que não use rotineiramente o Facebook
ou o My Space. Esses sistemas
60 tornaram-se tão difundidos como meio
de comunicação que muitas pessoas
de todas as idades já quase não usam
e-mail. Começando com o sixdegrees,
passando pelo Friendster e chegando até
o Facebook, as redes sociais tornaram-se
uma parte familiar e onipresente da
internet (KIRKPATRICK, 2011, p. 82).

O Facebook se tornou uma empresa bilionária,


contando com grandes investidores. Ela saiu do
âmbito restrito de uma universidade, ultrapassando
os limites territoriais e econômicos, que inicialmente
eram escassos, para a sua manutenção. Aos 23 anos,
Mark Zuckerberg tornou-se o jovem bilionário mais
rico do mundo.
Ao longo de toda a sua expansão, o Facebook
proporcionara interatividade entre as pessoas, der-
rubando todos os limites territoriais e de fronteiras,
sendo um website que diariamente é construído pelos
próprios usuários, que a cada dia expõem mais de si, e,
cotidianamente, passam a ganhar mais espaço na vida
dos outros. Não é difícil perceber que isso trouxe mu-
danças significativas no dia a dia dos jovens, embora
que, sob determinado ângulo, possa se questionar até
que ponto ou qual a qualidade dessas mudanças, no
que concerne às relações sociais, tendo-se como parâ-
metro a utilização desse recurso por jovens estudantes
de uma cidade do interior do Ceará.
A questão é em que proporções o Facebook
CAPÍTULO 2

propicia, amplia ou substitui relações sociais entre


jovens, sobretudo quanto às relações sociais estabe-
lecidas presencialmente, ou seja, através do contato
físico, de forma não virtual; se traz alguma modifica-
ção ou ainda se individualiza as pessoas, se distancia
ou aproxima tais atores sociais. Existem posturas 61
diferenciadas sobre as comunidades virtuais e essa
“interação” que ela proporciona.

O entusiasmo dos otimistas e dos pes-


simistas em relação a essa simplificação
tem a mesma intensidade. Para os
primeiros, a interação pela internet
institui “comunidades virtuais” nas
quais todos se relacionam em harmo-
nia e igualdade e estão permanente-
mente dispostos a colaborar uns com
os outros [...]. Para os pessimistas, por
outro lado, a comunicação mediada
por computador esfria as relações e
acentua o que há de pior na nature-
za humana. O “ciberespaço” é o reino
da mentira, da hipocrisia, das más
intenções. As duas posturas desvincu-
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

lam a internet da realidade social que


a circunda e, com isso, esquecem que
as tecnologias são artefatos culturais
(RECUERO, 2009, p. 12).

Diante disso, pode-se inferir que a internet é


uma ferramenta de interação virtual e, em sendo,
é maleável às formas de utilização e finalidades,
ou seja, o indivíduo a utiliza e dá forma de acordo
com os seus interesses. Nesse sentido, o campo
virtual, mais especificamente as redes sociais,
proporcionam a acentuação de comportamentos
existentes nas relações sociais que acontecem fora
da rede. É esse aspecto que Recuero descreve como
um “artefato cultural”, pois as tecnologias são
moldadas de acordo com a cultura e os interesses
62 que a circundam. Vale ressaltar a importância de
analisar ambas as dimensões desta realidade, razão
pela qual a opção por uma perspectiva intermediária
e menos conclusiva acerca da problemática central
do presente trabalho – constituir ou não uma nova
realidade – nos parece a melhor alternativa.
A superficialidade dos laços é uma das pro-
blemáticas que Bauman suscita, como uma das
características da contemporaneidade da líquida
vida moderna. Com as redes sociais as pessoas têm
facilidade de romper os laços. Bauman mostra outro
viés, pois segundo alguns autores as redes sociais
propiciaram maior interação entre as pessoas,
mas isso não significa que estes laços construídos
são permanentes. O autor ainda destaca a facilidade
de entrar e sair dos relacionamentos.

A palavra “rede” sugere momentos nos


quais “se está em contato” intercalados
nos períodos de movimentação e
esmo. Nela, as conexões são estabeleci-
das e cortadas por escolha. A hipótese
de um relacionamento “indesejável,
mas impossível de romper” é o que
torna “relacionar-se a coisa mais
traiçoeira que possa se imaginar”. Mas
a “conexão indesejável” é um parado-
xo. As conexões podem ser rompidas,
e o são, muito antes que se comece a
detestá-las (BAUMAN, 2004, p. 8).
CAPÍTULO 2

Pôde-se perceber que o advento da internet


trouxe mudanças sociais inesperadas; vale ressaltar
também a reviravolta que as redes sociais causaram
na vida das pessoas, principalmente dos jovens.
Comportamentos, palavras e atitudes nunca vistas 63
passaram a existir em meio a uma mudança de cos-
tumes, hábitos, além da criação de uma linguagem
típica das redes sociais.
Bauman ressalta que as relações existentes
nas “redes” trazem também uma nova forma de
“desconectar-se”, rompendo amizades quando não
forem mais consideradas interessantes. Para quem
está em rede, existe a possibilidade de escolha, de
se fazer ou não uma conexão, possibilitando uma
interação, gerando uma conversação. Porém em
todo caso, as relações podem ser rompidas re-
pentinamente, inesperadamente, sem ter algum
motivo aparente que justifique. Os laços podem ser
cortados, fazendo com que alguém se torne total-
mente inacessível à outra pessoa, tendo-se a opção de
escolha de estar on-line ou off-line quando preferível
for. Justamente por esse motivo se pretende analisar
estas “novas sociabilidades”, servindo-se da análise de
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

categorias correlatas que lhe propiciarão uma melhor


análise teórica, como passaremos a fazer a seguir.

2.6 Sociabilidades e Socialidade

Dada a sua importância nesse trabalho, iremos


nos debruçar sobre o termo sociabilidade, iniciando
conforme GeOrg Simmel, que traz uma análise
sobre a dinâmica social e suas particularidades,
tendo no seu bojo toda a complexidade do termo
e suas vicissitudes. Simmel explora o assunto e tece
considerações, analisando a conduta social das
pessoas quanto às suas relações em grupo e a busca
por satisfação dos interesses individuais. Ele destaca
as características da sociabilidade, descrevendo vá-
64 rias formas de socialização, em que o indivíduo se
sobrepõe à sua figura social ou em busca de um fim
social, dando mais abertura aos seus desejos subjeti-
vos, levando em consideração as limitações naturais
do ser humano e a busca constante da satisfação das
próprias necessidades.

Aqui “sociedade” propriamente dita é


o estar com um outro, para um outro,
contra um outro, que através do vínculo
dos impulsos ou dos propósitos forma e
desenvolve os conteúdos e os interesses
materiais e individuais. As formas nas
quais resulta esse processo ganham vida
própria. São liberados de todos os laços
com os conteúdos; existem por si mes-
mo e pelo fascínio que difundem pela
própria liberação destes laços. É isso
precisamente o fenômeno que chama-
mos sociabilidade (SIMMEL, 1983,
p. 168).

Segundo Simmel (2006), as pessoas se encon-


tram por dois motivos: devido às necessidades de
interesses específicos e pela satisfação de estar jun-
to. Levando em consideração as palavras do autor,
o sentimento de satisfação de se socializar faz com
que a sociedade se torne possível. Seria um “impulso
de sociabilidade” em que o indivíduo deixa de lado
sua personalidade e assume uma posição social; isso
CAPÍTULO 2

seria uma sociabilidade pura.

Sociabilidade, um tipo ideal enten-


dido como o “social puro”, forma
lúdica arquetípica de toda socialização
humana, sem quaisquer propósitos, 65
interesses ou objetivos que a intera-
ção em si mesma, vivida em espécie
de jogos, nos quais uma das regras
implícitas seria atuar como se todos
fossem iguais (FRÚGOLI JÚNIOR,
2007, p. 9).

Para que possa haver sociabilidade, segundo o


autor, seria necessário estar “entre iguais” ou fazer de
conta que se está, sendo assim possível a socialização
pura, pois haveria simetria e equilíbrio entre os atores
da conversação. Nesse sentido, as pessoas estariam
no processo de socialização de forma desinteressada,
pois, quando há busca de interesses, objetivos e/ou
propósitos de cunho pessoal, os atores se afastam dos
ideais de uma sociabilidade pura.

Dessa maneira, pode-se falar dos


REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

“limiares da sociabilidade” superiores e


inferiores do indivíduo. Esses limiares
são transpostos quando os indivíduos
interagem motivados por propósitos
e conteúdos objetivos e quando seus
aspectos subjetivos e inteiramente
pessoais se fazem sentir. Em ambos os
casos, a sociabilidade deixa de ser o
princípio formativo e central de suas
sociações e se torna, no melhor dos
casos, uma conexão formista e su-
perficialmente medíocre (FRÚGOLI
JÚNIOR, 2007, p. 171).

Seriam relações mediadas por interesses


subjetivos e pessoais ou por pura formalidade,
66 assumindo um caráter pessoal e/ou formal, longe
da sociabilidade stricto senso. Ganha-se essa expressão
“limiares da sociabilidade” pois fica à margem das
relações com um fim social. Seria um termo que
se encaixa com as interações cotidianas atuais,
principalmente mediadas pelas redes sociais, nas
quais na maioria das vezes se tem conversas vazias
e superficiais. Existem momentos, tanto nas redes
sociais quanto nas relações “face a face”, que existe
uma comunicação meramente formal, para cumprir
uma ética social. Sabemos que tais relações são
necessárias para a convivência em sociedade, pois o
ser humano é um ator social e utiliza seus diferentes
papéis, em situações e locais diferentes.
O termo “sociabilidade” traz um leque de ideias
e nuances, devido à sua complexidade, mas nada
se torna tão complexo quanto a vida social e as
relações que a permeiam. Viver em sociedade é
um jogo de interesses, por vezes expostos, outras
não. Segundo Simmel, junto com as formas de so-
cialização está o desejo de superar o outro, de ganhar
competições, existe um desejo de ser “o melhor”,
permeado por ideais de inveja, vontade de superar
os objetivos e sonhos. É uma dinâmica acirrada de
competição e busca de interesses individuais, em que
se pode utilizar diversas ferramentas.
Levemos também em consideração o termo
“Socialidade”, conforme proposto pelo sociólogo
francês Michel Maffesoli, que o utiliza em oposição
ao termo de sociabilidade. Lemos assim comenta a
CAPÍTULO 2

noção de socialidade de Maffesoli:

O conceito de socialidade foi desenvol-


vido por Michel Maffesoli. Ele diferen-
cia-se da sociabilidade, já que esta está
ligada a agrupamentos que têm uma 67
função precisa, ao mesmo tempo ob-
jetiva e racional. O indivíduo insere-se
numa lógica do deve ser. Já a sociali-
dade está ligada a uma fenomenologia
do social, onde os sujeitos desenvolvem
agrupamentos festivos, empáticos,
baseados em emoções compartilhadas
e em novos tribalismos. A socialidade
refere-se ao vivido, ao presente, ao
estar-junto. Segundo Maffesoli, a
vida contemporânea é marcada pela
socialidade, e não pela sociabilidade
(LEMOS, 2013, p. 21).

Algumas linhas de pensamento levam em


consideração que o termo socialidade se encaixa no
contexto social em que vivemos. Existem grandes
diferenças entre os dois conceitos, por mais que
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

se perceba uma influência de Simmel em suas


ideias. O que os distancia é o fato da socialidade
acontecer no instante vivido, no presente, nos
fatos cotidianos simples, ao “estar junto à toa”,
não existindo algo planejado para se estar em gru-
po. Segundo Maffesoli, na contemporaneidade as
pessoas estão cada vez mais almejando fazer parte
de uma ou várias tribos a fim de sentir-se parte de
algo. Nem que seja apenas no momento presente,
em um instante.

Característica da socialidade: a pessoa


(persona) representa papéis, tanto
dentro da sua atividade profissional
quanto no seio das diversas tribos de
que participa. Mudando seu figurino,
68 ela vai, de acordo com seus gostos
(sexuais, culturais, religiosos, amicais)
assumir o seu lugar, a cada dia, nas
diversas peças do theatrum mundi
[grifos do autor] (MAFFESOLI,
2010, p. 133).

A persona em sociedade poderá representar


diversos papéis, está a cada dia se renovando em
situações diferenciadas:

o que caracteriza nossa época é o


entrecruzamento flexível de uma mul-
tiplicidade de círculos cuja articulação
forma a socialidade (MAFFESOLI,
2010, p. 134).

Vivemos em uma sociedade flexível, líquida, as rela-


ções possuem uma dinâmica assustadora. As pessoas
estão livres para representar como em um teatro; por
isso o autor associa o termo à teatralidade cotidiana.

É preciso efetivamente lembrar que


toda socialidade é conflitiva, que toda
harmonia é fundada na diferença e que
mesmo na troca mais estereotipada
como a relação amorosa, seu contrário
está em jogo. Existe uma perpétua ten-
são entre o social e a evasão do social,
entre relação fundadora e a disjunção
CAPÍTULO 2

destrutiva. É  nessa ambivalência


assumida que se explica a permanên-
cia da socialidade (MAFFESOLI,
1984, p. 39).

69
Existe uma ambiguidade entre o social e o
individual, uma discussão sociológica que não é
recente, e o próprio ser humano se indaga a todo
o momento sobre como se portar em determinadas
situações. Preocupar-se ou não com o “fim social” é
um dos questionamentos. Principalmente quando
nessas análises estão em jogo os interesses pessoais,
ao mesmo tempo, existe a necessidade de estar em
grupo, de socializar, compartilhar vivências. Nas re-
lações estão presentes a socialidade conflitiva, que,
segundo o autor, pode mudar e ganhar sentidos
opostos, em um momento existir sentimentos de
extrema reciprocidade e em outros não, o oposto
sempre é possível.

Essa comunhão de emoções ou


sensações, difundida nos atos mais
cotidianos ou cristalizada nos grandes
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

acontecimentos pontuais e come-


morativos (aniversários, revoluções,
movimentos de massa, greves, agru-
pamentos etc.) é, stricto senso, o que
funda a vida social ou que faz lembrar
sua fundação. O lúdico não é, portan-
to, um divertimento de uso privado,
mas, fundamentalmente, o efeito e a
consequência de toda socialidade em
ato (MAFFESOLI, 1984, p. 44-45).

A sociedade seria um teatro, onde se dão as


representações, e as relações acontecem a todo
momento, podendo ser duradouras ou não. O que
funda a sociedade, segundo o autor, é o compar-
tilhamento das emoções e sensações, que acontece
70 nas relações mais banais do cotidiano, tanto em
atos comemorativos quanto em encontros grupais,
que acabam se cristalizando, transformando-se em
relações duradouras.

A socialidade marcaria os agrupa-


mentos urbanos contemporâneos,
diferenciando-se da sociabilidade ao
colocar ênfase na tragédia do presente,
no instante vivido além de projeções
futuristas ou morais, nas relações
banais do cotidiano, nos momentos
não institucionais, racionais ou fina-
listas da vida de todo dia (LEMOS,
2013, p. 83).

Não se pode deixar de lado a teoria da sociabi-


lidade de Simmel, visto servir de base para todas
as outras formas que surgiram posteriormente.
Mas, utilizando o termo socialidade, podemos
compreender as ações presentes nas redes sociais,
que são o reflexo das ações cotidianas modernas.
Atualmente, vivenciamos uma dinâmica diferencia-
da de se relacionar, e as redes sociais trouxeram mais
uma ferramenta representativa das novas formas de
socialização. Podemos destacar, então, que o termo
socialidade descreve da melhor forma as relações
presentes na internet. Nas redes sociais, criou-se
um termo chamado “cibersociabilidade”, que seria
a sinergia entre a socialidade contemporânea e as
CAPÍTULO 2

novas tecnologias do ciberespaço (LEMOS, 2013).


Ainda segundo Lemos,

[...] as novas tecnologias vão desempe-


nhar um papel muito importante nesse
processo. Ao invés de inibir as situações 71
lúdicas, comunitárias e imaginárias da
vida social, elas vão agir como vetores
potencializadores dessas situações, da
socialidade (LEMOS, 2013, p. 85).

A cibersociabilidade seria o palco para o desen-


volvimento da socialidade e suas diversas facetas.
Nela, os indivíduos têm a oportunidade de interação
com outras pessoas de forma instantânea e livre,
tudo acontecendo no presente, na trágica vida
em sociedade.

A troca da pluralidade, o imoralismo,


o jogo da diferença, tudo isso nos mos-
tra que a socialidade tem como única
dimensão a imediaticidade sem parti-
lha. Não se deve esperar a realização
da existência em amanhãs que cantam,
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

em outros mundos quaisquer ou em


profundezas particulares, a sabedoria
dos limites que se realiza na massa
ensina que é preciso encontrá-lo no
presente (MAFFESOLI, 1984, p. 49).

Até o presente momento, tentou-se fazer uma


explanação do contexto histórico da internet,
passando pelo Facebook, e ainda houve a intenção
de trazer os conceitos principais que são utilizados
neste trabalho: cibercultura, ciberespaço, virtual,
comunidades virtuais, redes sociais, sociabilidade,
socialidade para que houvesse, assim, um primeiro
contato. Iniciou-se uma breve discussão com tais
termos e teorias-chave da pesquisa. O próximo passo
será trazer tais categorias aos indivíduos, sujeitos
72 escolhidos que são o foco desse trabalho.
Capítulo 3
O CAMPO E OS SUJEITOS
DA PESQUISA

D
epois da exposição conceitual e teórica,
de fundamental importância para este
trabalho, será feita uma apresentação do
campo e dos sujeitos da pesquisa, trazendo ainda uma
discussão sobre outras categorias presentes no trabalho
e ao presente capítulo, mais especificamente, tais como
juventude, sociabilidades juvenis, dentre outras.
Inicialmente, serão demonstrados os motivos
e critérios de escolha dos referidos sujeitos, bem
como da escola, as motivações e circunstâncias
pessoais inerentes ao pesquisador que resultaram na
presente escolha. Em seguida, de forma breve, serão
apresentados dados referêntes à história da cidade de
Forquilha, onde se situa a escola e residem os sujei-
tos, destacando-se sua trajetória, suas transformações
ao longo do tempo até os dias atuais. Só então
apresentaremos os sujeitos da pesquisa – jovens
estudantes de uma escola do Ensino Médio, ten-
tando imprimir, mesmo de forma embrionária, uma
abordagem sociológica da categoria “juventude” e
das sociabilidades juvenis, fazendo uma ligação entre
as informações dos alunos levantadas por meio de
um questionário socioeconômico que foi aplicado.

3.1 Como tudo começou

Torna-se pertinente expor os motivos pelos


quais se fez a escolha da escola e dos sujeitos da
pesquisa. Tudo começou em agosto de 2012, com a
minha entrada no Programa Institucional de Bolsa
de Iniciação à Docência (PIBID)4. Vale ressaltar
que o PIBID é um programa que constrói um
importante elo entre a universidade e as escolas
de Educação Básica, fazendo com que estudantes
dos cursos de licenciatura das mais diversas áreas
tenham um primeiro contato com o seu futuro
ambiente de trabalho. Essa relação traz grandes
aprendizados para ambos e foi dela que teve início
a pesquisa.
Os motivos que levaram à escolha da Escola
de Ensino Médio Elza Goersch como campo de
pesquisa se deram, inicialmente, de uma maneira
não planejada. Lembro-me que meu contato com
escola aconteceu de forma inusitada, pois havia
mais duas escolas na cidade de Sobral que serviam
para atuação do PIBID, além de uma terceira,
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

no município de Forquilha. Inicialmente, não


queria desenvolver os trabalhos por lá, devido à
distância desta em relação à Sobral, cidade que
sedia o curso de Ciências Sociais da Universidade
Estadual Vale do Acaraú (UVA), o qual eu cursa-
va. No entanto, mesmo tendo sido selecionada,
por meio de um sorteio, para realizar o trabalho no
colégio D. José Tupinambá da Frota, em um último
momento fiz negociações e mudei para a Escola de
Ensino Médio Elza Goersch, convencida de que
minha estada lá me traria grandes experiências.

4O PIBID é um Programa do Ministério da Educação, gerencia-


do pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (CAPES), cujo objetivo maior é o incentivo à formação
de professores para a Educação Básica e a elevação da qualidade
76 da escola pública.
Iniciamos, enfim, as tarefas do PIBID em
agosto de 2012, quando passei a visitar a escola
semanalmente, no turno da manhã, em um pri-
meiro momento, conhecendo os espaços, sentindo
a dinâmica dos trabalhos realizados e tendo os pri-
meiros contatos com os alunos. O passo seguinte
foi planejar nossas intervenções e, quando me
dei conta, já estava dentro de uma sala de aula,
juntamente com minhas demais colegas de bolsa,
com quase cinquenta alunos – média por turma.
Tudo isso foi colaborando para a aproximação
com o campo e o gosto pela pesquisa, que foi se
tornando algo crescente e prazeroso. Quando o
trabalho de campo que redundou no presente texto
teve início, já havia proximidade do pesquisador
com os alunos, favorecendo, assim, para que co-
nhecêssemos as “peças-chave”, um momento o qual
vinha de forma cada vez mais crescente, conquis-
tando um espaço de recepção na escola. Foi assim
que tive o primeiro contato com o campo e nele fui
construindo o tema e delimitando-o. Escolhido o
referido tema, que consta como título deste tra-
balho, iniciei a pesquisa, sentindo-me inserida no
meu “objeto de estudo” antes mesmo de saber ami-
úde como a desenvolveria. Dessa forma, devo isso
ao PIBID, pois ele propiciou o desenvolvimento
de minha pesquisa, sem haver muitos percalços ou
impedimentos para o seu desenvolvimento.
CAPÍTULO 3

77
3.2 A cidade e a escola5

A cidade de Forquilha, local onde está situada a


Escola de Ensino Médio Elza Goersch, fica a 208 km
da capital Fortaleza, segundo o Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) (2010). A referida
cidade tem uma população aproximada de 21.786
habitantes. Seu processo de emancipação aconteceu
em 05 de fevereiro de 1985. Um município consi-
derado pequeno, que, anteriormente, fora distrito
de Sobral, ficando a apenas 18 km de distância des-
ta. Seus primórdios remontam a um povoado chama-
do de Campo Novo, que mudou a localização devido
às obras do atual açude de Forquilha, construído pelo
Departamento Nacional de Obras Contra as Secas
(DNOCS), o qual tinha como objetivo diminuir a
escassez de água da região. Deste povoado originou-se
a cidade de Forquilha, que se desenvolveu a partir da
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

migração de pessoas para a barragem do açude e para


as proximidades da Igreja de São Francisco. Também é
atravessada pela BR-222, que liga Fortaleza, capital do
estado, às principais cidades do norte do Ceará, bem
como a outros estados do Nordeste.
Segundo fontes consultadas, o município de
Forquilha possui este nome graças à junção de
dois rios: o Rio Madalena e o Riacho Oficina, cuja
convergência aparentava um formato de “forquilha”.
O histórico da escola perpassa fatos presentes na
própria história da cidade, não podendo ambas serem
pensadas isoladamente. O surgimento do núcleo de

5Diversas informações contidas na presente seção foram obtidas


mediante entrevista com o professor de História José Arimatéia
Gomes Loiola, pesquisador da área que, em breve, lançará um
78 livro sobre a história da escola.
ensino se deveu em muito ao DNOCS, pois fora,
inicialmente, um espaço criado apenas para os filhos
dos trabalhadores do referido órgão, sendo mantido
por este ao longo de um determinado período. Lá tra-
balhava o engenheiro agrônomo Dr. Odilon Cartaxo,
que, em 1954, construíra o prédio com duas
salas, o qual recebera o nome de Grupo Escolar José
Guimarães Duque – em homenagem a um agrônomo
e cientista cearense, tendo como primeira diretora a
Sra. Maria Aparecida Araújo Prado.
Com o passar do tempo aconteceram algumas
mudanças que mereceram por parte deste trabalho
ser assinaladas: em 30 de outubro de 1975, o Grupo
Escolar José Guimarães Duque deixa de ser mantido
pelo DNOCS, e passa a ter como seu mantenedor o
poder público estadual; devido a isso, recebe um novo
nome – Escola de 1º Grau de Forquilha. São nome-
adas como as primeiras professoras Maria Dumont
Frota, Maria Diva Mendes Silva, Benedita Cavalcante
de Vasconcelos e a professora Elza Goersch como
diretora, cargo este que ocupou durante uma década,
deixando-o por duas vezes, mas permanecendo no
colégio até sua aposentadoria, em 1985.
Segundo a iniciativa da professora Maria Alzenir
da Fonseca, diretora no ano de 1986, a “Escola
de 1º grau de Forquilha” mudou novamente de
denominação, passando a ser chamada Escola
Elza Goersch. Posteriormente, em 1993, começa a
atender o Ensino Médio, chamando-se Escola de
CAPÍTULO 3

Ensino Médio Elza Goerch, que atualmente é de


uso exclusivo deste nível de ensino. De acordo com
os documentos da escola, e depoimento de profes-
sores, Dona Elza Goersch desenvolveu um trabalho
brilhante na Educação do munícipio de Forquilha,
79
merecendo, assim, essa grande homenagem que lhe
fora dada ainda em vida.
A Sra. Elza Goersch Andrade nasceu em 22 de
fevereiro de 1936, em Fortaleza, filha de JOrge
Goersch e Benedita Maria Goersch. Em 1950,
passou a morar na cidade de Sobral, onde conheceu
seu esposo, José Jeová Andrade, com quem teve
10 filhos. Formada em Letras, no ano de 1975, e
Pedagogia em Administração Escolar, em 1978,
pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA),
Dona Elza, como era conhecida, desempenhou o
papel de pedagoga em outros colégios do município,
sempre se destacando pelo seu trabalho.
Atualmente, a Escola de Ensino Médio Elza
Goersch, situada na Avenida Criança Dante Valério,
conta com um prédio com 13 salas de aula, uma sala
de vídeo, sala de grêmio, sala de multimeios, labo-
ratório de informática, laboratório de Matemática,
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

Física, Química e Biologia, sala de direção, duas salas


de coordenação, sala de professores, secretaria, almo-
xarifado, quatro banheiros, cantina, quadra esportiva
coberta e pátio, que foi inaugurado em 25 de fevereiro
de 2012 pelo então governador Cid Ferreira Gomes,
com a presença da Dona Elza Goersch.
Durante a execução da pesquisa, a escola tinha
como diretor o Prof. Francisco Kléber Rodrigues
Alves, formado em Biologia, além de Técnico
em Eletromecânica e Especialização em Gestão
Escolar. O núcleo gestor a escola tinha como coorde-
nadores Kétila Maria Vasconcelos Brado, João Paulo
Prado Almeida e Francineide Mendes Vasconcelos,
e contava, ainda, com 51 professores em diferentes
áreas de ensino, sendo 26 efetivos, distribuídos em 36
turmas, com 13 no turno da manhã, 13 à tarde e 10 à
80
noite, contabilizando, no ano de 2014, 1.550 alunos,
distribuídos nos três turnos em funcionamento6.
O colégio, no presente ano (2014), completará
39 anos de história, tendo atravessado diversas
mudanças nas estruturas físicas e administrativas,
passando por ela diversos professores, o mesmo com
relação a alunos, que deixaram suas marcas, cada um
como peça fundamental dessa história que a cada dia
continua sendo escrita.

3.3 Os sujeitos da pesquisa

A pesquisa de campo tem como principais sujei-


tos jovens estudantes da Educação Básica da Escola
de Ensino Médio Elza Goersch do turno da manhã,
que foram escolhidos, como forma de delimitação de
campo, mediante critérios previamente estabelecidos,
dentre os quais uma representação equitativa entre
alunos do sexo masculino e feminino; representação
por turma; o interesse em participar como voluntário
da pesquisa; mas sobretudo a proximidade estabe-
lecida pelo PIBID, ou seja, alunos que serviam mais
diretamente aos objetivos deste Programa. Dos 1.550
alunos matriculados no ano de 2014 na escola,
aproximadamente 594 estudam no turno da manhã,
distribuídos em 1º, 2º e 3º anos, em 13 salas, tendo
em média 45 alunos por sala.
Para que se pudesse conhecê-los melhor, foi apli-
CAPÍTULO 3

cado um questionário tendo como finalidade traçar


um perfil socioeconômico e cultural desses jovens
estudantes. Mas antes dos resultados serem apre-
sentados, é necessário tecer algumas considerações

6Dados recolhidos do Sistema de Gestão Escolar – SIGE. 81


sobre o que denominamos “Juventude” sob uma
perspectiva sociológica.
Ao falar de juventude, em termos sociológicos,
deve-se levar em consideração que a fase da vida
considerada como a “juventude” tem sofrido um
longo e complexo processo de construção social
(PAIS, 2003). De acordo com um viés circunscrito
à Sociologia da Juventude, deve-se ter demasiado
cuidado ao utilizar a palavra “juventude”, ou até
mesmo rotular características do que é ser jovem,
devido à complexidade que a envolve no que tange
a questões como homogeneidade e heterogeneidade,
em função dos seguintes aspectos:

[...] a juventude tanto pode ser tomada


como um conjunto social cujo princi-
pal atributo é o de ser constituído por
indivíduos pertencentes a uma dada
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

fase da vida, principalmente definida


por termos etários, como também pode
ser tomada como um conjunto social
cujo principal atributo é de ser cons-
truído por jovens em situações sociais
diferentes entre si (PAIS, 2003, p. 44).

Por isso são utilizados os termos de homo-


geneidade e heterogeneidade, em função de
constituírem paradoxos que envolvem a categoria
juventude. São aplicados os fatores homogêneos,
segundo o autor, quando se trata de uma respectiva
“fase da vida”, definida sobretudo por questões bio-
lógicas, de tempo cronológico; já a heterogeneidade
representa as formas dessa vivência da juventude,
que são influenciadas pelo contexto social, circuns-
82 tâncias econômicas, culturais, políticas e sociais, que
determinam a forma como essa juventude é vivida,
sendo fatores que não dependem de um tempo
cronológico, em que não se mede a idade para se
encaixar o jovem em uma categoria social.

Dessa forma, a juventude aparece


em vários aspectos como um prisma
com vários lados que refletem a luz de
um modo diferente. Se o “ser jovem”
(independentemente do que isso
significa) une a juventude, quem se
encontra nessa condição exibe uma
série de fenômenos distintos (LIMA
FILHO, 2009, p. 92).

Machado Pais também se une a Pierre Bourdieu


na perspectiva de evitar unificações quando se
refere à juventude, pois se sabe que os jovens não
constituem uma categoria única, existindo dife-
rentes formas de vivenciar essa “fase da vida” que é
influenciada por fatores presentes no contexto em
que se está inserido. Isso levando-se em consideração
que eles buscam interesses diferenciados, possuindo
sociabilidades diferentes e preferências múltiplas em
diversos âmbitos da vida.
Os jovens da pesquisa não são diferentes. Eles pos-
suem características distintas, mesmo que vivam no
mesmo espaço social; é possível perceber diversas
formas e gostos que se refletem em sua forma de
CAPÍTULO 3

vestir, nas preferências musicais, até mesmo na ma-


neira como aproveitam o tempo livre. Diferenciam-se
também nas perspectivas de futuro, nos sonhos e nas
maneiras de correr atrás de seus objetivos.

83
Os jovens alunos possuem uma idade média de
16,5 anos7, um dado biológico importante, mas que
não é determinante para enquadrá-los no conceito
de juventude, pois devem ser levados em conside-
ração outros fatores sociais, culturais, econômicos e
políticos. Ainda segundo Bourdieu (1983, p. 153),

[...] a idade é um dado biológico


socialmente manipulável; o fato de se
falar dos jovens como uma unidade
social, de um grupo constituído,
dotado de interesses comuns, de se
referir a esses interesses em uma idade
definida biologicamente, constitui já
uma evidente manipulação.

Em todo caso, não se pode considerar o jovem


apenas como um número que é dado pela sua idade,
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

pois ser jovem é algo relativo, sendo mais um estado


de espírito que transcende os enquadramentos bio-
lógicos. Isso sem falar que, com o passar do tempo, o
que é considerado juventude, ser jovem, ganha mais
espaço, até mesmo pela retardação dos jovens em sair
de casa para constituir outra família.

Os limites do que se entende por


‘juventude’ se estendem daquela faixa
cristalizada, ainda no início do século
XX, como de 14 a 24 anos, para uma
outra forma de categorização que

7Dados da pesquisa direta feita com a aplicação de questionários


84 (2013/2014).
tem que levar a distintas considera-
ções além da questão etária (LIMA
FILHO, 2009, p. 93).

A juventude é uma construção social, considerada


como um período em que o ser humano está passan-
do por modificações em todos os aspectos – físicos,
emocionais, psíquicos; é um momento em que se está
em transição da fase infantil para a adulta. Por esses
motivos que o tema se torna um tanto quanto
delicado, quando se tenta enquadrá-lo em apenas
uma perspectiva etária. Ser jovem, além disso, envolve
uma questão de identidade. Nos tempos modernos e
líquidos, termos utilizados por Bauman, a juventude
busca constantemente construir sua identidade, em
um processo diário, buscando se diferenciar.

Identidade significa aparecer: ser dife-


rente e, por essa diferença, singular – e
assim a procura da identidade não pode
deixar de dividir e separar. E, no en-
tanto, a vulnerabilidade das identidades
individuais e a precariedade da solitária
construção da identidade levam os
construtores da identidade a procurar
cabides em que possam, em conjunto,
pendurar seus medos e ansiedades indi-
vidualmente experimentados e, depois
disso, realizar ritos de exorcismo em
CAPÍTULO 3

companhia de outros indivíduos tam-


bém assustados e ansiosos (BAUMAN,
2003, p. 21).

A sociedade contemporânea tem característi-


cas que propiciam aos jovens essa tentativa de se 85
diferenciar dos demais, construindo a identidade
através das práticas diárias e da construção das suas
sociabilidades, que vem ganhando formas diversas
de serem vivenciadas; como já vimos, acontece uma
modificação na forma de socialização. A questão de
identidade está intrinsicamente ligada com essa nova
dinâmica social.
Levando em consideração o exposto, serão
apresentados resultados de um questionário sobre
o perfil socioeconômico dos alunos, que trazem
características diferenciadas, contendo resultados di-
versificados. Como bem expressa o autor Lima Filho,

além de ser enxergada como uma diver-


sidade em vez de unidade, a juventude
tem que ser pensada de modo múltiplo,
ou seja, em meio a vários modos
distintos de aparecer no cenário social
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

(LIMA FILHO, 2009, p. 94).

Os alunos são, em sua grande maioria, naturais da


cidade de Sobral (86%) e moram na zona urbana da
cidade de Forquilha (98%). Todos vivem com os pais
ou algum parente. São jovens que em grande parte
(83%) não trabalham ou possuem qualquer tipo de
renda. De acordo com a pesquisa, 45% dos alunos
têm uma renda familiar de até um salário mínimo
e 23% de um a três salários mínimos. A maioria
mora em casa própria. Seus pais possuem profissões,
tais como motorista, agricultor, madeireiro, músico,
vigia, empregado do DNIT, comerciante, pedreiro,
havendo também um número considerável de pais
desempregados. As mães dos alunos, por sua vez,
são na maioria donas de casa. No entanto, mais
86 profissões foram sendo elencadas, como professoras,
assistente de produção em uma fábrica de calçados,
zeladora, agente de saúde, merendeira, entre outras,
demonstrando que os jovens da pesquisa são jovens
de origem pobre, de uma classe considerada baixa
ou média baixa.
Mesmo não fazendo parte de uma classe que
podemos considerar em perspectiva sociológica
alta, a maioria dos jovens pesquisados (98%) deseja
fazer um curso de Nível Superior – no vestibular
2013.2, 23 alunos oriundos da escola conseguiram
isso. Na pesquisa, os cursos mais procurados foram
Engenharia (1º), Direito (2º) e Medicina (3º);
alguns alunos, principalmente do 1º ano, ainda
não sabem em qual curso desejam ingressar, embora
tivessem afirmado estar amadurecendo a ideia.
A multiplicidade de sociabilidades juvenis
aparece nos dados resultantes da aplicação do ques-
tionário, pois quando perguntado quantos faziam
parte de algum grupo social, 55% responderam que
sim, enquanto que 43% afirmaram não participar
de nenhum. Dentro desse percentual o grupo que
mais apareceu foi a Igreja, com participações em
grupos de oração, coral, entre outros. Um aspecto
interessante é que os percentuais se repetiram na
pergunta seguinte, quando se inquiriu quantos
praticavam algum tipo de esporte, cujos resultados
foram: 55% afirmaram que sim, enquanto que 43%
disseram que não. Dentre os que praticam algum
tipo de esporte, surgiram formas variadas: vôlei, com
CAPÍTULO 3

24%; futebol, 9,5%; e futsal, 7%. E as proximidades


dos resultados continuaram acontecendo quando foi
perguntado se eles costumavam sair com frequência
de casa: 45% responderam que sim, enquanto que
53% afirmaram que não.
87
A pesquisa constatou que as mesmas pessoas
que não participam de nenhum grupo social
também não praticam esportes e não costumam
sair muito de casa. Isso reflete em estilos e gostos
diferenciados, reluzindo ainda mais a questão da
diversidade presente na juventude e suas dife-
rentes maneiras de desfrutar dessa “fase da vida”.
Segundo Kaciano Gadelha (2009, p. 118), deve-se
referir à juventude como

as juventudes (já que depara não uma,


mas diversas formas de experimentação
dessa fase da vida) na rede da produção
de subjetividade pela mídia, práticas
sociais como consumo, lazer etc.

As maiores diversidades de sociabilidades apare-


ceram quando foi perguntado qual o lazer preferido
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

dos jovens, e uma infinidade de atividades foram


elencadas por eles, tais como: praticar esportes (9%);
sair com os amigos (7%); assistir a filmes (2%); ler
(5%); ouvir músicas (5%); jogar futebol (9%); ficar no
computador (2%); ficar em casa (5%); comer e dormir
(2%); jogar videogame (2%); dançar (2%); caminhar
(2%); assistir TV (7%); passear com a família (5%);
praticar academia (2%); banho de piscina (2%) e
passear no sertão (2%), registrando-se as respostas que
apareceram tal qual foram escritas. Tudo isso ressalta
o fato da diversidade de atividades em que os jovens
estão envolvidos, contendo uma forma variada de de-
senvolver suas sociabilidades, levando em consideração
as formas de sociação8, que, segundo Simmel (1983,
p. 166),

88 8A sociação é, portanto, a forma (que se realiza de inúmeras


Em si mesmas, essas matérias com as
quais a vida é preenchida, as motiva-
ções que a impulsionam não são so-
ciais. Estritamente falando, nem fome,
nem amor, nem trabalho, nem religio-
sidade, nem tecnologia,nemfunções
e resultados da inteligência são so-
ciais. São fatores de sociação apenas
quando transformam o mero agregado
de indivíduos isolados em formas
específicas de ser com e para o outro
– formas que estão agrupadas sob o
conceito geral de interação.

Levando em consideração as palavras de Simmel,


não basta apenas participar de grupos, formando
um agregado de pessoas que estão juntas por puros
interesses individuais, para se considerar como
sociabilidade; seria apenas uma forma de socia-
ção. A sociabilidade demanda um tipo mais puro, é
preciso ter finalidades sociais e ainda um sentimento
de pertencimento de grupo, trazendo em si interes-
ses coletivos, e não apenas subjetivos. Como já foi
mencionado no capítulo anterior, a sociabilidade
traz em seu bojo essa finalidade social, o que se torna
questionável, pois o próprio autor ressalta o teor de
“faz de conta” que ela possui.
CAPÍTULO 3

maneiras distintas) na qual os indivíduos, em razão de seus


interesses – sensoriais, ideais, momentâneos, duradouros,
conscientes, inconscientes, movidos pela causalidade ou teleolo-
gicamente determinados –, se desenvolvem conjuntamente em
direção a uma unidade no seio do qual esses interesses se reali-
zam. Esses interesses, sejam eles sensoriais, ideais, momentâneos,
duradouros, conscientes, inconscientes, casuais ou teleológicos,
formam a base da sociedade humana (SIMMEL, 2006, p. 60). 89
Já segundo Maffesoli, as pessoas devem, em seu
processo de interação social, viver momentos de
“estar junto à toa”, sem nenhum motivo aparente,
visto que seria algo que aconteceria no presente
espontaneamente, para que venham a se transformar
em relações mais significativas, sendo necessário,
nesse primeiro momento, apenas uma aproximação
sem nenhum fim explícito.

Assim, a meu ver, o estar-junto é um


dado fundamental. Antes de qualquer
outra determinação ou qualificação,
ele consiste nessa espontaneidade vital
que assegura uma cultura, seu foco e
sua solidez específicos. Em seguida,
essa espontaneidade pode se artificia-
lizar, quer dizer, se civilizar e produzir
obras (políticas, econômicas, artísti-
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

cas) notáveis. Sempre será necessário,


entretanto, mesmo que seja apenas pa-
ra apreciar suas novas orientações (ou
re-orientações), retornar a forma pura
que é o estar junto à toa. Com efeito,
isso pode servir de pano de fundo, de
elemento revelador para novos modos
de vida que renascem sob nossos olhos
(MAFFESOLI, 2010, p. 141).

Também se deve levar em consideração que sob


uma perspectiva de abordagem das comunidades vir-
tuais, esta forma de “estar junto à toa” se faz presente
no momento que os jovens utilizam a ferramenta
como um “passatempo” estando juntas e estão juntas
por um momento, mas, ao se desconectar, isso não
90 se configura mais.
Na contemporaneidade, as sociabili-
dades juvenis têm adquirido diversos
formatos. Elas envolvem estar entre e/
ou com amigos, navegar na internet,
grupos de pertencimento ou mesmo
grupos rivais; envolvem tempos e espa-
ços de lazer e de diversão e também os
tempos e espaços institucionais, como
a família, a escola, a igreja, clubes, etc.
(PEREIRA; NASCIMENTO; REIS,
2012, p. 1).

Além de todas as possibilidades de sociabilidade


no campo físico, atualmente surgiu a opção de na-
vegar na internet e utilizá-la com ferramenta de
socialização e interação, ampliando um leque
de opções de se vivenciar a juventude, estando em
contato com os amigos; algumas pesquisas mostram
que as novas tecnologias estão fazendo parte da so-
cialização dos jovens, principalmente por intermédio
do celular. Para se traçar o perfil socioeconômico nos
debruçamos também sobre esse tema de “relação com
a tecnologia”, o qual não poderia ser deixado de lado.

Passam a representar um espaço de


lazer, lugares virtuais onde as práticas
sociais começam a acontecer, seja por
limitações do espaço físico, seja por li-
mitações da vida moderna, seja apenas
CAPÍTULO 3

pela comodidade da interação sem


face. Tratam-se de novas formas de
“ser” social que possuem impactos
variados na sociedade contemporânea
a partir de práticas estabelecidas no ci-
berespaço (RECUERO, 2012, p. 17). 91
Percebeu-se que ela está presente no cotidiano
dos jovens de forma significativa. 99% dos jovens
tem acesso à internet, sendo que 62% possuem
computador em casa e 31% não. Dos jovens que
possuem computador, 57% têm acesso à internet,
enquanto que 26% não. Isso leva a compreender que
os alunos pesquisados têm acesso à internet de for-
mas diversificadas, como lan house, casa de amigos
ou parentes e do celular, visto que 83% dos alunos
possuem este tipo de aparelho, e, dentre eles, 74%
possuem acesso à internet; ainda, 55% a utilizam
para acessar o Facebook. Alguns dos pesquisados
relataram a praticidade de entrar na internet pelo
celular, pois isso não os impede, segundo eles, de
realizar outras atividades e até mesmo sair com os
amigos. Segundo Bauman,

Você permanece conectado – mesmo


REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

estando em constante movimento,


e ainda que os remetentes ou des-
tinatários invisíveis das mensagens
recebidas e enviadas também estejam
em movimento, cada qual seguindo
suas próprias trajetórias. Os celulares
são para pessoas em movimento
(BAUMAN, 2004, p. 37).

Obteve-se que 52% dos alunos usam a internet


com mais frequência para acessar as redes sociais,
seguido por 33% para pesquisas. Isso mostra que

as tecnologias digitais têm sido


constitutivas de modos de vida,
especialmente de crianças e jovens
92 que nasceram e que estão crescendo
imersos no contexto de uma veloz
expansão dos aparatos tecnológicos
e suas múltiplas possibilidades de
atuação na vida cotidiana (PEREIRA;
NASCIMENTO; REIS, 2012, p. 2).

Outro fator importante é que os jovens, nos


dias atuais, fazem parte da Era da Informação,
no sentido de que já nasceram em contato com a
tecnologia. Segundo Palfrey e Gasser (2011), todos
os jovens que nasceram depois de 1980 podem ser
chamados de “nativos digitais”, justamente porque
são pessoas que já nasceram em contato com as
novas tecnologias. Ainda segundo os autores,

os nativos digitais estão usando os


espaços públicos da rede como am-
bientes cruciais de socialização e tam-
bém o desenvolvimento da identidade
(PALFREY; GASSER, 2011, p. 36).

Nesse sentido, os jovens sujeitos da presente


pesquisa podem ser chamados de “nativos digitais”,
utilizando-se dos termos dos autores citados, pois
eles não só têm acesso à internet e a utilizam como
forma de socialização, mas – diferentemente dos
adultos, aos quais não se aplica a expressão “nativos
digitais”, e sim “imigrantes digitais”, pois tiveram
que se adaptar ao mundo digital – nasceram em
CAPÍTULO 3

meio a esta, sendo-lhes parte integrante da vida, ou


seja, não tiveram que passar por uma readaptação,
vindo-lhes de forma como que espontânea.

93
Capítulo 4
OS “USOS” DO FACEBOOK:
APROFUNDANDO OS RESULTADOS
DA PESQUISA

N
esse capítulo, apresentaremos os resul-
tados da pesquisa realizada com jovens
estudantes da Escola de Ensino Médio
Elza Goersch, no período que se estende de 2013
a 2014. Para que se chegasse aos resultados, foram
realizados diversos procedimentos metodológicos,
os quais foram citados anteriormente, com o intuito
de fazer um levantamento sobre o tema, e para que
pudessem ser feitos apontamentos acerca dos cami-
nhos a seguir. Conforme explicitado, optou-se pela
aplicação de questionários, entrevistas individuais,
bem como a realização de grupo focal, tudo isso
de maneira complementar, e conjugados, trazendo
como finalidade aprofundar questões sobre o
tema pesquisado.
Nesse capítulo, também discutiremos, de forma
mais sistemática, tais resultados, em consonância
com a missão do Facebook.

O Facebook foi fundado em 2004,


e tem como principal missão “dar
às pessoas o poder de compartilhar e
tornar o mundo mais aberto e conec-
tado”, conferindo-lhes a oportunidade
de ficarem conectadas “com amigos
e familiares, para descobrir o que
está acontecendo no mundo, e para
compartilhar e expressar o que impor-
ta para eles” (NEWSROOM..., 2014,
documento exclusivo da Internet).

Este é o trecho que consta na nota de abertura


do site “Facebook Newsroom”, uma página que
contém informações importantes sobre a rede
social a qual trata esse trabalho. De maneira geral,
pode-se concordar que tal missão vem sendo
cumprida, pois a cada dia as pessoas estão mais
conectadas, compartilhando entre si o que julgam
ser interessante para elas. O mesmo ocorre quanto
ao objetivo de descobrir o que está acontecendo no
mundo e na vida das pessoas, através do comparti-
lhamento de informações, como se pode perceber
mesmo através do senso comum, sem maiores
rigores da pesquisa.
Em âmbito mundial, atualmente, o Facebook
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

tem em média 802 milhões de usuários ativos por


dia (NEWSROOM..., 2014), o que o torna uma
das maiores ferramentas de comunicação da inter-
net em número de usuários. São 83 milhões de usu-
ários ativos por mês no Brasil (UOL NOTÍCIAS,
2014, documento exclusivo da Internet). Isso
possibilita que as pessoas permaneçam em rede,
conectadas, gerando uma teia de conversações;

mais do que meras interações, essas


milhares de trocas entre pessoas que
se conhecem, que não se conhecem
ou que se conhecerão representam
conversações que permeiam, estabe-
lecem e constroem as redes sociais na
internet (RECUERO, 2012, p. 17).
96
Desde a criação da internet até os dias atuais
atravessamos mudanças significativas. A estrutura
das relações sociais aos poucos vai se moldando a
essas novas formas de interação. O mundo interage
via computação. Mudanças tecnológicas ocorreram
de uma forma globalizante, de maneira que as
redes sociais estão presentes na maioria dos lares
entre um momento e outro, sendo possível estar
conectado a todo momento, atualizando-se sobre
os mais recentes acontecimentos. Hoje, não é ne-
cessário, o suporte do monitor de um computador;
a tecnologia é móvel, presente nos celulares.
No que concerne aos alunos pesquisados, prin-
cipais sujeitos dessa pesquisa, sobre quem já nos
referimos em capítulo anterior, quando da expli-
citação do trabalho empírico, possuem acesso à in-
ternet e participam das redes sociais. Os resultados
da pesquisa foram se confirmando de acordo com
procedimentos metodológicos que foram sendo
aplicados. Os dados do primeiro questionário que
foi aplicado com os alunos acabaram mostrando
que eles ficam, em média, entre 1 a 5 horas por
dia em rede, o que foi reforçado com as entrevistas
e grupos focais. Por mais que existam pessoas
que ficam o dia inteiro nas redes, também temos
aquelas que entram uma vez por dia ou por
semana, causando assim uma quantidade média
de horas. Ainda se sabe que existe uma grande
porcentagem de alunos que possuem Facebook na
CAPÍTULO 4

escola, como mostra o Gráfico 1 a seguir.

97
Gráfico 1 – Porcentagem de alunos da E. E.
M. Elza Goersch que possuem Facebook
Fonte: Pesquisa direta (Set. 2013).

Segundo o gráfico acima, pode-se perceber que a


REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

grande maioria dos jovens possui Facebook (95%),


e que destes 5% que não são cadastrados na rede
social, pelos menos 2% já o tiveram e desativa-
ram. Ainda trazendo à luz os resultados da pesquisa
empírica, também podemos perceber, através do
questionário, ao inquirir as prioridades dos alunos
ao entrar na rede, sendo solicitado que as elencassem
em meio a uma numeração de 1 a 3, em ordem de
prioridade, obtivemos o resultado de que a grande
maioria – cerca de 60% –, ao entrar na internet,
busca o Facebook em primeiro lugar, como pode ser
observado no Gráfico 2 a seguir. Tais dados foram
se confirmando ao passo que foram desenvolvidos
o grupo focal e as entrevistas.

98
Gráfico 2 – Grau de prioridade dos alunos da Escola de
Ensino Médio Elza Goersch ao acessar a internet
Fonte: Pesquisa Direta (Set. 2013).

De acordo com o jornalista Kirkpatric (2011,


p. 21),

Se você usa a internet, tem uma


probabilidade cada vez maior de
usar o Facebook. É o segundo site
mais visitado, depois do Google, e
tem mais de 600 milhões de usuários
ativos (em novembro de 2010).
Bem mais de 30% dos 2 bilhões de
pessoas que usam a internet em todo
o mundo agora usam o Facebook
regularmente. O Facebook começou a
CAPÍTULO 4

aceitar estudantes do ensino médio no


outono de 2005 e abriu para qualquer
pessoa no outono de 2006. Agora, os
usuários ao redor do mundo gastam
cerca de 23 bilhões de minutos no site
todos os dias (muitos usuários gastam 99
horas por dia no Facebook). E, apesar
de todo o crescimento, o número de
pessoas no site está aumentando a uma
taxa alucinante de cerca de 5% ao mês.

É perceptível que, para a maioria dos jovens, ao


acessar a internet, o primeiro passo a ser dado é en-
trar no Facebook, uma atividade quase que automá-
tica. Percebi que, muitas vezes, havia uma confusão
de termos entre internet e Facebook, tendo-se em
vista a associação entre ambos. Este resultado que
foi conseguido na Escola Elza Goersch só transmite
e reforça mais ainda o que se tem constatado em
plano mundial – que os jovens gastam cada vez mais
tempo no Facebook.
Percebeu-se, ao analisar outra questão perguntada,
desta feita acerca de qual a frequência com que se
acessava o Facebook e a quantidade de horas que os
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

estudantes passavam na rede, que era a mesma quan-


tidade de tempo que os alunos passavam na internet,
ou seja, ao estarem on-line, os jovens, por mais que
desenvolvam outras atividades, estavam conectados
ao Facebook, o qual a maioria acessa diariamente em
torno de 1h a 5h, conforme o Gráfico 3 a seguir.

Semanalmente;
26%

Mensalmente; 6%

Diariamente; 68%

Gráfico 3 – Frequência com que os alunos da E. E.


100 M. Elza Goersch acessam o Facebook
Fonte: Pesquisa direta (Set. 2013).
Levando em consideração o exposto, ficou
claro que o Facebook passou a ser uma forma cada
vez mais crescente de socialização para os jovens
estudantes do Ensino Médio selecionados para essa
pesquisa, que utilizam essa rede social como forma
de estar em contato com outras pessoas, usando-
-a como ferramenta no cotidiano e nas formas de
interação, como será discutido mais a fundo em
outro momento.
Em uma outra pergunta, a qual se referia ao
que os alunos buscavam no Facebook, os resultados
evidenciaram que 59% optaram por “conversar com
amigos/parentes distantes”, enquanto que 23%
optaram por “conhecer novas pessoas”, conforme o
Gráfico 4 adiante.
Conhecer novas
Outros 2; 7% pessoas; 23%

Outros 1; 7%

Postar fotos; 7%

Conversar com
amigos/parentes Saber da vida dos
distantes; 59% amigos; 7%

Gráfico 4 – O que os alunos da E. E. M. Elza Goersch


buscam no Facebook
Fonte: Pesquisa Direta (Set. 2013).
CAPÍTULO 4

Os dados analisados nos questionários se con-


firmaram nos grupos focais e nas entrevistas, pois
todos os alunos, quando questionados sobre o que
buscavam no Facebook, diziam que era conversar
com amigos e parentes distantes.
101
Eu uso o Facebook pra postar foto e às
vezes postar algo da nossa vida, porque
tipo assim tem amigos que estão dis-
tantes, que também se interessam pela
vida da gente e não têm tempo, tipo
assim, de tá perguntando: “Ah! O que
foi que tu fez?”, ou então “Ah! Como é
que tu tá? Como anda tua vida?”. Aí a
gente manda uma “previnha”... (sic)
(aluna A, 1º ano, 15 anos).

O Facebook pra mim é tipo assim...


é  uma rede social que a gente se
comunica com todo mundo, ou com
parentes da gente que tá longe e a gen-
te pode interagir com eles, perguntar
como eles estão (sic) (aluno B, 2º ano,
17 anos).
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

Eu, particularmente, uso pra ter a co-


municação com os meus amigos e com
pessoas próximas que estão distantes
ou pra conhecer outras pessoas (sic)
(aluna C, 3º ano 16 anos)9.

Segundo Castells, o e-mail trouxe possibilidades


de se comunicar com pessoas que estão distantes:

o impacto positivo do e-mail sobre a


sociabilidade foi mais importante na
interação com amigos do que com

9Dados recolhidos do grupo focal. Junho/2014. Foram utilizadas


representações alfabéticas para proteger os nomes verdadeiros dos
102 alunos, permanecendo apenas o ano de escolaridade e a série.
parentes, e foi particularmente rele-
vante para a manutenção de contato
com amigos ou parentes distantes
(CASTELLS, 2003, p. 102).

Ao referir-se ao e-mail, mais precisamente, o


autor o faz como um meio de comunicação virtual
entre pessoas, destacando, por mais que se caracterize
em uma dinâmica diferenciada, o fator aproximação
das pessoas que estão distantes, formando este elo.

Outra diferença importante gerada


pela internet é o advento dos laços
sociais mantidos a distância. O desen-
volvimento tecnológico proporcionou
uma certa flexibilidade na manuten-
ção e criação de laços sociais, uma vez
que permitiu que eles fossem dispersos
espacialmente. Isso quer dizer que a
comunicação mediada por compu-
tador apresentou às pessoas formas
de manter laços sociais fortes mesmo
separadas a grandes distâncias, graças
a ferramentas como o Skype, os mes-
sengers, e-mails e chats. Essa desterri-
torialização dos laços é consequência
direta da criação de novos espaços de
interação (RECUERO, 2009, p. 44).
CAPÍTULO 4

Questões como esta explicam os percentuais


apresentados; tanto as pessoas se comunicam com
amigos distantes quanto pretendem conhecer
novos amigos. As redes sociais possibilitam esta
facilidade de se conectar a pessoas que não estão
em um mesmo espaço geográfico. Todos os alunos 103
que foram entrevistados utilizam o Facebook para
conversar com amigos distantes, ou mesmo os que
estão próximos, com os quais se torna difícil manter
contato devido aos afazeres do cotidiano.

Eu gosto de falar com as pessoas, assim,


porque, como eu falei, eu não tenho
muito tempo, então o tempo que eu
tô de folga é no Facebook. Aí eu vou
conversar com as pessoas, que às vezes
eu não passo todo dia, que eu não tô
convivendo, pessoas assim de outra
cidade (sic) (aluna C, 3º ano, 16 anos).

Isto também explica as respostas a uma questão


em que foi perguntado se os alunos tinham ami-
gos que com os quais se relacionavam apenas no
Facebook. Conforme o Gráfico 5 a seguir, obtivemos
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

um percentual de 76% que responderam positiva-


mente, confirmando que tinham amigos com os quais
só se relacionavam via Facebook. Em uma pergunta
seguinte, que complementaria essa, perguntou-se,
no caso de o pesquisado ter marcado sim, se eram
“poucos”, “a metade” ou a “maioria”; 58% optaram
pela primeira opção, que tinha a alternativa “poucos”,
levando-nos a compreender, que eles possuem amigos
que se relacionam apenas no Facebook, mas que
são poucos. Sobre possuir amigos que se conhecem
somente via Facebook, uma determinada aluna (aluna
D, do 3º ano, 17 anos) assim afirmou:

Tem! (risos), tem muitos que eu não


conheço, porque assim, quando eu fiz o
Facebook, todo mundo que me enviava
104 convite eu aceitava, aí eu nunca fui de
ir lá e olhar, excluir, nunca fiz isso, mas
hoje não, hoje eu só aceito quem eu
conheço, mas os outros? Foram fican-
do, ficando... e eu nunca excluí (sic)10.

A despeito da existência dessa possibilidade – de se


ter “amigos” com os quais só se relaciona ou se conhece
pelo Facebook, ao mesmo tempo os alunos alegam que
o Facebook é uma ferramenta que aproxima quem
está longe e distancia quem está perto. Também se
constata particularidades, como o ritual presente na
rede social que gera essa necessidade de obter um
grande número de pessoas como “amigos” para assim
aumentar a audiência do seu perfil. Uma das alunas
entrevistadas (aluna E, 1º ano, 14 anos) afirmou que
no perfil do Facebook “tem amigos, tem gente que a
gente conhece, tem gente que a gente não conhece!”.
Não; 24%

Sim; 76%

Gráfico 5 – Percentual de alunos da Escola Elza Goersch


que possuem amigos com os quais só se relacionam
através do Facebook
CAPÍTULO 4

Fonte: Pesquisa direta (Set. 2013).

Em uma das últimas questões perguntou-se


se os amigos do Facebook eram também os mes-
mos da escola, cujas respostas nos revelaram um
105
10Entrevista individual. Junho/2014.
quadro com números muito aproximados: 33%
responderam que são poucos os amigos da escola
no Facebook. Segundo Castells, porque

as pessoas não formam seus laços


significativos em sociedades locais,
não por não terem raízes espaciais,
mas por selecionarem suas relações
com base em afinidades. Além disso,
padrões espaciais não tendem a ter
efeito importante sobre a sociabilidade
(2003, p. 106).

De acordo com os percentuais, 32% disseram


que a metade dos amigos do Facebook são da
própria escola, enquanto que 27% disseram que os
da própria escola são maioria, conforme Gráfico 6
a seguir.
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

Outros ; 1% Nenhum; 7%

A maioria; 27%

Poucos; 33%
A metade; 32%

Gráfico 6 – Amigos do Facebook e também da E. E.


M. Elza Goersch
Fonte: Pesquisa direta (Set. 2013).

Sobre essa questão, em particular, Lévy destaca que

106
é raro que a comunicação por meio de
computadores substitua pura e simples-
mente os encontros físicos: na maior
parte do tempo é um complemento
adicional (LÉVY, 1999, p. 128).

Nas entrevistas com os alunos percebeu-se que as


opiniões divergem, pois houve alguns que disseram
que utilizam o Facebook para conversar com os
amigos sobre trabalhos escolares, ou ainda, quando
faltam aula, entram em contato para saber o que
aconteceu. A aluna E, do 1º ano, 14 anos, disse algo
curioso sobre essa relação com amigos da escola:

aí a pessoa estuda comigo na mesma


sala, eu olho pra pessoa a pessoa vira
a cara, eu olho eu falo, a pessoa vira
a cara, aí quando é no “face”11, tem
assunto infinito pra falar comigo, aí
eu valha... a pessoa fala nem comigo
na sala... (sic).

Tal fato tem parecido ser comum no


Facebook, visto que outro aluno também revelou
algo semelhante.

Eu converso com um amigo meu


demais, demais, demais no Facebook,
Aí quando eu vi ele pessoalmente
CAPÍTULO 4

eu abaixei a cabeça com vergonha...


(risos) aí quando vi ele on-line ele
me perguntou: “por que tu não falou

11Os alunos utilizam a palavra “face” como abreviação


de Facebook. 107
comigo, saiu foi correndo?!”. Aí eu
falei assim: “Eu fiquei com vergonha”
(sic) (aluno B, 1º ano, 17 anos).

É algo interessante, pois as interações às vezes


acontecem no Facebook e permanecem apenas lá;
quando chegam em um campo presencial físico, não
têm a mesma proporção. É como se o monitor do
computador escondesse a timidez e desse espaço a
novas formas de conversação, pois, mesmo sendo
uma nova maneira de se comunicar, o Facebook
tem seus próprios rituais e suas próprias dinâmicas
interacionais. Segundo Palfrey e Gasser, existe
um “efeito de desinibição” quando se está on-line,
pois as pessoas se sentem encorajadas por não es-
tarem vendo as expressões da pessoa “face a face”,
e sentem-se impulsionadas a enviar a outrem algo
que gostariam de dizer pessoalmente e não conse-
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

guiriam. Isso explicaria por que algumas pessoas


possuem assuntos infinitos no Facebook com um
“amigo” e, pessoalmente, a conversa não existe.

Mas durante esta conectividade


incessante, na própria natureza dos
relacionamentos – até mesmo o que
significa tornar-se “amigo” de alguém
– está mudando. As amizades on-line
são baseadas em muitas das mesmas
coisas que as amizades tradicionais –
interesses compartilhados, interação
frequente –, mas não obstante têm
um teor diferente: elas são frequente-
mente passageiras, fáceis de começar
e fáceis de acabar, sem mais do que
108 até logo, mas também podem ser
duradouras de modos que ainda não
conseguimos entender (PALFREY;
GASSER, 2011, p. 15).

Vale ressaltar que as “amizades” tidas como


virtuais possuem um teor diferenciado, e ainda diver-
so. Alguém poderá utilizar o Facebook para conversar
com amigos distantes, para conhecer novos amigos,
e o que surgiu nos resultados da pesquisa, quanto
à questão da “amizade”, foi que pode-se considerar
“amigo” quando se conhece pessoalmente, tem-se um
convívio diário, enquanto que por meio das rede não é
possível a conversação. São inúmeras as possibilidades
encontradas no ato de se tornar “amigo” em uma rede
social. A aluna C, 3º ano, 16 anos, comentou que no
perfil “os meus amigos de verdade estão todos lá, mas
a grande parte não são grandes amigos, são colegas,
pessoas conhecidas da rua”.
Foi perguntado para os alunos o que eles busca-
vam de mais significativo no Facebook, dando-lhes
a opção das três questões apresentadas no Gráfico 7
a seguir, cujas respostas aparecem nele.

Não se conhece
facilmente novas
pessoas no É uma boa opção
Facebook; 8% para se conhecer
pessoas; 39%

É uma boa opção


para se relacionar
CAPÍTULO 4

com pessoas que


você já conhece e
deseja conhecer
melhor; 53%

Gráfico 7 – Opinião dos alunos da Escola Elza Goersch


sobre o Facebook
Fonte: Pesquisa direta (Set. 2013). 109
Os dados do gráfico mostram que 53% dos
alunos acham que é uma boa opção para se conversar
com pessoas que já se conhece e deseja conhecer me-
lhor; em contrapartida, 39% optaram pela resposta
que afirmava como significativo conhecer novas
pessoas, enquanto que 12% consideram que não se
conhece pessoas facilmente na rede. Não se obteve
uma diferença muito grande entre as duas primeiras
opções, pois são dois percentuais próximos; mesmo
assim, pode-se considerar que a maioria dentre os
pesquisados optou como mais significativo estender
os laços já existentes no espaço físico. Uma das
alunas que participou do grupo focal disse que
conheceu o namorado através do Facebook:

assim, eu conheci meu namorado


através do Facebook, só que assim,
ele era amigo de amigos meus e aí a
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

gente começou a conversar e aí a gente


começou a namorar pelo Facebook
(sic) (aluna F, 2º ano, 16 anos).

Não se pode negar que o Facebook traz essa


possibilidade de interação e até mesmo aproximação
das pessoas que estão longe, mas o que foi ressaltado
pelos alunos, e que eles têm consciência, é que
acaba interferindo na relação com os amigos mais
próximos, pois ao estar sempre conectado se torna
mais difícil dar atenção para os amigos “presenciais”.
Uma das entrevistadas afirmou que o Facebook
aproxima, e, ao mesmo tempo, afasta as pessoas.

Aproxima às vezes, mas tem vezes que


também afasta. Aproxima quando a
110 gente marca de sair com os amigos,
aí vai se encontrar... pronto, aquele
amigo que você não vê um monte
de tempo, aí você vai procurar o
nome no Facebook aí você acha
ele. Adiciona ele. Ele aceita, aí marca
um lugar e você vai se encontrar, isso
é uma aproximação de muito tempo
[...]. E muitas vezes você marca de sair
com os amigos, aí raramente troca
uma palavra, todo mundo o tempo
todo no celular, nas redes sociais, isso
afasta. As pessoas perderam o contato
de conversar, é só no celular (sic)
(aluna D, 3º ano, 17 anos).

Em consonância com dados do questionário


socioeconômico, os quais constataram que os alunos
que acessam as redes sociais o fazem via celular,
todos os estudantes que participaram do grupo focal
e das entrevistas individuais também confirmaram
que raramente usam o computador para tal acesso,
fazendo-o através do aparelho celular – e que este não
os impede de sair de casa com os amigos. Uma das
entrevistadas (aluna G, 1º ano, 14 anos) revelou que
é muito bom “ter um celular, com créditos, sair pra
praça e ficar no Facebook!”. Outros ainda confes-
saram que há uma sorveteria na cidade que todos
frequentam porque tem wi-fi. Relatos como esse, de
uma aluna do terceiro ano, evidenciaram o fato de as
CAPÍTULO 4

pessoas estarem juntas e, ao mesmo tempo, distantes.

Outro lado da moeda da proximidade


virtual é a distância virtual: a suspen-
são, talvez até a anulação, de qualquer
coisa que transforme a contiguidade 111
topográfica em proximidade. A proxi-
midade não exige mais a contiguidade
física; e a contiguidade física não
determina mais a proximidade. É uma
questão em aberto saber qual lado da
moeda mais contribui para fazer da
rede eletrônica e seus implementos de
entrada e saída um meio de troca po-
pular avidamente usado nas interações
humanas. Será a nova facilidade de
conectar-se? Ou a de cortar a conexão?
Não faltam ocasiões em que esta última
parece mais urgente e importante que
a primeira (BAUMAN, 2004, p. 38).

Bauman reforça o que foi dito pelos próprios


alunos, e levanta outros questionamentos acerca
disso. Perguntando os motivos pelos quais é tão
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

fácil desconectar-se das pessoas ao redor, respondeu:

os contatos exigem menos tempo e


esforço para serem estabelecidos, e
também para serem rompidos. A dis-
tância não é um obstáculo para se estar
em contato – mas entrar em contato
não é obstáculo para se permanecer à
parte (BAUMAN, 2004, p. 39).

Não se pode negar que o Facebook cria laços


entre as pessoas, e que as redes estão disponíveis para
se fazer amigos ao clicar de um botão que podem
deixar de sê-lo da mesma forma.
Com estas tais “novas sociabilidades”, as relações
se modificam; a forma de estar com as pessoas, as
112 “amizades” ganham essa nova dinâmica, permeada
pelo espaço virtual, que pode propiciar, ao mesmo
tempo, distância ou aproximação. Segundo Simmel,
a sociabilidade tem um jogo de “faz de conta” que
está presente na dinâmica das relações, o que não
significa dizer que é mentira.

O jogo só se torna mentiroso quando


a ação sociável e o discurso se tornam
simples instrumentos das intenções
e dos acontecimentos da realidade
prática [...] passa a ser mentira decep-
cionante quando o fenômeno é guiado
por objetivos não sociáveis, ou tem
por finalidade disfarçar tais objetivos
(SIMMEL, 2006, p. 71).

Simmel se refere à artificialidade existente na


sociabilidade, chegando ao ponto de dizer que o
“mundo da sociabilidade” é um “mundo artificial”.
Segundo o autor, somente nesse plano poderia haver
uma democracia sem atritos entre iguais, assim como
relações sem a busca mínima de interesses ou tensões
materiais. Então, haveria uma forma de sociação,
mantendo tais formalidades que devem ser cumpri-
das, e que passam a acontecer sem uma finalidade
social, realizando-se em um mundo de “faz de conta”.
Segundo Maffesoli, seria uma das características
da socialidade, que se refere a uma realidade prática,
reportando-se às relações que acontecem no presen-
CAPÍTULO 4

te, e ganham formas de teatralidade. Diante disso, se


faz alguns questionamentos quanto às sociabilidades
existentes nas redes sociais, percebendo-se que
existe uma dinâmica diferenciada de relacionar-se
via internet, mas que essa interação não pode ser
113
descartada, ou desconsiderada como sociabilidade
ou mesmo socialidade, termo usado por Maffesoli.
Pode-se perceber interações de “faz de conta” na
internet, como já foi mostrado, relações que aconte-
cem apenas em um campo virtual, mas se utilizando
das palavras de Simmel, não quer dizer que sejam
relações mentirosas; elas têm um significado, já que,
segundo o autor, o ser humano possui o desejo de
se socializar. Existem “impulsos de sociabilidade”
e os “limiares da sociabilidade”, em que as pessoas
acabam se socializando, gerando relações de sociabi-
lidade, embora que, intrinsicamente, busquem por
interesses individuais. Nas redes sociais existe uma
dinâmica semelhante quando se refere às relações de
interesses, até mesmo quando se aceita um amigo,
ou dá-se uma curtida em uma postagem. Alguns alu-
nos citaram no grupo focal que existem pessoas que
curtem as fotos ou postagem dos “amigos” como
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

forma de aproximação, para ganhar popularidade,


ou mesmo para que a pessoa também curta suas
coisas. Existe uma série de interesses que permeiam
as relações “virtuais”, que ora se assemelham com
as relações face a face, ora se distanciam, tendo suas
particularidades específicas.
Segundo Maffesoli (1984), existe uma anti-
nomia entre cotidiano e imaginário, em que o ser
humano está constantemente em suas vivências,
transportando-se entre o “real” e o imaginário. As re-
lações nas redes, por sua vez, trazem esse caráter
diferenciado de estar em um mundo virtual, ou
mesmo na potencialização dos desejos escondidos,
que se tornam possíveis virtualmente e às vezes só
existem nele; quando retornadas a um ambiente
físico, não se concretizam, ou muito menos existem.
114
“Dentro da rede, você pode sempre
correr em busca de abrigo quando a
multidão à sua volta ficar delirante
demais para o seu gosto” (BAUMAN,
2004, p. 37).

A teoria alia-se à prática quando alguns alunos


mencionaram que acham melhor ficar em casa sábado
à noite no Facebook do que ir à pracinha da cidade.
O que podemos entender é que o Facebook tem
sua dinâmica própria de interação, com seus signi-
ficados e suas particularidades, influenciando direta
ou indiretamente nas relações ditas como físicas ou
presenciais e ampliando um leque de possibilidades
em um campo virtual, que vai além do espaço
“real”, expandindo novas formas de socialização e
interação, trazendo um novo modo de entender
e vivenciar alguns significados (ex.: amizade).
Mas todo esse processo de “conquistar” amigos
exige algo em troca. Para manter a popularidade
nas redes sociais é preciso mostrar um pouco de si,
o que faz os jovens na maioria das vezes comparti-
lharem suas vidas. Então termos como privacidade
acabam ganhando uma nova forma de serem vividos
e entendidos.

4.1 Vidas "compartilháveis": mudanças


no sentido de público e privado
CAPÍTULO 4

As pessoas falam assim: “tudo precisa


de limites”, mas quando chega no
Facebook a pessoa é sem limite! (aluna
C, 3º ano, 17 anos). 115
Nas redes sociais, os jovens estão em constante
movimento, e a interação acontece de diferentes
formas – conversas on-line, postagens, marcação de
amigos em fotos, em que são expressos sentimentos,
opiniões, etc. Pessoas se comunicam, relacionam-
-se; trata-se de um local democrático e livre, o que
possibilita, em alguns momentos, determinados
“excessos”; as vidas começam a ser “compartilhá-
veis” em uma rede social, o que acaba interferindo
ou reconfigurando os conceitos de público e de
privado. Ressaltando até que ponto os jovens estão
expondo suas vidas on-line, assim se manifestaram
os autores Palfrey e Gasser:

A privacidade digital tem sido um tó-


pico instigante desde que a internet se
tornou um meio popular em meados
da década de 1990. Nunca antes, tan-
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

tas informações sobre qualquer um de


nós estiveram tão facilmente acessíveis
para tantos, vivamos ou não da ma-
neira como vivem os Nativos Digitais
(PALFREY; GASSER, 2011, p. 66).

A privacidade foi algo que indiscutivelmente


se modificou com as redes sociais. As informações
estão, hoje, mais acessíveis; dados pessoais que não
chegariam a ser vistos por desconhecidos hoje são
facilmente acessados. Os conceitos do que deve ser
privado e público acabaram ganhando um novo
significado na “era digital”, o que de certa forma
influencia também as relações sociais, pois em um
perfil é procurado um grande número de informa-
ções e até mesmo quem não está on-line, ou não
116 possui perfil, está exposto.
Quanto mais acontece a exposição de mensagens
e postagens, mais a página do perfil se torna acessível
e atraente, possibilitando ao usuário obter status na
rede, sem falar que já existem empresas que incenti-
vam a popularidade on-line com prêmios. Um exem-
plo seria uma operadora de telefones móveis que
presenteia as pessoas com chips promocionais de
acordo com a popularidade no Facebook, ou seja, o
acúmulo de pontos depende do número de curtidas,
compartilhamentos feitos no Facebook. Ao chegar
ao número estipulado a pessoa é presenteada com
três chips contendo planos especiais.
Atualmente, existem empresas que compram
os dados das pessoas que são disponibilizados on-
-line. Em todo site que entramos, nos é solicitado o
preenchimento de um cadastro; o próprio Facebook,
para iniciar uma conta, requer que se faça um. Vai se
formando, sem percebermos, um grande número de
informações sobre nós que fica na rede. As grandes
empresas compram tais informações, e, ao acessar-
mos a rede, são colocadas no nosso computador
propagandas que, se percebermos, são de coisas que
gostamos, ou já pesquisamos algum dia. São pro-
pagandas direcionadas a um público específico de
consumidor; os gostos já são conhecidos, então
apenas direciona-se. É normal entrar no Facebook
e perceber propagandas em caixas de diálogos ao
redor da interface contendo apenas coisas que você
gosta. É algo assustador, pois não se sabe quem está
CAPÍTULO 4

nos observando e o que sabem a nosso respeito.


Segundo Palfrey e Gasser (2011, p. 51), ao longo
de nossas vidas vão-se formando “dossiês digitais”,
como segue: “todas as informações digitais contidas,
em muitas mãos diferentes, sobre uma dada pessoa
constituem o seu dossiê digital”. Hoje, ao nascer, 117
a criança, nos seus primeiros minutos de vida, já
tem fotos lançadas na rede, disponibilizadas a
um número indefinido de pessoas que as podem
visualizar. Assim, desde cedo, já se inicia a formação
de um dossiê digital. Como se trata de algo respecti-
vamente novo, não se pode fazer previsões precisas
de quais serão as consequências desta nova forma de
exposição, de compartilhamento excessivo de dados,
a despeito de que se tem constatado um número
crescente de casos de violação de direitos, alguns
dos quais concernentes à própria privacidade, com
as devidas implicações jurídicas, decorrentes do uso
aleatório de exposição de dados pessoais nas redes.

O problema da privacidade é
exacerbado em relação aos jovens
pelo fato de estarmos no início da era
digital. O tempo não está do lado dos
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

que nasceram digitais. Ninguém ainda


nasceu digital e viveu até a idade adul-
ta. Ninguém, ainda, experimentou o
efeito agregado de viver plenamente
vidas digitalmente mediadas, digamos,
uma vida de oitenta ou noventa anos
[...] mas ninguém sabe ainda qual o
verdadeiro impacto que isso terá a
longo prazo (PALFREY; GASSER,
2011, p. 75).

Partindo deste pressuposto, pode-se analisar a


questão como uma nova forma de estabelecer laços
de amizade, oportunidade de conhecer e saber o que
está acontecendo na vida destes supostos “amigos”
mediante a troca de informação, diante da possibi-
118 lidade de conseguir a confiança e conquistar mais
amizades on-line, pois as vidas são expostas como
uma forma de aceitação no grupo, que, na maioria
das vezes, excede tais exposições.
Em todo caso, essa exposição, por vezes, se torna
inevitável, visto que a dinâmica do Facebook só
acontece com a interação das pessoas, que é alimen-
tada pelo compartilhamento de informações dos
usuários, pois estas devem ser postadas no momento
em que acontecem, são disponibilizadas na rede
para serem curtidas, comentadas. É importante a
“imediaticidade” de tais informações. Para Maffesoli
(1984), uma das principais características da socia-
lidade são as relações que ocorrem no presente, no
momento em que elas acontecem. Outro fato que
chama a atenção é que essas informações, na maioria
das vezes, devem ser postadas instantaneamente, que
são atualizações de perfil, para que as pessoas possam
curtir ou não.

É o caso, por exemplo, da estrutura


do Facebook e do recurso do “like”
ou “curtir”. Quando alguém publica
uma mensagem e outro “curte” o que
foi dito, temos a formação de um par
adjacente, já que o ator está tomando,
ainda que de forma simbólica, parte
na conversação e explicitando a sua
aprovação (RECUERO, 2012, p. 73).
CAPÍTULO 4

Com postagens de vários acontecimentos


diários fica fácil conhecer a vida de outro de forma
on-line; com apenas um click se torna possível
observar os acontecimentos no mural, como uma
vitrine que se modifica rapidamente, tudo exposto,
passando em frente aos nossos olhos, postagens, 119
fotos, compartilhamento de ideias e fatos cotidia-
nos. A aluna D, 3º ano, 17 anos, disse que considera
o Facebook

uma rede social que a gente pode


interagir com pessoas de diversos
lugares, pode colocar o que a gente
está sentindo, é praticamente um
diário... (risos) só que não é secreto,
todo mundo vê.

Segundo Palfrey e Gasser,

Alguns Nativos Digitais que entrevis-


tamos pareciam perceber seus amigos
como a principal audiência daquilo
que eles colocam on-line, seja no
YouTube, seja em seu blog. Outros es-
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

tavam claramente mais conscientes das


implicações do fato de que muitas
outras pessoas podiam ver as informa-
ções pessoais que eles colocam on-line
(PALFREY; GASSER, 2011, p. 40).

Um grande número de informações pessoais tem


sido utilizado como forma de aproximação, nem
sempre os usuários das redes se importando com
questões referentes à privacidade, ou às noções de
público e privado. Com a exposição contínua de
acontecimentos diários, os internautas conseguem
audiência, como se os amigos fossem telespecta-
dores de suas próprias vidas. Nesse sentido, como
podemos abordar a noção de “privado”? Quais as
implicações da exposição gerada pela disponibiliza-
120 ção de dados pessoais nas redes sociais? Logo depois
que se lança algo na rede, parece perder-se o controle
definitivamente daquele conteúdo, não se tendo
mais domínio do acesso de terceiros.
Uma das alunas (aluna A, 1º ano, 15 anos)
entrevistadas discorda do que está sendo posto,
ao afirmar que a privacidade não mudou, porque
segundo ela “só mudou pra quem quis que mudasse,
porque se eu não quero que você veja minhas fotos
eu posso colocar só pros meus amigos mesmo”.
Segundo Recuero, referindo-se ao Facebook,

o sistema é muitas vezes percebido co-


mo mais privado que os outros sites de
redes sociais, pois apenas usuários que
fazem parte da mesma rede podem ver
o perfil uns dos outros (RECUERO,
2009, p. 171).

Levando em consideração a questão da seletivi-


dade, quanto a escolher os amigos que terão acesso
às suas informações pessoais, a pesquisa constatou
que a maioria dos jovens entrevistados não possui
um critério muito rígido para aceitar um convite
de amizade. Uma das depoentes descreveu o que
ela faz quando recebe um novo convite: “eu olho
a foto, aí olho o que ela publica, aí mesmo que eu
não conheça eu aceito” (aluna G, 1º ano, 15 anos).
Também existem alunos que possuem o perfil no
Facebook, mas que não necessariamente utilizam
CAPÍTULO 4

para descrever toda a sua vida, muito menos postam


fotos – utilizam-no apenas para curtir páginas de seu
interesse e observar a vida dos amigos. Segundo uma
das entrevistadas (aluna C, 3° ano, 16 anos), o

121
Facebook é um meio de comunicação
social que teve uma difusão muito
grande, e assim, com o tempo, se per-
deu a privacidade, as pessoas mesmo
se privaram de serem reservadas, elas
começaram a se expor, eu acho que
deu pra perder aí (sic).

Percebe-se posturas diferenciadas a respeito disso,


mas, na prática, observando os perfis dos alunos en-
trevistados, em algum momento existe tal exposição,
nem que isso aconteça por meio de terceiros.
O Facebook compreende uma dinâmica espe-
cífica de utilização, que acontece de acordo com a
reciprocidade, impondo-se como um instrumento
indispensável, em que só faz sentido para os jovens
estar conectado se existir um feedback; consequen-
temente, para que isso aconteça, é necessário haver
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

uma alimentação das informações que são posta-


das na rede – não é sem sentido que o Facebook
possui o “feed de notícias”, que são as atualizações
constates dos amigos. E ainda, para que haja
uma maior interação, também não podem deixar
de ser citadas as notificações12, as quais são uma
busca constante para muitos, pois na dinâmica do
Facebook elas representam o feedback dos amigos
do perfil para as postagens. Por isso a preocupação
dos jovens estudantes em procurar postar algo que
julgam interessante para os amigos, mesmo quando
postam fotos ou acontecimentos cotidianos: “gosto

12São as ações dos seus amigos no Facebook, uma forma de


mantê-los atualizados sobre as suas postagens, curtidas, compar-
tilhamentos... ao entrar em seu perfil, são visualizadas no canto
superior direito, em vermelho. É o feedback esperado por todos
122 que acessam as redes.
de compartilhar coisas que me interessam e que
interessam aos outros também” (aluna G, 1º ano,
14 anos).
Para que possa haver essa interação e apresen-
tação de informações sobre si mesmo, é preciso
ter um perfil. Os relacionamentos acontecem de
acordo com os perfis, as postagens, a popularidade,
os compartilhamentos; quantas pessoas “curtiram”
torna-se um critério de interação, constituindo-se
tal recurso num elemento da dinâmica diferenciada
de se relacionar do próprio Facebook. Os perfis têm
um papel importante nessa perspectiva de criação até
mesmo da identidade que foi falada no capítulo an-
terior, a qual representa os atores no mundo virtual.

Os elementos do corpo, portanto, pre-


cisam ser representados no ciberespaço
para auxiliar a construir uma presença,
o que ocorre principalmente através da
escrita e da performance. Ao construir
um perfil, os atores precisam recons-
truir indícios que deem pistas aos
demais interagentes a respeito de quem
são. Assim, elementos representações
do corpo (como avatares), descrição,
expressões linguísticas, gostos, con-
venções etc. são transportados para este
perfil com uma ideia de quem é aquele
ator (RECUERO, 2012, p. 140).
CAPÍTULO 4

Como os alunos comentaram no grupo focal, “às


vezes no face as pessoas aparentam ser uma pessoa pra
gente, mas assim, pessoalmente é outra coisa” (sic)
(aluna C, 3º ano, 16 anos). Eles também disseram que
não acreditam em fotos de perfil, pois na realidade são 123
bem diferentes do que as pessoas são, na realidade;
segundo eles, “são fotos escolhidas a dedo”.
Existe essa possibilidade de criar algo que não
existe ou mesmo tentar passar algum sentimento
de felicidade, satisfação que não se está sentido no
momento para os amigos virtuais. Determinada en-
trevistada (aluna D, 3º ano, 17 anos) relatou que
“o que a gente vai postar mostra o que a gente é!”.

A conversação em rede, além desses


elementos, também gera visibilidade,
reputação e popularidade. Quanto mais
citado é alguém, quanto mais referên-
cias a sua participação na conversação,
maior visibilidade. Quanto mais
indivíduos têm acesso ao que ele diz
e concordam com esse ator, mais
elementos de reputação ele soma, além
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

de aumentar sua popularidade e visi-


bilidade (RECUERO, 2012, p. 137).

Outra aluna (aluna C, 3º ano, 17 anos) afirmou:

eu não tenho nada contra, é


mais um conselho, você coloca lá
“#partiuescola”13, aí a pessoa sabe

13A hashtag (#) é utilizada em redes sociais como Facebook e


Twitter, geralmente acompanhada de outra palavra (ex.: #par-
tiuescola), funcionando como uma etiqueta que interliga todas
as mensagens que possuem um mesmo nome, como um códi-
go. É geralmente utilizada em campanhas, quando um grande
número de pessoas deseja manifestar uma opinião. Ao colocar
o # (hashtag), a palavra fica de cor diferente e destaca-se das
demais. O termo “partiu” é uma linguagem muito comum no
Facebook quando se expressa que irá fazer alguma coisa (ex.:
124 #partiusaircomamigos; #partiufesta; #partiuestudar). Seria uma
onde você está, sabe o caminho, aí a
pessoa ainda é muito ligada no celular,
vai andando... é um risco! (sic).

A exposição demasiada no Facebook também


pode trazer riscos.
Tal exposição acontece, como já foi dito, para
se conseguir mais popularidade, visibilidade
dos amigos, ganhar muitas curtidas e comentá-
rios. Outro ponto que ressalta a presente pesquisa
é a competição entre indivíduos muito comum
de acontecer nas redes, não fugindo a isso o
Facebook. Essa competição acontece em forma de
postagens, e pode se manifestar de diversas formas.

Por exemplo, é muito comum usar a


ferramenta para marcar uma chegada
em um determinado lugar e divulgar
no Twitter e no Facebook ou mesmo
postar fotos de onde se está. São rituais
de marcação, onde se coloca não ape-
nas uma localidade na conversa, mas
igualmente, anuncia-se, descreve-se o
lugar físico (onde estou) para diálogo
(RECUERO, 2012, p. 76).

Geralmente são expostos, além do local onde se


encontra, os nomes das pessoas que estão presentes,
as quais são “marcadas” nas fotos, uma atividade
CAPÍTULO 4

bastante comum no Facebook.

maneira de descrever qual será a próxima atividade que a pessoa


irá desenvolver e também podem ser usadas outras palavras além
de “partiu”. 125
Esses rituais são relevantes em termos
conversacionais porque narram
elementos que tradicionalmente são
perceptíveis no espaço off-line para o
on-line (ibidem, p. 77).

Uma das alunas entrevistadas (aluna A, 1° ano,


15 anos) assim se pronunciou:

eu acho legal colocar assim: com... aí tal


pessoa e tal pessoa, como eu já coloquei
aí chega um monte de gente: Oh, vocês
estão aí? Onde vocês estão? Eu vou
praí... não sei o que... aí junta mais
amigos, eu acho isso interessante! (sic).

Ao comunicar para os amigos virtuais que se está


em um lugar com os outros amigos e os nomes deles
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

são citados, isto é, “marcados”, tal fato pode gerar


consequentemente um encontro, ao mesmo tempo
em que pode trazer riscos.
Ressalte-se quanto a essa competição incessante
entre os jovens no Facebook que, nos seus primórdios,
ele se desenvolveu em meio a uma brincadeira de dis-
putas, para selecionar a garota mais bonita do campus
da Universidade de Harvard. Então desde a competição
de curtidas referentes a pessoas, quanto de lugares inte-
ressantes que as pessoas vão, a razão pela qual a grande
maioria de fotos são tiradas é quase que exclusivamente
com o intuito de serem postadas. Não basta superar o
amigo, mas também se deve publicizar isso.
A pesquisa constatou que os alunos não gostam de
assumir que postam fotos; a maioria disse que postava
anteriormente, como forma de desculpa, mas que
126 não mais o faz. No entanto, analisando os perfis dos
entrevistados, pode-se constatar que os alunos postam
um número considerável de fotos. Apenas uma aluna
(aluna B, 2º ano, 15 anos de idade) assumiu postar
muitas fotos por dia em um aplicativo que hoje faz
parte do Facebook, o Instagram14. Ela afirmou que
adora postar fotos para as pessoas saberem o que ela
está fazendo e com quem está.
A postagem de fotos é bastante utilizada pelos
alunos, mas se sabe que as fotografias são um recorte
de algo, ou algum acontecimento, que não necessa-
riamente retratam o que acontece verdadeiramen-
te. A fotografia, principalmente depois da ascensão
dos aparelhos celulares, embutidos com câmeras
digitais, ganhou um novo aspecto, principalmente
na atualidade, com a moda das selfies, que são fotos
tiradas de si mesmo com o aparelho celular, que
pode ainda conter um grupo de pessoas que se
juntam tentando se encaixar na tela do celular.

A fotografia é um dos componentes


do funcionamento desta sociedade
intensamente visual e intensamente
dependente da imagem (MARTINS,
2008, p. 36).

E o autor continua:

A fotografia não congela nem retrata


“o que está lá”. Nos dois casos, jus-
CAPÍTULO 4

tamente a irrealidade da fotografia é

14Instagram é um aplicativo gratuito que permite aos usuários


tirar fotos, aplicar um filtro e depois compartilhá-las numa
variedade de redes sociais, incluindo o próprio Instagram. <http://
pt.wikipedia.Org/wiki/Instagram>. Pesquisado em julho de 2014. 127
que tece a trama de suposições respon-
sáveis pelo drama e pelo dramático.
Portanto, a fotografia nutre a sua in-
terpretação por uma contínua remessa
do real, que não se deixa congelar, que
não interrompe o seu fluxo e que, por
sua vez, agrega e redefine significações
ao que só aparentemente é um “conge-
lamento” de imagem e, nesse sentido,
um “retrato” da sociedade em certo
momento (MARTINS, 2008, p. 37).

Nas redes sociais é comum a utilização de fotos


como postagens, contendo frases e check-in dos locais
onde as pessoas estão naquele momento, utilizando
tal recurso como um complemento na descrição dos
fatos. Assim é que se pode constatar muitas fotografias
não só no Facebook, mas principalmente em aplica-
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

tivos como o Instagram, que são utilizados para tirar


fotos e editá-las. Está se vivendo em uma sociedade
visual, como citou o autor. Nunca foi tão fácil tirar
fotos, e nunca se teve tantas imagens disponíveis de
uma pessoa em rede. Álbuns de fotografia, agora, são
raros, conveteram-se em bytes e estão visíveis para um
grande número de pessoas.
São essas implicações e modificações em vários
aspectos da vida social que ganharam novas formas
de ser nas redes sociais. Destacaremos, agora, o
que disse uma das entrevistadas (aluna D, 3º ano,
17 anos), referindo-se à utilização do Facebook:

128
eu uso o Facebook pra me comunicar
com meus amigos, falar onde eu tô,
com quem eu tô, de certa forma pra
expor minha vida e pra saber da dos
outros também! (sic).

Ela mencionou isso de forma bem decidida e


descontraidamente. Não seria exagero afirmar
que grande parte das pessoas usa o Facebook
consciente, ou até desejosa de estar se expondo, no
sentido de obter algum status, conquistar amizades,
curtidas etc. Um aluno comentou que ficou muito
triste porque a primeira foto de seu perfil teve três
curtidas. Que depois disso não tivera vontade de
entrar mais no Facebook. Para se estar conectado,
ficar horas nas redes, é preciso ter a reciprocidade, a
interação, uma dinâmica que não pode parar.
As novas sociabilidades, portanto, são influencia-
das por tais aspectos que estão ligados com a questão
da privacidade, posto que a dinâmica de sociabilida-
de existente no Facebook favorece a exposição de da-
dos sobre si, requerendo tornar-se “popular” entre os
amigos, ganhando mais curtidas. Segundo Foucault
(1987, p. 224), “a visibilidade é uma armadilha”.
Vivendo em uma sociedade de controle, sendo to-
talmente vigiadas, existindo inúmeras possibilidades
de serem vistas, encontradas, nas redes sociais as
pessoas “se mostram” demasiadamente, se deixam
encontrar. Nessa sociedade, por mais que se queira
CAPÍTULO 4

ter privacidade, isso se torna cada vez mais impos-


sível. Todos estão sendo vigiados, e se tornar visível
pode ser uma armadilha que contém consequências
inimagináveis, não sendo sem sentido que se tem
o aumento do número de violações de direitos
129
(imagem, privacidade, dentre outros) na sociedade
digital, tendo as redes sociais contribuído para isso.

4.2 As dinâmicas conversacionais15


do Facebook

Pode-se afirmar que todo site de rede social possui


sua dinâmica interacional particular, seus rituais
específicos, muitos dos quais acabamos de descrever,
o que torna tecnicamente seu funcionamento possí-
vel. Os atores que dela participam conhecem as for-
mas de agir nesses determinados espaços, suas regras
e normas, tendo conhecimento das suas ferramentas e
de como usá-las para efetivar as conversações e trocas
de informações. Segundo Recuero (2012), a conver-
sação, como no espaço físico, é uma das ferramentas
mais importantes dos sites de rede social, utilizada
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

como principal meio de interação, que aos poucos foi


ganhando suas particularidades e aperfeiçoamentos,
os quais são parte de um contexto Organizado, em
que todos os usuários se fazem entender, constituindo
uma Organização interna dos grupos de rede sociais.

A conversação é, portanto, um processo


Organizado, negociado pelos atores, que
segue determinados rituais culturais e
que faz parte dos processos de interação
social. Não se trata apenas de diálogos
orais diretos, mas de inúmeros fenôme-
nos que compreendem os elementos

15Termo utilizado por Raquel Recuero em seu livro “A conversa-


ção em Rede: comunicação mediada pelo computador e Redes
130 Sociais na Internet”.
propostos e constituem as trocas sociais
e que são construídos pela negociação,
através da linguagem, de contextos
comuns de interpretação pelos atores
sociais (RECUERO, 2012, p. 31).

As redes sociais possuem uma dinâmica de


conversação que aos poucos se assemelha à maneira
das conversas orais, pois cada vez mais incorpora
as suas características, criando-se, inclusive, uma
linguagem que lhe é peculiar. Raquel Recuero as
chama de “conversas mediadas pelo computador
– CMC”. Elas trazem algumas particularidades na
maneira como são utilizadas, pois cada vez mais se
procura fazer com que o texto digitado se torne o
mais inteligível e próximo da linguagem oral, isto é,
se transforme em uma “escrita oralizada”. “Tipo eu
falo com uma pessoa, aí a pessoa não me responde,
aí tipo... três dias depois a pessoa vem. ‘Aí, oi, o que
era?’” (sic) (aluna E, 1º ano, 14 anos). A aluna, ao
descrever a situação, utiliza o verbo “falar”, mas ela
apenas “digitou” uma frase para iniciar uma con-
versação com a pessoa. É muito comum haver essa
incorporação de verbos:

Na conversação casual, os usuários da


Internet frequentemente referem-se
às trocas textuais como conversação,
usando verbos como “falei”, “disse”
CAPÍTULO 4

e “ouvi” ao invés de “digitei”,


“escrevi” ou “li” para descrever as
atividades da CMC. Mesmo autores
publicados, algumas vezes, referem-
-se, de forma inconsciente, parece-
-me aos “falantes” mais do que aos 131
“escreventes”, “conversa” mais do
que “trocas digitadas”, “turnos”
mais do que “mensagens” e daí
por diante quando se reportam a
CMC. O uso linguístico atesta ao
fato que a experiência dos usuários na
CMC é fundamentalmente similar
àquela da conversação falada, apesar
da CMC ser produzida e recebida por
meios escritos (HERRING, 2010,
documento exclusivo da internet apud
RECUERO, 2012, p. 32).

É muito comum a utilização de expressões


quando se refere às conversas textuais com verbos
que usamos para as conversas on-line; houve uma
incorporação dessas palavras, até porque cada vez
mais as pessoas utilizam a rede para conversar. Os in-
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

ternautas tentam passar para os “amigos” o máximo


de informações possíveis, ocorrendo uma mudança
na maneira de escrever, fugindo totalmente da nor-
ma culta, utilizando-se de onomatopeias16, com o
objetivo de se fazer entender. Ainda, tenta-se expres-
sar os sentimentos, ou demonstrá-los, já que não é
possível ver as expressões faciais. Pode-se até mesmo
ser uma situação perigosa quando se conversa com
estranhos, pois, diante disso, não se sabe quando a
pessoa está mentindo ou não.
Os alunos também disseram que para conversar
de forma rápida utilizam abreviações nas palavras; os
exemplos mais citados foram: “vc”, “hj”, “pq”, “blz”

16Figura de linguagem utilizada para simular sons da linguagem


oral e para manter elementos verbais e não verbais típicos das
132 conversações orais. Ex.: Humm; Hehehehe.
para as palavras você, hoje, porque e beleza, respec-
tivamente. E, ainda, são utilizados os emoticons17.
Tudo para fazer com que quem está do outro lado
compreenda melhor a mensagem transmitida, assim
como o sentimento ou desejo, da forma mais próxima
de uma interatividade presencial. Não é sem razão que
o Facebook tem as ferramentas, como mencionado
logo acima, que descrevem como as pessoas estão se
sentindo. Exemplos de utilização de emoticons são os
seguintes, utilizados pela aluna G, 1º ano, 15 anos:

Se sentindo feliz J
Se sentindo triste L

São algumas ferramentas utilizadas pelo


Facebook pela maioria dos alunos, que, de alguma
forma, evidenciam os sentimentos e as sensações que
não são perceptíveis on-line. E diante dessas posta-
gens públicas, começam as conversas individuais,
pois as pessoas acabam chamando via inbox, dando
início a uma aproximação, quem sabe, uma amiza-
de. A conversação acontece de forma pública, envol-
vendo várias pessoas, e individual, com conversas no
bate-papo. Muitos alunos alegaram que depois do
aplicativo WhatsApp18, eles utilizam-no mais para
conversas e bate-papos, e, consequentemente, foram

17São elementos gráficos utilizados para simular expressões


CAPÍTULO 4

faciais. Podem ser imagéticos ou textuais e são, normalmente


utilizados como complemento à conversação, como forma
de indicar humor, ações e mesmo elementos como ironia e
sarcasmo (RECUERO, 2012, p. 80).
18WhatsApp Messenger é um aplicativo de mensagens mul-
tiplataforma que permite trocar mensagens pelo celular sem
pagar por SMS. 133
deixando o Facebook de lado, o que, segundo eles,
é uma forma de conversar com mais privacidade.

4.3 Algumas considerações

Tentou-se, neste capítulo, apresentar, de forma


analítica, os resultados de um trabalho empírico que
foi realizado com muito afinco por mim e por todos
que participaram de alguma forma na construção
dele. Os dados apresentados contêm características
da vida e da sociabilidade de jovens estudantes do
Ensino Médio que utilizam as redes sociais como
ferramenta para se comunicar com amigos, parentes,
conhecer novas pessoas, criar laços, ampliá-los...
enfim, todas as formas possíveis de comunicação,
aproximação e interação que o site de rede social
Facebook pode oferecer.
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

Foram demonstrados dados qualitativos e quan-


titativos, que destacam a utilização dessa rede, a qual
faz parte, hoje, do cotidiano de jovens de todo o
mundo. Constatou-se mudanças significativas em
termos como linguagem, privacidade, amizade etc.,
redundando considerar que tudo isso faz parte de
uma dinâmica particular da rede. Refere-se mais
especificamente aos sujeitos dessa pesquisa, os
“nativos digitais”, que nasceram em meio às tecno-
logias digitais e fazem delas uma ferramenta para se
socializar entre si, e com o mundo.
Tentou-se explorar também os temas que são
intrínsecos ao Facebook, trazendo alguns termos
utilizados pelos alunos em seus cotidianos virtu-
ais. As formas de conversação trazem em seu bojo
características próprias, que se fazem entendidas por
134 todos os participantes desse espaço virtual.
Realmente, como citam Palfrey e Gasser, é um
Second Life, um espaço onde os jovens se veem
imersos na possibilidade de criar um segundo
mundo ou refugiar-se nele quando sentirem neces-
sidade. O Facebook contém muitas características
existentes no espaço físico, afinal, é feito de atores so-
ciais, e pode ser considerado, como alguns preferem,
uma extensão do mundo “real”, ou, como também
afirmamos anteriormente, ações peculiares de sua
dinâmica de interação.
Por fim, não se sabe até onde vai a popularidade
do Facebook, tendo-se em conta que muitos sites de
rede sociais se extinguiram, dando espaços a novas
possibilidades. Os próprios alunos afirmaram não
ser o Facebook eterno, tendo que futuramente dar
lugar a novas experiências. Mas, em todo caso, ficará
registrada essa dinâmica interacional específica, a sua
popularidade e aceitação sobretudo entre os jovens,
à exemplo de uma “febre”, para usar um termo deles
mesmos, ou um “vício” que muitas pessoas não con-
seguiriam largar, dadas as informações que passaram
a ser obtidas facilmente, as mudanças na forma de
se considerar amigo, de mostrar os acontecimentos
da vida, a qual passou a ser demonstrada em um
mural. O Facebook, de certa forma, “revolucionou”
a maneira de socialização dos jovens, fazendo parte
das suas vidas cotidianas de uma forma significati-
va. Dados obtidos do grupo focal revelaram que o
Facebook é a rede social que aproxima quem está
CAPÍTULO 4

longe e distancia quem está perto.

135
Capítulo 5
CONSIDERAÇÕES FINAIS

L
evando em consideração tudo o que foi
exposto nessas páginas, diante de todo o
trabalho que foi desenvolvido, ao longo
de mais de um ano de planejamentos, leituras
e pesquisas, bem como de altos e baixos que me
exigiram determinação e força de vontade, chegamos
ao fim – não no que se refere a um esgotamento
do tema, mas de conclusão da presente pesquisa,
tendo-se em conta o que fora possível até o momen-
to desenvolver. É um ciclo que se conclui, trazendo
resultados que julgamos válidos como uma nova
maneira de enxergar a problemática das redes sociais
a partir de um recorte específico: jovens estudantes
de uma escola pública do interior do Ceará. Ao lon-
go dele, podemos observar que as redes sociais têm
fundamental influência na sociabilidade dos jovens
estudantes da Escola de Ensino Médio Elza Goersch,
que as utilizam para compartilhar suas vivências,
conversar com amigos, parentes distantes, ou até
mesmo para se comunicar com um amigo que está
ao lado, na sala de aula. São finalidades infinitas.
Os jovens têm em suas mãos não só um, mas
vários sites de rede social, sendo o Facebook só
mais um deles, mas o que escolhemos no presente
trabalho e que serviu para observarmos os “usos” que
aqueles jovens fazem dele, como eles se apropriaram
dessa ferramenta e as utilizam usufruindo de todos
os seus mecanismos de interação e conversação.
Em uma rede social, mais precisamente no
plano virtual, regras são incorporadas, possuem uma
dinâmica diversificada, desenvolvem trocas, implican-
do na reciprocidade que depreendemos do Facebook.

São centenas, milhares de novas for-


mas de trocas sociais que constroem
conversações públicas, coletivas,
síncronas e assíncronas, que per-
meiam grupos e sistemas diferentes,
migram, espalham-se e semeiam novos
comportamentos (RECUERO, 2012,
p. 121).

Como a juventude não é homogênea, podemos


observar formas diferenciadas e posicionamentos de
como é desenvolvida tal utilização das redes sociais.
Pôde-se perceber, na própria fala dos entrevistados,
as opiniões, as críticas, as vivências, deixando claro
a finalidade deles, que é se comunicar, atualizar-se,
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

estar disponível, fazer amigos... etc.


Podemos perceber que, sob determinada forma,
é possível, sim, falarmos em novas sociabilidades,
que agora são utilizadas sem aspas, pois depois do
desenvolvimento da pesquisa e análise dos dados se
tornou claro que o Facebook amplia as formas de so-
cialização, trazendo um novo leque de possibilidades
de interação, comunicação, criação de laços, am-
pliação das possibilidades de amizade, publicização
de fatos cotidianos, fazendo as pessoas se tornarem
acessíveis, trazendo atualizações de informações de
todos os tipos de notícias importantes, até mesmo
por meio de fofocas, criação de grupos afins etc.;
a possibilidade de multiterritorializar-se, podendo
estar em vários lugares ao mesmo tempo, sem nem
ao menos sair de onde se está, sem deixar de falar
138 nos bate-papos, que podem acontecer em grupo
ou individualmente, além de mudanças também
na linguagem, gírias e expressões que nascem no
Facebook. Tudo acontecendo de uma forma pecu-
liar, com uma dinâmica diferenciada de se relacionar
com o mundo e com as pessoas.
E, ainda, com o Facebook a privacidade passa
a ser utilizada como uma troca para possibilitar a
aproximação ou mesmo “perceber seus amigos como
principal audiência daquilo que coloca on-line [...]”
(PALFREY; GASSER, 2011, p. 40). São novas for-
mas de percepções quanto ao que deve ser tornado
público ou não, sem falar na perda do controle da
informação, pois depois de postado, você não sabe
quem poderá ter acesso à informação. Fotos são
facilmente salvas em qualquer dispositivo que tenha
acesso ao seu perfil.
Nesse contexto virtual, começam a existir amiza-
des apenas virtuais, que não passam disso, ou então
laços que nascem on-line e se concretizam, sendo
possível se tornar amigo de uma pessoa simplesmente
por curtir suas postagens, sem nunca tê-la visto pesso-
almente. O significado de amizade sofreu alterações
e também se ampliou. Amigos não precisam mais
estar em um mesmo espaço físico. Segundo Bauman,

diferentemente dos ‘relacionamentos


reais’ é fácil entrar e sair dos ‘relacio-
namentos virtuais’. Em comparação
com a ‘coisa autêntica’, pesada, lenta
CAPÍTULO 5

e confusa, eles parecem inteligentes e


limpos, fáceis de usar, compreender e
manusear (2004, p. 8).

139
Além disso, é possível criar várias identidades em
um perfil do Facebook, por isso se falou que em uma
rede social pode-se viver uma “segunda vida”.

Os  Nativos Digitais estão usando


os espaços públicos da rede como
ambientes cruciais para aprender a
socializar-se e também o desenvol-
vimento da identidade (PALFREY;
GASSER, 2011, p. 36).

Segundo Carrano (2008, p. 199),

o ‘eu’ é relacional e móvel, se redefi-


nindo continuamente como resposta à
dinâmica social que exige uma multi-
plicidade de linguagens e relações para
a produção das identidades.
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

Algumas práticas sociais existentes no Facebook


só transmitem, na maioria das vezes, características
contemporâneas modernas.
O que os sujeitos mencionaram, e que trouxe
grande impacto para a pesquisa, foram os levanta-
mentos feitos acerca das modificações ocorridas,
no que se refere ao Facebook e às redes sociais, no
sentido de “aproximar quem está longe e distanciar
quem está perto”, pois mais do que nunca se acessa
as redes por onde vai devido à mobilidade do celular.

Uma mensagem brilha na tela em


busca de outra. Seus dedos estão
sempre ocupados: você pressiona
teclas, digitando novos números para
140 responder às chamadas ou compondo
suas próprias mensagens. Você perma-
nece conectado – mesmo estando em
constate movimento, e ainda que os
remetentes ou destinatários invisíveis
das mensagens recebidas e enviadas
também estejam em movimento, cada
qual seguindo suas próprias trajetórias
(BAUMAN, 2004, p. 37).

Então as pessoas ficam no mínimo divididas entre


as relações de presença física e as virtuais, pois as
duas acontecem concomitantes. Uma das perguntas
iniciais da pesquisa consistiu em saber se as relações
tradicionais se encontravam em risco, depois das redes
sociais, mas como foi respondido por diversos dos
sujeitos, existem os dois lados da moeda: ela aproxima
e afasta, dependendo da perspectiva que se anali-
sa. Ainda segundo Bauman, as relações estabelecidas
on-line são mais fáceis de manter, começar e pôr um
fim. Tudo se torna natural, dinâmico, e acontece de
acordo com os comandos selecionados ao pressionar
um botão. Sem falar na possibilidade de estar on-line
ou off-line, ter a opção de se comunicar quando estiver
disponível, ou quando assim desejar.
Utilizando-se do termo “sociabilidade”, de GeOrg
Simmel, pode-se dizer que a sociabilidade ganhou
uma nova forma de se sistematizar, de ser vivenciada,
surgindo novas maneiras de teatralizar tais socia-
ções. Se existe o mundo superficial da sociabilidade,
CAPÍTULO 5

quem sabe ele não estaria presente no plano virtual,


onde muitas vezes as relações acontecem por simples
formalidades ou por passatempo? Será que teríamos
presente nas redes sociais uma busca por um fim so-
cial? Simmel diz que a sociedade só é possível porque
temos um impulso de sociabilidade, um desejo de 141
estar junto, e Maffesoli ressalta que o “estar junto à toa”
é o que possibilita a socialidade. Sociabilidade ou/e
Socialidade, Simmel ou/e Maffesoli, nas redes sociais,
são possíveis todas as formas de socialização que já
foram estudadas. São “novas” formas de vivenciar
as relações, “novas” maneiras de entender o social,
“novas” formas de entender o mundo, “novas...”.
Ainda não se sabe o que a sociedade da infor-
mação nos trará, ainda não se viveu uma vida inteira
presenciando essa vivência virtual; não sabemos o
que esta exposição nos trará como consequên-
cia. O fato é que essas diferenciações existem e farão
parte da história da sociedade.
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

142
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Acesso em: 23 set. 2016.
REDES SOCIAIS E NOVAS SOCIABILIDADES

150
Título Redes sociais e
novas sociabilidades:
os usos do Facebook por
jovens de Forquilha – CE
Autor Antonia Zeneide Rodrigues
ISBN 978-85-69247-25-8
Série Humanidades I
Editora Caravela Selo Cultural
Coordenação editorial José Correia Torres Neto
Revisão de texto e Kaline Sampaio de Araújo
tipográfica
Normalização Verônica Pinheiro da Silva
bibliográfica
Capa, Projeto gráfico e Alice Câmara da Rosa
editoração eletrônica
Formato 12 cm x 21 cm
Número de páginas 146
Tipologia Adobe Garamond Pro,
Verdana, GoBold
Papel do miolo Pólen Soft 80g/m2
Papel da capa Cartão Duo Design 250g/m2
Impressão e Offset Gráfica e Editora
acabamento
Local e data Natal (RN), dezembro de 2017