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NA PoNTA DA I-íttGUA Louis-Jean Calvet

1. Estrangeirismos
- guerres em torno da língua
Carlos Alberto Faraco [org.], 3 u ed.

As pgjíticas
2. Língua materna
- letramento, variação e ensino
Marcos Bagpo, Miúael Stúbs & Gilles Gagté,3u ed.
3. História concisa da lingüística
'W'eedwo
Barhara od, 4u ed.
'4,:, Sociolingüística
- am& introd.ação crítica
Louis-J earL Calvet, 2" ed.
5. História concisa da escrita
Charles Higounet, 2" ed.
Para entender a lingüística
LINGUISTICAS
elementar de uma disciplina
- epistemologia
Robert Martin, 3" ed.
7. Introdação aos estados cwltarais
Armand Matt e7art, Érik Neveu, 2u ed.
8. A pragmdtica
Françoise Armengaud
9. História concisa da semiótica
Anne Hénault
10. Hlstória concisa da semântica
Tradução r
Irène Tamba -Mecz
lsneeL DE Ollvelnn Dunnrr
n. Lingüística computacional teoria & prática
Gabriel de Ávila Othero e Sérgio de Moura Men uzzi JoNns TeNrrN
jLingüística histórica ïJma introd.wção &0 estudo da
',,72. Mnncos Bne No
história das línguas
Carlos Alberto Faraco, 2^ ed. Pref acior
13. Lwtãl clm palavra,s
- coesão e coerência
Irandé Antune s, 2u ed.
GwnN Mürlrn DE Olvnlnn

14. Análise d,o discarsl Históría e práticas


Francine Mazière
-
15. Mas o que é mesn+o "gramática"?
Carlos Franchi
16. Análise da conversação: princípios e rnétodos
Catherine Kerbrat-Orecchioni
77. As políticas lingüísticas
Louis-J ean Calvet ffigmffi** "Lr"
Título original: Les politiques linguistiques
O Louis-Jean Calvet
@ IPOL - lnstituto de Políticas Lingüísticas, Florianópolis, SC

Eorron: Marcos Marcionilo


Cnpn E pRorEro cnÁrrco: Andréia Custódio
RevrsÃo: Telma Pereira
Consrlxo EDtroRtALz Ana Stohl Zilles [Unisinos]
Corlos Alberto Foraco tUFPRI
Egon de Oliveira Rangel IPUCSPI
SUMÁRIO
Gilvan Müller de Oliveira [UFSC, lpol]
Henrique Monteogudo [Univ. de Santiago de Compostela]
José Corlos Sebe Bom Meihy INEHO/USPI
Konovillil Rojagopalan [Unicamp]
Marcos Bagno [UnB] PREFACIO
Morio Marta Pereira Scherre [UFRJ, UnB]
Rachel Gazolla de Androde [PUC-SP]
Salma Tannus Muchoíl tPUC-SPl capítulo.I; NAS oRIGENS DA PoLÍTICA
Stella Maris Bortoni-Ricardo [UnB] LINGIIISTICA ...t.. ....... 11
ct P-BRAS| L. CATALoGAçÂo NA TONTE
I. Nascimento do conceito e seu campo de aplicação .. 12
SINDICATO NACIONAT DOS EDITORES DE IIVROs,

cl6e
RJ
tr. O primeiro modelo de Hau{en...... ........... n
Calvet, LouisJean, 1942-
m. A abordagem "instlrumentalista": P. S. Ray e V Tauli 25
As políticas lingüísticas / LouisJean Calvet; prefácio Gilvan rV O se$undo modelo de Hau$en...... ............ n
Müller de 0liveíra ;tradução lsabelde 0liveira Duarte,Jonasïenfen,
Marcos Bagno. - 5ão Paulo: Parábola Editorial : 1P01,2007.
V A contribuição da sociolingüísttca"naíva" ..... ........ n
. -(Na ponta da língua ; 17)

Capítulo IIt.AS TIPOLOGIAS DAS SITUAÇOES


ïradução de: Les

lnclui bibliografia
politiques linguistiques
PLURILINGUES ...... ......... 37
I sBN 978-8s-884s6-60-0 I. Ferguson e Stewart.... ...... 38

1. Linguagem e línguas - Aspectos políticos. 2. Linguagem


I[. As propostas d.e .. ..... .. ... ...
Fasold ...... ..... .. M
e línguas - Política governamental.3. Planejamento linguístico. l. m. A {radede Chaudenson...... ...... ....... 49
lnstituto de Políticas Lingüísticas. ll. ïítulo. lll. Série.
Conclusão. ...... 58
07-247. CDD:3ffi.449

capítulo III.
cDU 316.7481
OS INSTRUMENTOS DO
Direitos reservados à
PLANEJAMENTO LINGúSTICO ...... ................. 61
PARÁBOLA EDITORIAL
Rua Clemente Pereira, 327 - lpiranga
I. O equipamento das línguas ............ ffi
04216-060 São Paulo, SP A escrita ...... 63
Fone: [1 1] 691 4-4932 | Fax: l11l 6215-2636
home page: www.parabolaeditorial.com.br O léxico ....... 65
e-mail: pa ra bolaEpara bolaed itorial.com.br A padronizaçã0,........ 67
Todos os direitos resenndos. Nenhuma parte desm
obn pode ser reproduzida ou
Do "in vívo" p&r& o "ín vitro" ...... 6B
tansrnitiúporqulquerfurnadouqrniquer neios(deúônkoounrecânico,irduindo
fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados serrì
tr. O arúiente lingüístico ...... n
permissfu por escito da Paníbola Editorial Ltda.
m. As leis lin$üísticas ...... ............ ...... 74
ISBN: 978-85-88456-60-0 Nornear a língutã . 7B
@ desta edição: Parábola Editorial, São Paulo, julho de 2OO7 Nornear es .funçõ es .......... BO
AS PoLíTrcAS LrNcüísncns

Princípio de territorialidade 0u de personalidade? 81


O direito à língua u
Conclusão. .....,.o.... ............ 85

capítulo fv: A AÇÃo soBRE A t txcue (o coRpus) 87


I. O problema dalíngua nacionalnaChina ....... 87
tr. Intervenção no léxico e na orto grafiade uma PREFÁCIO
Iín$ua: o exemplo do francês ............ .............. 93
Os " decretos lingüístic0s "......... 93
As leis lingüísticas 93
A ortografi& .......... 95 Faz pouco tempo que o termo 'política lingüísti-
As indústrias da língu&....... 100 ca' e st â cu culando de ma neff aminimamente siste mâtt-
m. A fixação do alfabetobamb atanoMali ................ 101
ca no Brasil, contr ariamente ao que ocorre em vários
M A "revolução lingüís ttca" na Tur q1J1a.................. 108
V A padrontzação de umalínSua: outros países latino -americanos, notadamente na Ar-
o exemplo da Norue$a .... .......................... 112 gentina ou nos países andinos. Na metade da déça-
da de 1980, por exemplo, fui aluno de um hacharela-
Capítulo v: AAÇÃo SoBREASLNGUAS (o s?hrus) 177 clo em lingüística em uma importante universidade
I. A promoção de uma línguaveicular: o caso da brasile Lra, com várias âreas de estudo, e não tive ne-
Tanzàrua... ...... ...... 7I7
nhum contato com o termo ou a disciplina.
tr.A promoção de uma língua minoritârra: o caso da
Indonésia .. ... .. .. ... .. ... .. .. o.. .. ...... ....,. 722
É que 'política lingüística', enquanto disciplina
m. A pazlingüísttcasuíça ...... ............................. 126 nascidarLasegunda metade do século XX, como Calvet
M A defesa do statusinternacional de uma ríngua: mostra nesta inttodnção, está associ ada ao plurilin-
o exemplo do francês ............ ......... 130 güismo e a sua gestão. Está associ ada a mudanças polí-
Na Europe...:..... 132 ticas que levaram a a\tetações no estafuto das diver-
A francofonia 136
siìs comunidades lingüísticas que integr am a cidada-
O francês no rnundo r4t
v A substituição deumltnguacolonial: os inícios rria, como ocoÍreunaesteira do processo de descoloni-
daarúização na Africa do Norte...... ....... r45 ,rrç,ão da Ás La e da Afrtca a pai:trr dos anos 1950, en-
No Marrocos 148 tt'c outros.
Na Tunísiã ........,. 150 No Brasil, onde a ideologia da'1ín$uauntca', des-
Argélía
Na ;............. 152
tlc: te mpos coloniais, tem camuflado a realidade pluri-
CONCLUSÃO ...... .................. 157 lírrgiïe clo país, paÍe cralnaveÍ pouco lugar para as ques-
Irirrs crnpíricas e teórtcas levantadas pelos estudiosos
161
tlirs políticas lingüísticas. O consenso em torno da lín-
INDICEDENOMES.... ...... ...... 165 ptnr tinica 'todos os brasileiros se entendem de norte
-
g AS PoLíTlcAS LlNcÜísrlcns
pnerÁcro 9

a sul do país, poÍqu e falampoÍtuguês [alguns acrescen- conhecimentos técnicos de lingüística, antropologia,
tartam: "e aqui não há dialetos"] tem sido ampla- sociolo 1ia, histórta, direito, economia, politologia, mo-
mente hegemônico, inclusive em muitos quadros uni- btrtzados par a a analise das situações lingüísticas é, como
versitários, comprometidos, eÍn $rande parte, com a diz Lta Yarcla, uma prâtrca políttca, associada à inter-
execução de mais esse item do 'projeto nacional'brasi- venção sobre as situações concretas que demandam de-
leiro. Note-se, poï exemplo, que até a sociolingüística cisões políticas e planifi cação de políticas públicas.
majorttanamente prattcada no país é uma sociolingüís- O livro de Calvet vem, assim, effi um bom momen-
to. E um livro que temoménto da apÍese ntaçãoconceitual
ttca das vaúâveis e varlantes do porfuguês
ciolingüística do monolingüismo, portanto.
- uma so- sistemâttca, necessámano atual momento das discussões
Nas duas ílttmas décadas, entretanto, o panora- políticas envolvendo as Línguas do Brasil e as ações polí
rna das reivindicações dos movimentos sociais, a di- tico-lingtiísticas do Estado. Ap orta, akém disso, análises
versifi cação de suas pautas, o crescimento das ques- de situações político-lingüísticas em várias partes do
tões étnicas, regionais, de fronteira, culturais, torna- mundo, mostrando com isso soluções pÍoduzidas em
ram muito mais visível que o Brasil é um país consti- planejamento de clrpus e em planejamento de status das
tuído poÍ mais de 200 comunidades ltngüísticas dife- línguas, seus limites e possibilidades.
rentes Qüe, a seu modo, têm se equipado para partici- E umacontributção importante parao que temos
par da vid a política do país. Emerge em vários fóruns chamado de 'virada político-lingüística': o movi-
o conceito de 'língiuas brasileiras': línguas faladas por mento pelo qual os lingüistas (mais que a lingüística)
comunidades de ctdadãos brasileiros, histort caÍnente passam a trabalhar junto com os falantes das línguas,
assentadas em terrttório brasileiro, parte constitutiva apoiando tecnicamente suas demandas políticas e cul-
da cu1 ttn abrasile 7ra,independentemente de serem lín- turais. Deixam de atuar no campo da 'colontzação de
guas indígenas ou de imigraÇão,línguas de sinais ou saberes' para atuar no que Boaventuta Santos chama
faladas por grupos quilombolas. Emergem tanbém rle 'comunidade de saberes', e passam do campo uni-
olhares inovadores sobre o próprio português, nasci- versitário ao campo dos conhecimentos pluriversitá-
dos dos novos papéis que o Brasil desempenha em rios, o que prÌoúza a pesquisa-ação sobre uma visão
contexto regional e mundial. tlc pesquisa que tem tratado os falantes das Línguas co-
O crescimento desses movimentos sociais e a tea- rno meÍos informantes descartáveis ) rtma vez que o
ção do Estado a essas reivindicações vão tornando dia Srrrvador capfrxe o 'dado' lingüístico
a dia mais claro o âmbito das Íesponsabilidades das Calvet define a lingüística como o estudo d.as co-
políticas lingüísücas seus métodos e interesses. So- nrrrrridades humanas aftavés da língua. Em outro con-
bretudo, vão tornando mais claro que 'política lingüís- Ir:xto, afirma que são as lín$uas que existem para seÍ-
ttca', para além de uma multidisciplina constituída de vir iros homens e não os homens païa servir às lín-
:!iri#i.':,. llJliiì*,,, r!1i;riil::,:, diffi,

t0 AS POLíTICAS LINGÜíSTICNS

$uas. Sua obra vai se estrufrxat centralmente eÍn tor-


no a essas rnáximas, descrevendo os conflitos huma-
nos e procurando d.esenvolver uma conceiítação para
a compreensão dessas situações que tern sua "questão
teórica primordial levantada pela própria idéia de
CAPíTULO I
política lingüística": em que rnedida o homem pode
intervit naL:rrgua ou nas Iínguas? NAS ORIGENS DA
Gu,vex Miru,nn DE OLrrruRA
POIíIIcA LINGÜíSTICA
IPOL, Florianópolis, julho de 2007

A intervenção humana na língua ou nas situa-


ções lingüísticas não é novidade: sempre houve indiví-
duos tentando legislar, ditar o uso correto ou intervir
na forma da língtra. De igual modo, o poder político
sempre privilegiou essa ou açpela lín1tta, escolhendo
governar o Estado numa língua ou mesmo impor à
maiorLa alíngua de uma minoria. No entanto, a Hpkfi:
(determrnação das grandes decisões re-
%_,!íngüística
ferentes às relações entre as ltnguas e a sociedade) e o
planejamento. lingüístico (sua implem entação) são con-
óeitos recentes que englob aÍn apenas em parte essas
prâttcas antiÉas. Se observarmos, por exemplo, que a
escolha de um alfabeto para umalíngua se origtna da
política lingüística, isso não significa que Cirilo e Me-
tódio, ao crtarem o alfabeto glagolítico (ancestral do
cirflico), ou que Thonmi Sambhota, ao definir o alfa-

.
Traduzimos o francês planffication por "planejamento", termo
muito mais empregado no português brasileiro do que "planific ação" (é
o caso, por exemplo, do Ministério do Planejamento) (". do E.).
12 AS PoLíTrcAS Lr NG ü ísncns NAS oRTGENS DA polírrcn LrNGüísrrcn t3

beto tibetano, tenham escrito um capítulo da historia Califó rÍrLa, evento que Ínarca o surgimento da socio-
da políttca lingüística. Da mesm a Ínanletra, se em ce? lingüístiçaz. Na mesma ohra, encontra-s e tarúém um
tos países, como a Turquia ou a Indonésia, alínSaa do texto de Ferguson sobre as national profile formwlas,
Estado foi forj ada pela interv enção súre umalíngua já que discutiremos no capítulo seguinte e, observando a
existente, para rnodernizâ-la, adapta-Ia às necessida- lista dos particrpantes (nrigtrt, Hau1an,Labog Gump erz,
des do país, não colocaÍemos no mesmo plano os inven- Hymes, Sarnatttt)Fer$uson...), podemos dtzer que fal-
tores de línguas artificiais (ido, esperanto, volapuque tava apenas Fishman para completar o "tiÍne" que
etc.), cujas criações, na Ínatorua das .vezes, nttnca saí- repÍesentarta, nos anos 1970 e 1980, a sociolingüísti-
Íam do papel. A política lingüística é inseparâvel de ca e/ou a sociologia da lin guagem nos Estados tlni-
sua aphcação e" é a esse binômio (potítica lingüística e dos. Desse modo, .o "planejarnento lingüístico" recehe
planejamento lingüístíco) que é dedicado este livro. seu batismo na mesm a época que a sociolingüística, e
Neste primeiro capítulo, acompanharemos o apa- pouco mais tarde será definida por J. Fishman como
recimento desse binômio, que se deu na segunda me- s o ciolingüíst tca ap\tcada3 .

tade do sócu1o XX, e mostrarcmos as relações que e1e Em seguida, Fishm ãn, Ferguson e Das Gupta
estabelece com as questões políticas dessa época. publicam eÍn 1968 uma obra coletlaa dedtcada aos
problemas lingüísticos dos países em via de desenvol-
vimento, e durante o ano universitário de 1968-1969,
I - Nascimento do conceito e seu campo
quatro pesquisadores (|yotirindra Das Gupta, Joshua
de aplicação
Fishmân, BjôrnJernudd eJoan Rubin) rcúnem-se no
O sintagma language planning, traduzido para o East-West Center do Havaí para refletir sobre a natu-
português poÍ planejancento lingüístíco, ap)afeceu em reza do planejamento lingüístico. Eles organizam) en-
1959 num trabalho de Einar Haugenl sobre os proble- tre os dias 7 e 10 de março de 1969 , rtma reunião so-
mas lingüísticos da Noruega. C autor procutaya mos- bre o mesmo tema, para a qual foi convidado um Êru-
trar nesse trabalho a intervenção normativa do Esta- po de pessoas (antropólogos, lingüistas, sociólogos,
do (por meio de regras ortogr âftcas, poÍ exemplo) para economistas...) que ja haviam trabalhado no campo
construir uma identidade nacional depois de séculos
de domin açã,o dinamarquesa. Hau$en retoma esse
2.E. Haugen, "Linguistics andLanguage PlanninÊ", in William
mesmo tema em 1964, d.urante uma reunião organi- lìright (org.). Sociolinguistícs. La Haye: Mouton, 1966.
zada por William Bright, na lJniversidade da 3. J. Fishman, Sociolinguistics. Rowley, Mass.: Newbury House
I'rrblishers, 1970.
4. Joshua A. Fishman, Charles A. Ferguson, Jyotirindra Das
1. E. Haugen,, "Planning in Modern Norway", in Anthropo- Gupta, "Language Problems of Developing Nations", írL Amerícan
logical Linguistícs, I/3, 1959. Artth.ropologist, New Series, vol. 73, no 2 (Apr., 1971), pp. 404-405.
14 AS PoLíTrcAS LtNGüÍsrlcns N A s 15
"

da política ou do planejarnento lingüístico. Esse en- ï'.:.;ï)n.,'' ),:;:' ;': ;,,,,,


s e s,e ditado p o r r

contro deu origem a uÍna ohra, Can Langaage be Rubin, B. Jernudd, J. das Gupta, J. Fishmãfr,
Planned? ("alín1uapode ser planej ada?"), qúe fazuma C. Ferguson, 7977;
análise do estado da questão na épo caí. Adv&nces ín the Creatian andRevision of Writing
Systerns, editado por J. Fishmâfr, 1977;
J. Rubin, J. Das Gupta, B. Jernudd, J. Fishm an e
C. Ferguson: temos aqui o "bando dos cinço" an$ófonos Colonialisrn and Language Polícy in Vietnam,
que perrnaneceriaÍn) durante anos, no centro da refle- de John DeFrancis, 1977 etc.

xão sobre esse novo campo (veremos mais adiante que Por esses títulos, é possível perceber uma espécie
os mesmos temas serão igualmente úardados por pes- de resumo da histónado conceito, e apresença de uma

quisadoÍes fr ancófonos, germanófono s e hispanófono s) . alternância entre uma aborda$em mais gerd, e estud"os
cle caso (a Albâni à, ãIndonésia, aMalasia, o Vietnã...).
É posswel acompanhar os progressos do planejamento
Paralelamenta, â noção de política lingüística apa-
lingüístico sobretudo através das púlicações de uma
rece em inglês (fishm ân, Sociolingwistícs, \970), etn es-
coleção (Contribwtions to the Sociolngry of Language)
dirigida por Joshua Fishman na editora Mouton. De lranhol (nafael Ninyoles, Estructura social y polítíca
linguistíca,Valencia, 19 75), em alemão (F{elmut Glück,
fato, em poucos anos, essas publicações reunir am uma
"Sprachtheorie und Sprach(en)politik", OBST, 18, 1IB1)
impressionante concentração de trabalhos:
(ì em francês. Em todos os casos e em todas as defini-
- Adva,nces in Languãge Planning, editado por ções, as relações entre a política lingüística e o plan eia'
J. Fishmân, 1974; rrre nto lingüístico são relações de subordinação: assim,

- Langaüge and Politics, editado por William l)irra F'ishmâfl, o planejamento é a apltcaçáo de uma
O'Barr e Jean O'Barr, 7976; política lingüística, e as definições posterioÍes, em sua
Selection &mlng Alternates in Language
- virriedade, não ftcarão muito longe dessa visão. Em
Standardization, the Case of Albanian, deJanet l1)94, por exemplo, Pierre-Étienne Laporte apresenta'
Byron, 1976; ril ir política lingüística como um quadro jurídico e a
- Languege Planning for Modernizatíon, the Case 1'1:(lr'ganização lingüística como um conjunto de ações
of Indonesian arcd Malagsian, de S. Takdir "(lu(: fem por újetivo esclarecet e asse$uraÍ determi-
Alisjab aÍta, 1976; rr;rrlr t status artma ou mais línguas"6. De fato, no inter-
Adv&nces in the Study of Societal Multilin- vrrlo, iì mar$em da corrente pred.ominante, apatecem
- gwalism,
editado por J. Fishmãfr, 7977;

íi. l'it:rre-Etienne Laporte, "Les mots clés du discours politique en


5.Joan Rubin, BjornJernudd (orgs.). Can Language be Planned? iun(',nnFlrrtrn:rrt linguistique all Québec et au Canada", in Claude Truchot
Honolulu: The lJniversity Press of Hawai, L971. f rrrp. ), Lr piluriliryp,Lismn européen Paris: Champion, 1994,p.97-98.
,;:litlììq:;,rriiiilir',;ì,,',, ;;ìih*giii"*,

I6 AS POLTTIcAS LtNGÜÍsrlcns NAS oRTGENS DA polírtcn LINGüísrtcn 17

outras denorninações: arnénagenxent linguistíque no rle tdéta, o term o glotopolítícas aparecerâ em francês,
Québec, nzrmelizaçãl na Catalanha; cada úÍna delas criado por Marcellesi e Guespin, com definições im-
com efeitos de sentido particulares e irnpor tãncta llrecisas, sem que essa inovação terminológica cause
desigual. Os catalães por exernplo (prim ettaÍnente rlrna alterução no campo conceifual considerad.o.
Lluis Aracil, depois o conjunto de pesquisadores agru- Nesse conjunto de textos e de análises, é preciso
pados sob a classtficação de "sociolingüística catalã"), observ aÍ uma importante diferen ça de ponto d.e vista
pÍocutaram distin gutr a ruzrrnalização da substitui- cntre os pesquisadores amertcanos e os pesquisadores
ção ou da assírnilaçã0. I{um conflito lingüístico no curopeus. Os primeiros têm tendêncLa a acenfriar sobre-
qual o espanhol era aLíngua dorninante e o catalão, a tudo os aspectos técrncos da intervenção sobre as situa-
Língua domin ada, eles julgar am rnais conveniente çires lingüísticas consti tuída pelo planejamento, questio-
"trotmaltzar" Ltma sifuação "afiormal". Na realtdade, rrando-se muito pouco a respeito do podet qúe ha por
trata-se mais de um prograÍna político do que de um trás dos decisores. O planejamento thes parece muito
conceito: em face do espanhol imposto pelo poder mais importante do que a política e tem-se, às Yezes, a
franquista, os lingüistas cataTães milrtavampara qlle impressão de que eles fantasram a possibilidade de um
rl a nejamento sem política. O sintagm alangweg e planning
sua língua fosse promovida às funções até então ocu- 1

padas pela língua do Estado. Os quebequenses, por pôcle assim cobrir sozinho, durante muitos anos, um

sua vez) preferem aménagernent. linguistiqae a pla- rlomínio que teve origem visivelmente nessas duas ações,
cornplementares decerto, mas que é preciso distinguir
nejamento (planification) para evitar fazer referên-
c()rn cuidado: as decisões do poder (a política) e a passa-
cia à intervenção planejadora do Estado. Neste caso,
gr:ttt à ação (o planejamento). E* contraparttda, os pesr'
não se ftata em absoluto de uma diferença teónca,
rltr isadores euÍopeus (franceses, espanhóis, alemães) pa-
mas, sim, de uma questão de embalagem: apresenta-
rr:ccrn mais preocupados com a quesffio do poder, embo-
,!

se o mesmo produto com outro nome; e Rainer Enri- ',"t'

nr os sociolingüistas cataTães se sifuem num sistema de


:..1."

que Hamel tem tazão ao salientar que "os três tet


sulrstitutção de um poder por um outro. "te

mos - planejamento, nzrma,lização e arnénagernent -


Por outro lado, o período durante o qual apare'
se referem ao mesmo núcleo conceitual, mas se dis-
(rr:nr na literatura cíentífica essas noções e as tentati-
tinguem pelas suas conotações"7. Na Ínesma ordem

,ï. A glotopolítica é essencialmente o problema da minoria


. (Mnrt,trllosi, "De la crise de la linguistique à la linguistique de la crise:
O termo aménagement deriva do verbo arnén&ger, "attanjar,
dispor, arrumar" , e não tem equivalente exato em porfu$uês no senti- ln er n,ir rlinguistiqrte" , in La Pensêe, no 209, 1980) ou e1a atnda "desig-
do usado no Québec para tratar da política lingüística (n. do E.). nê ur.i rlivt:r'sos enfoques que uma sosiedade tem da ação sobre alíngua,
7. Rainer Enrique Hame1, "Politicas y planificación del lengu àja" ,
qr:is r'ln rionÍisiente ou não" (Guespin e Marcellesi, "Pour 1a gloto-
in Iztapalapa. Mexico: no 20, 1993, p. 11. lrrrlilirlrrt:", irr: Langages, flo 83, 1986).
--

ï8 AS poLíTrcAS ísncns políncn


Lr Nc ü NAr, oRrGEN s DA LINGüísrtcn 19

vas de equacionar as situações de plurilingüisrno tlo como resposta aos problemas dos países em "vLa
(diglossia, fórrnulas tipológicas. . .), que discutiÍeÍnos
tlc tlesenvolvimento" ou das minorias lingüísticas.
no capítulo seguinte, têrn aver coln as questões da épo- Mais tarde, os problemas lingüísticos do Qu éhec,
ca. os primeiros textos de Haugen (sobre o pLaneja- bctn como aqueles suscitados nos Estados Unidos pela
mento lingüístico na No ruega) e de Ferguson (sob re a irrrigração de hispanofalantes e, posteriormente, os que
diglossia) datam do mesmo ano, 1959, e durante as rrpÍrrecem na Europa com a construção da Comunida-
décadas de 1960 e 7gr0 as publicações nesses dois tlc Econôrnica Européia, mostrarão que política e pLa-
campos se multiplicam. Ora, trata-se do período que vem trc.iamento lingüísticos não estão vinculados soÍnente ao
imedi atamente após a desõol onrzaçao de inúmeÍos tlcsenvolvirnento ou às situações pós-coloniais. O texto
/1t.
países afrtcanos e asiáticos, e o título de uÍna das pri- fundador de Haugen sobre a Noruegabastariaparacom-
meirás obras publicadas nesse domínio, Languege l)rovar ç[ue as relações entre lín$ua(s) e vida social são
Problems of Developíng Natíons (New york, 196g), é rlo mesmo tempo problemas de identidades, de cultura,
característico do campo conceifual no qual nasce essa tle econornia, de desenvolvimento, problemas dos quais
disciplina. Paralelamente, observa-se o aparccimento ttenhum país escapa. E perceberemos que hâ também
de reflexões sobre as relações entre língua e naciona- uma política lingüística da fuancofonia, da anglofonia
lismo (]oshua Fishm ân, Languege and, ÌrTaüonalísm. L:tc. Desse ponto de vist ã, â emergôncia de novas nações
Rowley, Mass.: Newbury House publishers, rgZz), terâ simplesmente servido como um revelador.
sobre a situa ção lingüística das antrgas colônias (Louis- Reiteremos: tratamos aqui da emergência de um con-
Jean calvet , Linguistique et colonialisme petit traité ceito, o de pútica/planejamento lingtiístico, ç1ue implica
de glotophagie. Paris: Payot,
-
rgí4), sobre a situa ao mesmo tempo uma abordagem cientÍfica das situações
ção da
língua catalã, na Espanha (Aracil, Ninyoles). Em can sociolingüísticas, a elúoração de um tipo de intervenção
Language be PlannedT (tgZr), os estudos de caso re- sobre essas sifuações e os meios paÍa se fazer essa inter-
metem à lrlanda, Israel, Filipinas, Afríca orien tal, venção. Podemos encontrar prefigurações de carâtet ín-
Turquia, Indonésia, Paquistão: em todos esses traba- eontestavelmente cientÍfico entre os lingtiistas do Círculo
thos, temos a impressão de que a ênfase é dada aos cle Praga, por exemplo, que intervierarnno campo da pa-
países novos , recém-independentes e em vias de de- clronização do tchecoe, ou em Antoine Meillet, que expri-
senvolvimento, como se a política lingüístic a não dis- rniu seu ponto de vista súre a Europa lingüístical0. Mas
sesse respeito aos países europeus. E, no início dos
anos 1990, uma coleção de obras public ada na Fran- 9. Ver D. de Robillard, L'aménagement línguistique: problématí-
ça, sob a direção de Robert Chaudenson, alu drcâpelo qu,$ et perspectives. Provença: IJniversidade de Provença, 1989, pp.
seu título ("Langlles etdéveloppement") à obr ade 196g 5:Ì-71, tese.
10. Louis-Jean Calvet, A. Meillet, "La politique linguistique et
referida açtma: a polítrça lingüística parece ter nasci- I'l'iurope: lesmains sales", inPlurilinguismru. Paris: CERPL,flo 5, 1993.
polírtcn LINGÜísrtcn 2l
20 AS POL|TICAS LINGÜíSTICNS NAS oRIGENS DA

(os bretões
trata-se' nesses casos, apenas de prefrgwações, que prefe- po rninor rtârto do interior de u.m Estado
quíchuas no
rimos não úordar nesta breve apresentação histórica. na Fra nÇã,poÍ exemplo, ou os indígenas
Estado
nquador) pode fazer o mesmo. Mas apenls 3
tem o podãÍ e os meios de passar ao estági"
II - O primeiro modelo de Haugen
1: !**;
E
jamenio, de pôr em prâttca suas escolhas políticas'
de políticas
Quando o term o planníng, "planejarneÍtto" , sur- ï"; isso eúc, sem excluir a possibilidade (é por exem-
ge na literatura lingüística, ele é tomado em seu senti- lingüísticas que transcendam as fronteiras
reu'
do econômico e estatal: determinação de objetivos (u* plo o caso da francofonia, mas trata-se de uÍna
lingüística pertinente
plano) e a aplica ção dos meios necessários para atin- nião de Estados), nem a política
(as lín$uas re$io-
gir esses objetivos. Desse modo, pode-se falar do pla- às entidades menoÍes que o Estad.o
1íLa Ínaror
nej arnento da rcatalidad"e, do planej aynento da ec0n0- nais, poÍ exemplo), devemos admitir Qüe,
são iniciativa
rnia etc. Nos anos 7920 e 1930, só a União Soviética parte ão, casos, as políticas lingüísticas
no seio d,o
dispunha de um pl,ano, e é essencialmente na segunda clo Estado ou de uma entidade que disponha
(com o a catalurúa,
metade do século XX que essa prâtica se generalur,olJ. Estado d.e certa autonomia política
Mas essa generalização se constituiu sobre princípios a Gali za o1J o País Basco na Espanha). .
diferentes. De fato, é preciso distinguir o planejarnen- o modo como Hau$en, em sua comuflcaçao fia
a noção de
to ind,icativo ou incitativo, baseado no acordo entre as reunião de Los An$eles em 7964, definiÍa
campo
diferentes forças sociais, do planejamento imperativo, planejamentg mostra que e1e se situava nesse
que implica a socialização dos meios de produção. O icleológico:
primeiro é aquele praticado nos países ocidentais, o da necessida-
o planejamento é umaatividade humana decorrente
se$undo car actertzarta os países do Leste. Nesses dois pa13um problema' E1e pode ser
de de se encontr ar rrnasolução
casos, entretanto, esse planejamento tem pontos em e ad, ho c, maspo de também set ot$anaa'
completamente informal
comum: é nacional, repousa sobre a análise de pers- do e deliberado.
pode ser executado poÍ indiúduos particulaÍes ou
pectivas a médio e long o prazo, passa pela elabor ação ser oficiar. (. . .) se o planejamento forbem
feito, ele compr eenderá'
e depois pela execu ção de um plano, poÍ fim é susc eti- de dados, a escolha de planos de
etapas tais como apásq'isa extensa
e sua aplicação11'
vel de avaltação. ações alternativos, a tãm adadedecisão

O aspecto "nacioïtal" ou "estata|" da políttcalin- pÍo-


De fato, Hau$en partiu essencialmente do
güística, que aparcce aqui, é um traço importante de e da padrontzaçáo. Ele ci-
lrl*rra da noÍma lingüística
-o
sua definição. Efetivamente, qualq-uer grupo plde ela- (qut
trrvrr'r)or exemplo, {ramâtico indiano Panini
borar uma política lingüística: uma diáspora (or suÍ-
dos, os ciganos, os falantes de iídiche...) pode se reu-
nir em congresso para decidir uma polític â, e um gru-
zz As PoLÍTtcAS LtNcüísrtcns NA"; ORIGENS DA POIíTICN LINGÜíSTICN 23

viveu no século IV antes de Cristo), ou ainda os llrruge n constata inicialmente que a 9pa.rição das pri-
gram'âticos gregos e latinos, defïnindo o planejamento llrciras gramâtrcas e dos primeiros dicionários das lín-
lingüístico como "a avaliação da mu dança lingüísti- grlus modernas coincide nos séculos XV e XW com a
ca". Consciente das contradições entre essa aborda- $nrcrgênci a de países ricos e poderosos. É, pot exem-
$em e as posições decididarnente descritivas e não prlo, o caso da gramattca de Nebrij a elaborada para o
normativas da lingüística, eLe afirmava que o planeja- espirnhol (t+SZ), da fundação da Academia Francesa
mento lingüístico devia ser uÍna tentativa de influen- lx)r Richelieu (1635) etc. Em seguidã, à partir do sécu-
crat as escolhas em matéria de língua, situando-se as- lrr XIX, os progressos do ensino e a difusão da literafr*
sim, implicitamente, ao lado daquilo que defini acima rü tornam necessâna uma padronização das línguas e
como planejamento indicativo. Além disso, suas refe- observa-se o aparecimento de indivíduos empenhados
rências passavarnpela teoria da decisã0, essencialmen- em normaírzaÍ sua lín$ua: Fréderic Mistral em telação
te utilizada no campo da "adrninistração" oü, se pre- ao provençal, Aasen em rdação ao dinamarquês, Korais
ferirmos, da gestão econômica. Nesse domínio, utili- ern rel ação ao gre$o etc. Esses homens, esses primeiros
za-se geralmente o modelo de Herbert Simon, que dis- "planejadores lingüísticos", considerados poÍ Hau$en
tingue quatro fases: Çomo meio lingüistas e meio patriotas, eraÍnindivíduos
diagnóstico de um problema; isolados, oa ohradeles tem avef com iniciativa indivi-
con cepção das soluções possíveis; dual. Ao conlrâno, â intervenção sobre a língua ínca
- escolha de uma das soluções; clccidida por Atattirk se vincula à ditadura, e podemos
- avaliação da solução tomada. cncontrar entre esses dois extremos toda uma varied-a-
E o plano escolhido por Haugenpata apresentar dc de organizaçóes ç1ue interviefam na lín$ua: igrejas,
o planejamento lingüístico inspirava-se diretamente r*ociedades literárias ou científicas etc.
nesse modelo, uma vez que ele analisava os diferentes As alternativ as. H;art$en destaca primeiramen-
estágios de um planejamento lingüístico como um "pÍo- te que, mesmo havendo $rupos menores çlue a "rraçâo"
cedimento de decisão": os problemas, os decisores, as (como os galeses) ou maiores ç1ue a "Íuação" (como os
alternativas, a ava\iação e a aplicação. .iucleus, eüe têm problemas lingüísticos), é no seio da
Para ele, tod.os os przblema.s se reduzem ao caso "rração" qlte Se encontram oS meios ofïciais pafa se de-
-
gerul da não-comunic ação: pode haver um fracasso nenvolveÍ um planejamento lingüístico. Em seguid.a,
relativo, quando os interlocutores falam formas dife- fïrrendo referència às funções da lín$ua propostas por
rentes da mesma língua, oü fracasso total, quando os .f rrkúsofl, Haugen
explica que a lín$ua nâo seffe ape-
interlocutores não falam a mesma língua. nas pata transmitir informação, ela também dtz coisas
sobre o falante, sobre o grupo. A função de comunica-
- Os decisores. Quem dispõe de autoridade sufi-
ciente para dirigir e controlar a rnud ança lingüística? ção leva à uníformídade do código , iâ a função da ex-
2 4 As PoL[TrcAS LtNcüÍsrrcns NAs oRTGENS DA polírtcn LtNGüísrlcn 25

pressão, ao contTâlrro, leva à sua d,íversif;caçã.o.Isso se dá c{l aos conceitos adotados. Mais precisamente, Hau$en
porque o objetivo do plan ejamento não é necessariamen- (luase não questiona o problemado poder, das relaçóes de
te gerar um código uniforrne: ele pode visar à diversida- fbrça de que dão testemunho as relações lingüísticas. Isso
de ou à uniformidade, à rnudança oí à estúilidade.
lxde seÍ em pafie explicado pelo fato de ele não ter levado
A avaliação das diferentes soluções passa pela
-
identificação das formas lingüísticas envolvidas paraque
ern conta o plurilingüismo, os problemas de relações entre
as línguas, mas também pelo fato de estar vinculado a
sejam fixados os limites nos quais é possível intervir. uma concep ção liberal ameflcana do planejamento. Ele
Convém saber se existe urfla ou mais norÍnas, se existe também não levantou o prúlema do controle democrâtt-
utna ortografra, ou mais de uÍl1a. Enfim, é preciso dotar- co sobÍe as decisões dos planejadores, considerand.o que o
se de cnténos objetivos qúe, em relação com as finalida- listado deve escolher e apltcar a solução que the parcça
des visadas, permitirão a escolha da solução. De manei- melhor para resolveÍ um problema. IJá' de fato ) em fudo
ru geral,, segundo Hau$en, uma forma lingüísttca é efrcaz isso, a exportação e a aphcação mecanicista de mod.elos
se for fâcil de aprender e fâcil de utilir,at. rrtilizados na economia liberal e na administração de em-
A aplicação,Haugen destaca que os decisores são,
-
no final das contas, os usuários da ltngua, e que são por-
presas, sem nenhuma anáhse socio\oEga das relaçóes de
força que se encontram em jogo.=Nessa época) o planejn'
tanto eles que precisam ser convencidos a aceitar a solu- mento lingüístico se limitava essencialmente à proposição
ção escolhid.a. I)esse ponto de vista, o indivíduo quase ele soluçõesconcefnentes à padrontzação das hnguas, sem
não tem relevância, a não ser aquela que the é dadapor que os vínculos entre línguas e sociedades fossem verda-
sua autoridade pessoal ou cientifica. Em contrap afitda, eleiramente levados em conta.
o governo controla o sistema escolar, as mídias; e para
ele a melhor estratégtaconsiste em introduztÍ areforma
lingüísíca escolhida por meio da escola. IU - A abo rdagem "instrumentalista":
É possívelçpe o leitor deste texto fique surpÍeso com P. S. Ray e V. Tauli
o fato de que Haugen, àquela época,ttão estivesse criando I{ão faltam definições que apÍesentam a Lín$ua
nada de novo. Conhecendo bem a história lingüísttca da c()mo um "instrumento de comunicação", sendo fâctl
Noruega, e\e adotou alguns conceitos da economia fulane- ohscrvaf o carâter restritivo de tais definições, que ig-
jamento), da administração (teoria da decisão) e os
llorflm aquilo que é essencial nalín11Ja, isto é, seus
cou nos exemplos de intervenção do Estado sobÍe as"ú-
lín- víttettlos com a sociedade. As abordagens estruturalis-
guas (Noruegã, Gtécta, Turquia etc). Assim, âo propor
tnn rla língua foram crtadas com base nessa restrição,
um novo sintagm à, o planej amento lingüktico,Haugen não r iïri çontra ela que se desenvolveu umanovamaneira
chegou acrra! um conceito novo, mas delimitou sobretudo tle nlro rdar os fatos das línguas, que foi batrzada de
um domínio de atividade, sem desenvolver qualquer crttt- "Ê{xrirrlingüística", mas que constitui de fato altn$uís-

*'qqffiF
il
26 AS polírrcns LrNGüísrrcns 27
L tica no sentido amplo, indo a fundo nas implicações :: ;;* ;:::; ilïï1e60, dian,e da ausên
da definição da ltnÊua como "fato social'1 r'irr rlc formalização da sociolingüística nascente.
Encontramos esse enfoque instrumentalista em Valter Tauli se situ a namesrna linha ao propor, em
alguns trabalhos que maÍcam a emergênci a da política lll(i,tt, uma "introdução auma teoria do planejamento
lingüística. Assim, Punya S. Ray, numa obra public ada lirrgtiístico"l3. Certamente ele faz, âQffi e ú, algumas re-
em 196312, insistia no carâter instrurnental da lín gúa, li.r'ôncias à nafufezasocial daltngua, como que por obri-
considerando que seu funcionarnento podia ser aperfet- tlrrÇiìr), mas paruele a língua é essencialmente um instru-
çoado pela intervenção na escnta, na gramâttca ou no rrrrrlrto, ilo sentido mais banaldo termo, um instrumento
léxico. Sua aborda$em erarelativamente simplista: por llode ter seu funcionamento aperfeiçoado, sendo esta
(
ll to
um lado, pode-s e avaltat a eftcâcta de uma híngua, sua n lrrrefa do planejamento lingüístico. Em 1962, ele ja
racionalidade, sua normalização e poÍ outro, apefieiço- nl)r'osentava essa posição com veemência:
at a língua a partir
desses diferentes pontos de vista
Uma yez qlJe altnguaéuminstrurnentl,isso significa que uma
como se troca uma peça defeituosa de um a mâquina.
língua pode ser avalíada, alterada, corrigi da,regulada,melhora-
Essa manetÍa de consid ef ar a língua como um
cla e novas línguas podem ser criadas à vontadela.
instrumento que pode ter o funcionamento aperfeiçoa-
do é passível de crítica, mas acontece que o problema Mas como avaltar uma língua? Tauli imagina essa
da avaliação (neste caso das línguas, mas também das irvlliação baseado no modelo do decatlo, compettção
situações lingüísticas) estará no centro das reflexões t.slrrrrtiv a em que os atletas concoÍrentes recebem certo
prévias a uma intervenção planejadora. Como medir Ir rirnero de pontos segundo seu desempenho em dez

o grau de eficâcia de uma ltngua? Essa questão, que Irrotlalidades diferentes. Mas essa metáfotanão the for-
está no centro da int ewenção de Ray, está evidente- nrìco os meios para avaliar globalmente umalíngua, e
mente mal formul ada e) portanto, ftca sem resposta. t'lc rr rcduz a uma abordaÉem pontilhista, selecionando
Uma língua não é, em si mesma, racional ou eftcaz; rrlgrrns domínios, demonstrando um dogmatismo sur-
ela responde ou nã o a necessidades sociais , ela segue l)r'condente. Assim, para ele, a ordem "t7orma|" das
ou não a progressão da demanda social. O problema é lrrrhvras na frase é a ordem sujeito-verbo, a distinção
saber em que medid a a organtzação lingüística de uma t:rrtre masculino, feminino ou neutro é inútil e absur-
socied ade (ur línguas ern contato, seus domínios de
uso etc.) responde às necessidades de comun tcação 13. Valter Tauli, Introdactíon to a TLteory of Languege Planning.
dessa socied ade, mas essa abordagem era dificilmente llp;rslla: Almqvist & Wiksells 1968. O livro vinha sendo redigido
rlrsrIt: 1962,
14. Yalter Tauli , "Practtcal Linguistics: the Theory of Langua$e
12. Punya s. Ruy, Language standartization: studies in 'lrrrurirrg", in Horace Ed. Lunt (org.) ,Proceedings af theÌXinth Congress
f

Prescriptive Linguistics. Haya: Mouton, 1963. ,f l,irtqu,ístics - Cam,bríge, 1962. Haia: Mouton, t964, p. 605.
28 AS polírrcns LrNGüísrrcns nâ=, nfr lí,t N:i DA polírrcn LINGüísrrcn 29

da, a escrita deve seÍ aLfabéttca e fundamentadarll;lma nrr-nln") tr "lín$uas Ausb&u," (a*
alemão: "desenvolvi-
análise fonoló gtca etc., e o papel do planejador será, tirrulrl"): rlc um lado, as lín$uas percehidas como isola-
modifi caf o instrumento línguapara aproximá-lo dessa rlat,, iÍrtlt'llcnclentes, e, do outro, aquelas çlue são peïce-
normalidade. "O planejamento lingüístico", aftrma l rir l;rs ('onlo lín$uas próximas, de umamesm a farrtfltal6 .

Tauli, "é uma atividade cujo objetivo é o aperfeiçoa- 'l'al rlili:r'(ìn ciaçao não deixou de reperc:utir nas ques-
mento e a crtação de lín$uas"ls. tíir.r,irlt: planejamento lingüístico. Assim, o $rego por
Se as posições de Ray e Tauli, às vezes no limite do Ë=ïr'lrr1rlo,, Iín$ua ",Lbstand" , como o basco ou o htSn$a'
absurdo, aproximam-se de um irnpasse, elas também Ir r, I tit( r (Ìt'rl considerado como tnte$rantede um continÍLurn
demonstram os laços entre o grau de conceitualtzação "Auúau" como
rlr' vru'irrçries, ão contrârio das lín$uas
ao qual chegou a lingüística e o modo de teonzação do u rtirliinlo, o espanhol, o portu$uês ou o francês, ou
planejamento lingüístico. Esse instrumentalismo se tor- dlrrrlrr r:onlo o alemão, o dinamarquês, o inglês, o ho-
nou possível graças a vma lingüística que analisav a a lrrrrrltls; (ì essa diferença de status tem incidências cla-
língua de um ponto de vistatnterno, fazendo abstração tnrr n(lli problemas lingüísticos da Europa. De fato,
de seu aspecto social, e suas posições, às vezes cari cafri-
lrirrlr' srr irrraginat a divisão dos países da Comunidade
rais, assinal avaÍn aa mesmo tempo os defeitos e as li- l',r',nurrrica Européia em dois $rupos: um de lín$uas
mitações dessa lingriística. p"r'r rrrrirritrirs e outro de Línguas românicas; mas o $re$o e
O leitor terá percehido Qüe, até aqui, os teóricos rr lrirsrrr Íìcam fora dessa classificação... Dois anos de-
do planejamento lingüístico patectam se interessar
lxrr:i, ltkrss introduztlJ uma distinção entre o planeja-
apenas pela Língua, poÍ sua padrontzação, poÍ sua *tïntrt rlrt (:orf)us e o pl,anejatmento do statttsl7, que tena
"melhoÍia", e isso ocorÍeu também poÍ conta da lin- IÍ'frt'f t'rrssões importantes. O planejamento do clrpus
güística estrutural, de sua abordaÊem interna. Mas o
âi; r rl;rt'iorrava às intervenções na folma dalíngua (cri-
planejamento lingüístico logo vai se interessar poÍ
rrq'rtr r r lt' u ma escrita, neol o$ta, padro ntzação. . .), en-
outras questões, passar dos problemas de forma aos l,1llan
rluÊr r rlu ,, ejamento do status se relacio nava às in-
problemas de estatuto, evolução paralela à da lingüís-
lç,r vrnçocs nas funções da lín81Ja, seu statas social e
ttca, que lentamente ia se tornan do sacioltngüística.
ãrrrrri rt'l;rções com as outras lín$uas. Assim, é possível
rfrrr' :rr rlucira mudat o vocabulário de umalín$ua, citat
IV - O segundo mod"elo de HauÉen lln\',ts p;rllrvras, ltttar contra os empréstimos: tudo isso

Em 7967, Hetnz Kloss propôs a distinção entre


"Iín$ttas Abstand" (em alemão: "distâÍtcia", "afasta- ll; I ltrinz Kloss, "Abstand Languages and Ausbau Lan{ua$es",
i*i ltrtltr tt1nilr4r1ical LangttAges, no 9, 1967.
Iï. I lt:inz Kloss, ResearcLt Possibílitíes on Group Bilingualisnc: A
15. Op. cit, p. 608. li , g4t1í (.)r rtilróc: CIRB, 1969.
30 AS PoLíTrcAS LrNGüísrcAS ffr- ilttt(,t NS DA políilcR LINGÜíSrtcn

pertence à esfera do corpus; mas é possível também que


b) sintaxe terminologia
se queira mo dtficar o status de um alíngua, pfornovê-la b) desenvolvimento
c) léxico
à função de ltngua oficial, introduzt-la na escola etc., e estilístico
isso se relaciona ao status. Essa distinção ampliou con-
sideravelmente o campo da políttcalingúística e se dis- l'rrt'rt ilustrar esse esquema, vejamos o exemplo
tanciou notavelmente da úorda$em instrumentalista rlntir't't:lo cla Indonésia. O primeiro estágio é constituí-
que acúamos de evocar. rlrr 1rr.tl r:scolha de uma norma: identifica-se o pÍúle-
Observamos desde então, na literafrxa relativa ao Ila (rstrigio Ia), a qLtestão aqui era saber qual lín$ua
planejamento lingüístico, umatendêncra a apresentar as rerin {t língua do Estado e) neste caso, o rnalaio foi
diversas operações em termos dicotômicos; começando Fãr'irllritkr para substituir aLíngua colonial, o holandês
por Haugen que, em 1983, retomou essa distinção e a
leEtrïp{ir t lh). Essa decisão foi tomada em 7928, du-
integrou a seu mode1o18. Sua apresentação pode ser re- t'ruitr unla reunião do Partido Nacional Indonésio, ou
sumida no esquema seguinte, Qüo cruzaas noções de statws
reirr, lrr:lrr antes de a Indonésia proclamar sua inde-
e clrpus com as noções de fornca e fwnção dalíngua: lleutlrlrr:ia. Temos, neste momento preciso da histó-
Função
!lrr, unt c:xemplo de políttca lin$üística que não pôde
Forma
(planejamento (cultur a da língua) rel lrrrstlr cm prâttca, pois, como af:lrmamos, o plane-
lingüístico) l*tttr t tlo ltrecisa do Estado.
N t rttt se$undo momento, eSSa Hngua seria padro-
Sociedade 1.Escolha 3. Aplicação (processo tiir,arlrr nos níveis gráÊtco' sintático e lexical (estâgros 2
(planeja- (processo de educacional)
mento do a) correção fi,|t. ,'). () malato era, de fato, uma 7ín$uaveiculat de
decisão)
statws) b) avaltação frrr nrns Íltrtuantes e convinha ftxar-lhe uma norÍna.
a) identificação
I lrrur vezresolvidos os problemas formais, passou-se
do problema
b) escolh a de uma Êtnn prnlrkrrnas funcionais: difusão da forma estabelecida,

norma r r rr I rr.'rto' rtvali ação (sa,b).Mas é claro que isso só poderia

*=r Ír'ilu tlcpois da independência, eÍn 7946.


Língwa 2. Codificação 4. Modernízação
(planeja- (padronizaçao) (desenvolvimento l,'irr;rlrnente, eSSa implementação exigia que altn-
mento do a) trans crição funcional) $rrn lr r:isrr "tnoderntzada", out seja, que fossem criados o
rp
coruws) 8râfica aì mod ernizacão
ça da ïnr'alruhil'io e a estilística necessários às novas funções
rfu*' r'lrt iriir preencher. Desse Ínodo, inspirando-se pre'
18. Einar Haugen, "The Implementation of Corpus Flanning: fe*'Itr'i;tItttcnte em palavras malaias, ou em palavras
Theory andPr acúce",inJuan Cobamúias Joshua Fishman (orgs.), Pr ogr ess
;
rl* nrrtnrs lírrguas locais ou de outras línguas asiáticas,
ín Languege Planning. International PersTcectives. Haia: Mouton, 1983. n lrrrrrr isi Uahasa Indonesia (Comitê da Lín$ua
32 AS PoLÍTrcAS LINGüísrtcns N^:; oRTGENS DA polírrcn LrNcüísrlcn 33

Indonésia) elaborou o vocabul arLo funcional dalíngua, r,rrrrrlo uma metâfara médtca, eles a$tan como um ci-
rehattzada como bahasa indonesía (língua indonésia). rirr'gião que abte um coÍpo, constata o mal e opera. A
Vê-se Qü0, nesse esquema, o percuÍso do planeja- r u'igi rralidade da contributção dos sociolingüistas cata-

mento lingüístico esboçado por Haugen (do estágio 1, es- l{rrs, occitanos e crioulófonos se deve ao fato de Qüe,
colha d.e uma norÍna) ao estágio 4, modermzação da lín- nrrsscs casos, o cirur$tão era também o pactente, e de
$ua) se apresenta, aos mesmo tempo, como técntco e r t rrr tcoria e ptáttca est avaÍn estreitamente Lt$adas.
f

burocr áttco: há um decisor (geralmente o Estado) que A situação da Catalurtha, sob o franquismo, po-
escolhe uma língua parapreencher determinada funçáo rlrt'irr ter servido de exemplo a FergusoÍI, quando ele
(a função oficial, poÍ exemplo), ç1ue confia a especialis- alu'(:scntou seu conceito de diglossia: o espanhol era
tas a tarefade codificar essa língttae que depois operacio- nli ir variedade alta, alínSrta do Estado, da escola, da
naltzasua escolh a (aTtnguapassa a ser uLútzada em dife- frrr,;liçir etc., enquanto o cataTãa,vatiedade batxa, esta-
rentes níveis do aparelho do Estado: ensino, meios de 1'Íl r'(:sorvado à comuntcação famtltat, ínttma. Mas
comuni cação etc.) , fazendo eventuais coffeções na esco- l'ì'r plnson tinha uma visão estática da diglossia, que
tha etc. Mas não ocoÍïe em nenhuma parte desse esque- tirlr irl)r.ì recta como LLma repffittção funcional harmo-
rna a menor crítica em relação aos pÍocessos de decisão, Irirrsrr tlos usos, e é, precisamente essa visão que será
nenhuma sugestão de uma possível consulta democr âL:'- rfrrrslirrnada pelos lingüistas "nativos", oü seja, aque
ca junto às populações envolvidas ou ainda de um con- lr=a r rri r r rrclos de situações diglóssicas, parttcularmente
trole democrático dos estágios 1 (.rcolha) e 2 l{r rl rr r'f l,n font, ro lado dos occitanosle ; Lambert-Félix
(codificação): se a 1ínguapertence àqueles que afalam, o l'r rrrlrnl,, no lado dos crioulófonosz} e Lluis Aracil, no
problema da língua apffiece aqlJL como uma questão de lrrrlrr rlos çatalães21. Eles aftrmavam que a diglossia
Estado, e isso geraem algumas situações, como na Fran- nrirr rtit utÌla coexistència harmoniosa etttre duas va-
ça, conflitos entre esse Estado, os falartes da hínguanacio- r lr=r l;rr lrs lingüísticas, mas uma situação conflituosa
nal e as minorias lingüísticas do território. enlrr u nrrr língua domin artte e umalín$ua dominada.
I ltrl, rl,' ircorclo com Lluis Aracil, esse conflito só po-
*l;.r l;r lt'\,rr iì duas situações: ou aLín$ua dominada
V - A contribuiqão da sociolingüística"nativa"
rfra,rlrÍu('('(: ()tn favor da lín$ua dominante (o que ele
Pelo que vimos até agora, os teóricos e, às yezes,
os técnicos do planejamento lingüístico não estavam
pessoalmente implicados nas situações nas quais in-
tervinh aÍn seu status era o do especialis ta que obser-
va uma situação, a avalta, faz propostas de mudança ,'\ nrt:il, Conflicte Língüistíc i norn+alitzacío lingüistic& ü
ou de reorganrzação e, eventualmente, as apltca. Utili- lll(iS (vcrsão francesa, mimeo) e 79BZ (versão catalã).
nÂ', or{tGENS DA polírtcR LINGÜísrtcn 35
34 AS PoLíTrcAS LtNcüísrrcas

chama de substituição), ou ela recllpera suas funções e rr'litrrnte leve ao mesmo resultado ao afriat sobre a de-
seus direitos (o que ele ch aÍna de normalização). rrrir rrtla social parajustifi car uma pÍoposta
lingüística.
Essa abord agem deve seÍ situada numa análise lìrr. cxemplo, pode-se considerar qlle a difícil situaçáo
de tipo eletromecânico das situações lingüísticas, Qü€ rlrrs línguas re$ionais como obretão, o occitano, obasco
consid eta o binômio Línguas/sociedade como um rtt:., seja o resultado de uma ausência de demanda so-
homeostato, ou seja, como um sistema que funciona no r.iirl: essas línguas existem, mas não têm utilidade so-
modo da auto-regulação. Aracil propurüa a distinção r,i;rl c estão, poÍ conta d.isso, condenadas a desapafecet.
(e não mais a
entre as "funções sociais da Lín{ua" e as "funções 1in- Mits é possí*l ç1ue a interv ençãohumana
güísticas da soctedade", podendo as relações entre es- rrrrto-rãgrdação homeostática) aja sobre a demanda so-
ses dois grupos desernbocar na substifuição ou na nor- t,iirl parajustificar a oferta lingüística: se dois grupos
maltzação.No primeiro caso, quando as funções lin- rt,ivindLcam, digamos que por razóes identitârtas, o di-
güísticas da sociedade não encontram resposta adequa- r,t:it' a su.as htnguas, essas lín$uas têm então, ípso facto,
da nas funções sociais da 1ín8úa, esse déficit num dos u nr papel e um lugar na sociedade'

conjuntos cri a, por "feedback positiv o" , ltÍn défictt das Esse deslocamento pro$ressivo do teórico Íumo
funções recíprocas no outro conjunto, e essa amplia ção rro rnilitante era seguramente facilitado pela situação
resulta , pela multipltcação do défictt inicial , nâ substi- rlir catalunha Qüe, após o retorno da democfacra fla
tuiçã0. No segundo caso, âo contrârto, o déficit provo- l,)s1ranha, recup efava sua autonomia e dispunha de
políticas ou legislativas.
cã, por "feedbacLt ne$atiyo", urna re$ulação) rtma 1,,,ssibilidades d.e interv ençáo
autocorreção ou um esforço compensatório entre as Assim, quando uma lei de normalrzaçáo lingüística
funções lingüísticas da sociedade e as funções sociais lìri promul gada na catalunha (Ll,ei de Norrnalítzacio
dalíngtâ, o que leva à norrnalizaçã0. Ir[esses aspectos, Lingüistíca a CatalunUa, 23 de abril de 1983) , a ptó-
se modificou: e1a não é
a sociolingüística catalã forneceu à política lingüística 1rr.ia noção de normalrzação
vinda da Am,értca do l.{orte um quadro teórico que the ,,,ri, o pióduto da auto-re$tt1ação, mas o produto da

faltava, fazendo a Ltgação entre as situações lingüísti- vontadt httttt arla, da intervenção do podet publico'
c3s (a diglossia, poÍ exemplo) e as situações sociais. Indiquei acim a que os primeiros teóricos - notte'
Esse modelo eletrornecânico é originalmente des- rrrnericunor - dapolítica e do planej amertto lin$üísticos
critivo, explicativo. Mas a noção de nlrncã,lização lin- l)Lìcavam pela fartade visão
teórtca; eles tendiam arLe-
güístíca vai adquirir, paulatinamente, na Catalunha gligen ctar o aspecto social da intervenção planeiadora
um sentido mais militante. Com efeito, o feedbac"le ne- sr rSre as línguas. Di ante d.eles, os lingüistas
europeus,
gativo que reorganrza as funções lingüísticas da socie- t:Írr parttcuúr os lingüistas falantes de línguas domi-
cade é, no plano teórtco, o produto de rtma auto- r,,rdãs, insisti ram rLa existê rLcua de conflitos lingüís-
regulaçã"o.Mas pode-se tmagtnar também que a ação lic's, contribuindo notavelmente para enriquecer a
B o AS PoLíTrcAS LtNcüísrrcns

teoria. Mas su.a situação os levou a mistutat os assun-


tos e a pass aglentamente, do teórico ao militante. Esse
deslocamento tem, ao menos, o m,érito de nos lembrar
que na polítícalingüísticaha tanúém política e que as
intervenções nalíngua ou nas línguas têm um carâter
eminenternente social e político. Mas isso nos lembra
cAPíruLo n
igualmente que se as ciências raramente estão ao.abri- AS TIPOLOGIAS
go de contaminações ideológicas, â política e o plane-
jamento lingüístico não escapam à regra.
DAS SITUAçõES PLURILíNGÜES

' No capítulo anterior, acompanhamos o nascimen-


drs noções de planejamento lin$üístico e de política
ígtica. Mas o procedimento presente naqueles di-
iltes textos, tomando como ponto de pattida o dia-
co de um déficit de comunicação, de um "pto-
t', pata chegar à concep ção das soluções possí-
C à escolh a de uma delas e, poÍ fïm, à sua aplica-
lfnplic avaque se dispusesse, PoÍ um lado, d.e meios
dfïcos de avali ação das situações, e por outro, de
de intervenção sobre essas situações. Como as-
utos, podemos entender por que essas primei-
lbOrda$ens se preocup avam apenas com a tnter-
na língua: rLa época, a lin$üística só possuía
para descrever a Língua em si mesma, send.o
de apreerLder seu objeto de estudo em suas
som a sociedade e sua história. De fato, pata-
nte às primeiras preocupações de política lin-
, desenvolveu-se o que atualmente se chama
f'_f_gtiÍstica, que dara à política lin$tiística
os meios
gos de que ela necessitava. São esses instrumen-
G apresentaÍemos neste Capítulo.
A1, TtpoLoclAS DAs strunçÕes PLURIIírue Ürs 39
3 8 AS PoLíTIcAS LrNcüísrrcns

I-FergusoneStewart (i()sso na literafrxa ctentíftca: entre 1960 e 1990, esti-


nrüm-se cerca de 3.000 artigos ou obras dedicadas à
Paralelamente aos primeiros textos sobre o planeja- tliglossia3. Em seguida, serão lançadas, com diferentes
mento lingüístico Qüo, como vimos, sc interessavam es- graus d.e sucesso, as noções de triglossiaa, de tetra$lossias:
sencialmente pela ação súre a Línguã e, por isso, não ( ) texto de Ferguson ftzera escola, e aqui não havia poÍ

levavam em conta as situações plurilíngües (apesar de (lue interromper o paradigma. Com efeito, poÍ que não
elas serem amplamente majoritÁnas no mundo), no iní- :' i
lìrlar de "decaflossia", de "ecossiglossia" pala designar
cio dos anos 1960 apareceÍam tentatwas de equactonar
irs situações nas quais coexistem dez ou vinte lín$uas?
as situações plurilíngües e a primetradelas foi, sem dúvi-
t )c fato, tudo isso procedi a de uma total incompreensão
da, o artigo de Charles Ferguson súre a diglossial. O
rlirquilo que charles Ferguson quiserafazer. Ì'{a realida-
autor apÍese ntava modelos de situações nas quais coe-
tlc, sua intenção era iniciar uma série de descrições de
xistem duas variedades de uma mesmalíngua (ele deu
situações-tipo e espeÍava que outros lin$üistas descre-
quatro exemplos: árabe clássrco / árabe dialetal , alemão-
vcssem outras situações, a fim de elab oraruma taxonoÍíÍa
padrão / alemão suíç o, grego catarévussa / grego demótico,
ir partir da qual seriam construídos princípios descriti-
fuancës / crioulo haitiano), variedades que são uttltzadas
vos e uma teoria.
em sifuações precisas: o que ele úamava de "vartedade
Ferguson apÍesento Lt utnalon$a explic ação sobre
ahta" eta utiltzada nos discursos políticos, nos serÍnões,
(rssa questão em um artigo posterior: "Diglossia
nas mídias etc., e o que chamava de "vartedade batxa" se
Itcvisited" (Sowth West Journal of Lingwístics, vo1. 10,
empregava nas coÍrversações familiares, na vida cotidia-
frâ, na lite ratura popular etc. Posteriorme ttte, Joshua
n" 1, 1991). E escÍeveu mais precisamente: "MeuS
eram, em ordem cÍescente: situações claras,
Fishman ampliou esse modelo, abandonando a tdéta de 'll.ietivos
l ;r xonomia, princíPios, teorias."
re\ação $enélica entre essas duas "variedades"2: apartir
Compreende-se melhor o que ele queria fazet
de entÃo, considera-se que há diglossia cada vez que se
(lulndo se examinam suas intervenções posteriores no
manifesta uma reparLrção funcional de usos entre duas
ltnguas ou entre duas formas de uma mesm alíngua; as-
rlotttínio da tipolo Sta das situações plurilín$ües. De
lìrtg, outra pÍeo utpação vem à tona: uma tentativa de
sim há diglossia tanto entre o ârabe clássico e o arabe
dialetal como entre uÍrralín{ua européra e várias línguas
africanas. Esse conceito vai conquistar um enorÍne su- iì. Mauro Fernandez, Diglossia: ã, Comprehensive Bibliography
I !)(;0 t gg0. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins Publishing Co.,
lllll:ì.
1. Charles FergusoÍI, "Diglossia", in Word, n" 15, 1959. 4. Abd.errahmin Youssi, "La Triglossie dans la typolo$ie
2. Joshua Fishman, "Bilingualism with and'without Diglossia, in La linguistique, 19, 2, 1983.
lr rrFlr ristique" ,
Henri Gobbard, LAlien atio n líng ui stíqwe : analy e t étr aglo s síque .
Diglossia with and without Bilingualism", in Journal of Social Issues, 5. s

ÍÌo 32, 7967. I'rrr is: Itlammarion, I976.


40 AS POLITICAS LINGUISTICAS Af TtPoLoGtAS DAS slrunçÕrs PLURIIírueÜes 4l

equacionar, ou de formular, as situações plurilíngües lnestim átvel material epistemológico. Aqui, a situaçâo
de diferentes países6. I particularmente interessante. De 1962 a 1964, na
E o texto de Ferguson dedicado a esse problema Universidade de Washin$ton e depois na Universida-
é, quanto a isso, muito claro. Desde sua primeira fase, d; de Georgetown , Charles Fer$uson pediu a seus alu-
o autor definia seu újetivo: comparar diferentes situa- AOI que descrevessem a situação sociolin$üísttca de
ções. Em seguida, pÍopunha a distinção entre ftè,s ca- dlferentes países. Cada descri ção deveria sef apÍesen-
tegorias de línguas (major langu,eges, mínor languages e tsda e discutida em seminârro. Depois o trabalho evo-
langueges of special status), cinco tipos de língaas ilUlu para a úaboração de um formato-tipo: as descri-
(vernâcula, padrão, clássica, pidgin, crioula) e sete 3Ëee deveri aÍn ser apÍesentadas sob a
forma de um
fou*o de uma pâgtna em inglês corcente (ou seja,
funções (gregâria, oficial, veicular, Língua de ensino, ponto
r eligtão, Língua int ernacLonal, Língua új eto de ensino) .
tando o vocabulário técrnco). Mas como o de

Isso lhe permitia pôr determinada situação "eÍn equa-


tida eta a vontade de clrnper&r situações, esses
mos erampouco manejáveis. Assim nasceu ardéta
ção". Ele apÍesentou, poÍ exemplo, a situação do prffite formulAs. Restava, obviamente, elaborá-las.
P;'araguai da seguinte maneira:
1ütes de tudo, que lín$uas considetat? A resposta
3L: 2Lma1 (So,Vg) + 0Lmin + lLspec(Cr). prime ff amente, intuitiv a:
Esta fórmula deve seÍ lida da seguinte marnetra: Enffe as lÍnguas qtre deveriam ser incluídas nas descri@es, algumas
no Paraguat,hâ 3 línguas (3 L), duas Línguas majori- pareciam ter uma importân cia clararrrcnte maior no pÍocesso de
tárias (Z fmü),uma padro nrzada' oficial: o castelhano COmunicaÉo nacional, ouffas, uma importância menor' oufras ter

(So); outra vernâcula, gregâria: o guarani (Vg), nenhu- rinda pouca importância connrnicativa direta, mas desfrutando de
umsten$especial que ltres concedia importância suficiente para
mahínguaminorttârta (O fmin) e uma Línguaespecial,
rr incluídas. Bsses três tipos de línguas podem, de maneira cômoda
clássic a, reltgiosa: o latim (1 Lspec Cr).
ofansparente,serchamadasdemnjorlnnguage,hnguamaiontÁia
Geralmente não se dá, atenção suficiente à ma- (Lmqi), mirnr l^awwe,hngnminoritríria (l-,min) e l,ang,nges of
netta como emergem as pÍoposições científicas (ou spciat stafin,línguas de stattnespecial (Lspec)
7.

mesmo as descobertas), onde se pode encontrar um


Passou -se em seguida à formalizaçã,0 dos crítéríos
permitiam siflrar cadalín$ua em uma das cate$o-
6. Ivilliam Stewatt, "Att Outline of Linguistic Typology for
POr exemplo: uma língua podia ser considetada
Describing Multilingualism", in Study on the Role of Second Languúges
in Asia, Africa and Latín Anlerica. Washington: 1962; idem, "A language em determinado país se eJa reunisse
Sociolinguistic Typology for Describing National Multilingualism", dsa seguintes condições:
tn Read,ing in the Sociologry of Languege. Haia: Mouton, 1968; Charles
Ferguson, "National Sociolinguistic Profile Formul a" , in W. Bright
(otg.) , Sociolinguistics. Haia: Mouton, 1966. ï, Charles Ferguson, 1966, P. 310.
è= r U'r rt ilr,rAl, DAS SITUnçÕf S PLURtIírue ÜgS 43
AS PoLíTtcAS LrNcüísrrcns

seÍ falada por mais de 25 Ya da população ou l,'u i tI tÌl vaivém entre descrições empíticas e
por mais de um milhão de pessoas (o quíchua frrurt;rliz;tç;icl que pautou a emer$ência do modelo de
na Bolívía, por exemplo, farado por um terço da F:.rg.uson. lisse procedimento, que vai da coleta de da-
1f n* ;t lt:lrtirtiva de estúelecer um quadro teórico
populaÇão, mas sem nenhum status oficial); é, sem
ser língua oficial (o irlandês, por exemplo, lín- rlrryrrll, r,gmpletamente CoeÍente, mas nesse CaSO apÍe-
gua oficial da lrlanda, mas falado apenas por cr=nl;r lnÌla séria desvanta$em: até que todas aS situa-
3o/o da população); r*lr,f; I ísticas tenharn sido analisadas exaustivamen-
i r rgii

ser lín írua de ensino em 50 Yo das escolas se- tr,, n rlultrlro será submetido a constantes revisões que, a
cundárias do país (por exernplo, o inglês na rlr.lrt'rttlcr do caso, poderão se traduzir num aprimora-
Etiópia, país cujalíngua oficial é o amârtco e lurnlo rlo modelo (a versão otimista), ou em Seu
onde, embora poucas pessoas falem inglês, esta rfnlslionamento (a versão pessimista). Aliás, o próprio
é a língua de ensino da maioria das escolas l'ì.rgusorì estava consciente das limitações do trabalho,
secundárias e superiores). íriifirrr;rllrndo que ele apresentava "uÍna solução pouco
o mesmo ocorri a em rclação às rninor languages ,.atlslìrlriria para um probletna com o qual alguns dos
e às languages of special status: o procedimento consis-
ntrus cstudantes e eU mesmo temos nos confrontado
tta em dffinir as categorias p&re qwe as línguas jd consi-
Irrr ;uros: como compaÍar nações, de umaÍnaneira útil,
deradas em diferentes sítuações nacíonais pudessem en-
rl,' unl ponto de vista sociolin$üístico"8, e ele destacil/a
contrar seu lugar. Em outros termos, eta o saber dos
trunlrtirn que certas informações estavam ausentes de
informantes (neste caso, os esfudantes que participa-
fìu;rsi lìirmulas (diferença entre lín$uas indígenas e lín-
raÍn do semin ario) sobre sua comunidade lingüística
que pautava a wiaçãa das categorias de línguas e os llnirli tlc migrantes, sistemas grâficos utilizados, taxas
crttérios de classificação nessas categorias. Na Etiópia, r lt' ;r rurlfabetismo etc.).
por exemplo, muito provavelmente por consid eÍaretn lìm 1968, Stewart retomou o problerna)que jâúot-
r lru rr oÍn 1962, de um a rnarrerra ligeiramente diferente:
o inglês como uma "língua majoritâria", é que a tel.-
lu ( )lrtrnha doravante levar em conta
quatro atributos (pa-
ceira condição da defini ção foi a escolhida.
Mas esse tipo de inforrnações (número de línguas rlru rrir,ação, autonomia, historicidade e vitalidade), clJJa
majoritárias, minoritárias etc.) etabastante limitado. r'urrrbinação (ausênctai Íepresentada pelo sinal de - e a
em ques-
Para acrescentar dados sobre os tipos e funções das lín- lu (rscrìça pelo sinal de + , em relação ao atributo
guas em contato, Ferguson adotou uma tipotogia pro- lirrr) lrcrmitia definir sete tipos de língtt'&s, se$undo o es-
posta por Stewart em lg\z, reduztndo o número de r
lu(:rrra explicitado no se$uinte
quadro:
tipos d.e sete paru cinco (ele abandonou os tipos ,,artifi-
cial" e "marginal") e conservando as sete funções.
AS polírrcRs LtNGüísncns A6 TrpoLoctAs DAs srrunçÕrs pLURnírueüEs

Atributos Classe 6: hehratco Cr


Tipos de (leia-se: um clássico religioso)
língua
Padronização Autonomia Historicidade Vitalidade . ,.' , : ."
r .* "latim Crs
(leia-se: um clássico, religioso, ensinado)
+ + + + padrão
+ + + clássica
+ + artiflcial Essas tentativas de equacionaÍ as siíraçõgs pÌrrri-
+ ; ; vernâcula Lürg,irsúrem o flanco a um certo número delg_çrtiçâsi ,i
+ + dialeto
+ crioula o A escolha dos aftthutos de Stewart nem sem-
pidgin pre é evidente. Dessa maneita, dizet que o
crioulo não possui o atributo "auton omia"
E acrescenta mais três funções às sete pÍopostas (porque se deve esclar ecer "crioulo de base
por Ferguson (provinci al, capital, literâria) e divide as lexical francesa, inglesa, portuguesa" etc.)
línguas de um país em seis classes, de acordo coÍn a provém, effi parte, da ideolo gia: por que se-
porcentagem da população falante da lín gua: tia necessário esp ectftcat crioulo francês para
Classe 1: língxra faladapor mais de TSo/o da poptrla@o uma Língua falada nas ilhas Seychelles, por
classe 2:ltng;e_falada,poÍ mais de s\%o da popula@o exemplo, e não língua românica pata o fran-
classe 3:LíngnfaladapoÍ mais de Zs%a da poputa@o cês ou língua germânica para o inglês? Não
classe :hnguafaladapor mais de r}q/o da popula@o haveria por trás dessa aprese ntação a recusa
classe 5: língua faiada,por mais de syo da populaçao em considerar os crioulos como línguas ple-
classe 6: lÍngua faladapor menos de syo da popula@o nas e uma maneita de abordar as línguas do
Isto the permite aprese ntar a situação das ilhas ponto de vista do senso comum em detrimen-
Curaçao (Antilhas Holandesas) da seguinte maneira: to da perspectiva científica?
Certas classificações envelh eceÍn rapidamen-
Classe 7: papiamento K(d:A : espanhol) te (o crioulo haitiano seri a, por exemplo, con-
(leia-se: um crioulo em situ ação diglóssica com o espa-
siderado atualmente como padro nízado e
nhol, variedade alta)
muitas línguas afuicanas teriam) em vinte
Classe 4: holandês So
(leia-se: um padrão oficial)
anos, mudado de classifi cação), o Qüe suscita
/. "inglês Sigs o problema da dirnensão histórica dessas f&-
(leia-se: um padrão internacion aL, gregárto,língua ensinada) mulas unicamente sincrônicas.
Classe 5: espanhol Sisl (d:L :
paptarnento) Certas funções não são avaltadas de manetta
(leia-se: um padrão internacional, ensinad o, literário, em precisa. Assim, existem línguas "oficialmente
diglossia com o papiamento)
oficiais", como o gaélico na lrlanda, cujo status
As PoLíTlcAS LINGÜísrtcns AS TTpoLoGIAS DAS slrunçÕes PLURtt-íwcÜes

4 sem alternativa maior no país pata a


rcd, é nulo , e \ín$uas sem funções oficiais que mesma função
podem d.esempenhar entretanto um papel im- 5 aceitável como símbolo de autentici-
portante, como o francês na Ilha Maurício" ' dade
6 ligada a um passado glorioso
de grupo 1 utiltzada por todos na conveÍsação
U - As propostas de Fasold cotidiana
2 - conside rada pelos falantes como
Essa úord a$em ilustr ada pelos ftaba|hos de unificando-os e distinguindo-os dos demais
Ferguson e Stewart foi deixada de lado durante muito veicular 1 considerada como "adquirível" Por,
tempo até que Ralph Fasold a retomasse , ern 1984e. pelo menos, uma minoria do País
primeiro, ele resurniu os textos de Ferguson e de stewart
internacional 1 presente na lista das "lín$uas
seguida, retomou o proble-
çlue acúamos de citar; errL internacionais Potenciais"
rnade um ponto de vista ligeiramente diferente: escolar 1 padronização igual ou maior do que

- p; um hdo, ele destacauma certaprevisibilida- a língua dos alunos


de das funÉes aszumidas pelaslínguas ,rtão é
quú- religiosa 1 clássica
quer lín$ua que pode assumir qualquer função;
em Esses atributos, cLLJapÍesença $atante que deter-
poÍ outro lado, ele taçiocina unicamente
- termos de atributos e de funções, d'e modo que minad a língua possa preencher determinada função,
criam, no entanto, alguns problemas; parttcularmen-
uma [ín$uadeve possuir certos atributos para
te os dois se$uintes:
pÍeencher determinada função. Seu ponto de
o atributo "clâssico" necessâtto para q1le uma
vista é resumido no se$uinte quadro: -
línguapossa preencher a função religiosa provém de
atributos sociolingüísticos requeridos uma certaconcep ção de reli$ião. O que dizet,por exem-
plo, da lín Êua do vodu? Ou das lín$uas africanas de
oficial 1 padronïzaçáo
2 uttlizada corcetamente Por certo iniciaç áo? É pouco provável çlue o autof as consideÍe
número de cidadãos escolarizados como ltnguas clássicas, o que demonstra uma concep-
nacionalista 1 nacional para çáo limitativa da religião.
uma Parte imPortante da população A lista das "lín$uas internacionais poten-
Z - amplamente utrlizada rla comunica- ciais" de Fasold é instrutiva: ele cita, de fato, o in-
ção cotidiana glôs, o espanhol, o Íusso, o alemão, "perheps
3 ampla e freqüentemente falada no paN
Mandarin Chinese and maybe zne 0r two others"ro

9. RalPh Fasold, The Socíolinguístics of Society' London:


..ì
.:ll

10. Op. cit., p. 76.


Blackwell, 1984. ,l::

$i
&
48 AS PoLíTrcAs LrNGüísrrcns AS npoLoGrAS DAS strunçÕrs pluRtlírueües 49

("talvez o mandarim e quiçâ mais uma ou duas lín- (+ /- significa que o atributo é possuído unica-
guas mais"), demonstrando assim grande ceguetra rnente por uma pafte da população: * pata os falan-
quanto a línguas como o ârabe, o suaíli, o quíchuâ, o tes do híndi, - para os outros).
bamb ata) o malaio etc., faladas em vários países e, Essa apresentaçãonos levartaa concluir que o híndi
portanto, no sentido próprio do termo internacionais. tem poucas chances de chegar apreencher. a funçãonacto-
Tem-se aqui a impressão de que Fasold consid eÍacomo rralista na Índi â.." . Percebe-se o interesse, se essa úorda-
internacionais apenas as línguas admitidas como lín- gem fosse mais bem trabalh ada, de estabel eceÍ fichas
guas de trabalho rLa oIvU ou na Unesco: em vez de para todas as línguas de um país e pafa todas as funções
dar uma defini ção unívo ca da noção de lín g:ua inter- potenciais dessas línguas. Mas temos a impressão de que,
nacional, o que the permitrta classifi cat sem ambi- após as intervenções de Fhsold no deb ate, essa vertente
güidade essa ou aquela Língua nessa categoria, ele de pesquisa foi mais uma yez abandonada.
sanciona o resultado de uma relação de forças , de
um momento da história.
III - A grade de Chaudenson :!,
1t

No entanto, ãtdéta de cruzamento entre aft:úluto


:if
tì.
,'

e função eÍa interessante, e a previsibilidade, assim Na década de 1990, Robert Chaudenson tentou ;
#
ã
postulada, poderia tw encontrado uma solução no elaboraf rrm instrumento de medida e de compatação $
**
&
domínio do planejamento lingüístico. vejamos, poÍ do status e do corpus dahíngua francesa nos países da '&
ã
w,

francofoniall. Sua abordagem consistia em situar os


.t'

exemplo, a aprese ntação de Fasold da situação do


híndi, ao questionar-se sobre a possibilidade de esta cliferentes países analisados a pafiu das funções (ott
língua vir a ocup aÍ a função "nacionalista" fla Índia: status) e dos usos (ou corpus) de um alíngua (no caso,
o francês, mas pode-se, como destaca o autor, se$uir o
Unidade sociopolítica: Índia mesmo procedimento pata qualquer lín{ua: in$lês,
Função: nacionalista espanhol etc.); esses países aparccem ÍepÍesentados
Língua: híndi por pontos em um grâfico bidimensional.
Atribwtos requeridos Atríbutos possuídos E claro que o problema aqui é sabeÍ como medir
o status (considerado por Chaudenson num sentido
1. sínúolo de identidade nacional +/- clássico) e o cnrpus (defrnido por ele como o volume de
2. largarnente uültzada no cotidiano +/- produ ção lingüística realtzado na lín$ua e a nafiiteza
3. ampla e freqüentemente faladano país +/-
4. sem alternativa maior no país
11. Robert Chaudenson, La francophonie: représentatíons, réalités,
5. aceifável como sínüolo de autenticidade + pffspectives. Aix-en-Provence: Institut d'études créoles et
6. ligada a um passado $orioso +/- l'r'ancophones, 1991.
50 AS PoLíTrcAS LtNcüísrrcns Â*, lpoLoGrAS DAS strunçõrs pluRtlírue Ürs 51

da competência lingüística dos falantes). o autor pro- O interesse dessa abordaÊem consiste, evidente-
pôs um modo de cotação complexo, levando em conta rrrc:nte, flo fato de que ela permite refletir sobre a situa-
as se$uintes entradas (nos reportaremos a seu texto çrio respectiva dos diferentes países no espaço
para os valores numéricos atribuídos a cada entrada): Í'r'irncófono, sobre os rea$rupaÍnentos que ela revela-
A. Status riir no gtâfico etc. Mas o valor de um grâfico assirn é,
1. Oficialidade solrretudo , didâtico, pofçlue e1e visualtza os resulta-
2. Usos "institucionalizados" rlos de umaanâlise, permite aptesentar o conhecimento
3. Educaçáo (1 não adquiri-lo: o conhecimento que temos na parte
4. Meios de comunicação de massa srrperior da grade se encontra napffite inferior, rnani-
5. Setor secundárto e terciário privado ÍLrstado de maneira diferente...
B. Corpas Outra uttltzação possível dessa$rade consiste em
a) aprop rtação lingüística t:rrrrsiderat as língu,&s em relação & t,Lm país e não mais
b) vernacularidade / vernaculanzação versu,s u,n, ytaís em relação e tLrna língua, como no trabalho de
veicularidad e / veiculartzação l,irsold .Pata ilustrar isso, consideraÍel cadaltngua sob
.) os tipos de competências ll'ôs pontos de vista:
d) produ ção e exposi ção lingüísticas o seu greu de uso, isto é, ã porcentagem de falan'
vejamos o resultado dessa avalíação apltcada em tes no país considerado (o corpus deChaudenson);
três países: Ruanda, Madagascar e llha Maurício: o seu grau de reconhecimento,isto é, o Érut de ofï-
100 cialidade da língua (o statas de Chaudenson);
90 o seu gra,w de funcionalidade, isto é, as possibili-
80 dades que a língua tem de preencher as fun-
7A ções destinadas a ela (que pode se apÍoximar
Madagascaï
da rel ação atributos/funções de Fasold).
H:: 40
o
Maurício
r
Apenas os dois primeiros termos (grau de uso e $tau
lt: rcconhecimento) serão levados em consideruçao no $tâ-
30 l-ttxr. Só depois, ao nos questionarÍnos, â partir do gráfi.co,
2A srrlrre estratégias de planejamento lin$iístico é que o pro-
10 lrlt:rna do grau de funcionalidade será levado em conta.
0
Itrr enquanto, o mais simples é ilustrar este ponto de vista
02030 40 50 60 70 80 90 100 ('{)lll dois exemplos: o do Marrocos e o do Ma1i. Acornpa-
F 'p*l r rlrci por alto o modo de crílculo de Chaudenson no que diz

Situação em rclação ao francês rcslrcito ao "status" (o $rau do reconhecimento), ffiffi sim-


52 AS POLITICAS LINGUISTICAS Aã ïtpOLOGtAS DAS strunçÕes PLURtlítlcÜEs 53

plifiquei o procedimento no que diz respeito ao "cnrptn" (o ãn$sheq (estou citando apenas as quatro principais lín-
poderiam constar neste
graude uso), levando simplesmente em conta uma avalia- Sas do país, mas todas as outras
pAfi*) tem um statw e um cnrpus de rgual valor, porórn
ção (qur me é própia, pois não dispomos de nenhum
número oficial sobre esse assunto) da por centagern da ftaeir; o bamb afa tem um cnrpt'ts nmito mais importante
população falante das diferentes línguas em contato. ggr: seu statt,ts e o francês conhece asituação inversa:
Consideremos o gráfico do Marrocos: três línguas
$0 t
coexistem no país com statas diferentes o âtabe, o m francês
berbere e o francês, e podemos veÍ que elas aparecem ï0
em posições extremamente contrastantes no quadro. O t0
ârabe tem um status e um clrpus de valor sensiveknen- m
te igual (e1e é falado por cerca de 90o/o da população e t0
tem o status de língua oficial), o francês tem um status
m songhai
t0 peul ba::úara
mais importante que seu clrpus, e o berb ere está em t0 tamasheq a
o
situação inversa (falado por aproximadamente 50%o 0
da poprÃação, ele não possui nenhum status oftcial). 10 2A 30 40 50 60 7a

As lín$uas do Mali
100
90
80 Qual pode sef a utilidade destes $tâficos? Eles
nOË permitem fazer uma leitura imediata da
7A
rel açáo
l;t lín$uas e as-
lEl60 tfltre status e cnrpus para cada uma das
El so ;lm avaliar a situação lingüística do país. se consid.e-
40
fêrmos, de fato, que *" *?neira $etal é desejável que
30
$ffia língua posstl a um status coÍfespondente a seu
2A *r*Ì

10
&rput, temos três situações teóricas:
er: ' *'
I . a das lín{uas que se encontram na üa$onal (ou
0
020 30 40 50 60 7A 80 90 seja, as línguas para as qgais stnttn : corptn).fi
claro que elas podem se situ ar Ínars Í1o alto ou
l*'p-*l
menos no alto nessa dia$onal, dependendo de sua
As línguas do Marrocos
condição de hn$uade unificação nacional (corpus
próximo do valor mríximo: o áxúe no Ma:rocos)
Quanto ao Mali, a situação é igualmente contras-
tante, mas de maneita diferente: o songhai, o peul e o ou re$onal (o peul e o songhai no Mali);
LíTrcAS LrNGüísrrcns
''"":::
2. a das Línguas que se encontram acima da dia-
;;:'::,ï;ï::rn,.rn. de 10;
gonal (como o francês no Mali e, de maneira de falantes, enquanto o san$o (sango 1960)
menos clata, no Marrocos) e que possuem um tinha um $rau de reconhecirnento nulo e úfrl
status superestimado; graude uso que pode ser estimado em aprox:'
3. a das línguas que se encontrarn abaixo da madamente 80 % dos falantes.
diagonal (como o berbere no Marrocos) e que o No ano 2000, so a política pretendida t1er
têm, portanto, um status insuficiente. efeito, pode-se estimar o fuancës com um Êtilt
Ta1 visualtzação da situ açãolingüística de um país de uso em ascendência devido ao pro$resso
pode assim: da escolartzação (hipoteticamente em 200/0,
1. servir de base para a reflexão sobre o planEa- pela necessidade da demonstração), o san$o
mentolingústico: percebem-se de imediato as con- igualmente em progresso (90 o/o), com as d-uas
tradições ou acoerërLctaentre os graus de uso e de línguas dividindo entre si o status (50/50); o
reconhecimento das línguas em contato; que possibilitaria o se$uinte $râftco:
2. permitir representar, no plano diacrônico, a
100 o
evolução esperada de uma situação após a in- 90 francês 1960
terven çáo planejad ora. 80
Em outros termos, temos aqui um instrumento que 70
60
permite apresentar um diagnóstico e formular objetivos. a
50
Uttltzando um exemplo extremamente teórico, o 40 san$o 2000
da República Centro-Afri carua, que adotou uma "lei 30
20
fixando a polític a de rcorgantzação lingüística da Re-
10 sango L960
publica", segundo a qual o francês e o sango passaÍam 0
a ser as duas línguas ofi.ciais do país. É possível avaliar 020 30 70 90
a situa ção dessas línguas, em termos de grau de uso e
tc"'Gl
de gtau de reconhecimento, no momento da indepen-
República Centro-africana
dência do país e após a inteÍvenção dessa nova políti-
ca lingüística:
Percebe-se Qüe, nesta hipótese, o francês desc etra
o No momento da independência, o francês (to c o sango subiri a para a linha dia$onal, mas Qüe, aun'
grâfico: francês 1960) tinha um grau de reco-
rlir assim, a sifuação não corfesponderia ao desejável
nhecimento máximo, unica Língua de admi- (r:orpus : status). S. o cnrpus do francês aumentasse'
nistraÇão, de escolanzação etç. e um grau de o lugar da língua se apfoximana da diagonal, mas paf a
b 6 AS PoLíTIcAS LlNcÜísrlcns AS TrpoLoGtAS DAS srrunçÕes pluRnírueües 57

que o sango fi.zesse o mesmo deslocamento seria ne- ção da situação lin güística" , inúmeÍas possibilidades
cessário aumentat o seu status (t* detrimento do de polítrca lingüística (aumentar o grau de reconheci-
francè,s). A avaltação sociolingüísttca termina aqai e mento de uma, duas, inúmeÍas línguas, por exemplo),
entramos no domínio das escolhas da República Cen- um dos crttérros de escolha a ser levado em conta po-
tro-Afrrcana: dar, por exemplo, ao san$o um status deria ser a relação entre custo da opetação e o benefí-
semelh ante a seu clrpus implic aria tkar do francês cio social decorrente.
seu status de 1ín9ua oficial e isso levanta outros pro- Nos exemplos mencionados acim a, fiz referên-
blemas que não são da alç ada do lingüista. cia, para ilustrar a uttltzação desse grâfico no do-
Contudo, e isto conduz agora ao gr&u de funcío- mínio da política lingüística, a uma ação sobre o
nalidade, se diante de ta1 grâfico um país decidisse
intervir sobre o grau de reconhecimento de um a Lín- $rau de reconhecimento das línguas. Mas evidente-
mente o contrârio também é possível, e pode-se as-
8Ía, para tentat apÍoximâ-La de seu $rau de uso, suÍ- sim tomar a decisão de intervir no grãu de tLSy das
8e a questão de saber se tal lín$ua está equipada para
línguas. os grupos minoritários que lutam pela so-
preencher essa função. Como delimttar essa noção de
grau de funcionalidade? Nesse caso, o melhor é partit
breviv ëncta da sua Língua, criando, por exemplo,
escolas privadas nas quais ela seja ensinada, empe-
da idéia de Fasold de que certas funções implicam cet-
tos atributos. Mas Fasold expunha o pÍoblem a em ter- nhando-se em transmiti-la às crianças etc., não fa-
y,em nada além de tentar agtr sobre o grau de uso
mos estatísticos: tal língua possui ou não esse ou aquele
atributo e portanto pode ou não preencher determina- dessa Língua. Isso significa que temos dois estágios
da função. Meu ponto de vista é muito mais dinâmico Ëuçessivos de reflexão: a escolha de um tipo de ação
e pode seÍ formulado da seguinte maneita: se queÍe- {nobre o reconhecimento ou sobre o uso) e a detet
mos que tal línÊuapreençha tal funÇão, o que ,é precr' ruinaçã,o do equipamento necessário à Língua no
so fazer então pafa equrpâ-la? IJtilizando um exemplo domínio da funcionalidade. Entretanto, mais rÍna
simplista: é evidente que para introduztr ufnalín$ta ven, isso jâ não está no âmbito da análise sociolin-
no sistema de ensino (ou seja, transformâ-la em lín- ${lística, mas no das decisões políticas.
€uade esc olanzação) , é necessário primeuÍarnente dar' Percebe-se que essas proposições são largamente
the uma transcrtção, alfabéttca ou outra, dar-lhe uma prtt$ramâttcas e que convém agora seguir areflexão e
norma , forjaÍ uma terminologia gramatical etc. E isso t expcrimentação com base nestes dois pontos:
nos condu z a reflexões eminentemente ptâttcas sobre Como medir, de maneira unívoca) o grãu de wso
a rcLaçáo qualid ade/preço desse equipamento ou so- e o grew d,e reconhecirnento de LtÍnaLínguú
bre a relação custohenefíçio. Se temosz por exemplo, Como determinar, de maneira precisa, o que
diante do que eu chamaria de um "grâftco de avalta- constitui a funcionalidade de LtÍnaLíngua?
AS polÍrtcns LINGÜísrtcns As npoloctAs DAS slrunçÕrs PLURIT-ítleÜEs 59
58

Conclusão construídos, coÍremos o risco de sacrificar a precísão


sm prol da elegância. A $rade de Chaudenson, PoÍ
De modo mais $eral, os modelos tipológicos que exemplo, inte gra com facilid ade os fatores quantitati-
apresentamos neste capítulo estão longe de esgotaÍ o vos elurídicos, mas não deixa nenhum espaço aos fa-
que conviria saber sobre uma situação pafa pensar tores simbólicos ou conflituais. As propostas de Fasold
uma eventual política lingüística. De fato) para elabo- integr aÍnos dados funcionais 0, em çettamedida, sim-
rar um modelo capaz de elucidar a cornplexidade das bólicos, mas não dão conta do fator diacrônico' De
situações, seria conveniente consid eraÍÍnos diferentes fato, todas as propostas de Fer$uson, Stewart e Fasold
fatores, dos quais a lista se$uinte nos dá um a rd'êta: apÍesentam uma visão estática das situações qugl no
1 . Dados quantitativos: quantas lín$uas e
qllantos
entanto, estão em evoluç ão petpétuí., taito no plano
falantes Para cada uma delas' eïmflstïco (númerô de falantes, índiCe de transmissão
2. Dados jurídicos: status das Lín$uas em conta- etc.) quanto no plano simbólico. Of â, ã avaltação ptévia
to, reconhecidas ou não pela Constttutção, à determinação da políticahrng,drística deve necessar'a'
uttlrzadas ou não na mídta, no ensino etc. mente levar em consid eração as evoluções em cuÍso.
o
J. Dados funcionais: lín$uas veiculafes (e sua Por isso ébemprovável que surjam novos modelos, mais
taxa d e v e i cul ari d a d e ), hín$ua s tr an s n a ci o n ai s COmpletos, mais eftcazes, passando, talvez, PoÍ outra
(faladas em diferentes países fronteiriços) ;Iín' aborda$em. Pode-se, pof exemplo, ima$tnat um modelo
guas gregârias, Iín$uas de uso religioso etc. lnform attzado alimentado te$Ãatmente com no-
Qüe,
4. Dados diacrônicos: expansão das lín$uas, taxa VOS dad.os, fornecetla",nlíne" uma avútaçáo dinâmi-
de transmissão de uma $eraçâo a outra etc. oa das situações.
5. Dados simbólicos: prestígio das lín$uas em plurilin-
Vê-se que arcflexão sobre as situações de
contato, sentimentos lingüísticos, estraté$ias muito mais
$üismo nos remete à língua de maneira
de comuntcação etc. fit*. Não Se trata mais, nesse caso, de a$u sobre o
6. Dados conflituais: tipos de relações entre as t'Cllptrs" pata lutar contra empréstimos ou pafa mo-
hínguas, complementattdade funcional ou con- detnizat a lín$ua, PoÍ exemplo, mas paf a totnâ-La
corrên cia etc. fUncional, a fim de que possa desempenhar o papel
Podemos peÍ ceber que se é fâcú', poÍ um lado, me- que se espefa que ela desempenhe do ponto de vista
dir ou delimitar os quatro primeiros tipos de fatores du ttottls. E essa passa$em do ponto de vista do corpus
desde Qüe, evidentemente, sejam feitas as pesquisas ne- 3o do status. mesmo que {iço!--o-gr3 seja
muitas
.-9-s=93

cessárias, poÍ outro, os dois últimos são mais comple- veues dirícil de seÍ manüda (ìorpi,i; ê iiiaíus estão
xos e, súretudo, difíceis de introduzlt em um modelo f?eqüentemente muito imbricados, o gfau de equipa-
dicotômico. Mas, pelo afã, de apresentar esqllemas bem mento d.e um a língua, pof exemplo, estando em tela-
As PoLíTlcAS LINGÜísrtcns
60

social) , é urn testemunho


ção dueta com sua função
políttca
da evolu ção paralera da ciê ncia lingüística: a
lingüística . ã planejamento são tributários da teoria
na qu al foram concebidos.
Mas qualquer qlle seja o rnod.elo utilizado, ainda cAPíruLo lll
súsiste o prúlema de súer de quais meios dispomos
OS INSTRUMENTOS DO
para intervir sobre a lín$rLa e sobre as lín$uas'
São

esses meios que apÍesentaremos no capítulo se$uinte. PLANEJAMENTO LINGÜíSTICO

Uma açáo planej ada sobre a lín$ua ou sobre as


línguas nos remete ao seguinte esquema: consideram-se
uma situação sociolin$üística inicial (S1), Qüe depois
de analis ada é consid erada como não satisfatórta, e a
situação ç1ue se deseja arcançar (s2). A definição das
diferenças entre s1 e s2 constitui o campo de interven-
ção dapolítical,ingüístíca, e o
probleÍna de como passar
de s1 parasz é o domínio do planeiamentolíngüístico.
Apresentadas desta maneita, as coisas podem
parccer simples. Entretanto, vimos no capítulo ante-
rior os problemas que a descri çáo e a tipolo Êta das
situações sociolingüísticas apÍesentavam quando da
escolha d.e uma política lingüística. Neste capítulo,
abordaremos os problemas decorrentes d"essas esco-
lhas. A partir do momento em que um Estado se pÍeo-
cupa em administrar sua situação lin$üística, apfe-
senta-se o problema de saber de que meios ele dispõe
pAIa isso. Como intervif r*a forma das Lín$uas? Como
modifi cat as relações entre as línguas? Quais são os
62 AS PoLíTIcAS LI NG ü ísrtcns os INSTRUMENTos Do PLANEJAMENTo t-lneÜísrtco

processos que permitem passar de um" gffi.g".g_fi_getiis- A escrita


tyc,7, estágio das escolhas gerais, âo estágio da imple-
O primeiro estágio desse equipamento é dar um
megtaÇão, do planejamento lingüístico ?
sistema de escrita às línguas âgrafas, o que implica,
em primeiro lugar, estabelecef uma desctição fonológi-
I- O equipamento das lín$uas ça dalíngua e conhecet o sisteÍna de sons a transcÍe-
Vef. Em seguida, será necess ârto escolher um tipo de
Pode parecer estranho aplicar o termo "equtpa- escrita: alfabétrcaou não -alfabétrcae, no primeiro caso,
mento" às línguas, sobretudo depois que nos distan- que tipo de alfabeto? Esta escolh a náo é simples. Apro-
ciamos de uma conce pção instrumental da línglJa, ximad amente um quarto da humanidade uttltza, Pof
como fizemos no primeiro capítulo. Entretanto, este exemplo, um sistem a não-alfabético: o dos caracteÍes
termo é absolutamente apropriado, principalmente chineses. Quando se tornou necess âno transcrever as
se nos lembrarmos do primeiro sentido do verbo equi' línguas africanas, longas discussões opusetam os de-
pã,ri "Provef uma erú arcação do necess âtio patacum- fensores do alfabeto latino aos que defendiam o alfúe-
prir serviço ou realtzaÍ missão, $uatnecet". De fato, to ârabe ou um a grafra uttóctone. Essas discussões ti-
se todas as línguas são iguais aos olhos dos lin$üis- úam, evidentemente, üffi sústrato ideoló$ico: poÍ um
tas, essa iguald ade se situa num níve1 de princípios, lado, hâ uma estreita liga ção entre a expansão dos sis-
isto é, num nível extremamente abstrato. Mas, tta temas de escnta e a expansão das religiões (o alfabeto
realidade, todas as línguas não podem cumpÍir, igual- ârabe está ligado ao Islã, o ahfabeto latino é petcebido
mente, âs mesmas funções. Por exemplo, é cf,arc que como associad.o à cristandade), e por outro lado o alfa-
uma língua âgrafa não pode ser veículo de uma cam' beto latino eravisto por alguns como um traço simbóli-
panha de alfabettzaçáo, que se terâ dificuldades em co da época colonial. Mas, üante desses dois sistemas
absolutamente estranhos à Africa ne$ra, havta tam-
ensinar informâtrca numa língua que não disponha de
bém os sistemas grâficos autóctones: silabários em $erd'
vocabulário computacional, ou ensinar $ramâttca
fecentes eúa, aos olhos de seus partidários, tinham a
nuÍna língua que não disponha de uma taxonomia
varftagem de constituir escritas autônomas e de asse$u-
gramattcaT, que uma língua falada por uma ínftma
tgr aidentidade afttcanal. Esses sistemas tinham tam-
minorta da população de um país dificilmente poderâ
bém um conteúdo cienífico: o alfabeto âtabe,por exem-
sef escolhida como Língua de unificação desse país
etc. Se, entretanto, poÍ tazões políticas, Se desejar
utrltzar essas línguas nessas funções, seÍ â necessário 1. Vide: Pathé Diagne, "TraÍrscription et harmonisation des
langues africaines au Sénégal", comurncaçáo à reuniã o "Latranscripton
reduz:r seus déficits, equipá-las para que possam gt l'harmonisation des langues afrtacarÍles", Niamey (Nigéria) ,17 a 21
desempenhar seu papel. de julho de 7979.
,*-

OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO LINGÜíSIICO


As polÍrtcRs LI NG Ü ísrtcns
64
Oléxico
p1o, não permite notaÍ as vo$ais das lín$uas africanas
e o alfabeto latino é, nesse aspecto, mais
preciso, mais Outro proble fna é o do léxico. O desenvolvi-
eftcaz etc. Esses debates levar ão a decidir em
favor d-o mento das ciências e das técnicas, a multiplrcação
arfúeto latiflo, ao meÍros temporarlarnettte, em
1966,
das comunicações especi altzadas ftzeram com que
quando a Unesco reuniu em Bamako um conjunto de hoje em dia apenas algumas lín$uas veiculem a
especialistas . TrataÍemos d.essa reunião no
capítulo
modernidade com a aiuda de um vocabulário pró-
se$uinte. prio; as outras lín$uas se contentam em tomar eÍn-
Considerand.o todos esses pontos, vê-se
que o
prestado esse vocabulário. Dessa fotma, a tendên-
planejamento lin$üístico passa primelÍaÍnente
poÍ
cia atu aL é falar de info rmâtrca utili zando um voca-
uma descrição precis a dalín$ua; erfise$uida'
poÍ uma
bulário em inglês. De maneira mais ampla, existem
rcflexão sobre o que se espeÍa de um sistem a de es-
milhares de línguas que permitem dtanamente a
uma oÍ-
crita. Será necess âtto,poÍ exemplo, escolher mithões de falantes comunicar-se de manerta
tografta de tipo fonoló$ico, rLa qual a cada fonema gatisfa tórra em seu ambiente social tradicional, mas
coÍÍesponda um {rafema oü, Se Se pteferu, a cada que são Lncapazes de asse$urat uma comuntcação
som uÍna letta? Ou, ao contrârio , serâ necessário científica. Seria, por exemplo, uma situação delica-
escolheÍ uma orto $tafta de tipo etimológico'
na qual
da aprese ntar a teotta da relativid ade numa lín{ua
a forma gerar de um a pa\avra nos darâ informações lndíge na da Amazônia. Isso pode não tet, certamen-
sobre sua história e sobre a famíLta ria qual
está
te, nenhuma importància, iâ que se um índio wayana
inseri d,a? No primeiro caso, âs palavras francesas da Guiana quiser, PoÍ exemplo, se especi altzat em
temps (temp o)-, taon (mutuca) e tant
(tanto) podetão
egtudos nucleares, ele o fata em francês ou em in-
ser grafadas como tã. No se$undo caso, se destacarâ glês. Mas uma política lin$üístic a também pode de-
o fato de eúe, mesmo utilizando letras aparentemen- eidir equipar determtnadalíngua paÍa utrltzâ-la no
te inúteis, u $rafta temps aprese nta a vantagem de ensino de matem âttca ou de medicina.
rcportar ao latim tetnpus e -às palavras temporaíre Isso nos remete a outro domínio do planej arnen'
(tá*porário)
- ou ternporíser (temp ofr1'ar) . . .
tu lingüístico: o da terminol o$ta, no qual a principal
É só depois dessa fase técntca e ctentífica, em palavÍas2 ou a neolo$ia. Tra'
atividade é a Sfia çfu9- de
que ahíngua estarâ equtpadano plano $tâfico, que se tepettoriar
ta-se aqui de determinar as necessidades, de
purru à iu* prâttca: divulgar o sistema de escrita n vocabulário existente (empréstimos, neolo$ia espon-
selecionado , através de abecedários, manuais,
da or-
tânea), de avalrâ-lo, de eventualmente melhorá-lo, de
gantzaçáo de carnpanhas de alfabettzação, da intro-
harmo ntzâ-\o e de, depois, divul $a-lo sob a fotma d-e
áuçao dalíngua recém-transcrita no sistema escolar,
çliçionários terminológicos, de bancos de dados etc.
no meto Stâfico etc.
llírtcRs LINGÜísrtcns OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO LINGÜíSTICO
66 67

úje- que elenã o "a$rade" , seja porque entra em concorrên-


Esse procedimento pode, então, Íesponder a dois
cia com palavras já em uso, produtos da neologia es-
tivos muito diferentes:
pontânea ou de empréstimo a outra língua.
o Pode-s e tratar de equipaÍ uma 1ín$ua para que
ela possa fllmpÍir uma função q1le até então Em f**g_,pS, por exemplo, se uma palavra como
logiciel seffi$ôJ sem dificulãade no lugri do termo in-
não cumpria. É o problema com.q1le se con-
glês sffiware, se uma palavra com o remtne-ménillges
frontaram os países d.o norte da Áfri ça, qúan- en-
tra poeticamente em concoÍïência com brainstirming,
do se decidiÍam pof uma política de atabtza'
sús- nada garante que baladeur, tír d,angle, tir parroit,
Ção,ou da Indonésia, quando e1a decidiu
restovite ou prêt-à-rnonter substituirão, Íespectivamen-
tituir, na fun çáo oficial, o holandês pelo malaio'
te, wall<,man, cnrner, passing shot,
o Pode-s e ttatat também de lutat, no quadro de fast-food au kitz. Esses
neologismos parecem ir contra um uso já estabelecido.
uma língua iâ equtpada, contra os emprésti-
veremos nos capítulos seguintes diferentes exem-
mos, de substituir um vocabulário alienígena
plos desse tipo de ação.
por um vocúu1 ârto endógello. Esse é o pÍo-
blema com qlle se enfrentam o Québec ou ain-
da as comissões de terminolo$ia criadas nos Apadronização
diferentes ministérios franceses'
Nos dois casos, entretanto, vemos a impottàncta Quando um país decide promoveÍ uma língua
para determinada função, ele pode ter de erLcarar uma
(mencionada a pÍopósito da esciita) da descrição das
aituação de dialetação. Isso significa que essa língua
línguas e da análise dos seus pÍocessos d.e criação lexical:
pode seÍ falada de maneira diferente por toda a ex-
uma palavra não é forja da aleatoriamente, é necessário
tensão do território, com uma fonologia diferente, um
respei tar, ao mesmo tempo, o "gênio" da lín$ua e os
vocabul âtto e uma sintaxe parcialmente diferentes.
sentimentos dos seus falantes. Portanto, a terminologia
Inrpõe-se então o problema de saber qual será a forma
implica, poÍ um lad.o, um conhecimento preciso dos
que exeÍcerâ a função escolhida pelos decisoÍes. Mes-
sistemas de derivaÇão, de composição d-a línÊua, um
Í11o nesse caso, há tamb ém diferentes soluções: pode-
inventário das raíres etc. e, poÍ outro, implica que as
ãe selecionaÍ uma das formas em pÍesença ou então
palavras criadas, os neolo$ismos, sejam aceitos pelos
forJar uma forma nova a partu das formas existen-
falantes, isto é, que sejam em primeiro lugar acettáveis.
tõn. O primeiro caso remete a um sistema auto titârto,
Porque um neologismo pode ser refutado (este, aliás, ó
gu 8 um centralismo jacobiro, quando
um caso muito freqüente; os especialistas em termino- se escolhe, poÍ
logia produ zefnmuito mais termos que nin$uémjamais
ttltlrzará do que termos q1le "pe$am"), seja poÍque elc' 2. Exemplos extraídos do Dictionnaire des termes
fficiels de la
não coÍresponde aos gostos lingüísticos dos falantes, hrytur ,lï'u,nçaise, Duecrion des journaux officiels, paris, 1gg4.
68 AS PoLíTIcAS LINGüísncns pl tNsrRUMENTos Do pLANEJAMENTo LINGÜísrlco 69

exemplo, o dialeto da capital. No se$undo caso,faz se OU do empréstimo. Sempre que novas reaLidades pre-
necess ârta uma descri ção precisa das variedades dia- eisaram ser nomeadas, elas o foram sem dificuldades:
letais para se tentar cÍtar rtma forrna interrn ediârta, lseim, a invenção da eletricidade se fez acompanhar
uma espécie de lugaÍ-comum dos diferentes falares, da crração da palavra eletricídade, construída sobre
que serâposteriormente difundida por diferentes meios Uma ruizlatina, 0 o surgimento d.e um novo esporto, o
(mídia, escola etc.). Esse problema aparcce primeita- futebol, se fez acomp anhar do empréstimo à lín$ua
mente no nível da $rafta: como transcfever uma pala' lnglesa da pal avra football. Enfrffi, Qüando se conside-
vta pronunciada de diferentes formas pelo território fA o número de hínguas existentes na sup etfícte do $1o-
de manenfa que todos a feconheçam? Em seguida, no bo (entre 4 e 5 mil, com uma média de 30 poÍ país),
nível do léxico: qual vafLante conservar quando o mes- tEm-se a impressão de que estão dadas todas as iondi-
mo újeto ou a mestna noção não são nomeados da ções para que as pessoas não se compreend.am. Con-
mesm a maneufa nas diferentes formas dialetais? Por htdo, apesaÍ da multiplica ção das hín$uas seÍ conside-
fim, hâ a questão da sintaxe quando, poÍ exemplo, é, fada por alguns como amaldtção de Búel, a comuni-
preciso escolher a norma que setâ ensinada. Õação funciona em todos os lu$ares.
No capítulo IV, apresentaremos um caso concre- Isso porquehâdois tipos de $estão das situações
to de padrorLLzaÇão, a propósito da elaboração da lín- lingtiísticas: uma que procede das práticas sociais e
gra oficial da Repúbltca Popular da China. oütra da intervenção sobre essas práticas. A primei-
fA, que denominaremos de $estão in vívo, tefete-se ao
tnodo como as pessoas resolvem os problemas de co-
Do "ínvívo" p&ra, o "invitro"
ilUnicação com que se confrontam cotidianamente.
As intervenções que acabamos d.e mencionar so- ESSa gestão resulta em "línguas aproximativas" (ot
bre a transcrição das lín$uas, seu léxico ou sua padro- pidgins), ou ainda em línguas veiculaÍes que são "cfia'
ntzação implicaÍrL que se pode mudat ahn$ua. OÍa, as das" (como o munukufiiba, no Con$o) ou "promovi-
línguas sempÍe mudatam) porém mud.araÍn de outra das", isto ,é, umalínguajá existente que tem suas fun-
maneira: sem intervenção do podeÍ, sem planejamento. ções ampliadas (como o bamb ata no Mali, o wolof no
Quando se estuda a histótta da escrita, PoÍ exem- Senegal ou o inglês no mundo). Em ambos os casos,
p1o, verifi.ca-se que nalenta evolução que vai dos pÍi- rcja a comuntcação asse$unda $raças à "criação" ou
tnrefuncionaltzação" deuÍnahíngta, isso não tem nada
meiros cuneiformes mesopotâmicos aos silúários e à
depois aos alfabetos, é a prátttca social, em resposta às * ver com umadecisão oficial, com um decreto otl urna
necessidades sociais , Qúa desempenhou o papel mo- leir tem-se aqui, simplesmente, o produto de uÍna prât:r-
tor. Da mesm a rnaÍteira, o léxico das lín$uas semprc eâ, Aliás, essa prâttca não resolve apenas os problemas
esteve em mutação, através da neolo$ia espontânea do plurilingüismo. Dessa forma, todo dta, em todas as
AS políncns Lt NG ü ísrlcns os TNSTRUMENTos Do pLANEJAMENTo l-llleüísrlco 73
72

na púlicidade, nos programas de televisão, na rfií-


zes, Sobre o arnbiente lingüístico, a uma conquista ou fecon-

sica etc. Mas, ao mesmo tempo, quando Se estuda de quista desse ambiente poÍ Ltnguas ç1ue haviam sido ex-
perto uma situação sociolingüística e se conhecem bem cluídas. Da mesmamarLeita, entre 7970 e 1980, as ruas
as línguas e as variantes lingüísticas em contato, consta- de Argel conheceraÍn do ponto de vista do ambiente $â'

ta-se que muitas delas não ap)afeçeÍn nessas mídias. fico, umamudançatotal: o ârúe substituiu o francês eÍn
É essa presença ou ausên cia das línguas sob a for- todas as situações evocadas acima. E essa m&rc&çã,0 de
ma oral ou escrita na vida cotidi ana que chamâriios de território, seja produto de prátlicas espontâneas ou de
ptâttcas planejadas, nos fornece um instrumento de 1ei-
, amb irent e tingüktic q .Pode - se, p or exemplo, elab ot aruma
ã firra semiológtcada sociedade: entre as lín$uas em conta-
geografia de Nova York apafitr das línguas ç1ue podem
ser lidas nas placas de lojas (inglês, chinês, italiano, to há aquelas que são expostas e outras que dificilmente
ârúe etc.) e acomp anhar, também, as mudanças em se faz,em notar; e isso eslá vinculado a seu peso sociolin-

curso através das vafuações desse ambiente. Dessa for- güísticoeaseufuturo.


ma) à medida que se aproximava a data da rettocessão É por essa mzãoçpe o planejamento lingtiístico agrfâ
pela Grã-Bretanha de Hong Kong à China OgSf), foi sobre o ambiente, paraintervir no peso das l:rrguas, na sua
possível per ceher uma progressão da presença do chi- presença simbolica. Mais uma vez, aação invítro utiliza os

nês e uma regressão da do inglês no ambiente lingüístico meios da a@o in vivo, inspira-se nela, mesmo que dela se
de Hong Kong no decorrer d.os anos 1990. diferencie ligeiramente. Entre aprâttca espon{aneade um
A situ ação de Nova York, de Hon$ Kon$ ou de qual- açougueiro norte-africano que afixaem seu estabeleciúen-
queÍ outra capttal, rtca em informações, eslá relaciona- to em Paris a sua ruzão social em átrabe, poÍ exemplo, e a
da ao in vivo, mas o planejamento lin$üístico pode tarn- intervenção dos poderes púlicos exigindo que essa razão
hémintervir ín vitro sobre ela. De nada adi anta, na rcalt' social seja tafiúém indicadaem francês, que ela seja então
dade,pÍover uma hínguade um alfabeto se ele não aparc' fraduztda, pode-se observar aí a vontade de manifestar
ce ftavida cotidiana dos falantes dessa Ltngua. Assim, âs uma identidade através da língua (neste caso, uma língua
placas indicando o nome das ruas, os sinais de trânsito, escrita) e duas abordagens diferentes desta busca
as placas dos caÍros, os cartazes publicitÉmos, os pfogra' identitária: uma passando pelos comportamentos espon-
mas de râdio ou televisão são lugares privilegiados de tâneos e outrapelainterven@o da lei.
intervenção para a promoção das lín$uas. Um viajante Mas a função dessa marcação de território é a
que desembarcasse nos anos 1990, poÍ exemplo, no ae- mesma nos dois casos. Uma inscrição em ârabe, chi-
roporto de Bihao ou de Barcel orta) após vinte anos de nês ou húraico nas ruas d.e Nova York ou de Paris cons-
ausência2 se surpreenderia com a prese nçada língua basca titui uma mensagem em dois níveis. Primeiramente, ro
no primeiro caso e do cataTão no se$undo, presença que nível da de no tação, a merLs agem limita consideravelmente
se deve, evidentemeÍrte, a LtÍna intervenção planej adota seus receptoÍes potenciais (somente os ç1ue sabem ler es-
t ..4

74 AS POLIÏICAS LINGUISTICAS OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO LINGÜíSTICO 75

sas ïínguas podem decodifïcar a mensagem). Mas, ao in vitro deve, por sua ve%, se impoÍ aos falantes e, para
mesmo tempo, no nível da conotação, a inscnção cons- 'isso, o Estado dispõe essencialmente da lei.
titui outro tipo de mensa$em: mesmo quem não sabe A lei é, segundo o dicionârro,uma "regraimperati-
ler ârabe ou chinês pode, entretanto, reconhecer esses va imposta às pessoas a pafiir de fora". o que significa
sistemas $ráficos, Wapresença desemperúa, nesse caso, que as leis não se aplieatrLaos objetos, aos bens, mas ao
um papel simbólico, um papel de testemunho. Assim, uso que os homens fazem desses objetos, desses bens.
a inscição em ctma da porta de um restautante, que Para dar um exemplo simplish, uma lei não pode impe-
indica em chinês "restaurante cantonês", díz duas coi- dtr prédios de se incendi arem ou proibir o dinheiro de
sas. Por um lado, üz àqueles que sabem ler chinês, "este desapare ce\ mas pode proibir as pessoas de pôr fogo nos
é tmrestaurante cantonês" e ü2, por outro lad.o, àque- prédios ou de roubar o dinheiro. Além disso, o direito só
les que não sabem ler chinês, "isso é chinês'1 E se mui- pode intervir sobre o que é jundicamente definrvel. Des-
tas lojas, um a ao lado da outra, aftxam sua razão social B0 ponto de vista, é possível questionar o sentido da no-

em chinês, a coexistência dessas inscrições dirá "esta é ção de lei lingüísttca ou de direito lingüístico. A língua
uma rua chinesa" ou "este é um bairro chinês". Esse pode ser újeto de lei?3 o que é certo é que os Estados
duplo nível de leitura nos mostra a importância do meio intervêm freqüentemente no domínio lin$iístico, respon-
grâfico. Quando o Estado toma a decisão de intervir dendo a esta pergunta de maneir a prâtrca e evitando o
nesse domínio, ãlíngua que é afixada pode não ser lida debate teórico, mas eles intervêm de fato nos comporta-
pela maioria das pessoas (isso depende, evidentemente, mentos lingüísticos, no uso das Línguas. Isso ocoÍïe por-
do grau de alfabefrzaçáo da população), mas ela é per- que as políticas lingüísticas são geralmente repressoras e
cebida, entretanto, como o que ela é: uma lín$ua escri precisam, por essa tazão, da lei paruse imp or não existe
ta; e sua presença simboliza,logicamente, uma escolh:r ylanej ament o lingüí stico s em sup ort e i urí dic o .
política. No capínilo v, veremos um exemplo desse tillo Faz-se necessámo distinguir, neste momento, entre
de intewenção com o caso da arúização nos países tlr lnúrneras concepções de leis lingüísticas. lHâ, de fato:
Afnca do Notte. As leis que se ocupam da forma da línguâ,
fixando, por exemplo, a grafra ou intervindo
no voc abulâno por meio de listas de palavras.
III - As leis lingüísticas As leis que se ocupam do uso que as pessoas
Quando uma decisão é tomada, uma opção é est,,, fazem das hínguas, indicando qual hnguadeve
thida, é preciso fazer com que ela se encaixe nos fatos
Ao contrário da gestão in vivo, nà qual a mudança s(' ll. Ver a esse respeito R. Rouquette, "Le droit et la qualité dela
propaganaptítttca dos falantes poÍ uma forma de corr httgue", inJ.-M. Eloy (otg.), La qualité delalangae ? Le cas-dufrançais.
senso que é necessário esfudar com precisão, â $esl;tn P:ris: Champion, 1995.
7 6 AS PoLíTtcAS Lt NG ü ísrtcns os TNSTRUMENToS Do pLANEJAMENTo LrNGüísrrco 77

ser falada em dada situação ou em dado mo- ffiâ, existem as legislações internacionais que fixam as
mento da vidapifulica, fixando, poÍ exemplo, línguas de trabalho das organtzaçóes internacionais
alíngua nacronal de um país ou as línguas de (ottru, unesco, corte Internacional de Justtça etc.) ou
trabalho de uma organtzação. que protegem as minorias lingüísticas (como a Decl&r&-
o As leis que se ocupam da defesa das línguas, ção sobre os direitos das pessnes pertencentes a minorias
seja para assegurar-lhes uma promo ção maior nacionais ou étnicas, religiosas e Lingüísticas, adotada pe-
(internacional, poÍ exemplo), seja paraprotegê- las Nações Unidas em 7992), legislações nacionais (que
las como se protege um bern ecológico. se aplicam dentro dos limites de um Estado) e legisla-
Evidentemente possível aprofundar-se ainda mais
é ções regionais (por exemplo: na Catalunha, na Galiza,
nos detalhes das legislações lingüísticas e tentar elaborur no País Basco). E jâ se pode logo imaginar qúe apare-
uma tipologia. Joseph Turia, poÍ exemplo, propôs uma çam contradições e oposições entre esses três níveis.
classificação relativamente complexa, que faz pnmetra- Num segundo momento, é preciso fazer uma distin-
mente uma distinção entre as legíslaçõeslingükticas estru- ção segundo o nível de interv enção jurídíca. Em al-
turais (que intervêm no status dasKnguas) e aslegislações guns casos, a situa ção lingüística é definida pel a pró-
lingüísticas funcionals (que intervêm na utili zação das Lín- pria constituição. É o caso da Esp anha, por r"r*plo,
guas). Entre estas últimas, ele faz em seguida vma dis- que no artigo 3 de sua constituição de 7g7g distingue
tinção entre as legislações lingükticas oficiaís (que inter" entre a língua oficial do Estado (castelhano) e as lín-
vêm no uso oficial das línguas), legislações lingüística.s $uas oficiais das comunidades autônomas (o basco, o
institucionais (qte ttatarndo uso não-oficial das línguas)., eatalão, o galego). E* outros casos, a situação lingüís-
as legislações lingüísticas padronizadlrfrs ou não tica é definida por uma lei (nacional ou regional) , ehá,
p a dr o niz ador a s, as leg í sl a ç õ e s lingük ti c as m aj orít á,rí a s (q t r,' casos em que ela é, enfim, definida por recom enda-
protegem as línguas de uma maioria) e as legislações liu
ções, resoluções, cuja forya de lei é menor, visto que o
güísticas minorítárías (qut protegem as línguas de uln:r nÍvel de inteÍvenção jurídtça condiciona sua efrcâcia.
minoria) etc. Tudo isso, como se vê, é extxemamente conr Se uma lei lingüística nacional pode ser, de acordo com
plicado, mas como a lei é urn dos princrpais instrumcrr oË casos e as escolhas, incitativa ou imper ativa, uma
tos do planejamento lingüístico, faz-se necessámo pôr ttrrr resolu ção tomada por uma organi zação internacional
pouco de ordem nessa profusão. tem pouca chance de ser aplicada fora dos casos em
Distinguiremos as leis lingüísticas, inicialmeÍrlr ,
gue se ftata de uma legisla ção rnterna, visando, por
segundo seu campo de aplicação geogâfica. Dessa Íìu ËNemplo, fixar as línguas de trabalho dessa organiza-
çâo. Quando se conhece a Lncapacidade de um orga-
4. Joseph Turi, "Le pourquoi et le comment du f,lsmo como a oNU ou a Comunidade Europ éra dran-
linguistieÍa", in Langage et Societé, fro 47,7994, Ottawa. tg de problemas mais importantes, só é possível consi-
78 As polírrcns LtNcüÍsrrcns OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO LINGÜíSTICO
79

derar suas intervenções no domínio da proteção das etnonímica, que pode testemunhar uma aproximação
minorias lingüísticas como brincadeiras de criança. fonética (quando na Ãfrtca,por exemplo, ã hngua
hã_
Tudo isso pode ser resumido no quadro abaixo: mana transfoÍmou-se eÍn hambara, oLto pularirc tor_
nou peul), uma alusão pejorativa (quanao os índios
Nível de intervenção
shuars são chamados pelos espanhóis de jibanr,s,
geográfico jurídico isto
é, camponeses) e às vezes um desejo identit
ârio (q,run-
do o congo Belga se torn ou zaíte e, depois, República
internacional constituição
nacional lei Demouâttcado conso). Rainer Enrique Hamei p*rr._
regional decretos be nessas práticas "a expressão de pãfti.as liniriísti-
resoluções cas que existem desde que os seres humanos
Íecomendações se orga-
nuzaram em socied ade e arnplia taÍn suas relaçõr,
ã,
contato, de troca e de domin ação diante de outras
so-
ciedades que eram cultur ar elingüisticamente
diferen-
tes"S. De fato' ness a matéÍ*a,"*?, ngliti-ga_ringtiistic-a co-

StçÍ lealmente qg+ndo se rerìõmëïã; e üilaõs ãróitó,


das leis lingüísticas pode se manifestar simplesmente
no nome que o texto jurídic o dâ às línguas. Acabamos
de observaÍ que, de acordo com a constituição
espa-
nhola, a língua oficial do Estado é o castelhano,
forma das línguas uso das línguas defesa das línguas e esta
denorninação pam uma língua que todos chamam
de
Mas este quadro geral não esgota todos'os pro- espanhol já constitui um fato de pol rtica lingüística.
blemas da intervenção jurídica sobre alíngua e sobre De fato, ao sugerir relações entre-alíngua euma
re-
as línguas nem os efeitos colaterais desta intervenção. gião do país, castela, evidencia-se que
não há corres-
pondôncia termo a termo entre o puír, a Espanha,
ea
língua, o castelhano (ex-espanhot). Ao tornar-se
Nome&r ãlíngua ofici-
almente "castelhano", o espanhol não mudou, conti-
Segundo a Bíblia, Deus criou o mundo e nomeou nua a mesma lín$ua. Mas c&stelhano deno ta ames-
.se
seus constituintes. Entretanto, desde então, os hornens coisa que espanhol, ele ôònôt a algo completamente
Ti
não pataram de renzrne&r o mundo: os nomes dos diferente. Da mesma manei ra, nalnãonésia,
*dri;,
povos, os nomes dos lu$ares não pataram de vartar, "
de acordo com as invasões ou alternâncias de poder. 5' Rainer Enrique Hamel, "Politicas y planificación
del lenguaje:
Desse modo, hâ uma constante valsa toponímica e una introducción", in Iztapalap&, ÍLo zg, rgg3, México.
80 AS PoLíTrcAS LINcüísncns os TNSTRUMENToS Do pLANEJAMENTo LrNcüísrrco 81

ao tornar-se híngua oficial, foi rebattzado de bahasa o soninkê) $entre as cerca de vinte Línguas faladas no
indonesia (língua i.ndonésia), com o mesmo tipo de país. Em Camarões, em contrapartida, ao lado das
vaúações conotativas. É de se prever que inúmeÍas duas línguas "ofrctais", todas as línguas africanas fa-
línguas, atualm ente tratadas de modo $enértco como ladas no território do país, mais de duzentas, são con-
crioalo.s, venh ama seÍ, nos próximos anos, rebattzadas: sid.eradas ltnguas nacionais. E esses dois exemplos nos
haitiaflo, reunionês, guineano , martiniquês, cabo- rnostram que a denominação das funções da lín$ua
verdiano* ou mauriciano; e a função de cada denomi- pela lei tem repercussões evidentes sobre as possibili-
nação será revalotizar simbolicamente essas formas dades de política lingüística. É possível tmagrnar, de
lingüísticas e insistr na sua dimensão identitârta. fato , rtma política lingüística que trate, como no
Senegal, de seis línguas nacionais, mas é, dtfícil conce-
ber uma política lingüística que englob e duzentas Lín-
Nornear esfanções
guas. Seria particularmente impossível introduzir to-
Outro efeito dessas leis está na denomina ção das das elas na escola. . . Mas essa distinç ão entte lín$uas
funções das línguas. Língua nacional, lín$ua oficial, ofïciais e línguas nacionais nã o é, a anica pratrcada na
língua regional, língua "própria"; encontram-se nos Afrtca. O artiÊo 7 da Constituição daMaurttàniaesti-
textos legais numerosos qualifïcativos qlle fazem refe- pula, por exemplo, que:
rëncia às funções daLtnÉua ou das línguas e que nem o o ârabe é alíngua oficial do país;
sempre têm o mesmo sentido. Se, paraum fuancë,s, os o o hass antya, o pula at, o saracolê e o wolof são
adjetivos "nacional" e "oftcial" aplicados à lín$ua po- as línguas nacionais;
dem parcçer sinônimos, na Afrtca francófona eles têm o o francês e o inglês são as línguas de úerfrira.
sentidos muito diferentes: aLíngua"oftctal" é alíngua Enfim, €ffi certos casos, a lei não escolhe entre
do Estado, geralmente o francês (co-oficial com o in- essas diversas possibilidades. Assim, a Constituição
glês em Camarões e com o sango na República Centro- ftancesa determinoü, desde 1992, que "a ftancês é a
Africana), enquanto as outras línguas "nacionais" são língua da Republtca", sem determinar se ela é ahnÊua
algumas línguas africanas ou todas as lín$uas afttca- oficial ou nacional.
nas do país. Desse modo, no Senegal, ao lado do fran-
cês, Itngua "ofi.cial", âlei distingue seis línguas "nacio-
Princípio d,e terrítoríatidad,e ou d,e persnnalidade?
nais" (o wolof, o sereÍe, o diol ã, o mandtnsa, o peul e
Todos sabem que hoje em dia não há, necessaria-
. De fato, confï.rmando a previsão d.o autor, o antigo "crioulo mente coincidência entre uma língua e as fronteiras
do Cúo Verde" passou a ser oficialmente denominado lqabuverdianu
de um Estado. Sabe-se, também, que há, Línguas que
(n. da trad.). são faladas em um território menor que o do Estado
82 AS PoLíTrcAS LrNGüísrrcns
OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO
LINGÜíSTICO 8 3
(o bretão naFranç â, o galego na Espanha) ,
enchâlín- guas, e também sobre a gestão do país.
$uas cujo território se sobrepõe às fro ntetras interes- o princÍpio de
territonalidadt tplicado na Suíç a,porr*r*pl
tatais (o basco ou o catalão entre a Fra nçae a Esp anha), o, gaìantiu
um futuro melhor ao roman che, mas o prinãipio
que hâ, enfim ,línguas que são dorninantes em vários da
territotialidade não garantiu amesma situa
Estados. Existem tamhém os impérios lingüísticos ção ao ga-
lês no País de Gales.
(fu ancófono, anglófono, hispanófono, lusófono,
Mas essas situações (nérgica,suíça, país de
arabóforlo...). Mus, como mencionamos, a política lin- Gales)
são relativamente simples se comparadas
gúística continua tendo, na grande maioria das vezes, às de países
extremamente plurilíngties coïno o sene ga],
uma dimensão nacional: ela intervém em um tervitó- por exeÍn_
plo. Ali são faladas mais de vinte línguas,-sei,
rio delimitado pelas fronteir&s. Ora, existem outros du, quais
são consideradas "nacionais" (wolof, serere
casos possíveis: as diásporas e os grupos de mrgrantes,
ga, peul, diola, soninkê), às quais
, mandin-
poÍ exemplo, que não se definem pelo território que é preciso acrescentar
alín$ua "oficiú", o francês. Se no fufuro fosse
ocupam mas, sobretudo, por sua dispersão, Foi isso tornada
a decisão depromovet as 1ínguas nacionais
que levou a distinguir, nas políticas lingüísticas , entre a novas fun-
ções (função de ensino, por exemplo), seria necess áno
g qïi"çl,qig_d e Wri/_grialidade e o princípio de,perso-
escolher enfre dois grandes tipos de soluções:
nalidade: No primeiro caso, é o território que ''deter-
1. Poderia se tomar a decisão de que o wolof, o
mina a escolha dalíngua ou o direito à língua: apren-
peul, o diol a etc. seriam ensinadãs nas regiões
de-se o catalão numa escola da Catalunha, o holandês
do país onde são dominantes como línguas
na pafte flamenga da Bél gica etc. E esse o princípio
maternas, isto é, dividir o território em seis
que estava na base da reforma do ensino empreendida
regiões de ensino. Foi a decisão escolhida
na Guiné durante o governo de Seku Turé e abando- na
Guiné de seku Tur é. Adificuldade está no fato
nada em seguida6. Ir[o segundo cas o, â pessoa que per-
de que um wolof que more na região do rio
tence a um grupo lingüístico reconheiïão tèm o direito
senegal deverá, ser escora nzado eÍn peul, que
de falar sua língua, não importa emque ponto do ter-
um diola que more em Dakar será escola n ãdo
ritório: por exemplo francês ou holandês em Bruxe-
a, t a

emwolof, e que (o inverso) uÍn wolof morando


ïâs, inglês ou francês no Canadâ etc. ou ainda, uÍn
na casamansa será escolanzado em diola etc.
estrangeiro vivendo na França tem o direito a um in-
t&ptete diante de um tribunal. A escolh a entre os dois
2. Poderia se tomar a decisão de que os falantes
das seis lín$uas oficiais teriam direito a urn
princípios tem rcpercussões sobre o futuro das lín-
ensino na sua línguaonde quer que se encon_
trassem. Mas a dificuldade estaria na neces_
6. Ver Calvet, La guerre des langues et les politiqws
sidade de abrir escolas para peuls, para wolofs,
linguistiqaes. Payot, 1987, pp. 176-180.
pata mandingas etc., e ainda assegu tat em
OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO LINGÜíSTICO
85
AS polírtcns LINGüísrlcns

todas as escolas um ensino nas seis lín$uas. Essas situações dão outro sentido à expÍessão
,,direito à língua,,. o fato de não falar ahíngua do Es-
Imagine-se o custo da operação, ainda que às
vezes seja possível combinar o princípio de tado prrva o cida dao de inúmeÍas possibilidades so-
territorialidade e o princrpio de personalidade. ciais, e consideÍamos que todo cidadão tem direíto à
Dessa forma, o princípio de personalida{ e é língua d,o trstad,o, isto é, que ele tem direito à educa-
çã;,à alfab ettzação etc. Mas o princípio
aplicado em tòdo o Cana dâ, enquanto o prin- de defesa das
cípio da territorialidade só é aplicado no minorias lingüístic as faz com Qü€, para\elamente, todo
Qaébec. Mas neste caso há somente duas lín- cidadão terúa d,ireito ã, suã, língua. Assim, a situação
guas em jogo e as coisas seriam muito mais de um francèsbretão não é amesma de um marÍoquino
complexas com seis, dez ou vinte línguas. que fale o beú eÍei o primeiro fa[a, de todo mod.o, o
(o bretão);
francès e reivindica o dirrito à sua híngua
quanto ao se$undo, pode ser que eke não fale nem leia
O direíto àlíngua
o ánabe oficiál, encontrando-se duas vezes prejudica-
Tratamos até aqui do direito lingüístico, ou seja, do (porque sua [ín$uanão é tecoúecida e porque ele
da intervenção da lei no domínio da forma, do uso ou não domin a alín$nreconhecida)'
da defesa das línguas. I.{o que concerne à form a e ao Portanto, uma política lin$üística pode dar conta
uso, a Let, se for aplicada, constrange o cidadão. Ela o ao mesmo tempo do direito à língua do Estado e do
obriga, por exemplo, a falar uma ltnguaem determina- direito do indivíduo à língua mas, como no caso dos
da situ ação e de determinada maneira. PoÍ outro lado, princípios de territorialidade e de personalidade, isso
quando se trata da defesa das línguaS, â lei pode cons- será pÍoporcionalmente mais difícil quanto mais Íru-
tranger as instituições: entramos aqui no campo do di- meÍosas forem as lín$uas em jo$o'
reito que os indivíduos têrn a uma língua. Num primei-
Ío momento, a expressão "direito à Lín$ua" nos remete
Conclusão
à proteção das minorias lingüísticas, e o próprio fato
de se falar em proteção morttu até queponto elas estão seja paraequipar as lín$uas, intervir no ambien-
ameaçadas. Mas hâ tarúém, mundo afora) rtm grande te lingüístico ou paÍa legisl aÍ, o planejamento lin$üís-
número de países nos quais os cidadãos não falam a tico consti ln in vitro umaespécie de répltca dos fenô-
lingüâ dó È.iàao. É, putã.,r1armênte, ò caso dos países menos produzidos continu amente in vívo. A lingüísti-
afrtcanos nos quais a língua oficial (inglês , francês ou ca nos tem ensinado çlue as lín$uas náo podem seÍ
português) é muito pouco falada, oü dos países da Áfri- d.ecretadas, mas que são produtos da hist1rta e da
ca do Norte nos quais o ánabe oficial tem pouca relação prâttca dos falantes, que elas evoluem sob a pressão
com o ârúe falado e menos ainda com o berb ere. de fatores históricos e sociais. E, paradoxalmente,
:úr]jisiaiffiíiffiffip:,, ;;F

As PoLíTtcAS Ll NG Ü ísrtcns
86

existe o desejo de intervir nesses pÍocessos, de querer


modifi caf o curso das coisas , de acomp at*tat a mu-
dança e afriar sobre ela.
Essa pretensão pode parccer eÍroÍme. Mas aS Íe-
lações entie o in vívo e o in vitro que acúamos de cApírulo rv
mostr ar e o fato de que o plan ejamento lingüístico, d"e
cetta forma, "imi ta" o ctlÍSo natural da evolução das
A AçÃO SOBRE A I-íNGUA
hínguas nos mostr arn que o primeiro instrumento do (o coRPUs)
planejamento lingüístico continua sendo o lingüista.
análise, da aLça'
s, u política lingüística é, emúltima
da dos decisores, nenhuÍna decisão pode ser tomada
sem uma descri ção precisa das situações (probl eÍna Quando propõem uma intervenção na forma da
Itngua, âs políticas lingriísticas-'pod"em ter diferentes ob-
visto no capítulo anterioï), do sistema fonológico, jetivos: fixação de uma escrita, enriquecimento do léxi-
lexical e sintático das línguas em contato etc., e
co, luta contra as influências estrangeiras ("purifi cação")
tampouco sem que se levem em consid etação os senti-
padronização etc. Neste capífulo, apresentaremos, bre-
*r*1os Hngüísticos, âs relaçóes que os falantes estabe-
vemente, alguns g.ãgmos desses tipos de intervenção.
lecem com as línguas com as quais convivem diaria-
mente. A política tem sido definida como a arte do
possível. Àplicada à política lingüística, essa proposi- I- O problema dalíngua nacional na China
çáoevidencia o pup.i fundamental do
lingriista. É ele
pode indicar o çlue é tecníçarnente possível fazer e
A idéia de que se fala o "chinês" na china é sin-
ç1,,e
gularmente redutora. Além das línguas minoritárias,
o que será psicologicamente acertâvel pelos falantes.
em torno de cinqüenta, faladas por cetca de SYa da
Toda a arte da polítrcae do planejamento lingüísticos
populaÇão, existe um vasto conjunto composto por oito
está nessa complementaridade necessária entre os ci-
línguas diferentes, as do $rupo han: a língua do Norte,
entistas e os decisores, nesse equilíbrio instável entre
o wu, o xian, o $an, o min do Notte, o min do Sul, o Yuê
as técnicas de intervenç áo e as escolhas da sociedade.
e o hakkal, elas mesmas divididas em mais de 600
dialetos locais. Isso significa que o país está longe de
ser lingüisticamente unificado: ainda que todos os hans
utilizem o mesmo sistema de escttta, eles não pronun-

1. ver A. Rygalotr, Grarnmaire elrmmtaire du chirnis.Paris: PIJ$ lgZs.


88 AS PoLíTrcAS LrNGüísrrcns A nçÃo soBRE A r-írueun (o coRpus)
89
ciam os caraçteres da mesma maneka, não têm a mes- foi definida ern 1956 em rcLação a sua pronúncra (de
masintaxe; em suma: os chineses não se compreendem Pequim), a seu léxico (dos dialetos do Norte) e a sua
entre si de um canto a outro do país, quando falam sua
sintaxe (da literatura embaihua).
língua materna. É por isso que alíngua do Norte (bati-
A partir daí, a forma dessa língua sofre diversas
zada,nessa função, de guanhua) foi logo utiliz adacomo
intervenções, principalmente no dornínio da escrita.
Língua veicular da administração, como língua do fun-
cionalismo público. Paralelamente, esse funcionalismo
A pafi* de 1955,o governo socialista publicou vma
público utiliz avauma línguaescrita clássica, norm atrza- lista de 515 catacteres e 54 partículas simplificadas,
da, o wen Uetu, que se difercnciava do bai U&fr,hngua de a fim de factlita4 através da rcdução do número de
literatuÍa popular, do teatro etc. traços, a aprendizagem da escrita3. Em seguida, em
Em 1919, durante o movimento de 4 de Maio, os 1958, criou-se um sistema de latinização aa rn
Êra, o
esfudantes e os intelectuais conclaÍnatamos escritores a pín uin, com uma função normalmente auxiliai:
aJu-
substituir a forma escrita cf,âssica do chinês, o wen Uan dat na aptendtzagem dos catacteres, servir ao ensino
(considerado como símbolo da ordem antiga), pelo bai do chinês como língua estran gera, redigir os tele gra-
hua (mais próximo da LínÉua falada, mais familiar). mas etc. Mas, ao mesÍno tempo, numerosos indícios
Oralmente, súrepondo-se às hnguas locais, â línguauti- apontavam para uma possível inte nção do Estado de
lizada na administração do Estado continu ava a se di- substifuir $tadualmente os catacteres por essa trans-
fundir. Tratava-se sempre do guenhua ("Iíngua dos fun- crição. Sobre isso, urna frase de Mao eÍa contin ua-
c;lonâtios" ou "Língua dos mandarins"), conhecida no mente cttada: "Nossa língua escúta deve ser reforma-
Ocidente pelo nome de mandarim. (palavra cnada so- da, ela deve seguir no rumo da foneti zação comuÍn
a
bre o verbo português mandar). O movimento de 4 de todas as línguas do mund o"4. Em 7977, no entanto,
Maio, naturalmente em favor dobaihuano que concerne uma nova lista de cafacteres simplificados foi
à língua escrita,rcclamavatafiúém a emergência de uma public ada, dando então a entender qut a nova versão
Iíngua de unificação, o gul Uu ("Língua nacíonal"). Foi se diri$tamais uma vezà reor gantzaçãoda esc
ritaclás-
depois da revolução comunista de 7949 que se instalou o sica. Mas essa reforma foi abandonada devido à pres-
problerna da normaltzação dessa ltngua de unificação, são de um movimento de opinião no qual o escritor pa
doravante cham ada pu tong hu,a ("língua comum"),, que Kin desempenhou um papel de destaque. Esse movi-

" A verdadeira etimologia de mandarim é o termo sânscrito


3. ver L.-J. calvet, La guerre d,es langues et les politiqaes
mantri, "conselheiro de Estado", que passou para o malaio como linguistiqaes. Paris: payot, lggZ,
mantarl. Pode ter havido uma confluência desse étimo com o verbo
pp. 225_225.
4. w. I,ehmann (org.) . Language and Linguistícs in the peopre,s
portuguës mandãr, mas é só uma hipótese (n. da trad.).
Repablíc 0f china. Austin: universiiy of Texas press,
2, A denominação gal Uu foi conservada em Taiwan, razão rgTS, p.51;
zhou Youguang, "Moder mzation of the chinese Languagc,,
pela qual os comunistas a mudaram.
InternationalJowrnal of the sociologg of Langtrege,no 59,
, in
19g6.

A nçÃo soBRE A Lít{sun (o coRPUs)
AS polÍrtcRs LlNoÜísrtcns
90
O putonghua,tal como falado pelosbilín$ües,
sofre quase sem-
rruito $rande da
mento defendia que uma modifi caçáo pre distãrções mais ou menos $raves, que atin$em seu sisteÍr1a
parte
escrita acabana desfïgurando e perdendo uma ionológico. por exemplo: certos traços fonológicos
do patorryhun
que nos dialetos,
importante da her ançacultgral han. Não é sempre e as dife refic'ações que eles permitem não existem

tâtto como o da China recrta dessa incluindo os dialetos do tipo Nortes'


um poder autori
maneir â, Q esse episódio confirma o çlue foi apresenta-
Paradifundir uma hín$uauniformiz ada, o $overno
uma
do no capítulo anterior: é dificil impor in vítro dispõe de certo r{tmero de meios: a televisão,
o cinemâ, â
duas hi-
reform a re4ertada in vivo. Essa oscilação entre escola... Mas a escola desempenha seu papel imperfelta-
poÍ um "diúeto" '
póteses, refo ffnat os caracteres ou substituí-los mente; muitos dos professofes d-ão aula em
técnica' A
sistema de base fonrâttca, não é somente seu conhecimento do putonghuaó insuficiente
etc-Acres-
especificidade da situ açáo lingüística chines
a faz com fato allngua náo desfrutar de
centemos a isso o de ãss
chineses do Nor-
custas de algumas mu danças, tod'os os popular. se as pessoas
Ç[üe, às um movimento de adesão
possam (graças a esses te, sobretudo as d.e pequim , a falam sem muitas
dificul-
fossam ler esses caracteÍes e
sua lín- aáa.* (mas os pequineses Íepresentam menos de LTo
da
caracteres) escÍever tanto o pu tong hua como
suas
o \ilu etc. A mudançapara o população), o rãstã da população han prefeteutthzaÍ
$ua materna, seja o hakkâ,
afecef nessa :uttrtzaçáo
pi" Uin mudari a tadtcalmente essa situação, visto
q1le
ãràpriu, ti"srras e deixa transp
uma úni- fortes sentirientos identitários. Assim, em duas das três
uma transcri çáo fonética só pode consideraf a situ açáo do
a lín$ua oficial' maiores cidades do país, xangu e cantão.
ca língúa e essa seria naturalmente lín$ua nacional
d'elineua- pu tong huanão é exatantente a de uma
Assim, PoÍ trás de um debate sobre a escrita,
que diz respeito acetta poÍ tod-os.
se um outro, muito mais importante,
mail'ltenção desses
ao futuro lin$üístico do país: a Bm Xan$ai, o putonghua pouco falado na escola;nos serviços
é
sobrevivência que não
carasteres garãntiri a) ern certamedid à, ã públicos, o sentimento xenófobo em relação àqueles
seria' evi- falam o shan$ ayefise manifesta de tal forma
que che$aa seÍ
d,asltn$uas han, e a passa$em à rom afir'ação
é evidente
a irnposiçao d,, u*ohín$ua
(o pu tong'u-o) ' alvo de ataque nos jornais (. . .) Quanto a cantáo,
dentemente, habitan-
que o prúlem a dahng,n(a preferência lin$üística
dos
De mod,o mais amplo, a políttça de d'esenvolvi- econômicos e
do país' trr) .rt ârelactonad.o com os inúmefos contatos
mento do pu tong h,ua criou, em $tande parte de Hon$ Kong'
as crianças, comerciais entre os húitantes da cidade e os
uma verdad e'ra situação de bilin$üismo: por isso tudo, a utrlidade prag mâlrcado cantonês é incomp atâ'
poÍ exemplo, apÍendem primeiro a lín$ua que seus vel. Nos trabalhos que mais attaemos
jovens (aqueles que os
pais thes t urrr*item (qtt continua sendo chamada colocam em contato com pessoas que vêm de
Hong Kong)
o
oficialmente de "dialett') e adquir em, em se$uida'
Essa lín-
pu tong hua (mais freqüentemente na escola) ' de chinois contemp oraiÍ!" in J. Maurais
graoficial está natuialmente submetida à influência
G,problèmes
(org.), La crke dnslnnguns. Paris: Rúert, Governo do Québec, 1985,p' 421'
d.os falares locais:
A nçÃo soB RE A lírue un (o coRPUSl 93

exige-se dos empregados


"*
ur;:t:;ï; ;l:ff; Voltaremos a essa hipótese a propósito d.e outros
akémde um relativo domínio do inglês e do puton$hua6' estudos de caso.

Podemos obs ewaf que a políticade difusão de uma


línguanacion aI na China esbarr a eÍn muitas dificulda- U - Intervenção no léxico e na orto$rafia de
d.es. Algumas não são novas e podetão seÍ resolvidas uma lín$ua: o exemplo do francês
com o tempo. A situação lin$üística da Frafiça na épo'
ca daRevoluÇão, por exemplo (muito semelhante à si-
Para defendeÍ sua hn$ua, aEtança dispõe de es-
tuação da China de hoje), não impediu que alín$ua
francesa se impusesse, em dois séculos, como Lín$ua truturas anti$as (como a Academia Francesa) e de ou-
itnica. Mas a principal dificuldade da China, hastante tras mais recentes (como a Delegação Geral pafaaLín'
gua Francesa) e interv ém essencialmente no domínio
específica, reside no fato de se trat at de um país muito
da terminologia. Essas intervenções se manifestam prin-
gr:ande. Será que é possível mudar pela lei, por d'ecre-
tos, pela administração, em suma, pof meio do plane- cipalmente poÍ textos legislativos, decretos ou leis.
jamento lingüístico, as práticas lin$üísticas de um bi-
thão e trezentos milhões de pessoas que falam tantas O s " de cr eto s língüístíc o s "
língns diferentes? Só o futuro podetâfesponder a esta
pergun ta, mas se ima$inarÍnos Ç[üo, patalelamentq rtma A partir do início d.os anos 1970, fotam criadas,
híngua como o in$lês se difunde sem problema pelo nos diferentes ministérios franceses, "comissões de ter-
mund.o com uma função veicular, a comp aração das minolo gia" enc,affegadas de elúorat, em SeuS respecti-
duas situações parece indicar que a açáo ín vitro tem vos domínios, o vocabul ânoadequado. Entre 1973 e 1993,
ceÍtos limites. Se, como su$erimos, o planejamento é possível contat 48 poftanas em campos variados como
lingüístico constiírt in vitro uma "imttação" dos fenô- as técnicas espaciais, o furisffio, o audiovisual, a púlici-
menos de mudanças in vívo, essa tendência mimética dade, a agriculfrxa e os idosos. Em 1994, a Dele$ação
talveztenhaseus limites e impossibilidades. Desse ponto Geral paru aLín$ua Francesa reuniu, sob a forma de um
de vista, o exemplo chinês contribuL para a reflexão dicion âno (Dictionnaire des terrnes fficiel,s de la lnngue
teótrcae podemos nos per$untar,como no célebre prin- françaíse), o conjunto de termos e expÍessões
"aptova-
cípio de Peter (segundo o qual todo ernpfe$ado tende, d.os" (é aformul açáo oficial) por esses decretos.
em uma hierurquia, a che$ar até seu nível de incompe-
tência), se as políticas tingüisticas não estã,0 destinadas a @j

Asleislíngüístícas
alcançnr uyn dia 0u 0utr0 seu, greu de ínfficácia. #
Ao conffârto de pases como a Notue$a, aFtança ffi

promulÉou pouquíssimas leis lingüísticas que dtzem ffi


#1
94 AS PoLíT rcAS Lr N c ü ísr r ce s A nçÃo soBRE A lírueun (o colpus) 95

respeito à língua francesa. A primeLra delas, em uÍn uÍn recurso protocolado pelo grupo socialista
período mais recenta, é a lei de 31 de dezembro de 1975 da Assembléia Nacional, o conselho constitu-
relativ a ao empfego da ltnguafrancesa, conhecida como cional anulou muitos artigos e disposições da
"ket Bas-Auriol", substituída depois pela "lei Toubon'1 lei, por julgá-los çontrârios ao arttgo 11 da
Em seguida, veio a lei constitucional de 25 dejunho de Declarução dos direitos do homem e do cida-
1992, acrescentando à Constituição um título: "Das dão. seu objetiv o eÍagriginalmente regul amen-
comunidades européias e da União Européta'1 Esta lei, tar o uso da lín gua fianèèsa para todos os ci-
adotada pelo Congresso (reunião das duas assembléi- dadãos e foi limitado,após a intewenção J;
as) e tendo por objetivo modiftcar a Constituição com o conselho constitucion a7, apenas aos funcio nâ-
objetivo de permitir a assinatura dos acordos de rios no exercícro de sua função. A lei intervi-
Maastricht, acrescenta, na prLmeLÍa aLínea do artigo 2 nha essencialmente em cincá domínios:
da Constituição de 4 de outubro de 1958, a se$uinte o o mundo do trabalho (contratos etc.);
frase: "A lín guada Repitbltca é o francês'1 Até essa data, o as relações de consumo (publicidade em francês);
não havia nada na Constituição que definisse o papel o o ensino (obrigatonamente em francês);
daltngua ftancesa na França. Em seguid a, vierarn duas o o audiovisual (kancês obrtgatorio nos progra-
leis com importâncias diferentes: mas e na publicidade);
- Atanalei "Tasca'1 Elaborada em 1993 pela Secre-
de Estado pata a Francofoni a e pata as
os colóquios, congressos etc. (todo pafitcipan-
te francês deve se expressar em francês).
Relações Culturais no Exterior, essa lei seria
adotad a em 17 de março de 1993 pelo último
Conselho de Ministros do governoBérégovy e
A ortografía
nunca foi apresentada ao Parlamento: as elei- os franceses têm uma re\ação estranha com a
ções legislativas subseqüentes pÍovo catam ortogr afia de sua língua: recla Ínarn sempre de suas
uÍna mudança de maioria e de governo. Ncr clificuldades e incoerências, mas2 ao mesmo tempo,
entanto, ela é mencionada aqulpoÍque consti- não permitern que ela seja modtftcada. Talve z sejapoÍ
tui o modelo da lei apresentada abaixo. isso que as intervenções do Estado nessa matéria te-
A lei de 4 de outubro de 7994, ou "lei Toubon". nham sido sempre extrem amente prudentes e come-
- Adotada em 23 de fevereiro de 7994pe1o Con clidas. Existe um decreto de 26 de fevereiro de 1901
selho de Ministros, suscitou uma vasta polô "relativo à sirnplrficação do ensino da sintaxe françe- ,tl
sfì
r{.

tnrca na opinião púb1ica e na imprensa inter H0" que dá, sirnplesmente, uma lista de exceções orto-

*l

nacional (que, de ÍnarnerÍa geral, zorúou rL r

$ráficas e especi ftca que "nos exames ou concursos


w'
&

França). Em 27 de julho de 7994, depois rlt' tlcpendentes do Minis térto da Ins trução púbhca, que &
..
.

#,

ü
AS PoLíTlcAs LINGÜ ísrtcns A nçÃo soBRE A líruoun (o coRPUS) 97
96

não seja O proble ma seú, retomado no início dos anos


comportem provas especiais de orto$r afta,
o tlso 1990. Em 19 de junho de 1990, o Conselho Superior
,orrrìderado como erro por parte dos candidatos
das exceções indicadas" ' ' '
daLíngla Francesa enviou ao primeiro-ministro um
Essas exceções são em número limitad'o:
relatório, rcahzado a seu pedido, contendo algumas
, plural nas colls-
Ace rtação do sin$ulaÍ ou do
proposições de retific ação da orto$r afta7:
truções onde o sentido permite a compfeen- o substitui ção do hífen pela a$lutin ação em certas
pa?avras(portern0nn&íe,millefzuil'le,pingpongetc.);
são (d,es habits d,e femrne orL de femrnes, ils ont
ôté leur chapea,tr ou l,eurs chapeaux) ' o plural de palavÍas compostas se$uindo o mo-
Acettação de dois $ênefos parapalavras como delo das simple s (un pèse-l'ettre, des pèse-lettres,
I
tLn üLre-d,ent, des cwre-dents etc.);
a,vnotrr, orgue, gens, hYrnne ' ' '
) Aceita çá6 da ausência do hífen nas palavras o simplificação do uso do acento $tave e do acefL'
compostas (pomme d'e terre o1Jp0rnme-de-terre) ' to circunflexo;
Algumas exceções em telaçáo à concordância o o caso parttcular de laisser no patttctpto pas-
)
nominal (por exempl o: se faire fort, forte otforts, sado seguido de um infi.nitivo, que passotl a
nu ìu ,u, pieds, d,erni ou demíe heure. . .).
p,ied,s
seÍ invari âvel (etl,e s'est laíssé rnourir, ie les aí
laissé partir);
I Algumas exceções em relação à concordância
o a $rafia de algumas palavras foi
do verbo preced.ido de vários sujeitos ou de finalmente,
um sujeitã coletivo (te chat ainsi que le tigre retific ada em função de alguns princípios de
pe6 coerência int errra (charríot nolugar de ch,aríot)
sont d,es carnivyres ou est un C&rnivore, Un
d,e connaíssances sffit ou swffísent) ' e de simpl tftcaçã.o (nénwfar no |u$ar de
nénuphar) etc.
o No caso de um patttcípio passad.o construído
O $rupo de trabalho que elaborou esse texto to-
com o auxil iar avoir e se$uido de um infinitivo
da for- mou algumas pÍecauções: trabalhou com a Academia
o1r. de um outro parttcípio, acettaçáo
que l'on a trouvé ou Francesa, consultou o Conselho dehnÊuaFrancesa do
mainvari âvel: l,es sauva,ges Fran-
trowvés errant dans les bois' Québec e o Conselho da Ltn$ua e daComunidade
muito mod'e- cesa da Bé1 gtca. Confudo, não consultou nem os suíços,
Percebe-se que essas exceções eÍam
quenlfreqüentou uma escola ftancesa sabe nem oS afrtcaÍlos. Mas o statws dessas modificações
rad.as, mas
ortogr âficas é extternarnente ambíguo. De fato, o texto
qlre elas forám muito pouco aprrcadas. Particularmente
difundido pela dueção dos diários oficiais se intitula
.r' exercícios de ditado, o professoÍ geralmente espe-
grâfi-
rados alunos que eles Íeconstituam as formas
pÍeocupado
cas que ele est à dttundo e não está muito 7. "Les rectrfrcations de 1'orto$raphe" , irL Journal officiel d'e la
Répubtíque françaíse, no 100, 6 de dezembro de 1990.
com as exceções.
(o coRPus) 99
98 AS PoLíTlcAS LIN(,ul', t!, = =- * lçlt: soBRE A t-íneun

ele
"As rellfrcações da ortoSr#ta", o Qüe deixa entenrlt,r rlrrr $g nrto grafia típtco do planejamento indicativo:
é
em fazer pÍoposições
para as palavras em questão hâ, doravante, uma lor rrr;r ãão tem força de 1ei, contenta-se
€ erperu qrr. elas sejam
incorporadas ao uso 'Iá' o tex-
anttga e uma rettfrcada, Mas o primeiro-ministro, rro r{'
proíbe, pof exemplo, o eÍn-
ceber em junho de 1990 esse rc\atono, declarou: te de 1gg4 é umalei que
maÍcas re$istradas constituídas de
uma ex'
pr*gu de
O governo nunca pensou em legislar nessa matérta: a lín1lu;r
prcssão ou termo estran$eiro
(art. I4), pÍevendo que
pertence a seus falantes, Qüo não deixam de tomar, torkr tlr,r públicos çloe
êË coletividades o1.1 os .rtubrlecimentos
liberdades com as normas estabelecidas. Mas é atrrbuiÇrro rl, todo e qualquer
não a respei tarem poderão perder
,

governo fazw aquilo que está em sua a1çadaparafavorct,('r ,


auxflio d.o'Estad.o (ãrt. 15), ; determtna
que os ofi-
uso que pareçamais satisfatório neste caso, esse que os fi('
nhores propõem8.
- ciais e os agentes da polícia
judictârta estão habilita-
(art. 16) etc'
dos a investigar , ,ori, tatar as infrações
E no próprio texto do rcLatório havia uma hcsi essas di-
IJma râptda análise pode tta relacionat
tação estilística entre, de um lado, uÍna apresentaçao foi no go-
f,erenças a íÍna oposição esquerda/dueita:
em termos de prlplstas ou reclmendações e, de outro, socialista,
veÍno de Michel nocard, primeiro-ministro
o enunciado de regr&s, no tom imperativo que convérrr ortçrafia foi p11-
que o texto súre as retifi.c1çõT-da
pÍi-
,blicado, e foi no governo de Édouurd Balladur,
a esse $ênero.
É impossível saber se as modificações serão acei-
meiro-ministro de direita, foi púlicad, a lei rela-
eüe
tas pelos falantes, e isso não vem ao caso aqui. Por da lín gu,afrutr.ru. Assim, gffi maté-
tiva ao empre$o
outro lado, é interessante compataf o tom dos dois a um planeja-
rta de ríngua, a.rqr.ãu se incl:rrLarta
textos que acabamos de citat. No primeiro capítulo que a direita se
mento inãicativo, du mesm a ma11erfa
deste livro, frzemos uma distinção geral entre o plane- : teríamos
inclin arra par aum planej amento imperativo
jarnento indicativo (qur se fundamenta na combirta- por essas coÍ-
aqui posiçães inveÍsas àquelas adotadas
ção entre diferentes forças sociais) e o planej anoento rentes políticas no domínio ecoÍrômico.
imperatívo (que implica a sociali zação dos meios de Mas a existência d.e um projeto de
lei elaborado
produção). Essa distinção fazta referência ao planeja- (a "lei Tas-
em 1993, PoÍ 1,1m outro $overno socialista
mento econômico, mas pode ser igualmente apltcada ca,,), invalida ess a anâltse. O fato
de alei Toubon ter-se
ao plan ejamento lingüístico. Desse ponto de vist a, deve- é tnteressante'
inspirado em alguns pontos da 1ei Tasca
se destacat Qüe, em matéria de hngua, o Estado fran- entre a posição
pois mostr a qr1e não hâ uma opostçáo
,,esque rda,, e a posi çâo de " ditelta" sobre a rtn$ua,
J

côs passou, effi quatro anos, de um tipo de planeja-


ì1

de
mento ao outro. O texto de 1990 sobre as retificações e dirigista de
mas súretudo uma posi çáo nacionalista w

lado. As leis ou
um lado e rrÍnaposição hberal d.e outro
ìl
Ì1

rl
,l
evidentemente'
8. Op. cit., p. 7. projetos d.e 1ei Tas ca eToubon estav aÍn, !
'$
s'
&
tr
t
I
A nçÃo soBRE A líue un (o coRPUS) Ioï
AS PoLíTlcAs L|NcÜísrtcns
i i{*ì
mui- rto francôs no d.omínio tecnológico paraharcar a ten-
e*r larlg rII rlti i$isrlcl (mesmo que a prirnertafosse dência aos empréstimos ao inglês.
**r *tlFgns lr'pt't:ssiva qlle a se$unda) e do planejamento
Michel Rocard estava
ilipetrltlvn. .l;i 11 texto aceito poÍ
indicativo' III - A fixação Mali
rl* lr*l' rkr libcralismo e do planejamento do alfabeto bamb
políícalingtiística da Fran- ^ra,no
I rrirerr rrr rrrl, no âmago da O bamb ara (bamanan-kan) é nÍna Língua falada
(coexistência
r.tr r ,Í.risrr:'r duas posições anta$ônicas
de outros países no Mali e no Senegal ) t:ma variedade de urn conjunto
rrrt,raÍca a políticalin$üística
r=!ìqÉr
mais vasto, o mandinga, que é dividido em dois grupos:
r rr,r' it 'l'urqura e aNoruega)
que é ttptca da relaçáo
sua lín$ua, hesitar.' o mandinga do oeste, com o mandinka da Gârúia
o
;rrrrrrgrtriì que os franceses têm com
e da Casamansa e o khassonkê do Mali;
rlu t:lttrc a vont ade de ordem e a displicência'
. o mandinga do leste, com o bamb afa no Senegal
e do Ma1i, o malink e daGuiné, o jula de Burkina-

As índústríns da l'íngua Fasso (ex-Alto Volta) e da Costa do Marfim.


"in- Esse conjunto constitui um grupo de falares tão
No início dos anos 1980, sur$iu a expressão próximos uns dos outros que se torn a dtfícil classifi-
o conjunto das no-
rlristrias da 1ín grta" pafa designaÍ car o bamhara, o malinque ou o jula como línguas
tecnologias de infotmaçâo, um crÚ7'arnento
de
vr.rs
diferentes ou como dialetos de rLma mesm alíngua (o
i rrform atica,inteligência
artificial, ciências cognitivas
tratar-se, da produ- mandinga). Na época da independência desses paí-
(,) lingüística. Trata-se, ou dev efra
ses, essas línguas não tinham um sistema de escrita
ção Jr újetos
(dicionários eletrônicos, corretoÍes oÍ-
de textos, d' oficial: alguns missionários haviam apenas improvi-
tográficos, softwares de pÍocessamento sado transcrições pafa redigir catectsmos. Mas, em
bancos de co-
tradução urio* âttca, bases de dados, alguns países, diferentes projetos de organtzação de
(neolo lra,
nhecimentos etc.) e produtos lingüisticos
pesquisa de ponta campanhas de alfabe trzaçáo de adultos, em línguas
terminologia...) ,ro qtad.ro de uma
locais, demandavam uma transcrtção precisa. É por
de carâtet multidisciPliruar' .
isso Qüe, de 28 de fevereiro a 5 de março de 1966, a
No início uno, 1990 , afirançainvestiu mui-
d.os
propria- IJnesco reuniu em Bamako 35 especialistas em lin-
to em pesquisa nessa ârea, seja a pesquisa güístic a e alfabetrzação oriundos de cin co países euro-
no quadro
mente francesa ou a pesquisa d.esenvolvida
das instituições francófonas multinacionais.
o d.esa- peus e de nove países afrtcanose com o újetivo de con-
nos pÍo-
fi.o era $a3nttf apresença da[ínguaftancesa
computador etc.),
dutos de info rmâttca (pro gramasde 9. Alemanha, Dinamarca, FranÇà, Grã-Bretanha e URSS; Ca-
(infovias, rede tipo marão, Costa do Marfim, Guiné, Alto-Volta, Mali, Niger, I.{igéria,
nas comunicações lnod.ernas Senegal e Sudão.
de um vocú:ut!á-
internet etc.) e tambémna pÍodução
A nçÃo soBRE A líueun (o coRPUS) t 03
As PoLíTlcAs LINGÜísrtcns
t02
da Afri- Dessa forma, üffi camponês do Mali que tivesse
cluir e de unificar as transcrições das lín$uas aprendido a\w em sua hngua reconh ecia na $rafia ó o
ca Ocidental. O relatóriofinal d-essa reunião propunha som /c/ , correndo o risco de ficar desotientado se the
son$h ay-
seis alfabero, (mand rn$a, Ped, tamasheq, caíssem nas mãos publicações feitas na Gutné ou em
q1le deveriaÍn
z,arma, úus a e kanuri)l affaUetos esses Burkina Fasso (países vtzinhos), onde o mesmo som
O
ser submetidos à ap tovaçáo d.os Estados-membrosl0' eÍa transcrito Ìi ou c. Ele coffta o risco tatnrúém de
Ínafieïra"
alfabeto mandin$a se apfesentav a dase$uinte confundir o ó, pois no seu país esse sinal $râfico indi-
abddyeêfggbhikkhkmnnwnyoôprsshttyuwyZ. cavao "o úerto " e ono Sen egalindica o "o fechado" (a
uo)) d'enotam uma diferença de acento não é evidente). Da mesm a rna-
o acento sobr e o "e" e sobÍe o neira, o "e aberto", /e/ , era transcrito é na Guiné, flo
pronúncia fechada d.essas vo$ais, as vo$ais lon$as são
e as nasais por Mali e no Seneg a\ e na Costa do Marfim e em Burkina
notadas pela duplic açáo (ii, oo, aa et:c.)
E variantes etarn muito mal recebidas,
um c(tr)' acÍescentado à vo$al (an' of in
etc') ' Fasso. eSSaS
rnarL- impossibilitando, poÍ exemplo, a publicação de Ína-
Mas Íros países ond.e se falav a :utmalíngUa
alguns aspec- nuais de alfab etrzação comuns a diferentes países que
dinga, esse alfâbeto foi modificad'o em
partilh avaÍn a mesma Lín$ua. .
tos. Por exemplo:
Temos aqui um caso muito particulaÍ. E difícil ima-
o em rilaçao às oclusivas palatais, certos
par.'.
grnar Qü€, por exemplo, no conjunto dos países
(ty t dy);
:,.r,comooMali'preferiramas$rafiasc(c))e francófonos, ahngua francesa seja escrita de diferentes
j,, àquelas pÍopostas,pela lJnesco
palatal, o Sen e$a1 preferiu maÍteiras, oü que cada um dos diferentes países
o em relaçáo a
"ár*
fr. ao nY PÍoPosto;
hispanófonos adote suas próprias Íegras ortográfi-cas11.
..e'' e,,o,,' VaÍiações era'n No entanto, foi essa a situação cnadana Aftica Ociden-
o em ,,Luçeoàs vogais
aS

a tabela úaixo: tal para determinadas lín$uas. Os diferentes países nos


ainda maiores, como mostra
quais se falava a mesmaKngua náo tinham um mesmo
o aberto
fechad'o e aberto
o fechado
e alfabetoparaessa lingua, os mesmos Sons não eÍaÍntrans-
o o
Bamako 19 66 ê
o
critos da mesma maneira nas diferentes línguas falad.as
o
Guiné e
c em um mesmo país. Dessa forma, a felJnião da Unesco
eg o
Costa do Marfim
o c de 1996 propunha transcreveÍ as oclusivas palatns ty e
Burkina Fasso et dg para o marlün$a e c e j para o peul. . .
o ó
Mali e
ô o
Senegal e

11. Constatam-se, de fato, algumas variantes $ráficas entre a


escrita do inglês nos Estados Unidos e rra Grã-Bretanha, mas elas não
13 a 16 de setembt'rr
* Unesc oICI,Í.IBALING/' eão padronizadas.
""**t*o
de 1966, p. 3.
AS PoLíTlcAS LINGÜísrlcn:; A nçÃo soBRE A líneun (o coRPUS) t 05
104

É verdade que em relação ao mandingà, as for plo: a paftu do momento em que existe no alfúeto
mas faladas no Mali (bamb ara) ) ern Burkina Fasso c latino um c ou um s e um h, podem-se uttltzar os
na costa d.o Marfim (iula) e rtaGuiné (malinkê) apre- dígrafos sh ou ch para transc revef o som inicial de
sentavam diferenças, mas elas não constituíam um ,iá,poÍ exemplo. O alfúeto malaio (que tem à dispo-
obstáculo à comuntcaçáo, e a unificaçâo da orto$rafia sição s, c e h) possui, no entanto, um signo fonético
tertasido um meio de padrontzâ-las. cadapaís, entre- específico pafa notar esse Som, da mesma fotma que
q
o signo y paranotar o som que outros escrevem com
tanto, estabeleceu seu próprio alfabeto e) no que
conceÍne ao Mali, um decreto de 26 de maio de 7967 e t,Ínasérie de letras marcadas para assinalaÍ as ônfa-
fixou o alfabeto do bamb aÍa da se$uinte rnafuelÍai ses. Certamente o resultado é de $rande pÏecisão, pró'
ximo d.e um a transcrição foné tica, mas ao lado dessa
fl, fl, ilY, fl, o, ó,P,t, t,9t,w,Y, z'
precis ão em relação à articul ação dos solls, não é pos-
ã,b, d,i, e, érf, É,h, i, k,1, s, sh,

Mesmo assim, todos estavam pelo menos consci- sível notar os tons do harrrbata.
entes da incoerência de uma situação naqual um mes- E isso levanta r1rn prú1ema importarúe: de uma
mo som existente nas diferentes lín$uas não era tÍans' ÍnarLeta o1"1 d.e outr a, 3.grande m{oria das e9crit1s,
1o
daptói^u
imperfe:tção vem
crito da mesma maneiÍa. A DNAFLA (oivisão Nacio- {*pndg.q imp erfetta, eïsiâ
nature za daescrita. De fato, paraser efi. caz) um alfúe'
nal de Alfab ettzaçáo Funcional e de Lin$üística Apli-
cada) organi r,or1. entáo, em 1978 e 1979, jornadas de to dev e atender a certo numero de critérios (pot vezes
estudos dedicadas ao problema da untficaqão inteÍrra) contraditórios) que precis aÍn seÍ combinados:
isto é, da defi.nição de um alfabeto comuÍn a todas as 1. Ele deve seÍ unívoco, isto é, a mesma letra ou
Iínguas d.o Mali (nove, ao todo). Foi assim que se e1a- o mesmo grupo de letras d.eve transcÍeveÍ Sem-

borou um "alfabeto para a transcrição das lín$uas pÍe o mesmo Som e o mesmo Som d'eve SeÍ
nacionais do Mali", adotado em se$uida pelo decreto sempre transcrito pela mesm a letra ou pelo
de 19 de julho de 7982. mesmo gÍupo de letras (sabemos que não é
Esse alfabeto "comum" pode parecet extrema- esse o caso do alfabeto latino apltcado ao poÍ-
mente complicado: e1e é composto de 55 catacteÍes' tuguês , âo francès ou ao in$lês, por exemplo)'
d.os quais apenas 19 são comuns a todas as ltnguas, 4 Nessa perspe ct1a, o alfabeto malaio é coeten-
são comuns a oito lín$uas e 11 são utthzad.os apenas tc, salvo flLm aspecto: a nota ção das nasais e
po1' uma \íngua (o tamashtq). Em outras palavras, a das pré-nasais. As vo$ais nasais' como men-
homog ertetzação da ttanscrição dos sons nas diferen- cionamos, são de fato notadas com o acrésci-
c(nni arr : /ã,/ron: /õ/ etc., mas as
tes línguas foi efetivamente teahzada, mas se peÍdeu mo de um
a oportunidade de apÍove ttat a economia çlue a utili- consoantes pré-nasais são notadas pÍecedidas
(fl|': rmb, ns, ng. oÍ4, como as palavras
d.e um
zaqão de dígrafos podertatw proporcionado. PoÍ exem- J

I
A nçÃo soBRE A lírueun (o colpus) 107

compostas são escrita, ;J;:: ;:ï: tabelecimento de um ahfabeto e de uma orto grafia. Os
união dos elementos entre si, nem sempre é princípios que aparcntemente nortea ram a fixação
fâctl saber' si o 'n)'2 pertence aumavo$al nasal desse alfabeto são, de certa maneíra, contraditórios:
ou a vmaconsoante pré-nasal. Assim ) emuma percebe-se uÍn desejo de ftcar próximo aos fatos
da
seqüência como sansabantura, 'f,ln'touro de Língua, manifestado por uma giande precisão na no-
três anos" (san : ano, saba : tiês, ntura - tação das consoantes, desejo esse que dãsaparece quan-
touro) , cotÍe-se o risco de se fazer rtÍnaleitura do se ttata da not ação dos tons. Mas or pãres de putu-
decompondo diferentemente os elementos: sa vras que se diferenciarn pelo tom são em nrimero ii*i-
tado, e freqüentem ente a sintaxe é suficient e parasu-
/ nsaban / tu,ra, sa,n / saban / tur&....
2. Ele deve permitu a notação de todos os sons primir a ambigüidade. Assim, é pouco provrível que
haja confusão entre um adjetivo com o bon (,,grosrã,,,
pertencentes à língu a, tncluindo os tons; o que
de tom baixo) e um verbo como bon ylançaf,:de tom
não é o caso do alfabeto {gg}41-4": os pares ba
(cabra) eba (rio) , jo ("fetiche") eio ("razão"),
alto), ou entre um verbo como boti (,,ro* ar,,, de tom
baixo) e um substantivo como boti ("fetich e,,', de tom
g6té ("canhão") e gêIé ("mirante") , joli ("san-
alto) etc. E isso nos mostr a qlJe a escr rta não precisa
Êue") ejoti ("chaga"),flni ("teado") efi,ni
("ces-
fazw estritamente a mesma distin ção reayzaáa peto
to") , entre outros, sg escrevem da mesma
código oral. G&ard Galtier ass inalava que tanto
maneita, sendo o primeiro elemento de tom
baixo e o segundo de tom alto. no códi$o escrito como no código oral, espera-se que cadasigno
3. Ele deve ser de fâcil aprenüzado e utiltzação. seja plenamente reconhe cívele distinto de outros signos.
úr,
Os pontos 1 e 2 nos mostr am que esse não é os procedimentos utilizados panesse fim são diferentes no
código escrito e no código oÍalrz.
úsolutamente do caso.
4. Sua aprendtzagem deve poder ser reutilizada E prosseguia dizendo que se poderia imagin at uma
(por exemplo: o conhecimento do alfabeto la- maneira de distinguir os poucos pares prúlemáticos
tino, ao pÍeço de algumas mu danças, permite seÍn notar sistem attcarnente os tons mediante acentos,
a leitura do português, do italiano, do espa- como jâ fora proposto, mas simpresmente escrevendo
nhol, do francês, do inglês, do alemão etc.). de maneira ligeiramente diferente um dos dois termos.
Percebe-se que pode haver oposição entre a von- Não continuaremos esse debate aqui, que pode
tade de precisão e a busca d.e uma facilidade de utili- parccer excessivarnente téçntco; o que se per cehe ,é que,
zação; o problema consiste em encontrat um bom equi-
líbrio. O futuro nos ürâ se o alfabeto malaio entrou 12. G. Galtier, "Problèmes actuels de la transcription
du bambara
em uso sem difïculd.ades, mas esse exedflo'nos per- et du soninké", comutncação feitaà Reunião de especialìshs para
a trans-
mite evocaï os diferentes probleÍnas inerentes ao es- crição e harmonização das línguas africanas, Niamey, julho
de tgrg.
A nçÃo soBRE A lírueun (o coRPUs) 109
r 08
As polírlcRs LINGÜísrtcns

os vestígios do Imp ério OtomaÍto. Mas a imposição de


no momento da fix açáo de um sistema ortogrârtco, o
uÍna reforma da escrita que não fosse percebida como
planejador não precisa necess aflaÍnente se súmeter
dirigida contra a reTtgtão era uma questão muito deli-
ãs exi gènctas de precis âo ctentífica do lingüista.
cada. Mustafa Kemal Atattirk esperou cinco anos: em
Tal conclusão vale de maneira $eral' É preciso 1928, criou uma "comissão lingüística" encarÍegada de
saber para quem e para qual uso a ttanscrição está elaborar um novo alfabeto Çl1te, alguns meses mais tar-
sendo fetta, para quem e para qual uso as palavras de (1 " de novembro de 1928) foi adotado pela Assem-
são criadas, pala quem e para qual uso se padtorurza bLétaNacional. I.{a realidade, Atatürk execut ara prevta-
úrnaltngua. ò quesignifica que a intervenção n? -fo: mente um verdadeiro golpe de força ao anunciag num
Ína de uma 1íngua d.eve estar ligada a uÍna utilidade discurso de 8 de agosto, Qü0 esse novo alfabeto fora
pratica e não a rrna tdéta abstrata que se possa teÍ' adotado: só restava à Assembléia l.{acional rattficâ-lo.
Esse alfabeto, adaptado do alfabeto latino, eÍa
IV - A 'orevolução tin$iística" na'Turquia produto de urna escolha políttca e ideoló gtca que ten-
que
dia a larctz,ar a 7íngrta. Faltava apenas impô-lo, e as
DiL d,evrirni, a "revolução lin$üística": é assim coisas passaÍ am a andar rapidamente: eÍn menos de
d.est$na, em furco, o conjunto d-as reformas tealtza-
se dois anos seu uso passou a seÍ obrigatório em anunct-
das pelo regime de Mustafa Kemal Atatrirk logo
depois
os, documentos administrativos, livros, jornais e, evi-
(1923). Naqu ela época, o tur-
da fun daçáo da República dentemente, no ensino. O antigo alfabeto desapareceu
co escrito se transformar a er'uma rínguaerudita cheia ao mesmo tempo em Qüe, paralelamente, se suprimia
de palavÍas de origem ánúe e peÍsa' à qual a $rande o ensino do átrabe e do persa nas escolas.
maiori a dapopula çáo não tinha acesso e que náo trans- Mas o novo re$ime turco não parafla por aí. Por
(com a
crevia em absolutamente nad a aLtngua falada um 1ado, foram suprimidas as construções gramaticais
qual mantinha quase nenhuÍnatelação). Alem disso, o arúe-peÍsas de quais estava coalhada aLíngua escÍita;
alfabeto utilizado estava mal adaptado àríngua: em
turco,
depois, confi.ou-se a uma "socied ade de esfudo da lín-
há oito vogais breves e três lon$as, mas o alfab eto âtúe
êuafrJÍca" atarcfa de substituir todo o vocabulário âra-
só permite a nota çáo de três vo$ais. Devido a isso,
o
be-persa poÍ um vocabul âno de ori$em frJrca. De fato,
probt, rna d.e um a reforÍna na escnta estava posto ha-
a maior parte do vocabulârto científico e teórico era
(num Es-
via tempo, mas era ptattcamente impossível composta de empréstimos do ârabe e) num primeiro
tado muçulmano teocrâtico) tocar no sistem a $tâfico momento, foi feito um inventârto dos elementos lexicais
que servira païatranscreveÍ o Alcoráo. disponíveis em turco em sentido amplo:
Os jorrãn, dirigentes que ascend- erarn ao poder
pelo modelo euÍopeu) Por "tur co" ,os artesãos da "revolução lingüística", entendiam
(leigos, inovadores á
^urcados toda Língm, annga ou mod erna, pertencente à famíli a turca:
nao podiam acettar, nesse como em outros ârúitos,
A nçÃo soBRE A r-íruoun (o coRPUS) rll
As PoLíTlcAs LI NG Ü Ísrtcns

o Crtação de neologismos poÍ deriva çao de pa-


desde arnguadas inscrições do orkh onatéos falares vivos do
etc', passando lavras turcas. Assim, flo lu$ar da pala\rfâ' âra-
Turqurstãõ, do Cáururo, do Volg a, da Sibéria
evidentemente' os be tah,kík (entrevista), que aliás estavaeÍn con-
pelo Uigur e pelo Tcha$h atat,seÍn esquecer,
corrèncra com o termo francês "u11!<et" , foi
ãidrtot anatólios e balcânicos13'
construí da sorwsturma sobre a raLz snr- (ques-
Por sua amplitud.e, esta defini çáo catacterLzaYa tionar), de onde deriva sucessivamente s}rus-
que se asse-
perfeitamente apÍoposta do poder turco, (questionar-se), depois sorustur (enffevtstar)'
de purificaçáo, r*o
melhav a aum vãrdadeiro trabalho Os especialistas em terminologia clte$ararn a
sentido que se fala hoje de purtficaçáo étnica'
dar piouu de sua grande engenhosidade. Por
O primeiro resultado dãsse trabalho,
púlicado em
lexicais de t"t-plo, para sústituir as palavr as de on$em
lgg4,foi uma enofine coletânea de formas arabi rnyiettes (tnàngulo) e mysed,6es Stexa$o-
em turcola,
origem ârabe ou persa com selJ. equivalente no), eles p arttramdos números turc os iirc (tres)
turcos; obra
.rgïiaa de uma ústa a1fúét'ca de termos e alti (seis), acres centaratrrum sufixo tnventa-
termes fficiel't qt
olJasemelhança com o Díctíonnaire d,es
seqüência do do, mas de conson ãncia tsrca (-gtn) que lot
la Langue françaíse,publicado em 7gg4 na o sufixo
s ua veztinha a vanta$em de rccotdar
projeio dâ lei'Toúãn, é impressionante. A púlicaç?o
é a pafirr ÊreÊo -gnne, para cttar ücgen otyige(t," '
dos dados lexicais deveria cãntinuar, e {e19s ,e*,

um importante trabalho de neologia o criaçao de ãeologismos por compo siçáo. Foi


que se empreendeu
assim que "reftt$etador" passou a sef charna'
qrp Louis B az'rnapresentaem quatro capítulos:
do buzd,otabi (d; buz, "gelo", e dolap, "artnâ-
o Exum açao de palavÍas anttgas' em $etd' caídas ára- rio ") ou que o termo de ort$eríL arab-e
em desuso , pulusubstituir os empréstimos
bes ou peÍsas. Por exemplo, _o termo
azetha}áO beynelmilel loi substituído por utuitara'rasi, de
kÌind,,
,,údeta,, é utili rido (sob a form a kent)
, ul,us-lar ("os povos") e &ra,i"irrt, walo entre") '
para substituir, com o sentido de "cidade",
o o Empréstimos das línguas européias. O fato de a
muito paÍti- ,,púifi cação" do vocabul âno turco estar hem
peÍSa sehir.Eventualmente, üffi 1.1So

cular da etimolo$ia serviu pafljustificaÍ


a rna- direcionad"a contra o arúe e o peÍsa {tca rnais
nuten çâo de umlmpréstimo. É assim
qlle ok'ul evidente nos empréstimos que foru* feitos de 1

1.r.orá) eraexplicailo pel ara,r'


oku- (ler) ou que outras ltnguas, particularmente do fr ancês. Tem-
.if

,social" eÍajustificadó peh ratz snu (raça) " ' "cabeleireiro", restoratffi, omlet'
:u
se assim frki))a w
,i

ou ain da atom eneriisi, culo sentido é evtderrte' #


ffi

Foi assim que se constituiu (e continua se constitu-


t
in, ,,La réforme linguistiçlue en Turquie",
in I' &
ffi

langues' Hamburg: ind.o, pois o trabalho ainda não se cornpletou) o iiz türk'çe' r
Fodor e C-HuSeg. (o.gt.), La réfornne d'es ffi
Ë
n
Buske,1983, P. 167. O "furco puro", expressão ç1ue catactetl1,a petfettamente
74. Tararna Gerd.isi (Recueít d'e d'épouittement) 'Istambul: s'e'' 1934 '
1 12 AS POLÍTICAS LINGÜíSTICAIi A AçÃo soBRE n líueun (o coRPUS) r 13

o alvo visado. O resultado desse conjunto d"e medidas c Uma notável dificuldade de intercompÍeensão entre
resumido por Louis Baztn da seguinte rnaneira: a prim erra farma e as últimas. Einar Hau$en apte'
sentaa situação dessa época distin$uindo cinco vari-
A distân cia entre alínguaturco-otomana (escrita) do fim do
edades hngiísticas:
século XIX ou do início do século XX e alínguaf,rca"republi-
caÍra" atual,escrita e ensinada,é a essa alturalão $rande quc,
o dinamarquês puÍo, essencialmente uttltza'
mesmo transcritos do antigo sistema inúo-tvrco no novo alfa-
do no teatro, no qual domin avam os atores
beto turco-latino, os textos otomanos do último período sã0, dinamaÍqueses;
em sua $rande maioria, incompreensíveis para um turco com a forma-padrão lite rârta, Lín$ua da escola, do
menos de 60 anos que não teúa feito cursos especializados (de templo, Qü0 pode ser definido como um dina-
nível universitário) 1s.
mafqrlês pronunciado com sotaque noÍue$uês;
a forma-padrão familiar, Lngua dabut$uesia,
Percehe-se que o exemplo turco entra no quadro
de um planejamento absolutamente imperativo, pos- intermedtârta entte a forma precedente e a
seguinte;
sibilitado pela existèncta de uma incontestável vonta-
de de reformãa, sobretudo, de um poder forte. O exem- a forma-subpadrão urbana, língva das ctda'
plo da Notuega, apresentado abaixo, nos mostrarâque des, com importantes YartatLtes locais;
as coisas não se passam da mesma maneira no qua- o por ftm, os dialetos Íurais16.
dro de países democráticos. Ao longo daquele século, essa situação vai seÍ
objeto de numeÍosas discussões e de numeÍosas pro-
posições. O debate se cristalizou inicialmente em tor-
V - Apadronização de umalíngua: ão de duas abordagens. Por um lad.o, Knud Knudsen
o exemplo da Noruega (I8L2-1895) propunha partn da línÊua falada urha-
No início do século XIX, depois de ftezentos anos fia (bUfotkets talesprog) para estabelecer uma forma-
de dominação dinamarquesa (1523-1314), a NoÍue- padrao, passando para o norue$uês a ptonírLcra dina-

ga passou para a jurisdição sueca, antes de obter a mafquesa. Por outro lado , Ivat Aasen (1813-1896)
independência. Nessa época, a situaçáo lingüística ca- propunh apafitr dos dialetos rurais para construir íma

racterrzava-se pela coexistèncta do dinamarqlJês lite- lnguanorueguesa unificada. Essas duas idéias de lín-
guas foram battzadas de rnarLeuÍas diferentes. No pfi-
râtto,Língua do ensino e da literatura, de uma for-
ma-padrão urbana e de diferentes dialetos rurais, com meiro caso: dansLt (dinarnarquês) , dansk,-n0rsk,
(dinamarco-norueguês) ou rigsmã,/ (form a patalela ao

15. Louis Bazin, "La réfarme linguistique en Turquie", in I.


16. B. Hau$en, Language Conflict andLangaãge Planning, the Case
Fodor e C. Hagège (org s.), L a réforme des langues. Hamburg: Buske, 1 I 8 3,
p. 155. of Ìulod,ernl{orwegian. Cambridge: Harvard
lJniversity Press, 1966.
114 AS POLITICAS LINGUISTICAS A nçÃo soBRE A lírucun (o coRPUS) tt5
alemão reichssprache); e no segundo caso: norsk (to- as duas formas (nynorsl<, e bokmãl) e se dedica muito
rueguê s) , national sprng (língu a Ítactonal) ou Lansmã\. tempo à aptendizagem das formas ortográficas e das
A dupla rigsmãl/Lansrnãl vai, poÍ muito tempo, ser a flexões. Mas estamos tratando aqui da língua escrita,
tradução lexical das posições eÍn presença: o primeiro e a situação é sempre mais compHcadanalínguafd,a-
termo designava uma hngualtterâria, próxima ao di- da. Desse modo, André Catafago distin$ue hoje seis
rramaÍquês (hoje chamada bokmã,l), e o segundo, o variedades de norueguês:
pïojeto de Língua padronízada a pafitr dos dialetos 1. o nynorsla tradicional (conservador);
(hoj e chamada ny nor sk) . 2. o nrynnrslq, moderntzado (radical);
A tentaíva de padroninação da lín{ua vai paftu 3. o bakmãl tradicional (moderado);
dagrafta: após 1905 , quando a Noruega obtémsua inde- 4. o bokmãl modernrzado (radical);
pendêncta definitiva (dissolução da união com a Sué- 5. o norue$uês comum (ou s&mnnrsk,, espécie de
cia), âs comissões lingüísticas se multiplicam e o ParLa- bokmãl untftcado com estrufuras nynorsk);
á. um n(tmeto impre s sion ante de
mento norue guê s votar 6. o riksmàl (variedade não oficial, mais tradicio-
reforma ortogrâficas OgOf, 1913, 1916, 1923,7934, nal ainda que a Yarredade 3)tt.
1936, 1938, 1941, 1945, 1959, 1981) que correspon- Essas variedades se distinguem particularmente pela
dem, cada uma delas, a opções políticas diferentes. A pronún6ã, pelo lugar do acento e por intermináveis de-
reforma ad"otada em 1938, por exemplo, insprradapelo bates opondo os defensores de uma nofinaúntca àqueles
Partido Comunista, que tinha então grande influência, que defendem o reconhecimento dos fatos dialetais; en-
seria acusada, depois da ocupaçáo alemã, de querer "in- quanto se publicarn regulamente listas de palavras com
troduzur a ditadura do proletariado no domínio lingüís- menção às diferentes formas de acenfuação.
tico", sústituída em 1947 por uma outra grafia supri- Essa situação, que ja dura quase dois séculos,
mida em 1945, depois da Libertação. Pode-se, de ma- evidentemente tem origem na vontade de uma parte
neira geral, consid erar que os partidários do bokmãl da população de construir uma forma lingüística que
(língua mais próxima do dinamarquês) se situam mais não seja dinamarques a e de apagar dalíngua os traços
à direita no túuleiro político, enquanto os partidários da dominação dinamaÍçluesa. Tratava-se da bus ça de
do nynorsk (língua inspir ada nos dialetos populares) se uma forma identitâria que havia se tornado incômo-
situam mais à esquerda. da pelo fato de que nem todos os din amarqueses pos-
Duas variedades de norueguês escrito coexistem suíam a mesma imagem da sua identidade. Mais tar-
aindã"hôje; e o Coníeïho da Língua Norúeguesa publi-' q
:::

ca todo áno certo número de modificações ortogr âfi- $


17. André Catafago, "Le norvégien: des problèmes mais pas de w

cas que os man:uais escolares devem acolher (eles são &


crise véritable", ín:Jacques Maurais (otg.), La crise deslangaes. Gover 'ffi

&
revisados a cada cinco anos). Ensinarn-se nas escolas no de Qu€béc /Paris: Robert, 1985, p, 286.
W
rt6 AS PoLíTrcAS LINGüísrtcns

de, o debate se transformou ligeiramente: atualmente


não se ffata mais de afumar através de uma unifi.ca-
ção lingüística a existëncta de umanação norue$uesa,
que não é contestada, mas de saber se se queÍ uÍna
norma úntca ou se se admite a pluralidade das for-
mas lingüísticas.
cApírulo v
De todo modo, essa situação, que pode parecer A AçÃO SOBRE AS r_íruGuAs
excêntrica, nos leva ao princípio que formulamos a (o STATUS)
respeito da China, segundo o qual 3s políticas lingüís-
ticas estão destinadas a alcançar, mais cedo ou mais
tatde,o Seu $taude ine ftcácta. Se a sifua çao norue gue'
sa paÍ ece bloqu eada, evidentemente não é pelas Ínes- I{as situações de plurilingüismo, os Estados são le-
mas razõesi na China, como vimos, o probleÍna é a vados às vezes a pÍomover uma ou outralíngua até en-
imensidão do território e o tamanho da população e) tão dominada oü, ao contrârio, rctrrat de uma líng;r_
no caso da Noruegà, o problema é a $estão democtâti- um status de que ela gozava, ou ain dafazer respettar um
ca e as constantes mudanças que ela suscita. Não se equilíbrio entre todas as línguas, ou seja, administrar o
deve concluir com isso que a demauacia,é um sistema status e as funções sociais das línguas em presença. Nes-
no qu al a política lingüistica se adapta mal (se a Tur- te capífrÃo ãpresentaremos algtmas dessas intervenções.
quia de Atatrirk, onde os objetivos do planejamento
foram a\cançados, não repÍes entaverd.adeiramente um I - A promoção de uma língua veicular:
modelo democrâtrco,não se pode dtzer a mesma coisa
o caso da Tanzãnia
da SuíÇa, eve administra o seu plurilingüismo de ma-
rLeLta que satisfaz a todos), mas sim que o constante Tendo se tornado independente em 1964, fruto
questionamento das decisões não facilitq Yerdadeua' da fus ão entre a anttgaTan{anrcae a ilh a de Zanzhar,
mente, aprâtrca de uma política lingüística, o que sig- a Tanzània é um país de aproximadamente 36 mi-
nifica simplesmente que é mais prudente prolon$ar o thões de habitantes (zooo), ro qual são faladas apro-
momento da reflexão antes de passar ao estágió do ximad amente 720 línguas que hoje devem ser apte-
planejamento. sentadas em 3 grupos:
o de um lado, há as hnguas primeiras da popu- @

ìi
lação, em gtande maioria bantas, com mino- #
ilrff
i;
rias cuchíticas e nilóticas e algumas línguas s
$

asiáticas faladas por migrantes; ;{



,&
A nçÃo soBRE AS líneuns (o ITATUS) I ï9

o de outro, há um a,nga;t;#;:Ï: composta pela sua metade de empréstirnos do ârúe,


Írou lín$ua nacion al, mats ou rnenos bem fala- desenvolvida graças ao comércio maúttffio, ao longo
da, de acordo com a idade das pessoas: o suaíli. da costa oriental da Africa e em direção ao interior do
Em 1969, Wilfred ïVhiteley estirnava em 15 continente, na rota das catavarlas. No centro desses
milhões o seu número de falantes: dois eixos de difusão, encontra-se a ilha de Zanzhar,
que d.esempenhayâ, naquela época, üffi importante
Os que falam suaíli como língua maternae que provavelmente
papel comercial: trâftco de escravos, importação de
não passam de um milhão... Aqueles que o adquirem como
segundalíngua eo utilizam freqüentemente em suavida cotidia-
algodão americano, exportação de cravo- da-índia, de
na. Esses são, çertamente, mais de dez milhões.. .Um grupo com
marfi.m etc. Foi assim que uma ltngua veicul ar de ma-
provavelmente mais de um milhão e que ulrliza a língua de rinheiros penetrou lentamente o continente africano,
forma limitada. . .E finalmente aqueles que utihzamesporadica- atravessando-o de leste a oeste, por influência de fato-
mente alínguacom um conhecimento muito limitadol. res essencialmente comeÍciais. Essa expansão in vivo
será em seguida sústituída pela ação in vitro da coloni-
o Por fim, há umalíngualegada pela época co-
zação alemã: o suafl.i se tornoü, no fim dos anos 1880,
lonial: o inglês.
alíngua de administração da Deutsch Ostafnca e per-
Para compÍeender essa situação, precisamos Íe-
manecetâ assim após a primefua Guerra Mundial na
troced.er ao início do século XIX, aos primeiros teste- Tanganicabritânica. Por volta de 1960, essa língua era
munhos de que dispomos sobre a existência dessa lín- uttlizada num vasto tercttório: Tanzãnt4 Quênia,
Êua.Henry Salt, poÍ exemplo, escreve em 1814: Uganda, Ruanda, Burundi, numa parte do Zure, no
fu seguintes palawas me foram dadas por mariúeiros de umbarco sul da Somrília e no norte de Mo çambtqüe, constituin-
inabeque se autodenominavam sowaulis, o que aparenta ser um do-se então num arquótipo da língua veicular: apenas
povobem diferente do povo somauli. Essa tnbo ocupa a costaleste 7 Yo de seus falantes a tinham como Língua materna
da lrfncade Mugdaúo. .. Ílas proximidades de Momb aç*. (ou seja, sua taxa de veicularidade chegava a 93o/o).
Na realida de, não se ftatrra de uma "tribo", mas No momento de sua independência, em 1961, a
de uma língua essencialmente veicular (exceto em Tanganica (qrr em l964passa a se cltamar Tanzânia)
Zanztbar, onde eta língua primeira) , hanta em suas herda essa sifuação: um país governado em inglês ,uma
estrufuras, porém com um vocabul fuio heterogêneo e popul ação que fala mais de cem Línguas diferentes e o
suaíli (ou kisuaíli3) que serve de lín 1ua veiculaÍ nos
1. Wilfred Whiteley, Swahili , the Rise of a National Langaage.
Londres: s.e.? 1969, p. 3. 3. Ki é o preftxo banto que indica o nome de uma Língua e ba
2. ,Henry Salt, A Voyage to Abyssínia and Travels. Londres: s.e., indica o nome de um povo, assim os bakongo falam l<,ikongo, os balaba
1814 (apud W. Whiteley, p. 1.) falam ciluba etc.
As políttcns LINGÜísrtcns
A nçÃo soBRE AS lírueuns (o ITATUS) t21 w
t20
portos' MaS do inglês de um lado, e das Línguas vernáculas do ou-
mefcad.os, ao lon$o das estradas, nos
eSSe
â tro. Essa expansão foi facilitada poÍ alguns fatores:
suafli foi a língua das campanhas pela independênciâ,
Ltnguaem que Julius NyereÍe se dirigia
ao povo e q1le se o A herança histónca em prirneiro lugar. No
libettação' momento da independëncta, a Língua já, era
tornou, poituttto, lentamente, o símbolo da
Nyerere faz do hâ muito tempo escrita e :utrTrzada na admi-
Eleito presid ente da Rep ihhca eÍn 1962,
esse novo país. nistra çãolocal, e essa sifuaç ão, muito diferente
suaíli o instrumento qlle permitiria unir
1960, os candida- da dos países afrrcanos colontzados pela Fran-
Seu uso começa no mais alto nível: em
nos termos ler e d-a 1ei, Çã, facilit a-va sua pÍomo ção.
tos à assembl étanactonal d.eviam,
de 1965 O fato de que, simbolicamente,o suaflieravisto
falar fluentemente o inglês' mas a par1.,xr
essa
é fetta em como altngua da independência, sem nenhu-
cláusula desap arece, e a camparúta eleitord,
do ma conota ção colonial.
suaíli. Isso levarta a uÍna evidente democrattzaçáo
anos 7970, o O fato de que não eta) por assim dizer, aLín-
recrutamento d.os eleitos e, no início d.os
parlamento reúne çluase qlre unicamente nessa rtngua.
se €ua de ningu,ém, e sua pÍomoção não podia
paralelamente, o suaili se torn ava aLtn{ua oficial dos tri- ser entendida como o poder de um grupo étni-
que Íepfesentava co sobre os outros.
bunais de prim erfainstância (19 64), o
igualmentã um importanteavanço democrâLrco,e
seu uso o E evidentemente o fato de que era falado por
se estendia lentamerúe a funções oficiais
cada vez mais Íma vasta maioria da população.
A Percebe-se então que a "estrutttta lingüística" do
numerosas, até tornar-Se' finalmente, língvanacional'
Tanzànta pode ser país foi consideravelmente modificada, e que aTanzànta
evolução da situaçáo lingüística da
repÍes entada da se$uinte martetraa:
nos fornece um exemplo trpico de ação sobre as lín-
guas. E claro que essa ação necessitou em seguida de
Língua utilizada uma intervenção sobre aLíngua, tanto sobre sua for-
Ì{ív eL
períod.o coloníal Depoís da Independêncitr ma (neologia) quanto sobre seus usos (promoção). Dois
nacional inglês suaíli e inglês ministérios LrLam tratar inicialmente desse planeja-
suaíli suaí1i
distrito mento lingüístico: o da edu cação e o do "desenvolvi-
vernácu1o suaí1i
aldeia mento comunttâtto e da culturanacronal"s. O primei-
vernáculo
vizinh arrça ro se ocupava da introdução da Língua no currículo
escolar, o segundo, do desenvolvimento de uma ex-
percebe_se qlle o suaíli se estendeu funcionalrnt:r rrr
pressão liter ârta em kisuaíli. Inúmeras comissões ou
tantO
,,p1ra cirnA,, CO6O "p1fabaixO", em detritllt:lttr
associações privadas passar am a trúalhar em segui-

de Jean O'Barr, Language an'd I'ul '


ttr
4. Tabela emPrestada 5. ï[il]iam O'Barr, Langa"age and, Politi"cs. Pans: Mouton, 1976, p. 45.
Paris: Mouton, 1976, P. 75'
AS PoLíTtcAS LINGÜísrlcns A nçÃo soBRE AS lírueuns (o srATUs) t23
122

da pela mod. erniT-,ação da língua, enquanto se criava no essa anttga polític a, datada de quase vinte anos, e ado-
university college de Dar-es-salaam um "Institute of tar o malaio como Ltngua nacional. Temos então um
swahili Research'1 Mas tudo isso está relacionado a quadro trpico de intervenção in vitro sobre asLínguas,
uma outra abordag em, desenvolvida no capítulo ante-
que se propõe a gerir pelo molde do monolingüismo
rior, e sobr e a qttd, não nos estendeÍemos. um país extrem amente plurilíngüe. Mas essa interven-
ção tornarLa necessária uma açãa sobre a Ltngua: será
preciso "equip ar" o malaio (reb attzado de bahasa
U - A promoção de uma lín$ua minoritária: o indonesia, "língua indonésia"), fixar pata ele uma o?
caso da Indonésia tografia e the fofiar um vocabulário que the permitis-
A Indonésia é composta poÍ aproxim adamente três se cumprir suas novas funções.
mil ilhas e tem vn'apopula ção de 235 milhões de habi- O malaio, qae foi durante rnuito tempo escrito
tantes (em 2003), divididos em diferentes $rupos com a ajuda de um alfabeto adaptado do ârabe, ga-
etnolingüísticos', que falam aproximadamente 200 lín- nhou, em 1901, nas então Índias Holandesas, uma
guas diferentes. Em rgzï, quando o país erauma colô- ortogr afia Latina fixada por C. van Ophuysen, seme-
,riu holandesa, o partido Nacionalista Indonésio, Qüe mi- thante aos princípios da escrtta do holandês em dois
litava pela independência, procl anLa çlue o malaio será a
j
aspectos: o som /j/ erugrafado e o som /t/ eragrafado
Itnguanacion aJ, dalndonésia. Essa decisão não tinha na 0e. Panlelamente, em 1904, os britânicos instituíam
ép ã ca nenhum e feito, constituía urna p o1ític a Ingüística
na Malásia a orto grafia Wilkinson, levemente diferen-
rã* planejamento possível, e sua função er:a actma de te. A Indonésia independente ganha em 1947 um novo

tudo simbóli cai a afirmação da existência de umalltngua sistema, a orto grafia Soewnadi (do nome do ministro
nacionat implicava a existêr.cla d.e uma naçã,0. A ltn$ua da educação da época), cLtJa modifi cação seria pÍo-
escolhi daparaessa função erauma Ingvaveicular, utili-
posta inúmeÍas vezes (r* 1956, depois em 1961 e,
zada, sobrefudo, nos portos e nos mercados e, a|ém de
por fim, em 7972). Finalmente , a vetsão adotad a for a
tudo, minoritál"ia: ahíngaa mais falada no arquipéla{o rilttma, a da ortografta EYD (trjaan Yang Dísernpur-
era o javanês, mas a escolha do malaio apresentuta a nakau "oÍtografia aperfetçoada"), e que hoje é utili-
vantagem de evitar as polêmicas e os conflitos que a pro- zada tanto na Indonésia quanto na Malásia e em
moção do javanês Podefla causaÍ. Cingap'úfa7. Não entratemos nos detalhes de suas Íe-

Quando a Indonésia obteve sua independêncirr $ras; vamos nos contentar em destacat q1Je, ào contrâ-
em meados dos anos 1940, decidiu-se entáo aplicar'
7. Yer Pierre Labrousse, "Réforme et discouÍs sur la réforme: Ie
cas indonésien", in Istvan Fodor; Claude Hagège (orgs.), La réforme
6. Javanês: 39,4 % , sudanês:
des langues. Hambourg: Buske Verlag, 1983, vol. 2, p. 340-341.
4,3o/o, outros : 28,4o/o . $
n

I
124 AS PoLíTrcAS LINGüísncns A nçÃo soBRE AS lírue uns (o ITATUS) t25

rio do exemplo africano desenvolvido no capítulo an- oa ressem anttzação das palavras indonésias,
terior, temos aqui uma política que buscou, delibera- quando os vocâbulos arnanat, "mens a$em,,,
damente, normattzar a escrita de uma Língua falada toma o sentido de "otdem" (arnanat bayar,
em tn(tmeros países. "ordem de pagamento").
Restava o probleÍna do léxico. De manerra parado- Percebe-se que a distinção entre cnrpws e estatuto,
xd, esse problemafoi úordado primeiramente pelo inva- ou entre a ação sobre aLínÉua e a ação sobre as línguas,
sor japonês era, em 794I, criou lJÍrra "Comissão da Lín-
é muito artificial e Qüe, se possibilitou belas sínteses
$ua Indon,ésia" Kotnisi Bahasa Indonesía, encarce$ada de dicotômicas, deu pouca atenção aos fatos. tlma políti-
pesquisaÍ a gamâícae o vocúuLámo dalngua. Em 1945,
ca lingüística não intervém sobre uma forma daltngua
essa comissão foi substituída por um "Centro de Ltngua e
ou sobre as relações com as línguas: freqgçg!91fÌ_g*!-e.rg
Culfura" , quie se encaÍïegou da tarefa de equipar altngua
respeitando um certo número de princtpios. Tratava-se ryuda+mje estatuto dg ulpg_l*ggg, implicfu_ _emsegui-
ff-*-.-.:.-''.-ì".*'-**'*-***""'--,.;*-.}..:....'."*;,-'".'****'.'*.*.:**'
de buscar primeiramente uma palavra qrLejá existisse em da,gmginte_ry9.ng_ão_gp-br"e_"9:.e.!"ç_g1pg:(oquedenomina-
baLtasa indonesia, recorref a rma palavra tomada de ou- mos seu "equip amento"), e o caso indonésio é umbelo
tra língua do arquip élago se não existisse a palavra em exemplo disso. Esse é outro ponto súre o qual o caso
bahasa ou escolher LLrna palavra de outra lingua astâttca; indonésio tem valor gerd.. Pierre Lúrousse destacaque
a solução de usar um termo de uma ltngua internacional as inúmeras intervenções sobre altngua nunca sus crta-
européia vinha emultimo lugat'. Assim, apúavramalata rarn o menor problema na população:
swantantra substifuiu o empréstimo aatonomi, a palavra
jav anesa tírnib el sub stituiu o inglê s le ad, a p alavr a sudane sa A idéia de que o indonésio é umaríngua "tmperfeita", quef
precisa ser desenvolvido, ou seja, que ela éum"instrumento" j
nuerí substituiu o inglês pain, apalavra zer&h foí escolhi-
sempre apefieiçoável, impôs-se facilmente em uma sociedade
dapara designar o âtomo etc. i
multilíngüe e no contato com o holandês que se aela ï
assemelha
Em seguida, esses princípios foram interprcta- em diversos pontos. Em relação às sociedades em que os proble-
dos muito livremente, e Pierre Labrousse indica que mas lingüísticos provocam constantes tensões, essa
]
tma$em ï
três procedimentos são atnda hoje uttltzados: desmistificada dalíngua é muito originale.
o o empréstimo2 como eÍn analis (do inglês
analysr) ou em Lripotik, (do holandèshypotheek); E essa ausência de tensão está,, sem dúvida ne-
o o decalque semântico, como em iklan batu nhuma, relacionada à função veicular do malaio, ão
nisan ("inscnçã,o em escultrua funerátta") fato de que ele não eÍa) no início, visto como ahíngua de
pelo inglês tornbstone; um 9rupo, de uma facção detentora do poder que esti-
vesse impondo a própna Língua aos outros.

8. S. Takdir Alisjahb atta Language Planning for Mod,ernízatíon,


the Case of Indonesian and. Malasgan. Parts: Mouton: 7976,
126
AS PoLÍTIcAS LINGÜísTIcn:,
A nçÃo soBRE As tírueuns (o srATus)
III - A pazlingüística suíça lz7

A suíça constitui uÍn exempro que O país é oficialmente trilíngüe


quadrilíngtie desde 1938 (dataeÍn desde 1g4g,
contradtzir
concepção rornânüca de
Estado-naçao que
que o rornanche foi
coÍnuÍn (quando não da
faz
dalíngurr adicionado ao aremão, ao fuancë,
. ão ftariano) e essas
mça comum) tanta o sírnbol' quatro línguas são todas
quanto a $aruntia da unidade "nacionais,,,-irê, deras (ale_
nacional. pierre Knecht, mão, ftancês e italiano) sendo
definindo corn hurnor a parte ao mesmo ternpo adrni-
francófona do país coÍno nistrativas. concr etamente,isso
"lJma suíça lingúis ücamente signifi ca queeÍn cada
francesa ou uÍna França um dos pontos do tercrtórto,ern
politic amente suíça"10, ,ãduuÍn âo, .urrtõrr,
ilus trabemessa separa uttlrza-se na administraçã o
a abordasem polítrca (os surços ção entre e naescola alíngua falada
locakn
ços) e a abordagemlingüís n àôr
são evidentemente suí-
suíços não fa'am,,suí_
"\t, e que
de trabalho.
no níver federal existern três
È.tu situação é uma boa
rínguas
Ço", mas alemão, ftancês, italiano difercnça entte os princípios ção da
ou roÍnanche) 'ustra
de territorialidade e de
Essas quatro rínguas se personalidade que foru*
territottalmente da seguinte
rcpaftem * estatís tica e ãprrrrntados no capíturo III:
*nrr.i ru, A língu a de ftabarho obed eee,
74o/o de germanófonos, suíça, ao prin cípio da
em qutnzecantões; territoriaridade, tant2no setor .na
27o/o de francófonos, privado ,o*á no setor púbrrco,
el,m quafto cantões; com aadministração federar posta
à.parte.No; grundes negócios
4o/o de italófonos em
) um cantão; (bancos, seguros erc.)
, tração feíerar,os quadros
ro/o de rornanchófonos.
ir.',nt*&
r. - 7

médios e superiores sã0, na "iãã*ilil


maioria dos.lror, bilíng,ies (alemão-
ÁJém disso, certo númercde francês) , até Ínesmo tnlíngür,
(ro* o acréscimo do italiano).
cantões ébrríngue ou
trtlíngüe (crisões, valais, F Percehe-se que os executivãs
ib"tg", Berna). Ìn.o entanto, o da maio rrugrr*noronu (Tsyo
populaçlo) se dirigemgeralmente da
Estado deve funcio nffi, a emfran"ê, uo, rornânic os (20o/o
administraçao deve administrar da popul açao)
e ocorre, entÃo, o prúlerna 'os romanches aceitarun se express ar emtrancês
de sú et emqual(is) lí;il;?; ou em alemão,o mesmo ocoÍïendo
$ercnctar esse plurilingúisrno. Pois emrclaçao aos
se a suíça é, comfre- F"lggrgrçq3
qüëncta, consid eruda christian Rub atter resurniu essa
corno um rnodero de- dem situação de ma_
Marianne Duval-valentin tern ocracia, nerra clata: "A su íça não é uma
razãoern súlinhar que: coÍnunidade plu rtlín-
8üe, Ínas uma justaposição de quatro
Não é suficiente que proposições de leis e os coÍnunidades
1s referendos geralmente unilíngries,
possam ser livre mentediscutidor; cujas rcrações são regtdas pero
a necessário também que os princípio de tercitorialidàd.e"73.
cidadãos possam debatô-los
numa ïínguaque thes seja famila{r. Ao lado dessa situa-

10. pierre Knecht, ,,1 e français


linguistiques,et sociolinguistiqurs;', em suisse Íomande, aspects il"-",i";;1ïTi*""i::,?liu'ï"qug.(o_,{,.),Laréformedestansues.
Hamburg: Busk e yertag, rgsg, uJ.ïï
io Albert valdman (org.) Le 72. M. Duval-Valentin, op. ,)ïãï.
français h'ors de France. pír's, cËampi";; , cit. , p. 46g.
rgrg.
11' Marianne Duval-valentin, ,,La
i?""t;,i*:r* _yne
crise a,l rrune;; ." suisse romande?,,
'ffi,"àJ":lï:'f#ï#ï"';
situation ringuistique em
Paris: l oe( â Sf
Rnhcrf. 1gg5,
Paris: Le Robert: ory
b. .
AS PoLíTIcAS LINGÜísrlcns A nçÃo soBRE AS r-írueuns (o srATus)
128 129

ção federal
que ocupa
, cada uma dessas comunidades Ìt[o cantão de Tessino, nota-s e rsualment e a coe-
uma porção do território conhece sua própria situaçáo xistên cia do italiano, de um dialeto lombardo e do
lingüística. Assim, nâ pafie {ermanófona, que serviu falar Iocal, e para ilustrar essa diversidade M. Duval-
como um dos exemplos utilizados por Charles Fer$uson Valentin utrltza o seguinte exemplo: um habttante
para ilustrar sua noção de diglossia, tem-se uma situa- médio de Tessino, pata expressar que está com dor
ção dialetal que faz com que se possa falar de
um de cabaÇã, dtrâ à sua mulhet) em"patod,, doril'co, a
berndütsch (alàmão de Berna) , de u.Ín züridütsch' (ale- um conhecido, em dialeto , fa m& ãï;íesta e numa
mão de Zurique), e assim por diante, com a coexistên- situação mais formal, em rtahano, mi
fa male la tes-
cia entre uma colge* suíça (espécie de denominador co- ta. Do lado francófono, enfim, nota-se uma certa
mum dos dialetos), o Schwyzerditsch e o Hochdeutsch ocorrêncta de regionalismos, mas a situação não é
(alemão-padrão), essencialmente uttltzado na escrita (e em nada compatâvel à que acahamos de descrever
freqüentemente chamado de Schriftdeutsú). Se$undo para o italiano ou o rom anche.
Duval-Valentin, Abaixo do nível federal, que garante tanto a ges-
a Suíça se enco ntrana seguinte situação paradox al:hâ, de um tão da confeder ação (.m três línguas) quanto o prin-
lado, vário s organismo que defendem a plJr eza dalíngua ale'
s cípio de tenitorialidade (paruquatro comunidades lin-
mã, mas existem, de outro, numerosas associações voltadas para $tiísticas), os cantões também podem intervff napolí-
a proteção e a melhora daprâttca dialetal. Temos aqui uma ttca lingüística. Um bom exemplo é constituído pelo
Spr a chpJt eg e ldefes a da língua] complem entadap oÍ um a enét gt- cantão bilíngüe de Friburgo, que produ ztrt um *mapa
14.
ca Mund,artpflege [defesa dos dialetos] das Línguas" (rm alemão: sprachencharta), garuntin-
A comunidade Íomanche exibe também uma do no cantão a tgualdade dos direitos ao francês e ao
grande vartação dialetal. Sua Lín$ua é dividida em alemão, mas propondo, sobretudo, certo nímero de
três grupos de falantes (romanche dos Grisões, ladi- prtncípios $erais. Assim, encontramos ness a carta, poÍ
no dos Dolomitas e o friulano), eles mesmos dividi- exemplo, a condenação da unific ação lingüística em
dos em inúmeÍas formas locais entre as quais a co- torno de um a língua mEorttárta, da anexação de po-
munic ação nem sempÍ e é fâci1. Além d.isso' no cantão pulações que falam a mesmalíngua etc.
,bem como a
dos Grisões, o romanche (falado poÍ 26o/o da popu- formulação dos direitos lingüisticos dos ctdadãos e dos
1ação) coexiste com o alemànico (5S%) e o italianrr deveres ltngüísticos das autoridades.
(7'6%) e se encontra ffi*çããõ pot essas duas lín- Percehe-se que hâ especificidades na gestão do
guas, tanto na sua forma (empréstimos e decalques ) plurilingüismo suíço: o encaixe de níveis de compe-
quanto Íta sua existêrucra. tência. Existe um regulamento federal, os cantões bi-
lín$ües geram sua próprta situa ção e as comunidades
14. M. Duval-Valentin, op. cit., p. 498. têm competência em matétta de ensino para dect4o a
r 30 AS PoLíTrcAS LrNGüísrrcns A nçÃo soB RE AS lírue uns (o STATUS) ï3t

Língua ou as 7ínguas utilizadas. O resultado mais im- apostas em cavalos.. Só em 1909 é que é criado um
portante desse tipo de abordagem é que a maioria lin- serviço "das escolas e das obras ftancesas" no Ministério
güística (germ anófona) não se comporta como uÍna das Relações Exteriores, que foru reorganrzado após a
maiorta, não impõe sua lín$uaàs minorias. E essa "paz guena de 7914-1918 em três seções erLcarregadas, res-
lingüística", garuntrda por um aparato jurídico preci- pectivamente, da ação universitária, da ação artística e
so, coÍtstitui um modelo de polític a e de planejamento das obrasls. Mas foi durante a segunda Guerra Mundial
que alguns países poderrarn invejar. que a ação culfural exterior da Fran ça garútou sua forma
afriaJ.. Em 1941, o generd, de Gaulle criou, effi Londres,
"comissariados" da França livre, rLa realtdade ministéri-
fV. A defesa do statws internacional de
-uma língua: o exemplo do francês
os, entre os quais o comissariado das relações exteriores
dividido em urna "Dtreção dos Assuntos Políticos" e um
I{o capítulo anterior, apresentamos a ação da "Serviço dos Assuntos Administrativos e Consulares e
França sobre a forma da Língua. Mas ela intervém das Obras Francesas no Exterior"16. Esse último se tor-
também de tnaneura contínua sobre seu status, so- nou, em 7945, após a tribertação, a "Dtreção Geral das
bretudo seu status internacional. Foi com a Revolu- Relações Culturais e das Obras Francesas no Exteri of'
ção que se iniciou íma ação cultural e lingüística e Çlqe, sob denomtnações diversas, se mantém atéhoje.
externa, ação que se faz por intermédio das "obtas", Essa Direção Geral se ocupa essencialmente do
ou seja, essencialmente das congregações religiosas ensino do francôs no exterior (aliás, é a unrca, num
francesas no exterior. Seja através de subsídios às ministé,rio formado por diplomatas, cujos membros
escolas cristãs, de subvenções aos missionários cató- vêm em pafie da Educação Nacional) e os cargos de
licos, aos protestantes, à Aliança Israelita Univer- adidos culturais que começ araÍn a seÍ criados no fim
sal, durante quase um século a cultura e a Iíngua dos anos 1940 eram, geralmente, ocupados poÍ uni-
ftancesas são promovidas no exterior graças a dife- versitários. Assim, uma opção fundamental ganha
rentes vetores religiosos. Foi preciso esperar o fim do forma lentam ente: a difusão da cultura francesa no
século XIX para que organtzações leigas viess em fa- exterior passa pela difusão da lín1ua francesa, o que
zer parte desse quadro: as Alianças Francesas, recen- implica, por exemplo, que não se traduzam os livros
temente criadas (1883) , em seguida a Missão Latca
(f gOZ). O Estado, nessa época, não intervinha dire- .
No original, "Part Mutuel": or$anismo que detém na França o
tamente nesse campo, contentando-se em ftnanctar monopólio da organrzação e do registro das apostas em corridas de
iniciativas privadas, poÍ intermédio do Ministério das cavalo efetuadas tanto nos jóqueis como fora deles (n. do E.).
15. Ministère des Affaires étrangères. Histaires de díplomntíe culturelle
Relações Exteriores, do Ministério das Colônias e, de fus orígines à 1995. La documentationfrançake, Paris, 195, p. 32-38.
maneLra mais inusit ada, das receitas geradas pelas 16. Journal fficiel de la France libre, 74 de outubro de 1941.
IBz AS PoLíTIcAS LrNGüíslcA:, A nçÃo soBRE AS lírueuns (o ;TATUS) t33

mas que eles sejam difundidos eÍn francè,s. Não se tratir dência da União Europ éia, o ministro francês dos
de um a opção muito lógica: pode-se ler a literatura rus- Assuntos Europeus propunha limitar a cinco as Lín-
sa, alemã, ou espanhola em tradução fuancesa ou italia- guas de ffabalho da Comunidade Econômica Européta
flã, ouvir em francë,s uma conferência sobre a pintura (qur é preciso distinguir das línguas oficiais, que são
chinesa ou assistir a filmes japoneses em inglês. A esco- as línguas de todos os países-membros), expondo-se
tha francesa será diferente e maÍca ainda hoje a políti- aos protestos de alguns "pequenos" países. O proble-
ca lingüística externa do país. A Direção Geral das Re- ma posto aqui é, ao mesmo tempo, técntco e político.
lações Culturais se tornou em seguida Dire ção Geral Se nos attvermos ao ponto de vista legal, havta treze
dos Assuntos Culturais e Técnicos (t956), depois Di- Línguas "nacionais" dtfetentes na Europa dos Quinze,
reção Geral dos Assuntos Culturais, Cieníficos e Téc-
mas uma vez que dois Estados ÍenuncLatam ao uso de
nicos (1969), mas a despeito dessas diferentes denomi-
uma de suas Línguas nas instituições européias (a Ir-
nações, que comprovam a ampliação de suas compe-
landarenunciou ao rlandês e Luxemburgo ao luxem-
tências (ur técntcas, depois as ciências se juntando à
burguês), restar aÍn apenas onze Línguas oficiais, o que
cultura), ela continuarâ seguindo a Ínesma política: di-
nos dá 110 combinaçóes possíveis de interpretação si-
fundir ao mesmo tempo a culfura) a ciência e aLngua
multâttea. Isso implica cabines de tradução, profissio-
francesas, o que implica, logicamente, Qüe se dedique
nais (os intérpretes trocam de turno a cada vinte mi-
muita energia ao ensino dalíngua. Essa é arazão pela
qual a França é o país no mundo que mais envia profes- nutos), üffi gasto enorme. Ou seja, é evidente que a
soÍes ao exterior: sua política culfural externa é antes situação não pode permanecet assim e que é preciso
de tudo uma política de difusão da Línguafrancesa. Não
limitar o númeÍo de Línguas, ou então encaÍat pagar o
apÍesentaremos aqui os centros de impulsão e de deci- enoÍme custo da iguald ade das línguas (como os
são Íesponsáveis por essa políticai a França se equipou quebequenses pag arn o custo do bilingüismo). Mas a
com um número impressionante de estruturas, de or- hipótese de uma limitação do númeÍo de línguas nos
ganismos, de comissões, que intervêm de um a Ínanerra remete a um plano político mais amplo.
ou de outra no domínio daLínÉua e das Línguas, e nos Existem, de fato, aqui, duas soluções: limitar o
n(tmero de línguas de trabalho (proposta
contentarcmos em resumff a política lingüística exter-
- contesta-
apÍesentadapela França) ou não fazw nada (po-
na do país. da
-
Iítrca que poderia levar à dominação de fato poÍ pafie
do inglês). As reações diante dessa hipótese são, evi-
NaEuropa
dentemerrte, diferentes de acordo com cada país, e com-
Em meados de dezembto de 1994, no momento preende-se poÍ que a França, que da grande imporânc;ia
em que a França se preparava para assurnir a presi- à defesa da Língua, tenha se oposto a ela. Inversamente,
134 AS PoLíTtcAS LrNcüísncns A nçÃo soBRE AS lírue uns (o srATus) ïBs
pode-s e tmagtnar que determinado nitmero de países que em suas escolas, e essa insistê nciapode ser aprese
nta-
recusem a rdéta das cinco hnguas esteja disposto a acet- da como um. projeto "etJÍopelJ', (fõrmar jovôns
euro-
tar urn statws particul ar concedido ao inglês, qu e jâ é a peus trilíngües), mas constitui ao mesmo tempo
uma
Itnguainternacional de trabalho... A esse dehate técnico- defesa do francês (se apenas uma 1ínguafor
ensinada,
político se junta outro: a lista das línguas de trabalho essa seria obviamente o inglês, uÍna segun da
ltngua é u
pÍopostapelaErança. Trata-se do inglês, do francês, do necess ârta pata garantir um lugar u, {runcês) .
alemão, do espanhol e do italiano, ou seja, as 1ínguas Percebe-se então que a política lingüística da
Fran-
mais faladas na Europa dos Qutnze. E essa escolha é ça em telação à Europa está dividid a entre esses dois
evide ntemente p olític a: e\a enfattza a comuni cação no s ei o pnncípios: a $estão lingtiística da Eu rcpa e a
defesa da
da Europa, excluindo na mesma tacada o porfuguês, lín$ua francesa. Por trás disso, existe ã iaeiu de que
o
muito mais falado no mundo do que o italiano, o aiemão futuro do francês está emjogo na un tão Europ éi;,que
e até mesmo o francês. ou seja, essa escolha ignota o épteciso a todo custo evttat que o inglês se torne
aunr-
statws mundial das Línguas e considera apenas as estatís- calíngua de ttabalho, idéi a expressa claramente
na ohra
ticas (número de falantes) na Europa. Paralelamente à public ada pelo Minist érro das Relações Exteriores:
abordaÉem técrnca (é preciso limitar as línguas de trúa-
Não nos enganemos , énaunião Europé iaque estarâem jogo
tho) , a ptoposta francesa apresentav a vma abordagem o
fufuro do francês. Se amanhã, affiruzãode concessões
sucessi-
polític a em dois níveis: vas, o inglês se impuser com o aúntcalíngua
de ffabalho, como
o é preciso evttar que o inglês se torne a untca poderemos defender o status tnternacional
do francês?lz
Ttngua de trúalhoda tlnião Europ éra;
Essa posição, que mostr a claramente onde
. é preciso escolher as línguas de trúalho em contra o inimigo (o rnonolingüismo, obviam ente,
se en_
função de critérios europeus (razão das cinco mas
o monolin$üismo anglofono), deixa de lado
línguas propostas, as mais faladas). outra pro-
hlematica. Se o status internacional do francês está
Essa úorda1am, que se situa no quadro da política
simbolrcamente em jo€o na Eu topa, seu futuro
eutopéta, mascata, de fato, interesses nacionais: a pro- esta-
tístico se decide na Afurca' onde a demog rafta e os
posta da FranÇa, Wresentada como capaz de resolveÍ aÍi
possíveis pro$ressos da esc olarrzação garunteÍn
dificuldades de funcionamento das instituições européi- à lín-
Êua um reservatórto imenso de potenciais falantes. E
as, pode ser consideradatambém como uma maneira dc
isso nos condu z a autro lado da política lingüística
defender o francê,s, uma vez que as reações dos "peque- da
França: aquele que se refere à francofonia.
nos países" constifuem uma defesa de suas línguas base-
ada numa defesa do princrpio da igualdade...
17' Ministère des Affaires étrangeres, Histoíres d,e diplornatie
Do mesmo modo, há muito tempo a França in- culturelle des orígines à 1995. Paris: La documentation
siste em que os países europeus ensinem duas línguas française, 1gg5,
p.198.
r 36 AS PoLíTtcAS LINcüísrtcns A nçÃo soBRE As lírueuns (o ITATUS) 137

Afrancofonia os francófonos ocasionais , etêvivem no espa-


ço fuancófono, mas com domínio rudimentar
E preciso consider aÍ a francofonia sob dois pon- e prâtrca limitada do francês: 55 milhões;
tos de vista: a francofonia é, com efeito e ao mesmo
enfim, os francófonos por opção, aqueles que,
tempo ) rtma realtdade sociolingüística, produto da his-
fora do espaço fuancófono, aptenderam ou
tórta particularmente da histótta colonial e um
- - aprendem o francês: 100 milhões.
conceito geopolítico Íece nte, cuja tdéta foi lan çada em
De toda forma, independentemente da exatidão
7g64poÍ dois chefes de Est ado,Léopold Sedar Sen$hor
dos números, essas pessoas vivem em situações
e Habib Bourgutba.
sociolin$üísticas muito diferentes, que vão de lugaÍes
[Jrna realíd,ade sociolingüística - Desde o co-
A) onde o francês é uma Língua altamente dominante
meço da era colonial, o francês experimentou urna
(Franç a, Québec) uma pafte daBérgica) a países
expansão mundial que faz dele, atualmente, a se$un- onde
é apenas a língua do Estado (ou seja, do ensino da
da 1ín8ua internacional, depois do inglês e na ftente ,
administração, da jus trça, etc.), falado por aproxi ma-
do espanhol, se considerarmos o númeÍo de países onde
damente 10 %o da população (é o caso dos países da
ele é ahngua oficial ou o númeÍo de países que o utili-
Aftica fuancófona). Essas situações se diferenciam
zaÍn em suas intervenções na ONU, e a qltartalín$ua
também pelas línguas com as quais o francës é ali con-
internacional (depois do inglês, do espanhol e d.o por-
frontado. Existe m países onde o francês coexiste pta-
tuguês), se consideraÍmos seu nitmeto de falantes.
ticamente com apenas uma língua, como a Tunísia;
Portanto, o francês está presente na Europa, na
outros onde ele coexiste com dezenas, até mesmo cen-
Afrtca (.* ce,tcade quifrze países), tto Oceano Índico,
tenas de línguas (seneg al, camarões, zare). E, enfim,
nas Antilhas, na Am értca Lattna (Guiana Francesa),
essas situações se diferen ctam pelos tipos de relações
na Am értca do Norte (Cana dâ), no Oriente Médio (Lí
entre as línguas, onde o francês pode ser a 1íngua do-
bano) e) eÍnmenor escala , nã Asia (Vietnam) Camboia,
Laos). Em 1995, foi avaltado em I20 milhões o núme- minante (como na Ãfrtca) ou aqíngua dom tnadi(como
ro de pessoas que uttltzavaÍn cotidianamente o francês no canadá, ou na Louisiana). Em alguns desses paí-
no trabalho ou em farnília.Trata-se aqui de minhapro- ses, surge um problema sociolingüístico impor tante:
prra estimativa, fundam entada em cálculos cujos deta- eles se encontram numa sifuação de digloss ta, mas com

thes tornartam cansativa essa exposição.O Alto Con- a pafiicularidade de que a maiorra da pop ulação não
selho da Francofoni a) rntma obra intitul ada mm de la fafa a "variedade úta", a lín$ua oftciaJ,, e r. encon ffã,
portanto, excluída de fato da vidapitblrca, do ensino etc.
francophonie dans le rnonde, rapport 7990, distin$uia:
o os francófonos reais que dominarn o francês B) um conceito geopolítico. - Em 1966, durante
como primeira ou se$unda língua e o utiliz'altl sua primetra reunlão, a ocAM (organtzação comum
habitualmente: 106 milhões; Africana Malgaxe e Maurtctana) apresentou ao gover-
r 38 AS PoLíTrcAs LINGüísrlcns A nçÃo soBRE AS lírueuns (o srATUs) r39

no francës um projeto de "Commonwealth à ftance- nas estruturas dos Estados-membros, chegando a se

sa" (expressão ja uttltzada no ano anterior pelo presi- opor discretamente em algumas regiões (como nu Afrt-
dente da Tunísia, Habib Bourguiba ), e essa fórmula ca) à promoção das línguas nacionais, ou a não
mostrava perfeitamente o aspecto $eopolítico da favorecê-las. Mas a francofonia sofreu eÍn 1989 uma
francofonia: tratava-se de aftrmar, após as indepen- tevrtavolta importante, ao menos em termos de dis-
dências das anttgas colônias, a existência de um a entt- curso. Dur ante o encontro dos chefes de Estados
dade política comparâvel àquela que constituíam os francófonos em Dakar) em maio de 1989, o presiden-
países do antigo impérto britânico rea$rryados n17ma te François Mitterrand defendeu um discurso novo ao
associ ação po1ítica. se referLÍ a um diálogo das línguas e das culturas no
A lista dos países "frartcófonos" no sentido espaço francófono. I)esde então, tem-se dado desta-
Éeopolítico é hgetramente diferente da dos países que às "lín$uas parceLras", aos problemas de desen-
s o ci olingüis ti carnente " fr ancófono s ", mas é t$uaLrn e nte volvimento. Mas se trata aqui da cooperação multila-
vartada. Se consid etarrnos, por exemplo, os quareftta e terd", uma vez Qüe, no quadro da cooperação bilaterú,,
sete Estados e goveÍnos rea$rupados (sob um statws ou a França não demonstra ter mudado de política lin-
outro) pela ACCT (,tgancia de Cooperação Culturd, e güístic a em relação à Afutca. E sur ge aqui uma contra-
Técni ca), constatamos que ao lado de países como a dição entre as políticas bilaterais (impulsionadas pelo
França ou a Bélgic a,inteira ou parctalmente frartcófonos, Ministérto da Cooperação) e multilaterais da França.
e de países outrora coloni zados pela BéLgtca ou pela Se a tdéia é, a de Qüe, poÍ exemplo, o mais importante
França, onde o francês é, como vimos, â Lín$ua ofi.cial, na Áfrrca é difundlt alíngua ftancesa, o mais lógico
encontramos países onde não se fala mais o francês seria concentrat esforços no sistema de ensino e na
(Egito, Guiné-Bissau, VietnaÍn...), assim como outros mídia. Porém, se consideÍaÍmos que o importante é
países em que o francês tem um papel considerâvel e garanttÍ nesse continente um desenvolvimento endó-
estão ausentes (Argélia). E essas apaÍentes incoerênci- geno, então é preciso perguntar como transmitir o sa-
as mostrarn bem que a adesão a essa or$anização dc lrer, a expetièncta, se a escola em lín$ua ftancesa ó o
coopeÍ ação francófona se origuna de uma escolha políti- rrrelhor vetor dessatransmissão, se a utilização de cer-
ca: é evidente que o Vietnarn ou o Egito são muito me- tas línguas africanas não traria melhores resultados.
nos francófonos que a ArgéLta, e que sua pÍesença fra- ll a escolh a entre essas duas direções é fund amental:
quela associ ação não provém de um alo$tca lin$tiística, no primeiro caso, garante-se (por meio do francês) a
mas de posições acerca da polítrca internacional. l)romo ção individual de algumas elites; no segundo
Qual é a políttca francófona da França? E1a corr rìrrso, se buscaria (por meio das Línguas africanas) rtma
sistiu primelrarnertte, como no resto do mundo, e tÌì l)r'orno ção coletiva. I.{o entanto, â França tem tendên-
defender aLín$ua francesa, em $aranttÍ sua pÍesen(rir r:irr iì tomar o partido da Línêua francesa (e portanto
r 40 AS PoLíTrcAS LtNGüísrtcns A nçÃo soBRE AS LíNeuns (o ITATUS) 14t

da promo ção individual) em sua polític a btlateral, suas necessidades e de seus meios. Esse procedirnento,
enquanto os organismos francófonos multilaterais ) em no entanto, entratta em contradição com as reivindica-
grand e pafie frnanciados pela França, voltam-se cada ções dos países do Sul e um certo clientelismo dos pen-
vez mais, porém com menos Íecursos, paÍa a se$unda ses do Norte, e o resultado disso é uma paralisia quase
direção. total da política lingüística francófona, apesar dos
Além disso, a francofonia é freqüentemente o expressivos meios financeiros de que ela dispõe.
campo de batalha de um a guerra latente entre os paí-
ses francófonos do Norte ) em particul ar a França e o
O francês no rnundo
Canadâ, eü0, paralelamente às suas políticas multila-
terais, têm çada um uma política bilatera| que nem Para o resto do mundo, assim como pata a Euro-
sempre vai na rnesma d:rr:eção. Ess a guerra dos chefes pâ, de acordo com o que ttatamos aciÍna) o problema
faz da francofonia um lugar de oposição entre os paí- da polrtrca lingüística da França tem um nome: o in-
ses do l{orte, detentores de fundos financeiros, em glês. Foi em 1919 Qüe, pela primeLta vez na históúa
detrimento da elaboração de uma linha polítiça clata. das relações internacionais, um tratado foi redigido
A França não tem políticafrancófona claramente ex- em duas línguas, o francês e o inglês. O presidente
pressa nem no domínio bilateral, nem no domínio americano Woodrow Wilson exigira que o Tratado de
multil ateral. Robert Chaudenson exprime perfeitamen- Versalhes não fosse escrito apenas em francês, como
te essa incoer ëncta quando escrevel8: era feito até então. Data simbólrca, pois desde então a
Irrança se esforça por mantw o status internacional
O interesse imediato do Sul não está nem nas indústrias da
rle "sua" lín$ua, altâs, com sucesso: tanto na Unesco
língua nem nas infovias, mas numa difusão em massa, adaptada
e eftcazdalíngu afuançesa no Sul, porque é,na Afrtca,a condi- como na ONU, o francês está entre as poucas lín-
effatanto do desenvolvimento como da democracia. grras de trabalho, numerosas delegações o uttltzam
ção prim
Mas, a\émdisso, é çIarc que o Sul tem um interesse poderoso, r:nr suas intervenções e, sobretudo, o número de
mas indireto, effi que o francês esteja presente tanto nas indús- l'r'ancófonos no mundo está em constante aumento.
trias lingüísticas e culturais quanto nas infovias. Assim, os franceses não são mais maioria no rneio
Ele esboçava, dessa form a, rtmapolític a ftancófo- rlos francófonos e o francês não pertence mais so-
rrrcnte à França. Mas eis que o francês não é mais a
na possível, que consistiria em dotar a francofoni a de
1rrirrreiraLínÊua internacional , ele éIagamente ultra-
$randes objetivos comuns, mas reservando a cada uÍn
dos países-membros objetivos esp ecíftcos, em função dc Irrrssaclo pelo inglês, e seus status é comparâvel ao do
rsl);rrrhol, até mesmo ao do portu$rlês... É possível ler
nnnrir publicação que ja citamos do Ministério das
18. Robert Chaudenson, La politique francophone: y a-t-íl un pilott'
dans l'avion? Comunicação ao Colóquio de Rennes, abril de 1995. Itrlirçires Exteriores, a seguinte passagem:
142 AS poLíTrcAs LtNcüísrrcns A nçÃo soBRE AS r-írucuns (o ;TATUS) 143
Não erremos de alvo: nãose trata de inici ar amabatalha contra trutur al-glohal, audiovisual, comun tcattva se suce-
o in$lês, mas de nos batwpela manutenção de um pluralismo diam, os exercícios estruturais foram durante deter-
lingüístico e cultural que nos parecenecessário não apenas paru
minado tempo uma panacéta, logo substituídos pelas
nós mesmos, mas paramuitos de nossos parceirosie.
microconversações, e depois por outras inovaçõrr.
É verdade que na reivindicação da exceção cultu- or,ganismos para-universitários (BELC - Bur eau
ral, por exemplo, a França cettamente defendeu seu d'Études pou r |a Langue etla Civilisation Française à
cinema, mas ao Ínesmo tempo o cinema italiano ou es- l'Eftaní.er, CREDIF - centre de Recherche et Juúa.
panhol, assim como é, verdade que os cineastas japone- pour la Diffusion du Français) se especi ayzavam no
ses gostariam que seu governo tomasse posição seme- ensino do francês no exterior, antes que o FLE
thante. Mas acontece que esse pluralismo lingüístico e (F rançais La n{ue Etrangere) se tornasse
umaespecia-
cultutal, evocado sempre que o francês se encontra lidade propriamente universitárta.Havia em tudo isso
arneaçado, é ptattcamente esquecido quando suas po- interesses econômicos evidentes, uma aborda€em teó-
sições estão mais seguras, como na França ou na Afnca rica cuja superfi ctalrdade saltava aos olhos e LtÍna re-
francófona. lativa ausência de reflexão políttca.
Os autores das Histoires de diplomatie culturelle oh- Esse desequilíbrio entre o desinteresse potrítico e
servam que quando Maurice Couve de Murville, que foi ir $enerosidade ftnancetra frente à polítrca cultur al e
ministro das Relações Exteriores por dez anos, redigiu lin$üística se prolongou sob as presidências de
suas memórias, dedicou quatrocentas páginas às rcla- Georges Pompidou e de yaléry Giscard d,Esta tng, e
ções entre a França e os grandes países do mundo e qua-
ftri depois da eleição de François Miter rand, qrr, ,,
tro páginas às questões culturais. No entanto, durante rrrultipltcatam os otganismos, âs reuniões, as deci-
esses dez anos, ametade do oÍçamento de seu ministério sões sobre a língua e a francofonia, que se viu um
se destinou aos assuntos culturais e técrucos2'. É verda- clrefe de Estado se interessar dnetamente por esses
de que durante muitos anos a difusão do francês no lrroblemas. Mas o fato de a política lingüística da
exterior foi, antes de tudo, mais um rnercado do que Irrança seÍ, aparcntemente, ffatada no mais alto ní-
uma política. os editores e os autores de métodos de vcl não garante sua unidade.
ensino ttratam lucros importantes dessa postura, e se a política lingüística da França tem uma coe-
como eÍa preciso, pela Lógtca coÍneÍ ctal, substituir r'ôncia, onde ela se encontra? É possível duvidar dessa
cicltcamente esses métodos, os "rnetodólogos', se jun- (r(x-)rëncta pú razões acima de tudo técnicas:
os luga-
tatam para produzur novas "teorias'1 Aborda$ens es- rcs de decisão são múltiplos, não existe, poÍ exemplo,
I rrrì espaço de teflexão acadëmtco que
pudesse forne-
19. Ibid., p. 197, (:(rr aos tornadores de decisão relatótios
concretos ) Ltm
20. Op. cit., p. 104. ;r(iornpanharnento das situações, uma análise da con-
AS polÍrlcns LINGÜísrlcns A nçÃo soBRE AS lírueuns (o STATUS) 145
144

juntura. pode-se também observar u.rna certa contra- cessária uma língta untca e indivisível, o modelo
dição entre a defesa verbal do plurilingüismo na Euro-
Ínonolíngüe passorl a rcinar e foi aplicado tanto na
pa e o pouco empenho na defesa desse princípio nas França como na Lfrtça na época colonial. os princí'
fronteiras da Fran Ça, Wand.o se trata das línguas regi- pios af1y;mados (plurilin$üismo na Europa, diálogo
onais. Pode-se enfim, apesaÍ de uma leve mudança de entre o francês e as lín$uas parceiras no espaço
foco após a cúpu1a de Dakar, notar que a política lin- francófono) são, muitas vet,el, uma tâttca. No en-
güística da frarrcofoni a parcce ignoÍaÍ as línguas ditas tanto, mais que uma contradição entte tâttca e estra-
;'p^rrriras", desprezando o princrpio de plurilin$üismo tégta, é preciso enxer$at aqui uma subordinação dos
das regiões, além de não se preocupaÍ com o 1u$ar das princípios a um fim: a políttca lingüística da FrarLça
línguas no desenvolvimento quando se tratado caso do tem uma coerência teleológica profunda, Qüo a con-
francês na nfrica. Além do mais, em telaçáo à ação duz a :uma incoerência teórtca e a estratégras varia-
lingüística no plano inteÍno e no plano externo, paira das. Ela não defende em tod.os os lugares os mesmos
uÍn não-dito sobre todas as estratégias desenvolvidas: 0 princípios porque defende o francès em todo e qual-
inglês. A "lei Toubofr" faz o tempo inteiro referèncta a qttt lu$ar, ainda que não o reconheça em vo7' a\ta e
"termos estran$eiros", uma ve7' ç[Ue oS exemplos que mesmo que nem sempre saiba com o fazë-lo.
aparecem no Dictionnaire des termes officíels delal,angue
palavÍas inglesas, e a as-
françallse substituem todas as V. A substitui ção de um lín$ua colonial: os
ptraçâo ao plurilin$üismo defendido, no que diz respei- - inícios da arabização na Africa do Norte
io à Europ a, tem sempÍe por função a de se opor dire-
tamente à arneaça de uma posição dominante do inglês. Vimos no primeiro capítulo que os sociolin$üistas
Dessa forma, PoÍ todas eSSaS razóes, tem-se a e os militantes catalães utrltzavaÍn anoçáo de normali-
impressão de que essa política lin$üística não tem zação para design ar a ação sobre as línguas que leva-
nenhurna unidade e podemos tnda$at, com Robert ram à substituição sústituição do espanhol, nas fun-
Chaudenson, "Se há um piloto no avião". Mas a coe- çoes ottcrais, pelo catal,áo. Nesse caso
F.
patttulat, tra-
rência dessa política se encontra num outro níve1, no tava-se de d,evolver ao cataLáo um status que e1e o,cupa-
da defesa da ríngua francesa, tanto do ponto de vista va no início do século. A situação do ârúe rLa Africa
do cyrpws (luta contra os emptéstimos, neolo$ia em do Norte é compl etamente diferente. Se$undo G.
diferentes campos, indústrias da línÉua...) como do Grandguillaumezr: "A arabtzaçáo consiste em tornar
ponto de vista do status (lugar do francês nas insti-
iuições internacionais, ensino do francês como lín- 21. Gilbert Grandguillaune, Arabísation et polítique línguistiqae
que a Revolução decidiu uu. Maghreb. Paris: Maisonneuve & Larose, 1983, p' 9'
A maioria das
Êua estran ge:t..a etc.). Desde
irrformações expostas nesse capítglo vem dessa úra'
que para :UtÍna República untca e indivisível efa ne-
t 46 AS poLíTtcAS LtNoüÍsrrcns A nçÃo soBRE AS tíNreuns (o STATUS) t47

o árabe aquilo que ele não é". E acrescenta mais adian- cendo o reconhecimento oficial. Quanto ao ârabe como
te que se trata de arútzação e não de rearúização: Língua maternâ, ele foi igualmente desvaloúzado:
ceftamente um retorno às fontes, à lín gua das
O julgamento (desfavorável) devalor atribuído ao ârabefalado
origens pare ce ttanqutltzador e se apÍese ntacomo fun- cotidianamente se resume em apresentá-lo sob o aspecto de
damentalmente legítimo. Mas conceber a arabização uma coffupção do ârabeliterário que precisa, o mais rapidamen-
como um retorno a um estado de culfura e de lín{ua te possível, ser abandonado ou desap ateçetz3 ,

pré-colonial é, evidentemente, uma ilusão . para falar


Além dessas línguas maternas, os três países da
apenas da línÊlra, ela deve exprimir hoje um mundo
Afncado Norte (MaÍïocos, Arg efrae Tunísia) estavarn
totalmente diferente do que foi outrora, partrcular- confrontados com duas outras línguas, o fuancès de uma
mente seu uso no lugar do fuancès a conduz a expÍes- parte, herança da época coloniú, c o ârabe. Mas é deli-
sar realidades novas em relação ao fundo lingüístico cado definir esse ârabe, que não e aYrngua falada. Exis-
ârabe tradicional. Existe a rearabização no sentido de te, de um lado, o ârabe clássico, Língua do Alcorão, sa-
uma restaumção da línÊua árabe coÍno língua de cul- cramentadacomo fator identitâno e comobase da comu-
tutta, mas não no sentido da pura ressurgênci a de uma nidade dos crentes. Trata-se, propri amente falando, de
situação lingüística passad a22. uma língua morta, como o latim, Qüe se apÍende essen-
A situação do ârabe na Africa do Norte é, de cialmente lendo o Livro Sagrado. Existe, de outro lado,
fato, diferente da do catalão na Espanha: as estrutu- o árúe moderno, língua das mídias, do aparelho de
ras do Estado do qual o ârabe devia ser o meio de Estado, sobre o qual Grandguillaume escreve:
expressão e de gestão não existiam antes da colontza-
Sem referência culfural própria, essa língua tarhémnão tem co-
ção. Além disso, ali o contexto lingüístico era muito munidade. Ela r,eraé ahnguafalada de ninguémnarealidade da
particular. Muito se escreveu sobre as relações entre vida cotidiana (. . .) Bssa faltade referência comunitária dalíngua
as línguas em contato, o ârabe, o berbete e o francês, e árúemoderna foi oportuna paraos defensores daarúwação: por
é exttemamente dificil esclar ecet essa questão. O que isso eles tentam, confra todas as evidências, estúeleceÍ uma confu-
são entre essa língua e a língua materna. Os exemplos na história
é cefto é que existem na Afrrca do Norte dois conjurr-
das controvérsias em que a reivindi cação dawabaaçaoé expressa
tos de hnguas maternas: o conjunto ârabe e o conjun-
em reivindicação dalíngua materna são abundantesza.
to berbere. Sob denominações diversas (berbe re, cúila,
tamashek, tamazight, tachelhit, chleuh...), o berb ere É portanto esse ârabemoderno que está no centro
sempre foi considerado, desde a conquista árabe,como do processo de arubtzação, Ç[u0 se manifesta no MaÍïo-
um dialeto minoritário (mesmo que ele seja, sem üJ,-
vida, ainda hoje majoritário no Marrocos), não mere- 23. Michel Barbot, "Réflexions sur les réformes modernes de
I'arabe ltttéral", in: Istvan Fodor; Claude Hagège (orgs.) , La réforme des
langues. Hamburgo: Buske Verlag, 1983, vol. 1, p. 133.
22. Op. cit., p. 31 24. Gilbert Grandguillaume, op. cit., p. 25.
l4g AS PoLíTlcAS LlNcÜísrlcns A nçÃo so B R E AS r_íw c uns ( o srATU s) 149

cos aparttr de 1957 (decisão abortada- de arabtzar tnarro será atabtzado. A medida, precip ttada e mal
- prepaÍada, foi um fracasso total e, em conseqü èncta,
o ensino primário), na Tunísia apartir de 1958 (insti-
tuição dos dois primeiros anos de ensino em arabe) e o ministro Íenunciou ao catgo em 1958. Mas a ques-
na Ar gélta a parttr de 1962 (instauração na escola pri- tão passa a fazw parte da ordem do dia: o rei crra
mârta de sete horas semanais de ârúe em trinta horas uma comissão de reforma do ensino encatregada de
de ensino). Nesses três casos, é possível perceber que é preparar um projeto, e o problema da anbização será
através da escola que o processo se inicia. Mas as dife- de novo abordado em junho de 1958, durante a pri-
renças entre os três países nos obrigam a abordá-los metra rcunrão do Conselho Superior de Educa ção.
inicialmente de maneira separada. Apres entaremos A primeira solução escolhida seria a de classes ex-
então sucintamente suas políticas lingüísticas nos anos perimentais: em 1960, úre-se uma classe inteiram ente
1960 e 1970 antes de fazer uma tentatla de síntese. arúizada em Rabat e em Fez, uma outra, em 1961 ) eÍn
CasablarLca. Na mesma épocâ, o Ministério da Adminis-
tração Pública e da Reforma Administrativa inaugutava
No Marrocos cursos de formação em árabe pata todos os funcionâ-
Apesar do silêncio oficial que patrava atébem pou- rios. Paralelamente, organismos de reflexão sobre a
co tempo sobre a questão, o Marrocos é um país lin- arabtzação foram criados em Rabat (Instituto de
güistic amente heterogêneo: ali o berb efe é falado como Arabwação, Secretaria Permanente do Congresso pata a
prime iralínÊuapor pelo menos metad e dapopula ção" . Coordenação da Arabrzação nos Países Arabes), enqu an-
No entanto, em fevereiro de 1956, algumas semanas trr o Conselho Superior de Educação Naciond,, emoutu-
antes da independência, foi criadaem Rabat aLt$acon- hro de 1962, exigiu que o ârabe fosse a itnrcalíngua de
tra o Analfabetismo, cujas carnpanhas de intervenção cttsino. Na época, o ministério hesitava entre duas estra-
eÍam unicamente em arabe, e observaÍemos que em to- tcgias: arúaat ano por ano ou matéria por matéria. A
dos os debates sobre o uso público das Lrnguas no Mar- 1rt'imeira solução foi a escolhida e lançada emoutubro de
rocos o probl erna do berb ere nunca foi abordado: ape- lÍ16:l: em \967, todo o ciclo prtmáno seria desse modo,
nas o Movimento Popular (fundado em 1957) reivindi- nno após ano, atútzado. Mas os resultados não foram
caú,perÍnanentemente o ensino do berbere... srrÍìcientemente convincentes: o afluxo dos alunos e a
É no início do período escolar de 1957,logo após tlucrla do ruvel do ensino levaram o ministro Benhima a
a independência e sob o impulso do ministro da Edu rrgrrlamentar em 1965 o acesso dos alunos ao secundá-
cação, Mohamed El Fassi, que o primeiro ano do pri liu. Allesar das violentas reações provocadas por essa
rlrt:isrìo, o ministro iria mantô-la em abril de 1g66 e anun-
r*rriir, oo mesmo tempo, sua intenção de que o ensino
25. Nenhum recenseamento foi feito sobre essa questão e tlir'
pomos somente de dados aproximativos sobre' ela. tfari rrrltérias cientrficas voltasse a ser feito em francês.
AS PoLíTlcAs LlNoÜísrtcns
A nçÃo soBRE AS lírueuns (o STATUS) r 51
tso
çFe o arabefalado seja alprancarrrcnte unificado.
Em 1958,
Em 1965, o Ministério da Justiça foi oficialrnente
o arúe foi introduzido nos dois primeiros anos do irtrnâ'
arabtzado, os demais setores da administração continua-
rio, medida que foi acompanhadapela supressão d.as esco-
tarrLa utilly:ar o franús ou o ánúe, de acordo com a oca'
las corânicas. I.{o mesmo ano, decidiu-se por írrLatntnwen'
sião, mas princrpalmente o francês, â itúgar pelos inúme-
çao no ambiente lingüístico: as placas de todo
o comércio
Íos protestos dos usuários" Grandguillaume destaca com
,,esse afrancesamento perse$ue o maÍïoquino foram ar#aadas. OÍizeanos mais tatde,Ahmed Ben Salú,
humor ç1ue
que erao responsável pela educação no $overno, decidiu
até o úmulo, pois até as autori zaçóes de enterro são
restabelecer o ensino do francês nesses dois primeiros anos.
redigidas em língua estran$ e1ra"26. De fato, deixando de
Aparentemente contava com o apoio do presid ente
lado a justiça , a xú:u;açáo da administração ocoÍïeria de
Bourguiba, mas, offi novembro de 1969, dois meses após o
maneira não-coordenada, deso rdenadamente.
Em outubro de 1968, o rei anunciou uma medida início do ano letivo, ele perde seu posto. No entanto' sua
reforma serâ aplicada e mantida durarfie dois anos. Em
um tanto surpÍeendente, mas que parecia aptesentar o
problema do ensino de maneira diferente. Tratava-se 1g7!,o primeiro ano do primrírio será novamente aur:útzado;

de abrir em todo o país íÍna espécie de ciclo pré-esco-


em 1976 será a vez da arútzaçáo do se$undo ano o em
çar, de escolas corânicas "modeÍnas", çIue aS crianças
Ig77, do terceiro. Paralelamente, xfu:u:xra-se certo ni:rlrrc'
freqüentariam dos 5 aos 7 anos. Esse sistem a, qLte seria ro de matérias no seffindário (filosofia, história, $eoSafra)
e no superior (ciências humanas).
efetivamente estabelecido, colocav a craramente em de-
Ainda nessa mesma época, um debate (iniciado na
bate a questão súre qual arube ensinar: se as crianças
Assembléia Nacional em 1970) sobre aar:ú:uaflo a$ttavaa
maÍïoquittur someç avamseu ciclo escolar com dois anos
classe polÍtica e os intelectuais. O principal újetivo era fa'
de escola corânica, evidentemente era o ánabe do Alco-
z,er oposição à no@o de "ürnisifica@o", defendida por al-
rão que iriam ali estudar. Entrariam em seguida no sis-
Éuns ministros, Qtr€ não colocava o problema
lingtiístico em
temade ensino primário. Para o resto, apesar dos pro-
primeiro plano. Posteriormente, ern 1974, surgiu umapolê-
testos d.e umapafie da opinião, o bilingüismo era man-
mica entre Hedi Balegh, Qüo reivindicava o uso do dialeto
tido a parttr do terceiro ano do primâtto.
flrnisiano e não das "hnguas aristocráticas" (o atúehteúr
rio e o francês), e o ministro \Ãzah para quem "o arcbe
NaTunísia falado não é,smalínguade c;lvúuação'1 Aolon$o desse tem-
l)o, a arabizaç,ãn da administraúo ocoÍïeu, assim
coÍno no
A Tunísia éo pú da Afficado Norte sL1ia sitqa@o

linguística é a mais simples: o berbere praticamente desapa-


Marrocos, desord.enadamente. Apenas os ministérios da
.Justiça e do Interior foram arúaados no início dos
anos
Íoceu de cena e o reduzido tamanho do território faz com
lg7\,mas em ç1ue árúú Uma anedota famosa ilusffabem
r:sse problema. O presidente da Repúlica, Húfu Bourg;uiba,
26. Op. crt., P. 79.

ïì
AS polírtcns LINGÜÍsrlcns A nçÃo soBRE AS líneuRs (o srATUs) r 53
r52
do: dez horas semaÍrais, além de um ensino religioso
rurm discurso pronunciado em 1g65, assinalava que o fato
instaurado em 1964 e do primeiro ano do ptimârro
de redigir os autos em árabeliterrírio, enquanto os depoi-
intetamente atúizado e, por fim, a cttação de um "efl'
mentos eÍam feitos em ârúe falado, fana com qrle esses
sino original" inteiramente arabizado e de tendência
ultimos coÍïessem o risco de ser deforrnados' e ele teria
religiosa que será mantido até 1976. Em tazáo da au-
declarado a um oficial de polícia (em dialeto ttmisiano): "Ela
sência de professores habilitados, haverâ um recruta-
prestou depoimento em dialeto, escreva-o tal e qual'l sete
mento de "monitores" de um nível muito baixo, quase
anos mais tarde,em julho de lgTL ele voltaria a esse tema
sempÍe oriundos de escolas corânicas, bem como de
numa entrevista à televisão francesa, discorrendo sobre os
,'Eu não falo com eles emârúe rcgtÃar, o árúe professores egípcios e, posteriormente, sírios. Depois do
tnnisianos:
golpe de Estado que destituiu Ben Bella, em 1965, a
ffiffi o áxúe ç111e eles mesmos falam " '"
dos antigos,
arabtzaçáa segue no mesmo ritmo: em 1967, o se$undo
Esses diferentes debates podem parecer estranha-
ano do primâno é arúizado, os anos se$uintes são par-
mente calmos se comparados ao que aconteceu na Ar-
gélta.É verdade que na Tunísia, como iâmencionamos,
cialmente arútzados em 1968 etc. Na universidade, flo
entanto, as coisas ocoÍïem muito mais lentamente: os
não havia o prúlema do berb eÍe, o que desapaixonou
estudantes são hostis ao ensino em ârúez', o que Leva,
consideravelmente as discussões. Mas, a despeito do
em 797| à instauração de um exatne obrigatório de
peso da reli grão, o prúlema do dialeto, do ârúe falado
árabe em todas as licenciafuÍas ensinadas em francês.
ou tunisiano, como se queira (em tunisiano é chamado
As coisas andam igualmente rápido nas en$rena'
de bâ,rbríl), foi exposto de um a rnarLe:rta clxa, em dife-
gens do Estado. Em 1968, üffi decreto decide pela
rentes níveis, inclusive no mais elevado, o que está lon-
arútzação da administração. Em seguida) eml97},uma
ge de seÍ o caso dos dois outros países'
portaria ministerial fixa o nível de domínio da 1ín9ua
ârabe que os funcionários públicos devem ter (os altos
NaArgéIia funcionários serão dispensados desse pré-requisito em
1973). Essas medidas são acolhidas de maneiras dife-
O problema da atútzaçâo na ArgéLra se encontra,
rentes: os funcionários públicos, em particular, temem
desde o início, mergulhad.o nas contradições internas
,,socia1ista", cuJa política extetrLa o im- ser dispensados ou não ser pÍomovidos. Mas a arabtzação
de um Estado
pulsiona em direção aos países do Oriente e que faz', l)rosse$ue no mesmo ritmo, ou quase: o noticiário cine-
rrratogr âfico havia sido arúrzado em 1967, um terço das
por outro lado, referëncias permanentes ao islamismo.
Alguns meses depois da independência, no começo do
ano letivo de !962, o governo da ArgéLra introduzhu 27 . Segundo uma pesquis a reabzada pela Universidade de
sete horas semanais de ensino do fuabe no sistema es- Itrrr.kcley por encomend,a da Argélia em 7967,80% dos jovens ar$eli-
rrrrs são hostis à arabtzação da universidade.
colar primário. A refotÍna continuarâ em ritmo força-
AS polírtcAs LINGÜÍsrtcns A nçÃo soBRE AS lírueuns (o srATUs) r 55
t54

primeiro ano do secundâno o são posteriormente pela França) um problema comum (corno
e
seções cientrficas do
em 197\, as inscrições públicas em 1976 etc. passar a um ensino arúe?), mas2 como vimos, com $tua-
e úordagens muito diferentes d.esse problema. É bem
Ao longo dessa política de arútzação, três pro- lO.,
blemas estão constantemente subjacentes: verdade ç1ue eles tentararn harmonmar suas políticas lin-
giiísticas (Conferência dos Ministros da Educação Nacional
o O problema dos dialetos. Em 1963, Pof exem-
plo, houve uma $tande polêmica sobre as can- da Africa do Norte em fevereiro de 1966, em Túnis; úa@o
de um Comitê consultivo norte-africano erLcarfe$ado de tra-
ções difundidas pela Rádio Alger, crittçad.as
por serem quase seÍnpÍe em âtabe clássico' balhar pela determinação de um "atúe fundamerttÃ" em
embor a ia existisse uÍna canção popular em toda a Afnca do Norte; se$unda reunião da Conferênc;n
ârabe argelino. dos ministros da Educação nacional em abril de 1967 em
Argel; tercekareunião em junho de 1969 em nabat etc').
o O prúlema do cabila. Da mesma forma q17e
no Marrocos, é difícil saber com cetteza Mas, na rcahdade, eles não constituíram or$anismos co-
quantos ar$elinos têm o berb ere como Lín$ua muns de arútza$o.A lista dessas instituiçoes apÍesentada
materflâ, mas podemos estimá-los em 30Yo por G. Grand.guillaume é, desse ponto de vista, eloqüente.
da popu|ação. Desde a independência, esses Sob o títtrlo "As instittdçoes da atabaação" , de dá dois or-
ganismos permanentes, O Insütuto dn Estt'dos e dn Pnquka
berberes se opuseratn à ambrzação em nome
da defesa de sua lín$ua e de sua cultur â, o que pera a Arabização Gm Rúafl e a Secretarin d"e Coord"ermçã'o
os levou primeiramente se en$Earern Í7a ma- rln Arabizaçã0, financiada pela Lrgaarane e que trúaftta
nuten çãa do francês, e depois a teçvindicar a com a terminolo*a, aos qlrais é preciso acrescentar quatro
utilização oficial das "línguas populares", ol'l organismos que se reúnem periodicamente, enffe os quais
seja, o afabe ar$elino e o berbere. Diante des- apenas o Comitê Cornultívo Ìlorte-fficano ptodtntu uma
sas hesitações, o poder respondeu com a r0- obra, dedicada ao "ambe funcional'1 Mas é pouco, sobrefu-
pressão: suprimiu, em L973, a câtedra clt: cloporque o conflito fronteiriço entre aLrgehae o Marrocos
berbere que Mouloud MammeÍi ocupava tìrr a respeito do território saaráui não facilitou a colabora@o
universidade; proibiu, em 1976, a revista Lt' enfre os lingiiistas desses dois países.. '
Fichier Berbère e proibiu, em 1980, uma corr E, difícil hoje em dia avaliar o resultado dessas
ferência de Mammeri sobte apoesia cabila clt.' políticas lingüísticas (alguns se felicitam, outros che-
t{am a drzeÍ que se criou uma $etação de
analfúetos
o E por trás de tudo isso aparcce, obviamentc, t I Mas evidente que a arúLaa-
problema da religião, comum aos três paíst':; r:rn ârabe e em francês). é
Ção, ao menos na Ar géLiae no Marrocos, está lon$e d'e
da África do Norte.
,ricr um $rande SuceSSo, e podemos tentar listar as prin-
Esses três países tinham um passado colnum (territ"
rio originalmente berbere osupado pelos árabes e colonizr tt 1,, r:ilrais razões das dificuldades encontradas:
AS políTtcAs LtNGüísrrcns

a constante confusão entre o nível político e o


nível religioso. Esse problema certamente foi tra-
tado de maneiras diferentes em cada país (ru-
primiram-se as escolas corânicas na Tunísia, elas
foram transformadas numa espécie de ciclo pré-
pnmánto no Marrocos), Ínas o estatuto ideológi-
co muito pafttcular da lín Êua para os ârúes
coNcLusÃo
pesou enofinemente sobre as discussões.
o fato de alínguaescolhida como línguanacio-
nal nunca ter sido uma língua falada pelo povo; As políticas lingüísticas estão em ação emtodo o
o problernaberberc, em pelo menos doii dos mundo, sempte acomp anhando rnovimentos políticos
três países: fia Argélia e no Marrocos, a arabt- e sociais, e a mud ançalingüística vem rcforçat aemer-
zação foi vista pelos berberes como dirigida
$ëncta de nações e suas coesão oü, ao con ttâtto,a divi-
contra sua ltngua e sua culfura. são de alguns países em novas entidades políticas. Men-
o fato de o francês, mesmo que sua impor- cionamos muitos exemplos dessas situações, particu-
tãncta tenha diminuído muito, ter-se tornado larmente nos capítulos IV e v deste livro. Na Norue-
uma Língua de privilegiados.
8a, a busca de uma língua unific ada veio rcforçar a
Assim, a função nacionalista da arabrzação foi
vontade nacional atuando sobre alíngua pata distin-
de certa form a "poluída" tanto pelo integralismo mu-
$ui-la o máximo possível do dinamarquês. Em outros
çulmano como pelos conflitos entre árabãs e berbeÍes lu$arcs, essa tradução tingüística do naóionalismo pode
e os ressentimentos pós-coloniais com relação à lín gua
acomp anhat as piores ações militares: na ex-Iugoslá-
francesa. No mesmo ponto em que a Tanzànta e a
Indonésia, países iguaknente muçulmanos, soú efam via, por exemplo, os que falavam ontem uma lingua
promover uma língua nacional que não lesava as lín- comum, o servo-cro ata, empenham-se hoje em falar o
guas maternas, ou onde a Suíça tentou, com êxito, sérvio, o cro ata ou o bósnio1. I{os países da Africa do
or$ani zat seu plurilin$üismo, os países da Africa do Norte, onde os problemas religiosos misturam-se aos
Norte ftzetam uma escolha que só pod eflacausar vio- probleÍnas lingüísticos, eles sempre dific ultaram os de-
lentos conflitos e cujos efeitos continuamos a ver. bates etc. As políticas lingüísticas existem para nos
Mas o efeito mais marcarúeda história sobre as situa- tecordat, ern caso de dúvida, os 1aços estreitos entte
ções lingursticas reside, sem dúvida, ro fato de que os paí-
línguas e sociedades.
ses da Africa do Norte ainda estão por garantir o stafin
de
uma das hnguas mais faladas no mundo, enquanto a França 1. Em 1991 foi publicado, em Zagreb, um dicionário das
distin-
trúalha pelo status de sua língua no mundo. ções entre as línguas seÍvo e cro ata: Razlikovni Rjecnik Srpsk,og i
KrvastslQog Jezika.
r 58 As PoLíTrcAs LING üísncns
coNcl_usÃo
t s9
Mas outras políticas lingriísticas (nu Tanzània,
na
suíça, na Indonésia , flã catalunha.. .) parecem
ter tido
o se]a falada por uma larga rnaiori a dapopula
ção;
sucesso. corno explic ar o fato de que uma política
1in_
o seja ac'ettÁvel como símbolo da unidadã nìcional,
gúística poss a ter êxito ou dificuldades sern prejudicar ninguém) e o melhor
em ser apltca- caso seria a
da? Os fatores que facilitam o êxito podem escolha de umartnguaveicular, se houver;
ser históri-
r:r (ru épocadaindependência da Tan ,a"a,;;;;;;* o seja equipa da, pronta para preencher as
fun_
ções às quais se destina. caso conftário, esse
Plo, o suafli iâ eraescrito e unlizado havia *,rito tempo
equipamento deve ocorrer imperativamente
na administração local, o que facilitou sua promoção).
antes da promoção da hngua;
Os fatores
!ão freqüentemente simbólicos: o suafli ain- o a políttca lingüís tica seja óxplic ada à popula-
da eravistó cómo alíngua daindependênc ia, enão
po- ção e acetta por ela.
dia ser assimilado à língu a de um grupo étnico Em sua obradedicada à história do suaíli, Wilfred
impãn-
do-se às outras, como aconteceu com o malaio whiteby se interrogava: "eue lições nos dão a Turquia
na
Indonésia. Os fatores que rfi,*m contra são, às dos anos 1930 e 7940, aMalasia e a China
vezes, dehoje ou
técntcos: a âusenôin dte;qtpamenir;ã;
pittipitação demasradamã"à grande, ou ainda
ffiïi;*;, 1984 de George orwell?", E, essa associ ação
entre al-
o tama-^ guns exemplos de planejamento lingtiístico
e um roman_
nho do país (como no caso da china). Esses fatores ce de ficção política, que foi du rante rnuito
se tempo sím-
devem freqtientemente ao imperialismo lingüístico bolo do totalitarismo, é interessante porque
do enfatiza
Estado' como nos países da Afrtca do Norte, precisamente o problema da democraciu.
onde a E* todo pla-
Irngua nacional não é exatamente aquela faladapelo nejamento, há um reduzido número de planejadores
e
povo. Por fim, são fatores que dependem, um grande núrnero de planejados aos quais raramente
de maneira
contraditória, dos modos de decisão: se regimes políti- se pergunta a opinião. Deste ponto de
vistâ, o exemplo
cos fortes, como o da Turquia, podem seÍïr da fuancofoni a é tnteressante. Vê-se bem a importânlia
dificul dade,
ao Ínenos por um tempo, irnpor sua política, por da Afnca para o futuro da lín
outro Êuafrancesa, mas uma
lado, muita democÍacratanúém podr, ,o*o política lingtiística conseqüente ãeveria
no caso da tamb émquestio-
Norue Êa, prejudicar o processo de planejamento. nar-se sobre a importância do francês para
o futuro da
o que é necessário então paraque uma política lin_ Afutca: qual o papel das línguas no desenvorvimento
que lugar o_ furcês pode ocupar neste processo
$tiística tenha todas as chances de dar certoi À 1.r, dos etc.
esfudos de caso apresentados neste livro e As políticas linffiticas apresentam também pro_
de outros que
não tivernos tempo de mencionar, é possível fazer blemas teóricos. A história iecente da i"rãr"r;ôa;
uma humana vol untârta sobre as línguas nos mostra
lista dos fatores ottmaadores, lista que tem o que
origem, aliás,
no bom senso. Panque uma lín$ua possa
ser, por exem_
plo, promovi da alínguanacion ã, é prefenvel iue, 2.w. whiteleSr, swahili, the Rise of a Nationar Language. London:
s.e., 1969,p. 93.
r 60 AS PoLíTrcAS LtNGüísrlcns

hâ de política lingüística na lingüística. Os primeiros


teóricos se pÍeocupavam apenas com a ação sobre a
forma das línguas, num a época em que a lingüística se
preocupava apenas em descrever a estrutura das lín-
guas. Depois, à medida que a lingüística se torna so-
ciolingüística e que tenta d.escrever as relações entre
BIBLIOGRAFIA
línguas e sociedades, passando a interessar-se pelo
plurilingüisrno e pelos sentimentos lingüísticos etc., âs
políticas lingüísticas vão se interessaÍ pelas funções ArrsJauBANA, S. T., Language Planníng for Modernízation, the Case of
das línguas, e essa passagem do clrpus ao status de- Indonesian and Malasyan. Parts: Mouton, 1976.
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Das GuPta, J. 13, t4, L5,162 Hymes 13
De Gaulla, C. 131
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Duval-Valentin, M. 726, tZB, Jakobson, R. 23
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:i:rl!ã.âffi!.l89iLìWt

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K P
Kin, Pa 89 Panini 2l
Kloss, H. 28, L29, 163 Pompidou, G. 743
Kneút, P. 126, t63 Prudent, L.-F. 33, 163
Knudsen, K. 113
R
Komisi Búasa Indonesi a 3L, 124
Ray, P.S. 25,26,28, L63
Korais 23
Riúelieu,23
L Rocard, M. 99, 100
Labov, V/. 13 Rubattel, C. t27,163
Labrousse, P. 124, t25,163 Rubin, J. 13,74, 15,764
Lafont, R. 33, 163
S
Laporte, P.-E. 15, 163
salt, H. 118, 164
M Samarin 13
Mammeri, M. 154 Sarúhota, T. 11
Marcellesi, 17 Santos, B. I
Meillet, A. 19, 161 Sedar Sen$hot,L. 136
Metódio 11 Simon, H. 22
Mistral, F. 23 Stewart,'W. 38, 42, 43, 45, 46,
Mitterrand, F. 139, 143 59, L64
Murvi11o, M. C. de 142
T
Mzali, 151
Tauli, V. 25,27,28,164
N Tse Tun$, M. 89
Nebrija,23 Turé, S. 82, 83
Ninyoles, R. 15, 18, 163 Turi, J. 76,164
Nyerere,J. 120
V
o Yurela, L. 9
O'Barr, J. 74, 163
O'Barr, W. 14, 163
w
Ophuysen, C. Van 123 Whiteley, W. 118, 159, 764
'Wilson,'W. t41
Orwell, H. 159