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TEORIAS FUNCIONALISTAS E A ANOMIA.

João Ignacio Pires Lucas

INTRODUÇÃO

A sociologia é uma ciência que se relaciona claramente com a observação e


a análise do comportamento social humano, isto é, a interação da
pluralidade de seres humanos, com as formas assumidas por relações e a
variedade das condições e determinantes destas formas, assim como com as
mudanças nelas ocorridas.
Talcott Parsons, 1976, 481

É longo o caminho das teorias funcionalistas e sistêmicas no âmbito da sociologia jurídica e


da própria sociologia em geral2. O positivismo sociológico e jurídico pode ser visto como um
momento inicial de surgimento das visões sistêmicas e funcionais sobre a sociedade, pois a
caracterização do fato social e jurídico é base importante para o desenvolvimento da teoria de
análise do comportamento das pessoas. O fato jurídico como um dos tipos dos fatos sociais é a base
desse debate. O fato social, segundo Durkheim (1995), como coisa, generalizado e imposto como
noma social às pessoas é a referência para a construção e definição dos fatos jurídicos.
O fato social é uma “coisa” porque precisa ter a mesma consistência de objetos concretos,
como as mesas, portas, cadeiras. Os fatos sociais que interessariam à sociologia seriam da mesma
consistência: objetivos, mensuráveis, concretos. De outro lado, apenas interessariam também os
fatos sociais amplamente generalizados, ou seja, presentes no dia a dia da vida do maior número de
pessoas. Para tanto, os sociólogos estudiosos dos fatos sociais, como o já citado Durkheim,
entenderiam que os produtos deles seria a própria sociedade em geral. Até poderiam os fatos sociais
começar aqui ou ali, mas apenas no momento em que eles atingissem o todo social é que seriam
válidos sociologicamente. Por isso, uma vez que tais fatos sociais (e jurídicos) seriam produzidos no
todo, é que eles chegariam até as pessoas como “normas sociais”. Tais normas sociais, e não
jurídicas, como sendo o peso das pessoas terem que seguir o que as outras, especialmente os mais
poderosos, teriam a impor. Viver em sociedade passaria por tal processo de “socialização” com as
regras estabelecidas pelos outros (mais poderosos).
Dessa forma, iniciando com Emile Durkheim, passando por Robert Merton, Talcott Parsons

1 PARSONS, Talcott. O conceito de sistema social. In: CARDOSO, Fernando Henrique; IANNI, Octávio. Homem e
sociedade. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976.
2 Referência da discussão: GIDDENS, Anthony. Sociologia. 6 ed. Porto Alegre: Penso, 2010. Outra referência:
MÜNCH, Richard. A teoria parsoniana hoje: a busca de uma nova síntese. In: GIDDENS, Anthony ; TURNER,
Jonathan (orgs.) Teoria social hoje. São Paulo: UNESP, 1999.
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e chegando até Niklas Luhmann3, há um conjunto grande de contribuições não apenas sobre a
conduta humana, mas, especialmente, sobre os impactos que as leis e as normais sociais têm para
que as pessoas façam ou desfaçam comportamentos.
O objetivo deste texto é apontar os elementos teóricos principais e os conceitos mais
significativos para a compreensão dessas teorias, mas numa perspectiva voltada aos pontos em
comum, pois também exitem diferenças nas obras desses autores que não podem ser
menosprezadas. Nesse sentido, quatro perguntas serão lançadas para que se possa atender a esse
objetivo: (1) qual a noção teórica mais importante sobre o funcionamento do comportamento
humano; (2) qual o conceito mais importante dessas reflexões teóricas para a explicação do
comportamento humano; (3) outros conceitos que ajudam na discussão dos problemas de pesquisa;
(4) as principais recomendações dessas teorias para a explicação da realidade atual.

1 - QUAL A NOÇÃO TEÓRICA MAIS IMPORTANTE SOBRE O FUNCIONAMENTO DO


COMPORTAMENTO HUMANO?

As teorias funcionalistas consideram que o crime e o desvio resultam de


tensões estruturais e da falta de regulação moral na sociedade. Se as
aspirações dos indivíduos e grupos não coincidem com as gratificações
existentes na sociedade, uma disparidade entre os desejos e sua realização
poderá ser observada nas motivações desviantes de alguns membros.
Anthony Giddes, 2010, 665

As teorias funcionalistas e sistêmicas da sociologia são construídas a partir de um ponto


central, ou seja, de que a sociedade é fruto da coesão social produzida pelo acoplamento dos
indivíduos e grupos ao sistema geral, numa perspectiva de “mão dupla”, pois tanto o sistema social
precisa favorecer o acoplamento dos indivíduos e grupos, bem como os indivíduos e grupos
também precisam aspirar tal condição. Essa já era a principal preocupação subjacente à obra de
Durkheim (2010), Da divisão do trabalho social. Na visão desse sociólogo, a divisão social do
trabalho produziria cada vez mais uma sociedade individualizada, na qual os indivíduos teriam
múltiplas formas novas de solidariedade e, entre outros aspectos, dificuldade de adesão ao todo
social (sempre marcado pela existência de algum tipo de regulação social).

3 Obras relevantes desses autores e suas edições no Brasil e América Latina: DURKHEIM, Emile. As regras do
método sociológico. 15 ed. São Paulo: Editora Nacional 1995. DURKHEIM, Emile. Da divisão do trabalho
social. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010. MERTON, Robert. Teoria y estructura sociales. 3 ed. México:
Fondo de Cultura Económica, 1992. LUHMANN, Niklas. Sociologia do direito (2 volumes). Rio de Janeiro:
Tempo Brasileiro, 1983. LUHMANN, Niklas. Introdução à teoria dos sistemas. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2010.
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Com o passar do século XX, outros estudiosos foram complementando essa noção do
“acoplamento”, justamente pelo crescimento da pluralidade social, ideológica, econômica, religiosa,
cultural etc. Por isso, o sistema social acabaria cindindo-se em subsistemas menores, alguns até com
características autopoiéticas, ou seja, sistemas fechados e que se reproduziriam por conta própria.
Isso fez com que tais sistemas acabassem sendo avaliados e julgados socialmente pelos resultados
(decisões) que produziriam, não tanto por suas rotinas e códigos internos de funcionamento. Nesse
sentido, o direito, a política, a economia etc, formariam subsistemas autopoiéticos, (LUHMANN,
2010) sistemas esses que se comunicariam internamente de forma compreensível apenas para os
iniciados, e externamente a partir de resultados específicos (no caso do direito, o resultado seria a
produção de decisões judiciais).
Além dos subsistemas sociais, também a sociedade seria cada vez mais marcada pela
existência de uma cultura geral e subculturas parciais, isso no sentido de integração de setores
sociais heterogêneos. Merton (1992), de acordo com as suas pesquisas nos EUA, propôs uma
tipologia para caracterizar quatro tipos de respostas ao acoplamento social (indivíduo no todo),
justamente dentro de contextos de dificuldades crescentes para o acoplamento: (a) os inovadores,
grupos de pessoas que concordavam com os objetivos sociais para todos (como o lucro e a
acumulação de riquezas), mas que procuravam formas alternativas (ilegais) para realizar esses
objetivos (como o crime organizado, roubos), especialmente se as coerções sociais e jurídicas
fossem frouxas. (b) Os ritualistas, ou seja, pessoas que tentavam seguir as regras jurídicas e morais
de forma muito forte, chegando até a serem reconhecidos como burocratas cegos. (c) Os desistentes,
isto é, grupos de pessoas que desistiram da sociedade e das ruas regras, tornando-se bêbados,
drogados, desajustados. (d) Os rebeldes, grupos de pessoas que procuravam mudar as regras e as
formas de acoplamento social. Esses tipos de respostas ao sistema social implicavam na formação
de padrões de comportamentos sociais muito verificados nas sociedades ocidentais.
Dessa forma, o funcionamento da sociedade seria marcado centralmente pelo processo de
acoplamento dos indivíduos e subgrupos à cultura geral, ainda que as instituições sociais
“acopladoras” pudessem estar em subsistemas fechados. O todo social dependeria do
funcionamento dos subsistemas sociais, bem como, no plano individual, das pessoas terem desejo
de pertencerem ao todo, ou, pelo menos, a subgrupos sociais específicos, mas aceitos pelo sistema.
Talcott Parsons (1999)4, um sociólogo intermediário entre Durkheim e os dias atuais,
destacou a importância da socialização para a entrada dos novos membros da sociedade. Isto é, seria
no processo de socialização dos novos membros que a sociedade precisaria transmitir as normas

4 PARSONS, Talcott. El sistema social. Madrid: Alianza Editorial, 1999. Livro publicado pela primeira vez em
1959.
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sociais de geração para geração, o que poderia implicar em adaptação para os novos, mas de certas
mudanças para os já socializados (para que sempre as normas estivessem em sintonia com a
realidade social).

(2) QUAL O CONCEITO MAIS IMPORTANTE DESSAS REFLEXÕES TEÓRICAS PARA A


EXPLICAÇÃO DO COMPORTAMENTO HUMANO?

O conceito mais importante para a explicação dessa teoria é o de anomia, particularmente


quando se procura estudar os desvios e crimes que impedem o bom funcionamento dos sistemas
sociais. A anomia é produzida quando não existem padrões sociais claros para o acoplamento dos
indivíduos ao todo social, ou aos subsistemas específicos. Seja pelo lado do sistema, que não
consegue acoplar, sejam pelo lado do indivíduo que não quer se acoplar. A anomia é a falta da
acoplagem num contexto de muitas pessoas e grupos não agindo em nome da coesão social
Durkheim (2010), no início do século XX, apontou que nem todas as pessoas gostariam de se
acoplar, e que os sistemas sociais também teriam dificuldades de acoplar a todos. Merton (1992)
também reconheceu a dificuldade para o acoplamento nas sociedade ocidentais. Por isso, a anomia
poderia crescer para além de um patamar aceitável, quando realmente a sociedade estivesse em
risco.

A palavra [anomia] tem origem grega. Vem de a + nomos, donde a significa


ausência, falta, privação, inexistência; e nomos quer dizer lei, norma.
Etimologicamente, portanto, anomia significa falta de lei ou ausência de
norma de conduta (. . .).
Entendemos (. . .) que sociologicamente a palavra pode ser usada (. . .)
[como] falta ou abandono das normas sociais de comportamento. Assim
sendo, pode-se afirmar que anomia indica desvio de comportamento (ou
comportamento desviante), que pode ocorrer por ausência de lei, conflito de
normas, ou ainda, desorganização pessoal.
Sergio Cavalieri Filho, 20090, 195/196.5

Isso significa dizer que a anomia seria o contrário da conduta normal, adaptável e condizente
com o sistema social ou subsistema em questão. Já a anomia, representava a não adaptação, a falta
de normalidade social. E o grande perigo para uma sociedade em particular seria o predomínio da
anomia no meio das interações sociais.

5 CAVALIERI FILHO, Sergio. Programa de sociologia jurídica. Rio de Janeiro: Forense, 2009.
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A anomia é mais complexa nos dias atuais, até porque as sociedades ocidentais são bastante
plurais. Segundo Martins (2011), “a anomia brasileira se caracteriza pelo desencontro de
temporalidades que se cristalizam em determinadas situações sociais e em determinados grupos
sociais residuais ao longo da história”6. Esse autor comenta sobre segmentos sociais deserdados dos
direitos sociais que são frequentemente manipulados pelas autoridades públicas e privadas,
especialmente nas questões políticas e de assistência social. A anomia, portanto, é mais um
fenômeno histórico do que conjuntural, mais jurídico e político do que econômico, ainda que a
economia seja a base na qual ele acontece.
Durkheim argumentou que parcelas pequenas de desvios e anomias são necessárias para que
a sociedade possa encontrar sem ponto normal de funcionamento. Algumas pessoas serem
criminosas, ou alguns grupos sociais serem desajustados, tudo isso é bom para que o funcionamento
social aconteça num patamar mais sofisticado, pois consegue prever os desajustes.
A anomia seria realmente um problema público, que afetaria a paz pública, ou algo parecido,
quando os mecanismos de controle e regulação (jurídicos e morais) não funcionassem
adequadamente.

(3) OUTROS CONCEITOS QUE AJUDAM NA DISCUSSÃO DOS PROBLEMAS DE


PESQUISA.

Já foram citados acima os conceitos de subcultura, adaptação e normalidade, além das


noções de sistemas fechados e autopoiéticos, bem como o desvio e o crime. Desvio é um conceito
que traduz certo tipo de desajuste às nomas sociais e a conduta de seus responsáveis. Já o crime é
uma conduta prevista na lei, no sentido de que ela não poderá existir. E se for praticada, deverá ser
punida. Os outros conceitos acabaram sendo revestidos de discussões mais polêmicas.
O sistema social possui muitas noções. Ele pode ser chamado de cultura, de regulação moral
ou até de poder. Na verdade, o sistema social funciona cada vez menos como um todo, pois as
sociedades atuais são muito complexas para que apenas uma cultura sirva de referência moral, ética
e racional. Por isso, a noção de subcultura é mais contemporânea, na medida em que abre o todo
para as partes sociais sob um ritmo de funcionamento mais cotidiano e realista.
As subculturas podem ser legalizadas ou não, aceitas moralmente ou não, o que importa são
as formas através das quais as pessoas criam solidariedades umas com as outras. Para tanto, às

6 MARINS, José de Souza. A política do Brasil: lúmpen e místico. São Paulo: Contexto, 2011. Página 37.
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vezes, para o sistema social funcionar como um tudo, funcionar de forma eficiente, não é preciso
que nenhuma das suas partes reproduza fielmente as diretrizes previstas para o todo social, desde
que as partes acabem colaborando para o funcionamento geral. Isso pode ocorrer com os punks,
militantes partidários, torcedores organizados, trabalhadores das empresas estrangeiras, jornalistas,
estudantes etc. Para o todo social funcionar nos moldes da estabilidade e coesão social é preciso que
essas partes funcionem nas suas divisões e instituições internas, bem como nas relações sociais
desenvolvidas internamente.
A adaptabilidade é importante, especialmente porque as pessoas quase nunca nascem dentro
desses subsistemas, pois vão socializando-se com eles ao longo do ciclo da vida. Dessa forma, a
cada novo membro de um subsistema é dado a tolerância para que ele se adapte. A adaptação é
fundamental tanto para a socialização (entrada de novos membros) quanto para a manutenção dos
antigos às mudanças sociais e institucionais, que são, diga-se de passagem, cada vez mais
frequentes.
A socialização dos novos membros, e a manutenção dos mais antigos, tudo isso leva a que as
instituições formem sistemas de disciplinamento voltados para o bem coletivo local e geral. Nesse
sentido, a adaptabilidade está sempre muito relacionada à socialização, e a socialização está ligada
diretamente aos padrões de disciplinamento. Quando tudo funciona bem, o sistema social caminha
na sua normalidade. Quando a adaptação não combina com a socialização, e essas duas está
desligadas do disciplinamento, nesses momentos o sistema social entre em anomia. Uma anomia
sistêmica.

(4) AS PRINCIPAIS RECOMENDAÇÕES DESSAS TEORIAS PARA A EXPLICAÇÃO DA


REALIDADE ATUAL.

Os subsistemas relacionando-se através de certos resultados específicos uns em relação aos


outros, ou seja, uns dependendo dos outros, pois todos correm o risco de entrarem em colapso caso
um subsistema deixe de funcionar. É o caso das decisões judiciais, principal resultado esperado do
subsistema jurídico. O mal funcionamento da regulação social, seja pelo lado do mal funcionamento
das instituições, seja pelo lado do mal funcionamento das pessoas nas instituições, pode fazer com
que o sistema todo entre em colapso, até porque a anomia num subsistema acaba comprometendo o
conjunto dos subsistemas sociais. Se o campo jurídico não produz decisões precisas e com
legitimidade, os outros subsistemas sociais ficam frágeis para desenvolverem as suas próprias
características (como geração de emprego e renda, escolaridade, amor etc). Por isso, os teóricos
funcionalistas sempre apontarão a qualidade das respostas que o sistema jurídico fornece como
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condição fundamental para o bom funcionamento geral da sociedade. Respostas lentas e mal
formuladas podem, em larga escala, comprometer a manutenção social.
Em primeiro lugar, de acordo com esses estudos, os sistemas sociais precisam verificar quais
os subsistemas validos para a sua subdivisão. É impossível que o sistema funcione todo numa
perspectiva apenas. Em segundo lugar, se o sistema social ou os subsistemas não conseguirem atrair
as pessoas para elas façam as suas adesões ao todo (e as partes), a anomia tende a crescer,
colocando em risco tais funcionamentos. Em terceiro lugar, os subsistemas fechados devem, pelo
menos, atender às exigências dos outros subsistemas, e do macro sistema social, sob pena de que os
subsistemas sociais entrem em colapso, e o todo também entre em pane. Em quarto lugar, é preciso
que os sistemas sociais tenham grupos alternativos e discordantes, para que o próprio sistema seja
mais integrativo e adaptador.

(5) SISTEMA JURÍDICO E ANOMIA?

O Conselho Nacional de Justiça tem divulgado nos últimos anos o Relatório da Justiça em
Números, sendo que uma das principais informações da conta do grande custo que o judiciário
brasileiro produz, sendo um dos mais caros do mundo. Ao mesmo tempo, e de forma paralela, há
um grande acúmulo de processos por ano, fazendo com que a taxa de retenção de processos (ficam
de um ano para outro) é uma das maiores do mundo também, mais de 70% de retenção (entre todos
os processos). O que isso implica?
Do ponto de vista da teoria dos sistemas, o subsistema jurídico deveria produzir decisões
judiciais (a coisa julgada) de uma forma que não atrapalhasse os outros subsistemas sociais, pois
cada um deles teria um objetivo central, e na interação entre eles, cada um espera que o outro faça o
que tenha que fazer. No caso do subsistema político, por si só subdividido em mais subsistemas,
como o parlamentar, o de segurança, o governamental etc., a expectativa dos demais subsistemas
seria a produção de leis (subsistema parlamentar), segurança (subsistema da segurança), políticas
públicas (subsistema governamental), e assim afora. Tudo isso com rapidez e qualidade, mesmo que
na lógica dos subsistemas, os outros precisam esperar as decisões de cada um sem poderem
interferir internamente nesses processos decisórios.
Nesse sentido, já há um problema, que pode muito bem transformar-se em anomia: os
subsistemas interferem, cada vez mais, uns nos outros antes das decisões específicas de cada um.
Isso ocorre com todos eles, especialmente com o político e jurídico. E os subsistemas mais
intervencionistas são os da imprensa comercial e das novas redes sociais (virtuais).
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A anomia pode acontecer como sinônimo de crise sistêmica, ou subsistêmica, desde que o
sistema não consiga produzir decisões claras, objetivas e eficazes para os fins planejados. Se o
subsistema do direito, especialmente no âmbito dos seus tribunais superiores, não consegue
produzir decisões pertinentes aos interesses dos demais subsistemas, e se alguns deles, ou todos,
acabam interferindo na processualística do subsistema jurídico é porque há fortes indícios de
anomia (mau funcionamento sistêmico). Em tese, o subsistema jurídico deveria funcionar com uma
lógica interna processual que não poderia ser alvo de críticas dos outros subsistemas, apenas dos
resultados dessa ação processual, não do “processo em si”. Porém, quando isso cresce, é porque há
problemas sérios.
A anomia no subsistema jurídico pode ocorrer também, pelas pressões externas, como da
mídia e das redes sociais. Na verdade, o judiciário deveria estar preparado para saber lidar com
essas pressões, não podendo contaminar as suas práticas com essas influências exteriores. Se isso
ocorre, a falha maior é interna, e não da pressão externa.
Quais os problemas internos no judiciário que levam a essa situação? Um que marca bem o
peso da anomia destruindo o sistema, é o magistrado brasileiro sendo tratado como uma
celebridade, processualística pertinente a membros de outros subsistemas (como do
entretenimento), com correspondência positiva dele. Se o magistrado, e outros operadores do
direito, atuam de acordo com outros papéis, que não os seus (que presam pela discrição e
procedimentos internos de forma técnica), como de celebridades importantes para a mídia, revela-se
um desacoplamento deles em relação às ofertas que o subsistema jurídico oferece (falar apenas nos
autos). Se os magistrados não aceitam mais apenas expressarem-se nos autos, é porque o subsistema
judiciário não conseguem mais acoplar seus membros, e isso gera uma crise sistêmica que pode
colocar em risco a sobrevivência do judiciário como um todo, pois outros subsistemas (como da
mídia) tendem a se aproveitar dessa crise interna para aumentar a pressão externa.
Em relação ao subsistema judiciário há também outras ameaças vindo até mesmo de outros
subsistemas estatais, como o parlamentar e governamental. O que deveria reforçar a organização
interna para que o judiciário pudesse passar ileso a tais processos.