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CAPÍTULO I

FONTES E PROPÓSITOS DAS MATRIZES


E CLASSIFICAÇÕES

o metabolismo das linguagens, dos processos e sistemas sígnicos, tais como escrita,
desenho , música, cinema, televisão, rádio, jornal, pintura, teatro, computação gráfica
etc. , assemelha-se ao dos seres vivos. Tanto quanto quaisquer organismos viventes, as
linguagens estão em permanente crescimento e mutação. Os parentescos, trocas, migrações
e intercursos entre as linguagens não são menos densos e complexos do que os processos
que regem a demografia humana. Enfim , o mundo das linguagen s é tão movente e volátil
quanto o mundo dos vivos.
Essa volatilidade não costum a ser levada em conta e nem mesmo percebid a porque,
infelizmente, nos currículos escolares e universitários, as linguagens são colocadas em
campos estanques, rígida ou asceticamente separadas: a literatura e as formas narrativas
em um setor, a arte em outro; o cinema de um lado, a fotografia de outro; a televisão e o
vídeo em uma área, a música em outra etc. Entretanto, é só nos currículos escolares que as
linguagens estão separadas com nitidez. Na vida, a mistura, a promiscuidade entre as
linguagens e os signos é a regra.
Outro fator que costuma impedir uma visão dialógica, interativa e intersemiótica das
linguagens decorre do hábito de se confundir uma linguagem com o canal que a veicula.
As linguagens são estudadas de acordo com o suporte, meio ou canal que lhes dão corpo
e em que elas transitam. Para ficarmos só no universo da imagem, por exemplo, as
costumeiras separações colocam as imagens artesanais, a maioria delas denominada
artística, de um lado, e as imagens técnicas , de outro. As artesanais são divididas em
desenho , pintura, gravura; as técnicas dividem-se em fixas e em movimento: foto e
holografia, de um lado; cine, TV, vídeo, computação gráfica, de outro.
É evidente que o meio através do qual uma linguagem é veiculada tem importância
soberana para se compreender a maneira como suas mensagens são produzidas,
transmitidas e recebidas. Embora repetidamente questionado e mesmo refutado, não
estava errado MacLuhan (1962) quando polemicamente afirmou que "o meio é a
mensagem" . Contudo, a atenção ao canal veiculador das linguagens não deveria ser tão
proeminente a ponto de nos cegar para as similaridades e as trocas de recursos entre os
mais diversos sistemas e processos sígnicos.

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As linguagens se misturam e se multiplicam

As linguage ns são muitas. Desde a revolução indu stri al e, mais recenteme nte, a
revolução eletrônica, seguida da revolução informática e digital, o poder multipli cador
e o efeito proliferativo das lingu age ns estão se ampliando enormemente. Aqui também o
exemplo das imagens é, por si só, bastante significativo . A era das imagens de reg istro
físico de fragmentos do mundo, iniciada com a fotografia e seguida pelo cinem a, TV,
vídeo e ho lografia, por exemplo, tem apenas um século e meio de existência e j á estamos
in stalados agora em plena efervescência da era pós-fotográfica, de geração sintética das
im age ns e da realidade virtual (ver Santaella e Nbth 1998 : 159- 187) . Se, no século
passado, a natureza - antiga fonte de inspiração dos pintores paisagi stas - já havia
virado cartão-postal, hoj e ela pode ser gerada através de números nos programas dos
computadores . Não há quase nada de natureza real, artificial, simul ada ou fictícia que o
imaginário numérico não dê conta de colocar nas telas dos monitores. Isso não é menos
verdadeiro no universo sonoro. Com o advento do sintetizador e do controle através do
computador, não há parâmetro sonoro dotado de um a significação física que não possa
ser manipulado eletronicamente, em um grande número de combinações e variações
praticamente infinitas (Chion e Reibel 1976 : 257 ; Wishart 1996).
Além de crescerem na medida exata em que cada novo veículo ou meio é inventado,
as linguagens também crescem através do casamento entre meios. O jornal, por exemplo ,
é, entre outras coisas, um a uni ão, que deu certo, entre o te légrafo (hoje transmutado em
fax e rede de telecomun icação), a foto e a modificação qualitativa da lin guagem escrita
no espaço gráfico (diagramação, uso dos tipos etc.). O videotexto - versão rudimentar
das atuai s redes telemáticas conectadas com os computadores pessoais cujo modelo é a
internet - nasceu da com binação de um banco de dados com o telefone e um termin al de
vídeo. Enfim, o universo midi ático nos fornece uma fartura de exemplos de hibridização
de meios , cód igos e sistemas sígnicos que não vem ao caso especificar aqui (para mais
detalhes sobre isso ver Santaella 1996b: 183- 194). Basta lembrar que esses processos de
hibridização atuam como propul sores para o cresci mento das linguagens. Não é à toa que
as linguagens já tomaram literalmente conta do mundo. Estejamos ou não atentos a isso ,
estamos dia e noite, em qualquer rincão do planeta, com maior ou menor intensidade,
imersos em signos e linguagens, rodeados de livros, jornais, revistas , de sons vindos do
rádio ou dos di scos laser e das fitas, somos bombardeados por imagens, palavras , música,
sons e ruídos vindos da televisão, temos o cinema dentro de casa através do videocassete
e, recentemente, com a internet, rede das redes, podemos navegar através da informação
e nos conectar com qualquer parte do mundo em frações de segundos. Enfim, não há
nenhum indicador de que as linguagens deverão parar de crescer. Ao contrário, tendo
hiperpovoado o planeta, a tendência é que elas busquem novos hábitats no espaço celeste
(ver Santaella 1996b: 239-270).
É m a is do que tempo, port a nto , de superarmos as visões ato mizad as da s
lin g uage ns, código s e canais, baseadas apenas nos modos de aparição das mens agens,
para bu sca rmo s um tr atamento m a is econômico e integr ado r que no s permita
compreender como os sig nos se formam e como as linguagens e os meios se combin am
e se mi sturam. É esse alvo que este livro pretende atingir através da postul ação de que a
multiplição cresce nte de todas as for mas de lin guagem tem s uas bases em três e não

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- - -.
mais do que três matrizes do pensamento e linguagem: a matriz verbal , a matriz
visual e a matriz sonora.

Bases lógicas que regem as misturas entre linguagens

Conforme já foi enunciado na introdução, todas as linguagens, não obstante a


variedade dos suportes, meios e canais, não obstante as diferenças específicas que elas
adquirem nesses suportes, meios e canais, estão alicerçadas em apenas três matrizes.
Nesse argumento está a convicção de que há raízes lógicas e cognitivas específicas que
determinam a constituição do verbal, do visual, do sonoro e de toda a variedade de
processos sígnicos que eles geram. Essas raízes são bem mais profundas e latentes do
que a superfície dos canais e das mensagens podem nos levar a perceber. Resta, no
entanto, encontrar respostas para uma questão bem mais complexa decorrente da
afirmação acima: como se dá a passagem desse nível lógico e cognitivo latente para o
nível de manifestação das mensagens? Este livro buscará explicitar que essa passagem
se dá através das combinações e misturas que se processam entre as várias modalidades
em que cada uma dessas matrizes se subdivide, a saber, nove modalidades do verbal ,
nove do visual e nove do sonoro, num total de 27 modalidades (além de outras
submodalidades adicionais sobre as quais discorrerei oportunamente). As combinações
e misturas não se dão apenas entre as modalidades no interior de uma mesma matriz, mas
também podem se dar entre as modalidades das três matrizes entre si. Isso parece óbvio
quando tomamos o exemplo do cinema ou da televisão, linguagens eminentemente
híbridas, que processam a mistura do verbal escrito (o roteiro) com o verbal oral (a fala
viva das personagens), a imagem, que permite inclusive a tomada da imagem dentro da
imagem , e todos os tipos de som, na música e ruídos. Através das nove modalidades de
cada matriz e das misturas entre elas, este livro pretende demonstrar quais bases lógicas
e quais leis estão regendo essas misturas .
É certo que foi a observação crítica da proliferação dos signos e linguagens que
me fez chegar ao argumento que aqui proponho. Contudo, não teria sido possível
elaborar esse argumento se as sementes teóricas em que ele se apoia não tivessem
frutificado . A complexidade do real exige teorias à sua altura. No caso da
complexidade das linguagens , tenho encontrado na filosofia lógica ou semiótica de
Charles Sanders Peirce possibilidades de respostas a um bom número de desafios
que essa realidade apresenta.
Conforme já foi adiantado na introdução, a proposta das três matrizes do pensamento
e linguagem não é senão uma extrapolação das categorias fenomenológicas universais
de Peirce, expandidas na sua teoria e classificação dos signos. O nível de abstração dos
conceitos peircianos é muito elevado. Isso dificulta sobremaneira a aplicação direta
desses conceitos a linguagens manifestas ou processos concretos de signos. O propósito
que guiou a elaboração do meu sistema classificatório, a ser exposto neste livro, foi criar
um patamar intermediário entre os conceitos peircianos e as linguagens manifestas, de
modo que as modalidades do verbal, visual e sonoro possam servir de mediação entre a
teoria peirciana e a semiótica aplicada, funcionando como um mapa orientador muito
flexível e multifacetado para a leitura de processos concretos de signos: um poema, um

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iiiiiiiii;;;;;;;;;;;;;;;:::====-- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
filme, uma peça musical, um programa de televisão, um objeto sonoro, e todas as suas
misturas tais como podem ocorrer na hipermídia. Não se trata evidentemente de fornecer
elementos para a leitura da especificidade de cada uma dessas linguagens. Isso pode ser
encontrado no interior das teorias que são particulares a cada linguagem tais como a
teoria literária, as teorias do filme, musicologia etc. Trata-se apenas de evidenciar os
substratos lógicos e semióticos gerais que estão subjacentes a toda e a cada linguagem
regulando suas combinações e misturas. Enfim, um mapa para a leitura das raízes dos
hibridismos.
Uma vez que a base teórica tanto das três matrizes quanto de suas modalidades está
em Peirce, não vejo como seria possível apreender com alguma profundidade o sentido
de minhas classificações sem que o leitor tenha alguma intimidade com os conceitos
peircianos. É em razão disso que minhas propostas se farão acompanhar de explanações
e discussões desses conceitos, começando aqui com um panorama geral da obra de Peirce
que permita visualizar o lugar e o papel que a fenomenologia e semiótica desempenham
no todo de sua obra.

Uma introdução a Peirce

o pensamento científico, filosófico, lógico e semiótico de Peirce é tão vasto,


multifacetado, os assuntos que aborda são tão heteróclitos e interconectados que uma
apresentação breve desse pensamento, mantendo alguma fidelidade às suas propostas é
tarefa quase impossível. Na introdução do seu livro Charles S. Peirce evolutionary
phi/osophy, Hausman (1993: 1) diz que "começar um livro sobre a filosofia peirciana é
como entrar em um labirinto com quase tantas entradas quanto passagens." Isso não é
menos verdadeiro em relação à semiótica de Peirce, visto que esta nasce dentro de sua
arquitetura filosófica, sendo a disciplina central dessa arquitetura. Tentando evitar dois
problemas ao mesmo tempo, de um lado, desfigurar a obra peirciana em reducionismos
facilitadores, e, de outro, sobrecarregar o leitor, aprisionando-o numa teia de conceitos,
escolhi fazer aqui uma apresentação esquemática da obra peirciana como um todo, pondo
um pouco mais de ênfase nos aspectos dessa obra, a saber, a fenomenologia e a teoria dos
signos, que foram mais diretamente utilizadas na elaboração das três matrizes. Ao leitor
interessado em se aprofundar na filosofia semiótica, irei indicando, ao longo desta
apresentação, bibliografias adicionais que podem servir para esse propósito. Em 1997,
publiquei um artigo sob o título "Roteiro para a leitura de Peirce". De fato , a intenção aí
era abrir um caminho para aqueles que desejassem percorrer o pensamento peirciano.
Dada a similaridade desses propósitos com as necessidades que ora se apresentam, farei a
seguir uma síntese desse artigo de 1997, introduzindo algumas modificações, a maior
parte delas estando na busca de exemplos concretos para os conceitos.
É fato conhecido que Peirce se debruçou sobre os campos mais diversificados do
conhecimento científico que vão da matemática à história, da filosofia à química, da
literatura à astronomia, da lógica à biologia. Há, entretanto, uma espécie de coluna dorsal
que dá sustento e ilumina todas as suas investigações: a semiótica concebida como
lógica. num sentido muito mais genérico e amplo do que o termo lógica tinha na época
de Peirce e que continua tendo até hoje.

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Embora tenha se diplomado em química, desde muito cedo Peirce compreendeu que
vocação estava voltada para a lógica, mais particularmente para aquilo que, na sua
época, era chamado lógica das ciências. O empreendimento intelectual que perseguia era
oelinear os princípios fundamentais que subjazem aos métodos que são utilizados nas
_·ências. Será que, por trás de todos os diferentes métodos científicos, não existem
e ementos constantes? Ora, os métodos científicos tanto são diferentes, quando se compara
a ciência com outra, quanto se modificam historicamente no interior de uma mesma
ciência. Para entender esses métodos, o melhor caminho é praticá-los. Vem daí a razão
• rq ue Peirce se dedicou a tantos campos científicos diferentes.
A característica fundamental do pensamento científico está no fato de que todas as
_ as conclusões devem estar fundamentadas em evidências. A teoria científica interpreta
evidência. Na base dessa interpretação, reconhece-se que a evidência se refere a algum
objeto real. Os fundamentos, assim como as conclusões que são deles inferidas, não
podem ser privados. Devem ser públicos e submetidos à crítica da comunidade científica.
_'enhuma conclusão, nenhuma teoria científica é infalível , poi s el as são sempre
interpretações das evidências. Assim sendo, evidências, conclusões e teorias devem ser
submetidas a correções e revisões, seja porque uma nova evidência coloca em dúvida a
anterior, seja porque novos métodos e novos instrumentos produzem evidências melhores
e mais precisas, seja ainda porque a teoria baseada em evidência entra em conflito com
alguma outra teoria melhor fundamentada, ou mais compreensiva ou mesmo mais elegante
Savan 1994a: 183).
Muitíssimo cedo, em 1865, Peirce reconheceu que uma tal análise da ciên ia é no
fundo, semiótica. Para que sua semioticidade seja visível , basta substituir a noção de
evidência por uma concepção muito mais ampla que é a concepção de representação ou
igno. Essa convicção lhe advinha do fato de que "todo conhecimento. de de a
adivinhação mais espontânea até a certeza mais demonstrati va, está fundamentado em
evidências; ele é suportado por dados, credenciais, garantias e premissas. Os dados não
são em si mesmos evidências para aquilo que eles atestam; eles de em ser interpretados
para ser evidências, para dar alguma credibilidade àquilo que eles suportam·' (Savan
1980: 255). Uma vez que não há interpretação sem signos, pois toda interpreta,ão é
signo, a concepção de signo passou a ocupar um lugar proeminente no pensamento de
Peirce. Qualquer coisa que substitui uma outra coisa para algum intérprete é uma
representação ou signo. Por exemplo: "uma palavra representa algo para o con eiro na
mente do ouvinte", um retrato representa uma dada pessoa para a concepção do seu
reconhecimento por alguém, um catavento representa a direção do vento para a concepção
daquele que assim o entende, "um advogado representa o seu cliente para o juiz ou júri
que ele influencia" (CP 1.553). Peirce percebeu imediatamente que essa con epção de
representação ou signo é fundamental não apenas para a ciência, mas também para a
linguagem, arte, mecânica, lei, governo, política, religião etc. De fato, ela é fundamental
ao pensamento, ação, percepção e emoção humanas (Savan 1994a: 183).
Nesse ponto, torna-se compreensível porque Peirce identi ficou a lógica com a
em iótica, encontrando-a em todos os setores do pensamento e atividades humanas,
confonne ele expressaria, muito mais tarde, em uma carta a Lady Welby: "Desde o dia em
que, na idade de 12 ou 13 anos, peguei, no quarto de meu irmão mais velho, uma cópia da
Lógica, de Whateley, e perguntei a ele o que era a lógica, ao receber uma resposta simples,

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atirei-me no assoalho e me enterrei no livro, desde então, nunca mais esteve em meus
poderes estudar qualquer coisa - matemática, ética, metafísica, gravitação, termodinâmica,
ótica, química, anatomia comparativa, astronomia, psicologia, fonética, economia, a
história da ciência, jogo de cartas, homens e mulheres, vinho, metrologia, exceto como
um estudo de semi ótica" (Hardwick, ed. 1977: 85).
Com base em tudo isso, não, é de se estranhar quão cedo em sua carreira Peirce pôde
anunciar sua grande tese anticartesiana de que todo pensamento se dá em signos, na
continuidade dos signos. Não há pensamento sem signos. Por isso mesmo, todo
pensamehto, mesmo e muito mais aquele que brota nas supostas luzes da intuição, é
irremediavelmente falível, devendo ser submetido ao teste da experiência ou à crítica de
uma comunidade de investigadores. De certo modo, aliás, todo o sistema lógico-semiótico
criado por Peirce que culminou no seu pragmaticismo (termo com que ele rebatizou sua ,
fi losofia para diferenciá-Ia das traduções mais populares do pragmatismo professada por
seus seguidores) não foi senão uma versão pós-cartesiana do método da ciência, método
que Peirce desenvolveu durante toda a sua vida para dar fundamento às teses anticartesianas
defendidas na sua juventude (ver Santaella 1993a).
Juntamente com a tese de que não há pensamentos sem signos, ele também defendeu
a tese de que não há pensamento, linguagem ou raciocínio que possa se desenvolver
apenas por meio de símbolos, nem mesmo o raciocínio puramente matemático, dedutivo.
Há sempre uma mistura de signos que é constitutiva de todo pensamento. Portanto, para
compreender os raciocínios que são empregados nos métodos científicos é necessário
estudar todos os tipos possíveis de signos, suas misturas e o modo como os signos crescem
e evoluem. A semiótica peirciana, concebida como lógica num sentido amplo, nasceu
dessa necessidade.
Entretanto, antes de se empreender o estudo de qualquer ciência, ainda segundo
Peirce, o pensamento filosófico deve começar por um sistema de lógica, e a tarefa
primordial que a lógica tem de enfrentar é a de estabelecer uma tabela formal e universal
de categorias a partir da mais radical análise de todas as experiências possíveis. Em
função disso, sua primeira publicação de peso, em 1867, aos 28 anos de idade -publicação
esta que estava na retaguarda, dando suporte a suas teses anticartesianas - se chamou
Sobre uma nova lista de categorias (CP 1545-59, também publicada em W2 49-59 e em
Peirce 1992: 2-10). Insatisfeito com as categorias aristotélicas, consideradas mais
gramaticais do que lógicas, também insatisfeito com as categorias kantianas e hegelianas
(SantaelIa 1983a: 28-31; 1992: 71-75), por dois anos, Peirce dedicou-se intensiva e
ininterruptamente à elaboração de sua doutrina das categorias, chegando ao resultado de
que só há três elementos formais e universais, quer dizer, onipresentes em todo e qualquer
fenômeno, elementos que foram primeiramente chamados de "qualidade, relação e
representação" .
A partir disso, essas categorias foram usadas para distinguir: (1) três espécies de
representações (ou signos) - semelhança (posteriormente chamada de ícone), índice e
símbolo; (2) uma tríade de ciências concebíveis - gramática formal, lógica e retórica
fo rmal; (3) uma divisão geral dos símbolos, comum a todas essas três ciências - termos,
proposições e argumentos; (4) três tipos de argumentos, distinguíveis por suas três relações
entre as premissas e a conclusão - dedução (símbolo), indução (índice) e hipótese
( emel hança) (Fisch 1978: 34-35). Nessas tríades relacionadas está, germinalmente

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~ ulado, desde os primeiros escritos de Peirce, o corpo fundamental do sistema lógico
_~g ele iri a defender pela vida afora. Provar a coerência científica de um tal sistema,
=- etan to, foi tarefa que também lhe tomaria boa parte da vida .
Para começar, apesar do grande esforço dispendido na tarefa de chegar às categorias,
re ul tado não lhe agradou. Reduzir toda a multiplicidade dos fenômenos a uma gradação
_~ rrês elementos, parecia-lhe fantasia absurda. Por muitos anos, Peirce aparentemente
_ ando nou essas categorias ao esquecimento. Dezoito anos mais tarde, elas retorn aram
ai fo rtes do que nunca, num artigo sob o título de "Um , dois , três: categorias do
;:-en a mento e da natureza" (Hoopes 1991: 180-185). Se antes estavam restritas ao
:=nômeno mental, agora elas se estendiam também para toda a natureza.
De fato, só aparentemente suas categorias haviam sido abandonadas poi . de 1 6 a
- , repetidamente, Peirce encontrou nas ciências da natureza e do pen amento
.:onfi rmações independentes que corroboravam essas três idéi as . A tríade e tava
.:ontinu amente aparecendo na lógica e nas ciências especiais, primei ro na p i ologi a.
=ntão na fisiologia e na teoria das células, finalmente na evolução biológi a e. ainda.
~ bé m , no cosmo físico (Santaella 1983a: 36). Na realidade, o grande impu l o para a
:,roposta das categorias como elementos mentais e naturai s vei o de ua de co
avés da integração de quantificadores na lógica dos relativos , exatamente em 1
-= que sua primeira categoria podia ser indicada quantitativamen te por urna variável.
- o lhe infundiu confiança que veio crescer, em 1897 , quando, ainda atrav'- da lógi a
~o relativos, descobriu que a possibilidade real é uma con seqüên ia e en::ial do
_ rag matismo. A partir daí, abandonou sua teoria das probabilidade in pirada em. 'H e
-lotou as categorias como esqueleto de toda a sua doutrin a lógi a. o que veio rrazer
pande unidade para o conjunto (Houser et ai. 1992: xxvi ; Santaell a 199_a: - 3---).
Houve ainda uma .outra descoberta importante e concomitante que lhe -.re entou
_onfia nça, precipitando os ajustamentos internos de sua obra: a de o ~ d d uas
_,;ões do universo , ação diádica, bruta e ação triádica, inteli gen te ou ígnj::~ antaella
994b). Essas duas ações estão na base da divisão das ciências e pe i ais. o ",i.=ante o
:: -tema peirceano de classificação das ci ências dentro do qu al se in ere a aro 'i-e ra das
d isciplinas filosóficas .
Peirce passou longos anos tentando chegar a uma classificação das iê.::i - que o
_ ti fi zesse (Kent 1987). Essa satisfação foi difícil de ser atingida porq ue a I --ifi-a,ão
-o ex istia como uma parte solta de sua obra, mas dependia, para ter qualq uer:: rên ia
':0 encontro de soluções para problemas cruciais que ele passou ano tentando r -oh·er.
~~ lass ificação das ciências e, dentro dela, sua arquitetura filosófi ca, estavam int~i ente
_ eadas na lógica das três categorias. Ora, embora esti vesse trabalhando nas a e.=ori
~= de 1867, foi só na passagem do século que ele chegou a lhes dar crédito. o que erviu
.:amo guia para a formulação de sua cartografia das ciências . Apen as em 19 . quando
-~ onheceu que a diferença entre a matemática, a filosofia e as ciências e pe iai dependia
o modo de observação empregado por cada uma delas, reconheceu que uas ategorias
- - o estavam subordinadas à psicologia, uma vez que para se chegar a elas não se requer
rra coisa além da atenção cuidadosa ao phaneron (qualquer co isa que aparece de
_ al quer modo à mente) que todas as pessoas , em condições físicas e psíquica normais ,
e observar (CP 8.297) .
. uma apresentação bastante sintética, a classificação peircena das ciências, em cujo

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núcleo sua arquitetura filosófica está inserida, se estrutura do seguinte modo: há, antes de
tudo, em ordem decrescente de abstração, uma divisão das ciências em :
1. ciências da descoberta
2. da revisão
3. práticas
As ciências da descoberta, por sua' vez, dividem-se em:
1.1 matemática
1.2 filosofia
1.3 ciências especiais, estas divididas em dois grandes ramos:
1.3.1 físicas
1.3.2 psíquicas
Então, cada um desses ramos apresenta um grande número de ramificações e gradações,
em cujos detalhes não entrarei aqui . Quanto mais abstrata é a ciência, mais ela é capaz de
fornecer princípios para as menos abstratas. Do mesmo modo que a filosofia extrai da
matemática muitos dos seus princípios, é da filosofia que as ciências especiais recebem
seus princípios.
A matemática é a única ciência que não depende de nenhuma outra, todas as outras
dependendo dela explícita ou implicitamente. É a única ciência puramente hipotética,
indiferente quanto a suas premissas expressarem fatos imaginados ou observados. É a
ciência das conclusões exatas a respeito de estado de coisas meramente hipotético.
Fundada em premissas não assertivas, não requer nenhum suporte experimental além das
criações da imaginação. Isso não significa que independe da observação (Santaella 1992a:
118-119).
Dentro do diagrama completo das ciências, é fundamental o papel desempenhado
pela filosofia, pois só a matemática é mais abstrata e, portanto, mais genérica do que a
filosofia, de modo que é na filosofia que todas as grandes questões a respeito da experiência
humana são discutidas. O diagrama das disciplinas que compõem o edifício filosófico
aparece do seguinte modo:
1.2 Filosofia
1.2.1 Fenomenologia
1.2.2 Ciências normativas
1.2.2.1 Estética
1.2.2.2 Ética
1.2.2.3 Lógica ou semiótica
1.2.2.3.1 Gramática pura ou especulativa
1.2.2.3.2 Lógica crítica
1.2.2.3.3 Metodêutica ou retórica especulativa
1.2.3 Metafísica
É justamente a seqüência dessa subdivisão que, tanto na sua autobiografia intelectual
(editada por Ketner 1983 : 61-84) quanto num longo manuscrito (L 75) para um pedido
de bolsa ao Instituto Carnegie, Peirce sugeriu como itinerário privilegiado para o estudo
de sua obra. Por isso mesmo, é essa seqüência que será aqui tomada como referência para
a breve discussão de seu pensamento.

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A fenomenologia

A filosofia tem por tarefa descobrir o que é verdadeiro, limitando-se, porém, à verdade
que pode ser inferida da experiência comum que está aberta a todo ser humano a qualquer
tempo e hora. A primeira e mais difícil tarefa que a filosofia tem de enfrentar é a de
encontrar as categorias mais universais da experiência. Essa tarefa cabe à fenomenolog ia,
uma quase ciência que tem por função fornecer o fundamento observacional para o
restante das disciplinas filosóficas. No contexto da classificação das ciência . cuja última
versão Peirce alcançou no começo do século, sua doutrina das categoria . de envolvida
desde 1867, passou a pertencer à ciência da fenomenologia, a primeira e mai elementar
disciplina do seu edifício filosófico.
Em 1902, a formulação das categorias propunha três pontos de vista a partir do quais
elas têm de ser estudadas , antes de serem claramente apreendidas. São os ponto de \Oi ta
(l ) das Qualidades, (2) dos Objetos e (3) da Mente. Do ponto de vista (1) das Q alidade
ou primeiridade, quer dizer, do ponto de vista ontológico, as categorias aparecem orno:
( 1.1) qualidade ou primeiridade, isto é, o ser da possibilidade qualitativa po itiva a mera
possibilidade da qualidade em si mesma da vermelhidão, sem rel ação om e uma
outra coisa, antes que qualquer coisa no mundo seja vermelha); (1. _) reação ou
secundidade, isto é, a ação do fato atual (qualquer ocorrência no seu aqui e agora. o seu
p uro acontecer, o fato em si desconsiderando-se qualquer causalidade ou lei ql!e o - a
determinar, como, por exemplo, uma pedra que rola da montanha); (l.~ medi....,. - ou
terceiridade, o ser de uma lei que irá governar fatos no futuro (qualquer prin::í ia =eral
ordenador e regulador que rege a ocorrência de um evento real, como, por exemplo. a lei
da gravidade governando a queda da pedra que rola da montanha).
Do ponto de vista (2) dos Objetos ou secundidade, quer dizer, do ponto':~ '-ta do
existente, as categorias aparecem como (2.1) quales, isto é, fatos de primem' 'e, por
exemplo, a qualidade sui gene ris do vermelho no céu em um certo en tarde er':e o ro:
(2 .2) relações , isto é, fatos de secundidade, por exemplo, o atrito com o chão . ~ que
rolou da montanha; a relação aí diz respeito à polaridade bruta, esforço da ped.-a ~o-tra a
resistência do chão; (2.3) representações, isto é, signos ou fatos de ter em e. por
exemplo, a palavra céu como signo do céu, uma fotografia do céu como i=_o do céu.
uma pintura do céu como signo do céu.
Do ponto de vista (3) da Mente ou terceiridade, as categorias apare em ::orno 3.1)
sentimento ou consciência imediata, quer dizer, signos de primeiridade. por exe lo. a
mera qualidade de sentimento, vaga e indefinida, que o crepúscul o avermel o e. um
erto céu de outubro produz em um contemplador desarmado ; (3.2) como e - ",ão de
um fato, quer dizer, sensação de ação e reação ou signos de secundidade. por exemplo. a
urpresa diante de um fato inesperado; (3.3) concepção ou mente nela mesma quer dizer.
e ntido de aprendizado , mediação ou signos de terceiridade, por exemplo. ne tes
parágrafos que o leitor está lendo, o aprendizado que eles trou xeram a mim ao es re\'ê-Ios
e provavelmente também para o leitor ao lê-los, onde meu pensamento. expre o em
palavras (estas no nível 2.3, como fatos de terceiridade ou sig nos que são funciona como
mediação (nível 3.3) entre o pensamento de Peirce (também exp resso em palavras, fatos
de terceiridade ou signos, nível 2.3), e o pensamento do leitor (Peirce L75: B 8 apud
Santaella 1992a: 75; Houser et a!. 1992 xxvii) .

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Essas categorias são as mais universalmente presentes em todo e qualquer fenômeno,
seja ele físico ou psíquico. São, por isso mesmo, conceitos simples, aplicáveis a qualquer
coisa; enfim, são idéias tão amplas que devem ser consideradas mais como tons ou finos
esqueletos do pensamento do que como noções estáticas ou terminais. Elas são dinâmicas
e interdependentes, ou melhor, onipresentes. Uma vez que são universais e formais, não
substituem, não excluem, nem entram em atrito com a infinita variedade de outras tantas
categorias materiais e particulares que podem ser encontradas em todas as coisas. Para se
ter uma idéia da amplitude e abertura máxima dessas categorias, em seu nível mais geral,
a primeiridade ou mônada é o começo, correspondendo às noções de acaso, indeterminação,
vagueza, indefinição, possibilidade, originalidade irresponsável e livre, espontaneidade,
frescor, potencialidade, presentidade, imediaticidade, qualidade, sentimento. O segundo
ou díada é o determinado , terminado, final, gbjeto, correlativo, necessitado, reativo,
estando ligado às noções de relação, polaridade, negação, matéria, realidade, força bruta
e cega, compulsão, ação-reação, esforço-resistência, aqui e agora, oposição, efeito,
ocorrência, fato, vividez, conflito, surpresa, dúvida, resultado. O terceiro ou tríade é o
meio, devir, o que está em desenvolvimento, dizendo respeito à generalidade,
continuidade, crescimento , mediação , infinito, inteligência, lei, regularidade,
aprendizagem, hábito, signo (Peirce 1992: 280). Assim, por exemplo, o fio da vida é um
terceiro, devir sem começo nem fim; o destino que corta a vida e a determina, força bruta
e cega, é o segundo; seu começo indefinido, indeterminado, frescor da potencialidade
livre e espontânea de tudo que apenas começa, é o primeiro (sobre as categorias, ver
ainda Rosensohn 1974 e Esposito 1980).
Toda a obra de Peirce está alicerçada nessas categorias. Sua doutrina dos signos ou
semiótica está inteiramente baseada nas três categorias e não há como compreender as
sutilezas de suas inúmeras definições e classificações de signos, sem um conhecimento
cuidadoso da fenomenologia. O mais importante, no entanto, é o modo como a semiótica
é extraída diretamente do interior da fenomenologia . A forma mais simples de terceiridade
é a noção de signo. Se o universo do signo é território legítimo da semiótica, esta já tem
início dentro da própria fenomenologia , ou mais precisamente, a terceira categoria
fenomenológica já é uma categoria semi ótica. Além disso, quando se chega ao território
da semi ótica, ela traz novamente a fenomenologia para dentro de si, como será visto mais
adiante. Antes disso, vejamos, num panorama breve, as relações que as ciências normativas
- estética, ética e lógica ou semiótica - mantêm entre si.

As ciências normativas

As ciências normativas, que se seguem à fenomenologia, são assim chamadas porque


estão voltadas para a compreensão dos fins, das normas e ideais que guiam o sentimento,
a conduta e o pensamento humanos. Elas não estudam os fenômenos tal como aparecem,
pois essa é a função da fenomenologia, mas os estudam na medida em que podemos agir
sobre eles e eles sobre nós. Elas estão voltadas, assim, para o modo geral pelo qual o ser
humano , se for agir deliberadamente e sob autocontrole, deve responder aos apelos da
experiência (Santaella 1994a: 113-114).
Nesse ponto da divisão das disciplinas filosóficas, é importante levar em consideração

36
devemos nos empenhar (Bernstein 1990:197). Cabe à estética, concebida num sentido
muito mais vasto do que o de uma teoria do belo, descobrir o que deve ser o ideal
supremo da vida humana. Cabe a ela "determinar por análise o que devemos admirar per
se" (CP 5.36), indagar sobre "qual é o estado de coisas que é admirável por si só, sem
relação com qualquer razão ulterior" (CP 1.611). Estados de coisas que, mais cedo ou
mais tarde, todos tenderão a concordar que são dignos de admiração. O que é admirável
não pode ser determinado de antemão. São metas ou ideais que descobrimos porque nos
sentimos atraídos por eles, empenhando-nos na sua realização concreta. Quais seriam
essas metas?
Peirce "nunca recuou na sua sólida crença de que há uma verdade a ser conhecida e
que nós mesmos somos participantes do desenvolvimento da razão que está sempre em
estado de incipiência e crescimento. Somos participantes da criação do universo"
(Bernstein 1990: 200), quer dizer, somos responsáveis pelo alargamento daquilo que
Peirce chamou de razoabilidade concreta a qual não apresenta nenhuma analogia com o
racionalismo ou com a racionalidade instrumental e estratégica, pois razoabilidade não
é simples conformidade com algumas fórmulas lógicas pré-determinadas, mas um know-
how compreensivo da vida que inclui elementos criativos, intuitivos, éticos, valorativos
os quais são capazes de grande variedade, aperfeiçoamento, de um lado, mas também
perversões, de outro. Razão é uma parte da natureza humana que, em si mesma, não é
estática, mas dinâmica, além de que incorpora o domínio afetivo e o domínio da ação nas
suas respostas em relação ao mundo. Razoabilidade é, assim, o nome que Peirce escolheu
para dar conta dessa razão criativa, razão em processo de crescimento. O adjetivo
"concreta", por sua vez, ligado à razoabiliade, indica que esta só pode ir se concretizando
através do nosso empenho resoluto para favorecer seu crescimento. Esse empenho é
ético.

A ética

Também para a ética Peirce deu uma interpretação tão original quanto deu para a
estética. Costuma-se definir a ética como a doutrina do bem e do mal. Peirce discordou
disso. O que constitui a tarefa da ética é justamente justificar as razões pelas quais certo
e errado são concepções éticas. Para ele, o problema fundamental da ética está voltado
para aquilo que estamos deliberadamente preparados para aceitar como afirmação do que
queremos fazer, do que temos em mira, do que buscamos. Para onde a força de nossa
vontade deve ser dirigida?
Como responder a essa pergunta? Segundo Peirce, a resposta não pode vir da própria
ética, pois esta não é auto-suficiente. É da estética, na sua determinação daquilo que é
admirável - do crescimento da razoabilidade concreta ("a única coisa que é realmente
desejável sem razão para o ser, é apresentar idéias e coisas razoáveis", Bernstein 1990:
203) - que vem a indicação da direção para onde o empenho ético deve se dirigir,
daquilo que deve ser buscado como ideal. O fim último da ética reside, portanto, na
estética. O ideal é estético, a adoção deliberada do ideal e o empenho para atingi-lo são
éticos. A adoção do ideal e o empenho para realizá- lo sendo deliberados, dão expressão
à nossa liberdade no seu mais alto grau (Santaella 1992a: 125-129; 1994a: 111-140).

38
O empenho ético é, portanto, o meio pelo qual a meta do ideal estético se materializa,
im como a lógica é o meio pelo qual a meta ética se corporifica. As ciências que estão
a ima no diagrama perfilam o ideal, as que estão em baixo lhe dão corpo. Uma vez que
ada uma das ciências normativas diz respeito a um aspecto particular do ideal geral ,
ada uma continuamente retifica e adiciona conteúdo às outras, e, assim fazendo, aumenta
a compreensão da idéia geral (Kent 1987: 163; uma apresentação detalhada das três
:::iências normativas pode ser encontrada no livro Estética - de Platão a Peirce. antaell a
1994a) .

.-\. lógica ou semiótica

Para Peirce, a lógica tem dois sentidos: um mais estreito e outro mai \' o . . o
. ri meiro, lógica é a ciência das condições necessárias para se atingir a verdade .. ·0
_ nti do mais amplo, é a ciência das leis necessárias do pen samento . ~ I as. uma vez que
·odo pensamento ocorre em signos, a lógica, no seu segundo sentido. é emió ·~a geral.
n tando não apenas da verdade, mas também das condi ções gerai do i,:: 0- orno
-ignos. Trata também das leis de evolução do pensamento, o que coin ide o o e rudo
condições necessárias para a transmissão de significado de uma men e a o a e de
_m estado mental a outro (CP 1.444).
A noção de signo da semiótica peirciana é muito genérica e abrangen e. P er
_ma idéia dessa abrangência, é necessário levar em conta que Peir e in luiu - •
:::·gno "qualquer pintura, diagrama, grito natural, dedo apontando. pi adela
o lenço, memória, sonho, imaginação, conceito, indicação ocorrên ia ~::r- a letra.
- meral , pal avra, sentença, capítulo, livro, biblioteca" etc. Tuma de formal
igno é qualquer coisa de qualquer espécie, podendo estar no uni\·e _ ; -i-o ou no
undo do pensamento, que - corporificando uma idéia de qualquer e- - i~ o qu e nos
::errnite usar esse termo para incluir propósitos e sentimentos) ou e !ando o ~~ da om
gum objeto existente ou ainda se referindo a eventos futu ros atra\'é d~
- l.eva alguma outra coisa, chamada signo interpretante, a er de e r uma
-ela ,ão correspondente com a mesma idéia, coisa existente ou lei .1 --... : - .
Ora, para dar conta de uma gama de possibilidades sígnicas poten i e·~ infinita.
_ . miótica não pode extrair seus conceitos e definições do exame em írico - -igno .
......0 ontrário, ela tem de lidar com definições no limite máximo de a ~-o. Por i o
-e mo, a semiótica ou lógica, no sentido lato, não pode ser confundida om m den ia
_-,.1 ada. Ela é, isto sim, uma ciência formal e quase necessária voltada p o e do
-trato "de todos os possíveis tipos de signos, seus modos de signifi a,ão. de ~no ,ão
~ e informação, e o todo de seus comportamentos e propriedade . na medida em que não
a identais" (MS 634: 14).
endo uma ciência normativa, a lógica também apresenta o duali mo que é próprio às
_ as ciências normativas: o de relacionar os fenômenos ao er humano de a ordo om
fi m. Mas, por ser a terceira ciência normativa, o fim que lhe é específi o é o pen amento.
~ modo que sua finalidade última é o estudo da formação de hábito e pen amento que
.3In consistentes com o ideal lógico que, por sua vez, é definido pela éti a que. por ua
~z. erve ao ideal estético, ou seja, serve ao crescimento da razoabil idade con reta ou à

39
contínua e infinda corporificação da potencialidade do pensamento (Kent 1987: 174). A
tarefa da lógica, portanto, é cultivar a razão, conduzindo-a o mais proximamente possível
da razoabilidade, razão criativa, summum bonum da estética a ser atingido pelo empenho
ético (Santaell a 1992a: 134). Delineando-se desse modo o fim último da lógica, não é
difícil concluir que o estudo dos signos se constitui tão-só e apenas numa semióti ca
propedêutica, um meio para atingir um fim que a transcende. É por isso que o estudo do
signos faz parte do primeiro dentre os três ramos da semiótica.

A gramática especulativa

A semiótica ou lógica num sentido amplo está dividida em três partes, as subseqüentes
pressupo ndo e não existindo sem as precedentes . A primeira é chamada de gramática pura
ou especu lativa e tem por função estudar a fisiologia dos signos de todos os tipos (CP
2.83). Investiga suas naturezas e significados, determinando as condições a que devem se
conform ar para serem signos. Esta foi a parte da semi ótica peirci ana que ficou mai s
co nhecida, tão conhecid a a ponto de muitos pensarem que a semiótica como um todo se
reduz apen as a esse ramo .
Há uma íntima ligação entre a fenomenologi a e a doutrina dos signos, visto que a
terceira categori a fenomenológica corresponde à noção de signo. A manifestação mais
simples de terceiridade, que, conforme foi visto mais acima, também significa continuidade,
generalidade, síntese, aprendizagem, crescimento etc., está na noção de signo. Em termo
muito gerais, o signo é um primeiro que põe um segundo, seu objeto, numa relação com
um terceiro, seu interpretante. O signo, portanto, é mediação, perte ncendo ao reino da
terceiridade. Entretanto, Peirce expandiu a noção de signo a um tal ponto que uma mera
ação e reação, evento, situação existencial, quer di zer, qualquer fenômeno no domínio da
secundidade pode funcionar como sig no. Assim , por exemplo , um tiro é signo de que
uma corrida pode começar. Batidas na porta é signo de que alguém quer entrar. Céu
escuro e carregado é signo de chuva iminente. O choro de um bebê é signo de desprazer
etc. É verdade que não se trata aí de signos genuínos , mas, conforme Peirce os batizou ,
trata-se de signos degenerados , no sentido que o termo degenerado tem na geometria , por
exemplo. Entretanto, Peirce não parou no fato existente como signo. Levou a noção
ainda mai s longe, de modo que uma simples qualidade de sentimento - o sabor do
vinho, as cercanias do mar, uma troca de olhares amorosos, enfim, qualquer fenômeno
pertencente ao universo da primeiridade - também pode funcionar como signo, a mais
rudimentar e degenerada forma do signo, mas mesmo assim signo, ou melhor, algo como
um quase-signo.
Com isso , pode-se ver aí claramente que, do mesmo modo que a semióti ca nasce no
interi or da fenomenologia, visto que a terceiridade é a categoria do signo, a fenomenologi a
é reintrojetada dentro da semiótica, pois Peirce expande a noção de signo para absorver
também a secundidade, o existente como signo e a primeiridade, a qualidade e o sentimento
como signos. Vem daí a amplitude da noção peirciana de signo que se aplica a uma vasta
gama de fenômenos , desde uma estrutura dissipativa no mundo físico, coração do concreto,
até uma equação matemática ou uma idéi a abstrata da ciência no universo do pensamento
ab trato. Para dar conta dessa amplitude, as definições de signo formuladas por Peirce são

40
radicalmente abstratas e genéricas, sendo que as especificações, para definir os níveis de
maior singularidade dos tipos de signos, são incorporadas nas classificações dos signos
que serão abordadas mais adiante. Antes disso, passemos para os dois outros ramos da
semiótica.

A lógica crítica

A segunda parte da lógica ou semiótica é a lógica crítica ou lógica propriamente dita,


correspondendo ao sentido estrito e mais estreito da lógica. Ela começa onde a gramática
especulativa termina, quer dizer, no tipo mais complexo de toda a classificação peirciana
dos signos, a saber, o símbolo argumentaI. Assim, a lógica crítica tem por função investigar
as condições de verdade das inferências lógicas, dos argumentos, ou melhor, investi gar a
força comprobatória de cada tipo de argumento.
Do mesmo modo que, na gramática especulativa, Peirce ampliou consideravelmente
a noção de signo , na lógica crítica, ele também descobriu um tipo novo de argumento, a
abdução. O estudo observacional do raciocínio, que sempre se dá em signos , o levou à
conclusão de que há três tipos de argumentos que se baseiam nos três tipos possívei s de
inferência ou raciocínio: o abdutivo, o indutivo e o dedutivo. A lógica crítica foi assim
desenvolvida como uma teoria unificada da abdução, indução e dedução . Enquanto a
abdução é o quase raciocínio, lampejo da descoberta, responsável pelo nascimento das
hipóteses, a dedução extrai as conseqüências lógicas da hipótese e a indução testa su a
validade.
É interessante notar que esses três tipos de argumento ou raciocínio são operativos
não só nos métodos da ciência, mas também no cotidiano, visto que nosso pensamento
está continuamente processando esses tipos de raciocínio, por mais rudimentar que esse
processo possa ser. Provavelmente, até mesmo o sonho se estrutura de acordo com esses
três princípios. A diferença da ciência com o cotidiano está no fato de que o pensamento
c ientífico funciona como um treino para o aperfeiçoamento e sofisticação desses
procedimentos lógicos ou quase lógicos do raciocínio.

A retórica especulativa

O terceiro ramo da semiótica, a metodêutica, também chamada de retórica especulativa,


estuda as condições gerais da relação dos símbolos e outros signos com seus interpretantes,
a eficácia semiótica. Trata-se de um estudo teórico que tem também por objetivo examinar
a ordem ou procedimento apropriado a qualquer investigação.
A metodêutica nasceu como conseqüência necessária, em primeiro lugar, da descoberta
peirciana de que os tipos de raciocínio, abdução , indução e dedução , se co nstituem
ta mbém em tipos de métodos empregados pelas ciências ; em segundo lugar, nasceu da
descoberta subseqüente de que esses mesmos métodos se constituem em estágios de toda
e qualquer investigação científica, na seguinte seqüência: abdução ou descoberta de
uma hipótese; dedução ou extração das conseqüências da hipótese; indução ou teste da
hj pótese.

41
Sem esse estudo teórico dos argumentos, os métodos, quando empregados
incorretamente, ficam destituídos do poder de autocorreção. É a incessante crítica exercida
pela comunidade dos investigadores que pode ir corrigindo o método da ciência tendo
como meta a verdade, sempre aproximável, mas nunca inteiramente atingida. Uma das
primeiras lições da semiótica é a de que estamos sempre a meio caminho da verdade. A
aplicação dessa idéia aos conceitos intelectuais leva à máxima pragmática de Peirce (CP
5.438) . Esta não é outra coisa senão uma regra da metodêutica, servindo como guia das
investigações (Santaella 1992a: 136-139; ver também Santaella 1993a).
Conforme exposto, o primeiro ramo da semiótica, que é o estudo dos signos, é o
substrato indispensável "para a análise profunda da natureza e gênese do método
científico (modos científicos de pensamento) que se acopla a uma tentativa de levar os
resultados dessa análise até todos os rincões da diligência humana" (Ketner 1983: 63).
"Combinando uma teoria unificada da inferência [segundo ramo da semiótica] com uma
teoria sígnica do conhecimento [primeiro ramo da semiótica], Peirce foi capaz de configurar
uma teoria geral da cognição e de localizá-la dentro de uma teoria geral da explicação
científica" (Esposito 1983: 12). Com isso, depois de mais de meia centena de anos de
trabalho, Peirce conseguiu chegar àquilo que perseguiu desde a juventude: as constantes
que subjacem a toda a variedade de procedimentos e métodos empregados pelas ciências.

A metafísica

Para finalizar o diagrama das disciplinas filosóficas, a metafísica, como terceira grande
divisão da filosofia, estuda os fenômenos em seu nível de terceiridade. A fenomenologia
seleciona os elementos indecomponíveis, nível de primeiridade, através dos quais os
conceitos são construídos . As ciências normativas estudam os fenômenos em sua
secundidade, culminando numa investigação sobre como a mente deve responder aos
impactos do fenômeno quando o ideal supremo da estética, o summum bonum, é
deliberadamente buscado. A metafísica faz a mediação entre as duas primeiras divisões ,
inquirindo sobre os traços gerais da realidade que, para Peirce, consiste em regularidade.
Regularidade real é lei ativa. Lei ativa é razoabilidade eficiente (sobre a metafísica
peirciana ver lbri 1992).
Esse é, em linhas gerais, o panorama da arquitetura filosófica peirciana. Uma vez que
os elementos para a minha proposta das três matrizes do pensamento e linguagem e de
suas subdi visões foram extraídos da teoria e classificação de signos de Peirce, quer dizer,
de sua gramática especulativa, primeiro ramo da semiótica, retornaremos a esse ramo ,
visitando agora seus interiores para discutir os conceitos fundamentais da teoria dos
signos.

Definição do signo

Entre as dezenas de definições do signo que podem ser encontradas nos escritos de
Peirce, a que me parece mais completa ou mais nuançada é a seguinte: "Um signo intenta
representar, em parte, pelo menos, um objeto que é, portanto, num certo sentido, a causa

42
ou determinante do signo, mesmo que o signo represente o objeto falsamente. Mas dizer
que ele representa seu objeto implica que ele afete uma mente de tal modo que, de certa
maneira, determina, naquela mente, algo que é mediatamente devido ao obj eto. Essa
determinação da qual a causa imediata ou determinante é o signo e da qual a causa
mediada é o objeto pode ser chamada de interpretante" (CP 6.347).
Resumidamente, podem ser extraídos da definição os seguintes pontos:
(I) o signo é determinado pelo objeto, isto é, o objeto causa o signo, mas
(2) o signo representa o objeto, por isso mesmo é signo;
(3) o signo representa algo, mas é determinado por aquilo que ele repre enta:
(4) o signo só pode representar o objeto parcialmente e
(5) pode, até mesmo, representá-lo falsamente;
(6) representar o objeto significa que o signo está apto a afetar uma mente. isto é. nela
produzir algum tipo de efeito;
(7) esse efeito produzido é chamado de interpretante do signo;
(8) o interpretante é imediatamente determinado pelo sign o e m edia amenre
determinado pelo objeto, isto é,
(9) o objeto também causa o interpretante, mas através da mediação do 'gno:
(10) o signo é uma mediação entre o objeto (aquilo que ele represen ta) e o in retante
(o efeito que ele produz), assim como
(11) o interpretante é uma mediação entre o signo e um outro signo futuro taella
I 992a: 188- I 89 e 1993b: 39).
A partir dos pontos acima, para se evitar equívocos , devem ser consi
sinais de alerta : signo-objeto-interpretante são termos técnicos. Falar e m
o objeto e interpretante, pois aquilo que constitui o signo é a relação rri'
termos: o fundamento do signo, seu objeto e seu interpretante. 'enhu
funcionar como tal sem o objeto e o interpretante. Esses termos indi
lógicas ocupadas por cada um dos elementos na semiose onde o fundame LO o igno é
um primeiro, o objeto é um segundo e o interpretante um terceiro . Sem.io-~ • er d izer
ação do signo. A ação que é própria ao signo é a de determinar um interpre te. quer
dizer, ação do signo é a ação de ser interpretado em um outro signo pois o' erpretante
tem sempre a natureza de um signo (mesmo que seja um signo rudimentar. u sen' e mo.
por exemplo, ou uma percepção ou uma ação física ou mental). Objeto não é i lÔ:llmO de
coisa, embora aquilo que chamamos de "coisa" possa, de fato, ser o ~ e o o -igno.
Interpretante não é sinônimo de intérprete, embora a figura do intérpre e. e falO.
corresponda a um dos níveis do interpretante (o interpretante dinâmi o . In ~ retante
ta mbém não é sinônimo de interpretação, pois a interpretação se refere ao processo inteiro
de geração dos interpretantes.
Resumindo, pois, (I) o signo é uma estrutura complexa de trê elemento íntima e
in separavelmente interconectados : (1.1) fundamento, (1.2) objeto e (1. interpretan te.
( 1.1) O fundamento é uma propriedade ou caráter ou aspecto do igno que o habilita a
funcionar como tal . (1.2) O objeto é algo diferente do signo, algo que está fora do igno,
um ausente que se torna mediatamente presente a um possível in térprete gra as à mediação
do signo. (1.3) O interpretante é um signo adicional , resultado do efeito que o signo
produz em uma mente interpretativa, não necessariamente humana, uma máquina, por
exemplo, ou uma célula interpretam sinais. O interpretante não é qualquer signo, mas um

43
signo que interpreta o fundamento. Através dessa interpretação o fundamento revela algo
sobre o objeto ausente, objeto que está fora e existe independente do signo.
Vejamos como toda essa abstração pode se concretizar através de um exempl o
específico, muito oportuno, inspirado em Savan (1994a: 184). Um termômetro é um
signo da temperatura do ambiente à sua volta. Contudo, note-se: o termômetro está
habilitado a funcionar como signo da temperatura, mas só funciona assim se for
interpretado. Sem um interpretante, o termômetro é um objeto físico - vidro, mercúrio.
talvez madeira. Esse complexo físico só se torna um termômetro se ele for interpretado
como indicador da temperatura a partir de hábitos sociais convencionais. Sem isso, ele é
apenas um signo virtual, possível e passível de se atualizar como signo tão logo ele
encontre um intérprete.
Tal virtualidade de qualquer coisa existente para funcionar como signo advém da extensão
a que Peirce levou a noção de signo. Qualquer coisa existente, fenomenologicamente em
nível de secundidade, está apta a funcionar como signo tão logo ela encontre um
intérprete. Isso se dá porque tudo aquilo que existe é multiplamente determinado, é um a
síntese de múltiplas determinações. Assim, por exemplo, posso olhar para o termômetro
e não vê-lo como um indicador da temperatura, mas apenas como um signo de que é obra
de um artesão cujo trabalho estou estudando e que desenhou o termômetro para ser
também um objeto decorativo no pátio de entrada de uma bela casa. Posso aind a
interpretar o termômetro como um signo de sua própria idade ou como um signo da
idade da casa em que ele está localizado. Dependendo de suas qualidades, se for de
ouro, por exemplo, posso ainda interpretá-lo como um signo da opulência dos donos da
casa ou como um signo do gosto da pessoa que o escolheu.
Todas essas variações aí compareceram não apenas para demonstrar o potencial infinito
das coisas existentes para funcionar como signo, mas também para demonstrar que, em
cada um dos casos, o fundamento do signo é diferente. Os aspectos ou propriedades desse
complexo físico que chamamos de termômetro, o caráter significante específico, quer
dizer, o fundamento que nele selecionamos para decidir sobre a identidade do artesão
não é mesmo fundamento para a minha crença de que a idade do termômetro indica a
idade da casa. Do mesmo modo, o objeto do signo variará dependendo do interpretante
e do fundamento. Em um caso, o artesão é o objeto do signo. No outro, o objeto é a idade
do edifício. No outro ainda, é o gosto da pessoa que escolheu colocar o termômetro
naquele exato lugar e não em outro. Assim sendo, uma mesma coisa pode ser diferentes
signos. ( 1) Um signo é alguma coisa, qualquer coisa. É um aspecto de uma coisa, (1.1 seu
fundamento) , selecionada por um intérprete como uma espécie de hipótese (1.3 seu
interpretante), a fim de identificar algo além do signo ele mesmo (1.2 seu objeto).

Os objetos do signo

A definição de signo não se reduz à tríade acima . Para melhor entender o que é um
signo e como ele funciona, é preciso levar em conta que (I) o signo tem (2) dois objetos
e (3) três interpretantes. Os objetos são: (2.1) objeto imediato e (2.2) objeto dinâmico . Os
interpretantes são: (3.1) interpretante imediato , (3.2) interpretante dinâmico e (3.3)
interpretante final. O interpretante dinâmico ainda se subdivide em: (3.2.1) emocional ,

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(3.2.2) energético e (3.2.3) lógico. Há ainda uma outra subdivisão do interpretante lógico
que não será considerada aqui , podendo ser encontrada em Peirce (MS 3 1 ) ou Santaella
(1995: 106).
Embora possam parecer excessivas, essas subdivisões se revelam analiticamente
poderosas quando aprendemos a operar com elas. A subdivisão do objeto, por exemplo,
é capaz de nos livrar de muitas dificuldades. Para se entender o que é o objeto do igno ,
é preciso considerar que o signo não ocorre no vazio . Ele está enraizado num vastí im o
mundo de relações com outros signos, com tudo aquilo que muito ampl amente hamamos
de realidade. Ele está inserido , de modo direto ou indireto , no uni verso fi ico imeragindo
com outros existentes. Para ser signo, algo não deixa de ser ao mesmo te mpo uma" oisa".
Aliás , algo nem poderia funcionar como signo se não estivesse corpori fi ado em uma
"coisa" . Mesmo que seja meramente sonhado, imaginado, alucin ado, hipo eri amente
criado no pensamento abstrato, há sempre algum tipo de materi alidade em q e o igno
toma corpo. Isso significa que todo signo é, ao mesmo tempo , signo e o' a, ~m di o,
não existe uma separação rígida entre o mundo dos signos , de um lado. e o undo d
coisas, de outro , mas muito mais intersecções , sobreposi ções e trocas in - ni ente
variá veis , de modo que aquilo que, num determinado momento, não pas a de u. "~oi a",
no outro será signo e vice-versa. A divisão dos tipos de obj eto do igno o: a~ da a
compreender isso melhor.
Há um objeto externo ao signo e um objeto interno ao signo. O obje o in '~ o é _,I)
o objeto imediato; o externo é (2 .2) o objeto dinâmico. Embora seja o obje:o e es rora
do signo, sendo, por isso mesmo, menos diretamente apreendido do que o o 'e'o' ~ iam,
da í o número (2 .2) que está sendo aqui usado para caracteri zá-lo, o ob'e' o '-:, 'o é
aquilo qu e determina o si gno e ao qual o signo se aplica. Todo o o '=:x.-o Ó âmi o
parti cular, a "realidade" que circunda o signo se constitui em seu objero d' • ' ~o, Trata-
e, portanto, daquilo com que o intérprete de um signo deve e tar - ou e
fa miliarizar, quer dizer, com que o intérprete deve ter tido ou ter experié _i __ ' 'era} ao
igno para que o signo possa ser interpretado. Ora, os contexto que rodei o -igno são
e mpre muito amplos , de se perder de vista. Aqui entra a noção de ( .. I) ob'e' o imediato
do signo, que é o modo como o objeto dinâmico se apresenta, e lá i c'_
representado no próprio signo. Sem isso, ali ás, o signo não poderia e lar,
relacionado ao objeto dinâmico . Nessa medida, o objeto im ediam funcio a mo um
indicador do recorte que o intérprete faz ou deve fa zer no contexto. obje o di~ - -o, que
determina o signo. O objeto dinâmico é sempre infinitamente mais amplo do q _e o igno,
O objeto imediato , interno ao signo, quer dizer, a maneira como aquele igTIo arri ular
ugere, indica ou representa o objeto que está fora dele é qu e e tabel e o limi e do
objeto dinâmico. Isso ganhará prec isão, mais à frente , qu ando pas armo ao- ripo de
ignos, nas relações específicas que eles estabelecem com seu s objeto dinâmi o : í one,
índice e símbolo .
Por enquanto, vejamos alguns exemplos de objetos din âmico e imediato em ordem
rescente de dificuldade, começando com o exemplo de um espelho, um tipo de igno
muito simples , tão simples que alguns encontram dificuldade em ara terizá-Io orno
igno. Umberto Eco 0984: 202-226), por exemplo, limitado dentro de uma vi ão e trei ta
do s ig no como algo convencionalmente codificad o , não con egue perceb e r o
fu ncionamento do espelho como signo.

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Um espelho é um objeto capaz de refletir tudo aquilo que se coloca à sua frente.
Diante de um espelho, qualquer coisa é imediatamente duplicada. No momento em que
essa duplicação é interpretada como tal, o espelho deixa de ser apenas um objeto ou um
signo potencial para ser efetivamente um signo. Aí aparece cristalinamente a primeira
característica do signo que é a de funcionar como uma espécie de duplo em relação ao seu
objeto dinâmico. A imagem especular é um duplo daquilo que está nela refletido. A
imagem refletida é o signo. Aquilo que ela reflete é o objeto dinâmico. Ora, esse objeto
dinâmico tem sempre muito mais caracteres do que aqueles que aparecem na imagem
especular. A imagem o reflete de um certo modo, com certos limites, num determinado
enquadramento. Só pode fazer do objeto refletido uma captura frontal, perdendo a parte
lateral ou traseira ou vice e versa. O modo como o objeto dinâmico aparece naquele
reflexo específico se constitui no objeto imediato daquele signo. Isso quer dizer que o
objeto imediato tem algum nível de coincidência com o objeto dinâmico. Ele é uma
emanação do objeto dinâmico, um certo modo de tomá-lo mediatamente presente. A
partir desse exemplo, não fica difícil inferir quais são os objetos imediato e dinâmico de
uma fotografia.
Passemos para um segundo exemplo, um pouco mais complicado: qual é o objeto
imediato e dinâmico de um olhar? Suponhamos que você procura um emprego e é
chamada(o) para uma entrevista com uma pessoa com quem nunca teve qualquer espécie
de contato. Abre-se a porta e lá está a pessoa que vai entrevistá-la(o) diante de você. A
vivência de situações desse tipo produzem sempre confusões psicológicas naqueles que
as experienciam justamente devido à profusão, verdadeiro bombardeio de signos que já
se fazem presentes no primeiro lance de olhar dirigido à pessoa que se apresenta à nossa
frente. Mas fiquemos aqui só na análise dos objetos do signo "olhar". O objeto dinâmico
é a pessoa física diante de você, em carne e osso - seus gestos, tom de voz, modo de falar,
de se vestir - , no contexto que a rodeia. O objeto imediato é tão-só e apenas aquilo que
seu olhar consegue capturar das múltiplas outras dimensões que aquela pessoa tem e que
não cabem no lance do seu olhar: a que distância você está da pessoa, sob que ângulo
você a vê etc. A consideração dos objetos do signo se enriquece remarcavelmente quando
consideramos o papel dos interpretantes. Por ora, entretanto, vejamos um terceiro exemplo,
fornecido por Peirce, ele mesmo.
Pensemos no comando - "Armas no chão" - que um capitão dá à sua tropa, num
treinamento militar qualquer. Quais são os objetos desse signo? O objeto dinâmico é o
desejo do capitão de que os soldados coloquem as armas no chão. Note-se aí que não se
trata de um desejo qualquer, mas de um desejo enraizado no contexto da disciplina e
autoridade militares. Qual é o objeto imediato? É o objeto interno ao signo, quer dizer, é
o desejo do capitão tal como esse desejo está presente dentro do signo, no tom da voz
com que emite sua ordem, na postura que assume e, evidentemente, na sua presença
frente aos soldados no momento em que dá o comando. O efeito que esse comando
produz nos soldados já é da ordem dos interpretantes, que serão analisados mais adiante.
Tomemos um outro exemplo, a frase "Pedro e Lídia estavam na festa" . Essa frase
aponta para um contexto de referência claro: uma festa e, nela, a presença de um casal.
Todo o contexto do evento, onde, quando, como, porque e por quem a festa foi dada,
quem são Pedro e Lídia, mais a situação da conversação em que a frase foi emitida, como
e porque foi emitida, o que está subentendido no diálogo, tudo isso é o objeto dinâmico

46
da frase. Quem emite uma frase desse tipo, toma como certo que o ouvinte está familiarizado
com todo o contexto pressuposto, isto é, familiarizado com o objeto dinâmico dessa
frase. O objeto imediato, interno ao signo, contudo, limita-se à parte desse contexto que
está representada na frase. Apenas aquilo que aparece dentro da frase. A sintaxe da frase,
o sistema da língua a que ela pertence não fazem parte do objeto, pois se constituem no
fu ndamento desse signo. Os efeitos que a frase produz no ouvinte também não dizem
respeito aos objetos, mas ao processo interpretativo. Em síntese: o objeto imediato é o
recorte específico, modo através do qual um objeto dinâmico, fora do signo, é referido,
denotado, indicado ou sugerido pelo signo. Se a frase fosse, por exemplo: "A festa foi
ontem na casa de Sara", o objeto imediato seria indicativo, enquanto, no caso de uma
frase como "Que festa!", o objeto imediato só está aí sugerindo a qualidade da festa.

Os interpretantes do signo

O fundamento é a primeira faceta do signo. Os objetos constituem a segunda faceta do


signo, a faceta ou interface com aquilo a que o signo se aplica. Para funcionar como
signo , contudo, a terceira faceta , a interface com o interpretante, não pode faltar. Numa
definição geral, (1.3) o interpretante não é um simples evento, mas um processo evoluti vo.
a interpretação continuamente evolutiva de um signo, Peirce distinguiu três principais
níveis: (1.3 .1) o interpretante imediato é aquilo que o signo está apto a produzir como
efeito. Estar apto significa um potencial ainda não atualizado do signo, isto é, antes que
o signo tenha encontrado um intérprete.
Consideremos um exemplo também inspirado em Savan (1994a: 185): uma pedra
encontrada na Guatemala, coberta com inscrições de linhas e figuras que se constituem
na escrita hieroglífica da civilização maia. Mesmo que a pedra não seja encontrada,
mes mo que ela seja encontrada por alguém que, sem nenhum repertório para compreender
essa escrita, tome aquilo como rabiscos cujo sentido lhe escapa, a pedra não deixaria de
ler seu interpretante imediato, interno à sua natureza de signo: ser uma forma de escrita
apta a ser interpretada como tal. Portanto, o interpretante imediato é uma propriedade
objetiva do signo para significar, que advém de seu fundamento, de um caráter que lhe é
próprio . É por isso que a pedra não perderia seu poder para significar, não perderia seu
ignificado latente, mesmo na falta de um intérprete. Tanto é assim que ela irá significar
tão logo o encontre. Mas, quando isso se dá,já saímos do âmbito do interpretante imediato,
entrando no território do interpretante dinâmico.
( 1.3.2) O interpretante dinâmico é o efeito que o signo efetivamente produz na mente
de seus intérpretes . É o interpretante singular, particular, efetivado em cada intérprete.
Esse efeito pode ter três níveis: (1.3.2.1) emocional, quando o efeito se realiza como
qualidade de sentimento; (1.3.2.2) energético, quando o efeito é da ordem de um esforço
físico ou psicológico, uma ação física ou mental, por exemplo; (1.3.2.3) lógico, que
fu nciona como uma regra de interpretação.
Em primeiro lugar, note-se que interpretante dinâmico e objeto dinâmico pertencem
ambos ao mundo fora do signo. O interpretante dinâmico é o efeito produzido em uma
mente interpretadora, não necessariamente humana ("mente" para Peirce não é um conceito
p icológico, mas lógico, sinônimo de mediação, algo capaz de traduzir um signo em

47
outro, ver SantaelIa 1994b). Por pertencer a um mundo que está fora do signo, o intérprete
pode ter experiência colateral com o objeto dinâmico do signo. Pode ter outros modos de
acesso, sempre por meio de outros signos ou quase signos, ao contexto, àquele mundo
mais vasto que determina o signo e no qual o signo está enraizado.
Em segundo lugar, também é preciso notar que o interpretante dinâmico de um signo
é sempre múltiplo, plural. O signo não se esgota em um único interpretante. De um lado,
porque um mesmo signo pode produzir diversos efeitos em uma mesma mente
interpretadora, efeitos que podem, inclusive, ir crescendo com o tempo. É por isso que,
quando lemos um livro ou vemos um filme pela segunda vez, percebemos novos aspectos
e perspectivas que não havíamos notado antes. De outro lado, o interpretante dinâmico é
sempre múltiplo porque em cada mente interpretadora o signo irá produzir um efeito
relativamente distinto .
Para concretizar melhor tudo isso, continuemos com o exemplo da pedra maia.
Suponhamos que alguém , sem nenhum conhecimento dessa forma de escrita, tenha
encontrado essa pedra, que é, evidentemente, (1) um signo. Já está patente no próprio
(1.1) fundamento desse signo que não se trata aí de uma pedra qualquer. Ela apresenta
caracteres, propriedades, aspectos -linhas regulares, form as que se repetem, figuras -
que outras pedras, simples pedras, não possuem. Ora, há algo nessa pedra - vestígios de
um trabalho inteligente, (l.2.1) seu objeto imediato, que denuncia um contexto que
existe fora dela e de que ela é parte: a civilização e a escritura maia, (l.2.2) seu objeto
dinâmico. As propriedades da pedra, isto é, seu fundamento de signo, assim como seu
objeto imediato, marcas de inteligência, a tornam apta a ter sua mensagem decodificada,
sendo, inclusive interpretada como parte de uma civilização passada, (1.3 .1) interpretante
imediato.
Entretanto, se o intérprete não tiver jamais tido nenhuma espécie de familiaridade
com o objeto dinâmico, jamais tenha ouvido falar em civilização maia ou visto qualquer
forma de escrita de qualquer tipo, uma tal interpretação não será atualizada. Isso não
significa, contudo, que nenhum interpretante será produzido, pois aqui é necessário
lembrar que há vários níveis de efeitos interpretativos que um signo pode produzir,(l .3.2)
seu interpretante dinâmico. A pedra pode produzir naquele intérprete desavisado tão-
somente qualidades de sentimento: puro encantamento com as formas de sua superfície,
(1.3.2.1) seu interpretante emocional. Mas ela pode produzir também curiosidade em
relação à sua proveniência, o que impele o intérprete a uma busca de compreensão
daquelas formas, (1.3.2.2) seu interpretante energético. Tendo por base esse esforço ,
guiado por um raciocínio lógico, isto é, por princípios guias, o intérprete pode chegar à
conclusão de que as inscrições na pedra são um sinal dos deuses ou vestígios de uma
inteligência que ele desconhece, (1.3 .2.3) seu interpretante lógico.
Invertamos agora o caráter desse intérprete. Suponhamos que ele seja um antropólogo
ou arqueólogo, especialista na civilização maia. Esse intérprete tem, independentemente
daquel a pedra específica, extensa familiaridade , isto é, experiências colaterais, com o
objeto dinâmico desse signo, nos conhecimentos que acumulou sobre os maias, na
habilidade para a leitura de suas inscrições como um sistema especial de codificação de
mensagens. Neste caso, o interpretante lógico vem cedo demais. O intérprete domina as
regras interpretativas do sistema de leis que está subjacente às formas e figuras daquela
escrita . Essas formas e figuras, fundamento do signo, não são mais para ele apenas formas

48
e fi guras , mas suportes de leis de representação, que farão com que as inscrições sejam
interpre tadas como tipos gerais. Tendo internalizado essas leis , o intérprete tem o hábito
adq uirido de decodificar as inscrições não mais simplesmente como form as puras , nem
~o mo meros sinais, mas como representação. O objeto imediato dessa representação, no
li mite daquilo que é possível ser inscrito apenas em uma pedra, recorta um certo egmento
de referência à civilização maia, objeto dinâmico, muito mais amplo do que aqui lo que
pode estar expresso nas inscrições daquela pedra específica.
Se o interpretante lógico vem cedo demais, como ficam os interpretante energéti o
=e mocional? Eles sempre existem, mas no caso da dominância do interpretante lógi o .
d e se tornam quase imperceptíveis, a menos que haja alguma inform ação nova naquelas
rições , desconhecida do intérprete, quando deverá haver algum e for >o men tal para
~ o m pree ndê-Ia ou até mesmo um esforço físico se o intérprete pre i ar de lino .
umentos ou consultas com especialistas etc. No caso de haver um a informa ão no\'a,
_ inscrição certamente produzirá no intérprete um interpretante emo ional .:; m
tensidade. Entretanto, se o intérprete for um antropólogo ou arqueólogo apai."onado
lo que faz, o simples encontro com um vestígio de um a ci vil iza ,ão, m :mo em
_:rescentar nada àquilo que ele já conhece seria, por si só , um interpreranre em ional
amente gratificante, fonte de um prazer intelectual difícil de expli ar, \'i 'o ,_e -ó
?Ode ser sentido.
Resta , enfim , um último nível do processo interpretati vo , (1. 3 ,"' ) o int rpr tallte
final que é o efeito que o signo produziria em qualquer mente, se a emio- fo--e =, da
: fi ientemente longe, isto é, se fosse possível que o signo pude e produzir 'odo- o
• erpretantes dinâmicos de modo exaustivo e final. Uma vez que i o não é -:Í\'el. o
~ rp retante final está sempre em progresso, num processo evoluri\'o infi 'o" i- ada
de nós, intérpretes particulares, apenas capazes de produzir interpre' 'c - maml o
gu Iares , falíveis e provisórios, não estamos nunca em co ndi õe d~ dize
- erpretante já tenha esgotado todas as possibilidades interpretari\' - ce _ -i gno,
-ti tuindo-se no seu interpretante final. É em razão disso que e tamo -e ~~ ° me io
aminho da interpretação de todo e qualquer signo.
pesar disso, os vários interpretantes dinâmi cos de um iQno não - -o • ente
~a t ó rios ou casuais. "Não obstante suas variações , um padrão ordenado, um direç -o de
imento emerge. Por exemplo, os lingüistas mostraram que há tei pri'1~í io- d
_:ordo com os quais as lín guas evo luem no decorrer do tempo. O que é \'er eiro para
- líng uas é verdade iro para todos os signos. As leis e a orde m de_en oh'em- e
= dualmente na medida em que novos interpretantes dinâmicos apare em, . -ó- n n a
eremos saber se haverá um estágio completo do interpretante fi nal. , Ias nó- podemo
~ eber alg uma direção, uma orientação ou corrente na série de interpretan e dinâmi o ,
C mo seria se essa corrente continuasse é o interpretante final. ele. o modo ubjunri\'o
di ional do verbo é essencial" (Savan 1994a: 186).
E as , em suma, são as facetas e subfacetas analíticas da defini ão de igno, Peir e
- paro u aí, todavia. Na classificação dos signos, ele chegou a di tin õe analíti a
- a mais finas , sempre tomando como base as categorias, expandida nas fa eras a ima
_ =- í iras através das quais o signo se define. Isso dá ao conjun to de su a teoria emiótica
oe ão excepc ional.

49
As classificações dos signos

Assim sendo, tomando-se como referência a definição de signo geral e abstrata, nos
três elementos de que (1) o signo se compõe, a saber, (1.1) fundamento, (1.2) objeto e (1.3)
interpretante, a lógica que preside às classificações dos signos aparece com notável
nitidez. Uma vez que a principal classificação dos signos, em quali-signo icônico remático,
sin-signo indiciaI dicente e legi-signo simbólico argumentaI, será mais demoradamente
explicitada no decorrer dos próximos capítulos, pois foi tomada como base para a lógica
que estabeleci para as três matrizes do pensamento e linguagem, a apresentação a seguir
dessa classificação será muito breve (mais detalhes sobre essa classificação podem ainda
ser encontrados em Santaella 1992a: 191-198; 1993b: 39-51; 1995: 47-116).
As tríades classificatórias, como já foi dito, estão baseadas nos três componentes do
signo, o primeiro deles sendo (l.I) o fundamento, que já foi definido como os aspectos
ou propriedades que habilitam o signo a funcionar como signo. Ora, todas as coisas têm
um enorme número de propriedades, aspectos ou caracteres. Que tipos de caracteres
constituem o fundamento? Peirce busca os aspectos formais, isto é, gerais, pois os aspectos
materiais são infinitamente variáveis e múltiplos. Há classes gerais de fundamentos?
Sim, há. Aqui reaparecem as três categorias. Os tipos de fundamento são: (l.l.I) uma
qualidade, por exemplo, uma luz fosca e acinzentada que, em uma apreensão muito
distraída que tenho dela, chega através da janela; (1.1 .2) um existente, por exemplo, a
tela do computador que tenho diante dos meus olhos, respondendo aos comandos, aqui
e agora; (1.1.3) uma lei, por exemplo, as palavras que aparecem na tela do computador,
como réplicas de tipos gerais, isto é, de leis que serão interpretadas como significando o
que elas significam. São essas leis que as diferenciam de meras garatujas desprovidas de
sentido. Esses três tipos de fundamento comandam a primeira grande divisão dos signos.
Assim sendo, na relação consigo mesmo, quer dizer, considerando-se (1) o caráter do
seu ( 1.1) fundamento , o signo pode ser: (1.1.1) qual i-signo, uma mera qualidade que é um
signo (notas prolongadas, um cheiro, um certo gosto de fruta na boca); (1.l.2) sin-signo,
um existente concreto que é um signo, quer dizer, qualquer existente em qualquer um dos
mundos que existem (uma árvore que vejo, aqui e agora, através da janela, a pessoa que
passa na rua, a personagem Virgília no romance de Machado de Assis etc.); (1 .1.3) legi-
signo, algo de natureza geral, tendo o caráter de uma lei que governará ocorrências
particulares (a lei da gravidade, normas jurídicas etc.).
Na relação com seu (1.2) objeto dinâmico, ou seja, com aquilo que: (1.2.1) o objeto
imediato do signo sugere, por exemplo, monotonia sendo sugerida por uma luz
acinzentada; (1.2.2) o objeto imediato do signo indica, por exemplo, a temperatura pelo
ponto de elevação do mercúrio em um termômetro; (l.2.3) o objeto imediato do signo
representa, por exemplo, a palavra mercúrio sendo capaz de ser interpretada como se
referindo ao objeto mercúrio. Neste patamar lógico - o da relação do signo com o objeto
- retornam as categorias conectadas com o fundamento, pois só qualidades podem
sugerir, só existentes podem indicar e só leis podem representar. Desta tríade se origina a
segunda grande divisão dos signos.
Se (1.1) o fundamento do signo for (l.1.1) um qual i-signo, na relação com (1.2) o
objeto, ele será um (1.2.1) ícone, um tipo de signo que é capaz de representar seu objeto
meramente em função de qualidades que ele, signo, possui independentemente da

50
ellÍstência ou não do objeto (por exemplo, a qualidade da cor azul nos olhos de uma
criança que sugere, se parece ou lembra o azul de uma violeta). Tendo como ( l. I)
fu ndamento (1.1.2) um sin-signo, na relação com (1.2) o objeto o signo será ( l.2.2) um
os
índice, isto é, um signo que está existencialmente conectado com um objeto que é maior
B)
el do que ele (a fotografia de uma jovem como índice, isto é, parte de sua existência presente
o,
ou passada). Quando tem seu (1.1) fundamento em (1.l.3) um legi-signo, na relação com
te
( l.2) o objeto, o signo será um (l.2.3) símbolo, que é um signo que funciona como tal
:a porque é habitual ou convencionalmente usado e entendido como representando seu
n- objeto (a palavra "estrela" representando um objeto do tipo estrela, por exemplo).
la Nesse ponto, uma nova tríade aparece, aquela que diz respeito aos (1.3) interpretantes
que podem ser gerados. Se (1.1) o fundamento for (1.1.1) uma qualidade, (1.2) o objeto do
10 signo só pode ser (1.2.1) sugerido, iconizado, e gerar como (1 .3) interpretante (1.3.1) uma
IS
hipótese ou conjectura, isto é, um interpretante remático . Por exemplo, ouço uma melodia
m
ao longe e concluo que seus traços sugerem Chopin. Se (1 .1) o fundamento for (1 .1.2) um
si n-signo, (l.2) o objeto do signo só pode ser (l.2.2) indicado e gerar como (l.3)
!S
in terpretante (1.3.2) um dicente, isto é, uma proposição que equivale a uma constatação
IS
.? de existência e conexão física. Por exemplo, vemos o céu muito escuro e pensamos: "o
ta
tempo é de chuva". Outro exemplo: o locutor que narra um jogo de futebol enquanto o
!O
jogo está acontecendo. Se (1.1) o fundamento for (1.1.3) um legi-signo, (1.2) o objeto do
a signo só pode ser (l.2.3) representado, simbolizado e gerar como (1.3) interpretante
li (1.3.3) um argumento, quer dizer, uma seqüência lógica de premissas e conclusão.
r, As tríades acima são as mais famosas. Considerando as possibilidades lógicas de
o combinação entre esses nove tipos de signos, Peirce chegou a dez classes de signos (ver
e CP 2.227-273). Entretanto, ele também delineou novas tríades, ao levar em consideração
5.
os outros elementos do signo, tais como objeto imediato, interpretante imediato etc.
o Disso resultaram mais sete tríades, além das três acima descritas, num total de dez tríades
n
(ver Santaella 1995: 117-196). Das combinatórias entre essas dez tríades, resultam 66
I,
classes de signos (CP 8.344). Evidentemente não entrarei nesse nível de especificação
aqui , embora seja importante considerar que essas 66 classes são capazes de trazer grandes
e esclarecimentos sobre detalhes importantes quando se pretende ler processos concretos
i- de signos.

o o caráter das classificações


z
o As finas redes analíticas e a tendência c1assificatória da semiótica peirciana não
o podem ser tomadas como uma constante de toda sua obra. Não se pode esquecer que as
e lassificações acima expostas fazem parte do primeiro ramo da semiótica, a gramática
o especulativa, que tem por função justamente apresentar uma análise dos componentes do
igno e as classificações gerais que estão na base de todos os signos possíveis. Entretanto,
a é no interior de uma grande arquitetura filosófica que a semiótica peirciana se
on textualiza. Desse modo, a lógica ou semiótica é, antes de tudo, uma filosofia, dispondo
de toda a generalidade das teorias filosóficas, cujas concepções foram trabalhadas por
Peirce com a mesma espécie de cuidado pela exatidão que é característica de um
matemático e cujas implicações foram desenvolvidas tão exten siva e minuciosamente

51
quanto as de qualquer outro pensador monumental da tradição filosófica ocidental.
Quando ignoradas ou mal compreendidas as bases fenomenológicas e epistemológicas
sobre as quais Peirce alicerça o seu pensamento, corre-se o risco de tomar a semi ótica
como uma simples pirotecnia terminológica, como um mero corpo técnico para dar conta
de atualizações instrumentalistas que visam a uma aproximação utilitária imediata.
As definições e classificações de signos podem se prestar à análise de semioses,
processos concretos de signo, quer dizer, à análise de textos literários , filmes, peças
publicitárias, vídeos, obras de arte, situações vividas, fatos históricos, sonhos etc.
Entretanto, as disciplinas filosóficas peircianas, com a semiótica no seu coração, não se
prestam apenas a isso . Muito além disso, elas têm, na sua base, os conceitos necessários
para lidarmos com todos os complexos problemas levantados pela ontologia,
epistemologia, filosofia da mente, fisolofia da ciência, enfim, por todos os possíveis
desmembramentos e setorizações do pensamento filosófico para os quais Peirce pretendeu
dar um leito comum naquilo que ele concebeu como semiose, ação do signo, ação
inteligente, que era por ele tomada como sinônimo de continuidade, crescimento e vida.
a
Uma tal fundamentação tinha por intenção desenvolver um conceito altamente abstrato
o
de mente, derivado de uma análise daquilo que está implícito na tendência para a verdade
que reside nos arcanos da vida humana.
É por isso que a semiótica não pode ser confundida com uma ciência meramente
instrumental. Ao contrário, suas classificações de signos, quando vistas à luz dos objetivos
50
que Peirce tinha em mente, não são classificações strictu senso, mas padrões que "incluem
todos os aspectos epistemológicos e ontológicos do universo sÍgnico, o problema da
referência, realidade e ficção, a questão da objetividade, a análise lógica do significado
e o problema da verdade" (Buczynska-Garewicz 1983: 27).
Conclusão semelhante é a dé Nadin (1983: 162), quando diz que "a tipologia das
classes de signos (10, 28, 66), tal como foi confitwada pela teoria matemática das categorias,
deve ser entendida como uma rede de pontos de referência fundamentais num campo
semiótico generalizado. Quando essa tipologia é transformada num fim em si mesmo, ela
conduz apenas a uma semi ótica formalística. Dar um nome a um signo não resolve o
problema do modo como ele age no campo semi ótico. O signo só pode ser concebido e
interpretado dentro do espectro da lógica da incerteza e com a participação da doutrina
do continuum.
Em uma linha de pensamento similar, Liszka (1994: 79-80) chega a propor, tendo
como referência a semiótica peirciana, a mudança do termo classificação por tipologia.
Liszka entende tipologia como a tarefa "de discernir um tipo ou classe geral, cuja descrição
captura, geralmente, os modos como as coisas que pertencem a esse tipo se comportam de
um modo análogo; essa é uma questão de divisão sígnica. Classificação, por outro lado,
é a organização ampla desses tipos (ou classes naturais) por meio de um plano ou idéia
sistemática, que pretende demonstrar a afinidade, dependência ou interdependência desses
tipos ou classes". Para Liszka, quando se trata de Peirce, tipologias deveriam ser preferidas
a classificações, pois o exercício da classificação sígnica pode ser equivocado na medida
em que tem uma tendência a diminuir a unidade e o sabor triádico dos signos e processos
sígnicos. Sua sugestão, portanto, é que as tipologias devem ser usadas de um modo
aspectual. Com isso, Lizska quer dizer que a análise sígnica não deve tentar entender o
signo em termos de um lugar ocupado em um sistema a priori, mas antes levando em

52
.~
i

i
conta o caráter concreto do signo e seu contexto. A tipologia deve ser usada para enriquecer I

o entendimento do signo precisamente ao analisá-lo em termos das várias dimensões que


!
a tipologia fornece . I
Sem levar os cuidados com a compreensão das classificações peircianas tão longe a
ponto de propor a mudança do termo classificação por tipologia, dada a grande similaridade :
entre ambas, também quero chamar atenção para o fato de que as classificações peircianas,
realmente, têm a peculiaridade de ser uma rede, triadicamente tecida, de distinções
analíticas. Essas distinções não são excludentes, os tipos não se excluem uns aos outros,
mas evidenciam as múltiplas dimensões que os signos apresentam. As categorias peircianas
são onipresentes o que significa que um mesmo signo pode exibir uma pluralidade de
faces ao mesmo tempo. Nessa medida, as classificações devem funcionar como meios
para iluminar essa pluralidade e não para fixar um signo dentro de um a distinção, em
detrimento das outras.
Além disso, a secundidade pressupõe a primeiridade, quer dizer, a inclui , assim como
a terceiridade pressupõe a secundidade e a primeiridade, incluindo-as dentro de si. Assim
como para ser signo, algo não precisa deixar de ser coisa, para ser um legi-signo, um signo
não precisa deixar de ser um sin-signo e um quali-signo. Ao contrário, não pode deixar de i
ser esses três aspectos ao mesmo tempo.
I
As classificações das modalidades do discurso verbal , das formas visuais e da sintaxe
sonora que serão propostas nos próximos capítulos também nasceram dentro dessa lógica
peirciana do inclusivo e não do exclusivo.

r
i
;~

~I

53
o nó transdisciplinar das ciências cognitivas
Uma vez que a palavra cognição se refere a perceber e conhecer, basicamente, os
cognitivistas vêem a mente como um sistema que recebe, arquiva, recupera, tranforma,
transmite e comunica informação. Eles estão interessados nos aspectos universais dos
processos de informação, buscando descobrir princípios fundamentais altamente gerais e
explanatórios do processamento de informação. Enfim, que espécie de capacidades gerais
de processamento informacional a mente deve ter para ser capaz de fazer todas as coisas
que ela faz? Foi devido a esse alto grau de generalidade nas indagações dos cognitivistas
que a visão da mente como um sistema processador de informação se tornou dominante.
Isso explica também porque as ciências da computação e a pesquisa em inteligência
artificial se tornaram tão importantes na composição das ciências cognitivas.
As ciências da computação estudam vários tipos de problemas e usam o computador
para resolvê-los, sem se preocupar com os meios pelos quais nós humanos podemos, de
nossa parte, resolvê-los . Não poderia haver ciência da computação se não existissem
máquinas como o computador, pois elas são indispensáveis para a sua existência. A
inteligência artificial é um ramo especial das ciências computacionais, visto que investiga
em que medida os poderes mentais dos seres humanos podem ser capturados por meio das
máquinas. Disso se pode concluir que poderia haver ciências cognitivas sem inteligência
artificial, mas não poderia haver inteligência artificial sem as ciências cognitivas, uma
vez que estas têm por função estudar a natureza da cognição nos seres humanos, nos
outros animais e nas máquinas inanimadas . Embora os computadores sejam essenciais às
ciências cognitivas, eles não são essenciais ao seu ser, pois as ciências cognitivas poderiam
continuar existindo mesmo se o computador não existisse (Fetzer 1991: xvi).
A inteligência artificial compartilha com a filosofia, especialmente com a epistemologia
e filosofia da mente, o estatuto da investigação mais abstrata dos princípios da psicologia,
mas ela compartilha com a psicologia, diferentemente da filosofia, uma tática típica no
modo de responder as perguntas. Assim sendo, a inteligência artificial é a investigação mais
abstrata sobre a possibilidade da inteligência e do conhecimento. As tentativas dos
pesquisadores em inteligência artificial de programar sistemas que podem entender a
linguagem humana, ver e resolver problemas, conduziu a novas hipóteses testáveis sobre a
cognição humana. Desse modo, a inteligência artificial funciona como uma alternativa
metodológica poderosa para explorar e testar teorias da cognição que suplementam os
métodos empíricos da psicologia e lingüística. A inteligência artificial está rapidamente se
condúzindo rumo a aplicações nos sistemas especialistas e na robótica (Stillings 1987: 9).
Fundamental para a composição conceitual das ciências cognitivas é, sem dúvida, a
fi losofia, principalmente no que diz respeito à lógica, ao significado e ao esclarecimento
dos conceitos básicos das ciências cognitivas, tais como informação e conhecimento.
A outra ciência que compõe o campo multidisciplinar das ciências cognitivas é a
lingüística, na medida em que esta se volta para a estrutura da linguagem humana e para
a natureza da aquisição da linguagem. Tendo nascido nas inclinações cognitivistas da
lingüística chomskiana, hoje a lingüística do cognitivismo evoluiu para a caracterização
da forma pela qual os seres humanos representam o conhecimento e processam a
informação, descobrindo as características gerais das línguas humanas que refletem
aspectos da arquitetura da mente.

62
A noção de uma gramática mental, arquivada no cérebro do usuário de urna linguagem
é o co nstructo teórico da lingüística moderna. Bastante notoriedade, sob esse aspecto,
receberam as teorias cognitivas de J. A. Fodor (1975), especialmente sua hipótese sobre a
linguagem do pensamento, isto é, a hipótese de que os processos mentais envol vem um
meio de representação mental, um meio que tem todos os traços centrais da linguagem.
Os pensamentos se parecem com sentenças. Quando pensamos usamos uma espécie de
linguagem interior, chamada "mentalese", organizada em palavras e sentenças. Tendo
orno arcabouço geral uma teoria representacional (a cognição como processamento de
representações mentais) e modular (os mecanismos cognitivos estão divididos em
módulos) da mente, Fodor fundou uma verdadeira escola com muitos seguidores (ver
Sterelny 1991).
A psicologia cognitiva, do desenvolvimento e psicologia evolucionista são centrais
nas ciências cognitivas. A preocupação fundamental da psicologia no cognitivismo está
voltada para a noção de arquitetura cognitiva, para as capacidades mentais humanas em
geral, tais como representações mentais proposicionais ou esquemáticas, imagens mentais,
processos automáticos ou controlados e aquisição de habilidades. Tópicos da psicologia
ognitiva são, por exemplo, conceitos e categorias, a percepção, a atenção, a memória, o
rac iocínio, a solução de problemas, o desenvolvimento cognitivo e, certamente, o
omplexo funcionamento da inteligência humana aplicado a campos empíricos.
No extremo oposto do modelo da mente, em analogia com o computador como um
istema processador de informações, estão as neurociências também compondo o nó
rransdisc iplinar das ciências cognitivas e trazendo munição às controvérsias sobre a
natureza da mente. As neurociências estudam a realização física dos processos de
informação nos sistemas nervosos humanos e dos animais. As neurociências são, elas
mesmas , um nó de disciplinas, tais como a neurofisiologia que estuda as funções do
istema nervoso, a neuroanatomia que estuda a estrutura do sistema nervoso e a
neuropsicologia que estuda a relação entre o funcionamento neural e o psicológico.
Essas são as ciências básicas que compõem o tecido híbrido das ciências cognitivas.
Entretanto, mais híbrido ainda está se tornando esse tecido face aos desenvolvimentos
recentes da informática em conjugação com as telecomunicações e face aos novos papéis
que a ciência da informação e as ciências da comunicação estão destinadas a desempenhar
nesses desenvolvimentos.

Informação, cognição e comunicação

A ciência da informação tem por função encontrar as regras mais apropriadas para o
design de sistemas e dos procedimentos para coletar, organizar, classificar, indexicar,
recuperar e mediar os materiais que dão suporte aos dados, conhecimento, significado e
~xp eriênc i a. Entretanto, nas últimas três décadas, tem havido um desenvolvimento
extremamente rápido da tecnologia para a recuperação da informação. Desde o
desenvolvimento da tecnologia computacional nos anos 60, a indústria de recuperação
de informação se tornou uma indústria em larga escala na chamad a sociedade da
info rmação .
Do ponto de vista social , o problema das ciências da informação, antes de tudo, está

63
nas estratégias para a comunicação construtiva e acessível do crescimento exponencial
da produção de documentos da ciência, indústria e cultura. Diante disso, vem se tornando
cada vez mais importante para a ciência da informação a busca de princípios gerais que
guiam a cognição e a recuperação da informação pela mente humana. Por isso mesmo,
para alguns, não parece haver dúvida de que a ciência da informação se constitui como
um subconjunto das ciências cognitivas (cf. Ingwersen apud Brien 1996: 282).
Como disponibilizar a enorme quantidade de documentos produzidos
internacionalmente? Uma meta importante para isso está na criação de interfaces
inteligentes com os usuários. Neste ponto, a ciência da informação começa a se mesclar
também com as ciências da comunicação e com a semiótica.
O computador e a indústria da comunicação explodiram desde a Segunda Guerra e
estão agora entrando numa fase de síntese. Hoje, as variadas tecnologias computacionais,
incluindo a tecnologia de cálculo, as telecomunicações e a linguagem mais o tratamento
do som e da imagem fundiram-se em uma tecnologia interativa hipermidiática. É crescente,
portanto, a importância que as interfaces cognitivas e processos de comunicação homem-
máquina estão desempenhando na ciência da informação.
É nesse campo híbrido multidisciplinar que as ciências cognitivas têm fertilizado , em
meio a muitas controvérsias, como não poderia deixar de ser quando os caminhos são
múltiplos.

Um mapeamento das tendências

Um dos desdobramentos mais complexos da chamada teoria computacional da mente


(ver Haugeland 1981 ) está na teoria representacional da mente (Fodor 1975; Jackendoff
1987; Stich 1994). Outras concepções adicionais da mente encontram-se na teoria modelar
da mente (Johnson-Laird 1983; MacGinn 1989), na teoria modular da mente (Jackendoff
1992, 1994) ou na teoria causal da mente (Amstrong, em Rosenthal , ed. 1991). c
É justamente o paradigma da concepção computacional da mente, em todas as suas
variações, que vem sendo submetido a repetidas críticas. Se há algo mais no pensamento
do que a habilidade de manipular símbolos, se há algo mais na língua do que suas
propriedades formais, se há algo mais na mente do que proposições e imagens, há razões I
aí mais do que suficientes para se questionar uma concepção da cognição fundada em
mecanismos processadores computacionais.
No campo das controvérsias, ficaram notórios os debates entre o cognitivismo e o
I
conexionismo (ver Petitot 1991; von Eckart 1994), assim como entre os funcionalistas e (
antifuncionalistas. Os cognitivistas assumem que a mente é um mecanismo, no sentido
muito geral de uma máquina Turing, e que seu substrato físico é o cérebro. Assim , todo
estado mental está associado com um estado correspondente no cérebro. Se aquele estado
mental é de um tipo representativo complexo, cada elemento dessa representação está
associado com algum aspecto do estado cerebral. Os cognitivistas não vão muito além
disso. Nem se sabe muito bem se estados mentais equivalentes estão sempre associados
com o mesmo estado cerebral. Mesmo quando já se tem um bom conhecimento do substrato
neUl·o nal, como é o caso do processamento visual de nível inferior, para os cognitivistas,
questões sobre os esquemas representacionais e os processos que agem sobre eles podem

64
empre ser enfrentadas através da análise do processo de informação da habilidade
relevante, independentemente de questões sobre o substrato neuronal. Portanto, sob o
po nto de vista funcionalista, a melhor teoria de uma habilidade mental particular é
aquela que melhor explica os dados psicológicos (Garnham 1994: 3557).
Nos inícios dos anos 80, a versão dominante do funcionalismo começou a ser
q uestionada por pessoas que estavam trabalhando na moldura do conexionismo. Os
conexionistas tentam reproduzir o comportamento humano usando redes de elementos
rocessadores simples, redes neurais, cujas propriedades se assemelham às das cé lul as
erebrais ou de conjuntos delas. Uma máquina conexionista pode até sugerir que está
seguindo um conjunto de regras, mas nada na máquina corresponde às regras de um códi go
como no modelo computacional da mente. No cognitivismo, as regras são representadas
-im bolicamente, enquanto o conexionismo não contém a representação de regras que podem
e tar sendo seguidas, daí ele ser considerado como sub-simbólico (ibid .: 3557).
Por isso mesmo, os antifuncionalistas ficam muito mais próximos dos neurocientistas
.10 que os cognitivistas. É em bases bioneurológicas que os neurocientistas fund am sua
co ncepção da mente e de suas habilidades (ver Paul Churchland 1979, 1988, 1990;
Patricia Churchland 1988, 1990, 1992; Millikan 1984). Visões mescladas entre o
ncionalismo e não funcionalismo encontram-se na concepção mecanística da mente
_Telson 1989), no fisicalismo (Sterelny 1991) ou na concepção do cérebro modul ar
Res tak 1994).

A mente modular e as linguagens

Embora não exaustivo, o panorama acima parece suficiente como pano de fundo para
uar a teoria da mente modular. Conforme já foi sugerido, essa teoria se insere no
_ ntexto da teoria representacional da mente que, por sua vez, se insere no paradigma da
_ ncepção computacional da mente. É um pressuposto fundamental da psicologia
_ ;ni tiva que as explicações sobre o comportamento se referem não apenas a entradas
.puts) e saídas (outputs), mas também ao modo como a informação está codificada na
ente. Essas codificações são pensadas como dependentes de um esquema de
-e""resentação mental ou linguagem. A partir de Fodor (1975) , essa linguagem passou a
hamada de linguagem do pensamento, embora diferentes faculdades mentais possam
d iferentes esquemas representativos (Fodor 1983). Amplamente aceita, essa visão do
essamento mental envolve uma questão muito complicada. O que é representação?
úmero de estudos e correntes nas ciências cognitivas que surgiram para discutir essa
~~ tão são inumeráveis (ver sobre isso von Eckart 1994). Aqui me limitarei a detalhar a
~-o de representação que se pode extrair da teoria da mente modular.
Dentro do terreno específico da psicologia cognitivista e, dentro desta, na sua vertente
-erial ista que se funda em explicações físicas, segundo Jackendoff (1993 : 1), uma das
- .:: ntas mais candentes é: como somos inteligentes? A partir dos modelos de intel igência
- ~ados na noção do cérebro como um recurso para o processamento de inform ações.
~a e pécie de computador biológico, algumas subquestões cruciais emerg iram. a
- -cipal delas versando sobre quais tipos de informações precisamente as computações
_ére bro se desenvolvem .

65
Algumas correntes do cognitivismo, baseadas na concepção estatística de informação,
têm se contentado com explicações relativas à quantidade de informação processada na
mente. Mais importante do que isso, entretanto, são as formas da informação que o
cérebro processa, armazena e recupera. Dando à expressão "forma da informação mental"
o sentido de um espaço combinatório organizado de distinções disponíveis ao cérebro,
Jackendoff (ibid.) desenvolveu sua teoria das linguagens da mente. As fontes dessa teoria
o autor foi buscar naquilo que Chomsky chamou de divisão da mente em "órgãos mentais"
e, na teoria de Fodor, da modularidade da mente.
A metáfora dos "órgãos mentais" significa que o fato de os órgãos do corpo estarem
altamente diferenciados em coração, fígado, sangue, ossos, sistema imunológico etc. não
nega que há princípios gerais subjacentes a todos eles, como, por exemplo, o princípio
biológico das células. Do mesmo modo, o fato de os recursos computacionais da mente
distinguirem-se em fonologia segmental, estrutura conceitual etc. também não nega que
há princípios computacionais a partir dos quais esses recursos especiais são construídos.
As várias e especializadas capacidades computacionais da mente se desenvolvem
não em função de um único tipo de recurso ou propósito geral, mas de uma variedade
de recursos computacionais , cada um deles especializado para lidar com uma forma
particular de informação ou para traduzir a informação de uma forma particular para
outra. Foi a essa especialização que Fodor deu o nome de modularidade da mente
(J ackendoff ibid .: 17).
Inserindo-se no programa de uma psicologia das faculdades humanas, Fodor (1983)
substituiu a postulação geral de que há faculdades psicológicas por uma versão particular
dela que ele batizou de "tese da modularidade". Para esta tese Fodor encontrou alguma
inspiração no trabalho de Franz Joseph Gall (1758-1828), o fundador da frenologia,
teoria que estuda o caráter e as funções intelectuais humanas, baseando-se na conformação
do crânio.
Para Gall (apud Fodor ibid .: 14), não há faculdades humanas, como julgamento,
atenção, volição, memória etc., que Fodor chama de "estrutura mental como arquitetura
funcional das faculdades horizontais". Tais faculdades são funcionalmente distintas,
passam informação para as faculdades vizinhas e não se localizam em domínios
específicos . Assim, uma mesma faculdade, digamos, a da memória, distribui-se por todos
os setores: memória de números de telefone, de melodias musicais, de sabores de vinho,
de nomes de pessoas etc. Quando preciso telefonar para alguém, por exemplo, dirijo-me
à minha faculdade unificada da memória, ignorando todas as informações sobre filosofia,
esportes , língua inglesa etc. que também estão nela armazenadas; pego apenas o número
de telefone, transfiro-o para minha faculdade unificada da vontade que diz para a faculdade
motora também unificada que digite os números no aparelho de telefone (Flanagan
1984: 201).
Em lugar disso, Gall propôs que há um feixe de propensões, de disposições, qualidades,
aptidões, ou poderes fundamentais, de que a aptidão para a música seria um exemplo e
que Fodor chama de "estrutura mental como arquitetura funcional de faculdades
verticais". Estas são também funcionalmente distintas, mas elas não cruzam domínios de
conteúdo e são computacionalmente autônomas. Imaginemos que a mente tem módulos
separados para lidar, digamos, com números de telefone e com jogo de xadrez. O módulo
dos números de telefone lida apenas com números de telefone, detectando-os,

66
memorizando-os e talvez até mesmo colocando os dedos na posição de discagem . O
módulo de xadrez lida apenas com a detecção do movimento das pedras, com a
memorização das estratégias do jogo e, até mesmo, quem sabe, com os dedos
movimentando as peças. Ambos os sistemas não se comunicam entre si e não compartilham
urna mesma memória com propósitos gerais ou uma mesma faculdade motora porque eles
têm cada um sua própria memória individualizada com conteúdo específico e sistemas
motores próprios (ibid.: 201).
Fodor argumenta que há evidência considerável para que esposemos a teoria das
fac uldades verticais. Sua noção de módulo cognitivo ou sistema cognitivo modular,
inspirada em Gall e extraída dessa idéia de que há faculdades verticais, afirma que a
mente tem mecanismos computacionais com domínios específicos. Postula ainda que as
fac uldades verticais são módulos informacionalmente encapsulados, neurologicamente
onectados, especificados de maneira inata e assim por diante. Os sistemas modulares
são, por definição, mecanismos computacionais para propósitos especiais, suficientemente
locais no seu caráter computacional (Fodor ibid .: 120, 129). Seus candidatos favoritos
para as faculdades verticais são aquilo que ele chama de sistemas de entrada (input
syslems).
Os sistemas de entrada, concebidos como sistemas modulares , correspondem aos
IIadicionais modos sensórios e perceptivos, ou seja, visão, audição , tato , cheiro, paladar,
aos quais Fodor acrescenta a linguagem, além de outros mecanismos computacionais
altamente especializados. Esses sistemas de entrada exibem as seguintes propriedades:
(l) eles se referem a domínios específicos. Quanto mais excêntrico é o domínio do estímulo,
lallto mais plausível é a especulação de que ele é computado por um mecanismo com
propósito especial. (2) A operação dos sistemas de entrada é obrigatória, não há como
e itá-Ia. (3) Há apenas um acesso central limitado às representações mentais que os
si temas de entrada computam. (4) Os sistemas de entrada são rápidos. (5) Eles estão
informacionalmente encapsulados, quer dizer, embora os módulos de propósitos especiais
possam mandar informação para cima, isto é, para os processadores centrais, eles parecem
ser relativamente imunes aos efeitos de cima para baixo. Isto ocorre porque os módulos
são designados para tomar como entradas apenas classes idiossincráticas, muito limitadas
e estímulos. Nesta última propriedade reside a essência da modularidade dos sistemas
entrada.
No mesmo ano da publicação dessa tese de Fodor, surgiu o livro de Howard Gardner
1983) sobre Formatos da mente: a idéia de inteligências múltiplas (Frames ofmind: the
idea of multiple intelligences) no qual ele defende uma tese da modularidade da mente
pouco diferente da versão fodo riana, embora complementar a ela na medida em que
va a questão da modularidade para níveis ainda mais elevados. Tendo como projeto
encontrar evidências para a postulação de inteligências de alto nível , de domínios
pecíficos e separados, Gardner partiu de três tipos diferentes de dados : (I) casos de
rda de algumas competências mentais, como competência lingüística, danos
~ iológicos etc.; (2) dados sobre as habilidades de pessoas especiais como gênios na
atemática e na música; (3) dados sobre tipos de inteligência que são tidos como
-independentes" em diferentes culturas.
A análise dos dados levou Gardner à hipótese de que há sete tipos diferentes de
- teligência: duas "livres de objeto", lingüística e musical; três "relacionadas a objetos",

67
lógica-matemática, espacial e corporal-cinestésica; duas "relacionadas com pessoas",
interpessoal e intrapessoal. Para ele, essas sete inteligências têm fortes componentes
inatos; ninguém tem todas elas no mesmo grau; diferentes inteligências suportam talentos
e habilidades diferentes; cada tipo de inteligência é semi-autônoma no sentido de que
ela não pode ser subsumida a uma memória horizontal de propósito geral ou faculdade de
compreensão (Flanagan ibid .: 203-204).
Alguns anos depois da publicação das teses acima, Jackendoff (1993) apresentou a
sua versão da modularidade da mente. Antes de tudo, o autor justifica a visão modular da
mente em geral como necessariamente não antitética ao paradigma conexionista da
computação mental. O estilo conexionista da representação computacional e da
representação do conhecimento é tão dilatado nos seus limites e tão neutro quanto à
organização formal da informação que é computada e armazenada e que, para Jackendoff
(ibid .: 17), as diferenças entre formas de informação mental eventualmente serão vistas
como refletidas em diferentes arquiteturas entre redes neurais, seja no cérebro, seja em
uma máquina.
Preocupado com a questão, para ele central , sobre quais formas de informação o
cérebro processa, armazena e recupera, Jackendoff (ibid.: 3) formula as seguintes perguntas:
Como diferentes formas de informação se juntam na mente? Como podemos diferenciá-o
las? Quais são suas características distintivas? Para que cada uma é usada? Que relações
formais permitem que a informação seja traduzida de uma para outra? Como essas
traduções são realizadas em tempo real? Sua resposta para todas essas perguntas parte da
hipótese de que o poder do cérebro advém em parte de suas muitas diferentes formas
especializadas de informação, muitas e diferentes "linguagens da mente", cada uma
delas com seu próprio repertório de distinções primitivas e seus próprios princípios de
combinação, e cada qual com sua própria contribuição para a riqueza de nossa
compreensão do mundo (ibid.: 4).
As linguagens da mente, segundo Jackendoff, são basicamente três: a língua, a visão
e a música. Na faculdade da língua, as formas de informação são mais robustas e se
distribuem em três formas distintas de informação que são características da língua: a
fonológica ou estrutura sonora, a sintática ou estrutura frasal e a conceitual ou estrutura
do significado. Todas as três encontram seus princípios de organização na formação de
regras que lhes são próprias. As estruturas fonológicas têm uma entrada (input) auditiva
e uma saída (output) motora.
Compreender a língua evidentemente não é, de modo algum, compreender o mundo.
Outra entrada importante está no sistema visual. Tomando como base o estudo de David
Marr sobre a Visão (1982), Jackendoff discute os três níveis distintos de representação no
caminho que vai da estrutura da retina para a forma de informação que codifica a
compreensão do espaço. O nível mais periférico é o do esquema primário. Este codifica
informação preliminar sobre elementos com limites locais detectáveis e texturas no campo
visual, sobre agrupamentos de vários elementos locais, formando unidades maiores e
sobre movimentos desses elementos no campo visual. Nesse nível, não há representação
de "objeto no espaço", mas apenas fragmentos e pedaços a partir dos quais objetos
percebidos podem ser construídos.
O segundo nível corresponde ao esquema em duas dimensões, que especifica formas ,
distâncias e orientações de superfícies visíveis. Não há ainda aqui uma noção plena de

68
' elO" . Mas recuperar as superfícies visíveis, colocando-as no espaço, é um passo
rta nte para se identificar o objeto. Para Marr, o esquema em duas dimensões é derivado
fo rmações mais primárias como paralaxe, disparidade binocular, pistas de texturas e
- movimento.
omente quando a codificação visual atinge o nível de modelização em três dimensões
:!: ~ae se configura a tradicional noção de "constância do objeto". É essa codificação que

ite que diferentes visões do objeto possam ser integradas e guardadas na memória,
modo que o objeto possa ser reidentificado em quaisquer outras circunstâncias .
,-\ terceira faculdade da mente, geralmente não considerada na mesma categoria das
Idades lingüística e visual, é a faculdade para a música. Das suas pesquisas em
toria com Fred Lerdahl (1977 , 1983) sobre Uma teoria gerativa da música tonal,
-endoff conclui que entender uma peça de música envolve, pelo menos, construir
turas musicais em nossa mente (evidentemente de modo inconsciente), do mesmo
o que se constróem estruturas fonológicas, sintáticas e conceituais para se entender
sentença verbal.
.-\ partir dessas três linguagens da mente, Jackendoff examina o modo como essas
-as faculdades estão ligadas para formar uma compreensão unificada do mundo. O
de podermos falar sobre aquilo que vemos , "sugere que deve haver uma ligação ou
j unto de princípios de correspondência entre o sistema visual e a faculdade da
= agem , de modo que a informação visualmente codificada possa ser traduzida em
for ma adequada à expressão lingüística" (ibid .: 14). O lugar lógico para se buscar
ligação só pode estar nas representações mais centrais dessas duas faculdades, isto é,
modelo em três dimensões da visual idade e na estrutura conceitual da língua. Por isso
-mo, o pensamento abstrato se concentra em representações de estrutura conceitual
uanto o pensamento espacial se concentra em modelos de representação em três
ensões com consideráveis interações entre ambos em muitas tarefas cognitivas
amentais, entre elas, falar sobre o que se vê. Mas como ficam as outras facu ldades?
Jackendoff considera razoável especular que, a par das estruturas conceituais e modelos
três dimensões, há um terceiro formato, ou talvez uma família de formatos, isto é, um
eI de representação corporal que codifica estados internos de músculos e juntas, assim
o o local e caráter das sensações do corpo, tais como dor, tensão, calor etc. A principal
, ão dessa representação é ligar a intenção de agir, que é formulada na estrutura
eitual, com a forma dos comandos motores. Outra função possível da representação
ral está na percepção háptica, a percepção da forma pelo toque. Sobre os sentidos
rais não podemos falar com muita precisão, mesmo quando nossa consciência
ral é altamente desenvolvida, como no caso da dança, da execução de um instrumento
ica l ou do esporte. Isso sugere que as ligações entre as estruturas conceituais
güísticas e as representações corporais não são muito estreitas. Que lugar tem a música
- e esquema?
Jackendoff suspeita que a música se liga de algum modo à representação corporal ; daí
ú ica estar muito estreitamente ligada à dança que diz respeito aos estados dinâmicos
orpo. O efeito musical ou resposta emocional à música nasce do fato de que a música
_ a consigo representações corporais, mesmo quando a música não é dançada, ou seja,
do as representações corporais não são traduzidas em padrões motores. Uma tal
• ' tese incorpora muito naturalmente o fato de que tensão e relaxamento, estados

69
corporais fundamentais, são também componentes da cognição musical. Além disso, essa
hipótese ajuda a explicar por que a compreensão musical não é verbalizável, o que é uma
característica típica dos sentidos mais diretamente ligados à representação corporal.
Esse panorama das linguagens da mente computacional, embora breve, é capaz de
evidenciar sua extrema coerência interna. Algumas similaridades das linguagens da
mente com as três matrizes da linguagem e pensamento saltam à vista. Não obstante suas
origens muito distintas , ambas propõem uma visão tripartite fundada no verbal ou
lingüístico, no visual e no musical ou sonoro. Diferenças entre elas, entretanto, despontam
principalmente nas considerações sobre o modo como os outros sentidos ou faculdades
se ligam para formar uma rede cognitiva interconectada. Como será exposto abaixo, a
grande diferença entre as teorias cognitivistas da mente modular e a teoria das três
matrizes está no modo como esta liga indissoluvelmente o pensamento ou faculdades
cognitivas não só aos sentidos, mas também e, sobretudo, aos sistemas de signos e
linguagens manifestas. Desta ligação inextricável das três faces - pensamento-sentidos
e percepção-linguagem - resulta a consideração de apenas três matrizes da linguagem
e pensamento, muito embora existam cinco sentidos, além dos sentidos adicionais,
conforme serão discutidos a seguir.

Os cinco sentidos

Braun (1991) nos informa que o processo por meio do qual sentimos algo tem pelo
menos três facetas : (I) a recepção de um sinal externo que excita um órgão correspondente
dos sentidos; (2) a tranformação dessa informação em um sinal nervoso; (3) o transporte
desse sinal e a modificação que ele sofre até chegar finalmente ao cérebro e nos dar a
sensação de haver sentido algo. Há mecanismos físico-químicos por meio dos quais a
informação que nos chega do meio exterior é recebida e transformada em sinais nervosos
recebidos pelo nosso cérebro. Assim sendo, os órgãos dos sentidos exercem o papel de
transdutores, quer dizer, transformadores de sinais físico-químicos em sinais elétricos
que são transmitidos por nossos nervos.
Os sentidos são dispositivos para a interação com o mundo externo que têm por
função receber informação necessária à sobrevi vência. É necessário ver o que há em volta
para poder evitar perigos. O tato ajuda a obter conhecimentos sobre como são os objetos.
O olfato e o paladar ajudam a catalogar elementos que podem servir ou não como alimento.
O movimento dos objetos gera ondas na atmosfera que são sentidas como sons.
As informações, baseadas em diferentes fenômenos físicos e químicos, se apresentam
na natureza de formas muito diversas. Os sentidos são sensores cujo desígnio é perceber,
de modo preciso, cada tipo distinto de informação. A luz é parte da radiação magnética de
que estamos rodeados. Essa radiação é percebida através dos olhos. O tato e o ouvido se
baseiam em fenômenos que dependem de deformações mecânicas. O ouvido registra
ondas sonoras que se formam por variações na densidade do ar, variações que podem ser
captadas pelas deformações que produzem em certas membranas. Ouvido e tato são
sentidos mecânicos. Outro tipo de informação nos chega por meio de moléculas químicas
distintas que se desprendem das substâncias. Elas são captadas por meio dos sentidos
químicos, o paladar e o olfato. Esses se constituem nos tradicionais cinco sentidos que

70
fo ram estabelecidos já por Aristóteles. Hoje se sabe que há uma quantidade de sentidos
q ue não se limita a cinco (Braun ibid .: 11). Mas para chegar a isso, é preciso bem
compreender os sentidos que foram fixados pela tradição.
A visão é uma função fisiológica e psicológica. Através dela, o olho e o cérebro
traduzem informações transmitidas do exterior sob forma de uma energia radiante chamada
luz. Desde 1909, sabe-se, graças a Einstein, que a luz tem uma natureza bastante complicada
que, na interação com átomos e moléculas que compõem as substâncias, se comporta
como onda e, quando interage com corpos macroscópicos, se comporta como partícula.
A luz se propaga com uma velocidade de 300 mil kmlhora. Esta rapidez de sua propagação
d eve ser um dos motivos por que o sentido visual é tão dominante na espécie humana.
Uma onda se caracteriza pela sua longitude e a ela se associa uma freqüência que é dada
em hertz (Hz). Quanto maior for a freqüência, menor será a longitude da onda e vice-versa.
Isto é importante para entendermos como se formam as cores. Quando um facho de luz
ati nge nossos olhos, essa luz é percebida de uma certa cor que depende de sua longitude
de onda. Quando a luz chega ao olho humano, dois fenômenos ocorrem. O primeiro é a
formação da imagem na retina; o segundo, a recepção da luz por esse órgão.
O olho é um órgão que reage à luz, enviando ao cérebro uma sensação de visão. A
fis iologia do olho é uma filigrana complicadíssima de subórgãos que não vem ao caso
plicitar. Para o que nos interessa, basta nos fixarmos na retina, pois esta é o órgão que
- estimulado ao receber luz e no qual se inicia a sensação da visão. A informação que os
rotons da luz externa levam até a retina é transformada em sinais nervosos que o cérebro
alisa. Essa transformação ocorre nas células foto-receptoras que formam um mosaico
fundo da retina. Cada célula absorve a luz de um ponto da imagem, gerando um sinal
étrico que leva, de forma codificada, a informação de quanta luz foi absorvida e das
características de cor da luz. Os sinais que cada célula produz são transmitidos por um
nj unto muito complexo de sinapses ou ligações nervosas. Essas ligações juntam os
- ais que vêm de diferentes células foto-receptoras, combinando-os e comparando-os.
Esse processo permite ao sistema visual obter informação sobre as formas, movimentos e
rores dos objetos externos. Finalmente, por meio do nervo ótico, essas informações
gam ao cérebro (Braun ibid.: 47).
As células foto-receptoras são de dois tipos : os bastonetes, por volta de cem milhões
reti na, operam quando o nível de iluminação é muito baixo, dando-nos uma visão em
co e preto, e os cones, por volta de três milhões, operam na luz comum. Enquanto os
onetes param de funcionar quando há muita luz, os cones só assumem sua função a
. r de certo nível de iluminação. A percepção dos detalhes espaciais, do movimento e
cores vem destes últimos. A enorme complexidade do funcionamento da visão , que
apresentando apenas em pinceladas, é um dos fatores que sustentam a minha hipótese
'1ue só há três matrizes de linguagem e pensamento apesar de existir um número maior
sentidos. Depois da visão, em nível subseqüente de complexidade, situa-se a audição.
Existem na natureza diferentes tipos de ondas, entre elas, a sonora. "Uma onda é lima
rbação que se propaga em um meio" (ibid .: 66). O som é lima onda de compressão e
rarefação. Por exemplo, quando se toca um violino, a corda vibra com o arco , que faz
o corpo do violino. Ao vibrar, a madeira comprime e rarifica o ar que está junto
Essas perturbações se propagam e formam um som. Assim também , quando um
- o se quebra ou se choca com algum corpo, perturba o ar que está à sua volta gerando

71
uma onda sonora. Costuma-se dizer que a onda sonora se propaga no ar, mas ela também
pode se propagar na água ou em qualquer outra substância. Basta que essa substância
possa comprimir-se e rarificar-se. Assim, uma onda sonora pode se propagar na água ou
em um sólido como o ferro etc.
O ouvido humano é um órgão sensível ao som, além de ser responsável também pelo
sentido do equilíbrio. O ouvido se divide em três: o externo, o médio ou tímpano e o
interno ou labirinto. Quando a onda sonora atravessa o canal auditivo, ela incide sobre a
membrana do tímpano fazendo-a vibrar. O conjunto de ossos do tímpano é um sistema
mecânico que tem certas freqüências de ressonância. Dentro do ouvido interno, há duas
partes: o labirinto, responsável pelo equilíbrio e o caracol, que funciona como receptor
da sensação auditiva. No labirinto, há três condutos semicirculares e dois sacos, o sáculo
e o utrículo, no interior dos quais há uma terminação chamada mácula. Esta consiste de
fibras sensíveis que estão embebidas em substância gelatinosa e que têm forma de pelo.
Em um extremo desses pelos há uma conexão com fibras nervosas que se comunicam
com o cérebro. Essa descrição nos permite inferir que, embora menos complexo do que o
olho, o ouvido é, entretanto, um dispositivo mais complexo do que os demais sentidos.
O sentido do tato compreende a percepção de estímulos mecânicos que incluem
contato, pressão e golpe. Esses estímulos que nosso corpo experimenta se aplicam sobre
a pele que nos cobre e que, segundo Braun (ibid.: 101), é o órgão do tato . Diferentemente
dos nervos visuais e auditivos que estão diretamente ligados ao cérebro, um nervo que
tem uma terminação na pele não está conectado diretamente com o sistema nervoso
central , pois ele apresenta muitas ramificações que estão dispersas em zonas distintas da .
pele. Uma porção da pele não está servida apenas por uma fibra nervosa, mas por uma
sobreposição delas, assim como cada fibra nervosa serve a diferentes áreas da pele. Há
lugares, por exemplo, a ponta dos dedos, em que a densidade dessas fibras é muito grande
o que torna essas regiões mais sensíveis.
Quando tocamos um objeto, a pele se deforma . Uma vez que debaixo da pele, na área
que foi deformada, há muitas terminações de fibras nervosas, a tensão das membranas
dessas células origina um sinal nervoso que é transmitido finalmente ao cérebro. Além de
serem sensíveis a estímulos mecânicos, essas terminações nervosas são também sensíveis
a estímulos que produzem calor, frio e dor.
Quanto ao olfato, este ocorre quando moléculas se desprendem de substâncias em
que se encontram e se transportam até o nariz. As moléculas se desprendem devido a três
fatores físicos: a evaporação, a sublimação e a difusão, de acordo com os estados ou fases
- líquido, sólido ou gasoso - das substâncias. O nariz é o órgão pelo qual se realiza a
entrada e saída do ar que respiramos. No fundo da boca, há um conduto que se comunica
com os condutos nasais. Na parte superior desse conduto, entre nossos olhos, encontra-se
o epitélio sensitivo que consiste em um conjunto de cílios banhados dentro de uma
mucosa pegajosa na qual se movem. Esses cílios formam o extremo das células olfativas
que se conectam por fibras aos glomérulos que formam o bulbo olfativo. As fibras , por sua
vez, cruzam um osso com muitas aberturas pequenas, pois o bulbo olfativo se encontra
dentro do osso craniano. Do outro extremo dos glomérulos saem as células mitrais de
onde emergem os terminais nervosos conectados ao cérebro. Dos cílios no nariz interno
até a saída das células mitrais forma-se um conduto nervoso que é o único no nosso corpo
que tem saída para o exterior (Braun ibid.: 114).

72
Sentimos cheiro porque as moléculas de algum objeto se desprendem e chegam por
difusão ao nosso nariz. Quando respiramos, inalamos essas moléculas. A conente de ar
que entra dá lugar a uma corrente secundária que passa pelo epitélio sensitivo, de modo
que a fração de moléculas que se deposita no epitélio é muito pequena. Somos muito
sensíveis a uma quantidade extraordinariamente grande de cheiros distintos . Não é apenas
a composição química específica das moléculas, mas também sua forma que produz a
reação do cheiro. Daí substâncias com formas parecidas produzirem cheiros semelhantes.
Da boca também nos chegam correntes de ar. A comida que temos na boca desprende
moléculas que são anastadas até o epitélio sensitivo, o que significa que a sensação
predominante ao comer provém não do gosto que se inicia na língua, mas do olfato
(ibid.: 116-118).
A língua é o órgão responsável pela sensação do paladar. É um órgão muscular,
móvel , que, além da sensação do gosto, também serve para a fala, a mastigação e a
deglutição dos alimentos. É da língua que provêm muitas das funções desse fabuloso
órgão que é a boca que nos serve para falar, respirar, comer, cantar e beijar. A língua é
composta de um conjunto de células especializadas, entre elas as gustativas, que são os
órgãos especiais do gosto, e as salivares, que servem para a deglutição e para umedecer as
bstâncias que se depositam na boca. De maneira similar ao que ocone com o cheiro, ao
depositarem na língua, as substâncias adquirem a umidade necessária para sensibilizar
lingua. As moléculas da substância entram assim em contato com as fibras gustativas.
a reação química provoca uma resposta da célula que dá a sensação do gosto, este
bém determinado por outras propriedades não apenas químicas, mas também físicas
objeto que produzem sensações táteis. As regiões da língua têm sensibilidades distintas
há locais próprios para a sensação do amargo, no fundo da língua, do doce, na ponta da
I gua, do azedo, na parte posterior em um dos lados, e do salgado, na parte anterior em
o lado.
exposição acima dos mecanismos físicos e químicos que operam nos cinco sentidos,
im como da fisiologia desses sentidos, foi deliberadamente detalhista porque nesses
anismos encontramos as bases físico-químicas e fisiológicas que nos ajudam a
preender porque só há três e não mais do que três matrizes da linguagem e pensamento.
bora os sentidos se misturem uns com os outros, especialmente com o tato, como será
utido abaixo, não se pode negar a evidência de uma hierarquia entre os sentidos,
- rarquia que tem suas bases já em mecanismos físicos , químicos e fisiológicos . Há uma
I-da gradação decrescente de complexidade que vai da visão para a audição , desta para
tato, deste para o olfato e deste, enfim, para o paladar. Senão vejamos.
enhum sentido goza do mesmo tipo de intimidade que o olho mantém com o cérebro
ponto de podermos afirmar que o olho é uma parte do cérebro em interface direta com
mundo externo. Também o ouvido poderia assim ser considerado, pois ambos são
ofícios que ligam o mundo exterior ao cérebro. Entretanto, há diferenças substanci ais
tre olho e ouvido que tornam a intimidade do ouvido com o cérebro não tão estreita
to é a da visão. Olho e ouvido captam ondas, luminosas o primeiro, sonoras o
;: ndo. Trata-se aí de uma realidade física-fisiológica . Contudo, a diferença entre eles
-dencia-se no tipo de onda que é captada por cada um. Enquanto a radiação luminosa
- ~ a a 300 mil km/seg., a sonora se propaga no ar a 331 metros/sego Vem daí que o ouvido
~:ia um órgão mecânico, tanto quanto o tato é mecânico.

73
Não pode ser ignorada a diferença entre essas mecânicas, pois elas nos indicam a
hierarquia que se estabelece entre ouvido e tato. Enquanto este é um órgão de contato
corpo-a-corpo com o mundo físico, o ouvido capta ondas que são transmitidas pelo ar.
Assim como o olho, o ouvido está diretamente conectado com o cérebro, enquanto os
nervos da pele não se ligam de modo direto ao sistema nervoso central, mas se espraiam
em uma rede de distribuição.
Do tato para o olfato e paladar, dá-se mais um passo na hierarquia. Enquanto os outros
três sentidos reagem a estímulos físicos, olfato e paladar reagem a estímulos químicos.
São, portanto, sentidos mais orgânicos até o extremo último do paladar que tem uma
natureza quase puramente visceral por se localizar no interior da boca, que é um buraco
voltado para os interiores do corpo. Enquanto o olfato ainda mantém uma conexão direta
com o cérebro, o paladar depende da conexão dos condutos da boca com os condutos
nasais. Enquanto as moléculas que se desprendem das substâncias chegam ao nariz pelo
ar, o paladar depende de reações químicas que se processam na própria língua, quando a
matéria das coisas se dissolve na substância mesma do corpo.
A comparação da intimidade do olho com os interiores do cérebro e da intimidade do
paladar com os interiores do corpo fala por si sobre a hierarquia dos sentidos, que tem o
tato, órgão não só sensório , mas também motor, em situação central, entre os dois buracos
para o cérebro, olho e ouvido, e os dois burados para o corpo, o olfato e paladar, estes mais
"matéricos", pois reagem a substâncias químicas.
Tomando por base essas comparações não fica difícil lançar a hipótese de que as
matrizes da visual idade e sonoridade são frutos da complexidade fisiológica do olho e
ouvido que, mais se assemelhando a aparelhos ou dispositivos do próprio cérebro, são
órgãos codificadores e decodificadores de informações que não se exaurem no ato
perceptivo. Vem daí que essas informações sejam registradas na memória com certa
persistência, memória que é, aliás, maior para o olho do que para o ouvido que é maior do
que a memória do tato, esta, por sua vez, maior do que a do olfato e paladar. Por isso,
somos capazes de rememorar apenas o sentimento de prazer ou desprazer provocado por
um cheiro ou gosto, mas não guardamos na memória o cheiro ou gosto em si, enquanto as
memórias visuais e mesmo as auditivas podem perdurar por toda a vida.
Podemos evidentemente pensar com a linguagem verbal. Também podemos pensar
com a visualidade e com o som. Quase pensamos com o tato, mas não chegamos a pensar
com o olfato e o paladar. Quanto mais distância o sentido é capaz de interpor entre si e o
mundo, mais ele pode ser posto a serviço do pensamento. Por isso mesmo, o verbal não se
liga a nenhum sentido a não ser o próprio cérebro. Embora sensorial, o aparelho fonador
é apenas um meio de transmissão da linguagem verbal e não sua fonte. O olho, que capta
energia radiante, é o sentido que mais longe vai na sua exploração panorâmica até o
horizonte. O ouvido, que capta energia mecânica vibratória, não atinge as mesmas
distâncias que o olho. O tato interage no corpo-a-corpo com as coisas, toca, apalpa,
tropeça. O olfato capta energia química numa troca de partículas que chegam pelo ar. No
paladar, essa troca de partículas se dá no próprio corpo. Quanto mais a percepção sensória
fica rente ao corpo, menos podemos pensar com aquele sentido.
Disso tudo ainda decorre que ambos, olho e ouvido, tenham sido capazes de criar
linguagens extra-somáticas, fora do corpo, linguagens que, ao se desprenderem do corpo,
começaram a povoar o mundo de signos. Mais uma vez aqui, surge uma diferença notável

74
entre o olho e o ouvido. As linguagens que advêm do olho, as inscrições, desenhos etc.
adquiriram muito cedo autonomia, pois elas se desprendem imediatamente do corpo ao
se fixarem em suportes materiais, tais como a pedra, o papiro, papel etc. Desses primeiros
suportes para a criação de máquinas extensivas ao olho, como o telescópio, microscópios ,
radares, e de máquinas capazes de produzir e reproduzir linguagens, como a fotografi a,
ci nema, holografia, computação gráfica etc ., foi um processo crescente que não dá mostras
de ter se esgotado.
Antes de poder ser registrada em forma escrita ou gravada, a sonoridade, por sua vez,
sempre dependeu de um gesto executor a cada vez repetido. Para ser repetÍvel, esse gesto
executor exigiu a criação de instrumentos. Com isso, o instrumento passou a ser o suporte
ex terno para a fix ação da memória. A partir da gravação e da criação de instrumentos
eletrô nicos e computacionais, a sonoridade passou a competir com a visual idade na
criação de dispositivos que funcionam como prolongamentos de habilidades auditivas,
aumentando sua complexidade.
Pode-se argumentar que a fabricação de objetos é um sistema extensivo ao tato, tanto
quanto uma pintura é extensiva ao olho. Entretanto, os objetos fabricados estão ligados
ao olho, isto é, são tão visuais quanto são uma escultura ou uma obra arquitetônica . Isso
nos leva à hipótese de que o sentido háptico e motor é uma espécie de sentido coringa
que se distribui por todos os outros sentidos, inclusive o olfato e o paladar, como foi
s ugerido mais acima. Tanto é assim que as linguagens visuais e também as sonoras
dependem do gesto para sua produção.
É possível também argumentar que a cozinha, na distribuição de seus diferentes
pratos , é uma espécie de linguagem do pal adar assim como a perfumaria é uma linguagem
do olfato. Até certo ponto, podem ser. Entretanto, ambas só funcionam como quase-
linguagens, restritas ao nível do quali-signo e sin-signo, sem atingir o nível do legi-
signo, isto é, das leis abstratas que regulam particulares . É possível haver uma gramática
da visualidade e uma gramática da sonoridade, mas não uma gramática do tato, cheiro ou
do paladar. Por isso mesmo, uma comida e um peIfume são sempre existentes encapsulados
em um prato ou em um vidro. Existentes que se exaurem nas reações químicas que
produzem no ato perceptivo, sem deixar rastros na memória.
Outros argumentos que justificam por que só o visual e o sonoro alçam-se ao estatuto
de linguagens , a par da discussão do papel desempenhado pelos sentidos na linguagem
verbal, devem esperar pela apresentação que se segue dos sentidos adicionais e do papel
que a percepção desempenha na constituição das linguagens.

Os sentidos adicionais e a percepção

Hoje se sabe que a classificação dos sentidos em número de cinco é muito estreita.
ossos órgãos são sensíveis a uma série adicional de estímulos que não precisam ir
necessariamente de fora , mas podem ter uma origem interna. No ouvido , por exemplo.
al ojam-se os órgãos receptores responsáveis pelo equilíbrio estático e pel o equilíbrio
di nâmico que permitem perceber os movimentos rotatórios do corpo, um dos fatores que
pode explicar a íntima ligação da música com a dança.
O corpo humano está armado com um conjunto interligado de órgãos sensórios que

75
vão além de cinco. É esse conjunto que permite postular a existência de sentidos adicionais.
Neste caso se enquadra a percepção espacial que depende de fatores monoculares e
binoculares. Monocular se refere àquilo que se percebe com a ajuda de cada olho
separadamente: superposição, brilho, paralaxe, elevação, cor e distinção de contornos. Já
os fatores binoculares dependem da ajuda conjunta dos dois olhos. As imagens das duas
retinas não coincidem completamente, pois as retinas estão separadas. Pela comparação
entre ambas, o cérebro infere a localização espacial do objeto.
Complexidade similar é a da percepção do movimento, quando uma sucessão de
imagens se forma em regiões distintas da retina e o cérebro a computa como movimento.
Fenômeno também curioso apresentado pelo olho humano é o da persistência da visão.
O cérebro retém por 0,1 sego a impressão de iluminação depois que o objeto não está mais
em nossa frente, de modo que a visão persiste.
Outro tipo de sensações complexas são as cinéticas. Estas dão lugar a atividades
motoras através de mecanismos de recepção como o tato, a vista etc. São sensações que
resultam da estimulação de receptores especiais chamados proprioceptores que se
distribuem nos músculos, tendões, ligamentos e articulações de nosso corpo e que atingiram
seu grau máximo de desenvolvimento na mão humana, o que permite apreciar a forml)l
dos objetos mesmo sem vê-los. Também são cinéticos os controles da articulação da fala
e do movimento da mão na escrita.
Além disso, somos sensíveis a outros tipos de estímulos que surgem quando certos
receptores internos são excitados, desenvolvendo processos que nos dão a sensação de
sede, fome, desejo sexual etc. Essas sensações resultam de receptores que estão localizados
nos órgãos digestivos, na respiração, no sistema urogenital. Enfim, esses receptores estão
distribuídos em muitos lugares do corpo, de modo que a sensação de fome, por exemplo,
não provém apenas do estômago, mas também do esôfago, da língua etc. Uma distribuição
de receptores também se dá na sexualidade.
Os sentidos adicionais, como são chamados por Braun (ibid. : 127), demonstram que
nossas sensações não são atomizadas, mas nascem de uma colaboração íntima entre os
sentidos e destes com o cérebro. Tendo isso em vista, as matrizes da linguagem e
pensamento também não devem ser compreendidas de modo atomizado. A matriz visual
não quer necessariamente significar que a visualidade lhe seja exclusiva, mas sim
dominante, o mesmo ocorrendo com a verbal e a sonora. O quanto isso é verdadeiro
poderá ser comprovado nos desdobramentos das matrizes em modalidades e
submodalidades. Nem poderia ser diferente, pois, na raiz dessas matrizes, residem processos
perceptivos que nunca são exclusivos de um sentido ou de outro, mas nascem de sentidos
que intercambiam tarefas e funções. Essa concepção integrada dos processos perceptivos
encontra-se desenvolvida de maneira otimizada na teoria ecológica da percepção de
Gibson (1966, 1979).
Gibson não considera os diferentes sentidos como meros produtores de sensações
visuais, táteis, sonoras, gustativas ou olfativas. Ao contrário, ele os trata como mecanismos
ativos de busca e seleção de informações. Por isso mesmo, somos capazes de ter constâncias
perceptivas responsáveis pela sobrevivência adaptativa. Os órgãos dos sentidos produzem
dois tipos diferentes mas simultâneos de sensibilidade: de um lado, operam como receptores
passivos que respondem cada qual à sua forma apropriada de energia. De outro lado,
constituem-se em órgãos perceptivos ativos que formam sistemas de orientação,

76
exploração, seleção, organização, investigação e extração. Por isso mesmo, são órgãos de
aprendizagem perceptiva, performativa e adaptativa (Gibson 1966: 2-5).
Isso só se tornou possível porque o ser humano desenvolveu extremidades móveis e
órgãos de sentidos ajustados que, por isso, podem modificar as entradas de estímulos de
dois modos: movendo tanto os órgãos motores, estes chamados de performativos ou
executivos, quanto os órgãos sensórios do corpo, estes chamados de exploratórios
o u investigativos. O perceptor humano não espera passivamente pelos estímulos,
ele os busca numa percepção ativa do mundo. A entrada de estímulo no sistema
nervoso tem, assim, dois componentes: os que são independentes do observador e
os que dependem dos movimentos dos olhos, cabeça, mãos e corpo. Olhos, ouvidos ,
nariz, boca e pele são moventes, voláteis. O olho não é simplesmente uma câmera, mas
sim uma câmera auto-ajustável, auto-reguladora, auto-orientadora. As imagens que ela
apta só podem atingir um estado otimizado porqUe o sistema cria compensações para
as indefinições (ibid.: 32).
Os órgãos sensores se dividem em exteroceptores (olho, ouvido, pele, nariz, boca),
proprioceptores (nos músculos, juntas e ouvido interno) e interoceptores (terminações
nervosas nos órgãos viscerais) com três tipos de sensações por eles provocadas: sensações
de ori·gem externa ou percepções, sensações de movimento ou cinestesia e vagas sensações
de origem interna, localizando-se aqui talvez os sentimentos e emoções. Apontando para
a falácia de se considerar esses campos de modo estanque, Gibson (ibid.: 33-46) argumenta
q ue nossas sensações não dependem de receptores atomizados, mas de uma sobreposição
fu ncional dos sentidos. Como quaisquer outros órgãos do corpo, os órgãos da
ensorialidade formam uma hierarquia organizacional em que órgãos inferiores se
subordinam a superiores e pequenas estruturas servem a estruturas maiores.
O olho se localiza em um só lugar, mas é um órgão feito de órgãos com vários níveis
de funcionalidade: bastonetes, cones, lentes ajustáveis para aguçar a imagem retiniana,
upi la para normalizar a intensidade da luz, um sistema dual em que os olhos convergem
para objetos próximos e divergem para objetos distantes. O ouvido não é um único
ped aço de tecido. O tato se dispersa pelo corpo todo. A parte receptora e a parte de
'ustamento dos sentidos não precisam estar no mesmo lugar. O receptor do cheiro está
fundo dos ossos faciais e sua parte motora localiza-se nos músculos do peito que
servem para respirar e fungar.
Os órgãos formam sistemas. O sistema proprioceptivo sobrepõe-se ao sistema
perceptivo. O olho se estabiliza na cabeça em relação ao ambiente graças à ajuda do
Olvido interno. Em cooperação com o equilíbrio postural e locomoção, os olhos giram
lo mundo e olham para tudo. O aparato do ouvido interno capta forças de aceleração
especificam a direção da gravidade; capta também o começo e fim dos movimentos
corpo que são forças transitórias. O sistema auditivo responde ao ser agitado, mesmo
ndo essa agitação é produzida tão só e apenas por ínfimas vibrações do ar.
Células mecano-receptivas se espalham pelo corpo todo e por dentro dele, na pele , no
ido interno, nos músculos e nas juntas do esqueleto. Os pêlos do corpo estão nas suas
es embrulhados em fibras nervosas, tanto quanto as unhas e os dentes. O sistema
báptico consiste de um complexo de subsistemas. Há o sentido muscular, o sentido da
captação térmica, há a sensibilidade das juntas ou sentido cinestésico etc. Pode-se falar
e o sistema tátil é constituído, ele mesmo, de cinco sentidos : pressão , calor, frio , dor e

77
cinestesia, que geram o toque cutâneo restrito à pele, o toque háptico, na junção da pele
com o movimento das juntas, o toque dinâmico, envolvendo pele, juntas e músculos, o
toque térmico, aliado à vasodilatação ou vasoconstrição e o toque orientado, levando à
percepção dos objetos em relação à gravidade.
Diferentemente dos outros sistemas perceptivos, aparentemente mais localizados, o
sistema háptico inclui todo o corpo. As extremidades se constituem em órgãos sensórios
exploratórios. As mãos, assim como outros membros do corpo, mas principalmente as
mãos, além de órgãos exploratórios são também órgãos motores que sentem e fazem ao
mesmo tempo, de modo que não estamos apenas em contato com o ambiente, mas fazemos
contato com ele.
Sistemas perceptivos são, enfim, órgãos de atenção ativa, suscetíveis de aprendizagem.
Através da prática, podemos nos orientar com mais exatidão, ouvir mais cuidadosamente,
tocar mais sensorialmente, cheirar e degustar com mais precisão e olhar mais atentamente.
Por isso dançamos, nadamos, jogamos, tanto quanto podemos nos converter em
experimentadores de vinho ou café.
Tomando como base essa maravilhosa dinâmica de vasos intercomunicantes que é
executada pelos sistemas perceptivos, o argumento que defendo propõe que as matrizes
da linguagem e pensamento estão alicerçadas nos processos perceptivos, o que significa
que uma dinâmica similar à dos sentidos é desempenhada nas interações e sobreposições
das linguagens. Há certos poemas, certas visões e certos sons que produzem efeitos
semelhantes ao cheiro de um perfume que se sustenta no ar, semelhantes ao gosto agridoce
da fruta salivando na língua, semelhantes, enfim, ao calor do braço amado embrulhando
nosso corpo. Os processos perceptivos que não fazem linguagens, porque são mais
moventes, sutis e viscerais, encontram moradas transitórias nas linguagens do som, da
visão e do verbal.

Sintaxe, forma e discurso

Quando estava às voltas com uma das etapas de redação deste livro, chegou-me às
mãos a chamada para um congresso que, sob o título de "Língua, visão e música", se
realizaria na Universidade Nacional da Irlanda, em Galway, emjulho de 1999. A chamada
deixava explícito que o congresso buscava desenvolver reflexões principalmente sobre:
(I) combinações possíveis entre a língua e a música, a língua e a visão, a música e a visão;
(2) que papéis a metáfora, a sinestesia, a acústica, as emoções desempenham nessas
linguagens? (3) o que tem a nos dizer as plataformas de engenharia de software para
integrar processadores de inteligência multimídia de língua, visão e som? (4) quais são as
arquiteturas para a integração entre elas? (5) quais aspectos são nelas automáticos e quais
são conscientes? (6) quais aspectos são comuns e quais são específicos de cada uma?
As coincidências dessas questões com aquelas que, neste livro, eu estava lutando
para responder, além da coincidência do momento em que aquela chamada me chegou às
mãos pareciam tão providenc.iais que beiravam o inverossímel. Além do encorajamento
que essas coincidências trouxeram para o meu trabalho, o texto dessa chamada continha
alguns argumentos que me foram de grande auxílio para a confirmação de que só há três
e não mais do que três matrizes da linguagem e do pensamento.

78
Os organizadores do congresso propunham, como caminho para se entender os padrões
cognitivos que subjazem à nossa competência nessas linguagens, o fato delas
compartilharem os seguintes atributos: (1) organização hierárquica de seus constituintes;
(2) a recursividade; (3) a metáfora, (4) a possibilidade da auto-referência; (5) a
ambigüidade; (6) a sistematicidade. Aí estão justamente os atributos que, com exceção
da ambigüidade, o paladar, o olfato e nem mesmo o tato podem exibir. Enfim, para
funcionar como linguagem um sistema perceptivo deve conter legi-signos (organização
hierárquica, sistematicidade), deve ser passível de registro, nem que seja o registro da
memória (recursividade) e, sobretudo, deve ser capaz da metalinguagem (auto-
referencialidade, metáfora).
Tendo encontrado evidências paralelas à teoria peirciana do trinômio das matrizes
que postulava, a aplicação da lógica das três categorias à constituição dessas matrizes
trouxe revelações adicionais. Estando sob o domínio da categoria da primeiridade, a
linguagem sonora é a mais primordial e, por isso mesmo, a que mais controvérsias apresenta
sobre seu próprio estatuto de linguagem. A sonoridade é tão dominantemente qualitativa
e, conseqüentemente, quase-sígnica, em nível de primeiridade, que torna sua natureza e
funcionamento como linguagem algo a ser discutido.
A vocação referencial da visualidade, por seu lado, especialmente na sua face figurativa,
introduz um elemento dominantemente diádico, o signo e aquilo a que ele se refere, que
torna menos discutível o funcionamento da matriz visual como linguagem. Já o estatuto
de linguagem da matriz verbal, dada a sua natureza simbólica, convencional, em nível de
terceiridade, é tão indiscutível que todos aqueles que colocam em questão se a visual idade
e a sonoridade podem ser consideradas como linguagens, assim o fazem porque tomam a
Ij nguagem verbal como modelo exclusivo de linguagem.
A lógica implícita nas categorias também prescreve que, sendo a mais primordial, a
categoria da primeiridade está na base, servindo de alicerce à secundidade, assim como
esta alicerça a terceiridade. Então, a matriz sonora, em nível de primeiro, alicerça a matriz
visual do mesmo modo que esta alicerça a matriz verbal. Isso também significa dizer que
a matriz sonora prescinde da matriz visual-secundidade, do mesmo modo que esta
prescinde da matriz verbal-terceiridade. Disso ainda decorre que a secundidade, matriz
,.jsual, engloba a primeiridade, matriz sonora, enquanto a terceiridade, matriz verbal,
engloba tanto a secundidade, a matriz visual, quanto engloba, naturalmente, a primeiridade,
a matriz sonora.
Os eixos que foram encontrados para as matrizes e sobre os quais as classificações se
aplicam, o eixo da sintaxe na sonora, o eixo da forma na visual e o eixo do discurso na
erbal, tornam patentes todas essas características pressupostas na lógica das categorias.
De fato, a sintaxe, o princípio estruturador mais primordial para o funcionamento de
qualquer linguagem, alicerça a forma, assim como ambas, sintaxe e forma, alicerçam o
- urso, o que significa que a forma engloba a sintaxe e o discurso engloba a forma e a
sintaxe. A lógica da matriz sonora, sob a dominância da sintaxe, é a mais primordial,
estando na base das outras matrizes. A lógica da matriz visual, englobando a sintaxe e sob
dominância da forma, está na base da matriz verbal cuja lógica discursiva se constitui
la incorporação da sintaxe e da forma.
ão se quer dizer com isso que a sonoridade em si, no seu caráter material, esteja
ntida na visualidade, nem se quer dizer que a sonoridade e visualidade, nas suas

79
materialidades, estejam contidas no discurso verbal. Até podem estar, como é o caso da
linguagem verbal oral , que evidentemente tem elementos de sonoridade, assim como é o
caso de uma linguagem escrita diagramada ou de poesias visuais que trazem fortes
elementos de visualidade para o discurso verbal. Entretanto, esses são casos de
manifestações específicas de linguagens. Embora elas sirvam para demonstrar as
intersecções que são possíveis entre as matrizes, as correspondências lógicas que estou
aqui estabelecendo entre as três matrizes é algo abstrato, genérico e não de superfície.
Entretanto, já no nível superficial, alguns indicadores dos pressupostos lógicos das
categorias podem ser identificados. A sonoridade, com seu eixo na sintaxe, tem existência
autônoma, independente da matriz visual e verbal. A sonoridade não pressupõe a forma,
eixo da matriz visual , nem pressupõe o discurso, eixo da matriz verbal. Aliás , quando
forma e discurso entram nas cogitações da sonoridade, isso se dá porque a sonoridade
pode adquirir traços de forma e discursividade que são dominantes nas outras matrizes.
Essa questão ficará bem evidenciada nos capítulos IV, V e VI, quando entrarmos nas
classificações de cada matriz.
A forma visual, por seu lado, não é independente, pois pressupõe a sintaxe que está no
eixo da matriz sonora. Não há forma sem sintaxe. Entretanto, a forma visual independe do
discurso que está no eixo da matriz verbal. O discurso verbal, por sua vez, pressupõe a
sintaxe e a form a. Nem mesmo uma frase verbal seria possível sem sintaxe e sem forma
não haveria discurso concebido como um todo coerente.
Enfim, o substrato dessas correspondências lógicas está na postulação de que aquilo
que a matriz sonora tem de mais específico e dominante, aquilo que faz dela uma linguagem
é a sintaxe. A sintaxe é eminentemente uma questão da sonoridade. Não há material mais
livre e propício à mais pura experimentação e invenção sintáticas do que o som. Aquilo
que a matriz visual tem de mais específico e dominante, aquilo que faz dela uma linguagem
é a forma a qual implica, evidentemente, uma sintaxe. A materialidade da sintaxe visual
não vem do som, é claro, mas a lógica da sintaxe pertence à sonoridade, visto que é a
sonoridade que está mais habilitada para perseguir as potencialidades da sintaxe até seus
limites últimos , assim como a visualidade persegue as potencialidades da forma até seus
limites últimos. Embora o discurso verbal deva a sua natureza de linguagem ao seu
caráter simbólico e convencional , não haveria discurso sem sintaxe e sem forma,
evidentemente uma sintaxe e uma forma que se enquadram na especificidade do discurso
verbal e de seus padrões convencionais, mas cujos princípios e desenvolvimentos lógicos
têm suas moradas precípuas na sonoridade e na visualidade respectivamente.
Todas essas considerações, aqui formuladas de modo breve e panorâmico, serão
detalhadamente discutidas e justificadas no decorrer deste livro, nos momentos oportunos
em que os sentidos de matriz sonora e sintaxe, matriz visual e forma, matriz verbal e
discurso deverão ser definidos e explicitados. Para que as relações entre as matrizes
possam ficar mais claras é necessário considerar cada matriz em particular, o que será feito
nos três grandes capítulos centrais deste livro, o IV, V e VI, que estarão assim
fundamentando a discussão das relações entre as três matrizes e suas modalidades no
capítulo VII.

80
\ demonstrar as
ógicas que estou CAPÍTULO lU
) de superfície.
lstos lógicos das
e, tem existência o CAMPO MUSICAL EM EXPANSÃO
~ssupõe a forma ,
11. Aliás, quando
lue a sonoridade
outras matrizes. Embora a elaboração da classificação da linguagem sonora tenha sido preced
o entrarmos nas - _. os anos, pela elaboração da classificação visual , esta precedida pela v
_ ~ entação das matrizes e suas classificações seguirá neste livro uma ordem exa
ntaxe que está no - _ a. A linguagem sonora será apresentada antes da visual e esta, por sua vez,
ual independe do uaJ . Essa seqüência de apresentação se deve à inspiração fenomenológica das ca
vez, pressupõe a tJrimeiridade (sonora), secundidade (visual) e terceiridade (verbal ) que está
axe e sem forma dassificações.
vic issitudes e dificuldades encontradas para a elaboração da cl assifi c
ão de que aquilo - = agem sonora foram relatadas na introdução . Nesse relato , foi também men
a uma linguagem duas cl assificações prévias da linguagem sonora foram tentativamente elab
há material mais e ndo, este capítulo será introduzido pela exposição de uma dessas classif
le o som. Aquilo ~ a relativa aos modos de ouvir. A segunda classificação, voltada para os comp
a uma linguagem -a ica em ritmo, melodia e harmonia, acabou por se constituir apenas em
da sintaxe visual : de uma classificação mais ampla que tomou a sintaxe como eixo da sono
Je, visto que é a _presentar resultados que me pareceram satisfatórios, essa classificação am
I si ntaxe até seus 'dade segundo o eixo da sintaxe foi aquela que se incorporou com sua
la forma até seus idades e respectivas subdivisões na composição das três matrizes, confor
19uagem ao seu ~ tada no próximo capítulo. O presente capítulo será dedicado primeiram
e e sem forma , _ 3 tação da classificação dos modos de ouvir centrada na recepção da mús
jade do discurso - idade, serão discutidas as razões por que a classificação da música em
'imentos lógicos 'a e harmonia acabou por se apresentar limitada, exigindo sua ampliaç
lente . - um universo sonoro mais extenso.
lorâmico, serão
entos oportunos
matriz verbal e 'e modos de ouvir
Itre as matrizes
o que será feito =- -~u livro O que é música, J.J. de Moraes (1983a: 63-70), no capítul o "Man
estarão assim
divide essas maneiras em três grandes níveis: (1 ) ouvir emoti vamente, (2
nodal idades no
_ rpo e (3) ouvir intelectualmente. Há aí uma evidente analogi a desses três
::1 egorias fenomenológicas de Peirce, a primeiridade, secundidade e terce
-----...,.... amente. É claro que esses três níveis se entrelaçam, são inseparáveis, poi
o empo emoção , corpo e intelecto. Há, no entanto, um princípio de dom
. e determinar um dos níveis como caracterizador de um modo de ouvir

81
se trata de um processo de recepção da muslca que incorpora necessariamente as .11 1Ica passivo, incerto, eITante, um eu q ue não interpreta e não julga porque, nesses raros
peculiaridades individuais de um intérprete particular, não se pode estabelece r de antemão II1 s1111ltes de imantação no som, nossa consciên cia não passa de um todo indiscernívc1.
quais são os tipos de mús icas que caberiam em cada um desses modos . Um músico 1j1l1llidade de sentir que é s6 se ntir. Falando de poesia, mas q ue vale também para 11
treinado poderá ter uma emoção muito mais forte ao ouvir PU se/o/l. PU de Boulez do q ue IInl 'l ico, Borges (1983: 126) chama isso de fato esté ti co ou espécie d e felicidade. "A lgo
um leigo terá ao ouv ir O Concerto J para violino e orquestra de T schaikowsky. Há, al iás, Idtll'v idente, imediato e indefinível quanto o amor, o gosto da fruta, a água", as cercanias
emoções intelectuai s tão intensas q uanto as emoções desencadeadas por quaisque r o utras dll I"ar, a proximidade e roçar do corpo amado.
experiências vivid as. Mesmo ass im , não se pode negar q ue certos tipos de mú sica estão Hnqua nto essa prim eira modalidade do ouvir é incerta e vaga, emoção sem eu, visto
mais aptas a produzir emoção do que outras. 1!11r 11 úu está assomado pelo sent imento, a segunda modalidade (2. 1) é aquela da comoção,
A class ifi cação dos modos de ouvir que apresentarei a seguir tomou como ponto de 1]111"1 di zer, aq uilo que nos move, que nos movimenta inte ri ormente. Trata-se, pois, de UI11
partida essa divi são tripartite de Moraes. Por se tratar de uma classificação que tem por dUlI"nl stllo interno, de um sentir que é posto em movimento, em estado de COIllOÇÚO,
objeto a audição da música, vo ltada, portanto, para os processos de recepção, s ua ,pullldo a corrente sangüínea se aquece, a pulsação acelera, o coração estremece. Cadn
fundamentação se encontra nos diferentes níveis do interpretante formu lados por Peirce. pl ,."on lem um tipo parti cularíssim o de música capaz de produzir esse efeito d e comoçfio.
Dentre esses níveis , a aud ição, co mo e feito que a música está apta a prod uzir em ouv intes 111"1111 qu e funciona como uma espécie de impressão di g ital de nossa sensibilidade.
particu lares, enquadra-se nos nívei s do interpretante imed iato. Este se refere ao pote ncial 11\110 tcrceiro nível do sentim ento (1.3), tem-se a tão fa lada emoção. E a emoção é t.lo
da mú s ica para prodllzirefeitos no ouvin te, com ind icadores para O interp retante dinâm ico, 1'1/ ,111., porque ela apresenta características gerais. É por isso que damos nomes às emoçõ~..; :
isto é, os efe itos que ela efeti vamente produzirá ao ser ouv id a por um receptor. Conforme ,th ~I I IIl, es panto, raiva etc. Nesse caso, podemos nomear o que sentimos porque se trata dl'
j á foi visto no capítu lo 1, os tipos de intepretantes dinâmicos e, no caso da música, os Ilnl ' I' ulimento codificado, repetível. É nesse nível qu e costumam os di zer q ue ta l m úsÍt'n
tipos de e feitos que ela está apta a produzir, d ividem-se em três classes: emocional, • ,Ih' PIC, lal música é triste, ta l música é melancóli ca etc. É claro que a músi ca em ~i
e nergético e lógico. As correspondênc ias dessas três classes com os três modos de ouv ir 1111 \ 11H1 não é nada disso. Na maior parte das vezes são nossos há bitos ou convençtks
parecem óbvias. Ouv ir emoti vamen te correspo nd e ao primeiro efe ito que a música está . IIllIuais que IlOS fazem projetar esses rótulos so bre a música .
apta a produzir no ouv in te. Ouvir com o corpo entra em correspondência co m O 1' lIl1 ctanto, aqu i aparecem alg un s comp li cadores. Há , de fato, certos modos l11usicid\
interpretante energético, visto que este diz respeito a um certo tipo de ação que é executada tJlh "IlIlIli gados a ce rtos pathos e mes mo certos erhas. Os g regos atr ib uíam efe itos mOIllI'
no ato de recepção de um signo. Ouvi r inte lectualmente significa incorporar princípios " I ,111 1111111 dos modos musicais (Chion e Reibel 1976: 12). Da mesma maneira, as ind icn,'o~''\
lógi cos que gu iam a recepção da mús ica. ,h 1I11dlllllcnto como allegro, piano. 11loderato têm relação co m certos estados de espfrilO
R eapli can do essas três classes de interpretante no interior de cada um dos n íveis da 1 11 , 1111 Ill<lS express ivas evocam emoções porque provavelmente as diferentes cadê ncia,
divisão tripartite de Moraes, obtive uma s ubdivisão em nove modalidad es, três , 1111110\, o s tons g raves e agudos , os d iferentes coloridos ou timbres dos instrurn CIlIO \
modal id ades para o ouv ir com emoção, três moda li dades para o ouvir com o corpo e três ,II'H 'H' lllnl11 co rrespo ndênc ias com os ritmos vitai s, sensações viscerais e pubaçm'I.j
moda lid ades para o ouvir intelec tualmente. Essas nove modalidades nos permitem 11111111}1 1t,.·U'i que são também diferentes, mais rápida s ou mais lentas, dependendo de es l:·11111\1'\
pe ne trar em camad as bastante sutis da audição qt,lC operam no inte ri or dc cada nível. . ll1ll1do al egria ou desgosto, eufo ria ou tédio , placidez etc. Soh esse aspecto, a mú"ic,.·d
Na modal idade primeira da emoção ( 1.1), tem-se pura e si mplesmente uma qualidade de /'111 \" 111"11 nqui lo que chamo de emoção insti nti va, ressonância, correspondências que suo
sentir. Em situações de audição como essa, o receptor fica bem perto de se transformar em 111 dld ~I \ por semcl han ça de pulsação. Em suma, há ritm os sonoros que apresen ta"I
uma mera cápsu la de sentimento tlutuando fora do tempo e do espaço. Não são poucos os 'li! I "lltH ld Gllc ias co m os ritmos biológicos que acompanham diferen tes estados de Sl' lItll
mu sic610gos e filósofos que têm chamado atenção para a capacidad e da música para produzir III ,I· Hludo, os ró tul os c u lt urai s de emoção que cos tumamos co lar a certos ti po~ d,.
es tados de sentime nto. É claro que são estados excepc ion ais. Não é a todo e qua lqucl 11111 11 11 IIUO Silo inteirame nte arb itrários, mas têm seus víncu los d e lll0tiva çll0 IUP,
momento que alguém pode se converter em urn a vaga bolha ou nuvem de sentime nto. Mas, HIHI ~ II ulmlL· ... e ntre H mú s ica e as pu lsações biológicas.
depe ndendo do estado em que nos encontramos, cândidos, porosos, despolic iados, com :1 Nu '1 !'}IIJn do 11Iodo de ouvir, ouvir com o corpo, entramos na dom inânc ia do uniwI'ttl
se nsibilidade esga rçada, se a música nos co lhe em momentos como esse, ela nos converte em 1111111111 , do j1l'!'cussâo IHI mú s ica, quando o o uvir não se limi ta a uma esc uta alrIlVl' ~ dtl
uma pura qualidade de sentir. São instantes fugid ios de sentimento despojado, desprendido 'ltI ' Id.l , IlIn s III llp lia -se para uma escuta que reage no corpo. Na sua primeirH 1110dlllltllltl,.
de qua lquer obj eto de atend imento ou atenção, sentimento em s i mesmo, imantado nu 1I 11 ~' l i' ll{l da músi ca 110 corpo equiva le àqu il o que pod e ser cha mado tiL' ('U,,'H
eva nescência sonora., fugacidade do som que aparece para desaparecer; se ntim ento qtll' '''''IUllo () titUlO pe nClra no co rpo, c ri a-se uma fusão e, de repe nt e, O próprio corpo pml' !!
resiste a defin ições ou ex plicações, visto que é aqu ilo q ue é, sem relação com qualqucl· 0111 1iI , t oi 11IIII!' p,rlndmn do ritm o. Isso é Illu itocomum nos c ultos colet ivos quc ti rc 1i gio~lIl.lIk
coisa. Nesses in stantes priv ileg iados, ehegamos muito perto da vuln erabi li dade qur.; é pní pl j l l di" IU ll'dl\ ' II H l'{J lll1 l'(.'(' be111 . Mas esse renô mc no tAmbém pode oeorrr.;,. CO"I li"; Pl'\"It1I1'!
do senti mento do amor. Amor em estado puro, amor que não pede relorno e qUl' 11Il'llulI I,,' 'pu 11 I., 11 111 11 ,'IIIIIIIIl' Ik xihilidmk l' plll"tit' idmlc corporal. Nelll prl·(.'lsl1 Si.' , dUlIttl1ll1l11
expressa na forma Illa is simples, aberla e grata do amor pela vida, 11, 1110111.1 , Il(tI ~ I IIlptl qUt' ll!l ~ t' ,· d fll"O I' IU Id lll ll· dl'elllll'plll () (.' °11111 lnll·jltl IHI 1"1111111111111"11111
Nl· o.;SIt Illndul iduc!f..' (lo ou vir, C0 I1 Vl'r l('1110· nos l: 111 (; típ~lIln s I!l- \ "1111 rlll"llll I PI)J ' 111(' 1111"',11 li' 11111111 11111111 SI' 1111111\11" 11 '· ... 11\"1· ' ... 1IIIIdll di d"IIIIo do ' ·011'"
se trata de um processo de recepção da muslca que incorpora necessariamente as .11 1Ica passivo, incerto, eITante, um eu q ue não interpreta e não julga porque, nesses raros
peculiaridades individuais de um intérprete particular, não se pode estabelece r de antemão II1 s1111ltes de imantação no som, nossa consciên cia não passa de um todo indiscernívc1.
quais são os tipos de mús icas que caberiam em cada um desses modos . Um músico 1j1l1llidade de sentir que é s6 se ntir. Falando de poesia, mas q ue vale também para 11
treinado poderá ter uma emoção muito mais forte ao ouvir PU se/o/l. PU de Boulez do q ue IInl 'l ico, Borges (1983: 126) chama isso de fato esté ti co ou espécie d e felicidade. "A lgo
um leigo terá ao ouv ir O Concerto J para violino e orquestra de T schaikowsky. Há, al iás, Idtll'v idente, imediato e indefinível quanto o amor, o gosto da fruta, a água", as cercanias
emoções intelectuai s tão intensas q uanto as emoções desencadeadas por quaisque r o utras dll I"ar, a proximidade e roçar do corpo amado.
experiências vivid as. Mesmo ass im , não se pode negar q ue certos tipos de mú sica estão Hnqua nto essa prim eira modalidade do ouvir é incerta e vaga, emoção sem eu, visto
mais aptas a produzir emoção do que outras. 1!11r 11 úu está assomado pelo sent imento, a segunda modalidade (2. 1) é aquela da comoção,
A class ifi cação dos modos de ouvir que apresentarei a seguir tomou como ponto de 1]111"1 di zer, aq uilo que nos move, que nos movimenta inte ri ormente. Trata-se, pois, de UI11
partida essa divi são tripartite de Moraes. Por se tratar de uma classificação que tem por dUlI"nl stllo interno, de um sentir que é posto em movimento, em estado de COIllOÇÚO,
objeto a audição da música, vo ltada, portanto, para os processos de recepção, s ua ,pullldo a corrente sangüínea se aquece, a pulsação acelera, o coração estremece. Cadn
fundamentação se encontra nos diferentes níveis do interpretante formu lados por Peirce. pl ,."on lem um tipo parti cularíssim o de música capaz de produzir esse efeito d e comoçfio.
Dentre esses níveis , a aud ição, co mo e feito que a música está apta a prod uzir em ouv intes 111"1111 qu e funciona como uma espécie de impressão di g ital de nossa sensibilidade.
particu lares, enquadra-se nos nívei s do interpretante imed iato. Este se refere ao pote ncial 11\110 tcrceiro nível do sentim ento (1.3), tem-se a tão fa lada emoção. E a emoção é t.lo
da mú s ica para prodllzirefeitos no ouvin te, com ind icadores para O interp retante dinâm ico, 1'1/ ,111., porque ela apresenta características gerais. É por isso que damos nomes às emoçõ~..; :
isto é, os efe itos que ela efeti vamente produzirá ao ser ouv id a por um receptor. Conforme ,th ~I I IIl, es panto, raiva etc. Nesse caso, podemos nomear o que sentimos porque se trata dl'
j á foi visto no capítu lo 1, os tipos de intepretantes dinâmicos e, no caso da música, os Ilnl ' I' ulimento codificado, repetível. É nesse nível qu e costumam os di zer q ue ta l m úsÍt'n
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e nergético e lógico. As correspondênc ias dessas três classes com os três modos de ouv ir 1111 \ 11H1 não é nada disso. Na maior parte das vezes são nossos há bitos ou convençtks
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Na modal idade primeira da emoção ( 1.1), tem-se pura e si mplesmente uma qualidade de /'111 \" 111"11 nqui lo que chamo de emoção insti nti va, ressonância, correspondências que suo
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uma pura qualidade de sentir. São instantes fugid ios de sentimento despojado, desprendido 'ltI ' Id.l , IlIn s III llp lia -se para uma escuta que reage no corpo. Na sua primeirH 1110dlllltllltl,.
de qua lquer obj eto de atend imento ou atenção, sentimento em s i mesmo, imantado nu 1I 11 ~' l i' ll{l da músi ca 110 corpo equiva le àqu il o que pod e ser cha mado tiL' ('U,,'H
eva nescência sonora., fugacidade do som que aparece para desaparecer; se ntim ento qtll' '''''IUllo () titUlO pe nClra no co rpo, c ri a-se uma fusão e, de repe nt e, O próprio corpo pml' !!
resiste a defin ições ou ex plicações, visto que é aqu ilo q ue é, sem relação com qualqucl· 0111 1iI , t oi 11IIII!' p,rlndmn do ritm o. Isso é Illu itocomum nos c ultos colet ivos quc ti rc 1i gio~lIl.lIk
coisa. Nesses in stantes priv ileg iados, ehegamos muito perto da vuln erabi li dade qur.; é pní pl j l l di" IU ll'dl\ ' II H l'{J lll1 l'(.'(' be111 . Mas esse renô mc no tAmbém pode oeorrr.;,. CO"I li"; Pl'\"It1I1'!
do senti mento do amor. Amor em estado puro, amor que não pede relorno e qUl' 11Il'llulI I,,' 'pu 11 I., 11 111 11 ,'IIIIIIIIl' Ik xihilidmk l' plll"tit' idmlc corporal. Nelll prl·(.'lsl1 Si.' , dUlIttl1ll1l11
expressa na forma Illa is simples, aberla e grata do amor pela vida, 11, 1110111.1 , Il(tI ~ I IIlptl qUt' ll!l ~ t' ,· d fll"O I' IU Id lll ll· dl'elllll'plll () (.' °11111 lnll·jltl IHI 1"1111111111111"11111
Nl· o.;SIt Illndul iduc!f..' (lo ou vir, C0 I1 Vl'r l('1110· nos l: 111 (; típ~lIln s I!l- \ "1111 rlll"llll I PI)J ' 111(' 1111"',11 li' 11111111 11111111 SI' 1111111\11" 11 '· ... 11\"1· ' ... 1IIIIdll di d"IIIIo do ' ·011'"
Na s ua seg unda modalidade (2.2), o que se estabelece é ullla contigüidade entre a
música c o corpo. A música vem e o corpo, sem saber, já co meça a se ag itar. Essa experi ênc ia
também é muito familiar aos brasileiros. Basta ouvi r um samba batucada ou um samba
sincopado para que o corpo co mece a falar por si mes mo. Nessa dualidade do corpo
reagindo a um estímul o, tem-se a dominân cia do caráter energéti co dessa mod alidade do
ouvir.
°
A terceria modalidade (2.3) é da dançn coreogrnfada, a coreog rafi a fu nc ionando
co mo tradu ção plástica do ritmo. Toda dan ça é uma conversão do ritmo sonoro em realidade
plás ti ca, visual. Na dança , as c ircunvoluções do corpo dão forma visível ao ritmo. No
c aso da co reografia, faz-se uso de certas co nvenções de representação visual funcionando
co mo indicadores para os movim entos e posições dos corpos no espaço, daí sua natureza
de terceiro.
Nas modalidades intelectuai s do ouvi r, entramos no universo dos ouv idos educados,
quer di ze r, ouvidos com escuta sensív el às mai s imperceptíveis sutil ezas da mú sica . É o
universo daqu e les que co nhecem mú sica, e po rque con hecem são capazes de ext rai r da
aud ição um pra zer insus pe itad o, praze r at ivo, inte rat ivo e produti vo qu e os não
co nh ecedores de música descon hece m.
Na primeira mod al idade (3. 1), a apreensão intelect ual tem um ca ráter puramente
hipotético. O ouv inte, por ma is tre inado que seja, es tá diante de um ato de recepção em
que seu intelecto não pode se não fo rmu lar hipó teses. É claro que, neste caso, se trata de
co mpos ições que romperam com quaisqucr sistcmas de re ferê ncia pré-esta be lec idos e,
desse modo , na experimentação co m os materiais so noros e ncontram formas inusitadas,
nos interstícios do som e do ruído, formas qu e se desman cham antes de chegare m a se
in staurar. Isso coloca o ouvinte em uma situação de incerteza, imprevisibi lid ade e co ntínuas
co nj ec turas quanto ao desenvolvim ento ela mú sica.
A segunda modalidade de ouvir (3.2) é aque la ele uma escuta relaciona) , capaz dc
perce ber milim etricamente os jogos das so breposições de linhas sonoras, entrada e saída
de vozes, instrumentos e materiais, movimentos de progressão, reversão, te xturas e
co nglo merados. Em suma, é um a escuta capaz ele transformar o o uvido em mi I ol hos que
visuali za l11 as estruturas e for mas da mú sica .
Na terceira modalidade (3.3) surge um tipo de esc uta especializada que conh ece
todos os s istemas de referên cia da mú sica, no tempo e espaço. É a escuta dos espec ialistas,
capa z de jul gar a avaliar a mú sica co mo fo rm a de pe nsa mento. Escuta qu e co nhece e, por
isso mes mo , pode exper imen tar o sabor que s6 o saber pode dar.
As classificações da escuta tornaram-se mais freqüentes nas últimas décadas deste
sécul o, dad a a im portâ nc ia qu e a percepção so no ra passou a desempenhar como e leme nto
fundam e ntal da pró pri a composi ção. A títu lo de exemplo, alg umas dessas class ifi cações
serão aprese ntadas a segu ir.

A esc uta como pivô da música eletroacústica

A esc uta se tornou fator preponde rante da co mposição Illusical a par1Ír de llIeado s
deste século , desde que Pierre Schaeffer inau g urou , co m a mú sica (' OIH' I I'ln , 1111111 das
vertenles daquilo que viria se fixa r sob O no me de m ÚSiC:ll' Il'IIIII H' II" 1U n 1',lIlllIdo do