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VOL .

15 5

Moldar a juventude: a Ratio Studiorum

NOHMIO DALLAHRUIA

J. S1LV0RADE BH1TD

Dos consumidores que somos

,1 CHFSPODF CARVALHO

José Régio e a Moda

PMOlS-ALMfflt

Principia Ethica de G. E. Moore

ALFREUQ DINIS SJ

Dezembro 2002

BROTÉRIA, SECÇÕES

Ao longo da sua história, na arrumação dos números da Brotéria, foram aparecendo secções que normalmente agrupa- vam, ou crónicas regulares sobre uma temática específica, ou textos mais curtos de carácter informativo ou reflexivo. Mais persistentes ou menos, e pela ordem em que foram apare- cendo (e desaparecendo), é este o rol:

— Notas bibliográficas

— Subsídios para o vocabulário português

— Notas de aviação

— Correspondência de Espanha

— Direito canónico

— Movimento religioso no estrangeiro

— Correspondência do Brasil

— Revista de revistas

— Notas efactos

— Efemérides

— Crónica literária

— Textos e comentários

— Do que se pensa pelo mundo

— Tribuna de consultas

— Ideias efactos

— Política externa

— Vida literária

— Do pensamento e da vida

— Filmes de que se fala

— Horizonte do mundo

— Actualidade religiosa

— Problemas ultramarinos

— Vida económica

— Para o diálogo

— Caso e circunstância

— Notas e comentários

Brotéria A

I Cristianismo e Cultura

Dezembro 2002

Série Mensal

^Bvous s

Assinatura para 2003: Portugal 40.00 €; U. Europeia 75.00 €; Outros países Dol. $75.00 Número avulso: 4.50 € (IVA de 5% incluído)

ISSN 0870-7618

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Tiragem: 1550 exs.

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Brotéria

Cristianismo e Cultura

ÍNDIC E

VOL.

15 5

451

Norberto Dallabrida

Moldar a alma plástica da juventude:

a

Ratio Studiorum e a manufactura de sujeitos letrados

e

católicos

467

José Henrique Silveira de Brito

Ética e comunicação social

479

José Mexia Crespo de Carvalho

Dos consumidores que somos

493

Paulo

Morais-Alexandre

 

José Régio e a Moda

507

Alfredo Dinis

SJ

Ética naturalizada, cem anos depois dos Principia Ethica de G. E. Moore

521

Bibliografia

539

índices do volume 155

545

Obras recebidas na redacção

Moldar a alma plástica da juventude:

a Ratio Studiorum e a

d e

sujeito s

letrado s

manufactur a

e

católicos *

Norbempaiiabrida-

r \ Ratio Studiorum foi promulgada pela Gompanhia de Jesus em 1599, com o intuito de servir como discurso pedagógico uniformizador das práticas educacionais dos colégios jesuítas. Forjou importantes peças disciplinares da «maquinaria escolar» jesuíta e cató- lica, que seriam secularizadas e utiliza-

das pelos sistemas escolares formulados pela Ilustração e principalmente pelo Estado Nacional burguês. Pretende-se reler a Ratio como um «documento-monumento», analisando as suas estratégias e tácticas pedagógicas na produção da subjectividade dos alunos jesuítas, conectadas com os princípios ascéticos da Companhia de Jesus, bem como com as circunstâncias sociais do século das reformas e das guerras de religião. O foco da análise será colocado na selecção e estruturação dos con- teúdos escolares e nas práticas didácticas determinadas pela Ratio, procurando relacioná-los com os grupos sociais que frequentavam os colégios jesuítas 1 .

Origens e elaboração da Ratio Studiorum dos colégios jesuítas. A partir de categorias da filoso- fia de Michel Foucault, releitura do «documento- -monumento» analisando estratégias e tácticas pedagógicas para a moldagem da subjectividade dos alunos, conectando-as com os princípios ascéticos da Companhia de Jesus e com as circunstâncias sociais do século das reformas e das guerras de religião; com ênfase na organiza- ção de conteúdos (predominância do latim) e nas práticas didácticas (exercícios e emulação).

1 As reflexões sócio-históri- cas de inspiração foucaul- tiana sobre a «maquinaria escolar- jesuíta são baseadas

em Julia Varela, Modos

de

de

Educación en la Espana

la Contrarreforma, Madrid,

La

Piqueta, 1983; Julia Varela

e

Fernando Alvarez-Uría,

Arqueologia de la Escuda, Madrid, La Piqueta, 1991.

Sobre o conceito de *docu- mento-monumento" consul-

tar

Michel Foucault, A Ar-

queologia do Saber, trad. Luiz Felipe Baeta Neves, Kio

de Janeiro, Forense Univer-

sitária, 1995; Jacques Le Goff, História e Memória, trad. Bernardo Leitào, Cam- pinas, Editora da UNICAMP, 1990, pp. 535-49.

• O presente texto foi produzido a partir das reflexões da disciplina -Los usos sociales dei cuerpo-, ministrada pela Professora Doutora Julia Varela no Curso de Doutoramento em Sociologia, do Departamento de Sociologia VI da Universidad Complutense de Madrid, em que participei como aluno ouvinte no ano lectivo 1998-9- Agradeço as orientações e críticas da Professora Doutora Julia Varela e as

sugestões do Professor Doutor Fernando Alvarez-Uría.

" Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e professor do Depar- tamento de Estudos Geo-Históricos da Universidade de Santa Catarina (UDESC).

lirotória

155.(2002) 451-466

451

2 Sobre a fundação da Com- panhia de Jesus, consultar Jean Lacouture, Os Jesuítas -1. A Conquista, trad. Maria Fernanda Gonçalves de Aze- vedo, Lisboa, Circulo de Leitores/Ed. Estampa, 1993, vol. 1, A fundação dos colé- gios da Companhia de Jesus e a elaboração da Ratio Studiorum são concebidas como estratégias na guerra permanente contra os pro- testantes, pois segundo Fou- cault a política é a guerra por outros meios; cf. Michel Foucault, Genealogia dei Racismo: De la guerra de las razas al racismo de Estado, Madrid, La Piqueta, 1992.

j Egídio Francisco Schmitz, Os Jesuítas e a Educação:

A Filosofia Educacional da Companhia de Jesus, São Leopoldo, Ed. UN1SINOS, 1994, p. 44; Ernesto Mene- ses, El Codigo Educativo de la Companía de Jesus, México, Universidad Ibero- americana, 1988, pp. 13-15.

No Brasil os primeiros colé- gios dirigidos pelos padres jesuítas foram fundados na

M.

Madureira, A Liberdade dos índios. A Companhia de Jesus. Sua Pedagogia e seus resultados, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1929, vol. 2, especialmente a sexta parte -Resultados da Pedago- gia da Companhia de Jesus no Brasil Colonial (1549-

década

de

1550;

cf.

J.

-1759)-.

452

Elaboração da Ratio Studiorum

Os fundadores da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola e seus companheiros, não tinham a intenção de criar uma con- gregação religiosa dedicada à educação escolar, pois as suas motivações iniciais voltavam-se para as actividades missioná- rias no mundo asiático, acompanhando a expansão europeia oriental. A preocupação com os colégios emergiu da necessi-

dade intra-institucional de proporcionar formação «substancial» e regular aos seminaristas jesuítas. No entanto, pressionada pelo avanço das religiões protestantes e das guerras de religião, a Companhia de Jesus passou a admitir alunos externos nos

seus colégios, transformando-os em trincheiras católicas, prin- cipalmente após o Concílio de Trento. Os jesuítas consolida- ram-se como a principal milícia da cruzada moderna da Igreja Católica, distinguindo-se como uma congregação activa, munida

de espiritualidade individualizante e linguagem

Na década de 1540, os colégios jesuítas começaram a pipocar pela Europa, transformando a educação escolar numa das principais acções pastorais da congregação inaciana. O pri- meiro estabelecimento educacional que efectivamente admitiu alunos externos foi o Colégio de Messina, em 1548, prática estendida, muito rapidamente, para outras cidades europeias, asiáticas e americanas. Em Roma, sede da Companhia de Jesus, em 1551 foi fundado o Colégio Romano, tornando-se a insti- tuição escolar modelo para os jesuítas, que aglutinava os seus principais teólogos e pedagogos e testava práticas escolares que estariam na base da Ratio Studiorum. No ano seguinte, foi instituído o Colégio Germânico, destinado à formação de quadros jesuítas das regiões germânicas, atingidas frontal- mente pelo redemoinho das reformas luterana e calvinista 3 .

A Ratio Studiorum foi uma reinvenção pedagógica pro- duzida a partir da releitura católica de obras pedagógicas e de práticas educativas renascentistas, bem como da sistematização das práticas dos próprios colégios jesuítas. A primeira geração de professores da Companhia de Jesus foi deveras influen- ciada pelas formulações pedagógicas de Erasmo e Vives, tanto

guerreira 2 .

em relação à aprendizagem do latim clássico, como no tocante às práticas escolares activas. Por outro lado, o «modus pari- siensis» foi elegido como modelo educativo para os primeiros

colégios jesuítas, não somente pelo facto de Inácio de Loyola

e os seus companheiros co-fundadores terem estudado na

Universidade de Paris, mas sobretudo devido ao seu método

de ensino, que se diferenciava por ensinar gramática sólida, graduar classes e cursos, implementar exercícios nas classes

o As «Constituições da Companhia de Jesus» dedicaram a quarta parte, intitulada «Como instruir nas Letras e em outros meios de ajudar o próximo os que permanecem na Compa- nhia», à educação dos nascentes colégios jesuítas. É o marco jurídico-pedagógico da Companhia de Jesus, em que Inácio de Loyola determinou as orientações fundamentais para a prática educativa jesuíta, indicando a necessidade de produzir a Ratio Studiorum 5 .

Ademais, a Ratio de 1599 é sobretudo produto da reflexão

e sistematização das práticas educativas implementadas nos

colégios jesuítas durante meio século. Os primeiros planos de estudos foram escritos pelos reitores do Colégio de Messina:

«De Studiis Societatis Iesu et Ord o Studiorum», d e Jerónim o de Nadal, e «De Ratione Studiorum», d e Aníbal du Coudret.

A partir de suas experiências e observações em vários colé-

gios, mas especialmente no Colégio Romano, onde trabalhou como professor e prefeito de estudos, Diego de Ledesma publicou «De Studiorum Collegii Romani», qu e deveria servir de modelo para todos os colégios da Companhia de Jesus, sendo considerado a principal contribuição individual para a Ratio de 1599 6 .

A partir destes começos parciais, o Padre Cláudio Acqua- viva, quinto superior geral da Companhia de Jesus, liderou

o processo de elaboração da Ratio Studiorum «definitiva».

Em 1586, nomeou uma comissão de seis representantes para escrever um anteprojecto, que foi enviado às províncias jesuí- tas. A partir das apreciações provinciais, cinco anos depois, foi elaborado um novo texto, remetido a todos os colégios

e individualizar

aluno 4 .

'' Emile Durkheim, A Evolu- ção Pedagógica, trad. Bruno Charles Magne, Porto Ale- gre, Artes Médicas, 1995, pp. 100-21; Andre Petital, Produção da escola/produ- ção da sociedade: análise sócio-bistórica de alguns momentos decisivos da evo- lução escolar no ocidente, trad. Eunice Gruman, Porto Alegre, Artes Médicas, 1994; Fernando Alvarez-Uría, La educación jesuítica en la génesis de la Modernidad. En torno de la tesis de Max Weber, Madrid, 1999, mimeo., J. Varela, op. cit., pp. 35-38, 136-8.

' Inácio de Loyola, Consti- tuições da Companhia de Jesus, trad. e notas de Joa- quim Mendes Abranches, S.J., Lisboa, s. n., 1975.

6 Leonel Franca, O Método Pedagógico dos Jesuítas: O •Ratio Studiorum-- introdu- ção e Tradução, Rio de Janeiro, Agir Editora, 1952, pp. 7-17; E. Meneses, op. cit., pp. 11-23; E. F. Schmitz, op. cit., pp. 51-78.

453

7 L. Franca, op. cit., pp. 15- -26; E. F. Schmitz, op. cit., pp. 79-88; E. Meneses, op.

cit., pp. 23-34. O

ensaio apoia-se na tradução portuguesa feita pelo Padre Leonel Franca em 1943 e publicada nove anos depois; cf. -Organização e Plano de Estudos da Companhia de Jesus-, trad. Leonel Franca,

presente

i n

L.

FRANCA,

op.

cit.,

pp .

119-236, traduzida de Ratio Atque ínstitutio Studiorum Societatis íesu. Superiorum permissu, Neapoli, in Colle- gio eiusdem Societatis. Ex typographia Tarquinii Lon- gui, MDXCVIII, 208 pp., no fim, Neapoli, apud Tarqui- nium Longum, 1599.

454

jesuítas. Depois de passar pelo crivo dos revisores nomeados pelo superior geral, em 1599, a «Ratio Atque ínstitutio Studio- rum Societatis Jesu» foi aprovada oficialmente pela Companhia de Jesus, tornando-se obrigatória nas escolas jesuítas. Em verdade, a versão «definitiva» da Ratio respondeu à necessidade de uniformização das práticas educativas da rede de colégios jesuítas, que se formara meteoricamente na segunda metade do século XVI. A primeira estratégia pedagógica de controle adoptada pela Companhia de Jesus foi o estabeleci- mento de «comissários gerais», que visitavam e inspeccionavam regularmente os colégios jesuítas. Contudo, a diversidade dos visitadores e os longos intervalos entre as visitas não concor- riam para a construção da uniformidade pedagógica, que seria estabelecida pela Ratio de 1599 7

As regras da Ratio

A Ratio de 1599 é um código educativo composto por 467 regras, aglutinadas em trinta conjuntos, dirigidas aos agentes e instituições escolares dos colégios jesuítas. As regras abordam a administração, o plano de estudos, o método e a disciplina escolares, sendo dirigidas para as três «classes» do ensino jesuí- tico - classes inferiores, filosofia e teologia -, que tinham prin- cípios pedagógicos comuns, mas, enquanto as duas últimas eram destinadas à formação do clero jesuíta e de outras con- gregações religiosas, as classes inferiores admitiam alunos exter- nos, que seguiam outros estudos, mormente direito e medicina. Aproximadamente um terço destas regras normatizava os con- teúdos e as práticas escolares das classes inferiores, que eram divididas em «séries»: retórica, humanidades e gramática, sendo que esta era subdividida em inferior, média e superior. A Ratio determinava que as cinco séries não se deveriam misturar por meio de fusões ou divisões e que as promoções de uma série para a outra deveriam ser realizadas anualmente, mas nas classes de gramática somente quando o aluno demonstrasse domínio do conhecimento estipulado. Estes graus escolares de aperfeiçoamento intelectual eram inspirados nos processos

progressivos e lineares de busca da perfeição espiritual, pres- critos nos «Exercícios Espirituais» 8 . O objectivo central das classes inferiores era proporcio- nar ao estudante jesuíta um sólido conhecimento gramatical, como auxílio e fundamento para os estudos de filosofia e principalmente de teologia. O núcleo central do currículo das classes inferiores fixado pela Ratio era o ensino das línguas e literaturas clássicas, que era ministrado em todas as classes em grau crescente de complexidade e aperfeiçoamento. O recorte do saber escolar literário, que deveria ser seguido por todos os professores jesuítas, estava explicitamente definido na regra relativa à prelecção : «Na prelecçã o s ó s e explique m o s autore s antigos, de modo algum os modernos». Todavia, tratava-se de ensinar as gramáticas latina e grega de maneira formal, des- contextualizada da mentalidade pagã das sociedades da anti- guidade das quais faziam parte.

Assim é que, entre as mãos dos jesuítas, a Antiguidade podia tornar-se um instrumento de instrução cristã, enquanto não pode- riam ter utilizado da mesma maneira a literatura de sua época, toda impregnada de espírito de rebelião contra a Igreja 9 .

8 Assim como na vida espi- ritual, a vida escolar tinha uma progressão rumo à per- feição, pois, nas classes inferiores, a de retórica, a última, visava «a formação perfeita da eloquência», a

superior de gramática tinha como objectivo o conheci- mento perfeito da gramá- tica-, enquanto que a média de gramática buscava -o conhecimento ainda que imperfeito de toda a gra- mática- [grifos nossos], cf.

pp. 192,

-Organização

-, 204, 208; San Ignacio de Loyola, Obras Completas, Transcripción, introducción y notas de Ignacio Iparra- guirre y Candido de Dalma- ses, 3 a ed., Madrid, Biblio-

teca de Autores Cristianos,

1977.

9 E. Durkheim, op. cit., p. 235.

Havia uma preocupação em expurgar os autores antigos e apartar dos alunos os «escritos impuros» e os «livros pernicio- sos e inúteis». Neste ponto, a regra número 34 do Provincial, intitulada «Proibição de livros inconvenientes», rezava que a selecção dos livros almejava produzir alunos dóceis e católicos:

Tome todo o cuidado, e considere este ponto como da maior importância, que de modo algum se sirvam os nossos, nas aulas, de livros de poetas ou outros, que possam ser prejudicados à honestidade e aos bons costumes, enquanto não forem expurgados

dos factos e palavras inconvenientes-, e se de todo não puderem ser expurgados, como Terêncio, é preferível que não leiam para

que a natureza do conteúdo não

ofenda a pureza da alma 10 .

10

-Organização

-,

p.

[grifos nossosl.

130

Além do trabalho de «despaganização» das obras greco-roma- nas, os jesuítas produziram obras didácticas próprias, imbuídas da mentalidade católico-tridentina, como a «Gramática do Padre Manuel Álvares», recomendada às classes de gramática.

455

Predominância do latim e da prosa

No entanto, entre as línguas e literaturas clássicas, o latim e a prosa tinham predominância sobre o grego e a poesia. O ideal

a ser perseguido nos «estágios de progresso» era o domínio

oral e escrito do latim clássico, a partir de alguns escritores romanos. E, entre estes, havia uma preferência por Cícero, que deveria ser aprendido e imitado de forma progressiva nos

graus ascendentes das classes inferiores. Ao indicar o que deve

inferiores, diz a Ratio-, «Antes de

tudo, comum será a leitura de Cícero de modo que as cousas mais fáceis se perguntem ao grupo menos adiantado, as mais " •Organização p. 168. difíceis ao outro» 11 . Da mesma forma como era preferido na prelecção, Cícero era o principal autor que deveria ser imitado nas composições e avaliado nos exames, provas e disputas.

Na classe de retórica, a última, exigia-se o uso exclusivo do latim, mas nas classes de humanidades e principalmente nas de gramática, permitia-se o uso da língua vernácula, mas como instrumento para a aprendizagem do latim. A obrigato- riedade do latim está claramente expressa nas «Regras comuns aos professores das classes inferiores», que diz:

ser comum a todas as classes

-,

De modo especial conserve-se com rigor o costume de falar latim excepto nas aulas em que os discípulos o ignoram; de modo que em tudo quanto se refere à aula nunca seja permitido servir-se do idioma pátrio, dando-se nota desfavorável aos que forem negli- gentes neste ponto; por este mesmo motivo, o professor fale

12

ibicl., p. 184.

sempre latim 12 .

A língua latina era obrigatória também nas representações

teatrais, bem como nas solenidades escolares. A hierarquiza- ção dos conteúdos escolares pode ser percebida também nos prémios concedidos aos alunos: na classe de retórica havia

prémios para prosa e poesia, latina e grega; na classe de huma- nidades omitiam-se os de poesia grega e nas de gramática omitiam-se os de poesias grega e latina. O número de prémios

a ser distribuído poderia variar de acordo com a quantidade

de alunos, mas o prémio mais importante sempre deveria ser

o de prosa latina.

456

Nas estruturas políticas e culturais do Antigo Regime, o

latim tinha um carácter utilitário, pois era a língua oficial da Igreja católica e dos Estados absolutistas. Mas sobretudo tinha

a função de distinção social, sendo cultivado pelas elites cor- tesãs e burguesas com o objectivo de se distanciarem tanto da antiga nobreza guerreira como das classes populares 13 . Analisando as pedagogias renascentistas, Durkheim afirma que Erasmo e Rabelais, apesar de suas divergências, acreditavam que a educação aristocrática deveria ter como escopo a preo-

vida prática 14 . Nas classes

inferiores, cujo coroamento era a retórica latina, o conheci- mento da língua latina era aprendido efectivamente pelos

poucos estudantes que empreendiam estudos superiores de teologia, direito ou medicina.

A obrigatoriedade da língua grega nas classes inferiores não foi bem aceite pelas escolas jesuítas espanholas. O ensino do grego foi incluído pela comissão de 1586 e, apesar das resistências, mantido na versão «definitiva» da Ratio. A intro- dução do hebreu visava instrumentalizar o aluno para a leitura do Antigo Testamento, realizada nos estudos teológicos supe- riores. Por outro lado, a Ratio determinava que em todas as classes inferiores fosse ensinada, duas vezes por semana, a doutrina cristã e estimulada a leitura espiritual, especialmente da vida de santos. Nas classes inferiores, a doutrina católico- -tridentina era apenas de rudimentos teológicos que seriam estudados em detalhe e em profundidade na classe de teologia.

cupação estética, desvinculada da

Moldagem da alma do aluno

13 Sobre os mecanismos de distinção social das elites cortesãs, consultar Norbert Elias, El Proceso de la civili- zación: investigaciones socio- -genéticas y pslcogélicas, Madrid, Fondo de Cultura Económica, 1995; Norbert

Elias,

La Sociedad Corte-

jaria, Espana, Fondo de Cultura Económica, 1993.

1,1

E.

Durkheim,

pp. 196-212.

op.

cit.,

No entanto, na manufactura dos estudantes jesuítas das classes inferiores, a transmissão dos conteúdos literários expurgados

à luz do catolicismo tridentino era conjugada com o ensino

do£ «bons costumes». Ao definir o fim da educação jesuítica,

a 'Ratio Studiorum determinava aos seus padres-professores:

Concentre de modo especial a sua intenção, tanto nas aulas quanto

plástica

da juventude n o serviço e no amor de Deus, bem como nas u 101

virtudes com que lhe devemos agradar 15 .

se oferecer o ensejo como fora delas, em moldar

a alma

(grifos nossos].

457

A moldagem da alma do aluno jesuíta previa um conjunto de

estratégias e tácticas disciplinares a serem postas em prática den- tro e fora da sala de aula. Esta «maquinaria escolar» implicava

o

controle do tempo e do espaço, rígida hierarquia, emulação

e

competição entre os alunos, individualização das carreiras

escolares, incitamentos à actividade permanente dos alunos. A Ratio orientava os professores para que exercitassem sempre os seus alunos, transformando-os em agentes activos da aprendizagem. Durkheim considera esta transformação «uma grande revolução», que distinguia as práticas educativas "' E. Durkheim, op. cu., modernas das medievais l6 . A prescrição jesuítica do exercício PP ' escolar deriva da ascética inaciana, que previa um conjunto de exercícios espirituais progressivos e lineares para obter a con- versão e a salvação. O incitamento permanente ao exercício deveria criar uma rede totalizante de estímulos que não per- mitisse a passividade dos alunos, mas a permanente produção escolar. Referindo-se aos exercícios na aula, o método pedagó- gico dos jesuítas é categórico: «Nada arrefece tanto o fervor dos alunos como o fastio». E prescreve que, assim como a leitura de Cícero, os exercícios e os desafios deveriam ser práticas comuns às classes inferiores, próprias de uma «pedagogia activa».

A acção permanente dos alunos jesuítas nas aulas deve- ria ser lograda por meio da prescrição de exercícios variados, especialmente os trabalhos escritos, transformando a aula numa «sala de exercícios». Analisando as rupturas provocadas pelas pedagogias dos reformadores do século XVI, entre os quais os

jesuítas, Petitat constata: «Uma importante alteração em relação

à pedagogia medieval reforça esta escolarização: os exercícios

orais cedem lugar aos trabalhos escritos. Os deveres, provas 17 A. Petitat, op. cit., p. 8I . e exercícios diversos são realizados por escrito» 17 . A Ratio orientava os professores das classes inferiores para que reali- zassem trabalhos escritos todos os dias, com excepção do sábado, o dia de sabatina. Insistia sobre a correcção individual dos exercícios, prescrevendo:

Todos os dias deveria o professor corrigir os trabalhos escritos de cada um, porque desta prática resulta muito e grande faito. Se, porém, não o permitir o número elevado de alunos, corrija quantos puder

-5. d e mod o qu e o s omitido s nu m dia seja m chamado s n o seguinte 18 .

-Organização

- pp 184

458

Os exercícios diversos eram estimulados por meio da prelecção, que tinha como objectivo "introduzir o aluno numa compreensão perfeita do autor», como explica Franca:

A prelecção, na sua finalidade, é menos informativa do que forma-

tiva; não visa comunicar factos mas desenvolver e activar o espírito.

No silêncio da sua banca de estudos [o aluno] repetirá depois

os processos vitais percorridos pelo autor e analisados na pre- lecção 19 .

[ ]

19

L. Franca, op. cit., pp. 57-8.

A Ratio detalhava os passos da prelecção para todos os pro- fessores das classes inferiores: leitura do texto, análise sintética do texto, leitura detalhada de cada período e, por último, apresentação de observações adaptadas a cada classe. Se o professor achasse conveniente, poderia ditar algumas obser- vações, mas nunca em excesso, e os alunos deveriam tomar nota somente quando mandados. Os ditados, comuns nas uni- versidades medievais, foram muito minimizados tanto pelas orientações pedagógicas de Inácio de Loyola como pela Ratio, que se espelhavam no «modus parisiensis». Os colégios jesuítas utilizavam diversos livros impressos, fornecidos pela nascente imprensa escrita, e tinham cuidado especial com as bibliotecas escolares.

Emulação e competição

Visando provocar o «estado de alerta permanente», a Ratio previa a emulação e a competição entre alunos, grupos e classes, recomendando aos professores a realização dos «desa- fios das aulas», que deveriam ser bem preparados e realizados com modéstia e serenidade. Nas «Regras comuns aos profes- sores das classes inferiores», o método pedagógico da Compa- nhia de Jesus rezava:

O desafio que poderá organizar-se ou por perguntas do professor e correcção dos émulos, ou por perguntas dos émulos entre si deve ser tido em grande conta e posto em prática sempre que o permi- tir o tempo a fim de alimentar uma digna emulação, que é de grande estímulo para os estudos. Poderá bater-se um contra um, ou grupo contra grupo, sobretudo dos oficiais, ou um poderá pro-

459

20

-Organização

-,

p.

[grifos nossos).

187

outro particular,

um oficial outro oficial; um particular poderá às vezes desafiar um

prémio

oficial e se vencer conquistará

vocar a vários; em geral um particular provocará

a sua graduação, ou outro

OU símbol o d e vitóri a

[

]

20 .

Contudo, previa-se também o desafio com a classe imediata, de modo que os alunos viviam num verdadeiro pé-de-guerra. Na Ratio, a emulação estava conjugada com um sistema individualizado de controle, avaliação, classificação e premia- ção dos alunos, que pressupunha uma rígida hierarquia escolar. Não por acaso, as regras da Ratio estão apresentadas em ordem descendente: primeiro do padre provincial, seguido das autoridades colegiais: reitor, prefeito de estudos e professores; por outro lado, os alunos não tinham nenhum conjunto de regras. Nas prescrições da Ratio, percebe-se o distanciamento entre os dirigentes escolares e os alunos e a imposição da obediência, característicos das «instituições totais». Entre os dirigentes escolares, os professores deveriam subordinar-se ao reitor, para assuntos disciplinares, e ao prefeito de estudos, tanto em relação ao ensino como à disciplina; o prefeito de estudos devia obediência ao reitor. As classes eram divididas em dois grupos, de modo que cada grupo tivesse os seus soldados e oficiais, como se fossem dois batalhões militares. Diz claramente a Ratio:

21 tbict., p. 189.

Para alimentar a emulação, por via de regra poderá a aula divi- dir-se em dois campos, cada um com os seus oficiais, uns opostos aos outros, tendo cada aluno o seu émulo. Os primeiros oficiais

de ambos os campos ocuparão o lugar de honra 21 .

Os oficiais deveriam ser escolhidos de dois em dois meses, mediante uma prova escrita de prosa, que classificava os postos de honra. Em cada classe, o professor deveria nomear um censor ou pretor, cuja função era controlar a frequência e os exercícios na sala de aula, bem como o comportamento dos colegas no pátio. O professor tinha que zelar pelo progresso de cada um dos seus alunos. Em relação ao controle da frequência, a Ratio prescrevi a ao s professores : «Se algué m faltar , mande-lh e à cas a

460

um condiscípulo ou outra pessoa e, se não apresentar escusas

aceitáveis, seja castigado pela ausência» 22 . No seu quotidiano

escolar, o aluno era examinado pelo prefeito de estudos e pelo professor: para ingressar deveria fazer os exames de admissão e, em todas as classes, deveria prestar provas escri- tas - cujos procedimentos eram bem detalhados na Ratio - e exame oral. No começo de cada ano, o professor deveria pro- duzir uma pauta dos alunos, classificando-os em seis catego- rias, representadas pelos números de um a seis. Este processo de vigilância panóptica, fez com que os colegiais jesuítas per- dessem a autonomia que os estudantes universitários tinham na Idade Média. Como nos «Exercícios Espirituais», o professor deveria ser o «director da aprendizagem», que detinha o saber correcto e verdadeiro e deveria pautar-se pelo afecto paterno, tendo como missão dirigir o «aluno-exercitante».

Controle do tempo e do espaço

22 Md., PP . 190-1.

A individualização e o governo constante implicavam o con-

trole do tempo e do espaço dos alunos. A Ratio prescrevia uma divisão uniforme do tempo escolar, indicando que a

classe de retórica deveria ter duas horas de aula pela manhã

e o mesmo tempo à tarde e as classes de humanidades e

gramática, duas horas e meia tanto no período matutino como no vespertino. Nas regras específicas dos professores de cada classe, a divisão temporal ocupava um espaço significativo, indicando detalhadamente as actividades a serem desenvolvi- das nas quatro ou cinco aulas diárias, inclusive nos sábados

e feriados. Havia uma preocupação com a distribuição minu-

ciosa do tempo escolar, a variação das actividades e exercícios,

a moderação de horas de estudo, a introdução de pequenas

pausas produtivas. O tempo cronológico era rigorosamente controlado pelo bedel, que deveria ter sempre consigo um relógio, tendo como função avisar o professor ou o prefeito de estudos do início e do término das actividades escolares. Desta forma, assim como nas manufacturas e nos colégios pro- testantes, a apropriação do tempo dos alunos foi introduzida

nos colégios jesuítas d o século XVI e consagrada no método pedagógico. O colégio jesuíta tinha uma organização conventual, que se disseminou nas instituições educativas do século XVI, em que os alunos eram segregados dos perigos e prazeres do mundo. A Ratio formulou estratégias para disciplinar e paci- ficar o espaço escolar, procurando vigiar os alunos. Na sala de aula, cada um deveria ter o seu lugar definido pelo prefeito de estudos ou pelo professor, em que os nobres teriam lugar distinto e os estudantes jesuítas e de outras congregações deveriam ser separados dos alunos externos. Neste sentido, determinava aos alunos:

seu

Nas aulas não vão de um lugar para outro; mas fique cada um no

seu

trabalhos.

lugar, modesto e silencioso, atento a si e aos seus

23 221.

ibid.,

p.

Sem licença do professor, não saiam da

aula 23 .

Sob o título «ordem nos pátios», prescrevia:

Nos pátios e nas aulas, ainda superiores, não se tolerem armas, ociosidade, correrias e gritos, nem tão pouco se permitam jura- mentos, agressões por palavras ou factos; ou o que quer que seja

24 175.

ibid.,

p.

de desonesto ou leviano 24 .

Os alunos também eram proibidos de participar de espectá- culos públicos, comédias e execução de condenados e de representar papéis em teatros externos ao colégio.

Incitamento por prémios

Como parte integrante da rede de incitamentos, a Ratio previa um sistema de premiaçâo escolar, detalhado nas «Normas para a distribuição de prémios». Havia os prémios públicos anuais, específicos para as cinco classes e concedidos mediante a rea- lização de provas escritas e sigilosas, que eram avaliadas por uma banca de três professores, e um prémio especial para aqueles que tivessem melhor rendimento em doutrina cristã. Além dos critérios de desempate das provas, as normas indi- cavam os procedimentos da sessão de entrega de prémios,

462

que deveria ser pública e solene. Para maior visibilidade dos melhores, os nomes daqueles que se aproximavam dos ven- cedores também deveriam ser lidos e recompensados com alguma distinção. Por outro lado, a Ratio determinava que os professores estimulassem os seus alunos, nas salas de aula, por meio de pequenos prémios particulares ou «símbolos de vitória», concedidos àqueles que vencessem o adversário ou tivessem realizado algum esforço notável. Desta forma, o método pedagógico dos jesuítas propunha formar os seus alunos muito mais por meio dos incitamentos à produção escolar do que por meio dos castigos físicos, ainda muito usados no início da Idade Moderna. A tradição pedagógica de recorrer aos castigos físicos como último recurso, quand o «as boa s palavra s e exortações» estivesse m esgotadas , fora fundada por Inácio de Loyola. Entre outras manifesta- ções, em 1552, escreveu uma carta a Everardo Mercuriano, dizendo categoricamente: «Não convém que os professores da Companhia castiguem senão com palavras». Os castigos corpo- rais previstos deveriam ser aplicados pelo corrector, alguém que não pertencesse à Companhia de Jesus, de forma que nenhum professor jesuíta tocasse ou maltratasse o corpo dos alunos. Franca esclarece o process o d e puniçã o corporal: «Os golpes não deviam normalmente passar de seis; nunca no rosto ou na cabeça. Nem tão pouco se devia aplicar o castigo em lugar solitário, mas sempre na presença de, pelo menos, duas testemunhas» 25 . Em última instância, depois das advertên- 25 L. FRANCA, op. ar, pp. 62- cias verbais e dos castigos físicos, previa-se a eliminação dos 3 incorrigíveis dos colégios, contudo podendo serem readmiti- dos por decisão do reitor. A substituição dos castigos físicos pela vigilância amorosa e domesticação doce, mais eficaz e produtiva, proposta pela Ratio, era uma tendência que emer- giu no século XVI.

Os «bons costumes» também eram produzidos entre os alunos pelo estímulo aos actos de piedade, especialmente os de carácter sacramental. A Ratio prescrevia oração antes de cada aula, que deveria ser feita de cabeça descoberta e de joelhos, exame vespertino de consciência, recitação diária do

463

terço ou do ofício de Nossa Senhora, missa diária, confissão mensal. O controle da frequência à confissão deveria ser feito por meio de cartões contendo nome, sobrenome e classe do aluno, os quais deveriam ser entregues aos confessores. Os alunos mais piedosos eram estimulados a fazer parte das congregações marianas, que tinham exercícios especiais de devoção à Virgem Maria, devendo ser fermento na massa estu- dantil. Com o objectivo de moralizar e catolicizar os alunos, a Ratio previa a realização de representações teatrais, porém deveriam ser raras, em língua latina e com personagens exclu- sivamente masculinos.

Documerito-monumento da modernidade ocidental

26 Michel Foucauli, -A Go-

vernamentalidade*, in Michel Foucault, Microfísica do Poder, irad. Roberto Macha-

Rio de Janeiro,

do,

Graal, 1988, pp. 277-93.

7. a

ed.,

27 E.

p. 219.

464

Durkheim,

op.

cit.,

A Ratio Studiorum é um «documento-monumento» que faz parte da emergência de «um novo modelo de gestão de indi- víduos» ou da «arte de governar» no início da modernidade ocidental. Segundo Foucault, n o século XVI houv e uma pro- blematização geral da arte de governo em diversos aspectos da vida social: o governo dos Estados pelos príncipes, o governo das almas pelas reformas protestante e católica, o governo das

crianças pela pedagogia, o governo de si mesmo 26 . Tanto as diversas igrejas protestantes como a Igreja Católica tridentina produziram novos saberes-poderes teológicos, para a salvação das almas, e pedagógicos, para a «perfeita» formação dos estu- dantes. No contexto das guerras de religião do século XVI, todas as igrejas cristãs investiram os seus poderes-saberes refor- mados para moldar, formar, manufacturar a alma infantil e juvenil. Neste sentido, o pedagogo jesuíta João Bonifácio con- cluiu: «A educação da puerícia é a renovação do mundo». Durkheim diagnosticou com precisão a modernidade na Com- panhia de Jesus ao concluir: «Eles [jesuítas] entenderam muito cedo que para chegar ao seu fim, não bastava pregar, confes- sar, catequizar, e que a educação da juventude era o verda-

deiro instrumento de dominação das almas» 27 .

dos

Estados absolutistas e das nobrezas cortesãs e a instauração

No século XVI, juntamente com o estabelecimento

das reformas religiosas e das guerras de religião, foram for- mulados programas educativos diferenciados, que produziram e naturalizaram desigualdades sociais. Em primeiro lugar para os príncipes e cavalheiros, que segundo o novo «ethos» da nobreza cortesã deveriam ser educados nas armas, como na Idade Média, mas principalmente nas letras e virtudes. Por outro lado, para as classes populares, que deveriam preparar-se para executar trabalhos manuais, previa-se a transmissão de con- teúdos básicos e a inculcação da submissão e da obediência. Contudo, havia uma classe intermediária, a burguesia ascen- dente, que deveria ser educada nas letras latinas e nas virtu- des católicas e que ocuparia postos burocráticos importantes nos nascentes Estados absolutistas. Grosso modo, os colégios jesuítas fabricaram os «funcionários modernos» provenientes de estratos burgueses, bem como filhos da aristocracia provin- ciana. Contudo, a Ratio visava fabricar sujeitos letrados e cató- licos do sexo masculino, seguindo a redefinição e naturaliza- ção dos papéis e da educação dos sexos, formulada pelos humanistas e eclesiásticos, em que aos homens caberiam as funções públicas e, para tanto, deveriam receber estudos mais teóricos e refinados, enquanto que às mulheres estaria desti- nado o espaço privado e uma educação mais prática e sóbria 28 . 28 Julia varela, Naamiento

A Ratio reformada de 1832

de la mujer burguesa: el cambiante desequilíbrio de poder entre los sexos, Madrid,

La Piqueta, 1997

Até à supressão da Companhia de Jesus pela Igreja católica, em 1773, a Ratio de 1599 vigorou como o método pedagógico dos jesuítas, sofrendo pequenas alterações, aperfeiçoamentos e comentários. Após a Revolução Francesa, com a «restaura- ção» da Companhia de Jesus, a Ratio Studiorum foi repensada para se adaptar à nova conjuntura forjada pela «dupla revo- lução», marcada pelo capitalismo industrial e pelos sistemas nacionais de ensino. À luz dos «sinais dos tempos», os jesuítas articularam um processo de reinvenção da Ratio, cuja versão reformada foi publicada em 1832. No século XIX, a Ratio Stu- diorum perdeu a universalidade que gozava no Antigo Regime, pois, apesar de continuar a ser o método oficial da Companhia

465

de Jesus, deveria ser adaptada à realidade político-cultural de cada província jesuíta. Em relação aos conteúdos curriculares, houve desconti- nuidade, pois as letras clássicas deixaram de ser o fio condu- tor do currículo, dando espaço significativo às línguas e lite- raturas nacionais, bem como às ciências experimentais e às matemáticas. No entanto, com algumas alterações, o método de ensino e os mecanismos disciplinares foram mantidos e burilados, procurando formar sujeitos eruditos e católicos do sexo masculino. A Companhia de Jesus criou o colégio-inter- nato para alunos externos - que seria adoptado por outras congregações religiosas, como os maristas e salesianos -, ver- dadeira instituição disciplinar que se disseminou na Europa da «restauração», sendo normatizado pela «maquinaria escolar» formulada na Ratio Studiorum. Como parte integrante da «euro- peização» do Brasil, os colégios-internatos foram estabelecidos no território brasileiro desde meados do século XIX, tendo crescimento significativo na Primeira República, quando foram estabelecidos em quase todas as capitais dos estados brasilei- ros, com o intuito de educar boa parte de suas elites burguesas.

Ética e comunicação social

Sr eSite w

TEXT O BASE DE INTERVEN-

SECUNDÁRIA

DA

NO

ÇÕES NA ESCOLA

TROKA

E

AUDITÓRIO MUNICIPAL

DE

VIANA

DO

CASTELO.

Olhand o para o título deste texto e para a comunicação social que nos rodeia, não seremos levados a pensar estarmos perante um paradoxo? Em vez de «Ética e comunicação social», não seria mais correcto dizer «Ética ou comuni- cação social»? Se lermos os jornais, se folhearmos as revistas de informação e

coração, se olharmos para a televisão, podemos ser levados a pensar que as duas realidades, ética e comunicação social, são incompatíveis. E parecem incompatíveis porque a vida ética deve ser presi- dida por valores que pautam os comportamentos, e o nosso olhar sobre a comunicação social mostra-nos, ou parece mos- trar-nos, que nessa área de actividade vale tudo, desde que traga leitores, audiências e telespectadores. É ver as capas das revistas, a primeira página dos jornais, o modo como se faz rádio, o que interessa à televisão, para se concluir que comunicar, informar, divertir é apenas um pretexto porque o objectivo é sempre outro: manter presos os destinatários e manobrá-los porque são mercadoria rentável.

Como não é possível tratar de todos os assuntos - a bibliografia sobre o tema é extensa - abordarei apenas três pontos. No primeiro, mostrarei que a comunicação, e portanto a comunicação social, não é possível sem ética - a ética é a

A ética, mesmo que não respeitada, é condição de possibilidade da comunicação social, a qual não é um negócio como outro qualquer, su|elto apenas ao lucro, não podendo abandonar a sua função formativa. Para responder às preocupantes tendências actuais dos órgãos de comunicação social, mais do que regulamentar e fiscalizar pelo lado da oferta, convém actuar pelo lado dos consumidores, pela educação nas famílias, a invenção mediática de qualidade e o apoio a grupos de pressão.

Professor de Ética na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa,

*

em Braga.

Brotéria

15 5 (2002 )

467-47 8

467

condição de possibilidade da comunicação, o que não signi- fica, como ficará patente, que a ética seja respeitada na comu- nicação. Depois tentarei apresentar a escala de valores que preside hoje à comunicação social. Em terceiro lugar, procura- rei responder a esta pergunta: «o que fazer perante a comuni- cação social que temos?»

1. A ética como condição de possibilidade

1 Cf., Luís Archer, -O geno- ma humano- in José Henri- que Silveira de Brito (org.), Bioético. Questões em debato, Braga, Publicações da Facul- dade de Filosofia da UCP, 2001 , p . 69.

468

de comunicação

A comunicação faz-se pela linguagem com a qual se transmi-

tem mensagens. A primeira condição de uma mensagem é que

ela seja entendida pelo destinatário, o que obriga a um esforço interpretativo daquele a quem é dirigida a comunicação. Ora,

a primeira condição da interpretação é que o destinatário

admita a priori que aquele que é o emissor da mensagem seja veraz; isto é, que aquele que comunica diz o que pensa e con- sidera que o estado das coisas corresponde ao que ele afirma.

Além disso, quando se trata de normas do mundo social, o destinatário da mensagem admite a correcção das normas de acção desse mundo. Numa palavra: a comunicação é possível porque se aceitam, ao menos implicitamente, as suas «preten- sões de validade». Digo implicitamente porque a comunicação nem sempre

é racional, nem sempre o emissor pretende ser veraz; ela pode

ser comandada pela racionalidade estratégica; isto é, o comu-

nicador pode não ter pretensões de validade na sua comuni-

cação, mas, apesar disso, espera que o receptor conte com ela

e, por isso, espera que a falta à verdade presente na sua comu-

nicação não seja vista por aquele a quem se dirige. Em síntese:

a mentira só é possível porque aquele a quem se mente espera

a verdade.

exemplo 1 : quando em Junho de 2000 a im-

prensa de todo o mundo noticiou que tinha sido integralmente descodificado o genoma humano, as pessoas acreditaram e, na Wall Street, as acções da empresa ligada a essa investigação subiram em flecha. Ora, em Junho de 2000, não havia novi-

Com um

dade nenhuma relativa ao mapeamento do genoma. O que acontecia é que a referida empresa estava com necessidade de financiamento, uma vez que os supercomputadores utilizados

na investigação são caríssimos, e, por isso, convinha-lhe que a sua cotação na Bolsa subisse. Através de uma bem montada operação de marketing, a que, consciente ou inconsciente- mente, a imprensa mundial aderiu, transmitiu-se a falsa ideia de que tinha acontecido algo de novo e importante, quando tudo continuava na mesma. Contudo, e era o que a empresa pretendia, as acções subiram. Isso foi possível porque, perante os discursos produzidos, as pessoas reagiram normalmente seguindo a condição de possibilidade de toda a comunicação:

«a pretensão de validade». Dizendo de outra maneira: um discurso estratégico, uma

comunicação baseada numa racionalidade estratégica, que não

é dirigida pela pretensão de veracidade, é possível porque as pessoas esperam sempre - é condição transcendental de toda

a comunicação - estar perante uma comunicação racional, ver-

dadeira, veraz. Ainda numa outra formulação: faltar à ética na comunicação é possível porque ainda é a ética a condição de possibilidade de comunicação.

2 . A escala de valores que preside hoje em dia à comunicação social

É

hoje comum afirmar que vivemos numa sociedade pluralista.

O

que é que significa esta expressão? Apenas isto, que já não

é

pouco: vivemos numa sociedade em que não há uma escala

de valores única. Assim, encontramos crentes, agnósticos e ateus e não é pelo facto de alguém pertencer a um destes grupos que é penalizado, que vê desrespeitado o princípio de igualdade de oportunidades; pelo menos diz-se que é ou deverá ser assim. Há pessoas que defendem uma sociedade liberal, dominada pelo individualismo, e outras lutando por uma sociedade mais solidária e defendendo uma maior inter- venção do Estado; outras ainda defendem uma terceira via e todas elas têm direito a defenderem os seus pontos de vista

sem serem penalizadas por isso. Há, na nossa sociedade, quem seja defensor do casamento, das uniões de facto, da vida em comum sem qualquer limitação. Há uma pluralidade de escalas de valores, pluralidade essa que é respeitada e deve ser, desde que não haja consequências inaceitáveis para terceiros.

Pluralidade de órgãos de comunicação social

É neste contexto que surgem diferentes órgãos de comunica-

ção social. Na imprensa escrita, há os jornais institucionais que tentam fazer a bissectriz entre as escalas de valores vigentes na sociedade e apresentam uma pluralidade de opiniões; este tipo de imprensa só em algumas circunstâncias ou perante questões fundamentais defende determinada posição com cla- reza. É o caso do Expresso, em Portugal. Para além de encon- trarmos colaboradores em páginas de opinião a defenderem pontos de vista diferentes, os jornalistas daquele semanário defendem posições nem sempre coincidentes. Em todo o caso,

o jornal como instituição tem posições que assume em certas

circunstâncias. Foi o que aconteceu no fim de semana de 26-27 de Janeiro deste ano. Estava-se na ressaca do julgamento

feito no tribunal da Maia, em que uma enfermeira tinha sido condenada por praticar clandestinamente abortamentos e certas vozes tinham aparecido a defender a liberalização do aborto. Com toda a clareza o Expresso, no Editorial, disse ser con-

trário à liberalização do aborto, fazendo algumas referências importantes. A primeira tinha a ver com o facto de, na discus- são do aborto, nunca aparecer a referência ao homem como um dos intervenientes. No caso do aborto, a mulher não é o único actor; temos o pai e o feto. Assim sendo, o debate não pode deixar de ter em conta estes dados. Numa sociedade que pretende ultrapassar o machismo, não é admissível que o homem fique de fora e deixe sozinha a mulher grávida. Por outro lado, o ovo, o embrião é alguma coisa e deve ser tida em conta. O outro argumento apresentado pelo Expresso referia-se à responsabilidade: cada um deve ser responsável pelos seus actos e a liberalização do aborto é um chamamento

à desresponsabilização.

Embora existam esses jornais institucionais, o mais comum, contudo, é cada periódico ter um certo ponto de vista a partir do qual faz a leitura da realidade. Assim, falam de política, de economia, de religião, de desporto, enfim de todas as ques- tões, a partir de um determinado quadro ideológico. Por esta razão se diz que determinado jornal é de direita, que aquele é de esquerda e que outro é centrista, não no sentido de ser de CDS. Em Espanha, é sabido que o ABC é de direita e o El Pais, de esquerda; em França, o Figaro é de direita e o Libération, de esquerda. Nas rádios, também é assim. Repare-se que em Portugal há imprensa que quase nunca dá notícias que tenham a ver com a religião e outra que fala sempre em termos críticos ou depreciativos da religião e, concretamente, da Igreja Católica. Com um exemplo: na peregrinação dos jovens a Roma, no ano do jubileu de 2000, deslocaram-se àquela cidade mais de um milhão de jovens de todo o mundo e a comunicação social portuguesa quase não disse uma única palavra sobre isso. A Renascença, por seu lado, que é propriedade da Igreja, deu particular atenção ao evento, tal como informa desenvolvida- mente sobre o que se passa no mundo religioso e, concreta- mente, na Igreja. Há, portanto, um quadro de valores a partir dos quais os órgãos de comunicação social falam. É o que se designa por estatuto editorial, espécie de magna carta de cada órgão de comunicação, em que se explicita o quadro de valores que preside ao projecto editorial.

Empresas de comunicação social

Simplesmente os órgãos da comunicação social são também empresas, públicas ou privadas, o que complexifica as ques- tões e coloca problemas enormes, sendo o primeiro relativo à sua finalidade. É ponto assente que a finalidade das empresas privadas em geral é ganhar dinheiro. Quando se trata, porém, de empresas de comunicação social, a pergunta a fazer é se elas têm como fim único o lucro.

No que respeita às empresas públicas de comunicação,

a questão não é mais simples: essas empresas podem ser con-

sideradas de «serviço público». E o que é que isso significa?

Sendo empresas de serviço público, há que esclarecer o seu financiamento e se os seus gestores se devem preocupar com

a sua rentabilidade económica. No caso português, sabe-se a

que situação esta indefinição tem levado. Penso ser inquestionável que uma empresa tem por finalidade ganhar dinheiro, mas, uma vez que a imprensa trabalha com bens culturais, não pode ter como único fim

o

lucro. Como diz Enrique Bonete Perales, professor de Ética

e

Filosofia Política na Universidade de Salamanca,

2

Enrique Bonete Perales, •Introducción. Conflitos mo- rales en los médios audiovi- suaies-, in idem (ed.) Ética

da la comunicación

uisuai, Madrid, Tecnos, 1999,

audio-

p ' 36

3 ibidem, p. 37.

4

ibidem.

472

por muito que surpreenda os empresários da comunicação, há que afirmar taxativamente que o fim último de uma empresa informa- tiva e audiovisual não é ganhar dinheiro. É um dos seus fins para subsistir com independência e profissionalismo. O aumento do capital na realidade é o meio imprescindível para realizar os fins

específicos

entreter 2 .

do

mundo

audiovisual:

informar,

formar

e

Os bens culturais, que são aqueles com que lida a comunica-

ção social, são diferentes dos outros bens. Nao se pode com-

parar uma cadeia

rege-se pela ética empresarial, pela ética dos negócios, pela ética económica. Estas éticas, contudo, não chegam para uma empresa de comunicação social, precisamente porque esta

de televisão com um hipermercado. Este

negoceia [

contribuem ou não para a formação - em suas múltiplas dimen- sões - da cidadania. O qual é motivo suficiente para que estas

com bens culturais, com produtos -ideológicos- que

]

empresa s -sócio-económicas - s e submeta m a pauta s morai s 3 ,

como diz o autor já referido. A comunicação, devido ao pro- duto com que trabalha, tem que atender a princípios consa- grados em todo o mundo democrático e de que citarei os referidos por Bonete Perales: os princípios de

d) objectividade, veracidade, imparcialidade; ti) separação entre

informações e opiniões; c) respeito pelo pluralismo político, reli-

gioso, social, cultural, [

privada e os direitos constitucionais; e) protecção da juventude e

da infância; f ) respeito pelos valores da igualdade, etc. 4

d) respeito pela honra, a fama, a vida

];

Quando se pensa em comunicação social como serviço público, considera-se que aquela dá particular atenção ã sua função formativa e defende-se que deve ser sustentada pelo Estado enquanto presta esse serviço. Ora, a definição de ser- viço público não é imune à controvérsia e muitas vezes o «serviço público» tem sido capa para serviços a alguém, ao poder, que é quem financia esse serviço, o que tem dado azo,

e justamente, a muitas críticas provindas de muitos quadrantes,

muito particularmente dos partidos que, no momento, estão na oposição e se sentem prejudicados. Isto significa que quem financia o serviço público serve-se dele, directamente ou por interposta pessoa, quem paga põe esses órgãos de comunica- ção social ao seu serviço. Para dizer isto com o título de um livro NãO há almOÇOS grãtÍS\ 5 E aqui está COm O O S princípios 5 M o César das Neves, Não

acima referidos, a que devem obedecer os órgãos da comuni-

ma

almoços

grátis:

colectâ-

opinião,

de artigos

de

.

,

_

,.

,

, ,

.

Lisboa, Notícias D.L., 1994.

caçao social, sao distorcidos pelas empresas publicas da comu- nicação. Quem financia, acaba por encontrar caminho para ser compensado da sua boa vontade.

«Serviço público» e «Serviço ao público» em mercado concorrencial

E o que se passa com as empresas privadas de comunicação social, relativamente aos princípios enunciados? Apesar de ser evidente a justeza do que disse sobre os princípios que devem reger esta área de actividade, o que se verifica, olhando para

o que nos rodeia, é que aqueles princípios são sacrificados em

função do gosto do público, pelo menos é o que mais vezes se ouve dizer pelos responsáveis por esses órgãos de comuni- cação quando são criticados pelo baixo nível da programação ou pelo modo de abordar os temas. Dizem esses responsáveis que estão ao serviço do público.

Antes de mais, é preciso fazer uma distinção importante.

Há que distinguir entre «serviço público» e «serviço ao público», distinção essa aplicável ao que emitem as empresas públicas

e privadas de comunicação social. Toda a empresa desta área

afirma que, numa sociedade democrática, isto é numa socie-

dade que implica o consenso, é indispensável a informação

Desta

que deve ser fornecida pelos órgãos de comunicação.

necessidad e d e bas e deriva o «direito a saber» 6 , e, consequen-

enemigos- in E. Boneie temente o «Direito de informar e ser informado» , pelo que os

6 Francisc o j. Laporta , -EL

derecho

a

informar

e

sus

1'erales (ed.), ot>. cil., p. 79.

.

.

.

,

.

,

orgaos de comunicaçao social se tornam indispensáveis numa lhlde " L tal sociedade, não devendo o Estado interferir no fluxo de informação. Com isto fica descartado, ou parece ficar, o pro- blema da interferência do poder político na comunicação que, como mostrámos há pouco, pode não ficar, uma vez que há empresas públicas de comunicação. Devemos, contudo, fazer duas observações. Em primeiro lugar, não se pode esquecer que o direito a informar e a ser informado não são direitos absolutos. Em segundo, deve ter-se em conta que, numa socie- dade democrática e liberal, como são as sociedades evoluídas em que vivemos, esses direitos de informar e ser informado praticam-se no mercado, num sistema concorrencial; isto é, exercem-se nos condicionalismos inerentes do mercado livre e competitivo, o que não é inócuo. O que significa a interferência do mercado na comunica- ção? Disse anteriormente que a comunicação social, em geral, informa - tem o dever de informar - e diverte - é hoje uma das funções que dela se espera. Mas tudo se faz no mercado. Surge então a competição. O objectivo é ser mais visto, mais ouvido, mais lido e para isso não é tanto a informação ou a qualidade de diversão que interessam. No fundo, o que inte- ressa é ter clientes e, consequentemente, o serviço público torna-se um serviço ao público. Em vez de se avaliar a quali- dade do produto a apresentar, procura-se agradar ao público, mesmo que isso exija baixar o nível. O que interessa é ser visto, ouvido e lido por muitos, porque é assim que se ganha dinheiro, e ganha-se dinheiro por duas vias: pelo produto que se vende e pela publicidade que se conquista. O mercado da publicidade é fundamental para os órgãos de comunicação social, quaisquer que eles sejam. É verdade que se a empresa de comunicação social é paga pelo orçamento geral do Estado, não é o mercado que a condiciona, mas levanta-se logo a difi- culdade da sua instrumentalização por parte do poder político

474

a que já me referi. No caso português, a RTP tem vivido a

dupla dificuldade: o financiamento público e a concorrência própria do mercado. Por tudo isto, a dimensão formativa dos órgãos de comu- nicação social, um dos seus fins, se não o seu fim funda- mental, é abandonada e desce-se ao grau zero da cultura e à boçalidade atroz dos instintos mais primários. E é ver-se quem desce mais baixo para atrair mais público.

Os responsáveis pelos órgãos de comunicação social dizem

que não têm culpa do baixo nível do que apresentam, que apenas respondem ao gosto do público e que este quer aquele

produto. Outros chegam mesmo a dizer que não têm respon- sabilidades culturais, que gerir uma empresa de comunicação social é como dirigir um outro qualquer negócio. Evidente- mente que não é! Quem considera que a comunicação social

é como qualquer outro negócio, reduz os outros a meros objec-

tos consumidores, isto é a meros meios para ganhar dinheiro,

o único valor que considera importante. Está-se perante uma nova idolatria e a coisificação das pessoas.

O que acontece é que na nossa sociedade - Marx tinha

toda a razão - o dinheiro é o valor supremo e, para o adqui- rir, vale tudo, embora o pudor leve alguns a esconder o que procuram. Quando a privacidade de alguém é violada, ime- diatamente o órgão de comunicação social infractor dirá que tinha a obrigação de informar. Quando a honra de alguém é molestada, dirá que a verdade é para ser dita, mas, vendo bem cada caso, normalmente se conclui que a única motivação que levou à violação da privacidade de alguém ou a beliscar a sua honra foi prender o público para ganhar ainda mais dinheiro.

Neste panorama, a televisão ocupa um lugar à parte. Hoje

- j á há bastante tempo, aliás - o que não passa na televisão não existe e o que existe acontece segundo o que a televisão mostra. Como o estranho, o pitoresco, o bizarro, o chocante,

o escandaloso, o boçal prende audiências, é isso que se emite.

No noticiário sobre a política, fica-se pelo chiste, pelo circuns- tancial. Dá-se mais tempo de antena ao anedótico ocasional que apareceu na discussão da proposta de lei do que ao con-

teúdo da lei; dá-se ao Presidente da Comissão Nacional para as Ciências da Vida um minuto para comentar a licitude ou a ilicitude da quebra do sigilo profissional de um médico e meia hora para comentar um assassinato ou, pior ainda, um fait divers do jet set nacional, que não tem qualquer importância para o país ou para cidadão comum; repete-se à saciedade uma gaffe de um político, fora de qualquer contexto que a permita compreender, e não se refere o que de importante ele disse antes ou depois. A rampa na qual se está a deslizar não se sabe até onde conduzirá, mas não nos levará a bom sítio. Há quem pense que é a própria liberdade e a democracia que estão em perigo. Algumas declarações dos principais responsáveis são de tal ordem que fazem temer o pior. Afirmações tais como: «a comu- nicação social não tem nada que ter preocupações culturais!», «fazem-se presidentes como se vendem sabonetes», não são de bom augúrio.

8 Esta pane do texto está bastante inspirada pelos es- critos sobre comunicação social que este autor reuniu no seu livro Ética na socie- dade plural, Coimbra, Edi- ções Tenacitas, 2001.

476

3 .

«Que fazer perante a comunicação social que temos?»

Perante tudo isto, o que fazer? Esta questão tem sido imensa-

mente discutida e há diversidade de respostas. Alguns consi- deram que nada há a fazer, que o poder da comunicação social - o novo poder, ao lado do poder legislativo, executivo

e judicial de que já falava Montesquieu - é de tal ordem, que

nada o pode controlar. Segundo outros, há que criar um quadro legal amplo, bem articulado e com um conjunto de penas sufi- cientemente dissuasor que desencoraje os que são tentados

a ultrapassar os limites. Outros pensam que há que melhorar

a deontologia profissional. Há quem se sinta tentado pela

constituição de comissões de controlo que deverão zelar pela comunicação social de maneira a evitar abusos. Por último,

e não pretendo ser exaustivo, alguns autores consideram,

Francisco Sarsfield Cabral é um deles 8 , que, nesta questão dos órgãos de comunicação social, nada há a fazer pelo lado da oferta e, por isso, a única esperança de inverter a situação calamitosa a que se chegou, principalmente na televisão, é trabalhar pelo lado da procura.

Muito sucintamente direi o que penso sobre cada uma destas tentativas. Não fazer nada é demitir-se da sua qualidade de pessoa e de cidadão. Uma sociedade de mulheres e homens livres não pode pactuar com a exploração desenfreada a que se chegou; há que fazer alguma coisa. Mas o quê? Considero que é sempre possível melhorar

o quadro legal e os códigos deontológicos, mas por aqui não se irá muito longe. Há sempre possibilidades de aproveitar a condição humana de seres hermenêuticos que somos jogando no campo interpretativo e distorcer os textos ou imagens de modo a escapar ao estipulado; além disso, não é possível encontrar um código, jurídico ou deontológico, que preveja todas as situações. Por último, mesmo que isso fosse possível, ainda ficava por resolver o principal problema: como levar os responsáveis a cumprir as normas? Não é a norma jurídica ou deontológica que leva à necessidade do seu cumprimento;

é a moral que ensina que é nossa obrigação obedecer às leis

justas. Quanto às comissões de fiscalização, estamos perante uma solução perigosíssima. Rapidamente estaremos perante comissões de censura cujas funções todos sabem onde come- çam mas ninguém sabe onde acabam.

Como se vê, pelo lado da oferta não penso que se possa fazer muito. Efectivamente, o valor supremo para as empresas de comunicação social é o lucro e a esse valor tudo se sacri- fica. E quando se fala e pede autocontrolo ou se declara que se vai enveredar por ele, apenas se pode ter a certeza de uma coisa: tudo ficará na mesma, isto é, tudo será sacrificado ao económico. Fica a possibilidade de trabalhar a questão pelo lado da procura, isto é pelos consumidores de comunicação social, havendo vários caminhos possíveis dos quais apontarei três.

O primeiro tem a ver com a educação dos telespectadores, dos

leitores de jornais e revistas e dos ouvintes de rádio. Cabe em primeira instância às famílias. Os pais devem aproveitar as oportunidades que surgem ou criá-las para educar os filhos a ver e a ler, como uma das dimensões fundamentais do pro- cesso educativo. Isto exige que eles se cultivem e cultivem

os filhos, transmitindo valores e espírito crítico. Para isso, o direito inalienável à liberdade de ensinar e aprender em real igualdade, de modo a que os pais possam efectivamente esco- lher as escolas onde querem que os filhos estudem, é funda- mental. Uma escola assim será uma óptima ajuda para os pais na tarefa da educação. Um segundo caminho, embora não acessível a todos, é o de trabalhar ou colaborar com qualidade na comunicação social e nisso procurar formar os consumidores. É um trabalho pedagógico de grande importância. O terceiro, e importantíssimo, é o de participar em grupos de pressão que tentem condicionar os órgãos de comunicação. É do conhecimento geral a importância e o que consegue obter uma opinião pública bem organizada. Em síntese, e para concluir: mostrei que sem ética a comunicação é impossível. Referi, de seguida, os valores que dominam a maioria da comunicação social: a propaganda polí- tica e o lucro. Concluí com o que penso se pode fazer para sair da situação a que fomos conduzidos. É evidente que os caminhos propostos para sair do estado actual são longos e os resultados levarão muito tempo a aparecer, mas numa socie- dade livre e democrática - a democracia, apesar dos seus defeitos, ainda é o melhor sistema político que encontrámos - não há outros, pois que só eles respeitam os indivíduos como pessoas, isto é, seres que são fins em si mesmos e não meios.

Dos consumidores que somos

Today's

consumer

has

been

variously

described

as

demanding,

fickle,

informed,

sophisticated,

disloyal,

footloose,

individual

and

easily

bored.

It

is

assumed

that

ali

consumers

can

identify

themselves

through

a

combination

of

any

or

ali

of

these

characteristics.

 

FINANCIAL

TIMES

BUSINESS,

1.99 8

1.

Do conhecimento

do

cliente/

Apesar das diversidades regionais, há sinais de homogeneidade de mercado e, sobretudo, dificul- dades de resposta a estímulos psicossociológicos comuns (pressão urbana, insegurança, vazio, escassez de tempo) que tipificam o consumidor europeu (e global). O padrão que sobressai (impa- ciente, individualista, consumista insaciável mas cansado de tudo) é desinteressante, mas desafia a mudanças de comportamento no mercado para reagir contra a dependência escravizante do binó- mio abundância-deslnteresse.

consumidor

Queremos conhecer o cliente/consumi- dor final com o intuito de percebermos como se comporta o mercado, como as empresas se devem preparar para ele e, por último, se é possível antever, através do seu conhecimento, alguma mudança

que lhe possa ser induzida, formando-o e fazendo-o sair, tanto quanto possível, do binómio redutor e escravizante em que caiu e que se designa por abundância- -desinteresse. Neste contexto, os principais atributos explica- tivos do cliente/consumidor, que pretendemos caracterizar, podem bem ser sumarizados por:

• o cliente/consumidor exerce o seu poder de consumo através de um número diverso de canais, on e off-line, novos e tradicionais;

• o cliente/consumidor é um indivíduo cauteloso, preo- cupado e ansioso com o futuro;

• o cliente/consumidor é esperto, filtra informação e con- segue captar a essência da actividade de quem lhe faz propostas de venda, mesmo que de forma inconsciente;

• o cliente/consumidor é, simultaneamente, liberal e con- servador, não conformista e, em alguns casos, algo pre- visível;

* Professor Associado (Gestão), com Agregação, do ISCTE.

Umtéria 155 (2002) 479-491

479

• o cliente/consumidor pretende preservar algum senso de família, embora a unidade tradicional esteja posta em causa;

• o cliente/consumidor está bem mais preocupado com a sua saúde e higiene e as condições com que se depara do lado da oferta, fazendo rapidamente juízos de valor;

• o cliente/consumidor encontra-se, simultaneamente, mais longe e mais perto de uma alimentação mais saudável, muito embora sem a conseguir sustentar no médio prazo;

• o cliente/consumidor é uma espécie de arco-íris, cama- leão, sendo que a oferta muitas vezes não encontra a melhor solução, ou a cor mais apropriada, nomeada- mente para combinar com o seu padrão de comporta- mento, fazendo perigar a organização/empresa consti- tuída para o servir.

Estas e outras características fazem com que possamos dizer que existe um mercado final que emerge rápida e susten- tadamente, caracterizado por um perfil de cliente/consumidor diferenciado, quiçá padronizável e, talvez, novo, sendo que a empresa, de forma isolada, não está preparada para responder de maneira eficiente e eficaz às suas exigências e expectativas. Esta homogeneidade encontra explicação num padrão de mercado que se desenvolve no contexto europeu, e também global, mesmo sabendo da heterogeneidade de base e da diversidade, se centrada no continente europeu, e "nomeada- mente na vertente Ocidental, dos vários estados-nação ou, com mais acutilância, dos vários blocos regionais.

2 .

Do Cliente/Consumidor

da

Europa e do

Mundo

De facto, a Europa, nomeadamente a comunitária, como palco prioritário desta nossa abordagem, consiste num conjunto rela- tivamente diverso, para não dizer s„eparado, de indivíduos (ou grupos) e de práticas empresariais. Mais, a história da gestão e do empreendimento empresarial europeu Ocidental mais recente tem como características dominantes, mas agora con-

juntas, a lentidão no percurso, a reactividade aos modelos

americanos ou nipónicos e a fraca criatividade, sem nos im- portar, para já, se existe, de facto, um curso comum que esteja

a ser percorrido, quer por empresas quer por clientes/consu-

midores, nomeadamente para que se possa dizer que se iniciou um cursar conjunto desse mesmo caminho.

De há uns anos a esta parte a criação de grandes poten- tados económicos tem-se sobreposto à construção de tecido empresarial pequeno e ágil, faltando dinamismo empreendedor

e legislação favorável ao acto criador. Um aspecto parece certo. À medida que as empresas pro- curam vantagens competitivas nas várias mudanças que se vão verificando na Europa, a importância do que designamos por

logística, cada vez mais supply chain management, ou melhor, supply-demand chain management ou network management, tem vindo a aumentar. E a razão parece mais ou menos óbvia

e simples, residindo no papel coordenador crítico que aquela

desempenha para um grande número de empresas, seus for- necedores, clientes directos e, também, clientes/consumidores finais. Convém, porém, ante um cenário com pano de fundo tão rico, explicitar que por logística, ou sinónimo, se entende sempre a gestão de um conjunto de actividades integradas, capazes de coordenarem com êxito fluxos físicos e informa- cionais de uma origem a um destino (das matérias-primas ao consumidor final, por um lado, e dos produtos e/ou emba- lagens não utilizados até à sua reciclagem e aproveitamento — reverse logistics —, por outro), de maneira a servir de forma global - serviço total - os públicos pertencentes aos vários mercados alvo. Sabe-se ainda, pela evolução empresarial a que temos assistido, que a origem e o destino acima referidos são cada vez menos reconhecíveis e podem, em muitas circunstâncias, apresentar-se coincidentes. Mais, a existência de cada vez menos produtos puros e serviços puros, reconhecendo-se apenas ser- viços com produtos, produtos com serviços ou serviços com serviços, fazem com que o conjunto de actividades integradas

1

Martin Christopher, Richard Yallop, -Audit your Custo-

que acima se referia se oriente, também, para o universo dos serviços e não só dos produtos, abrangência que pode ser sintetizável numa palavra: disponibilização. Reconhece o leitor, tão bem como nós, que o serviço ao cliente/consumidor - e falamos de serviço total ao cliente/con-

sumidor, acréscimo diferenciador ao produto/serviço nuclear 1

.

.

_

.

mer Service Quaiity-, Focus, - e critico para o posicionamento estrategico em todas as econo-

9(5), 1990, pp. i-6.

economias de idêntico perfil, o posicionamento estratégico, desde que dotado de alguns dos seus ingredientes principais, ditos atributos, tornou-se uma componente empresarial (ou da cadeia de valor) com importância histórica sem precedentes. Porque é por intermédio daqueles atributos, mutáveis consoante as exigências e o rumo do mercado, que as empresas edificam oferta, atraem procura e fidelizam clientes/consumidores. Conjugando o cenário europeu Ocidental com a perspec- tiva de serviço total temos um teatro de operações interessante, no mínimo, para podermos perceber o porquê da importância de tais atributos para poder fazer convergir oferta (de serviço total) com procura (de bens e de serviços). Primeiro porque estamos a falar da forma como se move e orienta a nossa própria casa europeia. Depois porque nela se encontra, salvo algumas excepções, a base sólida dos principais clientes/con- sumidores das nossas empresas, a servir. Por último, porque é ela, reconhecendo nós o fraco alcance da nossa capacidade altruísta, a que genuinamente mais nos interessa, quer na pers- pectiva do desenvolvimento económico, quer na perspectiva do enquadramento à escala global. Façamos, então, um percurso Ocidental europeu para, ante a diversidade, podermos caracterizar e explicitar aquilo que designámos, inicialmente, por padrão tipificável ou cliente/ consumidor homogéneo (mesmo se válido à escala global).

mia s d e mercado . N a Europ a Ocidental , com o na s

restante s

1

The Economist,

-jan . 2nd

Dec. 20th-

122-23.

1998, pp,

Uma Europa heterogénea

E comecemos, sem grandes pretensões, pelo índice Coca-Cola

(consumo de Coca-Cola per capita, nomeadamente na Europa Ocidental, publicado pelo The Economist ), para depressa nos

,

i

,

.

,

2 \

482

apercebermos de que de todas as grandes regiões do globo, i.e., macro-regiões, é talvez esta a mais heterogénea. Temos desde heavy drinkers (acima dos 71 litros/ano por habitante), como o caso da não comunitária mas Ocidental Noruega, até

aos soft drinkers, como Portugal, França e Itália (14-28 litros/ano por habitante). Pelo meio ficam alguns médium drinkers como

a Áustria e a Espanha (28-50 litros/ano por habitante), por exemplo. Nem o clima, nem o rendimento per capita, nem o índice de desenvolvimento agregado proposto pelas Nações Unidas

(rendimento, educação, saúde e instrução) conseguem expli- car totalmente as várias diferenças de consumo de Coca-Cola entre países da Europa Ocidental. Sinais de diversidade, apenas. Veja-se, também, que a geografia europeia apresenta fron- teiras físicas não ignoráveis, de que são exemplo os Pirenéus, acentuando a periferia ibérica, mais ainda a portuguesa, os Alpes, que constituem, de alguma forma, barreira natural entre Alemanha, Suíça, Áustria e Itália, a Mancha, separando o Continente das ilhas britânicas e o Mar do Norte e o Báltico, afastando Finlândia, Suécia e Noruega da Europa Central. Mas as diferenças não se ficam pelas barreiras físicas, estendendo-se a zonas climatéricas que, embora complemen- tares, apresentam características francamente diversas. As nações do Centro e Norte da Europa apresentam climas frios, con- trastando com os climas mediterrânicos dos países do Sul. Longe da harmonia está também o produto (PIB) per capita. Homogeneidade, a existir, verifica-se, muito grosso modo, entre Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, França, Holanda, Itália, Reino Unido e Suécia. No topo superior figuram Luxem- burgo e Dinamarca e as não comunitárias Noruega e Suíça. No patamar inferior encontram-se Irlanda, Espanha, Portugal

e Grécia. Aquém destas, e menos ocidentalizadas (geográfica

e economicamente), aparecem as restantes economias euro- peias não comunitárias.

A população está também concentrada, ou densificada, em bolsas específicas, sobretudo no centro da Europa, nomea- damente no Benelux, Alemanha e Noite de Itália, nalgumas

i Andersen Consulting, Cran- field School of Manage- ment, Recotifiguríng Euro- pean /.ogislics S)>siems, para o Council of Logistics Mana- gement, U.K., 1993.

484

zonas do Reino Unido, como as de Londres, Birmingham e Manchester, por exemplo, nas extensas zonas urbanas de Paris e Lyon, em alguns pontos da península Ibérica como Barce- lona, Madrid e Galiza/La Coruna, bem como, e em menor escala, na grande Lisboa e grande Porto. Adicionalmente, existe uma diversidade linguística invul- gar, com padrões culturais assentes em raízes de natureza dife- rente. Culturas pró-latinas (com línguas românicas como o francês, o italiano, o espanhol e o português) que diferem substancialmente das que derivam da tradição pró-germânica (dinamarquês, holandês, alemão, inglês, norueguês e sueco) e das de tradição pró-eslava que, muito embora não comuni- tárias, tenderão a fazer, cada vez mais, por enquanto por via indirecta, parte do todo comunitário (casos do polaco e do checo, por exemplo).

Para além destas existem, ainda, algumas variantes e decli- nações nacionais ou regionais em vários países, correspon- dendo a etnias, tradições e formas de estar também diversas. De realçar os grupos culturais que, reconhecidamente, se formam subjacentes a este espectro e se podem descrever como teutónicos, latinos e anglo-saxónicos, variando nas formas de expressão e abordagem às mais variadas temáticas 3 .

O grupo teutónico (de raiz alemã, escandinava ou do

Norte e Centro da Europa) tem tendência a ser altamente lega- lista, começando por exprimir a conclusão de um argumento, dando-lhe continuidade com o desenvolvimento de suporte e regressando, finalmente, à conclusão.

O grupo latino (França e Sul da Europa) dá prioridade ao pensamento assente no formalismo, começando com um intróito ao argumento, usualmente de natureza teórica, e fazendo o seu desenvolvimento assente em vários pontos, cada um deles contendo vários subpontos de suporte, e terminando com uma conclusão, qual tese, que permite a validação, ou não, do argumento.

O grupo anglo-saxónico (Reino Unido, na Europa) privi-

legia a inferência a partir de uma aproximação empírica, ini- ciando com uma série de observações concretas e pragmáticas para passar rapidamente à conclusão mais lógica.

Adicional e paralelamente, alguns aspectos parecem poder ser mais ou menos esboçáveis. Em primeiro lugar, a Europa constrói-se sobre terreno instável e marcado por clivagens pro- fundas, facto que só contribui para tornar o projecto mais interessante, ambicioso e arrojado. Em segundo lugar, e face às inúmeras diversidades apon- tadas, o tempo de negociação de cada etapa, no sentido de atingir pontos comuns, é francamente demorado e revela ao exterior, qual open-book, toda a sua hipotética componente estratégica (se é que ainda a tem, ou alguma vez ousou ter). As empresas e os indivíduos sentem-se, eles próprios, reféns

desta inércia e, talvez por isso, menos propensos à criatividade,

à construção de novas ideias e à empresarialidade pró-activa.

Por último, se há aspecto que convém realçar é o facto de a história da Europa, qualquer que seja o grupo cultural em que possamos pensar, ter demorado sempre séculos a construir, o que poderá tornar a União Europeia num projecto à la longue, potenciando a sua paralisia e alargando o fosso que nos separa, queiramos ou não, da economia empresarial mais incubadora do mundo, ou seja, os E.U.A. Todavia, acima de todos estes aspectos e já numa tenta- tiva de encontrar pontos comuns, é possível delimitar dois grandes grupos europeus. Um mais federalista, acreditando que a Europa se pode construir assente num governo supra- nacional, com uma política externa e de defesa comum, uma moeda única e um parlamento com poderes alargados. Outro mais céptico, acreditando na União Europeia sob o ponto de vista estritamente económico e sem que cada estado-nação,

e porque não região, se veja obrigado a ceder autoridade que

deva ser pertença dos vários governos nacionais/regionais. No meio de todo um cenário de génese separatista e, paradoxalmente, muito embora persistam, sejam visíveis e notórias as diversidades climatéricas, orográficas e físicas, excessivas diferenças entre sistemas de saúde e de educação, desníveis acentuados entre poderios económicos e políticos, barreiras sociológicas, religiosas e culturais latentes, proteccio- nismos mais ou menos subtis e passados à prática pelo mundo

empresarial e por cada uma das nações per se, ou por agru-

pamentos sectários, de tipo racial, religioso ou outros, sobe ao palco europeu, e acima de tudo isto, um comprador/consumi- dor, geralmente pró-urbano, com características próprias, unas

e impensáveis face à diversidade de origem, não tendo outra

alternativa senão apresentar-se como o consumidor da Europa (perfil também válido para um consumidor global).

3 .

Do Cliente/Consumidor Padrão

Quer isto dizer que, por entre a diversidade, mesmo se imposta pela continuidade das práticas locais e por diferenças no ser- viço aos vários mercados, até por via dos desníveis infra-estru- turais na base de cada uma das regiões e/ou estados-nação (rodoviários, marítimos, aéreos, ferroviários, unidades de arma- zenagem e redes de informação, entre outros), surge um mer- cado novo (segmento), i.e., um padrão de compra/consumo que, englobando vários outros, acaba por se lhes sobrepor.

4 Georges Chetochine, Estra- tégias da empresa face à tor- menta dos preços - ser con- correncial ou diferencial?, AJE Sociedad e Editorial, Lisboa, 1998.

486

Sinais de homogeneidade

E é a este padrão de consumo europeu, tipicamente pró-

-urbano, que ousamos chamar o consumidor da Europa, pois recebe, como comuns, alguns sinais da homogeneidade que encimam a diversidade reinante, embora possamos pensar que não são estes, ainda, os mais determinantes para a construção do caminho caracterizador do novo perfil de mercado, nomea- damente na indústria alimentar.

Referimo-nos, entre outros, a uma marca ou conjunto de marcas globais, procuradas como sinal de ostentação, caução e/ou garantia de qualidade, nomeadamente quando aumenta

a implicação na compra, muito embora o consumidor já se

tenha habituado a conviver bem, também, com a(s) sua(s)

substituta(s) 4 ; um package publicitário pan-europeu ou global

e de características semelhantes, muito embora o consumidor

padrão dê sinais crescentes de indiferença face a ele, uma vez

que tem tendência a postecipar a decisão de compra para o

local de venda; um conjunto de pontos de venda ou formatos

de distribuição demasiadamente iguais e prototipados (forma-

tos conhecidos da moderna distribuição de base alimentar,

sobretudo), através dos quais aprendeu, ele próprio, a fazer o seu benchmarking e a gerir proveitos. Outros exemplos de natureza semelhante poderiam ser apontados. Sempre que se apresentem ao consumidor da Europa (ou global) um conjunto de soluções repetitivas mas que dêem margem de manobra para alternativas, pela multiplicidade da oferta, ele consegue tirar delas o melhor partido e depressa

as

passa a encarar como previsíveis, gerívéis e só capazes

de

desanuviarem, momentaneamente, a sua eterna monotonia.

Estímulos psicossociológicos comuns

O consumidor da Europa (e global) recebe como sinais ou

estímulos verdadeiramente comuns, para os quais não encon- tra solução, aqueles que o afectam mais fortemente na sua natureza psicossociológica, qualquer que seja a parte da casa europeia (ou global) onde habita:

• um congestionamento urbano (e já não só) crescente e insuportável, em nada importando a localização da me- trópole por onde vagueie, não sendo capaz de encontrar soluções agradáveis para o contrariar, à excepção das efémeras estadas nos paraísos bucólicos a que pode aceder ou com os quais ainda sonha;

• um futuro cada vez mais incerto, um trabalho mais inse- guro, um amanhã nebuloso e perturbado, que o tornam demasiadamente obsessivo no que quer, numa tentativa de chegar não sabe bem onde, mas sendo levado a per- correr, quase sempre, um caminho com o qual convive menos bem;

• um urbanismo selvagem, caótico e agressivo-poluidor, com o qual coabita de forma pouco amistosa, muito embora aparentemente descomprometida, e para o qual também contribui mas que o torna, na maioria das vezes inconscientemente, num dos consumidores ecológicos mais preocupados do planeta;

• um vazio de substância que vai encontrando no(s)

outro(s), como se este(s) não partilhasse(m), também, do mesmo sentimento, tornando-se um cidadão sozinho

e alheado num mundo de gente, transformando a sua

solidão numa permanente repetição de nonsense life, impaciência e, acima de tudo, fazendo emergir uma inca- pacidade total de espera, chegando cada vez mais rapida- mente ao estado de violência. O consumidor da Europa é um verdadeiro umbelico dei mondo, numa total depen- dência do binómio abundância-desinteresse.

O que faz este consumidor da Europa (com perfil global),

acima de todas as diversidades que foram sendo apontadas,

por entre consumos e preferências diversas, e por mais gros- seiro que possa parecer o esboço e cruas as palavras (embora

sob a sua auréola

pró-urbana, a escassez de tempo (provocada pela fast society),

a falta estonteante de paciência para o que o rodeia, uma relu-

tância global a tudo o que ultrapasse a sua própria pessoa, uma incapacidade total para compreender que ele próprio se encontra refém, em certa medida, de um ciclo de vida, um apego material e um receio relativo ao futuro verdadeiramente desproporcionados, uma sobreposição do ter sobre o ser e uma necessidade insaciável de consumo aliado a um cansaço de tudo, porque está tudo (por hipótese) cada vez mais visto,

fortemente sustentado bibliograficamente 5 ) é,

5 Ver, por exemplo, mesmo

se com carácter evolutivo, em: André Tordjman, Straté- gies de Concurrence dam te Commerce: Les Services au Consommaleur, Les Éditions d'Organisation, Paris, 1983; Andersen Consulting, Grocety Dlslribttlion in lhe 1990's:

Slrategies for fast Jlow reple- nisbment, para The Coca- -Cola Retailing Research Group, Europe, 1992; David Walters, RetailManagement, MacMillan Press, London, 1994; Martin Christopher, Marketing Logislics, Butter- worth-Heinemann, London,

1997. percebido e registado 6 .

6

M. Christopher,

logislics.

Marketing

Sendo assim, o consumidor da Europa emerge, por entre inúmeras clivagens e diversidades de base, como algo padro-

nizável e com características pouco interessantes quando posto

a nu. Porém, por mera prudência, vamos abster-nos de entrar

em apreciações subjectivas e mais profundas sobre o padrão psicossociológico encontrado pois, em grande medida, cabe- mos quase todos, com maior ou menor intensidade, inclusive quem se atreve a escrever estas linhas, dentro do mesmo refe- rencial comum. Importa-nos, antes, descrever objectivamente as caracte- rísticas intrínsecas e exteriorizáveis desse padrão, obviamente

488

um alvo de mercado demasiadamente importante para o mundo empresarial, e as economias europeias (e globais) em geral, uma vez que, e por recurso a ele, se podem formular estraté- gias e utilizar atributos adaptáveis ao melhor posicionamento da oferta. Paralelamente à emergência do consumidor da Europa,

e qualquer que seja o movimento do velho Continente em termos de união e/ou integração, as empresas, embora muito reactivas, percebem cada vez melhor a mensagem e, elas pró- prias, desenvolvem esforços (e adoptam movimentações em tudo semelhantes a outras de índole externa e oriundas hoje, sobretudo, do Continente americano) no sentido de alimenta- rem o padrão encontrado.

0 consumidor da Europa

Em síntese, il umbelico dei mondo pode caracterizar-se, de forma sumária, por ser um consumidor com média etária acima dos 30-35 anos e capaz de despender somas avultadas de dinheiro no seu lazer e na(s) sua(s) casa(s). Com mobili- dade tolhida pela falta de tempo ou pela idade avançada pre- fere comprar os produtos commodity (que são cada vez mais) induzido pela proximidade e conveniência. O padrão encontrado, fechado e individualista, vive em agregados familiares reduzidos e torna-se comprador/consu- midor individual, sendo que as decisões de compra/consumo

são muito centrados em critérios de escolha pessoais e basea- dos em determinadas circunstâncias. A variável tempo é forte- mente diferenciadora e capaz de tornar o consumidor infiel a uma marca, ou a um projecto, pelo facto de a substitutibili- dade ser factor latente ante o tempo reduzido. O preço, por seu turno, funciona bem em segmentos de mercado aos quais

o cliente/consumidor perdeu o medo, tout court, sendo que

daí advém muito do sucesso das marcas próprias ou de insígnia vulgarizadas pelas grandes superfícies 7 . Muitas decisões de compra são tomadas de forma impul- siva (seguindo estados tipo 1-3-2, onde figuram processos deci-

1 Ver em: G. Chetochine, op. cit.; José Crespo de Car- valho, Susana Cunha, Marcas do Distribuidor em Portugal:

Manual e Estudo Prático, AJE Sociedad e Editorial, Lisboa, 1998.

489

8

Iks

Rodenck Younger, Logis-

In

Financial

&

1997.

Ttvnds

Hetail

Eiimpcan

Consumcr

Consunier

Times

Goods,

London,

Publishinn,

sivos de âmbito cognitivo-comportamental-avaliativo) e recaem frequentemente sobre produtos não necessários, sendo que

o dispêndio em bens essenciais tem vindo a reduzir-se para

ceder lugar a compras ostentativas, compras para a casa ou compras de produtos de lazer.

A procura por variedade e novidade é uma constante,

sendo que se verifica uma apetência crescente por produtos que incorporam tecnologia (encarada, no sentido amplo, como ciência da técnica), i.e., quer os melhor trabalhados em termos de merchandising, por exemplo, quer os que incorporam possibilidade de entrega em casa, encomenda à distância e/ou estejam associados à compra e pagamento via Web 6 .

A

^

COPIClUSã O

Começámos por referir que quisemos conhecer o cliente/con- sumidor final com o intuito de percebermos como se com- porta o mercado, como as empresas se devem preparar para ele e, por último, se é possível antever, através do seu conhe- cimento, alguma mudança que lhe possa ser induzida, for- mando-o e fazendo-o sair, tanto quanto possível, do binómio redutor e escravizante em que caiu e que se designa por abun- dância-desinteresse.

O padrão encontrado é complexo, é fechado e é difícil,

dir-se-ia que humanamente desinteressante quando analisado

de fora. Não obstante, se pensarmos no que somos e como nos comportamos não podemos esquivar-nos, em muito do que foi dito, a uma imagem de nós próprios. Os 'espelhos'

têm essa dupla virtude, a de nos permitirem o confronto com

o que de bom temos mas, não menos, com o que de pior

corre dentro de nós. Assim sendo, conhecendo-nos a nós próprios poderemos ousar conhecer um pouco do mercado que nos rodeia e do qual fazemos parte, mesmo correndo o risco da miopia de marketing. Tão simplesmente porque, conhecendo-nos a nós próprios estamos sempre a tempo de reduzirmos o peso e a carga negativa que se deposita dentro de nós. Conhecendo-nos

490

a nós próprios podemos pensar, por analogia, que a maioria

do mercado há-de querer o que nós queremos de pior. E, atra- vés desse conhecimento, podemos encarar a possibilidade de nos mudarmos, sendo que assim estaremos a mudar um pouco

o mercado. Porque nós somos mercado. E, como mercado,

temos a obrigação de contribuir para a correcção, para a regu- lação da oferta e para a migração das empresas.

Ou seja, se não queremos compactuar com o mercado, como o conhecemos, temos que ser nós a contribuir para

o

mudar. Por nós. Pelas nossas ideias. Pelas nossas adesões

e

convicções de compra/consumo. Pelo testemunho real de

que não fazemos parte de uma massa humana cujo comporta- mento podemos reprovar e onde alegremente também nos incluímos. Apetece referir Confúcio para dizer que «uma pessoa superior é modesta nas suas palavras, mas inexcedível nas suas acções». Tal como devemos ousar ser.

José Régio 8 3. Modâ

Paulo

Morais-Alexandre'

DESENVOLVIMENTO DE UMA CONFERÊNCIA NA ESCOLA SUPERIOR DE TEATRO E CINEMA, NAS COMEMORA- ÇÕES DO CENTENÁRIO D O NASCIMENTO DO ESCRITOR.

0 .

Introdução

Qual foi a relação de José Régio com a moda? Oos indícios documentais biográficos, releva uma relação com a Indumentária pessoal multo sóbria, multo menos preocupada que a de outros escrito- res, mas igualmente longe do desleixo. Na sua obra, as descrições de vestuário e as referências à moda são parcas e muito limitadas, e nem mesmo a excepção de ter escrito um conto sobre um vestido questiona uma atitude geral de alhea- mento e desinteresse.

A 17 de Setembro de 2001, comemo- rou-se o centenário do nascimento de José Régio. Verificou-se que embora a sua obra venha sendo sistematicamente estudada por investigadores como Eugé- nio Lisboa, alguns aspectos permane-

cem inéditos. Sabia-se à partida que o autor de Poemas de Deus e do Diabo era um notável coleccio- nador de Arte, nomeadamente de Escultura. Nas Artes Decora- tivas, as peças portuguesas tiveram um lugar privilegiado na sua colecção, mas confesso que desconhecia que o escritor tivesse tido alguma actividade relacionada com essa Arte Decorativa por excelência que é a Moda para além da informação de todos conhecida de ter escrito o conto «O Vestido Cor de Fogo».

Assim, o que ora se deixa registado mais não é que o levantamento das referências à indumentária e às suas varia- ções na obra, de José Régio e na sua própria pessoa, pro- curando-se em conclusão caracterizar a postura do poeta em relação à Moda.

1. José Régio e a Moda

Aceitando-se a afirmação do próprio escritor quando, numa carta a Jorge de Sena, considera que as suas melhores foto-

" Professor-adjunto da Escola Superior de Teatro e Cinema.

fíroléría 155 (2002) 493-505

493

' Jorge de Sena e José Ré-

gio,

Correspondência, Lisboa,

Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986, p. 190.

2 Sanl'Anna Dionísio, -Como

vi

Régio desde sempre-,

in

AA. W. , In Memoriam

de José Régio, Pono, Brasília

Editora, 1970, p. 503.

s Joào Pedro cie Andrade,

-O

Homem

e

o

Escritor-,

in

AA.

W. ,

In

Memoriam

de José Régio, p. 293.

494

grafias haviam sido publicadas no volume antológico editado pela Tavares Martins 1 e tentando-se, a partir desta preciosa fonte iconográfica, traçar um perfil psicossociológico do autor no que diz respeito à indumentária que envergou ao longo da vida, pode-se desde logo considerar que o panorama não é particularmente animador, para mais se cruzadas as poucas referências obtidas, com a evidência de uma relação privile- giada com a Moda, da parte doutros autores, quer seus con- temporâneos, quer de épocas anteriores.

Assim, pode desde logo afirmar-se que Régio nunca foi

o protótipo de escritor Dandy como o fora Almeida Garrett,

nem sequer o elegante como o haviam sido Eça de Queiroz ou Ramalho Ortigão, mas pelo inverso tem preocupações que

o afastam do género desleixado cultivado pelo heterodoxo Luiz Pacheco.

Anjo

um correcto retrato:

Sant'Anna

Dionísio traçou

do autor

de Jacob

e

o

José Régio, exteriormente, é um vulto meão, de cara de donzel. Não tem nada do ar arrebatado e titânico que salta dos seus versos.

com

Não há ninguém mais cortez do que ele. Atura - é o termo

igual benevolência os importunos, os medíocres, os fúteis e os pares. Gosta mais de ouvir do que de falar. E quando fala foge

a discutir. Não se exalta, nem perde a >linha» nunca. Mas o certo

é que, às vezes, o seu alongado rosto de adolescente toma jeitos inopinados de máscara trágica 2 .

-

Efectivamente este retrato tomado aos 25 anos, manter- -se-ia pela vida fora, com a óbvia excepção do ar de donzel, que seria perdido e duma falta de paciência para aturar, quer os medíocres, quer os próprios pares, que se viria a desenvolver com a idade e que é expresso à saciedade no seu diário íntimo. Pode pois levantar-se a questão se a aparência exterior reflectia quer o carácter quer a obra de Régio; a resposta ficou liminarmente registada no texto «O Homem e o Escritor» da autoria de João Pedro de Andrade: «Poucas vezes, pois, se

poderá encontrar escritor cuja vida esteja mais estreitamente

ligada à obra produzida» 3 .

Mas essa vida não seria tumultuosa, nem sequer vaga- mente agitada, como a de outros autores. Pelo contrário,

«

.Régio evitaria todo e qualquer acidente na sua vida privada,

a

fim de mais

deleitosamente se entregar à sua obra» 4 .

E é essa a postura vestimentar de Régio: absolutamente correcto, absolutamente clássico, absolutamente neutro.

Raras são as imagens de Régio, em que este aparece sem estar formalmente vestido, embora por vezes existam indícios

de algumas concessões ao conforto. Assim sucede numa foto-

grafia datada de 1957, onde o escritor surge acompanhado de

seu pai José Maria Pereira Sobrinho e seus irmãos João e Júlio.

Aí verifica-se que todos envergam fato de três peças, ou seja

calças, colete e casaco, enquanto que Régio substituiu o formal colete do fato, por um mais confortável casaco de malha 5 .

No geral vestiria fato, com camisa invariavelmente branca

e com gravatas particularmente sóbrias, numa postura aliás não

muito diferente da do seu confrade presencista Miguel Torga. Por vezes substituía o fato pelo menos formal paletó escuro com calças de fazenda. Para trabalhar em casa aligeirava o vestuário, largando a gravata e recorrendo aos casacos de malha como abafo, conforme fotografia de Régio à sua mesa de trabalho da autoria de Manuel de Oliveira 6 .

Não se encontrou, quer nas Páginas do Diário íntimo, quer na sua correspondência 7 , referência às roupas que decerto transportaria consigo no trânsito frequente entre Portalegre

e Vila do Conde. Certamente teria roupa pessoal nas duas

casas, mas pode especular-se se nestas viagens levaria consigo pelo menos uma mala com objectos pessoais e alguma roupa:

O que é certo é que com o carácter metódico que Régio

evidencia, o fazer dessa mala estaria longe das características tumultuosas que encontramos descritas n'«0 Vestido Cor de

ao

Fogo»: «

acaso, de roupa minha que remexi nas gavetas

fui

buscar

uma

pequena

mala;

enchi-a,

» 8 .

quase

2 .

A moda na obra de José Régio

4 ibidem, pp. 293-4. Veja-se

a este propósito a descrição do dia em que não come- morou os seus cinquenta e

hoje 58

anos. Aqui estou sozinho,

âs

meu quarto da casa de

Mais

ninguém [

Maria está fora. No ano pas- sado, ainda o convidei a ele e ao Orlando, - fomos

almoçar juntos. Resolvi, este ano, passar inteiramente o dia como qualquer outro. Almocei só, tomarei um leite

(José

à

porque o João

madrinha Libânia [

seis horas da tarde, no

oito anos: -

faço

]

]

hora

do

jantar

Régio, Páginas do Diário íntimo, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000, p. 342).

5

AA, W. , In Memoriam José Régio, s.p.

de

Manuel de Oliveira, «José

Régio à sua mesa de traba-

W. , In Memo-

de José Régio, p. 373.

in AA.

lho-,

riam

7

Vide a título de

a

Régio,

citada

exemplo

e

Sena

obra

Correspondência.

* José Régio, -O Vestido Cor

de Fogo-, in Histórias de Mulheres, Contos e Novelas, Lisboa, Imprensa Nacional- -Casa da Moeda, 2000, p. 200.

Procurar referências ao vestuário ou à Moda n'«0 Vestido Cor

de Fogo» pareceria tarefa fácil, mas uma leitura atenta da obra

495

vem provar exactamente o contrário, já que essas referências são mínimas, esparsas e pouco elucidativas, mesmo quando José Régio se torna mais descritivo.

9 José

in Biografia, Editora, ed. de

Régio,

-Experiência-,

s.l., Portugália 1969, p. 36.

10 José Régio, -O Mane-

quim-, in Biografia,

36.

p.

11 Régio, Páginas do

íntimo,

p. 341.

12

Ibidem.

Diário

Poesia

Na Poesia apenas se podem encontrar raras alusões a peças

de indumentária, por vezes procurando a expressão, como por

9 ou «Modelei-o

num fraque bem talhado / Que lhe vincasse os gestos e a esta-

tura» 10 , mas nunca existindo qualquer concessão à descrição.

exemplo «

frio

manto de brocado gasto

»

Teatro

Procurar no Teatro de Régio encontrar descrições de peças de

indumentária é tarefa inglória, já que estas são praticamente inexistentes e embora nas didascálias exista frequentemente

a referência à composição do cenário, não há sequer a des- crição de uma peça de roupa.

No entanto não deixa de ser sabido o grau de exigência

a este respeito do autor de Benilde, que tantas vezes o levou

a negar a subida à cena de textos seus, conforme as suas próprias palavras: «Continuo a receber convites de Grupos de Teatro Experimental para representação de peças minhas. Infelizmente tenho que lhes dizer não! Infelizmente esses

Grupos não podem dispor dos recursos

mesmo a afirmar, a propósito de um pedido de José Cayolla

cenica-

mente a peça exige um palco vasto, um desempenho difícil

]

relativo a Jacob e o Anjo, que para que se «

exigidos» 11 . Chega

realize

e condigno, cenários e guarda-roupa ricos, efeitos de luz [ Muito dinheiro. 12

Contos e Romance

É nos contos e nos romances que, por vezes, Régio se estende

nas descrições das características das roupas que as suas per- sonagens envergam.

496

Em «Davam Grandes Passeios aos Domingos», Régio dá ao leitor alguns elementos da indumentária na época do final da 2. a Guerra Mundial. Assim, quando Rosa Maria desembarca na

estação de Portalegre, o registo de um artigo obrigatório, também

na bagagem de uma

Um aspecto a que Régio recorria para falar de riquezas passadas era a referência à preservação de velhas colecções de vestidos. Este aspecto merece ser analisado, já que daí se podem tirar ilações curiosas. Assim, numa situação de ruína pode-se recorrer à venda das propriedades e dos diversos bens móveis, mas verifica-se que o valor do vestuário em

segunda mão é absolutamente residual, nomeadamente o ves- tuário de Alta Costura, para o qual não existe mercado de usados; assim estas peças não são alienadas, situação que Régio regista por diversas vezes. Desta forma e ainda em «Davam Grandes Passeios aos Domingos», a arruinada tia Vitória, « da sua brilhante existência passada, conservara sempre algumas

jóias, meia dúzia de bons vestidos »

Estas jóias a que o autor se refere não são peças parti- cularmente valiosas, já que, se tivessem existido, teriam sido certamente vendidas, para assegurar a subsistência. Tratar-se-ia, pois de meros artefactos sem outro valor que não o simbólico e cuja venda logicamente não compensaria. Régio podia mesmo estar a referir-se à bijutaria que se disseminou a partir do primeiro quartel d o século XX. Extrapolando, pode também afirmar-se, sem cair em erro grosseiro, que recorrentemente o escritor vila-condense evoca velhos guarda-roupas démodées para mostrar decadência, inépcia, que o autor indubitavelmente associa à incapacidade das mulheres obterem sustento após a morte do marido ou pior, perante a possibilidade de permanecerem solteiras até à idade em que o casamento se torna impossível, o que leva a uma situação a raiar a loucura como o caso de menina Olímpia em «Menina Olímpia e a sua Criada Belarmina», da qual é traçado o quadro de decadência e ridículo mais com- pleto a partir das trapagens que envergava:

caixa do chapéu 13 .

jovem rapariga era a

l4 .

vestidinhos

primaveris-. Pois não vão bem às suas faces róseas,

menina

aos seus cabelos negros? Assim de há muitos anos veste

13 José Régio, -Davam Gran- des Passeios aos Domingos-, in Histórias de Mulheres, p. 25.

14

Ibidem,

p. 29.

497

15 José Régio, -Menina Olím-

pia e a sua Criada Belar- mina-, in Histórias de Mu- lheres, p. 107.

16

"

18

19

Ibidem,

Ibidem,

Ibidem,

Ibidem,

p. 108.

p. 107.

p. 104.

p. 102.

20 Régio, -Davam Grandes Passeios aos Domingos-, pp. 30-31.

Olímpia os mesmos vestidos rosa-chá, azul-celeste, verde-mar, só um pouco desbotados, hoje: sim um pouco desbotados! Só com as rendas e guarnições um pouco amarrotadas; talvez quase rotas

aqui e além

15 ,

tendo-se

leques e luvas, até capinhas, bichos para o pescoço » acrescentando ainda que

salvo

«

os

vestidos,

os

sapatos,

os chapéus,

até

16

trapagem foi de ela própria, foi de sua mãe, foi d e sua tia.

para

menina Olímpia, esses gastos ouropéis continuam na moda, frescos

e galantes, como há trinta, há sessenta anos 17 ,

Para a menina Olímpia, há muito não corre o tempo [

aquela

]

o que fica complementado com uma pintura desadequada,

apelida de teatral 18 e que

levava os «labregos» a dizer que «O diacho da mulher parece

um Entrudo» 19 .

Régio não nos fala da sua postura em relação à Moda, mas descreve perfeitamente as reacções às suas mudanças,

pelas gerações mais idosas, nomeadamente quando afirma que

Don a Alice

exibisse vestidos ora demasiado curtos ora demasiado com-

pridos, (imposições da moda) »

Embora muito raramente, o autor alarga-se na descrição de um arranjo; aqui vem à tona o Régio coleccionador que mais do que descreve, inventaria quase arqueologicamente as peças de indumentária:

« .a geração d e tia Vitória [não poderia] apoiar que

com um vermelhão que o autor

20 .

tia

Vitória

[

]

saiu-se com o capricho de querer fantasiar

Rosa Maria [

]

Abriu o imenso guarda-vestidos [

]

e pôs-se a tirar

498

os preparos. Surgiu um velho e lindo vestido azul pálido, com

preciosos raminhos cor de oiro, - relíquia de qualquer bisavó. Guarnecido a franzidos duma larga fita de seda marfim antigo,

levantava-se atrás em tufados e laços [

um boca-

sapatinhos de cetim, que não ficavam mal [

dinho largos; meias a dizer; fitas para enastrar nos cabelos com

flores de veludo, um leque de marfim; e até um lindo colar (fossem

ou não valiosas as pedras) [

O decote era bastante

ousado, via-se aparecer o fino sulco entre os seios solevados pelo

meteu-lhe no decote uma rosa de renda

corpete espartilhado [

saiu-se ainda com finos

]

]

embora

].

A toilettte levou-lhes muito tempo:

].

Era preciso ajustar, coser aqui e além [

]

que velava o nascer das suaves redondezas.

ombros uma capa muito

dos, -

aos

rica, toda veiada de reflexos marmórea -

, 21 .

Pôs-lhe depois,

também desencantada no maravilhoso guarda-vestidos

Descrita a toilette de forma quase sistemática, nada nos diz o autor da forma como o vestido interagiu com o corpo, ou seja como a roupa vive. Mas podemos ter uma ideia muito aproximada da toilette que nos foi descrita, recorrendo ainda ao uso da tournure

e com

eventualmente Arte Nova e que poderia ser assinada por um

criador francês como Doeillet ou mesmo pelos herdeiros da célebre Casa Worth. Por vezes manifesta-se alguma incoerência na sua obra quando tem que tratar o tema da indumentária, assim em

«Sorriso Triste», ao descrever Dulce refere que o « arranjo do cabelo dizia com o seu todo; embora um pouco fora de

.que, parece,

estava na moda era o seu vestido, aliás um belo vestido que

surpreendia. Mas [

quase monacal?», acrescentando: «Dir-se-ia, também, que outrem lhe impusera esse belo vestido para ir a um serão tão distinto,

- sendo embora do seu gosto o corte monacal» 23 .

Régio não tinha que justificar quais os mecanismos que

o levavam a fazer qualquer destas afirmações. Todavia, não só os mesmos não são óbvios, como os pressupostos em que parece ter-se baseado se afiguram erróneos.

As tendências da Moda, reflectem-se nos seus textos. Assim e ainda em «Sorriso Triste» narra uma soirée dançante num casino de praia nos arredores da cidade do Porto, onde

jazz» com as mulheres e m « .toilette

24 .

de grande gala - as costas nuas, os braços nus, o colo nu »

Esta descrição reflecte uma das mudanças mais significa- tivas da forma de dançar, o que levaria a modificações vesti- mentares extremamente importantes, a nova forma de dançar agarrado, impensável até então e que teria como implicação a passagem dos decotes dos vestidos para as costas.

se dançava « .ao ritmo d o

moda

anos d o século XX,

espartilho,

típica

dos primeiros

»

22 para logo d e seguida afirmar qu e o «

]

não seria, também, excessivamente sério,

21

Ibidem,

pp. 49-51.

José Régio, -Sorriso Triste-, in Histórias de Mulheres, p. 82.

23

2Í

Ibidem,

Ibidem,

p. 82.

p. 96.

499

25 António Ferro, Viagem à volta das Ditaduras, Lisboa, Empresa -Diário de Notí- cias-,1927, pp. 363-4. Vide a este respeito, Paulo Morais- -Alexandre, -António Ferro - O Traje e a Moda-, Brotéria 141 (1995) 397-411, Lisboa, onde o texto citado é trans- crito.

No entanto, considera-se que esta referência não tem de

forma alguma a riqueza e sobretudo a força da descrição que

o modernista António Ferro, em Viagem à Volta das Ditadu-

ras, traçou da ligação do traje à dança na era do Jazz 25 . A agitação frenética de Ferro, dá lugar à contenção em Régio, podendo ver-se dois mundos em confronto à volta de um vestido e uma mesma dança. Seria Régio profundamente conservador? Efectivamente pode-se considerar que o que em Ferro surgia como moder- nidade, nomeadamente o Jazz, fenómeno cosmopolita, arauto de novas e melhores realidades, via Régio decadência, relaxa- mento de costumes, associado à música que as prostitutas de casino dançavam quando na busca de clientes.

A questão da elegância

O interesse, ou falta dele, de José Régio relativamente às osci-

lações do gosto a que se convencionou chamar Moda é bem evidente quando se confronta com o conceito de elegância em

O Jogo da Cabra Cega. Discorrendo a propósito da compra recente de um chapéu cinzento-pálido pela personagem Luiz

Afonso, refere o narrador que este lhe conferia um ar tal, que

o assemelhava ao príncipe de Gales, isto no entender de uma personagem que se arrogava saber dessas matérias:

26 José Régio,/ego da Cabra

Cega, Coimbra, Edições -Pre- sença-, 1934, p. 183.

Era um chapéu cinzento-pálido, recentemente comprado; e que o fazia assemelhar-se ao Príncipe de Gales - no autorizado entender do Celestino. Fossem lá saber que razões tinham levado Celestino a tomar o Príncipe de Gales por supremo árbitro das elegâncias! Ou que relações estabelecera êle entre a hipotética elegância do

Príncipe de Gales (talvez êste simples título - o Príncipe de Gales - sugerisse ao Celestino um determinado ideal de elegância) e a que

era conferida ao Luiz Afonso pelo seu

chapéu cinzento-pálido! 26 .

Aquela afirmação pode levar à conclusão de um alhea- mento absoluto da parte do autor desta matéria. Não há dúvidas sobre qual dos herdeiros do trono inglês era referido, o príncipe Eduardo, posteriormente rei com o

500

número oitavo daquele nome e ainda mais tarde, após a abdi- cação, Duque de Windsor, filho do rei George V, que gover- nou entre 1910 e 1936. Descontando os posteriores escândalos amorosos que há data ainda não se haviam sucedido, lembre-se que a obra

é publicada pela primeira vez em 1934, o príncipe Eduardo

havia-se indubitavelmente afirmado como o grande árbitro do gosto europeu e até norte-americano, sendo seguidas as suas propostas vestimentares, mesmo as mais insólitas, sem serem

sequer discutidas já que se partia do princípio que o príncipe de Gales sabia melhor 21 . Tal aconteceu por exemplo quando

o futuro Eduardo VIII introduziu o uso de sapatos de camurça castanhos com fatos azuis escuros 28 .

Voltando ao texto de Régio, será abusivo considerar que

a afirmação transcreve uma dúvida do próprio autor? Efectiva-

mente analisadas as referências à indumentária na obra de Régio verifica-se a existência de mais dúvidas, às quais o autor não procurava sequer encontrar respostas, já que o assunto manifestamente não lhe interessava.

Os mecanismos da moda

No romance Príncipe com Orelhas de Burro há no entanto um momento excepcional na obra de Régio, que embora não alterando o que se disse anteriormente, indicia alguma sensi- bilidade para o assunto dos mecanismos da Moda. Assim, perante a absurda universalização do uso do tur- bante, que o leitor sabe motivado por um defeito físico do príncipe Leonel, primeiro expandindo-se para a corte que gra- vitava à volta da família real e depois para os que tinham pretensões a aristocratas, Régio descreve o percurso que vai do aparecimento de uma nova tendência à sua generalização:

De modo que, por uma delicada, e, neste caso, inconscientemente genial adulação, desde a mais tenra idade todos os filhos dos nobres da corte haviam passado a usar turbantes, que mantinham

em toda e qualquer eventualidade 2Í> .

21 -Whatever the Prince wore, every man of his generation wanted to wear, though trying to keep up vvith him could be as bewil- dering as it was expensive. He would not only appear

in several outfits a day, but he would keep it up week

after

by the Prince' became the catch-phrase of the West End shops, and then of the world. 'His fair and clean- cut goocl looks were suffi- cient to make him an idol, considering his position,' an American critic summed up, 'but he possessed just that combination of conventio- nal good taste and siight but never exaggerated whimsy to make him a fashion idol.' With perhaps a touch of exasperation, Mens Wear in New York reported that the average young man in Ame- rica is more interested in the clothes of the Prince of Wales than in the clothes of any individual on earth'- (Richard Walker, Savile Row, New York, Rizzoli Inter- national Publications, Inc., 1989, p. 94).

(

week.

]

'As

worn

28 -The Duke of Windsor once caused a sensation by wearing brown suede shoes with a dark blue suit. But when a bystander expressed surprise at this sartorial faux pas, one of the Duke's friends justified it thus: 'It would be wrong if it were a mistake. But the Duke knows better - so it's alright'- (Paul Keers, A Gentleman's War- drobe, Londres, Weidenfeld & Nicolson, 1987, p. 6l).

29 José

com

Lisboa,

Limitada,

81.

p.

Régio,

O

de

Orelhas

Editorial

1946

{! '

Príncipe

Burro,

Inquérito

ed.),

501

Mas como havia surgido a Moda?

30 ibidem, pp. 81-2.

31 Cf. Michael Batlerberry e Ariane Batlerberry, Fashion The Mirror of History, Lon- dres, Columbus Books, 1982, pp. 28-9. Atenção: nào se confunda aqui uma moda documentada enquanto tal, com as características estéti- cas maneiristas da Arte no reinado do faraó Akénaton, caracterizada por um alonga- mento da figura. Um outro exemplo de um defeito tor- nado moda, pode ser encon- trado na corte portuguesa do final do século XIX: a inca- pacidade da Rainha Dona Amélia, de origem francesa, em dominar a língua portu- guesa sem sotaque, levou a que a sociedade da corte copiasse a sua forma pecu- liar de falar, acentuando os erres, modismo que perma- neceu na sociedade casca- lense até aos anos sessenta d o século XX.

32 Régio,

Orelhas

502

O

Príncipe

com

de

Burro,

p.

82.

Reparara qualquer nobre dama da corte, mãe de família, que o sítio onde toda a gente tem suas orelhas naturais e normais era, na cabeça do príncipe, o mais embrulhado em ricos tecidos. De forma que nem pontinha das suas certamente naturais e normais orelhas fora alguma vez vista! Vá, então, de capricharem as mais elegantes donas da coite em nada deixar ver das orelhas de seus nobres

filhos [

Com a tendência em todos os tempos manifestada por

certos excêntricos, certos cansados, a exagerar as inodas, - até no

pino do verão exibiam os moços e mocinhos fidalgos as cabeças

escaipulosissimamente entroixadas. [

Da nobreza passara a moda

à burguesia com pretensões de nobreza; e da burguesia com pre-

pretensões a burguesia 30 .

tensões d e nobreza passara a o pov o co m

]

]

Efectivamente uma das constantes da moda consiste exactamente na existência de indicadores de gosto, que são seguidos e imitados até nos próprios defeitos, que por vezes são tomados por bons exemplos a copiar. A título de exemplo o defeito de formação da cabeça das princesas filhas do faraó Amenhotep IV ou Akhenaton, motivado pelo trauma do parto, que foi seguido pelas damas da corte que enfaixavam os

crânios ou usavam postiços com aquele fim 31 . O autor seguia depois a sua descrição apontando os únicos que não seguiam aquelas insólitas modas e quais as razões da rejeição:

Já só os rústicos do campo, os miseráveis dos bairros pobres, os misantropos à margem do mundo, usavam então cabeça e orelhas ao léu: Uns, porque desconheciam as modas, e se vestiam como fosse mais conveniente aos seus trabalhos; outros, porque mal tinham com que cobrir o indispensável; os últimos, porque des- prezavam tais preocupações, ou se compraziam até em andar ao invés delas 32 .

Aqui é efectuada uma sistematização relativamente com- pleta do fenómeno de rejeição das modas, a saber: alhea- mento, incapacidade financeira, necessidade de vestuário ade-

quado à profissão e por último conhecimento seguido da não aceitação, contrariando as tendências vigentes.

Régio registou ainda sobre o desconforto e a insensatez de certas modas que chegavam a causar dano à saúde:

Mas será natural ou cómodo, usar cabeleiras postiças sobre as

verdadeiras, deslavar amarelo o cabelo negro, entalar a barriga entre varetas armadas, aleijar os pés comprimindo-os em coiro, furar as orelhas, os beiços, o nariz, para lhes meter penduri-

calhos

?

ii .

Se o texto viu renovada a sua actualidade com a vulgari- zação do piercing 34 , não é aventada qualquer explicação para um fenómeno que mereceria reflexão aprofundada.

0 Vestido Cor-de-Fogo

33

Ibidem,

p. 82.

34 Veja-se a este respeito a obra de Véronique Zbinden, Piercing - Ritcs Ethniques Pratique Modeme, Lausanne, Favre, 1997.

Da prosa regiana a descrição mais significativa é efectivamente a do tal vestido «Cor-de-Fogo»:

num casaco de luxo que não enfiara.

[

Tinha um vestido cor de fogo, sem enfeites, que, porém, lhe mol- dava todo o corpo franzino e sólido, como se ao mesmo tempo

o cobrisse e o desnudasse. Mas os braços ficavam-lhe nus, com-

ela deixou cair-lhe aos pés o agasalho de luxo.

embrulhada

]

Sorrindo [

]

pletamente nus os ombros, e a nu o começo dos seios, entre quais brilhava uma rosa de crisólitas. Sempre sorrindo Maria Eugênia

voltou-se. O decote descia-lhe ainda mais, as costas ficavam-lhe

Era um milagre aquele vestido segu-

rar-se, não cair. Por isso mesmo a imaginação via inteiramente nua aquela mulher, (por baixo dele parecia não haver nada) embora

Sim, estava provocadoramente bela! -

e

só o estivesse em parte.

nuas quase até à cinta [

]

[

]

sabia-o

35 .

Nada mais, ou talvez tudo, assim na sequência desta des-

não

sabia e na realidade aquele vestido cor-de-fogo escandalizaria alguém. A mim, escandalizava profundamente» 36 .

E aqui pode surgir a interrogação sobre o carácter auto- biográfico de tal afirmação. Não há dúvida de que neste caso, era efectivamente Régio quem falava.

crição a frase mais significativa e mais reveladora: «

Eu

35

Régio, -O Vestido Cor de Fogo-, p. 194.

36

Ibidem,

p. 194.

503

-Pequena

Comédia-, in Histórias de

Mulheres,

• José

Régio,

p. 209.

José Régio, -Os Alicerces

da Realidade-, in Há mais Mundos, Contos c Novelas,

p.

331.

39

Ibidem,

p. 331.

40

Roland Banhes, Sistema da Moda, Lisboa, Edições 70, ed. de 1999, p. 15.

41

José Régio, -Os Três Vin- gadores ou Nova História de Roberto do Diabo-, in Há mais mundos, p. 247.

42

Ibidem,

p. 247.

43

Régio, -Menina Olímpia e a sua Criada Belarmina-, p. 107.

504

Conclusão

Nem uma vez a referência a uma marca, a um costureiro célebre, quer do estrangeiro, quer português, nem sequer a

identificação de uma modesta costureira de bairro ou de um alfaiate citadino, sendo a referência mais explícita a indicação em «Pequena Comédia- de que Estefânia Soares Medeiros, morena e seca de carnes, mulher abastada que vivia numa

vila perto da cidade do Porto «

» Relativamente à indumentária masculina a informação é limitada ao mínimo indispensável, quase ao lugar-comum, embora por vezes fixando momentos curiosos que podem documentar comportamentos já desaparecidos, como quando

em «Os Alicerces da Realidade», o modest o funcionário Silves-

tre, que posteriormente viria a enlouquecer « mestre André alfaiate para limpar e passar a ferro fatozinho escuro que era o melhor que tinha »

Importa referir por fim e ao nível daquilo a que Roland

Barthes chama «vestuário escrito» 40 a utilização de vocábulos

que à época haviam já desaparecido da oralidade, como por exemplo «labita» , «glabra» ou «ouropéis» entre outros,

embora não se encontre de forma alguma um vocabulário particularmente extenso ou sequer erudito relativamente à indumentária.

A sua descrição é pois, tendencialmente limitada, desti-

nando-se a apontar meramente a inteligibilidade da mensa-

gem que tenta transmitir e que jamais está relacionada com

o vestuário, seja função é mero veículo.

Analisada a postura relativamente à indumentária de Régio, verificou-se que a correcção do vestuário era impor- tante para o autor. Com efeito não se encontrou um só registo, quer fotográfico, quer escrito, onde o seu vestuário apare- cesse em desalinho. No entanto, pode afirmar-se que tal não constituía preocupação de maior. Constata-se ainda que as preocupações que sempre teve de riqueza na simplicidade e

e

vestia

as melhores coisas,

feitas na cidade

37 .

mandara

ao

38 o «

.seu

39 .

depuração, tornaram este tema quase inexistente na sua obra. Pode pois concluir-se que as historietas de um coleccio- nador de Antiguidades não incluíram jamais o registo de uma visita às adeleiras, pelo que, da sua obra, à qual sacrificou toda a sua vida, se salvou um vestido de mulher, um vestido cor-de-fogo.

Ética naturalizada, cem anos depois dos Principia Ethica de G. E. Moore

COMUNICAÇÃO APRESENTADA N O I ENCONTRO NACIONAL DE FILOSOFIA ANAÚTICA, FACULDADE DE LETRAS, COIMBRA, 16-1 8 MAIO 2002 .

r \ obra Principia Ethica de G. E. Moore, publicada em 1903, tem sido geralmente considerada a que maior influência teve no pensamento ético anglo-americano, sobretudo na primeira metade do séc. XX. Mary Warnock reconhec e qu e «se tornou habitual considerá-la a fonte da qual fluiu a subsequente filosofia moral do século, ou pelo menos, a maior influência nesta filosofia moral» 1 . De

acordo com James P. Sterba, «todos estão virtualmente de acordo que a ética contemporânea começa com o estudo de G. E. Moore sobre a natureza da ética» 2 . Paul L. Farber considera que o pensamento ético de Moore «define um ponto de partida fundamental para a ética do séc. XX» 3 . Paul Thompson inclui a «falácia naturalista» analisada por Moore como uma das questões principais entre «alguns dos temas contemporâneos centrais» 4 .

Os estudos sobre o pensamento ético de Moore suce- deram-se ao longo do século XX, e continuam ainda hoje 5 . Contudo, este acordo geral sobre a influência da obra de Moore não corresponde a um semelhante acordo sobre o valor de algumas das ideias éticas centrais que nela são defendidas, sobretudo as que se relacionam mais directamente com o seu antinaturalismo.

Descrevem-se as questões pelas quais Moore recusou o naturalismo ético; passam-se em revista as discussões sobre a falácia naturalista denunciada por ele; e os novos estudos impulsio- nados pelo recente renascer do naturalismo ético evolucionista e das ciências cognitivas que voltam a defrontar-se com os Principia na questão da relação entre facto e valor. Em conclusão, a polé- mica à volta de Moore, mais do que uma vitória exclusiva dum dos lados, incentiva ao desenho dum novo paradigma do que é ser humano que dê, na ética, o espaço devido à dimensão corpó- rea sem cair num empirismo simplista.

1 Mary Wamock, Ethicssince 1900, London, Oxford Uni- versity Press, 1960, p. 16.

2 James P. Sterba, Contem- porary Ethics. Selected Read- ings, Englewood Cliffs, New Jersey, Prentice Hall, 1989,

p. 1.

3 Paul L. Farber, The Temp- tations ofEvolutionaty Ethics, Berketey, University of Cali- fórnia Press, 1994, p. 108.

" Paul Thompson (ed.),

Issues in Evolutionaty Ethics, New York, State of New York University Press, 1955,

p. 19.

5 Alan R. White, G. E. Moore. A Criticai Exposition, Oxford, Basil Blackwell, 1958; James

H. Olthius, Eacts, Values and

Ethics: A Confrontation ivith 20'' Century British Moral Philosophy, in Particular G. E. Moore, Assen, Van Gorcum, 1968; E. D. Klemke (ed.), Studies in the Philo-

Chi-

sophy

cago, Quadrangle Books,

of

G. E. Moore,

Professor da Faculdade de Filosofia de Braga, da Universidade Católica Portuguesa.

Brotéria

155 (2002) 507-519

507

1969; A. Ambrose & M. La- zerowitz (eds.), G. E. Moore:

Essays in Relmspecl, London, Roulledge and Kegan Paul, 1970; John Hill, The Elhics of G. E. Moore: A New fntcr- prelalion, Assen, Van Gor- cum & Co., 1976; Paul Levy, Moore: G. E. Moore and lhe Cambridge Aposlles, New York, Holt, Rhinehart and Winston, 1979; Richard Soghoian, The Elhics ofG. E. Moore and David Hume:

The Tivalise as a Response lo Moore's Refulallon ofElhical Naluralism, Washington, DC, University Press of America, 1979; Shukla Sarkar, Episle-

mology

Moore. A Criticai Evalua- tion, Atlantic, Humanilies Press, 1981; Tom Regan, Bloomsbury's Prophet, Phila- delphia, Temple University Press, 1986; Dennis Rohaiyn, The Reluctant Nalurallst. A Study of G. E. Moore's Prin- cipia Elhica, New York, University Press of America, 1987; Robert Peter Sylvester, The Mora/ Philosophy of G. E. Moore, Philadelphia, Temple University Press, 1990; Thomas Baldwin, G. E. Moore, London, Roulledge, 1990; Brian Hutchinson, G. E. Moore's Elhical Theory. Rcsislance and Reconcilia- lion, Cambridge, Cambridge University Press, 2001.

and

Elhics

of

G.

E.

6 G. E. Moore, Principia Elhica, Cambridge, Cam- bridge University Press, p. 39.

7

Ibid.,

p. 20.

H Incluído no volume de G. Moore Pbilosophical Sm- dies, London, K. Paul, 1922, pp. 253-276.

9 O ensaio de Broad, e a resposta de Moore sob o título -Meaning of 'natural'- foram publicados em P. A. Schilpp (ed.), The Philo- sophy of G. E. Moore, La Salle, Illinois, Open Court, 1942, pp. 43-67 e 581-592, respectivamente. Este volu- me inclui dezanove ensaios sobre a obra de Moore, uma sua autobiografia, e uma resposta do autor àqueles

Ibid., p. 582.

508

1

.

O antinaturalismo dos Principia Ethica

O

antinaturalismo dos Principia constitui uma das principais

linhas de fundo do pensamento ético de Moore. Nos Princi- pia ele afirmou que a Ética Naturalista é a característica das

teorias que «devem a sua prevalência à suposição que bom pode ser definido por referência a um objecto natural» 6 . Moore esclarece nesta obra as suas objecções contra o natu- ralismo:

As minhas objecções contra o Naturalismo são, em primeiro lugar, que ele não proporciona qualquer razão, muito menos uma válida razão, para a existência de qualquer princípio ético; e neste aspecto ele falha também em satisfazer as exigências da Ética enquanto estudo científico. Mas em segundo lugar afirmo que, embora não dê nenhuma razão para a existência de qualquer princípio ético, ele é causa da aceitação de falsos princípios éticos; e neste aspecto, é contrário a todos os objectivos da Ética 7 .

Mais tarde, voltou ao assunto, especialmente em «The conception of intrinsic value» (1922) 8 e depois ainda em res-

posta a um ensaio de G. D. Broad, em 1942. Este, intitulado «Alguns aspectos das ideias éticas de Moore», é o primeiro dos

que integram um volume de estudos sobre a obra de Moore. É significativo que as três questões analisadas por Broad sejam

as seguintes: a refutação por Moore do egoísmo ético; a sua

distinção entre «natural» e «não-natural», e a sua tese de que «bom» é uma qualidade não natural. É a problemática do natu-

ralismo que acaba por dominar nesta análise, e Moore sen- tiu-se na necessidade de lhe dar uma extensa resposta incluída no mesmo volume 9 . Moore reconhece que Broad tem razão em algumas das críticas que lhe faz, nomeadamente sobre o facto de não ter procedido nos Principia a uma elaboração clara do que considera uma propriedade não natural: «Con- cordo que em Principia não dei qualquer explicação aceitável do que entendo quando digo que 'bom' não era uma proprie- dade natural» 10 .

0

naturalismo de Moore nos Principia

na sua

abordagem

Ethica

das seguintes

sente sobretudo

pre-

questões:

está

1

- Objecto da Ética. Moore considera que

a

definição de 'bom' é a questão mais fundamental de toda a ética.

O

que se

entende

por 'bom'

é

[

]

o único objecto simples do

pensamento que é peculiar à Ética. A sua definição é, portanto,

o ponto mais essencial para a definição da Ética 11 .

Todavia, Moore conclui que

se nos perguntarem 'o que é bom?' a nossa resposta será que bom

é bom e ponto final na questão. Ou ainda, se nos perguntarem 'como havemos de definir 'bom'?, responderemos que não pode

ser definido e que

assunto 12 .

é tudo

o

que

temos a dizer sobre o

«Bom» é indefinível porque é inanalisável. É pois uma proprie- dade intuitiva. É também uma propriedade nào-natural.

2 - Falácia

naturalista.

Moore admite que

pode ser verdade que todas as coisas que são boas sejam também

E é um facto que a Ética tem por objec-

tivo descobrir quais são essas outras propriedades que pertencem

a todas as coisas que são boas. Mas a verdade é que um número

excessivo de filósofos tem pensado que ao enumerar todas essas outras propriedades estava de facto a definir bom, e que essas propriedades não eram 'outras', diferentes, mas se identificavam total e absolutamente com bondade. A esta proposição propomos

que se dê

outra coisa qualquer [

]

o nome de

'falácia naturalista' 13 .

Esta é uma das questões que até hoje nunca deixou de levan- tar polémica, como veremos a seguir.

3 - Refutação

'naturalismo' a

da Ética Naturalista.

Moore aplica o termo

um método específico de abordar a Ética - um método que, enten- dido no seu sentido mais estrito, é incompatível com a possibili-

dade de haver qualquer Ética. Este método consiste na substituição

de

'bom' por uma qualquer propriedade de um objecto natural, ou

de

um conjunto de objectos naturais, substituindo assim a Ética por

O hedonismo, tão característico do pensamento ético de Herbert Spencer, é, segundo Moore, uma modalidade da Ética Naturalista.

15

Ibid.,

Ibid.,

p. 46.

p.

56.

17 George Nakhnikian, -On

the naturalistic fallacy-, in H.-N. Castaneda & G. Nakh- nikian (eds.), Moraiiíy and lhe Ixtnguage of Conduci, Detroit, Wayne State Uni- versity Press, 1963. Defen- dem a derivação da norma ética do facto natural: M. Zimmerman, -The 'is-ought':

an unnecessary dualism- in

W. D. Hudson, The Is/Ougbt

Question, London, Macmillan, 1969, pp. 83-91; K. Hanly, •Zimmennan's 'is-is': a schi- zopluenic monism-, in ibid., pp. 92-94; M. Max Black, •The gap between 'is' and

'should'- in ibid., pp. 99-113;

D. Z. Phillips, -The possibi-

lities of moral advice- in ibid., pp. 114-119.

18 Cf. J. M. Lemos, •Darwi- nian Natural Right and lhe

Naturalistic Fallacy-, Biology and Philosopby 15 (2000),

pp. 119-132; E. Dussel, -Algu-

nas reflexiones sobre la fala- da naturalista'. (Pueden tener contenidos normativos im- plícitos cierto tipo de jui- cios empíricos?-, Diánoia 46 (2001), pp. 65-80.

"

Mind

-77.

510

48 (1939), pp. 464-

4 - Refutação da Ética Evolucionista. Esta é também um capítulo da Ética Naturalista. Moore restringe o termo 'Ética Evolucionista' «ã posição de que basta apenas considerar a tendência da 'evolução' para se descobrir a direcção que deve-

mos tomar» 15 , ou, por outras palavras, à tese de que «devemos

é a direc-

ção da evolução. O facto de as forças da natureza estarem a actuar nesse sentido é tomado como pressuposto de que é o sentido correcto» 16 . Moore considera que é esta a inaceitável posição de Herbert Spencer, Sidgwick, Bentham e Stuart Mill. No entanto, a Ética evolucionista tem conhecido um crescente desenvolvimento desde meados dos anos setenta do século passado, como se verá a seguir.

seguir na direcção da evolução simplesmente porque

2 .

A falácia naturalista e o debate «is-ought»

A falácia naturalista tem na derivação dos valores a partir dos factos uma das suas mais analisadas expressões. O tema foi continuamente debatido ao longo de todo o século XX 17 , e já

entrou no séc. XXI 18 . W. K. Frankena publicou em 1939 um ensaio intitulado «The naturalistic fallacy» 19 refutando a posição de Moore. Para Frankena, o que está verdadeiramente em causa na falácia

naturalista é algo mais básico do que a identificação ou redu- ção de uma propriedade não natural a outra natural. O que está em causa é a possibilidade de definir uma propriedade

em termos de outra. Deste modo, para que se possa falar de falácia naturalista tem que ser possível falar, antes, de uma

«falácia definicionista», implicitamente cometida por Moore. Ora, a definição de uma propriedade em função de outra não significa que as duas propriedades sejam idênticas. Segundo Frankena,

duas palavras, ou conjuntos de palavras representam ou significam

a mesma propriedade. Moore foi em parte enganado pelo modo

material de expressão, como Carnap lhe chama, em tais proposi- ções como -bondade é agradabilidade», «conhecimento é crença verdadeira-, etc. Quando alguém afirma «A palavra 'bom' e a pala- vra 'agradável' significam a mesma coisa", etc., é evidente que não está a identificar duas coisas. Mas Moore não quis entender isto afirmando que não estava interessado em quaisquer afirmações acerca do uso de palavras 20 .

Frankena conclui que a hipotética falácia definicionista não invalida uma definição naturalista dos termos éticos. O seu texto tornou-se entretanto um clássico da crítica a Moore, de tal modo que continua a ser até hoje uma referência obrigató- ria nos estudos sobre a ética deste autor. Na introdução a uma colecção de ensaios publicada em 1969 sobre «a questão é/deve» W. Hudson afirma que esta constitui «o problema central na filosofia moral» 21 . Mas embora a falácia naturalista seja um dos temas da ética de Moore que têm sido mais discutidos até hoje, alguns autores consideram que não é claro em que consiste exactamente esta falácia. «O que é exactamente esta falácia naturalista?» pergunta Carl Wellman.

Esperar-se-ia que isso se pudesse saber examinando as passagens de Principia Ethica em que é elaborada esta acusação ao natura- lismo ético. Infelizmente, não é de todo claro qual dos muitos erros de que Moore acusa os naturalistas deva ser considerado a falácia naturalista 22 .

Por outro lado, S. Darwall, A. Gibbard e P. Railton, proce- dendo a uma identificação das principais correntes éticas em finais d o século XX, sã o d e opiniã o qu e «se sab e desd e os últimos cinquenta anos que Moore não descobriu realmente qualquer falácia» 23 . No final dos anos sessenta, o tema foi retomado por John

Searle 24 , o

qual mostra como, contrariamente à tese de Moore,

os valores se podem derivar dos factos. O texto deste autor provocou um interessante debate com a publicação de um considerável número de artigos nos anos imediatos, alguns contra a posição de Searle 25 , a maior parte a seu favor 26 , tendo o autor respondido a alguns dos seus críticos