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João Falcão Sobrinho

A TÚNICA INCONSÚTIL
Doutrina da Igreja
Juerp - Rio de Janeiro
Prefácio do autor
Dean M Keley é um conceituado pesquisador sobre religiões. No seu livro POR QUE
CRESCEM AS IGREJAS CONSERVADORAS, ele nos surpreende de pronto com a seguinte
observação, fruto de uma pesquisa cientificamente elaborada:
“1. Geralmente se presume que um empreendimento religioso, para ser bem-sucedido, deve
ser razoável, racional, simpático, confiável, comedido, aberto às críticas de fora; isto é, eles
devem querer preservar uma boa imagem perante o mundo, do modo como o mundo define
todos esses termos.
2. Além disso, espera-se que eles sejam democráticos e tolerantes em seu tratamento
interno, novamente como o mundo define esses termos.
3. Devem ser, também, sensíveis às necessidades dos seres humanos como geralmente
compreendidas e desejar trabalhar cooperativamente com outros grupos para atender a
essas necessidades.
4. Não devem deixar que o dogmatismo, o moralismo ou a obsessão com a pureza do
culto impeçam essa cooperação. Essas expectativas, no entanto, são a receita infalível para
o fracasso de qualquer empreendimento religioso e resultam de uma visão errada do que
seja sucesso em termos de religião e como pode o sucesso ser alcançado e medido. ”
A seguir, Keley cita George R. LaNove, Jr, do Colégio de Mestres da Universidade de
Colúmbia, USA, notável pesquisador de dinâmica social:
“Comparando-se o percentual de crescimento das denominações evangélicas com ramos
paralelos, nota-se que os ramos liberais parecem mais adaptados às tendências sociais e
demográficas das populações modernas. Esses ramos liberais são mais urbanizados
e cosmopolitas, gozam de grande opulência e versatilidade. Seus membros têm, na média
geral, um nível de instrução mais elevado do que o dos ramos conservadores. Alguém
poderia supor que esses ramos liberais apelassem com maior sucesso às populações em
rápido crescimento econômico por serem mais versáteis e urbanizados do que os ramos
conservadores e que, por isso, crescessem mais rapidamente. Em todos os casos, porém, os
ramos conservadores estão crescendo mais rapidamente do que os liberais. ”
Os dados da pesquisa de Keley e as suas conclusões, apesar de terem sido publicadas em
1982 continuam sendo de uma contundente atualidade.
Que espera da Igreja o mundo? O que torna a Igreja relevante no mundo? Ou, qual é a
verdadeira natureza da Igreja? Quais são os seus objetivos no mundo? Há lugar para a
Igreja na sociedade cosmopolitizada, massificante, alienante, deste tempo em constantes
e cada vez mais aceleradas transformações, como bem indaga Alvin Tofler?
Algumas observações preliminares se impõem nas considerações sobre a
doutrina bíblica da Igreja:
1. As pessoas no mundo de hoje precisam de um poder real, comprovado em uma
experiência definida, para mudar suas vidas, O mundo está buscando esse poder. As
multidões correm de um lado para outro em busca de um poder que dê significado às
suas vidas. Onde quer que elas encontrem esse poder, a ele se entregam para viver,
matar e morrer.
2. “O mundo em acelerado processo de transformações não sente segurança em
regimes de ideologia diluída, incolor, nem em estruturas débeis, mas tende a procurar
amparo em regimes e religiões definidos, consistentes e bem estruturados em termos de
doutrina e disciplina” (LaNove, opcit). As pessoas estão buscando um poder com o qual
possam se comprometer.
3. A perda do poder da mensagem de uma Igreja é diretamente proporcional à perda
da sua identidade. Quanto mais nítidos forem os contornos doutrinários de uma Igreja,
mais poderosa força de convicção terá a sua mensagem. Se não queremos perder a força
da nossa proclamação, se achamos que o mundo precisa da nossa mensagem, devemos
zelar pela clareza e definição das nossas doutrinas, a começar pela doutrina da Igreja,
que, no dizer de Paulo, é coluna e sustentáculo da verdade.
4. “O crescimento de uma Igreja e, portanto, a sua utilidade no mundo, é diretamente
proporcional à sua capacidade de mobilizar a sua membresia, independentemente do
seu corpo de doutrinas” (V. Gerber). Não basta que uma Igreja tenha uma liderança
esclarecida, ungida, mas é preciso que toda a Igreja seja mobilizada, confirmada,
capacitada para agir conseqüentemente no mundo.
Esses fatos exigem da parte das igrejas evangélicas:
1. Uma clara definição das doutrinas que sustentam.
2. Conhecimento pessoal dessas doutrinas pelo maior número possível dos seus
membros.
3. Plena consistência entre a fé e a vida, entre testemunho e proclamação, ou seja, maior
empenho na disciplina eclesiástica.
4. Equilíbrio entre coragem na sustentação dos princípios imutáveis da Palavra de Deus
diante de um mundo cético e secularizado e disposição para mudar tudo o que tiver que
ser mudado de acordo com as transformações que vão sendo operadas no mundo.
Todo o empreendimento humano, com o passar do tempo, tende a inverter a ordem dos
fatores fins e meios, ou seja, a transformar os meios em fins e os fins em meios para
alcançá-los. Para uma igreja cristã, essa inversão significa a morte da esperança, o
esgotamento final do poder.
Toma-se imprescindível, pois, soprar as cinzas da hipocrisia, da acomodação
secularizante e da ortodoxia sem compromisso com a vida e deixar crepitar de novo a
chama sempre revolucionária do Espírito para que a Igreja, agência do Reino, não se
torne um fim em si mesma, senão que seja o poderoso e único meio para que o Reino
seja implantado na terra. Este livro não pretende ser uma dissertação acadêmica
sobre natureza e missão da Igreja, nem um manual de práticas eclesiásticas, matérias já
devidamente compendiadas. Espera poder contribuir para a discussão sobre a doutrina
da Igreja como tem sido definida pelas igrejas batistas em seus fundamentos bíblicos. A
minha oração para este tempo que me cabe viver é que a Igreja de Cristo seja, não a
Igreja que o mundo quer, não a Igreja que a própria Igreja quer, mas a Igreja que Cristo
quer, a Igreja com a qual ele sonhou para um tal tempo como este. Possa o Senhor usar
este trabalho para abençoar as amadas igrejas batistas de todo o Brasil.
João Falcão Sobrinho
NOTA: Este livro contém parte da matéria dada na cadeira de Eclesiologia no Seminário
Teológico Batista do Sul do Brasil durante os últimos 13 anos.
Prefácio
É com satisfação que recebi do ilustre autor deste trabalho o convite a incumbência de
apresentá-lo aos leitores.
Direi, primeiro, que João Falcão Sobrinho é pastor dedicado, professor competente, líder
denominacional experiente e homem de integridade, cuja vida e ministério admiro há
muitos anos.
E mais. Neste livro, fruto de pesquisa mas, principalmente de vivência pastoral e de
muitos anos de lidar acadêmico, alia o autor saber teológico e bíblico, experiência
docente em seminário, amor à igreja, piedade cristã e desejo de oferecer uma
contribuição ao estudo da igreja.
Num tempo em que tantas seitas e movimentos pululam e agitam-se em nosso país e na
“aldeia global” em que se transformou o mundo da “telemática”; num tempo de
incompreensão, mesmo no meio evangélico dito tradicional, com relação à natureza e
relevância da igreja; num tempo de tantas divisões em nossos arraiais, semelhantes às
dos grupos petrino, apolino, paulino e “cristino” na igreja coríntia, TÚNICA INCONSÚTIL,
afigura-se como excelente subsídio para o estudo de Eclesiologia, não só para estudantes
de Seminário, mas também para pastores antigos e novos que estão a lidar com questões
ligadas à Igreja, inclusive com a contestação de sua importância nos dias atuais e
na virada do século.
Ao apresentá-la, desejo que esta obra pequena, mas bem pensada e elaborada, cumpra
sua vocação de constituir-se benção e inspiração, e também ferramenta de estudo para
seminaristas, pastores, professores da Bíblia e outros líderes cristãos. Certamente todos
eles, após sua leitura, saberão mais sobre a igreja que, à semelhança da túnica inconsútil
de Jesus, não deve ser rasgada, cindida, dividida, mas apresentada ao Senhor como noiva
pura ao divino Noivo, nas Bodas do Cordeiro.
Atibaia, Estado de São Paulo 10 de junho de 1998
Pr. Irland Pereira de Azevedo
CAPÍTULO 1 - Igreja: Definição De Termos

1. ORIGEM DA PALAVRA IGREJA


A palavra IGREJA, em português, deriva do latim ECCLESIA, AE, que, por sua vez, é uma
transliteração, para o latim, da palavra grega ekklesia.
Ekklesia é uma palavra composta da preposição ek (ex) que rege o genitivo e tem a idéia
de “saída, emissão para fora, separação de” (Thayer) com o verbo kaleo. “chamar,
convocar em alta voz” (ib). No grego clássico, designava a “reunião formal de cidadãos da
polis (cidade), convocados de seus lares para uma assembléia pública Nunca dá a idéia de
sair para fora da cidade ou eximir-se da condição de cidadão. Características da
ekklesia:
a. era a assembléia local, dos cidadãos de determinada cidade; nunca se aplica a um
império universal ou regional;
b. era uma assembléia autônoma soberana em relação à cidade e a todas as demais
cidades, podendo decidir sobre guerra e paz e tudo o mais que interessasse à vida dos
cidadãos;
c. os ekkletoi (chamados ou convocados) deviam ter características definidas de acordo
com o motivo da convocação;
d. era uma assembléia democrática, onde todos os convocados tinham iguais e
indeclináveis direitos;
e. as decisões da ekklesia eram válidas para todos os efeitos e para todos os habitantes
da cidade.

2. A PALAVRA EKKLESIA NA SEPTUAGINTA


Na Septuaginta, 96 vezes ekklesia traduz para o grego a palavra hebraica qahal, povo,
Israel, prevalecendo a idéia de assembléia. Nem sempre, porém, qahal se traduz por
ekklesia. 21 vezes é traduzida com um propósito definidamente não religioso; 26 vezes,
assembléia religiosa (Sl 22.22); 36 vezes, é a reunião formal do povo de Israel; 7 vezes
designa Israel em um sentido espiritual ou ideal; 9 vezes refere-se ao remanescente.
Fique bem claro: na septuaginta, ekklesia sempre é tradução de qahal mas qahal só se
traduz por ekklesia quando se trata da Congregação da Aliança, com propósito religioso
definido.

3. A PALAVRA IGREJA NO NOVO TESTAMENTO


A Palavra ekklesia figura 114 vezes no Novo Testamento, tanto no singular como no
plural. 3 vezes tem o sentido secular de multidão (Atos 19.32,39,41); 2 vezes refere-se a
Israel, traduzida por ''congregação” (At 7.38 e Hb 2.12); 85 vezes (74% do total) refere-
se à Igreja como uma comunidade local e as demais vezes tem um significado
apenas conceituai, podendo referir-se a qualquer Igreja local em particular, jamais com o
sentido de uma estrutura nacional ou mundial. Nos evangelhos, aparece somente 3
vezes, todas em Mateus (Mt 16.18 e 18.17).
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FIGURAS QUE DESCREVEM A IGREJA
Pelo menos 9 significativas metáforas são usadas para caracterizar a Igreja no NT:
1. Corpo de Cristo - somatostouKristou (Ef 4.12). “O corpo é maior do que cada um dos
seus membros” (Taylor) e Cristo é a cabeça (Ef 5.23 etc.). Esse é um conceito novo, sem
paralelo no VT. Kefalé não significa apenas a cabeça física, mas também “cérebro”,
“comando”, a autoridade suprema de um corpo jurídico, ou ainda
“pensamento”, exatamente como em português. Essa expressão abrange também
as idéias de que é através do corpo que se realizam os atos determinados pelo cérebro e
é através do cérebro que se dá a unidade do corpo, havendo, portanto, uma associação
completa entre a cabeça e os membros. Os membros do corpo não se comunicam
diretamente entre si, mas através do cérebro. E à Igreja- somatos - (corpo) que
compete realizar na terra os propósitos de Cristo - kefalé (cabeça) e só em Cristo, a
cabeça, é que se torna possível a unidade da Igreja, o corpo. A Igreja tem muitos críticos
e inimigos, tanto externos quanto internos, mas não tem substituto no plano de Deus
para implantar o seu Reino na terra, por ser ela o corpo de Cristo. Um corpo dividido é
um corpo morto. Um corpo não pode ter duas cabeças e nem uma cabeça pode ter dois
corpos.
2. Povo peculiar - eautolaonperiousion (Tito 2.14). Aqui temos um duplo possessivo,
como observa Yeager, dando uma ênfase quase redundante: povo que é sua propriedade
e sua posse peculiar. Este é, sem dúvida, um conceito tirado do VT (Dt 14.2 etc.). A
iniciativa de escolher um povo para Deus é do próprio Deus (Shedd), como vemos em
Salmos 100.3: “Foi ele e não nós que nos fez povo seu e ovelhas do seu pasto ” (ARC).
Durante o cativeiro no Egito, Israel era povo de Deus, povo da Aliança com JHVH,
embora ainda não tivesse uma constituição jurídica, que só veio a receber no Sinai, nem
sua própria terra, que só veio a adquirir 40 anos depois, nem governo
formalmente instituído, que só começaria na monarquia com Saul. Mas era o
quahal (povo) de JHVH.
3. Rebanho de Deus - poimniontouTheou (1Pe 5.2). Repete o conceito do VT, de Deus
como o Pastor de Israel (Ez 34.31). Note que o genitivo singular de Theou indica que a
ênfase está na posse e no direito de Deus (rebanho de Deus e para Deus). Deus compra
cada ovelha pagando o mais elevado preço que poderia pagar para tê-la para si no seu
rebanho peculiar (1Pe 1.19). Deixar de nutrir o rebanho de Deus é falhar para com Deus,
mais do que para com o rebanho (Cf. João 21.17).
4. Casa, edifício -oikodome (santuário, habitação de Deus através do seu Espírito, cf1
Cor 6.19). Ef 2.21,22 diz literalmente: “O edifício inteiro cresce continuamente e
conjuntamente para (ser) templo santo”. Observe que sunarmologumene está na voz
passiva. Não é a Igreja que se edifica, que se constrói a si mesma, mas ela é edificada.
Note também que está implícita na preposição sun, que compõe aquele verbo,
a simultaneidade do crescimento de todo o edifício. Aliás, é bom lembrar que a raiz
dessa palavra significa ajustar, encaixar com precisão cada peça em seu lugar. A figura
de Paulo me vem à mente cada vez que vejo uma casa subindo dos seus alicerces. As
paredes crescem conjuntamente, cada tijolo segura os outros e pelos outros se firma
através da liga de cimento e areia. Assim na Igreja: Cada um dos seus membros se une
aos demais através do traço forte do amor.
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5. Coluna (pilar) e firmeza (baluarte, latim firmamentum) da verdade -
stiloskaiedraiomatesaletheias (1Tm 3.15). A igreja não é a verdade, mas o
sustentáculo da verdade. Não se trata da verdade filosófica, histórica ou religiosa, mas da
verdade em Jesus - aletheiaentoIesu (Ef 4.21), literalmente: “A verdade em o Jesus ”. A
verdade absoluta está em Jesus, no único Jesus, como indica enfaticamente o artigo que
precede o seu nome Os homens têm muitas verdades mas a verdade única está na
pessoa singular de Jesus Cristo, que a si mesmo se define dizendo: “Eu sou a verdade
Jesus encarna a verdade eterna em seu próprio ser. Ele não somente conhece a verdade,
fala a verdade, ensina a verdade mas ele é a própria verdade na absoluta acepção do seu
ser divino-humano. A Igreja é a base de sustentação da Verdade - Cristo no mundo. Que
significa a “verdade-em-Jesus”? Seja o que for, até onde for, a Igreja, no entender de
Paulo, é a coluna, o pilar, o baluarte da eterna verdade de Deus que se revela, que se
corporifica em Jesus (1 João 1.1,2). Como seria possível reduzir esse conceito de “a
verdade em Jesus” para a verdade dos homens ou a verdade histórica de uma instituição
humana falível? E como subestimar o valor e a missão da Igreja no mundo?
6. Lampadários, castiçais - luxniai - (Ap 1.20). A Igreja não é a luz, mas o castiçal, a
lâmpada na qual brilha a luz que é Cristo.
7. Família da fé (Gl 6.10). Oikeious, traduzido por família, é o plural de oikeios, o que
não pode passar despercebido. Refere-se aos indivíduos que, reunidos, formam a
família- “irmãos e irmãs” (como traduz Yeager). Não se trata de uma relação legal,
estatutária, mas de uma relação espiritual, como destaca o genitivo em pisteos, “da fé”.
Não designa apenas a célula familiar, mas os seus componentes individuais unidos em só
um corpo pela fé, em perfeita identidade espiritual.
8. Israel de Deus - Israel touTheou (Gl 6.16). A Igreja não é um compasso de espera
enquanto Israel decide se aceita ou não aceita o Messias Jesus. A Igreja é Israel tanto
quanto Jesus é Jeová (CfJoão 8.24). Israel, como povo e nação, usufrui dos efeitos das
promessas de Deus, que são “sem arrependimento”, mas o compromisso de Deus para a
redenção o mundo passa pela Igreja como exclusivo canal (Ef 2.10).
9. Noiva - nynfe (Ap 22.17 etc.). Mais uma vez, o Novo Testamento repete uma imagem
dó Velho Testamento. Como Israel é a esposa de JHVH (Oséias 2.19), devendo-lhe
absoluta fidelidade, a Igreja é a noiva de Cristo (Ap 19.9; 21.2), devendo-lhe exclusivo
amor.

4. AFINAL, O QUE É A IGREJA?


Muitas definições têm sido elaboradas para a Igreja, nenhuma delas completa e final,
pois a Igreja é um organismo vivo, regido por princípios imutáveis mas em constante
movimento através da história. Werner Kaschel expõe ó problema com muita lucidez: “A
verdadeira sabedoria consiste em manter equilíbrio entre a fidelidade aos princípios
do Novo Testamento e a adaptação aos tempos em mutação. ” Os princípios que dão
alicerce à teologia da Igreja são imutáveis, mas a sua prática deve acompanhar a
evolução cultural da sociedade, evolução da qual a própria Igreja é parte, agente e
impulsionadora. O teólogo indiano A. B. Masilamani declara: “O Novo Testamento expõe
a Igreja, não como uma instituição formal ou uma organização, mas como um organismo,
um corpo vivo, um templo vivo, uma noiva de inexcedível glória”. E acrescenta: “A Igreja
tem muitos críticos e inimigos, mas não tem sucedâneo no plano de Deus para implantar
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o seu Reino na terra”, no que concorda com Howard A. Snyder em THE CHURCH AS
GOD’S AGENT IN EVANGELISM. Emil Bruner diferencia os conceitos de Ekklesia e
Igreja. A Ekklesia do Novo Testamento, diz ele, é uma comunidade fraternal, uma
irmandade espiritual, uma realidade social com um estilo de vida simples, destituído de
formalidades, com uma mensagem de transformação interior pelo poder do Espírito e
com uma viva esperança de sua consumação escatológica no Reino. Com o passar do
tempo, a Ekklesia foi convivendo com a (e muitas vezes sendo substituída pela) Igreja
institucional que, por imposição de circunstâncias, assume as mais variadas formas de
governo e cria cada vez mais normas e regimentos.
A Igreja Católica define a Igreja como “A congregação de todos os fiéis que, tendo sido
batizados, professam a mesma fé, participam dos mesmos sacramentos e são governados
pelos seus legítimos pastores sob a autoridade de um cabeça visível (o Papa) em toda
a terra”. Leonardo Boff reconhece que “a Igreja se entende como a exclusiva portadora da
salvação para os homens; atualiza o gesto redentor de Jesus mediante os sacramentos, a
liturgia, a meditação bíblica, a organização da paróquia ao redor de tarefas
estritamente religioso-sagradas ” (Igreja, Carisma e Poder, pág 17). O conceito
da Reforma é que Cristo, “mediante a operação do Espírito Santo, une os seres humanos a
ele, capacita-os com verdadeira fé e, desta maneira, constitui a Igreja como o seu Corpo, a
comunhão da fé.” (Vide L. Berkhof, Teologia Sistemática, Pág. 661).

5.0 QUE É UMA IGREJA BATISTA?


Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, artigo VIII: “Igreja é uma
congregação local de pessoas regeneradas e batizadas após profissão de fé. É nesse
sentido que a palavra Igreja é empregada no maior número de vezes nos livros do Novo
Testamento”.
Definição jurídica (estatutária): Igreja é uma sociedade civil auto-governativa, de
natureza religiosa, constituída de acordo com as leis do pais, sem fins lucrativos,
composta de um número ilimitado de pessoas sem distinção de sexo, raça, idade ou
condição social, convertidas a Jesus Cristo e batizadas conforme as doutrinas e práticas
do Novo Testamento, que tem como finalidades: reunir-se para prestar culto a Deus,
estudar a Bíblia Sagrada, proclamar o Evangelho, promover a obra missionária no
mundo inteiro, praticar a beneficência e administrar os seus próprios negócios.

PECULIARIDADES DAS IGREJAS BATISTAS


Têm sido características peculiares das igrejas batistas:
1. A Bíblia Sagrada como única regra de fé e prática.
2. Plena liberdade de consciência e livre acesso de cada ser humano a Verdade revelada
nas Escrituras.
3. Sacerdócio universal dos salvos.
4. Batismo exclusivamente por imersão, de pessoas que aceitam pessoal e
voluntariamente a Jesus Cristo como Senhor e Salvador.

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5. Significado memorial e simbólico dos elementos da Ceia do Senhor.
6. Forma de governo democrático-congregacional. Isso significa: Igrejas soberanas (a
igreja em assembléia democrática é o seu poder máximo), autônomas (em relação às
outras igrejas) e auto reprodutivas (cada Igreja pode dar origem a outras igrejas sem
qualquer interveniência externa). Desse princípio resulta a cooperação voluntária entre
as igrejas.
7. Separação entre Igreja e Estado.
8. Inexistência de uma sucessão histórica, quer pessoal (sucessão apostólica) quer
doutrinária (antipedobatismo) na identificação da sua autenticidade como Igreja cristã,
caracterizada apenas pela sua fidelidade às doutrinas ao Novo Testamento.

No livro A CELEBRAÇÃO DO INDIVÍDUO, Israel Belo resume em sete itens as


peculiaridades das igrejas batistas:
1. À aceitação da Bíblia como única regra de fé e conduta;
2. O conceito de Igreja como uma comunidade local democrática e autônoma formada
por pessoas regeneradas e biblicamente batizadas;
3. Separação entre Igreja e Estado;
4. Absoluta liberdade de consciência;
5. Responsabilidade de cada indivíduo perante Deus;
6. Autenticidade e apostolicidade das igrejas;
7. Cooperação voluntária entre as igrejas.

6. IGREJA, UM EVENTO SOBRENATURAL


A Igreja é um fenômeno sobrenatural. O seu surgimento e a sua sustentação através da
história não se devem a fatores psicossociais, culturais, políticos ou econômicos. A Igreja
transcende à sua própria história. Todos os grupamentos humanos são formados
seguindo as leis da dinâmica social. A escola responde à necessidade do saber. Os
sindicatos respondem à necessidade de aglutinar os interesses dos que trabalham na
mesma profissão. Os clubes, torcidas, associações de classe, academias, cooperativas,
condomínios etc. sempre se formam a partir de interesses comuns para atender a
necessidades naturais do ser humano. A Igreja, porém, não é uma iniciativa do ser
humano para atender às suas necessidades naturais. É um evento sobrenatural:
a. Na sua origem divina: “Edificarei a minha Igreja ” diz Jesus (Mt 16.16).
b. Na sua mensagem: “O poder de Deus” (Rm 1.16).
c. No efeito da sua mensagem, a regeneração: “Quem não nascer da água e do Espírito não
pode entrar no Reino de Deus” (João 3.5). d. No seu destino eterno: “e reinarão para todo
o sempre ” (Ap 22.5-ARC). “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” em
Mateus 16.16 significa que a Igreja é transcendente, imortal, porque o seu Fundador e
Senhor é Deus, é imortal e porque todos os que dela fazem parte têm a vida eterna.

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7. A IGREJA E O REINO
Note que Igreja, no Novo Testamento, é um termo grego que veste conceitos gregos e
hebraicos simultaneamente, como, aliás, acontece com outros importantes vocábulos da
teologia cristã. Estão presentes, nessa palavra, os conceitos subjetivos do qahal do VT
em relação ao “Povo da Aliança”, “Redenção”, “Santidade”, “Permanência”, vínculos
espirituais, juntamente com os conceitos objetivos do grego: mandato específico,
democracia, responsabilidade pessoal. Não se pode pensar em Igreja como uma
assembléia eventual, sem continuidade institucional, como na acepção genérica de
ekklesia, pois há um povo que tem uma continuidade na Esperança a se concretizar no
futuro, há uma aliança a preservar, mas também não se pode pensar em um conceito
abstrato, destituído de praticidade. A Igreja (grupo local de remidos) é a
versão imanente do Reino de Deus, e o Reino é a versão transcendente da Igreja. E na
Igreja, com a Igreja, através da Igreja, pela Igreja que o Reino espiritual de Cristo se
torna uma realidade tangível. A Igreja é uma assembléia que dá continuidade a si mesma
e que se auto reproduzem outras igrejas “até os confins da terra”. Os conceitos de Igreja e
Reino de Deus, strictosensu não se equivalem, pois o Reino é espiritual,
invisível, universal, eterno, conceitualmente abstrato, enquanto a Igreja é um grupo de
pessoas físicas, visível, local, temporal, conceitualmente concreto. Lato sensu, Reino e
Igreja se equivalem, pois as pessoas físicas que compõe a Igreja possuem alma e as
almas que participam do Reino, enquanto pessoas humanas, têm que ser dotadas de um
corpo. A Esperança do Reino se exterioriza na celebração das ordenanças pela Igreja.
Alma não pode imergir em água, não come pão nem bebe vinho, mas ser imerso,
comer do pão e tomar do cálice dó Senhor sem fé, sem a participação da alma, são atos
sem significado como símbolos cristãos (1 Co 11.29).
O vínculo entre corpo e alma, em consequência, entre Igreja e Reino, só é solúvel pela
morte. Impossível definir, portanto, onde termina a Igreja e começa o Reino ou onde
termina o Reino e começa a Igreja, ainda que atribuir ao Reino as funções da Igreja ou à
Igreja as funções do Reino, historicamente tenha causado graves danos a ambos os
conceitos, de Reino e de Igreja, como veremos em capítulos subseqüentes,
especialmente em relação às ordenanças e à forma de governo da Igreja.

8. IGREJA, UMA COMUNIDADE DE AMOR


Deus é um Ser social. A expressão bíblica “Deus é amor” (1Jo 4.16) descreve, não apenas
os atos de Deus, mas o seu caráter. Deus é amor na essência do seu caráter santo e
eterno. Ao criar o ser humano, Deus o fez (“façamos” - diz Deus) à sua imagem e
semelhança, dotando-o de todos os requisitos necessários à sua vida como um ser social.
Deus lhe deu consciência própria e consciência do outro, com a compreensão dos
devidos limites (Gn 2.23); capacidade de comunicar seus sentimentos e seu pensamento
(Gn 3.10); instinto gregário (Gn 2.24); capacidade de julgar (Gn 2.19); liberdade de
decisão na esfera moral (Gn 2.16); competência física e espiritual para gerar novos
componentes do grupo social, cada qual com a sua personalidade própria (Gn 1.28);
responsabilidade criativa em benefício do grupo social (Gn 2.15). Deus planejara uma
sociedade humana dominada pelo amor descrito em 1 Coríntios 13 e demonstrado na
pessoa de Jesus. Amor-santidade, amor-caráter, amor-serviço, amor-no-Espírito. Mas,
6
que aconteceu? A humanidade usou mal a sua liberdade, usou-a não para dar a Deus o
seu amor como resposta ao amor do Criador, mas para desobedecer, para pecar. O
pecado perturbou toda a estrutura psicoemocional do ser humano, impedindo a sua
plena convivência com Deus e com o seu próximo. Deus, então, usou o fracasso humano
para, outra vez, demonstrar o seu amor. Ao redimir cada ser humano da condenação
do pecado e ao agrupar homens e mulheres redimidos em igrejas, Deus está mostrando
o seu caráter, o seu amor. Não se pode entender a natureza da Igreja sem que o amor de
Deus seja derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado (Rm 5.5). (Veja
Karl L. Schmitdt em AIGREJA DO NOVO TESTAMENTO, Págs. 29,30).

9. A NOVA HUMANIDADE
A Igreja é a reunião dos seres humanos regenerados pela fé pessoal em [ Jesus Cristo
mediante a atuação do Espírito Santo, batizados como testemunho e símbolo da sua
regeneração para adorarem a Deus em amor, para se amarem uns aos outros no amor de
Deus e para proclamarem o Evangelho de Cristo. É a nova humanidade recriada,
resgatada para o amor de Deus. “Deus é amor e quem permanece em amor permanece
em Deus ” (1 Jo 4.16). O Deus-Amor manifesta seu amor através de Jesus Cristo e
derrama o amor de Cristo no coração dos regenerados pelo Espírito Santo (Rm 5.5) para
formarem a Igreja sobre o fundamento da pessoa e da obra de Cristo (Mt 16.16). Essa
compreensão da Igreja como o resgate da humanidade para o amor de Deus obriga-nos
avarias reflexões.
Primeira: O amor implica a própria natureza do ser regenerado, um estilo de vida ativo
de boa vontade, perdão e alegria em servir. Ágape, o amor de Deus, é o amor que
envolve a personalidade por completo: o pensamento (memória, análise, criação), as
emoções (sentimentos, impulsos, afeto) a vontade (as decisões elaboradas ou
empíricas), as ações (cada movimento do corpo), a natureza regenerada, ou seja: a
incapacidade de engendrar o mal (Rm 13.10). Amar os irmãos não é apenas gostar de
estar junto deles, mas é ser Barnabé, é ser Priscila, é tomar a iniciativa de ver o
próximo, chegar perto, ajudar com o espírito de Jesus retratado no bom samaritano, e
também exortar, encorajar. Ágape não é um amor passivo, contemplativo, teórico, mas é
vida, é o poder dinâmico que envolve e une as pessoas que formam o templo do Deus
vivo, que são as pessoas de cada Igreja.
Segunda: O amor de Deus implica um compromisso missionário. Igreja sem visão
missionária total no espírito de Atos 1.8 é Igreja sem a percepção tia grandeza do amor
de Deus. É impossível amar a Deus e chegar-se a Ele sem ser abrasado pelo seu amor
pelos pecadores perdidos de todo o mundo. Ao multiplicar-se em outras igrejas por todo
o mundo, a Igreja está demonstrando a verdadeira dimensão do amor de Deus, pois
“Deus amou O mundo” (Jo 3.16).
Terceira: O amor implica um compromisso com a verdade. A verdade é um componente
inalienável do amor. Não existe amor sem a Verdade. Daí Paulo ter afirmado em
1Tm3.15 que a Igreja é coluna e firmeza da verdade. A Igreja apostólica permanecia
firme “na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão, nas orações” (At 2.42).
Quando uma igreja perde a sua identidade bíblica, ao contrário do que muitos
imaginam, perde a sua capacidade de amar, além de perder a força da sua
mensagem, que não é um discurso humanista, mas é a mensagem de amor de um
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Deus que chama os pecadores ao arrependimento e à luz da verdade. Quem tem o amor
de Deus permanece na verdade sem mistura de erro (2Jo 1:3).
CAPÍTULO 2 - A Igreja Do Sonho De Jesus
“A Igreja não deriva da sua membresia, mas do seu Cabeça ” (Robert Dale)
Desse princípio, enunciado de modo notável por Robert Dale no livro TO DREAM AGAIN,
resultam, entre outras, estas três reflexões muito pertinentes para a formulação da
nossa eclesiologia:
1.A Igreja é grande, imortal, invencível, relevante, não porque seus membros o sejam,
mas porque o seu Cabeça e fundador, Jesus Cristo, é grande, eterno, invencível,
relevante.
2. Sonhar não é dar asas à imaginação e criar uma utopia, mas fixar alvos em realidades
desafiadoras e saber como alcançá-los.
3. Ninguém terá uma Igreja maior do que o seu sonho, nem maior do que o preço que
esteja disposto a pagar para realizá-lo.

1. A IGREJA DO SONHO DE JESUS


1. Jesus sonhou com uma Igreja que desse continuidade ao seu projeto de resgate da
humanidade para o amor do Pai. A missão redentiva da Igreja no plano de Jesus está
evidenciada:
Na Grande Comissão e textos correlatos, especialmente Lc 24.44-47: “Assim está escrito,
e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dos mortos, e em
seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados em todas as
nações, começando por Jerusalém ” (VR). Vale a pena destacar a diferença que faz a
preposição eis, que indica extensão, propósito, na expressão metanoian eis afesin
(arrependimento para redenção). A mensagem entregue por Jesus à Igreja para
proclamar é de “arrependimento bom o propósito definido de remissão”. Jesus sonha com
uma comunidade de remidos que seja um canal e sinal de redenção. Não é demais
lembrar que só os que já foram remidos podem ser agentes de remissão. Um escravo só
poderia ser agente de libertação a partir do momento em que ele mesmo fosse um
liberto. Por outro lado, cada ser humano liberto do pecado por Jesus é uma prova, um
sinal de redenção. Jesus sonhou com uma comunidade de remidos-para-remir, sendo
ele mesmo o Remidor“através do seu sangue” (Ef. 1.7). Jesus sabia que
“sem derramamento de sangue não há remissão ” (Hb 9.22). Ele estava disposto a pagar o
preço para que o seu sonho se tomasse realidade através de igrejas que fossem as suas
agências de redenção para todas as nações. Sempre que a Igreja perde a visão da sua
missão redentiva, deixa de ser a Igreja sonhada por Cristo. Deixa de ser a Igreja de
Cristo. Na sinagoga de Nazaré, Jesus invoca a profecia de Isaías para declarar que foi
ungido pelo Espírito do Senhor para proclamar a remissão aos presos (BJ). Em
Pentecostes, o Espírito do Senhor unge a Igreja para dar continuidade à missão de
redenção dos cativos do pecado, como Pedro demonstra entender ao apelar: “Salvai-vos
desta geração perversa” (At 2.40).
As parábolas de Jesus visavam ensinar à Igreja o significado e a centralidade da
redenção na própria natureza da sua proclamação. No pensamento de Jesus, a redenção
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não é um fim em si mesma, porém um meio para resgatar o valor e o significado do
objeto da redenção. Por exemplo, nas parábolas de Lucas 15: A dracma, enquanto
perdida, estava destituída de qualquer valor. Seu valor foi remido quando ela
foi encontrada. A ovelha perdida estava condenada à morte. Seu valor para o aprisco
estava nulo. Sua lã, seu leite, suas crias, tudo estava perdido. Ela foi remida para o
aprisco. Seu valor foi resgatado. O filho pródigo estava morrendo. O tempo imperfeito
dos verbos no verso 16 indica uma agonia continuada e progressiva. Foi remido para o
convívio com o pai. Seu valor para o amor do pai foi resgatado. Como erramos quando
pensamos na salvação como um fim em si mesma. O ato da regeneração de uma pessoa
não esgota o manancial da graça, ao contrário, é o seu começo. O objetivo de Deus na
redenção é o que se segue a ela: a nova vida dos salvos na comunhão santa, amorosa e
eficaz do Pai. Na parábola de Lc 10, Jesus se apresenta a si mesmo como o samaritano
que socorre o homem agonizante, vítima dos salteadores, leva-o a um lugar seguro,
entrega-o aos cuidados do estalajadeiro, paga o preço e diz: “Cuida dele até que eu volte".
O resgate da vida humana para o propósito divino original da criação, anterior à queda,
para a vida abundante, é o objetivo que Jesus tem em mente (João 10.10). Cabe à Igreja,
como agência de redenção, não apenas chegar perto do pecador, erguê-lo nos
braços, prestar-lhe os primeiros socorros, pensar-lhe as feridas da alma e do corpo, mas
cuidar dele até que o Senhor volte.
Os milagres de Jesus são sinais da redenção. Ele demonstra o propósito de resgatar a
qualidade de vida do ser humano neste mundo como prenuncio da plenitude da vida na
eternidade. Seu propósito não abrange apenas a remissão da culpa, mas o resgate da
personalidade integral do ser humano para a vida em Deus. As curas efetuadas por Jesus
não eram apenas provas da sua compaixão pelos sofrentes. Eram sinais para que todos
cressem nele afim de alcançarem a vida eterna (João 20.31). Jesus não curava apenas
para curar, mas o resgate espiritual, a remissão dos pecados era o seu claro objetivo,
como vemos na cura do paralítico de Betesda (João 5.14): “Vai e não peques mais para
que não te suceda coisa pior. ’’ Saciar a fome da multidão como prova da sua compaixão
pelos que sofrem era um sinal através do qual Jesus desejava ser aceito pela fé como o
Messias selado com o selo da redenção (João 6:26,27): “Vós me procurais, não porque
vistes os sinais, mas porque comestes do pão e vos saciastes; trabalhai, não pela comida
que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem
vos dará; porque a este o Pai Deus o selou ”.
2. A Igreja do sonho de Jesus é uma comunidade de amor. “Um novo mandamento vos
dou: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Nisto conhecerão que sois meus
discípulos: se vos amardes uns aos outros (João 13.34.35). Não seria pela suntuosidade
dos seus templos, nem pela ortodoxia das suas doutrinas, nem pela excelência das suas
organizações administradas com padrão de qualidade total, mas pelo amor com que se
amassem uns aos outros que, no sonho de Jesus, os salvos seriam conhecidos como sua
Igreja. O amor ágape, o amor de Deus, não é um amor extático, como ficou dito no
capítulo anterior, mas é um sentimento que age em favor do ser amado. Esse amor
inclui, no entender de Jesus:
A prática do perdão como maneira de viver (Mateus 6.14,15). Perdão, não como
alternativa, como ato isolado de comportamento, mas como parte essencial do caráter.
Essa exortação de Jesus indica que a verdadeira comunhão com Deus, sobre a base do
perdão divino, impõe aos seus seguidores um padrão ético baseado no amor.
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A impossibilidade natural de desejar o mal contra o próximo (Mateus 5:48,. cf. Romanos
13.10). A benignidade, qualidade do caráter de Deus em ação, deriva do seu amor e se
torna virtude da Igreja que vive no amor de Cristo. Fazer o bem se torna o modo de
proceder natural, espontâneo. Não visa alcançar mérito diante de Deus mas resulta
do reconhecimento do amor de Deus.
A reconciliação do homem consigo mesmo, com sua própria natureza criada por Deus e,
em conseqüência, com o outro. A falta de perdão é uma ofensa tão grave quanto a ofensa
não perdoada. A culpa do ofendido pela sua ira, no código jurídico de Deus, não é menor
do que a culpa pela ofensa que a causou. O amor torna a iniciativa da reconciliação, não
importa se quem ama é ofendido ou ofensor (Mateus 5.24).
3. À igreja do sonho de Jesus é uma comunidade profética. Uma Igreja que encarna a
vontade de Deus e proclama a vontade de Deus do mesmo modo como Jesus o fez.
Vivendo diariamente no meio de uma humanidade depravada, recebendo, de todos os
lados, uma carga de emoções e de informações devastadoras da moral e da ética
bíblica, compete à Igreja: primeiro, encarnar a Justiça, a Verdade e a Santidade de Deus,
mesmo que tenha que subir novamente ao Calvário para, em seguida, proclamar o Reino.
Jesus encarna a profecia consciente de que todas as predições messiânicas e
escatológicas foram feitas por causa dele, cumprem-se nele e através dele, conforme ele
declara em Lucas 4.21: “Então ele começou a dizer-lhes: hoje se cumpriu esta escritura em
vossos ouvidos". Veja a compreensão que a Igreja teve dessa verdade no discurso
de Pedro em Pentecostes (Atos 2:14-36). A Igreja encarna a profecia não somente no
sentido de viver e obedecer à Palavra de Deus, mas também pelo fato de proclamar o
propósito de Deus. O Verbo se fez carne para fazer dos homens a Igreja de Deus. O ato
jurídico da salvação de um pecador não esgota o propósito da Graça, senão que o torna
possível. A cruz não é um fim em si mesma senão no sentido de demonstrar a compaixão
de Deus pelos homens caídos, mas é o meio através do qual Deus restaura o seu
primitivo propósito no homem, de fazê-lo à sua imagem e semelhança.
No entender manifesto de Jesus, a Igreja é a consumação profética do Reino de Deus no
sentido escatológico atual (Lc 17.21) e futuro (Mt 28.20). À Igreja presente é, ao mesmo
tempo, sinal e proclamação do Reino futuro. Cada Igreja é uma amostragem do universo
que é o Reino e uma antecipação do Reino futuro. A Igreja não é apenas um fator
indicativo do Reino, mas é uma encarnação literal do Reino, uma célula viva do Reino. A
Igreja de Cristo é o Reino de Cristo em ação no mundo.
4. Jesus sonhou com uma Igreja triunfante. Se Jesus não fosse Deus, a Grande
Comissão teria sido produto de uma mente enferma. Ele diz a um grupo de 11 homens
acuados, cheios de medo, humanamente sem recursos de nenhuma espécie: “Fazei
discípulos de todas as nações No curto espaço de uma geração, eles chegaram aos
confins da terra. Alvoroçaram o mundo. As expressões muitas vezes ouvidas -“somos
poucos”, “somos pobres", “não podemos "jamais caberão na boca da Igreja de Jesus. Não
confundir, porém, triunfalismo da Igreja com Igreja Triunfante. Triunfalismo é tomar a
vitória da Igreja como objetivo, como um fim em si mesma, quando, na verdade, a vitória
da Igreja é a vitória do Reino, é um instrumento a serviço da vitória do Reino, ou melhor,
a vitória do Rei. A vitória dos habitantes de uma aldeia em resistir ao inimigo invasor ou
em conquistar algum espaço só está assegurada se for entendida como uma vitória do
Rei, para o Rei. Se assim não for, a derrota virá.na batalha seguinte. Jesus não sonhou

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com uma quimera, nem com uma aventura frustrante, conquanto romântica, mas com
uma Igreja triunfante e gloriosa em todo o mundo. Uma Igreja que nem Satanás (Lucas
10.18), nem o inferno, nem a morte (Mateus 16.18), nem os reinos do mundo
(Apocalipse 12.11) poderão derrotar. Sigamos nessa confiança. Sejamos a Igreja do
sonho de Jesus.
5. Jesus sonhou com uma Igreja que fosse uma comunhão de verdadeiros
adoradores. Examine João 4.22,23. Os samaritanos adoravam o mesmo Deus dos
judeus, mas eram ignorantes quanto às implicações éticas da verdadeira adoração
(“tiveste cinco maridos e o atual não é teu marido”). Os judeus sabiam a quem e como
deviam adorar, mas estavam dominados por um tradicionalismo formalista e a sua
adoração em Jerusalém também não era eficaz. Note que a conjunção adversativa “mas”
no verso 23, é enfática. Significa que nem os samaritanos nem os judeus adoravam a
Deus “em verdade”. Pela sua colocação, essa conjunção indica uma diferença essencial
entre o que ficou dito atrás e o que passa a ser dito a seguir. Jesus está declarando que
até aqui, nem judeus nem samaritanos adoram a Deus corretamente, mas agora, “chegou
o tempo(nunestin - já é agora, está aqui) em que os verdadeiros adoradores adorarão o
Pai em espírito e verdade ”. Yeager comenta que a cláusula adversativa dupla dá ênfase
ao fato de que o samaritano, pela sua ignorância e o judeu, pelo seu formalismo, ambos
prestavam uma falsa adoração. Os verdadeiros adoradores são os que a partir de agora
adoram a Deus no Espírito (através do Espírito - veja o verso 24) e verdade. Quem é a
verdade? Jesus mesmo. Por meio de Cristo, Deus está procurando adoradores que o
adorem através de Cristo, no Espírito. Jesus é autor e consumador, causa e resultado da
nossa fé (Hebreus 12.2). Observe ainda que “procurar” (zeteo) no verso 23 não significa
a busca de algo que se corre o risco de não encontrar, mas é a procura de algo que existe
concretamente, com a intenção determinada de encontrar, até encontrar, custe o que
custar (Veja DTNT in loc). É o mesmo verbo usado para descrever a busca da
dracma perdida em Lucas 15.8. Deus está determinado a encontrar os
verdadeiros adoradores, onde quer que eles estejam perdidos. A Igreja, portanto, só é a
Igreja do sonho de Jesus enquanto está determinadamente buscando adoradores que
adorem a Deus em Espírito e Verdade – enpneumatikaialetheia - por meio de, através
de Espírito e verdade. Espírito-e-verdade, formando uma realidade única, compacta, que
não se pode expressar de outra forma, é o que dá significado à verdadeira adoração.
6. Jesus sonhou com uma Igreja que fosse uma comunidade feliz. A frustração
existencial é má mordomia da vida. A ressurreição de Jesus restituiu a alegria no coração
da Igreja. Veja em Lucas 24.41 como o medo, a frustração e a tristeza mortal cedem lugar
à alegria, ao sentimento de vitória. João 16.22 diz: "Então vos alegrareis e a vossa alegria,
ninguém vo-la tirará”. A alegria dos salvos se torna uma experiência real:
Pela certeza de que os seus nomes estão escritos no Rol de Membros do céu (Lucas
10.20). O perdão do pecado, a absolvição da culpa, a presença do Pai, a certeza da vida
eterna, pode haver maior alegria na terra?
Pela alegria de Jesus. Em Lucas 10,21 vemos que Jesus teve um sentimento de profunda
alegria, exultou em espírito, ao constatar o êxito do trabalho dos setenta na proclamação
do Evangelho. "O trabalho da sua alma ele verá e ficará satisfeito ” antecipa Isaías (Is
53.11). A alegria de encontrar os valores perdidos alegra uma mulher, um pastor, um pai
e seus servos, os anjos no céu e o próprio Deus na sua Glória. Alegria, fruto do amor que
se alegra com a alegria do ser amado. O céu derrama alegria na terra através da Igreja.
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Pelo fato de poderem glorificar a Deus até mesmo com o seu sofrimento por Jesus
(Mateus 5.12). Tiago interpreta esse sentimento com as seguintes palavras "Tende por
motivo de grande gozo o passardes por várias provações” (Tiago 1.2).
Pela Esperança. "Alegrai-vos na Esperança” (Romanos 12.12). A Igreja vive a Esperança
antecipando a glória na sua real experiência da presença de Jesus. Jesus se alegra com a
alegria da Igreja e a alegria da Igreja é a colheita de almas para alegrarem a Jesus. As
parábolas sobre o Reino falam de banquete, casamento, alegria. Alegria ao estar à
mesa no banquete do Reino, alegria na chegada do noivo, alegria na esperança da
celebração final.

2. DO SONHO À MORTE DO SONHO


Robert Dale, no livro citado, traça uma curva mostrando a evolução de todo o
empreendimento religioso, de uma Igreja em particular. Tudo começa com um sonho,
um lampejo de ideal. O segundo momento é o estabelecimento de um código de crenças.
Em seguida, são estabelecidos os objetivos. Em que devemos crer e o que devemos fazer
para alcançar o nosso sonho? Fixados os alvos, a organização precisa ser
estruturada Precisa de líderes, regimento, plano de trabalho, sede. É inevitável,
ainda que, como já se tem dito, muitas vezes a estrutura se torne uma “couraça de Saul
nos lombos de Davi”. Insistir em uma estrutura ineficaz, é a morte do sonho. Uma vez
estruturada, a Igreja está apta a ministrar por um tempo cuja duração pode ser maior ou
menor, dependendo da capacidade da liderança em manter acesa a chama do sonho de
Jesus na alma da Igreja. Segue-se, segundo Dale, um período de nostalgia, que pode ser,
nem mais nem menos, do que a incapacidade de adaptação a novos tempos, novas
situações, novos recursos, ou da incapacidade de ser passado o mesmo sonho para as
novas gerações. A nostalgia resulta em questionamento. Será a nossa estrutura a mais
adequada? Serão válidos os nossos objetivos? Nossas crenças estão certas? Chega-se
então a questionar o próprio sonho, o que equivale a dizer, o sonhador. Todo o
questionamento resulta em polarização. O passo fatal vem a seguir: o desaparecimento.
A única maneira de revitalizar a Igreja, diz Dale, é sonhar de novo o sonho de Jesus. Esse
é o desafio para a Igreja. O caminho pode parecer simples, mas não há outro: é tomar
real a presença de Cristo na vida da Igreja pela leitura da Bíblia, sempre focalizando a
pessoa de Cristo; é orar, buscando submeter a mente e as emoções ao controle do
Espírito Santo; é identificar-se com o sentimento de esvaziamento de Jesus em benefício
da salvação dos perdidos (Fp 2.5-7). Não há método mágico, fácil. Dá trabalho estudar
sobre Jesus na Igreja, de casa em casa, orar nas casas e na Igreja. Dá trabalho e exige
renúncia própria sair do castelo, já posta a mesa, em busca dos famintos da paz e de
Deus. O sonho de Jesus na alma da Igreja, porém, só volta a ser sonhado na medida
em que Jesus se torna real na vida dos seus membros.

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Diagrama: do sonho à morte do sonho (Robert Dale)

3. A IGREJA PADRÃO DO NOVO TESTAMENTOE DE HOJE


Não há uma IGREJA PADRÃO no Novo Testamento, como observa M. Green. Cada Igreja
tem peculiaridades que a torna diferente de todas as demais igrejas. JERUSALÉM é a
consolidação das doutrinas dos apóstolos. ANTIOQUIA DA SÍRIA, a visão missionária,
marco da separação entre a fé judaica e a fé cristã. ÉFESO, perseverança na fé em meio à
depravação. CORINTO, abundância de dons espirituais. MACEDÔNIA, generosidade para
com as vítimas da fome. Igrejas da GALÁCIA, fiéis na resistência à heresia judaizante.
ROMA, fidelidade na proclamação do Evangelho em meio às perseguições. CRETA,
Igrejas em processo de consolidação da liderança. FILIPOS, zelo pelos missionários;
alegria em participar. COLOSSOS, amor fraternal. TESSALÔNICA, Igreja que se prepara
para a volta do Senhor. 1ÍSMIRNA, fidelidade nas tribulações. PÉRGAMO, Igreja que não
negou a sua fé. TIATIRA, Igreja próspera (suas últimas obras são maiores do que as
primeiras). SARDES, remanescente incontaminado. FILADÉLFIA, força na fraqueza.
Poderíamos aqui, alinhar também os defeitos peculiares de cada uma daquelas Igreja. Na
busca de um padrão para si mesma, porém, a Igreja de hoje não pode somar as virtudes
das igrejas do NT para as imitar e listar os seus defeitos para os evitar, mas deve
vivenciar o seu próprio padrão, dentro das suas próprias peculiaridades, seguindo os
princípios enunciados no Novo Testamento. Cada Igreja é o seu próprio universo, ao
mesmo tempo em que é uma amostragem do universo que é o Reino. A unidade do
Reino, forjada pela Esperança, concretiza-se na diversidade das igrejas, assim como a
unidade da Igreja se concretiza na diversidade dos seus membros. Três lições podem ser
extraídas dessa unidade na diversidade:
1. Cada Igreja deve descobrir e viver seu próprio formato, sem querer importar ou
exportar modelos de ou para outras igrejas. Cada Igreja deve ser a melhor Igreja que ela
mesma puder ser de acordo com o padrão do fundador da Igreja e seu Cabeça.
2. Cada Igreja deve ser relevante no seu espaço, dentro da cultura em que está inserida,
interpretando profeticamente o Evangelho no seu tempo e para o seu povo.

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3. A base da cooperação entre as igrejas deve ser o amor que se alegra com os que se
alegram e chora com os que choram, sem hierarquia de pessoas ou funções sob qualquer
aspecto, sem emulações, ciúmes, partidarismo, frutos da carne. O amor que aceita o
irmão como ele é e tenta ajudá-lo a ser como deveria ser no plano de Deus.

4. O QUE TORNA A IGREJA RELEVANTE?


W. E. Criswell responde com os seguintes 4 fatores:
1. “Há uma fome perpétua por Deus” (Sl 42.1) que nada pode satisfazer, a não ser o
próprio Deus em Cristo. A Igreja tem Jesus. A Igreja tem esse pão.
2. “As Escrituras têm uma natureza gravítica(Gravidade, atração)” (Am 8.11; Hb 4.12). A
voz que falou à consciência de Agostinho “Toma e lê” é uma voz universal. A verdade tem
um profundo poder de atração, A Bíblia atrai porque é a verdade. A Igreja tem a Bíblia.
3. “A natureza penetrante da Igreja na comunidade (At 2.47)”. O mundo precisa da Igreja
porque nenhum outro poder penetra tão vasta e profundamente na sociedade para
beneficiá-la como o Espírito Santo. A Igreja tem o Espírito.
4. “O sentido de idealismo (heroísmo) da Igreja.” Os ideais cristãos respondem aos mais
puros e ardentes anseios da alma humana. Há um idealista oculto em cada ser humano.
A Igreja tem esse ideal, o mais sublime ideal de toda a raça humana na pessoa de Jesus
Cristo. Quem quer que conheça a Jesus Cristo e por ele seja liberto do pecado e da morte,
não precisa formular uma ideologia sobre Cristo para por ela se apaixonar. Apaixona-se
pela pessoa de Jesus. Jesus se torna a razão de ser de sua vida, seu ideal é o ideal de
Jesus, a vitória de Jesus se torna a sua vitória, a dor de Jesus pela rejeição do mundo
torna-se o seu sofrimento.
A Igreja tem a resposta, na pessoa de Jesus Cristo, para as mais universais e inquietantes
perguntas do espírito humano. A origem, o significado e o destino final da vida humana
estão em Cristo. Viemos dele, vivemos nele e iremos para ele, como tentou explicar
Paulo no seu discurso em Atenas. A universal busca humana pelo transcendente, pelo
infinito, pelo eterno, pela verdade, só encontra resposta em Cristo.
O mundo não pode prescindir da Igreja, porque não pode prescindir de Jesus. A evolução
da ciência e da tecnologia não solucionou o mais grave e universal dos problemas do ser
humano - o problema da culpa, que só em Cristo tem solução. A angústia existencial do
homem pós-moderno só tem remédio eficaz em Cristo. A Igreja tem Cristo. A Igreja tem a
resposta.
A Igreja é relevante no mundo porque Cristo é relevante. O mundo precisa da Igreja
porque precisa de Cristo. O verso dessa moeda é contundente: A Igreja só é relevante se
é na medida em que nela Jesus esteja vivo.
No alto do Calvário, Jesus pagou o preço da redenção de todos os homens que o aceitam
pela fé e com eles estabeleceu o seu Reino no mundo concretamente através da Igreja.
Na ressurreição, Jesus demonstrou que o céu não há uma utopia - lugar de perfeição que
nunca existiu nem jamais existirá, mas uma realidade tangível que se antecipa na vida
que os salvos vivem como Igreja, a realidade de uma viva esperança. Através da Igreja,
Jesus está criando um novo homem para habitar o novo céu e firmou essa esperança na

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alma da Igreja através da ressurreição. Que cada membro da Igreja possa dizer: “Cristo
vive em mim” e desse modo, único modo, que a Igreja reviva o sonho de Jesus.
CAPÍTULO 3 - A Igreja Em Ação
Como se tomou realidade o sonho de Jesus? Quais os planos de Jesus para concretizar o
seu projeto de edificar a sua Igreja e levá-la a expandir-se vitoriosamente por todo o
mundo? Que estratégias, fundadas em quais princípios, encontramos no livro de Atos e
nas epístolas para justificar o fulminante impacto da Igreja no mundo? Uma leitura
atenta desses documentos mostra que alguns fatores foram de capital importância.

1. A EFUSÃO (derramamento) DO ESPÍRITO EM PENTECOSTES


Jesus dá continuidade ao seu ministério, ele mesmo, através da pessoa e obra do Espírito
Santo. O Espírito de Jesus não é um dos fatores de crescimento da Igreja, mas é o próprio
poder de Cristo em ação no mundo através da Igreja. O Espírito Santo já estava com os
discípulos em caráter particular para missões restritas e definidas, como acontecia em
todo o Velho Testamento. Em Pentecostes, cumprindo a promessa registrada em Joel 2, o
Espírito foi derramado “Sobre toda a carne” para permanecemos discípulos em caráter
efetivo e universal (João 14.17) e equipar a Igreja de poder para um ministério universal
e permanente. O derramamento do Espírito não foi uma inovação da Igreja, não foi
um impacto emocional coletivo, nem um improviso de Deus, mas um
plano anteriormente delineado (Joel 2.28-32; Mt 3.11; Lc 24.49; Jo 14.26; At. 1.8). Diz o
Dr. Reinaldo Purim no livro O ESPÍRITO SANTO:
“Jesus não institucionalizou uma religião. Jesus criou nos homens uma nova vida, o
Cristianismo espiritual baseado na sua obra redentora e nas relações entre as pessoas e Ele
mesmo como Salvador. O Cristianismo histórico ou visível é obra do Espírito Santo levada a
efeito com a cooperação dos cristãos”.
É o Espírito Santo que caracteriza e identifica uma comunidade religiosa como Igreja de
Cristo. Em todos os aspectos da natureza, significado e atuação da Igreja, é a presença do
Espírito Santo que faz a diferença.
No Kerigma(Proclamação da verdade de). É o Espírito Santo que faz a diferença entre o
discurso e a PROCLAMAÇÃO. O Kerigma evangélico “é o anuncio do Evangelho da
salvação alcançada por Cristo e obtida através dele” (Thayer). Kerigma é mais do que
discursar sobre Jesus: é falar de Cristo no poder do Espírito Santo. Veja essa diferença
em 1Co 2.4 - “A minha palavra, e a minha pregação não consistiu em palavras persuasivas
de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder. ” O discurso pode ser
eloqüente, mas a proclamação evangélica converte as pessoas, muda a direção da vida
sob todos os aspectos porque faz com que a Palavra de Deus, mais cortante do que
espada alguma de dois gumes, penetre as regiões mais profundas da alma humana com
o propósito de discernir os pensamentos e as intenções do coração (Hebreus 4.12). Um
exemplo do poder querigmático está no efeito da pregação de Pedro em Pentecostes. A
proclamação cristã não se esgota em si mesma, mas transcende seus próprios limites em
vidas transformadas. Que resposta deseja o pregador como reação à sua pregação?
“Gostei do seu sermão’’ ou “A minha vida foi transformada’’? O Espírito faz a diferença
No Didaqué (Livro de Instruções da Igreja Primitiva). É a iluminação do Espírito Santo
que faz a diferença entre ensino da fé cristã e DISCIPULADO. Ensino pode ser apenas
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a transmissão de conhecimentos com o uso eficaz dos dons naturais de magistério.
Didaqué é mais do que ensino: é o ato de ensinar, o conteúdo do ensino e o seu
resultado na formação do caráter dos educandos mediante a atuação sobrenatural do
Espírito de Deus na compreensão e prática da Verdade. Os atenienses pensaram que o
“ensino ” de Paulo seria mais uma doutrina filosófica. Para Paulo, no entanto, o
Didaquétoukyriou (doutrina do Senhor) é uma doutrina com poder para transformar
vidas (Atos 13.12).
Carismata (dons espirituais). E a atuação do Espírito Santo que faz a diferença entre os
dons naturais e DONS ESPIRITUAIS. Carisma é uma dádiva graciosa, sobrenatural;
“denota poderes extraordinários que distinguem certos crentes e os capacita para servirem
à Igreja de Cristo e cujo recebimento deve-se ao poder da graça divina operando em suas
almas pelo Espírito Santo ” (Cremer, citado por Thayer in loc). O dom natural é
propriedade do indivíduo que o possui, que determina onde, como e quando usá-lo em
benefício de quem. Carismata (dons) são concessões do Espírito, “para o que for útil” (1
Coríntios 12.7). Não se pode alcançar objetivos sobrenaturais com o uso dos dons
naturais, nem se pode alcançar objetivos carnais com o uso dos dons espirituais. O
Espírito faz a diferença. Os dons naturais podem levar ao sucesso, mas só os dons
concedidos pelo Espírito manifestam a glória (doxa) de Deus. Em hebraico, doxa traduz
cabod, que não é apenas o esplendor da presença (shekina) de Deus, mas é mais: é a
presença ativa de Deus que mostra a sua glória, é Deus em ação em favor do seu povo. Se
o nosso objetivo é o sucesso, bastam os dons naturais. Se, porém, o que almejamos
é realizar o sonho de Jesus, temos que dar lugar aos dons espirituais.
Paraklesis. É a presença do Espírito Santo que faz a diferença entre o aconselhamento e
CONSOLAÇÃO. Paraklesis é a consolação do Espírito Santo que capacita o cristão para
consolar. Veja em 2Coríntios 1.3-4. A variedade de palavras para indicar o ministério da
consolação do Espírito: "O Deus de toda consolação (descritivo de Deus), Aquele que nos
consola (presente ativo, indicando a natureza da consolação) com que nós mesmos somos
consolados". Entendamos o que a Palavra nos quer ensinar:
1. Deus não nos consola apenas para nosso conforto pessoal, mas com o objetivo
explícito de nos capacitar com poder para sermos consoladores. O uso da preposição eis
(para, com o fim de) precedida do artigo definido indica o objetivo restritivo da
consolação: para podermos consolar. Em outras palavras: o modo de encontrar
consolação é sendo consolador do próximo.
2. Só os consolados por Deus podem consolar os que sofrem. O ímpio pode aconselhar,
mas consolar é privilégio de quem é usado pelo Consolador.
3. A consolação como dom espiritual é uma ação sobrenatural poderosa do Espirito na
Igreja, não um talento natural. O talento natural da capacidade de observação, o
interesse social, o preparo acadêmico na área da psicologia podem ajudar a fazer o
diagnóstico dos problemas, mas só o Espírito Santo penetra as profundezas da alma,
descobre as suas reais necessidades e produz refrigério e transformação.
Na koinonia (Comunhão). E o mover do Espírito Santo na Igreja que faz a diferença entre
companhia e COMUNHÃO. Koinonia, na acepção clássica, é companheirismo, o ato de
estar junto, possuir sentimentos ou propósitos comuns. Soldados sob a mesma bandeira,
atletas com o mesmo uniforme, estudantes na mesma série, traficantes da mesma área,
bandidos no mesmo assalto, viciados no mesmo vício, todos têm algo em comum,
16
formando uma “sociedade”, mas isso não é a koinonia. A comunhão cristã é cooperação
no Evangelho (Filipenses 1.5); é uma comunhão “no sangue de Cristo ” (1 Coríntios
10.16), ou seja, sob os benefícios da sua morte (Thayer); é uma "comunhão no corpo de
Cristo ” (2Coríntios 8.4); é uma comunhão no Espírito (Filipenses 2.1). Uma
leitura atenta de 1 João 1.3,7 nos mostra que só podem ter comunhão uns com os outros,
aqueles que estão em comunhão com Deus mediante a purificação dos seus pecados pelo
sangue de Jesus. Podemos ter interesses comuns e até amizade com pessoas não salvas,
mas a koinonia cristã só é possível entre os remidos mediante a ação do Espírito Santo.
Na oikonomia (mordomia). E o discernimento dado pelo Espírito que faz a diferença
entre administração e MORDOMIA. Oikonomia (governo da casa) é o reconhecimento
do senhorio de Cristo, é a compreensão do valor espiritual do dinheiro, da propriedade,
dos móveis e utensílios a serviço do Senhor. O administrador eclesiástico pode ser
eficiente do ponto de vista empresarial, mas se ele não tiver a visão do valor
espiritual das coisas de Deus, não será um oikonomostouTheou (mordomo de Deus).
Essa visão iluminada pelo Espírito, que nem todos os administradores eclesiásticos
possuem, é um dom sobrenatural do Espírito que faz prosperar a Igreja de Deus como
agência do Reino.
Martyria (Testemunho). É o poder do Espírito na Igreja que faz a diferença entre
declaração e TESTEMUNHO. Martyria não é apenas a declaração da verdade, mas a
exteriorização da verdade como experiência interior. Em Lucas 24.48, depois de
comissionar os discípulos para levarem o Evangelho ao mundo inteiro, Jesus
ressuscitado declara: “Vós sois testemunhas destas coisas. ” Em Atos 1.8, Jesus diz
enfaticamente: “Mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo e sereis minhas
testemunhas. "Não é possível ser testemunha de Jesus sem o poder do Espírito. Não basta
proferir sobre Cristo. É preciso testemunhar de Cristo como suprema realidade na
própria vida e isso só é possível pela atuação do Espírito, o ungidor de poder. Qualquer
pessoa pode contar a história de Jesus ou ler o sermão do monte, mas ser sua
testemunha é contar os fatos da vida de Jesus relacionados com a experiência própria.
Élpis (esperança). É a permanência do Espírito Santo na Igreja que faz a diferença entre
expectação e ESPERANÇA. Élpis, esperança, raríssimas vezes é associada aphobos
(pavor) ou kakon (desgraça) mas está sempre relacionada com euthymia, alegria e
certeza, ou, no sentido cristão, “ Expectativa feliz e confiante da salvação eterna” (Thayer.
Veja também Kittel, in loc). A esperança dos regenerados por Cristo pela fé é uma
elpidasozan, “uma viva esperança” (1 Pedro 1.3), uma esperança que antecipa o que se
espera de uma forma tão real que se torna a pulsação da própria vida. Essa esperança
tem como fundamento a regeneração; como alvo, a volta de Cristo e o estabelecimento
do Reino eterno. Sem a atuação do Espírito Santo, a Igreja se torna um empreendimento
secularizado, profano, carnal, que se esgota nos seus próprios limites, sem esperança
como vivem os gentios sem Cristo no mundo (Efésios. 2.12) - xorisKristou - elpida me
exontes ou seja: “separados (cortados) de Cristo, não têm esperança”. Quem torna real na
Igreja a presença de Cristo e, assim, nela mantém urna esperança viva, uma chama viva
de esperança, é o Espírito Santo. É fácil de entender esse processo: A Igreja suspira pela
chegada de Cristo como a noiva espera pelo seu noivo, contando os dias e as horas que
faltam para ele chegar porque o amor de Deus foi derramado nos corações dos
salvos pelo Espírito. Élpis é a esperança que age enquanto espera. Por isso, “a esperança
não traz confusão ” (Romanos 5.5).
17
Proskinesis (adoração?). É o Espírito Santo que faz a diferença entre uma reunião de
pessoas que falam e cantam a respeito de Jesus e o verdadeiro culto cristão, pois é o
Espírito que torna real, na alma dos adoradores, a presença do Deus a quem eles adoram
e é Ele que conduz as suas orações de quebrantamento, súplica e louvor ao trono da
Graça. Sem a livre atuação do Espírito Santo, o culto se torna um espetáculo. Pode até
atrair, multidões, agradar aos sentidos físicos, mas não será Proskinesis, a verdadeira
adoração.
CONCLUSÃO
O Espírito Santo não é mero espectador, nem mero convidado opcional, ocasional, mas é
o poder, a própria vida da Igreja. Sem o Espírito Santo, a Igreja se toma um corpo sem
vida, sem esperança, uma lâmpada sem luz, sem poder. Não é a Igreja de Cristo. Ao
equipar a Igreja com o Espírito Santo, Jesus estava dando à Igreja o poder de que ela
iria precisar, séculos a fora, para se tomar, em realidade, a Igreja com a qual ele sonhou.
É o Espírito que fez da Igreja uma comunidade redentiva, uma comunidade profética,
uma comunidade de amor, relevante no mundo, que anuncia e sinaliza a glória.

2. LIDERANÇA CAPACITADA
Jesus recrutou e treinou líderes que ele mesmo escolheu visando à consecução do seu
plano de implantar o seu Reino na terra. Ele não os escolheu pelos critérios geralmente
aceitos como válidos para o recrutamento de pessoal, mas segundo os critérios de Deus,
que não olha para a aparência, mas para o coração (1 Sm 16.7). A Igreja seguiu os seus
ensinamentos nessa matéria, com grande sucesso.
Nas Igrejas do Novo Testamento, as funções de liderança são de fundamental
importância para dar cumprimento ao propósito de Jesus. Antes de listar as funções
encontradas no Novo Testamento, algumas observações:
a. O recrutamento e escolha dos líderes obedecia a um processo natural, no qual a
piedade, a dedicação e os dons espirituais devidamente reconhecidos pela igreja eram os
fatores que mais pesavam na seleção de obreiros (Tito 1.5; 1Tm 3.10).
b. Os líderes eram responsáveis pela “boa ordem" nas igrejas. Havia extremo cuidado
na escolha da liderança, pois as igrejas sabiam que “o rebanho segue o pastor” (Veja Tito
2.7,85) e que uma boa liderança é fundamental para o crescimento da igreja.
c. Não há hierarquia funcional. Há uma autoridade espiritual. Os mais piedosos, que
servirem com humildade, serão reconhecidos como líderes (1Tm 3.13).
d. Não há “leigos”. Todos são ministros, todos são servos. A divisão entre clero e laicato
é desconhecida no livro de Atos.
e. Os diferentes títulos indicam funções de serviço, nunca uma posição hierárquica,
conforme os dons espirituais e a capacitação provada na prática Um mesmo líder pode
ser designado por mais de um título, o que significa que exerce mais de uma função. Um
diácono faz a obra de um evangelista (At 8.40), (inclusive batiza um novo convertido (v.
38); um apóstolo se autodenomina presbítero (1 Pe 5.1) e assim por diante.

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Vejamos, pois, as palavras que descrevem os diferentes aspectos dos dons de liderança
na igreja primitiva.

APÓSTOLO - Apostolos - figura como substantivo ou adjetivo, significando “embaixador"


comissionado, aquele que é enviado com uma missão específica- Ocorre 79 vezes no
Novo Testamento. No sentido estrito, designa um grupo de 12 discípulos que Jesus
enviou com autoridade sobrenatural para operar sinais e proclamar a sua mensagem. No
sentido genérico, designa uma das funções dos missionários
cristãos (Interpreter’sBibleDic, in loc). Os apóstolos de Jesus são testemunhas oculares do
seu ministério e da sua ressurreição (At 1.21,22). Em que pese a doutrina católica de
sucessão apostólica e a presunção mórmon de possuir os doze, os textos bíblicos, em
nenhuma instância deixam a idéia de uma transmissão ou linha sucessória. Não é um
título formal ou institucional, mas operacional, como todos os títulos de liderança no
NT. Paulo atribui a si mesmo o título de apóstolo, que foi contestado em Corinto (1 Co
9.2), por se considerar embaixador de Cristo. Sobre o espírito com que os apóstolos
devem servir, veja João 13.16: Não é função de domínio nem de prestígio pessoal, mas de
serviço. Apostolos é uma composição da preposição apo (a partir de, vindo de, extensão
de, continuidade de) e o verbo stelo (enviar, equipar para uma viagem). Alguns rabinos
enviados à diáspora foram designados como apóstolos. É mais um termo grego que
assume um específico significado religioso cristão (Jo 20.21).

PROFETA - Profetes - Aquele que anuncia em voz alta, porta voz, o que fala em nome de
alguém que lhe é superior. No NT, “aquele que, movido pelo Espírito de Deus como seu
porta voz, declara solenemente aos homens o que dele recebeu por inspiração,
especialmente sobre eventos futuros e proclama o Reino de Deus para a salvação do ser
Humano”. (Thayer, citação livre). Título aplicado aos profetas do Velho Testamento, a
João Batista, ao Messias (At 3.22,23 - vide refs). Surgiram alguns cristãos na Igreja
primitiva com revelações especiais (Atos 15.32). É considerado um dom espiritual
(1Coríntios 14.29), não um título formal. Designa a percepção sobrenatural em relação
aos propósitos de Deus para a igreja e para o mundo. Foi um dom espiritual de grande
valia quando a Igreja ainda não possuía as Escrituras do Novo Testamento. Não
confundir profetas com adivinhos ou prognosticadores, totalmente vedados nas
Escrituras. O profeta verdadeiro encarna a vontade de Deus e proclama os juízos de
Deus. O falso profeta encarna sua própria vontade e proclama sua própria palavra. O
Espírito Santo, ainda uma vez, faz a diferença.

EVANGELISTA - Evangelistes (Ef 4.11) - portador das boas novas, aquele que anuncia
as boas novas de salvação. “Designa os proclamadores das boas novas que não eram
apóstolos ” (Thayer). Veja At 21.8; Ef 4.11; 2Tm 4.5 (Paulo exorta Timóteo a fazer a obra
de um evangelista). Veja em At 8.4 que todos, exceto os apóstolos, (que não foram
dispersos, v. 1), foram por toda a parte, anunciando a palavra. Todos eram evangelistas.

PASTOR - Poimenas - não designa posição hierárquica ou institucional, mas a virtude


do líder para apascentar o rebanho de Jesus (1Pe 2.25). É um dom do Espírito (Ef 4.11).

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Há pastores verdadeiros e pastores falsos. O verdadeiro dá a vida pelas ovelhas. O falso,
mercenário, que não está emocionalmente ligado às ovelhas, “vê vir o lobo e deixa as
ovelhas e foge; e o lobo as arrebata e dispersa ” (Jo 10.11,12). Jesus deu a Pedro, apóstolo,
pescador de profissão, a incumbência de apascentar os seus cordeiros, como resultado
do seu amor (João 21.17). Qualquer outro sentimento, qualquer outra motivação que
não seja o amor a Jesus, resultará em fracasso no pastoreio das ovelhas de Jesus.
Ninguém pode amar as ovelhas de Jesus sem amar a Jesus e ninguém que ame a Jesus,
pode deixar de amar as ovelhas de Jesus. O cuidado pastoral abrange: Zelo para com a
vida de cada ovelha do rebanho individualmente (Lc 15.4); interesse e carinho em nutrir
as ovelhas do rebanho (Sl 23.2); proteção do "rebanho, em face dos predadores (Am
3.12); fortalecimento das ovelhas para poderem resistir aos predadores na ausência do
pastor (At. 20.29); responsabilidade, consciência de que terá que prestar contas das
ovelhas a Deus (Hb 13.17).

MESTRE -Didaskalos - também traduzido por “doutores” (Ef 4.11) e “instruidores”


(lTm2.7). Paulo, apóstolo, é Didaskalos - “doutor” dos gentios. Ele não sente que seja sua
obrigação apenas proclamar o evangelho, mas levar os salvos a viverem o evangelho.
Veja em Gl 4.19, que o grande e desafiador alvo do mestre cristão é formar o caráter de
Cristo nos discípulos, não apenas transmitir conhecimentos sobre Cristo. O ensino do
mestre cristão só é válido mediante a unção do Espírito. Faça uma boa leitura de 1 Jo
2.27, onde se vêm, em gráfico contraste, o ensino ungido da verdade e o ensino do erro
(pseudos). Cuidado: o pseudo-discipulado pode estar encastelado dentro da Igreja. A
unção da verdade capacita o mestre a permanecer em Cristo “para que, quando ele se
manifestar, tenhamos confiança e não sejamos confundidos por ele na sua vinda ” (v 28).
Assim podemos resumir as funções dos mestres no NT: Tomar claro o ensino de Jesus;
traçar a linha divisória entre a verdade e a mentira para que os discípulos de Jesus não
sejam enganados pelos falsos mestres; levar os discípulos a observarem, no seu modo de
viver, os ensinos de Jesus (Mt 28.20); preparar a Igreja para a volta de Cristo.

SUPERVISOR – Episkopos - bispo, superintendente, aquele que tem uma visão global da
obra, o que faz a inspeção da obra. Deepi (sobre, superior, por cima de) eskopeo,
“observar de longe, desde cima, pôr a vista em, ter por fim, ter cuidado, velar, examinar”
(Isidro Pereira). Não designa posição de mando, mas de serviço específico e
responsabilidade. Thayer traduz: “alguém incumbido do dever de observar o que está
sendo feito por outros". Abrange: conhecimento dos objetivos parciais, para que seja
alcançado um objetivo global; conhecimento das tarefas e das pessoas que as
executarão; capacidade para atribuir tarefas e acompanhá-las, substituir métodos e
pessoas na hora própria. Em 1Tm 3 são mencionadas as funções de bispos e
diáconos distintamente, o que dá a entender que havia apenas duas categorias de
obreiros nas Igrejas: Diáconos e pastores, estes também chamados anciãos, mestres,
bispos, evangelistas, conforme a função em foco. A. H. Newman, historiador batista, no
seu Manual de História da Igreja, Vol. 2, página 134, cita nomes dos mais aceitos na
erudição bíblica em favor da tese de que na Igreja primitiva havia apenas duas
categorias de oficiais: bispos ou presbíteros (também chamados pastores), e diáconos.

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ANCIÃO - Presbyteros. Refere-se à dignidade, ao respeito devido, à sabedoria e
prudência nas palavras, decisões e atitudes, que o pastor deve demonstrar, não importa
a sua idade. É mais um termo grego vestindo um conceito hebraico. Tecnicamente, a
palavra define apenas a idade. Espiritualmente, o conceito tem raízes na cultura
hebraica, cuja sociedade patriarcal buscava nos “anciãos” conselhos de Sabedoria e
prudência. Não se trata de uma instituição eclesiástica. Todos os líderes devem cultivar a
virtude da prudência e moderação (presbeia). Em Lc 14.32, presbeian é uma embaixada
de paz. Veja em Lc 22.66 que os anciãos formavam o sinédrio, vertido também por
concilio. 1Tm 4.14 não fala de um presbitério institucional, mas de uma reunião de
obreiros idôneos para imporem as mãos sobre a cabeça de Timóteo, como ato de
reconhecimento público da sua capacitação espiritual para o ministério e não como um
ato mágico de transmissão de virtude.
MINISTRO - Diakonos. O uso secular dessa palavra equivale a ‘'criado, servente” (Isidro
Pereira). “Alguém que executa as ordens de outrem, especialmente de um mestre; servo,
ministro, atendente” (Thayer). Refere-se ao servo do rei. Em Mt 22.13 os diáconos são
os servos do rei que recebem a ordem de amarrar o intruso da festa e atirá-lo nas trevas
exteriores. Em Mt 20.26, Almeida Revisada traduz por “serviçal”. BLH verte “o que é
mandado”. Outras versões trazem “o que serve”. Em Cl 1.25 Paulo se considera “ministro
segundo a dispensação de Deus”, literalmente, “diácono conforme a mordomia de Deus”.
Em Rm 13.4, a autoridade secular é designada como diakonostouTheou (vertido para
“ministro de Deus”). Em Atos 6.2-3, o diaconato é formalmente instituído para “servir às
mesas" (dos pobres) [O termo melhor seria entendido por servir às mesas de troca de
dinheiro, como um tesoureiro. Nota Pessoal]. Posteriormente, as igrejas passaram a
escolher diáconos para gerir os vários aspectos da beneficência e da sua administração
secular.

CONCLUSÃO
Jesus sabia que, para a realização do seu sonho de edificar a sua igreja, precisaria
perpetuar seu próprio trabalho através de liderança eficaz em cada Igreja e por isso, não
somente dedicou tempo em instruir e treinar líderes, mas deu seu próprio exemplo. Leia
João 20.21. Literalmente, “Assim como o Pai consumou o ato de me enviar, eu estou
começando a vos enviar a vós”. Jesus é o “Apóstolo e sumo sacerdote ” (Hb 3.1); profeta
que encarnou e proclamou os juízos de Deus (At 3.22); evangelista, proclamador de boas
novas (Lc 4.18-20); o bom pastor que dá a sua vida pelas ovelhas (João 10.11); mestre
autorizado (Mt 23.8,10); bispo que possui uma visão global e superior do Reino,
podendo ver o presente e o futuro, o local e o universal simultaneamente (At 1.8);
diácono que se cinge de uma toalha para lavar os pés aos discípulos (Jo 13.13-16).
Depois de instruir os discípulos e de lhes dar o exemplo, Jesus lhes envia o seu Espírito
para permanecer neles, capacitando-os para serem apóstolos, mestres,
evangelistas, bispos, anciãos e diáconos com o mesmo espírito. Jesus, através do seu
Espírito, não instituiu cargos na Igreja, mas funções de serviço, nas quais todos têm igual
responsabilidade e igual recompensa.

“MAS ENTRE VÓS NÃO SERÁ ASSIM”

21
Uma advertência crítica que tem sido feita à Igreja Católica em relação ao absolutismo
do poder papal deve ser ainda mais crucial em relação às igrejas que, por definição, têm
uma estrutura democrática de governo: Jesus não estabeleceu uma hierarquia de poder
funcional de cima para baixo na sua Igreja, como nos governos e empresas do mundo,
mas uma escala de valores espirituais, de baixo para cima. Os critérios diferenciais de
Jesus causaram espanto entre os apóstolos que, como todos os seres humanos,
disputavam entre si para saber quem deles seria o maioral. Esses critérios estão claros
em Marcos 10:42-44: “Sabeis que os que julgam ser príncipes das gentes delas se
assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre elas; mas entre vós não será
assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal (diakonos -
ministro); e qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo(doulos - escravo) de
todos. ” Piedade, santidade, humildade em servir, eficiência em alcançar os objetivos
do Reino, contam mais do que títulos, abrangência de poder, tempo de
serviço, competência profissional ou simpatia pessoal. As funções do ministério, tanto na
esfera da Igreja local quanto na cooperação entre igrejas, devem ser encaradas como
oportunidades de servir, de abençoar, de ser exemplo de respeito às liberdades
individuais na comunidade, nunca ao espírito autoritário, discricionário e ditatorial, que
é a negação da liberdade em Cristo, para a qual fomos chamados. A sede de mando, a luta
pelo poder, as carências pessoais, não raro mórbidas, que se transformam em disputas
pela primazia na Igreja, têm causado maiores danos à Igreja do que os ataques de fora. A
“síndroma de Diótrefes (3Jo 1:9-11)” é uma das tragédias na liderança do Reino. Mas, ao
dizer: “entre vós não será assim", Jesus acrescenta: “Porque o Filho do homem também
não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos ", Mirem-
se no exemplo de Cristo todos aqueles que têm oportunidade de servir no Reino.

3. A PREGAÇÃO
Jesus também equipou a Igreja com o poder da pregação - o poder da Palavra autorizada
pela unção do Espirito Santo. “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a
criatura" (Mc 16.16). A pregação é um elemento indispensável no propósito redentivo
de Deus. Em Rm 10.9-14, vemos o desenvolvimento do argumento de Paulo em favor da
pregação:
a. Para ser justificado, o pecador tem que crer em Jesus no seu coração e confessá-lo com
a sua boca (v.9), invocando-o como Salvador.
b. Para que o pecador creia em Jesus e professe a sua fé, ele precisa ouvir o evangelho,
precisa tomar conhecimento do evangelho.
c. Para que o pecador ouça o evangelho, é preciso que alguém pregue.
d. Para que alguém pregue, precisa ser comissionado.
A tese de Paulo está no v. 17: “a fé vem pelo ouvir e o ouvir pela palavra de Deus."
A proclamação requer proclamadores. “Aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura
da pregação ” (kerygmatos). Daí a exortação de Paulo a Timóteo: “Prega a Palavra. ” O
pregador é um profeta que encarna a Palavra de Deus e proclama a Palavra de Deus. A
profecia pode vivificar ossos secos, edificar e derrubar reinos, reacender o ânimo dos
abatidos ou abater ânimos exaltados. Como no culto do Velho Testamento, a Palavra de
Deus também ocupa o lugar central na proclamação e na adoração na Igreja Cristã
22
porque ocupa o lugar central na vida dos adoradores e proclamadores do Evangelho. A
pregação como centro do culto cristão deriva da centralidade da Palavra na vida dos
adoradores.

O QUE DEUS REQUER DO PREGADOR


1. Que possua, ele mesmo, uma experiência real de novo nascimento e uma firme,
profunda e inarredável convicção da vontade de Deus a ser proclamada e que haja uma
perfeita correlação entre a sua mensagem e a sua vida.
2. Que diga somente e tudo o que Deus mandou dizer, ainda que isso resulte em
resistência, oposição e morte.
3. Que respeite a liberdade dos ouvintes para aceitarem ou não a sua mensagem, ainda
que esteja disposto a dar a sua vida para que a aceitem (Ez 3.18,19).

OS OBJETIVOS DA PREGAÇÃO CRISTÃ


1. Levar cada pecador a conhecer Jesus como Salvador e a servi-lo como-Senhor.
2. Fazer com que a Palavra de Deus ocupe o lugar central do culto, para que, em
conseqüência, ela ocupe o lugar central na vida da Igreja.
3. Consolar os que sofrem, exortar os que erram, reanimar os vacilantes, instruir na
Palavra de Deus, agir terapeuticamente. O pregador deve ser sempre o Paraclitos dos
seus ouvintes, mesmo quando combate o pecado com ousadia, não o seu diabolos, o seu
acusador.
4. Levar os salvos a decidirem moldar suas vidas no mundo segundo os padrões éticos
da Bíblia.

A PREGAÇÃO NO LIVRO DE ATOS E EM NOSSOS DIAS


É uma pregação bíblica. Basta uma leitura das pregações de Pedro, Estêvão e Paulo no
livro de Atos para comprovar que o poder da pregação cristã é a sua base na Palavra de
Deus. Não será diferente hoje. O mundo tem fome da Palavra Viva porque tem fome da
verdade. O mundo rejeita a pregação na carne, ainda que seja simpática e eloqüente, que
não penetra “até a divisão da alma e do espírito ” (Hb 4.12). Todos os grandes pregadores
cristãos em toda a história da Igreja e todos os grandes pregadores cristãos da
atualidade sempre foram e são poderosos nas Escrituras.
É uma pregação que abrange a totalidade da verdade bíblica. Logicamente, cada
pregador tem os seus textos preferidos, que tocam as suas emoções pelos mais variados
motivos, ou têm as suas seções bíblicas preferidas. A Bíblia, porém, é um todo
harmônico, a Verdade completa, para ser proclamada em sua totalidade. Só a constante
dependência do Espírito pode levar o proclamador a selecionar e aplicar na medida
certa o texto bíblico certo.

23
É uma pregação cristocêntrica. Os ensinos morais da Bíblia, valiosos e universais, a
filosofia na Bíblia, os ensinos bíblicos que interessam à psicologia, à história, à cultura
geral, nada disso pode substituir a pessoa de Jesus Cristo na centralidade da pregação
cristã. O que é que dá sentido aos eventos bíblicos como o bebê Moisés no cesto
betumado, a vitória de Davi sobre o gigante Golias, Ester no reino de Assuero, os amigos
de Daniel na fornalha, senão a pessoa do Messias Jesus? Todo o nosso cabedal de
doutrinas - nossa identidade bíblica, perde o seu significado na medida em que perde a
sua cristocentricidade. Por que devemos pregar, preservar, fortalecer a nossa identidade
bíblica? Porque só assim estaremos pregando, preservando e fortalecendo a nossa
identidade com Cristo.
É uma pregação que respeita as leis da hermenêutica. Não é honesto forçar um texto
bíblico a dizer o que ele não diz, com o intento de manter uma posição doutrinária. O
público pode se deixar lisonjear, mas não se deixa enganar. A verdade sempre aparece e
prevalece.
É uma pregação contextualizada. Seria extremamente lamentável e contraditório o
entendimento de que a identidade bíblica de uma igreja independe da contextualização
da sua pregação. O homem do nosso tempo precisa desesperadamente de Jesus. Muitos
movimentos heréticos surgem da falsa premissa de que a mensagem bíblica deixou de
ser relevante para o homem moderno. O que tem a ver a Bíblia com os avanços
científicos e tecnológicos, com as mudanças sociais, com as transformações culturais que
se processam com velocidade cada vez maior? Seria a nossa única resposta confirmar a
falsa premissa, fechando os olhos para as necessidades espirituais do homem no seu
contexto vivencial? O conteúdo do kerigma, Jesus Cristo, é constante, universal e eterno,
mas a linguagem e o método da pregação devem ser sempre atualizados para poderem
alcançar o ser humano dentro do universo cultural em que ele se insere.

CONCLUSÃO
Que tipo de pregação estava na mente de Jesus quando Ele determinou à Igreja; “Ide por
todo o mundo e pregai o evangelho”? O texto diz: Poreuthentes (aoristo médio,
“começando a ir”) eis (para dentro de, com interesse) tonkosmonapanta (o mundo
inteiro, completo) kerixate (aoristo ativo - comecem e continuem a pregar.)
toevangelion - o evangelho (objeto único da pregação para o mundo todo). Certamente,
Jesus pensava em uma pregação bíblica, cristocêntrica, contextualizada sob a unção, no
poder e iluminação do Espírito Santo Essa pregação será, hoje e sempre, poderosa como
foi no primeiro século, fator indispensável para que a Igreja torne real o sonho do seu
fundador.

4. ESTRATÉGIAS E MÉTODOS EFICAZES


Até aqui temos considerado os fatores internos que impulsionaram o crescimento da
Igreja primitiva: O poder do Espírito, a centralidade da Palavra na proclamação,
liderança capacitada. Que fatores externos teriam contribuído para que fosse tão
espantoso o crescimento da Igreja em Atos? Seria ingenuidade imaginar que a Igreja agia
sem planos, sem estratégias. Muito se tem falado sobre o efeito da perseguição, mas é
evidente que a perseguição não pode ser considerada um fator estratégico ditado pelo
Espírito. M.Green coloca em destaque alguns desses fatores externos:
24
O Deus Único. Contrapondo-se à pulverização do conceito de Deus (cada etnia possuía
os seus deuses locais e particulares), o Deus dos cristãos, o mesmo Deus dos judeus, é
um Deus único, Criador de todo o universo. Leia o discurso de Paulo em Atenas (Atos
17.15ss) e veja, conforme sugere M. Green em EVANGELIZAÇÃO NA IGREJA PRIMITIVA,
como Paulo se esforça, no seu inflamado discurso no Areópago, para provar que o Deus
dos cristãos, que ressuscitou a Cristo, é o único Deus. Cansados da multiplicidade dos
seus deuses, os gregos t suspeitavam da existência de um Deus único, que não podia ser
conhecido pelos sentidos físicos, a quem atribuíram o título DEUS DESCONHECIDO e a
quem erigiram um altar.
A raça única. Embora falando línguas e dialetos diferentes, vivendo em condições
culturais, climáticas, ambientais diferentes, toda a raça humana está ligada por
referenciais comuns, que facilitam a propagação do evangelho: a ânsia pela imortalidade,
a busca do transcendente, ativa messiânica, a universalidade das questões sobre a
origem, natureza e objetivo da vida. Cristo é o Salvador para todas as raças
humanas, que só diferem fisicamente, mas moral e espiritualmente formam todas uma
raça única.
A natureza única. A natureza gregária do ser humano é um fator universal. À formação
de igrejas respondia à necessidade social universal do homem. A Igreja é a única
sociedade onde os seres humanos podem viver em amor, sem distinção de sexo, idade,
raça, profissão, língua ou condição econômica, alcançando o ideal impresso pelo Criador
na própria natureza do homem.

5. ESTRATÉGIA DE AÇÃO
Tão errado quanto supor que as igrejas primitivas agiam intempestivamente, sem
método, sem uma estratégia definida, sem objetivos bem delineados, seria supor que
elas estivessem engessadas dentro de um método único ou de uma estratégia única. Os
princípios nos quais se baseia a estratégia missionária da Igreja apostólica podem ser
postos em prática em qualquer lugar do mundo e produzirão os mesmos resultados da
evangelização na Igreja primitiva, obviamente se ela puder contar com a mesma
dinâmica do Espírito:
1. Irradiação concêntrica. Os missionários fundavam igrejas em grandes centros de
irradiação cultural, de onde o evangelho ia se espalhando em círculos concêntricos a
partir da base. Esse era o método preferido de Paulo.
2. Descentralização. Cada igreja era autônoma para administrar os seus negócios,
fundar outras igrejas e cooperar voluntariamente com as igrejas de todo o mundo.
3. Verticalização. Todos os grupos sociais eram alcançados e reunidos na Igreja na
condição de irmãos: escravos e senhores, soldados e centuriões, sacerdotes e serviçais
do templo, procônsules e bárbaros, jovens e velhos, todos resgatados pelo mesmo preço,
o sangue de Cristo, sob a égide do mesmo Espírito. Nenhuma convenção de
condomínio, nenhum corporativismo, nenhum espírito de grupo pode impedir
a explosão de fé de alguém que está dentro do mesmo grupo. Esse é o método que tem
sido provado o mais eficaz em nossa sociedade.
4. Liderança capacitada. Eram comissionados líderes locais e líderes itinerantes, que
iam descobrindo, treinando e investindo de autoridade um número crescente de outros
25
líderes, numa verdadeira reação em cadeia. Métodos de merchandising hoje
considerados modernos e revolucionários, como o “marketing de rede”, por exemplo,
baseados no “treinar treinadores” já estavam a serviço da evangelização na Igreja
primitiva.
5. Auto sustento. Cada nova Igreja era ensinada a se responsabilizar pelo seu próprio
sustento, gerando confiança e consolidando os resultados da pregação.
6. Respeito às raízes culturais de cada povo evangelizado (Veja o capítulo 12 deste
livro).
7. Flexibilidade. Utilização de todos os recursos metodológicos disponíveis, sem fixação
em um método único em dois lugares ou em dois momentos diferentes. Cada Igreja é
uma amostragem do seu próprio universo, cada Igreja está em contato com o seu
próprio universo de um modo linear, direto, eficaz. Por isso, cada Igreja deve desenhar o
seu próprio modelo para alcançar os resultados do seu ministério da maneira mais
eficaz possível, dentro dos padrões do Novo Testamento.

ESTRATÉGIAS E MÉTODOS DE EVANGELISMO DA IGREJA PRIMITIVA

CONCLUSÃO
Haward A. Snyder, no livro LEBERATING THE CHURCH descreve a Igreja do Novo
Testamento como “uma comunidade reunida em torno de Jesus” (Pág. 116). Segundo

26
ele, Mateus. 18.20 dá a mais concisa descrição da Igreja de Jesus: "Porque onde estiverem
dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles. " Jesus Cristo 6, ele mesmo
em pessoa presente na Igreja conforme os termos da sua promessa: "até a consumação
dos séculos”, o fator real de absoluta eficácia para definir uma Igreja cristã, traçar o seu
perfil como tal e potencializar o seu testemunho no mundo, independentemente de
quaisquer fatores internos ou externos. Essa Igreja em torno de Jesus, não importa o seu
tamanho, nem a competência pessoal dos seus líderes, nem a soma de recursos
disponíveis, essa é a Igreja que vence o mundo.
CAPÍTULO 4 - Liturgia Da Igreja Cristã
“Tudo no homem conduz, a Deus”. Batista Mondin
O substantivo LITURGIA - do grego leitourgia - deriva da combinação de leiton, “coisa
pública” (de laos, povo) e a raiz erg como substantivo - ergon, “função ” “esforço ” ou
“obra ”, e tem o significado clássico de “serviço público”. Nas cidades gregas, referia-se ao
serviço prestado ao Estado. Como o culto aos deuses era considerado um serviço ao
Estado, a palavra era também usada com referência aos serviços religiosos como
leitourgeintoistheois - “serviço aos deuses” (Enciclopédia de La Bíblia, Vol. IV). Seu
emprego no Novo Testamento é quase exclusivamente religioso. Em Hb 1.14 refere-se ao
trabalho dos anjos que servem aos que hão de herdar a salvação. Em Hebreus
ainda, refere-se pelo menos duas vezes ao serviço e objetos de culto do
Velho Testamento (10.11 e 9.21), como também no ofício de Zacarias em Lc 1.23. Em At
13.2, o verbo leitourgeo é traduzido por “ministrar”. Em Rm 15.16leitourgon é
“ministro”. Paulo se considera ministro, (ou sacerdote, segundo uso comum no VT) de
Jesus Cristo para os gentios, ministrando (sacrificando) o evangelho de Deus para que
os gentios sejam aceitáveis como oferta santificada pelo Espírito Santo. Em Hb 9.21, VR
traduz leiturgia por “serviço sagrado ” referindo-se ao tabernáculo, aos vasos
santificados para o culto e ao culto propriamente dito. Em Hb 8.2,6, Jesus é o leitourgos
e leitourgias se aplica ao seu ministério sacerdotal. As palavras hebraicas
correspondentes, abodah, seret, mesaret, referem-se tanto aos atos quanto aos
oficiantes e objetos de culto, havendo uma clara distinção, na tradução para o grego,
entreleitourgein (ministério ou os serviços necessários ao culto) e latreuein (o culto
propriamente dito). Em Fp 2.25, Epafrodito é chamado leitourgon devido à assistência
que prestou a Paulo e à Igreja. Em resumo: leitourgia no Novo Testamento refere-se a:
1. O serviço prestado pelos sacerdotes nos atos de culto no Velho Testamento.
2. O ofício sacerdotal de Cristo.
3. O ministério da Igreja nos atos de adoração.
4. O serviço prestado aos irmãos como beneficência, entendido como um serviço
prestado a Deus.
Com o tempo, a palavra liturgia passou a designar a ordem e o valor significativo dos
elementos do culto, sendo aplicada várias vezes à celebração da Ceia do Senhor. Não é
uma palavra de uso exclusivo dos evangélicos, nem dos cristãos.
Três observações iniciais se impõem:
Primeira observação: Não existe um antagonismo ou conflito entre “liturgia
tradicional” e “liturgia moderna”. O moderno pode ser apenas o tradicional
resgatado, redescoberto. Qualquer radicalização nessa área pode ser fatal ao espírito do
27
verdadeiro culto. Ou seja: um tradicionalismo litúrgico congelado no tempo, estará
desprezando a linguagem e os demais componentes culturais da vida presente dos
adoradores, tomando-se um fator de alienação em vez de ser um fator de integração da
personalidade do adorador. Por outro lado, uma inovação litúrgica pode também ser
simples imitação de eventos culturais seculares, desprezando os princípios que devem
reger a verdadeira adoração cristã, tomando-se inócua e ineficaz como ato de culto
cristão, pois neste se busca a presença e a glória de Deus. Quando termina o ‘ ‘culto-
show’ a alma dos assistentes está tão vazia como no seu início, não importa a
performance dos artistas no palco nem o entusiasmo da plateia. O ‘‘culto-show’’ apela
aos sentidos físicos. Quanto mais barulho e movimento, melhor. No culto cristão, o
Espírito Santo tange a alma dos adoradores.
Segunda observação: A liturgia não é um fim em si mesma, porém um meio para se
chegar à adoração. Quando a liturgia se torna um fim em si mesma, torna-se ineficaz,
como na oração do fariseu da parábola. Na missa em latim ou em outra língua
desconhecida dos cultuantes, por exemplo, a liturgia deixa de ser um meio para se tomar
um fim em si mesma. Essa compreensão resulta da idolatria da palavra, ou seja,
da atribuição de um poder mágico à fala humana independente da consciência do
adorador, atitude que surge a partir da tentativa de se atribuir à palavra do homem, o
mesmo poder da palavra criadora de Deus (1Tes 2.13). Atribui-se às palavras do
ministrante um poder mágico absoluto. Esse resquício do paganismo idólatra está
evidente, ainda que inconscientemente, em certas formas de culto nas quais a frases
feitas e expressões bombásticas é atribuído um poder sobrenatural. É a
chamada “palavra de poder’’, ou seja, a palavra mágica que pode, por si mesma, produzir
tanto o bem quanto o mal. A liturgia cristã se fundamenta na atitude moral dos
adoradores e não nas formas coreográficas ou orais utilizadas. A “palavra de poder”
surge quando não há vida de poder. É preciso que haja critério e equilíbrio na escolha do
modelo litúrgico. É preciso que haja também coragem. Critério para examinar os novos '
modelos litúrgicos que surgem e não ir adotando qualquer novo formato de culto só
porque parece estar dando certo para atrair pessoas em outras igrejas, sem examinar
suas origens, seu conteúdo e as conseqüências do seu uso. E coragem para mudar tudo o
que e sempre que tiver de ser mudado, não se insistindo em manter fórmulas e
linguagem já ultrapassadas, fora dos referenciais culturais da comunidade de
adoradores.
Terceira observação: A liturgia deve ser uma expressão de vida, resultado natural da
vida, não uma série de rotinas e procedimentos destinados a despertar é condicionar
sentimentos religiosos. Muitos cristãos querem que, em uma hora de culto no domingo,
aconteça tudo de paz, alegria, espiritualidade, unção e poder, que não aconteceu em suas
vidas nos outros seis dias da semana. Para os cristãos que vão à Igreja em busca de
formas de culto que resolvam, por si mesmas, independentemente da vida que eles
vivem, todos os seus fracassos e suas angústias existenciais, jamais haverá liturgia que
satisfaça. Daí a migração constante de crentes descontentes, de Igreja em Igreja, em
busca de novas formas litúrgicas, quando o que deveriam fazer seria adorar a Deus no
seu viver diário, para que a sua adoração na Igreja seja eficaz. Paulo j á advertia à Igreja
de Corinto: “Mas temo que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim
também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos entendimentos e se apartem da
simplicidade e da pureza que há em Cristo ” (2Cor 11.3).

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Simplicidade e pureza. A liturgia cristã deve ser caracterizada:
a. Pela simplicidade e naturalidade, sem complicações nem sofisticações, sem o uso de
termos desconhecidos dos adoradores, a fim de não se correr o risco de ela ser
confundida com práticas cabalísticas.
b. Deve ser apresentada em uma linguagem objetiva, direta, numa configuração
tipográfica popular sem ser vulgar.
c. Deve ser contextualizada em seus termos e na sua forma, utilizando-se de formas e
termos compreensíveis para a comunidade;
d. A pureza da liturgia cristã deve levar-nos a evitar toda a mistura entre o que é de
Cristo e o que é do mundo, ou seja, entre o espiritual e o carnal.
“Não vos conformeis com este mundo”, impõe Paulo no contexto da adoração cristã (Rm
12.1,2). Deve também evitar confundir na mente dos adoradores, o que seja
liturgicamente correto dentro da nossa compreensão das doutrinas bíblicas e o litúrgico
segundo o entendimento de outros grupos religiosos. “Se a trombeta der o toque incerto,
quem se preparará para a batalha? ” (1Co 14.8). Uma liturgia simples, espiritual, em
termos compreensíveis para o público pode não refletir a erudição do ministério e
satisfazer a sua vaidade pessoal, mas certamente satisfaz o espírito dos adoradores com
o galardão da resposta divina.
No primeiro momento, a liturgia da Igreja primitiva era bastante simples e obedecia a
uma sequência espontânea, com naturalidade. Os cânticos eram os salmos (1 Cor 14.26,
Cl 3.16); as orações eram dirigidas ao mesmo Deus dos judeus (At 4.24); os referenciais
teológicos eram da Velho Testamento. Rapidamente, porém, operou-se a transição para
uma nova liturgia, na qual a pessoa de Cristo ocupava o lugar central pela celebração da
Ceia do Senhor (1 Cor 11.20 e ss.). Após uma refeição comum, cânticos eram entoados,
eram feitas orações de confissão e encorajamento, as cartas dos apóstolos eram lidas (Cl
4.16); celebrava-se a Ceia do Senhor (não confundida com a refeição comunitária) e
ensinava-se a doutrina, visando aprofundar e fortalecer a fé. Supõe-se que algumas das
formas de doxologia incorporadas a vários textos, especialmente textos paulinos, seriam
recitativos usuais nos cultos. A profecia e as revelações tinham o seu destaque, uma vez
que as Escrituras sagradas do Novo Testamento estavam em desenvolvimento.
Terminado o período de revelação bíblica, fechou-se o ciclo de revelações. Tudo o que
Deus queria revelar à Igreja estava completo, não se justificando mais revelações à
revelia das Escrituras divinamente inspiradas. Examine os textos que trabalham essa
matéria, como 2 Timóteo 3.16; 2 Pedro 1.20; Deuteronômio 4.2; Apocalipse 22.18.
Estava implícito que o ensino recebido nos cultos deveria ser colocado em prática na
vida diária (Tg 1.25). Ministravam-se os batismos, ofertas eram levantadas para
o sustento da obra missionária e para beneficência (1 Cor 16.2tudo com muita
simplicidade, e nem poderia ser de outro modo, uma vez que os cultos eram realizados
nas casas que hospedavam as igrejas. As reuniões se davam no primeiro dia da semana
Essas formas litúrgicas eram postas em prática no mundo inteiro, devendo cada povo
adorar a Deus na sua própria língua. Havia extremo cuidado para que os novos
convertidos não trouxessem para a liturgia cristã as práticas da sua pregressa
idolatria (1Cor 10.14ss). A pureza litúrgica era tão essencial ao culto cristão como a
exclusividade da adoração a Deus em Cristo (1 Cor 10.21). As mulheres não eram

29
impedidas de participar da liturgia orando e profetizando (1 Cor 11.5), A liturgia devia
ser observada “decentemente e com ordem ” (1 Cor 14.40).

1. PRINCÍPIOS NORMATIVOS DA LITURGIA CRISTÃ


Para que uma forma litúrgica seja cristã, há de submeter-se a alguns princípios:
Primeiro: A adoração cristã é fundamentada na Palavra de Deus. A liturgia, portanto,
deve ser bíblica. Deve balizar um culto de adoração nos termos e com o conteúdo
significativo ensinados pela Bíblia. A música deve ser inspirada na Bíblia, as mensagens
devem ser bíblicas, o ensino deve reproduzir a Bíblia, o pensamento, as emoções e a
vontade dos adoradores devem ser vertebrados pela Bíblia. É bom acentuar que só
o viver biblicamente produz uma liturgia bíblica. Não há como produzir uma adoração
bíblica se os adoradores não têm um viver bíblico. Se o ministro que elabora a ordem do
culto não tem um viver bíblico, não lhe será possível produzir uma forma litúrgica
bíblica. Satanás sabe disso muito bem. Por isso ele sempre procura perverter moral e
espiritualmente as pessoas que trabalham a liturgia na Igreja a fim de desviá-la da
verdadeira adoração.
Segundo: A liturgia cristã deve produzir uma adoração espiritual. A palavra therapeuo,
no grego profano, tem o significado de “servir aos deuses”. Deuses que eram ídolos. No
Novo Testamento, especialmente nos evangelhos sinóticos, essa palavra sempre
significa “curar”. A única vez em que é usada no NT com o sentido de servir a Deus é o
emprego negativo que Paulo faz em Atos 17.25: “O Deus que fez o mundo e tudo o que
nele há, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de
homens, nem tampouco é servido (therapeusetai) por mãos humanas. ” Em Romanos
1.25, Paulo usa outras duas palavras para servir e adorar: sebazomai (adorar, de
sébo, temer, ter pavor) e latreuo, (servir, ministrar): “Adoraram e serviram mais à
criatura do que ao Criador, que é bendito eternamente. Amém. ” A distinção que a Igreja
católica faz entre as palavras “adorar” e “venerar”, para justificar a adoração de imagens,
é arbitrária e enganosa. O culto de latria, dizem os padres, só é devido a Deus. Às
imagens, eles não adoram: apenas veneram. O culto às imagens, porém, tenha o
nome que tiver, é terminantemente proibido em toda a Bíblia, aí incluindo-se adoração,
veneração ou atribuição de poder espiritual a quaisquer objetos materiais, tais como
imagens, retratos, fitas, óleo, água, sal, cruzes, papel, mesmo o papel da Bíblia, a lista vai
longe. Só o Senhor é Deus, só Deus tem poder, só Deus deve ser adorado, cultuado,
venerado, honrado como Deus. Nós não adoramos o livro onde temos a Palavra de Deus,
mas adoramos o Deus a quem a Bíblia revela. Não cremos que o livro tenha qualquer
poder para proteger, curar ou salvar. Somente Deus Pai, pela mediação única e exclusiva
de Jesus, seu Filho e pelo poder do Espírito, deve ser causa e objetivo de toda a adoração
e, portanto, inspirador de toda a liturgia verdadeiramente cristã. Os objetos usados no
culto cristão, nem por isso se tornam dignos de adoração.
Terceiro: A adoração cristã tem Cristo como causa, mediação e fim (Hb 12:2). A liturgia
cristã é cristocêntrica. Conduz os adoradores em Cristo (unidos a Cristo), por Cristo
(através de Cristo como único Mediador), e para Cristo (para a glória de Cristo).
Novamente é bom lembrar que uma liturgia cristocêntrica só pode ser produzida,
entendida e ministrada por uma alma que tenha em Cristo o seu centro.

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Quarto: É o Espírito que torna real a presença de Deus na adoração. Sem a presença e
ação do Espírito, a liturgia deixa de ser cristã. O que faz a diferença entre um espetáculo
religioso e um evento litúrgico cristão é a presença dinâmica do Espírito Santo, como já
dissemos antes. Uma liturgia dirigida pelo Espírito glorifica a Jesus e não aos ministros
que a oficiam. Muitos ministros confundem manifestações das emoções manipuladas
pela mente carnal com a presença e atuação do Espírito. O poder espiritual, porém, não
se manifesta em objetos, efeitos oratórios de frases bombásticas, nem em coreografias
bem ensaiadas, mas em quebrantamento espiritual e vidas transformadas.
Quinto: Deus exige consistência entre a adoração e a vida. Veja-se o libelo de Isaias 1. À
verdadeira adoração impõe um compromisso ético. A liturgia cristã, em sua forma e
conteúdo doutrinário deve estar dentro da ética bíblica para levar os adoradores a
viverem de acordo com os padrões da ética de Jesus. A comercialização da música cristã,
por exemplo, tem levado ministros a darem mais valor à forma do que ao conteúdo das
músicas que se compõe, que se executam e se cantam, sem qualquer preocupação com a
vida que os musicistas e seus ouvintes estejam vivendo. Um bom comunicador pode
atrair multidões para ouvi-lo falar ou cantar, mas somente o comunicador que viva o que
prega e canta pode produzir frutos verdadeiros para Deus.
Sexto: A verdadeira adoração é resultado da verdadeira evangelização, que resulta em
mais adoradores. A evangelização que não resulta em adoradores é mera catequese, não
evangelização. A adoração que não resulta em paixão pelas almas é apenas pantomima,
não é adoração verdadeira. A liturgia cristã cria um impulso para adorar a Deus e
para buscar mais adoradores. Seguindo o exemplo clássico da chamada de
Isaías (capítulo 6), que resultados se podem esperar da verdadeira adoração? Uma visão
da glória e da majestade de Deus (“eu vi o Senhor sobre um alto e sublime trono ”). Como
consequência imediata, um sentimento de fragilidade e quebrantamento espiritual (“ai
de mim que vou perecendo, pois sou um homem de lábios impuros”). Uma visão das
carências espirituais da humanidade (“e habito no meio de um povo de impuros lábios ").
Uma experiência real de purificação interior (“A tua iniquidade foi tirada e purificado o
teu pecado ”). A consciência de um chamado de Deus para denunciar a falsa adoração e
chamar o povo para adorar a Deus (“a quem enviaremos e quem há de ir por nós? ”). Uma
resposta definida em termos de compromisso com Deus, uma entrega pessoal (“eis-me
aqui, envia-me a mim”).
Uma liturgia que não resulte em compromisso dos adoradores com Deus, não produz um
sentimento de quebrantamento pessoal dos adoradores, nem uma visão da humanidade
perdida, antes indica que quem dirige os atos de culto está se colocando a si mesmo no
mais alto e sublime trono.

2. “CANTAREI COM O ENTENDIMENTO” (1 Coríntios 14.14)


A música é parte da natureza humana, como de resto, de toda a criação. Cantam as ondas
do mar na branca areia da praia, canta o riacho nos seixos por onde corre, canta o sabiá,
canta o vento nos ciprestes e chorões, cantam os meninos suas canções de esperança,
cantam os velhos a sua nostalgia, cantam homens na terra como cantam anjos no céu. A
música é parte essencial na adoração cristã. Mas tem que ser música cristã, que tem suas
características peculiares. Salientemos algumas dessas características:

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Primeiro: A música cristã, música e letra, procede de corações convertidos a Cristo e
cheios do Espírito Santo; “mas enchei-vos do Espírito, falando entre vós em salmos, e
hinos, e cânticos espirituais, cantando e salmodiando ao Senhor em vosso coração” (Ef
5.18,19). Fonte contaminada não pode produzir água pura. O ímpio, ou o homem de vida
ímpia, ainda que rotulado de cristão, jamais poderá produzir música cristã, não importa
o seu talento musical.
Segundo: A música cristã tem conteúdo bíblico: “A palavra de Cristo habite em vós
ricamente, em toda a sabedoria; ensinai-vos e admoestai-vos uns aos outros com salmos,
hinos e cânticos espirituais, louvando a Deus com gratidão em vossos corações” (Cl 3.16).
Se a Palavra de Cristo não habitar no coração, a mente não poderá produzir música
cristã.
Terceiro: A música cristã exalta a Deus: “E tudo quanto fizerdes por palavras ou por
obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus (Cl 3.17). A música
que glorifica o homem, ainda que seja o homem cristão, não é música cristã.
Quarto: A música cristã é um dom espiritual que excede os talentos naturais. Por isso,
comunica a graça e o poder de Cristo para a salvação dos pecadores e a edificação da
Igreja: “Assim também vós, já que estais desejosos de dons espirituais, procurai abundar
neles para a edificação da Igreja” (1Cor 14.12). É o Espírito Santo que faz a diferença
entre o talento natural e o dom espiritual e essa diferença se evidencia na vida particular
e no testemunho pessoal do musicista, não no seu talento artístico, nem no seu
desempenho, nem na sua fama, nem na sua capacidade de manipular emoções. Na
cidade de Piracicaba, SP, havia um homem possuidor de vasta cultura, esoterista e
universalista em matéria de religião. Muitas vezes ele contra argumentou com
eloquência às razões bíblicas apresentadas por seus amigos cristãos. Vezes sem
conta, ironizou e tentou reduzir ao ridículo a palavra dos crentes que com ele conviviam
no ofício comum de corretagem imobiliária. Certa noite, esse homem passava pela porta
da Casa de Oração no momento em que a Igreja cantava o hino que diz:
Ao findar o labor desta vida quando a morte ao teu lado chegar,
Que destino há de ter a tua alma, qual será no futuro o teu lar?
Ao ouvir essas palavras musicadas que lhe chegavam claramente aos ouvidos e ao
coração, aquele homem parou petrificado. Não conseguia mover-se. Veio o estribilho:
Meu amigo, hoje tu tens a escolha, vida ou morte, qual vais aceitar?
Amanhã pode ser muito tarde, hoje Cristo te quer libertar.
Somente quando a música terminou é que ele conseguiu locomover-se. Voltou para casa
meditando naquelas palavras. No dia seguinte, mandou chamar um pastor. Orando
juntamente com ele, rendeu seu orgulho, suas trevas e seu pavor e aceitou a Cristo.
Algumas semanas depois, ao partir para a eternidade, partiu na segurança da vida
eterna. A Palavra cantada na unção do Espírito tem um extraordinário poder.
Quinto: A música cristã expressa alegria e produz paz e segurança: “Está alguém
contente? Cante louvores” (Tg 5.13). “E a paz de Cristo, para a qual também fostes
chamados em um corpo, domine em vossos corações e sede agradecidos" (Cl 3.15). Altos
volumes e ritmos frenéticos não produzem espiritualidade, nem alegria, nem paz, antes
prejudicam a saúde do corpo, que é o templo do Espírito e por isso deve ser conservado
com todo o zelo. Não é por acaso que ritmos frenéticos e sons ensurdecedores são
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associados ao uso de drogas nos festivais de música popular. Ambos produzem a
alucinação na qual a razão é obnubilada (escurecida) pelos destemperos emocionais. O
culto cristão não descarta a emoção, parte essencial da nossa personalidade, mas alcança
as emoções como resultado da compreensão da verdade. É o que Paulo chama “culto
racionar’ - logikenlatreian (Rm 12.2), que não é o culto à razão, mas o culto a Deus no
pleno conhecimento da verdade de deus que o Espírito concede segundo a Palavra de
Deus.
Sexto: A música cristã contribui para o crescimento espiritual dos remidos. Ela deve
falar ao espírito e não apenas aos sentidos físicos. Melodia, harmonia, ritmo, arranjos,
letra, devem falará alma, a fim de cultivar os frutos do espírito “Ensinai-vos e admoestai-
vos uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais ” (Cl 3.16). A “música pela
música”, a música para fins comerciais, a música patriótica, a canção romântica, a música
folclórica, a chamada música “gospel” etc. podem ter o seu valor cultural, mas só será
música cristã aquela que aproximar o homem de Deus e o ajudar a crescer na sua vida
espiritual.
Sétimo: A música cristã é aquela que parte de corações comprometidos com Deus e
move o coração dos salvos para assumirem um compromisso com Deus: "Rogo-vos, pois,
irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo
e agradável a Deus, que é o vosso culto racional, e não vos conformeis a este mundo, mas
transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa,
agradável e perfeita vontade de Deus " (Rm 12.1.2). O louvor sem compromisso de vida,
que se esgota no aplauso do próprio louvor, não é o louvor cristão. Os espíritos
malignos reconhecem os méritos de Cristo e até parecem exaltar a Cristo (Mc 5.6,7; Lc
4.34), mas não podem assumir um compromisso de servir a Cristo. Veja em At 16.18 o
slogan que o espírito imundo gritava insistentemente, parecendo exaltar a Cristo e que
foi desmascarado pelo homem de Deus como um insulto a Cristo.
Oitavo: A música cristã é uma expressão de arte e contribui para o aprimoramento
cultural dos ouvintes: “Cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento
” (1 Cor 14.15). A letra deve ser gramaticalmente correta e a música deve obedecer
corretamente aos padrões de composição e execução dentro de cada estilo
aceitável como música cristã. O Evangelho deve ser um fator de
desenvolvimento cultural e não de retrocesso. A música cristã comunica graça e
beleza em toda a sua forma, pois é no Evangelho de Cristo que a Criação é restaurada em
toda a sua formosura, glória e esplendor.
Nono: A música cristã respeita as raízes culturais dos povos, ao mesmo tempo em que o
Evangelho de Cristo, que é o seu conteúdo, depura as culturas dos povos de tudo o que
seja nocivo ao ser humano: “Pois que já vos despistes do homem velho com os seus feitos, e
vos vestistes do novo, que se renova para o pleno conhecimento, segundo a imagem
daquele que o criou, onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão,
mas Cristo é tudo em todos” (Cl 3.9-11). Bill Ichter dizia que a música que serve a Cristo é
aquela que move, não os pés, mas o coração.
Décimo: A música cristã reflete e antecipa a glória e a perfeição do céu: “E cantavam um
cântico novo, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste
morto, e com o teu sangue compraste para Deus, homens de toda tribo, e língua, e povo, e
nação ” (Ap 5.9). Comprados na terra, pelo precioso sangue do Cordeiro, que nos

33
desvendou os mistérios da Graça e da Redenção, glorifiquemos a Deus com a música do
céu, a música verdadeiramente cristã.

CAPÍTULO 5 - O Batismo
“Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as
nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a
observar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos
os dias até a consumação dos séculos. ’’ (Mateus 28.18-20)
André Chouraqui traduz:
“Iéshua se aproxima, lhes fala e diz: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide,
portanto, fazer adeptos entre todos os goîms. Fazei-os imergir em nome do pai, do filho e
do sopro sagrado. Ensinai-os a guardar tudo o que vos prescrevi. Eis, estou convosco todos
os dias até o fim da era. ”
O Dr. Randolph Yeager traduz:
"Whenyouhavegonetherefore, makedisciplesofallnations, as youimmersethem in
thesphereoftheauthorityoftheFather, and oftheSonandoftheHolySpirit, teachingthemto
observe everything which I commandedyou; and Look! I amgoingtobewhityouall thedays
unto theconsumationofthe age”. Que traduzido é: Enquanto vocês estiverem indo por
toda parte, façam discípulos de todas as nações, imergindo-os na esfera da autoridade
do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo o que eu lhes
mandei; e atenção! Eu vou estar com vocês todos os dias até a consumação do
século” (negritos nossos).
O que estaria na mente de Jesus quando proferiu a palavra “batizar” na grande
comissão? Como a Igreja entendeu essa ordem? Qual a compreensão que devemos ter
hoje do batismo para sermos fiéis na interpretação e prática do batismo cristão? Quem
pode ser batizado? Quem tem autoridade para batizar? Qual o significado do batismo
cristão? Qual a forma bíblica do batismo? Comecemos pela última pergunta.
1. FORMA DE BATISMO
Do verbo grego bapto, “submergir, mergulhar" na forma intensiva baptizo, fazer
mergulhar, fazer imergir, submergir, surge o substantivo baptismos, imersão, o ato de
mergulhar e baptisma, o batismo. No grego clássico, assim como no grego
contemporâneo, bapto tem o sentido de: mergulhar, imergir; molhar, umedecer, tingir
(mergulhar o pano em tinta); tirar água (mergulhar o vaso); temperar o ferro
(mergulhar o ferro incandescente em água). Além do sentido de mergulhar,
baptizo significa também “fazer perecer” devido à pena de morte por afogamento ou
afundar (fazer submergir) um navio (Veja DITNT in loc, TDNT - G. Kittel, Izidro Pereira).
Com o sentido não ritual, a palavra bapto ocorre apenas 4 vezes no NT: em João 13.26
(duas vezes), traduzida por “molhar”, que a Bíblia de Jerusalém verte por “umedecer” (o
bocado de pão mergulhado no vinho e entregue a Judas); em Lucas 16.24,
também traduzido por “molhar” (mergulhar a ponta dos dedos na água) e em Apoc.
19.13, bebamenon - particípio passado perfeito de bapto na forma adjetiva, predicativo
deimation (vestido, manto), assim traduzido: ERC, VR: “veste salpicada de sangue"; VB:
“capa imersa no sangue BJ: “manto embebido de sangue A BLH lê “capa tingida de sangue.
” Baptizo e correlatos ocorrem nos evangelhos, fora da grande comissão, quase
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exclusivamente em conexão com o batismo de João. É, pois, em Atos e nas epístolas que o
significado litúrgico cristão do batismo assume a sua forma. Observe: todas as vezes,
sem exceção, que a palavra batismo é usada, significa imersão, seja no sentido
histórico, seja no sentido teológico ou escatológico ou mesmo como metáfora: batizados
em Moisés (espiritualmente imersos em Moisés), na nuvem (totalmente envolvidos pela
nuvem) e no mar (simbolicamente mergulhados no mar) - (1Co 10.2); todas as vezes,
sem exceção, em que o ritual do batismo cristão é mencionado, a palavra usada
é baptismos. Todas as vezes que o ato do batismo é descrito, implica entrar para dentro
da água e sair de dentro da água.
Há uma longa relação de palavras conhecidas dos autores do Novo Testamento que
poderíam ter sido usadas, caso o ritual de testemunho da fé pudesse ser feito mediante
aspersão ou ablução: Rantismos, rantizo (Hb 10.22) traduzidas por aspersão e aspergir
cerimonialmente; Prosxysis, igualmente vertida para “aspersão”, no sentido cerimonial
em Hb 11.28; Nipto, lavar fisicamente, lavar cerimonialmente. Usa-se para o ato social e
cerimonial de lavar os pés de outra pessoa (Jo 13.5,8; 1Tm 5.10). Em João 9.7,11,15, é
lavar os olhos ao cego. Em Mt 15.2, Mc 7.3 é a lavagem cerimonial das mãos. Em Mt
27.24, temos o extensivo apo-nipto no aoristo médio do indicativo (Pilatos lavou as
mãos de uma vez para sempre...). Luo, lavar medicinal ou cerimonial - At 9.37 (lavar um
defunto); At 16.33 (lavar as feridas); Jo 13.10 (lavar os pecados). Neste texto, aliás,
ocorrem os dois termos: o lelumenos... podas nipsasthai “os já purificados (purificados
de vez), os pés (são) lavados”. Em Hb 10.22, é lavar cerimonialmente o corpo, uma vez
que o coração já foi purificado. Plyno - lavar objetos, limpar, fazer assepsia - Lc 5.2 (lavar
as redes -serviço profissional); Mt 15.2 (lavar as mãos cerimonialmente). Lavar, abluir,
aspergir, purificar, borrifar, nunca, em nenhuma instância, qualquer um desses
vocábulos é usado em relação ao batismo cristão. Em relação à forma do batismo,
tem toda a razão João Calvino:
"Porém, se a pessoa há de ser batizada, precisa ser inteiramente submergida, seja três
vezes ou uma, ou se apenas se derrama ou se asperge água sobre ela, isso não tem
importância; as igrejas devem : sentir-se para fazer, a este respeito, conforme a diferença
de países. Todavia, a mesma palavra batizar significa submergir; E É CERTO QUE A
IMERSÃO FOI A PRÁTICA DA IGREJA ANTIGA" (Versais nossos) - AS INSTITUTAS, Vol. 2,
Pág. 491.
A forma de batismo na Igreja primitiva era, sem dúvida, a imersão. Temos bons motivos
para assim pensarmos:
1. Uma vez que a palavra baptismos sempre significa imersão, tanto no grego clássico
quanto no koinê e mesmo no grego contemporâneo, seria ridículo imaginar João Batista
“mergulhando” as pessoas por efusão ou aspersão dentro do rio Jordão. Ao contrário, a
forma de batismo a que Jesus se submeteu para dar exemplo de cumprimento de toda a
justiça, não foi outra senão a imersão. Mateus afirma que Jesus subiu de dentro da água -
anebe apo touydatos (Mt 3.16).
2. A absoluta ausência de qualquer palavra grega que pudesse ser traduzida por
aspersão em referência ao batismo cristão, corno já vimos, aumenta a nossa convicção
deter sido a imersão a forma exclusiva de batismo na Igreja primitiva.
3. O significado teológico do batismo como símbolo da morte e ressurreição exige; a
imersão como forma para ter sentido, se bem entendemos Rm 6:3-5 - “Ou não sabeis que
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todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? De sorte que
fomos sepultados com ele pelo batismo na morte. (Já assisti a centenas de sepultamentos e
jamais vi alguém ser enterrado jogando-se um punhado de terra sobre a sua cabeça!).
4. A descrição dos atos de batismo praticados por João e pelos discípulos de Jesus não
deixa dúvida de que a imersão era a forma de batismo. Filipe e o eunuco entraram para
dentro da água e saíram de dentro da água (At 8.38,39): Katebesan (aoristo ativo do
indicativo - desceram completamente e chegaram) eis toýdor (para dentro da
água)... anebesan (aoristo ativo do indicativo), subiram de dentro da água, separaram-se
de vez da água em que estavam) ek (para fora de) tou ydatos (no ablativo, a água,
aquela água).
Os escritores eclesiásticos dos primeiros séculos esclarecem sobre a forma do batismo
na Igreja primitiva. Santo Inácio de Antioquia, na carta aos esmirnenses (8.2) apenas
determina que o batismo seja efetuado sempre em presença do bispo. Na carta a
Policarpo (6.2), ele atribui ao batismo a força de um escudo espiritual. A Didaqué, ao
admitir a ablução como forma batismal (7.3), reconhece que essa prática deveria
ser excepcional, quando não houvesse água corrente para imergir os batizandos (7.2),
estabelecendo, assim, a imersão como regra, como forma regular de batismo. Nos
comentários introdutórios da edição publicada pela VOZES, Urbano Zilles declara que, “o
rito batismal e o rito da celebração eucarística ainda não estão fixados. ” Não se pode,
portanto, defender a aspersão como prática da Igreja apostólica com base na Didaqué.
Na chamada Tradição Apostólica, Hipólito de Roma descreve a ‘Tradição do santo
batismo” (48-51) sem deixar dúvida alguma sobre a forma imersão, aliás de tríplice
imersão, uma para cada ' declaração de fé em cada uma das pessoas da Trindade. No
comentário de rodapé, diz a tradutora Maria da Glória Novak: “Batizar, significa aqui
mergulhar: o batismo se fazia por tríplice imersão". Já no IV século, ao escrever o tratado
sobre OS SACRAMENTOS E OS MISTÉRIOS, publicado também pela VOZES em erudita
tradução de Dom Paulo Evaristo Arns, Ambrósio descreve o rito batismal nos seguintes
termos: “Perguntaram-te: Crês em Deus Pai todo Poderoso? Respondeste: Creio, e foste
mergulhado, quer dizer, foste sepultado. Novamente perguntaram-te: Crês em nosso
Senhor Jesus Cristo e em sua cruz? Respondeste: Creio, e foste mergulhado. Por isso
estás sepultado com Cristo. Pois quem estás sepultado com Cristo, com ele ressurge.
Perguntaram-te pela terceira vez: Crês também no Espírito Santo? Respondeste: Creio, e
foste mergulhado a terceira vez, para que a tríplice confissão destruísse as quedas
repetidas do passado”. Nas notas de rodapé, diz Evaristo Arns que a forma interrogativa
e a tríplice imersão são atestadas por Tertuliano, Hipólito e Cirilo. Aliás, são muito
expressivos os argumentos de Ambrósio na seqüência do texto transcrito, em favor do
batismo por imersão como símbolo da morte e ressurreição, citando Paulo em Rom. 6.3.

OBJEÇÕES À IMERSÃO COMO FORMA DE BATISMO


As objeções mais freqüentes à imersão como forma de batismo na Igreja primitiva são
baseadas em inferências e podem ser resumidas a quatro:
Primeira: A inexistência de água em Jerusalém para batizar 3.000 pessoas no dia de
Pentecostes, O próprio NT, porém, fala de tanques públicos com alpendres, onde jazia
grande multidão (Jo 5.2,3). Segundo J. Jeremias, havia outras piscinas públicas em

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Jerusalém. Não seria necessário caminhar até algum ribeiro, lagoa ou represa fora da
cidade, como fiz inúmeras vezes quando batizei em igrejas que não possuíam batistérios.
Segunda: A objeção de que seria impossível imergir 3.000 pessoas em um dia só, no dia
de Pentecostes. Esse argumento tem sido derrubado pela realização de batismos de mais
de 10.000 pessoas, em poucas horas, em passado recente, na Coréia e em Angola.
Terceira: O argumento de que o carcereiro de Filipos e sua família não poderíam ser
imersos à meia noite. Essa objeção despreza o fato de que os batismos noturnos eram
freqüentes naqueles tempos de perseguição, prática que persiste no 2o século, conforme
testemunho dos pais da Igreja. Hipólito de Roma, nas instruções sobre o batismo declara
que o rito deveria ter lugar “Ao cantar o galo”, isto é, de madrugada. Quanto à
inexistência de água na prisão, seria infantil supor que não houvesse ali água
suficiente para se encher um recipiente no qual as pessoas convertidas pudessem ser
imersas.
Quarta: Resta a posição de Calvino (acima citada), que reconhece ter sido a imersão a
forma de batismo da Igreja primitiva, mas entende que a ’ forma não é importante! Com
isso não concordam as igrejas batistas. Achamos que a forma é importante na medida
em que o símbolo deve corresponder, na sua forma, à coisa simbolizada. Jesus não nos
mandou aspergir, mas batizar, ou seja: imergir. Só nos cumpre obedecer! Certa vez um
grupo de crentes de várias denominações discutia sobre a forma de batismo. Um
daqueles irmãos havia lido um opúsculo que afirmava ser a imersão uma prática
desconhecida no Novo Testamento, inventada pelos anabatistas e que o batismo cristão
equivalia à circuncisão dos judeus. Chegaram à discussão do significado da palavra
batismo. Havia ali perto um sapateiro de nacionalidade helênica, cujo apelido era Grego.
“Vamos perguntar ao Grego o que significa batizar”, disseram. Foram lá à sapataria e
perguntaram: “Grego, o que quer dizer a palavra batizar?” O sapateiro pegou um pedaço
de cortiça, enfiou-o no fundo da lata de água que tinha à sua frente sobre a mesinha de
trabalho imergindo-o completamente e disse: “É fazer assim”. Ele sabia o grego.
2. SIGNIFICADOS
SACRAMENTALISTA. Crê que o batismo é um ato sagrado que confere a graça de apagar
o pecado original, removendo a culpa e regenerando o pecador independentemente da
condição do batizador e da crença do batizando, ou seja, exopere operado. Atribui ao
oficiante uma autoridade sobrenatural e condiciona o direito à salvação ao batismo.
Desse modo, surge a aspersão como sendo indispensável, pois em muitos casos, a
imersão seria impossível. Essa posição decorre de outro sacramento - o das
ordens sacerdotais, que confere ao sacerdote poderes sobrenaturais.
PRÓ-SACRAMENTALISTA. Crê que há uma bênção especial no batismo, independente
da sua forma, ainda que o batismo não seja essencial para a salvação. O batismo de
criancinhas é um ritual pró-sacramentalista. Abençoa o indivíduo apesar da
impossibilidade da sua fé.
Passagens bíblicas nas quais pretendem basear-se as posições acima:
Marcos 16.16 - “Quem crer e for batizado será salvo’’. O mesmo texto informa que a base
para a condenação não é não ser batizado, mas não crer, além de estabelecer uma
ordem: primeiro a fé, depois o batismo.

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João 3.5, “nascer da água e do espírito ”, É evidente que Jesus não está falando do
batismo, mas do ‘nascer de novo”. Interpretar este “nascer da água” como sendo o
batismo é uma violência exegética. Pode haver várias maneiras de entender “nascer da
água”, mas todas as evidências contextuais vedam a idéia de que se trata do batismo,
pois se fosse o caso, o “nascer do espírito” teria que preceder o “nascer da água” para
validar o batismo. No texto grego – gennetheexydatos kaypneumatos “nascer da água e
do espírito” - a conjunção kai (“e”) funde água e espírito em uma realidade única. Aí não
temos preposição nem artigo. A leitura literal seria “nascer de água-e-espírito”, o que
reforça a idéia de que Jesus está falando, não do batismo, mas da ação do Espírito Santo
na regeneração do pecador. A seqüência do texto não comporta outra exegese.
Tito 3.5 - “nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo”. A
lavagem, aqui, - lytrou e não baptismos, é uma referência, não à lavagem do exterior,
mas à purificação interior operada pelo Espírito Santa na regeneração.
Atos 22.16 - "batiza-te e lava os teus pecados, invocando o nome do Senhor”. A lavagem
dos pecados não resulta do batismo, mas do invocar o nome do Senhor, como Paulo
proclama em Rm 10.13. O batismo em água é testemunho e símbolo exterior do batismo
interior efetuado pelo Espírito Santo quando o pecador invoca o nome do Senhor.
A interpretação do batismo como sacramento anula a doutrina da salvação pela graça
mediante a fé e confere ao homem o poder que é exclusivo de Deus, mediante o sangue
de Jesus: purificar pecados e gerar novas criaturas.

3. SÍMBOLO E TESTEMUNHO.
Em 1Pe 3.21 temos o batismo tomado como figura da salvação. Ao simbolizar a morte e
ressurreição do batizando por sua fé na morte e ressurreição de Jesus (Rm 6.3-6),
a imersão na água e emersão da água celebram, ao mesmo tempo, a fé que salva o
pecador, a graça de Cristo que opera a salvação e a esperança que antecipa a glória dos
remidos. Assim, há um tríplice significado no batismo cristão:
1. Há um significado histórico - a fé na morte e ressurreição de Jesus, simbolizada pela
imersão na água e emersão da água.
2. Há um significado presente, transcendente -pela fé (demonstrada pelo batizando ao
submeter-se ao batismo), foi sepultado o homem velho e surgiu uma nova natureza, que
resulta em uma nova vida.
3. Há um significado escatológico - ao emergir da água, o candidato está demonstrando
sua fé na ressurreição final, na esperança de “uma herança incorruptível e
incontaminável reservada nos céus para vós ” (1Pe 1.5). Todo esse riquíssimo significado
só se torna real na medida em que o salvo, j á imerso em Jesus Cristo pelo Espírito Santo,
é imerso em água em nome da Trindade. Veja W. T. Conner em DOUTRINAS CRISTÃS.
Para que o batismo seja válido como batismo cristão, são indispensáveis dois pré-
requisitos, nessa ordem: Regeneração pela fé pessoal em Jesus Cristo, operada pelo
Espírito Santo, e imersão. Pode haver a regeneração, mas sem imersão, não haverá
batismo. Pode haver imersão, mas sem regeneração pela fé, não haverá batismo cristão.
Será um banho exterior, sem correspondência na realidade interior. Os sacerdotes
da Igreja Ortodoxa imergem criancinhas (eles sabem o grego!); as testemunhas de Jeová
praticam a imersão; os mórmons também. Essas imersões não são batismo cristão por
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não terem sido precedidas da fé pessoal em Jesus como Salvador e Senhor. A imersão
(“passar pelas águas”) de uma pessoa que ainda não recebeu o batismo do
Espírito Santo, também não é batismo bíblico porque “se alguém não tem o Espírito de
Cristo, esse tal não é dele ” (Rm 8.9).

4. AUTORIDADE PARA BATIZAR


Não há prescrição bíblica de pré-requisitos quanto a quem está autorizado a batizar. No
Novo Testamento vemos ministrando o batismo: apóstolos (1Co 1.14), evangelistas e
diáconos (At 8.38), missionários, (At 16.15,33), “alguns irmãos” (At. 10.23,48).
5. ABRANGÊNCIA DO BATISMO
O batismo é uma celebração da Igreja. Em que condições é aceito por uma Igreja o
batismo efetuado em outra Igreja? Podemos resumir as diferentes posições sobre essa
matéria em três versões.
Batismo ecumênico. Aceita-se qualquer forma de batismo praticado em qualquer Igreja
cristã, desde que tenha sido pronunciada a fórmula “em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo”, A Igreja Católica aceita aspersão ou imersão de qualquer Igreja cristã
como batismo válido para credenciar casamentos e outras formalidades, ou mesmo para
fazer parte da paróquia. Já fui solicitado inúmeras vezes a fornecer certificados
de batismo ou simples declaração de batismo para ex-membros de igrejas nossas que
desejavam submeter-se a outras cerimônias da Igreja Católica.
Batismo livre. Há Igrejas evangélicas que aceitam qualquer forma de batismo praticado
em qualquer Igreja evangélica, não importa se a pessoa recebeu o batismo quando
criança ou na idade adulta, nem se foi por imersão ou aspersão.
Batismo confessional. Há igrejas que só aceitam como válido o batismo praticado na
forma e dentro das doutrinas da mesma Igreja. Essa é a posição da quase totalidade das
igrejas batistas arroladas na Convenção Batista Brasileira, que só aceitam como válido o
batismo ministrado por imersão em igrejas da mesma fé e ordem, tomando-se a filiação
à mesma Convenção como medida prática e geral para aferir essa condição. Ao aprovar
um modelo de estatuto a ser sugerido às igrejas contendo cláusulas garantidoras da
identidade batista neotestamentária, a Convenção Batista Carioca aprovou um artigo
em que, na recepção de membros por carta de transferência, deve constar a cláusula:
“que tenham sido batizados em igrejas da mesma fé e ordem”.
Entre as igrejas imersionistas que aceitam o batismo por imersão ministrado em outras
denominações, há duas variantes: - Primeira: igrejas que só aceitam como válido o
batismo por imersão praticado em outras igrejas que, mesmo não sendo da mesma
denominação, sustentam as mesmas doutrinas, especialmente em relação à salvação e
ao significado do batismo. Segunda: igrejas que aceitam como válido o batismo por
imersão praticado em outras igrejas evangélicas, mesmo que professem outras
doutrinas.
A declaração doutrinária da Convenção Batista Brasileira diz:
“(1) O batismo consiste na imersão do crente em água, após sua pública profissão de fé em
Jesus Cristo como Salvador único, suficiente e pessoal; (2) Simboliza a morte e o
sepultamento do velho homem e a ressurreição para uma nova vida em identificação com
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a morte, sepultamento e ressurreição do Senhor Jesus Cristo e também prenuncio da
ressurreição dos remidos. (3) O batismo, que é condição para ser membro de uma
Igreja, deve ser ministrado sob a invocação no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. ”
Cada igreja é livre e soberana para assumir a posição que escolher, mas as demais
igrejas são igualmente livres e soberanas para aceitarem ou não tal posição. Por
exemplo: Uma pessoa, batizada em uma Igreja pentecostal onde o batismo no Espírito
Santo não é pré-requisito, é recebida por uma Igreja Batista sem novo batismo.
Posteriormente, essa pessoa pede transferência para outra Igreja Batista. Esta segunda
Igreja não está obrigada a aceitar a posição da Igreja anterior e pode exigir novo
batismo. Se, por outro lado, uma Igreja batista decidir aceitar como membros
pessoas batizadas por aspersão, ou quando crianças, estará perdendo a sua identidade
como Igreja Batista e quebrando a fraternidade doutrinária com as demais igrejas
batistas. O batismo, como cremos, não salva, mas a salvação real implica a obediência a
tudo o que Jesus ordenou. Se Jesus ordenou imergir os que crêem, só nos resta obedecer.
O afrouxamento doutrinário na prática das ordenanças, a começar pelo batismo, é a
receita segura para a perda da identidade de uma Igreja e, por via de conseqüência, para
a perda da relevância da sua mensagem e, finalmente, para o seu declínio, como
infelizmente temos visto acontecer.
O batismo não é apenas um ato de confissão pessoal da fé em Jesus através da qual o
indivíduo nasceu de novo, mas tem também um cunho social como iniciação eclesiástica.
Pela fé, a pessoa ingressa no Reino de Deus. Pelo batismo, os que já estão no Reino de
Jesus passam a fazer parte da Igreja visível. Por essa razão, quem decide ás
condições para o batismo e aceita cada professando é a Igreja coletivamente e não o
pastor pessoalmente. A Igreja pode delegar poderes a um grupo de irmãos para ouvir
profissões de fé e autorizar o batismo em locais onde seja impossível reunir a sua
assembléia deliberativa.

6. BATISMO INFANTIL
Os argumentos em favor do batismo de criancinhas são insustentáveis diante de uma
simples leitura dos textos. A fé é exigida como condição prévia, acompanhada de
arrependimento (Mc 16.16). O significado do batismo é regeneração mediante a fé,
virtude que não pode ser passada por procuração de quem ainda não sabe discernir
entre a sua mão esquerda e a direita. Romanos 6.17 diz aos que foram
batizados: “obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues”, o que
exclui criancinhas. Os pecados originais são apagados pelo sangue de Cristo mediante a
fé, não pela água cerimonial do batismo. Em Atos 2.38, tanto o batismo quanto o perdão
dos pecados são resultados de "arrependei-vos”. É evidente, por todos os motivos, que o
batismo cristão nada tem a ver com a circuncisão, em vista do tratamento que a
circuncisão tem em Atos e nas epístolas paulinas. O batismo cristão (imersão em água
em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo) é o testemunho público da regeneração,
morte e novo nascimento. A circuncisão (uma incisão na carne à qual só os bebês do
sexo masculino podiam ser submetidos) era o símbolo da aliança de Deus com
Abraão na formação do povo escolhido. Obviamente, não poderia ser exigido qualquer
ato de fé por parte do bebê como condição prévia para a circuncisão. O batismo cristão
não é a versão neotestamentária da circuncisão. Paulo declara enfaticamente que “em

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Cristo Jesus nem a circuncisão nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser
uma nova criatura ” (Gl 6.15). Para um homem entrar para o povo de Deus no Velho
Testamento, bastava ser circuncidado. Para entrar para o povo de Deus no Novo
Testamento, não basta o batismo. Homens e mulheres são batizados como testemunho
de sua morte e ressurreição pela fé em Jesus. A alegação de que o carcereiro de Filipos
foi batizado “com toda a sua casa” ou “com todos os seus” como justificativa para o
batismo infantil, peca mortalmente por dois motivos: Primeiro, o texto não diz que havia
infantes na casa do carcereiro. Segundo: No versículo seguinte se diz que o carcereiro
“alegrou-se muito com toda a sua casa, por ter crido em Deus”, o que exclui infantes. O
mesmo se diga em relação ao caso de Cornélio. O texto diz que Pedro, ao justificar-se
perante a Igreja por ter batizado o oficial romano, declarou: “Portanto, se Deus lhes deu o
mesmo dom que a nós quando havemos crido no Senhor Jesus Cristo... ” O texto não
menciona a presença de infantes e diz claramente que os batizados de Cesaréia creram
para poderem receber o mesmo dom concedido aos crentes de Jerusalém. Se o que se
procura são inferências, é mais natural supor que o carcereiro, Lídia e Cornélio, pelas
funções que ocupavam, já não estariam em idade de ter bebezinhos em casa. Ezequiel 18
ensina que o filho não leva a culpa do pai. Cada pessoa será julgada por Deus pelo seu
próprio pecado. Cada pessoa, portanto, tem que se arrepender do seu próprio pecado
para ser regenerada. Por isso Jesus disse que das criancinhas é o Reino do céu. Elas não
têm pecado. Não precisam se arrepender e crer. Não precisam ser batizadas.
Já que, para ser membro da igreja local é indispensável ser batizado mediante profissão
de fé em Jesus como Salvador, as igrejas batistas não podem aceitar como membros,
nem pessoas imersas, mas não salvas, nem pessoas salvas, mas não imersas. Batizar por
aspersão enfermos que não podem ser imersos, não é batizá-los. É falsa misericórdia,
além de ser uma desonestidade, que decorre da idéiasacramentalista do batismo, que
subjaz na mente de muitos crentes oriundos do catolicismo.
A Igreja dos apóstolos atribui ao batismo um extraordinário e inovador significado,
proporcional ao da própria experiência de fé em Jesus, mas isso não quer dizer que
creditassem ao batismo um poder terapêutico ou soteriológico que Jesus não lhe
atribuiu, pois embora curando enfermos e salvado almas, Jesus mesmo não batizava.
Sendo o batismo um testemunho da fé, esta sim, condição indispensável para se entrar
no Reino espiritual de Cristo, torna-se também condição para ser membro da Igreja, que
se compõe de pessoas regeneradas pela fé e batizadas segundo as Escrituras.
Desse modo, ser biblicamente batizado (forma e conteúdo) torna-se pré-requisito para
participar da Ceia do Senhor, celebração da Igreja, proclamatória da morte de Cristo.

CAPÍTULO 6 - A Ceia Do Senhor


1. ORIGEM DA CEIA NA CELEBRAÇÃO DA PÁSCOA
Uma celebração cristã nasce, em sua forma e conteúdo significativo, de uma celebração
judaica. Nada a estranhar, uma vez que o mesmo Deus dos hebreus é o Deus dos cristãos,
toda a teologia do Novo Testamento está baseada na Lei e nos profetas do Velho
Testamento, Jesus era judeu, seus primeiros discípulos eram judeus, “a salvação i vem
dos judeus ” (João 4.22) e toda a Páscoa é um anúncio profético do Evangelho. A Ceia do
Senhor cumpre a profecia contida na Páscoa dos judeus mas o seu significado vai além,
na medida em que Jesus é mediador de uma Aliança superior à Aliança da Lei mosaica
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(Hb 8.6; 9,11). Na refeição anual da Páscoa, os judeus alimentavam sua ' esperança
messiânica conservando, à mesa, uma taça a mais, reservada para o Messias, “para a
eventualidade de ele chegar naquela noite para realizar a libertação tipologicamente
prenunciada pelo Êxodo.” “Pode ter sido este mesmo cálice que Jesus tomou
na instituição do novo rito, indicando que agora o Messias estava presente para festejar
com o seu povo” (EHTIC, Vol. L Pag. 263).
O artigo definido precedendo a palavra cálice, no texto de 1Co 11:25 – topotérion, “o
cálice" acrescido do pronome demonstrativo outos no acusativo, “este mesmo” parece
indicar que se tratava de um cálice especial, ou com uma finalidade especial. Se essa
linguagem não comprova a tradição judaica do cálice para o Messias, com certeza indica
que, para Jesus, o cálice que ele tomou nas mãos tinha um significado muito particular.
Era o ‘‘Cálice da Nova Aliança”.
Há riquíssimos elementos comuns entre a Páscoa dos judeus e a Ceia do Senhor.

A PÁSCOA E A CEIA DO SENHOR


1. PÁSCOA - Os eventos centrais da Páscoa eram o sacrifício de um cordeiro como sinal
da expiação e o repartir dos pães ázimos como sinal da libertação. Os israelitas eram tão
pecadores quanto os egípcios, mas foram poupados da morte através da fé no sangue
propiciatório de um cordeiro, tomado como holocausto profético (Êx 12.13).
CEIA - O sangue do Cordeiro de Deus, simbolizado no vinho, derramado na cruz para a
expiação do pecado da humanidade (Lc 22.19) por dádiva graciosa de Deus, juntamente
com o partir do pão, é o centro da celebração da Ceia do Senhor.
2. PÁSC0A - O partir do pão (ázimo) como símbolo da presença libertadora de JHVH (Êx
12.27), era também um sinal de arrependimento e quebrantamento.
CEIA - O partir do pão como sinal de comunhão (1Co 10.16), tem o sentido evidente de
tipificar o quebrantamento do corpo de Cristo em lugar dos pecadores - "este é o meu
corpo, aquele que é partido (dado) por vós A preposição hyper (“por”, “sobre”) aqui,
significa ‘‘em favor de”. O Cordeiro de Deus ofereceu o seu corpo voluntariamente para
ser morto na cruz em favor do homem, para resgatá-lo da culpa do pecado. A partição do
corpo de Jesus não está representada no ato de se mastigar o pão, mas no ato de se
partir o pão a ser oferecido aos celebrantes para que dele comam.
3. PÁSCOA - A Páscoa deveria ser celebrada como memorial da libertação (Êxodo) de
Israel (Êx 12.14).
CEIA - A Ceia do Senhor é celebrada como memorial da libertação (Êxodo) da Igreja (Hb
13.14; João 8.36).
4. PÁSCOA - A Páscoa indicava o começo de Israel como nação messiânica sacerdotal (Êx
19.6).
CEIA - A Ceia do Senhor evoca o momento em que Jesus dá começo à sua Igreja ao dar-se
a si mesmo em sua redenção.
5. PÁSCOA - Há um claro sentido comunitário no ato de cada família convidar os vizinhos
para compartilharem do cordeiro pascal e dos pães ázimos (Êx 12.4). Todos teriam que
iniciar e continuar a marcha juntos.

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CEIA -A celebração da Ceia do Senhor traduz um forte sentido social' na base da unidade
da fé em Jesus como Senhor e Salvador.
6. PÁSCOA - A Páscoa era a celebração de uma esperança futura - da terra prometida (Êx
12.25) e do Reino Messiânico (EHTIC - Vol. I, Pag. 263).
CEIA - A Ceia do Senhor tem expressivo conteúdo escatológico, pois é também o sinal e
uma celebração da esperança da volta do Senhor (1 Co 11.26) “Até que ele venha”.
Apesar de toda essa semelhança, a Ceia do Senhor não é a Páscoa dos cristãos. A páscoa,
celebração judaica, termina no seu pleno cumprimento no Calvário. Passou! A Ceia do
Senhor é um anúncio da morte de Jesus Cristo, o sangue de uma nova e perfeita aliança.

2. SIGNIFICADO TEOLÓGICO DA CEIA DO SENHOR


Como o batismo, a Ceia do Senhor comporta um tríplice significado.
A lembrança da morte que traz vida.Lembrança que celebra o presente de um evento
pretérito. A morte de Jesus não é apenas um fato para ser recordado, não é somente um
acontecimento do passado que traz benefícios no presente, como se fosse uma vacina
eficaz no presente, mas cujo inventor já houvesse morrido. Jesus morreu para vencer a
morte. Ele vive! A “memória” de Cristo não é história morta, mas é uma lembrança viva.
A Ceia anuncia a morte de Jesus, que vive e está presente pelo seu Espírito em nosso
espírito. Anunciar a morte do Senhor é celebrar a sua vida, Anuncia-se a sua morte
porque é através da morte de Jesus, que podemos obter a vida eterna! Não faria sentido
usar pão e vinho, símbolos da vida, para recordar a morte de Cristo se, através da sua
morte, não nos desse ele a vida. Cristo é a vida e ele nos dá a vida eterna através da sua
morte. ‘‘Quem tem o Filho, tem a vida ” (1 Jo 5.12). “Em memória de mim ” - é, pois, uma
exortação à vida, à alegria da vitória sobre a morte, nos termos da doxologia de Ap 1.18:
“fui morto, mas eis aqui estou vivo pelos séculos dos séculos, e tenho as chaves da morte e
do hades”. Em muitas igrejas, porém, a Ceia é celebrada como se fosse um ofício fúnebre,
sem alegria, sem grito de vitória. Não devemos confundir solenidade com luto. Jesus
Cristo está vivo. Nele temos a vitória sobre a morte.
Há um sentido positivo no substantivo anamnésis (“memória”), a indicar que não se
trata tanto de o celebrante lembrar-se da morte de Jesus, quanto de fazer real, atual, viva
em seu viver, a presença do Senhor. “Quando o homem se lembra de Deus, deixa que seu
ser e suas ações sejam determinados por Ele” (B. S. Childs, citado em DTNT Vol. III Pag.
56). Não é o caso de apenas não nos esquecermos, pois anamnésis tem o sentido de uma
lembrança ativa (lembrar-se e agir em conseqüência). JHVH se lembra ativamente do
seu pacto com o seu povo (Sl 105.8; 106.45; 111.5). O pão partido e o cálice
derramado são muito mais símbolos da memória graciosa de Cristo por nós, do que da
nossa recordação da sua morte.
Veja em Lev 24.7, a possível fonte da idéia de “pão memorial”: “E sobre cada fileira porás
incenso puro, que será para o pão por oferta memorial; oferta queimada é ao Senhor”.
A lembrança que torna comum um sentimento individual. Há um claro sentido de
solidariedade e compromisso na Ceia do Senhor. Lembra-nos, de modo eloqüente, tão
eloqüente como nos pode ser o sangue do nosso Salvador, que somos parte de um corpo.
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Os celebrantes devem sentir que a presença de Cristo faz com que cada um deles seja
parte do mesmo pão, todos da mesma natureza espiritual, como cada pedaço de pão no
prato oferecido. Comer do pão e beber do cálice é assumir um compromisso de
preservar as doutrinas, manter acesa a chama da esperança, aceitar o pacto de permitir
a santificação da sua vida para servir a Cristo. É muito significativa a declaração
do meticuloso historiador Lucas em Atos 2.46: “E perseveravam na doutrina dos
apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão e nas orações. ” A Ceia do Senhor tem um
real significado de comunhão espiritual. Não se trata de um piquenique de
confraternização. Para que tenhamos a sua exata compreensão, é indispensável que ela
expresse os três elementos aqui indicados:
1. Perseverar na doutrina dos apóstolos. Sem essa correta definição, correríamos o
risco de confundir as doutrinas e acabaríamos por dividir o cálice do Senhor com o cálice
dos demônios (1Co 10.21). _A perseverança na doutrina dos apóstolos determina o
pleno conhecimento do significado da comunhão, da Ceia do Senhor e das orações na
Igreja.
2. Perseverar na comunhão, gr. koinonia - que é muito mais do que solidariedade de
grupo, é a dádiva de si mesmo pelo amor ágape, a essência do caráter de Deus. É o amor
em ação.
3. Perseverar nas orações, O “partir do pão ”. NÃO É um acontecimento sociocultural,
mas um evento espiritual, de forte expressão teológica. Sem oração e verdadeira
piedade, ninguém pode captar o verdadeiro significado do partir do pão e o repartir do
cálice do Senhor. Sem a comunhão vertical com Deus, em oração perseverante, a
comunhão horizontal, com a igreja transforma-se em gesto de simples amizade - filia, ou
em um sentimentalismo piegas, desfigurado da sua verdadeira natureza. A Igreja de Atos
2 perseverava na sã doutrina, na comunhão de amor e nas orações de profunda e
verdadeira piedade. Só assim podia perseverar no “partir do pão ". A Ceia é lembrança, é
memorial, mas não é possível ao cristão lembrar-se de Cristo sem se esquecer de si
mesmo. Somente quando o celebrante se esquece de si mesmo, das suas idéias próprias,
dos seus sentimentos impermeados pela verdade e pelo amor de Deus, é que está apto
para ter uma verdadeira anamnésis de Jesus e, desse modo, ter comunhão espiritual
com os irmãos “no partir do pão”.
A lembrança que antecipa, no presente, um evento futuro(1 Cor 11.26). Devemos
continuar celebrando a Ceia do Senhor “até que ele venha” Essa expressão nas dá o
entendimento de que, ainda que não possamos saber quando será, a volta de Jesus é
certa, e uma prova de que esperamos a sua vinda por causa do amor que lhe devotamos
é repartir o pão e o cálice juntos e unidos na mesma esperança. O Cristo, presente na
Ceia pelo seu Espírito, antecipa o Reino em sua glória futura. Assim como o batismo, a
ordenança positiva da Ceia tem um forte significado escatológico. No céu não haverá
comida nem bebida, pois os corpos celestiais, de uma nova natureza gloriosa,
independem dos alimentos da terra para ali poderem viver. Há, porém, uma viva
analogia entre os alimentos da Ceia e o “alimento” espiritual que sustentará os corpos
espirituais dos remidos na glória. Nada sabemos, nem é preciso saber, sobre a natureza
do fruto da “árvore da vida que está no meio do jardim no Paraíso de Deus ” (Ap 2.7).
Quando o texto diz que no céu, os remidos “nunca Mais terão fome nem sede, ” (Ap 7.16),
não está informando que os corpos celestiais não precisam de alimento, mas está
dizendo que o “novo pão”, seja qual for a sua natureza, jamais faltará. Kainon, “novo ” em
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Mt 26.29 é acusativo, não genitivo. Não significa beber de novo, outra vez, do mesmo
“fruto da vide”, mas de uma nova natureza de bebida, ou “de uma nova maneira”, como
traduz Yeager. Almeida traduz “até aquele dia em que o beba de novo convosco no reino
de meu Pai”, enquanto VR traz “até aquele dia em que convosco o beba novo, no reino de
meu Pai”, o que está bem mais perto do grego. Kainos é “novo ”, no sentido de uma
nova natureza não existente anteriormente. Haverá um novo alimento dado por Deus
aos remidos, para que eles possam habitar o novo -Kainon -céu e a nova - kainen - terra
(Ap 21.1). Cada vez que celebramos a Ceia do Senhor, devemos nos transportar, em
nosso espírito, à Glória do céu. Devemos orar com a igreja de Apocalipse: “Amém;
vem, Senhor Jesus ” (22.20).
A memória do que Cristo fez ao derrotar a morte por nós pela dádiva de si mesmo na
cruz deve incendiar em nosso coração um amor tão vivo por ele que o desejo da sua
volta não seja apenas uma fria declaração de fé expressa em nossa liturgia, mas se torne
uma paixão dominante em nosso viver diário e determine o nosso estilo de vida. E
oportuno lembrar que a nossa ansiedade pela volta de alguém que partiu e que
vai chegar, será sempre diretamente proporcional ao nosso amor por essa pessoa. Esse
“ardor de fé” pela volta de Cristo determina à nossa maneira de viver e de testemunhar,
torna viva e real em nós a esperança, antecipa a glória. A declaração de Jesus “em
memória de mim ” significa também: “guardem ativamente na memória que eu voltarei",
exortação, aliás, muito frequente nas parábolas e nos ensinos discursivos de Jesus. A
Ceia é uma celebração de esperança, pois nos antecipa a glória, pela presença de Jesus
em nós através do Espírito Santo.

3. INTERPRETAÇÕES DOS ELEMENTOS DA CEIA DO SENHOR


SACRAMENTALISMO
“No Sacramento da Ssma. Eucaristia estão contidos verdadeiramente, realmente e
substancialmente o corpo e o sangue simultaneamente com a alma e a divindade de N. S.
Jesus Cristo, e, pois, todo o Cristo e não apenas em símbolo, figura ou eficácia’’.
Essa declaração do dogma católico citada pelo Novo Catecismo editado pela HERDER,
editora oficial da Igreja de Roma, explica a doutrinada transubstanciação. Todo o
católico c ensinado a crer que a hóstia, uma vez consagrada pelo sacerdote, transforma-
se no corpo real de Jesus Cristo. Os pretensos fundamentos bíblicos para essa doutrina
estão em João 6.52 a 56. Nos versos. 54,55, Jesus diz: “Quem come a minha carne e bebe o
meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia; porque a minha carne
verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida”. É óbvio que Jesus
está, aqui, usando de uma metáfora, como fez em outras ocasiões, quando disse, por
exemplo: “Eu sou a luz do mundo”, “eu sou a porta”, etc.
Caso pairasse qualquer dúvida sobre se as palavras de Jesus, nesse texto, devessem ser
interpretadas literal ou figuradamente, o próprio Jesus esclarece, no mesmo capítulo, v.
63: “O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos disse
são espírito e são vida. ”

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O outro texto é Mt 26.26 "Tomai, comei, isto é o meu corpo”. A simples leitura gramatical
derruba a idéia da transubstanciação. O que Jesus dá a comer não é o seu corpo, mas pão.
Não houve transubstanciação. Õ pão continuou sendo pão, não apenas na aparência, mas
em substância e foi tomado pela igreja como símbolo do corpo de Cristo. No relato
paralelo de 1Cor 11, é evidente que a igreja continuava comendo pão como sendo pão e
não a carne de Jesus. No verso 24, Paulo declara que Jesus tomou o pão, deu graças,
partiu-o e disse “Tomai, comei, isto é o meu corpo” - literalmente: “este é o meu corpo ”.
Logo a seguir, nos versos 26 e 27, ao se referir ao pão, a linguagem de Paulo não deixa a
mínima dúvida sobre o que é que Jesus entregou aos discípulos e como a Igreja
interpretou as palavras do Mestre: .V. 26 - “Porque todas as vezes que comerdes este pão -
tonarton touton - (o pão este, o mesmo pão). No verso 27 Paulo repete: “Qualquer que
comerão pão”. A Iigreja dos apóstolos não comia o pão pensando que estivesse
mastigando o corpo de Jesus.

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A respeito do pão, Jesus diz: “Tomai e comei”. Ao entregar o cálice, ele diz: “bebei dele
todos ” (Mt 26.27). O oficiante católico, no entanto, distribui o pão com todos, mas
reserva o vinho para si. O vinho é negado, alega-se, para que não aconteça ser
derramado pelo chão o sangue de Cristo.
Teofagia(comer ou se alimentar de deus) é culto pagão, nunca culto cristão. Comer o
alimento dos deuses ou comer alimentos que representem as divindades,
oferecer alimentos aos deuses ou aos mortos, são elementos constantes nas religiões
naturais, como podemos ver nas esquinas do Rio de Janeiro toda sexta feira ou nos
cemitérios japoneses. Na base da teofagia está a crença de que, comendo o alimento dos
deuses, o cultuante adquire os poderes da divindade cultuada. É evidente que não é esse
o conteúdo teológico da Ceia do Senhor. A transubstanciação começou a penetrar na
igreja no Sec. IX, através de Pascácio Radbert. Após renhidos combates, em 1215, o
concilio de Latrão aprovou o dogma. A transubstanciação é reconhecida como um ato de
propiciação real, pela repetição do ato vicário de Jesus na cruz, uma vez que o pão e o
vinho são transformados no corpo e no sangue de Jesus para serem de novo oferecidos.
Por serem o corpo e o sangue de Jesus, os elementos da eucaristia, para a Igreja Católica,
são objeto de adoração, o que configura idolatria.

CONSUBSTANCIAÇÃO.
É a posição de Martinho Lutero, que repudiava a idéia da transubstanciação, mas não
quis deixar de atribuir um poder sacramental aos elementos da Ceia. Tentando conciliar
a sua posição reformada com o conteúdo sacramentalista, difícil de erradicar da mente
humana como se pode ver nos resquícios sacramentalistas de muitos cristãos
evangélicos mesmo hoje em dia, criou essa explicação intermediária. A consubstanciação
admite a presença simultânea das substâncias do pão e do Corpo de Cristo no mesmo
elemento. O pão continua sendo pão em forma e substância, mas junto com o pão,
impregnando o pão, está a substância do corpo de Cristo simultaneamente.

PRESENÇA MÍSTICA
João Calvino foi um pouco mais longe do que Martinho Lutero no repúdio à heresia da
transubstanciação e elaborou o conceito chamado “Presença Mística”, segundo o qual, há
uma presença espiritual benéfica de Cristo no pão abençoado da Ceia.
O pão passa a ter um valor espiritual intrínseco, não pela presença física de Jesus trans
ou consubstancialmente, mas por sua presença mística, espiritual. A Ceia é chamada de
“Santa Ceia” porque o pão e o vinho são santos devido à presença eficaz de Jesus nos
próprios elementos. O pão permanece inalterado, mas ao comê-lo o participante recebe
uma bênção espiritual. Essa forma de entender o significado da Ceia é encontrada na
maioria das igrejas evangélicas e pentecostais.

SÍMBOLO MEMORIAL
O reformador suíço Zuínglio, (HuldneichZwingli), grandemente influenciado pela obra de
Erasmo de Roterdan, com quem se correspondia, estabeleceu como princípio norteador
da sua pregação, a base exclusiva das Escrituras Sagradas como norma de doutrina.
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Partindo desse princípio, preparou 67 artigos de fé, nos quais afirmava o
caráter simbólico e memorial do pão e do vinho da Ceia do Senhor, como ensina o Novo
Testamento, ou seja: repudiava a transubstanciação católica e a consubstanciação de
Lutero e tampouco aceitava a “Presença Mística” da fórmula calvinista. Zuínglio não foi
totalmente aceito na própria Suíça. Em muitos cantões houve resistência às suas teses
anti-sacramentalistas, mas as suas idéias foram ganhando corpo em outros grupos do
seu tempo e posteriormente entre os batistas” bem como em todas as igrejas que
buscavam exclusivamente nas fontes bíblicas as suas doutrinas.

4. ABRANGÊNCIA DA PARTICIPAÇÃO NA CEIA DO SENHOR


Há pelo menos quatro maneiras, com algumas variantes, aceitas como limitação de quem
pode participar da Ceia do Senhor.
CEIA UNIVERSAL. Qualquer pessoa presente pode participar, não importa a sua religião.
Parte-se do pressuposto de que o pão e o vinho são elementos sagrados que abençoam a
qualquer pessoa que deles coma e beba, não importa se tal pessoa crê ou não no que o
pão e o vinho representam.
CEIA LIVRE. Admite participação de todos os evangélicos. A Ceia é tomada como um ato
de comunhão fraternal entre irmãos evangélicos, não se levando em conta a forma de
batismo nem qualquer outro pré-requisito, nem mesmo o significado da Ceia, bastando
que alguém seja membro de uma igreja evangélica para participar.
CEIA RESTRITA. Só admite a participação de membros de igrejas da mesma fé e ordem,
sendo a forma prática de reconhecê-lo, o fato de pertencerem a igrejas da mesma
denominação. Muitas igrejas consideram a Ceia uma celebração da igreja local,
admitindo-se à mesa, como participantes, membros de outras igrejas da mesma fé e
ordem, por uma questão de cortesia fraternal.
CEIA ULTRA RESTRITA. Só admite a participação dos membros da igreja local
celebrante.
A quase totalidade das igrejas batistas filiadas à Convenção Batista Brasileira adota,
historicamente, a Ceia Restrita como prática, ainda que nem sempre bem compreendida.
A Ceia universal (todos recebem o pão e o vinho ou apenas o pão, não importa a religião
a que pertençam) e a Ceia livre (qualquer cristão evangélico pode participar) são
práticas que partem de alguns erros básicos:
Primeiro: A crença de que há uma bênção inerente no pão e no vinho, ou seja: o pão e o
vinho da Ceia são elementos que têm poder para abençoar aos que deles participam.
Mesmo não aceitando a doutrina católica da transubstanciação, nem a consubstanciação
luterana, muitas denominações evangélicas não conseguiram se livrar totalmente da
idéia de uma “bênção, inerente” ou “presença mística” de Cristo nos elementos da Ceia, o
que equivale a atribuir ao pão e ao vinho um caráter sacramentalista. Para esses irmãos,
negar o pão é negar um objeto sagrado que abençoa a quem dele come, portanto, é falta
de amor. Daí o uso da expressão “Santa Ceia”. A Ceia pode ser chamada santa por causa
da presença do Espírito Santo na alma dos celebrantes e pela evocação do corpo e do
sangue de Cristo, santificados para a nossa redenção, não por serem santos o pão e o
vinho. A base da idolatria é atribuição de poder espiritual a objetos materiais. Os

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elementos da Ceia não conferem graça. A bênção está naquilo que eles simbolizam: o
corpo e o sangue de Jesus dados por nossa redenção.
Segundo: A confusão dos conceitos de Igreja universal e Igreja local. A Ceia do Senhor
não é uma celebração da Igreja universal, espiritual, invisível, transcendente, que
abrange todos os salvos, de todas as denominações do mundo. A Ceia é uma celebração
da Igreja visível, concreta, local e definida em termos imanentes, uma vez que comer
pão e beber vinho são fatos concretos, que se verificam historicamente, e não realidades
abstratas. Espírito não come pão nem bebe vinho! A referência de Paulo à Ceia é de uma
celebração da Igreja reunida como tal: “Quando vos ajuntais na Igreja” (1Co 11:18) e não
da Igreja universal. Sendo uma celebração da Igreja visível, a Ceia só pode
acontecer dentro dos princípios e doutrinas da mesma Igreja. A Declaração Doutrinária
da CBB não é omissa a respeito, pois estabelece como princípios: A Ceia é uma
celebração da Igreja. Igreja é a reunião dos crentes salvos e biblicamente batizados. O
batismo bíblico é a imersão; dos que professam a sua fé em Jesus.
Salvos mas não imersos ou imersos mas não salvos, portanto, não cumprem a condição
prévia indispensável para participar da Ceia em uma Igreja Batista, por não terem
professado a sua fé em Jesus Cristo como Salvador através do batismo bíblico.
Terceiro: A interpretação da Ceia do Senhor como uma celebração social e não como um
memorial e proclamação da morte de Cristo. A interpretação do significado da Ceia do
Senhor não está sujeita a opiniões e sentimentos pessoais, mas está claramente definida
no texto bíblico. Ao citar as palavras de Jesus, “em memória de mim ”, Paulo esclarece o
seu significado no parágrafo imediato: “Porque todas as vezes que comerdes este pão e
beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que venha” (1Co 11.25).
A comunhão fraternal entre os salvos é resultado da correta interpretação do significado
do pão e do vinho, ou seja, da eficácia da morte expiatória de Jesus na cruz e do
derramamento do seu sangue para a remissão dos nossos pecados. Nossos
sentimentos não podem deixar de lado a verdade revelada, que é o fator eficaz para
produzir verdadeira comunhão entre irmãos. Sem a eficácia da expiação dos nossos
pecados por Cristo na cruz, a comunhão cristã se torna uma comunhão apenas social, em
vez de ser uma comunhão no Espírito de Cristo. Não pode haver verdadeira comunhão
fraternal, horizontal, sem a comunhão vertical de uma experiência fundada na verdade
revelada em Cristo. Se os celebrantes não estiverem de acordo em relação ao significado
do pão e do vinho, não estará havendo comunhão. Para o batista, por exemplo, o pão e o
vinho são símbolos memoriais; para o católico é a própria substância do corpo de Cristo;
para o luterano, uma consubstanciação, um sacramento; para outros evangélicos, um
objeto de valor espiritual, um meio de receber graça devido à presença mística de Jesus
nos elementos. Se cada celebrante interpreta de uma forma diferente o significado
essencial do pão e do vinho, não está havendo comunhão espiritual. Em Atos 2.42, vemos
que tanto a comunhão quanto o “partir do pão” e as orações tinham como base a
doutrina dos apóstolos.
Quarto: A liberdade individual levada ao extremo do liberalismo para a prática do erro.
Em 1Co 11.28 Paulo determina que “Examine-se, pois, o homem a si mesmo e assim coma
deste pão e beba deste cálice. ’’ O critério para esse autoexame vem logo no verso
seguinte: “Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para a sua própria
condenação, não discernindo o corpo do Senhor. ” Cada pessoa deve examinar-se a si
mesma para ver se está comendo e bebendo da Ceia dando-lhe o seu verdadeiro
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significado. Não discernir o corpo de Jesus, o que torna juridicamente inválida (indigna)
a participação na Ceia (verso 29) é não dar aos elementos da Ceia o seu
verdadeiro significado como memorial da morte expiatória de Jesus. O
autoexame proposto por Paulo não dá o direito de cada participante interpretar
o significado do pão e do vinho a seu bel prazer, nem de cada indivíduo presente
determinar se pode comer o pão e beber do cálice. O critério para o autoexame proposto
no verso 28 está no verso 29 e não na interpretação particular de cada um. O autoexame
não é um cheque em, branco, como quer McAlister no livro PRESENÇA REAL. O
candidato a motorista deve fazer um autoexame para saber se está apto a prestar
a prova, mas isso não lhe dá o direito de pegar um carro e sair dirigindo. Há leis, há
critérios, a sociedade é que vai lhe dar o direito de dirigir, através de um examinador.
Qualquer inconverso presente ao ato da celebração da Ceia pode se achar em condições
de participar. Isso lhe dá o direito ao pão e ao vinho? Deixar a seu critério é faltar com a
misericórdia, porque ele estará comendo e bebendo para agravar a sua condenação,
jamais podendo alegar inocência no tribunal de Deus.
Os argumentos em favor da Ceia livre alegando que no céu as denominações que adotam
a Ceia restrita não terão uma mesa separada, indicam duas ignorâncias cumulativas:
primeira, a de que no céu não há denominações. Segunda: No céu não há Ceia. À
celebração será apenas "até que ele venha. ” Amar e respeitar os amados irmãos
de outras denominações não exige o descarte de convicções doutrinárias nem deles hem
nossas. Quem ama, respeita as convicções da pessoa amada. A unidade espiritual dos
salvos não anula a diversidade de interpretações das doutrinas bíblicas e as diferenças
de interpretação não anulam a sua unidade espiritual.
Os crentes que advogam a Ceia livre estão sujeitos a transformar a Ceia do Senhor em
uma verdadeira res nullio (coisa de ninguém), pois há igrejas evangélicas que aceitam
como membros, sem problemas, casais ilegítimos, portadores de vícios como fumo,
bebidas alcoólicas, etc. e essas pessoas, na Ceia livre, terão assento à Mesa do Senhor em
uma Igreja onde se adotam princípios bíblicos de disciplina, gerando confusão, quebra
da identidade espiritual e, como conseqüência, perda do poder da mensagem a ser
transmitida para o mundo. Não confundir amor cristão com covardia, nem com
transigência com o pecado. "Mas agora vos escrevo que não vos comuniqueis com aquele
que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão,
ou roubador; com esse tal, nem sequer comais ” (1Co 5.11). Não procede a réplica de que,
desse modo, muitos membros da própria Igreja estarão fora da comunhão, pois para
com os seus próprios membros, a Igreja exerce a disciplina conforme os princípios éticos
que adota, o que não pode fazer com membros de outras igrejas. A história ensina que
sempre que uma Igreja perde a sua identidade, perde a força da sua mensagem e entra
em declínio. O mundo em constantes transformações está confuso e precisa de lima
mensagem claramente definida, defendida com coragem, como em Atos dos Apóstolos.
Amemos nossos irmãos de outras denominações, remidos como nós por Jesus,
demonstremos o nosso amor defendendo o seu direito de crer conforme a sua
consciência, estejamos unidos em sincero amor em todos os empreendimentos
evangelísticos missionários, educacionais, beneficentes, políticos, sem que jamais
qualquer um de nós tenha que renunciar à sua própria herança de fé.
Os sentimentos dominantes na celebração da Ceia do Senhor devem ser de vitória e de
alegria. Deve ser uma celebração solene, espiritual, edificante como testemunho da
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morte e da ressurreição de Jesus, eventos históricos que nos trazem redenção e
esperança.

5.0 PÃO E O VINHO


Os textos bíblicos não dão margem para qualquer radicalização quanto à
obrigatoriedade de serem o pão ou o vinho da Ceia do Senhor com ou sem fermento. Os
judeus usavam, na Páscoa, pão sem fermento e vinho fermentado. É evidente que, ao
celebrar a Páscoa na qual instituiu a Ceia, Jesus lançou mão dos elementos comumente
usados pelos judeus. Não vemos motivo, porém, para se dogmatizar a respeito, uma vez
que o pão fermentado é sempre pão - artos - “pão de trigo”, e vinho sem
fermento também é vinho e não há qualquer exigência textual sobre isso. Observe-se
que a palavra vinho - oinos - não consta de nenhum dos relatos da Ceia. Os evangelhos e
Paulo usam ‘‘cálice’’ por metonímia e Jesus fala do “fruto da vide” (Mt 26.29). Quanto a
cálice único ou individual, também não há base textual para uma definição excludente.
Em Mt 26.27 Jesus diz: “bebei dele todos”, mas Lucas 22.17 registra: “ tomai-o, e reparti-o
entre vós. ”

6. PERIODICIDADE DA CELEBRAÇÃO
As igrejas primitivas celebravam a Ceia do Senhor com bastante freqüência,
provavelmente uma vez por semana ou mais. Não há qualquer prescrição a esse
respeito. A celebração não deve ser tão espaçada que perca a sua força de comunicação
de uma mensagem espiritual, nem tão frequente que caia na rotina e perca o seu fervor.
Prevaleça o bom senso, de acordo com as circunstâncias. A celebração mensal é apenas
uma boa praxe, mas se houver um motivo especial que o justifique, o espaço de tempo
poderá ser reduzido ou aumentado.

7. AUTORIDADE PARA PRESIDIR A CELEBRAÇÃO


Não há qualquer previsão no Novo Testamento, quanto à autoridade celebrante da Ceia
do Senhor. As prescrições bíblicas se referem apenas à significação do evento e às
condições espirituais dos participantes. Tem sido considerada uma prática prudente e
criteriosa, nos países onde as igrejas já estão estabelecidas, que a celebração da Ceia
seja presidida pelos pastores e co-celebrada por diáconos. Essa praxe salutar, que
convém observar a fim de evitar possíveis desvios doutrinários, não deveria justificar
que ficassem privados de celebrar a Ceia do Senhor irmãos que se reúnem em campos
missionários, por exemplo, e não podem contar com a presença de pastores por longos
períodos. No entanto, “Faça-se tudo com decência e ordem”, com base exclusivamente na
Palavra de Deus.

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8. LOCAL DA CELEBRAÇÃO
No período do Novo Testamento, as igrejas se reuniam nas casas dos crentes onde,
obviamente, celebravam a Ceia do Senhor. Não há prescrição bíblica para que a
celebração se dê exclusivamente nos Templos. Onde quer que esteja reunida a Igreja
local, aí será o lugar adequado para a celebração, uma vez que a Ceia é uma ordenança
da Igreja como tal, não se justifica a sua celebração em congressos, seminários,
convenções e associações, por mais edificante que isso possa parecer. Não podemos
desfigurar nosso conceito de Igreja sem pagarmos o preço da perda da sua identidade
bíblica.
9. A ORDEM DOS ELEMENTOS
Serve-se primeiro o pão, memorial do corpo de Jesus "que por vós é dado ” e depois o
cálice simplesmente porque foi assim que Jesus fez « estabeleceu que se faça, como
ensina Paulo em 1Co 11.24,25. É uma ordem natural, que segue a fórmula ritual da
Páscoa. Primeiro comer o pão, depois beber do cálice. O serviço deve ser feito com
reverência, espiritualidade e um profundo sentimento de alegria e vitória. A prescrição
de Paulo no verso 33 - “esperai uns pelos outros” não se refere à celebração da Ceia, mas
à refeição que a antecede, como depreendemos do verso 21. A praxe de todos comerem
simultaneamente o pão e beberem juntos do cálice mediante a ordem do ministro
celebrante, coloca em destaque a unidade da Igreja em sua comunhão espiritual. O verso
28 não significa que cada pessoa pode dar ao pão e ao vinho ou à própria celebração a
interpretação que bem desejar, mas que cada participante deve celebrar a Ceia do
Senhor consciente do seu real significado como memória do sacrifício expiatório de
Jesus, aceito pela fé.
Sejam aqui reproduzidas as palavras de Karl Ludwig Schmitdt, do livro AS IGREJAS DO
NOVO TESTAMENTO:
“Mas seja como for, uma coisa é clara: a Igreja como corpo de Cristo não é mera sociedade
de homens. Partindo de pressupostos sociológicos não é possível compreender o que
significa e quer significar a assembléia de Deus em Cristo. O ponto decisivo é a comunhão
com Cristo. ( ) Somente a partir dessa comunhão com Cristo começa a existir a
comunhão dos homens entre si como irmãos. ”

CAPÍTULO 7 - Governo Da Igreja

1. CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
As formas de governo eclesiástico não surgem por acaso, não são escolhidas
aleatoriamente pelos fundadores das igrejas. Toda a forma de governo eclesiástico
obedece a imposições mais ou menos frequentes, quais sejam:
Razões doutrinárias. A forma de governo surge da interpretação dos princípios e
doutrinas em que cada Igreja se fundamenta. Ao mesmo tempo, a manutenção de uma
determinada estrutura de poder tende a pressionar a formulação de doutrinas e leis que
a justifiquem.
Razões sócio-culturais. As igrejas tendem a absorver formas de governo e padrões de
exercício de poder que estejam dentro do contexto cultural em que estão inseridas.
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Razões históricas. Toda a estrutura social tende a se perpetuar, independentemente das
suas razões de origem- As igrejas não fogem a essa regra. Padrões estruturais de uma
determinada época podem se impor historicamente.
Razões estratégicas. Uma Igreja pode assumir um modelo de governo como parte da
sua estratégia visando alcançar, com maior eficiência, os seus objetivos institucionais.
Seriam as “razões de qualidade”, ou seja, as razões impostas pela qualidade da
administração para que sejam alcançados os resultados esperados.
Não temos no Novo Testamento uma forma de governo claramente delineada. A forma
de governo das igrejas primitivas recebia poderosa influência da teocracia do Velho
Testamento, sustentada por autoridades formalmente reconhecidas dentro do contexto
cultural dos judeus. Isso fica evidente pelo fato de que em Atos, todas as decisões da
Igreja são precedidas de orações, buscando o conhecimento da vontade de Deus, Esse
procedimento é recomendado também nas epístolas. A declaração do senhorio de Cristo
é levada ás suas conseqüências práticas no governo da Igreja: na escolha do sucessor de
Judas (At 1.24); na escolha dos diáconos (At 6.6); na nomeação de missionários (At
13.3); para dirimir dúvidas sobre a questão da circuncisão (At 15.28). O
Novo Testamento fala de bispos, mas não fada da forma de governo episcopal; fala de
presbitério, mas não defende a estrutura de governo conciliar; refere-se ao Reino
mundial de Cristo, mas não doutrina sobre um governo universal para a Igreja. Vemos,
portanto, no livro de Atos, uma estrutura de poder em formação, sob a inspiração direta
do Espírito Santo. Pelo menos três fatores básicos iriam pressionar o processo
de delineamento de uma estrutura de poder na Igreja primitiva:
1. A teocracia de Israel.
2. A democracia dos gregos.
3. O imperialismo de Roma.
A Igreja Católica é um exemplo histórico de uma tentativa de conciliar essas três
influências com um sistema de governo no qual a origem da autoridade divina estaria
nas ordens dadas a Pedro por Jesus, o colégio dos cardeais dá uma aparência de
democracia com delegação de poderes e o universalismo da Instituição, sob rígido
controle hierárquico, projeta a pressão do imperialismo romano. As igrejas batistas, por
sua vez, conservam a compreensão da sua origem divina no princípio da autoridade da
Bíblia, ‘‘única regra de fé e prática”, governam-se por uma democracia congregacional
local e mantém um sistema de cooperação mundial, voluntária, mas nem por isso menos
universal.
Qual é a origem das igrejas batistas? Justo C. Anderson, no tomo I da sua HISTÓRIA DÉ
LOS BAUTISTAS, página 34, após exaustiva pesquisa documentada pelos principais
estudiosos da história batista, conclui apresentando, em resumo, as três teorias mais
aceitas pelos historiadores:
1. A teoria da relação antipedobatista; (Anti-batismo sem entendimento)
2. A teoria da sucessão histórica; (JJJ – João, Jesus, Jerusalém)
3. A teoria da restauração separatista. (Ingleses que se separam da ICR)
A primeira teoria é a que apresenta os batistas como herdeiros espirituais de todos os
grupos que, sob diversos nomes, lutaram contra o batismo infantil durante os séculos
53
que precederam a Reforma. Sem se importarem com uma linha sucessória formal, esses
historiadores ligam os batistas a todos os grupos que lutaram contra o batismo de
infantes por entenderem que essa prática fere doutrinas essenciais da fé cristã. No
segundo grupo, estão autores que traçam uma linha sucessória desde a Igreja de
Jerusalém até os nossos dias, afirmando que a primeira Igreja batista foi aquela
composta de 120 irmãos que estava reunida no dia de Pentecostes. Á terceira teoria,
que Anderson considera como a síntese (seguindo o método dialético de Hegell),
defende o início do século XVII como a data do começo das igrejas com o nome de
Batistas, como resultado dá restauração separatista na Inglaterra ainda que a primeira
Igreja com esse nome tenha surgido na Holanda, fundada pôr separatistas ingleses ali
refugiados devido a perseguição da Igreja Oficial inglesa. Para Anderson, a vantagem de
considerar as três teorias como não mutuamente excludentes, resolve questões como,
por exemplo, colocar dentro de uma mesma linha sucessória, grupos que tinham em
comum a posição antipedobatista, mas em outros pontos de doutrina eram diferentes
uns dos outros. Entre os antipedobatistas houve grupos que sustentavam as mesmas
doutrinas que vieram a ser defendidas pelos batistas. Em outras palavras, sempre houve
batistas, mesmo que não usassem esse nome. Eram batistas e não sabiam! A conclusão
da síntese andersoniana é que onde quer que um grupo de cristãos decida sustentar as
doutrinas do Novo Testamento e reger suas vidas exclusivamente pela Bíblia, ali estará
uma Igreja Batista.
No Brasil, o primeiro Batista de que se tem notícia foi Thomaz Jefferson Bowen,
missionário da Junta de Missões Estrangeiras da Convenção Batista do Sul dos Estados
Unidos. Bowen tinha sido missionário na África, onde aprendeu a língua ioruba. Vindo
para o Brasil em 1859, tentou evangelizar os escravos, mas logo voltou para a sua terra.
Em 10 de setembro de 1871, imigrantes batistas do sul dos Estados Unidos que vieram
para o Brasil após a guerra da secessão fundaram a primeira Igreja Batista na cidade de
Santa Bárbara do Oeste, no interior de São Paulo. No dia 15 de outubro de 1882 foi
organizada em Salvador, na Bahia, a Primeira Igreja Batista do Brasil, assim chamada
por ser destinada a ser uma Igreja de brasileiros. Como correr dos anos, imigrantes
batistas europeus da Rússia, Alemanha, Hungria, Polônia fundaram aqui igrejas
nas quais pudessem cultuar a Deus em seus idiomas de origem. Além da
obra missionária da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, vieram para o Brasil
missionários ingleses da Sociedade Batista Missionária e de outras sociedades
missionárias dos Estados Unidos e do Canadá, que se filiaram às igrejas da Convenção
Batista Brasileira, pois sustentavam as mesmas doutrinas e formas litúrgicas das igrejas
aqui existentes. Outros grupos batistas também vieram para o Brasil, como as missões
da Suécia, de características pentecostais, os batistas regulares, os batistas livres, entre
outros, que têm doutrinas particulares ou ênfases eclesiológicas diferentes, por isso se
mantém fora da Convenção. As igrejas arroladas na Convenção Batista Brasileira
sustentam as doutrinas constantes da sua Confissão Doutrinária, adotam, como os
demais grupos, a imersão como forma exclusiva de batismo e a regeneração como pré-
requisito, excluída a possibilidade do batismo infantil. Em sua maioria, com exceção
dos batistas livres, adotam o batismo confessional e a Ceia restrita.
Através da história, a Igreja sempre influenciou e foi influenciada em sua forma de
governo, pelo fundo sócio-político-cultural de cada época, prevalecendo, ora os
referenciais veterotestamentários, como por exemplo, nos movimentos pietistas, ora o

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sistema imperialista mundial, como na Igreja Católica, ora os conceitos de governo
democrático, como nas igrejas anabatistas em geral e posteriormente, nas igrejas
congregacionais e batistas.
A formulação da estrutura de governo eclesiástico de uma igreja cristã deve obedecer a
alguns princípios normativos inquestionáveis:
Primeiro: Deve ser biblicamente fundamentada. Isso significa que deve reconhecer
Cristo como Senhor, o Espírito Santo como agente dinâmico e a glória de Deus como alvo
supremo. Significa também que deve ter como objetivo operacional a implantação do
Reino de Cristo na terra e que a Bíblia é sua única base de doutrina e vida.
Segundo: Deve projetar, na forma, o seu conteúdo. A estrutura de poder na Igreja não
pode contrariar os princípios que a mesma Igreja proclama. A consistência entre a fé e as
obras, que a Igreja espera de cada um dos seus membros, deve ser projetada na
estrutura da Igreja como um todo. A Igreja deve ser tão fiel na sua mordomia
coletiva como espera que cada um dos seus membros o seja individualmente. Por
exemplo: Se a Igreja quer que seus membros vivam em amor e tenham um viver
honesto, a sua estrutura de poder deve projetar o amor e ser honesta a toda a prova.
Terceiro: Deve ser eficaz. Isso significa que a estrutura de poder deve conduzir a Igreja
a alcançar o máximo resultado com os recursos disponíveis e que esses recursos devem
ser multiplicados com eficiência, o que, na prática, reflete a mordomia da Igreja.
Quarto: Deve ser dinâmica e flexível. O governo da Igreja deve levar a Igreja a ser um
corpo vivo em ação no mundo. As igrejas de Jesus não podem ser o túmulo, nem o museu
das verdades eternas, mas devem ser as verdades eternas transformadas em vida no
tempo em que vivem, transformando cada tempo em um tempo de esperança. A
dinâmica da estrutura de poder da Igreja requer flexibilidade para a incorporação de
métodos e linguagem eficazes para transmitir ao homem do seu tempo a mensagem do
tempo de Deus segundo o seu eterno propósito.
2. FORMAS DE GOVERNO
Aristóteles (Mirador, Filosofia, IV-49) ensina que há três formas de governo:
MONÁRQUICO, governo de um só, vitalício. De monos, só, único, isolado.
ARISTOCRÁTICO – Governo de uma elite. De aristos, excelente, o melhor, mais krateo,
ser senhor, dono, governador, donde: Governo dos melhores.
DEMOCRÁTICO - Governo escolhido livremente pela maioria.
Aristóteles admite que todas as formas de governo podem ser corrompidas com o
tempo. Deturpações das formas de governo denunciadas por Aristóteles:
A MONARQUIA corrompe-se em tirania, despotismo.
A ARISTOCRACIA corrompe-se em oligarquia e autoperpetuação.
A DEMOCRACIA corrompe-se em demagogia.

FORMAS DE GOVERNO ECLESIÁSTICO MAIS CONHECIDAS:

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GOVERNO MONARQUICO. Uma única pessoa detém o poder em caráter vitalício. Não há
delegação de poderes da membresia. O soberano é o despotés, senhor absoluto. A fonte
do poder monárquico pode ser:
1. Eleição por um colegiado. É o caso da Igreja Católica, onde o Papa é o sumo pontífice,
eleito em caráter vitalício pelo Colégio de Cardeais.
2. Autoproclamação, via de regra mediante o anúncio de uma “revelação” ou “unção”
particular.
GOVERNO EPISCOPAL. Cada bispo exerce autoridade sobre uma região ou país. Um dos
bispos exerce poder sobre os demais. Há, entre outras, as seguintes variantes do
governo episcopal: o bispo, em algumas igrejas, é eleito por tempo determinado; em
outras, por tempo indeterminado; o bispo, em alguns casos, tem poderes absolutos; em
outros, tem poderes relativos; o bispo pode governar sozinho ou coadjuvado por um
concilio ou presbitério Exemplos de governo episcopal: Igreja Metodista, Anglicana,
Episcopal. A Igreja Grega Ortodoxa é governada por um Patriarca e seus dignitários são
chamados “hierarcas”.
GOVERNO CONCILIAR. Um concilio ou presbitério, eleito pela Igreja local exerce o
governo da Igreja por tempo determinado, mediante delegação de poderes.
Representantes eleitos com delegação de poderes pelos concílios locais formam um
concilio geral, supremo concilio ou sínodo, de caráter regional ou nacional. A Igreja
Presbiteriana é exemplo clássico de governo conciliar.
GOVERNO DEMOCRÁTICO CONGREGACIONAL. Na jurisdição da Igreja local, o governo
é democrático, ou seja, todos os membros têm iguais deveres e direitos e cada Igreja
local é autônoma em relação a todas as demais igrejas.

3. GOVERNO IGREJA BATISTA


As Igrejas batistas optaram pela forma de governo democrático-congregacional pelas
razões que assim podemos resumir:
BASES BÍBLICAS.
Há seguros indícios de uma incipiente democracia nas igrejas do Novo Testamento. O
voto democrático da Igreja é tomado:
a) na escolha de líderes (At 4:32,33);
b) na solução de divergências internas (At 15.22);
c) na solução de problemas administrativos (At 6,5).
BASES DOUTRINÁRIAS.
L. R. Eliot, citado por Franklin Segler em A THEOLOGY OF CHURCH AND MINISTRY,
sugere quatro princípios básicos de doutrina, para a opção por um governo
eclesiástico democrático-congregacional, sobre os quais nos permitimos tecer alguns
comentários:
A aceitação voluntária do Evangelho. A instituição da Igreja relaciona-se com o
princípio da voluntariedade na aceitação da mensagem de salvação. O princípio da
aceitação voluntária vige para todos os membros da Igreja, tanto quanto para todos os

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líderes e deve abranger todos os aspectos da vida da Igreja. A fé não pode ser imposta
pela força. O poder eclesiástico, aliado ao poder do estado por injunções políticas,
invariavelmente tem usado a força da espada para impor a fé, manchando de sangue a
história da Igreja. A voluntariedade na aceitação da graça de Cristo leva à voluntariedade
em participar.
A soberania de Cristo. Jesus Cristo é o cabeça da Igreja e unicamente a ele, pela sua
vontade expressa nas Escrituras, deve a Igreja estar subordinada. A concentração de
poder pessoal tende a substituir Cristo, segundo a sua vontade expressa nas Escrituras,
pela autoridade humana como cabeça da Igreja, restando à Bíblia um papel meramente
coadjuvante em matéria de fé e normas de conduta.
A liberdade pessoal. "Para a liberdade Cristo nos libertou ’’ (Gl 5.1). Observe:
eleuthérosen é o aoristo culminativo, indicando uma obra terminada. Fomos libertos de
uma vez, para permanecermos livres para sempre. Libertos pela liberdade - eleutheria...
eleuthérosen... como podemos nos dobrar novamente sob o jugo da servidão? Ninguém
pode ser meio livre, meio escravo. “Libertados pela Liberdade” (Yeager), os cristãos são
um povo absolutamente livre. Essa liberdade em Cristo (não liberdade no pecado), deve
projetar-se na Igreja e, através da Igreja, permear toda a sociedade. Nenhuma forma de
poder eclesiástico se coaduna melhor com o princípio da liberdade individual do que o
governo democrático.
O sacerdócio universal dos salvos. Cada cristão tem acesso pessoal direto a Cristo, sem
a necessidade de qualquer intermediação humana. A existência de um sacerdócio no
Velho Testamento não justifica qualquer tipo de pontificado na Igreja (PONTÍFICE,
do latim, é “o que faz ponte”). O poder eclesiástico personalizado tende a corromper-se
em tirania espiritual. Nenhum outro sistema de governo eclesiástico está mais coerente
com o princípio do sacerdócio universal dos santos do que a democracia congregacional,
onde o livre acesso a Deus tem a contrapartida da responsabilidade pessoal.
A igualdade de todos os seres humanos, diante de Deus (Se nos permite acrescentar L.
R. Eliot). Todos os membros da Igreja foram resgatados pelo mesmo preço: o sangue de
Cristo. Todos receberam o mesmo Espírito, o Espírito Santo. Todos se destinam à mesma
glória: a glória do céu, onde não haverá hierarquia humana ou qualquer tipo de
privilégio ou diferenciação pessoal.

BASES HISTÓRICAS.
O movimento batista surgiu e se desenvolveu simultaneamente com os movimentos em
favor da liberdade e da democracia. Durante a idade média, os cristãos dissidentes da
Igreja oficial, perseguidos pelo gládio papal aliado ao gládio temporal em vários países
da Europa, suspiraram por liberdade religiosa, ao mesmo tempo em que os povos
oprimidos por governos tirânicos suspiravam pelo direito à vida e à liberdade política.
No século XVIII, começaram a cair as monarquias e os impérios e começaram a surgir as
democracias. Em 1789, é proclamada na França, a Declaração dos Direitos individuais,
baseada nos princípios de LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE. A constituição
dos Estados Unidos da América, promulgada no dia 4 de julho de 1784, declara que
todos os cidadãos têm direito à vida, à liberdade e aos bens. Foi nesse contexto histórico
de busca de liberdade e democracia que começaram a se multiplicar as igrejas batistas.

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Os batistas tiveram seu mais notável crescimento nos Estados Unidos da América, onde
a liberdade religiosa foi incluída na “Carta de Direitos”, (primeira emenda), com a
exigência de separação entre Igreja e Estado. Sem dúvida alguma, além dos exemplos
bíblicos e das razões de ordem doutrinária, a opção das igrejas batistas pela forma de
governo democrático-congregacional teve também as suas raízes históricas ligadas ao
surgimento da liberdade como direito universal e da democracia como forma de
governo.

4. CONCEITUAÇÃO
DEMOCRACIA NO GOVERNO DA IGREJA LOCAL.
Todos os membros da Igreja têm iguais direitos e responsabilidades, que nunca poderão
ser negados pelo poder eclesiástico, a nenhum pretexto. Todos os líderes da Igreja são
eleitos e mantidos pelo voto da Igreja À Diretoria cumpre o dever de zelar pelo respeito
às opiniões da minoria e pelo cumprimento das decisões da maioria.
AUTONOMIA DA IGREJA LOCAL.
A) A Assembléia da Igreja é o seu poder máximo, não estando sujeito a nenhuma outra
instância interna ou externa)
B) Cada Igreja é autônoma em relação a todas as demais igrejas e organismos de
cooperação em termos de doutrina, administração, ministério e patrimônio.

5. RELAÇÃO COM OUTRAS IGREJAS


Embora autônomas e soberanas entre si, as igrejas batistas cooperam umas com as
outras, sob o senhorio de Jesus Cristo, para alcançar os seus fins comuns, que nenhuma
Igreja poderia alcançar isoladamente (1 Cor 3.9).
Às igrejas do Novo Testamento cooperaram umas com as outras e foram exortadas a
cooperar solidária e fraternalmente:
Na preservação da sua identidade com a doutrina dos apóstolos (Veja At 2.42; 15.25-31;
20.27).
Na beneficência. (At. 11.29; 8.1-4). As igrejas do mundo inteiro foram exortadas a
cooperar para ajudar os irmãos da Judéia, flagelados pela fome.
No sustento da obra missionária. Veja em 2Cor 11.8 e nas passagens paralelas, como as
igrejas primitivas tinham visão da sua responsabilidade no sustento dos missionários.
Sem essa visão, certamente não teriam cumprido a grande comissão. Autonomia e
cooperação não se excluem, pelo contrário, se somam e se valorizam mutuamente.
Sendo cada Igreja a reunião de pessoas resgatadas para a liberdade e para o amor
em Cristo, as igrejas devem ser, coletivamente, o que cada um dos seus membros é
individualmente: uma nova criação.

CONCLUSÃO
O governo da Igreja, seja qual for a sua configuração, deve sustentar a visão de levar a
Igreja a ‘‘ousar grandes coisas para Deus e a esperar grandes coisas de Deus”, conforme
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a “Lei da Expectativa da Liderança” (veja diagrama abaixo), que é a “Lei de Paulo” em 2
Cor 8.15. Sob a iluminação do Espírito Santo, a estrutura de poder da Igreja deve
desafiar a membresia ater como ideal, reproduzir, na sua plenitude, dentro do seu
contexto histórico, o “sonho” de Jesus, seu fundador e Senhor; deve desenvolver
programas e estratégias que possibilitem à Igreja, alcançar os propósitos gerais, do
Reino de Deus na conquista do mundo, apressando, assim, a volta de Jesus, Que seja a
oração da Igreja hoje, como nos dias do Apocalipse: "ORA VEM, SENHOR JESUS”. Amém!
Convém repetir aqui que as igrejas precisam de líderes que tenham visão, não somente
pastores, mas igualmente não pastores, homens e mulheres, jovens e anciãos, pois as
igrejas tendem sempre a seguir as expectativas da sua liderança. O desenvolvimento da
Igreja está sempre relacionado com a capacidade da visão da sua liderança. Líderes que
desafiam as igrejas pela sua dinâmica de vida mais do que pelo seu discurso, são uma
imperiosa necessidade hoje como ontem. Veja no diagrama acima como se ilustra a lei da
expectativa da liderança da Igreja. Esse princípio é expresso de modo preciso por Paulo:
“Aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e aquele que semeia em
abundância, em abundância também ceifará” (2Cor 9.6). Se os líderes esperam o
mínimo da Igreja, provavelmente terão o mínimo como resposta e os resultados
para o programa da Igreja serão mínimos. Por outro lado, para que a liderança
tenha um nível máximo de expectativa, tem que estar disposta a dar o máximo
de si mesma, a fim de obter o máximo resultado. O que faz um grande líder é uma
grande visão. Possa o Senhor dar às suas igrejas, líderes que tenham uma grande
visão.

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CAPÍTULO 8 - Cooperação Entre As Igrejas
Ao nascerem de novo, os membros da Igreja foram resgatados para o amor. Antes
inconscientes do amor conforme a natureza de Deus, o amor ágape, agora eles podem
não apenas compreender mas viver esse amor (Ef 3.18,19). A Igreja é a comunidade dos
salvos, onde os salvos podem viver em amor uns para com os outros por isso que
já provaram o amor de Deus. O amor agora faz parte da sua natureza. Não é da vontade
de Deus que o indivíduo e converta a Jesus e fique isolado adorando a Deus em casa. O
projeto de Deus é que os salvos se reúnam para cultuar a Deus juntos e para, juntos,
proclamarem, pela vida e pela palavra, o amor de Deus em Cristo. Como fruto
natural desse amor entre os crentes na Igreja, as igrejas devem sustentar os laços de
amor umas com as outras, unindo os seus esforços para alcançarem, juntas, o mundo
inteiro com o conhecimento do Deus que ama a todo o mundo, tendo demonstrado esse
amor por meio de Cristo. Assim como os laços de amor fraternal se ampliam e se
aprofundam no convívio da Igreja local à medida que o crente cresce em
maturidade cristã, o amor das igrejas umas para com as outras também cresce à medida
que elas vão amadurecendo como igrejas. Unir-se a outras igrejas em amor, refletindo o
amor de Deus, é da natureza da Igreja. Isolamento é enfermidade e morte, tanto para o
crente individualmente, quanto pura a Igreja, pois é a negação da sua própria natureza.
Embora sejam auto governativas e soberanas em suas decisões, as Igrejas cooperam
umas com as outras sem ferir a sua individualidade porque todas as igrejas estão sob o
domínio do mesmo Senhor, sob o controle do mesmo Espírito, fundamentam-se na
mesma Palavra e visam alcançar o mesmo objetivo: a salvação do mundo, o que,
obviamente, é um desafio maior do que todos os interesses imediatos de todas as igrejas.

1 - O EXEMPLO DAS IGREJAS DO NOVO TESTAMENTO


As Igrejas do Novo Testamento cooperavam solidariamente umas com as outras:
Na preservação da sua identidade. Havia plena solidariedade para manter no mundo
inteiro, apesar de todas as diferenças de línguas e costumes, uma mesma identidade
espiritual. Na questão do rito da circuncisão (Atos 15), por exemplo, ficam bem
assentados alguns princípios formadores da identidade das igrejas:
Primeiro: A religião cristã tem sua própria identidade, independente do judaísmo-
“porque tentais a Deus pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais
nem nós pudemos suportar?" (Verso 10).
Segundo: Cristo é Senhor sobre todas as raças da terra e, portanto, os padrões éticos
do Cristianismo são universais - “Para que o resto dos homens busque ao Senhor e todos
os gentios, sobre os quais o meu nome é invocado, diz o Senhor que faz todas estas coisas ’’
(verso 17).
Terceiro: O Cristianismo respeita as raízes culturais das nações, ao mesmo tempo em
que expurga de todas as culturas aquilo que elas possuem de nocivo ao ser humano e,
portanto, contrário ao propósito de Deus “E Deus, que conhece os corações, lhes deu
testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós; e não fez diferença
alguma entre eles e nós, purificando os seus corações pela fé" (verso 28).

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No socorro aos necessitados. Não havia uma “Junta de Beneficência”, mas havia
beneficência, Veja em 2Cor 8.1 e 9.13, como as igrejas de diferentes regiões são
exortadas a se unirem no ministério - diakonia, (VR traduz “administração ”) de
socorrer os necessitados da Judéia. Quanto mais uma Igreja se identifica com Cristo,
mais profundamente sente a necessidade de socorrer os que sofrem.
No sustento da obra missionária. Veja em 2Cor 11.8, a indicação clara de que as igrejas
se uniam para sustentar os missionários. A “cooperação no evangelho” era entendida
como a cooperação para que o evangelho pudesse ser disseminado. As igrejas eram
doutrinadas, não somente no seu auto sustento, mas na cooperação umas com as outras,
desde o primeiro momento do seu nascimento (Fp 1.5).

2 - COOPERAÇÃO INSTITUCIONALIZADA
A cooperação entre as igrejas do período apostólico não era institucionalizada de
nenhuma forma. Não havia associações formais, nem convenções, juntas ou ordens de
pastores. Não havia estatutos, regimentos internos, normas de procedimento, auditoria e
tudo o mais que hoje conhecemos. Mas havia cooperação, havia confiança,
responsabilidade mútua pelo cumprimento da missão dada por Jesus. Havia amor. Com
o tempo, a cooperação entre igrejas foi sendo institucionalizada em diversos formatos,
James L. Sulivan sintetiza as formas de cooperação inter-eclesiástica nos seguintes
modelos existentes; igrejas independentes, cooperação não estruturada, cooperação
informal, estrutura hierarquizada, estrutura delegada, estrutura não reconhecida
oficialmente e estrutura de cooperação dirigida e equilibrada. Vejamos como funciona
cada modelo.
IGREJAS INDEPENDENTES
São igrejas que se vêem a si mesmas como denominações e vão se expandindo em outras
congregações ou igrejas sem conceder-lhes autonomia. A Igreja-mãe governa, por
exemplo, do Rio de Janeiro, ou de Curitiba, ou de São Paulo, sob o comando de um
pastor-presidente, bispo ou apóstolo (a nomenclatura varia) as “filiais” de todo o Brasil e
até do exterior. Existem igrejas batistas independentes no Brasil, como em várias partes
do mundo, muitas delas com características pentecostais. As igrejas batistas arroladas
nas convenções preferem multiplicar-se em centenas de igrejas onde cada Igreja atinge,
no seu nível imediato, a população que acerca, ao invés de manterem uma estrutura
centralizada em uma Igreja-mãe, distante social e geograficamente das congregações. As
igrejas com esse tipo de estrutura, dependem do carisma do seu líder, mas também
absorvem as suas idiossincrasias e tendem a morrer junto com eles.
COOPERAÇÃO INFORMAL, NÃO ESTRUTURADA
Esse tipo de cooperação inter-eclesiástica, diz o Dr. Sulivan, dificilmente poderia ser
reconhecido como um corpo organizado. São igrejas que levam a sua autonomia ao
extremo do isolamento, mas chega o momento em que, em certas áreas, precisa haver
algum tipo de cooperação. As atividades inter-eclesiásticas desses grupos devem-se mais
à iniciativa pessoal dos seus membros do que a decisões formais das comunidades.
Citam-se como exemplos, no passado, os “quakers” e hoje, as comunidades jovens
neopentecostais. Não havendo, porém, uma estrutura formal de cooperação, os
resultados tornam-se, obviamente, escassos e esporádicos em termos de expansão

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global, ainda que alguns desses grupos experimentem grande crescimento local, em
especial quando dispõe de uma liderança carismática e criativa. Esses grupos também
não apresentam qualquer consistência em termos de identidade doutrinária. Nos anos
60 houve, entre a juventude evangélica, movimentos contrários às estruturas
convencionais, quando se dizia: “Cristo, sim, Igreja, não” ou “derrubar as placas”
(denominacionais). Havia muitos argumentos em favor da abolição das estruturas,
geralmente referindo-se aos organismos de cooperação como onerosos,
burocratizantes, etc. Aqueles movimentos passaram sem deixar vestígios e as
estruturas de cooperação denominacional continuam a exercer a sua diaconia
como extensão do ministério das igrejas.
ESTRUTURA HIERÁRQUICA
A administração do tipo hierárquico tem demonstrado ser mais eficiente do ponto de
vista da administração financeira, pois as decisões são mais rápidas e dinâmicas.
Algumas denominações pentecostais, administradas por um hierarca exclusivo, estão se
expandindo rapidamente, mas chega o momento em que algumas unidades saem do
controle do seu despotés e elas entram em um processo de pulverização. As igrejas
hierárquicas tradicionais crescem menos, mas conservam maior unidade e demonstram
ser mais sólidas estruturalmente ao longo dos anos.
ESTRUTURA DELEGADA
Um quarto tipo de estrutura de cooperação inter-eclesiástica é a das Igrejas cujos
membros preferem não se envolver pessoalmente em tarefas que consideram tediosas,
como as rotinas administrativas, para poderem dedicar mais tempo a outras que
consideram mais dinâmicas e mais importantes. São as igrejas que delegam a sociedades
autônomas, sem vínculos com nenhuma denominação, a administração das suas
publicações, dos seus seminários, obras missionárias, beneficência, etc. Essas sociedades
não estão subordinadas às igrejas, nem direta, nem indiretamente. Os membros das
igrejas apenas contribuem financeiramente, mas não precisam se preocupar com
aprovação de relatórios, balanços, orçamentos, planos estratégicos, nada disso. Tudo é
terceirizado. Os custos administrativos da estrutura delegada parecem ser menores, mas
o não envolvimento pessoal dos membros das igrejas nas tarefas dos órgãos de
cooperação acaba por reduzir e sufocar o seu interesse e participação, o que reduz à
geração de recursos em proporção maior do que o que é economizado. As contribuições
para as sociedades para-eclesiásticas não concorrem para o crescimento espiritual dos
membros das igrejas. O compromisso do mordomo cristão no sustento da obra na qual
ele está pessoalmente envolvido através riu sua Igreja é um fator de poder no seu
crescimento espiritual. Por via de consequência, os recursos disponíveis para as
atividades - fins e os resultados da obra acabam sendo menores. Basta comparar o
volume de recursos aplicados e os resultados da obra missionária da Convenção Batista
do Sul dos Estados Unidos com o trabalho de sociedades missionárias autônomas onde
igrejas de outros grupos aplicam seus recursos e a contrapartida em termos de
inspiração e incentivo para as igrejas de origem, para perceber que não delegação
significa não envolvimento e resulta em menor participação e menores resultados.
ESTRUTURA NAO OFICIAL
São as sociedades relacionadas apenas indiretamente com as igrejas. Crentes idealistas,
membros de várias igrejas, direcionados para determinados ministérios, unem-se,
62
formam uma sociedade e passam a recolher contribuições, administrar a estrutura e
estender os seus objetivos. Essas entidades ou ministérios não estão formalmente
subordinados às igrejas, seus membros não são eleitos pelas igrejas, não prestam
contas às igrejas e não submetem às igrejas os seus programas de ação. Dependendo do
carisma pessoal da liderança, esses movimentos adquirem um forte impulso inicial, mas
a continuidade desse ministério, uma vez ausente o seu fundador, via de regra entra em
colapso. Estruturas não oficiais tendem a colocar-se acima das igrejas, buscam
recursos de sustento nas igrejas e não subordinam seus planos e relatórios a nenhuma
Igreja.
ESTRUTURA DE COOPERAÇÃO DIRIGIDA E EQUILIBRADA
O sistema de cooperação inter-eclesiástica adotado pelas igrejas da Convenção Batista
Brasileira é o da estrutura dirigida pelas igrejas através dos mensageiros por elas eleitos
em assembléia democrática e que se reúnem em assembléias convencionais
democráticas. A cooperação das igrejas entre si nos níveis distritais (associações),
regionais (convenções estaduais) e nacional não obedece, a nenhuma hierarquia. A
convenção estadual não é uma federação de associações, nem a Convenção Batista
Brasileira é uma confederação de convenções estaduais. São as igrejas que elegem seus
mensageiros diretamente para as associações, para as convenções regionais e para a
CBB. As estruturas de cooperação cumprem ministérios das igrejas nos respectivos
níveis e estão subordinadas às igrejas. Há unidade espiritual, há estreita colaboração
entre as associações, cada uma respeita as áreas de atuação das demais, há perfeito
entrosamento entre as convenções estaduais e a CBB, sem qualquer traço de hierarquia.
Que possamos entender às vantagens desse método democrático e voluntário de
cooperação e continuar com ele.
O segredo dessa unidade tem, pelo menos, três vertentes:
A Bíblia como única regra de fé e prática. Os batistas são conhecidos como uma
denominação que se esforça para estudar e divulgar a Bíblia. Nossa identidade é
fundamentada na Bíblia. Haveria outra base mais sólida do que a Palavra de Deus para
motivar e desenvolver a cooperação cristã?
O espírito missionário. O movimento batista é um grande avivamento missionário na
história da Igreja Cristã. O desafio de ganhar o mundo para Cristo tem sido o mais
poderoso fator para a sustentação da nossa unidade. Haveria outro mais eficaz?
A liberdade como princípio. Esse princípio abrange vários aspectos da nossa realidade
eclesiástico-denominacional. Primeira, a ausência de hierarquia faz do elemento
chamado leigo, a força do movimento batista. Homens e mulheres, jovens e adultos se
sentem comprometidos com Deus e se deixam envolver na obra. Segunda: a ausência de
um poder centralizador favorece a multiplicação de igrejas, ou seja, ás igrejas podem se
expandir em velocidade maior devido à liberdade de se auto reproduzirem. Terceira: A
ausência de uma estrutura de poder pessoal ou oligárquico central permite uma
evolução mais rápida dos métodos operacionais e da linguagem, tanto quanto da liturgia
do culto.
Haja à vista, a aceitação, pelas igrejas, do texto revisado da Bíblia, do Hinário para o
Culto Cristão, dá literatura pedagógica, da informatização. Entendemos que nenhum
método é imutável, que nenhuma palavra é sagrada a não ser a Palavra de Deus, mas

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entendemos também que um método que tem dado certo só deve ser substituído por
outro que seja comprovadamente mais eficaz.
O diagrama a seguir ilustra a relação Igreja/órgãos de cooperação no método escolhido
pelas igrejas batistas, de cooperação dirigida e sustentada. A palavra “mensageiros” foi
preferida a “representantes” porque, na verdade, as pessoas nomeadas pelas igrejas não
têm delegação de poderes para representar as igrejas nem no sentido de ida, falar
em nome da Igreja, assumir compromisso em nome da Igreja, nem no sentido de volta,
obrigar a Igreja a aceitar o que for votado pelo órgão de cooperação. O “mensageiro” é
eleito pela Igreja, mas fala em seu próprio nome, assume compromissos pessoais. Apesar
de não haver subordinação, porém, as igrejas geralmente acatam as decisões dos órgãos
de cooperação, especialmente no que tange a missões, educação religiosa, formação
teológica e ação social. As igrejas entendem que cooperar voluntariamente umas com as
outras através das associações e convenções ajuda a desenvolver o seu trabalho local.

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CAPÍTULO 9 - Disciplina Na Igreja Cristã

1. DEFINIÇÃO DE TERMOS
DISCIPLINA, do latim disciplina, ae, do verbo discere, “ensinar”, cognato de discípulo,
discipular (A. G. Cunha - Dicionário Etimológico).
Núcleo da idéia de disciplina: ‘‘Conjunto de conceitos, métodos didáticos e processos
necessários à formação do discípulo ” (Enciclopédia Mirador, in loc).
DISCIPLINA NO NOVO TESTAMENTO
Termos gregos relacionados com o conceito de disciplina eclesiástica que nos ajudarão a
compreender o seu significado bíblico:
Paideia (Hb 12.5-8) “e já vos esquecestes da exortação (parakleseos) que vos admoesta
(dialegetai) como a filhos: Filho meu, não desprezes a correção (paideias) do Senhor,
nem te desanimes quando por ele és repreendido (elegxomenos), pois o Senhor corrige
(paideuei) ao que ama e açoita (mastigoi) a todo o que recebe por filho. É para disciplina
(paideian) que sofreis; Deus vos trata como filhos; pois qual é o filho a quem o pai não
corrige? (paideuei). Mais, se estais sem disciplina, da qual todos têm se tomado
participantes, então sois bastardos e não filhos" - VR traduz paideia por “correção”. Assim
também ERC, VB e Figueiredo. Já a Bíblia de Jerusalém verte ‘‘educação”. Na mesma
citação de Pv 3.11 (v. 5 da transcrição acima), aparece a palavra “repreensão” -
elegxomenos, também traduzida por "reprovação”, de elegxo - "repreender, acusar,
convencer, envergonhar”. De onde se conclui que paideia se refere ao processo formativo
do caráter e não à disciplina corretiva ou punitiva "É a instrução que tem como alvo o
crescimento na virtude ” (Thayer), cf2Tm 3.16. Originalmente, paideia está relacionada
com a educação da criança -paidion, donde temos pedagogia, pediatria, etc. Veja Ef 6.4,
onde Paulo reforça a idéia de disciplina com a "admoestação do Senhor”. Observe ainda
que em Hb 12.5, a correção e a repreensão fazem parte da exortação (BJ traduz
"consolação”). No verso 6, o autor relaciona paideia com mastiguo, "açoitar, castigar” o
que nos ensina que o açoite do Senhor tem o objetivo de ensinar, fazer crescer, nunca de
destruir, “justiçar”, penitenciar.
Paraklesis - (Hb 4.15; 1Tm 4.13), sempre traduzida por "encorajamento”, "consolação”.
Andar em caminhos retos e planos conforta o coração e encoraja (alenta, veja Kurt
Aland) a prosseguir na caminhada. A disciplina cristã traz consolação e paz, segurança
para a consciência, confiança. Consolação é a ação disciplinadora do Consolador -
Paracletos - em nós.
Orthopodeo - "caminhar direito sobre os próprios pés”, de onde "andar direito”, “proceder
corretamente. ” Em Gl 2.14, Paulo declara que Pedro não estava andando corretamente
diante da verdade do evangelho. O comportamento ambíguo (“dissimulação”) de
Pedro foi um ato de indisciplina. Disciplina cristã é, pois, andar retamente conforme a
verdade do evangelho, sem ambigüidade. A ambiguidade dos pais não encoraja os filhos
a andarem retamente. A ambigüidade do pastor deixa as ovelhas desorientadas. Manter
a disciplina cristã é andar em retidão de vida.
Nouthesia, ação de advertir, mostrar o caminho; advertência, aviso. Em 1Co 10.11, a VR
traduz por "aviso ”. Jesus não é uma placa à beira da estrada indicando a direção. Ele é a
própria estrada e o objetivo da caminhada. Ele é o caminho e nesse caminho - Jesus, os
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cristãos devem andar. Disciplina cristã é andar como Cristo andou. Melhor: é andar em
Cristo. Em Tt 3.10 essa palavra é vertida para "admoestação”. Trata-se de uma
admoestação objetiva, específica, mais do que um discurso genérico.
Epidiorthuo - “Pôr em boa ordem, completar o estabelecimento da ordem, ordenar” (Veja
Tito 1.5): "Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem o que ainda
não o está”. Disciplina também tem o significado de estabelecer e manter a ordem, tanto
no sentido ideológico, quanto institucional. Diorthosis, "reforma, restauração ”,
traduzido em Hb 9.10 pela VR para “correção”, tem a ver com a obra do Messias, ao
estabelecer um “maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, isto é, não
desta criação”, ou seja, uma nova ordem espiritual e eterna, uma “disciplina” celestial na
terra. A disciplina cristã é um estilo de vida na terra, que aproxima o fiel do estilo de vida
do céu.
Taxis - "ordem”, assim traduzida em 1Co 14.40 - “mas faça-se tudo decentemente e com
ordem Fazer tudo decentemente e com ordem, isso é disciplina cristã. A mesma tradução
é dada em Cl 2.5. A Igreja dos colossenses era conhecida pela sua disciplina: "vendo a
vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo. ” Aqui há o conceito de que a disciplina na
Igreja decorre da fé em Cristo. Onde falta disciplina, está faltando fé em Cristo.
Katartizo - "Restaurar com habilidade” (Gl 6.1), termo tomado de empréstimo da
medicina, significa recolocar um membro, osso ou músculo no seu lugar com perícia
profissional, de maneira a não causar maior dano. Paulo acrescenta: "com espírito de
mansidão ”, com delicadeza. Veja W. Barkley in loc. A disciplina cristã não se torna mais
eficaz quando aplicada com violência e brutalidade nos Mills termos. Muito ao contrário!
Freqüentemente ocorre de um crente cometer uma falta trivial e precisar ser advertido.
A admoestação, porém, é feita em termos tão contundentes que causa maior dano do
que a falta cometida. Admoestar com soberba, humilhando o transgressor, é da carne.
Exortar com serenidade, sinceridade e amor, é do Espírito, cada cristão deve ser o
parakletos do seu irmão e a Igreja a, como tal, tem uma importante função terapêutica
no exercício da disciplina exercida no espírito do Consolador.
Elegxis- “trazer à luz, revelar, expor, arguir, reprovar, repreender, corrigir ”, é o
penúltimo estágio da disciplina na Igreja, cf. Mt 18.15. É bom lembrar que, para exortar
um irmão é preciso possuir a autoridade moral de quem fez o máximo ao seu alcance
para ajudá-lo a andar corretamente nos caminhos do Senhor.
Apokopto - “cortar, amputar”.Mc 9.43,45. Em Gl 5.12 VR traduz por “mutilar”. É o último
ato da disciplina na Igreja, a chamada “disciplina cirúrgica”. Paulo recomenda que sejam
“amputados ” os membros que andam inquietando a Igreja. Em nossa linguagem batista,
usamos as expressões excluir do rol de membros (no sul), eliminar (no nordeste) ou
cortar. Ultimamente tem sido usado o termo desligar, talvez pela lembrança de Mateus
16.19, onde desligar (desatar, desamarrar, libertar) traduz o verbo luo. Observe neste
verso os tempos dos verbos: “tudo o que você ligar - deses (aoristo ativo do subjuntivo,
ou seja: tudo o que você vier a ligar)na terra, já terá sido ligado - dedemenon (perfeito
passivo) nos céus', e tudo o que você desligar -luses (aoristo ativo do subjuntivo, ou seja:
tudo o que você vier a desligar) na terra, já terá sido desligado - lelumenon (perfeito
passivo do particípio futuro, ou seja: já terá sido desligado) nos céus” assim muito bem
traduzido por Yeager: “tudo o que você ligar na terra, já terá sido ligado no céu e tudo o
que você desligar na terra, já terá sido desligado no céu” (Yeager, in loc). A disciplina da

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Igreja na terra é resultado, não a causa da disciplina nos céus. Esse texto não favorece
a doutrina da perda da salvação nem confere a Pedro uma autoridade de determinar na
terra os desígnios de Deus no céu. Declara apenas que se uma pessoa não procede como
é digno dos salvos, ligados ao céu pela fé, não deve ter seu nome inscrito entre os salvos
na Igreja na terra. O julgamento quanto à salvação pertence somente a Deus.
No contexto da disciplina cristã incluem-se ainda os conceitos de matheteuo -
“discipular” e de didasko - “ensinar, instruir” (Mt 28.19,20). Os pais não podem exigir dos
filhos nada que não lhes tenham ensinado. Antes de corrigir ou açoitar, eles devem
ensinar seus filhos a proceder corretamente. Essa a missão da Igreja.

2. OBJETIVOS DA DISCIPLINA ECLESIÁSTICA


Instruir o discípulo para que desenvolva o seu caráter de modo a alcançar a plena
maturidade em Cristo, segundo o padrão Jesus. Formar o caráter do educando
conforme o caráter Cristo (Gl 4.19 - "até que Cristo seja formado em vós ”); equipar o
discípulo de Cristo de discernimento e vontade própria para tomar decisões
amadurecidas e agir como cristão. Veja Ef 4.2- "que andeis como é digno da vocação com
que fostes chamados”:Fp 1.9-11 - “que o vosso amor transborde mais e mais em ciência e
em todo o conhecimento, para que aproveis as coisas excelentes, para que sejais sinceros e
sem escândalo algum até o dia de Cristo.
Equipar os salvos espiritualmente para prestarem a Deus a verdadeira adoração, a
adoração no Espírito. Sem disciplina, não há piedade e a liturgia se esgota em si mesma,
não transcende os limites tia “carne” (Veja 1Tm 4.8).
Preservar a identidade característica da Igreja. Os princípios éticos de Jesus são
universais e permanentes. Sem a disciplina eclesiástica, a Igreja se torna apenas mais
uma religião no mundo. “Para nada mais presta ” (Mc 9.50). A Igreja tem elementos de
identidade transcendentes que a tornam relevante no mundo. Sem disciplina, a Igreja
perde a sua identidade e, portanto, a sua relevância.
Capacitar os discípulos para o eficiente desempenho da missão da Igreja na terra (Fp
2.15; 1Tm 4.16). Os objetivos espirituais do Reino não podem ser alcançados com
recursos carnais. Somente discípulos amadurecidos e treinados (disciplinados) no
Espírito podem ser agentes da implantação do Reino de Jesus na terra.
"Traçar claramente a fronteiraentre o poder das trevas e o poder da luz de Cristo na
vida dos discípulos de Jesus” (Harold Songer). A ausência de disciplina deixa os salvos
confusos, andando com “um pé no caminho, outro no mato”. “Se dissermos que temos
comunhão com ele e andarmos em trevas, mentimos" (1 Jo 1.6).
Preparar a Igreja para a volta de Cristo (Veja 2Pe 3.11,12; Mt 24.45-51). A santidade
da Igreja resulta da vigília do amor a Jesus. Toda noiva se prepara para receber o noivo
que vai chegar. A intensidade, o cuidado dessa preparação depende diretamente do
amor que a noiva tem pelo seu noivo. Estará a Igreja preparada para a chegada do seu
noivo?

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3. PRESSUPOSTOS DA DISCIPLINA ECLESIÁSTICA
O direito de Deus.Veja na parábola de Mt 21.33-46 que o senhor da vinha temjus litis,
direito de demanda, sobre os frutos da vide. A Igreja é a vinha do Senhor. Ele tem pleno
direito de exigir os bons frutos da nossa vida.
A preservação da virtude (poder) do evangelho na vida dos discípulos de Jesus resulta
da Graça de Deus e não do esforço humano (Veja Ef 2.8-10). É o Espírito que dá sabor à
Igreja. Salvação é Graça, perseverança é Graça, santificação é Graça, disciplina cristã é
Graça, não imposição estatutária da Igreja.
O testemunho da Verdade.O comportamento ético do cristão na sociedade resulta do
novo nascimento. Não se pode colher figo do espinheiro. Veja em Rm 6.19, o vívido
contraste entre as duas maneiras de viver: antes e depois de tomar-se cristão. Só os
salvos podem praticar a disciplina cristã, obedecer de coração à forma de doutrina a que
são entregues (v. 17) e eles não podem deixar de fazê-lo.
O poder da Palavra. A fonte de autoridade da disciplina eclesiástica é a Palavra de Deus
e nunca os referenciais culturais e tradicionais do contexto social em que a Igreja se
insere. A disciplina eclesiástica é a interpretação da fé transformada em vida. A Igreja
encarna a Palavra e não apenas proclama a Palavra (Cl 3.16). O magistério da Igreja
se fundamenta e se concentra na Palavra.
A autoridade da Igreja. O agente da disciplina eclesiástica é a Igreja, não juntas,
convenções, ordens de pastores ou concílios, ainda que o objeto da disciplina seja um
pastor.
O poder de curar. Para ser uma comunidade terapêutica, a Igreja precisa ser
continuamente submetida ao processo de sua própria santificação. Não aconteça que um
recém curado seja vítima de uma “infeção hospitalar” no ambiente da própria Igreja.
Como assinala o Pr. Manoel Nascimento no livro A FUNÇÃO TERAPÊUTICA DO AMOR,
muitas situações de crise na vida dos cristãos resultam da falta de amor e podem ser
sanadas pelo amor.
A liberdade dos salvos. A disciplina eclesiástica não vulnera a liberdade individual. A
aceitação dos princípios éticos de Jesus é o compromisso explícito da profissão de fé. O
direito do indivíduo não anula o direito da comunidade. “A impiedade não pode ser
considerada como uma ação privativa ” (Russell Shedd). A graça da disciplina cristã
é extensiva a todos os discípulos e não apenas ao ministério formal (1Pe 2.16; 1Co 8.9-
12; 10.32; 11.1).

4. O PROCESSO DA DISCIPLINA ECLESIÁSTICA

DISCIPLINA PREVENTIVA
A Igreja deve ser continuamente instruída nas doutrinas do amor fraternal, do senhorio
de Cristo, da pessoa e ação do Espírito, dos dons espirituais, da santificação, da
suficiência das Escrituras, do discipulado Cristão, da volta de Cristo, visando a ação
preventiva do fortalecimento da fé para a sustentação da sua disciplina.

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Deve-se criar na Igreja um ambiente de perdão e reconciliação pela persistente
proclamação do amor de Cristo. “O exemplo pessoal da liderança, mais do que o ensino
teórico do púlpito, será fundamental" (Shedd). Deve-se ainda desenvolver na Igreja um
espírito de confiança mútua para que os crentes possam buscar ajuda nas horas
de provação, no espírito de Tiago 5.16.
O aconselhamento cristão deve proagir e não apenas remediar situações depois de
consumados os atos de indisciplina. O pastor e a equipe dar tratamento aos problemas
de disciplina sempre que possível, antes que eles causem maiores sofrimentos e danos.
O treinamento constante dos crentes para o eficaz desempenho dos seus dons e talentos
na obra do Senhor será sempre um fator altamente positivo na manutenção de elevados
níveis de desempenho na disciplina. Pesa muito nas estatísticas de exclusões o desânimo
causado pela ociosidade.
DISCIPLINA CORRETIVA
A disciplina corretiva deve ser aplicada com amor. Com misericórdia, no espírito de Gl
6.1, já citado: “ Recuperai (tal pessoa) com toda a perícia, no espírito de mansidão”. O
membro fraturado ou músculo deslocado não pode ficar sem a devida correção, pois isso
fatalmente causaria danos a outros membros, além de trazer sofrimento a todo o corpo.
Não tratada, a lesão pode chegar a ser irreversível. Mas o custo da recuperação pode
ser - muita compaixão e paciência Muitas vezes os casos de disciplina eclesiástica dão
ensejo a sentimentos carnais de vingança, retaliação familiar, partidarismo, sem falar da
complicada engrenagem das projeções dos sentimentos de culpa. Não raro, nós nos
apressamos em punir nos irmãos, as nossas próprias falhas. Quão facilmente nos
esquecemos de que “o fardo do meu irmão é parte do meu fardo”.
O impulso motivador da disciplina corretiva deve ser o desejo de recuperar o membro
faltoso para a alegria da salvação. Quem pecou está em angústia de alma, carecendo de
consolação. Por estranho que pareça, uma pessoa pode praticar (e até simular) a quebra
de um pacto, motivada pelo desejo inconsciente de receber atenção do seu grupo social.

DISCIPLINA CIRÚRGICA - EXCLUSÃO


É um direito da Igreja. Caso a recuperação de um membro faltoso se torne inviável ou
impossível, ou ainda quando toda a ajuda de amor for rejeitada, “considera-o como gentio
e publicano" (Mt 18.15-17).
Exclusão não é disciplina pedagógica ou punitiva, mas um gesto de amor pura com o
membro faltoso e uma ação preventiva em favor da Igreja.
Membros em falta de pecado grave devem ser aconselhados a pedir seu próprio
desligamento da Igreja. No caso de recusa, a Comis-si.li) especial nomeada pela Igreja
deve dar o seu parecer com a indicação mais clara possível dos motivos. Deve haver
prudência e comedimento no registro dos desligamentos, levando em conta que as atas
da Igreja são documentos legais passíveis de serem invocados em processos judiciais.

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CARTA COMPULSÓRIA (Transferência não solicitada, imposta pela Igreja)
Procedimento estranho à eclesiologia bíblica. Revela incompetência da liderança para
resolver problemas disciplinares e transfere os problemas para outras igrejas.
DISCIPLINA ECLESIÁSTICA - E DEPOIS?
O desligamento formal de um membro da Igreja não elimina os vínculos espirituais já
estabelecidos. A Igreja deve manter um fichário de membros desligados e
periodicamente deve comunicar-se com eles, manifestando o seu amor e zelo espiritual.
Se possível, os membros desligados devem receber uma comunicação formal sobre o
fato. A recondução ao rol de membros só deve acontecer depois de cessados os motivos
da exclusão. Não se deve expor um membro excluído a humilhações, que ferem mais à
própria Igreja do que ao membro faltoso. A ovelha fora do aprisco não pertence menos
ao pastor do que as que estão seguras no redil. Jesus é o dono daquela ovelha, ainda que
ela tenha perdido a consciência de lhe pertencer, ainda que esteja ferida, com fraturas
espirituais ou mesmo dilacerada. “Como o pastor livra da boca do leão as duas pernas ou
um pedacinho da orelha, assim serão livrados os filhos de Israel" (Amós 3.12). Esse deve
ser o sentimento da Igreja em relação às ovelhas de Jesus.

5. OBSTÁCULOS À DISCIPLINA ECLESIÁSTICA FATORES INTERNOS


Fatores internos podem dificultar, postergar, ou mesmo obstruir a prática da disciplina
na Igreja. Um desses fatores é a acomodação. Disciplina dá trabalho, especialmente
quando exercida com amor. Outro fator: corporativismo familiar ou partidário dentro da
Igreja. “Espírito de grupo” reunindo famílias, ministérios faixas etárias, grupos sociais
dentro da Igreja podem ser obstáculos à disciplina em todos os seus níveis. Ou ainda,
falsa compaixão. A justiça e a verdade são a base do verdadeiro amor, mas, quando
sentimos que a verdade vai doer, preferimos ter a ilusão de que devemos sacrificar a
verdade em função de um falso amor. O obstáculo mais constante, porém, é o
esfriamento do amor a Cristo e a perda da identidade bíblica da própria Igreja. Quando
os parâmetros do mundo vigem na conduta da Igreja, a prática da disciplina vai se
tomando inversamente proporcional à sua necessidade.
FATORES EXTERNOS
A evolução cultural pressiona a mudança de padrões éticos da Igreja. A Igreja entende
que deve manter os seus princípios bíblicos, mas chega o dia quando princípios e
práticas da Igreja e do mundo começam a se equivaler conceitualmente, esgarçando a
tessitura moral da Igreja. O consumismo, o individualismo hedonista, o anonimato dos
centros urbanos, que resulta em perda da identidade e carência de afirmação dentro dos
grupos sociais (o jovem universitário tende a se identificar com os seus colegas de
faculdade, o profissional cristão é pressionado pelo corporativismo dentro da sua
profissão, etc.) são outros tantos fatores que obstruem a disciplina cristã. Para
neutralizar essas influências secularistas, o caminho é o do avivamento espiritual.

6. RESGATE DOS EXCLUÍDOS


Para a reconciliação dos excluídos, impõe-se sincero arrependimento, o que implica
cessação da prática de quaisquer atos que tenham ocasionado a exclusão ou que tenham
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surgido depois, contrários às doutrinas e práticas da Palavra de Deus. Nos casos em que
os atos praticados pelo eliminado tenham lesado moral ou materialmente algum
membro ou grupo da Igreja, a reconciliação pessoal, mediante o ressarcimento devido
pela injúria ou dano, torna-se indispensável.
No caso de exclusão por ausência, a reconciliação deve ser sempre precedida pela
reintegração na freqüência aos cultos da mesma Igreja ou de outra, nunca o contrário.
Os excluídos por aderirem a igrejas de outras doutrinas devem ser submetidos a um
exame das suas convicções doutrinárias em entrevista com “O Departamento de
Membros” ou com o pastor da Igreja, antes da reconciliação. Não é raro ver pessoas que
foram eliminadas de uma Igreja por adesão a outras doutrinas desejarem voltar à sua
Igreja de origem sem renunciar à bagagem de heresias adquiridas.
Um qualquer das hipóteses acima, a reconciliação deve ser efetuada sem
constrangimentos nem humilhações.

PROCEDIMENTOS FORMAIS
O pedido de reconciliação sempre deve ser feito por escrito, assinado pelo interessado. Â
Igreja pode ter um formulário próprio para esse fim.
A votação da reconciliação deve ser feita por unanimidade, podendo se aceitar para
registro em ata, mediante requerimento por escrito, qualquer declaração de voto
contrário.
Pedidos de carta de transferência de membros excluídos devem ter tratamento
diferenciado conforme as causas da exclusão. Por exemplo:
Se a exclusão foi por ausência, tem sido uma praxe conceder a transferência sem
maiores exigências, podendo-se escrever uma carta ao membro reconciliado,
demonstrando satisfação pelo fato e dando-lhe conselhos para nunca “deixar a sua
(nova) congregação”. Caso o motivo da exclusão tenha sido desvio de conduta moral ou
doutrinária, é conveniente informar à Igreja solicitante e aguardar novo pedido de
reconciliação e carta. No caso de o excluído estar em débito moral ou com a Igreja de
origem, esta tem o dever de amor, em benefício da consciência do interessado, de exigir
a devida reparação antes de considerar o seu pedido de reconciliação.
Normalmente, não se exige a presença do excluído diante da Igreja de origem para
pedir a sua reconciliação, dando-se crédito à Igreja irmã, de que as condições
prévias foram atendidas.
A aceitação, por aclamação, de um membro excluído de outra Igreja da mesma fé e
ordem, é um direito de qualquer Igreja, mas que só deve ser usado em circunstâncias
muito especiais. Uma Igreja não tem o direito de julgar a conduta de outra Igreja, sem,
pelo menos, ouvir as suas razões. A quebra da fraternidade não beneficia nem às igrejas,
nem ao ministério, nem ao membro que solicita ser aceito por aclamação. O tempo
costuma demonstrar que, em sua maioria, as recepções por aclamação foram
precipitadas.
Os reconciliados devem ser recebidos sem preconceitos, com amor, - devem ser tratados
com iguais direitos e responsabilidades como todos os demais membros e devem ter
oportunidade de exercer os seus dons e talentos para que cresçam na Graça de Jesus. Á
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síndrome do irmão mais velho acompanha os crentes que não se identificam com o
amor perdoador do Pai, não se alegram com a alegria do Pai pelo irmão pródigo que
voltou. Ficam até ressentidos, enciumados, do lado de fora do banquete da alegria,
resmungando porque o pródigo resgatado foi recebido com festa. Se uma Igreja fizer
uma “Operação Centésima Ovelha”, visando recuperar seus excluídos e ao final da
campanha, vários eliminados, famílias inteiras, resolverem voltar para o aprisco e
for feita uma “Festa do Resgate”, com direito a bolo e refrigerantes, não vai faltar aquele
membro zeloso que não comparecerá ao banquete. Se lhe perguntarem: “Por que o
irmão (ou irmã) não foi à “Festa do Resgate?”, não será difícil ouvir a resposta: “Estou há
tantos anos na Igreja, nunca fui disciplinado e nunca ninguém fez uma festa para mim...”
Teríamos que explicar-lhe: “Irmão, a festa não foi feita para os pródigos que voltaram,
mas para o Pai que se alegra com a volta deles. O irmão (irmã) perdeu uma linda
oportunidade de se alegrar na alegria do Pai”. O fato de aquele irmão não precisar de
uma festa por voltar já não seria um motivo de grande alegria?
Nada de se ficar “com um pé atrás” em relação ao membro reconciliado, como se ele
fosse tropeçar de novo a qualquer momento. Deus se esquece das nossas transgressões,
mas quão dificilmente nós nos esquecemos das transgressões dos nossos irmãos. E
comum vermos irmãos reconciliados sentirem-se tão discriminados que voltam a entrar
em desânimo. É preciso, contudo, que o processo obedeça ao seu curso natural, pois
também é comum vermos igrejas precipitando-se em entregar cargos a irmãos recém
readmitidos, ainda não readaptados, perdendo-se ambos: o cargo e o irmão!

CAPÍTULO 10 - A Túnica Inconsútil


“...a túnica, porém, tecida de alto a baixo, não tinha costura. Disseram, pois (os soldados)
uns aos outros: Não a rasguemos” (João 19.23,24).
Os carrascos que crucificaram a Jesus não ousaram dividir a sua túnica, toda tecida de
alto a baixo sem costuras, mas muitos cristãos têm dividido, não apenas a túnica, porém
o próprio corpo de Cristo. Aconteceu em Corinto (1 Cor 1.10-13; 3.1 -3). Paulo pergunta:
“Está Crista dividido?” O verbo usado, merizo- dividir em partes, está na forma intensiva
memerizo - repartir, ou seja, considerar uma parte como m‘ fosse o todo, a unidade,
desconsiderando o valor das outras partes. A pergunta de Paulo é retórica e só pode
comportar resposta negativa: absolutamente, Cristo não está dividido. Do mesmo modo
a Igreja, Corpo de Cristo, não pode estar dividida, nem se pode colocar sobre ela uma
túnica de doutrinas de remendos de panos velhos tirados do tecido espiritual do mundo.
Quando nos referimos à Túnica Inconsútil de Jesus, estamos querendo dizer que Jesus
deixou para a sua Igreja uma doutrina totalmente nova, sem retalhos do judaísmo, sem
emendas da filosofia grega, sem enxertos do politeísmo romano. E que hoje devemos
manter a túnica das doutrinas da Igreja de Cristo isenta remendos de doutrinas dos
homens, uma túnica inconsútil. O retrato da Igreja do sonho de Jesus está em Atos 2.44:
“E todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum Literalmente, “estavam
morando perto uns dos outros”, ou “na mesma vizinhança”. Por estarem unidos em
espírito, procuravam estar juntos fisicamente para poderem receber a doutrina dos
apóstolos (v.42), base espiritual da própria unidade; para poderem ver os sinais
operados pelos apóstolos (4.33), demonstração do poder do alto atuando em suas vidas
e para poderem repartir dos seus bens com os necessitados (4.32). Uma Igreja unida,

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não apenas reunida no mesmo lugar, recebe o poder do Espírito. À oração de uma Igreja
unida faz tremer a terra (At 4.31). Uma Igreja unida tem paz, é edificada e se multiplica
(At 9.31), Jesus sonhou com uma Igreja unida na perfeição do seu amor; o seu povo
unido para glorificar a Deus em espírito e para expandir o seu Reino concretamente “até
os confins da terra. ”
Não nos é dado saber o motivo por que Jesus usava uma túnica inconsútil, mas é fácil
entender por que a Igreja deve ser unida. Obviamente, aqui estamos trabalhando o
conceito de Igreja local. Por extensão, porém, a unidade da Igreja deve ser projetada na
unidade espiritual do povo de Deus.

1. FATORES DETERMINANTES DA UNIDADE DA IGREJA


A unidade do Pai. “Ouve, ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor ” (Dt 6.4) O texto
não diz apenas que há um só Deus, mas afirma a unidade da pessoa de Deus.
Literalmente, temos “JHVH NOSSO DEUS JHVH UM". Desde que “há um só Deus”
(1Tm 2.5), em absoluta unidade consigo mesmo, a Igreja deve ser uma unidade perfeita.
A natureza da unidade de Deus deve ser projetada na unidade da Igreja. Cada Igreja
projeta o retrato do Deus a quem serve. A personalidade do homem natural é fracionada
pelo pecado. Dentro de um ser humano existem vontades conflitantes (“carne contra
espírito e espírito contra carne”-Gl 5.17), a ponto de Paulo exclamar, ao falar de suas
próprias ambiguidades: “Miserável homem que sou” (Rm 7.24). Deus, porém, na
perfeição da sua santidade, é um ser em unidade absoluta consigo mesmo, “em quem não
há mudança nem sombra de variação" (Tg 1.17). No homem regenerado, o Espírito Santo
resgata a indivisibilidade do ser (corpo, alma, espírito) à imagem de Deus Pai. Sendo a
Igreja a reunião dos regenerados, sua unidade se impõe pela própria unidade da nova
natureza espiritual dos seus membros, resgatada para a semelhança da natureza de
Deus.
A unidade do Filho. Todos os salvos foram comprados pelo mesmo preço, o sangue de
Jesus, não havendo lugar para diferenças pessoais de valor na Igreja. Haverá um só
rebanho, unido, porque há um só Pastor (Jo 10.16). “Conheço as minhas ovelhas e
das minhas ovelhas sou conhecido ” (v. 14) significa que há uma perfeita unidade de
amor, não mero relacionamento profissional, entre Jesus e a Igreja, assim como há uma
perfeita identidade de amor das ovelhas entre si. Os membros do corpo só podem
comunicar-se através da cabeça. Quando os membros do corpo não estão unidos
entre si, é porque há alguma falha na comunicação entre um ou mais deles e a cabeça.
Ou, para continuar com a figura da relação pastor-rebanho, se as ovelhas não estão
unidas entre si é porque não estão em unidade com o Pastor. Certo pastor de Igreja que
tinha sido pastor de ovelhas conta como as ovelhas que estão longe do pastor se
desentendem e começam a dar marradas umas contra as outras. Resgatar uma ovelha
perdida para a soberania do Pastor é resgatá-la não apenas do perigo e da morte, mas
também para a unidade do rebanho. Daí a alegria no céu por um pecador que se
arrepende, mais do que por 99 justos que não têm de que se arrepender. Que estão
em perfeita unidade no aprisco, Quando Jesus declara “Eu e o Pai somos um ”, está
falando da essência da pessoa divina. Não são duas pessoas que se uniram por um pacto
de conveniência mútua, mas uma única pessoa em harmonia essencial consigo mesma. O
homem Jesus e o Deus Filho estão em absoluta unidade. Assim devem ser tinidos os

73
membros da Igreja ainda que tenham personalidades distintas, antes de mais nada, pela
presença de Cristo em cada um deles. A perfeita unidade de Cristo, cabeça da Igreja, na
essência do seu ser divino-humano, impõe à Igreja uma total unidade, pois toda a
ambiguidade entre a carne e o espírito foi desfeita na cruz do Calvário.
A unidade do Espírito. Os dons espirituais são múltiplos e diferentes, mas juntos,
somados, promovem “a edificação do corpo de Cristo ” porque o Espírito doador é um só
e único. Onde há discórdias, não há operação do Espírito, portanto não há dons
espirituais, ainda que haja talentos naturais. A doutrina de Paulo sobre a diversidade dos
dons sempre destaca a unidade do Corpo de Cristo. O amor que ele descreve em 1
Coríntios 13 não é propriamente um dom, mas é a esfera dentro da qual todos os dons
são efetivados; é o "caminho mais excelente, ” após todos os caminhos percorridos no
capítulo 12, como assinala SiegfriedSchatzmann na sua tese de doutorado A
PAULINE THEOLOGY OF CHARISMATA, No mesmo e único Espírito, através do mesmo e
único Mediador, todos os salvos adoram o mesmo e único Deus.
A unidade do amor. “O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim
como eu vos amei. ” Uma leitura literal de João 15.12 deixa a impressão de que esse é o
único mandamento de Jesus, pela presença do artigo definido na abertura do período.
Seguindo, porém, o raciocínio de Jesus - “Assim como o Pai me amou, eu também vos
amei; permanecei no meu amor’’ (v. 9) e em seguida - “ que vos ameis uns aos outros,
assim como eu vos amei” (v 12), verificamos que esse não é, por certo, o único
mandamento de Jesus aos seus discípulos, mas é a motivação correta de toda a
obediência a todos os mandamentos. O que vem a ser “permanecei”? (gr. meno). Essa é
uma linda palavra que aparece 10 vezes em diferentes formas somente neste capítulo 15
de João. Levei alguns anos para perceber o sentido dessa expressão de Jesus, Pensava
que permanecer no amor de Jesus seria amar a Jesus e receber da sua graça e
misericórdia sobre mim continuamente. Até que entendi que a medida da minha
permanência no amor de Jesus é o amor com que eu amo os meus irmãos, segundo a
compreensão de 1 João 4.12: “se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós e o
seu amor em nós é aperfeiçoado”. Thayer dá várias traduções para meno: “hospedar-se”,
“não sair, continuar presente ativamente”, “continuar a ser, ou seja: não terminar,
durar”, “ficar como alguém é, não se tomar diferente”. Por vivermos em um mundo tão
fugaz como a nuvem que passa, cujos valores morais e espirituais são tão transitórios, o
que dá significado à vida é o sentido da permanência no amor de Cristo por nos
amarmos uns aos outros. Não amar o irmão é tomar nula a Graça. A unidade da Igreja
resulta do amor, testemunha do amor, desenha, em esperança, o amor que reinará
na Glória. Por amor adoramos, por amor ofertamos dos nossos bens, por amor
evangelizamos e exercitamos os dons que o Espírito nos concede; por amor buscamos a
santidade de vida, por amor esperamos a vinda do Noivo, por amor nos unimos na
Ekklesia. O amor está para a Igreja como a alma está para o violino. “Alma” é
um pequeno cilindro de madeira, da espessura de um lápis, que separa U8 paredes do
violino. Um Stradvárius (o mais caro violino) nas mãos de um Paganini (o maior
violinista de todos os tempos), sem alma, não produz melodia. Desafina. Assim a Igreja
onde não haja amor. Pode ser a Igreja mais cheia de dons e talentos da terra, como it
Igreja de Corinto, mas, sem amor, não inspira, não alegra, não produz a melodia que
agrada o coração de Deus.

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A grandeza da tarefa. A responsabilidade pela tarefa da implantação do Reino de Deus
no mundo é maior do que cada uma e do que todas as Igrejas. Somente unida, a Igreja
local alcança os seus objetivos na adoração, na ação social, no magistério da fé, na
evangelização. Somente unidas, as igrejas podem evangelizar o mundo. Não basta
cantar o mesmo hino: é preciso cantar no mesmo diapasão. Sem unidade, não há
adoração. A adoração verdadeira transcende a capacidade individual dos crentes. Não
basta ajudar os pobres. É preciso amá-los como Igreja. Há igrejas que dão comida e
roupas usadas para os pobres, mas não dão amor. Enchem de pão o estômago dos
pobres, mas não enchem de amor o seu coração. Aquecem o corpo, mas não a alma. Não
basta ensinar a Bíblia. É preciso viver seus ensinos. Sem unidade de fé, não há
magistério. Não basta dar o recado evangélico. É preciso o pecador seja constrangido
pelo amor de Cristo, pois não é a lógica da justiça divina que convence o transgressor,
mas é o amor de Cristo que “nos constrange ” - sunexei - “cerca-nos por todos os lados,
obriga-nos ” (2Cor 5.14). Somente unida em amor, pode a Igreja demonstrar o amor de
Cristo e, assim, cumprir sua missão na terra.

2. FATORES QUE CAUSAM DIVISÕES NA IGREJA


Fatores socioeconômicos. Veja em 1Co 11.22 como os ricos depreciavam os pobres.
Aparentemente, os pobres não participavam do banquete, mas apenas da Ceia do
Senhor. Seria o caso de se convidar a Igreja para um banquete em local onde só se
pudesse ir de carro. Os pobres não poderíam comparecer. A elitização pelo critério
econômico divide a Igreja e é fatal para os seus objetivos. Se não existe amor, os ricos se
isolam, achando que os pobres são pobres porque são incompetentes e os pobres
depreciam os ricos na sua espiritualidade. Era o que acontecia em Corinto. Transações
financeiras, empréstimo de dinheiro inclusive, quando os compromissos não são
honrados, resultam em divisão. Na hora de se fechar um negócio vigora a palavra do
crente. Na hora de se dividir o lucro ou o prejuízo, vigora o interesse de cada parte.
Em certa Igreja onde fui convidado a ministrar a Ceia do Senhor, os dois únicos diáconos
estavam em litígio na justiça. Um deles me segredou: “É pastor; temos um porém; a
Igreja só tem dois diáconos: eu e o irmão fulano, mas ele não está em condições de
ministrar a Ceia porque está em conflito na justiça contra outro membro da Igreja.”
Desconfiado, indaguei: “E quem é esse outro irmão?” Ao que ele respondeu: “Sou eu
mesmo”. Na hora da celebração, não convoquei os diáconos. Eu mesmo saí de banco em
banco distribuindo o pão, depois o vinho. Terminado o culto, ainda ecoava o AMÉM da
bênção apostólica, quando as duas famílias correram para mim: “Por que o pastor não
chamou os diáconos?” Expliquei o ocorrido, levei ambos os diáconos para um canto e ali
o Espírito de Deus trabalhou. Os dois diáconos eram consogros. O genro de um deles
havia construído no terreno do sogro. Agora o sogro exigia o imóvel e o pai do rapaz
achava que devia haver uma indenização pelas benfeitorias. O caso estava na justiça. A
Igreja estava dividida. Depois de uma hora de conversa e oração, ambos se abraçaram
em lágrimas. Tive vontade de chamar o povo e celebrar a Ceia outra vez....
Divergências doutrinárias. Por traz do partidarismo nominal (Paulo, Apolo, Cefas,
Cristo), havia uma divisão ideológica, como Paulo deixa entrever em 1Co 3:11 : "Porque
ninguém pode pôr outro fundamento, senão o que foi posto, que é Cristo ”. As divergências
doutrinárias também são fruto da “carne”. Cristãos imaturos deixam-se levar pelos

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modismos teológicos, que Paulo chama de “ventos de doutrina ” (Ef 4.14), assumem
posições radicais e criam cismas na Igreja. "Evangelho Social”, “Morte de Deus”,
“Teologia da Libertação”, “Maldição de Família”, “Dente de Ouro” “Sopro de Poder”,
“Cura interior”, qual será o próximo? Sabendo que muitos cristãos sem base bíblica e
imaturos se deixariam levar pelos remendos de doutrina, Paulo adverte, pelo Espírito:
“Não vos deixeis enganar”. William Barkley diz que "Enquanto Cristo ficar no centro da
vida do indivíduo e da Igreja, a eritheia - ambição pessoal e causa da rivalidade partidária
não poderá sequer começara aparecer; mas quando Cristo é removido do centro e as
ambições políticas de qualquer homem se tornam o centro, certa e inevitavelmente, a
dikostasia, competição pessoal, Invadirá a Igreja e perturbará a paz entre os irmãos”.
Laços familiares. Os vínculos de sangue também costumam causar divisões na Igreja.
Quando famílias se dividem, parente contra parente, ou quando uma família protege da
disciplina eclesiástica um dos seus membros que esteja em pecado, ou ainda quando há
luta das famílias pelo poder na Igreja, a divisão surge e se alastra.
Choque de gerações. Algumas igrejas têm sido divididas pelos conflito entre grupos de
faixas etárias diferentes. Aqui, jovens não aceitam os valores tradicionais e querem
mudar tudo; ali, são os crentes antigos quando aceitam novos referenciais culturais e
não admitem mudar nada. Em geral, os conflitos de gerações são conflitos de
personalidades em luta pulo poder. A Igreja precisa da experiência provada dos mais
antigos, mas precisa também da contextualização que as novas gerações podem trazer.
Por isso ela é a Igreja, a Família de Deus. Numa Igreja onde cada faixa etária ocupa o seu
próprio espaço não sobra espaço para as divisões.
Fatores funcionais. São as divisões provocadas pelos interesses aglutinados nas
diversas áreas de atuação da Igreja. União A versus União B; Departamento C versus
Departamento D, etc. Briga-se por uma data no calendário, pela direção de um evento,
por uma fatia do orçamento, por uma sala ou simplesmente para estar em evidência
e assim, as divisões vão surgindo e criando raízes.
Partidarismo. Aparentemente sem motivo a não ser pelas personalidades em choque,
formam-se partidos movidos por simpatias ou antipatias pessoais. Na maior parte das
vezes, como no caso de Síntique e Evódia, duas colaboradoras elogiadas por Paulo pela
sua aplicação no Evangelho (Fp 4.2,3), cada líder quer o melhor para a Igreja. O
problema surge quando “o meu melhor é melhor do que o teu melhor”. A linha que
separa a discordância como atitude mental da discórdia como atitude emocional é um
passo, muitas vezes um passo bem curto para cristãos imaturos.
No diagnóstico de Paulo, todos os fatores que dividem o corpo dei Cristo são resultado
da carnalidade e da imaturidade espiritual.

3. FATORES QUE PROMOVEM A UNIDADE DA IGREJA


O Poder do Espírito Santo. Quando a Igreja dá liberdade ao Espírito para agir, o Espírito
produz unidade em amor. “Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz
” (Ef 4.3). À medida em que o poder do Espírito cresce em nós e amadurecemos na fé,
vamos percebendo como são mesquinhas as nossas “razões”, como são infundados os
nossos “temores”, como são irrelevantes os nossos “direitos” e como são carnais e
mundanos todos os motivos de divisão na Igreja. Se todos têm a mesma comunhão no

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Espírito e por ele são guiados, todos só podem sentir uma mesma coisa, ser dominados
pelo mesmo amor, impulsionados pelo mesmo ânimo, refletir o mesmo sentimento que
houve em Cristo Jesus, segundo o qual nada se faz na Igreja por contenda ou por
vangloria, mas por humildade (Fp 2.1.5).
O poder da Palavra. Quando uma Igreja é instruída na Palavra, as divisões se tornam
evitáveis e, se surgem, não criam raízes. Quanto mais uma Igreja conhece e vive a Bíblia,
mais se fortalece para resistir às divisões. Dois meninos estavam trocando tapas e
pontapés. Era quase meio dia. O pai já ia tirando o cinto para acabar com a briga, quando
a, mãe, mulher sábia, veio com uma banana para cada um deles. Cada um comeu a sua
fruta e ambos foram brincar juntos. A fome produz conflitos. Em muitas igrejas surgem
conflitos porque os filhos de Deus não estão sendo nutridos com a Palavra.
A visão do mundo perdido. Certa família está tendo acalorada discussão, em altos
brados e ofensas, quando todos ouvem o grito de uma criança que cai do barranco ao
lado da casa. Todos param de discutir e correm para sal var a criança. À medida que a
Igreja ouve, na alma, o clamor do mundo que perece, vai sentindo o impulso para se unir
a fim de socorrê-lo. As divisões dentro da Igreja são causa e resultado da falta de
compaixão pelos pecadores perdidos. Isso acontece quando a adoração deixa de ser um
impulso do amor a Cristo e passa a ser apenas uma rotina litúrgica e quando o
evangelismo deixa de ser o resultado da paixão pelas almas e passa a ser um esforço de
catequese para efeito estático. A exortação de Jesus para que levantemos os nossos
olhos para os campos brancos para a ceifa revela a compaixão de Jesus por nós também
e não somente pelos campos brancos. Levantar os olhos, ampliar a visão significa que à
medida que a pessoa de Jesus se torna real em nossa experiência, passamos a sentir a
sua compaixão pelo pecador perdido e por isso não achamos que seja sacrifício qualquer
ato de renúncia pessoal em favor da unidade do Corpo de Cristo.
O Exemplo da Liderança. O cultivo da piedade resulta na unidade do ser. A submissão à
Palavra e a oração incessante por parte da liderança cortam as emulações e abortam as
divisões. A Igreja sempre segue o exemplo do líder. Daí Paulo recomendar a Timóteo: "Sê
o exemplo dos fiéis” (1Tm 4.12) - literalmente: “torna-te continuamente o modelo dos fiéis.
” A fragmentação da personalidade do pastor entre o que ele ensina e o que vive, ou
entre os seus ideais e a sua realidade pessoal, quando detectada pelo próprio homem de
Deus deve ser submetida à ação santificadora do Espírito Santo para a eliminação de
toda a ambiguidade a fim de que a consistência entre sua palavra e sua vida seja um
fator positivo na construção da unidade da igreja.
O cultivo da esperança. Quanto mais viva estiver na alma da Igreja a sublime esperança
da “herança incorruptível", (1Pe 1.4), mais profunda será a sua unidade. “Graças damos a
Deus... desde que ouvimos falar da vossa fé em Cristo Jesus e do amor que tendes a todos os
santos, por causa da esperança que vos está reservada nos céus” (Cl 1.3-5). “A esperança
da vida eterna produz na Igreja a visão correta das doutrinas e a plena estabilidade do
relacionamento de cada crente com Deus e com o povo de Deus” (G. A. Getz). A
unidade da Igreja na terra será um sinal e uma lembrança profética da unidade dos
salvos na glória. Lembrando Dean M. Kelley: Que tipo de crentes preciso ter na minha
Igreja para que ela seja realmente o corpo indivisível de Cristo? Que tipo de líderes
preciso ter, com que tipo de capacidade e preparo espiritual, para ter os membros da
Igreja unidos como Corpo de Cristo? Que tipo de pastor devo ser e que procedimentos e
atitudes pessoais devo desenvolver e assumir para ter os líderes dos quais eu preciso
77
para conduzir a minha Igreja a uma perfeita unidade em Cristo? Mais uma vez, a
responsabilidade recai, em grande parte, sobre os ombros do pastor. Quanto mais perto
da unidade essencial - corpo, alma e espírito, ele estiver, quanto maior afinidade com o
“Pastor e Bispo das vossas almas” (1Pe 2,25), maior será, certamente, a unidade da Igreja.
Para esse ministério de exemplo pessoal, pergunta Paulo, “quem é idôneo?” Daí a
necessidade de os pastores serem sempre alvo das intercessões da Igreja de Deus.
Todas as finalidades bíblicas da Igreja dependem da sua unidade para terem pleno
desempenho. Adorar! Pode uma Igreja adorar a Deus se estiver dividida? Evangelizar!
Pode uma Igreja fragmentada em partidos e fatias hostis ganhar pecadores para Cristo?
Se uma Igreja quer ter poder para evangelizar, há que buscar sua própria unidade antes,
durante e depois de todo o empreendimento missionário. Educação cristã! Se a Igreja
não estiver unida, a educação cristã será apenas transmissão de conhecimentos e
dissertação acadêmica, mas não terá o poder de formar o caráter dos
educandos conforme o caráter de Cristo. A ação social é uma obra grande demais,
importante demais para não ser causa e resultado da perfeita unidade da Igreja no amor
de Cristo. Christian A. Schwarz fala das oito "marcas de qualidade ” de uma Igreja,
conclusão de uma longa e bem elaborada pesquisa realizada em cerca de 1.000 igrejas
em 32 países. Se aceitamos como válidas essas marcas de qualidade, temos que admitir
que uma Igreja sem unidade não alcança qualquer uma delas. Uma casa dividida contra
si mesma, diz Jesus, não poderá subsistir. Devemos investir na unidade da Igreja.
Nenhum investimento será oneroso demais se resultar na unidade do corpo de Cristo.
Há muitos anos, estava uma velhinha no Largo do Arouche, em São Paulo. Ela se protegia
do frio com uma capa imunda, feita de muitos retalhos de panos diferentes, de cores
diferentes, de desenhos diferentes. Toda enrolada em sua capa de retalhos, a
velhinha parecia estar perdida no tempo, indiferente a tudo o que se passava ao seu
redor. Enquanto a garoa fria da Paulicéia caia sobre a sua cabeça, ela parecia não ter
interesse nem forças para levantar a mão, para alguém lhe atirasse uma moeda. Será
essa a imagem da Igreja que queremos ter, uma Igreja envelhecida, vestindo uma capa
de retalhos de doutrinas e práticas eclesiológicas as mais diversas, alienada,
consumindo-se em seu próprio desalento? Com certeza que não! A Igreja com a qual
cada um de nós sonha é a Igreja do sonho de Jesus. Uma Igreja viva, unida em amor,
relevante no mundo, como aquela Igreja de Atos dos Apóstolos. Deixe o Espírito
trabalhar em para que, santificado de tudo o que é carnal, você possa ser totalmente
unido à Igreja de Jesus no Espírito. Ore a Deus para que aquela Igreja da qual você é
membro seja como a túnica de Jesus: uma túnica inconsútil, sem emendas nem
remendos de doutrinas alheias a sã doutrina uma vez entregue aos salvos.

CAPÍTULO 11 - Igreja E Estado


Igreja e Estado cumprem, na sociedade humana, missões diferentes, não
necessariamente antagônicas ou hostis, antes complementares e interdependentes. A
Igreja precisa do Estado para a sua configuração Jurídica, que torna possível o
ordenamento das suas relações sociais enquanto instituição na terra e o Estado precisa
da Igreja para a sustentação do idealismo moral da sociedade, para a definição dos
princípios éticos que o tornam viável e para o estabelecimento da paz espiritual dos
cidadãos, sem a qual não haverá paz social.

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1. CÉSAR E DEUS
Jesus definiu os limites da convivência entre a Igreja e o Estado quando inundou dar a
César o que é de César e a Deus o que é de Deus. A Igreja não pode substituir o poder
temporal sem mundanizar o sagrado nem o Estado pode tomar o lugar de Deus sem
corromper o espírito. A Palavra de Jesus resume de forma notável aquilo que os filósofos
gregos, especialmente Aristóteles, procuraram equacionar nas relações entre o estado e
a religião. O ser humano não pode prescindir de César, precisa de César para a
manutenção do princípio de direito a fim de que a sociedade não se converta em um
caos. Mas também não pode prescindir de Deus, precisa de Deus para que a sociedade
não se transforme em uma sociedade de brutos. Não se deve dar à Igreja o que é
de César, nem a César o que pertence ao sagrado. Á César cabe receber os impostos para
que se alcance o bem comum, na visão de Aristóteles, (Marciano Vidal - MORAL DE
ATITUDES, Vol. 3 pág. 490). A Deus cabe, com exclusividade, receber adoração. Os
fariseus que interpelaram Jesus estavam dispostos a dar a César o que é de César, ainda
que a contra gosto, mas não estavam dispostos a dar a Deus o que é de Deus: o
reconhecimento da soberania de Deus, revelado na aceitação do Filho de Deus como
Messias e Salvador.
Na idade média, vários autores cristãos trataram do relacionamento entre Igreja e
Estado, especialmente Tomaz e Agostinho, que escreveu, sobre o assunto, o clássico
tratado A CIDADE DE DEUS. Agostinho se refere à Igreja como a cidade celestial em
peregrinação na terra: “A cidade celestial, diz ele, vai chamando cidadãos em todas as
nações e formando de todas as línguas, uma sociedade peregrina. ” Na sua peregrinação
pela terra, a Igreja não pode perder a esperança, a consciência do eterno. Ela não pode
sujeitar-se ao poder temporal nem ser seu vassalo, ainda que lhe deva submissão nas
questões de Estado. Do pensamento agostiniano surge a idéia das duas espadas: a
espada do poder espiritual ao lado da espada do poder temporal. O idealismo cristão
seria alcançado na terra quando o Estado se tomasse cristão, ou seja, quando a paz na
terra estivesse sujeita à paz celestial. “Esta última, diz Agostinho, é a paz verdadeira, a
única digna de o ser e de se chamar paz da criatura racional, a união ordenadíssima e
concordíssima para gozar de Deus e por sua vez em Deus” (Citação de Marciano Vidal,
Opcit). Pode haver e tem havido cristãos verdadeiros que ocupam funções relevantes no
Estado, até mesmo reis, presidentes e imperadores, mas isso não faz um Estado cristão.
Estado cristão de fato só poderá acontecer no reino messiânico. Sempre que
governantes cristãos tentaram impor a fé cristã pela força da espada, a fé cedeu lugar ao
medo, a liberdade de consciência foi subjugada pela tirania. No ano 312, o imperador
romano Constantino tentou usar a Igreja politicamente. Parecia que Roma capitulava
diante da fé cristã. Posteriormente, Juliano tentou destruir a Igreja para implantar uma
religião cultural baseada no helenismo. No século IV o imperador Teodósio tentou
estabelecer um sistema de governo submisso à fé cristã, subsidiando o clero e (ratando
como crime contra o Estado o sacrilégio. Em 380 Teodósio adotou oficialmente a Igreja
como fator de integração social cobrindo-a de privilégios. Começava assim a fusão das
duas espadas: a espada do poder temporal confundida com a do poder eclesiástico. A
religião cristã, imposta como obrigação, sem conversão real a Cristo, resultou nas
heresias que foram migrando das religiões pagãs para a Igreja Cristã, como o culto às
imagens pagãs sob nomenclatura cristã, o politeísmo pagão disfarçado na hagiologia
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cristã, a teofagia pagã transformada no dogma da transubstanciação, o sacerdócio
humano, as superstições pagãs transformadas em artigos de fé, como o poder mágico
das palavras do sacerdote no batismo para apagar pecados e assim por diante, até
que Deus levantou os reformadores para restaurarem a fé cristã na pureza dos seus
termos bíblicos.
João Calvino dedicou todo o capítulo XX da obra AS INSTITUTAS (Livro Quarto, páginas
453 a 484) ao trato das relações entre a Igreja e a política, no qual diz ele, de início, que
“os aduladores dos príncipes, exaltando-lhes desmedidamente o poder, não duvidam opô-lo
à soberania do próprio Deus. ” Mais à frente, ele adverte que “ao constituir homens
mortais que dominem sob diferentes formas, Deus não resignou da sua autoridade
soberana sobre a terra dos homens. ” Da absoluta soberania de Deus, matéria cativa de
Calvino em todas as páginas da sua obra, resulta o comentário sobre 1Co 7.23; “Afim de
que não caiamos em desânimo, Paulo nos encoraja dizendo que fomos comprados por
Cristo por um alto preço - o preço que custou nossa Redenção e por isso não podemos nos
tomar escravos dos poderes perversos e tirânicos dos homens ”. O cristão, como cidadão da
pátria terrena, tem deveres para com o seu país, mas sempre que entrar em conflito o
seu dever cívico com os seus deveres para com Deus, deve permanecer fiel ao seu
Redentor, ainda que isso lhe custe todos os bens e a própria fida Martinho Lutero
sustentava a mesma atitude para o cristão, celebrizada no seu famoso hino Castelo
Forte:
Se temos de perder os filhos, bens, mulher,
Embora a vida vá, por nós Jesus está E dar-nos-á seu Reino.
É interessante notar que, enquanto Agostinho aceita a forma de governo monárquico e
universal tanto para a Igreja como para o Estado, Calvino adota uma posição pluralista,
reconhecendo que o poder secular, como princípio, foi estabelecido por Deus e deve
estar sujeito à soberania de Deus, seja qual for a sua forma.

2. AS IGREJAS BATISTAS E O ESTADO


Tem sido uma característica marcante das igrejas batistas através da história, a defesa
da liberdade de consciência do indivíduo. Liberdade de examinar as Escrituras,
liberdade de crer e adorar a Deus conforme os ditames da sua consciência, liberdade
universal de acesso a Deus sem intermediação humana. Como resultado desse princípio
basilar, os batistas defendem a separação entre a Igreja e o Estado. Reconhecem,
como mandam as Escrituras, o papel do Estado, colaboram com o Estado para melhorar
a qualidade de vida da sociedade, oram pelos governantes, mas não abrem mão do
princípio de separação entre Igreja e Estado. Separação, no caso, que não significa
alienação, isolamento e menos ainda hostilidade, mas também não significa adulação,
subserviência, ou dependência, quer no sentido ideológico, quer no sentido econômico.
O Art. XV da Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira diz textualmente:
“A liberdade religiosa é um dos direitos fundamentais do homem, inerente à sua natureza
moral e espiritual. Por força dessa natureza, a liberdade religiosa não deve sofrer a
ingerência de qualquer poder humano. Cada pessoa tem o direito de cultuar a Deus
segundo os ditames da sua consciência, livre de coações de qualquer espécie. A Igreja e o
Estado devem estar separados por serem diferentes em sua natureza, objetivos e funções.
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E dever do Estado garantir o pleno gozo e o exercício da liberdade religiosa sem
favorecimento a qualquer grupo ou credo. O Estado deve ser leigo e a Igreja livre.
Reconhecendo que o governo do Estado é de ordenação divina para o bem-estar dos
cidadãos e a ordem justa da sociedade, é dever dos crentes orar pelas autoridades, bem
como respeitar as leis e os poderes constituídos, exceto naquilo que se oponha à vontade e
à lei de Deus. ”
À Aliança Batista Mundial, em sua Assembléia realizada no Rio de Janeiro em 1960
publicou a seguinte declaração: “Recomendamos que os programas de obras sociais das
igrejas sejam planejados de forma que representem o amor e a mordomia do povo das
igrejas e que não sejam custeados pelo governo” (Vide John Landers, TEOLOGIA
DOS PRINCÍPIOS BATISTAS, Pág. 122).
A conferência das Nações Unidas sobre Meio Humano, acontecida em Estocolmo em
junho de 1973 incluiu na sua proclamação nada menos do que 26 princípios sobre o
homem e seu relacionamento com o meio ambiente e os recursos naturais da terra. O
princípio primeiro reza: “O homem tem o direito fundamental à liberdade, à Igualdade e
ao desfrute de condições de vida adequadas em um meio de qualidade tal que lhe permita
levar uma vida digna e gozar de um bem-estar, e tem a solene obrigação de proteger
e melhorar o meio para as gerações presentes e futuras. ” (Vide Marciano Vidal, op. cit.).
Na preservação e desenvolvimento das condições ambientais, Igreja e Estado têm
funções que se somam para o bem comum, mas que só serão eficazes na medida em que
o homem for realmente livre, prisioneiro somente da esperança (Zacarias 9.12), o que só
pode ser alcançado pelo poder do Evangelho de Cristo. Se o homem não tiver temor de
Deus, jamais respeitará a criação de Deus. O pecado do homem é a maldição da terra:
“Maldita é a terra por causa de ti ” (Gn 3.17) e por isso só a redenção do homem redimirá
a terra -"toda a criação geme... esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo”
(Rm 8.22,23). Igreja e Estado têm papéis mutuamente complementares na redenção da
criação em favor da qualidade de vida do homem na terra, que a Igreja reconhece ser a
suprema dádiva de Deus ao homem neste mundo. Cabe-nos, como Igreja, participar dos
esforços do Estado em tudo o que for possível, a começar pela educação para a vida,
visando a preservação do já tão ameaçado meio humano. Sem essa parceria Estado e
Igreja, não resta esperança.

3. BASES BÍBLICAS
Os textos disponíveis são claros e abrangentes. Podemos dividir as passagens do Novo
Testamento que trabalham as relações da Igreja com o Estado em duas categorias:
Primeira: textos históricos, que tratam da origem e funcionamento dessas relações;
segunda: textos escatológicos, que se reportam aos tempos de perseguição contra
os cristãos sob Domiciano, situação imediata das igrejas quando João escreveu e que,
teologicamente se projetam na consumação dos séculos, quando Satanás tentará se
apossar de todos os reinos da terra.
PAULO (Romanos 13:1-7, ARC)
1 “Toda a alma esteja sujeita às potestades(exousiais - poderes constituídos) superiores
porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas
por Deus. 2 Por isso quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus; e os que
resistem trarão sobre si mesmos a condenação. 3 Porque os magistrados(arxontes -
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governantes) não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não
temer a potestade? Faze o bem e terás o louvor dela. 4 Porque ela é ministro(diakonos -
servo) de Deus para teu bem. Mas se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada;
porque é ministro de Deus, e vingador para castigar o que faz o mal. 5 Portanto é
necessário que lhe estejais sujeitos, não somente pelo castigo, mas também pela
consciência. 6 Por esta razão também pagais tributos (phorous); porque são ministros de
Deus atendendo sempre a isto mesmo. 7 Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem
tributo(phorous - imposto pessoal), tributo; a quem imposto(telos - imposto sobre
propriedades), imposto, a quem temor, temor; a quem honra, honra ", Não é mencionado
o imposto específico cobrado em muitas cidades para o sustento do culto aos ídolos,
como um tributo a que os cristãos estivessem sujeitos.
PEDRO -1 Pedro 2.11-17
11 Amados, peço-vos como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das
concupiscências carnais que combatem contra a alma; 12 Tendo o vosso viver honesto
(kalén - bom, agradável, aprazível, desejável) entre os gentios (ethnesin - nações,
diferentes culturas); para que naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores,
glorifiquem a Deus no dia da visitação(emeraepiscopes - dia da presença de Deus; a
visita do rei é para pôr as coisas em ordem, pura julgar, premiando o bem e castigando o
mal) pelas boas obras que em vós observem. 13 Sujeitai-vos pois a toda
ordenação (antropinektisei - toda a espécie de ordenação humana, não apenas
à autoridade política, mas também o escravo ao seu senhor, a esposa ao seu marido, os
súditos ao seu rei (vide Theol. Dic. Of The NT, G. Kittel, in loc) por amor ao Senhor: quer
ao rei, como superior; 14 Quer aos governadores como por ele (pelo rei) enviados para
castigo dos malfeitores e para louvor dos que fazem o bem. 15 Porque assim é , vontade de
Deus, que fazendo bem (ágathos ações de boa qualidade), tapeis a boca à ignorância dos
homens loucos; 16 Como livres, e não tendo a liberdade como cobertura da malícia, mas
como serros de Deus. 17 Honrai a todos. Amai a fraternidade. Temei a Deus. Honrai o rei ”
(‘''honrai” não se refere ao pagamento de impostos, mas a estimar no sentido de querer
o bem do rei e reconhecer o seu valor).
Ambos os textos coincidem em vários conceitos: Primeiro: princípio de autoridade foi
estabelecido por Deus. Isso significa que Deus é Soberano e continua a governar o
mundo, mesmo que haja reis e governadores eleitos pelos homens dentro dos mais
diversos sistemas de governo, como interpreta Calvino (Opcit). Segundo: Ainda que o
Estado não seja o “flagelo de Deus” (o flagelo dá terra é o pecado do homem) o Estado
pode ser mensageiro da justiça divina. Ao Estado cabe o direito de julgar os cidadãos
conforme as suas leis e punir àqueles que as infringirem. Terceiro: Em conseqüência, por
obedecer a Deus, o cristão deve obedecer às autoridades constituídas por Deus para o
bem comum. Quarto: Por ser súdito do Reino do Céu, peregrino e estrangeiro neste
mundo, o cristão não está isento de cumprir os seus deveres para com o reino da terra.
Quinto: O bom comportamento do cristão no cumprimento das suas obrigações, não
apenas não transgredindo as leis, mas agindo positivamente em favor da sociedade,
representa uma forma de testemunho da validade dos princípios do Reino de Deus.
A palavra usada por Pedro - kalén significa que os ímpios, ao observarem a conduta dos
cristãos, devem desejar imitá-los. “O melhor argumento em favor do cristianismo,
completa Barkley, é um verdadeiro cristão” (Barkley, in loc). Quando Pedro pede aos
cristãos que se abstenham das cobiças carnais, não está se referindo apenas à
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depravação sexual, mas está abrangendo tudo o que é da matéria, do reino da terra, pois,
como ele já disse (1.4) temos reservada para nós no céu uma herança incorruptível,
incontaminável. Quando ele diz: “naquilo em que falam mal de vós como malfeitores",
certamente está se referindo à recusa dos cristãos de participarem dos costumes
depravados dos gentios, que os gentios consideravam bons costumes, mas que não o
seriam para os cristãos. Aí poderia entrar o culto aos demônios, a prostituição, a recusa
em prestar culto a César conforme a acusação que foi feita a Paulo e Silas em Filipos:
“Estes homens, sendo judeus, perturbam a nossa cidade, e nos expõe costumes que não nos
é lícito receber nem praticar, visto que somos romanos” (At 16.20,21).
As demandas do Kerigma evangélico implicam mudança de costumes que a sociedade
não deseja aceitar, inclusive nas relações do indivíduo com o Estado. Logicamente, cabe
aos cristãos denunciar as injustiças e a corrupção do poder estatal. A aceitação da
autoridade secular como estabelecida por Deus não significa que a Igreja deva aceitar o
pecado dos governantes passivamente. Sirvam-nos os exemplos de João Batista ao
condenar diretamente Herodes por estar vivendo em adultério com a própria cunhada
(Mc 6.17,18), do profeta Natan ao denunciar o pecado de Davi. De igual modo, os cristãos
não estão obrigados a infringir as leis de Deus por causa das leis dos homens. Bastem-
nos os belos exemplos de Daniel e seus amigos no exílio, Esse princípio foi bem
enunciado por Norman L. Geisler nos seguintes termos; “a pessoa sempre deve obedecer
ao governo quando este assume a sua posição apropriada debaixo de Deus, mas nunca
deve obedecer ao governo quando este toma o lugar de Deus’’ (ÉTICA CRISTÃ, pág. 160).
Os textos bíblicos acima citados nos levam um pouco mais além. O Discipulado cristão
não se limita aos aspectos da vida espiritual piedosa 0 santa mas deve abranger a
atuação do discípulo de Cristo em todas as esferas da vida social. “Uma espiritualidade
sem discipulado nos aspectos cotidianos da vida social, econômica e política é só
religiosidade, mas não Cristianismo ” declara Samuel Escobar na sua tese em Lausanne. É
parte inalienável da missão da Igreja na terra preparar homens e mulheres para
exercerem a mais profunda influência possível na sociedade para nela implantar os
princípios da verdade eterna do Evangelho, Estarão os profissionais cristãos conscientes
da sua missão na levedura da massa na política, nos sindicatos, no magistério secular, na
administração pública, onde Deus os colocar?
JOÃO - Apocalipse, capítulos 13 a 19
No Apocalipse, a visão das relações entre a Igreja e o Estado sofre a pressão da situação
de angústia que a Igreja vive sob o poder cruel e despótico de Domiciano. O poder estatal
é atribuído totalmente a Satanás, em guerra contra o Cordeiro e contra os santos. Não há
contradição entre Paulo/Pedro e João. Para o prof. Marciano Vidal (Opcit pág.
464), “Romanos 13 e Apocalipse 13 não são duas imagens irreconciliáveis, mas o inverso
e o reverso de uma mesma moeda, que já desde o começo tem seu valor fixo na
concepção histórico-soteriológica do Novo Testamento ou, se quisermos variar a
imagem: aquela moeda conserva o seu valor enquanto Deus a aceitar em pagamento;
mas converte-se em falsa moeda diabólica, tão logo como a imagem do soberano,
gravada nela, se transforma em ídolo de uma potência hostil que pretende destronar
Deus”. Ou seja: enquanto César aceita o seu papel temporal, não há conflito entre o
poder temporal e o poder espiritual. No, momento em que o Estado pretende assumir o
lugar de Deus, o conflito está armado e o Apocalipse se ocupa em mostrar de que lado
está a vitória. Quando César não se conforma com apenas um lado da moeda e
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quer figurar de ambos os lados, não deixando lugar para o que é de Deus, assume
infalivelmente o lugar do Anticristo.
O século XX assistiu duas vezes, pelo menos, esse mesmo filme, tendo como
protagonistas o Comunismo ateu e depois o nazi-fascismo aliado ao “divino” Hiroito. Na
outra página desse cordel diabólico está, sem dúvida, o capitalismo selvagem com os
devastadores efeitos perversos da economia mundial. O Anticristo do final dos tempos
será um poder satânico, talvez pessoal, tal vez corporativo, que concentrará em suas
mãos poderes não imaginados para perseguir a Igreja e tentar varrer os cristãos da face
da terra. Mas, ALELUIA! João e todos os salvos já sabem de quem será a vitória final:
“Salvação e glória e honra pertencem ao Senhor nosso Deus; porque verdadeiros e justos
são os seus juízos, pois julgou a grande prostituta que havia corrompido a terra com a sua
prostituição e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos... Aleluia, pois já o Senhor o
todo poderoso reina. Regozijemo-nos e alegremo-nos e demos-lhe glória ” (Apoc 19:1,2,7).

4. UM MINISTÉRIO DESPREZADO
Orar pelos governantes! “Admoesto-te pois, antes de tudo, que se façam deprecações,
orações, intercessões, e ações de graças por todos os homens; pelos reis, e por todos os que
estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e
honestidade” (1Tm 2.1-3). A admoestação de Paulo está lastreada em inúmeras
proposições e exemplos bíblicos, Há exemplos notáveis de transformações sociais
operadas por Deus em resposta às orações do seu povo. Deus agiu em resposta às
orações de Mardoqueu, de Ester e dos judeus, mudou a atitude do rei Assuero,
transtornou os ímpetos assassinos do poderoso general Hamã e alterou o curso
da história do povo judeu. Enquanto a Igreja de Jerusalém orava, um anjo libertou Pedro
da Prisão! (Atos 12.5,6). Voltando ao VT, temos Jeremias escrevendo uma carta aos
cativos de Babilônia, na qual ele diz: “E procurai a paz da cidade para onde vos fiz
transportar, e orai por ala ao Senhor; porque na sua paz vós tereis paz” (Jr 29.7).
Mesmo exilados em terra estranha, mesmo oprimidos, os judeus deviam orar pela
Babilônia.
A oração intercessória de Abraão em favor de Sodoma tem sido largamente usada como
exemplo de ousadia em pedir pela cidade. Robert C. Linthicum, no livro CIDADE DE
DEUS, CIDADE DE SATANÁS (Pág, 126ss) faz um interessante comentário sobre a oração
de Abraão. Citando vários autores, diz que a leitura de Gênesis 18.22 seria ‘‘O Senhor
ficou ainda em pé diante da face de Abraão” ao invés de “E Abraão ficou ainda em pé
diante da face do Senhor”, A diferença está no fato de que era Deus que estava
interessado em salvar Sodoma, era Deus que estava procurando alguém que
intercedesse pela cidade com fé suficiente para mudar o veredicto de destruição.
Linthicum sugere a seguinte versão para o famoso diálogo: “Era como Deus estivesse
dizendo ao patriarca: Eu ouço as súplicas do meu povo. Vá em frente, Abraão, peça-me!
Peça-me para salvar Sodoma por cinqüenta pessoas justas e eu o farei. Abraão pede com
fé, Deus garante. Vá adiante, peça-me por quarenta... peça-me por trinta... peça-me por
vinte!” Seja qual for a tradução correta do texto, a verdade é que Deus estava mais
interessado em perdoar, poupar, transformar Sodoma, como séculos depois salvou
Nínive, do que Abraão e depois Jonas em pedir por aquelas cidades. “Vá adiante, homem,
peça-me! Eu quero perdoar; eu quero adiar o julgamento. Além do seu pedido dez
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pessoas, Abraão não pode ir. Foi assim que a negociação acabou. Não porque faltasse a
Deus misericórdia, mas porque Abraão não possuiu ousadia maior”. Podemos estranhar
e até não concordar com a visão de Linthicum, mas não podemos deixar de aceitar a sua
conclusão, de contundente atualidade: “Este é o apelo de Deus enquanto está em pé
diante de nós, que pleiteia pela cidade. Somos chamados por Deus para sermos sua
comunidade tanto para o antegozo do reino quanto sua presença atual. Tudo o que a
cidade virá a saber sobre o reino de Deus, ela saberá através da vida que juntos
levarmos, através do nosso testemunho, e do nosso comprometimento com os
destemidos, machucados e pobres da cidade! Vá adiante, homem, peça-me! Vá
adiante, vá mulher, peça-me pela cidade! Teremos ousadia suficiente para pedir a Deus
pela nossa cidade, a ousadia de estar na cidade, de proclamar, de trabalhar por justiça,
naquilo que Deus quer que a Igreja venha a ser? Estamos nós desejosos de ser a
encarnação do Reino de Deus em nossa cidade? Vá adiante, Igreja, peça-me! ”

CONCLUSÕES PRÁTICAS
Hoje, aqui no Brasil, como traduzir em termos práticos o relacionamento das igrejas com
o Estado dentro do tempo tido por muitos como a pós-modernidade, um tempo de
rápidas transformações sociais e inexorável globalização?
Em primeiro lugar, como já ficou dito, as igrejas devem orar pelos governantes. No
entender deste autor, as igrejas devem orar com fervor em todos os seus cultos pelas
autoridades nas esferas dos três poderes nas áreas federal, estadual e municipal.
Quando a Igreja ora pelos governantes, antes mesmo de a resposta chegar e Deus mudar
o curso dos acontecimentos, a igreja já está sendo abençoada por colocar o reino da
terra na dependência do reino celestial no seu próprio conceito.
Ao mesmo tempo em que ora pelos governantes, a Igreja deve cumprir a sua missão na
evangelização do país, do estado, da cidade e do seu bairro, discipulando homens e
mulheres para viverem em santidade de vida e para darem prova da sua fé em todas as
esferas da vida na sociedade.
Cada Igreja, ao ser organizada, deve imediatamente registrar os seus estatutos no
cartório e se tornar pessoa jurídica, não importa o tamanho da Igreja a existência de
propriedades, o número de funcionários remunerados. A Igreja que não é pessoa
jurídica não pode reclamar seus direitos, mas não se torna isenta das suas
responsabilidades sociais. No caso de registro de empregados, por exemplo, a ausência
da figuração da Igreja como pessoa jurídica será agravante em qualquer
demanda trabalhista. Veja o que diz o Dr. Genésio Pereira no livro IGREJA PESSOA
JURÍDICA. Não há qualquer contradição doutrinária entre o ministério espiritual da
Igreja e a sua existência de direito. A Igreja não se torna servil ao poder público por ser
pessoa jurídica.
A Igreja deve manter em dia a sua inscrição no CGC. Ela é imune tributação por direito
constitucional, mas não é isenta de apresentar a declaração anual de rendimentos pagos,
uma vez que várias pessoas que dela recebem pagamento não são isentas como pessoas
físicas ou jurídicas. Para que a Igreja possa reivindicar o que é de Deus, deve ser fiel em
colaborar para que os cidadãos entreguem a César o que é de César.

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A Igreja deve cumprir fielmente as suas obrigações sociais em relação fios seus
assalariados, quer permanentes, quer eventuais. O recolhimento dos benefícios e
contribuições sociais é um direito do trabalhador. Há uma legislação específica que
isenta o ministério da contribuição na condição de assalariado, mas todos os demais
empregados da Igreja, inclusive das construções, devem ter seus direitos, e de suas
famílias, respeitados pela Igreja. Quando uma Igreja faz uma obra clandestina, sem
registrar os empregados, está desmentindo, na prática, a sua pregação de justiça. Mais
uma vez temos que declarar que não há princípio doutrinário bíblico que justifique a
sonegação das contribuições sociais por parte das igrejas.
A Igreja deve obedecer todas as posturas municipais nas suas edificações. As leis são
feitas para proteger os cidadãos, não somente os membros da Igreja, mas o público em
geral. Desrespeitar as Leis é colocar em risco os frequentadores dos cultos e isso, além
de ser uma imprudência, é um mau testemunho. Quando a Igreja cumpre rigorosamente
as suas obrigações legais está exercendo uma eficiente pedagogia social. O inverso
também é vero! Cada Igreja deve ter uma assessoria jurídica, seja própria, seja
conveniada, para que todos os seus atos jurídicos sejam assentados dentro das leis. A
Igreja é uma sociedade civilmente responsável, estável, séria, não é um ajuntamento
clandestino e inconsequente. Que conceito desejamos que os membros façam da sua
própria Igreja como instituição?

5. SUBVENÇÕES: SIM OU NÃO?


Devem as igrejas batistas aceitar doações ou subvenções do Governo?
A supressão da linha demarcatória entre Igreja e Estado sempre tem significado a
secularização do eterno, a mundanização do sagrado. Quando uma Igreja pleiteia ou
aceita subvenção do Governo para formar o seu patrimônio ou sustentar suas atividades,
ela está desfocando o alvo da sua esperança. Ou seja, está radicando sua esperança na
terra dos homens e não na glória do céu. Está reduzindo a visão do significado espiritual
dos bens terrenos a uma visão material do significado dos valores espirituais. Está
colocando o Reino de Deus na dependência do reino dos homens. Está pretendendo
alcançar o que é de Deus com o que é de César. O dano para o fervor do espírito tem sido
um alto preço pago pela dependência da carne.
Não é somente para evitar a intromissão do Estado nos assuntos internos da Igreja, com
reflexo na própria fé, nem pelo motivo de que no passado as igrejas batistas foram
tenazmente perseguidas pela espada de César a serviço da “espada de Deus”, que as
igrejas batistas devem continuar defendendo a separação entre Igreja e Estado, o que
equivale a dizer: recusando favores, doações ou subvenções do Governo. No entender
deste autor, há uma razão bem mais ponderável: o entendimento de que a fidelidade dos
crentes na mordomia cristã é um poderoso fator do seu crescimento espiritual como
indivíduos e de consolidação da identidade da Igreja com os princípios do Novo
Testamento. A formação do patrimônio da Igreja e o sustento das suas atividades,
inclusive na esfera da beneficência, devem provir dos dízimos e oferta: designadas dos
seus membros porque é através do desprendimento dos bens materiais que os crentes
crescem na Graça. Jesus diz: "onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso
coração” (Mt 6.21). O coração segue o tesouro. É da natureza humana. O tesouro
custou tempo e suor, custou vida. É lógico que o coração o acompanhe. Quanto mais do
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seu tesouro estiver na Igreja, tanto mais estará na Igreja o seu coração. Aliás, sempre que
a Igreja busca fontes alternativas para o sou sustento fora dos dízimos e ofertas dos seus
membros, está desestimulando o impulso de amor no coração do povo de Deus e
o testemunho da sua fé. A idéia de pleitear junto à Receita Federal o abatimento das
contribuições para a Igreja do imposto de renda, não é mais do que dar a Deus o que é de
César, que resultará em dar a César o que é de Deus. Os impostos são de César, para o
sustento do poder secular. São obrigatórios. Sonegá-los é crime. Os dízimos são
voluntários, dados por amor, com alegria no coração, para o sustento e a expansão do
Reino de Jesus no mundo.
Há países onde cada cidadão, ao recolher o seu imposto de renda, declara no formulário
a Igreja a que pertence. Parte daquele imposto é, então, entregue àquela Igreja para a
consecução dos seus fins. Esses estados e essas igrejas entendem que essa parceria traz
benefícios mútuos para a Igreja e para o Governo. Entendem que a Igreja cumpre
um papel social como coadjuvante do Estado, sendo natural que o Estado arrecade
fundos para a Igreja. O que pode parecer uma idéia luminosa para prover o sustento do
culto e da obra social da Igreja é, no entanto, um fator de secularização da visão social da
Igreja. A Igreja vê o social do ponto de vista de Deus. O Estado vê o social do ponto de
vista político e ideológico. Na visão secularista, a fé é destituída de transcendência, perde
o seu significado de céu e passa a valorizar-se pela terra.
Tão danoso para a fé é ser a Igreja subsidiada pelo Governo quanto serem os dízimos
entregues às igrejas sujeitos a cobrança de impostos, como várias vezes já sugeriram
políticos que malgastam os recursos do Governo e por isso querem enfiar a mão no cofre
das ofertas igrejas. Se todos os cidadãos e empresas recolherem seus impostos, e se os
impostos arrecadados forem administrados com probidade, os governos federal,
estadual e municipal terão recursos suficientes e mais para bem cumprirem as suas
funções. Não precisam pôr o olho de cobiça nos recursos e no patrimônio das igrejas,
sobre os quais Deus é o legislador soberano. Países onde se implantaram regimes de
governo ateísta que confiscaram os bens das igrejas, ficaram sem a sustentação moral da
religião. Suas fontes cedo se esgotaram. Esses regimes passaram e as igrejas ressurgiram
com maior vigor. Fique César com o que é de César. Fique a Igreja com o que é de Deus.
O Estado sempre tende a cobrar mais e mais impostos, considerados pesados em muitos
países, além da conta do que os cidadãos podem suportar. Isso não é novidade. Já vimos
isso com o filho de Salomão. Associar os dízimos que são entregues por amor,
voluntariamente, com os impostos pagos por imposição legal, acaba corrompendo a
idéia da generosidade na contribuição, que é fator essencial para o
crescimento espiritual do povo de Deus.
A isenção de impostos, por outro lado, não configura uma subvenção do poder público à
Igreja. Trata-se de um direito constitucional, que, por sinal, preserva o princípio de
separação entre Igreja e Estado. Nenhum cidadão pode ser obrigado, através dos seus
impostos, a contribuir para uma Igreja que não seja a sua Igreja. A liberdade de
consciência estaria sendo ultrajada. De igual modo, o que os membros de uma Igreja
oferecem para a propagação e consolidação dos valores espirituais nos quais acreditam,
não pode ser apropriado parcialmente pelo Estado sem dano grave à liberdade de fé.
Deus criou o princípio da autoridade secular para o bem comum, como ensinam Paulo e
Pedro, pois a sociedade humana precisa de ordem e paz. Assim como não cabe à Igreja
agir como se fosse o poder temporal, também não cabe ao Estado agir como se
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dono fosse até da alma dos seus cidadãos, imiscuindo-se em questões de fé, “Dai, pois a
César o que é de César e a Deus o que é de Deus” ordena o Senhor. O que é de César? A
cara, a face da moeda onde está cunhada a imagem de César. A outra face, o valor,
pertence a Deus. Sem Deus, César nada vale. Deus é soberano, como cantamos e aqui
é bom lembrar, sobre a terra, sobre o céu, ele é absoluto. Como igrejas de Jesus,
honremos nossa cidadania da terra como parte do nosso compromisso com a nossa
cidadania celestial e oremos com os lábios, com a alma e coração: Venha o teu reino, seja
feita a tua vontade assim na torra como no céu”.

APÊNDICE - A Natureza Missionária Da Igreja

1. A DOUTRINA BÍBLICA DE MISSÕES A FONTE DE MISSÕES É O AMOR DE DEUS.


Deus ama a todos os seres humanos, de todas as raças, línguas e nações, culturas e
sistemas políticos, sem qualquer discriminação. Tt 2.11; 1Tm 2.3,4. Missões é o amor de
Deus em ação no mundo. Jesus Cristo não é apenas o agente da reconciliação, mas a sua
causa e objetivo, “autor e consumador da fé” (Hb 12.2). Deus ama os pecadores e quer
salvá-los por causa do seu amor pelo seu Filho, por meio de quem e para quem todos
foram criados. Leia Cl 1.13-20; João 14.21. A encarnação, a humilhação e a morte de
Jesus Cristo na cruz nos dão o modelo da tarefa missionária da Igreja, ao mesmo tempo
em que nos mostram a importância de missões no coração de Deus. Missões é
importante para Deus porque, através de Missões, a morte expiatória do seu Filho
amado na cruz do calvário será conhecida e ele será aceito em todas as nações da terra.
O Espírito Santo é o poder do amor de Deus, princípio gerador de missões. At 1:8. É o
Espírito Santo que dá impulso à obra de missões. At 13.2-4.
O FUNDAMENTO D A AUTORIDADE DE MISSÕES É A SOBERANIA DE DEUS
Deus é o Criador do universo físico, de todas as leis que o governam, tanto quanto do
universo espiritual. Deus governa o mundo em todas as suas dimensões. At 17.24,25. Os
ímpios desafiam a soberania de Deus e se recusam a dar a Deus o tributo da sua
obediência, mas pela vitória de Cristo na cruz e pelo poder do Espírito Santo, os
missionários enviados por Deus realizam a obra de missões a fim de resgatar o
mundo do domínio de Satanás. Cl 2.13-15; Lc 10.18,19; Ef. 6.12. Os missionários não são
invasores da propriedade alheia, mas emissários da Justiça de Deus, a fim de restituir a
posse e uso da propriedade de Deus, o coração dos homens, usurpada pelo diabo. 1 Jo
3:8. O Senhor da vinha continua na plenitude dos seus direitos e nem mesmo o
assassinato do seu Filho ameaça a sua soberania. Mt 21.33-45.
O PADRÃO DE MISSÕES É A SANTIDADE DE DEUS
Deus é santo na perfeição do seu caráter, na beleza suprema das suas obras e na justiça
absoluta do seu juízo. Ap 16.7. Todos os seres celestiais adoram a Deus em santidade. Is
6.3. Deus é santo e digno de ser adorado. Toda a humanidade necessita adorá-lo (Sal.
113.3,4), mas a santidade de Deus não convive com o pecado. Deus quer derrubar a
barreira do pecado para poder ter comunhão com o ser humano. Missões é a busca dos
pecadores perdidos para serem salvos e transformados em adoradores, que adorem a
Deus em espírito e em verdade. Jo 4.23,24. Missões é uma obra santa, para um Deus

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santo. Decorre desse princípio que os métodos missionários devem ser santos. A
motivação para missões deve ser santa:
a. Na resposta ao chamado divino sem vangloria nem emulação carnal.
b. No levantamento e aplicação dos recursos para o sustento de missões.
c. Na administração da obra missionária e na propaganda de missões. A santidade de
Deus será o padrão e a glória de Deus será o objetivo supremo de todo o esforço
missionário.

2. A URGÊNCIA DE MISSÕES
A UNIVERSALIDADE DO PECADO
Todos os seres humanos são pecadores, separados de Deus por causa do pecado,
condenados à miséria eterna (inferno), sem distinção de raça, língua, estágio cultural ou
econômico. Rm. 3.10,23; 6.23. Tenham ou não consciência da sua culpa, todos os seres
humanos são culpados diante de Deus (Rm. 1.20; 2.12) e só poderão ser remidos pelo
sangue de Jesus para poderem comparecer sem culpa perante o tribunal de Deus.
A SINGULARIDADE DO MEIO DE SALVAÇÃO
Não pode haver outro meio de salvação para a alma humana a não ser Jesus Cristo
crucificado. At 4.12; 1Tm 2.5; João 14.6. Desde Abel, todos os seres humanos foram
aceitos (salvos) pela fé no Salvador prometido (Gn 3.25), Jesus Cristo. Hb 11.4,39,40.
Todos os seres humanos, em todas as nações, necessitam de um Redentor. A esperança
messiânica não é exclusividade nem criação dos judeus, mas uma aspiração universal.
A promessa de salvação é para todas as nações da terra. Todos os seres humanos, em
todas as culturas, têm um vazio interior que os induz à busca tio transcendente, e que só
encontra resposta em Jesus Cristo. Ag 2.7; Is 60:3; Lc. 2:30-32. Fazer missões é ir ao
encontro da mais profunda e universal das necessidades do ser humano com a única
resposta: Jesus.
A URGÊNCIA DA PROCLAMAÇÃO DO EVANGELHO
A única possibilidade de salvação para a alma humana é nesta vida, aqui. Á partida deste
mundo fecha inexoravelmente a oportunidade de salvação, Hb 9:27. Por isso, é
imprescindível levar as boas novas de salvação a toda a criatura em todo o mundo. Mc
16.15; Mt 28:19; Lc 24.47. O ser humano não pode alcançar a salvação da sua alma por
sua própria capacidade, pois sua natureza pervertida o impede de se arrepender e crer
em Cristo por si mesmo. Rm 8:3. Deixado à sua própria sorte, o homem vai de mal a pior.
2Tm 3.13. Missões é o método deixado por Jesus para levar a toda a criatura, em todo o
mundo, o conhecimento da salvação. Rm 10.13-15.

3. A UNIVERSALIDADE DO COMPROMISSO MISSIONÁRIO


TODOS OS CRISTÃOS SÃO AGENTES DA GRAÇA DA SALVAÇÃO
Testemunhar da salvação em Cristo é imperativo para toda a pessoa que é salva: Pelo
impacto dessa experiência na sua própria vida. (At 4.19; 1Co. 9.16), pela unção e atuação
do Espírito Santo, à semelhança do que ocorreu com Jesus (Lc 4:18), pela obediência ao
expresso mandado do Senhor Jesus. Mc 16.15. O propósito de Deus é alcançar cada
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ser humano onde cada ser humano esteja através de missões. Lc 19.10. Cada crente
prestará contas da sua responsabilidade a Deus. Ez. 3.18.
TODAS AS IGREJAS SÃO RESPONSÁVEIS PELA OBRA DE MISSÕES
Toda a Igreja, por ser a comunidade dos salvos, não importa o tempo de sua existência,
nem o seu tamanho, nem a sua localização geográfica, nem o nível econômico dos seus
membros, é responsável pela proclamação do Evangelho no mundo inteiro. Mateus
28:16-20; Ef. 3:9,10. A missão da Igreja é ser canal, não apenas alvo do amor de Deus.
Cada Igreja deve permitir que o Espírito Santo a santifique na Palavra de Deus (João
17:17) para poder sentir o clamor do mundo perdido e o imperativo de missões. Toda a
associação ou convenção de igrejas deve ser compreendida como órgão de cooperação
para viabilizar a responsabilidade missionária das igrejas. Em se tratando de igrejas
batistas, esse compromisso é crucial, em vista dos fundamentos básicos da fé
neotestamentária defendida pelos batistas, baseados nos princípios da liberdade e
responsabilidade de cada indivíduo perante Deus, do sacerdócio universal dos salvos,
indissoluvelmente ligados entre si e que se traduzem, em termos práticos, por missões e
cooperação.

4. METODOLOGIA MISSIONÁRIA DA IGREJA


A IGREJA É ORIGEM, BASE DE SUSTENTO E PRODUTO DE MISSÕES
“A Igreja é a única agência criada por Deus para implantar o seu Reino na terra” (H. A.
Snyder). A Igreja é a dimensão locai, visível e imanente, do Reino de Deus, universal,
invisível e transcendente. A Igreja é insubstituível como origem dos missionários,
como base do sustento de missões, e também como fruto de missões (Ef 3.10).
Evangelizar é, essencialmente, multiplicar igrejas At 9.31. A base para o sustento de
missões é a Igreja porque os missionários partem de igrejas para implantar igrejas e vão
reproduzir nas novas igrejas a natureza neotestamentária das igrejas de origem. Todos
os crentes devem contribuir para missões através da sua Igreja. A Igreja é insubstituível
como método de canalização dos recursos para o sustento de missões porque:
a. O sustento missionário pela Igreja local mantém o vínculo de amor entre as igrejas de
origem e as igrejas nos campos até que estas se auto sustentem e se auto reproduzam
como novas, autônomas e amadurecidas agências de missões.
b. Esse método assegura a continuidade do sustento missionário, mesmo com
alternância na liderança das igrejas de origem e dos órgãos de cooperação.
c. Provê a substituição de missionários, quando necessário, para que não haja
descontinuidade na obra.
d. Vincula a obra missionária com a natureza cooperativa da Igreja. As associações e
convenções de igrejas devem ser abertas e criativas a nível nacional e internacional,
visando atingir a unificação de esforços na otimização de todos os recursos humanos e
econômicos disponíveis, tais como: centros de treinamento, dados
estatísticos, elementos técnicos, fixação de prioridades, literatura, câmbio, transporte de
obreiros e outros.

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O MISSIONÁRIO É O INSTRUMENTO DA IGREJA PARA FAZER MISSÕES
Os missionários são os agentes das igrejas ungidos pelo Espírito Santo (Atos 13:2-4)
para fazerem a obra missionária, encarnando o amor de Deus junto aos povos a serem
alcançados, sejam estes da mesma cultura ou de outra diferente, estejam próximos ou
distantes geográfica... (falta um parágrafo – livro mal digitalizado. N.D.)

5. A MENSAGEM DE MISSÕES
JESUS CRISTO É O CONTEÚDO DA MENSAGEMMISSIONÁRIADA IGREJA
Tanto em seus fundamentos históricos quanto na sua dinâmica contemporânea e
também em toda a sua expressão escatológica, a obra de missões tem como exclusivo
conteúdo a pessoa de Cristo. 1Co 1.23; 2.2; At 17.31. Missões não é transplante de
modelos culturais, mas plantação da boa semente do Evangelho de Jesus Cristo no
coração dos seres humanos. O Evangelho ilumina e santifica o indivíduo em sua cultura,
porém combate tudo aquilo que é pecado diante de Deus e que, portanto, causa dano ao
homem. At 15.11,19,20. Em conseqüência, a obra missionária deve respeitar as raízes
culturais dos povos evangelizados, preservando o que não colida com os princípios da
Palavra de Deus e contribuindo para o desenvolvimento integral do ser humano, dentro
do seu ambiente cultural. A abertura de novas frentes missionárias com a plantação de
igrejas abre uma infinita variedade de oportunidades para que os crentes dediquem a
Cristo os talentos e bens que antes entregavam à impiedade e à corrupção. Rm. 6:13. O
missionário deve identificar-se culturalmente com o povo evangelizado, sem perder
sua identidade com Cristo (1Co 9.20-22), confrontando os pecadores com a pessoa de
Cristo e apresentando o Evangelho total, com todas as suas demandas. Não basta ao
missionário ser um eficiente comunicador das verdades cristãs. É essencial que ele
conheça a Cristo pessoalmente, que seja nascido de novo, conscientemente vocacionado
para missões e que mantenha uma vida pessoal de piedade cristã, em total dependência
do Espírito Santo. É no poder espiritual da vida do missionário e não apenas na sua voz,
que o Evangelho se torna relevante e atrativo para os povos que não conhecem a Jesus
Cristo.

6. A IGREJA E A ESTRATÉGIA DE MISSÕES


A ESTRATÉGIA DE MISSÕES DEVE SER BÍBLICA E EFICAZ
O método missionário deve ser bíblico em suas bases e objetivos e eficaz em sua
mordomia, ou seja, deve produzir o máximo resultado possível, da melhor qualidade
possível com os recursos disponíveis. O processo de educação cristã, que se segue ao ato
da conversão a Cristo, deve visar à formação do caráter de Cristo nos novos discípulos
de Jesus e não amoldar os novos cristãos aos padrões culturais das igrejas de origem. Gl
4.19. A educação teológica nos campos missionários deve ensejar e desenvolver o
pensar teológico e não apenas reproduzir, nas novas igrejas, a linguagem teológica das
igrejas de origem. As igrejas plantadas nos campos missionários devem conservar a sua
identidade neotestamentária, irrompendo como novas agências de
cooperação missionária, auto-suficiente em recursos e liderança e auto reprodutivas. As
igrejas dos campos missionários devem ser respeitadas pelas igrejas de origem dentro
da sua cultura, como cooperadoras fraternais e não encaradas paternalisticamente como
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se incapazes fossem de alcançar a sua plena maturidade. A propaganda da obra
missionária deve ser veraz, respeitando sempre os povos evangelizados em suas
diferenças culturais. Os missionários devem capacitar líderes autóctones nas igrejas dos
campos missionários, cedendo-lhes as funções de liderança, sem prejuízo da eficiência
da obra (Tt 1.5,6), permanecendo no esforço pioneiro de evangelização e plantação de
igrejas, lado a lado com as igrejas locais. Os recursos financeiros enviados pelas igrejas
de origem devem ser canalizados através de mecanismos que tenham a participação
decisória das igrejas dos campos, a fim de que estas aprendam a praticar a graça da
generosidade (1Co 16:3-4) e venham a alcançar mais rapidamente sua maturidade em
promover missões.
7. A ABRANGÊNCIA DE MISSÕES
A OBRA DE MISSÕES ABRANGE TODAS AS DIMENSÕES DO PRESENTE E DO FUTURO
Através da ação missionária, o Espírito Santo não apenas gera novas criaturas, mas
também as envolve no compromisso de viver uma nova vida a fim de criar uma nova
sociedade e um novo mundo. Ef 2.16-22. O desafio de missões, de acordo com o
entendimento bíblico, abrange uma visão integral do ser humano em todas as suas
necessidades e relacionamentos. Ef 3.16-19. Junto com, a partir de e como produto
da ação missionária, os empreendimentos missionários devem permear toda a
sociedade como fermento, pois massa fermentada é fermento renovado. Longe de ser
um fator de alienação, a obra missionária deve ser um fator de integração do homem no
propósito de Deus, na sua própria personalidade e no relacionamento com o seu
próximo (Ef. 2.14,15) e com o meio, fundado no amor, na justiça e na paz. A
única esperança para a criação é missões. Não haverá solução para o problema ecológico
no mundo, a menos que o grande predador da natureza, o homem, seja transformado em
um novo ser, que passe a respeitar o milagre da criação a partir do milagre do novo
nascimento. Não há esperança de se salvar o ecossistema sem que o homem seja salvo
primeiro. Rm. 8.19,20. O propósito final de Deus, a ser alcançado por missões, é a criação
de uma nova humanidade para povoar o novo céu. Em conseqüência, nem o espaço, nem
o tempo esgotam a abrangência de Missões. Em Apocalipse 7:9 ternos a visão de
multidões inumeráveis de todas as raças, nações e línguas perante o trono do
Cordeiro, em eterna adoração. Como é que pessoas de todas as nações e povos da terra
poderão chegar à Glória? Missões, é a resposta.

NOTAS
VERSÕES BÍBLICAS USADAS NESTE LIVRO
VR - Versão Revisada segundo os melhores textos - Imprensa Bíblica Brasileira
ARC - Almeida, Edição Revista e Corrigida, Imprensa Bíblica Brasileira
ERC - Edição Revista e Corrigida da Tradução Almeida, Sociedade Bíblica do Brasil
VB - Versão Brasileira, Sociedade Bíblica do Brasil
BJ - A Bíblia de Jerusalém, Edições Paulinas
BLH - A Bíblia na Linguagem de Hoje, Sociedade Bíblica do Brasil

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BIBLIOGRAFIA

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